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PODER JUDICIÁRIO

JUSTIÇA FEDERAL DE PRIMEIRA INSTÂNCIA


SEÇÃO JUDICIÁRIA DA PARAÍBA
SEGUNDA VARA FEDERAL

Processo: 2003.82.00.000694-3
Natureza: Ação penal pública
Autor: MPF
Réu: Edmilson Marcondes dos Santos

S E N T E N Ç A1

DIREITO PENAL. CRIMES CONTRA A ORDEM TRIBUTÁRIA (LEI N. 8137/90, ART.


1º, INCISOS I E II). SUPRESSÃO OU REDUÇÃO DE TRIBUTO. OMISSÃO DE
INFORMAÇÕES E PRESTAÇÃO DE DECLARAÇÕES E DADOS FALSOS OU
INEXATOS À AUTORIDADE FAZENDÁRIA. CONTABILIZAÇÃO DE CUSTOS E
PREJUÍZOS FISCAIS INEXISTENTES. INDEVIDA REDUÇÃO DO LUCRO REAL.
ALEGAÇÃO DE ISENÇÃO DE IMPOSTO DE RENDA. CONTRIBUIÇÕES SOCIAIS
DEVIDAS. PROCEDÊNCIA.
I – A supressão ou redução de tributos através da contabilização de custos
inexistentes e prejuízos fiscais fictícios para redução do lucro real durante três
exercícios seguidos configura o crime previsto no art. 1º, I e II, da Lei n. 8137/90, com
a majoração do CP, art. 71 (continuidade delitiva).
II – O fato de a empresa – durante parte do tempo – ser isenta do imposto sobre a
renda obtida com a exploração da atividade de irrigação em área de atuação da
SUDENE não afasta a situação de contribuinte do imposto sobre rendas não
abrangidas pela isenção, nem tampouco se aplica tal isenção às contribuições socais.
III – A indevida redução do lucro real no Livro de Apuração do Lucro Real (LALUR) –
seja mediante a escrituração de custos inexistentes por serviços não prestados, seja
pela contabilização de prejuízos fiscais para a produção de efeitos tributários em
exercícios seguintes – afeta o valor devido pela incidência das contribuições sociais
de que a empresa era contribuinte, configurando crime contra a ordem tributária.
IV – Procedência do pedido com a condenação do réu.

RELATÓRIO

Trata-se de AÇÃO PENAL PÚBLICA promovida pelo MINISTÉRIO PÚBLICO


FEDERAL contra EDMILSON MARCONDES DOS SANTOS, já devidamente qualificado nos
autos, dando-o a peça denunciativa como incurso no art. 1º, I e II, da Lei n. 8137/90 (crime
contra a ordem tributária).

1
Sentença tipo D, cf. Res. CJF n. 535/2006.
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Narra a denúncia (f. 03-5) que o réu, na condição de representante legal da


EMPRESA PARAIBANA DE IRRIGAÇÃO LTDA., teria praticado as seguintes
irregularidades (cf. denúncia, f. 04):

1) Reduziu o lucro real ou aumentou o prejuízo fiscal, através de exclusões de valores


ao lucro líquido, nos meses de outubro e novembro de 1995, janeiro, julho, setembro,
dezembro de 1996 e nos trimestres encerrados em março, junho, setembro e
dezembro;

2) Não recolheu o imposto de renda sobre o lucro apurado no LALUR – Livro de


Apuração do Lucro Real – nem a contribuição social sobre o lucro líquido referentes
aos trimestres encerrados em 31/04, 30/06 e 30/09 de 1998, reduziu a base de
cálculo da contribuição social, nos meses de outubro de 1995, janeiro, julho,
setembro e dezembro de 1996, março, setembro e dezembro de 1997, através da
exclusão de valores ao lucro líquido;

3) O LALUR apresentado não identifica os valores das exclusões.

Afirma ainda a denúncia que a materialidade dessas infrações estaria


consubstanciada na representação para fins penais apresentada, fazendo referência à
existência de débito consolidado da empresa em R$ 6.499.920,95 (seis milhões
quatrocentos e noventa e nove mil novecentos e vinte reais e noventa e cinco centavos). A
empresa foi incluída no REFIS e posteriormente excluída por inadimplência.

