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GRUPO

Educação a Distância

Caderno de Estudos

TEORIA DA HISTÓRIA E
HISTORIOGRAFIA

Prof. Paulo Cesar dos Santos


Prof.ª Graciela Márcia Fochi
Prof. Thiago Rodrigo da Silva

UNIASSELVI
2016

NEAD
CENTRO UNIVERSITÁRIO
LEONARDO DA VINCI
Rodovia BR 470, Km 71, nº 1.040, Bairro Benedito
89130-000 - INDAIAL/SC
www.uniasselvi.com.br

Copyright  UNIASSELVI 2016

Elaboração:
Prof. Paulo Cesar dos Santos
Prof.ª Graciela Márcia Fochi
Prof. Thiago Rodrigo da Silva

Revisão, Diagramação e Produção:


Centro Universitário Leonardo da Vinci - UNIASSELVI

Ficha catalográfica elaborada na fonte pela Biblioteca Dante Alighieri


UNIASSELVI – Indaial.

907
S237h Santos, Paulo Cesar dos

Teoria da história e historiografia/ Paulo Cesar


dos Santos; Graciela Márcia Fochi; Thiago Rodrigo da Silva. Indaial :
UNIASSELVI, 2016.

209 p. : il.

ISBN 978-85-7830-952-7

1. História – Estudo e Ensino.


I. Centro Universitário Leonardo Da Vinci.
APRESENTAÇÃO

Caro(a) acadêmico(a)! Bem-vindo ao Caderno de Estudos da disciplina Teoria da História


e Historiografia! A intenção deste caderno é apresentar o processo pelo qual a história se
constituiu como uma disciplina no campo das ciências humanas. Deste modo, iremos expor (em
uma perspectiva cronológica e contextualizada) as principais teorias e escolas historiográficas
dos últimos quatrocentos anos. Para tanto, iremos relacionar os principais estudiosos, como
eles definiram e conceituaram a história. Também veremos a relação da história com outras
ciências.

Na Unidade 1 serão apresentadas questões concernentes à teoria da história. Polêmicas


como objetividade, verdade e método serão abordadas. Também os principais teóricos da
historiografia, da época iluminista até o final do século XIX serão contemplados. Assim,
veremos a relação de alguns pensadores com o desenvolvimento da história enquanto campo
do conhecimento. Entre eles, Descartes, Vico, Kant, Hegel, Marx, Comte e Ranke.

Na Unidade 2 será discutida a produção historiográfica do século XIX e como esta se


relacionou com o conhecimento histórico do século XX. Em especial, foram contemplados
os intelectuais e as escolas teóricas. Os intelectuais relacionados foram: Michele, Droysen,
Buckhard, Weber, Walter Benjamim e Michel Foucault. Entre as escolas de pensamento
histórico, estão relacionadas a Escola dos Annales, a Escola de Frankfurt, a Escola Marxista
Inglesa, a Historiografia Latino-americana, a Micro-História, a História Ambiental e a História
do Tempo Presente.

Na Unidade 3 será abordada a historiografia brasileira. Assim serão relacionados


os historiadores dos períodos colonial, imperial e republicano. As influências teóricas e as
diversas gerações de historiadores brasileiros serão trabalhadas. Intelectuais como Varnhagen,
Capistrano de Abreu, Sérgio Buarque de Holanda, Caio Prado Júnior, Gilberto Freire, além
de pesquisadores contemporâneos, terão sua produção acadêmica apresentada e analisada.

Um detalhe importante: procure ter em mãos e não hesite em consultar dicionários


toda vez que surgirem expressões e conceitos de outras áreas, que ainda lhe são estranhos,
como do campo da ciência e da filosofia. Retome os conteúdos já abordados nas disciplinas
de Introdução ao Conhecimento Histórico, Metodologia do Ensino da História, História Moderna
e História Contemporânea.

Votos de uma jornada construtiva e satisfatória de conhecimentos!

Os autores

TEORIA DA HISTÓRIA E HISTORIOGRAFIA iii


UNI
Oi!! Eu sou o UNI, você já me conhece das outras disciplinas.
Estarei com você ao longo deste caderno. Acompanharei os seus
estudos e, sempre que precisar, farei algumas observações.
Desejo a você excelentes estudos!

UNI

TEORIA DA HISTÓRIA E HISTORIOGRAFIA iv


SUMÁRIO

UNIDADE 1 – TEORIA DA HISTÓRIA E HISTORIOGRAFIA ........................................... 1

TÓPICO 1 – TEORIA DA HISTÓRIA E HISTORIOGRAFIA: CONCEITOS INICIAIS . ..... 3


1 INTRODUÇÃO ................................................................................................................ 3
2 APRESENTAÇÃO E DEFINIÇÃO DE CONCEITOS ...................................................... 4
2.1 CIÊNCIA ....................................................................................................................... 4
2.2 TEORIA ........................................................................................................................ 5
2.3 PARADIGMA ................................................................................................................ 6
2.4 MÉTODO . .................................................................................................................... 7
2.5 DISCURSO .................................................................................................................. 8
2.6 HISTORIOGRAFIA ....................................................................................................... 9
2.7 EPISTEMOLOGIA ........................................................................................................ 9
2.8 RAZÃO ....................................................................................................................... 10
2.9 IDEOLOGIA ................................................................................................................ 10
2.10 DIALÉTICA ................................................................................................................ 11
2.11 PROGRESSO .......................................................................................................... 12
3 O CONTEXTO HISTÓRICO E INTELECTUAL DO ILUMINISMO ............................... 13
3.1 O EXEMPLO DE GIAMBATTISTA VICO . .................................................................. 15
4 O IDEALISMO ALEMÃO: AS PERSPECTIVAS DE KANT E HEGEL SOBRE A
HISTÓRIA ..................................................................................................................... 19
4.1 O EXEMPLO DE KANT . ............................................................................................ 19
4.1.1 A ideia de história cosmopolita ................................................................................ 21
4.2 O PENSAMENTO HEGELIANO: ESPÍRITO E RAZÃO NA HISTÓRIA ..................... 21
LEITURA COMPLEMENTAR .......................................................................................... 24
RESUMO DO TÓPICO 1 ................................................................................................. 29
AUTOATIVIDADE ............................................................................................................ 30

TÓPICO 2 – O PENSAMENTO SÓCIO-HISTÓRICO DO SÉCULO XVIII E XIX ............ 33


1 INTRODUÇÃO .............................................................................................................. 33
2 O POSITIVISMO COMTEANO: A FÍSICA SOCIAL E A HISTÓRIA ENQUANTO
CIÊNCIA DO PASSADO ............................................................................................... 34
3 O MATERIALISMO HISTÓRICO .................................................................................. 36
4 O MATERIALISMO DIALÉTICO . ................................................................................. 40
RESUMO DO TÓPICO 2 ................................................................................................. 43
AUTOATIVIDADE ............................................................................................................ 44

