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AN'l~ONIO l~ERRI~II\A

l'OETA

QUINIIENTIS1A

ESTUDOS

BIOG HAI, III C()- LI TTEHAH I()S

--

J•OR

JULIO DE CASTILHO

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LIVRA HIA

DE

n. IJ. GAHNIEn~ EDITUfl

89,

RUA

DO

OUVIDOR,

89

1

I'ARIS.-E.

BELHATTE,

LIVREIRO,

RUA

DE

r'ABIJA\'E,

H

1875

F1cam ret~er\ado5 to.los os direil05 de t•roJ•rieolade

EXCERPTOS

DE

ANTONIO

ACOIIPA:IIUADOS

DE ANNOTAÇÕES

CUITICAS

INTRODUCÇAO GERAL

Exposto uo pri:r;cü··> Li u·o d' esta obra o que sab!amos, ou se podia com algum ho~n fundamento conjecturar, acerca da hiographia de Antonio Ferreira; c estudada a traços rapidos no Liuo srgundo a personalidade littcraria d'c~te autor, passemos á terceira parte do nosso e~tudu:

a analyse de cxcerptos das suas obras, que sirvam tlc instrucção ·c tlc deleite aos e:-tudiusos, c de confirma- ção de muitas doutrinas que aprrsrntámos. Apontaremos succintamcntc alguns dos muitos pontos de contacto que tem o nosso quinhentista com outros eseriptor~s. Não será ocioso este pas~cio, pois corrohoraní o <Jne acima tlisscmos, de ser a erudição a ,·erdad<'ira Mu· a d'aquella idade.

:r.

'

2

LIVRAHIA tLASSICA.

Esta eterna questão das primasias c dos plagiatos é o desespero da critica illustrada.

O

proprio padre Homero tem ante si o indiano Val-

miki ; Virgílio, o imitador de Homero, achava entre as velharias de Ennio, e os thesouros de Theocrito, o seu ouro de lei ; Plauto imitava a outros r.omicos ; Terencio ia ins-

pirar-se aos gregos, a Scipião Emiliano, e a Lelio; Gil Vicente furtava, segundo alguns, ao castelhauo Torres Naharro e a Juan dei Enzina; Ar·iosto calcava sohrc o lluianlo; Ferreira foi acoimado ''e plagiario de Ucrrnu- des; Moliere, Voltaire, e quantos mais! receberam iguaes

apodos; c o nosso Garrelt era, na I~alevolencia dos josos, o raloneiro de seu tio Bispo de Angra!!

im·c-

Sem discutir essas emmardnhadas questiunculas, limi- temo-nos ao autor que é assumpto d'este livro. Aos italianos modernos, e aos romanos antigos, ia Fer- reira buscar as rcminiscencias, mais ou menos vaga~, que se nos deparam nos seus escriplos. Apontaremos cm

logar opportuno algumas, sem_ o querer com isto taxar ·

de plagiario. Uma coisa é cm lctlras o

furtar; outra e mui di,·crsa 1

o recordar. O furto cnnoja; a recordação agrada. O furto dcshonora; a recordação gloria. O furto defrauda o rou-

bado ; a recordação erudita c intencional é preito devas- •

sallagem.

Estão poi3- cheias, como dizia mos, de rcminisccncias classicas, soLre ludo lirgilianas e horacianas, as obras de Fcrreir<l. E na escolha mesma dos seus modelos nos re- Vlla o autor o seu gosto podico. Ao escrever as ode:; c a.; cartas bebia em llol'acio; ao arrulhar as elegias, cm Pru-

percio e Tibull•J; ao brincar os t·pigrammas, em Ausouio:

.-\:'41'0~10 FEitBElHA.

ao scismar as cgloga~, c.u Virgilio; ao prantear· os sone- tos, em Virgilio c em Pctrarcha. Cumpre-nos ad\'ertir os leitores, de que em innumera- veis passos alterámos a orthographia e a pontuação tlas edições anteriores a esta nos~a. Para desagravo rorem ·do

con~cirncioso por·ta,

é mister reconhecer que desde a sua

primeira edição pouco bons revisores lhe caíram por sorte; tanto, que varios Jogares se teem tornado, com .o andar tios tempos, verdadeiro.:; enigmas. O Sr. lnnocencio F. da Silva no seu Diccionario o reconhece, e o editor de

1771 o lastimava. Tratámos de remediar· quanto souhc- mos.l\ligucl Leite Ferreira, filho do autor, e seu editoa· primeiro, mostrou ter mais picJade filial, que pericia em rever provas ; elle proprio quasi o confessa na dcclara~,;ão que se acha em alguns exemplares da etlição. 11rinceps. O Sr. lnnocencio F. da Siha muito bem atlribue essa profusão de erros a terem sáido as obras impressas vinte

e nove annos depois da morte do autor, e á infidelidatlc ·

de copias.

Amodcrnámos a orthographia de Ferreira, e a sua pon- tuação; não foi porem sem longas hesitações ; o que ao principio nos parecia sacrilegio, figurou-se-nos, depois de maduro exame, necessidade. A chamada orthographia dos classicos é uma tal scr·ie de incoherencia'i, que só a devemos respeitar quando conserva pronuncia antiga de palaua. Querer conservar a antiga orthographia gothica do~ a11lores velhos (t.liz um hom juiz, o erudito diccionarista franccz Boistc), é ter empenho em que uma rosa tenha espinhos. E continua : a a ttrnção tli:-:pcnditla com a or- thugrapl•ia é perdida para o pensameuto. Tutlo ttue

LIVIL\HL\ C.:LASSIG.\

provem dos homens celebres temo l-o por sagracJo; res- peitamos a orthographia de Montaigne, que não respei- tava a orthographia. Um eminente romancista o Sr. Camillo Castello Branco di::;ge n'uma nota ao seu erudito estudo sobre Fernão

Rodrigues Lobo Soropita o seguinte, que inteiramente adoptamos :

cc Já d'aqui previno o leitor de que não escrupuliso cm

fidelidad<! de copi~ta ao acume

de

re~;peitar a orlhographia

anomala e extravagante dos sciscenti~tas. Por causa da orthographia ha muito quem deixa de lu Francisco de Moraes, Barros, as comedias de Sá de )liranda, de Jorge Ferreira, e muitos estimadissimos mestres de portuguez. Tambcm não sigo a média que alguns editores adoptaram, sem justificação rasoavel. Adoptei a que regularmente emprega o commurr'l de escriptores e leitores de hoje cm dia. )> Por ultimo confessemos lealmente que as annotac;ões por nós feitas ao nosso poeta são antes um resumido elu- cidario de termos obsoletos, e um guia succinto dos pas~os

mais escuros, do

que um verdadeiro commcntario scicn-

tifico. Indicámos ao correr da penna algumas maculas c

algumas hellezas. Restringimo-nos ao dominio modesto da grammalica, sem nos alrcvermos aos mares, hoje tão tempestuoso~, da alta phylologia.

AD~ERTENCIA AOS SONETOS

Em quatro grupos se podem os sonetos de Ferreira repartir· : amatorios, luctuosos, mysticos, c varios. São em maior numero os do amor; mas os que mhrelevam cm me~cimento são inquestiona,·elmente os das la- grimas. São os sonetos amorosos quasi sempre mallrigalcscos, metaphysico~, c glosam com palavras diversas as mes-

mas idéas. Alguns ha 1•orem lle maior valia por sua sin- geleza e graça. No Livro I vai-se desenrolando aquellc enredo na-

morado de que demos conta supra. Frutos da adolescencia do

em alguns

dos capitulos

poeta reputamos ""a maior·

parte dos sonetos do refcrillo Livro I; de~enfados de cstullantc; ohras de mão im·xperta, de versificallor lles- primoroso, c (salvas excepções) de Lem mediocre en- genho. O livro II é muito mais mestre que o I. N'elle se elevou por varias vezes o cantor á mais remontada poe-

6

LIVRARIA CLASSIC.:\.

sia; c sonetos se encontram, que hoje ainda podem ser admirados em absoluto. ·

Se

os sonetos de Ferreira sobrelevam em

valia lit~

tcraria aos de l\Iiranda, cedem a palma aos de Camões; se hem que muitos d'elles (a não ser a dureza intolc- ravel da versificação) são verdadeiros primores de sen- timento. Vamos dar uma resenha fugitiva de algumas remi- niscencias de outros poetas, encontradas nos sonetos que não inserimos nos excerpto~. As obras insertas levam no respectivo commentario essas indicações.

O primeiro quarteto do soneto 1x do Livro I.

Não Tejo, Douro, Zezer, ~linho, Odiana, ~londego, Tua, Avia, Vouga, Neiva, e Lima; nem os que correm lá do oriental clima, Nilo, Indo, Gangc, Euphrate, Hydaspe, e Tana;

é o correspondente do soneto cxn de Petrarcha :

· Non Tesin, Pó, Varo, Arno, Eufrate, Tigre, ~ilo, Ermo,

Adige, e Tehro, Indo, e Gange,

Tena, lstro, Alfeo, Garouna, e ii mar chc frange

Rodano, Ibero, Ren, Sena, Alhia, Era, Ebro.

E logo o segundo quarteto do mesmo soneto.

Não pinho: faia, enzinho, ulmo, hera, ou cana, nem doce suspirar em prosa ou rima, o fogo apagarão, etc.

é o segundo quartdo do alludido soneto de Petrarcha:

Nori edra, ahete, pin, faggio, o ginel:ro, I)otria il foco allcntar, etc~

ANTONIO FERREIRA.

7

Nota Costa e Silva 1 que o soneto XIX do Livro I.

D'onde tomou Amot·, e d~ qual veia, o oit·o tão fino e puro para aquellas tranças loiras?

é imitado de Petrarcha; e nota-o muito bem, pois outro não é, senão O CLXXXIV.

Onde prese Am01· I'oro, e di qual vena,

per f:u· duc treccie bionde!

Fallando com o Tejo, diz o nosso poeta no soneto XLIII do Livro I.

E antes que ao mar pagues seu direito;

Como Petrarcha dizia no soneto cLxxm :

 

suo

.

.

e pria che rendi •

dritto al mar.

O verso do soneto LXVIII do Livro I.

A vida

foge :

a morte está em espia

Que termina o soneto LVIII do Livro I, Lem pode ter sido inspirado por estes do soneto ccxxx1 de Pctrarcha :

La vila fugge, e non s'arresta un' ora, E la morte vien dicll·o a gran giornate.

1 En.~aio, t. II,

p. SR.

SONETOS

AOS

BONS

ENGENHOS

(oiTAVA

DE

lNTRODrCÇÃo)

A vós só canto, espritos bem na~cidos a vós e ás Musas endereço a lyra. Ao Amor meus ais e meus gemidos',

1

;

oompostos do seu fogo e da sua ira. Eh1 vossos peitos sãos, limpos ouvidos, cóiam meus versos, quaes me Phcho inspir:t.

Eu d' e:sta gloria só fico contentes,

que a minha terra amei", e a minha gente.

LIVRO PRI~IEIRO

SONETO

I

O AUTOR AO LIVRO DOS SEUS VERSOS

1557

Livro, se luz desejas, mal te enganas 1 Quanto melhor será dentro cm teu muro' quieto c humilde estar, inda (1ue escuro:;,

onde ningucm t'cmpece, a ninguem danas'! Sugeitas sempre ao tempo obras humanas co' a novidade aprazem; logo em duro odio c desprezo ficam ; ama o seguro silencio; fuge 5 o povo, c mãos profanas. Ah I não te posso ter 6 ! deixa ir comprindo-:

primeiro tua idade; qu_em te move te defenda do tempo, e de seus danos 8

Dirás que a p~zar meu

foste fugindo 9

,

reinando Sebastião, Rei de quatro annos; anno cincoenta e sete; eu vinte e nove.

