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Manual

de Aplicação
da Norma
Regulamentadora
Nº 17

BRASÍLIA
2002
© 1994 – Ministério do Trabalho
É permitida a reprodução parcial ou total desta obra, desde que cita-
da a fonte.
1ª Edição – 1994 / Tiragem: 2.000 exemplares
2ª Edição – 2002 / Tiragem: 15.000 exemplares
Edição e Distribuição: Secretaria de Inspeção do Trabalho – SIT
Esplanada dos Ministérios – Bloco F,
Anexo, Ala B, 1º Andar
Tels.: (0xx61) 317-6688/317-6672
Fax: (0xx61) 323-7851
CEP: 70059-900 – Brasília/DF

Impresso no Brasil/Printed in Brazil

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação – CIP


Biblioteca. Seção de Processos Técnicos – MTE

M294 Manual de aplicação da Norma Regulamentadora nº 17. –


2 ed. – Brasília : MTE, SIT, 2002.
101 p. : il.
Inclui bibliografia.
A Portaria nº 3.751, de 23.11.1990, estabelece os
princípios da Ergonomia da NR – 17.
1. Ergonomia, Normas, Brasil. 2. Saúde ocupacional,
Brasil. 3. Inspeção do trabalho, Brasil. I. Brasil. Ministério
do Trabalho e Emprego (MTE). II. Brasil. Secretaria de
Inspeção do Trabalho (SIT).

CDD – 620.82
SUMÁRIO

Apresentação ................................................................................ 5
1. O Processo de Elaboração da NR-17 ........................................ 7
2. Comentários sobre a NR-17 ....................................................11
17.1...................................................................................... 12
17.1.1 ................................................................................... 14
17.1.2 ................................................................................... 14
17.2...................................................................................... 27
17.3...................................................................................... 28
17.3.2 ................................................................................... 35
17.4...................................................................................... 36
17.5...................................................................................... 37
17.5.2 – alínea a ................................................................... 39
17.5.2 – alíneas b, c e d ....................................................... 41
17.5.3 ................................................................................... 43
17.6.1 ................................................................................... 45
17.6.2 – alínea a ................................................................... 49
17.6.2 – alínea b .................................................................. 50
17.6.2 – alínea c ................................................................... 52
17.6.2 – alínea d .................................................................. 53
17.6.2 – alínea e ................................................................... 54
17.6.2 – alínea f ................................................................... 55
17.6.3 – alínea a ................................................................... 56
17.6.3 – alínea b .................................................................. 57
3. Limites de uma norma ............................................................ 59
Anexos
NR 17 – Ergonomia (117.000-7) .......................................... 63
Equação do NIOSH para levantamento manual de
cargas .................................................................................. 71
Nota Técnica 060/2001........................................................ 89
Referências Bibliográficas ........................................................... 99
APRESENTAÇÃO

A atual redação da Norma Regulamentadora 17 – Ergonomia


foi estabelecida pela Portaria nº 3.751, de 23 de novembro de 1990.
O Ministério do Trabalho e Emprego, no ano de 2000, realizou trei-
namentos para auditores-fiscais do trabalho com especialização
em Saúde e Segurança no Trabalho em todo o País, analisando a
aplicação desta Norma pela fiscalização. Nesses cursos, verifi-
cou-se uma ampla diversidade de interpretação, o que representa
um obstáculo à efetiva implantação da Norma.
A elaboração deste Manual, reunindo a experiência prática
de 10 anos de fiscalização, tem como objetivo subsidiar a atuação
dos auditores-fiscais do trabalho e dos profissionais de Segurança
e Saúde do Trabalhador nas suas atividades. A publicação contou
com a colaboração da Comissão Nacional de Ergonomia, com-
posta pelos técnicos Mário Gawryszewski, Claudio Cezar Peres,
Rosemary Dutra Leão, Lívia Santos Arueira, Lys Esther Rocha, Paulo
Antonio Barros Oliveira, Carlos Alberto Diniz Silva e Maria de Lourdes
Moure.
A Norma Regulamentadora nº 17 é comentada, item por item,
com o objetivo de esclarecer o significado dos conceitos expres-
sos, caracterizando o que se espera em cada enunciado e definin-
do os principais aspectos a serem considerados na elaboração de
uma Análise Ergonômica do Trabalho, ressaltando que a realiza-
ção desta análise tem como objetivo principal a modificação das
situações de trabalho. É necessária a participação dos trabalhado-
res no processo de elaboração da Análise Ergonômica do Trabalho
e na definição e implantação da efetiva adaptação das condições
de trabalho às características psicofisiológicas dos trabalhadores.
Este documento não se propõe a fornecer soluções para todas
as diferentes condições de trabalho existentes, mas caracteriza a
legislação em vigor e a Ergonomia como um importante instrumento
para garantir a segurança e a saúde dos trabalhadores, bem como a
produtividade das empresas.

JUAREZ CORREIA BARROS JÚNIOR


Diretor do Departamento de Segurança e Saúde no Trabalho
1. O PROCESSO DE ELABORAÇÃO DA NR-17

A descrição do processo de elaboração dessa norma é im-


portante para que, expondo o contexto social e os atores envolvi-
dos, possamos compreender seus avanços e limitações.
Em 1986, diante dos numerosos casos de tenossinovite
ocupacional entre digitadores, os diretores da área de saúde do Sin-

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dicato dos Empregados em Empresa de Processamento de Dados no
Estado de São Paulo – SINDPD/SP fizeram contato com a Delegacia
Regional do Trabalho, em São Paulo – DRT/SP, buscando recursos
para prevenir as referidas lesões.
Foi constituída uma equipe composta de médicos e engenhei-
ros da DRT/SP e de representantes sindicais que, por meio de fisca-
lizações a várias empresas, verificou as condições de trabalho e as
repercussões sobre a saúde desses trabalhadores, utilizando a análi-
se ergonômica do trabalho. Em todas as avaliações, foi constatada a
presença de fatores que sabidamente contribuíam para o apareci-
mento das Lesões por Esforço Repetitivo – LER: o pagamento de prê-
mios de produção, a ausência de pausas, a prática de horas-extras e
a dupla jornada de trabalho, dentre outros.
Exceto nos aspectos referentes ao iluminamento, ao ruído e à
temperatura, a legislação em vigor não dispunha de nenhuma norma
regulamentadora em que o MTE pudesse se apoiar para obrigar as em-
presas a alterar a forma como era organizada a produção, com todos
os estímulos possíveis à aceleração da cadência de trabalho.
Durante 1988 e 1989, a Associação de Profissionais de
Processamento de Dados (APPD nacional) realizou reuniões com re-
presentantes da Secretaria de Segurança e Medicina do Trabalho – SSMT
em Brasília, da FUNDACENTRO e da DRT/SP para elaborar um proje-
to de norma que estabelecesse limites à cadência de trabalho e proibis-
se o pagamento de prêmios de produtividade, bem como estabeleces-
se critérios de conforto para os trabalhadores de sua base, que incluíam

7
o mobiliário, a ambiência térmica, a ambiência luminosa e o nível
de ruído.
Nesse mesmo período, o Ministério do Trabalho convocou
toda a sociedade civil para que organizasse seminários e debates
com o objetivo de recolher sugestões para a melhoria de todas as
Normas Regulamentadoras – NR. Nesses seminários, chegaram
várias sugestões de alteração da NR-17, mas eram propostas de
alterações pontuais conservando a estrutura geral em vigor. Não
havia nenhuma proposta concreta que fosse ao âmago da questão:
o controle da cadência e do ritmo do processo produtivo.
Durante o segundo semestre de 1989, a DRT/SP elaborou um
manual e um documentário em vídeo sobre o trabalho com terminais
de vídeo (Rocha et alii, 1989), a partir da tradução e da adaptação do
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texto “Les écrans de visualisation: guide méthodologique pour médecin


du travail”, publicado pelo INRS (Institut National de Recherche en
Sécurité), em 1987, na França. Esse material foi usado em seminário
nacional realizado em dezembro de 1989, em São Paulo, com médicos
e engenheiros de 10 D elegacias Regionais do Trabalho. Nesse seminário,
foi decidido que não deveria ser elaborada uma norma apenas para
os profissionais em processamento de dados, pois as LER eram obser-
vadas também em várias outras atividades profissionais. Além disso,
o Secretário de Segurança e Medicina do Trabalho também não concor-
dava com a idéia de se elaborar uma norma que abrangesse apenas o
setor de processamento de dados, argumentando que, dentro em bre-
ve, todos os setores produtivos exigiriam uma norma específica.
Em meados de 1989, a SSMT pediu à equipe de fiscalização
das empresas de processamento de dados da DRT/SP que elaboras-
se uma nova redação da NR-17 que incluísse as sugestões coletadas,
os resultados das discussões do seminário nacional, bem como a
proposta de regulamentação das atividades de processamento de
dados elaborada pela APPD nacional. O prazo estabelecido para
essa atividade foi de apenas 10 dias.
Embora não dispusesse de estudos sistemáticos de ergonomia
em outros setores produtivos além do processamento de dados, a
equipe considerou que não se poderia perder a oportunidade de fa-
zer avançar a legislação. Procurou-se, então, colocar itens que
abrangessem o mais possível as diversas situações de trabalho, sem a

8
preocupação com o detalhamento. Um maior ajuste poderia ser
feito posteriormente, após a realização de estudos em outras ativi-
dades. Abaixo desses itens abrangentes, colocou-se o detalhamento
no que se refere ao trabalho com entrada eletrônica de dados (aten-
ção, a Norma não usa a palavra digitação – que é menos abrangente
–, mas entrada eletrônica de dados), pois este já estava pronto e
gozava de relativo consenso.
Em março de 1990, às vésperas do término do Governo Sarney,
a Ministra do Trabalho Dorothéa Werneck assinou a portaria que al-
terava a NR-17 e a NR-5, enviando para a publicação no Diário Ofi-
cial da União. Houve, inclusive, uma solenidade no momento da

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assinatura, em São Paulo, com a presença de entidades representati-
vas de trabalhadores. Infelizmente, a nova NR-5 contrariava forte-
mente os interesses das classes patronais, e a portaria não foi publicada.
Em junho de 1990, por interferência do Presidente do SINDPD/
SP, conseguiu-se que o Ministro do Trabalho assinasse a portaria que
dava nova redação à NR-17, cujo conteúdo era o mesmo da portaria
que não foi publicada em março.
Após a publicação, a classe patronal, principalmente Federação
das Indústrias do Estado de São Paulo – FIESP e Federação Brasileira
dos Bancos – FEBRABAN se deram conta das possibilidades abertas
pela nova redação e que as alterações não se limitavam à área de
processamento de dados. Foi solicitada imediatamente uma discus-
são dos técnicos do Ministério do Trabalho e de representantes des-
sas instituições para modificar seu conteúdo.
A equipe de fiscalização em ergonomia realizou debates com
uma legião de advogados e outros representantes da FIESP e FEBRABAN,
principalmente nos aspectos da organização do trabalho. Como os ar-
tigos da CLT são regulamentados pelas Normas e a Ergomonia possui
relação apenas em dois artigos da CLT que se referem à prevenção da
fadiga, os empresários argumentavam que os aspectos da organização
do trabalho diziam respeito apenas às empresas. Felizmente, a reda-
ção havia sido baseada em sólidos argumentos e conseguiu-se ven-
cer a oposição patronal em quase todos os aspectos.

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A nova proposta foi encaminhada à SSST e publicada em 23
de novembro de 1990, pela Portaria nº 3.751, com alterações que,
infelizmente, comprometeram, em parte, o seu entendimento e, por
conseqüência, a sua aplicação prática.
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2. COMENTÁRIOS SOBRE A NR-17

De acordo com a Ergonomics Research Society (1949),


“Ergonomia é o estudo do relacionamento entre o homem e seu
trabalho, equipamento e ambiente e, particularmente, a aplicação
dos conhecimentos de anatomia, fisiologia e psicologia na solução
dos problemas surgidos desse relacionamento”.

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Já para Wisner (1987), “Ergonomia é o conjunto dos conheci-
mentos científicos relacionados ao homem e necessários à concep-
ção de instrumentos, máquinas e dispositivos que possam ser utili-
zados com o máximo de conforto, segurança e eficiência”.
Esse conceito foi, com as devidas adaptações, utilizado na reda-
ção do item 17.1. Mais tarde (1994), o mesmo autor reformula sua
definição colocando o saber do trabalhador no mesmo nível do saber
tecnocientífico e como condição indispensável para o sucesso da ação
ergonômica, como veremos na discussão sobre conforto no item 17.1:
“Ergonomia é arte1 na qual são utilizados o saber tecnocientífico e o
saber dos trabalhadores sobre sua própria situação de trabalho”.
A seguir, faremos comentários sobre os diversos subitens da NR-
17 que possam esclarecer as principais dúvidas surgidas nas empresas.

1
A palavra arte designa tudo aquilo que é produzido pelos homens e é a tradução latina
da palavra grega techné (= técnica), palavra que se opõe a physis (= natureza), que é
aquilo que existe independentemente do homem. Por exemplo, falamos de arte médica
e arte da construção naval. Atualmente, temos tendência a associar a palavra arte ape-
nas às belas-artes. Para Aristóteles (1984), “a arte é idêntica a uma capacidade de pro-
duzir que envolve o reto raciocínio” mas que versa sobre coisas variáveis, pois depen-
dentes do homem. Ele contrapõe arte ao conhecimento científico, que “é um juízo
sobre coisas universais e necessárias.”

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17.1. Esta Norma Regulamentadora visa estabelecer parâmetros
que permitam a adaptação das condições de trabalho às ca-
racterísticas psicofisiológicas dos trabalhadores, de modo a pro-
porcionar um máximo de conforto, segurança e desempenho
eficiente.
A palavra parâmetros criou uma falsa expectativa de que seriam
fornecidos valores precisos, normatizando toda e qualquer situação
de trabalho. Apenas para entrada eletrônica de dados, é que há refe-
rência a números precisos. No entanto, os resultados dos estudos rea-
lizados no Brasil e no exterior devem ser utilizados nas transforma-
ções das condições de trabalho de modo a proporcionar um máximo
de conforto, segurança e desempenho eficiente.
As características psicofisiológicas dizem respeito a todo o co-
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nhecimento referente ao funcionamento do ser humano. Se a ergonomia


se distingue pela sua característica de busca da adaptação das condi-
ções de trabalho ao homem, a primeira pergunta a se colocar é: quem
é este ou quem são estes seres humanos a quem vou adaptar o traba-
lho? Evidentemente, todo o conhecimento antropológico, psicológico,
fisiológico está aí incluído, e não podemos fazer uma listagem comple-
ta de todas essas características. Ainda não se tem um conhecimento
acabado sobre o homem. Mas todas as aquisições dos diversos ramos
do conhecimento devem ser utilizadas na melhoria das condições de
trabalho. Apenas como exemplo citamos algumas dessas característi-
cas que fazem parte do consenso entre os estudiosos e que estão implí-
citas na redação da NR-17.
Algumas características psicofisiológicas do ser humano:
• prefere escolher livremente sua postura, dependendo das
exigências da tarefa e do estado de seu meio interno;
• prefere utilizar alternadamente toda a musculatura corpo-
ral e não apenas determinados segmentos corporais;
• tolera mal tarefas fragmentadas com tempo exíguo para
execução e, pior ainda, quando esse tempo é imposto por
uma máquina, pela gerência, pelos clientes ou colegas de
trabalho, ou seja, prefere impor sua própria cadência ao
trabalho;

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• é compelido a acelerar sua cadência quando estimulado
pecuniariamente ou por outros meios, não levando em conta
os limites de resistência de seu sistema musculoesquelético;
• sente-se bem quando solicitado a resolver problemas ligados
à execução das tarefas, logo, não pode ser encarado como
uma mera máquina, mas sim como um ser que pensa e
age;
• tem capacidades sensitivas e motoras que funcionam dentro
de certos limites, que variam de um indivíduo a outro e ao
longo do tempo para um mesmo indivíduo;
• suas capacidades sensorimotoras modificam-se com o proces-

MANUAL DE APLICAÇÃO DA NORMA REGULAMENTADORA Nº 17


so de envelhecimento, mas perdas eventuais são amplamente
compensadas por melhores estratégias de percepção e resolu-
ção de problemas desde que possa acumular e trocar experiên-
cia;
• organiza-se coletivamente para gerenciar a carga de tra-
balho, ou seja, nas atividades humanas a cooperação tem
um papel importante, muito mais que a competitividade.
O sucesso da raça humana no processo evolutivo deve-
se, em grande parte, a sua capacidade de agir em conjun-
to, conduta observada em várias outras espécies. A extre-
ma divisão do trabalho e a imposição de uma carga de
trabalho individual impedem os mecanismos de regulação
dos grupamentos humanos, levando ao adoecimento, como
veremos no comentário do subitem 17.6.
A palavra conforto merece um destaque especial. A regulamen-
tação em segurança e saúde no trabalho quase sempre diz respeito a
limites de tolerância que podem ser medidos objetivamente. O mes-
mo não ocorre aqui. Para se avaliar o conforto, é imprescindível a
expressão do trabalhador. Só ele poderá confirmar ou não a adequa-
ção das soluções que os técnicos propuseram. Portanto, tanto para se
começar a investigar as inadequações como para solucioná-las, a palavra
do trabalhador deve ser a principal diretiva. Compreendemos como
é difícil para técnicos acostumados a lidar com valores objetivos ter
de levar em conta a opinião dos trabalhadores. Mas lembramos que a
origem das atuais inadequações deve-se, em grande parte, à separa-
ção radical entre a concepção das condições e organização do traba-
lho e a sua execução, principalmente após a introdução da organiza-

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ção taylorista. Ou seja, os trabalhadores nunca são consultados sobre
a qualidade das ferramentas, do mobiliário, sobre o tempo alocado à
realização da tarefa etc. A ergonomia surge para colocar o trabalhador
novamente como agente das transformações.
O desempenho eficiente não deve ser encarado apenas como
uma otimização do volume da produção. Para que seja considerado
eficiente, é necessário que o trabalhador possa permanecer no processo
produtivo durante todo o tempo que a própria sociedade estipula
como sendo seu dever, principalmente agora que o sistema previden-
ciário está deficitário. Se o trabalhador deve permanecer por mais
tempo na vida ativa, é preciso que suas condições permitam a exe-
cução das tarefas até uma idade mais avançada. Querer postergar a
idade da aposentadoria sem a contrapartida da melhoria dos postos
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de trabalho, é condenar uma grande parcela da população ao de-


semprego ou, na melhor das hipóteses, a uma aposentadoria preco-
ce por invalidez. Portanto, é de interesse de toda a sociedade zelar
pela própria eficiência de seguro social. O elevado índice de apo-
sentadoria por invalidez devido aos Distúrbios Osteomusculares
Relacionados ao Trabalho – DORT tem sua origem na forma como o
trabalho tem sido organizado. A organização do trabalho, sabidamente
patogênica, não pode ser um item de gerenciamento exclusivo das
empresas. A saúde pública também deve ser levada em conta.
17.1.1. As condições de trabalho incluem aspectos relaciona-
dos ao levantamento, transporte e descarga de materiais, ao
mobiliário, aos equipamentos e às condições ambientais do
posto de trabalho e à própria organização do trabalho.
A inclusão da organização do trabalho dentro do que se en-
tende por condições de trabalho e sujeita à atuação é o avanço mais
significativo da nova redação. Até então, a organização do trabalho
era considerada intocável e passível de ser modificada apenas por
iniciativa da empresa, muito embora os estudos comprovassem o pa-
pel decisivo desempenhado por ela na gênese de numerosos com-
prometimentos à saúde do trabalhador que não se limitam aos distúrbios
osteomusculares.
17.1.2. Para avaliar a adaptação das condições de trabalho às
características psicofisiológicas dos trabalhadores, cabe ao empre-
gador realizar a análise ergonômica do trabalho, devendo a mesma

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abordar, no mínimo, as condições de trabalho conforme esta-
belecido nesta NR.
Este é o subitem mais polêmico da Norma. Ele foi colocado
para ser usado quando o auditor-fiscal do trabalho tivesse dificuldade
para entender situações complexas em que fosse necessária a pre-
sença de um ergonomista. Evidentemente, nesse caso, os gastos com
a análise devem ser cobertos pelo empregador. Têm-se pedido análi-
ses ergonômicas de uma forma rotineira e protocolar. Isso só tem dado
margem a que se façam análises grosseiras e superficiais que em
nada contribuem para a melhoria das condições de trabalho. Na so-
licitação da análise ergonômica, deve-se ter clareza de qual é a de-

