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Título original Atos de paixão Copyright Túlio Henrique Pereira, São Paulo, 2012 Reservam-se os direitos desta edição à:

GIOSTRI EDITORA LTDA Rua Sud Menucci, 71 – casa 01 Vila Mariana - SP CEP: 04017-080 / Tel.: 11 – 2537-2764 www.giostrieditora.com.br contato@giostrieditora.com.br São Paulo - SP - República Federativa do Brasil. Impresso no Brasil ISBN: 978-85-8108-114-4 CDD: B869-2 Coordenação editorial: Alex Giostri Auxiliar editorial: Robson Fabrini Concepção de capa: Luis Felipe Camargo Diagramação e arte interna: Karolyna Papoy Revisão de texto: Giostri editora Ltda. Pereira, Túlio Henrique Atos de paixão 1ª. Ed. São Paulo: GIOSTRI, 2012 1 – Dramaturgia brasileira 2 – Teatro 1º título: Atos de paixão 1ª Edição Giostri Editora LTDA.

Título original Atos de paixão Copyright Túlio Henrique Pereira, São Paulo, 2012 Reservam-se os direitos desta

À memória do meu vovô Eurípides Romão da Silva.

Atos de PAixão

ORIGINAL DE TÚLIO HENRIQUE PEREIRA EM TRÊS ATOS E DOIS QUADROS

PersonAgens

(por ordem das entradas em cena)

Gercindo de Medeiros Lúcio Dniester Maria Marlúcia Enrico Miranda Nairde Padre Gusmão

E is que a Inquisição no Brasil Colônia criou

palavras que mais acendem do que ilumi-

nam as intimidades do passado. Foi a partir

desta interpretação histórica de Ronaldo Vainfas sobre o cotidiano da vida privada na América Portuguesa em seu artigo “Moralidades Brasílicas: deleites sexuais e lin- guagem erótica na sociedade escravista”, publicado em “História da vida privada no Brasil”, que me inspirei a contextualizar as relações homoafetivas do início do

século XX, no Brasil, especificamente no município de

Rio Pardo, no Estado do Rio Grande do Sul.

Sem conhecer os ares que revoam os pampas, limitei-me às alusões e sentidos a partir das emoções e caracterizações, fruto de longas pesquisas, dadas aos

personagens que presentificam tal época.

Enquanto muitos estudiosos pesquisam o processo de congruência na formação da população brasileira

em sua diversidade geográfica e étnica, cerquei-me da

desarmonia intrínseca dos corpos e seus apetites

fisiológicos, inflamados desde o início da colonização

em nosso país, quando se mesclaram negros africanos à bacia do nativo brasileiro e os brancos colonizadores. Um sinal vital de todo alvoroço cultural, mnemônico e sexualmente a-histórico, credenciando a constituição grosseira do que chamaremos na atualidade de identidades do sujeito brasileiro.

Desse modo, em ritmo açucarado de um drama eloquente e cômico, senão atemporal, proponho-me a desvelar de forma bastante casual e pouco pretensa às grandes produções as marcas de socialização desses

sujeitos - em décadas posteriores à abolição escrava no

Brasil - constituídos de traços específicos e contundentes

que nos remetem às razões históricas do povoamento de dois grandes estados nacionais, sendo eles Minas Gerais e o Rio Grande do Sul. A atemporalidade perpassa a trama no tocante à base familiar que nos sustenta. Uma família mineira naturalizada no município de Rio Pardo, RS, é aqui a alusão mais evidente aos eventos que ligam comerciantes

paulistas à descoberta de minas de ouro nas regiões de Goiás e Mato Grosso, incitando tropas de mulas a sair em direção das Minas Gerais, entrando em rotas de comércio no Rio Grande do Sul ainda no século XVIII.

O município de Rio Pardo, escolhido por sua relevante história na constituição do estado riograndense, tanto

pela sua expansão territorial bastante significativa em seus primórdios quanto pelos portos fluviais, representa,

nesta peça, o que de mais genuíno, a meu ver, teríamos

de ‘Brasil em progresso’ em meados da década de 1920. Povoado por imigrantes refugiados da guerra e mate- rialmente marcado pela confluência da crise econômi- ca do setor primário-exportador, Rio Pardo constituiu uma das principais regiões a sofrer com a consolidação da economia urbana e industrial voltada para o mercado interno. De modo geral, o Brasil sofrera neste período elevadas crises nos setores políticos e militares, sinaliza- doras da derrocada do regime oligárquico na Revolução de 1930, ascendendo o espírito burguês que os populis- tas suscitavam.

É neste cenário, reflexo de um país agrícola, católico, político e coronelista, que almejo criticamente sob as

bases do humor irônico os ranços herdados pelo co- lonialismo e a fé cristã, mirando seus olhos – séculos depois - inquisitoriamente, nas esferas restritas à priva- cidade e à intimidade dos casais e amantes, propondo-nos

em seus arquivos e liturgias a distorção e unificação da

cultura material aos estilos sexuais vigentes nos primór- dios do século XVI, e as afeições que caracterizavam o encontro de corpos do mesmo gênero. Oferecendo conotações diabólicas e hereges a todos os sujeitos que as praticassem daí em diante, considera-se a sexualidade matéria de sua alçada, elevando à categoria do sagrado apenas o sexo conjugal voltado para a procriação.

A personagem central, Gercindo de Medeiros, busca no seu âmago uma explicação que legitime os concei-

tos teóricos inscritos nos livros de filosofia que estuda.

Carioca e burguês advindo de uma família conceituada

no país, Gercindo tem ao seu favor múltiplos conheci- mentos elaborados ao longo de sua vida dedicada aos estudos, sempre em colégios internos, e a suas viagens pelo mundo. Seu comportamento e vestimentas são tão

refinados quanto a suavidade feminina de uma distinta

mulher da sociedade brasileira nos anos 1920.

Num certo dia, ao auxiliar o pai em uma das lojas de produtos agropecuários, Gercindo vê-se face a face com Lúcio Dniester, homem que lhe desperta sentimentos incontroláveis, compreendidos entre si pelos olhares recíprocos. Lúcio, um agropecuarista mineiro de ascendên - cia portuguesa, vive em Rio Pardo, onde está prestes a se casar. No entanto, se rende aos encantos sedutores

e sugestivos do refinado burguês.

A parcial reconstituição dos ambientes do encontro amoroso de ambos, as circunstâncias de seus enlaces e a demarcada característica física de cada uma das perso- nagens, elabora no contexto geral deste texto, a repre-

sentação ficcional de identidades populares caricaturadas

pelo discurso comum e literário ao longo de muitos sé- culos no Brasil.

A família, base sustentadora de toda a trama, cons- tituída de cinco membros, é controlada pelo arredio Miranda e sua condescendente esposa Nairde que apesar de submissa tem presença significativa no tocante à re- pressão e condicionamento oferecido aos gêneros em

grande parte da nossa história. Já a filha Maria, 36,

viúva e mãe de um jovem, que fora levado para estu- dar na Europa, vive testando a paciência do pai e, apesar

de ostentar a bandeira de boa cristã, está sempre a cozer-

-se pelos cantos. E a filha Marlúcia com pouco mais que

19 anos, educada nas melhores escolas de Buenos Aires, tem toda a atenção do pai, que lhe contempla com sua afetuosidade e a promessa de uma grandiosa festa de casa- mento a selar-se com Lúcio.

Rio Pardo novamente não foi escolhida como ce- nário dessa peça apenas por seu contexto e relevância histórica. O interesse pelo município nem é tanto pelo dialeto riograndense ou costumes desse povo especifi- camente, mas há um interesse intrínseco num contra- ponto entre costumes e hábitos de brasileiros (des)locados, aqui, inseridos na peculiar cultura sulista brasileira, tal como o contexto da miscigenação étnica.

Talvez enseje a alcova ou o que fazia às vezes dela, as deleitações, instigando nos leitores do texto, assim como nos espectadores da peça, a ideia de machos

sendo deflorados em lugares históricos como o forte Jesus Maria José, os portos fluviais e até mesmo em

guetos da Escola de Aplicação de Infantaria e Cavalaria - transferida em 1911 para o Rio de Janeiro - prédio utilizado para a instalação do Quartel das Tropas do Exército. Não obstante, os inúmeros namoros notur- nos, cujos amantes se encontravam à espreita nas ruas que cortam a Rua da Ladeira (hoje Júlio de Castilhos); muitos em seus típicos trajes gaúchos, outros com in- dumentárias luxuosas advindas de diversas partes da Europa, e negros, poucos, de pés descalços, sinalizando a plêiade de seus antigos feitores em atos de homoafe- tividade molícies 1 .

Enfim, aludamos à cena ímpia e subamos todas as

cortinas para o nosso voyeurismo, e eis que aqui estejamos aptos a velar todas as incutidas paixões reverberadas

por toda Rio Pardo, às margens do Rio Jacuí, entre as

matas e suas, hoje, tombadas edificações.

1 Eram consideradas pelos inquisidores todas as relações sexuais sem cópula, mas com ‘emissão de sêmen’.

Primeiro Ato

  • C enário com luz baixa. Uma cama de casal imponente sob o único foco de luz em penumbra. Mobiliário sóbrio. Ao som de

Trenzinho Caipira de Heitor Villa-Lobos, Gercindo de

Medeiros (Jovem lânguido, embora elegante herdeiro de nobres cariocas. Cabelos alourados, magreza estenosa com uma pinta sobre a pálpebra esquerda) está sobre a cama contorcendo- -se com Lúcio (Homem rude nas palavras e fisionomia de as- cendência portuguesa. Cabelos negros como a noite, vestido em

pelos do pescoço aos pés), exasperando o prazer em se tocarem debaixo dos lençóis acetinados. Em contínua troca de carícia se empurram de um lado para o outro na cama, sendo visível, pelo lençol, o contorno de seus corpos em constante movimento e atrito. Num lufar, Gercindo descobre-se dos lençóis, recostando-se à cabeceira. Em seguida, Lúcio descobre vagarosamente a cabeça,

observando o parceiro aparentemente entediado, e de- cide recostar-se ao seduzi-lo com os olhos e beijá-lo intensamente na boca.

Encerram o beijo ao final da música em tenebrosa

seriedade.

g ercindo (contrito) - Oh Mon Dieu e se Marlúcia fizesse parte de nosso romance? Se isso acontecesse, ficaríamos livres de preocupações.

l úcio (ríspido) - Quem lhe disse que isso é um romance? Apenas dormimos juntos por uns dias.

Brincadeirinha de solteiros, nada demais! gercindo (impaciente) - Quer dizer que não significo nada? lúcio (contemplativo) - Não disse que não significa nada. Se nada significasse, não estaríamos juntos sobre a minha cama. gercindo (atento aos gestos fortuitos do amante) - Insisto

em querer saber o que sentes por mim. Sentes amor

por mim?

lúcio (olhando-o no olho) - Como alguém pode amar se nunca conheceu o amor? Como alguém pode amar alguém, se nunca alguém o amou? Como posso falar que lhe tenho amor, se nunca tive a certeza de senti-lo?

gercindo (espantado com as palavras, altera-se) - Como uma pessoa pode amar, se nunca foi amada!? Olhando por esse ponto fica difícil responder, Lúcio Dniester, e

soa presunçoso demais, mas o amo mesmo sem saber se um dia fui amado. E amo porque sinto o meu corpo e a minha alma dizerem que é isso o que tenho sentido desde o maldito dia em que te vi pela primeira vez. (pensa) Imagine até os grandes agropecuaristas de Rio Pardo saberem que Lúcio Dniester, o maior exportador de café e charque, dorme com um homem!

l úcio (vestindo seu paletó de casimira, ao se levantar da cama) - Se realmente me ama, não fará nenhuma besteira com meu nome. Preciso casar-me, sabe bem. Os prepa- rativos para este momento seguem por anos. E nós dois sabemos bem da necessidade de uma ditadura republi- cana para a fortificação de nosso Estado. Júlio de Casti- lhos pede que continuemos disseminando seus ideais.

gercindo (sarcástico) E será o responsável por isso!? Cá para nós senhor Lúcio, a república dessa era cientificista

são os tumores dos pobres que tu exploras!

lúcio Não tem visão estratégica. Vive num mundo incomum.

gercindo Tenho visão suficiente para opor-me a essa ladainha coronelista que estão tentando empurrar no povo goela abaixo.

lúcio (ríspido dando de ombros para o amante) - Des- considerarei o comentário leigo de um burguês da aris- tocracia carioca, embora insista inflamar esse discurso socialista bem diferente de vossos modos (ironizando as vestes de Gercindo sobre o chão) Deveria estar do lado certo!

g ercindo (aproxima-se ainda arrastando pela cama, tomando brutalmente a vestimenta das mãos de Lúcio) - E quem está do lado daqueles que passam por necessidades? É engraçado como se afirma. Não ouve meu discurso, no

entanto, considera as sandices de um pensador francês.