TÓPICO 3 – O HISTORICISMO DA SEGUNDA METADE DO SÉCULO XIX ................ 47


1 INTRODUÇÃO .............................................................................................................. 47
2 A HISTÓRIA, AS FONTES E A ESCRITA .................................................................... 47
3 O EXEMPLO DE LEOPOLD VON RANKE (1795-1888) ............................................. 49
4 O PROBLEMA DA OBJETIVIDADE NA CIÊNCIA E NA HISTÓRIA ........................... 51

TEORIA DA HISTÓRIA E HISTORIOGRAFIA v


5 A PROBLEMÁTICA DA VERDADE NA HISTÓRIA ..................................................... 55
LEITURA COMPLEMENTAR .......................................................................................... 57
RESUMO DO TÓPICO 3 ................................................................................................. 61
AUTOATIVIDADE ............................................................................................................ 62
AVALIAÇÃO . ................................................................................................................... 63

UNIDADE 2 – O PENSAMENTO HISTÓRICO A PARTIR DO SÉCULO XIX ................. 65

TÓPICO 1 – A TRADIÇÃO HISTORIOGRÁFICA NO SÉCULO XIX: ALGUNS


EXEMPLOS ................................................................................................. 67
1 INTRODUÇÃO .............................................................................................................. 67
2 SÉCULO XIX: QUAL HISTÓRIA? ................................................................................ 68
3 JULES MICHELET ....................................................................................................... 69
4 FUSTEL DE COULANGES .......................................................................................... 70
5 JOHANN GUSTAV DROYSEN ..................................................................................... 71
6 JACOB BUCKHARDT .................................................................................................. 71
7 MAX WEBER ................................................................................................................ 73
8 FRIEDRICH NIETZSCHE ............................................................................................. 74
9 CHARLES-VICTOR LANGLOIS (1863- 1929) E CHARLES SEIGNOBOS
(1854- 1942) .................................................................................................................. 75
RESUMO DO TÓPICO 1 ................................................................................................. 77
AUTOATIVIDADE ............................................................................................................ 79

TÓPICO 2 – A HISTORIOGRAFIA DO SÉCULO XX ...................................................... 81


1 INTRODUÇÃO .............................................................................................................. 81
2 A ESCOLA DE FRANKFURT ....................................................................................... 81
3 THEODOR ADORNO (1903-1969) ............................................................................... 82
4 WALTER BENJAMIN (1892-1940) ............................................................................... 83
5 A NOVA ESQUERDA INGLESA ................................................................................... 86
5.1 A PRODUÇÃO HISTORIOGRÁFICA DOS MARXISTAS INGLESES NA SEGUNDA
METADE DO SÉCULO XX . ....................................................................................... 87
6 A HISTORIOGRAFIA LATINO-AMERICANA ............................................................... 89
7 A TRADIÇÃO DOS ANNALES ..................................................................................... 91
7.1 PRIMEIRA FASE DA ESCOLA DOS ANNALES (1929-1945) .................................... 93
7.2 SEGUNDA FASE DA ESCOLA DOS ANNALES (1945-1968) ................................... 95
7.3 TERCEIRA FASE DA ESCOLA DOS ANNALES (PÓS 1968...): NOVOS MÉTODOS,
OBJETOS E ABORDAGENS ..................................................................................... 98
8 O CASO DE MICHEL FOUCAULT ............................................................................. 100
LEITURA COMPLEMENTAR ........................................................................................ 102
RESUMO DO TÓPICO 2 ............................................................................................... 109
AUTOATIVIDADE ........................................................................................................... 111

TÓPICO 3 – AS PRINCIPAIS TENDÊNCIAS DO SÉCULO XXI .................................... 113


1 INTRODUÇÃO ............................................................................................................. 113

TEORIA DA HISTÓRIA E HISTORIOGRAFIA vi


2 A NOVA HISTÓRIA CULTURAL . ................................................................................ 114
3 A MICRO-HISTÓRIA .................................................................................................... 115
3.1 O MÉTODO INDICIÁRIO DE GINZBURG ................................................................ 116
4 HISTÓRIA E SABER LOCAL ...................................................................................... 118
5 LINGUÍSTICA E NARRATIVA . .................................................................................... 118
6 A HISTÓRIA AMBIENTAL .......................................................................................... 121
7 A HISTÓRIA DO TEMPO PRESENTE ....................................................................... 122
8 CONSIDERAÇÕES FINAIS ........................................................................................ 124
LEITURA COMPLEMENTAR ........................................................................................ 126
RESUMO DO TÓPICO 3 ............................................................................................... 132
AUTOATIVIDADE .......................................................................................................... 133
AVALIAÇÃO . ................................................................................................................. 136

UNIDADE 3 – A HISTORIOGRAFIA BRASILEIRA ....................................................... 137

TÓPICO 1 – HISTORIOGRAFIA BRASILEIRA: DO IHGB À GERAÇÃO DE 1930 ..... 139


1 INTRODUÇÃO ............................................................................................................ 139
2 O PERÍODO ANTERIOR AO INSTITUTO HISTÓRICO E GEOGRÁFICO BRASILEIRO
(IHGB) ......................................................................................................................... 139
3 O INSTITUTO HISTÓRICO E GEOGRÁFICO BRASILEIRO .................................... 141
4 A GERAÇÃO DOS ANOS 1930 E SEUS DESDOBRAMENTOS .............................. 146
RESUMO DO TÓPICO 1 ............................................................................................... 154
AUTOATIVIDADE .......................................................................................................... 155

TÓPICO 2 – A HISTORIOGRAFIA BRASILEIRA DURANTE A GUERRA FRIA . ........ 157


1 INTRODUÇÃO ............................................................................................................ 157
2 OS ENSAÍSTAS DA REALIDADE HISTÓRICA BRASILEIRA .................................. 158
3 A PRODUÇÃO UNIVERSITÁRIA DE HISTÓRIA DO BRASIL, A FORMAÇÃO DE
CENTROS DE DOCUMENTAÇÃO E PESQUISA HISTÓRICA ................................. 161
4 OS PRINCIPAIS DEBATES ACADÊMICOS .............................................................. 164
5 OS BRASILIANISTAS ................................................................................................ 167
RESUMO DO TÓPICO 2 ............................................................................................... 170
AUTOATIVIDADE .......................................................................................................... 171

TÓPICO 3 – A HISTORIOGRAFIA BRASILEIRA CONTEMPORÂNEA ....................... 173


INTRODUÇÃO ............................................................................................................... 173
2 NOVOS ESTUDOS, NOVAS INSTITUIÇÕES, NOVOS TEMAS: O CONTEXTO DAS
TRANSFORMAÇÕES HISTORIOGRÁFICAS DAS ÚLTIMAS TRÊS DÉCADAS . ... 174
3 HISTÓRIA ATLÂNTICA/ HISTÓRIA DA ESCRAVIDÃO/ BRASIL COLONIAL E
IMPERIAL ................................................................................................................... 176
4 NOVA HISTÓRIA CULTURAL, GÊNERO, NOVA HISTÓRIA SOCIAL E HISTÓRIA
AMBIENTAL: OS NOVOS TEMAS DA HISTORIOGRAFIA BRASILEIRA
CONTEMPORÂNEA ................................................................................................... 179
5 OS DEBATES SOBRE O GOLPE MILITAR DE 1964 . .............................................. 186