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manda, enfocando-se um problema específico. Sempre que o audi-
tor-fiscal do trabalho solicitar uma análise, deve explicitar claramen-
te qual é o problema que quer resolver e pelo qual está pedindo ajuda
a um ergonomista.
Teoricamente, podemos dizer que uma análise, seja lá qual
for, só é empreendida quando temos de solucionar um problema
complexo, cujo entendimento só é possível se decompusermos o
todo complexo em partes menores em que apreensão possa ser eviden-
ciada. Compreendendo-se as partes, compreende-se o todo. Por exem-
plo, se há casos de DORT em uma empresa, devemos primeiramen-
te saber em que setor ela incide mais. Se esse setor comportar diver-
sas tarefas, procura-se saber em qual atividade há maior número de
casos. Finalmente, decompõe-se a atividade em suas diversas partes
e verifica-se em qual delas há um ou mais fatores que sabidamente
causam DORT. Resumindo, não há análise em abstrato. Analisa-se
algo para compreender um problema.
A maioria das situações de trabalho coloca problemas ergonô-
micos facilmente detectados pelo auditor-fiscal do trabalho que não
demandam a opinião de ergonomistas. Por exemplo, o trabalho con-
tínuo na posição em pé pode ser mudado sem se recorrer ao ergonomista.
Basta que se estude uma mudança do arranjo físico e do mobiliário
de modo a permitir a alternância de posturas: sentada e em pé.
Embora à primeira vista uma ação ergonômica possa parecer
muito demorada, dependendo de sua abrangência, pode beneficiar um
grande número de trabalhadores. O auditor-fiscal do trabalho pode ele-
ger uma situação mais complexa para ser objeto de estudo mais acurado.
Na DRT/SP, ao lado do trabalho rotineiro de fiscalização, sempre foram
15
constituídas equipes que estudavam problemas mais abrangentes como,
por exemplo, a entrada eletrônica de dados, os check-out de super-
mercados etc.
Sempre que uma empresa for notificada a realizar uma aná-
lise ergonômica do trabalho, os responsáveis devem ter clareza
do objeto de análise. Mesmo que no Termo de Notificação não
haja maiores detalhes da situação a ser analisada, devem-se es-
clarecer esses pormenores junto ao auditor-fiscal. A empresa deve
também proporcionar um contato entre o ergonomista-consultor e
o auditor-fiscal para que todas as dúvidas sejam esclarecidas e os
problemas possam ser resolvidos satisfatoriamente.
Uma questão que sempre surge é sobre um certo modelo de
relatório que contenha as exigências requeridas pela fiscalização. Um
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tal modelo não existe pronto para todas as situações. O que se deve
ter em mente são alguns passos que devem ser seguidos para melhor
exposição dos resultados da análise, como veremos a seguir. Nun-
ca se deve esquecer que o mais importante é que o relatório deixe
bem claro qual foi o problema que demandou o estudo, os métodos
e técnicas utilizadas para abordar o problema, os resultados e as
proposições de mudança. De nada adianta seguir um modelo se o
problema não for esclarecido e resolvido.
A análise ergonômica do trabalho é um processo construtivo
e participativo para a resolução de um problema complexo que
exige o conhecimento das tarefas, da atividade desenvolvida para
realizá-las e das dificuldades enfrentadas para se atingirem o
desempenho e a produtividade exigidos.
A análise começa por uma demanda que pode ter diversas ori-
gens. Pode ser a constatação de que em determinado setor há um nú-
mero elevado de doenças ou acidentes (demanda de saúde) ou recla-
mações de sindicato de trabalhadores (demanda social) ou a partir de
uma notificação de auditores-fiscais do trabalho ou de ações civis pú-
blicas (demandas legais) que, por sua vez, também se originaram de
alguma queixa ou reclamação. Da parte das empresas, uma demanda
quase sempre advém da necessidade de melhorar a qualidade de
um produto ou serviço prestado ou motivado por maiores ganhos de
produtividade.

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A demanda deve ser estudada para direcionar a análise. Esta
pode ser “reconstruída” pelo ergonomista e seus interlocutores; isto
é, nos primeiros contatos entre ergonomistas e trabalhadores pode-se
chegar à conclusão de que a origem do problema, da queixa, da re-
clamação não era bem o que havia sido explicitado anteriormente,
mas algo que ainda não estava muito claro para os vários envolvidos.
Por exemplo, uma queixa de intolerância ao ruído pode ser a primei-
ra manifestação de distúrbios provocados pelo trabalho em turnos.
Logo, o que deve ser investigada é a adequação dos arranjos dos
horários de trabalho. Ater-se apenas ao controle do ruído pode não
ser de relevância. Outro exemplo: o aparecimento de DORT num
setor pode ser conseqüência de retrabalho ocasionado pelo mau fun-

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cionamento do setor anterior da cadeia produtiva. Logo, o problema
vai ser resolvido somente se eliminarmos os problemas de qualidade
que são a origem do retrabalho.
Após a reconstrução da demanda, o ergonomista apresentará
um contrato de trabalho em que se explicitarão as etapas da aná-
lise, bem como os procedimentos a serem utilizados.
A análise ergonômica deverá conter, minimamente, as se-
guintes etapas:
1. A análise da demanda e do contexto: para situar o proble-
ma a ser analisado, como explicado acima. Nossa opinião
é que o auditor-fiscal pode aceitar, por exemplo, a
reformulação de sua notificação, principalmente se ficar
demonstrado que, no estudo da demanda, houve a partici-
pação de todos os atores sociais e foram incorporados os
interesses dos diferentes operadores da situação a ser ana-
lisada e, a partir dessa situação, ficar demonstrado que, a
partir de outros critérios, coletivamente mais consistentes,
um outro posto, ou uma outra situação mais grave foi
identificada e merece ser enfrentada prioritariamente em
relação àquela notificada. Isso se aplica, mais freqüentemente,
em relação aos prazos determinados na notificação.
2. A análise global da empresa: seu grau de evolução téc-
nica, sua posição no mercado, sua situação econômico-
financeira, sua expectativa de crescimento etc. Tudo isso
para que as soluções propostas possam ser adequadas a
esse quadro. Não se propõe uma automação baseada na

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microeletrônica para uma empresa de fundo de quintal,
assim como não se propõe a solução de um novo arranjo
físico, sem levar em conta o aumento do efetivo. Em seto-
res fortemente competitivos, as alterações de cadência de
uma esteira devem ser propostas e exigidas para todas as
empresas do mesmo ramo de atividade e ao mesmo tem-
po. O desenho de um check-out de uma rede de supermer-
cados presente em vários estados da Federação deve ser
aceito pelos auditores de diferentes delegacias regionais.
De um modo esquemático, o analista deve estar atento aos
seguintes pontos:
• o contexto econômico e comercial (mercado), consumi-
dores, regulamentação, clientes, concorrência, posição da
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empresa nos mercados interno/externo;


• produtos: tipos, qualidade, materiais, exigências dos clientes;
• história da empresa e perspectivas futuras: política de
desenvolvimento, origem, estrutura administrativa, evo-
lução, políticas, estratégias;
• geoeconomia: ambiente geográfico, aprovisionamento de
matéria-prima e de material de consumo, vias de acesso,
mercado de mão-de-obra, clima, localização, qualidade
do tecido social e industrial de suporte;
• dimensão técnica da produção: tecnologia, características
das matérias-primas, variações sazonais da produção;
• produto: tipo, qualidade e materiais;
• organização da produção: fluxogramas do processo, prin-
cipais etapas e tarefas, arranjo físico, tecnologia, automação,
metas produtivas, capacidade de produção, índice de pro-
dutividade, percentagem de refugo, percentagem de utili-
zação da capacidade instalada, taxa de ocupação das máqui-
nas, o vocabulário/jargão utilizado, observação das latas
de lixo, modelos de gestão, gestão de estoques, gestão da
qualidade;
• organização do trabalho: horários, turnos, cadências, ritmos,
políticas de remuneração, repartições de tarefas, polivalência,
qualificações, terceirização, grau e forma de equipes,
organogramas;

18
• dimensão legislativa e regulamentos: ambiental, sanitária,
civil e penal; propriedade industrial, insalubridade, periculo-
sidade e penosidade;
• resíduos: exigências quanto aos rejeitos industriais, destino/
reciclagem do lixo, qualidade, processamento.
3. A análise da população de trabalhadores: política de pessoal,
faixa etária, evolução da pirâmide de idades, rotatividade,
antiguidade na função atual e na empresa, tipos de contrato,
experiência, categorias profissionais, níveis hierárquicos, ca-
racterísticas antropométricas, pré-requisitos para contratação,
nível de escolaridade e capacitação, estado de saúde,

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morbidade, mortalidade, absenteísmo etc. Se quisermos adaptar
o trabalho ao homem, é logicamente impossível promover
essa adaptação se não conhecermos a população à qual a
mesma se destina.
4. Definição das situações de trabalho a serem estudadas:
essa escolha parte necessariamente da demanda dos pri-
meiros contatos com os operadores e das hipóteses inici-
ais que já começam a ser formuladas.
5. A descrição das tarefas prescritas, das tarefas reais e das ativida-
des desenvolvidas para executá-las. Grosseiramente, diría-
mos que a tarefa real é o objetivo fixado pela empresa. “Pro-
duzir 420 peças por dia, com tais e tais requisitos de qualida-
de, dispondo para tanto de tais e tais ferramentas e materi-
ais”. A tarefa real é o objetivo que o trabalhador se dá, caso
ele tenha possibilidade de alterar o objetivo fixado pela em-
presa. “Bem, eu gostaria de fabricar as 420 peças, mas devi-
do ao mau estado de minhas ferramentas ou à gripe de que
estou acometido, hoje só vou fabricar 350”. A atividade é
tudo aquilo que o trabalhador faz para executar a tarefa: ges-
tos, palavras, raciocínios etc. Esse conhecimento é impor-
tante, pois as inadequações ficam mais bem evidenciadas
quando se nota o descompasso entre o que é exigido e o que
é realmente executado, se for o caso. Deve-se explicar o
descompasso. A matéria-prima é de má qualidade? As fer-
ramentas não estão adequadas? O trabalhador sofre inter-
rupções contínuas? Caso, o trabalhador não consiga modi-
ficar a tarefa prescrita e os meios disponíveis não forem

19
adequados, ele deve realizar um esforço adicional para atin-
gir os objetivos. Nesse caso, às custas de um desgaste de seu
corpo que vai redundar em fadiga ou adoecimento. É o caso,
por exemplo, de quem trabalha em um ritmo imposto pela má-
quina. Não se consegue diminuir a velocidade da máquina ou
da esteira. De uma maneira esquemática, podemos dizer que
quando a carga de trabalho supera a capacidade do trabalha-
dor e ele não consegue modificá-la, fatalmente haverá au-
mento do absenteísmo por fadiga ou adoecimento, assim como
o aumento do número de acidentes. Outra saída é o afasta-
mento definitivo por iniciativa do empregador ou do emprega-
do. Nesse caso, constata-se uma alta rotatividade da mão-de-
obra. Concluindo, absenteísmo elevado e alta rotatividade são
indicadores indiretos de sobrecarga de trabalho ou, o que é o
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mesmo, de inadequação entre características psicofisiológicas


dos trabalhadores e a natureza do trabalho. Por “natureza do
trabalho” queremos dizer as exigências das tarefas e os meios
disponíveis para realizá-las.
A seguir, selecionamos alguns elementos que podem ser utili-
zados na descrição das tarefas e das atividades. Esta lista consta de
literatura consultada e deve ser entendida como caráter exemplificativo
e uma ajuda à memória. Não pretende ser exaustiva nem ser roteiro
obrigatório. O importante é que a descrição permita ao leitor do rela-
tório compreender o que o trabalhador deve fazer (a tarefa) e como
proceder para atingir esse objetivo (atividade), bem como as dificul-
dades que enfrenta.
Dados referentes ao homem:
• operador(es) que intervém no posto(s) e seu papel no sis-
tema de produção;
• formação e qualificação profissional;
• número de operadores trabalhando simultaneamente em
cada posto e regras de divisão de tarefas (quem faz o quê?);
• número de operadores trabalhando sucessivamente em cada
posto e regras de sucessão (horários, turnos, modos de
alternância das equipes);
• características da população: como descrito anteriormente.

20
Dados referentes à(s) máquina(s):
• estrutura geral;
• dimensões características (croqui, foto, fluxograma de pro-
dução);
• órgãos de comando;
• órgãos de sinalização;
• princípios de funcionamento da máquina (mecânico, elé-
trico, hidráulico, pneumático, eletrônico etc.);
• problemas aparentes;
• aspectos críticos evidentes.

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Dados referentes às ações dos operadores:
• ações imprevistas ou não programadas;
• principais gestos realizados pelo(s) operador(es);
• principais posturas;
• principais deslocamentos realizados pelo(s) operador(es);
• principais ligações sensorimotoras;
• grandes categorias de tratamentos de informações;
• principais decisões a serem tomadas pelo(s) operador(es);
• principais regulações ao nível do homem, do posto, do
sistema;
• principais ações do(s) operador(es) sobre a(s) máquina(s),
as entradas e as saídas.
Dados referentes ao meio ambiente de trabalho (para maiores
detalhes, ver comentários do subitem 17.5 - Condições ambientais
de trabalho):
• espaços e locais de trabalho em confronto com dados
antropométricos e biomecânicos;
• ambiente sonoro;
• ambiente térmico;
• ambiente luminoso;
• ambiente vibratório (intensidade, amplitude, freqüência);
• ambiente tóxico (concentração de partículas e gases tóxicos).

21
EXIGÊNCIAS DO TRABALHO
A lista seguinte não necessita estar toda explicitada no estudo,
mas apenas os elementos pertinentes à(s) demanda(s) e à(s) hipótese(es)
inicial(ais). Ela serve de ajuda à memória.
Exigências referentes à tarefa:
• esforços dinâmicos: deslocamentos a pé, transportes de car-
gas, utilização de escadas e outros. Devem ser levadas em
conta a freqüência, a duração, a amplitude e a força exigida;
• esforços estáticos: postura exigida por uma determinada ativi-
dade, estimativas de duração da atividade e freqüência.

EXIGÊNCIAS REFERENTES AO ORGANISMO HUMANO: POSTURAS,


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MOVIMENTOS, GASTOS ENERGÉTICOS

Exigências sensoriais do trabalho.


Dados referentes às fontes de informação:
• levantamento dos diferentes sinais úteis ao(s) operador(es);
• diferentes tipos de canais (visuais, auditivos, táteis, olfa-
tivos ou gustativos);
• variedade de suportes (cor, grafismo, letras);
• freqüência e repartição dos sinais;
• intensidade dos sinais luminosos e sonoros;
• dimensões dos sinais visuais (relação distância-formato,
por exemplo);
• discriminação dos sinais de um mesmo tipo (sonoro, por
exemplo);
• riscos dos efeitos de máscara ou de interferência de sinais;
• dispersão espacial das fontes;
• exigências de sinais de advertência e de sistemas de
interação;
• importância das diferenças de intensidade a serem perce-
bidas.

22
Dados referentes aos órgãos sensoriais.
Visão:
• campo visual do operador e localização dos sinais;
• tempo disponível para acomodação visual;
• riscos de ofuscamento;
• acuidade visual exigida pela tomada de informação;
• sensibilidade às diferenças de luminâncias;
• rapidez de percepção de sinais visuais;
• sensibilidade às diferenças de cores;

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• duração da solicitação do sistema visual.
Audição:
• acuidade auditiva exigida para recepção dos sinais sono-
ros;
• riscos de problemas de audição (notadamente em ra-
zão de intensidade sonora muito elevada; solicitando
de forma intensa o aparelho auditivo);
• sensibilidade às comunicações verbais em ambientes ruido-
sos;
• sensibilidade às diferenças de sons (altura, freqüência, tim-
bre, tempo de exposição).
Dados referentes aos dispositivos sinais-comandos:
• número e variedade de comandos das máquinas;
• posição, distância relativa dos sinais e dos comandos asso-
ciados;
• grau de precisão da ação do operador sobre o comando
das máquinas;
• intervalo entre o aparecimento do sinal e o início da ação;
• rapidez e freqüência das ações realizadas pelo operador;
• grau de complexidade nos movimentos de diferentes
comandos, manobrados seqüencialmente ou simultanea-
mente;
• grau de realismo dos comandos;

23
• disposição relativa dos comandos e cronologia de sua
utilização;
• grau de correspondência entre a forma dos comandos e suas
finalidades;
• grau de coerência dos diferentes movimentos de coman-
dos com efeitos similares.
Dados referentes ao operador:
• exigências antropométricas: posição dos comandos em re-
lação às zonas de alcance das mãos e dos pés;
• posturas ou gestos do operador susceptíveis de impedir a
recepção de um sinal;
• membros do operador envolvidos pelos diferentes comandos
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da máquina;
• ações simultâneas das mãos ou dos pés;
• grau de encadeamento dos gestos sucessivos;
• grau de conformidade dos deslocamentos dos comandos
em relação aos estereótipos dos operadores;
• grau de compatibilidade entre efeito de uma ação sobre
um comando, percebido (ou imaginado) pelo operador e a
codificação utilizada (forma, dimensão, cor) desse comando.
5. Estabelecimento de um pré-diagnóstico: ele deve ser
explicitado às várias partes envolvidas, após o que será
validado ou abandonado como hipótese explicativa para o
problema. Exemplo, os distúrbios osteomusculares podem
estar relacionados à exigência de elevação permanente do
membro superior para realizar a tarefa de cortar a jugular
do frango em um abatedouro. Se essa hipótese for plausí-
vel, o analista elaborará meios para comprová-la ou refutá-
la. Por exemplo, a filmagem da atividade do trabalhador
encarregado dessa tarefa. Esse é o conteúdo da etapa se-
guinte.
6. Observação sistemática da atividade, bem como dos
meios disponíveis para realizar a tarefa. Continuando
o exemplo anterior: baseado na filmagem, pode-se cons-
tatar que o trabalhador permanece com o braço ele-
vado continuamente por “x” minutos. Igualmente que

24
o plano de trabalho está muito elevado, que a cadeira
disponível não garante seu conforto, que a lâmina uti-
lizada no corte não está bem afiada. Uma descrição
dos métodos e técnicas utilizados (entrevistas orais ou
escritas, gravadas ou não, filmagens e sua duração)
deverá constar do relatório para que os leitores pos-
sam apreciar o grau de confiabilidade dos resultados.
Uma medição do tempo em que se fica com o ombro
elevado baseada em cinco minutos de filmagem pode
não corresponder à realidade quando a situação é muito
variável de acordo com a hora do dia. Pode ser confiável
se a atividade é praticamente idêntica durante toda a

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jornada. A avaliação do conforto de uma cadeira, res-
trita à opinião de um só trabalhador, pode não ter vali-
dade geral. Os métodos e técnicas poderão figurar em
um item específico ou serem explicitados quando da
exposição dos resultados para melhor avaliação de sua
confiabilidade. O importante é que qualquer afirma-
ção seja acompanhada de uma justificativa de como
se chegou a ela. A palavra método, de origem grega
(meta = objetivo e ódos = caminho), quer dizer o ca-
minho percorrido para se chegar a tal meta, resultado.
7. O diagnóstico ou diagnósticos: partindo das situações
analisadas em detalhe, é possível formular um diag-
nóstico local, que permitirá o melhor conhecimento
da situação de trabalho. Por exemplo: “Chegou-se à
conclusão de que os DORT podem ser atribuídos à ele-
vação constante do membro superior para seccionar a
jugular do frango. Por sua vez, essa rigidez postural é
conseqüência do ritmo imposto pela nórea 2”. O diag-
nóstico não deve se restringir a afirmações gerais como
“a empresa cumpre com a NR-17” ou “a empresa deve
trocar seus móveis para outros mais ergonômicos”, frases
freqüentes nos relatórios que chegam à fiscalização.
O diagnóstico deve ser composto de uma parte refe-

2
Nórea: É o conjunto de monotrilhas elevadas e esteiras móveis usado para transporte e
sustentação das aves que estão sendo processadas ao longo dos postos de trabalho.
Seria similar à linha de montagem, só que aqui a ave é desmantelada e não montada.

25
rente ao chamado DIAGNÓSTICO LOCAL e também
de um DIAGNÓSTICO GLOBAL, em que o diagnósti-
co local deve ser relacionado à atividade e ao funcio-
namento da empresa ou do grupo a que ela pertence
e aos determinantes socioeconômicos em que ela está
inserida.
8. Validação do diagnóstico: ele é apresentado a todos
os atores envolvidos que poderão confirmá-lo, rejeitá-
lo ou sugerir maiores detalhes que escaparam à per-
cepção do analista. A validação é a única garantia da
lisura dos procedimentos e da pertinência dos resulta-
dos, pois só aqueles atores detêm a experiência e o
conhecimento da realidade e são os maiores interes-
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sados nas modificações que advirão do diagnóstico.


