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Poucos escritores portugueses, como aconteceu com o poeta surrealista Antnio Maria Lisboa, que

morreu tuberculoso e louco com 25 anos, tero num percurso to curto como dele, marcado to
indelevelmente a literatura do seu tempo . Em O senhor cgado e o menino, auto-retrata-se nestas
palavras: O Menino de bronze repousa na solido da lua nasceu-lhe um olho de chacal que o animal
que s passa nos caminhos livres e so todos os lobos que andam espreita e o corao de
Leo. E esta a sua Lealdade e o seu Amor como o Destino e o seu Sentido que tem e chama-se
Antnio Maria Lisboa.

Projecto de Sucesso
Para o Mrio Henrique

Continuar aos saltos at ultrapassar a Lua


continuar deitado at se destruir a cama
permanecer de p at a polcia vir
permanecer sentado at que o pai morra

Arrancar os cabelos e no morrer numa rua solitria


amar continuamente a posio vertical
e continuamente fazer ngulos rectos

Gritar da janela at que a vizinha ponha as mamas de fora


pr-se nu em casa at a escultora dar o sexo
fazer gestos no caf at espantar a clientela
pregar sustos nas esquinas at que uma velhinha caia
contar histrias obscenas uma noite em famlia
narrar um crime perfeito a um adolescente loiro
beber um copo de leite e misturar-lhe nitro-glicerina
deixar fumar um cigarro s at meio
Abrirem-se covas e esquecerem-se os dias
beber-se por um copo de oiro e sonharem-se ndias.

Acreditei no mar

Percorri a umbria de um eclipse


que nas vagas no reflectia

Apaguei os olhos e sorri com uma lgrima

Ao abrir , fitei o azul

o azul do cu , do mar e da lua

Ouvi ento estremecerem as ondas


e a areia lacrimar.

Voltaram os raios lunares,


voltei ao luar da noite
hmida e fria
em que me movo
e te deito.

Minha grgula de vida,


meu eterno mar.