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Índice
Fernando Pessoa Ortónimo 3

“Mensagem” 9

Heterónimos 16

Alberto Caeiro 18

Ricardo Reis 21

Álvaro de Campos 25

“Os Lusíadas” 29

“Felizmente há luar” 39

“Memorial do Convento”

Anexo I: Análise dos principais episódios e outros textos de “os Lusíadas”

Anexo II: As figuras de estilo mais frequentes em “Os Lusíadas”

Anexo III: Exercícios

Anexo IV: Felizmente há Luar

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Fernando Pessoa Ortónimo
Características temáticas
- Identidade perdida e incapacidade de definição
- Consciência do absurdo da existência
- Para ele a realidade não é apenas aquilo que se vê superficialmente
- Tensão sinceridade / fingimento, consciência /inconsciência
- Oposição: sentir / pensar, pensamento / vontade, esperança 7 desilusão
- Anti-sensacionismo: intelectualização da emoção
- Estados negativos: solidão, cepticismo, tédio, angústia, cansaço, náuse,
desespero
- Inquietação metafísica
- Neoplatismo
- Tentativa de superação da dor, do presente, etc., através da evocação da infância,
idade de ouro, onde a felicidade ficou perdida e onde não existia o doloroso
sentir
- refúgio no sonho, no ocultismo (correspondência entre o visível e o invisível)
- criação dos heterónimos (“Sê plural como o Universo!”)
- Intuição de um destino colectivo e épico para o seu País (Mensagem)
- Renovador de mitos
- a visão do mundo exterior é fabricada em função do sentimento interior
- Reflexão sobre o problema do tempo como vivência e como factor de
fragmentação do “eu”
- O presente é o único tempo por ele experimentado (em cada momento se é
diferente do que se foi)
- Tem uma visão negativa e pessimista da existência; o futuro aumentará a sua
angústia porque é o resultado de sucessivos presentes carregados de
negatividade

Características estilísticas
- simplicidade formal; rimas externas e internas; redondilha maior (gosto pelo
popular) dá uma ideia de simplicidade e espontaneidade
- Grande sensibilidade musical:
o eufonia – harmonia de sons
o aliterações, encavalgamentos, transportes, rimas, ritmo
o verso geralmente curto (2 a 7 sílabas)
o predomínio da quadra e da quintilha
- Adjectivação expressiva
- Economia de meios:

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o Linguagem sóbria e nobre – equilíbrio clássico
- Pontuação emotiva
- Uso frequente de frases nominais
- Associações inesperadas [por vezes desvios sintácticos – enálage
- Comparações, metáforas originais, oxímoros
- Uso de símbolos
- Reaproveitamento de símbolos tradicionais (água, rio, mar...)

Temáticas
 O sonho, a intersecção entre o sonho e a realidade (exemplo: Chuva oblíqua –
“E os navios passam por dentro dos troncos das árvores”);
 A angustia existencial e a nostalgia da infância (exemplo: Pobre velha música
– “Recordo outro ouvir-te./Não sei se te ouvi/Nessa minha infância/Que me
lembra em ti.” ;
 Distância entre o idealizado e o realizado – e a consequente frustração (“Tudo
o que faço ou medito”);
 A máscara e o fingimento como elaboração mental dos conceitos que
exprimem as emoções ou o que quer comunicar (“Autopsicografia”, verso “O
poeta é um fingidor”);
 A intelectualização das emoções e dos sentimentos para a elaboração da arte
(exemplo: Não sei quantas almas tenho – “O que julguei que senti”) ;
 O ocultismo e o hermetismo (exemplo: Eros e Psique)
 O sebastianismo (a que chamou o seu nacionalismo místico e a que deu forma
na obra Mensagem;
 Tradução dos sentimentos nas linguagem do leitor, pois o que se sente é
incomunicável.

Sinceridade/fingimento
- Intelectualização do sentimento para exprimir a arte -> poeta fingidor
- despersonalização do poeta fingidor que fala e que se identifica com a
própria criação poética
- uso da ironia para pôr tudo em causa, inclusive a própria sinceridade
- Crítica de sinceridade ou teoria do fingimento está bem patente na união de
contrários
- Mentira: linguagem ideal da alma, pois usamos as palavras para traduzir
emoções e pensamentos (incomunicável)

Consciência/inconsciência
- Aumento da autoconsciência humana (despersonalização)
- tentativa de resposta a várias inquietações que perturbam o poeta

Sentir/pensar
- concilia o pensar e o sentir
- nega o que as suas percepções lhe transmitem
- recusa o mundo sensível, privilegiando o mundo intelegível
- Fragmentação do eu  interseccionismo entre o material e o sonho; a
realidade e a idealidade; realidades psíquicas e fisicas; interiores e exteriores;
sonhos e paisagens reais; espiritual e material; tempos e espaços;
horizontalidade e verticalidade.

O tempo e a degradação: o regresso à infância


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- desencanto e angústia acompanham o sentido da brevidade da vida e da
passagem dos dias
- busca múltiplas emoções e abraça sonhos impossiveis, mas acaba “sem
alegria nem aspirações”, inquieto, só e ansioso.
- o passado pesa “como a realidade de nada” e o futuro “como a possibilidade
de tudo”. O tempo é para ele um factor de desagregação na medida em que tudo é
breve e efémero.
- procura superar a angústia existencial através da evocação da infância e de
saudade desse tempo feliz.

O tédio, o cansaço de viver


O poeta constata que não é ninguém, ele é nada – o sonho de ir mais além desaparece.
Diz que não sabe nada, não sabe sentir, não sabe pensar, não sabe querer, ele é um
livro que ficou por escrever. Ele é o tédio de si próprio: está cansado da sua vida, está
cansado de si.

Poemas
- “Meu coração é 1 pórtico partido” - fragmentação do “eu”

- “Hora Absurda” - fragmentação do “eu”


- interseccionismo

- “Chuva Oblíqua” - fragmentação do “eu”: o sujeito poético revela-se duplo, na


busca de sensações que lhe permitem antever a felicidade ansiada, mas inacessível.
- interseccionismo impressionista: recria vivências que se interseccionam com outras
que, por sua vez, dão origem a novas combinações de realidade/idealidade.

- “Autopsicografia” - dialéctica entre o eu do escritor e o eu poético, personalidade


fictícia e criadora.
- criação de 1 personalidade livre nos seus sentidos e emoções <> sinceridade
de sentimentos
- o poeta codifica o poema q o receptor descodifica à sua maneira, sem
necessidade de encontrar a pessoa real do escritor
- o acto poético apenas comunica 1 dor fingida, pois a dor real continua no
sujeito que tenta 1 representação.
- os leitores tendem a considerar uma dor que não é sua, mas que apreendem
de acordo com a sua experiência de dor.
- A dor surge em 3 níveis: a dor real, a dor fingida e a “dor lida”
۰ A arte nasce da realidade
۰ A poesia consiste no fingimento dessa realidade: a dor fingida ou
intelectualizada
۰ A intelectualização é expressa de forma tão artística que parece mais autêntica
que a realidade
۰ Relação do leitor com a obra de arte:
¤ Não sente a dor real (inicial): essa pertence ao poeta
¤ Não sente a dor imaginária: essa pertence ao criador (poeta)
¤ Não sente a dor que ele (leitor) tem
¤ Sente o que o objecto artístico lhe desperta: uma quarta dor, a dor lida
۰ A obra é autónoma, quer em relação ao leitor, quer em relação ao autor (vale
por si)
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Há uma intelectualização da emoção: é recebido um estímulo (emoção) – dado pelo
coração – que é intelectualizado – pela razão ; o que surge na
criação são as emoções intelectualizadas. Ou seja, o pensar
domina o sentir – a poesia é um acto intelectual

- Ela canta pobre ceifeira – a ceifeira representa os sensacionistas e o seu canto


seduz o poeta, que mesmo assim não consegue deixar de pensar; o poeta quer o
impossível: ser inconsciente mas saber que o é, sentir sem deixar de pensar – o seu
ideal de felicidade; acaba por verificar que só os sensacionistas são felizes, pois
limitam-se a sentir, e tem então um desejo de aniquilamento; musicalidade produzida
pelas aliterações, transporte, metáfora e quadra

- Não sei se é sonho, se realidade – exprime um tensão entre o apelo do sonho


(caracterizado pela tranquilidade, sossego, serenidade e afastamento) e o peso da
realidade; a realidade fica sempre aquém do sonho e mesmo no sonho o mal
permanece – frustração; conclui que a felicidade, a cura da dor de viver, de pensar,
não se encontra no exterior mas no interior de cada um.

- Não sei quantas almas tenho – o poeta confessa a sua desfragmentação em


múltiplos “eus”, revelando a sua dor de pensar, pque esta divisão provém do facto de
ele intelectualizar as emoções; a sucessiva mudança leva-o a ser estranho de si mesmo
(não reconhece aqueilo que escreveu); metáfora da vida como um livro: lê a sua
própria história (despersonalização, distancia-se para se ver)

- Entre o sono e o sonho - símbolo do rio: divisão, separação, fluír da vida –


percurso da vida; é a imagem permanente da divisão e evidencia a incapacidade de
alterar essa situação (o rio corre sem fim – efemeridade da vida); no presente, tal
como no passado e no futuro (fatalidade), o eu está condenado à divisão porque
condenado ao pensamento (se fosse inconsciente não pensava e por isso não havia
possibilidade de haver divisão); tristeza, angústia por não poder fazer nada em relação
à divisão que há dentro de si; metáfora da casa como a vida: o seu eu é uma casa com
várias divisões – fragmentação

- Bóiam leves, desatentos - poema apresenta um conjunto de elementos que


sugerem indefinição e estagnação, estados que provocam o tédio e o cansaço de viver
(“bóiam”, “sono”, “corpo morto”, folhas mortas”, águas paradas”, casa abandonada”);
todos estes elementos apontam para a dor, a incapacidade de viver, a angústia, o tédio;
os seus pensamentos andam como que à deriva, não têm onde ficar, pois ele é nada;
são insignificantes, sem consistência, vagos, sem conteúdo; impossibilidade do sujeito
saír do estado de estagnação em que se encontra (entre a vida e a não vida);
musicalidade: transporte, anáfora (repetição duma palavra), ritmo (lento, parado –
como ele)

- Aqui na orla da praia, mudo e contente do mar - sujeito não quer desejar
muito mais para além do que é natural e espontâneo na vida; tudo aquilo a que o
homem se pode agarrar é imperfeito e inútil (ex:amor); a melhor maneira de passar
pela vida é não desejar, não se sentir atraído por nada (apatia, cansaço total); revela
um certo desejo de morte porque já n quer nada; desejo de comunhão com a natureza

Fernando Pessoa conta e chora a insatisfação da alma humana. A sua precariedade,


a sua limitação, a dor de pensar, a fome de se ultrapassar, a tristeza, a dor da alma
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humana que se sente incapaz de construir e que, comparando as possibilidades
miseráveis com a ambição desmedida, desiste, adormece “num mar de sargaço” e
dissipa a vida no tédio.
Os remédios para esse mal são o sonho, a evasão pela viagem, o refúgio na infância, a
crença num mundo ideal e oculto, situado no passado, a aventura do Sebastianismo
messiânico, o estoicismo de Ricardo Reis, etc.. Todos estes remédios são tentativas
frustradas porque o mal é a própria natureza humana e o tempo a sua condição fatal. É
uma poesia cheia de desesperos e de entusiasmos febris, de náusea, tédios e angústias
iluminados por uma inteligência lúcida – febre de absoluto e insatisfação do relativo.

A poesia está não na dor experimentada ou sentida mas no fingimento dela,


apesar do poeta partir da dor real “a dor que deveras sente”. Não há arte sem
imaginação, sem que o real seja imaginado de maneira a exprimir-se artisticamente e
ser concretizado em arte. Esta concretização opera na memória a dor inicial fazendo
parecer a dor imaginada mais autêntica do que a dor real. Podemos chegar à
conclusão de que há 4 dores: a real (inicial), a que o poeta imagina (finge), a dor real
do leitor e a dor lida, ou seja, intelectualizada, que provém da interpretação do leitor.

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Quadro-Síntese:
Estilísticas
Temáticas Nível Fónico Nível Morfossintático e
semântico
- Consciência do absurdo da - musicalidade: - linguagem sóbria e
existência, recusa da realidade, o versificação nobre;
incapacidade de viver; regular e tradicional - expressividade dos
- Oposições pensar/sentir, (vertente tradicionalista: modos e tempos verbais,
consciência/inconsciência, predomínio da quadra e com preferência pelo
pensamento/vontade, da quintilha e do verso presente do indicativo;
esperança/desilusão curto(duas a setes - equilíbrio clássico;
sílabas)); - sintaxe simples;
Conduzem a: o rima, ritmo, - adjectivação
- tédio; angustia; aliteração, onomatopeia expressiva
melancolia; desespero; náusea; o encavalgamento - paralelismos e
nostalgia de bem perdido (tema da repetições
perda); abdicação, desistência; - uso de símbolos:
abulia; dificuldade em distingir o reaproveitamento de
sonho da realidade; símbolos tradicionais;
- solidão, egotismo, passagem de uma
cepticismo, anti-sentimentalismo; imagem-símbolo nacional
- inquietação metafísica, dor à reflexão sobre o
de pensar, dor de viver símbolo;
- imprevisibilidade:
Busca de superação através metáforas inesperadas;
de: desarticulação sintática;
- evocação da infância - expressividade da
(enquanto símbolo de uma pontuação; interrogações,
felicidade); exclamações, reticências;
- ilusão no sonho; - uso de frases
- ocultismo (procura de uma nominais;
correspondência entre o visível e o - metáforas,
invisível); comparações e imagens;
- fingimento( enquanto - antíteses;
alienação de si próprio, processo - paradoxos;
criativo e máscara) - heteronímia - oxímoros

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“Mensagem”
Contextualização
 Integração de Mensagem no universo poético Pessoano:
Integra-se na corrente modernista, transmitindo uma visão épico-lírica do destino
português, nela se salientando o Sebastianismo, o Mito do Encoberto e o V Império.