9. O projeto de modificações/alterações: esse tem sido o
item mais negligenciado segundo o depoimento dos au-
ditores fiscais. Ora, fazer um diagnóstico e não discutir
nenhuma alteração para sanar os problemas é comple-
tamente inútil. O analista deve propor melhorias das con-
dições de trabalho tanto no aspecto da produção como,
principalmente, no da saúde. Nas recomendações são
indicadas as transformações e melhorias efetivas das con-
dições de trabalho propostas, incluindo aí, necessaria-
mente, os aspectos relativos ao desenvolvimento pes-
soal dos trabalhadores, como a formação e o treinamento
para as novas atividades ou os novos postos de traba-
lho que estarão sendo implantados, se for o caso. Se os
ergonomistas estão sempre tentando compreender o tra-
balho para transformá-lo, a intervenção ergonômica só
se completa após as transformações do local de trabalho.
10. O cronograma de implementação das modificações/
alterações: os auditores-fiscais têm de ser informados
dos tempos necessários a essas modificações para que
possam situá-los nos prazos concedidos pela legislação
ou renegociá-los com o apoio das organizações sindi-
cais. Os prazos devem ser compatíveis com as transfor-
mações propostas, incluindo a implementação de tes-
tes, criação de protótipos e processos de modelagem,
dentre outras coisas.
26
11. O acompanhamento das modificações/alterações: o
analista deve deixar claro qual o seu papel durante a
implementação. Se foi negociada anteriormente a sua par-
ticipação ou se nova negociação deverá ser feita. De qual-
quer modo, a ação ergonômica não está terminando com a
proposição de soluções, mas apenas começando. Posteri-
ormente, é preciso avaliar o impacto das modificações so-
bre os trabalhadores, pois qualquer modificação acarreta
alterações das tarefas e atividades que deverão ser, nova-
mente, objeto de outra análise. O pessoal da empresa pode
ser treinado para utilizar instrumentos simples de avaliação
como questionários de opinião dos trabalhadores e grades de

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observação das posturas, desde que a situação não seja mui-
to complexa e dispense a presença do ergonomista.

17.2. Levantamento, transporte e descarga individual de mate-


riais.
A proposta encaminhada à SSST, em 1990, incluía um quadro
estabelecendo a carga máxima para levantamento levando-se em conta
a idade (trabalhador adulto jovem e adolescente aprendiz), o sexo e a
freqüência do trabalho (raramente ou freqüentemente). Como os valo-
res desse quadro contrariavam o disposto n Capítulo V da CLT, ele foi
eliminado. Lembramos que uma Norma Regulamentadora não pode con-
trariar a lei maior que é a CLT. Toda proposta de melhoria no que se
refere a esse subitem deve passar pela mudança da CLT mediante apro-
vação no Congresso Nacional.
Na prática essa dificuldade pode ser contornada por meio do
subitem 17.2.2. Se forem constatados acometimentos à saúde e à
segurança (por exemplo, lombalgias) em determinado local onde há
levantamento de cargas, mesmo quando respeitados os limites pre-
conizados pela CLT, o auditor-fiscal poderá exigir modificações. O
subitem é bem claro:
17.2.2. Não deverá ser exigido nem admitido o transporte
manual de cargas, por um trabalhador, cujo peso seja suscetível
de comprometer sua saúde ou sua segurança.
É questão apenas de compilar os dados referentes à morbidade
dos trabalhadores que comprovem o acometimento a sua saúde:

27
lombalgias, hérnias de disco, qualquer comprometimento da coluna
vertebral causado por superesforço.
O fato de a legislação ainda permitir transporte e levantamento
de carga com limites muito elevados, não quer dizer que se deve se
ater aos mesmos. Quanto mais leve for a carga, menor é a possibilida-
de de o trabalhador comprometer sua saúde e, portanto, de não faltar
ao trabalho. As lombalgias constituem um grave problema para a
seguridade social e onera bastante toda a população.
O National Institut on Occupational and Safety Health – NIOSH,
órgão do governo americano, desenvolveu uma equação que permite
calcular qual seria o limite de peso recomendável levando-se em conta
certos fatores. Ver, em anexo, a tradução da Nota Técnica (NTP 477)
elaborada pelo Centro Nacional de Condiciones de Trabajo da Espanha,
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que trata desta equação.


17.3. Mobiliário dos postos de trabalho
O mobiliário deve ser concebido com regulagens que permi-
tam ao trabalhador adaptá-lo as suas características antropométricas
(altura, peso, comprimento das pernas etc.). Deve permitir também
alternâncias de posturas (sentado, em pé etc.), pois não existe nenhu-
ma postura fixa que seja confortável.
Entre a população trabalhadora há indivíduos muito pequenos
e muito grandes. É difícil conceber um mobiliário que satisfaça a es-
ses extremos. O recomendável é que o mobiliário permita uma
regulagem que atenda a pelo menos 95% da população em geral.
Não é recomendável que as dimensões dos postos de trabalho
sejam adaptadas somente à população que esteja empregada, pois
quando se pretende modificar os postos de trabalho visando a uma
melhor adaptação, não se deve basear apenas nas medidas
antropométricas da população que já esteja ocupando os postos, mas
sim basear-se em dados de toda a população brasileira. Isso por
que os trabalhadores atuais podem já ter sofrido uma seleção, for-
mal ou informal, e terem permanecido apenas aqueles que melhor
se adaptaram e, portanto, não serem representativos de todos que
poderão, no futuro, ocupar esses postos.
As regulagens dos planos de trabalho permitem também uma
adaptação à tarefa. Por exemplo: onde há necessidade de se exercer

28
grande força com os membros superiores, um plano mais baixo per-
mite que a força seja exercida com o antebraço em extensão, que é a
posição onde se consegue maior força. Por outro lado, se há grande
necessidade de controle visual da tarefa (por exemplo, costurar), um
plano mais elevado facilita a aproximação dos olhos até o detalhe a
ser visualizado.
Concluindo, o mobiliário deve ser adaptado não só às caracte-
rísticas antropométricas da população, mas também à natureza do
trabalho, ou seja, às exigências da tarefa.
17.3.1. Sempre que o trabalho puder ser executado na posição
sentada, o posto de trabalho deve ser planejado ou adaptado

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para essa posição.
A interpretação desse subitem tem gerado mal-entendidos. A
postura mais adequada ao trabalhador é aquela que ele escolhe
livremente e que pode ser variada ao longo do tempo. O tempo de
manutenção de uma postura deve ser o mais breve possível, pois
seus efeitos, eventualmente nocivos, dependem do tempo durante o
qual ela será mantida. A apreciação do tempo de manutenção de
uma postura deve levar em conta, por um lado, o tempo unitário de
manutenção (sem possibilidades de modificações posturais) e, por outro,
o tempo total de manutenção registrado durante a jornada de trabalho.
Os esforços estáticos devem ser reduzidos ao máximo. Todo es-
forço de manutenção postural implica uma contração muscular estática
que pode ser nociva à saúde e, portanto, toda e qualquer postura rígida
e fixa deve ser evitada. A redação do subitem teve por intenção reduzir a
posição de trabalho em pé, muito comum no meio industrial. Na maio-
ria das vezes, a realização da tarefa não é incompatível com a postura
sentada. Reproduzimos abaixo a argumentação a favor da adaptação
dos postos de trabalho de modo a permitirem a alternância de postura,
encontrada nos principais manuais de ergonomia.(Ver tb. Nota Técnica
nº 60/2001 no site www.mte.gov.br)

FISIOPATOLOGIA DO TRABALHO MUSCULAR


O trabalho muscular se traduz pela contração de certos
músculos e relaxamento de outros. A contração muscular é o
fenômeno fundamental da atividade física. O trabalho muscular
estático caracteriza-se por uma contração prolongada da mus-

29
culatura (manutenção de uma postura ou membro contra a gra-
vidade). Dessa forma, o músculo não alonga seu comprimento
e permanece em estado de alta tensão, produzindo força du-
rante longo período. Os efeitos fisiológicos dos esforços estáti-
cos estão ligados à compressão dos vasos sangüíneos. O san-
gue deixa de fluir e o músculo não recebe oxigênio nem nutri-
entes, os resíduos metabólicos não são retirados, acumulando-
se e provocando dor e fadiga musculares. O tempo de manu-
tenção da contração é função da tensão.

A POSTURA EM PÉ
De maneira geral, a concepção dos postos de trabalho não
leva em consideração o conforto do trabalhador na escolha da postura
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de trabalho, mas sim as necessidades da produção.


A escolha da postura em pé, muitas vezes, tem sido justificada
por considerar que, nessa posição, as curvaturas da coluna estejam
em alinhamento correto e que, dessa forma, as pressões sobre o dis-
co intervertebral são menores que na posição sentada. Mas os mús-
culos que sustentam o tronco contra a força gravitacional, embora
vigorosos, não são muito adequados para manter a postura em pé.
Eles são mais eficazes na produção dos movimentos necessários às
principais mudanças de postura. Por mais econômica que possa ser
em termos de energia muscular, a posição em pé ideal não é usual-
mente mantida por longos períodos, pois as pessoas tendem a utili-
zar alternadamente a perna direita e a esquerda como apoio, para
provavelmente facilitar a circulação sangüínea ou reduzir as com-
pressões sobre as articulações. A posição em pé, com o peso sendo
suportado por uma das pernas, aumenta a atividade eletromiográfica
no lado da perna que suporta o peso.
A manutenção da postura em pé imóvel tem ainda as seguin-
tes desvantagens:
• tendência à acumulação do sangue nas pernas, o que pre-
dispõe ao aparecimento de insuficiência valvular venosa
nos membros inferiores, resultando em varizes e sensação
de peso nas pernas;
• sensações dolorosas nas superfícies de contato articulares que
suportam o peso do corpo (pés, joelhos, quadris);

30
• a tensão muscular permanentemente desenvolvida para man-
ter o equilíbrio dificulta a execução de tarefas de precisão;
• a penosidade da posição em pé pode ser reforçada se o
trabalhador tiver ainda que manter posturas inadequadas
dos braços (acima do ombro, por exemplo), inclinação ou
torção de tronco ou de outros segmentos corporais;
• a tensão muscular desenvolvida em permanência para ma-
nutenção do equilíbrio traz mais dificuldades para a exe-
cução de trabalhos de precisão.
A escolha da postura em pé só está justificada nas seguintes
condições:

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• a tarefa exige deslocamentos contínuos como no caso
de carteiros e rondantes;
• a tarefa exige manipulação de cargas com peso igual ou
superior a 4,5kg;
• a tarefa exige alcances amplos freqüentes, para cima, para
frente ou para baixo; no entanto, deve-se tentar reduzir a
amplitude desses alcances para que se possa trabalhar sen-
tado;
• a tarefa exige operações freqüentes em vários locais de
trabalho, fisicamente separados;
• a tarefa exige a aplicação de forças para baixo, como em
empacotamento.
Fora dessas situações, o auditor-fiscal do trabalho não deve acei-
tar, em hipótese alguma, o trabalho em pé. Muitos ergonomistas, no
afã de resolver as dificuldades dos empregadores, têm emitido opini-
ões favoráveis ao trabalho em pé apenas para evitar que o plano de
trabalho seja adaptado, o que acarretaria um certo custo monetário.
Ora, os custos dessas pequenas adaptações são mínimos se compara-
dos à fadiga e à penosidade das tarefas que vão ser executadas em pé
durante todo o dia e por vários anos. No mais das vezes, nem é o gasto
econômico que está na origem da dificuldade. Muitos empregadores
têm a falsa impressão de que o trabalho sentado induz à indolência.
Evidentemente, trata-se de uma falácia.

31
A POSIÇÃO SENTADA
O esforço postural (estático) e as solicitações sobre as arti-
culações são mais limitados na postura sentada que na em pé. A
postura sentada permite melhor controle dos movimentos pelo que
o esforço de equilíbrio é reduzido. É, sem sombra de dúvida, a
melhor postura para trabalhos que exijam precisão.
Em determinadas atividades ocupacionais (escritórios, tra-
balho com computadores, administrativo etc.), a tendência é de se
permanecer sentado por longos períodos.
Grande número de pessoas considera que as dores da região
dorsal são agravadas pela manutenção da postura sentada. De ma-
neira geral, os problemas lombares advindos da postura sentada
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são justificados pelo fato de a compressão dos discos intervertebrais


ser maior na posição sentada que na posição em pé. No entanto,
tais problemas não são apenas decorrentes das cargas que atuam
sobre a coluna vertebral, mas, principalmente, da manutenção da
postura estática. A imobilidade postural constitui um fator desfavo-
rável para a nutrição do disco intervertebral, que é dependente do
movimento e da variação da postura. A incidência de dores lom-
bares é menor quando a posição sentada é alternada com a em pé,
e menor ainda quando se podem movimentar os demais segmen-
tos corporais como em pequenos deslocamentos.
A postura de trabalho sentado, se bem concebida (com apoios
e inclinações adequados), pode apresentar até pressões intradiscais
inferiores à posição em pé imóvel, desde que o esforço postural
estático e as solicitações articulares sejam reduzidos ao mínimo.
Trabalhar sentado permite maior controle dos movimentos porque
o esforço para manter o equilíbrio postural é reduzido.
As vantagens da posição sentada são:
• baixa solicitação da musculatura dos membros inferio-
res, reduzindo, assim, a sensação de desconforto e cansa-
ço;
• possibilidade de evitar posições forçadas do corpo;
• menor consumo de energia;
• facilitação da circulação sangüínea pelos membros inferiores.

32
As desvantagens são:
• pequena atividade física geral (sedentarismo);
• adoção de posturas desfavoráveis: lordose ou cifoses ex-
cessivas;
• estase sangüínea nos membros inferiores, situação agravada
quando há compressão da face posterior das coxas ou da
panturrilha contra a cadeira, se esta estiver malposicionada.
Uma vez adaptado o posto para o trabalho sentado, é preciso
observar certos critérios na escolha do assento.

A SELEÇÃO DO ASSENTO

MANUAL DE APLICAÇÃO DA NORMA REGULAMENTADORA Nº 17


O assento deve ser adequado à natureza da tarefa e às di-
mensões antropométricas da população. Não existe uma cadeira
que seja “ergonômica” independentemente da função exercida pelo
trabalhador. Basta lembrar que uma cadeira confortável para as-
sistir à televisão não é adequada para uma secretária, que deve se
movimentar entre a mesa, um arquivo e um aparelho de telefax. O
contrário também é verdadeiro.
A altura do assento deve ser definida de forma que os pés este-
jam bem apoiados. A partir daí, ajusta-se a altura do assento em fun-
ção da superfície de trabalho. A regulagem do assento deve permitir
que ele fique entre 37 a 47cm do solo, acomodando bem a maioria
da população. Quando a altura do plano de trabalho for fixa deve-se
disponibilizar suporte para os pés para os que têm estatura menor. O
suporte não deve ser uma barra fixa, mas sim uma superfície inclina-
da que apóie uma grande parte da região plantar.
A profundidade do assento não pode ser muito reduzida nem
muito grande. Deve ser de um tamanho tal que o maior percentil
mantenha seu centro de gravidade sobre o assento. O maior percentil
precisa, então, ter profundidade de assento, no mínimo, igual à pro-
fundidade do tórax mais 2,5cm para evitar uma base que não lhe dê
firmeza. No entanto, o assento não pode ser muito profundo para
que o menor percentil tenha mobilidade na área popliteal.
A conformação do assento deve também permitir alterações de
postura, aliviando, assim, as pressões sobre os discos intervertebrais
e as tensões sobre os músculos dorsais de sustentação. Portanto,

33
assentos “anatômicos”, em que as nádegas se encaixam neles, não
são recomendados, pois permitem poucos movimentos.
A densidade do assento também é importante para suportar as
tuberosidades isquiáticas. É preferível assento com inclinação para
trás em torno de 5o graus com relação à horizontal. Isso impede que a
pessoa escorregue para frente, o que pode acontecer em assentos
paralelos ao solo.
É importante que o encosto forneça um bom suporte lombar.
Concluindo, qualquer postura desde que mantida prolongada-
mente é mal tolerada. A alternância de posturas deve ser sempre
privilegiada, pois permite que os músculos recebam seus nutrientes
e não fiquem fatigados.
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A alternância postural deve sempre ficar à livre escolha do


trabalhador. Ele é quem vai saber, diante da exigência momentânea
da tarefa, se é melhor a posição sentada ou em pé. Uma tarefa não
tem exigências fixas. Por isso, nunca se pode afirmar de antemão
qual é a melhor postura baseando-se apenas em critérios biomecânicos.
Por exemplo, um caixa de supermercado prefere ficar sentado quando
manipula mercadorias leves, quando faz um troco ou quando confere
cheques. Mas prefere se levantar quando lida com mercadoria pesa-
da ou frágil, assim como, quando percebe um cliente potencialmente
agressivo. Permanecendo em pé, os olhos de ambos situam-se na mes-
ma altura, diminuindo a sensação subjetiva de inferioridade. Logo, não
são os fisiologistas que têm a palavra final sobre o conforto.
A postura de trabalho adotada é função da atividade desen-
volvida, da exigência da tarefa (visuais, emprego de forças, precisão
dos movimentos etc.), dos espaços de trabalho, da ligação do traba-
lhador com máquinas e equipamentos de trabalho como, por exem-
plo, o acionamento de comandos.
A concepção dos postos de trabalho deve propiciar e facilitar a
alternância de posturas. Para tanto, deve levar em consideração a natu-
reza da tarefa e as atividades desenvolvidas para realizá-la.
Um posto de trabalho, mesmo quando bem projetado do
ponto de vista antropométrico, pode se revelar desconfortável
se os fatores organizacionais, ambientais e sociais não forem
levados em conta.

34
O conforto do trabalho sentado é também função do tempo de
manutenção da postura, da altura do plano de trabalho e da cadeira, das
características da cadeira, da adaptação às exigências visuais, dos espa-
ços para pernas e pés.
O tempo de manutenção de uma mesma postura deve ser o
mais breve possível: devendo ser considerado para tanto o tempo
unitário de manutenção (sem possibilidade de modificações) e o tempo
total de manutenção diária. A necessidade de variar a postura e de
evitar a manutenção prolongada da mesma é justificada, porque os
músculos usados para manter a postura sentada e a postura em pé
não são os mesmos e porque a imobilidade postural prejudica a

MANUAL DE APLICAÇÃO DA NORMA REGULAMENTADORA Nº 17


nutrição dos discos intervertebrais, favorecendo a degeneração dos
mesmos.
As exigências visuais: a localização das fontes de informações
visuais vai determinar o posicionamento da cabeça que pode, por sua
vez, influenciar a postura do tronco, levando o trabalhador a adotar
posturas inadequadas prolongadas ou repetitivas da nuca em flexão ou
extensão extremas ou de inclinação/torção do tronco.
A altura do plano de trabalho é um elemento importante para o
conforto postural. Se o plano de trabalho é muito alto, o trabalhador
deverá elevar os ombros e os braços durante toda a jornada. Se for
muito baixo, ele trabalhará com as costas inclinadas para frente. Essa
observação é válida tanto para trabalho sentado como para em pé. O
ponto de referência utilizado para determinar a altura confortável de
trabalho é a altura dos cotovelos em relação ao piso, mas a natureza
da tarefa deve também ser levada em conta.
17.3.2. Para trabalho manual sentado ou que tenha de ser fei-
to de pé, as bancadas, mesas, escrivaninhas e os painéis de-
vem proporcionar ao trabalhador condições de boa postura,
visualização e operação e devem atender aos seguintes requisi-
tos mínimos:
• ter altura e características da superfície de trabalho compatí-
veis com o tipo de atividade, com a distância requerida dos
olhos ao campo de trabalho e com a altura do assento;
• ter área de trabalho de fácil alcance e visualização pelo
trabalhador;

35
• ter características dimensionais que possibilitem posiciona-
mento e movimentação adequados dos segmentos corpo-
rais.
Este subitem com suas alíneas permitem que o auditor-fiscal
do trabalho possa exigir qualquer tipo de mobiliário já que ele deve
atender aos requisitos de conforto que contemple tanto à boa pos-
tura quanto às exigências da tarefa, aí incluídas uma boa visualização
e a movimentação adequada dos vários segmentos corporais, ou
seja, acionamento de comandos ou qualquer outra atividade físi-
ca. Não resta dúvida de que há dificuldade para se projetar um mobi-
liário que atenda a todos esses requisitos, mas não é por falta de
embasamento legal que se vai deixar de fazê-lo. A consulta a manu-
ais especializados em mobiliário ou a consultoria a uma ergonomista
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podem ser de grande valia.


O mesmo pode-se dizer dos subitens 17.3.2.1, 17.3.3, 17.3.4,
17.3.5, 17.4, 17.5 e 17.6: os equipamentos, as condições ambientais
e a organização do trabalho também devem ser adaptados às carac-
terísticas psicofisiológicas dos trabalhadores e à natureza do trabalho
(leia-se, às exigências da tarefa), levando em conta também à sensa-
ção de conforto, isto é, os trabalhadores têm de ser consultados e
deverão aprovar os equipamentos, as condições ambientais e a orga-
nização do trabalho, pois só eles podem atestar seu conforto ou não.
17.4. Todos os equipamentos que compõem um posto de tra-
balho devem ser adequados às características psicofisiológicas
dos trabalhadores e à natureza do trabalho a ser executado.
Os seres humanos sempre procuraram adaptar suas ferramen-
tas às suas necessidades, diminuindo o esforço. Nas situações in-
dustriais modernas, com a rígida divisão entre planejamento e exe-
cução, o trabalhador quase não tem oportunidade de influir nas de-
cisões de compra de equipamentos. Fatores como o preço tem mais
peso na decisão da compra que a qualidade. Isso leva a inadaptações e
ao aumento da carga de trabalho. Uma má escolha pode penalizar os
trabalhadores durante anos já que não se pode simplesmente jogar os
equipamentos no lixo, prejudicando o desempenho eficiente da ativi-
dade. Alguns conseguem modificar suas ferramentas adaptando-as às
tarefas. Mas essa capacidade é limitada e, às vezes, até perigosa.