II

Aqucll~, cujo nome a meus escritos,. que a meu amor dará melhor ventura 1

,

A~TOi\10 FE.BREIHA.

toda .virtude, toda fermosura, que apoz si leva os olhos, c os cspritos; aquclla branda cm tudo, só aos gritos meus surda, a~pera aos rogos, a Amor dura, podia co' um sorriso, hua brandura d'olhos curar meu mal, ol'nar meus ditos. Mas que dará de si hua esteril veia, um desprezado amor, hua cruel chamma, senão desconcertado, e triste pranto? Quem de tristezas vive, só me leia; cante a quem inspira Amor mais doce canto 1 busco piedade só, não gloria, ou fama.

;

III

Eu não canto, mas choro 1 ; e vai chorando comigo Amor, de ter-me assi obrigado em parte tal, que nem a elle é dado valer-me em mais, que tlc ir-me consolando. Vai-me sempre ante os olhos figurando aquclla fermosura, cm que enlevado ha tanto que ando, c assi com meu cuitlac.lo me vou tráz ella emfim triste enganando. l\las não póde sol'rer 1 tamanho engano Amor, que nos conhece, e de tal ver-me foge, e me deixa só de pura mágoa:~. Olho-me cnl<1o, c vejo o tlrscngano' ; al'ronla a alma cansadas; c por valer-me 8 desabafo desfeito em fogo, c cm agoa 7

,

,

12

I.IVnAnl \ Cf.ASSICA

VII

Lagrimas costumadas a correr-me, quem vos pódc deter? sahi correndo doces, c tristes; vão-vos todos vendo; uns riam, outros chorem de tal ver-me. Onde poderei eu de mim cscondt·r-mc 1 ? Se quanto mais resisto, e me c.Jc(cudo, então me venço mais', c vai crescendo a força, como posso defender-me? Quem meus olhos olhar, rindo, ou chorando, sentirá n't!llt•s logo um movimento d'algum esprito, que os lá rege, c mandas. Este chorar me faz, este cantando' me leva apoz meu mal, sem um momento esta alma livre ter do estado em que anda.

XI

AO

MONDEGO

Mondego, tão soberbo vás 1 da vista da tua fcrmosa Nimpha, que parece que quanto achas diante, se offerece 2 recolher-te, sem haver quem te resis!a; que té o Oceano grande (que a com1uista nossa tem feito humilde) te obedece\ d'ali te leva ao Indo, e se engrandece o Gangc, e Nilo, de que lua agoa é vi~ta. Thetis com suas Nimphas te acompanham', por honra d'rsta Nimpha crn ti criada, e por todo Sf u reino a v:'io cantamlo.

ANTONIO FERREIRA.

13

Estas tuas agoas rogo, cm que se banham os seus cabellos d'oiro, que cantada seja por lá lambem a pena em que ando.

XII

Quando entoar comrço com yoz branda vosso nome d"amor, doce, c suave,

a terra, o mar, vento, agoa, flor, folha, avct, ao brando som se alegra, move, e abranda. Nem nuvem cobre o ceo, nem na gente anda trabalhoso cuidado, ou peso grave; nova cor toma o ~ol, ou se erga, ou lave no claro Tejo, e nova luz nos manda. Tudo se ri, se alegra, e reverdece;

todo

mundo 1 parece que renova;

nem ha triste planeta, ou dura sorte. A minh'alma só chora, e se entristece 1 Maravilha d'Amor cruel e nova! o que a todos traz vida, a mim traz morte.

XIV

Ó olhos,

donde Amor suas frcchas tira

contra mim 1 , cuja luz me espanta, e cega I _, olhos, onde Amor se esconde, e prega 1

as almas, c cm pregando-as, se retira! Ú olhos, onde Amor Âmor inspira, c Amor promelte a todos, e Amor nega! Ó olhos, onde Amor tão bem se cmprrga, por quem tão hrm ~c chora, c se suspira!

LIVI\AIUA CLASSICA.

Ó olhos, cujo fogo a neve fria

acende, e queima!

ó

olhos poderosos 1

de dar á noite luz,

e

,·ida á morte r

Olhos por quem mais claro nasce o dia', por quem são os meus olhos tão ditosos, que de chorar por vós lhes coube em sorte!

XXXI

Em dia escuro e triste fui lançado

dos

ceos na terra tão pesadamcn te,

que vendo ao longe o esprito o mal presente, eu logo de mim mesmo fui chorado. Em lagrimas nasci, a ellas fui dado; n'ellas passei minha idade innocente. Tanto ha, que historia triste sou á gente!

Tanto

h a,

que o ceo espero

Yer mudado!

Um grande bem a quem não custou muito1 a t]Uem foi dada tão ditosa sorte,

a que o mal não

coubesse por medida 1

Não eram minhas lagrimas sem fruito, pois por vós eram, nem o será a morte, fJUe mais doce é por vós, que sem ,.ó., vida.

XXXIV

Doce Amor novo meu lambem 1 tomado, quando será o tão ditoso dia, que dos enganos livre em que vivia,

me veja em ti de todo soccgado 1

Quando será, que tendo triumphado do que tão cegamente me vencia,

A~TONIO FERREIHA.

i5

Q mal, que tanto d'antes me aprazia, em vm·dadeiro bem veja mudado? Amor doce, (JUe em mim de novo crias novo desejo, novo esprito, e santo, illustrado de um novo lume raro; guia-me áquelle fim, que me escondias, muda esta minha noite em dia claro, levantarei em teu nome alegre canto.

XXXVI

Quando vos vi, senhora, vi tão alto 1 estar meu bem, que logo ali em vos vendo, o achei juntamente, e fui perdendo, ficando n'um momento rico, c falto. E tal foi de vos ver o sobresalto, que os olhos outra vez a vós erguendo, senti a vista, e esprito ii' falecendo', quando me olhei, e vi poslo tão alto. Ficou de sua prisão a alma tão Ieda, e os olhos de vos verem tão soberbos 5 que toda outra coisa desprezáram. Não os tenho já mais, que pera ver-vos. Tudo mais lhes defende Amor, e veda'. E el_les que ai verão, pois vos olháram?

,

XXXVIII

Quando eu vejo sair a mcnhã clara, nos olhos dia, as faces neve, e rosas, afugentando a sombra, que as fcrmosas cores do campo e ceo d'antes roubára;

16

UVI\ARL\ CUSSICA.

e quando a branca Delia a noite aclara, e traz nos brancos cornos as lumiosas cslrcllas, serenando as tempcstosas nuvens, que o grosso humor nos ccosjuntára;

tal é, digo comigo, a clara estrella, que minh'alma me encheu de outra luz nova, e meus olhos ahriu ao que não viam.

Assi me leva a vida, e

m' a renova,

assi as vãs sombras, que antes me escondiam

o claro eco, fugindo vão ante ella.

XLVIII

Quando se envolve o ceo., o dia escurece, assopra o bravo V(lnto, o alto mar geme, o sol se nos esconde, a terra treme,

trovoa 1 a noite, o raio resplandece,

cu olho :íquella parte, onde esclarece' um sol, que cu vejo só, e clle só vê-me\

c com sua luz, cm quanto o mundo teme, de lá me alegra o esprito, e fortalrce. Meu perpetuo verão, meu claro oriente, d' onde o dia me vem, d' onde doiradas vejo as nu vens correr, os ceos fermosos! Ditosas aves, a que foram dadas pennas, ditosa a terra, a que é presente a luz d' estes meus olhos saudosos !

J,

Assi da fonte cristalina c pura, meu rio, a tua clara agoa a veia enchendo,

AISTO~IO FERI\EIRA.

17

sempre igual, sempre doce, <Jue a turve, té o mar largo

c sem mistura vá corl'Cndo 1

,

assi cantos de amor c de brandura sempre aqui o caminhante estem detendo, em ti se banhe, e pise tua verdura Marilia, e as brancas flores vá colhendo; que as fagrimas saudosas, que derramo, n·um vidt·o de cristal, contra corrente, que trazes, mandes lá á tua fresca praia. E a mais branca tua Nimpha as apresente nas brancas mãos de quem me ama, e amo. (Isto cortava Alcippo n'lma alta t'aia 2

).

I. I

Quantos suspiros, triste, e quão compritlos.

ardendo vejo vir tlentro a meu peito

d' aquella doce parte; onde

eu desfeito

cm lagrimas fi1Juci todo, e cm gemidos! Vereis cm agoa uns olhos consumidos mensageiros de amor não contrafeito ; a alma achar·eis lá, se do direito caminho não ,·iestes mal perdidos. Tornai-vos pois áquclle doce abrigo tio meu amor, d 'onde assi cm vão partistes, ficantlo eu:cscondido lá cm seu seio :

e tlizei-lhc : Senhora, uns olhos tristes vimos Já só chorar, sem fim, sem mcio 1 cá o tendes, cá buscai o vosso amigo.

;

t8

UVflAHIA CLASSICA.

Lili

Quando será que eu torne a ter diante

d' estes meus olhos o seu doce

obgcito,

a quem um honesto Amor me fez sugeito'! que eu ante e lia escreva, ante ella canlt·?

e

Nem tu, Amor, és composto de diamante, nem cu de pedra tenho este meu peito, que perto está de em agoa sEr desfeito, se esprito algum não ha, que m'o levante. Representas-me, Amor, as mais fermosas l:-1grimas, antes perlas, que tu viste sair de uns olhos de chorar indinos. Que armas me dás tu, com que as forçosas lembranças vencer possa, e os tão continos golpes mortaes, que ferem hua alma triste?

LV

A que alçarei os olhos, pois não vejo aquelles olhos, de que eu só vivia, onde Ieda minh'alma se estendia, e onde _repousava o meu desejo'! La vai meu esprito ardendo, agoas do Téjú ;. o triste corpo fica pedra fria, (quanta tristeza custa uma alegria ! ) 1 té me tornar o dia que eu desejo. Em tanto n'estes valles, n'estes montes, tão longas noites, e tão tristes dias, crescerão com meu choro hervas, e flores. Quando, olhos meus (olhos não já, mas fontes') tornareis vêr as vossas alegrias? Quando cst'alma enchereis de seus amores~

LIVRO

SEGUNDO

SONETO

Nimphas do claro Almonda 1 , em cujo seio nasceu, e se criou a alma di"ina, que um tempo andou dos ecos cá peregrina,

já lá tornou mais rica,

do que veio ;

l\laria, da virtude firme esteio.

alma santa, real, de imperio

tlina ',

a baixeza deixou, de que era indina, ficou sem ella o mundo escui'O, c feio. Nimphas, que tão pouco ha, que os bons amores nossos cantastes cheias de alegria, chorai a vossa perda e minha mágoa. Não se cante entre vós já, nem se ria,

nem dê o monte her\'a, nem o prado flores,

nem d' essa f-onte

mais corra clara agoa.

II

Õ alma pura, em quanto cá vivias, alma lá onde vi"esjá mais pura, porque me desprezaste? qtiem tão dura te tornou ao amor, que me devias 1 Isto era, o que mil vezes promettias,

~m ~ue ~inh'alma estava tão segura~

20

UVP.AniA CI.ASSIC.\.

que amhos juntos um' hora d'esta escura noite nos subiria aos claros dias? Como cm tão triste carccr me deixaste'! como pude eu sem mim deixar partir-te? como vive este corpo sem sua alma? Ah! que o caminho lu bem m'o mostraste, po•·que correste á gloriosa palma I Triste de quem não mel'eceu seguir-te.