“Criar um novo Portugal, ou melhor, ressuscitar a Pátria Portuguesa, arrancando-a


do túmulo onde a sepultaram alguns séculos de obscuridade (...) E isto leva a crer
que deve estar para breve o inevitável aparecimento do poeta ou poetas supremos
[...] porque fatalmente o Grande Poeta, que este movimento gerará, deslocará para
segundo plano a figura até aqui principal de Camões”

A citação transcrita aponta, logo de início, para o estado de desagregação em


que se encontra a Nação portuguesa e que, de algum modo, fará despoletar a ânsia de
renovação desejada por Fernado Pessoa e operacionalizada nos textos da Mensagem.
Fernando Pessoa acreditava que, através dos seus textos, poderia despertar as
consciências e fazê-las acreditar e desejar a grandeza outrora vivenciada. Espera
poder contribuir parar o reerguer da Pátria, relembrando, nas 1ª e 2ª partes da
Mensagem, o passado histórico grandioso e anunciando a vinda do Encoberto (3ª
parte), na figura mítica de D. Sebastião, que anunciaria o advento do Quinto Império.
Preconizava para Portugal a construção de um novo império, espiritual, capaz
de elevar os Portugueses ao lugar de destaque que outrora ocuparam a nível mundial.
Esta projecção ficar-se-ia a dever a um “poeta ou poetas supremos” que, pela sua
genialidade, colocariam Portugal, um país culturalmente evoluído, como líder de
todos os outros.
Na realidade, Fernando Pessoa antevê a possibilidade da supremacia de
Portugal, não em termos materiais, como no tempo de Camões, mas em termos
espirituais É nesta nova concepção de Império que assenta o carácter simbólico e
mítico que enforma a epopeia pessoana e que, inevitavelmente, destacará a figura
deste superpoeta, em detrimento da de Camões.

O Sebastianismo
O sebastianismo é um mito nacional de tipo religioso.
«D. Sebastião voltará, diz a lenda, por uma manhã de névoa, no seu cavalo branco...»
O sebastianismo, fundamentalmente, o que é? É um movimento religioso, feito em
volta duma figura nacional, no sentido dum mito. No sentido simbólico D. Sebastião é
Portugal: Portugal que perdeu a sua grandeza com D. Sebastião, e que só voltará a tê-
la com o regresso dele, regresso simbólico ( como, por um mistério espantoso e
divino, a própria vida dele fora simbólica ( mas em que não é absurdo confiar. D.
Sebastião voltará, diz a lenda, por uma manhã de névoa, no seu cavalo branco, vindo
da ilha longínqua onde esteve esperando a hora da volta. A manhã de névoa indica,
evidentemente, um renascimento anuviado por elementos de decadência, por restos da
Noite onde viveu a nacionalidade.

 D. Sebastião não morreu porque os símbolos não morrem. O desaparecimento


físico de D. Sebastião proporciona a libertação da alma portuguesa.

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 D. Sebastião aparece cinco vezes explicitamente na Mensagem (uma vez nas
Quinas, outra em Mar português e três vezes nos Símbolos).
Aliás, pode mesmo dizer-se que o Brasão e o Mar português são a preparação
para a chegada do Encoberto, na sua qualidade de Messias de Portugal.

D. Sebastião faz uma espécie de elogio da loucura (condenação da matéria e


sublimação do espírito)

A vinda do Encoberto era apenas por ele encarada «no seu alto sentido
simbólico» e não literal, como faziam os Sebastianistas tradicionais, de quem toma
distância, e que esse Desejado não seria mais do que um «estimulador de almas
O Quinto Império era afinal «o Império Português, subordinado ao espírito
definido pela língua portuguesa
O Quinto Império será «cultural», ou não será. E se diz, como Vieira, que o Império
será português, isso significa que Portugal desempenhará um papel determinante na
difusão dessa ideia apolínea e órfica do homem que toda a sua obra proclama.

Os Símbolos e os Mitos
 Estrutura simbólica de Mensagem
Mensagem é a expressão poética dos mitos – não se trata de uma narrativa sobre os
grandes feitos dos portugueses no passado, como em Os Lusíadas, mas sim, de um
cantar de um Império de teor espiritual, da construção de uma supra-nação, através da
ligação ocidente/oriente: não são os factos históricos propriamente ditos sobre os
nossos reis que mais importam; são sim as suas atitudes e o que eles representam,
sendo o assunto de Mensagem a essência de Portugal e a sua missão a cumprir. Daí se
interpretem as figuras dos reis nos poemas de Mensagem como heróis mas mais que
isso, como símbolos, de diferentes significados.

O três é um número que exprime a ordem intelectual e espiritual (o cosmos no


homem). O 3 é a soma do um (céu) e do dois (a Terra). Trata-se da manifestação da
divindade, é a manifestação da perfeição, da totalidade.

O sete assume também uma extrema relevância, senão vejamos, sete foram os
Castelos que D. Afonso III conquistou aos mouros, sete são os poemas de Os Castelos
.
O sete corresponde aos 7 dias da criação, assim como as 7 figuras evocadas são
também as fundadoras da nacionalidade (Ulisses fundou Lisboa, Viriato uma nação,
Conde D. Henrique um Condado, D. Dinis uma cultura, D. João uma dinastia, D.
Tareja e D. Filipa fundaram duas dinastias). Pessoa manteve na sua obra a ideia do
número sete como número da criação. O sete é o número da perfeição dinâmica. É o
número de um ciclo completo.

O cinco está ligado às chagas de Cristo, às Quinas e aos cinco impérios


sonhados por Nabucodonosar. Os quatro impérios já havidos foram a Grécia, roma, a
Cristandade e a Europa pós-renascentista. Se o 5º império fosse material, Pessoa não
teria dúvidas em apontar Inglaterra, mas como o 5º Império é o do ser, da essência, do
imaterial, o poeta não tem dúvidas em apontar Portugal.

Também os nomes dados a cada parte e alguns nomes referidos nos poemas são
também simbólicos:
• Brasão: o passado inalterável
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• Campo: espaço de vida de de acção
• Castelo: refúgio e segurança
• Quinas: chagas de Cristo – dimensão espiritual
• Coroa: perfeição e poder
• Timbre: marca – sagração do herói para missão transcendente
• Grifo: terra e céu – criação de uma obra terrestre e celeste
• Mar: vida e morte; ponto de partida; reflexo do céu; princípio masculino
• Terra: casa do homem; espelho do céu; paraíso mítico; princípio feminino
• Padrão: marco; sinal de presença; obra da civilização cristã
• Mostrengo: o desconhecido; as lendas do mar; os obstáculos a vencer
• Nau: viagem; iniciação; aquisição de conhecimentos
• Ilha: refúgio espiritual; espaço de conquista; recompensa do sacrifício
• Noite: morte; tempo de inércia; tempo de germinação; certeza da vida
• Manhã: luz; felicidade; vida; o novo mundo
Nevoeiro: indefinição; promessa de vida; força criadora; novo dia

Síntese Temática da “Mensagem”


• O mito é tudo: sem ele a realidade não existe, pois é dele que ela parte
• Deus é o agente da história; ou seja, é ele quem tem as vontades; nós somos os
seus instrumentos que realizam a sua vontade. É assim que a obra nasce e se atinge
a perfeição
• O sonho é aquilo que dá vida ao homem: sem ele a vida não tem sentido e
limita-se à mediocridade
• A verdadeira grandeza está na alma; É através do sonho e da vontade de lutar
que se alcança a glória
• Portugal encontra-se num estado de decadência. Por isso, é necessário voltar a
sonhar, voltar a arriscar, de modo a que se possa construir um outro império, um
império que não se destrói, por não ser material: é o Quinto Império, o Império
Civilizacional-Espiritual.
• D.Sebastião, além de ser o exemplo a seguir(pois deixa-se levar pela
loucura/sonho), é também visto como o salvador, aquele que trará de novo a glória
ao povo português e que virá completar o sonho, cumprindo-se assim Portugal.

A estrutura tripartida da “Mensagem”


1ª Parte – BRASÃO: o princípio da nacionalidade (em que fundadores e
antepassados criaram a pátria)
 “Ulisses” – símbolo da renovação dos mitos: Ulisses de facto não existiu mas
bastou a sua lenda para nos inspirar. A lenda, ao penetrar na realidade, faz o milagre
de tornar a vida “cá em baixo” insignificante. É irrelevante que as figuras de quem o
poeta se vai ocupar tenham tido ou não existência histórica! (“Sem existir nos
bastou/Por não ter vindo foi vindo/E nos criou.”). O que importa é o que elas
representam. Daí serem figuras incorpóreas, que servem para ilustrar o ideal de ser
português.
 “D. Dinis” – símbolo da importância da poesia na construção do Mundo:
Pessoa vê D. Dinis como o rei capaz de antever o futuro e interpreta isso através das
suas acções – ele plantou o pinhal de Leiria, de onde foi retirada a madeira para as
caravelas, e falou da “voz da terra ansiando pelo mar”, ou seja, do desejo de que a
aventura ultrapasse a mediocridade.
 “D. Sebastião, rei de Portugal” – símbolo da loucura audaciosa e
aventureira: o Homem sem a loucura não é nada; é simplesmente uma besta que
nasce, procria e morre, sem viver! Ora, D. Sebastião, apesar de ter falhado o
empreendimento épico, FOI em frente, e morreu por uma ideia de grandeza, e essa é a
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ideia que deve persistir, mesmo após sua morte (“Ficou meu ser que houve, não o que
há./Minha loucura, outros que a tomem/Com o que nela ia.”)

2ª Parte – MAR PORTUGUÊS: a realização através do mar (em que heróis


empossados da grande missão de descobrir foram construtores do grande destino da
Nação)
 “O Infante” – símbolo do Homem universal, que realiza o sonho por vontade
divina: ele reúne todas as qualidades, virtudes e valores para ser o intermediário entre
os homens e Deus (“Deus quer, o homem sonha, a obra nasce.”)
 “Mar Português” – símbolo do sofrimento por que passaram todos os
portugueses: a construção de uma supra-nação, de uma Nação mítica implica o
sacrifício do povo (“Ó mar salgado, quanto do teu sal/São lágrimas de Portugal!”)
 “O Mostrengo” – símbolo dos obstáculos, dos perigos e dos medos que os
portugueses tiveram que enfrentar para realizar o seu sonho: revoltado por alguém
usurpar os seus domínios, “O Mostrengo” é uma alegoria do medo, que tenta impedir
os portugueses de completarem o seu destino (“Quem é que ousou entrar/Nas minhas
cavernas que não desvendo,/Meus tectos negros do fim do mundo?”)

3ª Parte – O ENCOBERTO: a morte ou fim das energias latentes (é o novo ciclo


que se anuncia que trará a regeneração e instaurará um novo tempo)
 “O Quinto Império” – símbolo da inquietação necessária ao progresso, assim
como o sonho: não se pode ficar sentado à espera que as coisas aconteçam; há que ser
ousado, curioso, corajoso e aventureiro; há que estar inquieto e descontente com o que
se tem e o que se é! (“Triste de quem vive em casa/Contente com o seu lar/Sem um
sonho, no erguer da asa.../Triste de quem é feliz!”) O Quinto Império de Pessoa é a
mística certeza do vir a ser pela lição do ter sido, o Portugal-espírito, ente de cultura e
esperança, tanto mais forte quanto a hora da decadência a estimula.
 “Nevoeiro” – símbolo da nossa confusão, do estado caótico em que nos
encontramos, tanto como um Estado, como emocionalmente, mentalmente, etc.: algo
ficou consubstanciado, pois temos o desejo de voltarmos a ser o que éramos (“(Que
ânsia distante perto chora?)”), mas não temos os meios (“Nem rei nem lei, nem paz
nem guerra...”)

O carácter épico-lírico
- Lírico
 Forma fragmentária
 Atitude introspectiva
 A interiorização
 O simbolismo (3ªparte)
- Épico:
 O tom heróico (“O Monstrengo”)
 A evocação da história Trágico-Marítima (2ªparte)´

“Mensagem” vs. “Os Lusíadas”

Semelhanças: concepção mística e missionária/missionante da história portuguesa,


preocupação arquitectónica: ambas obedecem a um plano cuidadosamente elaborado,
o reverso da vitória são as lágrimas.
Diferenças:
۰ Os Lusíadas foram compostos no início do processo de dissolução do império e
Mensagem publicada na fase terminal de dissolução do império;

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۰ Os Lusíadas têm um carácter predominantemente narrativo e pouco
abstractizante, enquanto que Mensagem tem um carácter menos narrativo e mais
interpretativo e cerebral;
۰ no primeiro o Adamastor é sinónimo de lágrimas e mortes, sofrimento e audácia
que as navegações exigiram, enquanto que no segundo simboliza os medos e terrores
vencidos pela ousadia;
۰ nos Lusíadas o tema é o real, o histórico, o factual (os acontecimentos, os
lugares), em Mensagem o tema é a essência de Portugal e a necessidade de cumprir
uma missão;
۰ para Camões os deuses olímpicos regem os acidentes e as peripécias do real
quotidiano, para Pessoa os deuses são superados pelo destino, que é força abstracta e
inexorável;
۰ nos Lusíadas os heróis são pessoas com limitações próprias da condição
humana, mesmo se ajudados nos sonhos pela intervenção divina cristã ou pelos
deuses do Olimpo, em Mensagem os heróis são mitificados e encarnam valores
simbólicos, assumindo proporções gigantescas;
۰ Lusíadas: narrativa comentada da história de Portugal, Mensagem: metafísica
do ser português; Lusíadas: heróis e mitos que narram as grandezas passadas.
Mensagem: heróis e mitos que exaltam as façanhas do passado em função de um
desesperado apelo para grandezas futuras;
A comparação entre "Os Lusíadas" e a "Mensagem" impõe-se pelo próprio facto de
esta ser, a alguns séculos de distância e num tempo de decadência - o novo mito de
pátria portuguesa.