Talvez pela linhagem europeia!?

lúcio - Comte não ficou nas palavras. O positivismo traz ideais que precisam ser alcançados. É um visionário. E já passou da hora de progredirmos.

gercindo (com olhar melancólico e complacência ao baixar a cabeça) - Defenda e lute pelo que quiser. Não é isso que me interessa neste instante!

lúcio (observando o amante consumir-se em si, abotoando a manga da camisa) - Por isso peço que continue com a boca fechada. Sabe que te tenho respeito e lhe agrado do seu gosto. Não sei o porquê de tanto desatino, Gercindo. Controle-se ou serei obrigado a viabilizar o seu traslado aos seus familiares no Rio de Janeiro.

gercindo (movimenta-se ligeiro, olhando-o com ódio) - Eis uma ameaça? Se for, seria infundada. Não seria capaz! Por que me irrita tanto?

lúcio (racional e pausado ao colocar o casaco) - Não se altere. Nem mesmo duvide!

Gercindo chora observando Lúcio se vestir. Nota detalhadamente por longos minutos sua maneira obje- tiva de se comportar. Está hipnotizado. Chora apenas com os olhos, no entanto, quando Lúcio novamente

se volta contra ele para olhá-lo, Gercindo suspira e fita

os olhos nos do amante, desfalecendo o corpo sobre a

cama, como se agonizasse em dor intensa, consumin- do-se internamente sem gestos abruptos, somente lá- grimas em complexa repressão.

g ercindo (brandamente) - Não acredito que não esteja pensando nenhum pouco nas terras que herdarás em Minas.

lúcio (ríspido) - Vivemos no Sul. E esse é um inte- resse familiar. Nada pessoal.

gercindo Um monstro. lúcio O que disse?

gercindo Estou caído de amores por uma pessoa que consegue violar todas as regras, inclusive as leis da natureza.

lúcio (sentando-se ao lado do amante sobre a cama) - Não me venha com chorumelas. Que caráter ostenta para se

colocar alheio a isso?

gercindo (eloquente) - Um ser cosmológico. Ou seria anticosmológico? Eis uma obviedade intrínseca, Lúcio.

Algo irrefutável que consegue ser pretensioso e

indispensável como um líquido precioso que alguém necessita sorver para a continuação de sua vida. No entanto, representa uma genealogia característica da anomalia e do indivíduo anormal. Acho que gostaria mesmo de recriar os seus modos de acordo com minhas conveniências e necessidades. Deveria ser o que idealizei a

partir do instante em que lhe senti na alma, através da

sua imagem rude, do seu cheiro influenciável e desse

sabor agridoce que me fascina. Um ser a ser corrigido!

lúcio (estático) - Londres tem lhe feito muito mal. gercindo Não tanto quanto sua ausência. lúcio (fatídico ao se levantar) - Vista-se! gercindo (sentando-se curioso) – Terão filhos? lúcio (penteando o cabelo) Quantos ela desejar. gercindo (murmurando intimidado) - E certamente partirão para Lisboa!? lúcio (colocando os sapatos) - Certamente. gercindo Quais outros lugares visitarão?

lúcio Paris, Argentina e ...

gercindo (interrompendo-o curioso) - Não há como inserir-me nessas viagens?

lúcio Não se trata de uma simples viagem, será a nossa lua-de-mel.

gercindo Então! Será apenas uma lua-de-mel. Tenho certeza de que não será do seu agrado. Leve-me!

l úcio Não se trata apenas de uma lua-de-mel. Renovarei meus contatos com criadores de gado, pro- dutores de café, algodão, trigo e quero importar mais produtos, aumentar o capital de giro, investir em tecno- logia, abrir novos caminhos, crescer. Ouvi dizer que o mercado estrangeiro se interessa por nossas laranjas e

está em vias de abertura para o resto do mundo (reflete). Estou perdendo meu tempo. Sua pessoa não conhece de negócios, é apenas um mimado apaixonado por lite-

ratura ficcional!

gercindo (interrompendo-o) - Esse discurso me remete ao nosso primeiro contato: um caipira. Quem diria que um simples caipira produtor de café e charque ganharia o

meu coração (vira-se contra o amante). Depois dizem que o destino não existe. Nunca ficara de expediente na loja

e, no momento em que estive lá, pela primeira vez, me chegas essa coisa a procurar aditivos. Com esse seu jeito rude e esse olhar presunçoso. Ah, Lúcio, por que me

seduziu? Por quê? Sei que não se pode negar o que é. Vi

nos teus olhos!

lúcio (assustado) - O que há contigo? Tem andado inflamado demais. Já vejo perguntarem sobre o seu

comportamento. Contenha-se ou pelo menos se esforce enquanto estiver aqui!

Gercindo silencia-se e começa a se vestir. Assim que se recompõe, ainda com uma peça de roupa nas mãos, surge Maria subitamente (Balzaquiana, alta de ossos e corpo avantajado, cabelos longos e negros tal qual a maior parte de suas roupas. Traços fortes, sobrancelhas espessas e face pálida pouco convidativa) , vestida com uma enorme mantilha preta com bordados acinzentados. Súbita e inquieta, procura com os olhos todos os detalhes no quarto. E, embora surpreendidos, Gercindo e Lúcio se mantém calmos ao notar a presença de Maria.

mAriA (sentando-se na cama ao retirar a mantilha, inquieta e alterada) - Abre cancha, abre cancha! Eu sabia que os encontraria aqui. E agora? Já tenho uma prova de sua

sodomia. Tenho a faca e o queijo nas mãos.

gercindo (vestindo-se com seu blazer de veludo musgo) - Não tem como provar! Seria preciso nos pegar no ato.

mAriA (impondo-se) - Deixe de ser capão, homem.

Quer dizer que, apesar de todos os meus esforços, não

valeu de nada para pegá-los em flagrante? lúcio (pegando o chapéu) - Claro que não!

mAriA (jogando-se na frente de Lúcio) - Eu preciso que me ame! Preciso que me beije a boca assim como faz com Gercindo. Quero que agarre meus seios, beije-os e pratique da maneira que quiser. Está permitido. Faça!

gercindo (enquanto penteia suavemente os cabelos em frente do espelho da penteadeira) - Eu não tenho seios e, ao contrário do que pareça, Lúcio se casará com sua irmã. Não vê que já é um homem comprometido!

mAriA Descomprometa-se, ora bolas! Por que não pode ser comprometido comigo? Eis um colhudo,

diferente do senhor, que é diferente por demais, um xucro. Eu também herdarei as riquezas da família. Melhor ainda: duas famílias!

lúcio (segurando-a pelos braços mantendo-se calmo) - Já é viúva, Maria, além do mais tem um belo menino, o José Luiz para herdar sua fortuna, ou como costuma enfatizar: Duas fortunas. Não quer estragar a vida de um rapaz vital como eu, quer? (fitado no rosto de Maria que mantém o olhar extraviado) E sabe bem que não tenho nada, além de um forte laço de amizade com o amigo Gercindo de Medeiros. Por que não vai cuidar de seus

afazeres e deixa de sandices?

Lúcio caminha em direção à porta para sair, desgru- dando-se das mãos de Maria.

mAriA (indo ao encontro de Gercindo, que tenta desamarrotar a roupa) - Pelo que soube, creio que o senhor nunca

se casou! Tenho inúmeras necessidades, talvez por ser viúva, não sei. Mas por que não tentar esquecer Lúcio e

unir-se a uma mulher, assim, de vereda?

gercindo (sobressaindo-se, dando retoques nos cabelos, na roupa) - Sou um homem livre, Maria. Um rapaz solteiro,

diga-se de passagem. Solteiríssimo! Nada do que disser

mudará meu modo de pensar. Sua hipocrisia me arranha a garganta como a nódoa de uma romã. Como pode

dissimular tanto? Na frente dos pais é uma santa, aqui entre nós, pura mácula. mAriA (suspirando em sua face) - Saberei tratar-te como um sodomita. Terá os serviçais que almeja. gercindo (abanando o rosto, tapa o nariz com a ponta

dos dedos) - Deixa de ser fedorenta, mula velha! Em que mundo vive? Não preciso de ninguém se submetendo

aos meus caprichos. Todos os homens são livres, prin- cipalmente para pensar e escolher sobre seu futuro. Bem, às vezes me esqueço de que, aqui no Sul, diferente do resto do nosso país, ainda existem muitos cativos, man- tidos na terra e impedidos de se emanciparem.

mAriA (agarrando-lhe as mãos) – Fala pelos cotovelos. Não me venha com ladainhas políticas, Mon Cher. Por acaso, sabe o que é solidão? Ora, pois, que mãos macias!

Maria acaricia seu rosto com as mãos de Gercindo.

gercindo (soltando-a de suas mãos bruscamente) - Deixe-me, sua fera! Saberei logo depois do casamento de seu cunhado.

Vê se deixa de ser comiserável, Maria. É dona de quase 1/3 das terras nas Minas Gerais, casou-se no tempo que lhe convinha. Toda a criadagem teme a sua volúpia e todos sabem disso, menos o turrão do seu pai, claro! Agora, quer alcovitar vidas alheias que já não são tão

simples de serem vividas?

Gercindo caminha incessantemente de um lado ao outro, parando algumas vezes para mexericar na maqui- lagem sobre a penteadeira.

mAriA (eloquente) – Oh, Mon Cher.

gercindo (esnobe) – Basta. Seu linguajar démodé e esse vocábulo limitado agridem-me os tímpanos. Como cansa minha cútis com sua rudeza. Rural!

mAriA (em cólera) - Cale-se, seu sodomita! (caminha de um lado ao outro) Sequer compreende o que é alcovitar. Sou viúva, sim, mas não tenho me ocupado em perturbar

vidas alheias. Só acho injusto ver que minha irmã está sendo traída por debaixo de seu próprio nariz. Como pode Lúcio trazer um homem para sua cama, dentro

de sua futura casa, sem pestanejar minha intromissão?

Talvez por querer que os pegue no ato? Talvez queiram que faça parte de seus rituais de orgia? (ofega desvanecida) Ai, não sou tão velha assim para a abstinência. Somente uma viúva à procura de um futuro marido. Apenas necessito de um homem, um cuiudo que me faça contente e acalmada de minhas vontades.

Maria segue até a porta de saída. Num impulso de retirada, Maria é surpreendida com o surgimento da irmã Marlúcia - jovem curvilínea em face viva desde as

vestimentas florais e leves, tal como seu caminhar e fala

típicos da mineirice. Os sapatos plataforma sonorizam seus passos sutis, objetivos e contundentes. Maria desiste de sair e permanece em cena com Marlúcia e Gercindo.

gercindo (de costas mexendo na penteadeira) - E sabe lá o que é a traição?

mAriA - Olha a ti mesmo e a verá!

gercindo (sutilmente ao virar-se nota Marlúcia estática à porta) - Sinto dizer que esse seu discurso já tenha se expandido em demasia. Tudo está pela hora da morte, assim como esse meu pseudo-romance está pela hora da vida. Dêem-me licença, tenho afazeres.

Gercindo atravessa o palco e sai de cena.

mArlúciA - O que faziam em meu quarto? (nervosa) Desarrumou toda a cama!

mAriA Minha Nossa Senhora da Abadia. Sabe que necessito de um marido, minha irmã. O que fez por

mim durante todo o dia?

mArlúciA (organizando os lençóis) - Não tenho feito nada além dos preparativos do meu casamento. Não tenho feito nadica de nada além de rearrumar minha cama toda hora por sua causa. E nadinha com sua pessoa o tempo todo aporrinhando.

m A ri A - Me sinto angustiada, Marlúcia. Nenhum homem tem mostrado interesse por minha pessoa. Nem mesmo aquele burguês!

m A rlúci A (surpreendida abandona a arrumação) Quem? Gercindo de Medeiros? Ah, minha irmã, aquele

moço tem uns modinhos muito dos afrescalhados, não me admira não tê-la visto com outros olhos.

mAriA (aproximando-se) - Quer dizer o quê com modos afrescalhados? Ele é amigo de seu noivo! Não é?

mArlúciA (reflexiva ao se sentar na cama) - Diria que um duro de boca. Mas, correto. Por isso me atento

aos seus modos delicados. Afinal de contas, ouvi dizer

que ele passou pela mesma escola para onde papai mandou José Luiz. Sabe a fama dos rapazes burgueses

de Pelotas que vêm da Europa, não sabe? Acho que

deveria se preocupar com a educação de meu sobrinho e esquecer um pouco essa busca desenfreada por um marido. (espanta-se apanhando um molho de chaves no chão) Não pode ser!

mAriA (preocupada) Claro que não pode ser. (assus- tada) O que não pode ser, Marlúcia? Tem alguma coisa que sabe e não quer me contar?

m A rlúci A - Ora, pois. Admira-me você ser mais velha que eu e precisar de meus conselhos. Já é viúva, Maria. Tem a experiência na carne. (observa a irmã se conter) O moço é burguês, tem modo de vida de gente rica

que nasce em berço de ouro; suas vestes são feitas de tecidos dez vezes melhores que os seus. É apaixonadim

em livro, até mais que em

Deixa pra lá! Mas, o metido

... fala até francês. Há uma incompatibilidade entre vocês.