O MPF requereu a oitiva de três testemunhas.

Informação da Procuradoria da Fazenda Nacional na Paraíba no sentido de


que os débitos da empresa a que faz referência a denúncia se encontrariam, naquele órgão,
em situação ATIVA AJUIZADA (f. 23).

Denúncia recebida em 17/01/2008 (f. 28).

Interrogatório (f. 72-5) e defesa prévia (f. 77-9) do réu. Com a defesa,
apresentou documentos (f. 81-124).

Oitiva das testemunhas Valquíria Paiva Montenegro (f. 139-45), Ebenezer


Marcos dos Santos (f. 176-7), Marluce Marinho de Melo Vieira (f. 199-202), Antônio José de
Farias (f. 210-3), José Martins da Costa (f. 224-7).

Em diligências, disse o MPF nada ter a requerer (f. 229). A defesa deixou
transcorrer em branco o prazo a si concedido (f. 232).

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Em alegações finais:

1) O MPF (f. 235-41) requereu que fosse oficiado à Receita Federal a fim de
que fosse informado se os débitos da EMPRESA PARAIBANA DE IRRIGAÇÃO estariam
incluídos em programa de parcelamento e, em caso positivo, que fosse suspenso o
processo criminal. Em caso negativo, que fosse o réu condenado nos termos da denúncia.

2) O acusado (f. 245-57) alegou os seguintes pontos: a) a empresa tinha


direito a isenção de imposto de renda, conforme Portaria DAI/PTE n. 0309/89, findando no
ano-base 1996, ano-fiscal 1997, sendo que a denúncia inclui os períodos da isenção; b) a
partir disso, passou a gozar de redução de imposto de renda em 50% (cinqüenta por cento),
conforme Declaração DAI/ITE n. 302/92, até o ano 2001; c) os débitos da empresa ainda
estariam com a exigibilidade suspensa, uma vez que se obteve antecipação de tutela em
ação anulatória contra a decisão administrativa de exclusão do REFIS; d) a fiscalização teria
desconhecido, de forma indevida e arbitrária, as isenções total e parcial de IRPJ a que faria
jus a empresa; e) nega peremptoriamente as condutas fraudulentas a ele atribuídas na
denúncia, dizendo-se inocente. Pede, em caráter sucessivo excludente: i) a suspensão do
processo em razão do parcelamento; ii) sua absolvição em razão da atipicidade da conduta;
iii) a consideração de suas condições judiciais favoráveis.

A Procuradoria da Fazenda Nacional informou (f. 267) que os débitos da


Empresa Paraibana de Irrigação estariam na situação “ATIVA AJUIZADA AGUARD NEG
LEI 11.941, em virtude do beneficio do parcelamento da Lei n. 11941/2009”. Está havendo,
portanto, segundo a PFN, uma negociação para fins de inclusão no programa de
parcelamento previsto na Lei n. 11941/2009. Em vista disso, o MPF reiterou o pedido de
condenação (f. 376-7), registrando que a negociação do parcelamento não tinha o efeito de
suspender a pretensão punitiva.

Autos conclusos.

É breve relatório.

DECIDO.

FUNDAMENTAÇÃO

Preliminarmente, entendo necessário resolver a questão sobre a presença ou


não da empresa em programa de parcelamento tributário com a correlata suspensão da
exigibilidade do crédito tributário, bem como dos respectivos efeitos de natureza penal e
processual penal que tenha tal constatação.

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A defesa do acusado vem alegando que a EPI – EMPRESA PARAIBANA DE


IRRIGAÇÃO se encontra em programa de parcelamento tributário, pleiteando, desse modo,
a suspensão da pretensão punitiva estatal em relação ao réu e do próprio trâmite
processual.