Os Lusíadas Mensagem

 Homens reais com dimensões  Heróis mitificados,


heróicas mas verosímeis; desincarnados, carregando dimensões
simbólicas
 Heróis de carne e osso, bravos
mas nunca infaliveís;  Brasão  Terra 
Nun’Álvares Pereira
 Mar Português 
Mar  Infante D. Henrique
 O encoberto  Ar 
D. Sebastião

(de uma terra de dimensões conhecidas


parte-se à descoberta do mar e constrói-se
um império. Depois o império se desfez e
o sonhos e o Encoberto são a raiz a
esperança de um Quinto Império)
 Herói colectivo: o povo  Heróis individuais exemplares
português (símbolos)
 Virtudes e manhas

 D. Sebastião (rei menino) a  D. Sebastião mito “loucura


quem Os Lusíadas são dedicados; sadia”
“tenro e novo ramo” Sonho, ambição
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(repare-se que d. Sebastião é a última
figura da história a ser mencionada,
como se quisesse dizer que Portugal
mergulhou, depois do seu
desaparecimento num longo período
de letargia)

 Celebração do passado –  Glorificação do futuro –


história símbolos
 Messianismo a mola real de
Portugal

 Narrativa comentada da  Metafísica do Ser português
história de Portugal (cf. Jorge Borges
de Macedo)
Teoria da história de Portugal
 Três mitos basilares:  Tudo é mito
o Adamastor “o mito é o nada que é tudo”
o Velho do restelo
o A ilha dos amores

 acção  contemplação
 altiva rejeição do real
 império feito e acabado  Portugal indefinido, atemporal
  Saudade profética  saudades
do futuro
 Façanhas dos barões  Matéria dos sonhos
assinalados
 Temporalidade  Atemporalidade mística
 Síntese pagão e cristão  Síntese total (sincretismo
religioso)
 D. Sebastião como enviado de  Portugal como instrumento de
Deus para alargar a Cristandade Deus
(os heróis cumprem um destino que os
ultrapassa)
 cabeça da Europa  Rosto da Europa que aguarda
expectante o que virá

O projecto da Mensagem é o de superar o carácter obsessivo e nacional d’Os


Lusíadas no imaginário mítico-poético nacional. Os Lusíadas conquistaram o título
de “evangelho nacional” e foram elevados à categoria de símbolo nacional. A
Mensagem logo no seu título aponta para um novo evangelho, num sentido místico,
ideia de missão e de vocação universal. O próprio título indicia uma revelação, uma
iniciação.
Pessoa previa para breve o aparecimento do “Supra-Camões” que anunciará o
“Supra-Portugal de amanhã”, a “busca de uma Índia Nova”, o tal “porto sempre por
achar”.
A Mensagem entrelaça-se, através de um complexo processo intertextual, com
Os Lusíadas, que por sua vez são já um reflexo intertextual da Eneida e da Odisseia.
Estabelece-se portanto um diálogo que perpassa múltiplos tempos históricos. Pessoa
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transforma-se num arquitecto que edifica uma obra nova, com moderbnidade, mas
também com a herança da memória.
Em Camões memória e esperança estão no mesmo plano. Em Pessoa, o objecto da
esperança transferiu-se para o sonho, daí a diferente concepção de heroísmo.
Pessoa identifica-se com os heróis da Mensagem ou neles se desdobra num
processo lírico-dramático. O amor da pátria converte-se numa atitude metafísica,
definivel pela decepção do real, por uma loucura consciente. Revivendo a fé no
Quinto Império, Pessoa reinventou um razão de ser, um destino para fugir a um
quotidiano
absurdo.
O assunto da Mensagem é a essência de Portugal e a sua missão por cumprir.
Portugal é reduzido a um pensamento que descarna e espectraliza as personagens da
história nacional.
A Mensagem é o sonho de um império sem fronteiras nem ocaso. A viagem
real é metamorfoseada na busca do “porto sempre por achar”.

“A Mensagem comparada com Os Lusíadas é um passo em frente. Enquanto


Camões, em Os Lusíadas, conseguiu fazer a síntrese entre o mundo pagão e o mundo
cristão, Pessoa na Mensagem conseguiu ir mais longe estabelecendo uma harmonia
total, perfeita, entre o mundo pagão, o mundo cristão e o mundo esotérico.”

Quadro-Síntese

Estilísticas
Temáticas Nível Fónico Nível Morfossintático
e semântico
- Nacionalismo mítico - musicalidade: - expressão épico-
- Sebastianismo e - Rima lírica
saudosismo - Ritmo - linguagem
- Simbolismo templário e - Aliteração metafórica, aforística,
rosacruciano - Versificação solene, simbólica
- A ideia de predestinação regular e tradicional: - paradoxo,
nacional variedade atrófica, com antítese e oxímoro
- A mitificação dos heróis predomínio da quadra e da - hiperbarto
- Intuição de um destino quintilha
colectivo - Encavalgamento
- Ocultismo procura de
uma correspondência entre o
visível e o invisível

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Heterónimos
Comparação entre Alberto Caeiro e Ricardo Reis: A nível de conteúdo estes dois
heterónimos aproxima-se principalmente pelo modo como tentam encarar a
vida: tanto Caeiro como Reis, além de considerarem que a felicidade só se
alcança através de uma vida serena e em comunhão com a natureza (aurea
mediocritas), defendem a vivência plena do presente, sem preocupação nem
com o passado nem com o futuro (carpe diem, desfrutar de cada momento).
No entanto, pode verificar-se que são grandes as diferenças entre eles.
Enquanto que Reis é caracterizado pela intelectualização das emoções e pelo medo
perante a morte, Caeiro é exactamente o poeta das sensações, considerando o
pensamento como uma entrave à observação da natureza, e é o poeta que não se
preocupa com a passagem do tempo. Outra grande diferença é que Caeiro acredita
(num só) Deus enquanto elemento da natureza (tudo é divino), ao passo que Ricardo
Reis crê em vários deuses pois identifica-se com a civilização grega.
A nível formal estes dois heterónimos são o oposto: de um lado temos Caeiro
com a sua linguagem simples e familiar, a sua despreocupação a nível fónico, a sua
irregularidade estrófica, métrica e rítmica e as suas frases essencialmente
coordenadas; e, de outro, temos RR com toda a sua complexidade – estrofes e métrica
regulares, predomínio da subordinação e linguagem erudita, cheia de simbolismos
clássicos.

Comparação entre Alberto Caeiro e Álvaro de Campos: Não é de estranhar que


estes dois poetas não tenham muito em comum, uma vez que um é o poeta
natural e pacífico, e o outro é o poeta da modernidade, da técnica e é
caracterizado por um certa violência e agressividade. No entanto, apesar destes
contrastes, têm alguns pontos em comum, considerando a 2ªfase de A. Campos:
ambos são poeta solitários, rejeitam a subjectividade da lírica tradicional,
tentando ser objectivos na observação do real, e neles predominam as sensações
visuais. As maiores divergências, a nível temático, verificam-se na concepção
do tempo (para Caeiro só existe o presente, para Campos o presente é a
concentração de todos os tempos), no objecto da sua poesia (Caeiro exulta as
qualidades da natureza e Campos, na 2ªfase, exulta as da civilização moderna),
e na atitude perante a vida (enquanto Caeiro é feliz, Campos – na 3ªfase – é um
homem sem identidade e cansado de viver, pois a vida nunca lhe trouxe nada de
bom).
A nível formal, apesar de ambos se caracterizarem pela irregularidade
estrófica, métrica e rítmica, verifica-se que, enquanto Caeiro utiliza uma linguagem
simples e com poucos artifícios, Campos distingue-se pelo recurso a um grande
número de figuras de estilo (que tornam a compreensão da mensagem mais difícil), e
por uma exuberância que choca evidentemente com a simplicidade e serenidade dos
versos do mestre Caeiro.

Comparação entre Álvaro de Campos e Ricardo Reis: Álvaro de Campos foi um


poeta que, pelo seu estilo eufórico e, mais tarde, disfórico, se afastou dos outros
heterónimos, já que estes procuravam a serenidade, que Campos também procurava,
de uma forma mais tranquila. Assim, são poucas as semelhanças entre RR e Campos:
tanto Canpos (na 3ªfase) como Reis se angustiam perante a efemeridade da vida,
consideram a infância como momento de maior felicidade e aceitam o seu destino
(conformismo). No entanto, neste último ponto, os motivos para essa aceitação são

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diferentes: enquanto que Reis o aceita pois considera que essa é a melhor forma de ser
feliz, Campos fá-lo numa atitude de resignação perante a vida, não deixando de se
sentir infeliz por aquilo que ela lhe reservou. Aquilo que mais os distancia é a sua
relação com a realidade – campos vive em eterno conflito com a humanidade e reis
“dá-lhe conselhos” (através da 1ªpessoa do plural no imperativo) – e a solidão que
caracteriza campos na 3ªfase.
A nível formal tanto um como outro apresentam versos brancos, embora Reis
seja regular a nível estrófico e métrico. Pode verificar-se que Álvaro de campos, na
2ªfase, utiliza a ode como forma de expressão, tal como Ricardo Reis. Nestes dos
heterónimos pode encontrar-se grande riqueza a nível estilísitco, nomeadamente no
que respeita `assonância e aliteração, e uma utilização frequente do modo imperativo.
No entanto, enquanto que RR submete a expressão ao conteúdo, Campos valoriza
mais a expressividade dos seus poemas, sendo que esta acaba por se sobrepôr ao seu
conteúdo – ou acabar por resumir o último.

Características comuns aos três: encontram-se, nos heterónimos, dois factores


comuns a todos eles. Primeiro, a descoberta de um equilíbrio entre o sentir e o pensar:
Caeiro encontra-se através da natureza; reis encontra-se através do equilíbrio entre a
dor e o prazer; e campos não se encontra. Em segundo lugar, verifica-se que todos
associam à infância o momento em que foram verdadeiramente felizes – porque
ingénuos e inocentes. No entanto, enquanto que reis e Caeiro acreditam poder voltar a
ser felizes como foram em criança, campos considera essa felicidade perdida, pois só
é feliz se for inconsciente, o que só aconteceu na sua infância, na pré-consciência.

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Alberto Caeiro
Para Caeiro fazer poesia é uma atitude involuntária, espontânea, pois vive no
presente, não querendo saber de outros tempos, e de impressões, sobretudo visuais, e
porque recusa a introspecção, a subjectividade, sendo o poeta do real objectivo.
Caeiro canta o viver sem dor, o envelhecer sem angústia, o morrer sem desespero, o
fazer coincidir o ser com o estar, o combate ao vício de pensar, o ser um ser uno, e
não fragmentado.
 Discurso poético de características oralizantes (de acordo com a simplicidade
das ideias que apresenta): vocabulário corrente, simples, frases curtas, repetições,
frases interrogativas, recurso a perguntas e respostas, reticências;
 Apologia da visão como valor essencial (ciência de ver)
 Relação de harmonia com a Natureza (poeta da natureza)
 Rejeita o pensamento, os sentimentos, e a linguagem porque desvirtuam a
realidade (a nostalgia, o anseio, o receio são emoções que perturbam a nitidez da
visão de que depende a clareza de espírito)

Características da escrita
- Verso livre
- Métrica irregular
- Pobreza lexical
- Adjectivação objectiva
- Pontuação lógica
- Predomínio da coordenação
- Comparações simples
- Características orais: vocabulário corrente, simples, frases curtas, repetições,
frases interrogativas, recursos a perguntas e respostas, reticências
- Pouca subordinação
- Ausência de preocupações estilísticas
- Número reduzido de vocábulos e de classes de palavras: pouca adjectivação,
predomínio de substantivos concretos, uso de verbos no presente do indicativo
ou no gerúndio
- Polissíndeto
- Frases incorrectas

Objectivismo
- apagamento do sujeito
- atitude antilírica
- atenção à “eterna novidade do mundo”
- integração e comunhão com a Natureza
- poeta deambulatório

Sensacionismo
- poeta das sensações tal como elas são
- poeta do olhar
- predomínio das sensações visuais e das auditivas

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Anti-metafísico
- recusa do pensamento
- recusa do mistério
- recusa do misticismo

Panteísmo Naturalista
- tudo é Deus, as coisas são divinas
- paganismo
- desvalorização do tempo enquanto categoria conceptual
- contradição entre “teoria” e a “prática”

Ideologia da poesia de Caeiro

- Para Caeiro fazer poesia é uma atitude involuntária, espontânea e de


impressões visuais, sobretudo
- Recusa a introspecção e a subjectividade, sendo poeta do real objectivo.
- Caeiro “canta” o viver sem dor, o envelhecer sem angústia, o morrer sem
desespero, o fazer coincidir o ser com o estar, o combate ao vício de pensar, o
ser um ser uno e não fragmentado.
- Apologia da visão como valor essencial (ciência de ver)
- Relação de harmonia com a natureza 8poeta da natureza)
- Rejeita o pensamento e a linguagem porque alteram a realidade
- Inocência e constante novidade das coisas
- Mestre de pessoa e dos outros heterónimos
- Elimina a dor de pensar de Pessoa
- Ele não quer pensar, mas não consegue evitar
- Escreve intuitivamente
- Para ele a natureza é para usufruir não para pensar
- Desejo de despersonificação (de fusão com a natureza)
- Valorização das sensações
- Preocupação apenas com o presente
- é anti-religião
- é anti-metafísica
- é anti-filosofia

Características estilísticas
- Verso livre
- Métrica irregular
- Despreocupação a nível fónico
- Pobreza lexical (linguagem simples, familiar)
- Adjectivação objectiva
- Pontuação lógica
- Predomínio do presente do indicativo
- Frases simples
- Predomínio da coordenação
- Comparações simples
- Raras metáforas

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Biografia
A partir da carta a Adolfo Casais Monteiro
*nasceu em Lisboa (1889);
*morreu tuberculoso em 1915;
*viveu quase toda a sua vida no campo;
*só teve instrução primária;
*não teve educação, nem profissão;
*escreve por inspiração;
Filosofia de Caeiro:
*é anti-religião;
*é anti-metafísica;
*é anti-filosofia;