TEORIA DA HISTÓRIA E HISTORIOGRAFIA vii


LEITURA COMPLEMENTAR ........................................................................................ 188
RESUMO DO TÓPICO 3 ............................................................................................... 196
AUTOATIVIDADE .......................................................................................................... 197
AVALIAÇÃO . ................................................................................................................. 198
REFERÊNCIAS . ............................................................................................................ 199

TEORIA DA HISTÓRIA E HISTORIOGRAFIA viii


UNIDADE 1

TEORIA DA HISTÓRIA E HISTORIOGRAFIA

Objetivos de aprendizagem

A partir dos estudos desta unidade, você será capaz de:

 definir,contextualizar e problematizar os principais conceitos que


são solicitados nos estudos dos temas de teoria da história e
historiografia;

 apresentar os principais autores, teorias e paradigmas científicos


da História que compõem a matriz do pensamento da sociedade
ocidental moderna, e da influência que exerceram no pensamento
científico e histórico das gerações posteriores;

 abordar os fundamentos do pensamento iluminista, cartesiano,


hegeliano, positivista, marxista e historicista nos aspectos teóricos
e metodológicos, contextualizando o momento histórico em que
foram formulados;

 estudar e contextualizar a matriz de pensamento marxista, as


categorias do materialismo histórico e dialético e suas implicações
na análise e na escrita da história.

 discutire problematizar as questões de objetividade e verdade


que perpassam as principais tradições do pensamento científico T
E
e a produção do conhecimento histórico. O
R
I
A

PLANO DE ESTUDOS D
A

Caro acadêmico! Esta unidade de estudos encontra-se dividida H


I
em três tópicos de conteúdos. Ao longo de cada um deles, você S
T
encontrará sugestões e dicas que visam potencializar os temas Ó
R
abordados e ao final de cada um, estão disponíveis resumos e I
A
autoatividades que visam fixar os temas estudados.
E

H
I
TÓPICO 1 – TEORIA DA HISTÓRIA E S
HISTORIOGRAFIA: CONCEITOS T
INICIAIS O
R
I
TÓPICO 2 – O PENSAMENTO SÓCIO-HISTÓRICO O
G
DO SÉCULO XVIII E XIX R
A
TÓPICO 3 – O HISTORICISMO DA SEGUNDA F
I
METADE DO SÉCULO XIX A
T
E
O
R
I
A

D
A

H
I
S
T
Ó
R
I
A

H
I
S
T
O
R
I
O
G
R
A
F
I
A
UNIDADE 1

TÓPICO 1

TEORIA DA HISTÓRIA E HISTORIOGRAFIA:


CONCEITOS INICIAIS

1 INTRODUÇÃO

As disciplinas, os textos, os artigos que se prepõem a analisar e discutir Teoria da


História e Historiografia são em número muito inferior aos demais temas da História, como
por exemplo, História Regional, História Antiga, História Medieval; assim como acabam sendo
motivo de desinteresse e distanciamento por parte dos estudantes e profissionais da história.

Refletir sobre estas questões significa pensar sobre os aspectos que perpassam todo o
processo de pesquisa, sistematização e comunicação da História. O historiador e o profissional
da história consciente e comprometido com o fazer histórico não pode negligenciar tais aspectos,
pois estará procedendo de forma superficial com o conhecimento que está elaborando e até
T
com o conhecimento que se utiliza, cuja autoria não é sua. E
O
R
I
Cardoso (1997) nos coloca a questão de que devemos estar despertos e atentos em meio A

ao contexto social, político, econômico e cultural no qual nos encontramos, pois este se apresenta D
A
tanto com ares de tradição sólida, como de renovação, se encontra em pleno devir e superação,
H
tende a se tornar outro, ainda mais aberto e tolerante, porém ainda está sendo plasmado em I
S
meio a um modelo fortemente estruturado, hierarquizado e conservador; em outdoors esboçam- T
Ó
se tempos de mudança, mas as bases de realização prática encontram-se ainda sustentadas na R
I
antiga matriz ideológica do capitalismo, que impera pelo menos há três séculos. A

Rüsen (2009) discute que a Teoria da História conta com toda uma identidade construída, H
I
porém o desafio está em estabelecer as fronteiras entre a escrita da história (historiografia), o S
T
estudo crítico, fazer a história da história, pois a historiografia, mal consegue ser separada de O
R
seu objeto mais evidente que é a escrita da história. I
O
G
R
A indecisão na forma de referir a atividade intelectual, o fazer/pesquisar escrever em A
F
História (historiografia, história da história, teoria da história) é resultado também da escassez I
A
4 TÓPICO 1 UNIDADE 1

de problematizações teóricas, fato que pode ser verificado com facilidade se tomados os temas
anunciados nos encontros dos profissionais em história, nos títulos das dissertações e teses
defendidas no interior das instituições de ensino de pós-graduação e nas linhas de pesquisas
que são desenvolvidos pelas mesmas instituições.

Trata-se de uma discussão e tema que requer aprofundamentos sobre os conceitos


e concepções teóricas que pertencem à teoria do conhecimento, à história da filosofia e da
ciência, e paradigmas científicos. Cientes disto, procurou-se apresentar e definir os conceitos
que vão ser mencionados com maior ênfase ao longo deste Caderno de Estudos.

Não perca de vista a ideia de recorrer e consultar um dicionário toda vez que surgirem
conceitos e expressões que lhe parecem estranhos ou incertos dos significados que comportam.
No sentido de lhe auxiliar, observe as sugestões de consulta a seguir:

S!
DICA

DICINÁRIO DE CONCEITOS HISTÓRICOS

SILVA, Kalina Vanderlei; SILVA, Maciel Henrique. Dicionário de


conceitos históricos. São Paulo: Contexto, 2009.
Disponível em: <http://www.meuportalacademico.com.br/wp-
content/uploads/2013/04/SILVA-K-SILVA-M.-Dicion%C3%A1rio-
de-conceitos-hist%C3%B3ricos.pdf>.

DICIONÁRIO DE FILOSOFIA
T
E
O ABBAGNANO, Nicola. Dicionário de filosofia. 5 ed. São Paulo:
R Martins Fontes, 2007.
I Disponível em: <http://charlezine.com.br/wp-content/
A
uploads/2011/11/Dicionario-de-Filosofia-Nicola-ABBAGNANO.pdf>.
D
A

H
I
S
T
Ó
R
I
2 APRESENTAÇÃO E DEFINIÇÃO DE CONCEITOS
A

H
I
S
T
O
R
I 2.1 CIÊNCIA
O
G
R
A
F
Compreende o processo, o percurso metodológico, os princípios lógicos de investigação;
I
A
tem por finalidade elaborar conhecimentos e/ou resolver os problemas que o próprio homem
UNIDADE 1 TÓPICO 1 5

formula ou que se apresentam em uma dada realidade. Entre os principais métodos existe o da
observação empírica, seja de seres ou fenômenos naturais ou de fatos e fenômenos sociais,
cuja finalidade reside em promover o aprimoramento e melhoramento da vida e da humanidade.