Gostou da palavra nova? In-com-pa-ti-bi-li-da-de. Tem

oito sílabas e dezessete letras, nunca vi palavra grande e bonita que nem essa.

mAriA (contrita) - Ah, tudo bem! Não tenho mesmo que lhe dar ouvidos, anda muito desnorteada por causa

dessa, desse casamento. (reflete) Marlúcia, me responda:

Teria coragem de fazer tudo pelo amor de um homem?

mArlúciA (voltando a arrumar a cama) - Já disse a você para não se iludir com coisas que não existem. Já casou, enviuvou-se e descobriu que isso é só besteira.

m A ri A (pausadamente) Não sei se o amor

Seja lá

... como pensa que seja a sua vontade de estar com um

homem. Não vontade de só conversar, mas olhar nos

olhos dele e ter vontade de ser só dele, entende? O que faria para tornar esse sentimento possível?

mArlúciA (dando breves risadas) - Dividiria as terras que temos em Minas.

mAriA (contrita) - Se importaria mesmo se ele ficasse com outras?

mArlúciA (atenta-se) Como!? Uma mulher não tem

nenhum controle sobre homem algum. (aproxima-se) E já temos indícios de que aqui mesmo em Rio Pardo homem algum anda segurando mulher na rédea. Sim, quando vivíamos lá em Minas, tínhamos que nos ater a

isso, muito conservadorismo, por sinal. Afinal de contas,

estou cansada de vestir saias, quero logo um vestido

justo que dê nota de minha cintura e uma echarpe de lã francesa. (admira-se) Quando farão espartilhos que modelem as pernas?

gercindo (de volta a cena) Oh my! Queiram me desculpar senhoras, mas a quitandeira dispensará toda lima.

mArlúciA (irritada) - O quê?

gercindo (dissimulando com eloquência) - Ouvi um probleminha de entendimento com o sacoleiro e ele se nega a entregar os frutos pelo preço que lhe foi imposto.

mArlúciA Imposto!? Oras, quem esse sacoleiro pensa que é? Seus preços varam qualquer estancieiro e

ainda quer lucrar sobre a felicidade alheia. Vou fazê-lo

encontrar seu caminho num upa, onde já se viu,

procurando uma-de-pé comigo? Não deixarei barato. É

fato que já não se comenta nada além do meu casório nessa província. Esse deve ser o problema.

Marlúcia atravessa o palco, volta até a irmã Maria, agarrando-a pelos braços e sai de cena perturbada com uma das mãos levadas ao cabelo e outra levantando a saia, que por pouco não se arrasta no chão. Gercindo fecha a porta e começa a procurar por algo, sob luz vertical.

gercindo (aos murmúrios) - Onde foi que deixei cair aquele chaveiro? Não acredito que o esqueci aqui! (se

senta sobre a cama) Se ao menos pudesse roubá-lo. Ainda

que tudo fosse difícil, abdicaria de tudo por

... Não cometeria novamente esses erros históricos. Acho que sofro a intemperança que se opõe à temperança de Sócrates. Suportar as necessidades da carne. Devera ser os fatos descarrilhados nessa minha vida pautada pelos excessos. Se ao menos experimentasse o prazer digno de memória, o que saciasse minhas vísceras comumente ... Já dizia Xenofonte que Sócrates alimentava-se na medida

mas, nunca.

em que tinha prazer em comer, e chegava às refeições com uma disposição tal que o apetite lhe servia de tempero. Toda bebida lhe era agradável já que ele nunca bebia sem ter sede, mas tenho sede. No entanto, quanto mais entrego a Lúcio este corpo, mais esse quer lhe ofertar.

Pausa incômoda. Marlúcia volta à cena. Os dois se olham enquanto a luz se abre. Em seguida chega Maria em ofegante dissimulação.

mArlúciA (incisiva) - Não creio ter sido um blefe!

gercindo (estático de joelhos próximo à cama) - Tenho absoluta certeza de que não o foi?

mAriA (cínica) - Sequer Laurinda estava na cozinha!

gercindo Ainda que pelo menos soubesse de quem se trata?

mArlúciA (afrouxada) - A quitandeira que disse estar em discórdia com o sacoleiro.

gercindo (levantando-se perplexo ao sentar na cama) - Talvez não tenham me dito a verdade.

mAriA (nervosa) - Talvez tenhamos todos nos enga- nado. Ou sequer tenhas dito realmente inverdades!

Maria se senta ao lado de Gercindo na cama. Olhan-

do-o fixamente no olho preso à Marlúcia, mantida de

pé à sua frente.

mArlúciA (irritada) - O que fazia ajoelhado no chão de meu quarto, olhando para baixo de minha cama?

g ercindo (nervoso e estremecido) Deixei cair um botão da camisa?

mAriA Não sei. (pausa incômoda) Deixou? gercindo (gélido) - É claro que deixei!

mArlúciA (sentando-se relaxada sobre a cama) - Ainda bem, pois achei esse molho de chaves em cima de minha cama e ...

gercindo São

... mAriA (interrompendo-o, excitada) - Minhas! mArlúciA O quê? mAriA São minhas. As chaves pertencem a mim.

mArlúciA (altiva, entrega-lhe as chaves) - Ainda torrando a herança do falecido!

mAriA Minha Nossa Senhora d’Ajuda! Ainda estou viva, minha irmã. E qual o interesse? Não é papai que

diz que o melhor investimento que um homem pode ter

chama-se patrimônio! Tudo bem que não sou homem, mas tenho visão igual e sou bem sucedida e, depois, a

senhorinha flor do campo, deveria se espelhar mais em

mim.

mArlúciA (recomposta, levanta-se) - Não estou interes- sada, apenas questionei. Terei um marido para cuidar dessas coisas. Já me basta papai embrenhado no esterco

de porco. Agora me vem você cuspir grosso do meu

lado?!

mAriA (abana o colo, cheia de calor) Pois não questione, minha irmã, não tem o direito, sabe o que tenho vivido!

Outra vez uma pausa incômoda de silêncio. Surge em cena do fundo do palco, sob luz vertical, o peão Enrico – jovem mestiço e alto; olhos claros em face exótica, entrelaçando biótipo indígena, espanhol e português.

Corpulento, tem numa das mãos um chumaço de rama e na outra um velho chapéu de couro. O cenário recebe iluminação acetinada com um foco de luz, enfatizando o novo personagem. Todos em cena o observam. Em segundos ressurge a luz normal.

mArlúciA O que perdeu, Enrico?

enrico (nervoso) O tropeiro. Perdi nada não, se- nhora. Só vim trazer o recado que me deram para dar.

mArlúciA Pois diga logo guri, vai ficar aí parado com essa cara de peão desarreado!?

enrico (cabisbaixo) É

é que querem levar a dona

... senhora e sua irmã para a cidade. Escolher os cargueiro

para o desfile do casório. mArlúciA E quem quer levar-me? enrico Sua mãe e suas tias. mArlúciA (surpresa) Tias!?

enrico (levantando a cabeça, apresentando um sorriso com dente cariado) – Verdade, sim senhora. Eu vi as dona

senhora s emperiquitadas com uns brilho nos ói de felicidade que nem as aguadas de temporada boa de mergulho no riacho que a gente perde de vista.

mArlúciA (interrompendo-o com rispidez) – Enrico, fale

só o necessário, que está me deixando confusa! Quê

mais? enrico (contrito) – É

é, foi isso que me falaram.

... mArlúciA - Quem lhe passou o recado?

mAriA (sardônica) Minha Nossa Senhora do Perpé- tuo Socorro, minha irmã! Deixe de aporrinhar o moço. Vai ver é Zica e dona Cora. Aquelas duas sempre lhe tiveram consideração.

mArlúciA Pois bem, diga que logo descerei! gercindo (impaciente) - Enrico!? enrico (voltando) - Quê? Chamou-me doutor?

g ercindo (resignado, limpando as unhas sem olhá-lo diretamente) Não é nada. Pode ir. Vá! Vá!

e nrico (saindo de cena, cabisbaixo) Bah, já me ia abrir a barba!

mArlúciA Descerei já. Não fique muito tempo no meu quarto. Caso não encontre o botão até as quatro, saiam os dois, pois Lúcio jamais poderá saber que tem o atrevimento de invadir o nosso leito. E o senhor, Gercindo (empolgando-se), logo quero dicas sobre a alta costura francesa, sei que o senhor tem bom gosto. Depois nos falamos!

gercindo Oui demoiselle, that’s a pleasure! Embora a cultura inglesa tenha se desenvolvido mais que a france- sa nos últimos anos. De todo modo terei pleno prazer em lhe ajudar a escolher o que vestir. Portanto, sei tam- bém que tem o enxoval montado, não sabe o que perde com as roupas de dormir em rayon. Estão em alta por toda a Europa!

m A rlúci A – Tenho lamentado por demais, mas

mamãe tratou de empurrar coisas démodés em mim. Pois saiba, entendo um pouco de alta costura e ela se

incomoda. Enfim, estou cansada, ser chique dói e tenho

um casamento para tratar, mas logo acertaremos tudo! Marlúcia sai de cena.

mAriA (em burburinho com o dedo em riste em direção a Gercindo) - Não acredito que chamou o mancebo só para vê-lo falando contigo!

gercindo (displicente) My dear, não preciso de artefatos bobos para falar com alguém.

mAriA Queria conferir a panca, isso sim! gercindo (fortuito) Não queria não. mAriA (exaltada) – Queria sim!

gercindo (irritado) – Não queria! Não queria e não queria!

m A ri A (desafiante e sardônica) Queria sim. Está desesperado com o casamento de Lúcio e procura desesperadamente por um novo cônjuge.

gercindo (contendo-se) Oh God! Não estou procu- rando cônjuge algum. Não estou desesperado. Não quis vê-lo propositalmente. Dê-me as chaves quero sair da- qui! mAriA (provocativa) Não é digno de recebê-las de mim.

gercindo Jogue-as sobre a cama. mAriA Marlúcia acabou de arrumá-la. gercindo Não seja tola. Dê-me as chaves! mAriA Só se prometer se casar comigo.

gercindo Não posso casar contigo. (se olham em pausa) Na verdade não quero casar-me contigo!

mAriA Terá terras; terras minhas e do falecido. Poderá viver com todo o luxo que quiser e usufruir todas essas porcarias de que tanto faz questão, e pelas quais tem sido motivo de chacota nessa casa. Até meu pai tem levantado risos com seu nome entre a peãozada.

gercindo (descontente) - Pois seu pai não passa de um velho turrão que come mato e coça o saco na frente de suas visitas. Não me importo com o que falam nessa província, estou aqui apenas a negócios!

Maria solta gargalhadas e dá de ombros.

mAriA - Negócios? Minha Nossa Senhora do Ó. Toma tento seu desviado da graça divina e do Espírito Santo. Ora essa, negócios!?

gercindo - Sim, negócios que trarão a felicidade que tanto almejo. E olha que não se trata de charque, como tem mergulhado seu tão adorável papai e cunhadinho.

mAriA (ajeitando os seios com maledicência) - Pois bem, sabemos os dois que a sua parte de felicidade se encontra embrulhada dentro das calças de Lúcio. Sabe muito bem disso, não se faça de rogado, nem me faça lembrá-lo disso em outros momentos inoportunos, senhor Gercindo de Medeiros!

gercindo (descomposto) - Como consegue? mAriA - Consulte nos seus livrinhos, oras! gercindo Dê-me as chaves!

Ouve-se o som da batida da porta. Maria segue até Enrico que está de volta à cena. Está inseguro, estático, ao fundo do palco. Cai a luz vertical sob foco em Enrico e o cenário novamente se torna acetinado. Segundos depois se move um passo para frente. Está inquieto, trocando objetos de selagem entre as mãos. A luz se normaliza.

mAriA (admirada) - O que quer Enrico? enrico (cabisbaixo engole seco a saliva) - Patrãozinho! mAriA (espanta-se) Como!?

e nrico (ergue a cabeça sem olhá-la diretamente) É ... é o gringo. Não é isso, dona senhora! Quero dizer que a mensagem a ser tratada é com o senhô Gercindo.

mAriA (interessada) E do que se trata? gercindo (revoltado) - Que atrevimento é esse, Maria?

Não vê que o moço traz assuntos a serem tratados com a

minha pessoa?

mAriA - Então, que assuntos podem ser? Se os são comuns, posso ouvir e saber de antemão.

gercindo (incisivo) - Deixe de atrevimento!

mAriA Veja só minha Nossa Senhora da Piedade! Auto lá! Veja bem como se dirige a minha pessoa, doutorzinho de meia tigela. Não sabe que sou uma viúva direita! Além de tudo sou uma senhora cristã, e o senhor, mesmo que eu duvide, é um homem e não deveria estreitar-se tanto assim.

gercindo - Eu, estreitando laços contigo? É muito caprichosa. (dirige-se a Enrico, estático a espera) Do que se trata, peão?

enrico (limpa a garganta) – É

...