Fisicamente:
*estatura média;
*frágil;
*louro, quase sem cor;
*olhos azuis;
*cara rapada;

Quadro-Síntese:

Estilísticas
Temáticas

- Objectivismo - Verso livre, portanto avesso a


- Apagamento do sujeito quaisquer esquenas métricos, rimáticos ou
- Preferência pela exterioridade melódicos
- Integração e comunhão com a - Prosaísmo da linguagem (simples e
natureza familiar)
- Sensacionismo: predomínio das - Raras assonâncias, aliterações ou
sensações visuais ( o olhar) e auditivas onomatopeias
- Recusa do pensamento, do - Pobreza lexical
metafísico, do mistério, da filosofia e do - Anáfora, anadiplose, paralelismo,
misticismo. assíndeto, polissíndeto, tautologia e
- A ruralidade e o deambulismo comparação (figura de estilo predominante)
- O paganismo - Adjectivação pobre, descritiva e
- A desvalorização do tempo: “Não objectiva
quero incluir o tempo no meu esquema” - Raras metáforas, metonímias e
sinestesias
- Preponderância do Presente do
Indicativo (por traduzir realidade)
- Estilo discursivo
- Marcas de oralidade
- Predomínio da coordenação e das
frases simples

20
Ricardo Reis
Biografia:
- Nasce a 1887 no Porto
- É um pouco baixo, mais seco e mais forte que Caeiro. Tem a cara rapada e
é moreno mate
- Surge como produto do pensamento abstracto de Pessoa
- Frequentou um colégio Jesuíta e estudou medicina; é latinista e semi
helenista por auto – didactismo
- Habita no Brasil desde 1919

Características de escrita:
- Exagerado
- Purismo da língua
- Pagão
- Disciplinado mentalmente
- O Verso não tem rima, porque se os pensamentos são elevados as palavras
também fluem superiormente
- Todos os seus poemas são Odes
- Recurso à assonância, à rima interior e à aliteração
- Uso frequente do gerúndio e do imperativo
- Uso de latinismos
- Metáforas, eufemismos, comparações, imagens
- Importância dada ao ritmo
- Estilo construído com muito rigor e muito denso (Ode)
Ode:
- Versos decassílabos e hexassílabos (geralmente alternados)
- Linguagem erudita (próxima do latim, muito cuidada)
- Hipérbato (desorganização dos elementos da frase)
- Transporte
- Tom Elevado

Filosofia:
*”epicurista triste”- (Carpe Diem)- busca do prazer moderado a da ataraxia;
*busca do prazer relativo;
*estoicismo – aceitação calma e serena da ordem das coisas;
*moralista – pretende levar os outros a adoptar a sua filosofia de vida;
*intelectualiza as emoções;
*temática da miséria da condição humana do FATUM (destino), da velhice, da
irreversibilidade da morte e da efemeridade da vida, do tempo;
*espirito grave , ansioso de perfeição;
*aceitação do Fado, da ordem natural das coisas;

A filosofia de Reis rege-se pelo ideal “Carpe Diem”, a sabedoria consiste em


saber-se aproveitar o presente, porque se sabe que a vida é breve. Há que nos
contentarmos com o que o destino nos trouxe. Há que viver com moderação, sem nos
apegarmos Às coisas, e por isso as paixões devem ser comedidas, para que a hora da
morte não seja demasiado dolorosa.
Aceita a relatividade e fugacidade das coisas.

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Intelectualiza as emoções.
Temática da miséria da condição humana do destino, da velhice, da
irreversibilidade da morte e da efemeridade da vida, do tempo.
Espírito grave, ansioso de perfeição.

Neoclassicismo
- poesia construída com base em ideias elevada
- Odes (forma métrica por excelência
Paganismo
- crença nos deuses
- crença na civilização da Grécia
- sente-se um “estrangeiro” fora da sua pátria, a Grécia

Horacianismo
- carpe diem: vive o momento
- aurea mediocritas: a felicidade possível no sossego do campo
(proximidade de Caeiro)
- Culto do Belo, como forma de superar a efermeridade dos bens e a
miséria da vida
- Intelectualização das emoções
- Medo da morte
- Quase ausência de erotismo, em contraste com o seu mestre Horácio

Estoicismo
- aceitação das leis do destino (“... a vida/ passa e não fica, nada deixa e
nunca regressa.”)
- indiferença face às paixões e à dor
- abdicação de lutar
- autodisciplina
- Considera ser possível encontrar a felicidade desde que se viva em
conformidade com as leis do destino que regem o mundo permanecendo indiferente
aos males e ás paixões, que são a perturbação da razão

Classicismo erudito:
- Precisão verbal
- Recurso à mitologia (crença e culto aos deuses)
- Princípio de moral e da estética epicurista e estóica
- Tranquila resignação ao destino

Epicurismo:
- Prazer do momento
- Caminho da felicidade, alcançada pela indiferença à perturbação
- Não cede aos impulsos dos instintos
- Ataraxia (tranquilidade sem qualquer perturbação)
- Calma, ou pelo menos a sua ilusão
- Ideal ético de apatia que permite a ausência da paixão e a liberdade
- Busca da felicidade relativa
- moderação nos prazeres
- fuga à dor
- ataraxia (tranquilidade capaz de evitar a perturbação)

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“Reis […] manifesta uma aguda mas estóica sensibilidade em relação ao tema da
passagem do tempo.”

Ricardo Reis, heterónimo de Fernando Pessoa, é o poeta clássico, da


serenidade epicurista, que aceita, com calma lucidez, a relatividade e a fugacidade de
todas as coisas. “Vem sentar-te comigo Lídia, à beira do rio”, “Prefiro rosas, meu
amor, à pátria” ou “Segue o teu destino” são poemas que nos mostram que este
discípulo de Caeiro aceita a antiga crença nos deuses, enquanto disciplinadora das
nossas emoções e sentimentos, mas defende, sobretudo, a busca de uma felicidade
relativa alcançada pela indiferença à perturbação.
A filosofia de Ricardo Reis é a de um epicurismo triste, pois defende o prazer
do momento, o “carpe diem”, como caminho da felicidade, mas sem ceder aos
impulsos dos instintos. Apesar deste prazer que procura e da felicidade que deseja
alcançar, considera que nunca se consegue a verdadeira calma e tranquilidade –
ataraxia.
Ricardo Reis propõe, pois, uma filosofia moral de acordo com os princípios do
epicurismo e uma filosofia estóica:
- “Carpe diem” (aproveitai o dia), ou seja, aproveitai a vida em cada dia, como
caminho da felicidade;
- Buscar a felicidade com tranquilidade (ataraxia);
- Não ceder aos impulsos dos instintos (estoicismo);
- Procurar a calma, ou pelo menos, a sua ilusão;
- Seguir o ideal ético da apatia que permite a ausência da paixão e a liberdade
(sobre esta apenas pesa o Fado).
Ricardo Reis, que adquiriu a lição do paganismo espontâneo de Caeiro, cultiva
um neoclassicismo neopagão (crê nos deuses e nas presenças quase divinas que
habitam todas as coisas), recorrendo à mitologia greco-latina, e considera a brevidade,
a fugacidade e a transitoriedade da vida, pois sabe que o tempo passa e tudo é
efémero. Daí fazer a apologia da indiferença solene diante o poder dos teus e do
destino inelutável. Considera que a verdadeira sabedoria de vida é viver de forma
equilibrada e serena, “sem desassossegos grandes”.
A precisão verbal e o recurso à mitologia, associados aos princípios da moral e
da estética epicuristas e estóicas ou à tranquila resignação ao destino, são marcas do
classicismo erudito de Reis. Poeta clássico da serenidade, Ricardo Reis privilegia a
ode, o epigrama e a elegia. A frase concisa e a sintaxe clássica latina, frequentemente
com a inversão da ordem lógica (hipérbatos), favorecem o ritmo das suas ideias
lúcidas e disciplinadas.

23
Quadro-Síntese:
Estilísticas
Temáticas

- O Epicurismo, busca de uma - Submissão da expressão ao conteúdo,


felicidade relativa, sem desprazer ou dor, às ideias
através de um estado de ataraxia, isto é, - A complexidade da síntasxe
uma certa tranquilidade ou indiferença alatinada:
capaz de evitar a perturbação o A antecipação do
- O Estoicismo, crença de que a complemento directo ao verbo
felicidade só é possível se atingirmos a o A inesperada ordem das
apatia, isto é, a aceitação das leis do palavras que nos obriga a uma leitura
destino e da indiferença face às paixões a silabada
aos males - O uso de latinismo: atro, ledo, ínfero,
- O Paganismo inscientes, volucres, vila, etc
- A passagem inelutável do tempo - A frequência da inversão (anástrofe e
- A precariedade da vida e a hipérbato) e da elipse
fatalidade da Morte - As perífrases que remetem para um
- A moderação dos desejos e dos contexto religioso e mitológico grego ou
prazeres laitno
- O culto do belo, como forma de - Estilo denso e rigorosamente
superar a transitoriedade da vida e dos elaborado.
bens terrenos - A preferência pela ode, com estrofes
- As ameaças do Fatum (entidade regulares em verso decassílabo, alternando
implacável que oprime deuses e homens), ou não com o hexassílabo
da Velhice e da Morte - Uso frequente do gerúndio
- O Elogio da vida rústica ( a “aurea - Selecção cuidada de fonemas ou
mediocritas” de Horácio): a felicidade só vocábulos sugestivos das ideias que pretende
é possível no sossego d campo exprimir (a elevação, a nobreza, o
- O gozo do momento que passa, o classicismo da linguagem poética)
“carpe diem” horaciano - Verso branco ou solto, recorrendo
- A tentativa de iludi o sofrimento embora, com frequência, à assonância, à
resultante da consciência aguda da aliteração e à rima interior
precariedade da vida, do fluir contínuo do - Uso frequente do imperativo ( de
tempo e da fatalidade da morte, através do acordo com a feição moralista das odes)
sorriso, do vinho e das flores.
- A intelectualização das emoções
- A intemporalidade das suas
preocupações: a angústia do homem
perante a brevidade da vida e a
inevitabilidade da Morte e a interminável
busca de estratégias de limitação do
sofrimento da vida humana
- O autodomínio e a contenção dos
sentimentos
- A quase ausência de erotismo, de
amor autêntico

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Álvaro de Campos
Álvaro de Campos surge quando Fernando Pessoa sente “um impulso para
escrever”. O próprio Pessoa considera que Campos se encontra no «extremo oposto,
inteiramente oposto, a Ricardo Reis”, apesar de ser como este um discípulo de Caeiro.
Campos é o “filho indisciplinado da sensação e para ele a sensação é tudo. O
sensacionismo faz da sensação a realidade da vida e a base da arte. O eu do poeta
tenta integrar e unificar tudo o que tem ou teve existência ou possibilidade de existir.
Este heterónimo aprende de Caeiro a urgência de sentir, mas não lhe basta a
«sensação das coisas como são»: procura a totalização das sensações e das percepções
conforme as sente, ou como ele próprio afirma “sentir tudo de todas as maneiras”.
Engenheiro naval e viajante, Álvaro de Campos é figurado “biograficamente” por
Pessoa como vanguardista e cosmopolita, espelhando-se este seu perfil
particularmente nos poemas em que exalta, em tom futurista, a civilização moderna e
os valores do progresso.
Cantor do mundo moderno, o poeta procura incessantemente “sentir tudo de todas as
maneiras”, seja a força explosiva dos mecanismos, seja a velocidade, seja o próprio
desejo de partir. “Poeta da modernidade”, Campos tanto celebra, em poemas de estilo
torrencial, amplo, delirante e até violento, a civilização industrial e mecânica, como
expressa o desencanto do quotidiano citadino, adoptando sempre o ponto de vista do
homem da cidade.
O drama de Álvaro Campos concretiza-se num apelo dilacerante entre o amor do
mundo e da humanidade; é uma espécie de frustração total feita de incapacidade de
unificar em si pensamento e sentimento, mundo exterior e mundo interior. Revela,
como Pessoa, a mesma inadaptação à existência e a mesma demissão da
personalidade íntegra., o cepticismo, a dor de pensar e a nostalgia da infância.