36
Levar em conta a opinião dos trabalhadores antes da compra
tem mostrado um bom resultado em nossa prática de trabalho. Algu-
mas empresas colocam opções para teste e decidem por aqueles que
tiveram melhor aceitação.
Pode-se notar que, quando o usuário tem influência na esco-
lha, os fabricantes dos equipamentos investem mais em pesquisas
para aperfeiçoá-los. Citamos, como exemplo, as cadeiras de odontólogos
e os veículos automotores.
“Adequados à natureza do trabalho” significa que os equipa-
mentos devem facilitar a execução da tarefa específica. O marte-
lo é o equipamento mais adequado à natureza do trabalho de pre-

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gar. Uma cadeira pode ser confortável para assistir a televisão,
mas ser bastante inconveniente a uma secretária que deve ter acesso
alternadamente ao arquivo, ao microcomputador e ao telefone para
realizar sua tarefa. Logo, a cadeira deve ser adequada à natureza
do trabalho da secretária: ter rodízios, encosto, ser estofada, per-
mitir regulagens, ter apoio para os braços etc. Não há uma cadeira
“ergonômica” para todo e qualquer tipo de tarefa.
A mesma observação do subitem anterior se aplica a este subitem.
Ele permite qualquer mudança nos equipamentos desde que a solicita-
ção seja fundamentada pela observação da natureza do trabalho (exi-
gências da tarefa) e das características dos trabalhadores. Por exemplo,
se um painel de controle é colocado em posição excessivamente alta
para a altura do trabalhador, pode-se exigir que o painel seja colocado
na altura dos olhos, facilitando a leitura dos dados. Um comando que
exija excessiva abdução do membro superior e elevação do ombro pode
ser mudado de modo a permitir ao membro superior que volte à posi-
ção neutra entre um acionamento e outro.
17.5. Condições ambientais de trabalho
Apesar da redundância, insistimos que não se trata de caracte-
rizar insalubridade. Para tal, foi elaborada a Norma Regulamentadora
nº 15.
17.5.1. As condições ambientais de trabalho devem estar ade-
quadas às características psicofisiológicas dos trabalhadores e
à natureza do trabalho a ser executado.

37
Toda atividade de trabalho está inserida numa dada área, num
dado espaço. O ambiente físico do trabalho pode favorecer ou di-
ficultar a execução do mesmo. Seus componentes podem ser fonte
de insatisfação, desconforto, sofrimento e doenças ou proporcio-
nar a sensação de conforto (Mascia & Sznelwar, 1996).
A abordagem ambiental sob a ótica da ergonomia é centrada
no ser humano e abrange tanto o critério de saúde quanto os crité-
rios de conforto e de desempenho. As avaliações ambientais, quando
necessárias, não dissociam o trabalhador do ambiente.
As vantagens principais dessa estratégia são as seguintes:
• reconhecimento explícito do saber do trabalhador;
• intervenção progressiva de especialistas e peritos, realiza-
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ção de medições, quando necessárias;


• definição de uma sistemática de colaboração entre as pessoas
diretamente envolvidas no trabalho, trabalhadores e em-
pregadores, e os profissionais de segurança e saúde
ocupacional, visando essencialmente à prevenção.
Assim, a ergonomia centrada na análise da atividade contribui
para a renovação dos enfoques em segurança do trabalho (Guérin et
alii, 1997). Isso leva a concluir que as medições serão mais
representativas da exposição do trabalhador, partindo-se da ativida-
de real, ou seja, fazendo-se uma analogia entre o trabalho prescrito3
e o trabalho real4, o viés entre a exposição estimada e a exposição
real será menor.
O conhecimento da situação e das atividades de trabalho é
um pressuposto que antecede as medições e que irá permitir esco-
lher os locais, os momentos e as técnicas de avaliação. Considerar
o ambiente estável, efetuar medições em locais onde, por exem-
plo, o ruído parece mais elevado, mas onde os trabalhadores não
permanecem, não tem relevância alguma. A compreensão de como
o trabalho é executado também permite que as interpretações dos

3
Trabalho prescrito: “Maneira como o trabalho deve ser executado: o modo de utilizar as
ferramentas e as máquinas, o tempo concedido para cada operação, os modos operatórios
e as regras a respeitar”; nunca corresponde exatamente ao trabalho real (Daniellou et
alii, 1989).
4
Trabalho real: É o efetivamente executado pelo trabalhador.

38
resultados sejam mais representativas da exposição real dos tra-
balhadores (Guérin et alii, 1997).
17.5.2. Nos locais de trabalho onde são executadas ativi-
dades que exijam solicitação intelectual e atenção cons-
tantes, tais como: sala de controle, laboratórios, escritóri-
os, salas de desenvolvimento ou análise de projetos, den-
tre outros, são recomendadas as seguintes condições de
conforto:
a) níveis de ruído de acordo com o estabelecido na NBR 10.152,
norma brasileira registrada no INMETRO.

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Os níveis de ruído devem ser entendidos aqui não como aqueles
passíveis de provocar lesões no aparelho auditivo, tal como a per-
da auditiva, mas como a perturbação passível de prejuízo ao bom
desempenho da tarefa.
O ruído nos ambientes de trabalho onde são executadas ativi-
dades que requeiram atenção e solicitação intelectual constantes provém,
principalmente, do esforço vocal das pessoas necessário à execução
de suas tarefas. Em alguns casos, há também o emprego de alguns
equipamentos ruidosos (como, por exemplo, a utilização de impresso-
ras, principalmente as matriciais). Já, em outros casos, nos grandes centros
como São Paulo, o ruído externo (devido à proximidade das avenidas,
aeroportos etc.) interfere no interior do local de trabalho. Isso ocorre
freqüentemente quando a edificação não possui tratamento acústico
adequado ou não há barreiras de atenuação.
A abordagem para verificar as condições de conforto acústico
no ambiente de trabalho pelo profissional de segurança e saúde
ocupacional inicia-se por uma fase exploratória. Essa fase exploratória
compreende a observação da situação de trabalho complementada
por entrevistas aos trabalhadores, o levantamento das fontes de ruído
e das características do local de trabalho. A fase exploratória visa
conhecer e compreender a situação de trabalho.
A seguir, para que seja feita a análise da situação, faz-se necessário
conhecer a ordem de grandeza dos níveis sonoros e a estratégia de
medição para verificar-se a conformidade ou não com a legislação
sobre conforto acústico.
A ação dos profissionais de segurança e saúde ocupacional

39
deve privilegiar a busca conjunta de soluções para reduzir a expo-
sição do trabalhador por meio da reorganização do trabalho, da
possibilidade de redução na fonte ou de seu afastamento ou do
tratamento acústico do local.
Os critérios de medição da exposição ao ruído devem ser bem
detalhados. A estratégia de medição é composta basicamente de qua-
tro passos:
• caracterização do ambiente de trabalho e das atividades
dos trabalhadores;
• avaliação qualitativa da exposição;
• realização de medições detalhadas, onde necessário;
• avaliação quantitativa dos resultados e estimativa do nível
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de exposição pessoal diário.


O técnico, antes das medições, deve definir o período de
amostragem. Alguns trabalhos (Lancaster, 1986 e Olsen & Jensen,
1994) discutiram e questionaram a prática tradicional de adotar o
período de uma jornada de trabalho e propuseram períodos alterna-
tivos que serão abordados a seguir.
Como a precisão do nível de exposição diária é função da raiz
quadrada da duração da medição, Malchaire& Piette (1997) demons-
traram ser mais adequado tomar períodos de amostragem curtos e
realizar um maior número de observações.
A seguir, são descritos alguns procedimentos que contribuem
para que as medições sejam representativas da exposição do traba-
lhador ao ruído.
Deve-se optar por períodos de amostragem curtos, porém com
maior número de observações, em dias tomados ao acaso, com dura-
ção de 30 minutos cada, em que a exposição de diversos profis-
sionais da mesma função, setor, andar etc. seja monitorada. O
Método Sistêmico de Monitoramento – MSM, proposto por Moure
(2000), adota o intervalo de 60 minutos como tempo mínimo
de amostragem. Esse é o limite superior do intervalo de tempo
segundo Malchaire & Piette (1997) que propõem que cada me-
dição tenha a duração de 30 a 60 minutos. Esse tempo resulta
de um compromisso entre a precisão requerida e a viabilidade
prática.

40
Preferencialmente, o nível de ruído deve ser medido em situa-
ção real de trabalho, empregando-se um dosímetro, devidamente
calibrado (fonte calibradora). Para o ajuste do aparelho, recomen-
da-se os seguintes parâmetros: q = 3; circuito de ponderação A;
circuito de resposta lenta, critério de referência 65 dB(A). O micro-
fone, preferecialmente, deve ser colocado na gola da camisa do
trabalhador, pois diversos estudos mostraram que, dessa forma, os
erros de medição relativos à perturbação do campo de ondas que o
equipamento irá medir são irrelevantes.
Quando o limite preconizado for ultrapassado, nem sempre
as soluções são evidentes. Nesses casos, é preciso solicitar um

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estudo mais aprofundado visando sua eliminação ou atenuação. É
importante realçar que as mudanças no arranjo físico podem ate-
nuar ou ampliar o ruído gerado.
É desejável que haja redução do ruído ao nível mais baixo
possível que pode ser obtida pela tomada de medidas técnicas na
fonte. Por exemplo, substituição de impressoras matriciais por im-
pressoras a jato tinta ou a laser. Ou agindo sobre o meio ambiente:
colocação de divisórias acústicas ou tratamento acústico em pa-
redes, janelas, tetos e pisos. Pode-se também reorganizar o traba-
lho: diminuição da concentração de pessoas por área num setor
de teleatendimento.
As demais condições de conforto a que faz alusão o subitem
17.5.2 são:
b) índice de temperatura efetiva entre 20 e 22ºC;
c) velocidade do ar não-superior a 0,75 m/s;
d) umidade relativa do ar não-inferior a 40%.
A climatização dos locais de trabalho onde há solicitação inte-
lectual e atenção constante, freqüentemente é obtida pelo sistema
de ar-condicionado. Na grande maioria das situações de trabalho,
não há o emprego de fontes de calor radiante para a execução das
tarefas.
A abordagem para verificar as condições de conforto térmico
inicia-se por uma fase exploratória. Essa fase compreende a observa-
ção da situação de trabalho complementada por entrevistas com os
trabalhadores a respeito do conforto térmico.

41
A seguir, faz-se necessário conhecer os seguintes parâmetros:
temperatura efetiva, velocidade do ar e umidade relativa e a estratégia
de medição para se verificar a conformidade ou não com a legislação
sobre conforto térmico. É indispensável, conhecer a carga de traba-
lho e o tipo de vestimenta utilizado.
A ação dos profissionais de segurança e saúde ocupacional deve
privilegiar a busca conjunta de soluções para reduzir a exposição do
trabalhador, aumentar o grau de satisfação por meio da reorganiza-
ção do trabalho ou de medidas técnicas.
Os critérios de medição do conforto térmico devem levar em
conta a atividade real e a medição deve ser realizada na altura do
tórax do trabalhador. São utilizados o termo-higrômetro e o termo-
anemômetro, mas há instrumentos que permitem a leitura de todos
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os parâmetros.
Vale ressaltar que a temperatura não é a temperatura do ar.
A temperatura efetiva é um índice desenvolvido por Yaglou (1927)
com o intuito de apreciar o conforto térmico. É definida como a
temperatura ambiente com ar calmo, saturado em vapor d’água
que produz a mesma sensação térmica do ambiente estudado. A
determinação da temperatura efetiva é obtida por meio da introdu-
ção em ábaco específico dos seguintes parâmetros: temperatura
do ar, temperatura de bulbo úmido e velocidade do ar.
Os casos mais problemáticos evidenciam ineficiência do sis-
tema de ventilação. Outro indício é a diminuição da umidade rela-
tiva a valores inferiores ao recomendado pela NR-17 no período
da tarde, geralmente com temperaturas externas superiores.
Velocidade do ar superior ao preconizado pode evidenciar a
existência de postos em que as saídas de ar situam-se sobre a cabeça
e tronco dos funcionários. Nessas saídas, não raro pode ser ob-
servado acúmulo de poeira.
A título de curiosidade, conhecendo-se esses parâmetros
do ambiente, o tipo de vestimenta, sexo do trabalhador e a car-
ga de trabalho é possível calcular os índices Predicted Mean
Vote – PMV e Predicted Percentage of Dissatisfied – PPD de acordo
com a norma ISO 7730-74. Essa norma recomenda para as con-
dições de conforto PMV entre -0,5 e +0,5 e PPD inferior a 10%
de insatisfação.
42
Para ajustar as condições térmicas às características dos tra-
balhadores e à natureza do trabalho, faz-se necessária à revisão do
sistema de ar-condicionado, compreendendo a manutenção, lim-
peza e eficiência. A resolução RE nº 176, de 24 de junho de
2000, da Agência Nacional de Vigilância Sanitária – ANVISA
dispõe sobre os padrões referenciais de qualidade do ar no in-
terior de ambientes de uso público e coletivo climatizados arti-
ficialmente para evitar a “Síndrome do Edifício Enfermo”.
17.5.2.1. Para as atividades que possuam as características de-
finidas no subitem 17.5.2, mas não apresentam equivalência
ou correlação com aquelas relacionadas na NBR 10152, o ní-

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vel de ruído aceitável para efeito de conforto será de até 65
dB(A) e a curva de avaliação de ruído (NC) de valor não-supe-
rior a 60 dB.
17.5.2.2. Os parâmetros previstos no subitem 17.5.2 devem
ser medidos nos postos de trabalho, sendo os níveis de ruído
determinados próximos à zona auditiva e às demais variáveis
na altura do tórax do trabalhador.
17.5.3. Em todos os locais de trabalho, deve haver iluminação
adequada, natural ou artificial, geral ou suplementar, apropriada
à natureza da atividade.
17.5.3.1. A iluminação geral deve ser uniformemente distribu-
ída e difusa.
17.5.3.2. A iluminação geral ou suplementar deve ser projeta-
da e instalada de forma a evitar ofuscamento, reflexos incômo-
dos, sombras e contrastes excessivos.
17.5.3.3. Os níveis mínimos de iluminamento a serem obser-
vados nos locais de trabalho são os valores de iluminâncias
estabelecidas na NBR 5413, norma brasileira registrada no
INMETRO.
17.5.3.4. A medição dos níveis de iluminamento previstos no
subitem 17.5.3.3. deve ser feita no campo de trabalho onde se

43
realiza a tarefa visual, utilizando-se de luxímetro com fotocélula
corrigida para a sensibilidade do olho humano e em função do
ângulo de incidência.
17.5.3.5. Quando não puder ser definido o campo de trabalho
previsto no subitem 17.5.3.4, este será um plano horizontal a
0,75m do piso.
Na grande maioria dos ambientes de trabalho, há iluminação
natural e artificial. A iluminação natural advém de janelas dispostas
nas faces longitudinais e/ou transversais da edificação. A iluminação
artificial é obtida, geralmente, por meio de lâmpadas fluorescentes
acopladas em luminárias embutidas no forro do teto com aletas me-
tálicas de superfície opaca ou brilhante, dispostas em fileiras parale-
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las a um dos eixos da edificação.


A abordagem para verificar as condições de iluminamento ini-
cia-se por uma fase exploratória. Essa fase compreende a observação
da situação de trabalho complementada por entrevistas com os traba-
lhadores, pelo levantamento das características da iluminação, das
superfícies de trabalho, das paredes e do teto e do uso de computa-
dores pessoais. A seguir, é necessário conhecer os níveis de iluminamento
e a estratégia de sua medição.
Deve-se privilegiar a busca conjunta de soluções para garantir
ao trabalhador os níveis de iluminamento condizentes ao desempe-
nho de suas tarefas.
Os critérios de medição dos níveis de iluminamento estão
explicitados no item 17.5.3. e seus subitens.
Em diversos postos de trabalho, as janelas ficam dentro do campo
visual e há grandes diferenças de iluminância. Em vários outros, há
reflexos das janelas na superfície da tela e o trabalhador pode adotar
posturas fatigantes tentando evitar o ofuscamento.
Um aspecto de fácil correção, mas que evidencia falhas de ma-
nutenção é a presença de cintilamento e de lâmpadas queimadas.
A disposição dos terminais, tanto em relação às janelas quanto
em relação às fileiras de luminárias, é determinante na obtenção
de um compromisso que satisfaça os requisitos da NR-17. Na gran-

44
de maioria dos postos de trabalho, podem ser notados reflexos nas
telas dos terminais. A iluminação é inadequada quando há contrastes
excessivos, sobretudo entre o monitor e o fundo e reflexos nas telas
dos terminais.
Recomenda-se que haja diferenças de iluminância equili-
bradas e ausência de superfícies luminosas na zona de reflexão
da tela do terminal de vídeo. Medidas que podem contribuir
para isso são: a substituição ou tratamento das superfícies bri-
lhantes das luminárias e suas aletas por superfície clara e fosca;
inclinação do monitor para baixo de 88 a 1050 em relação ao
plano horizontal, colocação de divisórias móveis, solução que

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poderá contribuir para não somente eliminar a reflexão eventu-
al na tela como também para reduzir níveis de iluminamento
elevados no campo visual. Nos casos mais complexos, é neces-
sária a solicitação de revisão e reavaliação do projeto de ilumi-
nação para atender aos requisitos da NR-17.
A NR-17 remete à Norma Brasileira (NBR 5413), que trata
apenas das iluminâncias recomendadas nos ambientes de traba-
lho. O iluminamento adequado não depende só da quantidade
de lux que incide no plano de trabalho. Depende também da
refletância dos materiais, das dimensões do detalhe a ser obser-
vado ou detectado, do contraste com o fundo etc. Ater-se apenas
aos valores preconizados nas tabelas sem levar em conta as exi-
gências da tarefa pode levar a projetos de iluminamento total-
mente ineficazes. A situação mais desejada seria aquela em que,
além do iluminamento geral, o trabalhador dispusesse de fontes
luminosas individuais nas quais pudesse regular a intensidade.
Uma costureira, por exemplo, pode necessitar de maior
iluminamento quando trabalha sobre um tecido escuro e um me-
nor e menos ofuscante se o tecido for claro. Um ambiente com
terminais de vídeo excessivamente iluminado pode provocar
ofuscamentos desnecessários.
17.6. Organização do trabalho
17.6.1. A organização do trabalho deve ser adequada às carac-
terísticas psicofisiológicas dos trabalhadores e à natureza do
trabalho a ser executado.

