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Doze lições sobre a história

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Coleção
HISTÓRIA & HISTORIOGRAFIA

Antoine Prost

Doze lições sobre a história

TRADUÇÃO

Guilherme João de Freitas Teixeira

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Título original: “Douze leçons sur l’histoire”, de Antoine Prost.
Copyright © Éditions du Seuil, 1996

COORDENADORA DA COLEÇÃO HISTÓRIA E HISTORIOGRAFIA


Eliana de Freitas Dutra
PROJETO GRÁFICO DE CAPA CAPA: Sobre imagem de
Teco de Souza Puvis de Chavannes. Le Bois sacré
(detalhe). Grand Amphithéâtre de la.
EDITORAÇÃO ELETRÔNICA
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Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)


(Câmara Brasileira do Livro)

Prost, Antoine, 1933- .


Doze lições sobre a história / Antoine Prost ; [tradução de Guilherme
João de Freitas Teixeira]. — Belo Horizonte : Autêntica Editora , 2008.
Título original: Douze leçons sur l‘histoire.
Bibliografia.
ISBN 978-85-7526-348-8
1. Historiografia 2. História - Metodologia I. Título.

08-07528 CDD-907.2

Índices para catálogo sistemático:


1. Historiografia 907.2

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SUMÁRIO

Introdução.................................................................................... 7

Capítulo I – A história na sociedade francesa


(séculos XIX e XX)........................................................................ 13

Capítulo II – A profissão de historiador......................................... 33

Capítulo III – Os fatos e a crítica histórica.................................... 53

Capítulo IV – As questões do historiador....................................... 75

Capítulo V – Os tempos da história.............................................. 95

Capítulo VI – Os conceitos........................................................... 115

Capítulo VII – A história como compreensão............................... 133

Capítulo VIII – Imaginação e atribuição causal............................ 153

Capítulo IX – O modelo sociológico............................................. 169

Capítulo X – A história social......................................................... 189

Capítulo XI – Criação de enredos e narratividade........................ 211

Capítulo XII – A história se escreve............................................... 235

Conclusão – Verdade e função social da história......................... 253

Referências................................................................................... 273

Lista dos livros em destaque.......................................................... 286

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Introdução

Se é verdade – aliás, este estudo tenta fazer tal demonstração – que a


história depende da posição social e institucional de quem a escreve, não
ficaria bem ocultar o contexto em que estas reflexões foram elaboradas;
tendo surgido de um curso, o título deste livro – Lições sobre a história – é
utilizado em seu sentido próprio.
Com efeito, a formação dos estudantes em história inclui, tanto na
universidade da qual sou professor quanto em um grande número de
outras, o ensino de historiografia ou de epistemologia que, através de
diferentes abordagens, visa suscitar um olhar crítico sobre o que se faz
quando se pretende fazer história. Esse ensino inscreve-se, por sua vez,
em uma tradição secular: antes de ter sido professado, em seu tempo, por
Pierre Vilar ou Georges Lefebvre, ele havia sido inaugurado em 1896-
1897, na Sorbonne, por Charles-Victor Langlois e Charles Seignobos,
cujo curso foi publicado, em 1897, com o título – que teríamos adotado
de bom grado – Introduction aux études historiques.
No entanto, trata-se de uma tradição frágil e ameaçada; até o final da
década de 1980, na França, a reflexão metodológica sobre a história foi
considerada inútil. É verdade que alguns historiadores, tais como Ch.-O.
Carbonell, F. Dosse, F. Hartog, O. Dumoulin e ainda outros, chegaram a
manifestar interesse pela história da história, mas eles deixaram a reflexão
epistemológica nas mãos dos filósofos (R. Aron, P. Ricœur). É significa-
tivo que, atualmente, as únicas obras de síntese disponíveis em livraria
sejam iniciativas oriundas do exterior: o livro Histoire et mémoire, de J. Le
Goff, foi publicado, inicialmente, em italiano; por sua vez, o compêndio
de E. Carr deve-se a George Macaulay Trevelyan lectures de Cambridge, assim
como o livrinho – que continua sendo notável – de H.-I. Marrou, De la