III

Despojo triste, corpo mal nascido, escura prisão minha, e peso grave,

quando rota a cadeia,

c

vôlta a chave 1

,

me verei de li solto, c bem remido?

Quando co' esprito pronto, aos ecos erguido, (dcspois que est'alma cm lagrimas Lem lave) batendo as asas, como ligeira ave, irei aos ceos buscar meu bem perdido? Triste sombra mortal, e vã figura

do que ja fui uns dias, só sustida d'aquelle esprito, por quem cá vivia, qnem te detem n'esta prisão tão dura?

não

viste a clara luz,

a santa guia

. que te lá chama á verdadeira vida?

 

IV

Com que magua, ó Amor, com que tristeza viste cerrar aquclles tão fcrmosos olhos, mulc vivias, poderosos de abran,lar com sua vista a mór dureza!

ANTONIO FERfiEinA.

21

Roubada nos é já nossa riqueza, nossos cantos serão versos chorosos, e suspiros tristissimos, queixosos da morte, fJUC nos pôz cm tal pobreza. Eu perdi o meu bem; lu, Amor, tua gloria. cu o meu sol ; c tu teu doce fogo, honcsio e sancto ao mundo raro exemplo. Mas viva Ecr<Í srmprc a alta memoria d'aquella, que nos ecos viva contemplo, a quem humilde peço oiça meu rogo.

v

AqueiJe claro sol, que me mostrava o caminho do eco mais chão, mais certo, c rom seu nolo raio, ao longe e ao perto, toda a sombra mortal me afugt.:ntava; deixou a prisaõ triste cm que cá eslava. Eu fi4uei cego, e só, co'o pas~o incerto, perdido peregrino no deserto, a fJUe faltou a guia, que o levava. A~si co'o esprito tri:-tc, o juizo escuro, suc.s santas pifadas vou lmscando, por vallcs, e por campos, c por montes. [m toda parte a vejo, c a figuro. Elia me toma a mão, e vai guiando. E mtus olhos a seguem feitos fontes.

Aquella um•ca vista fermosura, attuella vi,·a gra~a, c tlocc riso,

  • 22 \~SICA.

l.lVnAHIA CI

..

humilde gr·avidadc, alto aviso, mais divina que humana real brandura; aquella alma innocente, e sahia, c pura,

(JUC entre nós cá fazia um paraíso, ante o~ olhos a trago, e a diviso no ceo triumphar da morte, c sepultura. Pois por quem choro, triste? por quem chamo

. sobre esta pedra dura

a meus gemidos,

que nem me pódc ou vir, nem me responde? l\leus suspiros nos ceos sejam ouvidos; e cm quanto a clara vista se me esconde,

· seu des1lojo amarei, amei, e amo.

VII

Um tempo chorei lêdo co'a esperança doce, que o brando Amor de si me dava; c quanto mais gemia, e suspirava, mór era a minha Lemavcnturança. Agora n'esta triste, e cruel mudança, com que a morte de longe me ameaçava, o meu prazer perdi, que bem lograva; suspiro cm vão pelo que não se alcança.

Lagrimas Lem choradas,

bem devidas

ao desejo do bem, que inda que tarde, sustenta o esprito com seu doce engano ! Mas tristíssimas lagrimas per·didas traz um bem, que fugiu, e traz um dauo, que remedio não deixa ou cedo, ou tarde!

ANTONIO FEnREIRA.

VIII

Quem póde ver um coração tão triste?

quem

uma vida, que ha inveja á morte,

que se não doa, por mais duro, e rorle, do que tu, Morte, em mim fizeste, e vist~? Se nunca o a_mor te offende, nem resiste, antes desejam sempre uma igual sorte os <JlW Lem se amam, c que um golpe os corte, porque um tão doce amor, cruel par·tiste? Mas tu não poderás, por mais que possas, partir as almas, e os pensamentos, que onde (1uerem, se n~m, se amam, se entendem, triumpha agora li' estas cinzas nossas, que inda juntas ao esprilo altos assentos terão, onde tuas forças não se estendam.

X

Qual hor~ Planeta, qual hoa estrella, ou sino inYocarei? <Jual sprilo piedoso, lJUe incurte este desterro saudoso, que me faz ser nu num do peregrino? Onde eu os olhos claros, e o divino rosto via, onde ouvia o deleitoso som da voz branda, <JIIe em tão amor·oso fogo me inflamma, c.le que eu só fni dino, ali é minha Yida, c a minha terra . .\li se satisfaz alma, e tlcsejo. Ali todo meu hcm se me offel'ece.

24

LIVfi.\IHA CUSSICA.

Em toda outra parle acho odio, c guerra. Em toda a parle o sol se me escurece, c fogo, c morte vejo, em quanto vejo.

XIII

A

D. SIMÃO

DA

SILVEIRA

E)l

RESPOSTA

DE

OUTJ:O

SO~ETO

Dc~fcito o esprilo cm

vento, o corpo cm pranto,

tão podcrosamcn te fui de Li chamado, ()UC tornei, Simão, assi como da mm te á vida, em novo espanto. Ergueste, doce Orpheo, co' o leu Lom canto

um esprito morto, a cujo som d'aqui ~e alt,;ou lodo ar escuro, e só por ti

rompi d'alta

tri~tcza o grosso manto.

Foi remedio a meu mal meu dc:salino ; fugiu o juizo, ·deu logar ás dores, que já me tinham junto_ ao reino escuro. Andou o espri~o um tempo peregrino buscando entre ,·às sombras seus amores ; tu m'o tornaste agora em Lom seguro.

XV

A EL-REI D. SEBASTIÃO

NA

SUA

JIAIORIDADE.

-

~;() DE

JANEIRO DE

15:i8.

Rei bemaventurJdo, e~tc é o dia, que qu:atorw annos ha, que o mundo espera desde o teu 'féjo, á oriental c~phéra, ~ da zona torraJa, á zona fria;

.\:STO:SIO FEHIIEIUA.

Quando outra no,·a luz, nova alegria, c;ual no teu nascimento o sol já déra, ,·cremos na doirada, e ditosa ~ra tla tua tão cspcratla ~Jonarchia '! Benigno o Cco te rsti.Í, obediente a terra, abraçam-se entre si .Justiça, c Paz, t)UC a ti, lmscando abrigo, vem fugindo. Erguendo a Christà Fé, que fraca jaz, aos teus igual justiça repartindo, trrás sempre paz santa, ou santa guerra.

""'

X VI

25

Se saber, fcrmosura, e real e~fa,Jo, pureza d'alma, c limpa castidad~·, se um tlésprezo tla gloria, e vaidade tlo mundo assi esquecido, e sopeado, se um vi,·cr contente, c descansado, fundado em fé, esperança, e caridade, se rm lào alto Jogar baixa humildade, se um esprito nos ecos lodo enlevado, podéram fazer bemaventurada u'este mundo, e no outro uma creatura, nós na terra, e nos ceos te coroamos.

De

Deus será tua ai ma festejada;

de nós honrada tua scpultm:a, tlc que grandes milagres esperamo:;.-

26

UVRAI\IA CLASSIC-A.

X VI li

AO MARQUEZ DE TORRES NOVAS D. JORGE

(DEPOIS

DUQUE

DE

AVEIRO)

~o seu casamento com D. 1\lagdalcna Giron, filha do Conde de Urcü:•.

A Jupiler tr·es deusas J'C qucixáram, vendo de Urciía a tão fcrnuu~a planta.

  • - << Não é minha honra, nem riqueza tanta (diz Juno) -c< póis no mundo igual mcach:íram. ,,

  • - cc Nem eu sou só, a que tanto celcLrái·am, (~c queixa Palias casta, sabia, e santa) « pois uma Madalena se levanta, « em quem todos meus dõcs os ceos junláram.

  • - (( ~u rora (dizia Venus) mais fjUCÍxosa,

<< se quem venceu a minha fermosura,. « não vira de meu filho tão vencida. J>

  • - cc Sorrei (Jupiter diz) sua ventura, (( pois eu sorro a ventura mais dito.'a « de Jorge, a quem tios ecos foi concedida. »

XIX

AO MARQUEZ DE TORRES NOVAS O. JORGE DE LANCASTRE

Clnrissimo l\larquez, em cujo esprito 1:0\'o lume de gloria re~plandece, se á Yiva chamma, que em ti parece, igual rosse meu verso, c meu escrito, tu serias, scnhór, cantado, e tlito grande entre aqllf•llcs, a que Apollo tC'ce ~lorio~a corôa, c a que oiTerPcc de ~cus nomes a fania um alto grito:

-~

A:"tTO~IU FEIU\EIRA.

"l1

l\las cm quanto eu deseJo mór· alleza a meu ingenho desigual ao peso, tu conserva tua vida, e lua sande. E levanta es8e peito á alra grandeza da viva gloria, da viva virtude, que o. templo te abrirá a outros drfeso.

XX

A O. PEDRO DINIZ DE LANCASTRE

IRMÃO

DO

MARQUEZ

Eu vejo arder teu peito em nova gloria, clarissimo Dom Pedro, mal contente de não largar já as pcnnas altamente, onde te chama a tua clara historia. Por ti florecerá a alta memoria de teus l;!randes a\"Ós, e o raio ardente, que cm ti se esconde, nova l_uz á gente trará na paz, na guerra, e na victoria. Socega teu esprilo emlanto, e espera tempo, senhor. que não tardará muito, cm que mostres ao mundo, o que cu já vejo. Tu verás das tuas obras o alto fruito; eu cingirei por ti as frontes d'hera, se igual nascer meu verso a meu desejo.

...

XX VI

A DIOGO BERNARDES

Limiano, tu ao som do claro Lima, inda por ti mais claro; á sombra fria a branca Nimpha, que te deu por guia

28

J.IVIlAHIA Cf,\SSICA.

A·mor, fazes soar na doce rima. E cm quanto cantas, flores mil de cima derrama C1thcrêa, e um loiro cria

p~ra as tuas frontes PheLo, e cm comp~mhia

de outros, teu nome

le,·a a outro clima ..

·Eu mudo, c triste, cm lagrimas Lanhado, ,·ou ga:stant.lo a alma cm esperar um· hora,

que minha cruel sorte está delcmlo. Ent<io solto, então livre, c a mim tornado, teu hranclo som iria o meu regendo ; cmlanto leu hem canta, c meu lillill chúra.

XXX

A

EL·REI

D.

JOÃO

III

Os que a fortuna deusa suil faziam, c por mór lleusa nos ecos a assenta\·am, rsfhonra, este ,·ão titulo lhe daYam, porque de suas mudanças se temiam. l\las aqucllcs, que d'dla não pendiam, cm vez de a adorarem, lhe pisavam co'os pés sua fraca roda, e dcsprczaYam a faba divindade, em que não criam. Quanto será de ti mais desprezada, fclici:ssimo João, que dos ecos certo ten~ premio igual aos dotes, que te dc1 am I Seguro premio, não lario, ou incerto, como os que da fortuna outros ti,·cram, r1uc a ti não pode dar, ucm tirar nada.

Ai\TOMO FEI\REIRA.

XXXI

A FRANCISCO DE SA DE MIRANDA{?)

