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CENTRO UNIVERSITÁRIO UNIVATES

CURSO DE GRADUAÇÃO EM HISTÓRIA

O PATRIMÔNIO HISTÓRICO CULTURAL E A REPRESENTAÇÃO SIMBÓLICA:


UMA REFLEXÃO SOBRE OS LIMITES DA HISTÓRIA E O PROTAGONISMO DOS
HISTORIADORES

Sérgio Nunes Lopes

Monografia apresentada na disciplina de Trabalho


de Conclusão II, como exigência parcial para a
obtenção de Título de Licenciado em História.
Orientadora: Drª Neli Teresinha Galarce Machado.

Lajeado, junho de 2009


BDU – Biblioteca Digital da UNIVATES (http://www.univates.br/bdu)

AGRADECIMENTOS

Era início da década de 1990, depois de ter iniciado tarde os estudos,


precisava abandoná-los. No almoço o aviso que partiu da minha mãe. Teria que
parar de estudar para ajudar mais efetivamente em casa ou então o proprietário da
terra onde plantávamos não nos deixaria morar mais naquela chácara e não
teríamos de onde tirar o sustento. Revolta! À tarde, fui sozinho para a lavoura. O
milho estava louro. O nó na garganta ainda incomodava até que uma lágrima
teimosa caiu na lâmina do facão afiado: era a seiva da poda de um sonho que
haveria de brotar robusto.
Embora ciente de que muito provavelmente meus pais não lerão o que
escrevo aqui e, muito menos, saberão mensurar o que significa obter o título de
graduado em alguma coisa, preciso agradecê-los. Foi no lusco fusco de um lampião
a querosene, no crepúsculo do século XX, que me ensinaram a adornar com
dignidade desde a tarefa mais simples que já executei até as distinções que a Bolsa
de Iniciação Científica me oportunizou. Diante desta primeira lição o resto é adereço,
eis a minha essência!
Aproveitando o ensejo da menção à Bolsa de Iniciação Científica agradeço à
professora Drª Neli Galarce Machado por apostar em mim como bolsista e por
aceitar orientar este trabalho que marca o encerramento de mais um ciclo. Estendo
aqui os agradecimentos aos colegas com os quais convivi neste tempo tanto no
Setor de Arqueologia quanto no Centro de Memória Documentação e Pesquisa da
Univates. Aprendi muito com cada um de vocês. Obrigado, especialmente por me
ouvirem falar deste trabalho e da angústia que ele me causou em meio a tantas
outras tarefas realizadas ao mesmo tempo. As bibliografias disponibilizadas também
foram fundamentais.
Pela compreensão e carinho agradeço àquela que é o meu ponto de
equilíbrio, professora Maria Elisabete Bersch, minha esposa e companheira em
todas as empreitadas.
Impossível deixar agradecer a todos os professores do Curso de História que
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foram exemplo de profissionais, e dentre eles, alguns aos não exageraria se os


chamasse de amigos.
Às direções das escolas onde trabalhei durante a graduação pela liberação
quando dos campos de Arqueologia ou das apresentações em congressos.
Como a Bolsa de Iniciação Científica que tive veio da Univates quero
agradecer a cada colega que, de certa forma, ajudou a pagar os meus estudos.
Aos companheiros da Comissão Pró-instalação de um Museu em Arroio do
Meio a dedicação especial do esforço que segue e os sinceros agradecimentos.
Como pincelada das inquietações teóricas que diluí ao longo das próximas
páginas fica a consideração de que não sei, e não sei se quero saber se sou Pós-
moderno, Marxista, Positivista...
Só tenho uma certeza enquanto tiver oportunidade procurarei pensar com
profundidade, transitar pelos tempos me cercando de alguns bons amigos sempre
aberto a novos desafios. Somando sabedoria, dividindo o que tenho e sei,
multiplicando experiências e fazendo o possível para diminuir a cada dia tudo o que
impede a humanidade de ser verdadeiramente humana.
Eis aí um pouco da minha verdade que não quer ser única e nem precisa ser
difundida aos quatro ventos, apenas respeitada!
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“Tema cada vez mais presente nas agendas


políticas nacionais e internacionais, a questão da cultura
encontra, no Brasil, fortes resistências por parte da
classe política, que costuma considerar (nem sempre de
forma explícita) que na sociedade brasileira há
necessidades muito mais prementes a serem atendidas
(e também, muito provavelmente, que esse tipo de
discurso “não dá voto”). Aos olhos da maior parte dos
políticos brasileiros, esse não é um campo propício ao
exercício e a afirmação do poder; e essa postura fica
evidente na ausência do tema em programas de partidos
e plataformas de eleição. Por outro lado, vem se
observando recentemente um crescente interesse de
governos de estados e municípios em marcar sua
atuação com iniciativas na área da cultura”. (Fonseca,
2005, p. 74-5).
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RESUMO

Este estudo analisa, ainda que parcialmente, o Patrimônio Histórico e Cultural na


história do Brasil e os seus reflexos na História Regional. Refletiremos acerca do
início do tratamento ao Patrimônio no país, seus avanços e percalços. Os principais
passos legislativos são igualmente tangenciados. A constante modificação nos
instrumentos legais, contudo, levaram a abordagem neste caso, a deter-se
prioritariamente nas primeiras medidas no sentido de se amparar algumas ações no
campo patrimonial. As considerações acerca das medidas já levadas a termo,
referenciadas pela bibliografia, foram problematizas pelo viés do conceito de signo.
Desta forma foi possível lançar um olhar sobre um caso concreto; a organização de
uma Comissão Pró-instalação de um Museu no município de Arroio do Meio/RS.
Através da análise das Atas da referida Comissão e da legislação municipal que
destina um espaço específico para o referido empreendimento, procurou-se
perceber os avanços e permanências em relação à própria definição deste tipo de
instituição.
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SUMÁRIO

1 INTRODUÇÃO .....................................................................................................8
2 O PATRIMÔNIO HISTÓRICO CULTURAL NA HISTÓRIA DO BRASIL ..........11
2.1 A Cultura Material como único documento capaz de contar a história das
populações do Brasil pré-histórico ............................................................................12
2.2 O período colonial brasileiro e o patrimônio que marca o encontro dos mundos.17
2.3 A independência e o forjar de uma nação: o Patrimônio Histórico e Cultural como
afirmação...................................................................................................................20
2.4 O patrimônio e o século XX .................................................................................25
3 AS DEFINIÇÕES DE PATRIMÔNIO HISTÓRICO PARA OS INTELECTUAIS E
PARA OS PODERES CONSTITUIDOS ...................................................................28
3.1 A preservação forçada enquanto a consciência não vem....................................28
3.2 Na vertical: quando a lei se impõe .......................................................................43
3.3 Por que os discursos acadêmicos e legislativos são ineficientes? hipóteses ......47
4 UM DISCURSO MENOS IMPOSITIVO - O SIGNO E A REPRESENTAÇÃO ...50
4.1 História, Filosofia ou Psicologia: o conceito de signo ..........................................50
4.2 Representação: quando o real é impossível ........................................................57
4.3 Signo e representação aliados metodológicos na pesquisa em História .............59
5 UM MUSEU EM ARROIO DO MEIO/RS: UMA IDÉIA E MUITAS
INTERROGAÇÕES...................................................................................................62
5.1 O apelo à preservação da memória: algumas práticas........................................62
5.2 As discussões da Comissão pró-instalação de um museu em Arroio do Meio ....70
5.3 Identificação dos aspectos teóricos discutidos no caso em questão ...................73
6 REFLEXÕES FINAS: ENCONTRO ENTRE A EPISTÉME E A DOXA - UM
DIÁLOGO PARA ALÉM DA HIERARQUIA NA DEFINIÇÃO DOS PAPÉIS FRENTE
AO PATRIMÔNIO HISTÓRICO E CULTURAL ........................................................77
REFERÊNCIAS.........................................................................................................82
ANEXOS ...................................................................................................................86
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LISTA DE FIGURAS

FIGURA 1: Assinatura do contrato da reforma do prédio em 14 de julho de 2008....67

FIGURA 2: Cerimônia de entrega da casa à comunidade em 28 de novembro de


2008, data de aniversário da emancipação política de Arroio do Meio. ....................69
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1 INTRODUÇÃO

O que por hora se apresenta cumpre parte das exigências para a obtenção do
título de Licenciado em História. As reflexões, sobretudo, no tange à metodologia
podem parecer demasiadamente pretensiosas para ao atual estágio de formação de
quem redige. Refletir, contudo, a partir de referencias que contemplem a pluralidade
interpretativa foi uma das motivações para o que apresentamos.
Nos últimos anos do século XX, conforme o caminhar durante a graduação
nos oportunizou vislumbrar, as escolas historiográficas estreitaram laços com a base
teórica de outras ciências o que nos permite olhar da perspectiva que nos propomos
o objeto que problematizamos.
Tecidas esta considerações iniciais, convém sistematizarmos um pouco
melhor o que segue em cada uma das partes deste trabalho. No primeiro capítulo
procurou-se estudar o tratamento dispensado ao Patrimônio Histórico e Cultural na
história do Brasil. Antes, porém, como se optou por uma estrutura de trabalho que
não coloca o capítulo dedicado à metodologia como o primeiro esclareceu-se alguns
dos conceitos básicos tratados já nos títulos e subtítulos do referido capítulo. Ainda
que de forma superficial, esta primeira parte, aborda o tratamento que o poder
público deu ao longo do tempo a esta categoria de referência memorial. Das
iniciativas de Dom Pedro II às situações presentes na imprensa hodiernamente
envolvendo o poder público e o Patrimônio Histórico e Cultural, poder-se-á aí ter
uma idéia.
No segundo capítulo procurou-se tangenciar a trajetória do tratamento
dispensado na legislação brasileira e estadual em relação ao Patrimônio Histórico e
Cultural. Através de consultas a bibliografias específicas e da análise de
documentos disponibilizados no site do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico
9

Nacional (IPHAN). A saga dos primeiros legisladores e intelectuais é tratada com


relativa minúcia graças à qualidade da documentação e da bibliografia acessada.
Todo este trabalho relativo à legislação, entretanto, tem a finalidade de apenas
comparar a evolução do conceito de Patrimônio Histórico e Cultural ao longo do
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tempo nas leis brasileiras específicas. Ao estudar o assunto, a detecção de Maria


Cecília Londres Fonseca a seguir é a que melhor ilustra o quadro com o qual nos
deparamos:

Tema cada vez mais presente nas agendas políticas nacionais e


internacionais, a questão da cultura encontra, no Brasil, fortes resistências
por parte da classe política, que costuma considerar (nem sempre de forma
explícita) que na sociedade brasileira há necessidades muito mais
prementes a serem atendidas (e também, muito provavelmente, que esse
tipo de discurso “não dá voto”). Aos olhos da maior parte dos políticos
brasileiros, esse não é um campo propício ao exercício e a afirmação do
poder; e essa postura fica evidente na ausência do tema em programas de
partidos e plataformas de eleição. Por outro lado, vem se observando
recentemente um crescente interesse de governos de estados e municípios
em marcar sua atuação com iniciativas na área da cultura. (Fonseca, 2005,
p. 74-5).

O Conceito de Patrimônio Histórico e Cultural em alguns intelectuais é tratado


também neste capítulo que encaminha o próximo ao se encerrar questionando a
inoperância da lei e dos discursos acadêmicos ao apresentarem resultados tímidos
em relação à significação social do Patrimônio Histórico e Cultural.
No terceiro capítulo uma reflexão que traz à baila conceitos de ciências com
as quais a História se relaciona, acenam com a possibilidade de um estudo a partir
de uma perspectiva menos impositiva e pragmática. Os signos, símbolos e as
representações são invocados na tentativa de se constituir em uma abordagem
plural que considere o olhar das pessoas que estão diretamente ligadas ao que
definimos como patrimônio não como objeto, mas como mais uma leitura das
estruturas patrimoniais com suas determinações culturais a exigirem respeito de
quem, do âmbito intelectual ambicione analisa-las. O desafio mais eloquente deste
processo de escrita de monografia trouxe para a cena Foucault, Bourdieu, Saussure,
cujo aprofundamento se mostra imperativo na sequência deste estudo em outros
níveis dentro da academia ou por outros trabalhos desta natureza que venham a
tratar de assuntos análogos.
Por fim, no quarto capítulo, apresentamos uma trajetória regional de
abordagem ao Patrimônio Histórico e Cultural. O processo, ainda em curso de
10

consolidação da ideia de um museu no município de Arroio do Meio/RS, contempla


alguns dos aspectos históricos apresentados nos dois primeiros capítulos.
Analisamos a legislação municipal que por mais de 20 anos vem acenando com a
possibilidade de concretização de um projeto de tratamento mais cuidadoso dos
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referencias memoriais da municipalidade.


Analisamos também neste capítulo as atas de uma comissão que ambiciona a
instalação de um museu no município. As dúvidas e as saídas procuradas ao longo
do processo são contempladas nos documentos acima referidos. Procuramos
vislumbrar a partir da reflexão teórica empreendida no terceiro capítulo, o que
permanece das concepções tradicionais específicas em relação ao que se entende
por museu e o que se pode apontar como inovação. O foco principal da análise é a
condução desta fase do processo mediado pela Secretaria Municipal de Educação e
Cultura em forma de comissão onde participam desde cidadãos leigos até
historiadores e outros intelectuais que orbitam a educação e o campo da História. A
ânsia que os administradores têm em marcar o seu período administrativo com
realizações de monta nesta área encontra ressonância em alguns segmentos sociais
desafiando os intelectuais que aí militam conscientes de que os lugares memoriais,
como o museu, precisam se constituir em pontas de fios dos novelos da memória e
não em depósitos de descarte de objetos imprestáveis para as necessidades no
cotidiano atribulado dos viventes do século XXI.
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2 O PATRIMÔNIO HISTÓRICO CULTURAL1 NA HISTÓRIA DO


BRASIL

(...) entre o signo e seu conteúdo não há nenhum elemento intermediário e


nem uma opacidade. Os signos não têm, pois, outras leis, senão aquelas
que podem reger seu conteúdo: toda análise de signos é, ao mesmo tempo
e de pleno direito, decifração do que eles querem dizer. (Foucault, 1999,
p.91).

Resumir a trajetória do tratamento ao Patrimônio Histórico e Cultural que


documenta cada período da história do país é o objetivo deste capítulo. Todos os
esforços serão empregados para, pelo menos tangenciarmos, o período, cujo melhor
estudo, se dá através da materialidade dos objetos, únicos testemunhos das
atividades humanas de antes da chegada dos europeus á margem de cá do
Atlântico. Trataremos também dos novos marcos referencias e da promoção da
hibridização das técnicas européias e ameríndias para a obtenção de bens materiais
que permitissem a sobrevivência, não sem conflitos em um novo cenário. No século
XIX, o forjar de uma identidade nacional não ignorou a utilidade dos objetos como
referência no processo de dar-se a conhecer da nação pretendida. O Patrimônio
Histórico e Cultural atingirá o século XX enfrentando novos problemas. A
industrialização e a urbanização geram novos estilos que são testemunhados pelo
patrimônio deste tempo, aqui também estudado.

1
Lemos (2006) classifica o Patrimônio Histórico em três grupos: o natural que inclui os rios e todos os
elementos naturais que permitem as mais variadas formas de vida incluindo a humana; a segunda
referente à cognição, saber e saber fazer, contemplando as tecnologias desenvolvidas desde o polir
uma pedra até o desenvolvimento do mais sofisticado computador; por último a categoria patrimonial
em questão neste trabalho que engloba “toda a sorte de coisas, objetos, artefatos e construções
obtidas a partir do meio ambiente e do saber fazer”. (Lemos, 2006, p.10).
12

2.1 A Cultura Material como único documento capaz de contar a história das
populações do Brasil pré-histórico

Antes de aprofundarmos qualquer discussão que a bibliografia nos permita,


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julgamos oportuno esclarecer alguns conceitos expressos já no título deste sub-


capítulo. São conceitos dos quais os historiadores lançam mão, algumas vezes, sem
o devido cuidado. Primeiramente, a referência à Cultura Material. Para Rede, 1996,
“a expressão cultura material é polissêmica e pode dar margem a ambigüidades”.
Esta polissemia derivaria, conforme o autor, tanto da indicação do objeto de estudo
como da forma de conhecimento implicando uma proposta metodológica específica
entre outros aspectos. Para a presente produção adotaremos uma definição mais
ampla como sugere Meneses, 1998, que a define como todo segmento do universo
físico socialmente apropriado.
Outro conceito largamente difundido na historiografia é o de documento. A
abordagem aos documentos, entretanto, não é uma exclusividade da História.
Conforme Le Goff, 2003, “O termo latino documentum, derivado de docere, ‘ensinar’,
evoluiu para o significado de ‘prova’ e é amplamente usado no vocabulário
legislativo”. (p. 526). Fica explícito o alargamento do horizonte em relação ao que
seja documento, usado, por muito tempo reduzidamente diante da concepção
documental que considerava documento apenas as informações que tinham como
suporte o papel e como fonte as, convencionalmente, concebidas como oficiais.
Por último, no rol dos termos já assimilados, mas que merecem breves
considerações para que os objetivos deste trabalho sejam atingidos está a utilização
da nomenclatura Pré-história para definir o período que antecede a chegada do
europeu à América. Apesar dos debates ensejados pela aproximação, ainda tímida,
entre as Ciências Humanas, até então não se chegou a uma nova terminologia para
o período em questão. Esta discussão se dá por ser ponto pacífico a consideração
de que a história da América, sendo concebida só após a chegada dos homens que
dominavam a forma da escrita ocidental, atrelaria a ciência histórica a este
componente cultural ignorando todos os outros saberes antrópicos. Sendo assim,
apesar de utilizarmos a terminologia ainda vigente, temos claro que o período que
antecede a ancoragem dos navios europeus na costa americana é só mais um
período histórico com as suas particularidades.
13

Depois de esclarecidos os conceitos, a partir das acepções feitas a eles na


presente produção, nos pusemos em marcha diante daquilo que conseguimos
apurar em relação ao tratamento dispensado aos documentos através dos quais
podemos estudar a história dos povos brasileiros dentro do recorte temporal do
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presente capítulo. Fica claro que estamos considerando documento a Cultura


Material dos povos pretéritos. Corroborando com o fio condutor da presente
monografia, atribuímos o epíteto de Patrimônio Histórico a esta Cultura Material.
Neste ponto, coerente com o que até aqui expusemos, não há como
prescindir da Arqueologia e do caminho convergente entre esta ciência e a História.
A convergência antes referida está presente em definições de arqueólogos como
Funari (2003, p. 15) que considera que a “arqueologia estuda, diretamente, a
totalidade material apropriada pelas sociedades humanas, como parte de uma
cultura total, material e imaterial, sem limitações de caráter cronológico”.
Seguindo esta linha de raciocínio, não é exagero afirmar que sem o
arcabouço metodológico da Arqueologia, se torna impossível quaisquer inferências
acerca da história das populações americanas anteriores ao período colonial. É
também esta ciência que permite atribuirmos o status de Patrimônio Histórico e
Cultual, conforme a definição antes vista, à Cultura Material que documenta o
cotidiano desses povos.
Os conceitos de Cultura Material e Patrimônio Histórico e Cultural, antes
referenciados, alertam-nos no sentido de permanecermos vigilantes enquanto
intelectuais, uma vez que constam da história do Brasil períodos em que, ao invés
de trazer à tona os documentos do período pré-histórico fez-se o movimento
contrário. Referimo-nos à época em que se procurava firmar um ideário de nação
quando se tentou definir o que era um cidadão brasileiro, deixando de lado
indígenas e negros de forma preconceituosa usando para tanto conceitos mal
trabalhados de áreas que ainda não haviam se solidificado como ciência no novo
mundo caso da Antropologia e da Sociologia. Aprofundaremos este assunto nos
sub-capítulos seguintes. Atenhamo-nos à pré-história.
Ao introduzir o seu trabalho acerca das peças líticas lascadas de grupos
horticultores-ceramistas que habitaram o Vale do Paranapanema em São Paulo,
Juliana Aparecida Rocha Luz, faz uma retrospectiva dos trabalhos arqueológicos no
Brasil. Valendo-se de autores clássicos na área como Prous e Schmitz a autora
menciona a principal motivação para as pesquisas em Arqueologia no Brasil.
14

Segundo o seu trabalho, entender as populações indígenas era o principal motivo


pelo qual se investiu em pesquisas desta natureza. Nesta dissertação, outrossim, é
possível perceber o quão tarde iniciam as pesquisas. “Os primeiros estudos
arqueológicos realizados no Brasil foram empreendidos por profissionais
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estrangeiros. Entre 1830 e 1840 foram realizadas as primeiras escavações em


grutas da região de Lagoa Santa (MG), por Peter Lund”. (Luz, 2006, p. 8).
Vivia-se um período de afirmação das ciências em geral. A Arqueologia
trabalhava com um recorte temporal fortemente impactado pelo paradigma teológico.
Recuar até a origem das ocupações antropicas do território era desvendar um
mundo desconhecido e por vezes ocultado diante de uma realidade que ignorava
quase que totalmente a história anterior ao ano domini. Pesquisadores e sociedade
em geral começaram a se surpreender diante das revelações da Arqueologia.
Mesmo antes das abordagens de Lund, naturalistas europeus viajaram ao
Brasil e, embora não tendo realizado pesquisas arqueológicas descreviam tudo o
que por aqui encontravam. A ação destes naturalistas foi intensificada a partir da
chegada, no início do século XIX, da corte portuguesa ao Brasil. Inicia-se assim um
inventário aleatório do Patrimônio Arqueológico2 brasileiro e a identificação dos
primeiros Sítios Arqueológicos3 investidos deste status.
Estas expedições amadoras duraram muito tempo, conforme a pesquisa de
Luz, (2006, p. 9), só em 1965, surgirá o Programa Nacional de Pesquisas
Arqueológicas (PRONAPA). Assim prossegues-se no levantamento do Patrimônio
Arqueológico brasileiro. A partir de então se inicia a qualificação de profissionais
para atuarem neste campo. Conforme as fontes da mesma autora as principais
escolas teóricas da disciplina são oriundas da América do Norte e da França.
No início da década de 1960, a legislação brasileira regulamentou o trabalho
do arqueólogo declarando ser a pesquisa arqueológica de responsabilidade de
profissional habilitado já que o exercício do ofício por pesquisadores “amadores”
causava prejuízos ao patrimônio arqueológico brasileiro (Luz, 2006, p. 9). Desta

2
“Compreende os vestígios materiais dos primeiros grupamentos humanos: seus antigos locais de
moradia, seus artefatos, restos alimentares, representações artísticas, rituais, etc. Um sítio
arqueológico reúne a cultura material das sociedades do passado”. (Machado, 2004, p.17).
3
“Local onde se encontram vestígios de atividade humana dos povos do passado. Estes vestígios
podem estar na superfície do solo ou no subsolo. Conforme critérios estabelecidos por arqueólogos o
sítio pode compreender desde um fragmento isolado até mesmo a uma grande e complexa rede de
habitações pretéritas e de sua cultura material”. (Fiegenbaum, 2006, p. 11).
15

forma se cria condições ainda mais propícias para a evidenciação do Patrimônio


Histórico Cultural, única forma de conhecermos as formas de vida existentes no
Brasil antes do domínio português.
Há a penetração em um universo material, cuja análise traz à tona detalhes
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do cotidiano de uma sociedade até então desconhecida. Os documentos para isto,


também chamados de Cultura Material como antes expusemos, apresentam-se na
forma de montes de conchas no litoral, cerâmica na forma de potes de barro
encontrados no solo, utensílios de pedra lascada ou polida além de pinturas e outros
sinais deixados em paredões de pedra ou no interior de grutas naturais e cavernas.
Na região do Vale do Taquari, Estado do Rio Grande do Sul, este patrimônio
está paulatinamente sendo evidenciado. Segundo Kreutz, 2008, ao sistematizar
informações a partir de suas fontes,

As primeiras pesquisas foram realizadas nos municípios de Arroio do Meio e


Muçum, na década de 1960, pelo arqueólogo Dr. Pedro Ignácio Schmitz, do
Instituto Anchietano de Pesquisas – IAP – UNISINOS, de São Leopoldo/RS.
Em 1965, Schmitz fez incursões em Muçum, onde catalogou o Sítio
Arqueológico RS-03, na localidade de Capela do Rosário. Em Arroio do
Meio, Schmitz catalogou os sítios RS-27, RS-28, RS, 29 e RS-30 todos
situados na localidade de São Caetano. No ano seguinte, 1966, Schmitz
registrou mais dois sítios arqueológicos, RS-60 e RS-61, no município de
Muçum, localizados no distrito de Linha Alegre (Kreutz, 2008, p. 38).