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DOZE LIÇÕES SOBRE A HISTÓRIA

connaissance historique, contendo as aulas administradas em Louvain, na cá-


tedra Cardinal-Mercier. Os inspiradores da escola dos Annales – F. Braudel,
E. Le Roy Ladurie, F. Furet, P. Chaunu – multiplicaram as coletâneas de
artigos ou promoveram a publicação de obras coletivas, por exemplo,
aquelas organizadas por J. Le Goff e P. Nora; no entanto, Marc Bloch,
com seu livro Apologie pour l’histoire – infelizmente, inacabado – foi o
único que se empenhou em explicar o ofício de historiador.
Aliás, essa é a conseqüência de uma atitude deliberada: até aqui, os
historiadores franceses haviam feito pouco caso das considerações gerais.
Para L. Febvre, “filosofar” constituía “o crime capital”;1 na aula inaugural
no Collège de France, ele já havia observado que “os historiadores não pos-
suem grandes necessidades filosóficas”. E, para confirmar sua afirmação,
citava o “depoimento irônico” do poeta Charles Péguy (1988):
Habitualmente, os historiadores fazem história sem meditar a respeito
dos limites, nem das condições dessa matéria. Sem dúvida, eles têm
razão; é preferível que cada um exerça seu ofício. De maneira geral,
um historiador deveria começar por fazer história sem delongas: caso
contrário, nunca conseguirá fazer seja lá o que for!2

Tal postura vai além da simples divisão das tarefas: mesmo que lhes
fosse oferecida tal oportunidade, inúmeros historiadores recusariam em-
preender uma reflexão sistemática sobre sua disciplina. Tal rejeição relativa
às filosofias sobre a história é considerada por Philippe Ariès, em seu livro
Le temps de l’histoire, como “uma insuportável vaidade”: “Elas são ignoradas
ou postas de lado, deliberadamente, com um simples dar de ombros, como
se tratasse de falatório teórico de amadores sem competência: a insuportável
futilidade do técnico que permanece confinado dentro de sua técnica, sem
nunca ter tentado observá-la de fora!” (ARIÈS, 1986 p. 216).
Abundam as declarações para confirmar a pertinência desse depoi-
mento. Tendo freqüentado assiduamente os historiadores, sem se eximir
de criticá-los, Paul Ricœur – em sua obra, Temps et Récit, I – cita a este
propósito, de forma um tanto pérfida, Pierre Chaunu:
A epistemologia é uma tentação que deveria ser afastada resoluta-
mente [...] No máximo, admite-se que seja oportuno que essa tarefa

1
Resenha do livro de Marc Bloch, Apologie pour l’histoire, na Revue de métaphysique et de morale (LVII,
1949), em Combats pour l’histoire (FEBVRE, 1953, p. 419-438): “O autor não poderá ser acusado de
filosofar – o que significa, na boca de um historiador, estejamos certos disso, o crime capital” (p. 433).
2
Ver a aula de Lucien Febvre em Combats pour l’histoire (1953, p. 3-17; em particular, p. 4).

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INTRODUÇÃO

seja executada por alguns mentores – não é esse, absolutamente,


nosso caso, nem alimentamos tal desejo – a fim de que os robustos
artesãos de um conhecimento em construção – aliás, essa seria a
nossa única pretensão – fiquem mais bem preservados das perigosas
tentações da mórbida Cápua. (RICŒUR, 1983-1985, p. 171)

Com efeito, os historiadores franceses adotam, naturalmente, a pos-


tura de um modesto artesão: para a foto de família, eles posam em seu
ateliê e exibem-se como homens de ofício que, após uma longa aprendi-
zagem, dominam os recursos de sua arte. Elogiam a beleza da obra e
valorizam a habilidade, em vez das teorias de que estão entulhados – em
sua opinião, inutilmente – os colegas sociólogos. Inúmeros são aqueles
que, no começo de seus livros, se eximem de definir – tarefa considerada
obrigatória pelos colegas alemães – os conceitos e os esquemas de inter-
pretação utilizados. Por maior força de razão, eles julgam que a elabora-
ção de uma reflexão sistemática sobre sua disciplina é algo de pretensioso
e perigoso: isso corresponderia a reivindicar uma posição de fundador de
escola que é uma atribuição rejeitada por sua modéstia – mesmo que seja
fingida – e que, sobretudo, deixá-los-ia expostos à crítica, nem um pouco
benevolente, de colegas que, eventualmente, pudessem ter a impressão
de que eles pretendem ensinar-lhes o ofício. Segundo parece, a reflexão
epistemológica atenta contra a igualdade dos “mestres” da corporação;
eximir-se de levá-la a efeito é uma forma de evitar, por um lado, perder
seu tempo e, por outro, expor-se às críticas dos pares.
Felizmente, essa atitude está em via de mudar. A indagação metodo-
lógica tornou-se mais freqüente, tanto nas revistas mais antigas – por exem-
plo, a Revue de synthèse –, quanto nas mais recentes, como Genèses. Por sua
vez, em seu sexagésimo aniversário, a revista dos Annales retomou uma
reflexão que, desde então, continua a ser elaborada.
É verdade que se alterou a conjuntura do fazer história. O complexo
de superioridade dos historiadores franceses, orgulhosos de pertence-
rem, em maior ou menor grau, à escola dos Annales – cuja excelência, su-
postamente, é elogiada pelos historiadores do mundo inteiro – começou a
tornar-se, não propriamente irritante, mas injustificado. A historiografia
francesa fragmentou-se e três questões têm lançado a dúvida relativamen-
te a suas antigas certezas. Assim, as tentativas de síntese aparecem como
ilusórias e votadas ao fracasso; a ênfase é atribuída, neste momento, às
micro-histórias e monografias sobre temas cujo inventário permanece ili-
mitadamente aberto. Por outro lado, a pretensão científica – compartilhada,