é seu gringo. O senhor

dono não gostaria que eu fizesse o favor de levar o senhor

até a cidade? Claro, se o senhor dono não importar- se de coxear nos cascalhos e nos paralelepípedos. Mas garanto uma vista para lá de bonita na planura dos varzedo que encontramos no caminho. E quase toda hora, se depender do sol, tem cavalhada. E se o senhor dono decidir fazer alguma coisa demorada por lá. Nas noites sem lua as estrela ilumina a madrugada dando asas no coração e podemos até fazer fogo de chão e queimar os beiços de chimarrão. Se o senhor dono quiser é meu caminho e vou seguir por hora!

Pausa.

mAriA (admirada e ríspida) – Enrico!? Coloque-se no seu lugar, guri! Onde já se viu oferecer serviço de bom

grado enquanto tem mais o que fazer na estância?!

enrico – É

é dona senhora não tô oferecendo de

... bão grado, não. É a mando de vosso senhor pai que me

atrevi. Sei que falo demais de vez em quando, mas é que ele quer bem o moço bonito.

mAriA (estupefata, caminhando de um lado para o outro) – Mas minha Nossa Senhora da Luz, ilumina meu ca-

minho que a vista está ficando turva. Meu Pai Celestial!

Preciso já rezar uma novena, uma não, duas, três, dez

Padre Nossos e vinte Ave Marias até espantar a verti- gem que me possui.

gercindo (incisivo, olhando-a) - Dê-me as chaves ago-

ra!

Maria cruza o palco com as mãos na cintura, veste a mantilha entregando as chaves a Gercindo e sai de cena. As luzes se apagam.

Fim do Primeiro Ato

segundo Ato

A bre-se a cortina para o segundo ato. Luz

amarela sobre mobiliário escasso. Mesa,

cadeiras, leitoa sobre a mesa, guarnições,

pratos e talheres. Estão sentados à mesa do lado esquer- do do palco: Lúcio, Marlúcia e Gercindo. Do lado direito em perfil estão: Enrico, Maria e Nairde (a mãe, magra e exageradamente maquiada, em desacordo com o vestido florido e o lenço sobre a cabeça) Na cabeceira, vindo do fundo do palco, está Miranda – o pai, grisalho, roliço e peludo com a cabeça afundada em um chapéu – devorando com as mãos uma parte do pernil da leitoa em constante vigia de seus convidados.

lúcio (presunçoso, erguendo as sobrancelhas) - Castilhos é a suma ideia. Sua morte não diminui sua autoridade. Foi um visionário convicto e não me canso de rememorá-lo.

gercindo (descontraído, ao tagarelar com uma cartola e sobrecasaca preta) - A reprodução riograndense de Comte, seu mentor!

lúcio (interrompe) - Um visionário!

gercindo (incitando com sarcasmo) - Em busca de uma metodologia utópica!

mArlúciA (num sopro murmurado) - Eis que temos um socialista à mesa!

lúcio (altivo) - Gercindo não segue correntes.

m A ri A (irritada) Ai, ai, ai, ai, ai, minha Nossa Senhora Rainha e Mãe dos Homens! Traga paz a essa mesa corrompida por ovelhas desgarradas de seu rebanho. Não sei o motivo de insistirem tanto nesses assuntos indi- gestos quando estamos à mesa. (faz o sinal da santíssima trindade, ajeita o guardanapo sobre as pernas e volta a olhá-los todos com expressão de consterno) Deus exige tão pouco de nós para que o ignoremos! Deviam rezar mais, sabia?!

Pausa incômoda.

lúcio (sorridente) - Não podemos deixar nosso Estado nas mãos de neocastilhistas. Os verdadeiros castilhistas, sim, devem dominar não só o Sul, mas todo o país.

gercindo (sarcástico) - Ainda insistem em dizer que

os critérios desse Estado sempre foram os ideológicos.

Será que nunca o fora fisiológico? lúcio (intermitente, pigarreando) - Preferiria o equívoco,

a pensar que tem o interesse de contrapor as ideias aqui

apresentadas?

gercindo (intimidado) - Sei que sou um mero convi- dado, mas insisto em dizer que o senhor deveria impor- tar-se com o esforço realizado pelo governo em expor- tar a carne que produz. Senão posso contar uma piada! (sorri afrouxado).

mAriA (sardônica) Respeite-nos, é uma hora sagra- da. Deus não iria gostar, meu caro. (olha para Lúcio subi- tamente) Senhor Lúcio, meu cunhado, ouvi boatos sobre a caríssima batalha de engenharia contra as bravezas da barra de Rio Grande, para assegurar o tráfego marítimo e reduzir o assoreamento para ampliar o calado. É fato

toda essa especulação?

Gercindo não resiste e solta risos chamativos, em- bora contidos.

mAriA (virando-se contra o visitante) - Não costumamos rir com coisas sérias, senhor. Algum problema?

enrico (tosse) - Daí tchê! Que é um calado? E piada é para lá de bão, faz escarnecer de alegria o pajador fronteiriço que, há tanto longe do pago sem afago, desvanece. A peãzeira cansada da brisa leve do pampa se achega, arria as égua, se junta com os outros em vorta do fogo de chão e debaixo daquela garoa nós dobra o cotovelo a madrugada inteira.

mAriA (em sopro de voz) Minha Nossa Senhora Rainha, Vencedora e Três vezes Admirável de Schoenstatt. Não

sabe o que é um calado, guri? Está acendendo muito

fogo de chão ultimamente com a peãozada. Precisa se

ocupar com outras coisas. Em que mundo vive?

gercindo (ignorando-a, dirige-se a Enrico) - O calado é a distância entre a superfície da água em que a embarca-

ção flutua e a face inferior da sua quilha.

mArlúciA - Se o peão não sabe definir o calado, cer- tamente não saberá decifrar o seu vocábulo por demais apurado, senhor Gercindo.

Pausa incômoda. gercindo (ignorando-a, depois de um lapso) - Então

Enrico, esse é teu nome? Pois bem, fale-me sobre a

Bolívia! mArlúciA - Este Estado oferece o privilégio étnico

que lhes permite manter a língua. Por que não admiti-

lo?

enrico É. É. Desculpa a ignorância, mas não entendo essas coisas que os senhores patrão falam (com sorriso contrito).

mArlúciA (excitada) Claro que não!

gercindo - Este Estado também sustenta os mi- neiros, não? Ah, tenho uma ótima, só para resfriar os ânimos: num posto da polícia ferroviária, próximo à fronteira, fazem a triagem dos que passam para o Brasil. O guarda, uruguaio, interpela um motorista: - Usted es bra- sileño? - Sim senhor. Nunca robó? Não senhor. Entonces, no es brasileño (cai na risada, tentando comentar a piada).

Pausa incômoda. Cai luz laranja em foco sobre a mesa.

mAriA (compondo-se do silêncio) - Ele não é boliviano. É de origem italiana; nascido e criado em nossas terras. Seus pais são falecidos e os irmãos se embrenharam nas matas atrás de pedras, e sabe lá do que mais.

gercindo - Queiram desculpar-me, mas, então o único sulista aqui é o peão!?

enrico - Num precisa se desculpar, não senhor. Minha mãe nunca foi feliz aqui, nem meu pai. E eles devem de tá feliz por demais lá onde eles está (pausa). E nossa família teve uma misturada danada mesmo.

nAirde (num sopro de voz, dirige-se a Gercindo) - Senhor, as terras não definem a natureza de ninguém. Está certo

que não somos daqui do Sul, mas somos donos da terra em que vivemos. E aprendemos muito com as pessoas daqui, inclusive um ditado bem popular que diz que a cavalo dado não se olha o pelo. O senhor está bem

acomodado?

gercindo - Identidade cultural e nacionalismo são conceitos que geralmente caminham juntos. O naciona-

lismo é uma doutrina ideológica que visa obter e manter a autonomia, unidade e identidade em nome de um grupo humano que, segundo alguns de seus componentes, constituem, de fato ou em potência, uma nação. Penso

que é basicamente isso a intenção sulista e de lambuja de

alguns regionalistas que querem fincar raízes nobres em

terreno alheio!

mirAndA (se levanta alterado, batendo forte na mesa) - Ora, pois saiba que casco de boi velho, onde senta, não escorrega! Te recebo de braços abertos aqui na estância, mas parece que o senhorzinho quer afrontar a mim e a

minha família?

gercindo (acuado, porém, mantendo o tom) - Perdão, senhor Miranda. Respeito muito vossa família, sei que ...

mirAndA (interrompendo, aos berros) – Não tem que desculpar nada não, filho. Sei bem aonde quer chegar com essa conversa inflamada. Sou macho. Tá certo que

eu só tenho filhas mulher, mas tenho um neto que foi

pro mesmo lugarzinho que o senhorzinho tava. E vai voltar pra Rio Pardo falando até melhor que o senhor, e com menos frescura, isso eu garanto! Porque o sangue dos Miranda tem honra. E garanto mais, ele é daqui de

Rio Pardo, e nós somos lá mesmo das Minas Gerais, com orgulho. Ninguém aqui nega a raça, não, e somos brasileiros caipiras, comedores de pão de queijo, sim senhor, e nossa mesa é farta mesmo. É bão o senhor aproveitar tudo sem cerimônia!

gercindo (consternado) - Eu não tinha a pretensão de ...

mirAndA (incisivo) - Eu vim de Minas Gerais, sim, vim com uma mão na frente e outra atrás. E só consegui

essa coxa de frango pro senhor finca os dentes à custa de macheza (bate forte na mesa), trabalho pesado debaixo de sol. Não tô querendo te faltá com o respeito, não, mas o senhorzinho pediu. É convidado de meu genro, já tá hospedado aqui tem tempo, quando foi que te

faltamos com respeito?

gercindo (respira fundo) - Que eu me lembre nunca, senhor, mas ...

mirAndA – Entonce. É simples por demais onde tô querendo chegar, num tenho estudo, não, mas minhas filhas têm, não igual o senhor. Admiro esse povo e aqui é o berço do progresso pra quem gosta de trabalhar

e não vive torrando o dinheiro que não te pertence e mais, cavalo bom e homem valente a gente só conhece na chegada.

nAirde (veemente) - Miranda, meu marido, não acha que tá exagerando por demais? O rapaz não precisa

saber da história da sua chegada aqui, não. E acho que

não tem ninguém aqui nessa mesa que não tenha ouvido você contar isso por menos de cem vezes!

mirAndA (berrando) – Má! Tá querendo me atravessá, muié? Eu posso não usar palavras bonitas que nem ele,

mas tô querendo é manter o rumo da prosa, de modo que nós todos nos entenda. Tá se sentindo ofendido,

fio?

nAirde (trepidante) – Não acredito que vão continuar com isso. Minha filha prestes a se casar e um convidado

vem se meter onde não cabe! Quem o senhor pensa

que é?

g ercindo (cada vez mais acuado) – Respeito vossa posição senhor. Mas ...

mAriA – Minha Nossa Senhora dos Remédios! Chega! Acho que já está de bom tamanho a conversa dos dois.

E pai, sabe bem que não gosto quando usa o nome do José Luiz em barganha de suas pretensões.

Pausa incômoda.

nAirde (em baixo tom, com rancor) - O vestido é o mais belo que já vi. Não existe coisa tão bem feita!

gercindo (desabotoando a sobrecasaca) - Foi-se o tem- po que roupa era feita só de linho, veludo ou jérsei. Criava-se um modelo, cortava o pano, costurava-se, e pronto. Franceses e espanhóis já se deleitaram com tra- jes com golas de babados ou um e outro bordado. Hoje estão ousando, considerando um estilo aquilo com que se veste o corpo, aspira-se alta-costura inglesa. Pratica- mente, França já não existe mais. O novo século que nos aguarde!

Todos sugam a sopa, observando Gercindo conver- sar.

m A ri A (ignorando-o) - Não insistiu com algo tão formal assim em meu casamento, mamãe!

nAirde Não me lembro de ter me dado permissão para ajudá-la. Deus é tão onipotente em sua vida, não quis interferir!

mAriA Não use o nome de Deus em vão, mamãe. Nem ao menos para justificar suas decisões. Nada se

omite a Ele. Rezo todas as noites duas Ave Marias para Nossa Senhora das Sete Dores do Calvário livrá-la dos sofrimentos da velhice. Não suportaria vê-la aos berros encostada, pedindo água para matar a sede, comida para saciar-lhe a fome e fraldas. Reze, mamãe! Reze para se

purificar do mau agouro alheio. E mais, não me lembro

de Marlúcia pedindo-lhe permissão para ajudá-la. mirAndA (aos berros) Calem-se as duas maritacas!

Já disse que não quero discussão na hora da comida. Tem muita coisa boa a ser discutida: o gado, o café, o milho,

o leite e muitos negócios. Afinal, não são todos os dias que se casa uma filha honrada com um fazendeiro de boa família, não é, fio? (dirigindo sorriso a Lúcio, que mastiga continuamente silenciado).

mAriA Está insinuando alguma coisa, meu pai? Como uma senhora devota, não admito que ...

nAirde (interrompendo-a) - Não se exalte, filha. Não na frente da criadagem!

lúcio (engole a comida e intervém) - Sinto muito não ter trazido meus pais, mas, estão em negócios importantís- simos em Portugal e ...

mirAndA (interrompe) Entendo bem desses assuntos, fio, não é preciso desculpá. Gente granfina e estudada

têm dessas coisas mesmo e não me envergonho de ter conquistado tudo que tenho pelo esforço, a cabeça é boa pra contar.

mAriA (irônica) – Meu pai tem de cor o número de gado que possui. As fazendas, os funcionários, tudo.