Quanto t.lc Amor ~e póde humanamente

:-l'nlir, tu o scutes;

ou cantar, tu o cantas,

Salicio; e cm c1uanto a tloce ,·oz levanta~, tuJo art.le em fogo, em tudo amor se sente. Só Flerit.la, e Amor a ella ohet.liente,

ao vivo fogo teu, !agrimas tantas, nos grantlís versos, com que o mundo espantas, olhos, e ouvidos cerram cruelmente. Por veutura que em f)Uanto á estrangeira lingua entregas teus doces accentos, mio é lua voz com tanto effeito ouvitla. Dá poisá dor sua lingua verdaJejra, Já os naturaes suspiros teus aos ventos, por ventura será tua dor mais crida.

XXXII

A MORTE DE DIOGO DE BETANCOR

Alma innocente, que teu véo t.lespint.lo solta tl'esla prisão estreita e escura.

nsl.itla já tia eterna fermosura esse espaçoso eco andas medindo; ditosa, que tamLem foste fugindo do ()Ue mais nos engana, e menos dura,

c vives sem

fim Ieda e segura,

de nossas sombras vãs pictlosa rint.lo. Quão Lem atalhaste á lua vcrt.le idade

meu Bctancor! assi o merecia

30

LIVRARIA CLASSICA.

este divino sprito aos ecos nascido. Meu amor chorará tna saudade;

mas dito.so em meus versos será lido

o teu primeiro e derradeiro

dia.

.

XXXIII

NA ANTIGA LINOOA

PORTUGUESA

Dom Vasco de Lobeira, c de grã sem t, _ de prão' que vós avedes s bem contado o feito d' Amadis, o namorado,

sem quedar' ende 1 por contar h i rem 8

E tanto nos aprouguc 7 , e

a tam bem 8

,

que vós sercdes 9 sempre ende loado so, e entre os homes bõs por bom mcntado u, que vos lerão adeante, e que hora 11 Iem. Mais 13 porque vós fizestes a frcmosa 16 llrioranja 15 amar endoado 18 hu 17 nom 18 amarom 19 csto 20 cambade 11 ; e compran sa 11 vontade. Cá 26 eu hei 211 grã dó 18 de a ver 17 queixosa,

,

por sagram fremosura, e sa bondade;

c

er 18 porque ú 19

fim amor nom lho pagarom.

XXXIV

Vinha amor pelo campo trcbelhando 1 com sa fremosa madre, c sas donzellas;

el 1 rindo, e cheo 25 de ledice' entre ellas,

já. de

arco, e

de sas s~tas non

curando a.

Brioranja ahi a sazom 6 sia 7 pensando

na

grã

coita 11 qne clla

ha;

e

vendo aquellas

setas de Amor, filha 9 em sa mão hua de lias,

Al"TONIO FERREIRA.

31

e metea no arco, c vay-se andantlo. Deshi 10 volveo o rostro hu 11 Amor sia;

cr disse:-« Ay traydor 12 , que me has f:1llido 1 s;

(( cu prcntlcr·cy 16 de ti

crua vencHta 111 >> -

L:1rgou a mão, quedou Amor ferido; e calando 10 a sa sestra 17 , endoado

grita :

  • - « Ay! mercê! >) -a llrioranja que fugia.

XXXV

A UM SOLITARIO

Solitario, que segues tão contente o caminho mais artluo, que nos guia da nossa escura noite áquellc dia, em que vive Lão clara a immorlal gente; esperta este meu somno, em que dormenfc tive tégora est'alma; sê me guia, por onde eu suba aos ceos, que antes não via, de mim mesmo enganado cegamente. Escuro, triste, morto, c mal vivido tempo, de mágoa, c de 3rrependimcnto, gastado em vãos desejos, vãos cuidados! Jj achou meu \·ago csprito seu assento; sejam ou esquecidos, .ou chorados os tristes dias, cm que andei perdido.

XXXVII

Eis o mar, eis

o vento, espanto, e medo

aos tristes navegantes, cruel morte "!m toda a parte mostram; ali o mais forte <tner, por não ver mais mal, morrer mais cedo.

32

I.IVIIAIIL\ GI.ASSICA.

Quando aquelle podt•r, 'JIIC firme. e qneclo tem seu eterno imperio, a triste tmrlc n'nm ponto muda, e guia a náo, fJUe aportc ('lll salvo pelo mar, que ahf'c co'o dt•do, vence o prazer ao medo; torna a vida C8mo fo~rtada :i morte; novo Cí'O parece; e novo sol, c novo dia l Assi um'alma enganada, que penlida anda em tii:o alto mar, de escuro \éo cuherta, Ln, alto Deus! me aclara, e guia.

XLII

Dianle do cutcllo rigormw

do tiranno cruel, csp'rando a u:orlc

co ·o animo

cad'um tão firmr, e forte

quanto era o do algoz mais l;ravo, e iroso,

~5tavam os santos Frades, uesrjoso

tanto catl'um

de cair n' cllc

a sorte,

que por mais depressa, que o aço córtc, remisso lhes parece, c ,·agaroso. Oh! Xarife cruel ! que essa crueza

a ti o a nós

é só, acHes gloria, c vida; esse seu ~anguc grà thesoirJ.

Com que esforço, e vigor, e fortaleza,

nos ensinam correr á pmmeltida grà coroa de gloria, não de loiro!

:\NI0:'\10 n~nHEIR\.

XLIII

Á RAINHA SANTA IZABEL

Bainha santa, aos Reis exemp!o raro, ao mum)o Pspanto, luz Ú IIC\·oa escura, pm· onde já rompendo d'essa allur·a, lan~ando estás em nós leu raio claro, d'rsse rico thesouro, que l<1o caro te foi cá, e po~sues já segura de l 'o roubarem, parte nos procura de quem para nós só o comprou tão caro. Rainha santa, que na mú1· alteza da terra, mais humilde aos ceos voaste com o mundo fazendo força ao cPo, esta tua terra, ó sanla, que pisaste, rompendo com lua luz ~eu escuro véo, c.le tua humildac.le enchr, e fortaleza.

NOTAS AOS SONETOS

OITAVA

AOS

DONS

ENGENUOS

1

V.

t.

Notemos de passagem este exclusivismo : nada quer dos

maus, nem com os maus; procura os bons; só para ellcs canta: elles sós o inspiram.

A está ahi

A ,·ós cant~ espritos bem nascidos. na accepção de para; hoje pareee

que não poderiamos

empregai-o assim com clareza; ou let·i<nuos de dizer : para vós só

canto, ou só a vós dedico o meu canto.

Outro exemplo do nosso autor :

(Son.

Esse divino esprito aos ceos nascido Liv. II, xxxm); visivelmente aos ceos significa ahi para

os

ceos.

 

Outro:

A ti só vives lá, n ti só cantas.

(Carl. L. II, Ix.)

A palavra espirita é constantemente estropiada por Ferreira, nos

ver~os; na pro~a do Brislo é que se nos deparou na Scena 1 do

Acto 11 espü·itual,

e na

Scena v1

do Acto III espiritos.

Em muitos

si tios onde lhe teria sido indifferente escrever espirita ou

sp1 ito,

preferiu não deixar de casar a aphere"e com a s-yncope. Exemplos:

O poeta poderia ter dito

no soneto xn

do Livro II :

Ai.'no~IO FEltHEinA.

55

ficava-lhe o verso durinho. mas certo; agradou -lhe porem mais : Se um sprilo, que aliás deve ler-se; esprito.

Eu co'o espirito inquieto aos ecos suspiro.

Efcreveu sprito, sendo para o verso igualmente bom, ou mau, sprito ou espírito. Ha duzias de outros exemplos. E não é só .Ferreira quem assim estropia esta palavra. Camões, Sá de Miranda, Bernardes, Gil Vicente, Caminha, e quantos c quantos mais! porem como Fencira é que nenhum. Contam-se nos seus sone- tos cincocnta spritos! fora as outras obras. Como se pode isto explicar? era talvez uma d'estas adulterações muito gencralisadas, como o consirm·, o imigo, etc. Ora a má cri-

tica de Fm·reira, e o seu pouco sentimento da forma não lhe pcrmit-

tiam ver que repelia sem cessar a

mesma palavra. Será isso n'ellc

·provavelmente um desleixo, mais do que um proposito firme. E talvez seguia o uso geral. Ha muitos exemplos d'isso nos escriptos em prosa; e ainda hoje o nosso povo diz esprito, deixando o espi1·ito para a gente culta.

s

V. 3.

Para poder

medir este

vcr~o é

indispensavel fazer de Ao

(que hoje é uma só syllaba) duas syllahas. Era u:J!a liberdade usada

f•·equentemente pt·lo nosso Ferreira, por Gil Vicente, llcrnardim Ri- beiro, Miranda, etc •

.

3

V.

hiacs.

7 e 8. E isso

Estes dois sinceros e

optimos versos

ficaram provcr-

aconteceu com mais

versos c

phra~cs d'cstc

autor.

Fallando com os seus proprios versos disse o pulido lloilcau :

Vous croyez, etc. t:t pa•· lc prompt crtct d'un sei réjouissant Dcvenir quclquefuis proverhes en nai~"'ant. '

(Ep. x.)

LlVUO

I.

!!ON·t'fO

I.

SuLI'e o soneto 1 !lo Livro I diremos algumas l'alavl'as, attcndeml o ii IJIIC cllt• induzil'ia cm erro a quem com menos allcnção lesse a JH'i- tucit·a pai'Lc dos ,·crsos d'estc poeta.

D"cstc sonf'to

podt•ria inferia·-se (jUe aos vinte

c

nove annos

tle

ttl:ule, cm I :J:, 7, Linha Fl'rrrira promplas

para a imprensa

lotlas as

suas obt·as; c não é exacto. o estudioso

Pedro Jozé da Fonseca,

a

UVHAIIIA CUSSIU.

pagina 7 da sua citada vida de •·crrcira (na edição de 1771) reE:ponde

a essa

suppusição, que entre as ohras do ltocta (e não na seguncld

con·.o na primeira parte d'cllas) algumas peças

ha

de· data

muito

posterior a 1~57 ; e,são cllas por exemplo a Egloga n

á

morte de

Sá de ~liranda em 15 de Março de 1:,~8; o Epithalan.io aos l'rin-

cipcs de Parma

cm 1iJG5; o soneto xv á maioridade d'EI-1\ci D. Sc-

Lastião cm 20

de

Janeiro de

15Gl'i;

não

fallando em

muitas das

suas outras composições,

cuja

data se

não

pode muito ao certo ar-

fit·mar. N(•m seria de crer f(UC este escriptor, com o seu amor ao trdLallo, e a sua vida quieta, cerrasse tão mancebo as contas com a Alusa, que não viesse ella, manhosa e lasciva como é, negacear-lhe uma e muitas

vezes com a tentadora maçã de Galatêa.

Parece-nos pois ler sido annos da idade do autor,

o soneto

1 escripto sim aos

vinte e nove

mas para ficar fazendo cabeçalho a seus

irmãos, nascidos uns antes d'elle, c outros muito depois. Do seu merecimento poctico, pouco. pode dizer-se. Quanto diffcre esse canto ao apartamento, d'aquclle E:entido f{uei1ume de O,-idio nas Tristezas! Ovídio tem lagrimas; acompanha em espírito os seus versos para Roma, c quasi os Lafeja como a filhos. Ferreira, hirto e glacial, acha em si mesmo a força de aconselhar e raciocinar. São {{Uatorze varões de ferro, onde o autor engaiolou algumas sentenças moraes (das menos canoras ainda assim) e cuja chave di! cobre (pre- ciosa aos olhos do antiquario) lPm toda a poesia de um registo haptis- rnal nu e cru.

t V. 1. ~IAL te engmzas. - É cs~e um idiotismo da nossa língua,

que parece dar força ao engaw1s. Amlw: mal enganado-com alguem

é phrasc muito porlugucza, c ainda hoje frequente no povo. E mal

ferido não significará lambem bem ferido, ferido pe1·igo1amente!