Na década de 1980, período apontado na pesquisa de Luz (2006, p. 10),


como de afirmação acadêmica da Arqueologia, ocorre no Vale do Taquari, segundo
Kreutz, (2008, p. 38) um “Curso de Arqueologia”. A mobilização foi do Instituto
Histórico e Geográfico do Vale do Taquari em parceria com o Departamento de
Ciências Exatas e Biológicas da Faculdade de Educação, Ciências e Letras do Alto
Taquari – FECLAT, instituição esta chancelada pela Fundação Alto Taquari de
Ensino Superior (FATES). O referido curso ocorrera nos dias 15, 16, 22 e 23 de
agosto de 1987, tendo como ministrador o Dr. Pedro Mentz Ribeiro.
Um dos últimos passos no que tange ao estudo do Patrimônio Histórico e
Cultural no Vale do Taquari foi a instalação de um Setor de Arqueologia junto ao
Centro Universitário Univates de Lajeado/RS. Coordenado pela arqueóloga Drª Neli
Teresinha Galarce Machado, o referido departamento vem pesquisando de forma
sistemática os documentos materiais da ocupação humana na região apoiado
financeiramente pela Instituição de Ensino Superior que o abriga junto ao seu
16

Museus de Ciências Naturais, pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do


Rio Grande do Sul (FAPERGS) e amparado por Portaria Ministerial vinculando os
trabalhos ao Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN). Destaca-
se ainda a inclusão de disciplinas referentes ao Patrimônio Histórico e Cultural em
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cursos como História e Turismo.


Um dos últimos trabalhos enfocando o Patrimônio Histórico-arqueológico e
Cultural referenciados por pesquisas do referido laboratório foi desenvolvido em
forma de dissertação de mestrado em Ambiente e Desenvolvimento por Marcos
Rogério Kreutz. Em sua pesquisa o autor, a partir da metodologia escolhida,
considera o ambiente patrimônio comum ao construir o cenário histórico-ambiental
onde está inserido o seu estudo de caso. Kreutz (2008) trabalhou com
microssistemas4 de assentamento Guarani no Vale do Taquari enfocando sítios
situados na região mais plana5 e de menor altitude desta região do Estado do Rio
Grande do Sul. Após compor o cenário apresentando as conveniências em termos
de condições de vida apresentadas pelo local, o pesquisador persegue as
transformações que a ação humana provocou neste cenário. Os vestígios destas
sociedades constituem-se em Patrimônio e Documento a partir dos quais, e só a
partir deles, se pode estudar as sociedades anteriores à chegada do europeu à
região.
Assim como esta pesquisa que visa remeter-nos ao início da ocupação
antrópica regional, outras tantas têm sido empreendidas a partir da Cultura Material
evidenciada nas pesquisas do referido laboratório. A exemplo de outras regiões, o
Vale do Taquari passa a ter a sua pré-história conhecida. Emerge das pesquisas
arqueológicas uma categoria de Patrimônio Histórico Cultural, cujos signos, têm sua
decifração a ocupar arqueólogos com um pouco mais de experiência e iniciados
nesta ciência. Ciência que ainda se firma tanto regionalmente quanto em termos de
país como vimos no histórico até aqui apresentado.

4
Conforme as fontes utilizadas por Kreutz, 2008, “O sistema de assentamento dos horticultores
Guarani era um conjunto de Tekohás (assentamento familiar). Para eles, Tekohá é o lugar que reúne
condições necessárias para que o grupo possa exercer o “seu modo de ser”, fundamentados na
religião e na agricultura de subsistência, com grande respeito à natureza”. (p. 22).
5
O autor apresenta o Vale do Taquari como uma região localizada, “no centro leste do estado do Rio
Grande do Sul, a uma distância média de 150 km da capital Porto Alegre”. (p.25). (...). “No Domínio
Morfoestrutural das Bacias e Coberturas Sedimentares, no Vale do Taquari/RS, são observadas duas
regiões geomorfológicas, a Depressão Central Gaúcha e o Planalto das Araucárias”. (p. 27). A região
onde prioritariamente o autor pesquisa é a primeira supracitada.
17

2.2 O período colonial brasileiro e o patrimônio que marca o encontro dos


mundos
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Portugal, embora tendo oficialmente declarado o Brasil como território sob seu
domínio em 1500, demorou a ocupar de forma mais significativa o território. Do
ponto de vista material as primeiras referências deste acontecimento, como não
poderiam deixar de ser, estão no litoral do nordeste do Brasil. Antes mesmo da cruz
da primeira missa e dos marcos iniciais colocados em solo brasileiro, a primeira
relação entre os portugueses e os índios brasileiros foi marcada por oferendas
materiais de parte a parte. Este material descrito pelos relatores oficiais do fato é o
início da produção de uma Cultura Material híbrida que ilustra o encontro dos dois
mundos. Pensando historiograficamente ou do ponto de vista da Arqueologia temos
dois documentos sobre o mesmo “episódio” histórico: os relatos dos portugueses
que vieram exclusivamente para isto e a materialidade dos objetos regalados
mutuamente. Os relatos representam o documento oficial pelo qual Pedro Álvares
Cabral toma posse do Brasil em nome do Rei português. E os objetos? A localização
deste ínfimo fragmento material da história brasileira é de localização pouco
provável. A importância dada por ambos os grupos ao universo material, entretanto,
é indelevelmente marcada pelas oferendas. As lentes deste trabalho, entretanto,
estão voltadas para outra dimensão. O ato de ofertar e o objeto ofertado, de acordo
com o que perseguimos nesta monografia, não se resumem ao que plasticamente
imaginamos. Há um universo simbólico marcando a ação e o objeto. Este símbolo
arbitrariamente atribuído vai além da funcionalidade que a maneira pragmática de
pensar pode atribuir às coisas. Que função teria um cocar de penas de aves para
um português ou uma quinquilharia européia qualquer para um índio? Estas
questões de cunho mais teórico, entretanto, receberão atenção mais específica no
capítulo três do presente texto.
Seguindo a trilha do Patrimônio Histórico e Cultural que se funda a partir do
estabelecimento europeu no Brasil se pode mencionar algumas estruturas que se
apresentam como pontos turísticos explorados pelos governos e pela iniciativa
privada daquela região do Brasil na atualidade. São fortificações militares
construídas com o objetivo expresso de “proteger” a costa brasileira de outras
18

embarcações enviadas por outros países que também ambicionavam aportar por
aqui. Ainda entre o patrimônio deste tempo constam igrejas construídas a fim de
solidificarem o domínio português que extrapolava o universo físico e, a partir da
apresentação de um novo sistema de crenças, almejava as convicções mais íntimas
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das populações aí estabelecidas. O que mencionamos é apenas uma parte do


universo material a partir do qual o período que nos propusemos contextualizar
apresenta.
É possível, contudo, restringirmos o nosso universo a regiões como o Rio
Grande do Sul e à micro-regiões como o Vale do Taquari, por exemplo, que só mais
tarde serão impactadas por situações desta natureza. Nestes locais também se
produzirá, a partir daí, um universo material igualmente carregado de simbologias.
Pesquisas realizadas pelo Laboratório de Arqueologia do Centro Universitário
Univates evidenciaram a possibilidade de uma abordagem do ponto de vista
histórico-arqueológico em relação a todo o período em que a vida humana graça por
estas paragens. Especificamente em relação ao período colonial as referidas
pesquisas abordaram a sede de uma importante fazenda colonial no interior do
município gaúcho de Bom Retiro do Sul. Esta fazenda ilustra, sobremaneira, como a
terra foi mudando de mãos.

No século XIX, essas terras pertenciam ao carioca Manuel dos Reis


Louzada, primeiro Barão de Guaíba. A Fazenda Pedreira era a “sede
administrativa” das fazendas que Louzada possuía na região. Esse,
contudo, é apenas um dos documentos materiais a se revestirem de
inestimável importância para a história da região e cuja valorização por
parte de alguns segmentos da sociedade não acontece por ignorância ou
por falta de vontade política. Os dados documentais dessa estrutura ainda
não foram completamente levantados, no entanto, as características do
material construtivo, conjugado ao que já se pode apurar, em termos
históricos do período colonial do Brasil, dão conta de que se trata de uma
construção do século XVIII. (Machado e Lopes, 2008, p. 57).

O status documental é uma simbologia atribuída pelo historiador a estruturas


como esta. Os interesses difusos e o descaso em relação à história regional são
responsáveis por situações como a acima testemunhada. Muito antes de propormos
algo pragmático no sentido de nortear as ações em relação a patrimônios como
este, perseguimos a ignorância em relação a esta simbologia. O objeto e o seu signo
se fundem, entretanto, o problema está na decifração. Situações como esta,
apontam para problemas históricos, cujo esquecimento parece pertinente diante do
19

caminho percorrido pela carruagem histórica local. Na transição da primeira fase


colonial para a exploração de um outro negócio, o da imigração, muitos heróis da
história regional oficial são contestáveis a partir de abordagens mais autônomas.
Mesmo sem utilizar diretamente as estruturas construtivas Cristillino (2004),
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chama atenção para o período de desapropriação das pessoas que por aqui viviam
à margem dos interesses dos loteadores e donos de empresas de imigração e até
de grileiros. Embora a abordagem do autor situe-se em meados do século XIX,
quando o Vale do Taquari começou a receber imigrantes, ilustra sobremaneira, a
situação dos “donos” da região após entrarem em decadência econômica nos finais
dos anos 1700. Ao explorarem com volúpia o novo negócio, o da imigração, sobram
os pobres que aqui viviam chamados pelo autor supracitado de lavradores
nacionais:

Foi exatamente neste alargamento que houve o desalojamento dos


lavradores nacionais das suas posses, pois essas áreas, uma vez ocupadas
pelos mesmos, tiveram que ser ‘limpas’ para o seu ‘desbravamento’ pelo
imigrante. Este período também é importante por compreender aquele no
qual entrou em vigor a Lei de Terras de 1850, esta, em tese, barraria o
avanço das especulações e das grilagens sobre as terras devolutas ou
públicas. (Christillino, 2004, p. 17).

A preservação de estruturas-testemunhas de tais acontecimentos históricos


traz à baila situações novas as quais a história oficial do Vale do Taquari não
contempla. Eis um patrimônio histórico revestido de um caráter documental como o
que aqui viemos caracterizando.
Embora tendam a existir motivos ideológicos para a ocultação de passagens
históricas, como a acima referida, há que se considerar que o presente,
invariavelmente, se vale do passado em suas inquietações. As desigualdades,
sociais forjadas de formas singulares Brasil afora, têm nesta estrutura fundiária
antes descrita a sua origem no Vale do Taquari/RS. Considerando que as
inquietações do presente são de todos os cidadãos contemporâneos, como negar o
pertencimento dos referenciais de memória aos mais diferentes segmentos sociais?
Por mais que, num primeiro momento, se possa imaginar que ao preservar um
casarão setecentista estar-se-ía privilegiando a memória da oligarquia há que se
considerar que esta oligarquia era rodeada de escravos e de outros tantos
20

“desclassificados sociais”, de cujo sofrimento, está impregnado cada tijolo das ruínas
e de outras estruturas que documentam este tempo.
Diante deste quadro que não é exclusividade da situação exemplificada tem-
se o diagnóstico de mais uma questão emblemática no tocante ao Patrimônio
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Histórico e Cultural, qual seja; a sua dimensão documental ainda não é de domínio
geral. Aliás, mesmo a universalidade dos patrimônios mundiais é ignorada por
grande parte dos cidadãos. A bibliografia por nós consultada dá indícios do porquê
desta falta de sentimento de coletividade no que tange à noção de Patrimônio:

Até o século XVIII, as ações deliberadas, voltadas para a preservação de


monumentos, eram ocasionais, e, quando ocorriam, eram realizadas pelos
segmentos sociais dominantes, basicamente a Igreja e a aristocracia,
visando a conservar seus bens. Para os antiquários, os objetos antigos
interessavam primordialmente como documentos, dotados também de valor
artístico, e o interesse na coleta e na guarda era partilhado apenas pelos
membros dessas sociedades. (Fonseca, 2005, p.57).

Algumas considerações urgem diante do diagnóstico feito. Primeiramente, o


reforço de que a materialidade do patrimônio abriga discurso, não há neutralidade.
Em segundo lugar, o destaque para a imposição. Enquanto as ações no tange ao
patrimônio utilizarem os verbos no imperativo a chance de sucesso será a mesma
que a experimentada em relação ao sentimento de coletividade antes mencionado.
Problemas, como os acima mencionados por Fonseca (2005), terão soluções na
medida em que, como antes propusemos, o patrimônio for tomado como documento.
Desta forma a leitura da representação simbólica pode variar de indivíduo para
indivíduo ao passo que o signo estará sempre na essência do objeto preservado
para ser lido por todos. Condenável seria uma atitude diametralmente oposta, ou
seja, confundir-se não imposição com omissão diante das demandas emanadas da
presente problemática.

2.3 A independência e o forjar de uma nação: o Patrimônio Histórico e


Cultural como afirmação

Diante das invasões napoleônicas na Europa a corte portuguesa ruma para o


Brasil em busca de segurança. A colônia que por muito tempo sustentou a metrópole
recebe a estrutura administrativa do reino se tornando o centro das decisões
21

daquele império em perigo. Deste estágio para uma retomada das reivindicações no
que tange à independência, embrionárias já no século XVIII, era um passo. O lastro
para este acontecimento foi sendo paulatinamente estendido. O Patrimônio Histórico
e Cultural fez parte desta estrutura fundamental rumo à independência.
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Esta situação não é peculiaridade brasileira, Fonseca (2005, p. 58) apresenta


os liames entre nação e patrimônio presentes em outros contextos. Conforme a
autora, na Inglaterra diante do vandalismo reformista que destruiu imagens e igrejas,
as sociedades de antiquários assumiram o papel de preservadores. Mas, segundo a
mesma fonte, é na França que esta ligação se apresenta de maneira mais clara. No
crepúsculo do Antigo Regime, os monarcas já influenciados pela aura do iluminismo,
procuraram dar acesso aos seus acervos através da criação de museus. Com a
Revolução de 1789, os adeptos mais radicais do novo regime atentaram contra tudo
o que fazia referência ao período anterior. A oposição a esta mentalidade veio de
dentro do próprio movimento iluminista. A elite intelectual iluminista procurou
conservar estes bens confiscados dos monarcas alegando para isto de utilidade
para a instrução pública. Sendo assim a noção moderna de patrimônio inicia
justificada pela preocupação moral e pedagógica como um cimento de nação. Para
a autora:

A idéia de posse coletiva como parte do exercício da cidadania inspirou a


utilização do termo patrimônio para designar o conjunto de bens de valor
cultural que passaram a ser propriedade da nação, ou seja, do conjunto de
todos os cidadãos. (Fonseca, 2005, p. 58).

A partir desta concepção de patrimônio persegue-se a consolidação dos


Estados-nações modernos. A mesma autora acima citada menciona algumas
funções simbólicas que o patrimônio vinha cumprir neste novo cenário político-
organizacional da coisa pública. Primeiramente, o reforço da noção de cidadania
ancorada no discurso de que os bens do Estado são de toda a sociedade sendo
função da estrutura estatal apenas geri-lo. Em segundo lugar, há a criação de
patrimônios, cuja proteção e apreensão comum reforçam a coesão nacional; é o
caso de hinos, bandeiras, obras de arte e outras alegorias. No Brasil, Fonseca refere
a arte de Pedro Américo e Vitor Meireles, como ilustrativo dessa situação. A terceira
utilidade do patrimônio para a concepção de nação está no caráter documental dos
bens patrimonializados, construindo a partir daí “o mito de origem da nação e uma
22

versão da ocupação do território, visando a legitimar o poder atual”. Como último


aspecto para o qual a autora chama atenção está na justificativa para a manutenção
dos bens patrimoniais, sendo o argumento mais latente o do alcance pedagógico
para a instrução dos cidadãos. (Fonseca, 2005, p. 59-60).
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No Brasil, é durante o século XIX que pesquisas são incentivadas nas áreas
que permitissem um conhecimento mais aprofundado do país como já referenciamos
no início do capítulo. Se no período anterior o incentivo para que se explorasse o
interior do território se resumia à motivação predatória como descoberta de minério e
obtenção de mão-de-obra através da prisão de índios para trabalho forçado, agora o
objetivo era definir o que era o Brasil e quem era o cidadão brasileiro. Tem
destacada atuação no processo de dar a conhecer o Brasil a Missão Artística
Francesa de 1916. Segundo Lopez (1988, p. 101) a atuação destes artistas seria o
marco de encerramento do ciclo artístico colonial, não só do ponto de vista
estilístico, mas também ideológico. A partir de então o estilo suntuoso do barroco
daria lugar a uma arte mais pragmática em todos os seus segmentos. Conforme a
mesma fonte é neste contexto que se cria a Academia de Belas Artes no Rio de
Janeiro transplantando assim o ensino artístico do Velho Mundo para o Brasil. Tudo
em nome de uma purificação nacional e de uma negação do Brasil original.

As elites locais refinavam-se e partiriam para um repúdio consciente da


herança do passado. A arte colonial tinha sido a arte dos mulatos, dos
autodidatas (mesmo que Aleijadinho tenha chegado a estudar num liceu
fundado em Ouro Preto em 1749) e daqueles deserdados da sociedade que
viram no ofício artístico a oportunidade de subir na rígida estrutura de
classes vigente. A nova arte que começou com D. João VI e com a Missão
Francesa seria a arte das classes dominantes, das elites do Rio de Janeiro,
europeizadas por autodefinição e que fariam questão de um estilo europeu,
que estivesse desligado das raízes populares nacionais na mesma medida
em que elas, como classe, também fariam questão de estar (Lopez, 1988,
p. 101-102).

Este era o Brasil que os mandatários queriam como nação, um país branco e
europeizado. As estruturas patrimoniais são produzidas como uma das formas de
solidificação deste intento. O atual Museu Nacional é criado por D. João VI em junho
de 1818, no Rio de Janeiro com o nome de Museu Real. Ao abrigar informações
acerca da história natural e antropológica do país, a referida instituição está no rol
das medidas tomadas rumo a um conhecimento do Brasil que vai permitir mais tarde
23

a independência já que desde 1815 o Brasil passara a ser um Reino Unido de


Portugal. (Mattos e Gonçalves, 1991, p. 11).
A partir da independência algumas medidas significativas são tomadas em
relação à utilização do Patrimônio Histórico e Cultural e à preservação da memória
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em geral. Já em 1838, conforme cronologia apresentada por Mattos e Gonçalves,


(1991, p. 99), são criados o Arquivo Público Nacional e o Instituto Histórico e
Geográfico Brasileiro. Estas instituições chancelarão as pesquisas do historiador
Francisco Adolfo de Varnhagen, que ao lado do escritor José de Alencar, idealiza o
Brasil. Varnhagen publicou em 1854 a primeira edição de História Geral do Brasil,
uma meta-narrativa que procurava dar conta de descrever o verdadeiro Brasil.
(Mattos e Gonçalves, 1991, p. 80).
Com D. Pedro II á frente do império brasileiro as pesquisas que buscavam
desvendar o Brasil foram intensificadas. A Arqueologia, conforme já pontuamos,
ganhou importância por ser a única forma de inferência acerca das pessoas que
habitavam o território por séculos. Aliás, autores como Prous (1992), consideram
que a Arqueologia só começou no Brasil a partir das últimas três décadas do século
XIX, justamente a partir deste esboço do império. Este posicionamento se justifica
em parte pelo fato de não haver profissionais da área no Brasil. Sendo assim, as
pesquisas anteriores estiveram sob a responsabilidade de pesquisadores
“amadores” como médicos e biólogos, todos imbuídos de subsidiar as pesquisas que
dessem conta de relatar um Brasil verdadeiro de riquezas naturais, mas de uma
população que precisava ser civilizada.
No que tange ao que mais tarde constitui-se Patrimônio, ou seja, as
esculturas e a arquitetura, Lopez (1988, p. 107), considera que a primeira ficou
bastante empobrecida ao se despojar de sua função religiosa. Escultores como
Rodolfo Bernardelli, passaram a produzir academicamente prioritariamente para os
poderes públicos esculpindo estátuas de políticos e para cemitérios. Em relação à
arquitetura, o mesmo autor considera que houve um período de transição até a
solidificação de um novo estilo mais funcional. Segundo ele,

A verdade é que a arquitetura neoclássica já não mais podia servir às


necessidades brasileiras por dois motivos: o crescimento urbano e
populacional e a renovação tecnológica impunham a necessidade de um
estilo mais funcional, mais dinâmico, mais moderno, mais condizente com
os novos tempos. Depois, com a abolição da escravatura, a arquitetura
neoclássica dos senhores e palacetes sofreu um rude golpe: o escravo era
24

o lado funcional da residência. Ao ser suprimido, a casa é que teria de se


tornar funcional, o que equivale dizer que o estilo formalístico do
neoclassicismo deixou de atender as prementes necessidades dos
moradores. (Lopez, 1991, p. 108).
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Seguiu-se, a partir daí, um período de confusão de estilos caracterizado por


Lopez (1991, p. 108), como de transição, para só mais tarde, em 1927, com as
obras de Gregori Warchavchik, triunfar a arquitetura moderna.
No Vale do Taquari, estruturas arquitetônicas de finais do século XIX e início
do século XX, foram pesquisadas pelo Laboratório de Arqueologia da Univates. Na
região estas estruturas arquitetônicas são documentos do processo de colonização
ao mesmo tempo em que denotam como as pessoas que aqui chegaram se
serviram do que o meio oferecia para adaptar o seu modo de vida.
Imigrantes Alemães, em meados do século XIX, e italianos, no final deste
mesmo período sucederam os “lavradores nacionais” em cada uma das micro-
regiões do Vale do Taquari. Na região mais plana pertencente ao que se conhece
goemorfologicamente como Depressão Central assentam-se os alemães. Já na
região caracterizada anteriormente como Planalto das Araucárias ou início da Serra
Geral são assentados os descendentes, e mesmo imigrantes provenientes da Itália.
A pesquisa antes referida revelou características particulares em cada uma destas
regiões.

Na região da planície, casas de moradia desse período apresentam


reminiscências do estilo enxaimel germânico, cuja característica mais
evidente é a mescla, na parede, de madeira e alvenaria. Essa característica
está presente na maioria das casas pesquisadas que serviam
prioritariamente como moradias. Na presente pesquisa, foram abordadas 16
casas na região da planície com a especificação de finalidade acima
descrita. Dentre essas, as que foram construídas anteriormente à década
de 1930 apresentavam a característica arquitetônica antes referida.
(Machado e Lopes, 2008, p. 58).