Conforme registrado acima, a PFN informou que os débitos da EPI estariam


na situação “ATIVA AJUIZADA AGUARD NEG LEI 11.941, em virtude do beneficio do
parcelamento da Lei n. 11941/2009”. Segundo a PFN, estaria havendo uma negociação
para fins de possível inclusão no programa de parcelamento previsto na Lei n. 11941/2009.
Em vista disso, o MPF se posicionou contra a suspensão da pretensão punitiva estatal e
reiterou o pedido de condenação do acusado, registrando que a negociação do
parcelamento não teria o efeito de suspender a pretensão punitiva.

De fato, o documento de f. 269 retrata as modificações operadas na situação


dos débitos tributários a que se referem esses autos, constando que 20/02/2003 houve a
suspensão do crédito tributário (possivelmente em razão de inclusão no REFIS) e em
08/07/2005 houve o restabelecimento dessa exigibilidade (exclusão do REFIS), seguida em
17/07/2005 de uma segunda cobrança. Embora consta dessa relação que 06/10/2009
estaria havendo a negociação para inclusão no programa de parcelamento da Lei n.
11941/2009, observo que não há qualquer referência a nova suspensão da exigibilidade do
crédito tributário, de modo que, malgrado à negociação, fora plenamente mantida a
exigibilidade. Esses eventos são similares aos retratados nos documentos de f. 271 e 273.

A suspensão da pretensão punitiva, do trâmite processual e do curso do


prazo prescricional decorre da inclusão da empresa em programa de parcelamento tributário
exatamente em razão da suspensão que opera na exigibilidade do crédito tributário,
emparelhando-se, desse modo, as pretensões de direito penal e de direito tributário em seus
respectivos processos.

Desse modo, uma vez que não houve ainda a inclusão da EPI em programa
de parcelamento de que decorra a suspensão da exigibilidade do crédito tributário, chego à
conclusão que não se aplica a disciplina legal da suspensão da pretensão punitiva estadual,
do trâmite processual e do curso do prazo prescricional.

Dessa forma, indefiro o pedido da defesa para a suspensão do processo.

Passo ao exame do mérito da causa.

Em sua defesa escrita, o acusado alegou que “a empresa representada pelo


acusado era isenta de Imposto de Renda pelo prazo de 10 (dez) anos a teor da Portaria
DAI/PTE n° 0309/89, tendo início no exercício de 1988 e término no ano base de 1996”,

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versando a autuação exercícios compreendidos no período de isenção. Após a isenção


integral, começou a fluir um período de dez anos para isenção de 50% (cinqüenta por
cento). O acusado, em suas alegações finais, parece restringir sua defesa aos fundamentos
relacionados com o imposto de renda.

Examinando os argumentos referentes à alegada isenção tributária e o


alcance de seus efeitos para o processo criminal em tela, observei o seguinte.

A f. 81 consta a DECLARAÇÃO DAI/ITE n. 0302/96, dando conta de


considerar que a EPI satisfaria – precisamente quanto à atividade ali declarada:
“MOTOMEC/CONST RURAIS E DE ESTRADAS/ELETRIF. RUR. NA ÁREA ATUAÇÃO
SUDENE” – as condições para uma redução de 50% (cinqüenta por cento) do IR e
adicionais não restituíveis, devendo cumprir determinadas obrigações acessórias. O término
do prazo está assinalado para o exercício financeiro de 2001.

Já a f. 82, consta a DECLARAÇÃO DAI/ITE n. 0307/96, dando conta, para


fins de prova perante a Receita Federal, de que a EPI teria cumprido, junto à SUDENE,
determinadas exigências para fazer jus aos benefícios relacionados aos dispositivos legais
que aponta (não há discriminação desses benefícios). O documento faz constar no campo
ATIVIDADE OBJETO DO BENEFÍCIO: “IRRIGAÇÃO NA ÁREA RURAL DE ATUAÇÃO DA
SUDENE”.

De acordo com a Portaria DAI/PTE n. 0309/89 (f. 83 e seguintes),


reconheceu-se à EMPRESA PARAIBANA DE IRRIGAÇÃO – EPI direito à isenção do
imposto de renda incidente sobre o lucro da exploração da atividade de “IRRIGAÇÃO NA
ÁREA RURAL DE ATUAÇÃO DA SUDENE”, com término no ano base de 1996, exercício
fiscal de 1997.