45
Gostaríamos de iniciar com uma definição de dicionário que
deixa bem claro a impossibilidade de se conseguir uma organização
eficiente se ela for imposta de forma violenta e arbitrária desdenhan-
do da cooperação dos trabalhadores:
Organizar, no sentido comum, é colocar uma certa ordem
num conjunto de recursos diversos para fazer deles um
instrumento ou uma ferramenta a serviço de uma vonta-
de que busca a realização de um projeto (ou, numa lin-
guagem ergonômica, os objetivos da tarefa). Em toda
organização aparecem conjuntamente os problemas de
cooperação e hierarquia.
Mas, qualquer que seja a forma que a hierarquia assuma, e
qualquer que seja o meio pelo qual a cooperação se realize,
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elas não são puramente violentas e arbitrárias. A organiza-


ção, seus objetivos, seus procedimentos, concernem, segundo
modalidades próprias, às diferentes categorias de atores que
dela participam. Ou, para dizer a mesma coisa em outros
termos, uma das condições de sobrevivência, bem como da
eficácia da organização, é sua capacidade de motivar seus
participantes (Boudon & Bourricaud, 1993: 408).
A organização do trabalho pode ser caracterizada pelas moda-
lidades de repartir as funções entre os operadores e as máquinas: é o
problema da divisão do trabalho (Leplat & Cuny, 1977: 60). Ela define
quem faz o quê, como e em quanto tempo. É a divisão dos homens e
das tarefas.
Tentou-se organizar o trabalho cientificamente. A “Organiza-
ção Científica do Trabalho”, proposta por Taylor, dividiu rigidamente
a concepção do trabalho da sua execução. Alguns poucos concebem
e planejam e outros executam. Projetam-se tarefas fragmentadas sem le-
var em conta que os homens preferem iniciar e finalizar a fabricação de
um produto, entender o que estão fazendo, criar novos processos mais
eficientes, ferramentas mais adequadas etc.
Em outras palavras, a organização científica do trabalho impondo uma
hierarquia rígida não conseguiu a necessária cooperação dos trabalhadores.
Com a introdução das linhas de montagem, tentou-se assegurar a produção
impondo o tempo de execução, mas não se conseguiu a motivação dos
trabalhadores como sublinhado acima. Brevemente tornou-se necessária a

46
introdução de prêmios de produtividade em tarefas fragmentadas. Um re-
curso eficiente a curto prazo, mas de efeitos danosos ao longo do tempo.
O taylorismo, prescrevendo tarefas a serem executadas em tempos
rígidos e invariáveis para todos, pressupõe uma estabilidade dos homens,
das máquinas e das matérias-primas. Estabilidade que não existe no mundo
real. As avaliações para o estabelecimento dos tempos e movimentos
(como se deve executar a tarefa e em quanto tempo, também denomi-
nada cronoanálise) são realizadas em trabalhadores cujas capacida-
des não são representativas das reais capacidades da população tra-
balhadora em geral.
Por exemplo, essas avaliações são feitas durante um inter-

MANUAL DE APLICAÇÃO DA NORMA REGULAMENTADORA Nº 17


valo de tempo muito curto e em trabalhadores com um ótimo
grau de aprendizado. Isso por si só já induz ao estabelecimento
de altas cotas de produção. Cotas difíceis de serem atingidas, já
que o organismo humano sofre flutuações ao longo do tempo:
ao longo do dia, da semana e mesmo ao longo de toda a vida
laboral. Não somos os mesmos pela manhã e à noite ou aos 20
e aos 60 anos. Uma mesma cadência pode não ser tolerada igual-
mente durante toda a jornada de trabalho. Além da variação
fisiológica circadiana, há de se levar em conta a fadiga acumu-
lada que pode tornar penoso, no fim da jornada, uma cadência
suportável no seu início.
Durante a cronoanálise, os trabalhadores, sabendo-se em ob-
servação, esforçam-se para atingir o máximo de rendimento de que
são capazes. Rendimento que seria impossível de ser mantido ao
longo da jornada, da semana, com o passar dos anos.
Quando a cadência de trabalho é estabelecida, tomando-se
como base uma população muito jovem, se torna insuportável à me-
dida que se envelhece, razão pela qual certos locais de trabalho são
povoados apenas por jovens. Os que vão permanecendo podem ado-
ecer e, aos poucos, vão sendo excluídos, sendo demitidos ou pedin-
do demissão quando a carga de trabalho torna-se insuportável.
Essa dificuldade de suportar as cadências impostas no setor in-
dustrial foi comprovada por pesquisas da Fundação SEADE, na qual
se relata que o idoso não é inativo por indolência, pois onde há
oferta de emprego, como na agricultura, a taxa de atividade au-

47
menta. No meio rural paulista, as taxas de atividade são mais ele-
vadas, com a absorção de 17% das pessoas de 60 anos e mais
ocupadas do Estado, embora, na PEA, representem apenas 10%
do total. 73% dos homens na área rural, entre 60-69 anos, man-
têm-se ocupados contra apenas 46,1% na área urbana. Na faixa
de 70 anos ou mais, as taxas são de 32,8% e 14,5%, respectiva-
mente. (Camargo & Yazaki, 1990: 67).
Essa migração tende para ocupações mais compatíveis com suas
possibilidades, no caso da agricultura em que, apesar do grande es-
forço físico, as exigências de rapidez são menores: “... em 1980, vê-
se que aumenta a ocupação nas atividades do setor primário confor-
me cresce a idade: entre os homens maiores de 70 anos do interior,
mais de 50% estavam ocupados na agricultura. Comportamento di-
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verso ocorria com as pessoas empregadas em atividades industriais,


pois, da população masculina com 60 a 64 anos da Grande São Pau-
lo, representavam 37%, diminuindo para 26% após os 70 anos, com
o que os serviços e o comércio ganhavam maior representatividade
(indício de que, com a idade, fica mais difícil manter-se em ocupa-
ções formais).” (Camargo & Yazaki, 1990: 69). O que a pesquisa
quer dizer é que os trabalhadores da indústria não conseguem nela
permanecer devido às fortes pressões temporais (tempo muito curto
para a realizar a tarefa e regular os incidentes) mais que às exigênci-
as de força física. Na agricultura, como são menores as exigências
de tempo, os mais idosos conseguem permanecer na ativa mesmo
tendo atividade física geral bem mais intensa que na indústria.
O ser humano para executar um trabalho pode proceder de
maneiras diferentes dependendo do tempo de que dispõe, dos instru-
mentos de que se utiliza, das condições ambientais, de sua experiên-
cia prévia e do modo como é remunerado, dentre outras variá-
veis.
Por outro lado, vários homens para produzirem a mesma
peça podem proceder de maneiras diferentes, mesmo se manti-
dos os mesmos instrumentos e o mesmo ambiente de trabalho,
devido às diferenças interindividuais.
Tradicionalmente, a organização do trabalho dita “científica”
tenta não levar em consideração essas variações interindividuais, mas
todos sabemos que um trabalhador mais idoso e experiente executa

48
suas atividades de modo diferente daquele de um jovem relativamen-
te inexperiente.
Além disso, o estado dos instrumentos de trabalho varia ao lon-
go do tempo (uma serra circular torna-se menos afiada, por exemplo),
modificando também o modo operatório e influindo na carga de trabalho.
A análise da organização, portanto, é algo complexo, não sendo
possível fixar, de antemão, um roteiro aplicável a todas as situações. O
método de análise assim como o objeto a ser analisado vão sendo
estabelecidos paulatinamente, envolvendo os trabalhadores e de-
pendem, e muito, da demanda que motivou a análise.

MANUAL DE APLICAÇÃO DA NORMA REGULAMENTADORA Nº 17


O relatório final da análise ergonômica não necessariamente
deve ficar restrito aos tópicos mencionados na NR-17. Eles servem de
orientação que deve permear toda a análise. Dependendo da situa-
ção, prioriza-se alguns em particular. Mas o conhecimento de todos é
importante para se avaliar a carga de trabalho, já que esta carga vai
variar em função da organização do trabalho. A carga não é a mesma
se se exige que o trabalhador fabrique uma peça por minuto obrigato-
riamente (como numa linha de montagem) ou se ele pode fabricar
480 peças ao longo de 8 horas da jornada (ritmo não imposto pela
máquina ou esteira), tendo nesse caso a possibilidade para acelerar
ou desacelerar a cadência, além de poder adequá-la ao seu próprio
ritmo biológico. O ritmo livre é mais tolerado pelo trabalhador, pois
permite contornar os incidentes sem diminuir a produção.
17.6.2. A organização do trabalho, para efeito desta NR, deve
levar em consideração, no mínimo:
a) as normas de produção:
São todas as normas, escritas ou não, explícitas ou im-
plícitas, que o trabalhador deve seguir para realizar a
tarefa. Aqui se incluem desde o horário de trabalho
(se diurno, se noturno, a duração e a freqüência das
pausas etc.) até a qualidade desejada do produto (um
erro pode acarretar conseqüências graves), passando
pela utilização obrigatória do mobiliário e dos equi-
pamentos disponíveis. A descrição das normas de pro-
dução é muito importante para se entender as dificul-
dades do trabalhador, pois, quase sempre, a sua
explicitação permite evidenciar as normas contradi-

49
tórias da tarefa. Por exemplo, as exigências de pro-
dução podem ser contraditórias àquelas de qualida-
de ou segurança. Uma telefonista deve atender o cli-
ente rapidamente e, ao mesmo tempo, deve ser cor-
tês, polida, educada e nunca pode tomar a iniciativa
de interromper a ligação. O atendimento a normas
contraditórias está na base de muitas queixas de so-
frimento do trabalhador, pois sempre que atende a
uma delas tem de infringir a outra. Os profissionais
de segurança das empresas têm larga experiência em
constatar quantas vezes o trabalhador deixa de cum-
prir normas de segurança para conseguir atingir metas
de produção. Ou seja, prioriza-se a produção em de-
trimento da segurança. O pior é que, se tudo vai bem,
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todos acham que a transgressão é normal e desejável.


Quando ocorre o acidente, o serviço de segurança não
hesita em rotular a causa do acidente como o famigerado
“ato inseguro” pois o trabalhador conscientemente dei-
xou de cumprir as regras de segurança. O problema é
que não se pergunta por que ele fez a transgressão.
Não queremos com isso dizer que o trabalho não deve
ter normas, mas sim que estas normas têm de ser coeren-
tes entre si. Aliás, a falta de normas também é ansiogênica
para o trabalhador que tem de criar os modos de atingir
os objetivos da tarefa. Os modernos sistemas de gestão
“por objetivos” se limitam a fixar as metas de produção e
deixam o trabalhador se desdobrar para atingi-las. Para
um bancário, por exemplo, é fixado um número de segu-
ros a vender e ele, dentre várias outras tarefas, é o res-
ponsável para desenvolver as estratégias para conquis-
tar o cliente. Igualmente, as redes de lanchonetes esta-
belecem as cotas de vendas dos diversos sanduíches.
O atendente tem de fazer um grande esforço para con-
vencer o cliente a consumir um produto que está pres-
te a perder a validade. Caso o produto tenha de ser
descartado por já não atender ao padrão de qualida-
de, é contado ponto negativo no desempenho. Con-
venhamos, deve-se fazer um esforço hercúleo para atin-
gir uma meta cuja realização não depende apenas de

50
si próprio. O atendente precisa convencer o cliente a
mudar sua escolha inicial e pedir o produto que é pre-
ciso vender.
b) o modo operatório:
Seria melhor dizer os modos operatórios, pois como foi expli-
cado acima nunca se adota apenas um modo operatório. Eles
variam de acordo com as modificações da matéria-prima, do
estado dos equipamentos e das próprias condições
psicofisiológicas dos trabalhadores.
O modo operatório designa as atividades ou operações que
devem ser executadas para se atingir o resultado final dese-

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jado, o objetivo da tarefa.
Ele pode ser prescrito (ditado pela empresa) ou real (o modo
particular adotado pelo trabalhador para fazer face à varia-
bilidade acima mencionada).
Uma análise ergonômica coloca em evidência os vários modos
operatórios possíveis (prescritos e reais). Uma organização
do trabalho mais flexível é aquela que permite que os tra-
balhadores desenvolvam os modos operatórios mais ade-
quados seja ao seu estado interno ou às peculiaridades da
matéria-prima ou das ferramentas. Só assim é possível que
os trabalhadores integrem a variabilidade e atinjam os ob-
jetivos da tarefa. Aumentar os graus de liberdade significa
permitir que haja vários modos operatórios possíveis e que
possam ser adotados em situações diferentes (inclusive aquelas
resultantes de variações do estado corporal). Por exemplo,
ter a possibilidade de executar a tarefa em pé quando já se
cansou de ficar sentado. Para isso é preciso também que o
mobiliário seja concebido levando em conta os vários mo-
dos operatórios.
Atualmente, há uma grande demanda pela padroniza-
ção dos procedimentos e a premissa básica é que só
assim se atingirá a qualidade prevista: os certificados ISO.
Não discordamos que deve haver certo grau de padro-
nização para se atingir a qualidade. Discordamos ape-
nas que esses padrões sejam estabelecidos sem levar
em conta toda a variabilidade que se enfrenta no dia-a-
dia. Seria um “engessamento” da produção em que di-

51
ficilmente se conseguiria atingir as metas, seja de quan-
tidade seja de qualidade. A produção é garantida gra-
ças às habilidades dos trabalhadores de contornar os
diversos incidentes que insistem em aparecer a toda
hora. Na prática, temos visto os trabalhadores guar-
darem zelosamente na gaveta os procedimentos pres-
critos e continuarem a improvisar para desempenhar
bem a tarefa. Eles comentam que gostariam de obe-
decer ao procedimento prescrito, mas que, “na práti-
ca, as coisas não acontecem como previsto”. Um exem-
plo do que pode acontecer caso todos resolvam obe-
decer cegamente a todas as regras é a “operação-pa-
drão”. É a maneira de se emperrar o funcionamento
sem entrar em greve. Basta seguir todas as normas que
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tudo se torna moroso demais. É bem conhecida a ope-


ração-padrão dos controladores de vôo. Quando eles
obedecem a todas as normas de segurança, há um con-
gestionamento gigantesco. Ou seja, na prática, os vôos
são controlados sem se levarem em conta “todas” as nor-
mas. A habilidade do controlador é, então, saber quais
regras podem ser infringidas sem, contudo, provocar um
acidente grave. O problema é que, quando ocorre o aci-
dente, é fácil descobrir os “atos inseguros” do controlador,
pois ele os pratica rotineiramente para conseguir dar vazão
ao fluxo aéreo.
Concluindo, nem sempre se pode tudo prever. Mesmo as
normas de qualidade podem não ser claras, assim como os
meios de atingi-las, fato que leva o trabalhador a um esta-
do constante de incerteza. Este estado pode ser agravado
quando as exigências de qualidade se superpõem àque-
las de quantidade.
c) a exigência de tempo:
Expressa o quanto deve ser produzido em um determinado
tempo, sob imposição. Uma expressão equivalente seria
“a pressão de tempo”
Toda atividade humana se desenvolve dentro de um qua-
dro temporal: em um momento dado (horários), durante
um certo tempo (duração da jornada), com uma certa rapi-

52
dez, em uma certa freqüência e com uma certa regularida-
de (velocidade, cadência, ritmo) (Daniellou et alii, 1989).
A capacidade produtiva (rendimento) de um mesmo indiví-
duo pode variar ao longo do tempo (ao longo de um mes-
mo dia, semana, mês, ano e ao longo dos anos = variação
intra-individual), assim como variar entre um indivíduo e
outro (variação interindividual).
Limites fixados pela empresa podem superar a capaci-
dade de um ou vários trabalhadores colocando em risco
sua saúde como temos visto freqüentemente no trabalho
repetitivo ocasionando os distúrbios osteomusculares.

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O “ideal” em qualquer situação é que não haja exigên-
cias estritas de tempo ou, se as houver, que elas levem
em conta a variabilidade e os incidentes. O trabalhador
não pode ser encarado como um ser indolente que se,
deixado livre, irá sempre fazer pouco. Objetivos podem
ser fixados, mas é imprescindível que haja margens de
liberdade para que o trabalhador possa gerenciar seu
tempo. É a única maneira de evitar que entre em esgota-
mento (físico) ou estresse emocional. Isso evidentemente
está bem distante do observado na prática, e os trabalha-
dores têm desenvolvido lutas para que as exigências de
tempo sejam mais flexíveis.
d) a determinação do conteúdo do tempo:
Esta alínea foi incluída para se dar conta de trabalhos
envolvendo diferentes tarefas. A determinação do con-
teúdo do tempo permite evidenciar o quanto de tempo se
gasta para realizar uma subtarefa ou cada uma das ativi-
dades necessárias à tarefa. Uma secretária, por exem-
plo, pode gastar grande parte do seu tempo atenden-
do a telefonemas e dando informações (tarefas que não
são registradas como produção, que não deixam mar-
cas, que são invisíveis mas que não podem deixar de
serem executadas) e deixando de lado outras tarefas,
como digitar um relatório. É certo que sofrerá reclama-
ções pelo atraso na execução das tarefas principais.
Em análises ergonômicas, ela permite também reestruturar
tarefas ou redesenhar o arranjo físico. Por exemplo, a evi-

53
dência de que uma auxiliar de enfermagem gasta tempo
demais para se deslocar do posto até a enfermaria permite
ao arquiteto projetar uma unidade de cuidados cuja dis-
posição dos leitos seja ao redor do posto. A análise da
tarefa de fazer cópias xerográficas permitiu detectar que grande
parte do tempo era gasta colocando e retirando a página e
também para colocar em ordem as folhas quando se tiravam
várias cópias de um documento com mais de uma página.
Assim, os desenhistas projetaram máquinas que colocavam e
retiravam as folhas automaticamente. Por outro lado, criou-se
o dispositivo que permite organizar os volumes prontos do
documento.
A organização procura também determinar rigidamente o modo
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de emprego do tempo. A análise pode revelar quanto tempo


se leva na execução de atividades não prescritas, mas impor-
tantes na realização da tarefa e que podem ser desconhecidas
das próprias gerências. Tal é o caso dos numerosos incidentes
que podem ocorrer durante uma jornada, e que requerem um
certo tempo suplementar para serem resolvidos. Este tempo
suplementar nunca é levado em conta quando se faz o cálcu-
lo dos tempos e movimentos.
e) o ritmo de trabalho:
Aqui devemos fazer uma distinção entre o ritmo e a cadência.
A cadência tem um aspecto quantitativo, o ritmo qualitativo.
A cadência refere-se à velocidade dos movimentos que se re-
petem em uma dada unidade de tempo. O ritmo é a maneira
como as cadências são ajustadas ou arranjadas: pode ser livre
(quando o indivíduo tem autonomia para determinar sua pró-
pria cadência) ou imposto (por uma máquina, pela esteira da
linha de montagem e até por incentivos à produção) (Teiger,
1985).
O ritmo de trabalho pode ser imposto pela máquina (no
caso de uma linha de montagem, com operações que
devem, às vezes, ser executadas em menos de um minu-
to) ou ser gerenciado pelo trabalhador ao longo de um
dia, embora mantendo uma cota de produção diária (como
na linha de montagem com estoque-tampão). Ele pode
também ser influenciado pelo modo de remuneração (sa-
lário baseado no número de toques sobre o teclado como
54
na digitação ou por unidades produzidas), que é teorica-
mente um ritmo livre, mas que induz o trabalhador a uma
auto-aceleração que não mais respeita sua percepção de
fadiga.
Há trabalhos que devem ser necessariamente executados em
tempo previamente determinado (os cheques devem ser com-
pensados até as 6h, por exemplo), o que por si só constitui
uma pressão temporal com sobrecarga de trabalho em deter-
minados horários.
A distinção entre ritmo e cadência é importante para
avaliarmos a carga de trabalho. Tomemos, por exem-

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plo, uma afirmação contida em relatório do tipo “o tra-
balhador realiza 1.200 levantamentos por dia do bra-
ço direito até a altura do ombro”. Essa medida por si
só não me permite fazer um julgamento sobre o que
ela representa como carga para o trabalhador. Se ele
executa esses movimentos ao realizar uma tarefa em
que ele mesmo gerencia a sua cadência e, portanto,
pode alterá-la ao longo do dia ou de um dia para o
outro, provavelmente, ele tolerará melhor essa impo-
sição. Se, no entanto, ele estiver operando uma má-
quina que exige que ele faça o movimento e, portan-
to, não lhe cabe variar a cadência, pode considerar
sua carga com mais dificuldade. Acrescente-se a isso,
se, a cada levantamento do braço, ele permanece com
o braço levantado, por um longo tempo, suportando
uma carga. A carga já é maior então. O mesmo vale
para o caso em que essa cadência for imposta por uma
fila de clientes. Logo, medidas quantitativas sem indi-
cações do contexto em que elas ocorrem não contri-
buem para a avaliação da situação.
f) o conteúdo das tarefas:
O conteúdo das tarefas designa o modo como o trabalhador
percebe as condições de seu trabalho: estimulante, social-
mente importante, monótono ou aquém de suas capacida-
des. Pode ser estimulante se envolve uma certa criatividade,
se há uma variedade de atividades, se há questões a se re-
solver e se elas solicitam o interesse do trabalhador. Mas é
importante lembrar que nem sempre uma variedade muito
55
grande de tarefas é necessariamente estimulante. Por exem-
plo, quando se requer grande memorização e aprendizado e
as tarefas devem ser executadas com fortes exigências de
tempo.
A maior ou menor riqueza do conteúdo das tarefas passa tam-
bém pela avaliação do trabalhador e depende das suas aspi-
rações na vida, bem como, das suas motivações para o tra-
balho.
O conteúdo das tarefas está relacionado com o que nos
textos de referência sobre DORT vem na rubrica de fatores
psicossociais. Kuorinka & Forcier (1995), por exemplo,
dizem que: “Os fatores organizacionais são os aspectos
objetivos da maneira pela qual o trabalho é organizado,
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supervisionado e efetuado. Os fatores psicossociais são


as percepções subjetivas que o trabalhador tem dos fato-
res organizacionais. Logo, fatores organizacionais e
psicossociais podem ser idênticos. Os fatores psicossociais
veiculam um valor “emocional” no trabalhador. Por exem-
plo, a progressão profissional pode ser percebida como
estimulante e como reconhecimento ao bom desempe-
nho das tarefas, mas pode também ser seguida de uma
reação de temor quando o trabalhador não se sente per-
feitamente capaz de exercer o novo cargo.
Em síntese, a análise ergonômica procura colocar em evi-
dência os fatores que possam levar a uma sub ou sobre-
carga de trabalho (física ou cognitiva) e suas conseqüen-
tes repercussões sobre a saúde, estabelecendo quais são
os pontos críticos que devem ser modificados.
Insistimos que uma análise deve levar em conta a expres-
são dos trabalhadores sobre suas condições de trabalho e
que para transformá-las positivamente é preciso agir, qua-
se sempre, sobre a organização do trabalho (Guerin, 1985:74).