A ciência moderna se desenvolveu e consolidou ao longo dos séculos XVII, XVIII e


XIX, tratou-se de um conhecimento obtido de forma natural, independente e desarticulado das
dimensões sobrenaturais, mitológicas, mágicas e/fantásticas da realidade. É quando se acentua
o distanciamento entre o campo da fé, do espiritual, do religioso, do sagrado e do eterno (poder
invisível) e o campo do temporal, do método, do racional, do profano e do leigo (poder visível).

A ciência acabou por se tornar em uma ideologia dominante – o cientificismo, uma forma
de saber superior, criada pelo positivismo no século XIX. A ciência resumia-se na busca pela
verdade a qualquer custo, almejava extrair todos os segredos que houvesse na natureza, e
para tanto deveria proceder rigorosa observação empírica, lançando mão da imaginação, dos
sentimentos e das emoções quando investigava tanto os seres da natureza como os fatos e
acontecimentos humanos.

Surgiram muitas críticas à ciência, entre elas estão as que foram proferidas por Nietzsche
(1844-1900), quando afirmava que a ciência havia matado Deus. Outros estudiosos começam a
perceber que a racionalização e o cientificismo não estavam dando conta de libertar o homem,
pelo contrário, as forças produtivas do capitalismo, que eram justificadas e estimuladas pelo
saber científico-tecnológico, favoreciam ainda mais a dominação predatória do homem sobre
a natureza e do homem sobre o próprio homem.

Para Max Weber (1983) a ciência não possui maior objetivo e sentido do que o de T
E
fazer surgir novas questões, novos problemas, ser ultrapassada e superada; que se trata de O
R
um fazer que jamais cessa e que não tem fim. Silva (2009) apresenta que a ciência data de I
A
aproximadamente 10 mil anos, que teria surgido no Oriente Médio, quando eram reunidos
D
exemplares e conhecimentos sobre plantas, animais e tecnologias. A

H
I
No século XX, com as experiências das guerras mundiais, com o aprofundamento da S
T
fome e da miséria, da concentração da riqueza e aumento das desigualdades, dos conflitos Ó
R
étnico-raciais, os estudiosos passam a questionar os objetivos, os meios e os fins da ciência I
A
e do cientificismo descomprometido com a melhoria da vida humana.
E

H
I
S
T
O
2.2 TEORIA R
I
O
G
R
Pode ser considerado desde o ato de ‘tomada de consciência’, a formulação e A
organização do pensamento, a reflexão sobre a realidade, que almeja resultados práticos, a F
I
A
6 TÓPICO 1 UNIDADE 1

ação e a transformação da realidade. Somente adquire o status de teoria quando apresenta


uma estrutura toda organizada de princípios, categorias, métodos, regras e leis que podem ser
aplicados e verificados diante de fatos, fenômenos do mundo e da natureza.

Kuhn (2000) afirma que as teorias não são eternas, possuem certo tempo de validade e
que quando não dão conta de fornecer resultados e respostas satisfatórios diante dos problemas
e fatos, fornecem as condições para que outras teorias sejam apresentadas em seu lugar:

A emergência de novas teorias é geralmente precedida por um período de in-


segurança profissional pronunciada, pois exige a destruição em larga escala de
paradigmas e grandes alterações nos problemas e técnicas da ciência normal.
Como seria de esperar, essa insegurança é gerada pelo fracasso constante
dos quebra-cabeças da ciência normal em produzir resultados esperados. O
fracasso das regras existentes é o prelúdio para a busca de novas regras.
(KUHN, 2000, p. 95).

Silva (2009) apresenta que existem teorias em praticamente todas as áreas do


conhecimento, apesar de serem mais usuais e empregadas nas ciências biológicas e exatas.
Nas ciências humanas, as áreas do conhecimento que mais buscam formular teorias são as
da economia, a sociologia, a antropologia e a linguística.

A peculiaridade dos fenômenos e fatos humanos (o homem, o homem no tempo) é que


estes costumam ser atípicos, anárquicos, imprevisíveis e não ocorrem duas ou mais vezes, bem
como é raro conseguir estabelecer semelhanças e repetições para com outros fatos e fenômenos
ocorridos em outros locais, e por fim serem classificados numa teoria rigorosa e precisa.

T Silva (2009) aborda que os historiadores atualmente são mais receosos em formular
E
O teorias do que em outras épocas (embora não dispensem conceitos, categorias e modelos
R
I explicativos em suas análises). A autora explica que durante o século XVIII e XIX, quando
A
vigorava o historicismo, a escola metódica e o materialismo histórico, muitos historiadores se
D
A preocupavam com o estabelecimento de modelos que estruturavam as explicações da História,
H porém com os questionamentos e as crises que a ciência sofreu ao longo do século XX, em
I
S especial com a ascensão da Nova História, na segunda metade do século, a História foi se
T
Ó tornando cada vez menos teórica, ou seja, cada vez menos preocupada com os métodos,
R
I com categorias e explicações preestabelecidas para proceder análises de fatos e fenômenos.
A

H
I
S
T 2.3 PARADIGMA
O
R
I
O Kuhn (2000) discute que um paradigma corresponde aos elementos que unem e
G
R aproximam membros de uma comunidade, e estes preparam um campo de atuação, iniciam e
A
F formam outras pessoas e estudantes para serem futuros membros da comunidade científica. Os
I
A paradigmas são compostos pelas realizações científicas que são reconhecidas universalmente,
UNIDADE 1 TÓPICO 1 7

são responsáveis por legitimar a ciência feita e o conhecimento elaborado por um determinado
grupo ou nicho/campo de pesquisa.

É comum ouvirmos falar fulano de tal é weberiano, ciclano é marxista, isso quer dizer
que em suas atividades científicas e intelectuais apresentam estudos que possuem temas,
recortes temporais, aplicam métodos e categorias de análises que pertencem originalmente
aos paradigmas daqueles estudiosos.

2.4 MÉTODO

Caminhos, procedimentos pelos quais se chega a um determinado resultado coerente;


técnicas para realizar praticamente uma ação teórica; regras racionais que regulamentam,
metodizam a pesquisa histórica no sentido de obter reconhecimento científico e teor de verdade.

Diehl (2001) apresenta que os procedimentos metodológicos utilizados no fazer histórico


(fontes e narrativas) indicam os processos pelos quais o passado humano é contemporaneizado
como história.