Biografia
 Nasce em Tavira, em 1890
 Estuda engenharia mecânica e naval na Escócia
 “Filho indisciplinado da sensação e para ele a sensação é tudo. O
sensacionismo faz da sensação a realidade da vida e a base da arte.”
 “Sentir tudo de todas as maneiras”
 Vanguardista e cosmopolita
 Único heterónimo que comparticipa da vida extra literária de Fernando Pessoa
heterónimo

Fases
Primeira – decadentismo (1914)
Eprime o tédio, o cansaço e a necessidade de novas sensações (“Opiário”); o
decadentismo surge como uma atitude estética finissecular que exprime o tédio, o
enfado, a náusea, o cansaço, o abatimento e a necessidade de novas sensações. Traduz
a falta de um sentido para a vida e a necessidade de fuga à monotonia. Com
rebuscamento, preciosismo, símbolos e imagens apresenta-se marcado pelo
Romantismo e pelo Simbolismo.
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 Tédio, cansaço, necessidade de novas sensações
 Falta de um sentido para a vida
 Romantismo e simbolismo
 Nostalgia
 Saturação
 Embriaguez do ópio
 Horror à vida
 Realismo satírico
 Vocabulário precioso e vulgar
 Imagens
 Símbolos
 Estilo confessional brusco
 Decassílabos agrupados em quadras
 “Opiário “

Segunda – Futurismo (1914 a 1916)


Nesta fase, Álvaro de Campos celebra o triunfo da máquina, da energia
mecânica e da civilização moderna. Sente-se nos poemas uma atracção quase erótica
pelas máquinas, símbolo da vida moderna. Campos apresenta a beleza dos
“maquinismos em fúria” e da força da máquina por oposição à beleza
tradicionalmente concebida. Exalta o progresso técnico, essa “nova revelação
metálica e dinâmica de Deus”. A “Ode Triunfal” ou a “Ode Marítima” são bem o
exemplo desta intensidade e totalização das sensações. A par da paixão pela máquina,
há a náusea, a neurastenia provocada pela poluição física e moral da vida moderna.
 Elogio da civilização industrial e da técnica
 Triunfo da máquina, beleza dos “maquinistas em fúria”
 Intelectualização das sensações, delírio sensorial
 Não aristotélica
 Sado masoquismo
 Cantar lúcido do mundo moderno
 Influência de Walt Whitman
 Vertigem das sensações modernas
 Volúpia da imaginação
 Hipertrofia ilimitada do eu
 Energia explosiva
 Impulsos inconscientes
 Verso livre, longo
 Estilo esfuziante, torrencial
 Anáforas, exclamações, interjeições, apóstrofes e enumerações
 Fantasia verbal
 Volúpia de ser objecto
 Vítima
 Dispersão
 “Ode triunfal”

Terceira fase – pessoal ou intimista (1916 a 1935)


Perante a incapacidade das realizações, traz de volta o abatimento, que provoca
“Um supremíssimo cansaço, /íssimo, íssimo, íssimo, /Cansaço…”. Nesta fase,
Campos sente-se vazio, um marginal, um incompreendido. Sofre fechado em si

26
mesmo, angustiado e cansado. (“Esta velha angústia”; “Apontamento”; “Lisbon
revisited”).
 Melancolia
 Devaneio
 Cosmopolitismo
 Cepticismo
 Dor de pensar
 Saudades da Infância ou do Irreal
 Dissolução do eu
 Conflito entre a realidade e o poeta
 Cansaço, tédio e abulia
 Angustia existencial
 Solidão
 “Aniversário” e a “Tabacaria”

Traços da sua poesia


 Poeta modernista
 Poeta sensacionista
 Cultor das sensações sem limite
 Poeta de verso livre
 Poeta de angustia existencial e da auto ironia

Traços estilísticos
 Verso livre em geral muito longo
 Assonâncias, onomatopeias, aliterações
 Grafismos expressivos
 Mistura de níveis de língua
 Enumerações excessivas, exclamações, interjeições e pontuação emotiva
 Desvios sintácticos
 Estrangeirismos e neologismos
 Subordinação de fonemas
 Construções nominais, infinitivas e gerundivas
 Metáforas ousadas, oximoros, personificações, hipérboles
 Estética não aristélica na fase futurista.

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Quadro-Síntese:
Estilísticas
Temáticas

- Apologia da civilização mecânica, - Exclamação, apóstrofe repetida,


da indústria, da técnica (futurismo e interjeição, gradação (ascendente e
sensacionismo): tentativa de romper com descendente)
o subjectivismo da lírica tradicional - Repetição, simetria de construção,
- Atitude escandalosa, chocante: assonância, aliteração, rima interior,
trangressão de uma atitude moral enumeração desordenada, polissíndeto
estabeleciada - Construções nominais e infinitivas
- Traços de anti-filosofia e anti- - Verso livre e, em geral, muito longo (
poesia duas ou três linhas) e com encavalgamento
- Sadismo e masoquismo - Onomatopeia
- Ilusão: sonho; retorno impossível à - Grafismo inovador
infância; viagem - Oxímoro
- Mais evolutivo que qualquer dos - Uso expressivo da pontuação:
outros heterónimos (três fases) exclamação, interrogação, reticências
- Última fase: conflito - Estrangeirismos, neologismos e
realidade/poeta: cansaço existencial, susbstantivação de fonemas
náusea, tédio, abulia; estranheza da - Metáfora, personificação e hipérbole
realidade solidão; isolamento; dissolução
do “eu”; ritmo lento

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Lusíadas
Os elementos do género épico
Características gerais do género épico:
o Uma acção épica expressiva de grandeza e heroísmo de
uma forma solene
o Um protagonista que, além da sua alta estirpe social,
devia revelar grande valor moral
o Unidade de acção
o Os episódios dão extensão à epopeia, mas servem,
sobretudo, para a enriquecer, sem quebrar a unidade de acção
o A intervenção do maravilhoso na acção
o A utilização do modo narrativo, pelo poeta em seu
próprio nome ou assumindo personalidades diversas
o A reduzida intervenção do poeta
Características do género épico em “Os Lusíadas”:
a) A acção é a descoberta do caminho marítimo para a Índia por Vasco da
Gama, como acontecimento culminante da História de Portugal até à data da
composição da obra e definidor do perfil do herói, isto é, o Povo Português, “o
peito ilustre lusitano”
Havia determinadas qualidades que a acção de uma epopeia devia
reunir: a unidade, a variedade, a verdade e a integridade.
1. A unidade é, porventura, a característica fundamental, dado que exige
que todas as suas partes ou séries de acontecimentos constituam um todo
harmonioso
2. A variedade é conseguida através da inserção de episódios, cuja função
é embelezar a acção e quebrar a monotonia de uma narração continuada, mas
sempre sem prejudicar a unidade, através do estabelecimento hábil de uma
relação como o acontecimento ou a figura de que a acção se ocupa em cada
momento.
São variados os tipos de episódios que encontramos em “Os Lusíadas”:
 Mitológicos
 Bélicos
 Líricos
 Naturalistas
 Simbólicos
 Humorístico ou herói-cómico
 Cavalheiresco
3. A verdade consiste no tratamento de um assunto real ou, pelo menos,
verosímil
4. A integridade exige a estruturação de uma narrativa com princípio,
meio e fim ( introdução, desenvolvimento e conclusão)
b) A personagem - (os sujeitos ou heróis da acção) – o povo português, um
herói colectivo, que na obra é simbolicamente representado por vasco da
Gama
c) O maravilhoso, que consiste na intervenção, de entidades sobrenaturais na
acção, umas favorecendo, outras dificultando. Cada interventor tem as suas
razões para desejar o sucesso ou o insucesso dos marinheiros portugueses.

29
d) A forma: “Os Lusíadas” são uma narrativa em verso, dividida em dez
cantos, com um número aproximado de cento e dez estrofes cada. As estrofes
são oitavas em verso decassilábico, geralmente heróico
O esquema rimático é fixo – ABABABCC – sendo, portanto, a rima
cruzada nos seis primeiros versos e emparelhada nos dois últimos.

Quadro-Síntese:
CONCRETIZAÇÃO
ELEMENTOS EM “OS CARACTERÍSTICAS
LUSÍADAS”
- Unidade ligação entre as
diversas partes
- A acção - Variedade inserção de
- viagem de Vasco da
acontecimentos episódios para quebrar a monotonia e
Gama, acontecimento
representados ao longo embelezar a acção
culminante da história
da obra - Verdade assunto real, ou, pelo
de Portugal
menos, verosímil
- Integridade criação de uma
intriga com principio, meio e fim
- individual e principal, com
uma dimensão simbólica ( um povo de
- Vasco da gama marinheiros)
- A personagem os - O Povo - herói colectivo, fundamental
agentes ou heróis da Português numa epopeia
acção - Camões - herói individual
- Etc - Não são meros símbolos, têm
paixões humaníssimas, identificam o
êxito e o fracasso, a vitoria e a derrota
- Júpiter, Vénus, - Pagão deuses pagãos
- O maravilhoso
Marte, Baco, etc. - Cristão desuses do
intervenção de seres
- Deus ( A cristianismo
sobrenaturais na acção
Divina Providência - Misto mistura dos dois
Cristã) anteriores
- dez cantos
- narrativa em versos
decassílabicos, geralmente heróicos,
agrupados em oitavas
A forma - rima cruzada nos seis
primeiros versos e emparelhada nos
dois últimos
- esquema rimático:
ABABABCC

A estrutura externa
A obra distribui-se por dez cantos, cada um deles com um número
variável de estrofes ( em média cento e dez). O número total de estrofes da
epopeia é de mil cento e duas. As estrofes são oitavas, isto é, constituídas por
oito versos. Os versos são decassilábicos, na sua maioria heróicos (acentuados
nas 6º e 10ª sílabas), surgindo, também, por vezes, o verso sáfico (acentuado
nas 4º, 8ª e 10ªsílabas).

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O esquema rimático é o mesmo em todas as estrofes da obra -
ABABABCC, sendo, portanto, a rima cruzada nos seis primeiros versos e
emparelhada nos dois últimos.

A estrutura interna
“Os Lusíadas” apresenta as tradicionais três partes lógicas: introdução,
desenvolvimento e conclusão.
Assim, das quatro partes de uma epopeia clássica (proposição,
invocação, dedicatória e narração) constituem as três primeiras a introdução
( I, 1-18 ); a narração constituirá o desenvolvimento; e considerar-se-á
concluída quando os marinheiros entrarem “pela foz do Tejo ameno” ( X,
144). A conclusão, ou epílogo, inclui as restantes doze estrofes do canto X
(145-156) e exprime um desabafo desencantado perante a Musa e uma
exortação final a D.Sebastião, prometendo cantar-lhe os feitos futuros.

Introdução (proposição, invocação e dedicatória)

A proposição
Consiste na apresentação do assunto (Canto I, 1-3), em que Camões
proclama cantar as grandes vitórias e os homens ilustres (“As armas e os
barões assinalados”), as conquistas e navegações no Oriente (reinados de
D. Manuel e de D. João III), as vitórias em África e na Ásia (desde D. João I a
D. Manuel), que dilataram “a Fé e o Império” e, por último, todos aqueles que
“por obras valerosas se vão da lei Morte libertando”, todos aqueles que, no
passado, no presente e no futuro, mereceram, merecem ou vieram a merecer a
imortalidade” na memória dos homens.
Predomínio da função apelativa, pelo uso do conjuntivo com sentido de
imperativo (cessem, cale-se, cesse) e pela repetição daquelas formas verbais
sinónimas.

A invocação
Consiste em pedir ajuda a entidades mitológicas, chamadas Musas.
Isso acontece várias vezes ao longo do poema, sempre que o sujeito da
enunciação sente faltar-lhe a inspiração suficiente, seja em resultado da
grandeza da tarefa que se lhe impõe, seja porque as condições são adversas.
Todavia, no canto X, estrofe 145, Camões dirige-se, finalmente, à Musas
(Calíope) para um lamento sincero e a confissão de “não mais” poder “cantar a
gente surda e endurecida”.
Predomínio, ainda, da função apelativa da linguagem, pelo uso do
imperativo, do vocativo, e da repetição anafórica.
Pretende Camões, nestas duas estrofes, que as tágides lhe dêem um
estilo sublime, à altura dos feitos que se propõe narrar e de forma que a gesta
lusíada se torne conhecida em todo o universo. Não lhe interessa, agora, a
inspiração lírica e bucólica que as Musas lhe prodigalizaram. Pretende agora
voar mais alto.

A dedicatória
A dedicatória (I, 6-18) é o oferecimento do poema a D. Sebastião.
O carácter oratório do discurso é que determina o uso da 2ª pessoa do
plural (“vós”), do modo imperativo (“inclinai”, “ponde”) e de numerosas
apóstrofes.

31
D. Sebastião encarna toda a esperança do poeta que quer ver nele um
monarca poderoso, capaz de retomar a “dilatação da Fé e do Império” e de
ultrapassar a crise do momento.
Camões dirige-se a D. Sebastião, usando repetidamente a cerimoniosa
2ª pessoa do plural e sucessivas apóstrofes e perífrases altamente elogiosas,
vendo nele o depositário providencial da independência da Pátria e a garantia
da dilatação da Fé Cristã e da construção dum Império onde sempre haveria
Sol, porque se estenderia de Leste a Oeste do Universo.

Desenvolvimento – os quatro planos de organização da narrativa:

A viagem
A quarta parte da epopeia, a narração, é que constitui a acção principal
que, à maneira clássica, se inicia “in media res”, isto é, quando a viagem já vai
a meio, encontrado-se já os marinheiros em pleno Oceano Índico.
Este começo da acção central, a viagem de descoberta do caminho
marítimo para a Índia, quando os Portugueses se encontram já a meio do
percurso, no Canal de Moçambique, vai permitir:
- a narração do percurso até Melinde pelo narrador heterodiegético
(cantos I e II)
- a narração da História de Portugal até à viagem (cantos III, IV e V,85),
em forma de discurso do Gama, dirigido ao Rei de Melinde e a pedido deste
- A inclusão da narração da primeira parte da viagem e ao surgimento da
“doença crua e feia” (escorbuto) na retrospectiva histórica atrás referida
- A apresentação do último troço da viagem (canto VI), entre Melinde e
Calecute, de novo por um narrador heterodiegético.
Mas, simultaneamente, os deuses reúnem em consílio, para decidir “sobre
as cousas futuras do Oriente” e, de vez em quando, tece o poeta considerações
pessoais.
A narrativa organiza-se em quatro planos: o da viagem e dos deuses,
em alternância, ocupam uma posição fulcral; a História passada de Portugal
está encaixada na viagem; as considerações pessoais aparecem normalmente
nos fins de cantos e constituem, de um modo geral, a visão crítica do Poeta
sobre o seu tempo.
Já a Proposição aponta para os quatro planos do poema: a celebração
de uma viagem a glorificação de um povo do poema: a celebração de uma
viagem, a glorificação de um povo cuja histórica será narrada, por traduzir a
vitória sobre os deuses, na interpretação pessoal do poeta: “Cantando
espalharei por toda a parte”.

A Histórica de Portugal: os discursos e as profecias


A História de Portugal, exposta em discurso (de Vasco da Gama ao rei
de Melinde e de Paulo da Gama ao Catual, para a histórica passada em relação
à viagem – 1498) e em profecias ( de Jupiter, de Adamastor, da ninfa Sirena e
de Tétis, em relação à história futura em relação à viagem), não tem uma
unidade intrínseca.
Uma parte dessa história é dada em sequência cronológica e consta do
discurso de vasco da Gama ao rei de Melinde. Outra parte é dada em quadros
soltos, como são as pinturas (“bandeiras”) que Paulo da Gama explica ao
Catual ou as profecias de Júpiter, do gigante Adamastor, de Tétis ou da Ninfa
Sirena.
32
Abundam, os discursos, ora dos narradores, ora dos protagonistas das
histórias: o da “formosísima Maria”, a seu pai; o de Inês de Castro ao sogro
(Afonso IV); o de Nuno Álvares Pereira, no canto IV.
A exposição dos feitos dos Portugueses caracteriza-se pela ausência de
uma acção de conjunto. Não é, portanto, que encontrámos a mola do poema.