Já na região ocupada por imigrantes italianos as casas apresentam porões


amplos utilizados para acondicionar mantimentos e, por vezes, como estábulo
quando a estrutura principal não é utilizada como moradia. Outro fenômeno
verificado em ambas as regiões é a construção, já na contemporaneidade, de
habitações novas no entorno dos antigos casarões. Uma das alegações mais
comuns neste caso é que o restauro ou reforma se torna mais oneroso do que a
construção de uma nova casa. (Machado e Lopes, 2008, p. 59).
25

Desta forma, por vezes, a valorização deste patrimônio familiar e até


documental da última fase de povoação da região sucumbe diante da conjugação de
fatores como a falta de incentivo estatal, a ignorância em relação à história e a forma
pragmática de se pensar na atualidade.
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2.4 O patrimônio e o século XX

O final dos anos 1800 e o início do século XX foram marcados por


antagonismos diante da questão do patrimônio entre os preservadores. Segundo
Fonseca (2005, p. 68), havia um grupo que defendia a preservação do patrimônio
enquanto valor do passado, caracterizado como “valor de ancianidade” e outro que
focava o seu valor histórico. Esta discussão, entretanto, se dá apenas no âmbito das
pessoas envolvidas diretamente com a preservação. A oposição, conforme a mesma
fonte, em setores mais amplos da sociedade, se dá entre o “valor de ancianidade”,
quase sacralização, e o da novidade. Esta oposição atinge inclusive setores
vinculados às políticas públicas e à noção de desenvolvimento.
Esta situação de cunho teórico que perpassa, de modo geral, a questão
patrimonial tem suas origens históricas e afeta o Brasil no auge de sua busca de
afirmação nacional:

No século XIX se consolidaram dois modelos de política de preservação: o


modelo anglo-saxônico, com o apoio de associações civis, voltado para o
culto ao passado e para a valorização ético-estética dos monumentos, e o
modelo francês, estatal e centralizador, que se desenvolveu em torno da
noção de patrimônio, de forma planificada e regulamentada, visando ao
atendimento de interesses políticos do Estado. Esse último modelo
predominou entre os países europeus, e foi exportado, na primeira metade
do século XX, para países da América Latina, como o Brasil e a Argentina,
e, após a Segunda Guerra Mundial, para as ex-colônias francesas.
(Fonseca, 2005, p. 62).

Seguramente decorre daí as principais questões a ocuparem todos os que de


alguma forma se relacionam com o Patrimônio Histórico e Cultural profissionalmente,
na atualidade. A dinamicidade cultural6 se reflete nas questões mais básicas do

6
Sendo que cultura é aqui entendida como “... o estudo das formas simbólicas – isto é, ações,
objetos e expressões significativas de vários tipos – em relação a contextos e processos
26

cotidiano o que muda a relação dos cidadãos entre si e com seus referenciais de
memória7, como já mencionamos em relação ao impacto da abolição da escravatura
na arquitetura do século XIX. O avanço da industrialização e da urbanização, bem
como as configurações sociais verificadas no século XX, dá ao Patrimônio Histórico
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e Cultural uma função utilitária comercial. Mas, conforme Fonseca, não é só isto que
vai afetar a composição patrimonial:

Por outro lado, não é apenas a mercantilização da vida cultural nem a


difusão de valores da modernização que vai influir, neste século, nas
políticas de preservação. O surgimento de novos Estados-nações,
sobretudo a partir da Segunda Guerra Mundial, no Terceiro Mundo, e,
posteriormente, a luta de grupos étnicos discriminados nos Estados
nacionais por seus direitos como cidadãos, levaram a mudanças na
composição dos patrimônios históricos e artísticos nacionais. (Fonseca,
2005, p. 68).

Entre os grupos mencionados pela autora estão os operários, os


camponeses, os imigrantes e as minorias étnicas. Esta ampliação da noção
patrimonial trouxe para a cena histórica o que Fonseca (2005, p 70) chama de
esquecidos pela história factual. Apesar de algumas críticas de parte de alguns
ideólogos do patrimônio mais atrelados a concepções tradicionais em relação a esta
nova postura diante da constituição dos patrimônios os avanços acima mencionados
são impossíveis de serem ignorados. No decorrer desta monografia discutiremos os
problemas e limites que sublimam a discussão tradicional proposta pelos ideólogos
(Chastel e Babelon) citados por Fonseca (2005, p. 71), que contestam o que aqui
apresentamos como avanço, ou seja, a ampliação das possibilidades patrimoniais a
partir da Cultura Material de grupos até então não contemplados
historiograficamente.

historicamente específicos e socialmente estruturados dentro dos quais e por meio dos quais, essas
formas simbólicas são produzidas, transmitidas e recebidas”. (Thompson, 1999, p. 181).
7
“Fenômeno individual e psicológico (cf. soma/psiche), a memória liga-se também à vida social (cf.
sociedade). Esta varia em função da presença ou da ausência da escrita (cf. Oral/escrito) e é objeto
de atenção do Estado que, para conservar os traços de qualquer acontecimento do passado
(passado/presente), produz diversos tipos de documento/monumento, faz escrever a história,
acumular objetos (cf. coleção/objeto). A apreensão da memória depende deste modo do ambiente
social (cf. espaço social) e político (política): trata-se da aquisição de regras de retórica e também da
posse de imagens e textos (cf. imaginação social, imagem, texto) que falam do passado, em suma,
de um certo modo de apropriação do tempo (cf. ciclo, gerações, tempo/temporalidade). As direções
atuais da memória estão, pois, profundamente ligadas às novas técnicas de cálculo, de manipulação
da informação, do uso de máquinas e instrumentos (cf. máquina, instrumento), cada vez mais
complexos”. (Le Goff, 2003, p. 419).
27

Os estudos de Fonseca (2005, p. 72-3), mencionam alguns acontecimentos


históricos de meados do século XX que permitiram o avanço antes mencionado.
Entre o que a autora pontua destacamos três aspectos que nos parecem ilustrativos
diante do quadro patrimonial verificado, quais sejam: a descolonização dos países
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caracterizados então como de terceiro mundo, Declaração Universal dos Direitos do


Homem pela ONU (Organização das Nações Unidas) em 1948 e a ampliação do
conceito de Cultura. Estas medidas colocam os direitos culturais no rol de Direitos
Humanos a serem garantidos universalmente dentro da concepção de pluralismo e
contemplação das diversidades. Desta forma os intelectuais e burocratas deixaram
de ser os únicos segmentos sociais a se preocuparem com o patrimônio. Outro
fenômeno detectado por Fonseca (2005, p. 75) é o apelo que a questão patrimonial
tem junto às estruturas dos poderes constituídos nas esferas estadual e municipal.
De forma geral, contudo, e no Vale do Taquari em particular, o pensamento
de que investimentos e discursos em prol da cultura não seduzem o eleitorado, faz
com que os políticos, na sua maioria, não dêem atenção a questões desta natureza.
O Caderno de Variedades do Jornal O Informativo de Lajeado do dia 13 de fevereiro
de 2009, trouxe em sua capa a matéria intitulada “Marcas do abandono em prédio
centenário”. No texto do referido periódico o depoimento de pessoas que haviam
estudado no prédio ao qual a matéria se referia que fora uma das primeiras escolas
da região. Sendo o imóvel de propriedade do poder público a reportagem ouviu a
Secretária de Educação, Cultura, Desporto e Turismo do município de Imigrante
onde o prédio centenário que carece de cuidados está situado. Nas palavras da
referida autoridade a comprovação da constatação acima feita:

Ao mesmo tempo que reconheço a falta de manutenção daquele prédio,


não posso afirmar que haverá restauração. Os funcionários da pasta de
Obras não dão conta de atender à recuperação do fluxo normal das
estradas e os serviços necessários aos prédios históricos acabam não
sendo prioritários. (p. 01).

A situação relatada aqui não é peculiaridade da região é apenas uma


ilustração do que a industrialização e a urbanização que teve lugar no século XX
ensejaram em relação ao Patrimônio Histórico e Cultural no Brasil. São fenômenos
desta natureza que ensejarão manifestações de intelectuais e a criação de
repartições e legislações específicas para o patrimônio. Estes assuntos, entretanto,
merecerão um tratamento mais demorado no próximo capítulo.
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3 AS DEFINIÇÕES DE PATRIMÔNIO HISTÓRICO PARA OS


INTELECTUAIS E PARA OS PODERES CONSTITUIDOS

Após estudarmos a situação do Patrimônio Histórico e Cultural na história do


Brasil, perseguiremos o avanço do conceito de patrimônio presente na bibliografia
da qual lançamos mão e, principalmente, em algumas leis especificamente
elaboradas com foco no patrimônio. Por último, diante dos tímidos resultados, em
termos de consciência em relação a tudo o que envolve a temática, experimentados
por regiões como o Vale do Taquari/RS, procurar-se-á levantar hipóteses sobre as
causas da pouca eficácia de empreendimentos neste sentido.

3.1 A preservação forçada enquanto a consciência não vem

A preocupação dos poderes constituídos com os referenciais de memória no


Brasil é uma consequência de processos históricos que o mundo experimenta. No
século XIX a segunda fase da industrialização acelerou a urbanização criando os
grandes centros mundiais. Esse fenômeno se verificará, no país, um pouco mais
tarde. Apesar de erigir várias construções com a finalidade de cimentar um ideário
de nação, os colonizadores ainda não haviam institucionalizado a preservação
patrimonial. Mesmo o conceito de Patrimônio Histórico e Cultural é bastante recente
enquanto construção intelectual. A problematização em torno desta temática data do
início do século XX com o advento do movimento literário conhecido como
Modernismo.
A preocupação em relação a potenciais objetos memoráveis, entretanto, não
é nova. Conforme os estudos de Rodrigues (2006, p. 1), em carta datada de 5 de
abril de 1742, D. André de Melo e Castro, o Conde de Galvéias, que na época
ocupava o cargo de vice-rei do Brasil, endereçada ao governador da capitania de
29

Pernambuco, manifestava a sua contrariedade à instalação de quartéis no Palácio


das Duas Torres. O referido Palácio, construído a mando de Maurício de Nassau,
fora considerado pelo vice-rei importante para a “preservação da memória tão ilustre
e da glória de toda a nação”. Esta, conforme o autor anteriormente mencionado, fora
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a primeira manifestação oficial no que tange ao patrimônio. No período político


posterior, o império, as manifestações neste sentido também foram tímidas.
Luiz Pedreira do Couto Ferraz, ministro e conselheiro é o responsável pela
manifestação mais explícita no que tange ao Patrimônio Histórico e Cultural durante
o período imperial. A autoridade ordenou aos presidentes de províncias que
obtivessem coleções de toda a sorte de materiais que remetessem à memória para
a Biblioteca Nacional além de recomendar que os responsáveis por reparos em
monumentos tivessem cautela para que as inscrições neles gravadas não fossem
danificadas. (Rodrigues, 2006, p 2).
As referências explícitas encontradas na bibliografia examinada, em relação
ao período anterior, se extinguem por aqui. É de fácil dedução, contudo, que as
pesquisas em arqueologia e outras ciências detalhadas no primeiro capítulo deste
trabalho estão no rol das ações correlacionadas ao que por aqui viemos tratando. O
trabalho com o conceito de Patrimônio, no entanto, tanto na produção de intelectuais
quanto na legislação só é significativo na segunda década do século XX,
desencadeando, a partir daí, uma série de outras medidas que levarão à criação do
SPHAN (Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional). As fontes relativas a
este período existem em profusão. Perseguiremos, a partir deste ponto, o que
algumas bibliografias e documentos com os quais tivemos contato, trazem sobre as
ações aí desenvolvidas e que são comemoradas e debatidas pelos intelectuais
ocupados com esta temática.
Em 1980, a Secretaria do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional publica o
Documento n° 31, intitulado Proteção e Revitalização do Patrimônio Cultural no
Brasil: uma trajetória. Neste documento o órgão faz uma retrospectiva semelhante a
que por aqui viemos apresentando. Segundo o referido escrito oficial, em 1920, o
professor Bruno Lobo, presidente da Sociedade Brasileira de Belas Artes incumbiu o
arqueólogo Alberto Childe de conservar as Antiguidades Clássicas do Museu
Nacional. O profissional designado fez uma série de sugestões dentre elas, a
desapropriação de todos os bens assim considerados. O projeto acabou por não se
efetivar. Em 1923, conforme a mesma fonte, pela primeira vez na história é
30

apresentado um projeto intuindo organizar a defesa dos monumentos históricos e


artísticos do país. Se o projeto anterior pecou por focar em demasia os bens
arqueológicos em detrimento dos históricos, este do deputado pernambucano Luiz
Cedro, não obteve sucesso por ser tímido nos aspectos que o seu antecessor
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hipervalorizou. O referido projeto propunha, em seu artigo primeiro, a criação da


Inspetoria dos Monumentos Históricos do Brasil. No ano seguinte (1924) o poeta
Augusto de Lima propôs uma emenda à lei antes mencionada recolocando-a em
pauta. A emenda visava proibir a saída para o exterior de obras tradicionais
brasileiras. A proposta foi considerada inconstitucional.
Na sequência o documento analisado informa que as tentativas legislativas
passaram a se concentrar na esfera estadual, uma vez que no âmbito federal a
filosofia liberal de garantia da propriedade privada julgava ser incompatível um
projeto de proteção do patrimônio com os anseios das classes representadas no
parlamento. O Estado de Minas Gerais foi pioneiro nesta nova configuração. O
presidente daquele estado Mello Vianna resolveu organizar em julho de 1925, uma
comissão com a finalidade de estudar o assunto e evitar a dilapidação das cidades
históricas mineiras pelo comércio de antiguidades. O trabalho desta comissão gera
uma nova tentativa na esfera federal, novamente não aproveitada. Este projeto
mineiro, contudo, será importante uma vez que muitos dos seus princípios serão
contemplados na legislação brasileira quando, finalmente, ela se constituir. (Doc. n°
31, 1980, p.10).
Os presidentes estaduais da Bahia e de Pernambuco também apresentaram
projetos bem intencionados de proteção ao patrimônio nacional em território sob sua
ingerência prevendo inclusive sansões para quem atentasse contra a sua
integridade. A Constituição e o Código Civil Brasileiro permeado, pelo já mencionado
ideário liberal, não referendavam estas medidas dos estados em nome da garantia
da propriedade. Este fenômeno tornava as leis estaduais inconstitucionais. Bahia e
Pernambuco continuavam empreendendo esforços conforme a fonte antes citada. O
presidente do estado baiano Francisco M. Góis Calmon organizou o patrimônio
estadual e, em seguida através do Decreto Estadual 5.339 de 06 de dezembro de
1927, criou a Inspetoria Estadual de Monumentos Nacionais vinculando esta
instituição à diretoria do Arquivo Público e do Museu Nacional. Em Pernambuco o
destaque fica por conta da Lei 1.918 de agosto de 1928 que autorizou Estácio de
31

Coimbra, autoridade máxima daquele estado, a tomar medidas semelhantes às


verificadas na Bahia. (Doc. n° 31, 1980, p.10).
Em agosto de 1930 o deputado baiano José Wanderley de Araújo Pinho
apresentou no Congresso Nacional um novo projeto de lei federal focando a questão
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patrimonial. Em outubro daquele ano, entretanto, aconteceu o golpe de estado que


levou Getúlio Vargas ao poder e o Congresso Nacional foi dissolvido. A Constituição
de 1891, que o projeto apresentado tentava “remendar”, passou a não vigorar mais.
Embora com estes percalços as proposições do deputado baiano, conforme o
documento que viemos analisando, dão o tom para a legislação sobre o assunto,
podendo identificar-se influências do referido projeto na legislação em vigor na
contemporaneidade. Este fato pode ser constatado ao analisarmos o conceito de
patrimônio definido explicitamente no artigo 1° da lei na época proposta:

Consideram-se patrimônio-artístico todas as coisas imóveis ou móveis, a


que dava estender a sua proteção o Estado, em razão de seu valor artístico,
de sua significação histórica ou de sua peculiar e notável beleza, quer
pertençam à União, aos Estados, ao Distrito Federal, aos municípios, a
coletividades ou particulares. (Projeto de Lei do deputado José Wanderley
de Araújo Pinho. In: Doc. n° 31, 1980, p. 46).

As leis anteriores apresentavam reduzidamente este conceito concentrando-


se quase que exclusivamente em medidas preservacionistas não definindo, em
capítulos específicos com tanta clareza e amplidão, o que estava no elenco de
patrimônios a serem preservados.
No caso da lei originária do governo mineiro, por exemplo, o redator usa como
argumento forte a utilidade da arte para em seguida adotar um posicionamento
apologético em relação à preservação desta classe de patrimônio que considera
essencial. O destaque, contudo, é o teor de cobrança com que se impõe diante do
Congresso Nacional de então como se pode ver no seguinte fragmento do texto que
denúncia o descaso com iniciativas desta natureza em ocasiões anteriores:

Há, aliás, na Câmara dos Srs. Deputados, enterrado no pó que cobre os


trabalhos de iniciativa particular que não vêm bafejados pelo povo
governamental, um projeto do Deputado Augusto de Lima, nosso colega de
Comissão, que não chegou, sequer, a despertar a atenção dos Srs.
Deputados. (Anexo do Projeto de Lei da Comissão mineira com o apoio do
presidente daquele Estado Mello Vianna In: Doc. n° 31, 1980, p. 38).
32

Os documentos expedidos pelos, hoje reconhecidos, órgãos imbuídos da


causa patrimonial são ricos em detalhes sobre a saga rumo a uma legislação
específica. A 9° Coordenadoria do IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e
Artístico Nacional), situada em São Paulo, emitiu um ofício, em 1997, endereçado ao
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Diretor do DEPROM (Departamento de Promoção do IPHAN). Anexo a este


documento, a Coordenadoria encaminha um estudo realizado pelo arquiteto Antônio
Luiz Dias de Andrade. O referido Estudo tangencia a História do IPHAN e, por
conseqüência, a história da legislação do país acerca da preservação patrimonial
diante da expansão da industrialização e urbanização. O autor também atribui o
tímido avanço das primeiras leis concernentes ao patrimônio ao paradigma liberal de
que se revestia a Constituição vigente no Brasil de então, como, aliás, já
contemplamos acima. Este fenômeno se verificou, especialmente, no que se refere
às estruturas arquitetônicas. Em seu estudo, Andrade prioriza esta categoria
patrimonial como podemos perceber no parágrafo que segue:

A primeira lei aprovada data de 1933 e erigida a cidade de Ouro Preto à


categoria de ‘monumento nacional’. Em 1936, no âmbito da reforma
administrativa do Museu Histórico Nacional, foi criada a ‘Inspetoria dos
Monumentos Nacionais’ competindo-lhe promover a preservação dos
monumentos brasileiros. (Cf. anexo do Of. 103/97 da 9° CR/IPHAN, p. 2).

Antônio Luiz Dias de Andrade se refere ao Decreto n° 22.928 promulgado em


12 de julho de 1933, três anos após o golpe que levou Getúlio Vargas ao poder e
inaugurou um novo período na história republicana brasileira. Apesar de restrita, a
referida lei foi um marco, pois era a primeira lei de caráter federal no país. No
preâmbulo do referido decreto um sopro de esperança de que finalmente o Estado
se imporia diante da demanda manifesta pelos intelectuais daquela época:

Considerando que é dever do Poder Público defender o patrimônio artístico


da Nação e que fazem parte das tradições de um povo os lugares em que
se realizaram os grandes feitos da história; Considerando que a cidade de
Ouro Preto, antiga capital do Estado de Minas Gerais, foi teatro de
acontecimentos de alto relevo histórico na formação da nossa nacionalidade
e que possui velhos monumentos, edifícios e templos de arquitetura
colonial, verdadeiras obras d’arte que merecem defesa e conservação;
Resolve: Art. 1° Fica erigida em Monumento Nacional a Cidade de Ouro
Preto, sem ônus para a União Federal e dentro do que determina a
legislação. (Decreto n° 22.928 de 12/07/1933 In: Do c. n° 31, 1980, p. 54).
33

Ainda de acordo com o relatório anexo ao ofício antes mencionado (Cf. anexo
do Of. 103/97 da 9° CR/IPHAN) os passos rumo instit ucionalização da preservação
do Patrimônio Histórico e Cultural ganharam força a partir de 1936, quando Gustavo
Capanema assume o Ministério da Educação e Saúde. Capanema, conhecendo o
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trabalho de Mário de Andrade e Paulo Duarte no Estado de São Paulo, solicita ao


primeiro a elaboração de um novo projeto de lei enfocando o patrimônio em nível
nacional, uma vez que naquele estado Andrade e Duarte haviam proposto a criação
de órgãos específicos para preservação patrimonial. Diante do que foi posto
Capanema cria, ainda em 1936, o Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico
Nacional (SPHAN). Rodrigo Melo Franco foi colocado à testa do departamento
recém criado com a incumbência de aprimorar o projeto inicial de Mário de Andrade.
Em 1937, o projeto foi enviado para as instâncias legislativas que o aprovaram
transformando-o em Decreto-lei. Neste mesmo ano aconteceu o golpe do Estado
Novo, entretanto, os tramites daquele documento seguiram o seu curso culminando
com a promulgação no último bimestre. Trata-se do Decreto-lei 25 de 30 de
novembro de 1937, através do qual estava criado o SPHAN (Serviço do Patrimônio
Histórico e Artístico Nacional). O referido decreto assim definia o Patrimônio
Histórico em seu artigo 1°:

Constitui o patrimônio histórico e artístico nacional o conjunto dos bens


móveis e imóveis existentes no país e cuja conservação seja de interesse
público, quer por sua vinculação a fatos memoráveis da história do Brasil,
quer por seu excepcional valor arqueológico ou etnográfico, bibliográfico ou
artístico. (Decreto-lei 25/37 In: Coletânea de Leis sobre Preservação do
Patrimônio. IPHAN, 2006, p. 99).

Antes, porém, em 1934, dois avanços legislativos são apontados pelo


documento n° 31 do IPHAN, bibliografia que vem paut ando a análise parcial que se
verifica no decorrer deste capítulo. Primeiramente, o Decreto n° 24.735 pelo qual o
governo aprova um novo regulamento para o Museu Histórico Nacional. Este
decreto, entretanto, apenas investe a referida instituição de responsabilidade em
relação à proteção do Patrimônio Histórico e Artístico do país não detalhando a
prática. A outra medida legislativa foi um pouco mais impactante. Neste mesmo ano
(1934), fora promulgada a nova Constituição Nacional. Conforme o documento aqui
analisado, o capítulo II desta nova Carta Magna fora inteiramente dedicado à
34

educação e à cultura. O artigo 148 é o mais explícito em relação ao nosso objeto


central de análise:

Cabe à União aos Estados e aos Municípios favorecer e animar o


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desenvolvimento das ciências, das artes, das letras e da cultura em geral,


proteger os objetos de interesse histórico e o patrimônio artístico do país,
bem como prestar assistência ao trabalhador intelectual. (Constituição de
1934 art. 148 apud Doc. n° 31, IPHAN, 1980, p. 11).

Ainda no prelúdio da fundação do SPHAN, pode ser mencionado o Primeiro


Congresso Brasileiro de Proteção à Natureza, realizado em 1935 no Rio de Janeiro.
Este Congresso aprovou um voto no sentido de se criar um serviço técnico especial
no que tange aos monumentos nacionais. Neste mesmo ano o projeto do deputado
Wanderley Pinho, do qual já nos ocupamos, é reapresentado. Amadurecia a idéia da
criação do SPHAN.
A bibliografia da qual lançamos mão, especialmente o Documento de número
31 do IPHAN, apresenta relatos do então ministro Gustavo Capanema que revela
passo a passo a trajetória de meados da década de 1930, no sentido da
organização legal do serviço específico relativo ao patrimônio. Além das medidas já
apresentadas quando mencionamos a criação do SPHAN, julgamos importante
informar que o referido departamento vinculado ao Ministério da Educação iniciou o
seu funcionamento de maneira provisória. Isto foi possível porque, astutamente,
Capanema sugeriu ao Congresso Nacional uma emenda à lei que reorganizaria o
Ministério da Educação incluindo nesta pasta a estrutura do Serviço do Patrimônio
Histórico e Artístico Nacional. Ao mesmo tempo o ministro solicitou ao presidente
Getúlio Vargas autorização para que o serviço funcionasse em caráter experimental.
O encaminhamento ao gabinete presidencial aconteceu em 13 de abril de 1936,
sendo que o despacho favorável foi publicado no dia 19 do mesmo mês. A partir daí
tomaram-se as medidas necessárias para a contratação de pessoal, cabendo a
direção, como antes informado, a Rodrigo Melo Franco de Andrade.
Antes mesmo que o projeto de Mário de Andrade, aprimorado por Melo
Franco no período experimental do SPHAN, fosse aprovado o órgão fora oficializado
pela lei que reorganizava o Ministério da Educação e Saúde Pública. Isto aconteceu
em 13 de janeiro de 1937, quando esta lei que recebeu o número 378 foi aprovada
pelo Congresso Nacional. (Doc. n° 31, p. 14).
35

O referido projeto específico, entretanto, entrou em tramitação ainda em


meados do ano anterior. Tudo graças a agilidade de Rodrigo Melo Franco na sua
primeira tarefa, ou seja, o aprimoramento do projeto de Mário de Andrade. Em julho
de 1936, Melo Franco já tinha concluído as adaptações encaminhando o projeto ao
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ministro Capanema que imediatamente fez chegar ao presidente Getúlio Vargas.