Consiste no conjunto de elementos que compõe o percurso, as regras e o tratamento


investigativo, analítico e crítico atribuídos ao passado (fatos e fenômenos humanos e sociais);
uma vez coerentemente aplicados são responsáveis por conferir ao conhecimento unidade,
inteligibilidade e teor científico. O método representa uma tentativa de destrinchar o passado
T
dos interesses e visões/versões que o alteram, o distorcem e o corrompem da verdade e de E
O
como os fatos e fenômenos transcorreram. R
I
A

Existem inúmeros métodos que são utilizados pelos pesquisadores e estudiosos, cada D
A
paradigma estrutura-se de forma diferente e variável aos outros. Determinados estudiosos
H
participaram como idealizadores ou como adeptos, observe a tabela a seguir: I
S
T
Ó
QUADRO 1 - PRINCIPAIS PARADIGMAS DO CONHECIMENTO R
I
PARADIGMAS PRESSUPOSTOS REPRESENTANTES A

MÉTODO INDUTIVO: E
O conhecimento é obtido com base nos fatos dados
F. Bacon, T. Hobbes, H
POSITIVISMO da experiência vivida no mundo (empirismo). I
J. Locke, Hume, A.
EMPIRISMO Tem como finalidade alcançar o formalismo S
Comte T
lógico-matemático e a aplicação prática dos
O
conhecimentos obtidos. R
I
O
G
R
A
F
I
A
8 TÓPICO 1 UNIDADE 1

MÉTODO DEDUTIVO:
Dotado de uma unidade funcional e coerência
interna.
Os elementos culturais representam a ligação
FUNCIONALISMO R. Descartes,
de necessidade entre o grupo humano e o meio
RAZÃO Spinoza, Leibniz
físico (necessidades biológicas e os imperativos
culturais).
Parte-se de uma teoria geral para explicar o caso
particular.
METÓDO DIALÉTICO:
MATERIALISMO Considera relações concretas e materiais como Karl Marx, Friedrich
HISTÓRICO suficientes para explicar os fenômenos mentais, Engels
sociais, históricos.
MÉTODO SISTÊMICO: Preocupa-se com
aspectos quantitativos dos fenômenos e a inter- Saussure, Claude
ESTRUTURALISMO relação dos objetos que o compõe. Levi-Strauss,
As estruturas pressupõem relações, existem Jacques Lacan.
conexões entre as partes de um fenômeno.
FONTE: Os autores

ÇÃO!
ATEN

Caro(a) acadêmico(a)!
Ao longo deste Caderno de Estudos, os principais paradigmas
do conhecimento serão retomados e discutidos no sentido de
como foram introduzidos na escrita da história. Fique atento(a)!

T
E
O
R
I
A 2.5 DISCURSO
D
A
O discurso é composto pelo universo de experiências, referências e significados que
H
I compõem o imaginário de quem redige e narra o passado. Estes são oriundos das posições
S
T em que os indivíduos se encontram ou querem alcançar, aos grupos aos quais se encontram
Ó
R associados e filiados; aos ideais que defendem ou querem galgar para si e para os demais
I
A integrantes e apoiadores.
E

H O discurso possui e fornece informações dos indivíduos que tanto abarcam a dimensão
I
S individual/particular como relações sociais e coletivas mais amplas. Um discurso, uma narrativa
T
O deve ser entendida como um ato político, no sentido de que almeja, objetiva, tem algo em
R
I vista. A finalidade de todo e qualquer discurso é transmitir uma ideologia, alcançar algum fim.
O
G
R
A
F
I
A
UNIDADE 1 TÓPICO 1 9

2.6 HISTORIOGRAFIA

Diz respeito às variáveis que perpassam a produção e sistematização do conhecimento


histórico. Assemelha-se com as noções de “Filosofia da História”, ‘História das Ideias’, ‘História
da Intelectualidade’, ‘História da escrita da História’. O conhecimento histórico é tomado em
perspectiva e no conjunto que o compõe; são feitos balanços, análises, comparações e sínteses.

Trata-se do estudo do processo de redação da História propriamente dito, onde


se procura identificar de que forma os historiadores pesquisam, organizam e narram o
conhecimento, os métodos que foram utilizados, os elementos discursivos, as categorias de
análise e interpretação, o repertório conceitual, o sentido e o valor moral e ético que foi atribuído
aos fatos e ações humanas.

Cada profissional da história acaba por fazer a sua escolha, por consequência os
demais estudiosos que tomarão os escritos que este historiador produziu, tenderão a procurar
identificar semelhanças, aproximações ou distanciamentos com relação a determinados
paradigmas, tendências, escolas já conhecidas assim como reconhecer se tal escrito, estudo
e tese foi responsável por formular e empreender alguma mudança ou revolução na forma de
fazer/escrever a história como até então havia sido feito.

S!
DICA T
E
O
R
I
Ao longo deste Caderno de Estudos serão apresentadas as A
principais escolas e tendências historiográficas (Historicismo,
Escola Metódica, os Annales, Nova História Cultural, Micro- D
A
história, entre outras), que são reconhecidas no interior da
produção do conhecimento histórico. Prossiga na leitura do H
Caderno de Estudos! I
S
T
Ó
R
I
A

2.7 EPISTEMOLOGIA H
I
S
T
O
É um modo de tratar um problema nascido de um pressuposto filosófico específico R
no âmbito de determinada corrente filosófica. Estudo da natureza, das origens e da validade I
O
de um determinado conhecimento. Episteme significa também "lugar", local onde o homem G
R
se instala, para conhecer e agir de forma apropriada e de acordo com as regras estruturais A
F
daquela episteme. I
A
10 TÓPICO 1 UNIDADE 1

Na frase, ‘as ciências humanas são parte da episteme moderna’, significa dizer que
as ciências humanas correspondem ao local de onde a sociedade moderna retirava suas
referências teóricas; por outro lado, pode-se dizer que a teologia foi a episteme da Idade
Média. Cada uma possui categorias, bases de referências e valores específicos para analisar
e interpretar a realidade. Abbagnano (2007) explica que se trata de um modo de abordar um
problema nascido de um pressuposto filosófico específico, no âmbito de determinada corrente
filosófica, no interior de uma dada área do conhecimento.

2.8 RAZÃO

Abbagnano (2007) descreve que consiste na base de referenciais sob os quais é


possível proceder a indagações e investigações. Trata-se de uma faculdade que é reconhecida
no homem e não nas demais espécies e seres da natureza.

Razão também comporta a ideia de justa medida, postura comedida, de uso de critérios
e parâmetros racionais. É comumente empregada no sentido de designar a força que liberta
dos preconceitos, dos mitos, das opiniões enraizadas, do mundo das aparências, permitindo
estabelecer um critério universal ou comum para a conduta do homem em todos os campos.
Também é colocada como ponto de referência e equilíbrio aos sentimentos desmedidos, às
paixões, às emoções, aos instintos viscerais, aos modos rudes e aos apetites primitivos.