Não é meu pai?

Pausa.

enrico Há cachorro na cancha? Quando é que vamo capar os cachaço, senhor?

mirAndA (intimidado) - Logo, fio, logo!

enrico (disparado) - Óia, tem cada um mais maludo que o outro! (começa a expressar-se com as mãos) Uns desse tamanho, só de malote.

m A ri A (incisiva) - Coma com os talheres, Enrico! Não é adequado comer com as mãos quando se está à

mesa. Não vê que todos o observam!

nAirde Deixe o pobre, Maria. Cada um tem o seu estilo. lúcio Isso não é um estilo é apenas falta de educa ... g ercindo (interrompendo) - Não acredito que seja falta de educação. Até agora ele não destratou ninguém aqui dentro, ao contrário de outros. Pausa. Os olhares se voltam para Gercindo. gercindo - Falei algum desagrado? enrico (com a boca cheia) - Posso comê lá no quintal, se incomodo! mirAndA Não, cê é meu convidado. Aquieta aí! lúcio (acelerado, mudando a conversa) - Já não bastasse a construção da estrada de Ferro de Porto Alegre a Santa Maria, o que enfraqueceu os nossos portos. Agora falam em ... gercindo (interrompe com empolgação) - O comércio de Rio Pardo ficou abalado. As estâncias não dependem

mais de seus produtos. No entanto, senhor Lúcio, a

agricultura e a pecuária deram um salto na região, e pelo que consta, anda fazendo mais que um pé de meia com o arrendamento de terras e a exploração dos alemães da Santa Cruz do Sul.

lúcio (pigarreia) - Então, senhor Gercindo, soube que sua mãe está na Argentina. Ouvi dizer que ela tem como sonho vê-lo enfeitiçado por uma senhora gaúcha, ou se não me engano, qualquer senhora que use saias!

Todos deixam escapar pequenos risos, deixando Gercindo contido.

m ir A ndA - Não sei onde é que os dois querem chegar, mas tudo bem. (pausa) O porto foi responsável por anos de prosperidade pra nós de Rio Pardo. O

progresso traz dificuldade também; isso é normal em

qualquer lugar. Lembra que nós viemos de Minas. Lá

não é pior?

mArlúciA - Então, meu pai. Penso que já combinou a decoraç ão da igreja com a Auxiliadora, o padre Gusmão não quer nada que ofusque a decoração original da Matriz. Quero que seja o casamento mais lindo da Igreja da Matriz Nossa Senhora do Rosário

para entrar na história desse Estado! Vai ver como seremos conhecidos e respeitados nos quatro cantos!

mirAndA (veemente) - É uma responsabilidade do seu marido. Da festa cuido eu, já disse!

lúcio (engasga) - Ah, sim senhor, claro! Não sei por que Marlúcia continua aporrinhando o senhor com pormenores.

mArlúciA (excitada) - Ora, Lúcio! (em outro tom) Papai?

mirAndA - O rapaz tá certo. O casório vai ser na Senhora do Rosário, e não precisa ficá repetindo isso.

Mas voltando ao que interessa, meu rapaz. E essa confusão opondo a chimangada contra os maragatos,

o que me diz de mais essa tática política prejudicando

nossos negócios?

mArlúciA - Não, meu pai. Nos recusamos a com- partilhar desses assuntos indigestos. Não o responderá, Lúcio. Por que não falam sobre política e trabalho na

hora do cafezinho?

m A ri A (vaga) Me casarei outra vez! (chamando a atenção de todos e fazendo jorrar vinho da boca de Gercindo) E

quem sabe dessa vez, ao invés da Capela São Francisco,

um recinto mais imponente?

mArlúciA (astuta) Ora, mas que surpresa, Maria. Não poderia chegar em melhor hora. Mas, quem pediu

sua mão ao papai? Papai!? Não nos disse nada!

m ir A ndA (enraivecido, batendo na mesa) – Mas que desgraça é essa?

m A ri A (incisiva, impulsionando a cadeira para junto de Gercindo) – Mais respeito a minha Nossa Senhora do Amor Divino, papai. (em outro tom) Eu não mereço ficar solteira pelo resto da minha vida, mereço? (admirada, olhando Gercindo bem de perto).

Exaustivamente nervoso Gercindo limpa a boca e coloca mais vinho na caneca.

mAriA (tenra) O senhor Gercindo de Medeiros e eu estávamos um tanto apreensivos com a novidade. Claro, não teríamos nos entendido se não fosse a generosidade do meu cunhado. Já era hora de minha Nossa Senhora Desatadora de Nós atender minhas preces e devoções. (muda o tom com eloquência) Não é um despautério, papai!? O

amor não bate a nossa porta por acaso e nem conta a hora de chegada!

n A irde (saturada) - Miranda, faça alguma coisa! Ponha modos nessa menina!

mAriA (incisiva) – Modos, minha mãe? (enfática) Uma viúva convalescente!

nAirde (imperativa) – Mais um de seus despautérios. Toda culpa é do seu pai que nunca me deixou bater com vara de amora em vocês duas. Já não bastasse o escândalo daquele casamento forçado com aquele senhor decrépito que mal andava direito e os falatórios sobre a tez escura do meu netinho Zé Luis. Agora quer nos aprontar mais essa? (veemente) Não se esqueça do motivo principal de nossa vinda para cá. Não se esqueça!

mirAndA (vago) – Não vai manchá a honra dessa família mais uma vez, não. Sua mãe tá certa!

m A ri A (sardônica) – Honra, meu pai? Que honra? (enfática) Minha irmã não fala nada? Meu cunhado? Ninguém vai depor à minha defesa? (eloquente) Nem minha santíssima Nossa Senhora da Guia guiará meus

passos?

nAirde (incisiva) – Deixe de sandices, Maria. Vive em blasfêmia se escondendo atrás desses santos de barro.

mArlúciA (assustada) – Minha mãe. Não precisa tanto. (mudando o tom) Maria anda muito solitária e certamente vai repensar seus modos e essa decisão descabida de se

casar tão logo assim tão de repente, não é, minha irmã?

mAriA (incisiva) – Não é não, senhora! Já conversei com meu noivo e marcamos inclusive a data. Será no dia do seu casamento. Aproveitaremos todos os convidados que são os mesmos, a igreja, a festa, todos os apetrechos escolhidos pela família por duas grandiosas celebrações. E não me venham com desculpas! Essa é a vontade de Deus. Sempre o ouço falar em meus ouvidos antes de dormir e nas horas em que me levanto exausta dessa vida abnegada.

nAirde – Mas era só o que me faltava! Minha filha enrabichada com um sinhorzinho de vida fácil.

g ercin do (alterando-se) Vida fácil!? Não, senhora! (muda o tom pausadamente em preocupação) Com todo o respeito, mas o que a senhora quer dizer com isso?

mirAndA Má. Chega disso!

g ercindo (consternado) – Passei a maior parte da minha vida estudando, viajando, descobrindo coisas e aprendendo mais sobre o mundo e as pessoas para a senhora me tratar assim. Não tenho culpa de ser herdeiro de uma boa família, não faço questão nenhuma disso, mas ...

nAirde – Boa família!? Não me venha com essa

conversinha mole, não. O que é quê vem dizendo para

iludir minha filha, seu ...

gercindo (interpelando-a, ofendido) – Ora bolas, não importa minha posição nem o lugar de onde falo. Nun-

ca em toda a minha vida fui tão humilhado como agora!

Como ousa, senhora? mirAndA (alterado e irritado) - Má. Vâmo pará!

nAirde (aos berros em ataque ao marido que permanece sentado) - E você, homem!? Não vai fazer nada, não? Cadê sua macheza que não coloca esse de vereda daqui.

mArlúciA (eloquente, dirigindo-se à irmã) - Não entendo o porquê de tentar me atingir. Papai, não aceitarei essa ousadia!

nAirde - Não vê que é só um capricho de Maria. Já basta, Maria!

m A ri A - Não me calo, minha mãe! E não quero prejudicar ninguém. Só quero me casar, só preciso dos apetrechos para que isso aconteça. Não me importo com presentes, que sejam todos de Marlúcia. (altera-se) Só preciso de um homem, meu santo Deus! Por que estão fazendo toda essa tempestade quando o que está em jogo é a minha vontade? (abaixa o tom exasperada) E, claro, da minha Nossa Senhora da Boa Nova!

nAirde (relutante) - Não fale besteiras, Maria.

mAriA - Que besteiras, minha mãe? Então, papai, qual a sua posição?

Gercindo engasga com o vinho, sendo socorrido por Enrico.

mirAndA (sem olhar para a filha, cabisbaixo, observando o copo de vinho) - Fia minha só tem meu consentimento quando ouve minhas palavras. Não quero ter que te

pôr respeito nessas alturas da vida. E o senhô? Não

acha que tá causando desavença demais numa família cansada da luta, não? (silencia-se cabisbaixo) Podemos

ir pra sala agora! Ficaremos mais à vontade lá. (sai levando a esposa e Enrico) Venha, fio! (pegando Enrico pelo braço).

lúcio (veemente ao se levantar) - Pode ir senhor. Eu, eu irei após a sobremesa.

mArlúciA Não demora! (sai depois de abraçá-lo). Permanecem em cena Gercindo, Maria e Lúcio.

lúcio (bate forte na mesa, alterado) - O que pensam que estão fazendo? (atento, diminui o tom) Sabe quem somos?

mAriA (alterada) - Não adiantará nada ficar aos berros. Querendo ou não Gercindo se casará comigo.

gercindo (fatídico) - Eu tenho sentimentos. Como é que me colocam assim entre suas paixões? Tenho

direito de escolher o que quero para mim!

lúcio (de um lado para o outro em ira ao mesmo tempo em que Gercindo murmura) - Acha que trazendo seu cônjuge para sentar-se em uma mesa de família estará

escolhendo o que é seu por direito?

gercindo (inquieto de um lado ao outro em balbucios) - Enrico não é meu convidado. Com que direito faria

isso? Estava em serviço com o senhor Miranda, eu os acompanhava. O fazendeiro convidou-me para o almoço e não quis ser indelicado em não estender o convite ao serviçal. (altera-se) Afinal de contas a criadagem aqui nessa estância não pareceu ter hábitos diferentes aos dos patrões, até conversam sobre intimidades! (irritado e veemente) E mais, seus ataques de ciúme não me atingirão! Por que não pensou nisso antes de decidir se casar?

mAriA Calem suas bocas, agora! (acalma-se) Querem que o mundo todo saiba de seus atos deploráveis? Eu sei

o que é melhor para os dois, só serão felizes impedidos de se tocarem.

lúcio (enfático) Não pode decidir o que é melhor para mim!

mAriA (veemente) Mon cher, quer sair à ponta pés de Rio Pardo? Enxotado em praça pública ou ser apedrejado?

Quem sabe, por ser de sociedade, pegue apenas alguns

anos de cadeia e passe a comer o charque que tanto se

orgulha de vender aos pobres? g ercindo (incrédulo) Não acredito que os seus

caprichos sejam tão agudos a ponto de planejar tudo isso. (enfático) E todas essas malditas santas invocadas? E esse Deus, ele é tão amargo assim? (diminui o tom) Só distanciará Lúcio cada vez mais de sua vidinha medíocre (sai consternado).

l úcio (respira fundo) - Não está pensando em Gercindo.

mAriA E você meu cunhado, por acaso está? O pobre nem enxerga um palmo do terreno arenoso em

que está pisando. E a mim? Quando foi que alguém pensou em mim?

lúcio Não há como ficarmos juntos só por um capricho seu!

mAriA (surpresa) Capricho!? Não queira forçar-me a retirar da canastra lembranças das quais tanto quis esquecer, senhor Dniester. Casando-me com Gercindo estaremos sempre juntos. É fato!

lúcio Irei para Portugal. mAriA Também estarei lá. lúcio Não pode fazer isso!

mAriA Já não há meios de voltar atrás (sai).

lúcio (joga pratos no chão) - Demônios! Como pode alguém ser tão petulante no mundo? Sua loucura ul- trapassou os limites da moral, e ainda se mete na vida alheia. Só a morte poderia impedi-la de fazê-lo. Eu não! Sequer pagaria por tal, mas posso fazer com que sofra em seu próprio plano!