I

V.

2.

A rima, que

elle

pt·eviu, ohrigou o autor a empregar

mum impropriamente. Dentro em teu mw·o é uma idéa diversissima

de dentro em teus muros.

s

Y. 5.

. •.•• lnda que escuro.

' Hoje só obscul'o diríamos n'cstc sentido; n'esse tempo era porem frequente escuro por obscul'o. Vid. Camões. Lus. C. I est. 1:;.

V.

4.

Onde ninguem te empere. -

 

Empeccr é damnar, fazei'

a alguem perda, damno, mal.

l\ão

é

impedir; é mais

: é pre-

_judicar.

 

cs

\'.

8. Fuge

o povo.

-

O ;·erbo hoje conjuga-se foge;

n·esse

.\:\TO :'i i o l·'EfiltEIHA.

31

tempo,

de

amLõs os

modos

se dizia; o proprio Ferreira abona

os

dois.

&

V. !J.

Ah! mio

te posso ter.

-

Ter por

conte1·. Ter, conter,

dete1·, suster, ~ reter, significariam pouco mais ou menos a mesma id,;a. É o tenel'e latino.

Ncquc te tcoeo, neque dieta refello. Virg. En.

7

V. 9

e 10.

Deixa ir cumprindo Primeiro tua idade .....

•....

Seria isto o nonumque prematur in annum de lloracio? Se era,

deu-lhe

Deus á

farta lazer

para a espera.

Do

anno da

composição

d'este soneto á primeira edição (posthuma) dos versos de

Ferreira

em 1598, mediaram 41 annos.

s V. 10 c H.

te

. •

..

Quem

te move

deftnda do tempo e

de seus danos.

Parece que o autor alhule ahi a que algucm o compcllia a imprimir o:; ~eus vc1·so~; e alguem pode1·oso, que o l'odia th:fcndet·.

o v.

12, 13, u.

Dirás que a pesar meu t'oste fugindo, reinando Sebastião, fiei de quatro annos, anuo cincocnta e sete, cu vinte e nove.

é

isso tirado do final da Epistola xx do Livro I de Iloracio Forte ·meum si quis te percontabitur mvum, me quatcr undenos sciat implcvisse Decembres, collegam Lepidum que duxit Lollius nono.

SONETO

II.

1

1

V. 1 e 2.

Viciosa construcção a d'esses dois versos.

V.

13.

Verso

escuro.

O autor subentendeu aquelle; isto é

cante mais doce canto aquclle a quem o amor inspira.

SONETO

III.

Os dois quartetos são melhores que os tercetos; ha n'ellcs rncbn- colia, e alguns tor1ues felicíssimos. Aponto ar1uella singela pht'ase: Eu não ca1llo, t1W.Bllloro; e aponto

aqudle doce : ftle vou traz ella emfim ll'isle e11gmw.ndo.

x.

3

58

LIVUAIIIA t.:LÀSSIC.\.

t

V.1.

Eu não canto, mos cbóro ~

recordação (quem sabe?) do Cantai, or piango,

do soneto cxcm, ou do lo piansi, or canto,

do soneto cxc1v, ou do

ln

dubbio di mio stato or pinngo, or canto.

do soneto ccxiv de Petrarcha.

~ V. 9. Nunca será demasiada a insistcncia no diflcrençar os dois verbos soffrer e padecer, que os modernos gallicistas confundem 110 seu soffrer. Padecem-se dores, que muita vez se uão pod1·m aof- fre~·; mas para soffrcr é necessario padecer. Esta é a dislincção; o 11adecer pode ser moral, ou physico; o so{frer é só filho da vontade, e é só moral. l'adccc dores atrozes, e soffre-as com a·esign:•ção evan-

gelica. No soffrer porem ainda ha graus : atumr, aupporlar, tole-

rar;

definiu-os mui bem o erudito cardeal Saraiva nos seus syno-

nimos.

N. B.- Do padecer ha exemplos significando tamhem aoffrer; mas muito melhor será (nos 1mrece) distinguir podendo-o.

3

V. 11.

Verso escuro. O autor

quiz

dizer: me

deixa só

a

mim,

cheio de pura magoa: m:1s esse verso como está c:xprime o se-

guinte: o Amor deixou-me po•· pura magoa

(d'elle). O cheio de

pura magua é um lusitanismo ~mtigo; signilica cheio de magoa só •

.Morreu de puro desamparo; isto é só de desamparo.

"

V. 12

.....

e vejo o desengano. -Isto siguitica: vejo-me livre

do engano amoroso em que eslava.

11

V..

15. Afronta a alma cançada. -O

verbo afrontar é aqui

tomado neutramente; e quan1lo assim apparece significa anciaa·. Nem afrontam na presença dos trabalhos - disse Lucena. Vid. S. Franc.

Xav. 8, 21.

6

V.

15

......

e por valer-me. --Não se entende esse ]Jor valer-

me; c talvez tenha culpa d'elle a rima, que tem carregado com tantos

crimrs, e lautas coisas tem feito : até formigas brancas!

"

V.

14.

Alamhicamenlo sem graça nem verdade.

Pena

é

que

tanlus de igual jaez encene u nosso autor, c tantos dos seus contem- poruneos, não lS•tucccJdo Ca111i)es, que disse:

O peito lluugiLcllo; .os olhos :~gua.

A:StO~lO 1-"EHUEIBA.

59

SO:oiETO

VIl.

Oól

Exprime este soneto amorosas maguas do poeta. O primeiro quar- teto é feliz e r1uasi irreprchensivel.

t

V.

5.

Onde poderei eu de mim esconder-me?

Grande energia e concisão rle pensamento, duramente expressa.

s

V.

7.

Então me venço mais.

Então me enfraqueço, me derrubo, me aniquilo mais; é o que pa-

rece querer dizer ahi

esse veuço; ou quem sabe

se essa

forma não

estará ahi tomada pelo vincor passivo?

 

:; V.

H.

Que

os

rege e manda,

Pleonasmo, que á rima devemos agradecer.

 

"

V.

12.

Este chorar me faz; este cantando.

Os rlois estes referem-se ao mesmo esp'rito.

SONETO

XI.

Foi este sonetll escripto em Coimbra, como se vê,

1

V.

1.

Vás por vais é um archaismo

desnecessario.

tão intoleravcl hoje, quanto

s

V.

3

e 4.

Se offeJ'ece 1'ecolhe1·-te é uma expressão que não se

entende de oull·o modo, que não seja por uma transposição. Se le offeJ·ece 1"ecolhe1·, isto é engolir, recolher no teu seio.

:;

V.

5 e 6.

Estes dois versos respiram a

ufania de um po1·tuguez

d'aquellas eras dos grandes descohrinientos. É um feliz toque essn posposição do grande a Oceano; é um quid virgiliano.

"

V. 9.

Thetis com suas Nimphas te acompanham,

tem um impcrdoavel erro de grammatica; deveria ser Thetis e suas

Nimpltas te acompanham, ou panha.

Tltetis com suas Nimphas te acom-

É um desprimorzinho, como o de Ovidio :

llia c um La uso tlc Num i tore sati.

SO~ETO XII.

É falso e artificioso, c não deixa comtudo de ter certo encanto, certa doçura de metrilicaçãn. Pa1·ece ter sido escrit'to em Lisboa.

e

  • 40 LIVHAniA CLASSICA.

    • t. V. 5. É notavel o atuchamento d'este verso. V. 1O. Era indispensavel ahi o adjectivo determinativo o; todo

s

o mundo.

D'cssa forma ha porem muitos exemplos n'este poeta e cm todos

os seus contemporaneos: toda pa,.te, todo mundo, toda IOJ"te.

3

V.

12.

A minha

alma.só chora, e se entristece.

Foi-te infiel a pausa, meu desembargador! querias dizer: a minlta

alma sómente, e obrigam-te a dizer a minlta alma 1ó clwra. Porque

te não occorreu n'essa angustia:

Só a minha alma chora? Estavas salvo.

SONETO 1111.

É gracioso, mas pesa pouco. Os dois quartetos tcem alguns traços galantes de frescm·a e colorido.

Não apparece o sol, triste está a terra; as nuvens carregadas, os ceos tristes. E que graciosos não são estes versos do 2o quarteto? Aquclle rol fermoso, que na serra nos soe amanhecer, vós o encobristes.

Lamentavel é a

perda d'esse precioso

verbo defectivo 10e1'! tão

latino e tão nosso, e deixaram-n-o afogar na terriça da nossa mascava- dissima linguagem!

 

SONETO

XIV.

É uma curiosa regencia

a

que

faz

columna

vertebral ao so-

neto XIV! todo elle se move sobre uma interjeição vocaliva, e chega ao fim n'esses termos sem alar nem desatar. Entt·etanlo não é dos

mais mal rimados

!lo auto•·,

sendo dos

mais eivados de

concelti.

Escolhemol-o ainda assim, porque o mal lambem instrue e lambem

cu r:~.

t V. 2. Depois do contm mim, subentenda o pio leitor outra vez

ó olhos; sem isso fira

o senti tio manco, e a

luz parece referir-se a

mim. Ai estes quinhcntislas! quando até os mais cultos (entre os

(plac:s a\·ulta o nosso homem) caem a rada passo

que

c.làu,

c des-

preLam os rudimentos da propria granuuatica, perdão, e desculpa ainda l'Ór cima.

u.s mais souJcuos tcem

Ar\TONIO FERREIRA.

41

E depois ralhem dos Aristarcos uns certos communistas da littera- tura! mofem dos lloracios, e insultem os Boileaus!

s

V.

5

e

4.

Aquelle pregar já não vigora hoje. O que porem lhe

suhstituir·iamos é que nos não occor·re. Será talvez fere, punge, atra-

vessa, traspassa.

3

V.

10 e 11.

de

dar á

Ó olhos poderosos noite luz ..

•....

•••

Tambem envelheceu essa palavra, cujos substitutos hoje são inques- tionavelmente mais fracos: v. g. capaz de, habil pam, etc.; teria- mos, para dar o antigo poderosos de, nece~sidade de empregar um circumloquio.

4

V.

12,

15,

U.

Se ha

narla mais artificial!

mais escuro! mais

falso! Traduzido em portugu~z vai isto lahez : Olhos,

pm· causa de

quem os meus olhos são tão ditosos, que lhes coube em sorte chomr por vós.

Não commentemos; apontemos só.

SONETO

XXXIV.

t

V.

1.

Tambem tomado parece

ser um

erro de orthographia,

cm vez de tão bem tomado. Assim mesmo, na duvida, não nos atre- vemos a alterar. Limitamo-nos a indicar.

SONETO

XXXVI.

t

V.

1.

Esta idéa da altura

em que

de Petrarcha;

mais de uma

vez

allude

exemplo do soneto xu :

está collocada a amantt•, é

a

ella;

n'estes versos por

lo hcnedico illoco, ii tempo, e l'ora, che si alto miraron gli occhi miei.

s V. 7. Fallecer, na accepção de faltar eu desfallecer.

  • 3 V. 10. Soberbos é uma curiosa rima para ve1·-vos {na pronuncia de galliza).

  • 4 V. 15. Defender e vedar são ahi quasi synonimos. Hoje defen- der na accepção que lhe dá Ferreira, Camões, e outros, de prohibir, soaria talvez a gallicismo.