Este, por sua vez, submeteu-o ao Congresso Nacional em outubro do mesmo ano,
sendo que enquanto tramitava, a outra lei, a que reorganizou o Ministério antes
apresentada, colocava o SPHAN já definitivamente em funcionamento.
Até se chegar ao texto final do projeto, que viraria então lei nacional, outros
percalços sacudiram as estruturas das instituições legislativas do Brasil. Em 1937, a
Câmara dos Deputados aprovara o projeto remetendo-o ao Senado Federal que
sugeriu algumas emendas. As emendas dos senadores, segundo os procedimentos
legislativos, precisariam nova apreciação dos deputados. A sessão da Câmara de 10
de novembro de 1937, tinha em sua “Ordem do Dia” a apreciação das referidas
emendas. Neste mesmo dia, entretanto, Getúlio efetiva um golpe de Estado, entre
as medidas governamentais teve assento a dissolução do Congresso Nacional. Era
o início do período conhecido na história do Brasil como Estado Novo.
Entra em vigor uma nova Constituição. Esta Carta Magna, em seu artigo 134,
era ainda mais incisiva em relação ao que se refere ao Patrimônio Histórico e
Cultural:

Os monumentos históricos, artísticos e naturais, assim como as paisagens


ou locais particularmente dotados pela natureza, gozam da proteção e dos
cuidados especiais da Nação, dos Estados e dos Municípios. Os atentados
contra ele cometidos serão equiparados aos cometidos contra o patrimônio
nacional. (Constituição de 1937, art. 134, apud Doc. n° 31, IPHAN, 1980,
p.14).

Aproveitando o disposto no artigo da nova Constituição, Gustavo Capanema


toma o texto em fase final de aprovação pelas casas legislativas agora dissolvidas e
o reencaminha ao Presidente da República. Junto ao texto legal o ministro faz
chegar a Getúlio Vargas uma espécie de histórico dos esforços dos intelectuais
brasileiros que se envolveram na elaboração do projeto. No texto da “Exposição dos
Motivos” redigido por Capanema e constante do documento que estamos analisando
verifica-se a exaltação da participação do próprio Getúlio Vargas no caminho até
36

então palmilhado. Outra situação colocada em relevo por Capanema dá conta de


que os proprietários de terras e objetos dignos, no seu entender, de preservação
não gozam do esclarecimento necessário e promovem a sua depredação e evasão
do território nacional.
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Diante destes profusos apelos, em 30 de novembro de 1937, fora promulgado


o Decreto-lei n° 25 organizando a defesa do Patrimô nio Histórico e Artístico
Nacional. O SPHAN, hoje IPHAN, é a instituição de preservação patrimonial mais
antiga da América Latina. Como se pode perceber o que se conseguiu, é resultado
do esforço dos intelectuais brasileiros, sobretudo, dos que militaram no movimento
Modernista de início da década de 20 do século passado. (Doc. n°31, IPHAN, 1980,
p. 14).
Eis um marco na trajetória da preservação patrimonial no país, cuja
concepção de patrimônio já foi alvo de análise acima. Durante os primeiros anos do
SPHAN, vários outros avanços legislativos foram verificados. Embora
comprometendo, até certo ponto, a fluidez do texto deste capítulo, nos parece
oportuno fazer consta-los, tal como são mencionados no Documento n° 31 do
IPHAN, para que quem vier a consultar este trabalho em pesquisas afins tenha
todas as informações em um mesmo local avançando, quem sabe, ainda mais na
análise. Segue, então, o elenco de leis que se juntaram ao Decreto-lei n°25/37 nos
primeiros anos de existência do SPHAN:

*a 7 de dezembro de 1940 foi promulgado o novo Código Penal que, no


capítulo referente ao dano, inclui disposições estabelecendo sanções para a
infração de normas da legislação de proteção ao patrimônio histórico e
artístico nacional;
*ainda em 1940, o Decreto-lei n° 2.809, que dispõe sobre a aceitação e
aplicação de donativos particulares pelo Serviço [do Patrimônio Histórico e
Artístico Nacional];
*em 21 de julho de 1941, o Decreto-lei n° 3.365 atu alizou disposições legais
sobre desapropriações em casos de utilidade pública, contemplando entre
esses casos ‘a preservação e conservação de monumentos históricos e
artísticos, isolados ou integrados em conjuntos urbanos ou rurais, bem
como as medidas necessárias a manter-lhes e realçar-lhes os aspectos
valiosos ou característicos e, ainda, a proteção de paisagens e locais
particularmente dotados pela natureza’ e também ‘a preservação e
conservação adequada de arquivos, documentos e outros bens móveis de
valor histórico e artístico’;
*o Decreto-lei 3.866, de 29 de novembro de 1941, que conferiu ao
Presidente da República poderes para, atendendo motivos de interesse
público, cancelar tombamento de bens pertencentes à União, aos Estados,
aos Municípios ou a pessoas naturais ou jurídicas de direito privado;
*terminado o regime instaurado em 1937 e que durou até novembro de
1945, a nova Constituição, promulgada em 1946, estabelecia em seu
37

capítulo II, correspondente às normas ‘Da Educação e da Cultura’: ‘As


obras, monumentos e documentos de valor histórico e artístico, bem como
os monumentos naturais, as paisagens e os locais dotados e particular
beleza ficam sob a proteção do poder público’ (Artigo 178);
*a 2 de janeiro de 1946, o Decreto-lei n° 8.534 tra nsforma o Serviço do
Patrimônio Histórico e Artístico Nacional em Diretoria (Dphan) com sedes
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em Recife, Salvador, Belo Horizonte e São Paulo, e subordina à Diretoria o


Museu da Inconfidência, o Museu das Missões e o Museu do Ouro;
*na mesma data o Decreto n° 20.303 aprova o Regimen to da Diretoria do
Patrimônio Histórico e Artístico Nacional;
*os monumentos arqueológicos e pré-históricos merecem uma legislação
específica através da Lei n° 3.924, de 26 de julho de 1961;
*a 19 de novembro de 1965 a Lei n° 4.845 proibiu a saída para o exterior
das obras de artes e ofícios produzidos no país até o fim do período
monárquico;
*a atual Constituição [o documento analisado é anterior a 1988, data de
1980], de 24 de janeiro de 1967, em seu título IV, que trata ‘da família, da
educação e da cultura’, estabelece: Art. 180 – O amparo à cultura é dever
do Estado. Parágrafo único: Ficam sob a proteção especial do poder público
os documentos, as obras e os locais de valor histórico ou artístico, os
monumentos e as paisagens naturais notáveis, bem como as jazidas
arqueológicas. (Doc. n° 31, IPHAN, 1980, p.15-16).

Além destas medidas do ponto de vista legislativo mais genérico, algumas


medidas práticas foram tomadas em prol da conservação patrimonial no Brasil. O
mesmo estudo aqui apresentado menciona uma série de instituição de museus e
elevação de cidades ao status de patrimônio ao constituírem-se em monumentos
nacionais por leis específicas:

Decreto-lei n° 965, de 6 de julho de 1938, que crio u o Museu da


Inconfidência na cidade de Ouro Preto, MG; Decreto-lei n° 2.077, de 8 de
março de 1940, criando o Museu das Missões em São Miguel [conforme o
site rota das missões, São Miguel se emancipa em 1987], município de
Santo Ângelo, RS; Decreto-lei n° 7.483, de 23 de ab ril de 1945, que instituiu
o Museu do Ouro em Sabará, MG; Decreto-lei n° 7.713 , de 6 de julho de
1945, que erigiu em monumento nacional a cidade de Mariana, MG;
Decreto-lei n° 25.175, de 3 de julho de 1948, conve rtendo em monumento
nacional o Santuário de Nossa Senhora dos Prazeres, nos Montes
Guararapes, PE; Decreto-lei 26.077, de 22 de dezembro de 1948, que erigiu
em monumento nacional a cidade de Alcântara, MA; Decreto-lei n° 1.618-A,
de 6 de junho de 1952, que considerou monumentos nacionais os edifícios
e logradouros remanescentes das antigas vilas coloniais que deram origem
respectivamente às atuais cidades de São Vicente, SP, e Porto Calvo AL;
Lei n° 2.200, de 12 de abril de 1954, que criou em Diamantina, MG, o
Museu do Diamante e a Biblioteca Antônio Torres; Lei n° 3.188, de 2 de
julho de 1957, criando o Museu Nacional de Imigração e Colonização na
cidade de Joinville, SC; Lei n° 3.357, de 22 de dez embro de 1957, criando o
Museu da Abolição, no Recife, PE. (Doc. n° 31, IPHA N, 1980, p.16).

Apesar da descrição linear e factual que aqui viemos empreendendo,


consideramos importante conhecermos bem cada passo dado para só depois
38

apontarmos os avanços e limites de todo o processo ainda que sem a preocupação


de esgotar o assunto conforme nos propusemos ao empreendermos este trabalho.
Outra questão digna de relevo refere-se a nossa postura diante do que viemos
apresentando. Não somos operadores do Direito, portanto, analisamos a legislação
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do ponto de vista da História, o que nos exime de tomá-la como instrumento, ou


seja, as leis neste trabalho são mais uma das fontes de informação sobre as quais,
embora de forma superficial, lançamos as luzes analíticas da ciência da qual nos
ocupamos.
Após esta narração dos primeiros passos da legislação específica sobre
patrimônio rumaremos para a contemplação de algumas das leis que impactam mais
fortemente os trabalhos desta natureza no Brasil. Em anexo (ANEXO I), toda a
legislação concernente à preservação do Patrimônio Histórico e Cultural até 2006,
ano em que o IPHAN lança um livro específico intitulado “Coletânea de Leis sobre
Preservação do Patrimônio”. Este livro como expõe o título traz os textos originais
das leis, Decretos, Portarias, Resoluções e Decretos-leis, que vigoram ou vigoraram
no Brasil tendo como preocupação o Patrimônio. Também nos anexos deste
trabalho (ANEXO II) a coleção de Cartas Patrimoniais igualmente apresentadas pelo
Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. As referidas cartas
documentam congressos e seminários dos quais fazem parte vários intelectuais e
autoridades do mundo inteiro. Pensamos que desta forma, na impossibilidade de
analisarmos cada uma das leis e cartas em questão, pelo menos indiquemos o
acesso para quem vier a se ocupar da temática em trabalhos análogos a este.
Alguns estudiosos, ao tomarem como referência a caminhada do IPHAN,
órgão que ainda hodiernamente gerencia as questões patrimoniais no Brasil,
dividem em duas fases a postura dos intelectuais e administradores à testa desta
instituição. A referida divisão se faz presente, por exemplo, em Maria Cecília
Londres Fonseca na sua clássica obra “O Patrimônio em processo: trajetória da
política federal de preservação no Brasil”, cuja publicação, em meados da década
que estamos encerrando, se dá no âmbito do próprio IPHAN. Nos capítulos três e
quatro da obra, que também tem a chancela editorial da Universidade Federal do
Rio de Janeiro e do Ministério da Cultura, Fonseca trata, respectivamente, do que
chama de fase heróica e fase moderna do IPHAN, que, aliás, passa por várias
39

reformulações explicitadas nas trocas de nome da própria instituição8. A fase heróica


da qual a autora se ocupa no capítulo três tem esta adjetivação legitimada pelos
depoimentos e ações de Rodrigo Melo Franco de Andrade, que no início do seu
trabalho à testa da repartição contava, conforme o documento do IPHAN que viemos
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analisando, com parcos recursos financeiros e uma equipe de profissionais


especializados reduzida.
Esta postura diante do Patrimônio Histórico e Artístico nacional passou a ser
criticada, especialmente, a partir do surto de politização do país com o
enfraquecimento do regime militar na década de 1970. Surge então o que Fonseca
(2005, p. 23) define como “modernização da noção de patrimônio”. O discurso
básico deste segundo grupo era a democratização do patrimônio, uma vez que
acusava os protagonistas do momento anterior de trazer à tona somente o
patrimônio forjado pelas elites brasileiras. A divisão entre os intelectuais ocupados
com a questão patrimonial marcou as décadas de 1970 e 1980, como veremos no
próximo sub-capítulo.
Apesar de haver certa oposição dentre os trabalhadores do mesmo campo
alguns avanços se fizeram sentir e se refletiram na Constituição de 1988. Se, na
prática, prevaleceu a política “preservacionista” dos fundadores do SPHAN de 1937,
as discussões e os pleitos pró-democratização do grupo que aos tradicionais
trabalhadores do patrimônio se opôs, contribuiu ao menos, para que o artigo 215,
fosse tão explícito quanto à acessibilidade dos diferentes grupos sociais à cultura:

Art. 215. O Estado garantirá a todos o pleno exercício dos direitos culturais
e acesso às fontes de cultura nacional, e apoiará e incentivará a valorização
e a difusão das manifestações culturais.
§ 1°O Estado protegerá as manifestações das cultura s populares, indígenas
e afro-brasileiras, e das de outros grupos participantes do processo
civilizatório nacional.
§ 2°A lei disporá sobre a fixação de datas comemora tivas de alta
significação para os diferentes segmentos étnicos nacionais. (Constituição
da República Federativa do Brasil. In: Coletânea de Leis sobre Preservação
do Patrimônio. IPHAN, 2006, p. 20).

8
Em 2 de janeiro de 1946, o Decreto-lei n° 8.534 tr ansforma o Serviço do Patrimônio Histórico e
Artístico Nacional (Sphan) em Diretoria (Dphan). O presente decreto cria também distritos desta
Diretoria em outras cidades, mais precisamente em: Recife, Salvador, Belo Horizonte e São Paulo.
Em 1970 há uma nova mudança, o Decreto-lei n° 66.96 7 de 27 de julho, transforma a Diretoria do
Patrimônio Histórico e Artístico Nacional em Instituto (IPHAN), nomenclatura que alcança os nossos
dias. (Doc. n° 31, IPHAN, 1980).
40

O artigo seguinte da Constituição em vigor também apresenta um aceno à


contemplação de uma nova categoria patrimonial no conceito de Patrimônio
Histórico e Cultural a partir do qual a lei maior do país passará a reger as ações
concernentes ao tema. Trata-se da menção ao patrimônio imaterial através da qual a
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pluralidade cultural que marca o Brasil ganha força:

Art. 216. Constituem patrimônio cultural brasileiro os bens de natureza


material e imaterial, tomados individualmente ou em conjunto, portadores de
referência à identidade, à ação, à memória dos diferentes grupos
formadores da sociedade brasileira, nos quais se incluem:
I – as formas de expressão;
II – os modos de criar, fazer e viver;
III – as criações científicas, artísticas e tecnológicas;
IV – as obras, objetos, documentos, edificações e demais espaços
destinados às manifestações artístico-culturais;
V – os conjuntos urbanos e sítios de valor histórico, paisagístico, artístico,
arqueológico, paleontológico, ecológico e científico. (Idem)

Apesar desta menção plenamente festejada pelos intelectuais brasileiros,


decorreu algum tempo até que uma regulação mais efetiva e específica do ponto de
vista legislativo fosse aprovada. O Decreto-lei 3.551 de 04 de agosto de 2000
“Institui o Registro dos Bens Culturais9 de Natureza Imaterial e cria o Programa
Nacional de Patrimônio Imaterial”. (Fonseca, 2005, p. 18). Em seu artigo primeiro o
Decreto explicita e divide de certa forma, em categorias, o patrimônio imaterial
brasileiro:

Art. 1° Fica instituído o Registro de Bens Culturai s de Natureza Imaterial


que constituem patrimônio cultural brasileiro.
§ 1° Esse registro se fará em um dos seguintes livr os:
I – Livro de Registro dos Saberes, onde estão inscritos conhecimentos e
modos de fazer enraizados no cotidiano das comunidades;
II – Livro de Registros das Celebrações, onde estão inscritos rituais e festas
que marcam a vivência coletiva do trabalho, da religiosidade, do
entretenimento e de outras práticas da vida social;
III – Livro de Registros das Formas de Expressão, onde serão inscritas
manifestações literárias, musicais, plásticas, cênicas e lúdicas;

9
- “Bem cultural é o resultado da ação do homem, fruto da relação que estabelece com a natureza e
com os outros homens. Quando o homem transforma a natureza para satisfazer suas necessidades,
através do trabalho, ele produz objetos, cria instrumentos e utensílios, estabelece normas, elabora
regras de convivência, expressa seus sentimentos e emoções, lida de diferentes formas com os
elementos extra-humanos e organiza ritos e celebrações para expressar suas crenças...”. (Machado,
2004, p.12).
41

IV – Livro de Registros dos Lugares, onde serão inscritos mercados, feiras,


santuários, praças e demais espaços onde se concentram e produzem
práticas culturais coletivas.
§ 2° A inscrição num dos livros de registro terá se mpre como referência a
continuidade histórica do bem e sua relevância nacional para a memória, a
identidade e a formação da sociedade brasileira.
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§ 3° Outros livros de registro poderão ser abertos para a inscrição de bens


culturais de natureza imaterial que constituam patrimônio cultural brasileiro
e não se enquadrem nos livros definidos no parágrafo primeiro deste artigo
(Decreto-Lei n° 3551/2000. In: Coletânea de Leis so bre Preservação do
Patrimônio. IPHAN, 2006, p. 129-130).

Ao analisar a evolução da legislação em relação ao Patrimônio no Brasil,


Maria Cecília Londres Fonseca compara o impacto das seguintes leis: Decreto-lei n°
25 de 30 de novembro de 1977 e o Decreto-lei n° 3.5 51 de 04 de agosto de 2000,
acima explicado. Fonseca “comemora” esta última medida legislativa pela,

abrangência de seu alcance e por buscar adequar-se à especificidade do


patrimônio em questão, sobretudo no que diz respeito às ações de
salvaguarda. Mas, como também foi o caso com a legislação que
regulamenta o tombamento, a legitimidade deste instrumento legal ainda
está por ser conquistada, o que dependerá, fundamentalmente, das
políticas desenvolvidas a partir de sua aplicação e, principalmente, de sua
apropriação pela sociedade brasileira. (Fonseca, 2005, p.18).

Merecem relevo as considerações da autora no que se refere à efetiva


aplicação do instrumento legal analisado. Ainda em suas palavras o Decreto-lei n°
3.551/2000 é, “sem dúvida, um marco na trajetória das políticas de patrimônio, não
apenas no Brasil, mas também no contexto internacional”. (Fonseca, 2005, p. 19).
Fica explícito que as providências tomadas em âmbito federal só terão resultados
efetivos se encontrarem, de parte dos administradores mais próximos aos bens em
questão, o respaldo e a operacionalização, e por parte da comunidade a legitimação
dos esforços. Este último fator é o cerne do que trata este trabalho e, muitas vezes,
escapa à ingerência tanto do Estado quanto dos intelectuais aí inscritos. A tomada
de decisões é imperativa. O que por aqui se pretende é vislumbrar a possibilidade
de um caminho a ser construído de acordo com o embasamento teórico sugerido
nos capítulos seguintes. Só a materialização de um trabalho com os ditames aqui
defendidos, entretanto, comprovará a potencialidade que apontamos.
Retomando à trajetória menos específica, à título de encaminharmos o
encerramento desta fração do trabalho analisaremos, ainda que de forma superficial,
o que o estado do Rio Grande do Sul contempla em sua Constituição Estadual no
42

que concerne ao Patrimônio Histórico e Cultural. A referida Carta Magna do estado


promulgada em 3 de outubro de 1989, dedica os seus artigos 221, 222 e 223 de
forma mais específica à temática patrimonial. No primeiro dos artigos antes
mencionados, além de contemplar a questão da acessibilidade, a lei máxima do
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estado do Rio Grande do Sul conceitua o Patrimônio Histórico e Cultural:

Artigo 221° - Constituem direitos culturais: V – o acesso ao patrimônio


cultural do Estado, entendendo-se como tal o patrimônio natural e os bens
de natureza material e imaterial portadores de referência à identidade, à
ação e à memória dos diferentes grupos formadores da sociedade rio-
grandense, incluindo-se entre esses bens: as formas de expressão; os
modos de fazer, criar e viver; as criações artísticas; as obras, objetos,
monumentos naturais e paisagens, documentos, edificações e demais
espaços públicos e privados destinados às manifestações políticas artísticas
e culturais; e os conjuntos urbanos e sítios de valor histórico, paisagístico,
artístico, arqueológico, paleontológico, científico e ecológico. (Constituição
do estado do Rio Grande do Sul apud Oliveira, 2007, p.81).

