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A Nova Retórica de Perelman

Tito Cardoso e Cunha


Universidade Nova de Lisboa

Em 1958, no mesmo ano em que nio saídos de Descartes, que marcam com o
S.Toulmin publicava o seu The Uses of Ar- seu selo a filosofia ocidental."(TA.1)
gument, no continente e reclamando-se de Em suma, o reatamento da tradição grega
uma outra tradição filosófica, Ch. Perelman, é uma ruptura com a tradição da moderni-
Professor na Universidade Livre de Bruxe- dade cartesiana.
las, publica um livro que terá pelo menos o Em embrião, estas palavras, escritas em
mesmo relevo no renascimento contemporâ- 1958, trazem quase uma premonição do que
neo da retórica: Traité de l’Argumentation. será a crítica pós-moderna da razão. Em vez
La Nouvelle Rhétorique. da necessidade do encadeamento das ideias
Só a expressão deste sub-título denota e no raciocínio e da evidência com que estas
acentua uma linhagem de que o autor se quer se impõem ao espírito, o vocabulário privi-
reclamar: a herança aristotélica. Mas o 1o legiado é outro e nele avultam termos como
parágrafo da introdução é também ele muito "verosímil", "plausível", "provável". A ve-
significativo dessa intenção do autor. Es- rosimilhança tem de distintivo em relação à
creve Perelman, a iniciar o seu tratado: "A verdade que essa semelhança ao vero se de-
publicação de um tratado consagrado à argu- cide apenas na instância interlocutória que é
mentação e a sua ligação a uma velha tradi- um auditório. Há que obter uma "adesão"e
ção, a da retórica e da dialéctica gregas...". é para isso que as "provas"são necessárias.
Esta 1a parte do 1o §serve obviamente para Sendo que estas não mais poderão aspirar do
afirmar com toda a clareza, e desde o início, que ao estatuto aproximativo da probabili-
uma genealogia que coloca a obra na directa dade e do plausível.
sucessão da problemática grega sobre a retó- A verdade, que cartesianamente se impõe
rica. As raízes são claramente afirmadas e re- pela evidência, não resulta, por isso mesmo,
montam aos gregos, particularmente a Aris- de uma deliberação argumentada nem é por
tóteles. Essa referência helénica é um rea- isso também objecto de um consenso. De-
tar de uma tradição rompida e o reatar dessa liberação e evidencia são duas expressões
tradição e em si mesmo a ruptura com uma quase contraditórias, porque, como exem-
outra tradição da modernidade: "...(a publi- plarmente escreve Perelman, "não se deli-
cação e a ligação) constituem uma ruptura bera quando a solução é necessária e não se
com uma concepção da razão e do raciocí- argumenta contra a evidencia."(TA.1)
2 Tito Cardoso e Cunha

Em suma, o diferendo é o campo de elei- Sem querer aqui levantar em toda a sua
ção da retórica, ao menos da sua vertente ar- dimensão a discussão sobre a legitimidade
gumentativa. Contrariamente ao que se pre- dessa exclusão mútua entre razão e emoção,
tendia, Descartes, para quem o diferendo era com a qual A.Damásio certamente estaria em
impossível, há que retoricamente pensar a desacordo 1 digamos que as provas funda-
possibilidade de soluções diferentes sem que doras de uma convicção não têm quotidia-
o erro seja inevitável. Com efeito, no espírito namente a exactidão de uma prova dedutiva
cartesiano, o diferendo era o mais e mais ób- (ou científica). Basta pensar no sistema ju-
vio dos sinais do erro. Porque, no passo cé- rídico e na sua codificação de um conheci-
lebre das Regras... (TA.2): "De cada vez que mento procedimental em que a prova tende,
dois homens fazem sobre uma mesma coisa e é tudo o que lhe é permitido, a fundar um
um juízo contrário, é certo que um dos dois saber, é certo, mas que o é sobretudo do ve-
se engana. Mas há mais, nenhum dos dois rosímil, do plausível ou do provável.
possui a verdade; porque se tivesse uma vi- "Toda a prova seria redução à evidência
são clara e distinta, podê-la-ia expor ao seu e o que é evidente não teria necessidade de
adversário de tal modo que acabaria por for- prova."(TA.5)
çar a sua convicção." A noção de evidência tem de ser enten-
Este forçar da convicção, esta violência dida, para que uma teoria da argumentação
simbólica que impõe à mente do outro a ver- seja possível, como uma força de persua-
dade das coisas segundo um critério univer- são que se insere numa escala proporcional.
sal, é o oposto de uma dialéctica doxoló- A evidência marcando um grau extremo de
gica/doxologia/dialéctica opinativa em que força persuasiva atribuível a um argumento.
prevaleceu apenas a regra do melhor argu- Como o sublinha Perelman (p. 5) há que
mento e de onde a violência, mesmo simbó- não confundir "evidencia"com "verdade",
lica, está ausente. uma vez que a "evidencia"se referirá ape-
Com efeito, argumentar sustentando uma nas à adesão por parte do espírito que uma
opinião contra um adversário num diferendo ideia merece. Estaremos portanto aqui, e
é já reconhecê-lo como interlocutor, renunci- no limite, num campo puramente psicoló-
ando à violência da imposição e reconhecer gico (Cf. Toulmin e a recusa do psicolo-
no outro a dignidade de quem pode ser racio- gismo pela lógica). Enquanto que a ques-
nalmente convencido. É um reconhecimento tão da verdade, pelo menos na tradição ra-
da outra consciência de si e da sua liberdade. cionalista cartesiana, contra a qual Perelman
Afastamo-nos, portanto, aqui da rigidez se inscreve em ruptura, implica uma necessi-
logico-formal centrando inevitavelmente a dade e um constrangimento lógico.
atenção sobre o modo mais comum de uti- Em ruptura com um certo projecto da mo-
lização da razão na interacção social. Por- dernidade encarnado pelo racionalismo car-
que há uma racionalidade in-formal que não tesiano, Perelman reclama-se muito natural-
tem de, obrigatoriamente, pela sua não- mente, de uma outra tradição mais antiga que
formalidade, soçobrar na emocionalidadade remonta a Aristóteles. Ao Aristóteles sobre-
irracional. 1
António Damásio, Descarte’s Error