Os deuses
A intriga dos deuses abre com o consílio, com que se inicia a acção do
poema (I; 20-41) e fecha na ilha de Vénus, com que ele, praticamente, se
encerra.
Formalmente, a unidade de “Os Lusíadas” é estabelecida pela intriga
dos deuses. Eles estão em cena desde o princípio até ao fim do poema, o qual
abre com o consílio dos deuses e termina com a Ilha dos Amores. Não se trata
de mero quadro externo, ou de uma sobreposição, mas da mola real do poema,
que não tem outra. As personagens mitológicas têm uma vida que falta às
personagens históricas: são elas as verdadeiras criaturas humanas, que sentem,
que se apaixonam, intrigam e fazem rebuliço. O Gama é muito mais hirto e
frio que o Gigante Adamastor, apesar de este ser um cabo, uma rocha. E
ninguém tem o vulto, a irradiação, a força, a personalidade provocante de
Vénus.
Através da mitologia, Camões exprime algumas tendências profundas
do Renascimento:
- a vitória dos homens sobre os deuses, que personificam os
limites opostos pela tradição à iniciativa humana
- a confiança na capacidade humana para dominar a natureza
- a concepção da natureza como um ser vivo
- a afirmação (apenas virtual) de Deus coo uma imanência
- a crença na bondade da natureza
- a identificação da lei da razão com a lei da liberdade
- a proscrição da noção de pecado

As considerações pessoais
Este plano, é aquele em que o autor se permite tecer considerações, na
maior parte das vezes de carácter satírico, sobre matérias muito diferenciadas:
- a fragilidade da vida humana face ais “grandes e gravíssimos
perigos” tanto no mar como na terra (I, 105-106)
- o desprezo a que as Artes e as Letras muitas vezes são votadas
pelos Portugueses (V, 91-100)
- o valor da glória e das honras por mérito próprio (VI, 95-99)
- a ingratidão de que se sente vítima por parte da sociedade (VII,
78-87)
- o poder corruptor do ouro, o “metal luzente e louro”, também
motor de traições (VIII, 96-99)
- os modos de atingir a imortalidade, condenado a cobiça, a
ambição e a tirania (IX, 92-95)
- a decadência da Pátria, a “austera, apagada e vil tristeza” (X,
145)
- a invectiva ao Rei, renovando os apelos da Dedicatória, e
incentivando-o a tomar medidas no sentido de corrigir e repor o país na senda
do êxito (X, 146-156)

33
Conclusão
Camões lamenta perante a Musa (Calíope) a inutilidade do seu canto
face à indiferença da sociedade do seu tempo (“gente surda e endurecida”),
afogada que está “no gosto da cobiça e na rudeza/Duma austera, apagada e vil
tristeza”; da estrofe 146 até ao fim do , Camões dirige-se ao novo Rei, última
esperança de regeneração da Pátria, aconselha-o a “favorecer” todos aqueles
que estejam dispostos a servir desinteressadamente e conclui a sua obra
oferecendo-se para cantar os feitos que D. Sebastião venha a praticar em
África.

A universalidade e actualidade da mensagem


“os Lusíadas” são o poema do mar, dos descobrimentos, das trocas
internacionais? Sim, sem qualquer dúvida. Mas Camões defende,
simultaneamente, o amor e a guerra, o império do amor e o amor do império.
Tem-se a impressão de que Camões, poeta lírio, faz uma aposta – a aposta de
escrever uma epopeia – cumpriu a sua palavra até ao fim, mas durante a
realização de um trabalho de muitos anos sofreu momentos de dúvida e pôs
em causa aquilo que exaltava. As contradições do poema são as contradições
do seu século, e desta conclusão podemos inferir da sua universalidade, pois
“OS Lusíadas” não são exclusivamente o canto do nacionalismo que se
estruturava – mas também uma meditação sobre os valores. Trata-se, com
efeito, das contradições dialécticas de uma voz que exprime a consciência
moral, social e política da Europa num momento da sua evolução.
“Os Lusíadas,. Poema simultaneamente épico e crítico, veiculam pois
uma mensagem universal de humanismo generoso que contrabalança e
ultrapassa a tolerância religiosa e um patriotismo estreito. A sua problemática,
bem como a sua arte, interessa ainda aos nosso dias, aos homens de todo o
mundo. Nele se descobre já a aspiração profunda ao conhecimento e ao amor
do próximo, condição necessária quer para o desenvolvimento harmonioso do
indivíduo quer para a criação cultural e o triunfo da paz.

Os Dez Cantos d'Os Lusíadas

Canto I
O poeta indica o assunto global da obra, pede inspiração às ninfas do Tejo e
dedica o poema ao Rei D. Sebastião. Na estrofe 19 inicia a narração de viagem de
Vasco da Gama, referindo brevemente que a Armada já se encontra no Oceano Índico,
no momento em que os deuses do Olimpo se reúnem em Consílio convocado por
Júpiter, para decidirem se os Portugueses deverão chegar à Índia.
Com o apoio de Vénus e Marte e apesar da oposição de Baco, a decisão é
favorável aos Portugueses que, entretanto, chegam à Ilha de Moçambique. Aí Baco
prepara-lhes várias ciladas que culminam com o fornecimento de um piloto por ele
instruído para os conduzir ao perigoso porto de Quíloa. Vénus intervém, afastando a
armada do perigo e fazendo-a retomar o caminho certo até Mombaça. No final do
Canto, o poeta reflecte acerca dos perigos que em toda a parte espreitam o Homem.

34
Canto II
O rei de Mombaça, influenciado por Baco, convida os Portugueses a entrar
no porto para os destruir. Vasco da Gama, ignorando as intenções, aceita o convite, pois
os dois condenados que mandara a terra colher informações tinham regressado com
uma boa notícia de ser aquela uma terra de cristãos. Na verdade, tinham sido enganados
por Baco, disfarçado de sacerdote. Vénus, ajudada pelas Nereidas, afasta a Armada, da
qual se põem em fuga os emissários do Rei de Mombaça e o falso piloto.
Vasco da Gama, apercebendo-se do perigo que corria, dirige uma prece a
Deus. Vénus comove-se e vai pedir a Júpiter que proteja os Portugueses, ao que ele
acede e, para a consolar, profetiza futuras glórias aos Lusitanos. Na sequência do
pedido, Mercúrio é enviado a terra e, em sonhos, indica a Vasco da Gama o caminho até
Melinde onde, entretanto, lhe prepara uma calorosa recepção. A chegada dos
Portugueses a Melinde é efectivamente saudada com festejos e o Rei desta cidade visita
a Armada, pedindo a Vasco da Gama que lhe conte a história do seu país.

Canto III
Após uma invocação do poeta a Calíope, Vasco da Gama inicia a narrativa
da História de Portugal. Começa por referir a situação de Portugal na Europa e a
lendária história de Luso a Viriato. Segue-se a formação da nacionalidade e depois a
enumeração dos feitos guerreiros dos Reis da 1.ª Dinastia, de D. Afonso Henriques a D.
Fernando.
Destacam-se os episódios de Egas Moniz e da Batalha de Ourique, no
reinado de D. Afonso Henriques, e o da Formosíssima Maria, da Batalha do Salado e de
Inês de Castro, no reinado de D. Afonso IV.

Canto IV
Vasco da Gama prossegue a narrativa da História de Portugal. Conta agora a
história da 2.ª Dinastia, desde a revolução de 1383-85, até ao momento, do reinado de
D. Manuel, em que a Armada de Vasco da Gama parte para a Índia.
Após a narrativa da Revolução de 1383-85 que incide fundamentalmente na
figura de Nuno Álvares Pereira e na Batalha de Aljubarrota, seguem-se os
acontecimentos dos reinados de D. João II, sobretudo os relacionados com a expansão
para África.
É assim que surge a narração dos preparativos da viagem à Índia, desejo que
D. João II não conseguiu concretizar antes de morrer e que iria ser realizado por D.
Manuel, a quem os rios Indo e Ganges apareceram em sonhos, profetizando as futuras
glórias do Oriente. Este canto termina com a partida da Armada, cujos navegantes são
surpreendidos pelas palavras profeticamente pessimistas de um velho que estava na
praia, entre a multidão. É o episódio do Velho do Restelo.

Canto V
Vasco da Gama prossegue a sua narrativa ao Rei de Melinde, contando
agora a viagem da Armada, de Lisboa a Melinde.
É a narrativa da grande aventura marítima, em que os marinheiros
observaram maravilhados ou inquietos o Cruzeiro do Sul, o Fogo de Santelmo ou a
Tromba Marítima e enfrentaram perigos e obstáculos enormes como a hostilidade dos
nativos, no episódio de Fernão Veloso, a fúria de um monstro, no episódio do Gigante
Adamastor, a doença e a morte provocadas pelo escorbuto.
O canto termina com a censura do poeta aos seus contemporâneos que
desprezam a poesia.

Canto VI
35
Finda a narrativa de Vasco da Gama, a Armada sai de Melinde guiada por
um piloto que deverá ensinar-lhe o caminho até Calecut.
Baco, vendo que os portugueses estão prestes a chegar à Índia, resolve pedir
ajuda a Neptuno, que convoca um Consílio dos Deuses Marinhos cuja decisão é apoiar
Baco e soltar os ventos para fazer afundar a Armada. É então que, enquanto os
marinheiros matam despreocupadamente o tempo ouvindo Fernão Veloso contar o
episódio lendário e cavaleiresco de Os Doze de Inglaterra, surge uma violenta
tempestade.
Vasco da Gama vendo as suas caravelas quase perdidas, dirige uma prece a
Deus e, mais uma vez, é Vénus que ajuda os Portugueses, mandando as Ninfas seduzir
os ventos para os acalmar.
Dissipada a tempestade, a Armada avista Calecut e Vasco da Gama agradece
a Deus. O canto termina com considerações do Poeta sobre o valor da fama e da glória
conseguidas através dos grandes feitos.

Canto VII
A Armada chega a Calecut. O poeta elogia a expansão portuguesa como
cruzada, criticando as nações europeias que não seguem o exemplo português. Após a
descrição da Índia, conta os primeiros contactos entre os portugueses e os indianos,
através de um mensageiro enviado por Vasco da Gama a anunciar a sua chegada.
O mouro Monçaíde visita a nau de Vasco da Gama e descreve Malabar, após
o que o Capitão e outros nobres portugueses desembarcam e são recebidos pelo Catual
e depois pelo Samorim. O Catual visita a Armada e pede a Paulo da Gama que lhe
explique o significado das figuras das bandeiras portuguesas. O poeta invoca as Ninfas
do Tejo e do Mondego, ao mesmo tempo que critica duramente os opressores e
exploradores do povo.

Canto VIII
Paulo da Gama explica ao Catual o significado dos símbolos das bandeiras
portuguesas, contando-lhe episódios da História de Portugal nelas representados. Baco
intervém de novo contra os portugueses, aparecendo em sonhos a um sacerdote
brâmane e instigando-o através da informação de que vêm com o intuito da pilhagem.
O Samorim interroga Vasco da Gama, que acaba por regressar às naus, mas
é retido no caminho pelo Catual subornado, que apenas deixa partir os portugueses
depois destes lhes entregarem as fazendas que traziam. O poeta tece considerações
sobre o vil poder do ouro.

Canto IX
Após vencerem algumas dificuldades, os portugueses saem de Calecut,
iniciando a viagem de regresso à Pátria. Vénus decide preparar uma recompensa para os
marinheiros, fazendo-os chegar à Ilha dos Amores. Para isso, manda o seu filho cúpido
desfechar setas sobre as Ninfas que, feridas de Amor e pela Deusa instruídas, receberão
apaixonadas os Portugueses.
A Armada avista a Ilha dos Amores e, quando os marinheiros desembarcam
para caçar, vêem as ninfas que se deixam perseguir e depois seduzir. Tétis explica a
Vasco da Gama a razão daquele encontro (prémio merecido pelos “longos trabalhos”),
referindo as futuras glórias que lhe serão dadas a conhecer. Após a explicação da
simbologia da Ilha, o poeta termina, tecendo considerações sobre a forma de alcançar a
Fama.

Canto X

36
As Ninfas oferecem um banquete aos portugueses. Após uma invocação do
poeta a Calíope, uma ninfa faz profecias sobre as futuras vitórias dos portugueses no
Oriente. Tétis conduz Vasco da Gama ao cume de um monte para lhe mostrar a
Máquina do Mundo e indicar nela os lugares onde chegará o império português. Os
portugueses despedem-se e regressam a Portugal.
O poeta termina, lamentando-se pelo seu destino infeliz de poeta
incompreendido por aqueles a quem canta e exortando o Rei D. Sebastião a continuar
a glória dos Portugueses.