17.6.3. Nas atividades que exijam sobrecarga muscular estática


ou dinâmica do pescoço, ombros, dorso e membros superiores e
inferiores, e a partir da análise ergonômica do trabalho, deve ser
observado o seguinte:
a) todo e qualquer sistema de avaliação de desempenho para

56
efeito de remuneração e vantagens de qualquer espécie de-
vem levar em consideração as repercussões sobre a saúde dos
trabalhadores.
Esse subitem, com suas alíneas, tem um alcance consi-
derável, mas a maioria das pessoas não consegue aplicá-
lo. Ele é muito claro. Se já ocorreram distúrbios
osteomusculares relacionados ao trabalho (DORT) em
qualquer parte do corpo (pescoço, ombros, dorso e mem-
bros superiores e inferiores), o que indica sobrecarga mus-
cular estática ou dinâmica, não pode haver avaliação
do desempenho individual. Se a avaliação é individual,

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significa sempre que o trabalhador vai ser premiado se
atingir ou ultrapassar o patamar desejado ou punido, caso
não o atinja. As avaliações são importantes no processo
produtivo, pois é a partir delas que a empresa faz proje-
ções a respeito da sua capacidade de cumprir contra-
tos, de sua eficiência, a necessidade de aumentar ou
reduzir o efetivo etc. Mas essas avaliações têm que ser
coletivas. As avaliações individuais provocam estresse
no trabalhador e são patogênicas por si mesmas, quer
dizer, mesmo que não haja premiação para quem pro-
duza mais. Aliás, se há avaliação individual, há alguma
intenção oculta, nem que seja demitir os mais lentos.
Logo, uma premiação está sempre implícita, nem que
seja a manutenção do emprego.
Muitos sindicalistas têm se queixado da falta de detalhamento
da NR-17 para seus setores específicos. Nossa opinião é que, embora
as correções de mobiliário e equipamentos tenham alguma influência
na prevenção da (DORT), o incentivo à produção via prêmios, van-
tagens financeiras ou qualquer outra é o fator que mais contribui.
Logo, correções de mobiliário e equipamentos são ineficazes, se a
pressão por aumento da cadência continuar. O desafio é que os
atores sociais (auditor-fiscal do trabalho, representantes dos traba-
lhadores e os próprios trabalhadores) consigam abolir os incentivos
à produção.
Por mais que se queira, uma norma não consegue detalhar to-
dos os casos particulares. Para se conseguirem mudanças, tais como
a abolição de prêmios de produção, é imprescindível que se estude

57
bem a situação.
b) devem ser incluídas pausas para descanso:
É outra queixa constante de que apenas o trabalho com entra-
da eletrônica de dados foi contemplado com as pausas
quantificadas. Geralmente, nos outros setores produtivos, tenta-
se implantar o mesmo sistema de pausas. Isso tem que ser
avaliado com muito cuidado, pois cada tarefa tem a sua parti-
cularidade. Nas linhas de montagem, por exemplo, a queixa
mais comum é que o tempo alocado à realização da tarefa é
muito reduzido e quando há incidente, o trabalhador só con-
segue realizá-la com grande esforço e agilidade. Isso faz com
que ele esteja sempre ansioso com a possibilidade de não
conseguir realizar bem a tarefa. Nesse caso, seria muito mais
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útil um aumento no tempo do ciclo destinado à tarefa que


uma pausa de 10 minutos a cada 50 minutos trabalhados.
Assim, poder-se-ia fazer uma micropausa entre um ciclo e
outro, permitindo o retorno das articulações à posição neutra,
o que está mais que provado reduzir a incidência de DORT.
Na prática, isso significa diminuir a velocidade da esteira.
Ora, sabemos bem que diante de certos eventos (como o
aumento da demanda), a velocidade da esteira é logo au-
mentada pelas instâncias superiores. Logo, a micropausa,
apesar de ser bastante benéfica do ponto de vista fisiológi-
co, não é devidamente apropriada pelos trabalhadores. Já a
macropausa (como 10 minutos de descanso a cada 50 tra-
balhados) é mais bem apropriada e torna-se um direito mais
difícil de ser retirado.
Num outro extremo, há tarefas em que pausas muito
freqüentes são mais difíceis de serem operacionalizadas,
como por exemplo, para um caixa de supermercado.
O fechamento de um caixa é tarefa complicada, pois
há uma fila de clientes à espera. Não se pode simples-
mente sair e pronto. É preciso chamar um fiscal de cai-
xa, remanejar os clientes, etc. Não pode haver um subs-
tituto do caixa na sua ausência por causa do manu-
seio do dinheiro. Colocar um substituto implica fazer
acerto de caixa. Daí ser impraticável uma pausa a cada
50 minutos trabalhados. Diante de tantas medidas a
serem tomadas, preferem-se pausas maiores e menos
freqüentes.
58
É impossível uma fórmula geral que seja conveniente a to-
3. LIMITES DE UMA NORMA

A NR-17, como todas as normas, não aponta soluções para


todas as situações precisas encontradas na prática. A solução dos
problemas só é possível pelo esforço conjunto de todos os interessa-
dos. É imprescindível também o acompanhamento das pesquisas
que têm sido feitas mais recentemente e a consulta a manuais

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especializados e normas de outros países.

59
ANEXOS
61

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NR 17 – Ergonomia (117.000-7)

17.1. Esta Norma Regulamentadora visa a estabelecer parâmetros


que permitam a adaptação das condições de trabalho às caracterís-
ticas psicofisiológicas dos trabalhadores, de modo a proporcionar
um máximo de conforto, segurança e desempenho eficiente.
17.1.1. As condições de trabalho incluem aspectos relacio-

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nados ao levantamento, transporte e descarga de materiais, ao mo-
biliário, aos equipamentos e às condições ambientais do posto de
trabalho e à própria organização do trabalho.
17.1.2. Para avaliar a adaptação das condições de trabalho às
características psicofisiológicas dos trabalhadores, cabe ao emprega-
dor realizar a análise ergonômica do trabalho, devendo a mesma abordar,
no mínimo, as condições de trabalho, conforme estabelecido nesta
Norma Regulamentadora.
17.2. Levantamento, transporte e descarga individual de ma-
teriais.17.2.1. Para efeito desta Norma Regulamentadora:
17.2.1.1. Transporte manual de cargas designa todo transporte
no qual o peso da carga é suportado inteiramente por um só traba-
lhador, compreendendo o levantamento e a deposição da carga.
17.2.1.2. Transporte manual regular de cargas designa toda
atividade realizada de maneira contínua ou que inclua, mesmo de
forma descontínua, o transporte manual de cargas.
17.2.1.3. Trabalhador jovem designa todo trabalhador com idade
inferior a 18 (dezoito) anos e maior de 14 (quatorze) anos.
17.2.2. Não deverá ser exigido nem admitido o transporte ma-
nual de cargas, por um trabalhador cujo peso seja suscetível de com-
prometer sua saúde ou sua segurança. (117.001-5/I1)
17.2.3. Todo trabalhador designado para o transporte manual
regular de cargas, que não as leves, deve receber treinamento ou
instruções satisfatórias quanto aos métodos de trabalho que deverá

63
utilizar, com vistas a salvaguardar sua saúde e prevenir acidentes.
(117.002-3/I2)
17.2.4. Com vistas a limitar ou facilitar o transporte manual de
cargas, deverão ser usados meios técnicos apropriados.
17.2.5. Quando mulheres e trabalhadores jovens forem designa-
dos para o transporte manual de cargas, o peso máximo destas cargas
deverá ser nitidamente inferior àquele admitido para os homens, para
não comprometer a sua saúde ou a sua segurança. (117.003-1/I1)
17.2.6. O transporte e a descarga de materiais feitos por impulsão
ou tração de vagonetes sobre trilhos, carros de mão ou qualquer ou-
tro aparelho mecânico deverão ser executados de forma que o esfor-
ço físico realizado pelo trabalhador seja compatível com a sua capa-
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cidade de força e não comprometa a sua saúde ou a sua segurança.


(117.004-0/I1)
17.2.7. O trabalho de levantamento de material feito com equi-
pamento mecânico de ação manual deverá ser executado de forma
que o esforço físico realizado pelo trabalhador seja compatível com
sua capacidade de força e não comprometa a sua saúde ou a sua
segurança. (117.005-8/I1)
17.3. Mobiliário dos postos de trabalho.
17.3.1. Sempre que o trabalho puder ser executado na posição
sentada, o posto de trabalho deve ser planejado ou adaptado para
esta posição.
17.3.2. Para trabalho manual sentado ou que tenha de ser feito
em pé, as bancadas, mesas, escrivaninhas e os painéis devem propor-
cionar ao trabalhador condições de boa postura, visualização e ope-
ração e devem atender aos seguintes requisitos mínimos:
a) ter altura e características da superfície de trabalho compa-
tíveis com o tipo de atividade, com a distância requerida
dos olhos ao campo de trabalho e com a altura do assen-
to; (117.007-4/I2)
b) ter área de trabalho de fácil alcance e visualização pelo
trabalhador; (117.008-2/I2)

64
c) ter características dimensionais que possibilitem posiciona-
mento e movimentação adequados dos segmentos corpo-
rais. (117.009-0/I2)
17.3.2.1. Para trabalho que necessite também da utiliza-
ção dos pés, além dos requisitos estabelecidos no subitem 17.3.2,
os pedais e demais comandos para acionamento pelos pés de-
vem ter posicionamento e dimensões que possibilitem fácil al-
cance, bem como ângulos adequados entre as diversas partes
do corpo do trabalhador, em função das características e pecu-
liaridades do trabalho a ser executado. (117.010-4/I 2)
17.3.3. Os assentos utilizados nos postos de trabalho devem

MANUAL DE APLICAÇÃO DA NORMA REGULAMENTADORA Nº 17


atender aos seguintes requisitos mínimos de conforto:
a) altura ajustável à estatura do trabalhador e à natureza da
função exercida; (117.011-2/I1)
b) características de pouca ou nenhuma conformação na base
do assento; (117.012-0/I1)
c) borda frontal arredondada; (117.013-9/I1)
d) encosto com forma levemente adaptada ao corpo para pro-
teção da região lombar. (117.014-7/I1)
17.3.4. Para as atividades em que os trabalhos devam ser
realizados sentados, a partir da análise ergonômica do trabalho, po-
derá ser exigido suporte para os pés, que se adapte ao comprimento
da perna do trabalhador. (117.015-5/I1)
17.3.5. Para as atividades em que os trabalhos devam ser
realizados de pé, devem ser colocados assentos para descanso em
locais em que possam ser utilizados por todos os trabalhadores durante
as pausas. (117.016-3/I2)
17.4. Equipamentos dos postos de trabalho.
17.4.1. Todos os equipamentos que compõem um posto de tra-
balho devem estar adequados às características psicofisiológicas dos
trabalhadores e à natureza do trabalho a ser executado.
17.4.2. Nas atividades que envolvam leitura de documentos
para digitação, datilografia ou mecanografia deve:
a) ser fornecido suporte adequado para documentos que pos-
sa ser ajustado proporcionando boa postura, visualização

65
e operação, evitando movimentação freqüente do pescoço
e fadiga visual; (117.017-1/I1)
b) ser utilizado documento de fácil legibilidade sempre que
possível, sendo vedada a utilização do papel brilhante, ou
de qualquer outro tipo que provoque ofuscamento. (117.018-
0/I1)
17.4.3. Os equipamentos utilizados no processamento eletrô-
nico de dados com terminais de vídeo devem observar o seguinte:
a) condições de mobilidade suficientes para permitir o ajuste
da tela do equipamento à iluminação do ambiente, pro-
tegendo-a contra reflexos, e proporcionar corretos ângu-
los de visibilidade ao trabalhador; (117.019-8/ I2)
b) o teclado deve ser independente e ter mobilidade, permi-
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tindo ao trabalhador ajustá-lo de acordo com as tarefas a


serem executadas; (117.020-1/I2)
c) a tela, o teclado e o suporte para documentos devem ser
colocados de maneira que as distâncias olho-tela, olho-
teclado e olho-documento sejam aproximadamente iguais;
(117.021-0/I2)
d) serem posicionados em superfícies de trabalho com altura
ajustável. (117.022-8/I2)
17.4.3.1. Quando os equipamentos de processamento eletrô-
nico de dados com terminais de vídeo forem utilizados eventual-
mente poderão ser dispensadas as exigências previstas no subitem
17.4.3, observada a natureza das tarefas executadas e levando-se
em conta a análise ergonômica do trabalho.
17.5. Condições ambientais de trabalho.
17.5.1. As condições ambientais de trabalho devem estar ade-
quadas às características psicofisiológicas dos trabalhadores e à na-
tureza do trabalho a ser executado.
17.5.2. Nos locais de trabalho onde são executadas atividades
que exijam solicitação intelectual e atenção constantes, tais como:
salas de controle, laboratórios, escritórios, salas de desenvolvimento
ou análise de projetos, dentre outros, são recomendadas as seguintes
condições de conforto:

66
a) níveis de ruído de acordo com o estabelecido na
NBR-10152, norma brasileira registrada no INMETRO;
(117.023-6/I2)
b) índice de temperatura efetiva entre 20oC (vinte graus centígra-
dos) e 23oC (vinte e três graus centígrados); (117.024-4/ I2)
c) velocidade do ar não superior a 0,75m/s; (117.025-2/ I2)
d) umidade relativa do ar não inferior a 40%. (117.026-0/I2)
17.5.2.1. Para as atividades que possuam as características de-
finidas no subitem 17.5.2, mas não apresentam equivalência ou cor-
relação com aquelas relacionadas na NBR-10152, o nível de ruído
aceitável para efeito de conforto será de até 65 dB (A) e a curva de

MANUAL DE APLICAÇÃO DA NORMA REGULAMENTADORA Nº 17


avaliação de ruído (NC) de valor não superior a 60 dB.
17.5.2.2. Os parâmetros previstos no subitem 17.5.2 devem
ser medidos nos postos de trabalho, sendo os níveis de ruído deter-
minados próximos à zona auditiva e as demais variáveis na altura
do tórax do trabalhador.
17.5.3. Em todos os locais de trabalho deve haver iluminação
adequada, natural ou artificial, geral ou suplementar, apropriada à
natureza da atividade.
17.5.3.1. A iluminação geral deve ser uniformemente distribu-
ída e difusa.
17.5.3.2. A iluminação geral ou suplementar deve ser projeta-
da e instalada de forma a evitar ofuscamento, reflexos incômodos,
sombras e contrastes excessivos.
17.5.3.3. Os níveis mínimos de iluminamento a serem obser-
vados nos locais de trabalho são os valores de iluminâncias estabe-
lecidos na NBR 5413, norma brasileira registrada no INMETRO.
(117.027-9/I2)
17.5.3.4. A medição dos níveis de iluminamento previstos no subitem
17.5.3.3 deve ser feita no campo de trabalho onde se realiza a tarefa
visual, utilizando-se de luxímetro com fotocélula corrigida para a sen-
sibilidade do olho humano e em função do ângulo de incidência. (117.028-
7/I2)

67
17.5.3.5. Quando não puder ser definido o campo de traba-
lho previsto no subitem 17.5.3.4, este será um plano horizontal a
75cm (setenta e cinco centímetros) do piso.
17.6. Organização do trabalho.
17.6.1. A organização do trabalho deve ser adequada às carac-
terísticas psicofisiológicas dos trabalhadores e à natureza do trabalho
a ser executado.
17.6.2. A organização do trabalho, para efeito desta NR, deve
levar em consideração, no mínimo:
a) as normas de produção;
b) o modo operatório;
c) a exigência de tempo;
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d) a determinação do conteúdo de tempo;


e) o ritmo de trabalho;
f) o conteúdo das tarefas.
17.6.3. Nas atividades que exijam sobrecarga muscular estáti-
ca ou dinâmica do pescoço, ombros, dorso e membros superiores e
inferiores, e a partir da análise ergonômica do trabalho, deve ser
observado o seguinte:
a) para efeito de remuneração e vantagens de qualquer espécie
deve levar em consideração as repercussões sobre a saúde
dos trabalhadores; (117.029-5/I3)
b) devem ser incluídas pausas para descanso; (117.030-9/I3)
c) quando do retorno do trabalho, após qualquer tipo de afas-
tamento igual ou superior a 15 (quinze) dias, a exigência
de produção deverá permitir um retorno gradativo aos ní-
veis de produção vigentes na época anterior ao afastamento.
(117.031-7/I3)
17.6.4. Nas atividades de processamento eletrônico de dados,
deve-se, salvo o disposto em convenções e acordos coletivos de tra-
balho, observar o seguinte:
a) o empregador não deve promover qualquer sistema de ava-
liação dos trabalhadores envolvidos nas atividades de
digitação, baseado no número individual de toques sobre

68
o teclado, inclusive o automatizado, para efeito de re-
muneração e vantagens de qualquer espécie; (117.032-
5)
b) o número máximo de toques reais exigidos pelo empregador
não deve ser superior a 8 (oito) mil por hora trabalhada, sendo
considerado toque real, para efeito desta NR, cada movimen-
to de pressão sobre o teclado; (117.033-3/I3)
c) o tempo efetivo de trabalho de entrada de dados não deve
exceder o limite máximo de 5 (cinco) horas, sendo que,
no período de tempo restante da jornada, o trabalhador
poderá exercer outras atividades, observado o disposto no

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art. 468 da Consolidação das Leis do Trabalho, desde que
não exijam movimentos repetitivos, nem esforço visual;
(117.034-1/I3)
d) nas atividades de entrada de dados deve haver, no míni-
mo, uma pausa de 10 (dez) minutos para cada 50 (cin-
qüenta) minutos trabalhados, não deduzidos da jornada
normal de trabalho; (117.035-0/I3)
e) quando do retorno ao trabalho, após qualquer tipo de afas-
tamento igual ou superior a 15 (quinze) dias, a exigência
de produção em relação ao número de toques deverá ser
iniciado em níveis inferiores do máximo estabelecido na
alínea “b” e ser ampliada progressivamente. (117.036-8/I3)

69
EQUAÇÃO DO NIOSH PARA LEVANTAMENTO
MANUAL DE CARGAS1

O objetivo desta Nota Técnica é a difusão da equação do


NIOSH (National Institute for Occupational Safety and Health, USA)
para sua aplicação prática e para o cálculo do peso máximo reco-
mendado na manipulação manual de cargas, podendo-se, assim,

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redesenhar o posto de trabalho e evitar o risco de sofrer de lombalgia
devido à manipulação de cargas.

INTRODUÇÃO
A manipulação e o levantamento de cargas são as principais
causas de lombalgia. Estas podem aparecer por sobreesforço ou como
resultado de esforços repetitivos. Outros fatores como empurrar ou
puxar cargas, as posturas inadequadas e forçadas ou as vibrações es-
tão diretamente relacionados com o aparecimento deste distúrbio.
O National Institute for Occupational Safety and Health – NIOSH
desenvolveu em 1981 (NIOSH, 1981) uma equação para avaliar a
manipulação de cargas no trabalho. Sua intenção era criar uma fer-
ramenta para poder identificar os riscos de lombalgia associados à
carga física a que estava submetido o trabalhador e recomendar um
limite de peso adequado para cada tarefa em questão, de maneira
que uma determinada percentagem da população – a ser fixada pelo
usuário da equação – pudesse realizar a tarefa sem risco elevado de
desenvolver lombalgia. Em 1991, a equação foi revista e novos fato-
res foram introduzidos: a manipulação assimétrica de cargas, a dura-
ção da tarefa, a freqüência dos levantamentos e a qualidade da pega.
Além disso, discutiram-se as limitações da equação e o uso de um
índice para a identificação de riscos.

1
Tradução da norma espanhola NTP 477 (CENTRO NACIONAL DE CONDICIONES DE
TRABAJO (ESPANHA), S/D).

71
Tanto a equação de 1981 como a sua versão modificada
em 1991 foram elaboradas levando-se em conta três critérios: o
biomecânico, que limita o estresse na região lombo-sacra, que é o
mais importante em levantamentos pouco freqüentes que, porém,
requerem um sobreesforço; o critério fisiológico, que limita o estresse
metabólico e a fadiga associada a tarefas de caráter repetitivo; e o
critério psicofísico, que limita a carga baseando-se na percepção que
o trabalhador tem da sua própria capacidade, aplicável a todo tipo
de tarefa, exceto àquelas em que a freqüência de levantamento é
elevada (mais de seis levantamentos por minuto).
A revisão da equação, realizada pelo comitê do NIOSH
no ano de 1994, ( WATERS, T. PUTZANDERSON, V.; GARG, A.;
FINE, L. 1993 e 1994) completa a descrição do método e as
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limitações de sua aplicação (ver tabela 1). De acordo com esta


última revisão, a equação NIOSH para o levantamento de car-
gas determina o limite de peso recomendado (LPR), a partir do
quociente de sete fatores, que serão explicados mais adiante,
sendo o índice de risco associado ao levantamento, o quocien-
te entre o peso da carga levantada e o limite de peso recomen-
dado para essas condições concretas de levantamento.
peso da carga levantada
Índice de risco associado ao levantamento =
limite de peso recomendado
TABELA 1. EQUAÇÃO NIOSH REVISADA (1994)
NIOSH 1994
LPR = LC - HM - VM - DM - AM - FM - CM
LC: constante de carga
HM: fator de distância horizontal
VM: fator de altura
DM: fator de deslocamento vertical
AM: fator de assimetria
FM: fator de freqüência
CM: fator de pega

CRITÉRIOS
Os critérios para estabelecer os limites de carga são de caráter
biomecânico, fisiológico e psicofísico.
72
CRITÉRIO BIOMECÂNICO
Ao manejar uma carga pesada ou ao fazê-lo incorreta-
mente, aparecem uns momentos mecânicos na zona da coluna
vertebral – concretamente na união dos segmentos vertebrais
L5/S1 – que causam um considerável estresse na região lom-
bar. Das forças de compressão, torção e cisalhamento que apa-
recem, considera-se a compressão do disco L5/S1 como a princi-
pal causa de risco de lombalgia.
Através de modelos biomecânicos, e usando dados recolhidos
em estudos sobre a resistência de tais vértebras, chegou-se a consi-

MANUAL DE APLICAÇÃO DA NORMA REGULAMENTADORA Nº 17


derar uma força de 3,4kN como força-limite de compressão para o
aparecimento do risco de lombalgia.

