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http://jn.sapo.pt/2008/04/02/opiniao/avaliar_a_fingir.html
Avaliar a fingir?

António Mendes, Professor

Todos sabemos que não há qualidade sem avaliação,


mas nem todos percebemos como é difícil controlar
interesses e critérios nem que tempo é preciso para
definir objectivos, para desenvolver e testar meios de
avaliação rigorosos.

Os professores e educadores são avaliadores


experimentados, sensíveis às características de uma
avaliação séria tempo, instrumentos seguros,
avaliadores qualificados, imparcialidade.

Ora, essa experiência diz-lhes que a avaliação


proposta pelo Ministério da Educação não oferece
nenhuma destas garantias e que, portanto, deveria ser
suspensa e substituída.

O seu calendário trapalhão diz tudo sobre a ignorância


do tempo definir objectivos individuais agora, a pouco
mais de um mês do final do ano avaliado? Vale tudo
para salvar uma meta política?

Em segundo lugar, o Ministério propôs instrumentos


nunca testados ou afinados e, ao usar a autonomia
das escolas como escudo humano para este erro
crasso, gerou uma anomalia ainda maior enorme
diversidade e disparidade de instrumentos. Afinal de
contas, quer uma avaliação ou quer muitas avaliações
diferentes? E o mérito que quer avaliar será assim tão
díspar?

A qualificação dos avaliadores também é a fingir só


mais anos de serviço e mais cargos chegarão para
avaliar bem quem possua maior qualificação científica,
melhor formação pedagógica e didáctica ou maior
experiência de tecnologias educativas que o
avaliador?

O grande fingimento é, porém, o da imparcialidade. O


n.º 4.º do artigo 22.º e o artigo 38.º do Decreto
Regulamentar 2/2008 são claros o avaliador deve, sob
pena de cessar funções e de procedimento disciplinar,
ajustar a avaliação que fizer dos colegas aos valores
que a Comissão de Coordenação da Avaliação da
Escola considerar conformes à percentagem máxima
ditada pelo divino olhar da tutela.

Veja-se o absurdo. Em Braga, por exemplo, há uma


escola cujos alunos e professores obtiveram, no
exame nacional de Matemática, mais notas entre os
18 e os 20 valores que o total de examinandos das
melhores escolas privadas.

Pode ser imparcial a avaliação dos seus vários


professores se a lei ordena à Comissão que force o
avaliador a inventar falhas no desempenho deles
para, em coro com o Ministério, proclamar que só um
é muito bom ou excelente?

Bem lidos os factos, esta avaliação é mais que um


mau acto de engenharia social, é um perverso
exercício de darwinismo social prefere a magia do
poder ao benefício da razão, desumaniza
coercivamente a imparcialidade, reabre ao serviço
público o caminho antigo e perverso do antes matar

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que ser morto, selecciona artificialmente a retaguarda


vantajosa das elites.

Sedentos, os acólitos das figuras de autoridade


aplaudem com prazer não é a conflitualidade o seu
território natural? Os espíritos autónomos, esses estão
de luto: há pelo menos quatro graves razões para
gritar na rua e na escola que esta não é só uma
avaliação de faz-de-conta, é uma avaliação perversa
que não serve as pessoas, serve-se delas.

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