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tudo da Retórica mas também da dialéctica o objectivo fosse tratar a persuasão mediá-
enquanto esta é definida como "arte de ra- tica. Não é essa a intenção de Perelman. O
zoar"a partir 2 de opiniões geralmente aceites discurso dos media é-lhe relativamente indi-
(eulogon) (TA.6).Ora, estas "opiniões geral- ferente ou secundário. A sua obra pretende
mente aceites"são detidas por um conjunto inscrever-se sobretudo no domínio da filoso-
de indivíduos que a técnica retórica constitui fia.
em auditório. Essa é, aliás, a noção central Aí aproxima-se de S. Toulmin cuja aná-
que Perelman retira aos gregos, fazendo dela lise privilegia também a discursividade. Em-
uma instância central, que já o era em ter- bora de uma diferente maneira que se centra
mos helénicos, para a compreensão da dis- sobre a análise do processo argumentativo,
curisividade persuasiva: "é em função de um a sua disposição e desenvolvimento numa
auditório que toda a argumentação se desen- perspectiva dinâmica. Perelman, pelo con-
volve."(TA.7) trário, presta uma atenção minuciosa e uma
Essa tradição antiga em que Perelman se determinação exaustiva à classificação, à ta-
insere, Cf. Platão, Górgias, vê como meio xinomia. à estrutura dos argumentos ("por-
exclusivo da persuasão a palavra. É pelo dis- que nos interessa menos ao desenvolvimento
curso, o "razoamento"no dizer de Vieira, que completo de um debate do que aos esquemas
a adesão dos espíritos constituintes do audi- argumentativos postos em jogo"TA.11).
tório, se conquista. Um outro aspecto em que os dois auto-
Poderíamos, hoje, questionar este pressu- res se aproximam e na relação crítica que
posto. Basta pensar na publicidade, "mé- constantemente mantém com a lógica. Tal-
tier"por excelência da persuasão, para nos vez mais dependentes no caso de Perelman
dar-mos conta do papel decisivo que a ima- que explicitamente se propõe "inspirar-se"e
gem pode ter no processo persuasivo. "imitar os métodos"da lógica. A recusa da
Barthes, primeiro, num pequeno texto lógica é bem mais radical e Toulmin.
anunciador e de tentativa, "Retórica da ima-
**
gem"3 e mais recentemente o Grupo m 4 ex-
ploraram a via da persuasão imagética- Pe- Seja como for, o movimento de Perelman
relman recusa explicitamente tomar esse ca- em relação à lógica vai no mesmo sentido
minho ("o nosso tratado só se ocupará de da distinção que também preocupa, mesmo
meios discursivos de obter a adesão dos es- se com mais intensidade ou radicalismo, um
píritos: só a técnica que utiliza a lingua- Toulmin.
gem para persuadir e para convencer será Perelman serve-se de dois termos para
aqui examinada"Perelman 10).Será porven- vincar esta diferença: atribui o de "demons-
tura uma lacuna, se o objectivo fosse tratar tração"para designar o que de específico se
a totalidade dos meios persuasivos ou até se passa no campo da retórica.
2
A demonstração lógica (formal), baseada
raisonner. Cf. A.J.Saraiva, O discurso enge-
nhoso. na estrita unicidade da linguagem "artifi-
3
in R. BArthes, O óbvio e o obtuso, Lisboa, Ed. cial"utilizada, cujo fundamento é comum à
70 matemática, designa uma démarche intelec-
4
Grupo m, Retórico da imagem. tual necessariamente diferente daquela que

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se usa no campo retórico com a argumenta- a forma do comando, da ordem ou do man-


ção. Aqui não é a univocidade que se pro- damento.
cura, mas antes se joga com a polissemia e Por isso o auditório é tão importante na
sobretudo, sendo o objectivo a persuasão, a consideração da retórica feita por Perelman
argumentação, na sua pretensão de eficácia, (sê-lo-ia sempre). A noção de auditório
não pode ignorar os factores psicológicos, passa pela de reconhecimento o que implica
sociais, ideológicos intervenientes na esfera a renúncia à violência, mesmo se simbó-
pública, seu lugar de eleição. lica. Aliás, os termos em que Perelman de-
Será uma mera convenção terminológica, fine o (seu) auditório, aproximam-no singu-
esta a de Perelman, mas útil para partilhar larmente da já referida definição do Eespaço
os dois campos, atribuindo "demonstração"à Público. Diz ele: "... (o auditório é) o con-
necessidade do formalismo lógico e "Argu- junto daqueles que o orador quer influen-
mentação"à publicidade (no sentido haber- ciar pela sua argumentação."(TA.25). Ora,
masiano) da discursividade /do razoamento/ este "influencia pela sua argumentação"não
retórico. é mais do que "fazer uso público da ra-
Se a demonstração se impõe necessaria- zão"também designado no texto habermasi-
mente ao espírito, a argumentação procura, ano por "raisonnement"que se pode muito
e é um esforço que toda ela se con-centra, bem traduzir pelo que, como atrás se refe-
a adesão modalizada dos espíritos. A mais riu, Vieira chamava "razoamento", isto é a
não pode aspirar, mas é esse o seu terreno de ideia grega (logos/legein) de uma racionali-
eleição. dade discursiva.
Por isso também, e contrariamente à ló- Por outro lado, o reconhecimento do in-
gica formal que se situa num outro universo terlocutor por parte do orador/locutor persu-
de funcionamento, a argumentação retórica asivo faz do auditório, em grande parte, uma
pressupõe o contexto de um espaço público, construção do orador. Este demarca-lhe os
entendidos nos exactos termos em que Ha- limites e define-lhe a identidade. Assim por
bermas o define como "o conjunto das pes- exemplo, quando o líder do PC afirma estar
soas privadas fazendo uso público da ra- disposto a falar "com todos os partidos de-
zão."Cf. rf.) 5 O que a existência de um Es- mocráticos", o auditório sabe bem quem ele
paço Público argumentativo pressupõe e im- exclui do universo dos partidos "democráti-
plica é o reconhecimento (no sentido hegeli- cos". Inversamente, quando o chefe de um
ano da Fenomenologia do Espírito) do Outro partido da direita pronuncia exactamente a
como interlocutor válido, a quem é possível mesma frase "estamos dispostos a negociar
e vale a pena aduzir argumentos. Isto é, todo com todos os partidos "democráticos", sabe-
o contrário da relação hierárquica em que a se também que esse universo não inclui o PC.
palavra interlocutiva circula, não horizontal- Em ambos os casos, cada orador delimita
mente entre iguais, mas verticalmente sobre e constrói o universo daqueles que admite
5
como seu auditório.
Sobre as condições de possibilidade de um dis-
curso retórico cf. Tito Cardoso e Cunha, Prefácio in Em boa parte, toda a argumentação tem de
F.Nietzsche, Da retórica. ser construída a partir do que se definiu ser o
seu destinatário. que dizer o seu auditório.