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DOZE LIÇÕES SOBRE A HISTÓRIA

apesar de seu desacordo, por Seignobos e Simiand – vacila sob os efeitos


de um subjetivismo que incorpora a história à literatura; o universo das
representações desqualifica o dos fatos. Por último, o empreendimento
unificador de Braudel e dos defensores de uma história total que fosse
capaz de recapitular a contribuição de todas as outras ciências sociais re-
dundou em uma crise de confiança: à força de servir-se de questões, con-
ceitos e métodos que ela pede de empréstimo à economia, sociologia,
etnologia e lingüística, a história passa, hoje em dia, por uma crise de
identidade que suscita a reflexão. Em poucas palavras, F. Dosse transfor-
mou, acertadamente, essa constatação em título de um livro: a história
encontra-se, atualmente, “em migalhas”.
Neste novo contexto, um livro de reflexão sobre a história nada tem
a ver com o manifesto de uma escola. Em vez de uma tomada de posição
teórica, destinada a valorizar determinadas formas de história, desvalori-
zando as outras, trata-se de participar de uma reflexão comum para a qual
todos os historiadores estão convidados; atualmente, nenhum deles pode
evitar o confronto entre o que julga fazer e o que faz.
Posto isto, não vale dissimular que esta reflexão empreendeu, aqui,
o itinerário didático de um curso destinado a estudantes universitários do
primeiro ciclo. Tive prazer de apresentá-lo repetidas vezes; minha im-
pressão é a de que ele correspondia a uma expectativa, até mesmo, a uma
necessidade. Portanto, resolvi ordená-lo e introduzir notas de referência,
ou seja, torná-lo mais consistente e aprimorá-lo, sem perder de vista seu
público-alvo. Resolução que implica evidentes serventias: o leitor tem o
direito de esperar, por exemplo, determinadas informações mais perti-
nentes sobre aspectos peculiares aos historiadores experientes, a crítica
histórica de acordo com Langlois e Seignobos, ou os três tempos da histó-
ria segundo Braudel. Do mesmo modo, para garantir a nitidez do texto,
tive de sacrificar algumas liberdades de estilo e todas as alusões.
Naturalmente, como qualquer professor, elaborei estas aulas a partir
de reflexões elaboradas por outros. Tive um verdadeiro prazer na leitura
de Lacombe, Seignobos, Simiand, Bloch, Febvre, Marrou; ou, entre os
autores do exterior, Collingwood, Koselleck, Hayden White, Weber e
ainda muitos outros – seria impossível mencionar o nome de todos. O
desejo de fazer compartilhar este prazer levou-me a apresentar longas
citações, integrando-as no meu próprio texto; de fato, pareceu-me desti-
tuído de interesse repetir bem, pessoalmente com menos qualidade, o
que já havia sido afirmado com brilhantismo por uns, com humor por

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INTRODUÇÃO

outros, e com pertinência, por todos. Daí, os “boxes” que não deverão
ser postos de lado pelo leitor afobado em chegar à conclusão: tais textos
constituem, muitas vezes, etapas essenciais da argumentação.
Como se pode ver, em vez de um manifesto pretensioso ou de um
ensaio brilhante, este livro é uma modesta reflexão com o objetivo de ser
útil: eis uma ambição de que sou capaz de avaliar a amplitude. Além
disso, trata-se de uma forma, semelhante a outras, de reencontrar a postu-
ra – tão apreciada pelos historiadores franceses – do artesão que explica o
ofício aos aprendizes...

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