CRITÉRIO FISIOLÓGICO
Ainda que se disponha de poucos dados empíricos que demons-
trem que a fadiga aumenta o risco de danos músculo-esqueléticos, é
reconhecido que as tarefas com levantamentos repetitivos podem fa-
cilmente exceder as capacidades normais de energia do trabalhador,
provocando uma diminuição prematura de sua resistência e um au-
mento da probabilidade de lesão.
O comitê do NIOSH em 1991 compilou alguns limites da ca-
pacidade aeróbica máxima para o cálculo do gasto energético, que
são os seguintes:
Em levantamentos repetitivos, 9,5Kcal/min será a capacidade
aeróbica máxima de levantamento.
Em levantamentos que requeiram erguer os braços acima de
75cm, não se superarão os 70% da capacidade aeróbica máxima.
Não se superarão os 50%, 40% e 30% da capacidade aeróbica
máxima ao calcular o gasto energético das tarefas de duração de 1
hora, de 1 a 2 horas e de 2 a 8 horas, respectivamente.

CRITÉRIO PSICOFÍSICO
O critério psicofísico se baseia em dados sobre a resistência e
a capacidade dos trabalhadores que manipulam cargas com diferentes
freqüências e durações. Baseia-se no limite de peso aceitável para

73
uma pessoa trabalhando em condições determinadas e integra o cri-
tério biomecânico e o fisiológico, porém tende a sobreestimar a ca-
pacidade dos trabalhadores para tarefas repetitivas de duração pro-
longada.

COMPONENTES DA EQUAÇÃO
Antes de começar a definir os fatores da equação, deve-se defi-
nir o que se entende por localização-padrão de levantamento. Trata-
se de uma referência no espaço tridimensional para avaliar a postura
de levantamento.
A distância vertical da pega da carga ao solo é de 75cm e a dis-
tância horizontal da pega ao ponto médio entre os tornozelos é de
25cm. Qualquer desvio em relação a esta referência implica um afas-
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tamento das condições ideais de levantamento (ver Figura 1).

V: Posição vertical
H: Posição horizontal
1: Projeção do ponto
médio entre os
tornozelos
2: Projeção do ponto
médio entre as
agarras da carga

Fig. 1 – Localização-padrão de levantamento.

74
ESTABELECIMENTO DA CONSTANTE DE CARGA
A constante de carga (LC, load constant) é o peso máximo reco-
mendado para um levantamento desde que a localização-padrão e
em condições ótimas, quer dizer, em posição sagital (sem torções do
dorso nem posturas assimétricas), fazendo um levantamento ocasio-
nal, com uma boa pega da carga e levantando a carga a menos de
25cm. O valor da constante foi fixado em 23kg. O estabelecimento
do valor desta constante levou em conta critérios biomecânicos e
fisiológicos.
O levantamento de uma carga igual ao valor da constante de

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carga em condições ideais seria realizado por 75% da população
feminina e por 90% da masculina, de maneira tal que a força de
compressão no disco L5/S1, produzida pelo levantamento, não supere
os 3,4kN.

OBTENÇÃO DOS COEFICIENTES DA EQUAÇÃO


A equação emprega seis coeficientes que podem variar entre
0 e 1, segundo as condições em que se dá o levantamento.
O caráter multiplicativo da equação faz com que o valor-
limite de peso recomendado vá diminuindo à medida que nos
afastamos das condições ótimas de levantamento.

FATOR DE DISTÂNCIA HORIZONTE, HM (HORIZONTAL MULTIPLIER)


Estudos biomecânicos e psicofísicos indicam que a força de
compressão no disco aumenta proporcionalmente à distância entre
a carga e a coluna. O estresse por compressão (axial) que aparece
na zona lombar está, portanto, diretamente relacionado a esta dis-
tância horizontal (H em cm) que se define como a distância hori-
zontal entre a projeção sobre o solo do ponto médio entre as pegas
da carga e a projeção do ponto médio entre os tornozelos. Caso H
não possa ser medido, pode-se obter um valor aproximado median-
te a equação:
H = 20 + w/2 se V > 25cm
H = 25 + w/2 se V < 25cm

75
onde W é a extensão da carga no plano sagital e V a altura das
mãos em relação ao solo. O fator de distância horizontal (HM) deter-
mina-se como se segue:
HM = 25/H
São mais penalizados os levantamentos nos quais o centro de
gravidade da carga está separado do corpo. Se a carga é levantada
junto ao corpo ou a menos de 25cm do mesmo, o fator toma o valor
1. Considera-se que H > 63cm dará lugar a um levantamento com
perda de equilíbrio, pelo que se fixará HM = 0 (o limite de peso
recomendado será igual a zero).

FATOR DE ALTURA, VM (VERTICAL MULTIPLIER)


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São penalizados os levantamentos nos quais as cargas devem


ser apanhadas em posição muito baixa ou demasiadamente elevada.
O comitê do NIOSH estabeleceu em 22,5% a diminuição do
peso em relação à constante de carga para o levantamento até o
nível dos ombros e para o levantamento a partir do nível do solo.
Este fator valerá 1 quando a carga estiver situada a 75cm do
solo e diminuirá à medida que nos distanciemos desse valor. Deter-
mina-se:
VM = (1 – 0,003 [V – 75])
onde V é a distância vertical entre o ponto de pega e o solo. Se
V > 175cm, tomaremos VM = 0.

FATOR DE DESLOCAMENTO VERTICAL, DM (DISTANCE MULTIPLIER)


Refere-se à diferença entre a altura inicial e final da carga. O
comitê estabeleceu em 15% a diminuição na carga quando o deslo-
camento se der desde o solo até além da altura dos ombros. Deter-
mina-se:
DM = (0,82 + 4,5/D)
D = V1 – V2
onde V1 é a altura da carga em relação ao solo na origem do
movimento e V2 a altura ao final do mesmo.

76
Quando D < 25cm, manteremos DM = 1, valor que irá dimi-
nuindo à medida que aumenta a distância de deslocamento cujo
valor máximo aceitável se considera 175cm.

FATOR DE ASSIMETRIA, AM (ASYMETRIC MULTIPLIER)


Considera-se como assimétrico um movimento que começa
ou termina fora do plano médio-sagital, como mostra a Figura 2.
Este movimento deverá ser evitado sempre que possível. O ângulo
de giro (A) deverá ser medido na origem do movimento e se a tarefa
requerer um controle significativo da carga, isto é, se o trabalhador
tiver de colocar a carga de uma forma determinada em seu ponto de

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destino, também deverá ser medido o ângulo de giro ao final do
movimento.

A: Ângulo de simetria
1: Projeção do ponto
médio entre tornozelos
2: Projeção do ponto
médio entre as
agarras da carga
P: Plano sagital

Fig. 2 – Representação gráfica do ângulo de assimetria do levantamento (A)

77
FOI ESTABELECIDO QUE:
AM = 1 – (0,0032A)
O comitê estabeleceu em 30% a diminuição para levantamen-
tos que impliquem torções no tronco de 90 o. Se o ângulo de torção
for superior a 135o, tomaremos AM = 0.
Podemos encontrar levantamentos assimétricos em várias situações
de trabalho:
• quando existe um ângulo entre a origem e o destino do
levantamento;
• quando se utiliza o corpo como trajeto do levantamento,
como ocorre ao se levantarem sacos ou caixas;
• em espaços reduzidos ou solos instáveis;
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• quando, por motivos de produtividade, se força a redução


do tempo de levantamento.

FATOR DE FREQÜÊNCIA, FM (FREQUENCY MULTIPLIER)


Este fator é definido pelo número de levantamentos por minu-
to, pela duração da tarefa de levantamento e pela altura dos mes-
mos.
A tabela de freqüência foi elaborada baseando-se em dois gru-
pos de dados. Os levantamentos com freqüências superiores a quatro
levantamentos por minuto foram estudados segundo um critério
psicofísico; os casos de freqüências inferiores foram determinados
por meio das equações de gasto energético (ver Tabela 2). O núme-
ro médio de levantamentos por minuto deve ser calculado em um
período de 15 minutos e naqueles trabalhos em que a freqüência de
levantamento varia de uma tarefa a outra, ou de uma sessão a outra,
deve ser estudado cada caso independentemente.

78
TABELA 2. CÁLCULO DO FATOR FREQÜÊNCIA (FM)
DURAÇÃO DO TRABALHO
FREQÜÊ NCIA
≤1 hora >1- 2 horas >2 - 8 horas
Elevações/min
V < 75 V≥75 V < 75 V≥75 V < 75 V≥75
≤0,2 1,00 1,00 0,95 0,95 0,85 0,85
0,5 0,97 0,97 0,92 0,92 0,81 0,81
1 0,94 0,94 0,88 0,88 0,75 0,75
2 0,91 0,91 0,84 0,84 0,65 0,65
3 0,88 0,88 0,79 0,79 0,55 0,55

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4 0,84 0,84 0,72 0,72 0,45 0,45
5 0,80 0,80 0,60 0,60 0,35 0,35
6 0,75 0,75 0,50 0,50 0,27 0,27
7 0,70 0,70 0,42 0,42 0,22 0,22
8 0,60 0,60 0,35 0,35 0,18 0,18
9 0,52 0,52 0,30 0,30 0,00 0,15
10 0,45 0,45 0,26 0,26 0,00 0,13
11 0,41 0,41 0,00 0,23 0,00 0,00
12 0,37 0,37 0,00 0,21 0,00 0,00
13 0,00 0,34 0,00 0,00 0,00 0,00
14 0,00 0,31 0,00 0,00 0,00 0,00
15 0,00 0,28 0,00 0,00 0,00 0,00
> 15 0,00 0,00 0,00 0,00 0,00 0,00
Os valores de V estão em cm. Para freqüências inferiores a 5 minutos, utilizar F = 0,2
elevação por minuto.

Quanto à duração da tarefa, considera-se de curta duração quando


se tratar de uma hora ou menos de trabalho (seguida de um tempo de
recuperação de 1,2 vezes o tempo de trabalho), de duração modera-
da quando é de uma a duas horas (seguida de um tempo de recupera-
ção de 0,3 vezes o tempo de trabalho), e de grande duração quando é
de mais de duas horas.
Se, por exemplo, uma tarefa dura 45 minutos, deveria estar se-
guida de um período de recuperação de 45 * 1,2 = 54 minutos. Se

79
não for assim, será considerada de duração moderada. Se outra tarefa
dura 90 minutos, se não for assim, será considerada de grande dura-
ção.

FATOR DE PEGA, CM (COUPLING MULTIPLIER)


É obtido segundo a facilidade da pega e a altura vertical de
manipulação da carga. Estudos psicofísicos demonstraram que a ca-
pacidade de levantamento seria diminuída por uma má pega da car-
ga e que isso implicava a redução do peso entre 7% a 11% (ver
Tabelas 3 e 4).
TABELA 3. CLASSIFICAÇÃO DA PEGA DE UMA CARGA

MÁ REGULAR BOA
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1. Recipientes de desenho 1. Recipientes de 1. Recipientes de


ótimo nos quais as desenho ótimo com desenho subótimo,
alças ou apoios alças ou apoios objetos irregulares
perfurados no perfurados no ou peças soltas que
recipiente tenham sido recipiente de desenho sejam volumosas,
desenhados otimizando subótimo (ver difíceis de sustentar
a pega (ver definições definições 1, 2, 3 e 4). ou com bordas
1, 2 e 3). afiladas (ver
definição 5).
2. Objetos irregulares ou 2. Recipientes de 2. Recipientes
peças soltas quando se desenho ótimo sem deformáveis.
podem empunhar alças nem apoios
confortavelmente; isto perfurados no
é, quando a mão pode recipiente, objetos
envolver facilmente o irregulares ou peças
objeto (ver definição 6). soltas nos quais a pega
permite uma flexão de
90o. na palma da mão
(ver definição 4).

TABELA 4. DETERMINAÇÃO DO FATOR DE PEGA (CM)


FATOR DE PEGA (CM)
TIPO DE PEGA
V < 75 V≥75
B oa 1.00 1.00
Regular 0.95 1.00
Má 0.90 0.90

80
DEFINIÇÕES:
1. Alça de desenho ótimo: é aquela de longitude maior que
11,5cm, de diâmetro entre 2 e 4cm, com um espaço de
5cm para colocar a mão, de forma cilíndrica e de superfí-
cie suave, porém não-escorregadia.
2. Apoio perfurado de desenho ótimo: é aquele de longitude
maior que 11,5cm, largura maior que 4cm, espaço superior
a 5cm, com uma espessura maior que 0,6cm na zona de
pega e de superfície não-rugosa.
3. Recipiente de desenho ótimo: é aquele cuja longitude frontal
não supera os 40cm, sua altura não é superior a 30cm e é

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macio e não-escorregadio ao tato.
4. A pega da carga deve ser tal que a palma da mão fique
flexionada em 90o, no caso de uma caixa deve ser possí-
vel colocar os dedos na base da mesma.
5. Recipiente de desenho subótimo: é aquele cujas dimen-
sões não se ajustam às descritas no ponto 3, ou sua super-
fície é rugosa ou escorregadia, seu centro de gravidade é
assimétrico, possui bordas afiladas, seu manejo implica o
uso de luvas ou seu conteúdo é instável.
6. Peça solta de fácil pega: é aquela que permite ser como-
damente abarcada com a mão sem provocar desvios do
punho e sem precisar de uma força de pega excessiva.

IDENTIFICAÇÃO DO RISCO PELO DO ÍNDICE DE LEVANTAMENTO

A equação NIOSH é baseada no conceito de que o risco de


lombalgia aumenta com a demanda de levantamentos da tarefa.
O índice de levantamento que se propõe é o quociente entre o
peso da carga levantada e o peso da carga recomendada segundo a
equação NIOSH.
A função risco não está definida, razão pela qual não é possí-
vel quantificar de maneira precisa o grau de risco associado aos
incrementos do índice de levantamento. No entanto, podem ser con-
sideradas três zonas de risco segundo os valores do índice de levan-
tamento obtidos para a tarefa:

81
1. Risco limitado (índice de levantamento < 1). A maioria dos
trabalhadores que realizam este tipo de tarefa não deveria
ter problemas.
2. Aumento moderado do risco (1 < índice de levantamento
<3). Alguns trabalhadores podem adoecer ou sofrer lesões
se realizam essas tarefas. As tarefas desse tipo devem ser
redesenhadas ou atribuídas apenas a trabalhadores selecio-
nados que serão submetidos a controle.
3. Aumento elevado de risco (índice de levantamento > 3).
Este tipo de tarefa é inaceitável do ponto de vista ergonômico
e deve ser modificada.

PRINCIPAIS LIMITAÇÕES DA EQUAÇÃO


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A equação NIOSH foi concebida para avaliar o risco associa-


do ao levantamento de cargas em determinadas condições, por isso
torna-se importante mencionar suas limitações para que não se faça
mau uso da mesma:
• não leva em conta o risco potencial associado aos efeitos
cumulativos dos levantamentos repetitivos;
• não considera eventos imprevistos como deslizamentos,
quedas nem sobrecargas inesperadas;
• também não foi concebida para avaliar tarefas nas quais se
levanta a carga com apenas uma mão, sentado ou agacha-
do ou quando se trate de carregar pessoas, objetos frios,
quentes ou sujos, nem nas tarefas nas quais o levantamento
se faça de forma rápida e brusca;
• pressupõe um atrito razoável entre o calçado e o solo ( > 0,4);
• se a temperatura ou a umidade estiverem fora da faixa –
(19oC, 26oC) e (35%, 50%) respectivamente, seria neces-
sário acrescentar ao estudo avaliações do metabolismo para
que fosse acrescentado o efeito de tais variáveis ao consu-
mo energético e na freqüência cardíaca;
• torna-se impossível aplicar a equação quando a carga le-
vantada seja instável, situação em que a localização do
centro de massas varia significativamente durante o le-
vantamento. Este é o caso dos recipientes que contêm lí-
quidos ou dos sacos semivazios.

82
CÁLCULO DO ÍNDICE COMPOSTO PARA TAREFAS MÚLTIPLAS
Quando o trabalhador realiza várias tarefas nas quais ocorrem
levantamentos de cargas, torna-se necessário o cálculo de um índice
composto de levantamento para estimar o risco associado a seu tra-
balho.
Uma simples média dos distintos índices daria lugar a uma
compensação de efeitos que não estimaria o risco real. A seleção do
maior índice não levaria em conta o aumento do risco acarretado
pelas outras tarefas.
O NIOSH recomenda o cálculo de um índice de levantamen-

MANUAL DE APLICAÇÃO DA NORMA REGULAMENTADORA Nº 17


to composto (ILC), cuja fórmula é a seguinte:
n n

ΣILC = ILT + Σ∆ILT


1=2
1
1=2
i

Σ∆ILT = (ILT (F
1=2
i 2 1
+F2 ) - ILT2(F1)) + (ILT3(F1 +F2 +F3 ) - ILT3(F1 +F2 )) +...+

(ILTn(F1 +F2 +F3 +...+Fn )- (ILTn(F1 +F2 +F3 +...+F(n-1) ))


onde:
• ILT1 é o maior índice de levantamento obtido entre todas
as tarefas simples;
• ILTi (Fi) é o índice de levantamento da tarefa i, calculado
na freqüência da tarefa j;
• ILTi (Fi + Fk) é o índice de levantamento da tarefa i, calculado
na freqüência da tarefa j, mais a freqüência da tarefa k.

O PROCESSO DE CÁLCULO É O SEGUINTE


1. Cálculo dos índices de levantamento das tarefas simples
(ILTi).
2. Ordenamento do maior ao menor dos índices simples (ILT1,
ILT2, ILT3 ..., ILTn).
3. Cálculo do acumulado de aumentos de riscos associados
às diferentes tarefas simples.

83
Este incremento é a diferença entre o risco da tarefa simples na
freqüência de todas as tarefas simples consideradas até o momento
incluída a atual, e o risco da tarefa simples na freqüência de todas as
tarefas consideradas até o momento, menos a atual (ILTi(F1+F2+F3 +...+Fi)-
ILTi(F1+F2+F3+...+F(i-1)).

EXEMPLO
Um trabalhador tem como atividade habitual, durante a maior
parte de sua jornada de trabalho, a descarga de sacos e caixas que
chegam em seu posto de trabalho em paletes os quais devem ser co-
locados em uma cinta transportadora de 75cm de altura (V). Os sacos
são de dois tipos, alguns pesam 20kg e podem ser considerados como
tendo boa pega e os outros pesam 25kg e sua pega é considerada má.
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O ritmo de produção e as necessidades de matéria-prima exigem que


se descarreguem em freqüências diferentes. Os sacos de 20kg a 1 por
minuto (F1), os de 25kg a 2 por minuto (F2) e as caixas também a 2
levantamentos por minuto (F3).
A altura inicial do palete é de 80cm e, evidentemente, vai di-
minuindo à medida que se realiza a descarga. Deparamos, portanto,
com dois casos extremos: quando o palete está cheio – e o trabalhador
deve elevar os braços – e quando o palete está quase vazio – e deve
agachar-se. Esse exemplo centralizar-se-á no início da descarga, quando
ambos os paletes estão cheios, ocasião em que a distância de des-
carga até a correia transportadora é de 80 – 75 = 5cm (D).
Chamaremos de tarefa 1 à descarga de sacos de 20kg, de tarefa 2
à descarga de sacos de 25kg e tarefa 3 à descarga de caixas. As três
tarefas são consideradas de duração moderada. A distância horizontal
de pega (H) é de 25cm na tarefa 1 e de 30cm nas tarefas 2 e 3.
Quanto à assimetria do movimento, observa-se que o trabalha-
dor realiza uma torção de 45o (A) quando descarrega as caixas, e não
se observa torção na manipulação de sacos.
As Tabelas 5 e 6 contêm as variáveis e o cálculo dos coeficientes,
os limites de peso recomendados e os índices de risco das tarefas consi-
deradas independentemente.