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O conhecimento psicológico, sociológico sal caracterizado pela sua simples racionali-


ou ideológico do auditório é pois essencial à dade.(TA.36)
própria eficácia da argumentação. Se é verdade que a noção de "persuasão"é
Compreende-se que assim seja, dado o pa- precária e está sempre ligada à volatilidade
pel central que a natureza do auditório tem da doxa, haverá talvez que acentuar sobre-
na argumentação. Tendo esta por objectivo, tudo o seu cariz relacional. Isto é, a persu-
não propriamente a "verdade"mas a verosi- asão é-o sempre de outrem. É uma acção
milhança, essa "semelhança ao verdadeiro só discursiva que se propões obter um resultado
pode encontrar um critério de validade ou no âmbito de uma troca relacional. Enquanto
justeza naquilo que pensa o auditório, qual que a convicção é algo que se tem, se guarda
seja o seu estado de espírito, a força da sua ou se defende. É o resultado, eventualmente,
convicção ou crença, eventualmente pela ar- de uma acção persuasiva ou, pelo contrário,
gumentação aduzida. aquilo que, na sua solidez, se opõe a essa ac-
Assim por exemplo, num processo penal ção. A convicção, e o grau da sua solidez, ou
com intervenção de um júri o que processu- força, é certamente o que mais está em causa
almente está em causa não é tanto a "ver- no processo argumentativo.
dade"dos factos mas antes a adesão do es- Como é que isso se liga à questão da
pírito dos jurados a uma das teses em con- crença e também à sua relativa solidez, os
fronto: culpabilidade ou inocência 6 .Mas é modos da sua aquisição, perda, transforma-
aqui que tem a sua raiz o que há de proble- ção é algo para cuja análise se teria de mobi-
mático na concepção perelmaniana do audi- lizar a magna questão da ideologia que, mais
tório. Com efeito, resulta do que anterior- cedo ou mais tarde, terá de regressar do rela-
mente se disse, o inevitável reconhecimento tivo esquecimento a que ultimamente foi vo-
da extrema variação e variedade dos auditó- tada.
rios bem como das suas crenças e convic- Regressando ao problema da universali-
ções, do seu estado de espírito. dade do auditório, convém referir ou lem-
A questão agora é de saber se pode exis- brar, por contraste, como esta é uma ideia
tir uma técnica (technê) discursiva retórico - estranha a Toulmin, para quem até uma boa
argumentativa válida em todas as circunstan- parte dos argumentos são estritamente de-
cias e independente da variação dos auditó- pendentes de um determinado "campo de
rios. argumentação". É certo que ele não faz
Perelman tenta resolver, em parte, o pro- alusão à ideia de auditório, mas a dife-
blema fazendo uma distinção entre "persu- renciação por si proposta dos "campos de
adir"e "convencer", pretendendo que a per- argumentação"leva-nos a pensar que essa
suasão se dirige a um auditório particular dispersão implica uma concomitante disper-
e o convencimento a um auditório univer- são dos auditórios.
6
Cf. TA.31: o importante, na argumentação, não Seja como for, Perelman, quanto a ele,
é saber o que o orador considera como verdadeiro pretende reconhecer e apenas admitir três ti-
ou como probante, mas qual é a opinião daqueles a pos de auditório: universal, individual e ín-
quem se dirige timo. Mas de certa maneira o único modelo
é o auditório universal de que os outros dois

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não são mais do que "encarnações sempre Muito provavelmente a argumentação vei-
precárias"(TA.40). culada pelo discurso mediático não sustenta
O problema, ao que nos parece, está no a mesma pretensão à universalidade que é a
modo como Perelman entende aquilo a que do discurso filosófico. Pelo que, uma vez
chamava um "auditório universal"como mo- mais a dispersão toulminiana nos parece bem
delo de todos os auditórios particulares, in- mais adequada.
dividuais ou íntimos. É que nele reencontra- Finalmente, a deliberação íntima do su-
mos uma ideia de necessidade que segundo jeito consigo próprio num movimento do
ele próprio caracterizava o formalismo ló- pensar que se poderá dizer equivaler à pró-
gico mas não, precisamente, a argumenta- pria reflexividade da consciência, adopta
ção retórica. Escreve: "uma argumentação também o modelo dialógico da relação ao
que se dirige a um auditório universal deve interlocutor como auditório, num desdobra-
convencer o leitor do carácter constringente mento reflexivo do eu a si próprio.
das razões fornecidas, da sua evidência, da Aqui entra-se num domínio particu-
sua validade intemporal e absoluta, inde- larmente incerto. O razoamento intra-
pendente das contingências locais e históri- subjectivo, em que medida não releva da
cas."(TA.41) Onde está a diferença relativa- simples "racionalização", isto é de uma re-
mente ao que Perelman condenava na "evi- construção pseudo argumentativa que tem
dencia"cartesiana? por base o simples desconhecimento, por-
Dir-se-ia que o recalcamento da lógica, que inconscientes, das reais "razões"ou "mo-
que Perelman tinha expulsado pela janela, tivações"/fundamentos daquilo de que o su-
regressa agora pela janela. O retorno do re- jeito se pretende auto-persuadir. Freud, aqui,
calcado. aconselhar-nos-ia a mais extrema prudência.
É esta contradição que Toulmin resolve, Perelman, aliás, admite que a íntima deli-
nomeadamente com a ideia da distinção en- beração serve sobretudo para "intensificar a
tre campos de argumentação e a visão mais convicção"já arreigada, do que a receber no-
processual e menos taxinómica da argumen- vas opiniões mesmo que solidamente argu-
tação. mentadas.
Quanto ao auditório individual, é consti-
tuído dialogicamente por um só interlocutor, ***
a questão acaba por ser a mesma uma vez
que se vê nele uma simples declinação do Em todo o caso, há pelo menos um aspecto
auditório universal (TA.48 "o auditor único inegavelmente e necessariamente presente
encarna o auditório universal.") em qualquer tipo de argumentação qualquer
O problema também é que Perelman pre- que seja a sua relação à acção. O discurso
tende situar-se a um nível puramente filosó- argumentativo é sempre constituído por uma
fico que exige precisamente essa intenção de palavra performativa, no sentido em que essa
universalidade no diálogo como oração ao palavra cumpre uma acção persuasiva que
colectivo. Como atrás se disse, a noção de procura o efeito de "mover a mente"do Ou-
um auditório mediático não está no seu hori- tro, "co-movê-la"até criando uma certa "dis-
zonte.