Descartes (1979) identificou a razão ao bom senso e a definiu como sendo a capacidade
T
E de bem julgar e de distinguir o verdadeiro do falso; de ser um instrumento do conhecimento
O
R provável, e não apenas do conhecimento estabelecido. Para Hegel (1995) a razão é a identidade
I
A da autoconsciência, do pensamento, da realidade, das coisas e dos acontecimentos, como
D manifestação ou determinação.
A

H
I
S
T
Ó
R 2.9 IDEOLOGIA
I
A

E
Abbagnano (2007) descreve que o termo foi criado por Destut de Tracy, em 1801, para
H
I
designar "a análise das sensações e das ideias". Outros estudiosos defendem que consistiu
S
T
na corrente filosófica que marcou a transição do empirismo iluminista para o espiritualismo
O tradicionalista que floresceu na primeira metade do séc. XIX. Napoleão empregou o termo
R
I para nomear os estudiosos que eram desfavoráveis ao seu governo, porém com um sentido
O
G depreciativo, querendo designá-los como pessoas sectárias, dogmáticas, sem senso político
R
A e distantes da realidade.
F
I
A
UNIDADE 1 TÓPICO 1 11

A palavra ideologia é também empregada para designar qualquer espécie de análise


filosófica, ou uma doutrina que possui validade objetiva e que é mantida em nome dos interesses
de quem a utiliza e se vale dela. Em meados do séc. XIX, a última noção de ideologia passou a
ser fundamental em meio ao paradigma marxista, quando foi utilizada na interpretação da luta dos
trabalhadores operários contra a dominação dos proprietários capitalistas e da sociedade burguesa.

Segundo Marx (2010), os homens faziam a sua própria história, mas não a faziam
segundo sua própria vontade; não a faziam sob circunstâncias de sua escolha, mas sob as
circunstâncias que encontravam diante de si, que foram legadas e transmitidas pelo passado,
impingidas e plasmadas pelas ideologias. Segundo Marx (2010) é também pelas formas
ideológicas em que os homens tomam consciência da sua condição de vida e das contrariedades
que se apresentam na vida material. Nesse sentido, pode-se entender ideologia como sendo
toda crença que é usada para o controle dos comportamentos coletivos, entendendo-se o
termo crença, em seu significado mais amplo, como noção de compromisso da conduta, que
pode ter ou não validade objetiva.

2.10 DIALÉTICA

Abbagnano (2007) discorre que a dialética pode ser compreendida como método da
divisão entre bem e mal (platônica) e como síntese dos opostos (hegeliana). Levando em
consideração estas duas definições pode-se pensar que a dialética é um processo em que há
um adversário que é combatido ou uma tese que será refutada, existem dois protagonistas ou
T
duas teses em debate, diálogo, conflito; ou então, que é um processo resultante de conflito ou E
O
de oposição entre dois princípios, dois momentos ou duas atividades quaisquer. R
I
A

O conceito de dialética, como síntese dos opostos, defendida por Hegel, sugere que D
A
se pense que a resolução das contradições se move dialeticamente e, portanto, a filosofia
H
hegeliana vê em toda parte a tríade de tese, antítese e síntese, nas quais a antítese representa I
S
a "negação", "o oposto", ou "o outro" da tese, e a síntese constitui a unidade e, ao mesmo T
Ó
tempo, a negociação, a certificação de ambas. R
I
A
Assim como as teorias generalizadoras e racionalistas, a dialética também acabou por E
sofrer críticas de que possuía a pretensão de ser mais uma fórmula e modelo ideal e totalizador, H
I
bem como foi indicada como responsável por justificar tudo o que aconteceu no passado e S
T
que se prevê ou se espera que aconteça no futuro, uma espécie de “aconteceu por que tinha O
R
que acontecer”, “é aceitável o mal em nome do bem”, “a escravidão em nome da liberdade”, I
O
e assim por diante. G
R
A
F
I
A
12 TÓPICO 1 UNIDADE 1

2.11 PROGRESSO

Abbagnano (2007) descreve que consiste no raciocínio que os acontecimentos históricos


se desenvolvem num sentido desejável, em que se dá o aperfeiçoamento crescente e que vai
assim transcorrer rumo ao futuro. A principal implicação da noção de progresso na sociedade
que é a percepção do ‘curso dos eventos (naturais e históricos) como uma série unilinear’.

A noção de progresso é reconhecida como de autoria de Francis Bacon, que a apresentou


na obra Novum Organum, publicada em 1620. Este conceito dominou as manifestações da
cultura ocidental do séc. XIX e ainda continua sendo o pano de fundo de muitas concepções
filosóficas e científicas.

Por outro lado, a noção moderna de progresso reside na significação da concepção de


tempo com uma dinâmica cumulativa, que desloca a centralidade do tempo cíclico à dinâmica
temporal crescente e linear. O progresso é propriedade e forma, a do progredir, construir (typisch
aufbauend) e em expansão contínua.

Progresso refere-se, também, à emancipação humana, a evolução do saber e da técnica,


os desdobramentos cada vez mais complexos, em que impera a racionalidade cumulativa e
progressiva, cada vez mais complexa. É acompanhado pelas noções de ‘secularização’, ou seja,
explicações científicas que suplantam as tradições religiosas e a “divina providência”; e a noção
de ‘estado laico’ que estabelece o fim da influência religiosa nas decisões políticas e vice-versa.
T
E
O
R Tanto na história, na filosofia, na cultura e na sociedade, esta expressão encontra-se
I
A relacionada à visão de acúmulo e síntese do passado e como profecia realizável e triunfante
D no futuro, que interpreta a humanidade como uma grande estrutura, que ao longo das eras
A
e épocas caminha arduamente e constantemente a um desenvolvimento glorioso, que conta
H
I com o campo técnico e científico como os principais motores propulsores.
S
T
Ó
R Da mesma forma como a ciência e a razão receberam fortes críticas dos estudiosos,
I
A a noção de progresso também passou por este processo, especialmente depois das duas
E grandes guerras mundiais do século XX, quando foram criados comitês de ética cujos estatutos
H
solicitam zelo pela dignidade e preservação da vida, bem como antever riscos, custos e danos
I
S
para com o meio ambiente e as pessoas participantes de projetos/pesquisas e obras tanto no
T ramo científico, da extração de matéria-prima da natureza, como em projetos de urbanização,
O
R
I
construção de usinas, estradas e de obras em geral.
O
G
R
A
F
I
A
UNIDADE 1 TÓPICO 1 13

3 O CONTEXTO HISTÓRICO E INTELECTUAL DO ILUMINISMO

O Iluminismo, ou século das luzes ou da ilustração, foi um movimento intelectual e


cultural do século XVIII, que almejava libertar o homem das crenças mitológicas e de toda
herança dogmática da época medieval. Defendia os princípios da razão crítica, do progresso,
da autonomia dos indivíduos e da liberdade de pensamento. O Iluminismo não foi uma invenção
da sociedade de sua época propriamente dita, sustentava-se em bases teóricas que já haviam
sido defendidas ainda na Antiguidade e também na época da Renascença, porém encontrou
no século XVIII o melhor momento de alcance e amplitude.

Abbagnano (2007) descreve que é possível entender o Iluminismo como uma linha
filosófica que defende a razão como crítica e guia a todos os campos da experiência humana.
Kant (1724-1804) defende que o Iluminismo contou com o empirismo como um grande aliado,
ambos garantiram a abertura do domínio da ciência e, em geral, do conhecimento, que por
sua vez favoreceu à crítica da razão, no sentido de que toda verdade poderia e deveria ser
colocada à prova, e eventualmente modificada, corrigida ou abandonada.