Diante disso, constatei que realmente a EMPRESA PARAIBANA DE


IRRIGAÇÃO seria titular de um incentivo fiscal que traduzia isenção de imposto de renda
incidente sobre os lucros da exploração da atividade de irrigação em áreas rurais de
atuação da SUDENE até o ano-base de 1996, a partir de que o incentivo se converteria em
isenção parcial de 50% (cinqüenta por cento) até 2001, mantidas todas as demais
condições. Ficariam de fora da regra isentiva, desse jeito, todos os demais tributos –
inclusive as contribuições socais cuja base de cálculo se remete ao faturamento e o lucro –
e o próprio imposto de renda, desde que a renda fosse auferida fora das condições da
isenção. As obrigações acessórias, como seria óbvio, se manteriam integralmente, até para
que fosse possível demonstrar o enquadramento da situação de fato da empresa ao modelo
previsto na regra de isenção.

Em seu interrogatório, o acusado negou a imputação, negou a veracidade dos


fatos alegados na denúncia, afirmando: que, na fiscalização realizada na empresa em 2000,

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relativamente aos exercícios de 1995 a 1997, os fiscais desconsideraram completamente


sua contabilidade e estimaram o lucro por arbitramento; que embora entendesse como
indevido o auto de infração, fora aconselhado a aceitá-lo para que sua empresa ingressasse
no REFIS; que, posteriormente, a empresa fora excluída do REFIS de forma indevida, sob o
fundamento de estar inadimplente, registrando que ela nunca esteve inadimplente, obtendo,
em razão disso, tutela antecipada na Justiça Federal do DF, pagando as parcelas até o
momento; a EPI seria isenta de imposto de renda, apontando Portaria expedida pela
SUDENE em 1989 que conferia tal prerrogativa às empresas que se instalassem na região
Nordeste; que não houve redução de lucro real, aumento de prejuízo fiscal, não
recolhimento de IR sobre lucro apurado no LALUR; que o que realmente existia era imposto
declarado e não pago, em razão do que a empresa teve que ingressar no REFIS; que
acredita não ter havido defesa administrativa em razão da necessidade de ingressar no
REFIS.

A testemunha VALQUÍRIA PAIVA MONTENEGRO disse, em seu


depoimento: que foi uma das responsáveis pela auditoria realizada na Empresa Paraibana
de Irrigação, recordando-se que foram encontradas irregularidades na contabilidade da
empresa, a exemplo da contabilização de custos inexistentes; que, como de costume,
fiscalizaram os livros fiscais da empresa, sendo que confrontaram os dados registrados no
livro Razão, no livro Diário e no LALUR, recordando-se que havia divergências nas
exclusões do lucro líquido; que teriam sido excluídas do lucro líquido despesas inexistentes;
que, na contabilidade da Empresa Paraibana de Irrigação, constavam custos da empresa
IRRIGANOR, como se essa empresa tivesse prestado serviços àquela; que esses custos
não foram confirmados posteriormente pelo acusado, o qual é sócio nas duas empresas;
que as duas empresas tinham o mesmo contador, tendo esse contador afirmado que aquele
serviço registrado não havia sido prestado pela IRRIGANOR, e que não haviam emitido
notas fiscais; que, em razão das divergências encontradas no livros, houve a
desconsideração da contabilidade, o arbitramento do lucro e a representação pelas notas
fiscais inexistentes; que, esclarecendo, foram apresentadas notas fiscais por serviços não
realizados, não tomados; que constavam do livro Razão custos inexistentes, fato admitido
pelo contador da empresa; que, na época da fiscalização, tinha ciência de que a EPI tinha
uma isenção de IR concedida pela SUDENE que abrangeria exclusivamente o lucro de
exploração na zona rural; que os tributos que sofreram a incidência dos fatos apurados
foram o IR e contribuições sociais; que os custos registrados e não comprovados se
referiam a serviços.

A testemunha EBENEZER MARCOS DOS SANTOS afirmou: que na época


do fato a empresa era isenta de imposto de renda e que ingressaram no REFIS em razão da
necessidade de participarem de uma concorrência, tendo sido essa a orientação da
contadoria da empresa; que os fatos não seriam verdadeiros porque não haveria lógica em
fazê-lo, já que a empresa era isenta de imposto de renda.