A categoria patrimonial expressa neste artigo constitucional tenta abranger o


máximo de bens que apresentem potencialidade para ostentar o status de
patrimônio ao mesmo tempo em que garante aos cidadãos o direito a estes
patrimônios. O tema central do artigo seguinte, o 222°, é a colaboração mútua entre
estado e sociedade no que tange ao trabalho concreto com o patrimônio. As ações
aí sugeridas são: inventários, registros, vigilância, tombamentos, desapropriações
entre outras formas de prevenção. Os dois primeiros parágrafos deste artigo
mencionam o direito que assiste os proprietários de bens tombados em receberem
incentivos do estado para a sua manutenção e apontam para as providências
quando da ameaça ao patrimônio prevendo sanções que chegam à privação da
liberdade conforme vimos na análise do Código Penal ao longo deste capítulo. O
parágrafo terceiro do referido artigo traz o estado para o centro da questão
patrimonial ao dispor que “as instituições públicas estaduais ocuparão
preferencialmente prédios tombados, desde que não haja ofensa à sua
preservação”. (Constituição do estado do Rio Grande do Sul art. 222, § 3° apud
Oliveira, 2007, p. 81).
O artigo 223, que chama os municípios à responsabilidade em relação ao que
pode ser considerado Patrimônio Histórico e Cultural, será analisado no capítulo
quatro desta monografia onde também figurarão as leis do município de Arroio do
Meio envolvendo o imóvel que deve abrigar o museu do município até a destinação
43

do espaço para que a comunidade instale aí uma instituição de memória. Naquele


capítulo procuraremos identificar o que, dos aspectos tratados até lá, se reflete nas
providências das quais nos ocuparemos em tempo propício.
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3.2 Na vertical: quando a lei se impõe

Apesar de considerarmos no presente trabalho os limites da ação do Estado e


dos intelectuais diante do Patrimônio Histórico e Cultural, enquanto promotores de
ações que potencializem a aproximação dos cidadãos destes bens patrimoniais, não
há como negar que as origens das políticas de preservação mais agudas tiveram,
nestas duas instâncias, apoio significativo. Esta situação fica evidente nos
documentos analisados até então e na bibliografia por nós consultada. Sem a
preocupação de hierarquizarmos as ações de um ou outro destes agentes é
perceptível a influência dos intelectuais na constituição da legislação sobre o
Patrimônio no Brasil. O exemplo que mais se repete nas fontes em questão é o
protagonismo dos intelectuais militantes do movimento modernista do início do
século XX no âmbito do Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional
(SPHAN). Percebe-se neste caso a ingerência direta de estudiosos caracterizados
como tradicionais quais sejam: historiadores, escritores, arquitetos e artistas.
No sub-capítulo anterior vimos que durante muitos anos a lei fora omissa
quanto à penalização no que tange à depredação do Patrimônio Histórico. O Código
Penal promulgado em 7 de dezembro de 1940 pelo Decreto-Lei n° 2.848, em seu
Título II, Capítulo IV, descreve o que é considerado dano ao patrimônio e quais as
penas para tais infrações. Alguns artigos dispõem, especificamente sobre o
Patrimônio Histórico e Cultural:

Dano em coisa de valor artístico, arqueológico ou histórico


Art. 165. Destruir, inutilizar ou deteriorar coisa tombada pela autoridade
competente em virtude de valor artístico, arqueológico ou histórico:
Pena – detenção, de 6 (seis) meses a 2 (dois) anos, e multa.
Alteração de local especialmente protegido
Art. 166. Alterar, sem licença da autoridade competente, o aspecto de local
especialmente protegido por lei:
Pena – detenção, de 1 (um) mês a 1 (um) ano, ou multa. (Decreto-lei
2.848/40 In: Coletânea de Leis sobre Preservação do Patrimônio. IPHAN,
2006, p. 95-6).
44

O Código Penal em questão era explícito ainda em relação aos crimes


cometidos contra o patrimônio particular. A lei era ainda mais rígida no caso de o
atentado visar como alvo um patrimônio destinado à cultura como são os prédios
históricos tombados. Neste caso, conforme disposto no § 1° do Artigo 250 do
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Código, as penas por incêndio aumentariam em um terço. (Decreto-lei 2.848/40 In:


Coletânea de leis sobre preservação de patrimônio. IPHAN, 2006, p. 95-6).
O avanço sentido aqui é a superação parcial dos interesses liberais que
impediam a regulamentação de penas para quem atentasse contra os bens
referenciais do ponto de vista histórico. Em 26 de julho de 1961, a publicação da Lei
n° 3.924, dispondo sobre os monumentos arqueológico s e pré-históricos, foi ainda
mais fundo na declaração de utilidade pública das áreas com evidências
patrimoniais das categorias antes expressas. Esta lei colocava sob guarda e
proteção do poder público os monumentos arqueológicos e pré-históricos existentes
no território nacional. O parágrafo único do artigo primeiro da referida lei faz menção
aos direitos à propriedade, embasados no ideário liberal, mas adverte: “A
propriedade da superfície, regida pelo direito comum, não inclui a das jazidas
arqueológicas ou pré-históricas, nem a dos objetos nelas incorporados, na forma do
art. 152 da mesma constituição” (Lei n° 3.924/61 In : Coletânea de Leis sobre
Preservação do Patrimônio, IPHAN, 2006, p. 25).
A verticalidade desta lei é ainda mais aguda ao tratar das punições no que
tange a depredação do patrimônio ou ao impedimento, por parte do proprietário, de
área com jazida arqueológica. O artigo terceiro da referida lei ilustra sobremaneira
esta situação:

São proibidos em todo o território nacional, o aproveitamento econômico, a


destruição ou mutilação para qualquer fim, das jazidas arqueológicas ou
pré-históricas conhecidas como sambaquis, casqueiros, concheiros,
birbigueiras ou sernambis, e bem assim dos sítios, inscrições e objetos
enumerados nas alíneas b, c e d do artigo anterior, antes de serem
devidamente pesquisados, respeitadas as concessões anteriores e não
caducas. (Lei n° 3.924/61 In: Coletânea de Leis sob re Preservação do
Patrimônio, IPHAN, 2006, p. 26).

O artigo seguinte estabelece multas para as pessoas que, por ventura,


estejam explorando locais com as características antes mencionadas quando da
entrada em vigor da lei e não comunicarem as autoridades competentes. Como se
pode perceber a lei recrudesceu contra as destruições de referenciais pré-históricos
45

no Brasil. No que concerne a possíveis entraves colocados por proprietários à


pesquisa arqueológica a lei em seu artigo 13 § único, era clara:

À falta de acordo amigável com o proprietário da área onde situar-se a


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jazida, será esta declarada de utilidade pública e autorizada a sua ocupação


pelo período necessário à execução dos estudos, nos termos do art. 36 do
Decreto-lei n° 3.365, de 21 de junho de 1941. (Lei n° 3.924/61 In: Coletânea
de Leis sobre Preservação do Patrimônio, IPHAN, 2006, p. 26).

A lei mencionada no texto acima regula a desapropriação de áreas alegando


interesse público. Entre as áreas de interesse público constam as que apresentam
algum referencial histórico cultural. No Vale do Rio Pardo há relatos em pesquisas
arqueológicas da utilização deste instrumento. Pedro Augusto Mentz Ribeiro ao
apresentar um artigo intitulado “A ocupação de locais cobertos pelo Tupiguarani no
Vale do Rio Pardo, RS”, menciona o histórico da pesquisa. Exultante por ter
encontrado em meados de 1979, o primeiro local coberto com sinais de ocupação
por populações pré-históricas, oito anos após iniciar o seu trabalho naquela região, o
autor expõe:

Este primeiro contato e seus resultados nos indicaram a necessidade de


uma escavação. (...). Em novembro do mesmo ano, voltamos ao local a fim
de iniciarmos os trabalhos. O proprietário, não desejando que
escavássemos, escondeu-se nos matos que cercam sua propriedade. A
esposa serviu de interlocutora e sua resposta era que sem a autorização do
marido não poderia permitir os nossos trabalhos. Entramos em contato com
autoridade policiais das cidades de Candelária e Santa Cruz do Sul (16°
Delegacia Regional de Polícia). Regressemos ao Canhadão dos Moura,
ainda no mês de novembro, acompanhados de um inspetor de Polícia e de
um Cabo da Brigada Militar. Desta feita o proprietário não só apareceu e
permitiu a escavação, mas inclusive colaborou na limpeza do terreno que dá
acesso à caverna. Era a aplicação da Lei Federal n° 3924, por nós utilizada
pela primeira vez! As escavações totalizaram quatro dias de trabalho. Num
destes dias, pela manhã, em companhia do informante, visitamos,
recolhemos a cerâmica da superfície e realizamos um teste experimental no
abrigo, também nas terras do Sr. Venâncio Prates. (Ribeiro, 1982, p. 10).

A imposição do trabalho do arqueólogo encontra, neste caso, apoio nos


instrumentos legais, mas está longe de fazer da comunidade local uma aliada na
preservação e estudo do Patrimônio Histórico e Cultural. Esta é justamente uma das
preocupações deste trabalho, a imposição de um discurso dito científico descolado
das realidades locais e sem a devida preocupação com o respaldo das comunidades
46

afetadas. O capítulo seguinte desta produção tenta debater alternativas a este


problema que afeta intelectuais e administradores no trato com o patrimônio.
A presente lei também regulamentou a atuação dos arqueólogos no Brasil e
fortaleceu o IPHAN que na época designava-se Diretoria do Patrimônio Histórico e
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Artístico Nacional (DPHAN), como esclarecemos em nota antes inserida. Os


profissionais que se vinculam de alguma forma à temática patrimonial são
incentivados à profissionalização.
No período imediatamente posterior, com um determinado número de
instrumentos legais já criados, há um movimento oriundo da conjuntura política pela
qual o país passava. A contestação generalizada provocada pelo período de
governos autoritários no Brasil impacta como não poderia deixar de ser, as ações no
tocante ao Patrimônio. Fonseca (2005, p. 23), detecta que a contestação se dá
especialmente em relação à nacionalidade do Patrimônio, uma vez que os
intelectuais caracterizados como tradicionais gestores são acusados de preservarem
apenas o que se refere à elite nacional. Já tangenciamos esta situação no subtítulo
acima, mas na citação seguinte verifica-se a apresentação das oposições:

Nesse período [1970-1980], coexistiram duas linhas de atuação paralelas


num mesmo campo, - a da pedra e cal, continuidade do antigo Sphan e a da
referência, oriunda do Centro Nacional de Referência Cultural (CNRC),
criado em 1975 – que não conseguiram convir em um mínimo de definições
comuns. A hegemonia do grupo da referência, na verdade, se limitou ao
plano discursivo; na prática, foi através dos tombamentos efetuados pela
Sphan que continuou a ser construído o patrimônio histórico e artístico
nacional. (Fonseca, 2005, p. 24).

As reflexões acerca da situação apresentada suscitam pelo menos duas


considerações: de um lado os benefícios que um debate deste teor traz ao incluir na
pauta dos testemunhos históricos a cultura material dos grupos não hegemônicos de
acordo com os ditames sócio-econômicos baseados nos valores ditados pelo
capitalismo. Por outro lado, entretanto, há que se lamentar o fato do desperdício de
energia intelectual ao colocar em campos opostos profissionais qualificados por
vaidade e dogmatismo teórico. Situação, aliás, ainda verificável na academia e que
continua a comprometer os resultados de trabalhos feitos neste âmbito. Como se
pode ver apesar de apresentar uma das questões de maior relevância e impacto no
que se refere à trajetória das políticas de Patrimônio no Brasil, ao que tudo indica, se
despendeu energia apenas tangenciando o real problema. Discute-se o que
47

preservar, mas não se formulam práticas no sentido de permitir aos cidadãos


comuns que convivem com os monumentos patrimoniais, esfera a que se reduzia a
discussão, possibilidades de fazerem a sua própria leitura do que estava sendo
selecionado. Em outras palavras, a preocupação com o que preservar fez com que
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fosse negado ao cidadão comum o conhecimento histórico do período documentado


pelo objeto preservado. Desta forma a preocupação central parece ser construir uma
aura ideológica a partir dos objetos não permitindo que o conhecimento amplo do
panorama histórico permita a cada indivíduo um posicionamento autônomo a partir
de uma leitura dos signos de cada cultura material disponível. Não se trata de um
posicionamento ingênuo que descole a ideologia das políticas dedicadas ao
patrimônio, mas cair no outro extremo é subjugar o patrimônio e subestimar a
capacidade de interpretação autônoma que o conhecimento autêntico enseja a
qualquer cidadão.
Levando-se em conta o ponto de vista histórico, faz pouco tempo que se
instituiu a preservação do Patrimônio Histórico e Cultural no Brasil. A presente
monografia, entretanto, apresenta este processo com o intuito único de analisar os
avanços e apontar os limites metodológicos no empreendimento de ações
legitimadas pelas instituições e pela comunidade científica sem, entretanto, deixar
de tangenciar caminhos possíveis, a partir dos pressupostos teóricos apresentados
no capítulo seguinte. É oportuno, todavia, continuar historicizando a legislação e o
posicionamento de intelectuais sobre o assunto a fim de termos ainda mais
subsídios para fundamentar uma prática patrimonial capaz de apontar uma nova
direção onde as leis sejam instrumentos capazes de serem utilizados sem
funcionarem exclusivamente como forma de coerção.

3.3 Por que os discursos acadêmicos e legislativos são ineficientes?


hipóteses

É inegável que muito já se avançou em relação à valorização dos


profissionais imbuídos do estudo e preservação histórica. As leis, a partir da
redemocratização do país, foram responsáveis por avanços significativos. Desde a
Constituição de 1988, por exemplo, que a dicotomia entre patrimônio material e
imaterial vem desaparecendo. Entre outras potencialidades isto enseja que a
48

representação simbólica, concebida como atribuição individual dos agentes sociais,


contribua para o fim da polarização das discussões acerca desde aspecto em
relação ao Patrimônio. A superação da oposição entre patrimônio material e
imaterial evita que se olhe para estes bens como se estivessem mortos, como algo
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que se perdeu no tempo. Interpreta-los como históricos, ou seja, como documento


da época em que foram concebidos é fundamental, mas jamais coloca-los
exclusivamente no passado, pois assim agindo estamos indiretamente conotando-os
como desnecessários para o presente e um estorvo para avanços futuros nos mais
diferentes segmentos sociais.
Ao longo das leituras para a confecção deste trabalho detectamos que o
ferramental legislativo para a proteção do Patrimônio Histórico e Cultural já existe,
estudos acadêmicos sobre o assunto abarrotam as estantes das bibliotecas nas
universidades. O respaldo de alguns setores sociais, como de empresas privadas,
do poder público em esfera municipal e dos próprios cidadãos, entretanto, ainda não
atingiu o nível esperado. A região do Vale do Taquari/RS ilustra exemplarmente esta
situação. Apesar da relação com fases emblemáticas da história mundial, nacional e
do Rio Grande do Sul, os esforços no sentido da preservação e estudo do
Patrimônio Histórico e Cultural ainda são tímidos. A prova da pouca dinamicidade
em termos de tratamento dos seus referenciais memoriais pode ser exemplificada
pela verificação de poucas instituições legalmente constituídas para este fim.
Poucos municípios têm museus organizados e dinâmicos. No caso dos arquivos a
situação é ainda pior, a perecibilidade do acervo dos quais deveriam ser depositários
é ignorada e toneladas de documentos que registram passagens importantes da
história regional estão em perigo, sem contar a falta de sistematização para
pesquisa.
Se, em termos legislativos (de instâncias superiores) e acadêmicos a questão
patrimonial é ponto pacífico, por que este nível de consciência não atingiu o poder
público, o empresariado e principalmente as comunidades regionais? A educação
patrimonial pode ser a saída? Quais os pressupostos que norteiam este trabalho de
educação a partir do patrimônio? Eis o ponto nevrálgico desta monografia: o
questionamento ao tratamento que os estudiosos e legisladores que orbitam o
patrimônio têm dispensado ao objeto que os ocupa. Seria o tratamento vertical e
pouco democrático o patrocinador do quadro que acabamos de diagnosticar? Tudo
indica que sim. Como pudemos perceber, a contemplação da diversidade na
49

definição de patrimônio digno de preservação é recente do ponto de vista legislativo.


Os estudiosos, por sua vez, empreendem trabalhos, por vezes, descolados da
realidade por temerem cair no outro extremo, a pesquisa-ação, o que os levaria a
perda de prestígio junto aos seus pares, ainda presos ao status conferido pela
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ciência de gabinete e laboratório. Urge o encontro de um ponto de equilíbrio onde a


contemplação dos interesses dos diferentes grupos sociais não comprometa os
ditames científicos. Neste sentido parece que a saída é a revisão da concepção de
ciência, cujos métodos, não percam a seriedade pela contemplação da dinâmica que
envolve a existência de tudo o que vive.
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4 UM DISCURSO MENOS IMPOSITIVO - O SIGNO E A


REPRESENTAÇÃO

Em épocas de crise da ciência, a epistemologia e a ética ganham renovada


importância. A palavra crise aqui deve ser usada entre aspas, pois
utilizamos o termo como parâmetro da radicalização dos princípios
epistemológicos da ciência moderna. A epistemologia ganha importância no
tempo presente na medida em que o debate passa a vasculhar os princípios
de verdade dos discursos hegemônicos sobre o passado. A ética
acompanha essas reflexões como um atributo de estabelecer os parâmetros
limítrofes das práticas científicas. Sempre que tais limites são rompidos
(ameaçados) em qualquer disciplina científica, a ética é trazida à tona para
chamar a atenção da consciência dos cientistas e instituições da ciência
para dialogar. (Diehl, 2002, p. 85).

O tratamento dispensado ao Patrimônio Histórico e Cultural, por tudo o que já


vimos até o presente capítulo, sofre influência inevitável de parte dos intelectuais
que dele se ocupam e das instituições oficiais atreladas à estrutura política do
Estado. Apesar da consciência deste fenômeno, alguns trabalhos ainda propõem
ações motivadas por objetivos, cuja satisfação ainda representa um determinado
teor de imposição.
No presente capítulo pretendemos refletir à luz de teóricos que colocam no
horizonte de suas elocubrações a representação e o signo. Desta perspectiva
lançaremos o olhar sobre o nosso objeto de estudo, o Patrimônio Histórico e
Cultural.

4.1 História, Filosofia ou Psicologia: o conceito de signo

As pesquisas no campo da história cultural, por si, enaltecem a pluralidade


interpretativa. Quando se amplia os horizontes do que pode ser considerado
documento, por vezes, as metodologias existentes são ineficientes para uma
51

abordagem a contento. Este é o caso da exploração do que se convenciona chamar


de Patrimônio Histórico e Cultural. Uma reflexão acerca da representação simbólica
que não exclui nem hierarquiza os ângulos de observação é o que pretendemos
ensaiar.
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A ampliação das fontes e das possibilidades de pesquisa em História tem


atordoado os estudiosos ocupados com esta ciência. Entre os documentos passiveis
de exploração nas pesquisas históricas está a Cultura Material aproximando assim
os campos de investigação da História e da Arqueologia. Como se pode perceber
amplia-se consideravelmente o horizonte do que pode ser visualizado como
documento, conceito já definido no primeiro capítulo do presente trabalho. Esta
situação suscita debates que exigem, entre os interlocutores, abertura para
questionamentos onde não cabe o dogmatismo teórico ainda verificado nas ciências
e muito menos o feudalismo científico que fragmenta as áreas do conhecimento
tornando-as, apesar de tão próximas, ilustres desconhecidas.
A concretude dos objetos/documentos elimina, em parte, o discurso oficial
explícito de quem produz o documento. Grife-se o “em parte”, pois conforme
Meneses:

“Com efeito, o artefato neutro, asséptico, é ilusão, pelas múltiplas malhas de


mediações internas e externas que o envolvem, no museu, desde os
processos, sistemas e motivos de seleção (na coleta, nas diversificadas
utilizações), passando pelas classificações, arranjos, combinações e
disposições que tecem a exposição, até o caldo de cultura, as expectativas
e valores dos visitantes e os referenciais dos meios de comunicação de
massa, a doxa e os critérios epistemológicos na moda, sem esquecer
aqueles das instituições que atuam na área, etc, etc. (Meneses, 1998, p.
102).

Se por um lado há menos risco de se reproduzir um discurso oficial explícito,


aumenta a possibilidade de legitimarmos este mesmo discurso presente na Cultura
Material. Eis a direção que o presente trabalho pretende seguir. A teorização da
simbologia da Cultura Material e as formas como cada indivíduo em relação com a
mesma se apropria ou não desses significados.
Historiadores, museólogos, arqueólogos, e todos os outros profissionais
imbuídos da tarefa de guarda e estudo da memória, conceito também referenciado
no primeiro capítulo, correm estes riscos. A atribuição de epítetos valorativos aos
52

objetos de estudo esconde, sobremaneira, armadilhas para as quais se faz


necessário elevado nível de atenção.
A atribuição do status de Patrimônio Histórico e Cultural a determinados
objetos e estruturas arquitetônicas é um exemplo clássico de valoração. Quem
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determina o que pode ser considerado Patrimônio Histórico e Cultural em uma


comunidade? Este status é conferido pelos intelectuais ocupados com as ciências
supracitadas ou pela comunidade, a partir do sentimento de pertença e
identificação10? É possível afirmar que todo o cidadão se relaciona da mesma forma
com o meio que o cerca o qual compõe e no qual está inserido o que se define como
Patrimônio Histórico e Cultural? Só uma resposta afirmativa a esta última questão
autorizaria os intelectuais a generalizarem a percepção social da simbologia
patrimonial.
Embora já tenhamos contemplado no segundo capítulo esta discussão acerca
do Patrimônio Histórico e Cultural em suas manifestações materiais e imateriais sob
a ótica da legislação, ao aproximarmos os conceitos de Cultura Material e
Patrimônio Histórico e Cultural esta dicotomia pode ser retomada optamos,
entretanto, como se viu no primeiro capítulo por uma definição ampla de ambos os
conceitos. O debate acerca destas definições são aliadas na consciência da
dimensão de trabalhos no eixo patrimonial, cuja condução deve ser democratica,
sem prescindir da necessária cientificidade.
A título de ilustração, vale a menção aos inúmeros projetos de Educação
Patrimonial implementados, por vezes, de maneira vertical sem a devida discussão
da constituição do objeto patrimonial. O termo Patrimônio Cultural é usado na
definição da ação de educar a partir deste documento específico como se pode ver
na seguinte concepção de Educação Patrimonial: “Um processo permanente e
sistemático de trabalho educacional centrado no Patrimônio Cultural como fonte
primária de conhecimento e enriquecimento individual e coletivo.” (Horta, 1999). Esta
possibilidade é real através do alargamento da visão documental antes referida. Há
que ficar claro, entretanto, que aqui se apresenta, só uma das possibilidades e que
foge à alçada do educador a criação de laços identitários que dependem de uma

10
- Em Meneses, 1992 encontramos a análise etimológica de identidade como derivada do grego:
Idios = mesmo, si mesmo, si próprio, privado. “Em conseqüência, a identidade pressupõe, antes de
mais nada, semelhança consigo mesmo, como condição de vida biológica, psíquica e social. Ela tem
a ver mais com os processos de reconhecimento do que de conhecimento”. (p. 17).
53

complexa rede de concepções e leituras de mundo conforme apontam metodologias


menos rígidas e que congregam outras ciências que, ao lado da História, podem
contemplar os diversos ângulos de observação do objeto estudado.
A forma concreta com que a informação habita a Cultura Material e o
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Patrimônio Histórico e Cultural abriga um aparente paradoxo, pois há uma


pluralidade de interpretações capazes de referenciar vários momentos do cotidiano
humano. Como entender toda a simbologia que daí emana? Não se pode ignorar a
indelegável tarefa que a sociedade atribui aqueles que se propõem mediar a relação
embaraçosa da imanente heterogeneidade humana com tudo aquilo que a
determina e é por ela determinada. Entre estes profissionais figuram historiadores,
arqueólogos, museólogos entre outros que transitam pelo universo da memória e de
seus suportes. Qual é o limite da ação de cada um diante da demanda e das
interrogações com as quais as sociedades os fulminam? Há possibilidade de
respostas definitivas?
As questões mencionadas, no decorrer deste trabalho, não são de fáceis
respostas, pois encerram muita subjetividade, se é que dá para ignorar este fator
mesmo naquilo que classificamos como concreto. Um delinear de caminho pode
surgir se colocarmos no horizonte a perspectiva de que antes de chegarmos a
respostas definitivas precisamos pensar o papel de cada agente social em relação a
tudo o que está impregnado de referências memoriais. O intelectual/pesquisador
também está no elenco daqueles a quem se direciona uma parcela de
responsabilidade. Não se trata de hierarquizar as relações de acordo com a
proximidade ou preparo acadêmico para o trato com o Patrimônio Histórico e
Cultural, mas da busca da conjugação de forças para que este patrimônio alavanque
o conhecimento que liberta frente às tramas ideológicas da contemporaneidade.
Outra questão que precisa ficar clara é que há diversidade de papéis.
Se o protagonismo é específico para cada agente social em relação ao
patrimônio e a toda a gama de objetos que se enquadram na definição de Cultura
Material antes vista, como se dá a representação simbólica frente à materialidade
dos objetos? Esta representação é também singular ou homogênea? De que
depende a representação simbólica?
Diante de mais perguntas, cujas respostas, encerram ainda mais
subjetividade, parece imperativo começar pela reflexão em busca do entendimento
54

do que é signo? Para tanto invocamos Michel Foucault (1999) que trabalha com as
diferentes concepções de signo ao longo dos períodos históricos:

[...] Pois o que mudou na primeira metade do século XVII e por longo tempo
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– talvez até hoje – é o regime inteiro dos signos, as condições sobre as


quais exercem eles sua estranha função; é aquilo que, dentre tantas outras
coisas que sabemos ou que vemos, os erige de súbito como signos; é seu
próprio ser. No limiar da idade clássica, o signo deixa de ser uma figura do
mundo; deixa de estar ligado àquilo que ele marca por liames sólidos e
secretos da semelhança ou da afinidade. (p. 80).