37
Felizmente há Luar
A influência do teatro de Bretch em “Felizmente há
Luar!”
No teatro clássico pretende-se despertar as emoções, levando o espectador a
identificar-se com as personagens.
No teatro de épico de Bretch, defende-se a “distanciação” a fim de levar o
espectador a pensar e a desenvolver o espírito crítico.
Em “Felizmente há Luar!” pode-se estabelecer um paralelismo histórico-
metafórico entre o tempo representado e o da escrita.
Nas tragédias clássicas, a acção é marcada pelo Destino, ao contrário do teatro
épico onde esta se deve a causas políticas e sociais que a sociedade pode combater.
Na epígrafe, invoca-se um texto em que existe um conflito entre o indivíduo
inconformista e a sociedade corrupta.
Felizmente há luar! é um drama narrativo de carácter social dentro dos
princípios do teatro épico. Defende as capacidades do homem, que tem o direito e o
dever de transformar o mundo em que vive, oferecendo-nos uma análise crítica da
sociedade em procurando mostrar a realidade em vez de a representar, para levar o
espectador a reagir criticamente e a tomar posição

Intenção didáctica: o espectador sai consciente de que há algo a mudar, o que


levará a uma consciência crítica, socialmente empenhada, por exemplo, através da
personagem de Matilde.
Apoteose trágica (climax): desfecho trágico mas também apoteótico,
transfigurador, de homenagem a Gomes Freire transformado em herói, dando
esperança ao povo.
Encenação: cenários neutros, pouco aparatosos; jogo de luzes; projecção de
diapositivos – cicloramas: silhueta da cidade de lisboa ( situação espacial)

A estrutura externa e interna da peça

O texto principal é constituído pelas falas ou réplicas das personagens; o texto


secundário fornece informações várias.
O texto principal permite analisar a estrutura interna e a didascália, a estrutura
externa.
Estrutura externa: peça em dois actos, sem divisão gráfica de cenas.
O primeiro acto divide-se em onze momentos
O segundo acto começa precisamente como o primeiro e possui treze
momentos.
A obra apresenta todo o processo que conduziu à execução do general Gomes
Freire de Andrade. No primeiro acto trama-se a sua prisão e, no segundo, verifica-se a
sua execução.

Primeiro Acto:
- o povo, vítima da miséria e da opressão, sonha com a sua salvação, motivado
pela esperança que lhe inspira o general Gomes Freire de Andrade, figura que define
como “amigo do Povo”
38
- Vicente, um homem do povo, considera Gomes Freire um “estrangeirado” e
tenta convencer os populares que o ouvem de que o general nunca será aliado do
povo; mais tarde, será levado por dois polícias junto do governador, D. Miguel de
Forjaz, manifestando-se um traidor para com a classe social a que pertence (esta
atitude valer-lhe-á a ascensão social, pois o governador alicia-o com a promessa de
que lhe dará o cargo de chefe da polícia)
- D. Miguel, preocupado com a hipótese (para ele, eminente) de uma revolução,
manda Vicente vigiar a casa de Gomes Freire
- Beresford, governador do reino, informa D. Miguel e o Principal Sousa de
que, em Lisboa, se prepara, efectivamente, uma revolução contra o poder instituído (o
seu informador é o capitão Andrade Corvo, um ex-maçon, amigo de Morais
Sarmento, também maçon).
Os governadores do reino tomam a decisão de destruir o líder dos
conspiradores.
- Morais sarmento e Andrade Corvo dispõem-se a denunciar o chefe da
conspiração em Lisboa,. Mediante a intimação de D. Miguel, no sentido do
cumprimento de um “missão”.
- Vicente informa os governadores (Beresford, D.Miguel e o Principal Sousa)
do número de pessoas que entram em casa de Gomes Freire e anuncia a identidade de
algumas; Andrade Corvo, por sua vez, revela aos governadores que são muitas as
pessoas que partilham o ideal de revolução, afirmando que já tinham sido enviados
emissários desta causa para a província; Andrade Corvo adianta o nome do chefe dos
conspiradores: o general Gomes Freire de Andrade.
- D.Miguel ordena que se prendam os conspiradores, abarcando um número
significativo de pessoas; por outro lado, tenta que a sua atitude surja de uma forma
justificada, pensando, assim, impedir a estranheza perante a sua decisão, cujo
objectivo é a repressão e a eliminação de Gomes Freire ( os seus argumento baseiam-
se no patriotismo e na defesa do nome e da vontade de Deus).

Segunda Acto:
- o acto inicia-se exactamente como o anterior, ou seja, Manuel interroga-se
”Que posso eu fazer? Sim, que posso eu fazer?” através do seu monólogo, o
espectador (ou o leitor) tem conhecimento da prisão de Gomes Freire ocorrida na
madrugada anterior
- a polícia proíbe os aglomerados populares
- Matilde exprime a sua dor revolta face À situação do marido, o general Gomes
Freire; contudo, decide intervir, de modo a conseguir a sua libertação
- António Sousa falcão, o “inseparável amigo” de Matilde e do general, surge
como a voz que critica o poder instituído e o comportamento abusivo dos
governantes, que tentam enganar o povo, mencionando o nome de Deus.
- Matilde procura Beresford, a fim de interceder pelo marido; objectivo que não
alcança, pois, através do diálogo com Matilde, o governador humilha Gomes
Freire.
- O padre dá a informação de que seria feita uma acção de graças em todas as
paróquias e igrejas das conventos por todos aqueles que se tinham insurgido
contra o governo (esta ocorreria num domingo)

39
- Matilde apercebe-se da indiferença dos populares perante a situação em que se
encontra Gomes Freire (na realidade, eles não têm qualquer hipótese de o ajudar; a
traição a que povo é obrigado é simbolizada na moeda que Manuel oferece a
Matilde); sabe-se, entretanto, que Vicente é chefe da polícia.
- António de Sousa Falcão transmite a notícia de que a situação de Gomes
Freire é cada vez mais crítica (não são autorizadas visitas, encontra-se numa
masmorra às escuras, não lhe permitiram escolher um advogado, descuida-se a sua
higiene física e a sua alimentação)
- Matilde tenta pedir a D. Miguel que liberte o marido; o governador não a
recebe
- Matilde pede ao Principal Sousa que liberte Gomes Freire; o Principal Sousa
evoca “as razões de estado” como o motivo da morte do general, apesar de
Matilde o acusar de cumplicidade em relação ao destino do seu marido
- Frei Digo, que confessara Gomes Freire, revela a sua solidariedade para com
Matilde
- Matilde acusa o Principal Sousa de não adoptar o comportamento que seria de
esperar de um bispo
- Sousa Falcão informa a esposa do general de que já havia fogueiras em S.
Julião da Barra, para onde Gomes Freire tinha sido levado, o que leva Matilde a
implorar, de novo, ao Principal Sousa a vida do marido
- Matilde tenta consolar-se através da religião; depois, lançará aos pés do
Principal Sousa a moeda que Manuel lhe dera
- Matilde assiste À execução do marido, vendo o seu corpo ser devorado pelas
chamas, ainda que imagine que o seu espírito vem abraça-la; profetiza uma nova
vida para Portugal, simboliza no clarão da fogueira, fruto de uma revolução que
encerraria o período de ditadura.

Paralelismo estrutural:
- Manuel interroga-se sobre o que fazer para alterar a sua situação e da sua
classe social
- O povo lamenta a sua miséria
- A chegada dos polícias faz dispersas os populares (no primeiro acto, dois
polícias procuram Vicente para que este traia a sua classe; no segundo acto, a
policia proíbe os “ajuntamentos”)
- No primeiro acto, os diálogos entre os governadores, Vicente, Andrade Corvo,
e Morais Sarmento funcionam como o plano de preparação para a condenação
de Gomes Freire; no segundo acto, os diálogos entre os governadores e
Matilde significam a efectivação das intenções dos representantes do poder –
destruir Gomes Freire.
- O primeiro acto termina com a prisão de populares que conspiravam contra o
governo e com apelo de “morte ao traidor Gomes Freire d’Andrade”, feito por
D. Miguel; o final do segundo acto apresenta-nos a morte do general( ainda
que, em simultâneo, ecoe o grito de esperança de Matilde).

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As personagens

Gomes Freire de Andrade: Gomes Freire aparece-nos como um homem


instruído, letrado, um estrangeirado, um militar que sempre lutou em prol da
honestidade e da justiça. É também o símbolo da modernidade e do progresso,
adepto das novas ideias liberais e, por isso, considerado subversivo e perigoso
para o poder instituído. Assim, quando é necessário encontrar uma vítima que
simbolize uma situação de revolta que se advinha, Gomes Freire é a personagem
ideal. Ele é símbolo da luta pela liberdade, da defesa intransigente dos ideais – daí
que a sua presença se torne incómoda não só para os reis do Rossio, mas também
para os senhores do regime para os senhores do regime fascizante dos anos 60. A
sua morte, duplamente aviltante para um militar seria o fuzilamento), servirá de
lição a todos aqueles que ousem afrontar o poder político e também, de certa
forma, económica representado pela tença que Beresford recebe e que se arriscaria
a perder se Gomes Freire chegasse ao poder.

Matilde de Melo: Todas as tiradas de Matilde revelam uma clara lucidez e


uma verdadeira coragem na análise que toda a teia que envolve a prisão e
condenação de Gomes freire. No entanto, a consciência da inevitabilidade do
martírio do seu homem ( e daí o carácter épico personagem Gomes Freire) arrasta-
a para um delírio final em que, envergando a saia verde que o general lhe
oferecera em paris (símbolo esperança num futuro diferente?), Matilde dialoga
com Gomes Freire, vivendo momentos de alucinação intensa e dramática. Este
momentos finais, pelo carácter surreal que transmitem, são também a denúncia do
absurdo a que a intolerância e a violência das homens conduzem.

Sousa Falcão: Sousa Falcão é o amigo de todas as horas, é amigo fiel em que
se pode confiar e que está sempre pronto a exprimir a sua solidariedade e amizade.
No entanto, ele próprio tem a consciência de que, muitas vezes, não actuou de
forma consentânea com os seus ideias, faltando-lhe coragem para passar
à acção.

Vicente, o traidor: Apesar da repulsa/ antipatia que as atitudes de Vicente


possam provocar no público/leito, o que é facto é não se lhe pode negar nem
lucidez nem acuidade na análise que faz da sua situação de origem e da força
corruptora do poder. Vicente é uma personagem incómoda, talvez porque nos faça
olhar para dentro de nós próprios, acordando más consciências adormecidas.

Manuel e Rita: Manuel e Rita acabam também por simbolizar a desesperança,


a desilusão, a frustração de toda uma legião face à quase impossibilidade de
mudança da situação opressiva em que vivem.

Beresford: Personagem cínica e controversa, aparece como alguém que,


desassombradamente, assume o processo de Gomes Freire, não como um
imperativo nacional ou militar, mas apenas motivado por interesses individuais: a
manutenção do seu posto e da sua tença anual.
A sua posição, face a toda a trama que evolve Gomes Freire, é nitidamente de
distanciamento crítico e irónico, acabando por revelar a sua antipatia face ao
catolicismo caduco e ao exercício incompetente do poder, que marcam a realidade
portuguesa.

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D.Miguel: é o protótipo do pequeno tirano, inseguro e prepotente, avesso ao
progresso, insensível à injustiça e à miséria.
Todo o seu discurso gira em torno de uma lógica oca e demagógica,
construindo verdades falsas em que talvez acabe mesmo por acreditar. Os
argumentos do ardor patriótico, da construção de um Portugal próspero e feliz,
com um povo simples, bom e confiante, que viva lavrando e defendendo a terra,
com os olhos postos no senhor, são o eco fiel do discursos político dos anos 60.
D.Miguel e o Principal Sousa são talvez as duas personagens mais detestáveis de
todo o texto pela falsidade e hipocrisia que veiculam.

Principal Sousa: Para além da hipocrisia e da falta de valores éticos que esta
personagem transmite, o Principal Sousa simboliza também o arranjo entre a
Igreja, enquanto, enquanto instituição, e o poder e a demissão da primeira relação
à denúncia das verdadeiras injustiças. Nas palavras do principal Sousa é
igualmente possível detectar os fundamentos da política do “orgulhosamente sós”
dos anos 60.

Andrade Corvo e Morais Sarmento: São os delatores por excelência,


aqueles a quem não repugna trair ou abdicar dos ideias para servirem obscuros
propósitos patrióticos.

O espaço

O espaço cénico – outras linguagens estéticas


O cenário assume, nesta peça, um valor fundamental e integra a construção do
sentido do texto, pelas conotações implícitas à sua concepção.
Os jogos de sombra/luz e a posição que as personagens cumprem em palco
constituem formas de enfatizar aspectos que se pretendem relevantes em várias
situações, ao longo da peça, e que servem a caracterização do espaço social, revelando
a dimensão ideológica da obra.

O espaço físico
É, por vezes, a partir das didascálias e das falas das personagens que retiramos
algumas ilações em relação aos espaços onde decorre a acção. Assim surge um
macroespaço – Lisboa -, a Baixa, o Rato, o campo de Sant’Ana, a serra de Santo
António e a zona do Tejo.
Lisboa surge, pois, como o centro e símbolo do país, a capital do reino, onde está
instalado o governo e onde se inicia a rebelião do povo contra a opressão: é deste
espaço que emana a voz da revolução e a conspiração inicia-se em Lisboa e só depois
se alarga à província.

O espaço social
O clima de opressão, de pobreza, de revolta está presente ao longo de toda a peça
e é visível a intençao do autor, ao propor, à maneira de Bretch, que assistamos,,
distantes, a episódios que fizeram a nossa História e que merecem a nossa reflexão e a
nossa análise crítica.
E a repressão fazia-se entir a todos os níveis. Material, social e cultural.
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Paralelismo entre o passado e as condições históricas dos
anos 60
Em “Felizmente há luar!” percebe-se, facilmente, que a história serve de
pretexto para uma reflexão sobre os anos 60 do século XX. Sttau Monteiro, também
ele perseguido pela PIDE, denuncia assim a situação portuguesa durante o regime de
Salazar, interpretando as condições históricas que, anos mais tarde, contribuiriam para
a “revolução dos Cravos”, em 25 de Abril de 1974. Tal como a agitação e conspiração
de 1817, em vez de desaparecer com medo dos opressores, permitiu o triunfo do
liberalismo em 1834, após uma guerra civil, também a oposição ao regime vigente
nos anos 60, em vez de ceder perante ameaça e a mordaça, resistiu e levou à
implantação da democracia.