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A testemunha MARLUCE MARINHO DE MELO VIEIRA afirmou: que é


auditora fiscal e que atuou na fiscalização da empresa do acusado, constatando várias
irregularidades quanto à contabilidade da empresa, sobretudo divergências entre os valores
declarados à Receita Federal e aqueles registrados em sua contabilidade; que a
representação para fins penais fora feita levando-se em conta a divergência entre os livros
Razão e Diário quanto à contabilização de custos por serviços prestados, o que levou a
auditoria proceder a três intimações à empresa, sem qualquer resposta; que,
posteriormente, o réu chegou a admitir perante a Receita que não possuía as notas fiscais
relativas aos serviços escriturados no livro Razão, eis que tais serviços não teriam sido
prestados; que a empresa supostamente prestadora dos serviços, a IRRIGANOR, de cujo
quadro societário também participa o acusado, foi intimada para apresentação das notas
fiscais da prestação daqueles serviços, tendo respondido, por meio de seu contador, que
aqueles serviços não haviam sido prestados, de modo que não possuíam tais notas fiscais;
que o contador da IRRIGANOR era o mesmo da EPI; que a contabilização desses custos
reduzia o lucro líquido da empresa, implicando no não pagamento ou na redução da
contribuição social devida; que até 1996 a empresa seria isenta do pagamento de imposto
de renda, mas não da contribuição social, sendo que a partir de 1997 era contribuinte
também do imposto de renda; que, quanto ao imposto de renda, a empresa criou prejuízos
fiscais para serem compensados em outros exercícios, de modo que, mesmo deixando de
ser beneficiária da isenção, utilizaria esses prejuízos fiscais para reduzir o tributo devido nos
anos seguintes, seja IR, seja contribuição social; que, além da utilização de despesas
inexistentes, a empresa teria utilizado artifícios para redução do lucro real no LALUR; que
havia divergência entre o LALUR e os outros livros contábeis da empresa e nada foi
esclarecido quando a empresa foi contatada; que, no livro Razão, os registros dos serviços
supostamente prestados pela IRRIGANOR apresentavam até mesmo números de notas
fiscais, sendo que do livro Diário nada disso fora registrado e, posteriormente, ambas as
empresas admitiram a inexistência do serviço; que as declarações da empresa à Receita
Federal foram feitas com base nas inscrições constantes do livro Razão e no LALUR,
incluindo as despesas inexistentes.

A testemunha ANTÔNIO JOSÉ DE FARIAS afirmou: que tinha conhecimento


de a empresa do acusado ter sido admitida no REFIS; que, na época em que a empresa EPI
fora fiscalizada, toda a documentação fora exibida aos fiscais; que, no LALUR, as reduções
feitas atendiam à legislação fiscal, uma vez que a empresa tinha um benefício concedido
pela SUDENE, de modo que o lucro de exploração era isento em cem por cento na base de
cálculo do imposto de renda; que a isenção teria vigência até 1998; que, entre 1995 a 1997
a empresa não pagou imposto de renda em razão de ser isenta, pagando contudo outros
impostos; que a empresa só tinha isenção de imposto de renda; que o REFIS em que
ingressou a empresa referia-se a todos os débitos da empresa, inclusive os do presente
processo, não tendo conseguido terminar o parcelamento, vindo a ser excluída por motivo
que não a ausência de pagamentos; que voltou a integrar o REFIS por força de decisão
judicial, estando até o momento pagando as parcelas, não tendo ainda quitado o débito.

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A testemunha JOSÉ MARTINS DA COSTA afirmou: que tinha conhecimento


de que a empresa EPI era isenta de declarar imposto de renda, bem como que era inclusa
no REFIS; que trabalhava na Tesouraria, fazendo pagamentos para a empresa; que o réu
era o diretor-presidente e dono da empresa;

Do conjunto da prova documental trazida aos autos pelas partes –


notadamente os anexos 1 e 2, referentes ao processo administrativo fiscal – e dos
depoimentos testemunhas colhidos em audiência, chego à conclusão que assiste integral
razão ao MPF em sua pretensão.