Gercindo volta à cena, está em prantos.

gercindo (raivoso) - Diria a todos o que se passa contigo, “futuro candidato à república”!

lúcio Desde quando sabe de minhas afinidades políticas?

gercindo Desde que arrancou tuas calças para se deitar comigo.

lúcio (seriamente) - Esta é uma casa de família e sabe que poderá trincar alguns princípios com sua rudeza.

gercindo – Pensa que traindo o coração de Marlúcia não estará trincando todos os conceitos dessa família? (Gercindo gargalha ao mesmo tempo em que chora) Veja só como te camufla (aplaude Lúcio), já se porta como um qualquer

da região. Igualzinho a todos eles; acham-se melhores que o resto do país e na roda de chimarrão reúne-se o ítalo, o teuto, o nipo, o luso, o negro. Achega-se à chama crioula o bem empregado, o mal-empregado e o desempregado; o esquerdista, o centrista e os direitistas; os com muito, os com pouco, os sem nada. Pensas estar por cima da carne seca, seu Lúcio. Pois bem, não estarei próximo para não sentir o odor do que vai parar no seu estômago. Não me casarei com Maria, não é minha vontade (sentando-se).

lúcio Não é preciso que o faça. Por que não se manifestou contrário durante o jantar?

gercindo (exaltado) - E correr o risco de ser piso- teado no meio da casa? (com lágrimas nos olhos) Eu não quero um futuro incerto com pedras sendo atiradas em minhas costas (dá-lhe as costas).

mArlúciA (entra) - Quem terá pedras atiradas nas costas?

lúcio (esquiva-se, oferecendo carícias à noiva) - Ninguém! É simplesmente uma expressão que usamos quando estamos com muitos credores.

gercindo (pega sua echarpe, o chapéu e sai aos murmúrios) - Odeio saber que os falsos continuam progredindo neste país permissivo. E odeio mais saber que fazem tudo para alcançarem poder!

lúcio (comovido) - Espere! Gercindo para, mantendo-se de costas. lúcio Não é contra a minha vontade. Gercindo sai.

mArlúciA (comendo sobras da mesa) - Não gosto de homens misteriosos como esse seu amigo. Está certo que nos entendemos bem quando o assunto é alta- costura, pois saiba que entendo até mais que ele das últimas tendências e, muitas vezes, trocamos figurinhas. (acaricia Lúcio) Mas, ele me espanta! É fechado, até hoje não consegui saber por que perambula por nossa casa. O porquê de seus babados e rendas. Consegue ser mais luxuoso que a tia Cora!

lúcio (distante) - É? (atenta-se) Vê isso nele? Ele é meu corretor.

mArlúciA E muito seu amigo, não?

lúcio (reflexivo) Muito!

Lúcio pega Marlúcia pelo braço e cruzam o palco. Ela tenta acariciá-lo, enquanto Lúcio permanece distante em sua contrição. As luzes se apagam.

Fim do segundo Ato

terceiro Ato

A brem-se as cortinas. Acendem-se luzes horizontais brancas, iluminando um painel ao fundo com a imagem aberta da Ponte

do Couto sobre o lago e a mata. Num momento de introspecção, Gercindo, em uma espécie de monólogo, lê um livro sentado sobre uma grande rocha. Após a

simulação da leitura fecha o objeto e o repousa sobre as pernas, observando o céu iluminado de estrelas.

g ercindo (contrito, falando sozinho) Por que me olhas, se não consegues me ver? Talvez porque essa

seja a única coisa com a qual tenho tido preocupação nesses dias (suspira). Ou simplesmente uma vontade pouca que espero ser consumada! Não é comiseração, Lúcio Dniester. A afeição que procuro não chega a tanto. Não como espero, da maneira que busco e sempre busquei retê-la. Pode ser que esse seja o maior

erro dessa existência. Ser subversivo quando a realidade humana é somente “reacionária”. Quando o deleite é o único compromisso latente no corpo e na cabeça de um homem, apartando o terceiro que lhe oferece esse caminho.

Lúcio surge em cena de forma sub-reptícia inter- rompendo-o.

lúcio (censurando-o docilmente) - Cale-se! (aproxima-se lentamente até ficarem de frente) Tem sido subversivo, sim, por razões tolas, por causa desses livros que insistem dizer a verdade sobre tudo, e pela burrice que tem em acreditar nisso. Volte para casa. Esqueça Rio Pardo. Não é de seu feitio dar pé a essa loucura. Volte para o Rio de Janeiro!

gercindo (altivo com lágrimas nos olhos) - E continuar sendo pressionado por minha mãe a todo o momento

querendo que me case a qualquer custo!?

lúcio (afasta-se desmotivado) - Veja só. Por que é tão difícil agradá-lo?

gercindo (secando as lágrimas com os babados da camisa) - Não me venhas com lorotas, Lúcio. Não é disso que

falávamos, não tem a ver a pressão que minha mãe faz tentando se iludir quanto às minhas afeições, e sim da sua ignorante capacidade de observar a minha pessoa.

(faz uma pausa e observa o ambiente a sua volta, respira fundo

e volta a atacar Lúcio) Entendo que negócios, status e dinheiro sejam os pré-requisitos para o respeito nesse país. Até discordo dessa política elitista e excludente. Mas me admira você se deixar levar por isso.

lúcio (ríspido) - Age como uma menina, como vai querer entender sobre negócios? Quando vai começar a pensar? Nunca!

gercindo - Oh Mon Dieu! A cada momento me surpreendo mais contigo. Veja só, até parece teres nascido e se desenvolvido à margem das diferenças e contradições de classes. Tens inveja dos gaúchos que possuem terras e fama de vencedores, é isso? (eloquente) Todos, humildes e potentados, os mesmos hábitos, os mesmos costumes, os mesmos ideais. (sarcástico) Uh! Um mundinho em que patrões e empregados alimentam- se com o mesmo churrasco e o mesmo chimarrão, cavalgam os mesmos animais e juntos entregam-se às

mesmas fainas dos campos, às mais velozes correrias, mas que depois, depois se estranham entre si, não faz mais parte do resto porque se consideram superiores. Muito superiores, o suprassumo (altera). Tenha paciência, homem! Veja como tens mudado de uns tempos para

cá. Não é o mesmo, aliás, quem és? Que necessidade é

essa de magoar quem te gosta por uma satisfação, um vislumbre que lhe veio aos olhos e ofuscaram, torrando-te

o cérebro? Tenha dó! lúcio (complacente) - Nunca lhe prometi amor.

gercindo (afetado com olhar rijo) - Deves não tê-lo prometido nunca mesmo, pois não saberias como dá-lo!

l úcio (incisivo) - A você, talvez não. Porque não compreendo o que borbulha dentro dessa cabeça. Por

que fala tanto? Por que reclama tanto se as coisas não são nem a metade disso?

Enrico entra em cena.

enrico (fortuito se mantém distante) - Licença. Tem uma carta para o senhor dono Gercindo.

gercindo (ríspido) - E vós, sempre aparecendo nos instantes mais “fortuitos”! Dê-me o envelope! (abre-o e analisa o peão ao observá-lo) Vais continuar me olhando aí parado, peão?

Enrico atravessa o

palco

de

um

lado

ao

outro,

inquieto, observando Gercindo.

gercindo (indo em direção ao peão) Não falei para andar feito uma barata tonta. Quero que saia!

enrico (saindo) Tá certo senhor dono, é o senhor que manda!

gercindo (contrito) E deixes de bancar o pobre coitado! Nunca entendo o que esse infeliz fala, muito menos o que fazes. lúcio (afável) - Então, o que diz a carta?

gercindo Desculpe-me, mas não é de teu interesse saber o conteúdo desta carta.

lúcio (sarcástico) Aposto que ela arrumou outra filha de uma de suas amigas para lhe amarrar o laço de

seda no pescoço e selá-lo com uma aliança!

gercindo (irônico) - Meu senhor, até quando conti- nuarás atentando-me com vossa falácia? Quer de mim um descontentamento maior do que o que lhe sirvo?

Saía daqui, sei que são seus pretensos familiares, no en- tanto, lhe peço que respeite esse espaço e me deixe em paz. Quero que saia do meu caminho e evite dirigir a palavra a minha pessoa, pelo menos nessa hora em que recebo notícias de minha família.

lúcio (cínico) - Está desnorteado e não tem artifícios nem argumentos, por isso usa do despautério para tentar me diminuir. Vou deixá-lo sozinho se é isso o que deseja. Não reclame depois, caro hóspede!

Gercindo cospe e atira as luvas no chão, expressando descontrole e rancor. Caminha acelerado em círculos, fazendo a leitura da carta que lhe foi entregue. A cena é acompanhada de trilha sonora. Gercindo externa sofrimento durante a leitura. O solo de piano da “Canção do Poeta do Século XVII” de Heitor Villa-

Lobos inicia-se paralelo à leitura e segue até o final da

cena onde Gercindo, após a leitura silenciosa, inicia

momento de reflexão em uma espécie de monólogo

performático. A cena é composta de luz branca vertical e um pequeno cabide no qual estão penduradas roupas e um chapéu.

gercindo (enquanto desempenha o monólogo, Gercindo troca a roupa vestindo um smoking) - Não tenho sabido direcionar minha vida, nunca soube. Mesmo quando criança. Mimado como nunca, pirralho mimado fazendo birra por tudo aquilo que acreditava ambicionar. Na verdade nunca soube o que queria de verdade, mas justo minha mãe? (altera a voz) Minha mãe!? Como já sabias

que eu me casaria em Rio Pardo se eu estou sabendo

disso há pouco menos de três semanas? Engraçado

como quando se pensa ser dono do seu próprio nariz, a

verdade é que todos a sua volta controlam seus passos minuciosamente. (sorri contrito) A minha identidade é distinta desse povo, cujo único conhecimento que determina sua vivência é a carne que defuma. Cheiram a porcos, cheiram a titica de galinha, cheiram a estrume de vaca! (ofega) Fazem questão de engrossar a voz e coçar o saco para ostentar uma macheza rude e pretensiosa. Ora, o que vim fazer perdido nesse pardieiro! Quando essa tradição será trincada? E minha mãe? Ah Mon

Dieu, uma dama da sociedade carioca mancomunada com essa gente. Lúcio me paga, pagará por cada dor provocada, cada lágrima derramada dos meus olhos,

cada gozo dado quando o amava

E eu? Eu que sempre

... pensei entender tudo sobre o comportamento alienado dessa gente mercenária, não consigo acreditar que fui demasiadamente romântico para me perder num jogo estúpido e descarado. Uma mulher? (faz cara de enojado) Uma mulher! (derrama-se em frustração). Eis por que não

poderia ser um objeto, um conceito ou uma ideia: ela é

um modo de significação, uma forma. Será necessário, mais tarde, impor a essa forma limites, condições de funcionamento, reinvestindo naquilo que sempre evitei:

a sociedade. (grave inconsolável) Se ao menos não me

desprendesse dos mitos, já que estes são construídos por meros discursos suscetíveis a julgamentos. Não acredito que a mitologia tenta recuperar, sob as inocências da vida relacional mais ingênua, a profunda alienação

que essas inocências têm por camuflar. Seria então a mitologia uma concordância com o mundo? Não! Não!

Não como ele é, mas como pretende sê-lo. Não me

posso deixar influenciar por caipiras. Tenho conceitos

e até então mandava nos meus passos. Nem que a vaca

tussa me casarei com uma, uma, uma mulher!? Como me embaracei nessa rede? Minha mãe. Posso solicitá-la.

Não! Ela está metida nisso, Lúcio, ela e Maria. Quem

mais? Quem mais pode estar metido nessa tramóia? Se

bem que desconfiava da amizade deles, sempre. (finaliza a troca de roupa, desfalece com a luz branca enfraquecida ao final de sua fala) Sem falar que ela sempre quis ver-me noivo a todo custo!

A luz se apaga e reacende em penumbra do lado esquerdo do cenário. Uma luz vertical acompanha Gercindo caminhando em círculos. Outra luz vertical

branca focaliza um confessionário genuflexório em

madeira. Gercindo está vestido a caráter. Cruza o cenário e apanha uma cartola pendurada no cabide/ chapeleiro, ao voltar na direção do móvel encontra o Padre Gusmão – negro calvo e rechonchudo em sobrepeliz -, limpando o suor da face com um lenço, ignorando a presença do jovem. Gercindo não controla o nervosismo e agarra o Padre pelos braços.

gercindo (exasperado) Padre, eu preciso que o senhor ouça minha confissão antes que comece a cerimônia!

PAdre gusmão Mas filho, procure o Padre Stefano na Capela São Francisco. A correria aqui é grande e não dá para ouvi-lo. Já estamos na iminência da cerimônia. A igreja está cheia de pessoas e ...

g ercindo (interrompendo-o) - É caso de vida ou morte. Preciso muito que me dê um pouco de vossa atenção.