Os fundamentos teóricos que favorecem a ancoragem do movimento do Iluminismo


podem ser encontrados na física e sistematizados na obra de I. Newton (1643-1727) ‘Princípios
matemáticos de filosofia natural, publicada em 1687, nas pesquisas de Boyle (1627-1691),
que encaminham a química como ciência positiva; na obra de Buffon (1707-1788) e de outros
naturalistas, que assinalam as ciências biológicas como responsáveis por explicar as etapas
T
fundamentais de desenvolvimento. E
O
R
I
O empirismo foi o ponto de partida e o pressuposto da filosofia defendida como por A

exemplo de Voltaire (1694-1778), Diderot (1713-1784) e D'Alembert (1717- 1783). A Enciclopédia D


A
continha o pensamento contrário aos privilégios que foram reclamados posteriormente na
H
Revolução Francesa, defendia a felicidade ou o bem-estar do gênero humano, alcançados e I
S
desfrutados através de práticas tolerantes e com fé no progresso. Estas noções enfraqueceram T
Ó
a ideia de fatalidade histórica que impedia qualquer iniciativa de transformação da realidade. R
I
Segundo Abbagnano (2007), o princípio da tolerância religiosa não só exigia a convivência A
pacífica das várias tradições religiosas, como também impedia que a religião se tornasse um E
instrumento de governo. H
I
S
Dosse (2003) apresenta em 1880 que a História ganha um estatuto próprio como T
O
disciplina e conhecimento científico, separada da literatura. Fochi (2015) apresenta que quando R
I
os primeiros diplomas em História foram emitidos, imediatamente foram fundadas as primeiras O
G
revistas de caráter erudito e científico. R
A
F
I
A
14 TÓPICO 1 UNIDADE 1

Os historiadores se preocupavam no sentido de promover uma acumulação volumosa


de trabalhos científicos, os temas ganhavam uma abordagem linear e eram enriquecidos pelos
conhecimentos de outras áreas como a antropologia, numismática, paleografia, epigrafia,
diplomacia, entre outras. Rüsen (1997) explica que o Iluminismo deu o primeiro passo na
direção dos procedimentos de crítica das fontes e da formulação de método histórico.

Entre os principais estudiosos pode-se relacionar Spinoza (1632-1677), John Locke


(1632-1704), Isaac Newton (1643-1727), Voltaire (1694-1778) Montesquieu (1689-1755).
Segundo Ruanet (1987) o Iluminismo, oferecia inúmeras possibilidades ao homem de sua
época, porém que com o passar dos tempos acabou por apresentar equívocos e erros:

Ele acenou ao homem com a possibilidade de construir racionalmente o seu


destino, livre da tirania e da superstição. Propôs ideais de paz e tolerância, que
até hoje não se realizaram. Mostrou o caminho para que nos libertássemos
do reino da necessidade, através do desenvolvimento das forças produtivas.
Seu ideal de ciência era o de um saber posto a serviço do homem, e não o
de um saber cego, seguindo uma lógica desvinculada de fins humanos. Sua
moral era livre e visava uma liberdade concreta, valorizando como nenhum
outro período a vida das paixões e pregando uma ordem em que o cidadão não
fosse oprimido pelo Estado, o fiel não fosse oprimido pela religião, e a mulher
não fosse oprimida pelo homem. Sua doutrina dos direitos humanos era abs-
trata, mas por isso mesmo universal, transcendendo os limites do tempo e do
espaço, suscetível de apropriações sempre novas, e gerando continuamente
novos objetivos políticos. (RUANET, 1987, p. 26).

Isaac Newton, físico, matemático, filósofo e teólogo inglês ficou amplamente conhecido
com os três volumes de ‘Princípios matemáticos da filosofia natural’, nos quais constam as
famosas Leis de Newton, que compõem os princípios da mecânica e de todo o pensamento
T moderno. As leis de Newton contêm o princípio de ‘inércia’, em que todo corpo continua em seu
E
O estado (repouso ou movimento) a menos que seja forçado a mudar; o princípio de ‘dinâmica’
R
I em que a mudança é proporcional à força atribuída; e o princípio de ‘ação e reação’ em que
A
para toda ação há sempre uma reação oposta e em igual proporção.
D
A

H Um século anterior ao florescimento do movimento do Iluminismo existia o movimento


I
S intelectual chamado de pensamento cartesiano. René Descartes (1596-1650) foi um dos principais
T
Ó ideólogos e propagadores das ideias iluministas. Escreveu a obra Discurso sobre o método,
R
I (Discurso sobre o método para bem conduzir a razão na busca da verdade dentro da ciência)
A
publicada no ano de 1637, na qual consta a defesa da ideia de que para encontrar a verdade
E
fazia-se necessário empreender os procedimentos científicos tais como: fragmentar, fracionar,
H
I romper em partes, reduzir, dividir: quebrar a integridade dos seres e das coisas; o que sustentaria
S
T basicamente todo sistema e paradigma chamado cartesiano. Este paradigma possuía forte relação
O
R com conhecimentos matemáticos e mecânicos, e buscava essencialmente obter certeza e eliminar
I
O qualquer resquício de dúvida tanto diante dos seres da natureza, fatos e fenômenos sociais.
G
R
A
F
Descartes buscava provar a existência do próprio eu (que duvida: portanto, é sujeito
I
A
de algo); que se expressava na máxima Ego cogito ergo sum, "eu que penso, logo existo".
UNIDADE 1 TÓPICO 1 15

Rejeitava as formas de conhecimento do mundo realizadas através dos sentidos, da intuição,


da subjetividade e dos sentimentos, defendendo a razão e o pensamento como formas mais
coerentes e significativas de conhecer.

Para tanto, como método para realizar esta tarefa, propôs que se faziam necessários
os seguintes procedimentos:

• VERIFICAR: evidências reais e indubitáveis acerca do fenômeno ou coisa estudada.


• ANALISAR: dividir ao máximo as coisas, em suas unidades mais simples e estudar essas
coisas mais simples.
• SINTETIZAR: agrupar novamente as unidades estudadas em um todo verdadeiro.
• ENUMERAR: as conclusões e princípios utilizados, a fim de estabelecer coerência e ordem
do pensamento.

Uma das críticas que foi feita ao método proposto por Descartes é a de que uma
vez divididas e reagrupadas todas as partes de um animal, por exemplo, o custo inerente e
imprescindível seria a vida daquele ser, ou seja, o reagrupamento não seria capaz de reverter o
rompimento e a desintegração da vida que havia ocorrido em meio ao processo de investigação.