A defesa procura afastar a natureza criminosa do fato, seja negando a fraude


em si, seja procurando afastar o vínculo obrigacional tributário. Nenhuma dessas linhas
defesa tem o condão de socorrer aos anseios do acusado.

No que pertine à utilização pela empresa de despesas e custos inexistentes


para a redução do lucro real na contabilidade e a conseqüente redução da base de cálculo
de todos os tributos pertinentes, observo que a prova documental constante do
procedimento administrativo fiscal fora solidamente corroborada pela prova oral produzida
em audiência, sendo o conjunto duramente incisivo na comprovação da veracidade dessas
afirmações. A divergência da escrita contábil apontada pelos fiscais e enfatizada na
representação para fins penais é passível de franca constatação através do manuseio dos
respectivos autos, estando sublinhadas as referências a supostos serviços prestados pela
empresa IRRIGANOR à EPI, ambas de propriedade do acusado.

Antes mesmo de o processo criminal ser iniciado a inexistência da prestação


desses serviços durante o período fiscalizado fora apontada pelos fiscais e, ora em juízo,
ficara cabalmente comprovada. Na verdade, a escrituração do livro Razão da EMPRESA
PARAIBANA DE IRRIGAÇÃO contabilizou custos inexistentes para, aumentando a despesa,
reduzir o lucro real e, assim, a base de cálculo do imposto de renda e de contribuições
sociais.

Em seu depoimento, MARLUCE MARINHO diz que quanto ao imposto de


renda, a empresa criou prejuízos fiscais para serem compensados em outros exercícios, de
modo que, mesmo deixando de ser beneficiária da isenção, utilizaria esses prejuízos fiscais
para reduzir o tributo devido nos anos seguintes, seja IR, seja contribuição social. Nesse
ponto, não se pode simplesmente dizer que a empresa seria isenta de imposto de renda,
pois sua isenção terminara no ano-base de 1996 e esses fatos produziriam seus efeitos nos
exercícios seguintes, quando já contribuinte de imposto de renda.

Além do mais, durante todo esse tempo a empresa era contribuinte das
contribuições sociais cuja base de cálculo fora duramente afetada pela contabilização de

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custos inexistentes e prejuízos fiscais fictícios. Reduzindo-se a base de cálculo, o resultando


só poderia ser a supressão ou a redução do tributo efetivamente devido (completamente
fora do universo isencional), o que efetivamente ocorreu, levando o enquadramento dos
fatos à modalidade consumada dos crimes descritos no art. 1º, I e II, da Lei n. 8137/90.

Em suas alegações finais, o MPF refere a apuração dos fatos na via


administrativa fiscal, apontando as folhas 354-8 e 363 do anexo 2 como prova de que,
durante a auditoria realizada na empresa EPI, “foram constatados custos no Livro Razão
relacionados a serviços prestados por outra empresa, a IRRIGANOR – Irrigação Nordeste
Ind. e Com. Ltda., custos estes que não constavam do Livro Diário da EPI”. Salientou
igualmente o MPF que, embora tenha o acusado afirmado no interrogatório possuir as notas
fiscais dos serviços supostamente prestados pela IRRIGANOR à EPI, até o momento nada
foi juntado aos autos que comprove a veracidade de sua afirmação.

Se o argumento da inexistência material do fato cai por terra diante dessas


considerações, a tese de que a isenção de imposto de renda da empresa afastaria a
natureza criminosa dos fatos não se sustenta, em suma, pelos seguintes motivos:

a) A isenção abrangia apenas os lucros de exploração da atividade de


irrigação em áreas de atuação da SUDENE, sendo portanto restrito seu universo de
aplicação. Lucros advindos de outras atividades ou da mesma atividade em áreas alheias à
atuação da SUDENE sofreria incidência normal de imposto de renda.