PAdre gusmão (sudorífero) - Pois que sejas breve!

gercindo (enfático) - Não! Não aqui, Padre. Preciso que seja no confessionário. É coisa séria que pode custar caro mais tarde. (arrastando-o até o confessionário, a luz os segue) Era uma tarde comum e chuvosa quando mamãe me obrigou a organizar as finanças e o fecha- mento do caixa da loja. Fazia apenas dois dias que havia retornado de uma longa temporada de estudos em Oxford. Em meio a tanta selagem e rações, ainda podia sentir o odor sempiterno das ruas úmidas daquela cida- de. O sibilar do vento vindo de encontro a minha face. Apenas esses pensamentos povoavam os meus sentidos até serem completamente arrebatados pelos radiantes olhos daquele sol me invadindo as vísceras. Nunca me

senti tão real e presente no meu próprio e tão negado corpo. Ele caminhou em minha direção, esguio e infor- mal, traçando as vias etéreas e dissonantes dos meus suspiros. Não consegui respirar tranquilo, era como se pudesse tê-lo através do ar que penetrava o meu pul- mão. Embriaguei-me sedento por mais de tudo aquilo exposto diante dos meus olhos, aquelas mãos ociosas apanhando aditivos na prateleira, o dorso sinuoso na roupa justa de cetim e cambraia. Como prestar atenção

em alguém tão desconsertado no modo de vestir? Meu santo Deus, Padre! O que fiz tanto para me amolar dis- so?

PAdre gusmão (sudorífero) – Ainda não entendo sua aflição, filho!

gercindo É claro que entendes, Padre. Pratico sodomia. Não quero casar-me com Maria!

PAdre gusmão (surpreso e arredio) - Podes ser cas- tigado e excluído por praticar esses insanos atos. Ser

isolado da convivência humana não é fácil, podes en-

louquecer. Trate-se filho, seus pais ...

gercindo (interrompendo-o) - Aristóteles já dizia: o acasalamento não é o mesmo em todos e não é feito da mesma maneira.

PAdre gusmão - Não tenho embasamento desse senhor, filho!

gercindo - Padre, Aristóteles é o Deus da filosofia! Como não tens conhecimento?

PAdre gusmão (faz o sinal da santíssima trindade) - Não cometas heresia contra o seu bom Deus, filho.

Peças perdão, depois reze doze Ave Marias, ajoelhado. gercindo (consternado) - Desculpe-me, padre. Não foi intenção a minha exalar absurdos, mas ...

PAdre gusmão (atravessa) - Nunca! Nunca valorize outro mortal no mesmo valor que dá ao seu Deus, se bem que nem sei se é o mesmo a quem tens se dedicado. Pois bem, de qualquer forma, lembre-se de amar a Deus sobre todas as coisas. Escrito nenhum tem valor mais estimado que as escrituras sagradas.

gercindo Mas, e Jesus, não era humano?

PAdre gusmão - Não venhas com outra heresia, filho.

gercindo - Não é heresia, Padre, foi só uma pergunta. Mas, não discutiremos sobre isso, não. Como eu dizia

anteriormente, nos cumprimentamos, ele estendeu sua mão direita e em seguida dei a minha em troca, para ser apertada, de modo que aquecesse a minha mão suada e trêmula. Depois que ele apertou a minha mão fria com força e vigor, levei-a diretamente à boca para sentir o perfume e o sabor que sua pele tinha. Se pudesse nunca

mais lavaria as mãos. Tenho certeza que ficaria feliz apenas em sentir aquele gosto se transpondo útil para o meu peito. Ele não poderia imaginar o imenso texto dentro de mim. Sorria escanteado. Perguntava sobre o valor do frete dos produtos até o seu sítio, queria descontos acima dos permitidos e, até cogitou comprar direto do distribuidor por conta do encarecimento. Nunca conheci alguém tão muquirana e manipulador. (reflete) Mas, Padre, e a aphrodisia?

PAdre gusmão Como!?

gercindo - A aphrodisia, Padre. As obras, os atos de Afrodite; os gestos, contatos que proporcionam

os prazeres. Nada que defina o legítimo, o permitido

ou o anormal. Nada tão característico da questão da carne ou da sexualidade em revelar sob o inofensivo ou o inocente a presença insidiosa de uma potência de limites incertos e múltiplas máscaras.

PAdre gusmão (engole seco a saliva) - Pois bem, fale- me mais sobre essa sua entrega mundana.

gercindo São atos de paixão, Padre! Não tem maldade nessas coisas e, afinal, o senhor está em plena confissão.

P A dre g usmão - E o que é a paixão senão uma intemperança daquele que se entrega aos prazeres

mundanos?

gercindo (disperso em suas reflexões) - O que sinto é tempo. De começo remoto e persuasivo, entrelaçado nas lembranças partidas pelo esquecimento. Inconcluso e devoto. Devora-me! Devora-me, tal como fazem a um banquete! Pois eis que imploro que o faça. À incontinência erótica ao meu amado lúgubre e voraz.

PAdre gusmão Eis que cada homem tem um centro, e neste os elementos da vida se fazem em corpo, cons- ciência e afetos. A fé. Esta sim é um ato de paixão infi-

nita a contemplar de tais sentidos a habitar a totalidade do corpo em consonância à alma.

g ercindo Aflige-me. Inibo-me de mágoas e recolho-me à sobeja!

PAdre gusmão - Recolha toda a inspiração desta alma, filho. Uses todo o impulso deste espírito humano

e reconstrua sua fé em direção ao incondicional. Não peques mais.

gercindo (desencontrado e emotivo) Mas por que a angústia? Diga-me o porquê da razão injusta da

sensibilidade que me contempla a face e os gestos, a boca e o sexo que só se abrasa por quem não versejam. Em face do mal me perco em suas palavras e aos maus

dizeres que insolúveis petrificam as têmporas. Por quê?

PAdre gusmão O espírito humano é peregrino neste mundo e prisioneiro na caverna do corpo. Merece a paz de Cristo. A angústia contradiz a bondade, é sinal maligno no putrefazer da alma ainda em carne viva.

g ercindo (arquejante) Platão! O que ele dizia? Como era mesmo o que ele dizia sobre a liberdade? A

liberdade. A transcendência do corpo à contemplação do inteligível. (desfalecendo em lágrimas ao contorcer-se) O Eros, a pele, Padre. Tão (suavemente) tão viva! Tão quente!

O Padre faz o sinal da santíssima trindade sucessi- vamente.

g ercindo (enfático) - Com mil perdões, eis um equívoco no que pregas. Se a minha paixão é mundana

por se tratar de uma entrega carnal, o que dizer quando essas almas, senão, minha alma é completamente devota à

deste homem? Tudo bem, Platão se opõe claramente à

relação “conforme a natureza”, que liga o homem e a

mulher para os fins da geração, e a relação “antinatural”

do macho com o macho, da fêmea com a fêmea. Mas e a sua paixão pelo sacerdócio, Padre Gusmão; não seria

também uma intemperança? São tantos santos, tanta

renúncia, tantos exageros.

PAdre gusmão (veemente) - Não estou aqui para ter a minha fé questionada. Ainda que tenhas suplicado

minha atenção. Não tem o discernimento, o juízo disso?

g ercindo (consternado) - Perdão, Padre! Eu não quero me perder, nem mesmo de Deus, mas o que sinto

é amor, sei disso. Só estou cercado por preceitos que impedem esse amor de ser legítimo. A carne é só um

instrumento da flagelação. Que diferença faz esta, já que o entendimento das almas se faz?

PAdre gusmão - Faz toda a diferença! Faz errado. Tens lido muitas poesias, estás submerso num mundo fantasioso e estás perturbado. Quer unir a razão e a espiritualidade. Não há ser no universo capaz de se ocupar, em plena sanidade mental, destes dois extremos da vida.

gercindo (cínico) - Já dizia Lucien em Amours: “E quando se rir dos filósofos que pretendem amar nos

rapazes somente as belas almas, não se suspeitará que eles alimentem sentimentos perturbadores dos quais talvez não tenham consciência, mas simplesmente que

eles desejam um face a face, a fim de introduzir a mão sob a túnica do bem amado?”

PAdre gusmão (desconsertado) - Então, filho. Não te-

nho mais tempo a dispensar-lhe. Iniciarei duas cerimô-

nias, contando com a sua, correto?

gercindo Não me quero casar. É contra minha vontade e, isso sim, é pecado.

PAdre gusmão Se não se queres casar, por que aceitou vir até aqui?

g ercindo (exasperado) Não aceitei nada, Padre.

Maria forçou-me a calar a boca e a casar-me com ela.

Alega ser o único meio de unir-se à

(pensa desacelerando

... o raciocínio) Eu não pude desmenti-la, correria o risco de ...

PAdre gusmão (interrompendo-o) - Talvez seja essa a penitência que devas pagar por sua subversão. gercindo Não quero discutir com o senhor, Padre. Só quero saber o que devo fazer! PAdre gusmão (saindo) Case-se! As luzes se apagam reacendendo do lado direito do palco onde Lúcio aguarda pelo início da cerimônia de seu casamento. Uma luz vertical segue Gercindo até o altar montado. Estão todos vestidos a caráter. lúcio (em murmúrios) - O que falava com o Padre? gercindo (ríspido) Não é de teu interesse. lúcio (cínico) Não entendo por que não voltou para o Rio de Janeiro com Enrico.

gercindo Não me deito com Enrico.

lúcio E o que ele faz atrás de você por onde quer que vá?

gercindo (cotovelando) Sua mulher está entrando!

Acendem-se luzes brancas sobre o elenco todo em cena em espera da cerimônia de casamento. No cenário o altar e dois bancos de madeira remetem ao salão de uma igreja. O sacerdote de sobrepeliz e estola branca saúda os noivos, num gesto de representação da participação da Igreja em sua alegria.

PAdre gusmão (pigarreia) Em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo.

todos Amém.

PAdre gusmão A graça de nosso Senhor Jesus Cristo, o amor do Pai e a comunhão do Espírito Santo estejam convosco!

todos Bendito seja Deus que nos reuniu no amor do Cristo!

Enquanto todos se ajoelham para orar em silêncio por algum tempo, Gercindo, nervoso se espreita fadigado e

sudorento à procura de um refúgio esboçando angústia de maneira caricatural.

gercindo (pensa em voz alta) - Às vezes eu fico me perguntando qual é o propósito dessa existência, no meio de tanta coisa que não me agrada.

PAdre gusmão (pigarreia) - Ó Deus, que santificastes misteriosamente a união conjugal desde o princípio,

a fim de prefigurar no vínculo nupcial o mistério do

Cristo e da Igreja: daí que o senhor Lúcio Dniester e a senhorita Marlúcia Barbosa Lima, realizem em sua vida o que na fé vão receber. Por nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, na unidade do Espírito Santo.

todos Amém!

mAriA (eloquente, encarando Gercindo) (Leitura do Cântico dos Cânticos) Ah, esta é a voz do meu amado! Ei-lo que aí vem, saltando por sobre as montanhas, saltando sobre as colinas. Meu bem-amado é semelhante à gazela

ou ao filhote das corças. Ei-lo por detrás de nossa

parede, olhando pela janela espreitando pelas grades. Meu bem-amado falou-me; ele me disse: “Levanta-te,

minha amiga, minha pomba, minha bela, e vem! (cínica) Minha pomba, nas fendas do rochedo, no côncavo da

parede: mostra-me o teu rosto, faze-me ouvir tua voz. Porque tua voz é doce e o teu rosto é belo”. (acaricia o rosto de Gercindo, que continua relutante, mesmo sem censurá-la

fisicamente, apenas expressando sua angústia na face de repúdio.

Logo se levanta com rapidez para o término da leitura frente ao público) O meu amado é para mim, e eu para ele. Fixa-me como um sinete (contraindo os seios) no teu braço. Porque o amor é forte como a morte; a paixão insaciável como o país dos mortos. (suspira) Ah, seus ardores são ardores de fogo (atenta-se ao espetáculo que propunha, contendo-se) chamas divinas! (ajoelha-se novamente) As grandes águas não podem extinguir o amor, nem os rios submergi-lo.

PAdre gusmão (pigarreia recompondo-se) – Palavra do Senhor (tempo) Então, voltando à cerimônia: Derramai, ó Deus, as vossas bênçãos sobre a senhora Maria Barbosa Lima Campos ...

mAriA (interrompe, murmurando) - Senhorita, padre, sou viúva!

PAdre gusmão (estatelando o olhar depois de pigarrear novamente) - A senhorita Maria Barbosa Lima Campos

e o senhor Gercindo de Medeiros, unindo-se diante do

vosso altar, sejam confirmados no seu amor. Por nosso

Senhor Jesus Cristo. gercindo (interrompe em pensamentos altos murmurados) - E

as fantasias que eu edifico, estruturadas apenas com aquilo que está a minha volta!? Se isso é vida, a morte

física deve ser pior, por não ter nada para apalpar, senão melhor por não precisar apalpar coisa alguma!

PAdre gusmão (de olhos estatelados) - Concedei, ó Deus, a senhorita Marlúcia Barbosa Lima e o senhor Lúcio Dniester em matrimônio, para que seja um sinal do vosso amor. Por nosso Senhor Jesus Cristo.

gercindo (murmurando em balbucios cada vez mais altos e mais eloquentes) - Às vezes não sei se me perdi na zona eleitoral, depois da minha seção, ou se tudo está distante e o sol quente demais para caminhar um longo percurso a pé. Eu estou cansado e não enxergo nada que esteja a um palmo de meus olhos, não vejo o óbvio, o sólido, a lucidez!