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posição à acção"7 . O que também signi- tingente nos seus resultados, é igualmente
fica, uma vez mais, que, se a acção esco- excluída.
lhe a palavra para se exercer, é porque re- Isto é, ambos recusam a interacção dia-
nuncia à violência. Como escreve Perel- lógica, um porque se acha na posse da ver-
man: "...toda argumentação pode ser enca- dade necessária e portanto indiscutível, o ou-
rada como um substituto da força material tro porque, à força de exigir garantias (des-
que, pelo constrangimento, se propõe obter proporcionadas) se condena a não acreditar
efeitos da mesma natureza." em nada.
Habermas (Cf. Teoria da acção comuni-
cativa) envereda também por esta direcção ***
quando distingue a acção comunicativa me-
diada pela discussão argumentada que pres- Se na base de qualquer processo argumen-
supõe a aceitação mútua de uma certa "ética tativo, assente necessariamente na discursi-
da discussão", à acção estratégica que se im- vidade como modo da racionalidade, está a
põe (instrumentalmente) (Cf.). Essa ética d renuncia à violência, isso significa que o seu
discussão como pressuposto, está bem defi- ponto de partida, a sua condição de possibi-
nida por Habermas (e Apel Cf.). lidade, tem de ser um acordo sobre um certo
Isto não significa, obviamente, que essa número de coisas.
ética esteja presente necessariamente na inte- Se seguirmos as propostas de Perelman,
racção social discursiva. Há pelo menos dua constatamos que esse acordo prévio entre o
posturas que, ao serem adoptadas, anulam a orador e o interlocutor/auditório diz respeito
possibilidade de argumentar: 1) o que se re- ao que mutuamente se concede e admite co-
cusa a discutir aquilo que se lhe apresenta mummente entre o orador e o seu auditório.
como indiscutível e assim acha que deve ser Esse acordo exprime-se nas premissas da
para todos: "Não se discute a Pátria... Deus... argumentação. Sem premissas acordadas,
Autoridade...). explicita ou implicitamente, não há argu-
Por outro lado 2) aquele que apenas aceita mentação possível, nem sequer comunica-
como válida uma argumentação que pro- ção.
vasse, com a necessidade do cálculo lógico, Assim, sendo a argumentação um discurso
as asserções proferidas. Neste caso tam- que se insere numa troca interlocutória recí-
bém a discussão argumentada, porque con- proca ao nível da sociabilidade, terá de pres-
supor, ou partir de um acordo sobre o que
7
Cf. TA: "A finalidade de toda a argumentação seja, pelo menos, o real. Isto é, como pre-
é a de provocar ou aumentar a adesão dos espíritos
às teses que se apresentam ao seu assentimento: uma
missa da argumentação existe um acordo so-
argumentação eficaz é aquela que consegue aumentar bre o que seja, e que defina e delimite o que é
essa intensidade de adesão de modo a desencadear a o real. Mas não só, o acordo prévio abrange
acção encarada " também o que seja o preferível.
Ou ainda (TA,62): encararemos sobretudo a ar- Se não há qualquer espécie de acordo so-
gumentação nos seus efeitos práticos: virada para o
futuro, propõe-se provocar uma acção ou prepará-la, bre o que seja o real, dificilmente qualquer
agindo por meios discursivos sobre os espírito dos au- troca argumentativa se torna possível de su-
ditores. ceder. Mas entendamo-nos, por real não se

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entende aqui a palavra no seu sentido ontoló- bre o facto de o Dr. Mário Soares ter sido
gico mas, mais precisamente, apenas aquilo "presidente do todos os portugueses".
que um auditório entende ou acredita ser Em suma, factos reais são o que o auditó-
real. Isto com uma pretensão de universa- rio admite como tal. Mas sendo o auditório,
lidade, apesar da disparidade de auditórios. como pretende o próprio Perelman, uma cri-
É, mesmo assim, por essa pretensão de ação do orador, acaba por ser este, ou aquele
universalidade, que Perelman quer distinguir que o precede, a construir a realidade factual.
o real do preferível cujo acordo só seria vá- Assim, é um facto político, por exemplo,
lido para um auditório particular. ou mundano, aquilo que os media dão a ver
Precisando: acordo (que é premissa na ao seu auditório. Em suma, encontramo-nos
argumentação) sobre o real: consenso em aqui perante o magno problema da constru-
torno do que se entende serem factos, ver- ção social da realidade pelos media.
dades e presunções. Quanto ao acordo sobre Mas se os factos resultam de um acordo
o preferível, ele refere-se aos valores, hierar- por parte do auditório, o mesmo sucede com
quias e aos lugares do preferível (TA.88). a verdade. Com uma diferença: os factos
Começando pelos factos. Fiel à centrali- referem-se a acontecimentos limitados, en-
dade do conceito de auditório, que lhe vem quanto a verdade se refere a enunciações (te-
pelo menos desde Aristóteles, um facto é, orias, construções mentais).
muito simplesmente, tudo aquilo que um au- Uma verdade, que o é porque sobre ela o
ditório entende como tal. O facto de o Dr. auditório está previamente de acordo, pode
Mário Soares ter sido, no fim do seu man- enunciar-se acerca de uma facto, aconteci-
dato, "o presidente de todos os portugueses", mento, que também recolha o consenso do
resultava da circunstância de as sondagens auditório.
mostrarem que o auditório universal cons- Para um auditório religioso como a Igreja
tituído por "os portugueses"ser consensual Católica - universal - a divindade de Cristo
acerca desse facto 8 .É claro que este pode é uma verdade que enuncia como um facto a
não ser um bom exemplo de facto assente sua ressurreição. O acordo sobre esta maté-
num acordo universal que lhe dê esse esta- ria é mesmo a condição prévia para pertencer
tuto. Haverá sempre a possibilidade de uma ao auditório universal que é a Igreja Católica.
contestação que ponha em causa o enunciado No entanto, no real aceite pelo auditório
"todos os portugueses"mas as sondagens de nem tudo são factos ou verdades. Há tam-
opinião, mesmo se discutíveis, podem pre- bém as presunções. Por exemplo, houve
tender fornecer um instrumento de verifica- tempos em que o auditório da imprensa es-
ção. crita estava de acordo para dizer "se vem no
Em todo o caso, num determinado mo- jornal é presumível que tenha acontecido".
mento, o que dura o estado virtual de que a Presumível quer aqui dizer verosímil e essa
sondagem dá conta, há um amplo acordo so- verosimilhança assenta, neste caso, na credi-
8
bilidade dos media.
... será considerado como um facto (o) que se ca-
racteriza por uma adesão do auditório universal, ade- No entanto, quando uma publicação perió-
são tal que será inútil reforçá-la. dica se intitula "jornal do incrível", assegura,
à partida e honestamente, o seu auditório que