b) A utilização de custos inexistentes e prejuízos fiscais reduziria o lucro real


da empresa como base de cálculo não apenas para o imposto de renda, mas também para
as contribuições que encontram no lucro sua base de cálculo. O efeito seria a supressão ou
redução do pagamento dessas contribuições socais, as quais não se incluíam no campo da
isenção e que incidiriam normalmente quanto à EPI, mesmo nas atividades de exploração
da irrigação em áreas de atuação da SUDENE.

c) A contabilização de prejuízos fiscais fictícios poderia ser utilizada pelo réu


mesmo depois da superação do prazo de isenção (1997), permitindo à empresa se valer da
fraude para redução de seu lucro real nos exercícios seguintes, reduzindo a base de cálculo
tanto do imposto de renda quanto das contribuições socais.

d) No que se refere ao período posterior à isenção integral, a isenção parcial


de imposto de renda – com as mesmas limitações da isenção integral referida no item “a”,
supra – não afastaria os efeitos evasivos da conduta praticada pelo réu, pois a redução
operada através da redução do lucro real em nada diz respeito ao benefício fiscal, influindo
diretamente no valor do tributo devido sobre que poderia fazer-se incidir a regra isentiva.

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É preciso deixar claro também que a imputação penal pela contabilização de


despesas fictícias por supostos serviços prestados por pessoa jurídica não diz respeito a
uma única ocorrência que pudesse ser confundida com um mero erro de escrituração. A
representação fiscal para fins penais constante do anexo 1, lavrada com base nos
documentos que instruem todo o processo administrativo fiscal, refere que tal ocorrência
fora constatada na escrituração do Livro Razão nos exercícios de 1995, 1996 e 1997. Ali se
registrou expressamente que os tributos fiscalizados – e que teriam sido objeto de indevida
supressão ou redução – eram o imposto de renda e as contribuições sociais dos anos-
calendário de 1995 a 1998. Essa sucessiva incidência caracteriza com perfeição, a meu ver,
concurso de crimes na modalidade da continuidade delitiva (CP, art. 71).

Embora afirme a defesa que a escrita contábil da empresa fora descartada


por não haverem os fiscais compreendido os registros, observo que tal desconsideração se
deu em razão das inúmeras divergências encontradas entre os registros constantes do Livro
Razão e no Livro Diário, sendo que apenas do primeiro constavam as anotações sobre os
serviços fictícios, tendo sido com base nele que se fizeram as declarações à Receita. Tudo
isso consta dos anexos ao presente processo, havendo indicação desses documentos e das
respectivas anotações em grifos, creio, feitos pelos fiscais no momento da fiscalização e
conferência dos registros e respectivos documentos.

Diante de tudo isso, considero plenamente demonstrada a materialidade e a


autoria afirmada pelo MPF em sua peça vestibular acusatória, comprovando a incursão do
acusado EDMILSON MARCONDES DOS SANTOS na descrição típica contida no art. 1º, I e
II, da Lei n. 8137/90, c/c o art. 71 (continuidade delitiva) do Código Penal.

Passo à fixação da pena.

FIXAÇÃO DA PENA

Examinando as circunstâncias judiciais previstas no CP, art. 59, observei o


seguinte: a culpabilidade do réu se mostrara intensa e relevante, dando causa a uma
elevada evasão tributária mediante o emprego de meio fraudulento com grande prejuízo aos
cofres públicos, mesmo sendo sua empresa titular de um favor fiscal; o réu não possui
antecedentes criminais; a personalidade e a conduta social do réu, como fatores ligados
à sua pessoa e sem pertinência aos fatos, não podem ser negativamente valorados sob
pena de se abraçar um verdadeiro direito penal e uma culpabilidade estritamente de autor;
os motivos do crime indicam a intenção de aumentar lucros à custa do erário público; o
crime não foi praticado em circunstâncias especiais; não há nos autos a comprovação de
conseqüências específicas do fato alheias ao próprio tipo; a colaboração da vítima fora
inexistente.

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Considerando a fundamentação acima e os limites penais abstratos previstos


no preceito secundário do art. 1º da Lei n. 8137/90, fixo a pena-base em 3 (três) anos de
reclusão, que torno definitiva em razão da ausência de circunstâncias atenuantes e
agravantes, bem como de causas de aumento ou diminuição da pena, aplicáveis ao caso.