Esta definição, conforme o autor dar-se-ia mediante a observação de três


variáveis, a saber: origem da ligação, tipo de ligação e certeza da ligação. No que se
refere á origem da ligação, ela pode ser natural ou de convenção. A convenção é
manifesta, a título de exemplo, por uma idéia ao passo que a ligação natural é
apresentada como o reflexo num espelho designando o que ele reflete. A segunda
convenção tratada por Foucault na definição de signo para o período clássico
contempla o tipo de ligação sendo ela, pertencente ao conjunto que designa ou
separada dele. Neste caso os exemplos explorados são a boa fisionomia, como
manifestação de saúde, para um tipo de ligação pertencente ao conjunto que
designa e as figuras do Antigo Testamento como signos longínquos da encarnação
e do resgate, para exemplificar um tipo de ligação separado do conjunto o qual
designa. A terceira e última variável, a certeza da ligação, concebe o signo como
digno de inferência segura de sua ligação ou apenas provável. No primeiro caso o
exemplo dado é o de que a respiração representa vida. No segundo caso, da
probabilidade, a exemplificação fica por conta da palidez ou enjôo como indicação
de gravidez. (Foucault, 1999, p. 80-1).
A concepção de signo é dinâmica. “A partir da idade clássica, o signo é a
representatividade da representação enquanto ela é representável”. (Foucault, 1999
p.89). Três consequências, conforme o autor, são vislumbráveis a partir dessa
definição. Primeiramente, os signos que eram concebidos como meios para que se
conhecesse a chave de um saber. Agora estão ligados ao saber. A ideia é singular
servindo de signo para outras ideias. “as imaginações são signos das percepções
donde elas vieram, as sensações são signos umas das outras” (Foucault, 1999, p.
90).
55

A segunda consequência que emana da atual definição de signo aponta para


a unicidade entre o signo e o seu conteúdo.

Não há sentido exterior ou anterior ao signo; nenhuma presença implícita de


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um discurso prévio que seria necessário restituir para trazer à luz o sentido
autóctone das coisas. Mas também não há ato constituinte da significação
nem gênese interior à consciência. É que entre o signo e seu conteúdo não
há nenhum elemento intermediário e nem uma opacidade. Os signos não
têm, pois, outras leis, senão aquelas que podem reger seu conteúdo: toda
análise de signos é, ao mesmo tempo e de pleno direito, decifração do que
eles querem dizer. (Foucault, 1999, p.91).

Esta segunda consequência pode suscitar interrogações acerca de como


acontece a decifração dos signos. Como cada indivíduo analisa o signo e se
apropria ou não de seu conteúdo? Questões como estas só terão inferências
prováveis, jamais definitivas, pelo menos enquanto a ciência tratar como homogênea
a relação e a compreensão que os agentes sociais têm de seu meio. Outra possível
confusão conceitual que pode aí ter origem é a apreensão de signo como se fora
símbolo, situação que pretendemos aclarar, na medida do possível na sequência do
presente capítulo.
A terceira e última conseqüência em relação à definição em voga de signo
aponta para a representação que merecerá atenção especial a seguir. Por enquanto
fiquemos com as reflexões de Foucault acerca da relação entre o significante e o
significado e como é construída esta relação:

Enfim, última conseqüência que se estende, sem dúvida, até nós: a teoria
binária do signo, a que funda desde o século XVII, toda a ciência geral do
signo, está ligada, segundo uma relação fundamental, a uma teoria geral da
representação. Se o signo é a pura e simples ligação de um significante
com um significado (ligação que é arbitrária ou não, voluntária ou imposta,
individual ou coletiva), de todo o modo a relação só pode ser estabelecida
no elemento geral da representação: o significante e o significado na
medida que um e outro são (ou foram ou podem ser) representados e em
que um representa atualmente o outro. (Foucault, 1999, p.92).

Não há possibilidade de representação total dos signos, assim como não há


representação sem um signo que a desencadeie. Esta inseparabilidade dá o
endereço do signo doravante:

Eis, pois, os signos, libertos de todo esse fervilhar do mundo onde o


Renascimento os havia outrora repartido. Estão doravante alojados no
56

interior da representação, no interstício da idéia, nesse tênue espaço onde


ela joga consigo mesma, decompondo-se e recompondo-se. (Foucault,
1999, p.93).

O estudo e a decifração de signos requerem habilidade e responsabilidade.


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Os símbolos são passíveis de uso também como forma de solidificar uma estrutura
social baseada na exclusão de determinados segmentos.

Os símbolos são os instrumentos por excelência da “integração social”:


enquanto instrumentos de conhecimento e de comunicação (cf. a análise
durkheimiana da festa), eles tornam possível o consensus acerca do sentido
do mundo social que contribui fundamentalmente para a reprodução da
ordem social: a integração ‘lógica’ é a condição de integração ‘moral’.
(Bourdieu, 2001, p.10).

Como se pode perceber, signo e símbolo, são dois conceitos que se


relacionam, mas com pelo menos uma diferença a se destacar. Enquanto o signo,
mesmo o linguístico, é arbitrário, o símbolo como vimos em Bourdieu, e como se
pode ver em Saussure, “não está vazio existe um rudimento de vínculo natural entre
o significante e o significado” (Saussure, 2001, p. 82). O símbolo se apresenta de
forma mais pragmática e utilitária do que o signo. Enquanto o signo se apresenta
demandando decifradores os manipuladores do símbolo pretendem-no “unissêmico”.
A relação e a diferenciação do que seja signo e símbolo e quando um passa a
ser o outro já renderam muitas discussões e teses. O universo facinante desta
discussão teórica tende a nos ajudar no trabalho com a pragmaticidade que os
nossos dias exigem. Os cronogramas e recortes inerentes ao fazer ciência,
etretanto, nos impelem a avançarmos para a sequência deste trabalho com a
consciência de que há muito o que se discutir e, principalmente se estrategear em
trabalhos concretos no futuro, quem sabe, em contatos mais íntimos com a ciência
do universo siombólico, a semiótica:

[...]. A semiótica é, assim, a doutrina de todos os tipos possíveis de signos


sobre a qual se funda a teoria dos métodos de investigação utilizados por
uma inteligência científica. Dela decorre o pragmatismo, ou método para se
determinar o signficado dos conceitos intelectuais, e sobre ela está
alicerçada a metafísica ou teoria da realidade, que não pode se expressar a
não ser através da mediação dos signos. (Santaella, 1998, p. 34).

A partir das reflexões empreendidas até aqui, ainda que superficiais, na


definição dos conceitos de símbolo e signo, partimos para a tangência de outro
57

conceito imprescindível para uma abordagem como a que por aqui viemos
ensaiando. Embora já tenhamos contemplado acima nos deteremos um pouco mais
acerca da representação.
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4.2 Representação: quando o real é impossível

A dinamicidade do que pode ser definido como cultura, como vimos ainda no
primeiro capítulo, transforma a relação (leitura dos signos) dos agentes sociais com
tudo que os rodeia incluindo o Patrimônio Histórico e Cultural. Neste sentido faz-se
necessário a definição de outro conceito, o de representação, utilizado sem muita
preocupação até então:

Uma idéia pode ser um signo de outra não somente porque entre elas pode
estabelecer-se um liame de representação, mas porque essa representação
pode sempre se representar no interior da idéia que representa. Ou ainda
porque, em sua essência própria, a representação é sempre perpendicular a
si mesma: é, ao mesmo tempo, indicação e aparecer; relação a um objeto e
manifestação de si. (Foucault, 1999, p. 89).

Desta perspectiva a representação não é só o real, mas o real mais as


variáveis sociais que determinam cada um dos interlocutores entre si ou com os
objetos. Tomando esta concepção no âmbito do Patrimônio Histórico e Cultural, urge
despirmo-nos de toda pregação de verdade que inclui a própria definição e o
discurso acerca deste objeto de estudo.
As variáveis a serem contempladas no que tange à representação são muitas,
estudos de outras ciências ajudam-nos a entendermos algumas delas. Esclarecendo
um pouco melhor o que Foucault expõe no fragmento supracitado contemplemos o
que alguns autores expõem ao colocarem ao lado do conceito de Representação os
qualificativos “social” e “cultural”:

Recentemente, alguns estudiosos de psicologia cultural trouxeram um


pouco de luz ao relacionamento entre representações cultural e social.
Como um produto de longa tradição, representações culturais, por um lado,
estão profundamente enraizadas no pensamento e no comportamento do
povo, e são hegemônicas nos grandes grupos. Elas ficam mais perto do que
Bourdieu (1989) cunhou de 'habitus' de grupos culturais. Representações
sociais, por outro lado, compreendem conhecimento adquirido mais recente.
(Wagner, 2000, p. 7-8).
58

Contemplar os fatores aqui apresentados, dependendo da corrente


hitoriográfica, pode soar irresponsável por trazer para a seara da História conceitos
desconhecidos. Talvez seja este um dos caminhos a serem palmilhados rumo ao
entendimento do porquê do desinteresse ou afeição que determinado grupo ou
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agente social manifesta em relação ao Patrimônio Histórico e Cultural. Como se


pode ver estamos particularizando a discussão, ao contrário do que é corrente no
fazer História enquanto disciplina científica pelos padrões tradicionais. Para o atual
estágio de produção, contudo, não se trata de conseguir respostas, mas de colocar
entre os fatores a serem levados em conta no estudo do objeto do qual nos
ocupamos mais estas variáveis tantas vezes ignoradas por desconhecimento ou
como consequência do feudalismo científico pelo qual o historiador tem pudor de
lançar mão de conceitos tradicionalmente atribuidos a outras áreas.
Por parecer, a discussão acima particularizada em demasia a partir dos
conceitos aí expostos, é impossível deixar de considerar que a produção do
históriador sempre encerrará certa generalização, o que aumenta sempre mais a
imprecisão e desatoriza qualquer afirmação lacônica em relação a qualquer que seja
o objeto de estudo, quanto mais no caso do Patrimônio Histórico e Cultural, conceito
complexo por si. Concebendo, entretanto, os conceitos como bases para tornar o
ferramental metodológico a partir do qual analisamos os objetos, menos falhos, ou
seja, para que o historiador ou cientista possa produzir uma representação do seu
objeto o menos impreganda de ideologia possível, julgamos ser de bom tom ampliar
o arcabouço conceitual da História. Esta operação, entretanto, é delicada há que se
ter o cuidado para não encontrarmos conceitos “à la carte” a fim de ancorar as
crenças pessoais precionando a empiria a serviço do nosso discurso.
Embora já tendo contemplado no início deste capítulo a questão da
impossibilidade da imparcialidade absoluta, por tudo o que consta nos parágrafos
mais recentes se faz necessário reafirmar esta premissa. Ao produzirmos uma
representação acerca do nosso objeto de estudo, conforme Diehl (2002, p. 91), há
que se ter em conta que em História “a compreensão é entendida como um projeto
lançado, ou seja, é o historiador que lança para além do seu tempo, numa espécie
de significado antecipado”. Além disso, conforme o mesmo autor, “vivenciamos o
tempo histórico, no qual o passado nos interpela constantemente”.
Analisando desta forma, os profissionais que trabalham diretamente com o
Patrimônio Histórico e Cultural, o poder público e os cidadãos em geral produzem
59

representações simbólicas diferentes na relação com o patrimônio. Estas relações


dependem do “lugar” de cada um desses atores na cena social. Se a atribuição do
conceito de patrimônio já encerra determinada valoração, hierarquizar a
competência, (distinta de cada um destes grupos), é fracassar qualquer que seja o
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trabalho que se pretenda realizar no âmbito desse complexo objeto.


Entender questões, como as que aqui vêm à tona, ajuda a dimensionar o que
é possível a partir do universo intelectual que, diga-se de passagem, é ínfimo.
Entendendo os prováveis efeitos e limites dos esforços a serem empreendidos no
trabalho com o Patrimônio Histórico e Cultural visualiza-se uma abordagem menos
impositiva na relação intelectual/poder público/sociedade, sem dissociar todos e
cada um do contexto que o gerou.

4.3 Signo e representação aliados metodológicos na pesquisa em História

Reforçando a ideia acima exposta de que as bases conceiturais são cimentos


na construção dos métodos, nos propomos a refletir um pouco mais acerca dos
conceitos de signo e representação como constituintes de métodos a serem
colocados a serviço da ciência histórica. Embora limitados pelo tempo em relação a
um levantamento mais preciso do emprego destes nortes no campo da História, é
segura a afirmação de que em relação ao Patrimônio Histórico e Cultural outras
áreas vêm contemplando, sobretudo, questões relativas à representação social. Este
é o caso por exemplo do Turismo. Ailson Pinhão de Oliveira, ao dissertar em seu
mestrado em cultura e turismo, tangenciando a questão do Patrimônio Histórico e
Cultural, reforça a abertura oferecida por este conceito nas pesquisas em qualquer
uma das áreas que enfoquem cultura e sociedade ou pelas ciências humanas como
ainda preferem alguns. (Oliveira, 2005, p. 30).
No campo da História, Astor Antônio Diehl apresenta o conceito de
representação vinculado ao de Hermenêutica11 para tornar presente a questão da
temporalidade que é inerente à História. Ter presente a imensa possibilidade de

11
- “Hermenêutica significa, primeiramente o processo metodológico da interpretação com o objetivo
de compreender o significado quando um texto não é entendido de imediato. Ela foi inicialmente a
arte da interpretação dos textos bíblicos e jurídicos de forma normativa e ocasional. Além dessa
hermenêutica normativa, Gadamer examina sobretudo na filosofia da hermenêutica a possibilidade de
compreender o seu significado numa espécie de teoria do conhecimento das ciências humanas,
separando-as de explicações das ciências naturais” (Diehl, 2002, p 90).
60

falibilidade que o lançar olhares sobre tempos distrantes, a partir do vetor do


Patrimônio Histórico e Cultural encerra, não é tarefa fácil. Embora com os riscos já
manifestos e implícitos no subtexto deste capítulo, a utilização de conceitos abertos
para a análise de situações cada vez mais específicas alimentam a crença de que a
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decifração autônoma dos signos de cada objeto dotado de referenciais memoriais


potencializa uma aproximação mais autêntica de todos os atores nesta órbita como
viemos tratando.
Exclusivamente em relação ao trabalho com o Patrimônio Histórico e Cultural,
é impossível não mencionar a obra de Maria Cecília Londres Fonseca, já utilizada
em outros outros capítulos desta monografia. Aqui, entretanto, o íntuito é analisar as
menções feitas pela autora aos conceitos dos quais viemos tratando neste capítulo.
Como a diferença entre símbolo e signo já fora analisada acima, apenas
reaproximamo-os novamente para tentar interpretar as pontuzlizações da autora em
relação ao recorte temático central deste trabalho:

A produção de um universo simbólico é, nesse caso, o objeto mesmo da


ação política, daí a importância do papel que exercem os intelectuais na
construção dos patrimônios culturais. Nesse sentido, são dois os desafios
com que se defrontam: o primeiro é o de, através da seleção de bens
“móveis e imóveis” (conforme o preceito legal vigente na maioria dos
países), construir uma representação da nação que, levando em conta a
pluralidade cultural, funcione como propiciadora de um sentimento comum
de pertencimento, como reforço de uma identidade nacional; o segundo é o
de fazer com que seja aceito como consensual, não-arbitrário, o que é
resultado de uma seleção – de determinados bens – e de uma convenção –
a atribuição, a esses bens, de determinados valores. Ou seja, de, ao
mesmo tempo, buscar o consenso e incorporar a diversidade. (Fonseca,
2005, p. 22).

O “nesse sentido” da citação supra transcrita refere-se a uma espécie de


diagnóstico que a autora faz da ação do Estado em relação ao Patrimônio Histórico
e Cultural acenando com a indelegabilidade das tarefas inerentes a alguns
intelectuais especializados nesta área. Em razão do caminho percorrido até aqui
algumas questões se interpõem em relação ao que a autora pontua.
Primeiramente, partindo do pressuposto de que a atribuição simbólica é
arbitrária a exemplo do que sugerem teóricos como Saussure, não será o que a
autora acima coloca como desafio, pretensão em demasia? Ao invés de “criar uma
representação de nação” não dever-se-ía apenas apresentar o Patrimônio como um
documento de determinada ação humana com suas importâncias para a
61

coletividade, mas permitindo a cada observador, a partir da sua leitura de mundo


própria, como inevitavelmente acontece, atribuir ao objeto revestido de status
patrimonial a sua interpretação particular? Desta forma contempla-se a interpretação
como produto do meio social e cultural de onde cada cidadão se origina e para o
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qual o período histórico que o objeto patrimonial documenta tem uma conotação
única, diferente portanto, da proposta oficial expressa no discurso dos profissionais
do patrimônio e do prórpio Estado.
A discussão de conceitos como signo e representação presentes em autores
como Foucault e Saussure, entre outros e o aprofundamento deste trabalho, em
caso de ampliação do estudo em outros níveis dentro da academia, pode se
constituir em uma metodologia menos excludente e hierarquizante. As bases para
tanto vêm sendo postas, basta analisarmos a importância que adquiriu dentro da
concepção, ainda dicotômica de patrimônio, o patrimônio imaterial trazendo à baila a
questão da subjetividade suplantando a pragmaticidade inerente aos profissionais
técnicos a orbitarem no universo patrimonial. Uma boa prática carece de discussões
teóricas capazes de solidificarem-na. A demanda é gigantesca e o campo é vasto.
Cronogramas apertados e apelos ansiosos, principalmente oriundos do setor público
podem comprometer os resultados de trabalhos de grande potencial. Estas mesmas
considerações, acreditamos serem válidas para a tão propalada Educação
Patrimonial.
Por fim, vale enunciar que no próximo capítulo, através do contato com as
atas das reuniões da Comissão Pró-instalação de um Museu na cidade de Arroio do
Meio/RS, procurar-se-á identificar avanços e permanências em relação à concepção
de instituições memoriais na forma como o referido processo de instalação tem
avançado nos últimos tempos. Examinar-se-á a produção de memorialistas locais na
tentativa de identificar como evoluiu a demanda por uma instituição memorial no
município e como este apelo foi recebido pelo poder público.
Perseguiremos, ainda que parcialmente, o tratamento dispensado ao
Patrimônio Histórico e Cultural no município antes referido. Os conceitos de
representação e signo, apesar de aqui apresentarem-se apenas parciais, são o
norte. As incertezas e a incompletude da presente empreitada talvez sejam as asas
a nos fazerem pairar em vôos mais rasantes sobre este instigante objeto ajustando o
foco a fim de produzirmos representações capazes de ensejarem debates profícuos.
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5 UM MUSEU EM ARROIO DO MEIO/RS: UMA IDÉIA E MUITAS


INTERROGAÇÕES

Após refletirmos sob o ponto de vista histórico acerca do Patrimônio Histórico


e Cultural no Brasil, tratarmos dos limites da legislação como ferramenta para a
proteção/preservação e procurarmos entender como o patrimônio se transforma em
documento de uma época, no presente capítulo, passamos a narrar e fazer as
conexões possíveis a partir de um movimento concreto.
Serão aqui apresentadas as manifestações dos cidadãos arroio-meenses no
que tange à preservação dos seus referenciais de memória, manifestações estas,
presentes nos documentos e bibliografias que acessamos. Tangenciaremos também
o uso da legislação no processo de desapropriação de um imóvel destinado pelo
poder público a se constituir em lugar de guarda e estudo dos referenciais memoriais
daquela comunidade. Apresentaremos, igualmente, o surgimento de uma comissão
que pleiteia a instalação de um museu em Arroio do Meio. Através das atas desta
comissão será possível detectar os caminhos traçados e as medidas já levadas a
termo.

5.1 O apelo à preservação da memória: algumas práticas

Arroio do Meio é um dos 36 municípios da região do Vale do Taquari no


estado do Rio Grande do Sul. Criado em 28 de novembro de 1934 pelo Decreto
Estadual número 5759 desmembrando-se dos municípios de Lajeado e Encantado.
Conforme dados apresentados pelo Banco de Dados Regional do Centro
Universitário Univates e embasados no censo realizado em 2007, a população de
63

Arroio do Meio é de 18.079 habitantes. (BDR - Banco de Dados Regional do Centro


Universitário UNIVATES).
Ocupando posição destacada na região pela organização comunitária que
culmina no processo de emancipação acima referido percebe-se na literatura dos
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memorialistas locais um apelo crescente à preservação de referenciais de memória.


Algumas iniciativas tomadas neste campo, entretanto, não prosperaram e
permanecem esquecidas. Ao elencar as atividades culturais em Arroio do Meio o
escritor Lauro Nélson Fornari Thomé refere:

Por fim, o museu municipal, em fase de instalação desde 1975, contando já


com algumas peças de valor histórico, doadas. Nesse campo também
desponta o Prof. Aldo T. Thomé, que mantém um acervo particular de peças
antigas e de valor histórico, muitas delas adquiridas no interior do município,
assim como o cidadão Rodolfo Schroeder, também aficionado colecionador
de antigüidades. (Thomé, 1984, p. 162).

No tempo destinado para o presente trabalho não foi possível localizar


nenhuma documentação a respeito da implantação do museu referido pelo escritor
acima. Um dos passos possíveis para a resolução deste “enigma” é a expansão
deste trabalho ou mesmo uma investigação no âmbito da Comissão Pró-museu,
sobre a qual traremos informações mais detalhadas na sequência.
Ainda entre as iniciativas de constituição de objetos de memória, a mesma
literatura indica um monumento no caminho para a Cascalheira próximo à Escola
Municipal de Ensino Fundamental Getúlio Vargas, distando cerca de seis
quilômetros do centro. Na mesma localidade outro referencial chamou atenção do
escritor:

Também o cemitério, por sua tradição ultracentenária, está a merecer a


assistência e os cuidados da administração pública municipal, sob pena de
se perder no caos, que o tempo gera, essa relíquia sagrada, que mais o é
por ser histórica. Os túmulos e lápides estão a deteriorar-se, uns tombados,
outros deslocados. Preciso se faz, e com urgência, que mãos amigas e
mentes sensíveis à preservação de um patrimônio histórico insubstituível a
ele se dediquem, restaurando o que tombado se acha e conservando o que
lá existe de um passado que não volta, mas que marca a vida e a história
da própria terra arroio-meense. (Thomé, 1984. p. 50).

Eis aí manifestações que paulatinamente ganham corpo no tocante à


preservação da memória. A este apelo, o mesmo autor acrescenta, ao escrever em
primeira pessoa testemunhando a incineração, em 1942, por ocasião de uma
64

campanha de nacionalização implementada desde a esfera federal, de acervos


bibliográficos do Clube Esportivo. Tais atos eram justificados pelo “perigo” que
representava obras em idioma alemão em plena Segunda Guerra Mundial.
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(...). Lembro-me, era criança, quando assistindo à limpeza dos armários e


caixas, no fundo de uma destas, para espanto dos que ali se achavam,
havia dobrada uma velha bandeira alemã, que mereceu o mesmo destino: o
fogo. Foi esse um período de triste memória para quantos o viveram, e nele
se perdeu, também uma pouco da história nascente do clube. (Thomé,
1984, p. 144).

Outros episódios envolvendo a preservação se verificam em outro escritor


local. Rodolfo Roberto Schroeder Filho, em seu livro de memórias “Pelas Trilhas do
Passado”, relata um caso polêmico envolvendo a Praça General Flores da Cunha no
centro da cidade. Schroeder (1999, p. 63) rebate um artigo, segundo ele, publicado
no jornal O Alto Taquari e que rememorava um episódio envolvendo o ex-prefeito
Antônio Setembrino de Mesquita. A referida autoridade governara a cidade, de 1° de
janeiro de 1960 a 11 de fevereiro de 1963. (Thomé, 1984, p. 122).
Conforme Schroeder (1999, p. 63), o então prefeito tinha um plano de
remodelação da praça que envolvia a construção de um lago central além de
ajardinamento. Para que este projeto fosse efetivado se fazia necessário a
derrubada de muitas árvores. A população não fora consultada e ficara impactada
quando as obras, repentinamente, iniciaram. A mobilização foi imediata:

Tão logo foi iniciada a derrubada, organizou-se uma comissão de


moradores, entre os quais, Dr. Hardy Grunenwaldt, Rubens Wienandts,
José Rodrigues e outros. A comissão foi direto ao gabinete do prefeito
Mesquita para dizer-lhe que estava sendo um tanto precipitado na sua
decisão. O Dr. Hardy, na discussão, argumentava que ‘nossos filhos teriam
que se abrigar à sombra das roseiras, que iriam tomar o lugar das árvores’.
No final, o sr. Mesquita prometeu suspender as obras e fazer um estudo
mais aprofundado sobre as modificações da praça.(Schroeder, 1999, p. 63).