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nada do que escreve é verosímil ou presumí- presunção, anunciam-se como um dizer do


vel. real.
É crível, presumível, aquilo que é nor- Já quanto aos valores, mesmo quando so-
mal, diz Perelman. Presume-se ser normali- bre eles existe o acordo do auditório que de-
dade o que mais probabilidade tem de acon- les faz premissa de argumentação, dizem,
tecer. Que o sol se levantará amanhã de não o real, mas uma "atitude perante o
novo, é uma presunção tão geralmente par- real"(TA.101).
tilhada precisamente porque o mais normal é Se a democracia é, para mim, um va-
que isso venha a acontecer. lor, isso designa uma atitude perante um
O real, que nos permite viver, está cheio certo tipo de organização política, mesmo
destas presunções. que eventualmente, ela não fizesse manifes-
É também uma presunção ter acontecido tamente parte do meu real.
o que vem relatado no jornal. Excepto no Isto é, um auditório pode estar de acordo
dia 1o de Abril em que se torna presumível sobre um valor como a democracia, defi-
exactamente o contrário disso. nindo assim uma atitude perante o real, sem
Este exemplo ilustra bem, aliás, o que Pe- que dê o seu acordo (à afirmação do reco-
relman afirma quando escreve "... o normal nhecimento) da democracia como um facto
opõe-se ao excepcional"(TA.95). A men- naquela situação precisa.
tira do 1o de Abril nos media é, simultanea- Uma consequência da utilização dos valo-
mente, excepcional porque só acontece uma res é o estabelecimento de hierarquias de-
vez por ano e normal porque todos os anos terminadas por esses valores. Uma maior
isso acontece. valorização da realidade humana estabelece
Por isso o auditório constituído pelos con- uma hierarquia que a coloca acima de todos
sumidores dos media presume tanto a normal os outros seres existentes sobre a terra. Do
regularidade das notícias como a excepcio- mesmo modo que, mais abstractamente, uma
nal mentira do 1o de Abril. E pela mesma maior valorização, por exemplo, da rentabi-
razão de ambas obedecerem à norma. lidade sobre a justiça social coloca no topo
Em suma, a presunção da normalidade é da hierarquia os valores da competitividade
constitutiva do real no espírito do auditório e acima dos valores do bem estar, emprego,
como tal, a par dos factos e das verdade, será etc.
um bom ponto de partida para a argumenta- Muitos outros critérios de hierarquização
ção 9 .Tanto as verdades como os factos ou as são possíveis: a anterioridade, por exemplo.
presunções que constituem o acordo sobre o Quando um grupo de pessoas se dispõe, por
real, não são percepcionadas como opiniões, ordem de chagada, numa paragem de auto-
a que os antigos chamavam doxa. O enunci- carro, estabelece-se uma hierarquia que va-
ado da verdade como da factualidade ou da loriza a anterioridade. No caso de atropelo
9
"O acordo baseado na presunção do normal é tido à regra será sempre esse o argumento invo-
por válido pelo auditório universal ao mesmo título cado.
que o acordo sobre os factos estabelecidos e as verda- Outro exemplo ainda de hierarquização: o
des"(TA.98). que está na origem valorizado relativamente
àquilo que se lhe segue. Num partido po-

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lítico, o fundador ou fundadores terão ten- que, por definição, são o tipo de argumen-
dência a invocar esse argumento hierárquico tos relativamente aos quais o orador pode ter
para justificar a sua precedência sobre os que por assegurado o acordo do auditório. Esse
chegaram depois. acordo já anteriormente teria sido estabele-
A hierarquização dos valores é portanto cido, senão esse argumentos não seriam lu-
determinante numa argumentação, não tanto gares (topoi).
pelo valores em si serem ou não aceites pelo Com Perelman, distinguir-se-ão, de entre
auditório mas porque este adere com dife- a multiplicidade de lugares possíveis, duas
rente intensidade aos diferentes valores , es- grandes categorias: os lugares da quantidade
tabelecendo assim uma diferenciação hierár- e os da qualidade.
quica entre eles (TA.109). Os lugares da quantidade afirmam a pre-
Um outro aspecto decisivo para o discurso ferência por algo baseado numa valorização
argumentativo é a questão dos lugares (to- da quantidade. A noção de quantidade aqui
poi) ditos "comuns". Também aqui alguns pode ter várias declinações, nomeadamente
equívocos têm sido constantes. A expres- a declinação temporal em que se valoriza a
são "lugar comum"evoca-nos a ideia pejora- quantidade de tempo e portanto a durabili-
tiva de banalidade desinteressante, algo que dade ou estabilidade.
já se sabe e que toda a gente pensa irreflec- Por exemplo na publicidade de uma casa
tidamente. E no entanto a expressão tem comercial, pôr em evidencia a sua antigui-
originalmente, nomeadamente em Aristóte- dade / durabilidade escrevendo sobre a porta
les, um significado bem diferente. A ex- ou no logotipo "estabelecido desde 1769"é
pressão "lugar do discurso"designa um argu- uma utilização corrente do lugar comum da
mento por assim dizer "pré-fabricado"e que quantidade que neste caso valoriza a antigui-
se encontra à disposição do orador. Foram dade, durabilidade, estabilidade, tudo isso
mesmo construídos elencos mais ou menos aqui passando a ser sinónimo de qualidade.
exaustivos desses lugares (do discurso). A É claro que tudo depende do tipo de mer-
ideia do lugar comum servia a Aristóteles cadoria. Se porventura se trata de propor
para o distinguir do lugar específico. Sendo algo que se quer caracterizar pela sua novi-
que o lugar comum era utilizável em qual- dade, esse lugar não seria o mais adequado.
quer domínio da argumentação (campos de Aliás, o lugar comum da quantidade, nesta
argumentação, diria Toulmin) enquanto que sua declinação temporal, está por vezes no
o lugar específico só tem lugar num campo centro da argumentação sobre a retórica. No
determinado. Górgias de Platão a verdade é preferida à
Na terminologia de Toulmin, dir-se-ia que opinião precisamente através da valorização
o lugar comum é invariante relativamente ao que o lugar da quantidade faz da estabilidade
campo de argumentação enquanto que o lu- da verdade em contraste com a inconstância
gar específico é dependente de um determi- da opinião da opinião.
nado campo. Já na argumentação em defesa da demo-
Os lugares, sejam eles comuns ou específi- cracia e ao estabelecer-se a regra da preva-
cos, têm uma função predominante nas pre- lência da maioria, está-se a utilizar o lugar
missas de qualquer argumentação uma vez