Quanto às chamadas causas de exasperação da pena pelo concurso de


crimes, considerando que os fatos foram praticados e reiterados durante os exercícios de
1995 a 1997, estando preenchidos os requisitos do art. 71 do Código Penal (continuidade
delitiva), aumento a reprimenda em 1/3 (um terço), consolidando, desse modo, a pena
privativa de liberdade em 4 (quatro) anos de reclusão para cumprimento inicial em
regime aberto (CP, art. 33, §2º, “c”).

Nos termos da fundamentação acima e atendendo aos limites previstos no


art. 49, caput, do Código Penal, fixo a pena de multa cumulativa em 150 (cento e
cinqüenta) dias-multa que, aumentada em 1/3 (CP, art. 71 – continuidade delitiva), resta
consolidada em 200 (duzentos) dias-multa. Considerando os dados constantes dos autos
quanto à situação financeira do réu (§1º), fixo o valor do dia-multa em ½ (um meio) do
salário mínimo vigente na data do fato (dezembro/1997), devidamente corrigido até o
pagamento (§2º).

Atendidos os requisitos subjetivos e objetivos previstos no art. 44 do Código


Penal, bem como mostrando-se a medida socialmente recomendável no caso concreto,
substituo a pena privativa de liberdade ora aplicada por uma pena restritiva de direitos e
uma pena de multa substitutiva. A pena restritiva de direitos consistirá em prestação de
serviços à comunidade ou a entidades públicas, na razão de uma hora de trabalho por dia
de pena substituída. A definição do lugar e das condições de cumprimento competirão ao
juízo das execuções penais. Fixo a pena de multa substitutiva nos mesmos termos e
condições da multa cumulativa, sem prejuízo do cumprimento dessa última.

DISPOSITIVO

Diante do exposto, com fundamento no art. 387 do Código de Processo Penal


brasileiro, julgo procedente a pretensão punitiva estatal para condenar EDMILSON
MARCONDES DOS SANTOS como incurso no art. 1º, I e II, da Lei n. 8137/90 c/c o art. 71
do Código Penal.

Em razão disso, fixo-lhe:

ROGÉRIO ROBERTO GONÇALVES DE ABREU


Juiz Federal
PODER JUDICIÁRIO
JUSTIÇA FEDERAL DE PRIMEIRA INSTÂNCIA
SEÇÃO JUDICIÁRIA DA PARAÍBA
SEGUNDA VARA FEDERAL Página 12 de 12

a) Uma pena privativa de liberdade de 4 (quatro) anos de reclusão para


cumprimento inicial em regime aberto;

b) Uma pena de multa cumulativa de 200 (duzentos) dias-multa, ficando


definido o valor do dia-multa em ½ (um meio) do salário mínimo vigente na data do fato
(dezembro/1997), devidamente corrigido até o pagamento.

Substituo a pena privativa de liberdade por uma pena restritiva de direitos e


uma pena de multa substitutiva. A pena restritiva de direitos consistirá em prestação de
serviços à comunidade ou a entidades públicas, na razão de uma hora de trabalho por dia
de pena substituída. A definição do lugar e das condições de cumprimento competirão ao
juízo das execuções penais. Fixo a pena de multa substitutiva nos mesmos termos e
condições da multa cumulativa, sem prejuízo do cumprimento dessa última.

Custas ex lege.

Transitada em julgado a presente sentença e após a devida certificação,


deverá a Secretaria da vara: a) preencher e encaminhar ao IBGE o boletim individual do
acusado; b) lançar-lhe o nome no rol dos culpados; c) oficiar ao TRE/PB para os fins do art.
15, III, da Constituição Federal; d) remeter os autos ao juízo das execuções penais.

Sentença publicada em mãos do diretor de secretaria da vara. Registre-se no


sistema informatizado. Intimem-se o acusado e seu defensor. Cientifique-se o MPF.

João Pessoa, 27 de novembro de 2009.

Juiz federal ROGÉRIO ROBERTO GONÇALVES DE ABREU


Substituto da segunda vara federal

ROGÉRIO ROBERTO GONÇALVES DE ABREU


Juiz Federal