84
TABELA 5. VARIÁVEIS DE EXEMPLO DO ÍNDICE COMPOSTO

VARIÁVEL Tarefa 1 Tarefa 2 Tarefa 3


carga (kg) 20 25 15
H (cm) 25 30 30
V (cm) 75 75 75
D (cm) 5 5 5
A (graus) 0 0 45
F (levantamentos/min) 1 2 2
P ega boa má boa

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TABELA 6. CÁLCULO DE COEFICIENTES DO EXEMPLO DE ÍNDICE COMPOSTO

COEFICIENTE Tarefa 1 Tarefa 2 Tarefa 3


HM = 5/H 1 0.83 0.83
VM = (1-0,003 IV-75I) 1 1 1
DM = 0.82+4.5/D 1 1 1
AM = 1-0.0032A 1 1 0,856
FM (ver Tabela 2) 0,88 0,84 0,84
CM (ver Tabela 4) 1 0.9 1
LPR = 23•HM•VM•DM•AM•FM•CM 20,24 14,43 13,7
IL = carga/LPR 0,988 1,73 1,1

Se se quiser calcular o risco total associado à atividade com-


pleta deste trabalhador, deve-se calcular o índice de levantamento
composto. Calculados os índices de levantamento das tarefas sim-
ples, eles devem ser ordenados do maior ao menor índice. Nesse
caso, a ordem é:
Tarefa 2 (ILT2 = 1,73),
Tarefa 3 (ILT3 = 1,1) e
Tarefa 1 (ILT1 = 0,988).

A FÓRMULA TOMA A SEGUINTE FORMA:


ILC = ILT2(F2)+(ILT3(F2+F3)-ILT3(F2))+(ILT1(F2+F3+F1)-ILT1(F2+F3))

85
sendo ILT3(F2+F3) o índice de levantamento da tarefa 3 calculado
na freqüência soma da freqüência da tarefa 2 e a tarefa 3 e assim suces-
sivamente, obtendo-se os seguintes valores:
FM(F2 +F3 ) = FM(2+2) = FM(4) = 0,72
LPR(T3) = 23 HM VM DM AM FM CM = 11,74
ILT3(F2+F3) = carga/LPR(T3) =1,3
FM(F2) = FM(2) = 0,84
LPR(T3) = 23 HM VM DM AM FM CM = 13,7
ILT3(F2 ) = carga/LPR(T3) = 1,1
FM(F2+F3+F1) = FM(2+2+1) = FM(5) = 0,6
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LPR(T1) = 23 HM VM DM AM FM CM = 13,8
ILT1(F2 +F3 +F1) = carga/LPR(T1) = 1,45
FM(F2+F3) = FM(2+2) = FM(4) = 0,72
LPR(T1 ) = 23 HM VM DM AM FM CM = 16,56
ILT1 (F2 +F3) = carga/LPR(T1) = 1,2
ILC = 1,73 + (1,31,1) + (1,451,2) = 2,17
Conclui-se, portanto, que o índice de levantamento associado
à atividade composta das três tarefas é 2,17, o que implica um risco
importante do ponto de vista ergonômico. As condições de levanta-
mento deveriam ser modificadas. Nesse caso, poder-se-ia recomen-
dar:
• colocar a carga mais próxima ao corpo nos levantamentos
dos sacos de 25kg e das caixas;
• evitar a torção no levantamento das caixas;
• melhorar a pega dos sacos de 25kg;
• e, evidentemente – ainda que de difícil implantação na mai-
oria das situações, uma vez que implica uma diminuição do
ritmo de produção – reduzir a freqüência de levantamentos.

86
CONCLUSÕES
O levantamento de cargas é uma das causas de lombalgia e
outras patologias musculoesqueléticas freqüentes no mundo do tra-
balho atualmente e necessita intervenção urgente.
Apesar de suas limitações, pode-se considerar a equação NIOSH
para o levantamento de cargas como uma ferramenta útil e sensível
que constitui um esforço a mais para prevenir as alterações na saúde
provocadas pela manipulação de carga.
O caráter multiplicativo da equação permite ver como a situação
estudada se afasta da situação ideal de levantamento e saber quais

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fatores são mais influentes nesse desvio, o que possibilita atuar sobre
eles em um redesenho do posto.
A equação não assume a existência de outras atividades de
manipulação de carga, à parte os levantamentos, tais como empurrar,
arrastar, carregar, caminhar, subir ou abaixar.
Para a equação do NIOSH, considera-se toda atividade de gasto
energético insignificante frente ao levantamento. Será necessária uma
avaliação adicional quando a carga é transportada por mais de dois
ou três passos ou quando é sustentada por mais de alguns segundos.
Quanto às posturas forçadas e estáticas, as vibrações, a
temperatura, a umidade, etc. são outros tantos fatores influentes
no aparecimento de doenças e que deverão ser avaliados com
outros métodos disponíveis e complementar, assim, a avaliação
do posto de trabalho.

87
NOTA TÉCNICA 060/2001

ASSUNTO: Ergonomia – indicação de postura a ser ado-


tada na concepção de postos de trabalho.
A presente Nota Técnica tem por objetivo a orientação de em-
pregados, empregadores, auditores-fiscais do trabalho, profissionais
ligados à área e outros interessados na indicação da melhor postura

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a ser adotada na concepção dos postos de trabalho.

1. A POSTURA DE TRABALHO
A postura mais adequada ao trabalhador é aquela que ele es-
colhe livremente e que pode ser variada ao longo do tempo. A con-
cepção dos postos de trabalho ou da tarefa deve favorecer a varia-
ção de postura, principalmente a alternância entre a postura senta-
da e em pé.
O tempo de manutenção de uma postura deve ser o mais bre-
ve possível, pois seus efeitos nocivos ou não serão função do tempo
durante o qual ela será mantida. Segundo Mairiaux (1992) a apreciação
do tempo de manutenção de uma postura deve levar em conta, por
um lado, o tempo unitário de manutenção (sem possibilidades de
modificações posturais) e, por outro, o tempo total de manutenção
registrado durante a jornada de trabalho.
Todo esforço de manutenção postural leva a uma tensão muscular
estática (isométrica) que pode ser nociva à saúde.
Os efeitos fisiológicos dos esforços estáticos estão ligados à
compressão dos vasos sangüíneos. O sangue deixa de fluir e o mús-
culo não recebe oxigênio nem nutrientes, os resíduos metabólicos
não são retirados, acumulando-se e provocando dor e fadiga mus-
cular. Manutenções estáticas prolongadas podem também induzir ao
desgaste das articulações, discos intervertebrais e tendões.
A postura de trabalho adotada é função da atividade desen-
volvida, das exigências da tarefa (visuais, emprego de forças, pre-

89
cisão dos movimentos, etc.), dos espaços de trabalho, da ligação
do trabalhador com máquinas e equipamentos de trabalho como,
por exemplo, o acionamento de comandos. As amplitudes de mo-
vimentos dos segmentos corporais como os braços e a cabeça,
assim como as exigências da tarefa em termos visuais, de peso ou
esforços, influenciam na posição do tronco e no esforço postural,
tanto no trabalho sentado como no trabalho em pé.
Citamos, a seguir, alguns exemplos da influência sobre a
postura sentada ou em pé, devido aos movimentos dos segmen-
tos corporais:
Estudos de Nachemson e Elfstrom (1970) demonstraram que
inclinações do tronco para frente ou torções do tronco por causa
das exigências da tarefa (visuais ou de movimentos) levam a um
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aumento de mais de 30% na pressão sobre o disco intervertebral.


Segundo estudos de Andersson e col. (1974), quando motoris-
tas mudam de marcha, são observadas pressões intradiscais mais ele-
vadas, devido aos movimentos dos joelhos e da perna quando do uso
da embreagem, tendo como conseqüência uma flexão lombar e, ain-
da, uma flexão adicional do tronco com o movimento do braço.
Outros estudos (Oliver e Middledith, 1998, apud Schuldt e
col. ,1986) demonstram que existe um aumento dos níveis de ativi-
dade da coluna torácica superior e dos extensores da coluna verte-
bral como resultado, por exemplo, da abdução do braço, quando se
trabalha sobre uma mesa muita alta.

A POSTURA EM PÉ
De maneira geral, na concepção dos postos de trabalho não
se leva em consideração o conforto do trabalhador na escolha da
postura de trabalho, mas sim as necessidades da produção.
A escolha da postura em pé, muitas vezes, tem sido justificada
por considerar que, nessa posição, as curvaturas da coluna estejam
em alinhamento correto e que, dessa forma, as pressões sobre o disco
intervertebral são menores que na posição sentada. Segundo vários
autores (Oliver e Middledith, 1998, apud Adams e Hutton, 1980), os
músculos que sustentam o tronco contra a força gravitacional, embo-
ra vigorosos, não são muito adequados para manter a postura em pé.

90
Eles são mais eficazes na produção dos movimentos necessári-
os às principais mudanças de postura. Por mais econômica que
possa ser em termos de energia muscular, a posição em pé ideal
não é usualmente mantida por longos períodos, pois as pessoas
tendem a utilizar alternadamente a perna direita e esquerda como
apoio, para provavelmente facilitar a circulação sangüínea ou
reduzir as compressões sobre as articulações.
A manutenção da postura em pé imóvel tem ainda as seguintes
desvantagens:
• tendência à acumulação do sangue nas pernas, o que predispõe
o aparecimento de insuficiência valvular venosa nos membros infe-

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riores, resultando em varizes e sensação de peso nas pernas;
• sensações dolorosas nas superfícies de contato articulares
que suportam o peso do corpo (pés, joelhos, quadris);
• a tensão muscular permanentemente desenvolvida para manter
o equilíbrio dificulta a execução de tarefas de precisão;
• a penosidade da posição em pé pode ser reforçada se o traba-
lhador tiver ainda de manter posturas inadequadas dos braços (acima
do ombro, por exemplo), inclinação ou torção de tronco, etc.;
• a tensão muscular desenvolvida em permanência para ma-
nutenção do equilíbrio traz mais dificuldades para a execução de
trabalhos de precisão.
A escolha da postura em pé só está justificada nas seguintes
condições:
• a tarefa exige deslocamentos contínuos como no caso de
carteiros e pessoas que fazem rondas;
• a tarefa exige manipulação de cargas com peso igual ou su-
perior a 4,5 kg;
• a tarefa exige alcances amplos freqüentes, para cima, para
frente ou para baixo; no entanto, deve-se tentar reduzir a amplitude
desses alcances para que se possa trabalhar sentado;
• a tarefa exige operações freqüentes em vários locais de tra-
balho, fisicamente separados;
• a tarefa exige a aplicação de forças para baixo, como em

91
empacotamento.
Fora dessas situações, não se deve aceitar, em hipótese alguma,
o trabalho contínuo em pé. Muitos profissionais, no afã de resolver as
dificuldades dos empregadores, têm emitido opiniões favoráveis ao tra-
balho em pé apenas para evitar que o plano de trabalho seja adaptado,
o que acarretaria um certo custo monetário. Ora, os custos dessas pe-
quenas adaptações são mínimos se comparados à fadiga e à penosidade
das tarefas que vão ser executadas em pé durante todo o dia e por
vários anos. Na maioria das vezes, nem é o gasto econômico que está
na origem da dificuldade. Muitos empregadores têm a falsa impressão
de que o trabalho sentado induz à indolência. Evidentemente, trata-se
de uma falácia.
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A POSIÇÃO SENTADA
O esforço postural (estático) e as solicitações sobre as articula-
ções são mais limitados na postura sentada que na em pé. A postura
sentada permite melhor controle dos movimentos pelo que o esforço
de equilíbrio é reduzido. É, sem sombra de dúvida, a melhor postura
para trabalhos que exijam precisão.
Em determinadas atividades ocupacionais (escritórios, trabalho
com computadores, administrativo, etc.), a tendência é de se perma-
necer sentado por longos períodos.
De maneira geral, os problemas lombares advindos da postura
sentada são justificados pelo fato de a compressão dos discos
intervertebrais ser maior na posição sentada que na posição em pé.
No entanto, tais problemas não são apenas decorrentes das cargas
que atuam sobre a coluna vertebral, mas, principalmente, da manu-
tenção da postura estática. A imobilidade postural constitui um fator
desfavorável para a nutrição do disco intervertebral que é dependente
do movimento e da variação da postura. A incidência de dores lomba-
res é menor quando a posição sentada é alternada com a em pé e me-
nor ainda quando se podem movimentar os demais segmentos corpo-
rais como em pequenos deslocamentos.
A postura de trabalho sentado, se bem concebida (com apoios
e inclinações adequados), pode até apresentar pressões intradiscais
inferiores à posição em pé imóvel, desde que o esforço postural
estático e as solicitações articulares sejam reduzidos ao mínimo.

92
Trabalhar sentado permite maior controle dos movimentos por-
que o esforço para manter o equilíbrio postural é reduzido. As
vantagens da posição sentada são:
• baixa solicitação da musculatura dos membros inferiores,
reduzindo assim a sensação de desconforto e cansaço;
• possibilidade de evitar posições forçadas do corpo;
• menor consumo de energia;
• facilitação da circulação sangüínea pelos membros inferiores.
As desvantagens são:

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• pequena atividade física geral (sedentarismo);
• adoção de posturas desfavoráveis: lordose ou cifoses exces-
sivas;
• estase sangüínea nos membros inferiores, situação agravada
quando há compressão da face posterior das coxas ou da panturrilha
contra a cadeira, se esta estiver malposicionada.

CONFORTO DE TRABALHO NA POSIÇÃO SENTADA E NA POSIÇÃO EM PÉ


O conforto do trabalho sentado ou do trabalho em pé é função:
• do tempo de manutenção da postura (evitar esforços estáticos);
• da adaptação às exigências visuais: a localização das fontes
de informações visuais vai determinar o posicionamento da cabeça
que pode, por sua vez, influenciar a postura do tronco, levando o
trabalhador a adotar posturas inadequadas prolongadas ou repetitivas
da nuca em flexão, extensão e torção extrema ou de inclinação/
torção do tronco. Exemplo comum: colocar monitores de vídeo la-
teralmente e/ou muito baixo ou muito alto;
• dos espaços para pernas e pés: a falta de espaço suficiente
para pernas e pés induz o trabalhador a adotar posturas tais como:
inclinação e torção do tronco, pernas muito flexionadas, aumento
do braço de alavanca;
• da altura do plano de trabalho: a altura do plano de traba-
lho é um elemento importante para o conforto postural. Se o plano
de trabalho é muito alto, o trabalhador deverá elevar os ombros e os

93
braços durante toda a jornada. Se for muito baixo, ele trabalhará com
as costas inclinadas para frente. Essa observação é válida tanto para
trabalho sentado como para o trabalho em pé. O ponto de referência
utilizado para determinar a altura confortável de trabalho é a altura
dos cotovelos em relação ao piso, mas a natureza da tarefa tem de ser
levada em consideração. No planejamento/adaptação do posto de
trabalho sentado, deve-se sempre levar em consideração duas medi-
das principais: a altura da cadeira e a altura do plano de trabalho. Con-
siderando que as dimensões corporais são muito diversas (inter e intra-
individuais), no mínimo, uma dessas alturas tem de ser regulável,
para facilitar a adaptação do posto à maioria dos trabalhadores;
• das características da cadeira: o assento de trabalho ideal deve ser
determinado em função da atividade desenvolvida, das condições ambientais
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de trabalho e principalmente da opinião dos usuários.

A SELEÇÃO DO ASSENTO
O assento deve ser adequado à natureza da tarefa e às dimen-
sões antropométricas da população. Não existe uma cadeira que
seja “ergonômica” independentemente da função exercida pelo tra-
balhador. Basta lembrar que uma cadeira confortável para assistir à
televisão não é adequada para uma secretária que deve se movi-
mentar entre a mesa, um arquivo e um aparelho de telefax. O con-
trário também é verdadeiro.
A altura do assento deve ser definida de forma que os pés
estejam bem apoiados. A partir daí, ajusta-se a altura do assento
em função da superfície de trabalho.
A regulagem inadequada do assento prejudica o conforto
postural. Se o assento é muito alto, o apoio dos membros inferiores
sobre o solo é diminuído, e uma parte do peso é suportada pelas
coxas, levando a compressão da parte posterior das mesmas. Para
diminuir essa pressão as pessoas tendem a se sentar na parte ante-
rior da cadeira, exigindo contração estática dos membros inferiores
e das costas. No assento muito baixo, o ângulo coxa-tronco dimi-
nui, induzindo a uma cifose lombar e pressão sobre os órgãos ab-
dominais.
Quando o plano de trabalho e o assento são reguláveis em
altura, a adequação do posto de trabalho é facilitada, o único pro-

94
blema que pode ainda existir é o de espaço para as coxas. Quan-
do a altura do plano de trabalho for fixa, a regulagem do assento
deve satisfazer três critérios:
• o conforto dos membros inferiores: os pés devem estar
bem apoiados sobre o solo e não deve haver compressão das co-
xas. Para adequar o posto de trabalho a todos, deve ser disponibilizado
suporte para os pés para os que têm estatura menor. O suporte não
deve ser uma barra fixa, mas sim uma superfície inclinada (ângulo
de inclinação no máximo de 20o) que apóie uma grande parte da
região plantar e com material antiderrapante, podendo necessitar
ainda de regulagem em altura para melhor adaptação ao compri-

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mento das pernas dos trabalhadores;
• o conforto dos membros superiores: ângulos de conforto
do braço e do antebraço.
Obs.: Os ângulos de conforto (para todos os segmentos cor-
porais) não são os de limite máximo de mobilidade articular, mas
limites de conforto, determinados em função de três critérios: opi-
nião subjetiva dos trabalhadores, análise de dados médicos e me-
didas com eletromiografia.
Estudos com eletromiografia demonstram que quando as mãos
se situam em um nível superior ao dos cotovelos, a atividade mus-
cular é maior no antebraço e ombros que quando as mãos estão um
pouco abaixo dos cotovelos, porque as pessoas tendem a elevar la-
teralmente os cotovelos ou os ombros (esforço estático);
• O conforto visual: função da distância olho-plano de traba-
lho, das características da atividade e da acuidade visual do traba-
lhador.

CARACTERÍSTICAS DOS ASSENTOS


A profundidade do assento não pode ser muito reduzida nem
muito grande.
Deve ser de um tamanho tal que o maior percentil (pessoas mais
altas) mantenha seu centro de gravidade sobre o assento. O maior percentil
precisa, então, ter profundidade de assento, no mínimo, igual à profun-
didade do tórax mais 2,5cm para evitar uma base que não lhe dê
firmeza. Na literatura, encontramos medidas que vão de 38 a 45cm

95
para a largura e de 38 a 43cm para a profundidade. No entanto, o assen-
to não pode ser muito profundo para que o menor percentil (pessoas
pequenas) tenha mobilidade na área popliteal.
A conformação do assento deve também permitir alterações de
postura, aliviando, assim, as pressões sobre os discos intervertebrais
e as tensões sobre os músculos dorsais de sustentação. Portanto, as-
sentos “anatômicos”, em que as nádegas se encaixam neles, não são
recomendados, pois permitem poucos movimentos.
A densidade do assento também é importante para suportar as
tuberosidades isquiáticas (densidade mínima recomendável de 50kg/
cm3). É importante que o encosto forneça um bom suporte lombar e
seja regulável em inclinação e altura para favorecer a adaptação da
maioria das pessoas.
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CONCLUSÃO
Qualquer postura desde que mantida de maneira prolongada
é maltolerada. A alternância de posturas deve ser sempre privilegia-
da, pois permite que os músculos recebam seus nutrientes e não
fiquem fatigados.
A alternância da postura deve sempre ficar à livre escolha do
trabalhador. Ele é quem vai saber, diante da exigência momentânea da
tarefa, se é melhor a posição sentada ou em pé. Uma tarefa tem exi-
gências variadas, por isso nunca se pode afirmar de antemão qual é a
melhor postura baseando-se apenas em critérios biomecânicos. Por
exemplo, um caixa de supermercado prefere ficar sentado quando
manipula mercadorias leves, quando faz um troco ou quando confere
cheques. Mas prefere se levantar quando lida com mercadoria pesada
ou frágil, assim como quando percebe um cliente potencialmente agres-
sivo. Permanecendo em pé, os olhos de ambos situam-se na mesma
altura, diminuindo a sensação subjetiva de inferioridade. Logo,
não são os fisiologistas que têm a palavra final sobre o conforto.
A postura de trabalho adotada é função da atividade desenvol-
vida, das exigências da tarefa (visuais, emprego de forças, precisão
dos movimentos etc.), dos espaços de trabalho, da ligação do tra-
balhador com máquinas e equipamentos de trabalho como, por exem-
plo, o acionamento de comandos.

96
Um posto de trabalho, mesmo quando bem projetado do
ponto de vista antropométrico, pode se revelar desconfortável
se os fatores organizacionais, ambientais e sociais não forem
levados em consideração.
A opinião dos trabalhadores, antes da compra de mobiliário,
tem mostrado um bom resultado em nossa prática de trabalho. Algu-
mas empresas colocam algumas opções para teste e decidem por aqueles
que tiveram melhor aceitação. Pode-se notar que, quando o usuário
tem influência na escolha, os fabricantes dos equipamentos investem
mais em pesquisas para aperfeiçoá-los. Citamos, como exemplo, as
cadeiras de odontólogos e os veículos automotores.

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97
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