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A Nova Retórica de Perelman 11

da quantidade, e da sua preferência, fora já dade, o diferente e o único, suscita a adesão


da dimensão temporal. da maioria que é precisamente o que mais
É claro que a utilização do lugar comum contradiz a diferença, a originalidade e a uni-
da quantidade, ao acentuar a estabilidade cidade. Quando toda a gente anda vestida da
temporal ou a maioria puramente quantita- mesma maneira, a moda exige a invenção de
tiva, terá tendência a valorizar sobretudo o outra coisa.
que é normal, habitual em detrimento do que Daí também a valorização qualitativa do
é excepcional. A partir daí torna-se curto o raro, da escassez ou do que é irrepetível e
passo que vai da valorização da normalidade único enquanto acontecimento (cf. O aniver-
ao estabelecimento da norma: "só o lugar da sário) que é a própria vida.
quantidade autoriza esta assimilação, um as- Toda a discursividade ecológica sobre a
pecto quantitativo das coisas, à norma que protecção das espécies assenta no lugar da
afirma que esta frequência é favorável e que qualidade valorizando o que é único e raro.
nos devemos conformar"(TA.118). Ironicamente, a valorização da unicidade
Quanto aos lugares da qualidade, normal- pelo emprego sarcástico do lugar da quali-
mente servem para contestar os lugares da dade, tem sido utilizado para denegrir aquilo
quantidade. Nomeadamente quanto á valori- a que recentemente, neste fim da história a
zação da durabilidade, como da maioria, por acreditar em Fukuyama, se tem designado
exemplo. por "pensamento único".
O lugar da quantidade valorizará o aconte- Muitos outros lugares se poderiam distin-
cimento único relativamente ao que perdura guir e os antigos o fizeram. Escapando à ten-
e a qualidade da minoria - unicidade, iden- tação de exaustividade, enumerem-se apenas
tidade, raridade - relativamente à quantidade os possíveis lugares da ordem, do existente,
da maioria. da essência: a ordem anterior/posterior; a
Uma boa parte da argumentação estética existência preferível ao possível (mais vale
utiliza os lugares comuns da qualidade ao um pássaro na mão do que dois a voar); a es-
valorizar, por exemplo, a originalidade. O sência (A essência humana relativamente às
que é original é único, distinto, irrepetível. diferenças étnicas), etc.
Basta lembrar a valorização do original rela-
***
tivamente à reprodução de que nos fala Wal-
ter Benjamin no seu célebre ensaio sobre "A Uma questão prévia essencial a toda argu-
obra de arte na era da sua reproductibilidade mentação e que a condiciona à partida é a
técnica." selecção dos factos ou dados relevantes, per-
Toda a lógica do valor signo de que fala tinentes ou assim considerados.
Baudrillard assenta também discursivamente A problemática do agenda-setting mos-
no lugar da qualidade ao valorizar precisa- trou que a selecção dos factos por parte das
mente a diferenciação, a unicidade, a iden- instancias próprias nos media, determina o
tidade única. O que não deixa de suscitar conteúdo do que é a actualidade. São notícia,
alguns paradoxos como é o da moda, por e portanto existem, os factos que os media
exemplo. A moda, valorizando discursiva- tornam visíveis. A actualidade como cons-
mente, pelo lugar da qualidade, a originali- trução.

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12 Tito Cardoso e Cunha

Ora, a selecção dos factos, mas não só... tório acredita que ele seja, isto é aquilo que
também a selecção de toda a espécie de ele toma por factos, verdades ou presunções.
noções utilizáveis na argumentação, resul- Finalmente, os argumentos que fundam a
tando de uma escolha que implica exclusões, estrutura do real. É um tipo de argumenta-
torna esses factos presentes, literalmente ção que opera como que por indução estabe-
visíveis no caso da TV. Presença que lhes lecendo generalizações e regularidades, pro-
dá uma força de convicção que torna muito pondo modelos, exemplos, ilustrações a par-
mais eficaz a sua utilização na argumentação tir de casos particulares. Mas antes disso há
10
.Numa discussão sobre a pena de morte por que referir as premissas da argumentação.
exemplo, a descrição "eloquente"feita por Premissas da argumentação
um bom orador do sofrimento das vítimas; a Todo o movimento da argumentação con-
selecção, pela evocação, de vítimas infantis, siste em transpor a adesão inicial que o au-
a descrição expressiva da perversidade do ditório tem relativamente a uma opinião que
assassino, tudo isso torna presente uma lhe é comum para uma outra de que o ora-
abjecção que só pode condicionar o espírito dor o quer convencer. Daí a importância do
do auditório a aderir a tese da pena de morte. kairós e do conhecimento que o orador deve
É claro que aí se faz uma escolha de factos possuir do seu auditório, das suas opiniões,
que omite, por exemplo, os estudos sérios e das suas crenças, enfim de tudo aquilo que
rigorosos demonstrando a fraca capacidade ele tem por admitido.
dissuasória da ameaça da pena de morte. Essas devem ser as premissas da argumen-
tação: as teses sobre as quais há um acordo.
As técnicas argumentativas É claro que se pode sempre utilizar o estra-
tagema da petição de princípio simulando to-
É possível construir, a partir de Perelman mar por acordado precisamente aquilo que se
uma grelha de análise que permita identificar trata de demonstrar. No entanto não é esse o
os argumentos, classificá-los e compreender procedimento habitual.
a sua articulação tentando medir a sua eficá- Segundo Perelman há dois tipos de acordo
cia persuasiva. presentes nas premissas da argumentação:
Perelman distingue três grandes grupos de acordo sobre o Real e sobre o Preferível.
argumentos: argumentos quase-lógicos, ar- O acordo sobre o real exprime-se em juí-
gumentos baseados na estrutura do real e ar- zos sobre o real conhecido ou presumido:
gumentos que fundam a estrutura do real. tudo o que é admitido pelo auditório como
Os primeiros, como o nome indica, facto, verdade ou presunção.
constroem-se à imagem de princípios lógicos O acordo sobre o que é preferível
como que numa versão mais fraca destes. exprime-se em juízos que estabelecem uma
Os argumentos baseados na estrutura do preferência em termos de valor, hierarquia
real constroem-se a partir, não do que o real ou ainda nos lugares (comuns) do prefe-
é, no sentido ontológico, mas do que o audi- rível: quantidade (a maioria preferível à
10
minoria), qualidade (o que é raro preferível
"Não chega uma coisa existir para que se tenha o
sentimento da sua presença"(TA.156). ao que é banal), existente (prefere-se o que

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A Nova Retórica de Perelman 13