PAdre gusmão (pigarreia com mais ênfase) - O senhor, por favor! Poderia não interromper a cerimônia? Estou

tentando realizar a cerimônia de vosso casamento, filho! E

nunca se esqueça que Deus, nosso Senhor, criastes

o homem e a mulher e quisestes que fossem uma só carne: então, uni Gercindo de Medeiros e (pigarreia

novamente) a senhora

(assusta-se) Desculpe-me! Como

... estava dizendo, uni-se à senhorita Maria Barbosa Lima Campos, em matrimônio, para que seja um sinal do vosso amor. Por nosso Senhor Jesus Cristo.

g ercindo (interrompe a cerimônia, muito alterado) – Mas, Padre! Às vezes eu quero tudo e ora nada. É um absurdo acreditar na vida quando a vida nos falta. Ter vontade de fazer o que o corpo sequer sente, e sentir aquilo que a mente não sabe consentir.

PAdre gusmão (ignorando-o, depois de olhá-lo com censura) - Aqui viestes, caros noivos para que, na presença do sacerdote e da comunidade cristã, o vosso amor seja marcado pelo Cristo com um sinal sagrado. O Cristo abençoa o vosso amor. Já vos tendo consagrado pelo batismo.

gercindo (nervoso e enfático em sua relutância, embora conservando murmúrios em baixo tom) - Não posso me

lembrar do meu batismo, Padre. Era uma criança que mal sabia falar, um fedelho que não sabia falar. Odeio ter que definir tudo o que eu sinto e explicar direitinho para qualquer pessoa que questione o simples estado de raiva pelo qual estou passando, a alegria que me liberta um riso ou a estafa que me deixa centrado. Eu não sei existir em meio à gente desse entorno, que consome o que de mais precioso me falta: a vida que não sinto, mesmo estando a viver essa irreal realidade presunçosa e não potencial (suspira cansado).

PAdre gusmão (pigarreia novamente) - Para que sejais fiéis um ao outro e a todos os vossos deveres. Por isso

eu pergunto perante a Igreja: Lúcio Dniester e Marlúcia Barbosa Lima, vieste aqui para unir-vos em matrimônio.

É de livre e espontânea vontade que o fazeis? noivos - Sim! gercindo - Não! Claro que não!

PAdre gusmão (acelerado e imponente) - Abraçando o matrimônio, ides prometer amor e fidelidade um ao outro. É por toda a vida que o prometeis?

noivos - Sim!

gercindo (murmurando) - Mas está ignorando um filho da sua igreja, Padre. Não me ouve, é assim que a Igreja pede que façamos a vontade de Deus?

PAdre gusmão - Lúcio Dniester queres receber Marlúcia Barbosa Lima por tua mulher e lhe prometes

ser fiel na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, amando-a e respeitando-a todos os dias da tua vida?

lúcio - Sim. Quero!

PAdre gusmão - Maria Barbosa Lima Campos, queres receber Gercindo de Medeiros por teu marido e

lhe prometes ser fiel na alegria e na tristeza, na saúde e

na doença, amando-o e respeitando-o todos os dias de

tua vida? mAriA - Sim (suspira), quero!

gercindo (em prantos, quase a rolar pelo chão) - E a mim, ninguém pergunta nada? Que, que mundo pode ser esse que exclui opiniões e desejos? Que raio de mundo pode

ser esse, que mata, tortura e desmantela um ser vivente,

a deixá-lo sem vontade de seguir o passo seguinte?!

Maria futuca o corpo trêmulo de Gercindo que exala freneticamente um engasgado sim de consentimento à cerimônia. gercindo (assustado) - Sim?! PAdre gusmão - Deus abençoe (sinal da Santíssima Trindade) estas alianças que ides entregar um ao outro em sinal de amor e fidelidade. todos - Amém! l úcio (contente) - Recebe esta aliança em sinal do

meu amor e da minha fidelidade. Em nome do Pai, e do

Filho, e do Espírito Santo.

Gercindo estático e consternado enxuga a testa minando suor.

mAriA (excitada, tomando as alianças das mãos de Gercindo, forçando-o com as mãos a lhe entregar o dedo anelar) - Recebe esta aliança em sinal do meu amor e da minha fidelidade.

Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. PAdre gusmão (acometendo o comportamento altivo de Maria) - Filha, jamais esqueça que vós mulheres, sede submissas aos vossos maridos, afim de que, mesmo

que alguns recusem de crer à palavra, venham a ser conquistados, sem palavras, pelo procedimento das esposas, ao observarem a vossa vida casta e respeitosa.

mAriA - Ora, Padre Gusmão, vem oferecer o seu sermão justamente a mim que sou filha de sua igreja! Considero uma afronta. Em meu casamento!? Deveria

se envergonhar de minha santíssima e imaculada Nossa Senhora do Bom Conselho, que não deve estar nada feliz com a infeliz intervenção do senhor! Mas o perdoo mesmo assim!

PAdre gusmão (arquejante) - Que o vosso ornamento não consista em exterioridades, como arranjo dos cabelos, jóias de ouro, ou a elegância na moda dos vestidos, mas sim o ornamento interior, a disposição escondida no coração.

mArlúciA - E o que faço com meus souvenirs carís- simos, Padre? Entrego tudo à Igreja? E depois ando desnuda pelas ruas do centro? Sem falar que nem po- derei desfilar por Paris, parecerei uma desprovida, vestida em molambos pelas ruas de Lisboa. (Lúcio a contém de sua inquietação) Sinto muito, Padre!

PAdre gusmão - Que Deus, vosso Pai, vos conserve no vosso amor, para que a paz de Cristo habite em vós e permaneça para sempre na vossa casa.

todos - Amém.

PAdre gusmão - E a todos aqui reunidos, abençoe- vos o Deus todo-poderoso Pai e Filho e Espírito Santo.

todos - Amém. Os noivos se levantam, estavam ajoelhados.

l úcio (confiante) - Sim, Padre. Prometo cuidar de minha amada por todo o sempre (procura os olhos risonhos de Marlúcia) de modo que ela nunca reclame a falta de meu amor.

mArlúciA Sim, Padre. Prometo amá-lo eterna- mente!

gercindo (murmurando enquanto todos caminham para a saída de cena) - Às vezes eu me equivoco com coisas muito simples, pela simplicidade de minha limitação ideal, pela demasiada vontade de ser ideal, pela credulidade e pela incredulidade mantida em relação aos mitos, que me

cercam, e nos cercam, e nos cercam, mas que eu não vejo e não sinto, e não vejo e não sinto, e vejo e não sinto, e sinto e não vejo, eu não sei o que sinto, muito menos o que vejo. Eu não sei nada, eu não sei de nada, (suspira fundo) eu não sei!

Lúcio toma a iniciativa e beija Marlúcia, enquanto Maria se apossa de Gercindo em seus braços e o faz beijá-la. A maioria sai de cena em contemplação. Restam, temporariamente, Maria e Gercindo.

mAriA (excitada na companhia de Gercindo) - Não vai querer que joguem arroz em nós?

g ercindo - Ainda estou tentando recuperar-me (sentando-se).

mAriA - É bom que descanse um pouco; partiremos em instantes para Lisboa (sai apressada para comemorar).

g ercind o - Eu não me quero casar! (alterando-se) Como irei consumar o casamento?

Enrico volta à cena. O cenário é iluminado por uma luz branca acetinada.

enrico (intimidado) - E se eu for com o senhor dono, vai ficar feliz?

gercindo (ríspido) - O que veio fazer aqui, peão? O

que acha que é? Sequer ganha o suficiente para o seu

sustento. Tenho lhe tratado com o respeito que merece, te defendido em situações que coloco a minha pessoa à prova o tempo todo.

enrico - Vejo, sabe, reconheço vossa humildade, mas pensava que fazia essas coisas por mais que consideração.

gercindo (espantado) - Como!? Ouça-me, peão. Não sou nada humilde. Não conheces minha fúria e nem o quanto sou rude. Por favor, peço-lhe que voltes aos seus afazeres na estância.

enrico - Quer que espere o senhor dono na Rua da Ladeira?

gercindo (alterado) - Não! Quero que sumas daqui, sumas da minha vida! Não entendes que não tenho

intenções com tua pessoa? Vá, voltes para a labuta!

e nrico - Nós tá tudo dispensado por conta do casório.

gercindo – Então, oras, vá para a casa!

enrico (comiserável) - Mas, o senhor dono num tem mesmo nenhuma intenção para com eu?

gercindo (suspira fundo) - Ah, o que fiz para merecer tamanha aporrinhação? Quem o trouxe até aqui, filho de Deus?

Lúcio volta à cena.

l úcio (cínico) - Eu o trouxe aqui! Comprar-lhe-ei tudo de que precisar e, em instantes, sairemos todos para o Porto. Os cinco. E logo, Enrico será um de nós, ele é muito ligeiro.

gercindo (nervoso) - Por acaso pensas que és quem? Ele não é um de nós e nunca será, veja! (pegando as mãos do pobre e exibindo-as) Suas unhas estão sujas, daria para plantar batatas aqui embaixo. A palma de sua mão é cheia de calos e ainda por cima tem rachaduras, assim como nos pés (arranca-lhe o chapéu da cabeça e lhe toca os cabelos). Sinta o cheiro de sua cabeça. Fede! Seus cabelos sujos parecem selagem para bois. Venhas até aqui, aproxima-te e sinta o odor! Olhe suas roupas rasgadas

e sujas, desbotadas, amarrotadas. E essa botina velha e furada, já vistes isto? lúcio (irônico) - Por que só agora analisa os defeitos de seu cônjuge? gercindo - Ele nunca foi o meu cônjuge e jamais será! O único aqui pelo qual a minha razão insiste trair o meu ego sois vós, senhor Lúcio Dniester, que hoje percebo não valer um purgante da botica do Seu Gerônimo. Conte-me, como; como pude deixar um momento determinar os rumos de minha vida? lúcio - Não há como caminhar só com as ideias, Gercindo. Seu corpo escolhe o caminho. gercindo (irritado) - Cala-te! Cala-te! Odeio-te tanto que não mais suporto ouvi-lo. Talvez o Padre Gusmão esteja coberto de certezas e talvez essa dor que sinto dentro do peito seja o preço da ilusão oferecida pelo caminho mundano, segundo a bíblia, cuja escolha da qual tanto fala e que meu corpo há muito determinou se fecha em vós, maldito! lúcio (sarcástico) - Por que a bíblia? Quem a escreveu,

o homem ou foi Deus, quem desceu a terra e sentou-se

na escrivaninha?

gercindo - Não me venhas com a descrença por- que verdades são desconhecidas de ti. (Lúcio tenta con- solá-lo) Solte-me! Não preciso do seu consolo, já que ... (observa-o) De pensar que és apenas o causador de todo o meu mal. E pensar que poderia estar num cruzeiro europeu nesse exato momento, mas não, estou em Rio Pardo entorpecido por um amor destrutivo que corrói a minha alma. Agora saiam da minha frente que não suporto mais ver tuas caras de cavalo xucro (sai).

lúcio (olha Enrico dos pés a cabeça) - Esse imenso amor é seu Gercindo, só seu é esse amor, não se esqueça nunca disso! (olha para Enrico) Então?

enrico (intimidado) - Que é que foi, o senhor dono não pensa a mesma coisa que ele, pensa?

l úcio (cínico) - Não se preocupe meu caro. Não é isso! Gercindo é um filósofo e quer entender o amor.

Um rapazola burguês que não sabe nada sobre os percalços da vida e nem mesmo da necessidade do pão.

enrico - E o senhor dono sabe? lúcio (lentamente se aproxima de Enrico) - Nós sabemos.

enrico - E o senhor dono tá assim por causa de que o seu plano não deu certo? Mas trato é trato!

lúcio - Meu caro, vamos começar com você não me tratando mais por senhor. E não fique preocupando-se

com pormenores.

enrico - Aí é que o senhô, aí é que deixa eu com o carrapato detrás da orelha. O que os outros não vão

pensar de mim, tratando o

...

Tratando tua pessoa de igual?

lúcio (aproximando-se mais perto falando face a face e alisando-lhe os cabelos) - Não me venha com lamentos, Enrico. Quando não cumpri meus prometidos? O

tratamento agora é o de menos.

enrico (esquiva-se, dissonante) - Então, como fica? Pensei que o senhor dono Gercindo, ele tinha carinho por mim.

lúcio (insistindo aproximação) - E tem. (suspira) Da- remos tempo ao tempo. (ajeitando o chapéu nas mãos) Ele cederá!

enrico (com olhar esquivo) - E nós três iremos de nos acertá?

lúcio (face a face gargalha) - Por enquanto seremos

dois e quem sabe pensaremos em

...

(tempo) Claro, por que

não? Ah Enrico, você que eu adoro, adorará conhecer

Gercindo. Gercindo. (abraça-o e saem juntos de cena) Ah Gercindo!

A luz se apaga lenta enquanto os dois saem de cena e cai o pano.

Fim do terceiro e último Ato

112 t úlio H enrique P ereirA 352 a C asa dOs n úmerOs
  • 112 túlio Henrique PereirA

  • 352 a Casa dOs númerOs