Tempo da História: séc. XIX (1817) Tempo da Escrita: séc. XX (1961)


 Agitação social que levou à
revolta liberal de 1820 – conspirações  Agitação social dos anos 60 –
internas; revolta contra a presença da conspirações internas; principal irrupção
Corte no Brasil e a influência do exército da guerra colonial
britânico.
 Regime absolutista e tirânico  Regime ditatorial de Salazar
 Classes sociais fortemente  Maior desigualdades entre
hierarquizadas abastados e pobres
 Classes dominantes com medo de  Classes exploradoras com reforço
perder privilégios do seu poder
 Povo oprimido e resignado  Povo reprimido e explorado
 A miséria, o medo e a ignorância  Miséria, medo e analfabetismo
 Obscurantismo, mas felizmente há  Obscurantismo mas crença nas
luar mudanças
 Luta contra a opressão do regime
absolutista  Luta contra o regime totalitário.
 Manuel, o mais consciente dos  Agitação social e política com
populares, denuncia a opressão e a militantes antifascistas a protestarem
miséria
 Perseguições dos agentes de
 Perseguições da PIDE
Beresford
 Denúncias dos chamados “bufos”,
 As denúncias de Vicente, Andrade
que surgem na sombra e se disfarçam pa
Corvo e Morais sarmento, hipócritas e
colher informações e denunciar
sem escrúpulos
 Censura
 Censura à imprensa
 Severa repressão dos  Prisão e duras medidas de
conspiradores repressão e de tortura
 Processos sumários e pena de  Condenação em processos sem
morte provas
 Execução do general Gomes  Execução do general Humberto
Freire, em 1817 Delgado, em1965

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A ambiguidade do título
O título da peça de Sttau Monteiro reveste-se de um sentido ambíguo marcado
pela dupla simbologia do fogo, que remete simultaneamente para a destruição e para a
purificação, do luar que se liga à morte mas também à vida e dos diferentes pontos de
vista das personagens que profere ma frase: ”felizmente há luar!”: D.Miguel e Matilde

As didascálias
A peça é rica de marcações com referências concretas (sarcasmo, ironia,
escárnio, indiferença, galhofa, desprezo, irritação – normalmente relacionadas com os
opressores; tristeza, esperança, medo, desânimo – relacionadas com os oprimidos). As
marcações são abundantes: tons de voz, movimentos, posições, cenários, gestos,
vestuário, sons (o som dos tambores, o silêncio, a voz que fala antes de entrar no
palco, o sino k toca a rebate, um murmúrio de vozes,...) e efeitos de luz (o contraste
entre escuridão e luz: os dois actos terminam em sombra, de acordo com o desenlace
trágico). De realçar que a peça termina ao som de fanfarra (“Ouve-se ao longe uma
fanfarronada que vai num crescendo de intensidade ate ao cair do pano”) em oposição
à luz (“Desaparece o clarão da fogueira”), no entanto, a escuridão não é total porque
“felizmente há luar”.
As didascálias funcionam na obra como:
- Explicações do autor
- Referência à posição das personagens em cena
- Indicações aos actores
- Caracterização do tom de voz das personagens e suas flexões
- Indicação das pausas
- Saída ou entrada de personagens
- Apresentação da dimensão interior das personagens
- Indicações sonoras ou ausência de som
- Ilações que funcionam como informações e como forma de caracterização das
personagens
- Sugestão do aspecto
- Exterior das personagens
- Movimentação cénica das personagens
- Expressão fisionómica dos actores; linguagem gestual a que, por vezes, se
acrescenta a visão do autor
- Expressão do estado de espírito das personagens

Os símbolos
A saia verde: a felicidade (a prenda comprada em Paris – terra da liberdade -, no
Inverno, com o dinheiro da venda das dua medalhas); sendo um presente de Gomes
Freire para a sua amada em “tempos de crise”, simboliza a sua coragem, altruísmo e o
seu amor e carinho por Matilde; ao escolher aquela saia para esperar o companheiro
após a morte, destaca a “alegria” do reencontro (“agora que se acabaram as batalhas,
vem apertar-me contra o peito”); o facto de ser verde remete para a esperança e é uma
cor tranquilizadora, refrescante e humana;
O título/a luz/a noite/o luar: o título surge por duas vezes, ao longo da peça, inserido
nas falas das personagens:
¤ D. Miguel salienta o efeito dissuasor que aquelas execuções poderão exercer
sobre todos os k discutem as ordens dos Governadores (“Lisboa há-de cheirar toda
a noite a carne assada, Excelência, e o cheiro há-de-lhes ficar na memória durante
muitos anos...Sempre k pensarem em discutir as nossas ordens, lembra-se-ão do
cheiro...” Logo de seguida afirma “é verdade que a execução se prolongará pela
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noite mas felizmente há luar...”); esta primeira referência ao título da peça,
colocada na fala do governador, está relacionada com o desejo expresso de
garantir a eficácia da execução pública: a noite é mais assustadora, as chamas
seriam visíveis de vários pontos da cidade e o luar atrairia as pessoas à rua para
assistirem ao castigo k se rpetendia exemplar
¤ Na altura da execução, as últimas palavras de matilde são de estímulo para k o
povo se revolte contra a tirania dos governantes (“Olhem bem! Limpem os olhos
no clarão (...)”)
A luz, simbolicamente está associada à vida, à saúde, à felicidade, enquanto a noite e
as trevas se associam ao mal, à infelicidade, ao castigo, à perdição e à morte.
A lua, simbolicamente, por estar privada de luz própria, na dependência do sol, e por
atravessar fases, mudando de forma, representa a dependência, a periodicidade e a
renovação. Assim, é símbolo de transformação e de crescimento. A lua é ainda
considerada como “o primeiro morto”, dado que durante três noites em cada ciclo
lunar ela está desaparecida, como morta, depois reaparece e vai crescendo em
tamanha e em luz... ao acreditar na vida para além da morte, o homem vê nela o
símbolo desta passagem da vida para a morte e da morte para a vida...
Por isso, na peça, nestes dois momentos em k se faz referência directa ao título, a
expressão “felizmente há luar” pode indiciar duas perspectivas de análise e de
posicionamento das personagens:
¤ A força das trevas, do obscurantismo, do anti-humanismo e a utilização do lume
(fonte de luz e calor) para “purificar a sociedade”
¤ Se a luz é redentora, o luar poderá simbolizar a caminhada da sociedade em
direcção à redenção, em busca da luz e da liberdade..
Assim, dado k o luar permitirá k as pessoas possam sair de suas casas (ajudando a
vencer o medo e a insegurança na noite da cidade), quanto maior for a assistência,
isso significará:
¤ Para uns, que mais pessoas ficarão avisadas e o efeito dissuasor..
¤ Para outros, que mais pessoas poderão um dia seguir essa luz e lutar pela
liberdade...
A fogueira/o lume: assume um papel de fonte de esperança, de apelo para a
mobilização dos esforços do povo contra a opressão do regime, de luz que indica o
caminho a seguir; pode também ter um papel dissuasor, na medida em que
impressiona e mete medo aos menos convictos da causa liberal

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Memorial do Convento

Contextualização
Memorial do Convento evoca a história Portuguesa do reinado de D. João V, no
séc. XVIII, procurando estabelecer um paralelo c as situações políticas da actualidade.
Relata essa época de luxo e de grandeza da corte de Portugal que procura imitar a
corte francesa de Luís XIV. O ouro proveniente do Brasil permite a resolução de
alguns problemas financeiros e permite ao rei investir no luxo de palácios e igrejas.
Com o objectivo de ultrapassar a grandiosidade do “escorial de Madrid” e do palácio
de Versalhes, e em acção de graças pelo nascimento do seu filho, manda construir o
convento de Mafra, juntamente com um palácio e uma extraordinária basílica.

Romance
O Memorial do Convento é um romance histórico na medida em que nos
oferece uma minuciosa descrição da sociedade portuguesa do inicio do séc. XVIII,
marcada pela sumptuosidade da corte, associada à inquisição e pela exploração dos
operários. A referência à guerra da sucessão, em que Baltasar se vê amputado da mão
esquerda, a imponência brutal dos autos de fé, a construção do convento, os esponsais
da princesa Mª Barbara, a construção da Passarola pelo Padre Bartolomeu de Gusmão
confirmam a correspondência aproximada ao que nessa época ocorre e conferem à
obra a designação de romance histórico. Apresenta-se como romance social porque se
preocupa com a realidade do operário oprimido. Nesta medida, afirma-se como
romance social, uma vez que retracta a história repressiva Portuguesa do séc. XX. O
passado presentifica-se pela intemporalidade de comportamentos, desejos e pela
denúncia de situações de opressão, repressão e censura no momento da escrita. Há
uma tentativa de encontrar um sentido para a história de uma época, que permite
compreender o tempo presente e recolher ensinamentos para o futuro. Romance de
espaço, porque representa uma época, interessando-se não só por apresentar um
momento histórico, mas também por apresentar vários quadros sociais que permitem
um melhor conhecimento do ser humano.

Dimensão Simbólica/Histórica
Observa-se que em Memorial do Convento há uma intenção de interferência
do passado com o presente, com a particularidade de conseguir utilizar a reinvenção
da História como estratégica discursiva para olhar a actualidade. A história torna-se
matéria simbólica para reflectir sobre o presente, na perspectiva da denúncia e dela
extrair uma moralidade que sirva de lição para o futuro.

Estrutura
A estrutura de o Memorial do Convento apresenta duas linhas condutoras de
acção: a construção do convento de Mafra e a relação entre Baltasar e Blimunda (que
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se interliga com a construção da Passarola). Subjacente à acção principal estão os
sentimentos: medo e engano. No desenrolar do romance denota-se o medo de
Blimunda ao ver sua mãe morta num auto de fé ou enquanto o Padre Bartolomeu
constrói a Passarola às escondidas com medo da inquisição. O engano faz-se notar
principalmente com a atitude dos padres franciscanos que “chantagearam” o rei
dizendo-lhe que só teria herdeiros se construísse um convento.
Na obra são expostos, os excessos do rei ao “esbanjar” o ouro proveniente do
Brasil em luxos (daí o seu cognome Magnânimo) contrastando com as dificuldades do
povo e a crueldade dos autos de fé. É relatado impressionantemente as condições de
trabalho dos trabalhadores e todo o seu sofrimento (“...a diferença que há entre tijolo e
Homem é a diferença que se julga haver entre quinhentos e quinhentos”).
Paralelamente à acção principal está o amor que une Baltasar e Blimunda. Amor este,
verdadeiro, sentido e mútuo contrapondo-se ao de D. João e D. M.ª Ana: um amor
pouco leal (o rei tem filhos bastardos de uma madre e de uma freira) e convencional.
A construção do convento por sua vez, espelha bem o tremendo sofrimento do
povo, as mortes de que resultou a edificação do convento e também a dessacralização
matrimonial (separação das famílias). Saramago faz aqui uma critica á igreja, uma vez
que para servir a Deus não são precisos mortes e sacrifícios. Critica também a
brutalidade dos autos de fé – profano. Por outro lado a construção da Passarola
(sagrado) simboliza uma esperança de fugir ao medo e obter liberdade (a arte e a
escrita libertam-se da opressão do poder). A construção é a partilha de um sonho do
Padre Bartolomeu com Blimunda e Baltasar e é com entusiasmo, cooperação e
solidariedade que a Passarola é construída, contrapondo-se à construção do convento.

Tempo
As referências temporais são escassas, ou apresentam-se por dedução. As
analepses são pouco significativas. A data de 1711, tempo cronológico do início da
acção, não surge explícita na obra, mas facilmente se deduz.

Narração
Saramago rejeita a omnipotência do narrador, voz crítica.
A voz narrativa controla a acção, as motivações e pensamentos das
personagens, mas faz também as suas reflexões e juízos de valor. Os discursos
facilmente passam da história à ficção. (Segundo Sartre, estamos perante um narrador
privilegiado, com poder de ubiquidade (está dentro da consciência de cada
personagem, mas também sabe o antes e o depois)).

Carga Simbólica
Sugere as memórias evocativas do passado + remete para o mítico e misterioso
ao lado da história da construção do convento, surge o fantástico erudito e popular.

Personagens:
D. João V – Rei de Portugal, rico e poderoso, preocupado com a falta de
descendentes, promete levantar convento em Mafra se tiver filhos da rainha.
Orgulhoso, vaidoso, prepotente, absoluto

D. Maria Ana Josefa - devota, humilde, passiva, submissa, infeliz, sente culpa pelos
sonhos com o cunhado.

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Baltasar Sete-Sóis – maneta, chega a Lisboa como pedinte, conhece Blimunda, ajuda
na construção da passarola, morre num auto-de-fé.

Blimunda Sete-Luas – capacidades de vidente, vê entranhas e vontades, ajuda na


construção da passarola, partilha a sua vida com Baltasar, o seu poder permite curar
ou criar. Saramago consegue dotá-la de forças latentes e extraordinárias, que
permitem ao povo a sobrevivência, mesmo quando as forças da repressão atingem
requintes de sadismo.
Intuitiva, extraordinária compreensão e força interior, personagem invulgar. É
possuidora de um dom fantástico: vê dentro das pessoas e através de determinadas
substâncias. É possuidora de um pensamento rigoroso e inteligente. Tem um
linguagem profética. Tem um código de valores não comuns. Tem iniciativa,
segurança, segurança e superioridade moral; muitas vezes fala com autoridade e de
modo sacudido.
Nunca foi muito religiosa e, à medida que a história vai avançando vai se
tornando progressivamente paganista. A pouco e pouco vai deixando de praticar os
actos religiosos e só Bartolomeu a coloca na ordem do sobrenatural pelos poderes que
possui.
Ama o Baltasar com um amor incondicional, puro, espontâneo, natural, numa
comunhão total de corpos e almas (amor verdadeiro).

Padre Bartolomeu de Gusmão – evita a Inquisição devido à amizade com o Rei,


apoiado por Baltasar, Blimunda e Scarlatti, morre em Toledo.
Personagem complexa, algo controversa, angustiada, em conflito. O facto de
ser investigador e sonhador pode ajudar a compreender a sua evolução espiritual.
Desde o seu aparecimento que apresenta alguma duplicidade ao nível da linguagem é
representante do pensamento livre, moderno, com ops seus sonhos, as usas fraquezas
e, por isso mesmo, muito humano.

O Povo – construiu o convento em Mafra, à custa de muitos sacrifícios e até mesmo


algumas mortes. Definido pelo seu trabalho e miséria física e moral, surge como o
verdadeiro obreiro da realização do sonho de D. João V.

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