Em plena década de 1960, uma comissão popular se mobiliza em torno de


um Patrimônio Histórico e Cultural local. Neste mesmo período, a administração
municipal, teria mandado incinerar parte da documentação do Arquivo Público
Municipal.
Após este breve histórico que tangencia a preocupação dos cidadãos arroio-
meenses em relação aos seus referencia memoriais, passamos a perseguir mais
65

incisivamente o caminho legislativo e o histórico do imóvel que abrigará o Museu


Público Municipal de Arroio do Meio.
Conforme entrevista concedida por Eduardo von Heckel Schardong, neto do
primeiro dono do prédio destinado a abrigar o futuro museu, ao Jornal O Alto Taquari
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de 13 de junho de 2008, seu avô mandara construir o prédio em 1918 por ocasião
da transferência da família para Arroio do Meio. Na entrevista ao periódico, Eduardo
von Hegel Schardong declarou que, além de servir como moradia para a família a
casa abrigara ainda um consultório médico e uma sala de observação de pacientes,
uma vez que seu avô era médico.
Conforme registro do Tabelionato de Arroio do Meio sob o número 2772, com
acento no Livro 3B, folha 132, em 11 de novembro de 1941 acontece a primeira
transferência do imóvel. A viúva do médico que mandara construir a casa, Srª Frieda
von Heckel, vende a ao Sr. Edgar Jung. Em 11 de outubro de 1951, o então prefeito
Antônio Fornari sancionou a Lei n° 6 daquele ano (A NEXO III) pela qual a Câmara
de Vereadores o autorizava a adquirir o prédio localizado na esquina das Ruas
Barão do Rio Branco (atual Visconde do Rio Branco) com a Rua da Igreja (Atual
Monsenhor Jacob Seger). A concretização da aquisição da casa pelo município se
deu em 29 de dezembro de 1951. A escritura, pela qual o Sr. Edgar Jung vende o
imóvel ao poder público foi registrada no Tabelionato de Arroio do Meio sob n° 2890,
livro 42, folhas 101 a 103, com a seguinte descrição: “(...) uma área de 484m²
contendo uma casa de alvenaria de 11 X 17,40 m”.
A Prefeitura Municipal passou a funcionar neste espaço até meados da
década de 1970, quando a repartição é transferida para o prédio onde funciona
hodiernamente. Ainda em meados deste período o Poder Executivo Municipal é
autorizado a vender o imóvel conforme a lei n° 002/ 75 de 24 de abril de 1975,
(ANEXO IV). No final da década o Sr. Lauro Fröner, dentista, adquire o imóvel. O
novo proprietário, conforme levantamento da Comissão Pró-museu teria alugado as
dependências sendo que aí funcionara durante este período, segundo a mesma
fonte, uma estofaria e uma eletrônica.
Na década de 1980, por duas oportunidades, a prefeitura municipal declara o
prédio de utilidade pública. A 26 de setembro de 1984, o decreto n° 95/84, (ANEXO
V) declarou de utilidade pública para fins de desapropriação, a casa que atualmente
é preparada para abrigar o museu de Arroio do Meio. Um longo processo judicial
litigioso, entre a administração e o então proprietário Sr. Lauro Fröner, tramita na
66

justiça. As partes não entram em acordo em relação ao valor pretendido por um e


oferecido pelo outro. Uma nova declaração de utilidade pública é emitida pelo
Decreto n° 301/86 de 28 de outubro de 1986 (ANEXO V I). Destaque-se que em
ambas as declarações de utilidade pública, os decretos municipais são embasados
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no Decreto-lei federal n° 3.365 de 21 de julho de 1 941, o qual foi apresentado no


segundo capítulo desta monografia dentro do levantamento legislativo elaborado a
partir da bibliografia e da documentação acessada. O Decreto era amplo e
regulamentava desapropriações também por outras razões. Aqui, entretanto, a
referida lei era invocada por colocar entre as alegações possíveis para uma
desapropriação a questão da preservação e conservação de monumentos históricos
e artísticos além de mencionar a preservação e conservação.
Conforme informações levantadas, junto aos integrantes da Comissão Pró-
museu a desapropriação já havia se concretizado em 1988, documentalmente,
entretanto, o “Auto de Imissão de Posse” data de 8 de agosto de 1990. A
desapropriação, contudo, consta definitivamente, apenas em uma certidão de
escritura datada de 02 de julho de 1992 (ANEXO VII). Neste documento o Oficial
redator é explícito ao elencar as condições para que a desapropriação se efetivasse.
Conforme o documento torna-se necessário no local o funcionamento de uma
repartição pública ou de preservação do patrimônio histórico municipal.
O itinerário legislativo do imóvel avança dez anos. Em 28 de novembro de
2002, por ocasião do aniversário do município, o então prefeito municipal Danilo
José Bruxel, através do Decreto Municipal n° 1.439/ 2002, tomba como Patrimônio
Histórico e Cultural de Arroio do Meio,

(...) o prédio de alvenaria, medindo 11 x 17,40m., denominado de ‘Casa de


Cultura de Arroio do Meio’, propriedade do Município de ARROIO DO MEIO,
Estado do Rio Grande do Sul, situado em terreno de 484,00m2., na Rua
Visconde do Rio Branco, nesta cidade, no quarteirão das Ruas Visconde do
Rio Branco, General Daltro Filho, Dr. Júlio de Castilhos e Rua Monsenhor
Jacob Seger, confrontando-se pela frente, a nordeste na largura de 11
metros, com a Rua Visconde do Rio Branco, pelos fundos a sudoeste, na
mesma largura, com terrenos de Ervino Fritzen, por um lado, a sudeste, no
comprimento de 44 metros, com terrenos de Oskar Mayerhofer e pelo outro
lado a noroeste, no mesmo comprimento, com a Rua Monsenhor Jacob
Seger. (Cf. Decreto Municipal n° 1.439, de 28/11/20 02).
67

À época do tombamento (2002), funcionava no local a Secretaria Municipal de


Educação e Cultura. Esta repartição esteve alocada aí até julho de 2008, quando
passou a funcionar na estrutura da Escola Cenecista Presidente Costa e Silva, que
encerrou suas atividades educativas em fevereiro de 2007.
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Regressando ao itinerário legislativo, convém mencionar a Lei Municipal n°


2.632/2008, de 5 de junho de 2008. Esta disposição legislativa autorizou o governo
municipal a abrir um Crédito Adicional no valor de R$ 1.070.000,00, indicando os
respectivos recursos a serem incorporados no orçamento de 2008. A Secretaria de
Educação e Cultura recebeu deste montante a quantia de R$ 110.000,00,
destinados à reforma do prédio com vistas à instalação de um museu naquele
espaço após a execução das obras. Os recursos para esta emenda orçamentária se
originaram das entradas ordinárias do município. Seguindo-se a este ato
administrativo foi assinado o contrato de reforma da casa durante uma reunião da
Comissão Pró-Museu. A Ata n° 4 da reunião da Comiss ão Pró-museu realizada no
dia 14 de julho de 2008, documenta a assinatura do referido contrato entre a o
Município de Arroio do Meio e a empresa do Sr. Mauro Bianchini, responsável pela
execução das reformas. No ato se fizeram presentes, além dos integrantes da
Comissão Pró-museu secretários municipais e representantes do poder legislativo.

FIGURA 1: Assinatura do contrato da reforma do prédio em 14 de julho de 2008


Fonte: Assessoria de Imprensa – Pref. Munic. de Arroio do Meio.
68

As reformas foram acompanhadas pelos membros da Comissão Pró-museu e


foram antecedidas de considerações emitidas pela Professora do curso de História
do Centro Universitário Univates, Drª Neli Galarce Machado que, acompanhada da
funcionária do Centro de Memória Documentação e Pesquisa da Univates (CMDPU),
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historiadora Patrícia Schneider, palestrou para os engenheiros e membros da


Comissão antes referida.
O último passo legislativo envolvendo o imóvel rumo à instituição de um
museu no local deu-se em 20 de novembro de 2008, data em que iniciou a semana
do município, cujo aniversário de emancipação ocorre no dia 28 do mesmo mês. A
Lei Municipal n° 2.683/2008, procedeu a afetação do imóvel para finalidade pública.
No primeiro dos quatro artigos que compõem a lei a declaração explícita da sua
destinação:

Fica afetada de utilidade pública, o prédio de alvenaria, medindo 11 x


17,70m, situado em terreno de 484m2, localizado na Rua Visconde do Rio
Branco, esquina com a Rua Monsenhor Jacob Seger, confrontando-se ,
pela frente, a nordeste, na largura de 11 metros, com a Rua Visconde do
Rio Branco, pelos fundos, a sudoeste, na mesma largura, com imóvel de
Ervino Fritzen, por um lado, a sudeste, no comprimento de 44 metros, com
terrenos de Oscar Mayerhofer e pelo outro lado, a noroeste, no mesmo
comprimento, com a Rua Monsenhor Jacob Seger, imóvel identificado como
“Casa de Cultura de Arroio do Meio”, matriculado no Registro de Imóveis da
Comarca de Arroio do Meio, Estado do Rio Grande do Sul, sob n° 1.768,
tombado em 2002, devendo o local abrigar, assim que constituído
legalmente, o MUSEU PÚBLICO MUNICIPAL, mantendo as características
e particularidades, como expressão dos nossos traços e valores sócio-
culturais. (Cf. Lei n° 2.683/2008, de 20 de novembr o de 2008).

Em 28 de novembro do mesmo ano, oito dias após a sanção da lei acima


referida, o Imóvel foi entregue em cerimônia pública à comunidade.
69
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FIGURA 2: Cerimônia de entrega da casa à comunidade em 28 de novembro de 2008, data de


aniversário da emancipação política de Arroio do Meio.
Fonte: Assessoria de Imprensa – Pref. Munic. de Arroio do Meio.

Na mesma data foi aberta uma exposição temporária contando a história da


casa. O acervo para tanto fora obtido junto ao arquivo da prefeitura municipal.
Alguns objetos, igualmente do município, utilizados em atos administrativos tomados
naquele espaço também constituíram a exposição, assim como objetos que
remetiam às outras utilizações que a casa teve ao longo dos mais de 90 anos de
história.
Um longo caminho legislativo foi feito. Sob este aspecto o projeto de um
museu em Arroio do Meio está maduro. Conforme viemos refletindo ao longo desta
produção, entretanto, a verticalidade da lei não enraíza um ideal e, muito menos,
promove aproximação e identificação com a causa por si só. Os passos seguintes
são tão importantes quanto os que já foram dados. Mais uma vez, agora em escala
local, fica claro que o ferramental legislativo existe. Os desafios agora são ainda
maiores, pois cabe a todos os que se colocam como mediadores desta situação, a
responsabilidade pela aproximação e apropriação por parte dos mais de 18 mil
70

cidadãos arroio-meenses, deste projeto que deve pegar carona na história latente de
organização comunitária solidificada ao longo dos anos.
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5.2 As discussões da Comissão pró-instalação de um museu em Arroio do


Meio

As medidas legislativas antes narradas, especialmente as contemporâneas,


foram acompanhadas pela articulação de uma comissão composta por membros da
comunidade simpáticos à idéia de constituição de um museu em Arroio do Meio.
Motivada pela Secretaria Municipal de Educação e Cultura a comissão se reúne
mensalmente para discutir e vislumbrar os passos a serem dados para a
concretização do projeto iniciado.
Na primeira ata da Comissão na data da sua constituição em 17 de junho de
2008, a apresentação de medidas administravas e a referência a um apelo
comunitário de outros tempos:

A princípio, a Secretária de Educação e Cultura, professora Lourdes Maria


Gasparotto Rizzi procedeu a acolhida aos convidados, deu abertura aos
trabalhos e fez um breve relato do processo em andamento, socializando a
decisão político-administrativa do governo municipal de destinar recursos
financeiros para restauração do prédio, com a aprovação da Câmara de
Vereadores, ainda no presente exercício, ação esta fundamental para
execução deste projeto que representa o atendimento do desejo da
comunidade, manifestada em momentos os mais diversos de sua história.
(Cf. Ata n° 01 da Comissão Pró-museu em 17/06/2008) .

Convém lembrar, que nesta primeira Ata, a data mencionada em relação à


construção da casa é 1924, ao passo que na fonte antes referida menciona-se 1918.
Na presente produção, contudo, não procuramos a apuração definitiva desta
fronteira temporal, apresentamos, pois o que consta em ambas as fontes para que
em pesquisas futuras se esclareça o que até então, neste sentido, se apurou. Na
sequência da aludida ata as interrogações acerca dos caminhos a serem seguidos.
As medidas administrativas estavam concretizadas. Os próximos passos careciam
de orientação técnica. Ainda no referido documento uma possibilidade neste sentido
é vislumbrada:
71

Em seguida foram abordados os seguintes assuntos: tipologia do MUSEU,


isto é, o que queremos preservar e mostrar, quais são seus objetivos, com
que material [contaremos], qual a importância da existência de um MUSEU
para um município, para sua comunidade. Ressaltou-se, igualmente, a
relevância de um “arquivo histórico” e a possibilidade de caminhar
paralelamente os dois projetos. Em assunto subseqüente acordou-se
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convidar uma técnica da UNIVATES para subsidiar as nossas discussões e


orientar tecnicamente os trabalhos, cujo convite deverá ser formulado pelo
Prof. Sérgio Nunes Lopes, membro da Comissão e estudante [fl. 01v] do
Curso de História desta Universidade. (Cf. Ata n° 0 1 da Comissão Pró-
museu em 17/06/2008).

Os primeiros passos para que a idéia ganhasse sustentação para além das
medidas administrativas estavam dados. Possíveis saídas para as dúvidas
conceituais começavam a ser trabalhadas ao mesmo tempo em que a comissão
articulava-se tomando algumas medidas práticas no sentido de ampliar a discussão
em outros segmentos dentro da comunidade.
A segunda reunião da Comissão ampliou o debate e trouxe à baila potenciais
subsídios para que os passos seguintes se solidificassem:

Aberta a reunião com a acolhida aos presentes, passou-se a palavra à


professora Neli Machado do Curso de História da UNIVATES,
acompanhada da estagiária Patrícia para coordenar o debate e os estudos
relativos à instalação do MUSEU, abordando questões como: o museu deve
ser um lugar onde as pessoas se sintam bem; sugere que a coordenação,
mesmo na fase inicial, seja feita por uma pessoa efetiva do quadro
municipal para evitar descontinuidade; a existência de uma equipe técnica é
fundamental para o seu bom funcionamento; reforça a necessidade de
elaboração de um Plano Museológico, estabelecendo a missão do MUSEU
e seus objetivos, o espaço para reserva técnica é de suma importância; os
espaços devem ser otimizados adequadamente; [ilegível], prateleiras,
informações; a acessibilidade deve ser garantida, uma associação dos
AMIGOS DO MUSEU deverá ser criada com a finalidade de promover e va-
[fl. 2]
lorizar o aprimoramento administrativo, técnico e cultural do museu”. (Cf. Ata
n° 02 da Comissão Pró-museu em 24/06/2008).

As discussões tomaram corpo e um segundo encontro, com a participação


das profissionais antes referidas teve lugar no dia 30 de junho, conforme referencia
a ata n° 3 da Comissão Pró-museu daquela data. Na o casião os engenheiros que
projetaram a reforma apresentaram a planta do que seriam as reformas e ouviram as
apreciações das profissionais especializadas. Neste que foi o último encontro de
orientação técnica prestada de forma voluntária, reforçou-se aspectos relativos ao
ponto de vista administrativo como a criação de uma Associação de Amigos do
Museu e a assessoria de profissionais qualificados para a elaboração do Plano
72

Museológico. No âmbito da comissão, especificamente, decidiu-se paralelamente às


discussões de cunho teórico, iniciar-se o levantamento histórico do imóvel em
questão.
As orientações técnicas geraram alguns desdobramentos na sequência da
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caminhada da Comissão aqui historiada. Conforme sugestão, fora escolhida, em 14


de julho de 2008, a coordenação da referida Comissão Pró-museu sendo efetivada a
Secretária Adjunta da Educação Césinha Gerhard Wollinger, assessorada por Glaci
Maria Krein Träsel, professora da rede municipal, conforme documenta a quarta Ata
de reuniões da Comissão aqui apresentada, já anteriormente referida. Entre as
justificativas para as escolhas feitas apresentou-se a de que deveriam ser
professores do quadro municipal para sustentar o projeto e desvinculá-lo de
influências exclusivamente políticas uma vez que se vivia um ano eleitoral. Com o
passar do tempo a Comissão, passou a ser presidida pela professora Carla
Jaqueline Schroeder, professora de História, conforme informado em reunião. A
troca da coordenação foi justificada pelo acúmulo de funções da coordenadora
anterior e pela formação específica da coordenadora que a sucedeu. Ainda no rol
das informações referenciadas pela ata de número quatro, consta a resolução
tomada pela Comissão objetivando ampliar a discussão acerca do projeto de um
museu em Arroio do Meio. Para tanto foi incluído no calendário de eventos da
CULTURARTE12, uma roda de conversa aberta com a comunidade sobre o processo
de instalação de um museu na cidade.
Os trabalhos de articulação e pesquisa da Comissão continuaram. Acatando
sugestão da Secretaria de Educação e Cultura, a Comissão apresentou sugestão de
emenda ao Orçamento do Município para o exercício de 2009, conforme debate
documentado pela ata de número seis da reunião realizada aos 11 dias do mês de
agosto de 2008. Entre os pontos de pauta discutidos consta: “Encaminhamento para
a Secretaria da Fazenda o valor de R$ 50.000,00 (Cinquenta mil reais) para
recursos na Lei Orçamentária para o ano de 2009 para dar continuidade do Projeto
de Museu”. Meses mais tarde os membros da Comissão tomaram conhecimento de
que o Orçamento Municipal para o exercício de 2009, fora aprovado sem a
contemplação da sugestão encaminhada pela pasta da Educação e Cultura.

12
- Conjunto de eventos culturais que ocorrem de forma intensiva e paralela coordenados pela
Secretaria de Educação e Cultura. Inclui a programação deste evento: apresentações de corais,
exposições de artes plásticas, esquetes teatrais, shows musicais e feira do livro.
73

O outro segmento de ações desencadeadas a partir da Comissão, o que se


refere ao levantamento de dados históricos e organização de uma exposição
contando a história do imóvel teve o seu desfecho no dia 28 de novembro de 2008,
conforme referido no subtítulo anterior.
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5.3 Identificação dos aspectos teóricos discutidos no caso em questão

Apesar do percurso deste trabalho ter-nos oportunizado o contato com a


menção de uma experiência de instalação de museu não concretizada os novos
caminhos agora palmilhados suscitam esperanças pela forma com que a idéia
amadureceu. Apontam para este “otimismo”: o percurso expresso na legislação, a
forma como as discussões no âmbito da Comissão vêm sendo conduzidas e a busca
de orientação técnica junto a profissionais especializados e academicamente
preparados. As diretrizes escolhidas para o atual processo têm a potencialidade de
encontrar na comunidade o amparo necessário para o funcionamento de uma
instituição de memória construída de forma democrática. Neste tópico empreender-
se-á um esforço no sentido de trazer-se à tona o que permanece da concepção
baseada no senso-comum de museu e o que são sensíveis avanços, a partir do
caminho já trilhado pela Comissão Pró-museu.
Conforme a documentação que referencia a narrativa acerca do surgimento
da Comissão Pró-museu, acima apresentada, a preocupação com a orientação
técnica sempre ocupou lugar de destaque nas discussões empreendidas. Os frutos
deste movimento já foram tangenciados acima. Cumpre-nos apresentar um outro
momento significativo neste sentido. Por ocasião da “Conversa sobre Museu”
supracitada, como parte da CULTURARTE em 2008, trabalhou-se basicamente o
que é museu. Como sói acontecer em conversas abertas onde os cidadãos
desobrigados do conhecimento científico se posicionam em relação ao que se põe
para discussão, foi possível a detecção de que a percepção de museu ainda funda-
se basicamente na questão da guarda de objetos antigos e imprestáveis para o
cotidiano contemporâneo. A conversa sobre museu referida pela ata de número
sete, entretanto, foi concluída com a reflexão acerca do conceito de Museu
apresentado pelo Sistema Brasileiro de Museus (SBM), com base nas
74

determinações do Comitê Internacional de Museus (ICOM), onde consta que museu


é:

É uma instituição sem fins lucrativos, permanente, a serviço da sociedade e


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de seu desenvolvimento, e aberta ao público, que adquire, conserva,


pesquisa, divulga e expõe, para fins de estudo, educação e divertimento,
testemunhos materiais do povo e seu meio ambiente.
(http://www.museus.gov.br/main.htm < acesso em 03/09/2008).

Nas reuniões subsequentes da comissão várias referências a mudanças em


relação à forma de pensar museu foram percebidas a partir do debate estabelecido.
Há que se ter claro, contudo, que a solidificação da concepção autêntica de museu
não se estabelece com facilidade. Muito há que se fazer e mostrar para que a
dinâmica que reveste o trabalho em um museu, segundo a definição antes referida,
tome corpo na comunidade que pretende a instalação de uma instituição desta
magnitude. Por outro lado, este discurso, deve contemplar a representação que
cada cidadão tem em relação aos objetos que considera importante. Mediar esta
relação sem impor verticalmente conceitos mal assimilados, camuflados pela
pseudo-democracia e impregnados pelo dogmatismo teórico que nada mais faz do
que massagear o ego de intelectuais desconexos da realidade social e que se
escondem atrás do escudo da retórica, é uma tarefa árdua.
Outro aspecto teórico de ressonância concerne à atribuição do epíteto de
Patrimônio Histórico e Cultural ao imóvel que abrigará o museu da cidade de Arroio
do Meio. Em 1918 ou 1924, conforme antes apresentado, a família que mandara
construir a casa certamente não a pensara para ser tombada. A importância
adquirida pelo espaço ao longo dos anos o credenciou à situação que hoje goza.
Conforme visto, ainda no primeiro capítulo desta monografia, várias são as
estruturas arquitetônicas na região do Vale do Taquari que não despertam a mesma
prática por parte dos cidadãos e dos seus respectivos representantes na esfera
administrativa. Em Lemos (2006, p. 14), encontramos a sustentação teórica para o
que afirmamos:

O programa e as sucessivas alterações nos usos e costumes também


exigem modificações nos artefatos de uso prolongado, como nas casas de
morada, por exemplo. É sumamente interessante a gente acompanhar as
adaptações que ocorrem ao longo do tempo numa velha residência urbana
qualquer. Com o progresso e as novas facilidades a sua ‘casinha’ do
quintal, que abrigava a latrina sobre a fossa negra, foi substituída pelo
75

banheiro completo feito num puxado anexo à cozinha velha que, por sua
vez, teve seu fogão a lenha substituído pelo aquecido a gás, e cada família
sucessiva que nela habita vai deixando sua marca nos agenciamentos
internos; mas chega um tempo em que a construção realmente não pode
mais oferecer o conforto oferecido pelas novas concepções de bem morar
de uma determinada classe social e, então, vemos a construção perder a
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sua compostura antiga, sendo fracionada em habitáculos multifamiliares; e


de degradação em degradação chega ao seu dia de demolição para dar
lugar a edifício concebido dentro das novas regras do conforto ambiental e
dentro de outras condições financeiras. (Lemos, 2006, p. 14).