IONETO XXXVIII.

É notavelmente helio este soneto. Pintura accentuada, e forma t~uave quasi sempre.

42

UVRAIUA CLASSICA.

 

XL\'IJI,

t

V.

4.

Trovoar é um helio verbo, que deixámos perder. Hoje di-

riamos t1·ovejar.

 

'

V.

5.

Esclm·ece está ahi

(talvez não muito

propriamente)

na

acccpção neutra do verbo.

 

s

V.

6.

E elle

v~-me. -

Viciosa construcção;

pccca a um

tempo contra o genio da lingua, e conll·a a grammatica.

SONETO

L.

V.

1

a

4.

São recordações da Egloga x de Virgílio :

Sic tibi, quum fluctus sublerlabere sicanos, non inlermisceat undam Doris amara sunm.

' V. 14. Esta idéa (aproveitada por todos os Lucolicos) dos nomPs e dísticos entalhados nas arvores, traJ-a varias vezes o Ferreira; na Egloga IX: na Egloga n,

I

..... mil versos em meu nome aqui cortndo1.1,

Inda leio

n'esta faia .....

e finalmente n'este soneto. É tudo o mais virgiliano possível.

A esse costume alludiu brincando o Tolentino :

Qual, co' a navalha aguçada desigual cortiça aplana, e entalha em letlra romana o nome da sua amada.

 

SONETO

LI.

t

V.

15. },feio. Pessoa muito douta, a quem consult.1mos sohre o

sentido d'este

verso, interpretou-o assim :

chorar sem fim,

nem

intarupção.

 

SONETO LV.

 

t

V.

7.

Quanta tri~tcza cusla uma alegria!

é dos mais admira veis versos alma humana !

rlo

autor.

Que profunda intuição da

1

V.

12.

É esta uma

idéa altamente falsa e hyperbolica, em que

Ferreira insiste

mai~ d~ uma

vez

:

o tornarem-se os

seus olhos

ANTO:SIO FEnnEinA.

4)

duas

rontt•s, o engrossarem-se

os

rios

com

as

lagrimas que elle

chora, etc.

Vêmol-a expressa (m3is de uma vez lambem) em Petrarcha; n•este -

verso por exemplo :

Fiumc; che spesso dei mio piangcr cresci.

Camões disse (e não bem) :

Nos saudosos c11mpol! do Mondego de teus formosos olhos nunca cnxuito.

L I V R O

II.

SONI!.'TO

1.

1

V.

f.

Almonda é o rio que passa em Torres Novas, t('rra natal

da amante do nosso poeta. Uiz o Padre Carvalho na sua Corogm- pltia. que Àlmonda vem de Alius .11/zmda, outro ~londeg-o, porque as suas aguas são tão límpidas como as do rio coimbrão, chegando a aví~tar-se os peixes nadando na maior rundura dos mais altos pegos. Valha a verdade. Parece-nos antes que_ será nome arabe.

  • I v. 6.

Alma santa, ncal, de imperio dina

não será est'outro :

Alma real, dignissima d'impero

do soneto ccxxv"ru de Petrarcha! Esta palavra Real é varias vezes empregada, sem grande motivo por Ferreira; por exemplo :

~lai,; divina que humana Real brandura.

como lambem Petrarcha a empregava :

Real natura, angclico intelletto.

SONETO

11.

É este talvez o

mais

helio de

todos

os sonetos do autor; é altís-

sima poesi3, de qualquer modo que se considere. Merece lido. rrlido, e decorado.

SOJSETO

III.

t

V.

5.

tôlta

a chave.

Eis

ahi

um

particípio passivo do

verho

J.IVI\AHIA CLASSIC ..\.

· volve1·, que nós prrdemos; têmol-o uos

composto•, e

não

no

sim-

ples; c é pt'll:l, que era uma forma rntrgil·a c ,·cnla lc·ira.

SONETO

XIII.

No sondo 1.1v tcrmmarn estes tri!'tissin:os canlos coma_J"ados velo

poel:l na sua vim·ez á sua Faudo,a companheira.

Como vimo~, e ,·cremos, encontr;1m-se nos sonetos do Ferreira

versos inteiros, e geilos de Jlhr~se, inspirados ou lrarluzidos de Pe-

trarcha; mas (o que é mais do que pala\T:Ils) cncontra-sn n'elles ~

Iom mystiro, a mt'lancob suave dos souetos do amanlc de Laura. E

a mesma vaga tristeza, a u:csma respeitosa :ulnr:~ção, a mesma ele-

vação ideal (com mC'nos correcção de fom a ainda :essim). Era visi-

velmente Petrarcha um elos auturcs validos do nos~o ··~rrctt·a; v~-se

(JUC este andava (á moda do lt'mpu) ahmmtulissimo d'aquella S!mpa-

thica poesia.

SONETO

XVI,

A quem seria dirigido este soneto? pt o,·avelmcnle á Rainha Santa

lzabel.

Tudo quanto ahi se diz

é applicavel a ella;

o Real estado

parece

confirmai-o.

E não nos ponham a ohjecc;ão de que a piedosa esposa d'El-Rei

D. lliniz só foi canonisada cm 1625, isto é muilo mais de cincoenta

annos depois de cscripto este sorwto (cuja data certa não podtmos

:u·entar); Jlorquc, se falta,·a á santa Rainha a canonisação, dc·sde

muitas dezenas de armos o po\·o a ,·encrava por l•tnnaventurada, vilii-

tava com grandC's dc\·oções o seu lumulo em Santa Clara (a velha), e

tinha por muito milagroso o seu precioso corpo.

Alem d'isso já desde 1516 se achava beatificada a soberana, pelo

Papa Leão X.

O Jlroprio Ferreira nos dá bom testemunho da fama dos milagres

da santa, quando diz na Egloga 1, fallando de Coimbra:

••

..

• Onde a Rainha

seu templo sacrosanto, que hi parece,

com seus milagres honra.

SOJ.IiETO XXX.

Posto que este soneto seja dos escuros do nosso poeta, inclinamo-

nos

a

que fosse dirigido a El-Hei D. João lll;

razões;

e isto pelas seguintes

\

ANTONIO FERREIRA.

45

1• Respira todo elle uma certa respeitosa cortesia, propria de tão alto assumpto.

2• O epitheto de Felicissimo parece uma lisonja de corte, de quem queria significar-lhe que ainda a sua estrella propicia sobrele- va,·a á do l"enturoso Rei D. Manuel.

5•

O ultimo verso

só a

um

R~i se

podéra dirigir; mesmo a Prin-

cipcs fora descabido. A serem verdadeiras estas conjecturas, é este soneto anterior

a lã57.

SONETO

XXXIII.

Teem estes dois sonetos em portuguez commentarios.

antigo dado azo a largos

Querem uns que sPjam do Ferreira; outros que não. Quanto a nós, não concordamos com a suspeita do illustrado aca- dcmico e nosso rcspeita\'cl amigo o Snr. Innocencio Francisco da Sih·a (e pedimos perdão da franqueza) de que taes sonetos t:c intro- duzisseni furtivamente nas obras d'este poeta, não sendo de lavra sua. Esta opinião (não inteiramente adoptada pelo mencionado hihlio- grapho) lambem a tinha Boutcrweck, que os attribue a EI-Rei D. Af- fonso IV, ou ao Infante D. Pedro da Alfarrobeira (se nos não falha a memoria), c não menciona o nosso autor. Não vemos porem n'essas meras conjecturas, que csbulham dos dois sonetos o Ferreira, pezo bastante, nem razão convincente. Não repugna acreditar que o poeta os escrevesse por brinco e gymnastica littcraria. Para nós o maior argumento é o testemunho

insuspeito de ~Jiguel Leite Ferreira; ducçõcs.

do outro lado ha apenas in-

São estas as pal:lVras

do

filho do poeta,

e

seu

editor : -

Estes

dois sonetos fez J"l'i1lo no tempo

meu pae na linauagem que se costumava n'este d'El-Rei D. Diniz, que é a mesma em que foi

composta a historia de Amadis de Glmla pm· Vasco de Lobeira, natural da cidade do Porto. CJ~jo m·iginal auda na casa de Aveiro. Dil•lllfJm·am-se em nome do Infante D. Nfonso fillw primooenito d'El-Bei D. Diniz, pm· quiio mal este Principe recebera (como se vê da mesma historia) seJ" a feJ·mosa B1·iolanja em seus amores tlio mal tratada.

É verdade que se

nos

pode objectar, que sendo ~liguei Leite, ao

tempo do fallecimento de seu illustre pac, tão pequenino que

o

não

46

UVRARIA CLASSICA.

chrgou a conhecer (como ellc proprio confPssa t), a sua declaração,

de haver

seu apenas o cebo do

pae querido

que ouvia

imitar

a linguagem antiga,

em

casa, sem

que

por issu

pode ser

tenha cri-

terio de verdadeira. Poderá ser; mas ao nosso espírito

parece tão

explicito o depoimento do filho, como verosímil a intenção do pae. Anda n'isto provavelmente uma historia como ~a do auto da Boa Estreia reputado ser do quinhenti!'la Antonio de Castilho; ou como a do pcr·sonagem fictício a quem eram attrilmidas as obras cm inglcz antigo intencionalmente escriptas p•·lo infeliz Chattcrton. Dos dois sonetos alludidos tir:t Houterweck argumento para pro- var que desde o tempo d'El-Rci D. Affonso IV se manifestara entre nós decidido pendor para a imitação dos italianos, pois affirma q•;c o soneto

Vinha amor pelo campo trebelhando

é traducção de outro do Petrarcha; não conhecemos porem o ori- ginal.

1G de Fevereiro de 18í2.

Até ahi tínhamos escripto acerca da debatida paternidade dos so-

ru~tos. Achava-se

o original cm Pariz, (1uando nos chegou á mão

um erudito estudo litterario do Snr. Francisco Adnlpho de Yaruha-

gen, htterato brazileiro distincti~simo, e hoje )linistro do Brazil cm Vienna de Austria. Este rccem-publicado estudo intitula-se : Da l.il-

im·atum dos Livros de Cavallarias,

etc .• 1872.

Em vista do modo novo por que o douto escriptor encara os ,lois sonetos em portuguez antigo attribuidos a Antonio Ferreira, não po- demos deixar de accrescentar algumas palavras mais. Quando trata do Amadiz de Gaula e sua nacionalidade, transcre\'C o Snr. Varnhagen da:mais antiga ediçã1 hespanhola do mesmo Ama- diz algumas linhas que dão grande luz á questão; com a devida vcn.:t

copiaremos o que se de pag. 49 cm

Diz o autor:

diante :

(( Passemos agora á revisão dos autos. Examinemos o texto cas- telhano impresso da propria novella de Amadiz. que se não sahe da existencia de nenhuma copia mais antiga. Eis o que ,·c si

esse texto, consultado no livro to, cap. 40, que corresponde

ao 41

das traducçõcs estrangeiras, todas provenientes da franceza, na (jUal as linhas que vão servir ao nosso argumento foram supprimidas. Tra-

ANTOl"IO FEJ\REIRA.