existe: "mais vale um pássaro na mão...), etc. autarquias e a prossecução de certas activi-
dades privadas.
Argumentos quase-lógicos Muita polémica tem surgido na imprensa a
propósito e utilizando este argumento. Basta
Este tipo de argumentos vão buscar toda a recordar o diferendo a propósito da incompa-
sua eficácia persuasiva aos princípios lógi- tibilidade, definida por lei, entre a presidên-
cos à semelhança dos quais são construídos. cia de uma autarquia e as funções de depu-
A evidência da demonstração lógica serve tado no parlamento europeu. Ou ainda, mais
aqui de suporte a uma persuasão que daí recentemente, o projecto de decreto-lei que
retira toda a sua força. Tal como Aquiles impõe a incompatibilidade entre a presidên-
correndo atrás da tartaruga, o argumento cia do tribunal de contas e a actividade do-
quase-lógico persegue a certeza do princípio cente na Universidade Católica.
lógico de que é a imagem retórica sem Estes exemplos mostram bem a diferença
jamais a alcançar. que há entre um princípio lógico de aplica-
ção necessária e uma incompatibilidade que
a) Contradição e incompatibilidade é sempre relativa a circunstâncias contingen-
tes que, nestes casos, dependem de uma de-
O princípio lógico da não - contradição cisão política sempre revogável ou reformu-
enuncia-se assim: se a proposição A é ver- lável.
dadeira, a sua negação (∼A) é falsa e vice- Em suma, da lógica à argumentação vai
versa. Esta é uma das regras fundamentais toda a diferença que há entre a necessidade
do pensamento racional. Mas a lógica lida e a contingência.
com noções unívocas, sem ambiguidade, o
que não é o caso do discurso retórico que não b) Identidade e definição
é redutível a uma linguagem formalizada.
As premissas, na argumentação, muitas O princípio de identidade enuncia-se as-
vezes não se explicitam e mesmo quando não sim: "A é A". A identificação lógica não
é o caso, dificilmente se definem de maneira está, obviamente, sujeita a discussão. Não é
unívoca. o caso com o correspondente argumento re-
Assim, funcionando à maneira do prin- tórico.
cípio lógico da não - contradição, temos o Na discursividade argumentativa a identi-
argumento da incompatibilidade que estabe- dade é posta pela definição que estabelece a
lece a necessidade de opção entre duas asser- identidade do que é definido com o que o de-
ções. fine. Por exemplo, quando um dirigente do
É o caso, por exemplo, das disposições PCP define o seu partido como "o partido da
legais que estabelecem a incompatibilidade classe operária"está a identificar o PCP com
entre o exercício de cargos públicos e o a classe social dos operários determinando
prosseguimento de actividades privadas. Há que a sua essência está nessa classe.
mesmo, nosso ordenamento jurídico, uma Mas o uso argumentativo da definição su-
lei dita "das incompatibilidades"que define a põe a possibilidade de múltiplas definições
contradição entre o exercício de cargos nas entre as quais é preciso escolher. E o mesmo

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14 Tito Cardoso e Cunha

dirigente definirá também o mesmo PCP essenciais.


como"partido democrático".
O debate surge, no entanto quando nos de- c) Reciprocidade
frontamos com diferentes definições de um
mesmo termo. É aí que o carácter argumen- O argumento da reciprocidade funda-se no
tativo da definição se torna mais nítido. As- estabelecimento de uma relação de simetria
sim o de "democracia"é utilizado diferente- entre duas situações. É frequente a utiliza-
mente na argumentação consoante a defini- ção deste argumento, por exemplo, à relação
ção que dele é pressuposta: sendo a demo- entre o contribuinte e o Estado quanto ao pa-
cracia identificada à liberdade, resta que a gamento dos impostos. Quando o cidadão se
definição de liberdade também diverge con- atrasa no pagamento o Estado obriga ao pa-
soante o interlocutor. É antigo o debate sobre gamento de juros e o cidadão utiliza este ar-
o "conteúdo"da liberdade: formal ou con- gumento quando é o Estado que se atraso no
creta? pagamento. Embora se deva dizer, em abono
Um caso particular do argumento fundado da verdade, que o Estado, entidade abstracta,
no princípio de identidade pela definição é a não tem por costume ser muito sensível a
regra de justiça assim enunciada: "a regra de este tipo de argumentação!
justiça exige a aplicação de um tratamento Para rejeitar o argumento da reciprocidade
idêntico a seres ou a situações que se inte- é preciso provar que duas situações não são
gram numa mesma categoria"11 . simétricas.
São disso exemplo os asserções como:
"Todos os cidadãos são iguais (idênti- d) Transitividade
cos)perante a lei", "a trabalho igual, salário
igual". Perelman define assim este tipo de argu-
Trata-se aqui de uma identidade que não é mento: "A transitividade é uma propriedade
total, como quando se identifica PCP e classe formal de certas relações que permite passar
operária, mas apenas parcial uma vez que da afirmação que a mesma relação que existe
a igualdade/identidade postulada é-o apenas entre os termos a e b, e entre os termos b e c,
relativamente a determinados aspectos e não à conclusão de que ela existe entre os termos
todos. Assim, quando se diz que todos os a e c."12
cidadãos são iguais perante a lei, a identi- Um exemplo: "Os amigos dos meus
dade é apenas postulada relativamente à lei. amigos meus amigos são"ou "Os aliados dos
Da mesma maneira que, no segundo caso, a meus aliados são meus aliados".
igualdade se refere apenas ao trabalho e ao
salário. e) Inclusão, divisão
Noutros aspectos as pessoas diferem
e todo o debate se processa de modo a A relação entre um todo e as suas partes
decidir quais são as diferenças e se elas são está na base de dois tipos de argumentos que
11 12
Idem, ibidem, p.294 Idem, ibidem, p.305

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A Nova Retórica de Perelman 15

operam acentuando ora a inclusão das partes obter um efeito de valorização do elemento
no todo, ora a divisão do todo em partes. mais fraco da comparação.
Assim, por exemplo, e frequentemente,
quando se quer argumentar a favor do cen- Argumentos baseados na estrutura do
tralismo e contra a regionalização acentua-se real
a inclusão das diversas regiões no todo naci-
onal. Pelo contrário, quando aquilo que se Enquanto os argumentos quase-lógicos
quer defender é a regionalização, faz-se no- procuram beneficiar da sua proximidade com
tar que o todo nacional se divide em partes princípios lógico-matemáticos dos quais re-
com a sua identidade própria e as suas dife- tiram alguma força e credibilidade, os argu-
renças relativamente ao todo. mentos de que a seguir se tratará utilizam a
A maior parte das vezes, porém, este tipo estrutura do real para estabelecer uma liga-
de argumento valoriza o todo em detrimento ção entre opiniões estabelecidas acerca dessa
das partes; não há nenhum dirigente partidá- estrutura e outras de que se procura conven-
rio (et pour cause..., precisamente um "par- cer o interlocutor .
tido"é apenas uma parte) que não ponha os Mais uma vez há que sublinhar que
interesses do País acima do interesse partidá- quando se fala aqui de "realidade"não se está
rio, nenhum presidente que não o seja "de to- a referir o sentido ontológico do termo mas
dos os portugueses"ou nenhum militante que apenas as opiniões que existem e se formu-
não ponha os interesses do todo partidário lam acerca da realidade; aquilo que é o resul-
acima dos seus interesses próprios ou da sua tado de uma construção social da realidade.
facção. Há que distinguir dois grupos:
No entanto o argumento da divisão tam- 1o - Os argumentos que se aplicam a re-
bém tem a sua eficácia quando se quer pôr lações de sucessão que ligam um aconteci-
em relevo as partes que constituem o todo mento quer às suas causas quer às suas con-
obtendo um efeito retórico certo pela enume- sequências.
ração exaustiva das partes constituintes do 2o - Os argumentos que usam relações de
todo: "Portugal do Minho ao Algarve". An- coexistência entre uma essência e as suas
tigamente ia até Timor. manifestações.
Procura-se assim provar a existência do
conjunto obtendo o efeito de aumentar a 1 – Relação de sucessão
presença das partes pela sua enumeração
mais ou menos exaustiva. A relação causal é, por assim dizer, o pro-
tótipo da relação de sucessão. Dado um
f) Comparação acontecimento procura-se encontrar uma ou
várias causas antecedentes que o determi-
A comparação como argumento põe nam.
em confronto realidades diferentes para as Assim em Portugal ainda hoje se discute
avaliar umas em relação às outras. Quando sobre a descolonização de 1975 e o modo
se diz que Aveiro é a Veneza de Portugal como ela aconteceu relacionando-a, em ter-
está-se a comparar as duas cidades para mos de causalidade, segundo as correntes,