O imóvel que aqui estudamos se enquadra na definição de “artefato de uso


prolongado” cunhada pelo autor supracitado. O desfecho aí apresentado como
prática comum, entretanto, não se verifica no caso em questão.
A proximidade com que as medidas administrativas tomadas tanto em relação
à declaração de utilidade pública, desapropriação, tombamento e afetação, talvez
esconda aspectos que uma análise em outro tempo traga à tona. Para a presente
reflexão basta considerarmos que: um processo litigioso de desapropriação de
meados da década de 1980, que ruma para a apropriação coletiva, ancorada na
proposta da concepção de museu anteriormente apresentada deixa um “rastro”
instigante.
O terceiro aspecto teórico sobre o qual convém refletir é o da legislação. O
levantamento feito no segundo capítulo deste trabalho reafirma a certeza de que as
leis, por si só são inócuas. Algumas destas determinações legislativas mais recentes
já trazem em seus textos originais, ainda que sutilmente, a consciência de que é
preciso participação coletiva. A coerção não estabelece laços autênticos. O
fragmento do artigo 216 da Constituição brasileira ilustra, sobremaneira, esta
situação:

§ 1° O Poder Público, com a colaboração da comunida de, promoverá e


protegerá o patrimônio cultural brasileiro, por meio de inventários, registros,
vigilância, tombamento e desapropriação, e de outras formas de
acautelamento e preservação.
§ 2° Cabem à administração pública, na forma da lei , a gestão da
documentação governamental e as providências para franquear sua
consulta a quantos dela necessitem.
§ 3° A lei estabelecerá incentivos para a produção e o conhecimento de
bens e valores culturais.
§ 4° Os danos e ameaças ao patrimônio cultural serã o punidos, na forma da
lei.
§ 5° Ficam tombados todos os documentos e os sítios detentores de
reminiscências históricas dos antigos quilombos. (Constituição da República
76

Federativa do Brasil. In: Coletânea de Leis sobre Preservação do


Patrimônio. IPHAN, 2006, p. 20-1).
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Um regresso às primeiras páginas deste trabalho deixa claro que textos


legislativos com este estilo de redação representam, efetivamente, conquistas
significativas. Avançar em escala local, entretanto, é preciso. As providências
administrativas tomadas em Arroio do Meio, no que tange à questão patrimonial,
contemplam as leis das esferas Federal e Estadual. No que se refere à Constituição
Estadual o seu artigo 223 dispõe:

O Estado e os Municípios manterão, sob orientação técnica do primeiro,


cadastro atualizado do patrimônio histórico e do acervo cultural, público e
privado. Parágrafo único – Os planos diretores e as diretrizes gerais de
ocupação dos territórios municipais disporão, necessariamente, sobre a
proteção do patrimônio histórico e cultural. (Constituição do estado do Rio
Grande do Sul apud Oliveira, 2007, p. 81).

Os avanços legislativos são significativos. Utilizá-los como ferramentas de


forma eficiente, sobretudo, fazendo prevalecer o bom senso ao invés da imposição é
uma tarefa desafiadora. Este desafio se apresenta aos profissionais envolvidos com
as temáticas afins em relação à sociedade. Os desafios, contudo, não se extinguem
por aí: aproveitar eficientemente os espaços abertos pelo poder público em relação
ao Patrimônio Histórico e Cultural, é também tarefa inquietante e que demanda
empenho e responsabilidade. Todas estas lutas terão tantas chances de dar certo,
quantos forem os investimentos financeiros e pessoais no sentido de promover a
formação continuada dos profissionais envolvidos com este trabalho de extrema
responsabilidade. A demanda é gigante, as perguntas são muitas, convêm-nos a
perícia de buscarmos as respostas nos lugares certos e a paciência para
convivermos com as interrogações que, a seu tempo, serão respondidas.
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6 REFLEXÕES FINAS: ENCONTRO ENTRE A EPISTÉME E A DOXA


- UM DIÁLOGO PARA ALÉM DA HIERARQUIA NA DEFINIÇÃO
DOS PAPÉIS FRENTE AO PATRIMÔNIO HISTÓRICO E
CULTURAL

Há algum tempo o apelo à preservação e à conservação de objetos e


estruturas arquitetônicas como fonte na escrita da História ganha força no Brasil.
Estes objetos elencados como Patrimônio Histórico e Cultural transcendem o campo
exclusivo da História. Aliás, no nascedouro da primeira organização acerca do
patrimônio no Brasil, as referências à História não existiam expressamente apesar
de se apresentarem intrínsecas na proposta de Mário de Andrade. Os ajustes feitos
ao projeto original do Serviço do Patrimônio Artístico Nacional patrocinaram o
acréscimo da palavra Histórico. Termo que seria dispensável, conforme alguns
autores, pois na concepção do conceito de arte de Andrade já estava contemplada a
questão histórica. (Chagas, 2006, p. 104-5).
A sistematização, ainda que parcial, do caminho percorrido no que se refere
ao trabalho com o Patrimônio Histórico e Cultural no Brasil abriu janelas para que
vislumbrássemos os reflexos em escala local. A atribuição deste epíteto valorativo e
a utilidade do que se convencionou chamar de patrimônio precisava ser estudada
para que os passos seguintes se justificassem.
As primeiras referências a esta natureza de objeto na literatura consultada
apontam para o aumento gradativo da preocupação tangente a tudo que pudesse
referenciar de alguma forma o passado no país. Entre avanços e tropeços os
problemas se metamorfoseiam. A industrialização avança também no Brasil, e o
impacto sobre o Patrimônio Histórico e Cultural é inevitável. Intelectuais de
vanguarda empunharam a bandeira patrimonial e conseguiram a criação de um
órgão específico dedicado ao Patrimônio.
78

O movimento destes homens que enxergavam para além das fronteiras de


seus estados apontava para a necessidade de elaboração de uma legislação que
amparasse o que precisava ser feito. Os interesses econômicos de grupos com os
quais os legisladores brasileiros estavam comprometidos emperraram vários
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projetos sem, entretanto, diminuir o ímpeto daqueles que originalmente adotaram a


causa patrimonial. A carruagem histórica avançou e as heranças estruturais sobre
as quais acontece a cunhagem do conceito de patrimônio tolhem alguns
movimentos, mas fazem crescer a demanda social por este tipo de marco temporal.
Os avanços, incluindo o das ciências que aí se solidificam, fazem emergir a
compreensão de que o Patrimônio Histórico e Cultural documenta épocas e difunde
valores.
A Democracia sofre percalços, mas o debate acerca do Patrimônio
permanece latente. Os avanços legislativos se apresentam como ferramentas
capazes de possibilitar a preservação. Com este passo dado era preciso avançar.
As interrogações surgem aos borbotões. O que é patrimônio? De quem é o
patrimônio? Quem sustenta e atribui importância àquilo que goza desta
prerrogativa?
No âmbito legislativo e da academia o conceito se solidifica enquanto
discussão, entretanto, a democratização e os reflexos na prática são tímidos. A falta
de identificação e de um elo eficiente que ligue a comunidade, que por força das
circunstâncias, venha a abrigar um patrimônio/documento de relevância para além
dos seus limites geográficos vem à tona. As saídas são apontadas através da
menção à educação baseada no patrimônio. Se a intenção é avançar não há como
uniformizar os olhares dos diferentes segmentos sociais sobre o patrimônio com o
qual, de alguma forma, se relacionam. A consciência dos intelectuais de que cada
cidadão “deita o olhar” sobre o que se apresenta como patrimônio a partir de uma
lente exclusiva, às vezes falha e compromete trabalhos bem intencionados. Deixar
os gabinetes se apresenta como tarefa imperativa. Estar no meio recebendo
representações das mais diversas realidades sociais em relação ao seu objeto de
estudo, apesar de exigir muito, não comprometerá a cientificidade da sua
representação acerca da realidade sobre a qual se pretende autoridade. Eis o apelo
crescente para a contemplação do signo em constante fusão com aquilo que ele é e
representa ao mesmo tempo.
79

Esta forma concreta com que a informação habita a Cultura Material e o


Patrimônio Histórico e Cultural abriga um aparente paradoxo, pois há uma
pluralidade de interpretações capazes de referenciar vários momentos do cotidiano
humano. Como entender toda a simbologia que daí emana? Não se pode ignorar a
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indelegável tarefa que a sociedade atribui aqueles que se propõem mediar a relação
embaraçosa da imanente heterogeneidade humana com tudo aquilo que a
determina e é por ela determinada. Entre estes profissionais figuram historiadores,
arqueólogos, museólogos entre outros que transitam pelo universo da memória e de
seus suportes. Qual é o limite da ação de cada um diante da demanda e das
interrogações com as quais as sociedades os fulminam? Há possibilidade de
respostas definitivas? Eis algumas das inquietações que o terceiro capítulo deste
trabalho problematiza deixando indicações de que há caminhos possíveis dotados,
no mínimo, de possibilidades.
As generalizações com as quais os métodos mais tradicionais na
historiografia trabalham podem, por vezes, deixarem de contemplar ou mesmo
negarem a subjetividade sobre a qual se funda toda a representação acerca do
Patrimônio Histórico e Cultural. Urge, então, romper com o pudor e desacomodar-se
ajustando a sintonia entre as ciências que se inter-relacionam por se ocuparem do
fazer humano no tempo/espaço. Produzir para a ciência a partir destas concepções
chama à responsabilidade aquele que se posiciona na sociedade com a autoridade
de, de alguma forma, estudá-la não ignorando o fato de que também a compõe. Só
assim será possível alojar na estante do senso comum um volume de ciência, do
contrário a distância se faz oceânica e os discursos de parte a parte, se quer, são
ouvidos. Eis o deserviço da dicotomia.
No caso estudado no quarto capítulo da presente monografia o itinerário
reflete o que se experimentou em escala nacional. O imóvel destinado a abrigar o
Museu Municipal de Arroio do Meio passa pelo processo de desapropriação
lançando-se mão da legislação criada para este fim. Na sequência é tombado pelo
poder público local e, por fim, é entregue à comunidade, mediante o recurso jurídico
da afetação para que se transforme em lugar de guarda e estudo da memória do
município.
Eis as bases para que se instale um museu em Arroio do Meio, mas o que é
museu? Que tipo de museu a comunidade espera? Quais recursos serão destinados
para que este projeto ganhe sustentação? Que qualificação têm e terão os
80

profissionais que estarão à frente deste processo? Eis algumas das questões ainda
não respondidas e dependentes de uma série de articulações sem as quais o projeto
não pode andar satisfatoriamente.
As reflexões acerca de um processo em andamento encerram um
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determinado teor de risco no que tange a uma análise através da lente da História.
Diante de tudo que até então se tem pontuado, entretanto, alguns relatos de
iniciativas e medidas já levadas a cabo são setas que indicam um longo caminho a
ser percorrido onde as constantes correções de rotas se apresentam
imperativamente.
As discussões no âmbito de uma comissão formada por pessoas simpáticas à
ideia de instalação do referido museu geram desdobramentos que par e passo
tendem criar o lastro social de sustentação ambicionado. As concepções de museu
que emanam das discussões da Comissão são trabalhadas e contrapostas com o
que se pensa academicamente neste sentido. O diálogo entre as expectativas de
parte a parte contemplam a dinâmica, rumo à síntese expressa na paráfrase que
Mário Chagas, uma das maiores autoridades sobre o tema no Brasil, faz do poema
de Mário de Andrade. Andrade em seus escritos afirma que há uma gota de sangue
em cada poema, Chagas transfere este sentimento para o trabalho nos museus:

No mundo da globalização, novo nome para o velho império, os museus


têm um papel importante. Eles são espaços de relações, são lugares de
poder e de memória, mas são também arena, campo de luta onde
germinam identidades culturais regadas por uma gota de sangue. Há uma
gota de sangue em cada museu. (Chagas, 2006, p. 135).

Na situação em questão outros movimentos são perceptíveis. Primeiramente,


a carência de diretrizes básicas, não lacônicas, capazes de fundar uma metodologia
quanto ao proceder tecnicamente na constituição do acervo. Este aspecto carece de
orientação sob pena de o espaço tornar-se um mero depósito de objetos descolados
dos seus contextos. A segunda constatação refere-se à responsabilidade do poder
público municipal. A destinação de pessoal para que o espaço ganhe dinamicidade e
funcione no período convencional de instituições desta natureza é uma atribuição
intransferível da esfera pública. O investimento e o apoio à qualificação dos
81

profissionais que aí forem admitidos é outra atribuição conferida indelegavelmente


ao setor público.
A instituição de um curso de graduação em História na Região do Vale do
Taquari/RS, a qual pertence o município que abriga o caso aqui abordado, se deu há
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pouco tempo. Eis um apoio possível. Os movimentos oriundos da circulação de


acadêmicos dedicados a esta ciência nos espaços públicos tangentes à educação e
à questão da preservação e conservação de acervos são incipientes, mas já
fecundos. Por sua vez, projetos, como o que aqui fora estudado, não podem
prescindir de profissionais qualificados academicamente e, ao mesmo tempo,
capazes de promover diálogos entre representações distintas do mesmo objeto. Na
vertigem deste limiar de século XXI, urge a consciência de que bons projetos, além
de demandarem competência requerem tempo de maturação.
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ARROIO DO MEIO. Ata n° 7 da Comissão Pró-instalação de um museu .


Prefeitura Municipal, Sec. da Educação e Cultura, 2008.

ARROIO DO MEIO (Município). Matricula de escritura n° 2772 , livro 3B, folha 132.
Tabelionato de Arroio do Meio, 1941.

ARROIO DO MEIO (Município). Matrícula de escritura n° 2890 , livro 42, folhas 101
a 103. Tabelionato de Arroio do Meio, 1951.

ARROIO DO MEIO (Município). Certidão de Auto de Imissão de Posse. Cartório


de Registro Civil de Arroio do Meio, 1990.

ARROIO DO MEIO. Decreto Municipal n° 1.439/2002 . Prefeitura Municipal, Sec.


Administração, 2002.

ARROIO DO MEIO. Lei Municipal n° 2.632/2008 . Prefeitura Municipal, Sec.


Administração, 2008.

ARROIO DO MEIO. Lei Municipal n° 2.683/2008 . Prefeitura Municipal, Sec.


Administração, 2008.
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ANEXO
87
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ÍNDICE DOS ANEXOS

Anexo I: Legislação concernente ao patrimônio no Brasil;

Anexo II: Cartas sobre preservação patrimonial;

Anexo III: Lei n° 6 de 11 de outubro de 1951 pela qual a Câma ra de


Vereadores autorizava o prefeito a adquirir o prédio que receberá o Museu;

Anexo IV: Lei n° 002/75 de 24 de abril de 1975, pela qual o P oder Executivo
Municipal é autorizado a vender o imóvel. O novo proprietário será o Sr. Lauro
Fröner;

Anexo V: Decreto n° 95/84 de 26 de setembro de 1984. Declar ou o prédio de


utilidade pública para fins de desapropriação;

Anexo VI: Decreto n° 301/86 de 28 de outubro de 1986. Enuncia mais uma


vez a utilidade pública do prédio para fins de desapropriação;

Anexo VII: Certidão de escritura datada de 02 de julho de 1992, por ela o


imóvel, documentalmente passa para a municipalidade com a determinação
expressa de que só poderá ser usado para abrigar repartições públicas ou de
guarda de memória;

Anexo VIII: Transcrição da Ata n° 3 que documenta a reunião qu e discutiu a


reforma do prédio;
88

ANEXO – I

LEGISLAÇÃO CONCERNENTE AO PATRIMÔNIO NO BRASIL


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Obs.: algumas das leis e Cartas forma mencionadas no texto da monografia e


aqui aparecem novamente, pois aqui, conforme referido está toda a legislação desta
natureza que, de alguma forma alcança o Brasil, até 2006.

Leis

Lei n° 3.924, de 26 de julho de 1961;

Lei n° 4.717, de 29 de junho de 1965;

Lei n° 4.845, de 19 de novembro de 1965;

Lei n° 5.471, de 9 de julho de 1968;

Lei n° 6.292, de 15 de dezembro de 1975;

Lei n° 7.347, de 24 de julho de 1985;

Lei n° 7.542, de 26 de setembro de 1986;

Lei n° 8.159 de 8 de janeiro de 1991;

Lei n° 9.605, de 12 de fevereiro de 1998;

Lei n° 10.166, de 27 de dezembro de 2000;

Lei n° 10.413, de 12 de março de 2002;

Decretos-Lei

Decreto-Lei n° 25, de 30 de novembro de 1937;

Decreto-Lei n° 3.866, de 29 de novembro de 1941;

Decretos

Decreto n° 65.347, de 13 de outubro de 1969;

Decreto n° 95.733, de 12 de fevereiro de 1988;


89

Decreto n° 1.306, de 9 de novembro de 1994;

Decreto n° 3.179, de 21 de setembro de 1999;

Decreto n° 3.551, de 4 de agosto de 2000;


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Decreto n° 3.912, de 10 de setembro de 2001;

Decreto n° 4.073, de 3 de janeiro de 2002;

Portarias

*Portaria n° 10, de 10 de setembro de 1986, da Secr etaria do Patrimônio


Histórico e Artístico Nacional – Sphan;

*Portaria n° 11, de 11 de setembro de 1986 da Secre taria do Patrimônio


Histórico e Artístico Nacional – Sphan;

*Portaria n° 7, de 1 de dezembro de 1988, da Secret aria do patrimônio


Histórico e Artístico Nacional;

*Portaria Interministerial n° 69, de 23 de janeiro de 1989, do Ministério da


Marinha e do Ministério da Cultura;

Portaria n° 262, de 24 de agosto de 1992, do Instit uto Brasileiro do Patrimônio


Cultural – IBPC;

*Portaria n° 111, de 16 de agosto de 1995, do Minis tério da Cultura;

*Portaria n° 40, de 13 de julho de 2000, da Fundaçã o Cultural Palmares;

*Portaria n° 230, de 17 de dezembro de 2002, do Dep artamento de Proteção,


do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional – Iphan;

*Portaria n° 28, de 31 de janeiro de 2003, do Diret or do Departamento de


Proteção do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional – Iphan;

Resoluções

Resolução Conama n° 001, de 23 de janeiro de 1986, do Conselho Nacional


do Meio Ambiente;
90

Convenções Internacionais

*Recomendação que define os princípios internacionais a serem aplicados em


matéria de pesquisas arqueológicas. Conferência Geral da Unesco – 9° sessão.
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Carta de Nova Delhi;

*Convenção para a Proteção de Bens Culturais em caso de conflito armado,


assinada à Conferência Internacional, reunida em Haia, de 21 de abril a 12 de maio
de 1954. Decreto Legislativo n° 32, de 1956. Decret o n° 44.851, de 11 de novembro
de 1958;

*Convenção sobre as Medidas a serem Adotadas para impedir a Importação,


Exportação e Transferência de Propriedade Ilícitas dos Bens Culturais, aprovada
pela XVI Sessão da Conferência Geral da Unesco, realizada, em Paris, de 12 de
outubro a 14 de novembro de 1970. Decreto Legislativo n° 71, de 1972. Decreto n°
72.312, de 31 de maio de 1973;

*Convenção Relativa à Proteção do Patrimônio Mundial, Cultural e Natural,


aprovada pela Conferência Geral da Unesco, em sua XVII Sessão, realizada em
Paris, de 17 de outubro a 21 de novembro de 1972. Decreto Legislativo n° 74, de
1977. Decreto n° 80.978, de 12 de dezembro de 1977;

*Convenção da Unidroit sobre Bens Culturais Furtados ou Ilicitamente


Exportados, celebrada em Roma, no dia 24 de junho de 1995. Decreto Legislativo n°
4, de 1999. Decreto n° 3.166, de 14 de setembro de 1999.

Fonte: Coletânea de Leis sobre Preservação do Patrimônio. Rio de Janeiro, IPHAN, 2006.
91

ANEXO - II

CARTAS PATRIMONIAIS
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A coleção dos principais documentos, recomendações e cartas conclusivas das


reuniões relativas à proteção do patrimônio cultural, ocorridas em diversas épocas e
partes do mundo, sempre foi uma aspiração dos que trabalham com o tema.
O conteúdo delas interessa a todos os que lidam na área patrimonial:
proprietários e moradores de bens tombados, advogados, professores, estudantes,
detentores do poder local nos sítios históricos, organizações governamentais ou
não, afins ao Iphan e até mesmo meros curiosos.

Cartas sobre preservação Patrimonial

1- Carta de Atenas - Sociedade das 22- Declaração de Nairóbi;


Nações - outubro de 1931; 23- Declaração Tlaxcala;
2- Carta de Atenas - CIAM - novembro de 24- Declaração do México;
1933; 25- Carta de Washington 1986;
3- Recomendação de Nova Delhi; 26- Carta Petrópolis;
4- Recomendação Paris 1962; 27- Carta de Washington 1987;
5- Carta de Veneza; 28- Carta de Cabo Frio;
6- Recomendação Paris 1964; 29- Declaração de São Paulo;
7- Normas de Quito; 30- Recomendação Paris 1989;
8- Recomendação Paris 1968; 31- Carta de Lausanne;
9- Compromisso Brasília 1970; 32- Carta do Rio;
10- Compromisso Salvador; 33- Conferência de Nara;
11- Carta do Restauro; 34- Carta Brasília 1995;
12- Declaração de Estocolmo; 35- Recomendação Europa de 1995;
13- Recomendação Paris 1972; 36- Declaração de Sofia;
14- Resolução de São Domingos; 37- Declaração de São Paulo II;
15- Declaração de Amsterdã; 38- Carta de Fortaleza;
16- Manifesto Amsterdã; 39- Carta de Mar del Plata;
17- Carta do Turismo Cultural; 40- Cartagenas de Índias – Colômbia;
18- Recomendações de Nairóbi; 41 - Recomendação Paris 2003;
19- Carta de Machu Picchu; 42 - Carta de Pero Vaz de Caminha;
20- Carta de Burra; 21- Carta de Florença;
Fonte
http://portal.iphan.gov.br/portal/montarPaginaSecao.do?id=12335&sigla=Documento&retorno=paginaDocumento
92

ANEXO III
Lei n° 6 de 11 de outubro de 1951 pela qual a Câmar a de Vereadores
autorizava o prefeito a adquirir o prédio que receberá o Museu.
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ANEXO IV
Lei n° 002/75 de 24 de abril de 1975, pela qual o P oder Executivo Municipal é
autorizado a vender o imóvel. O novo proprietário será o Sr. Lauro Fröner.
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ANEXO V

Decreto n° 95/84 de 26 de setembro de 1984. Declaro u o prédio de utilidade


pública para fins de desapropriação.
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ANEXO VI
Decreto n° 301/86 de 28 de outubro de 1986. Enuncia mais uma vez a
utilidade pública do prédio para fins de desapropriação.
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ANEXO VII
Certidão de escritura datada de 02 de julho de 1992, por ela o imóvel,
documentalmente passa para a municipalidade com a determinação expressa de
que só poderá ser usado para abrigar repartições públicas ou de guarda de
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memória.
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ANEXO VIII

Transcrição da Ata n° 3 que documenta a reunião que discutiu a reforma do


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prédio.

Ata n 03/2008
[fl. 2]
Aos trinta dias do mês de junho de dois mil e oito (30-06-2008), iniciando-se
às 16h 45min, realizou-se mais uma reunião dos membros integrantes da Comissão
Pró-museu, tendo como local a Secretaria de Educação e Cultura do município,
quando foram tratados os seguintes assuntos: para iniciar fez-se a acolhida aos
presentes e em retrospecto dos assuntos anteriormente tratados, contextualizando e
revisando os acordos e decisões tomadas. A equipe Engenharia da Prefeitura
Municipal esteve presente, ocasião em que discorreram sobre a planta de reforma e
restauração do prédio que abrigará o museu. Foram levantados diversos
questionamentos esclarecidas as dúvidas relativas ao assunto, a técnica da
UNIVATES, professora Neli Machado ressaltou que as fotos e os materiais são das
pessoas proprietárias, reproduz-se a foto e devolve-se à fonte, os termos de doação,
feito à mão, deverão regular e assegurar os materiais do museu; o grupo reunido
optou em organizar, concomitantemente, a restauração do prédio e o levantamento
dos dados históricos sobre o “prédio” que sediará o museu para compor o programa
de inauguração, que deverá aconte-
[fl. 2v]
cer no mês de novembro, mês de aniversário do município; aprofundou-se um
pouco mais sobre a missão e os objetivos do museu e a legislação específica que
cria o Museu, bem como a necessidade de elaboração do Plano Museológico, bem
como a Criação da Sociedade Amigos do Museu, cujos estatutos deverão ser
estudados. Nada mais havendo a constar, lavro a presente ata que após lida e
aprovada será assinada pelos presentes. Arroio do Meio, 30 de junho de 2008.
Lourdes Maria Gasparotto Rizzi, [ilegível], Paulo Steiner, Milton Schmidt, Sergio
Nunes Lopes, Celomar Schneiders.