47

tando do granel~ amor que nasceu no .peito de Br·iolanja pelo hello e

l)('roico .\madiz, prosegue o texto :

Por nmi gran filerza de amo1· coslreiiicla, no lo podiemlo su

ánimo sofrir 11i resistil·, liabiendo

(Briolanja) cobrado su reino ....

fué pm· parle della reque~·ido que dél y de su persona sin ningun entreva/o seiío1· podia se1·; mas eslo sabido por .4madiz, dió ente-

mmenfe a conocer que las angustias é dolo1·es

con las mucltas

lag1·imas derramadas po1· su seiíora Oriana, no sin gmn lealtad

las pasaba, AU:SQUE

EL

SE!iOR

l:sFANTE

DON

ALFO:SSO

DE }loUTUGAL,

IIABIEI'\DO

PIEDAD

DESTA FERMOSA

DOri'CELLA, DE OTRA GUJS,\ LO 111.\NDASK

PO:SER.

En

esto liizo lo

que su merced fué, mas

no

aquello que EN

EFECTO

DE

SUS

Al\IORES SE

ESCRJflJA,

»

Depois d'esta transcripção, vai o Snr. Varnhagen, com muito cri-

ferio e muita prurlencia, procurando conhecer quem é o Infante

  • D. Alfonso de Portugal mencionado no texto hespanhol, e acha c,·i-

dentemcnte ser o Infante que veio a .chamar-se El-Rei D. Affonso IV;

e prosegue a pagina GO :

• Uma vez provado, assim pelo proprio texto castelhano , como

pelos argumentos dos Snrs. Castelhanos, que as observações acerca

da sorte de Driolal}ja foram feitas ao autor pt•!o, ao depois Rei,

  • D. Affonso IV, chegamos ao conhecimento de que só esse príncipe

pode ter sido o verdadeiro autor de um soneto que alguns lhe tcem

ja atlribuido, mas que outros, imaginando sf?m dmida a novclla

mais moderna, attrilmiram ao Infante D. Pedro, o das Sete Partida~;

e que o filho do poeta Antonio Ferreira, encontrando-os escriptos por

IcUra de seu pae, entre os papeis (JUe dcixára, tomou por composições

do mesmo seu pae, e como taes os publicou, etc.

« Quanto á supposição de haverem sido os mesmos sonetos ohra

tlc Ferreira, parece-nos que só a cegueira do

amor de filho podéra

desculpai-a. No tempo de fprrcira não se tinham feito estudos da

poesia antiga, que o habilitassem a emprehender taes composições;

e tanto assim, fJIIC elle nem scc1uer as entendeu bem, ao copiai-as;

pois assin1 se explica o have1·em sido

menos corrcct:nm•ntC' d:tdas

á luz. IJe mais, para compor o som•to do Infante D. Affonso tinha

ellc a idéa no proprio texto do Amadiz; mas a rcsrosta de Loheir·a

que oraculo lh'a inspirou? Assim, o apparecimcnto d'cssPs dois so-

netos escriptos pela )cUra do autm· dos Poemas Lusitanos não serve

mais que a provar que o mesmo autor (enrontranrlo-os taln•z

anne,.os no C•Jdice manuscrito portuguez do Amadiz) tir:'tr:r de am-

bos copia, sem indicar no ]II'Ímciro d'clll'S nenhum auto•·· Outro

48

UVRARIA CL\SSICA.

curiof:O houve, que igualmente· no seculo xvr, tirou, com pequenas

vari:uates, tamhcm copia d'clles; e considerando desde logo como

autor do primeiro o Infante H. Pedro, juntou ambos aos conhecidos

ver~os do Rousso

da

Caba e

a

outros papeis, e formou um codice,

do qual no scculo passado foi possuidor um Fernão Duarte .Mon-

tearroyo, e hoje se guarda no Museu britannico, sendo o numero

20Y22 dos manuscritos chamados Addicionaes. Assim, ainda quando

dos cscriptos do mesmo Ferreira possuisl!!emos os autogr:q•hos, ou

um:• copia digna de toda a fé, como ~uccede a respcit.> dos de

de Mir·anda, não poderia 1irar-se d'ahi argumento para o proclamar

aulor de taes sonetos, que se prova Sl'rem de outros. •

Cahc ao Snr. Varnhagen inquestiona,·elmente a gloria de ter sido

o primeiro que tratou esta emmaranhada questão com profundeza

e afíinco; e (posto que um tanto conjecturaes algumas vezes) os

seus ar·gumrntos não deixam de convencer. Se se provasse o que di1

Dou terweck, de ser o soneto

Vinha amor, ele.,

traducção de Petrarcha, isso complicaria muito a argumentação;

mas como (apesar de termos procurado com attençâo) não encon-

trámos entre as obras do porta italiano coisa alguma que nos pare-

cesse o original do soneto portugue~. imaginamos que Douterweck

lahor·ava em erro.

A vista pois do exposto pelo incançavcl investigador hrazileiro,

damos por não rscripta a primeira parte d'esta nota, .e adoptamos.

ali~ novas provas, a sua judiciosa opinião. Conservamos porem agora

os sonetos entre as obras de Ferreira, por serem elles a causa d'es-

tas discussões, e porque aeer·ca da sua interpretação desejamos suh-

metler ao Snr. Varnhagcn algumas duvidas.

t

V.

1.

Dom Vasco de

Lobeira, e de

grã

sem.

Diz ~loraes que sem vem de semen, e signifita geração, semente,

c dá (como unico exemplo) aquelle ,·erso. 1\"ão tôa muito ao no~so

ouvido essa ct~·mologia; antes nos inclinamos ao se1zsus de que f:tlla

Viterho no artigo sem do Elucidario. Aqui muito mais rahida tem o

grande senso do que

a

grande gemção.

~eru faça

duvida

o

m

de

sem, que não é o n de senso; na psewlo-orlhographia vortugucza ha

exem11los para ca~os d'esses, c para 111uito mais. No prologo do NoLi-

liario do Conde D. Pedro vem um sem que ahon1 o que dizemos.

t V. 2. De prão; é locução :ulverhial, que significa li e plano, pla-

namente, cltãmente, isto é sinceramente.

ANTONIO FERREIRA.

49

1

V. 2. Avedes; forma antiga de haveis.

"

V.

4.

quedo.

Quedar; ficar, restar.

Ainda hoje

na província

dizem

11

V.

4. Ende. Eis ahi uma ruina romana; nada menos que o inde.

Significa d'ahi, d'isso.

• •

V.

4.

Hirem.

Assim

se

erradamente

cm algumas edições,

cu todas {não podemos verificar). Isso verdadeiramente são duas palavras: hi e rem; Iii significa ahi; é palavra :mtiquissima, que ainda hoje se emprega : por hi diz o povo; e onde lia Iii coisa, não

ha hi quef!l pense, etc., escreve gente culta. Rem quer dizer coisa; é a palavra latina textualmente escripla. Essa merreu de todo; vive aincla no francez, mas muito adullc- rada da sua primitiva signilicação; é o 1·ien.

  • 1 V. 5. Aprougue; do verbo aprazer; hoje dizemos aprouve.

s

V.

5.

E a lambem.

~ào entendemos essa phrase;

ahi

anda

omissão talvez. Pessoa de grande voto a quem conl'ultámos, viu n'essa phr-Jse o tentido seguinte : e tanto nos agradou, e tão bem, etc. Aquelle é (segundo o mesmo abalisado critico) meramente expletivo, e não allera o sentido do tambem; e adduziu-nos logo dois exem]llos, em que o a não tem valor : o primeiro foi de Gil Vicente :

a

A segundo vão os tempos;

c outro foi de Camões :

A segundo a policia melindana.

Ora n'aquelle lambem viu o douto commentador duas palavras: tão bem, reunidas n 'uma só. O sentido assim fica intelligível, ainda que a segunda metade da pbrase é redundancia, pouco para notar-se em tão silvestre poesia. O Snr. Varnhagen, no seu livro citado pouco acima, substitue esse

a tam bem, por er tan ben.

V.

6.

Snedes forma antiga do sereis.

to V. O. Loado; louvado.

lt V. ftlentado; lembrado; essa palavra morreu no simples; vive nos seus compostos : v. g. commentado, dementado, etc.

11

V.

8.

. agora.

llora;

hoje escreveríamos or~; significa n'este tempo,

50

J.TVnAnTA CI.ASSlCA.

t:s

V.

9. Alais, significa mas; é o franccz mais. Hoje ainda o nosso

povo pronuncia mais.

u. V. 9. Fremosa, ou fermosa; hoje escrevemos (mais etimologi-

camente) formosa. V. 10. lJrioranja;

t5

nome

de mulher,

que

hoje está fora

de

um, e que tambem se escreveu Briolanja. Parece-nos uma etmtraç- ção de dois nomes antigos : Brites e Olanja; pelo menos ;~ssim temos visto decomporem aquclle nome alguns genealogistas.

ta

V.

1 O.

Endoado, dorido,

doloroso;

arljedívo tomaclo aqui

talvez adverbialmente; como para significar: vós no vosso romance

fize!'tes llrioranja amar

doridamente,

isto

é

: com

mágua,

hu nom

amarom, isto é: pois a não amaram, pois lhe não correspondiam. O Snr. Varnhagen propõe em vez de endoado, endoada. É t:.~lvez mais intelligivel.

n

V.

10.

1/u, onde; lembra o ou francez.

ts

V.

10.

Nom, forma antiga

(e

mais etimologica do não, c

geral das terminações em ão.

em

t9 V. 10. Amarom, forma antiga de amaram.

  • 10 V.

11

V.

11. Esto, isto. Ainda hoje é hespanhol.

11. Cambade, forma antiga (e

muito mais latina) dos im-

perativos da primeira conjugação, que hoje fazemos ae.

Ainda hoje

as palavras cambio, cambista,

escambo, recambiar,

são parentas do antigo cambar, que significava trocar, mUllar.

"

V. 11. Compra; cumpra escreveríamos hoje.

 

t:s

V.

11.

Sa,

ou sua.

"'

V.

12.

Cá. Esta palavra é parenta, pela forma

e pela signifi-

cação, do

car dos francezes, que é filho do quaJ"e dos romanos.

f)uer dizer porque. Encontra-se nos autores antigos em ,·ez de cd,

significando algumas vezes que. O Snr. Varnhagen substitue nos escriptos antigos por hei).

ao

eu, por que

ei (ei se encontra

!!5

V.

12. 1/ei, tenho.

ta

V.

12.

Dó,

dor,

pena.

O

Snr.

Varnhagen substitue ao

dó,

dôr.

''

V.

12. Aver; assim

trazem algumas

edições,

em logar de

a

ver, ou vel-a.

A~TONJO FEfifiEIIL\.

51

Tivemos o gosto dl' nos encontrarmos n'este ponto com a substi- tuição do Snr. Varnhagen. IS V. 14. Er; encontra-se frequentemente este vocalmlosinho entre os escriptos dos antigos; parece significar alem d'isto, ou lam- bem, ou ainda, ou coisa assim. 1 9 V. 14. O; assim escreviam os antigos ao. Ainda o povo que

pronuncia mal diz: fui ó Porto, cheguei ó fim. etc.

Não sabemos o porque o Snr. Varnhagen substituiu a este ó, que é

tão frequente na graphia antiga o cm; nou o er.

nem tão pouco porque elimi-

SONETO XXXIV.

Chama o Snr. Varnhage~ a este soneto, na sua citada obra DA ur-

TERATURA

nos

Lobeym.

LIVROS

DE

CAYALLARIAs,

Resposta

de Dom

Vasco

de

Não percebemos hem (ingenuamente o confessamos) o porque este soneto é resposta do autor do Amadis; mas dando que o seja, por- que daria o erudito escriptor o titulo de Dom ao problematico Lo- beJra? · N'essa edição nova do soneto, propõe-se o Snr. Varnhagen restau- rai-o, e tornai-o intelligivcl, com algumas mudanças que propõe, já na graphia, na pontuação. Como não concord;unos em todas com Sua Excellencia permitti- mo-nos declarai-o; e esperamos que um autor, a quem deslle a nossa mais tenra meninice conhecemos e respeitàmos, nos não levará a mal esta franqueza.

t

V.