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16 Tito Cardoso e Cunha

quer à própria revolução do 25 de Abril, quer praticados coexistem com a pessoa que os
ao imobilismo salazarista que não soube pre- pratica. Assim qualquer político, primeiro-
parar em devido tempo as independências. ministro ou presidente de câmara, estabele-
A mesma argumentação se aplica cor- cerá a ligação de coexistência entre a sua
rentemente ao relacionar a criminalidade pessoa e os actos que lhe convém fazer res-
(efeito) com a droga (causa). saltar como manifestação de si: as estrada, as
Por outro lado, o mesmo argumento pode pontes, etc. E lá fica a placa para perpetuar
ser usado para defender algo pondo em evi- essa coexistência.
dência os efeitos que daí resultam: eram É também com este argumento que
deste tipo alguns dos argumentos que se uti- estabelece a relação de coexistência entre
lizaram para defender a integração de Portu- um criminoso e os seus actos, a menos que
gal na Comunidade europeia. Dizia-se que seja considerado ininputável, caso em que
ela traria como efeito a irreversibilidade da a argumentação consistirá em mostrar que
democracia e o desenvolvimento. Partia-se essa coexistência não existe. Será preciso
obviamente do princípio que a esmagadora então mostrar que, no momento do crime,
maioria do auditório perfilhava a opinião de o indivíduo em causa não estava "no pleno
que esses efeitos eram desejáveis. uso das suas faculdades mentais". Isto é que
Um outro exemplo de argumentação o acto cometido não era manifestação da sua
fundada numa relação de sucessão entre essência enquanto pessoa consciente e livre.
causa e consequências, entre meio e fim, é
o que se utiliza frequentemente nos debates Argumentos que fundam a estrutura
sobre as vantagens e desvantagens dos do real
diferentes sistemas eleitorais. Era costume
utilizar o argumento das consequências Neste tipo de argumentação um caso parti-
desse regime quer para o criticar, quando se cular é utilizado, generalizando-o como que
lhe atribuía a consequência da instabilidade indutivamente, para estabelecer aquilo que
governativa, quer para o apoiar quando se se acredita ser uma estrutura do real social-
sublinhava como consequência uma maior mente construído.
representatividade democrática. Mas há que distinguir variantes deste tipo
de argumento:
2 – Relação de coexistência
1 – Exemplo
Enquanto na ligação de sucessão os ele-
mentos se situam a um mesmo nível dentro O exemplo pretende generalizar esta-
de uma relação temporal, na relação de co- belecendo uma regra a partir de um caso
existência os elementos estão em níveis dis- concreto: o exemplo de um indivíduo de
tintos e a dimensão temporal é irrelevante. etnia cigana implicado num caso de tráfico
O argumento fundado na relação de coe- de droga é utilizado como argumento para
xistência estabelece uma ligação de coexis- generalizar e estabelecer uma regra segundo
tência entre uma essência e as suas manifes- a qual todos os ciganos são traficantes. O
tações. Assim se argumenta que os actos que justifica a sua expulsão de Ponte de

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A Nova Retórica de Perelman 17

Lima, por exemplo. valor argumentativo da metáfora vem-lhe da


analogia que lhe subjaze e ela esconde.
2 – Ilustração Assim por exemplo, o verso de Rui Ve-
loso que diz: "A primavera da vida é bela de
A ilustração como argumento procura viver"esconde uma analogia que sustenta a
reforçar a adesão à crença numa regra já metáfora "primavera da vida"referida à ado-
estabelecida. Ilustra-se a regra com casos lescência. A analogia enunciar-se-ia assim:
particulares que tornam a regra mais pre- "a primavera está para a natureza como a ju-
sente. Como diz Perelman, "os exemplo ventude está para a - vida". Isto é:
servem para provar a regra, as ilustrações
para a tornar clara."13 Primavera A C Juventude

3 – Modelo ............ = ............

O uso do modelo na argumentação propõe Natureza B D Vida


a sua imitação. O comportamento de um
grande homem é frequentemente utilizado Há pois uma assimilação do que é desco-
como modelo que se pretende deve suscitar nhecido (a juventude da vida) ao que é des-
a imitação: "o valor da pessoa, previamente conhecido (a primavera da natureza).
Pode-se assim fazer um uso argumentativo
reconhecido, constitui a premissa de onde
da analogia na medida em que desloca a ade-
se tirará uma conclusão preconizando um
são do espírito daquilo que é conhecido para
comportamento particular."14
o que é desconhecido. A metáfora é aliás,
Analogia e metáfora classicamente, definida precisamente como
um transporte de sentido de uma palavra para
outra.
A analogia é, consabidamente, um dos
Argumentar pode também consistir em
procedimentos mais utilizados pelo raciocí-
sustentar uma analogia mostrando a sua ade-
nio. Estabelece uma relação de similitude
entre duas relações que unem duas entidades. quação.
Não se trata portanto de uma semelhança en- É pois função da analogia esclarecer o
segundo termo da comparação (juventude,
tre as entidades mas entre as relações que li-
vida) pelo primeiro (primavera, natureza).
gam cada um dos pares: "não é uma relação
A relação entre primavera e natureza é
de semelhança; é uma semelhança de rela-
análoga à relação entre juventude e vida. A
ção". A analogia postula que a relação entre
A e B é semelhante à relação entre C e D. mesma analogia poderia sustentar uma outra
Por isso a analogia pode fundar uma me- metáfora menos habitual do género "juven-
tude da natureza".
táfora. Aliás, na perspectiva de Perelman o
Acontece no entanto que as metáforas se
13
Idem, ibidem, p.481 usam, perde-se-lhes a origem e esquece-se o
14
Idem, ibidem, p.488 seu carácter metafórico. Perelman dá como
exemplo a expressão "o ∼ da cadeira"que se

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18 Tito Cardoso e Cunha

tornou a única maneira de designar o objecto


em causa.
Este procedimento tem uma grande eficá-
cia na argumentação uma vez que a analogia
não é perceptível e aquilo que originalmente
era uma metáfora parece agora ser natural.

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