1.

1'J·ebelllando. -

1'rcbellws se

chamavam as peças do

jogo de xadrez;

d'onde trcbelhar significou jogm·, e por extensão

brincm·. 1'J·cbelos era o que hoje chamamos bonitos de creanças. 1'rebelhando vem pois ahi na accepção de divertir-se, folgar, etc.

 

V.

5.

El; apocope

de elle;

é

talvez

um

hl'spanholismo.

O

Snr. Varnhagen substitue-lhe a conjuncção e; pon1ue?

 
 

:;

V.

5. Clico, antiga orthographia de cheio.

 

"

V.

5. Lcdice, rad. ledo; hoje di1·iamos alegria.

 

V.

4.

A este verso

 
 

J;í

de

arco e

do

sns selaa

non curando

 

suhslltue o

 

Varnlmgen outro, que

não

é

mais claro

que

o

primeiro, e tem o defeito de cara mais modí'rna :

 
 

do arco e

das setas non

curando.

 

52

LIVnAHIA CLASSICA. a V. 5. A sazom, isto é n'esse momento, justamente enUo.

,

V.

5.

Sia, por 1e ia.

 

s

V.

6. Coita,

dor,

tormento; é o cuita castelhano. Morreu esta

palavra, e só se conserva no seu composto coitado.

9

V.

7. Filha,

é

do verho {ilhar,

que significava tomar, ou

pilhar (esta ultima palavra é o antigo {ilhar, transformado pela faci- lidade que tecm as inflexões dento-labiaes cm se fazerem labiaes, e

vice-vcrsa). Cão de {ilhar, diziam os antigos;

hoje dizemos cão de

fila. Assim: {ilhar, filar, e pilhar são a mesma coisa.

10

V.

9.

Deshi;

é de

hi,

depois.

 

u

V.

9.

Rost1·o, rostrum

com um 1 euphonico. Significa d'alli,

em latim significa focinho, parte proe-

minente da face dos animacs: os romanos só como termo de insulto applicaram essa palavra ao homem. Os modernos, mais contenta- ,·eis, tomaram·n-a á boa parte, e fizeram d'ella rostro. Hoje dizemos r·osto, como de rastro fizemos rasto, etc.

tt

V

1 O.

Os antigos

faziam

da

palavra

traidor trcs

syllabas;

aSiiim o exige n'este caso a medida do verso. Hoje largámos aquella como que aspiração do i, e fizemos do ai um diphtongo.

ts

V.

10. Fallido, enganado; é muito latino.

 

1 "

V.

t t.

Prenderei. Hoje só

os italianos

e os francezes

(que

saibamos) usam na accepção de tomar, dos verbos prendere e pren- dre, que são o nosso antigo prender.

ts

V.

11. Vendi ta; hoje é vindicta, ou vingança.

t6 V. 15. Catando, procurando, examinando.

  • 17 V.

15 e 14. Sestra; do latim sinistra, esquerda.

Sestm parte diz

o Ferreira n'outro soneto. lloje ainda a língua

hcraldica dos francezes conscna

o dextl·e

e senestre por

direita e

esquerda. Na opinião de um veneravel mestre da nossa língua, a palavra sestro, tendencia má, ou sinistra, deriva da mesma fonte, porc1ue o lado esquerdo era entre os antigos de ruim agoiro.

!t/alum

...

.• sinistra ...

•.

predixit

.....

cornix

. ....

disse Virgflio na

Egloga 1. O Snr. Varnhagen julgando inintclligivel este verso com a sestra propõe em Jogar d'clla seta. Isso é que nos parece de todo escuro. E senão, vejamos; a historia foi assim :

A~TO:SIO FERREIRA.

53

O Amor ia folgando e dPsprevenido pelo campo fora; Briolanja que o viu, e lhe tinha odio, pourle acercar-se d'clle. e furtar-lhe do L'ar·caz uma das settas; e (segundo se deprehende) o arco tamLem. Cupido ficou desarmado, e Briolanja apartou-se: quando estava a dis- tancia ,·oltou-se ella para elle, e gritou-lhe : traidor, que me enaa-

naste ! deixa estar que me vou t'ingm· de ti! Largou a mão,

isto

é

desfechou, e o Amor ficou ferido da sua propria setta;

e

olhando a

sua séstt·a, isto

é

ao seu lado esquerdo,

ou

ao coração (que é

onde

a selta se tinha cravado), grita muito dorido pnra a magana de Briolanja, que ia fugindo: Ai! mercê! isto é ai! piedade! tem d6 de

mim! etc.

Em vista d'esta nossa interpretação, que julgamos satisfazer in- feimmente, o modo por que o Snr. Varnhagen pontuou o ultimo

nrso

Ai! Mercê a Br'olnnja

1...

que fugia ....

não dá sentido algum. Sustentàmos pois (salvo melhor juizo) a nossa pontuação:

 

c

Ai I mercê!

• -

a Briolanja que fugia.

Podia forçar-se outra interpretação, que nos occorre agora : e ca-

tando

a sa seta,

isto é :

olhando

ou 11rocurando a sua sela, isto a

que lhe estava cravada no coração. Seria esta talvez

a explicação do

Snr. Varnhagen; entretanto o sestra parece-nos tão claro, como di- zíamos, que não mais insistiremos em tal.

SONETO lllVI.

É notavcl o espirito de arrependimento que anima este mistico soneto. É mais uma prova da profunda religiosidade do nosso bom poeta.

SOl'iETO IXIVIII.

O assumpto d'este formoso soneto parece ter connexão com

o

do xuv a um solitm·io, c Baptista.

com o

do

nxvm

e

o

do

n

a

S.

João

SONETO ILII.

Quem seriam os santos frades que deram assumpto a este so- neto! não o podémos ao certo descobrir. No diccionario do Snr. In-

poccncio F. da Silva,

que

é um subsidiario constante para quciT.

UVIL\IHA CUSSICA.

 

escreve em Portugal, encontra-se menção de um livro ((111e o autor

do diccionario não poude ver)

intitulado : -

Tratado da

vida

t

mm·tyrio dos dnco marlyres de /Jiarrocos enviados ]JOI" S. Fran- cisco. Coimbra, por João Alvares. -1~üH.- 4°.·- Caracter go- tlâco.

Seriam esses os celebrados por Ferre ira! No mesmo diccionario, Tomo 11, pag 420 se menciona outra

obra mais moderna (de 167 t) sobr·e os mesmos rocos.

mart~res de ~lar­

Diz

o

l'adre Carv:1lho na

sua corographia que em Coimhra e1is-

tiam relif{Uias d'estes santos; o que pode ter concorrido para que a

devoção de Anlonio Ferreira lhes dedicasse taes vcr1os.

ODES

ADVERTENCIA ÁS ODES

Parece-nos que as Odes de Ferreira (pelo menos algumas) foram compostas nos primeiros annos da sua carreira de poeta, porem quando ja tinha por Lussola o Iloracio. Estão muitas d'ellas cheias da nova theoria; c aquelle mesmo alardear a doutrina nos mostra o iniciador novél.

O tom d' estas

poesias é arrojado c severo ; os seus as-

sumptos todos noLres. Em dois livros se acham as odes divididas; das qua-

torze porem que os cem põem, nem todas merecem reler-se. Dicção geralmente correcta, muita moral e muito sã, bons principios na arte de escrever, elogio rasgatlo, que era um dos caracteristicos do poeta, ·c frequentissimas reminiscencias de Iloracio; tudo isso constitue as Odes. Os versos de seis syllaLas misturados com os hcroicos, não são de todo mal tratados; pressente-se no autor a

56

UVI\AniA CLASSICA.

intrnr:io de dar á :ma poesia o~ arrebatamentos da alta lyrif'a facil, e cantavcl. A Ode porlugucza, gcnero participante ao mesmo tem- po da Ode hor'.tciana e da cam;ão de Petrarclla, estava nascida. Elle proprio, o autor, o confessa com uf:mia, logo no introito da Ode I.

LIVRO PRI~IEIRO

ODE

I

Fuja d'aqui o odioso profano vulgo; eu canto a-; brandas Musas a uns espritos dados dos ceos ao novo canto heroico e generoso, nunca ouvido dos nossos bons pas~ados

1

N'este sejam cantados altos Reis, altos feitos; cost~mc-se este ar nosso á lyra nova. Acccndci vossos peitos, engenhos hcm crcados, do fogo que o munJo oulra vez renova.

Cada um faça alta prova de seu esprito cm tantas portuguczas con,tnistas e viclorias, de que ledo te·espautas, Oceano, e dás por· nova do mundo ao mesmo mundo altas historias.

ã8

I.IVHAIU.\ CUSSlC.-\.

Renova mil memorias, lingua aos teus csfluccida, ou por falta d 'amor, ou falta d 'arte; para sempre lida nas portuguczas glorias, . que em ti a Apollo honra darão, c a ~lartc.

A mim pequena parte cabe inda do alto lume igual ao cauto; o hrando Amor só sigo levado do costume. Mas inda cm algua parte, (( Ah Ferreira (dirão) da lingua amigo! )) 1

IV

AOS REIS CHRISTÃOS

Onde, onde assi crueis correis tão furiosos, não contra os infieis barbaros poderosos turcos de nossos roubo~· gloriosos 'I

Não pera a mal perdida cabeça do Oriente nos ser restituída tão pia, e christãmentei

roubo a vós feio,

e rico

á turca gente;

I

não pera a casa santa, santa terra pisada

A~TONIO FERREIIL\.

dos infi<.·is, com tanta afronta vossa, armada a mão vos vejo, nem Landeira alçada ;

nem pera em fogo. arder desdo chão té as ameias

l\leca, e Cairo ; e se ver

trazido em mil cadeias em triumpho o seu fiei com nossas preias.

Ah! cegos, contra ,·ós vos leva cruel furor I Ah I que fartando em nós, e em vosso sangue o ardor que o i migo tem, fazei l-o vencedor.

Vós armas, vós lhe dais ao covarde ousadia ; em quanto vós matais, eis Hhodcs, eis Hungria cm sangue, em fogo, cm nova tirannia.

Paz sancta dos ecos dada por vida só, e Lem nosso, como tão de~ prezada d'cstc injusto odio vosso fieis christãos, he'crucis chamar-vos pos~o

1

Nunca se viu fereza a esta que usais igual, armados de crueza. Um ao outro animal da mesma naturcta não faz mal

61)

LIVIUHIA CLASSICA.

Tornac, lornac, ó Reis á paz; tende-vos ora; olhae-vos, e vereis · com 'J.Uanta razão chora a Christandadc a paz que lançais fóra.

VI

A UMA NÃO D'ARMADA

Ell

QUE IA

SEU IRMÃO

GARCIA FROES

Assi

a

poderosa 1

deusa de Chipre, e os dois irmaõs de Helena

claras estrellas, c o grã Rei dos ventos, segura náo, e ditosa te levem, e tragam sempre, com pequena tardança, aos olhos que te e8peram attentos;

que meu irmão, metade da minha alma', que como encomendado ti deves, nos tornes vivo, e são do fogo, e tempestade, a que se aventurou co'o esprito ousado; vença, á dura fortuna, a boa tenção.

a

Quem cometteu primeiro ao bravo mar n'um fraco páo a vida, de duro cnzinho