Na essência da filosofia de Descartes encontra-se a noção de ceticismo com relação


ao conhecimento histórico. Descartes não identificava na História conhecimentos coerentes
e com potencial de verdade, pois considerava a História (o estudo do passado) uma espécie
de fuga da realidade; que um estudioso, uma vez mergulhado no passado, ficava estranho,
indiferente ao momento presente, à realidade; e de que as narrativas históricas resultavam
do conhecimento indireto do passado, e que eram exageradamente fantasiosas, lendárias e T
E
fabulosas, não dignas de confiança. O
R
I
A

D
A

3.1 O EXEMPLO DE GIAMBATTISTA VICO H


I
S
T
Ó
O homem é uma vontade, R
I
uma força e um conhecimento que tende para o infinito. A

E
Giambattista Vico H
I
S
T
Giambattista Vico (1668-1744), filólogo e historiador italiano, foi um pensador que se O
R
interessou por direito, poesia, história, mitologia e linguagem, as ‘novas ciências humanas’, I
O
como eram chamadas em sua época. Foi responsável pela escrita de ‘Ciência Nova’ publicada G
R
em 1725, que se tornou um clássico no campo da teoria da História, cujo valor e relevância A
somente foi reconhecida postumamente. F
I
A
16 TÓPICO 1 UNIDADE 1

A obra de Vico se encontra em contraponto à duas tradições, tanto a da época medieval


como da época moderna, pois procura desvencilhar-se da tradição que atribuía à história
uma finalidade teológica (época medieval), apresentava-se como um erudito antirracionalista,
assistemático, cujos escritos eram de difícil leitura e interpretação, isto em pleno Iluminismo,
época em que vigorava o modelo cartesiano.

As principais críticas de Vico ao pensamento de seu tempo voltavam-se ao Iluminismo


cartesiano, no ponto em que o homem não poderia conhecer o que não é fruto da própria
criação, que só é possível conhecer com propriedade o que se fez e os seres da natureza não
são obras humanas. Para Vico, a matemática, as artes, a história, os costumes e a cultura são
conhecíveis; já os animais, as florestas, as aves, e demais seres da natureza constituem um
conhecimento não verdadeiro.

No que se refere em específico ao campo da história, Vico fez inúmeras contribuições.


Vico defendia que o processo de realização do homem não se dava de forma linear e que não
se encontrava em marcha constante e que partia do homem natural ao homem civilizado, do
mitológico ao científico; mas que ocorria em uma relação de integração progressiva, cíclica,
espiralada, helicoidal, da emoção à razão, da fantasia ao pensamento racional, conforme
procura expressar a imagem da escada espiral a seguir:

FIGURA 1 - FOTO DE AFONSO MASEDA VARELA. MUSEUS DO VATICANO

T
E
O
R
I
A

D
A

H
I
S
T
Ó
R
I
A

H
I
S
T
O FONTE: Disponível em: <http://www.minube.com.br/fotos/sitio-preferido/3405/7639507>. Acesso
R
I em: 15 jan. 2016.
O
G
R
A
F
I
A
UNIDADE 1 TÓPICO 1 17

Ç ÃO!
ATEN

Caro(a) acadêmico(a)! Você deve se perguntar: – isso nada


mais é que o sentido de evolução que o Iluminismo defendia? –
Vamos com calma. É exatamente a partir deste ponto que se dá a
grande ruptura que Vico apresentava em relação ao pensamento
iluminista e evolucionista de seu tempo. Mas vamos ver com mais
profundidade como Vico discorreu sobre tal teoria.

Para Vico os homens, as nações e as civilizações passam por três fases, nas quais se
destacam três linguagens, três tipos de governo e três jurisprudências.

Observe o quadro síntese a seguir:

QUADRO 2 - A DIVISÃO/EVOLUÇÃO DA HISTÓRIA SEGUNDO VICO

FASE PREDOMÍNIO
Quando predominavam os governos mágicos e divinos,
ou seja, teocráticos, ou repúblicas monásticas, geridas
por autoridades paternas.
Centrada em tradições religiosas surgem os primeiros
FASE/ERA DOS DEUSES códigos morais, os matrimônios solenes, as famílias;
sepultam e cultuam seus mortos.
DA INFÂNCIA, Na civilização grega, pode ser identificada com a época
dos oráculos, das adivinhações entre os gregos. Júpiter
OU DOS SENTIDOS foi o grande deus deste período, que se manifestava
através de raios e trovões.
(‘o imã ama o ferro, o sol é namorado da O pensamento e linguagem são cifrados, esotéricos, T
E
lua’) figurativos, em versos, com acesso apenas à poetas O
teólogos, que decifravam as mensagens e os mistérios R
das coisas (coisas com alma, deuses). I
A
Coisas inanimadas ganham vida e paixão; a fantasia
e a fábula dão sentido ao mundo. D
A
Pode ser ilustrada com as experiências da Grécia
narrada por Homero em Ilíada e Odisseia (Ulisses, H
I
Aquiles e Teseu) e a Roma dos reis (Rômulo). S
Os heróis, homens fortes, semideuses, passam a T
Ó
ganhar importância diante dos desígnios dos deuses. R
FASE/ERA DOS HERÓIS Surgem as primeiras instituições políticas, os governos I
são aristocráticos, ocorre a construção das primeiras A
cidades. E
(‘tanto mais robusta a fantasia, tanto mais A estrutura social era mantida pela autoridade, sem
débil o raciocínio’) negociação e/ou discussão, pois a vontade de Deus H
I
deveria ser atendida. S
Diferenciam-se os grupos sociais dos patrícios e T
plebeus, que passam a se relacionar de forma hostil O
R
e conflituosa. I
O pensamento e a linguagem são ao mesmo tempo O
poéticos, heroicos, herméticos e religiosos. G
R
A
F
I
A
18 TÓPICO 1 UNIDADE 1

Corresponde à Grécia Clássica, à Roma Republicana


e ao mundo moderno. Processo longo e trabalhoso.
Predomínio do governo dos homens, repúblicas
populares, porém de fortes conflitos e tensões entre os
grupos sociais, que almejavam por igualdade.
As distinções sociais são demarcadas pela capacidade
FASE/ERA DOS HOMENS de trabalho.
Criam-se as condições favoráveis ao desenvolvimento
LEIS RACIONAIS E UNIVERSAIS da filosofia, centrada nas questões de verdade e justiça.
O reconhecimento dos direitos dos cidadãos fomenta
a elaboração dos códigos civis, a polis grega e o fórum
romano são os espaços primordiais destas realizações.
As leis como a do dever, da consciência e da razão
ganham espaço e se tornam universais
O pensamento e a linguagem são populares, benignas,
modestas, moderadas e de acesso a todos. Ocorre o
declínio da fantasia e da imaginação.
FONTE: Os autores

Vico compreendia que quando uma nação chega ao seu momento de maior expressão
na fase/era racional, concreta, lógico-demonstrativa, ocorre uma espécie de retorno ao estágio
mitológico, da fantasia, da magia e da lenda; segundo ele as fases/eras vão e vem, retornam,
recorrem, recomeçam. Veja como procura explicar Reis (2001, p. 12).

Ela avança para a racionalidade, recusando a irrazão (corsi) e, depois, retorna


à irracionalidade (ricorsi), para novamente avançar, em um nível acima, em
uma razão equilibrada, que integra a razão em si a irrazão (corsi), para recair
no irracionalismo.

Vico não pode ser taxado como um relativista, de que compreendia cada época como
T
E fase/era de forma particular e que possuía importância e relevância indiferente uma da outra,
O
R
pois aponta costumes e leis que foram elaborados ainda em momentos primitivos, e que
I
A
significam melhoramentos e desenvolvimentos como verdades universais e que ocorreram

D
em todas as civilizações, tais como o sepultamento dos mortos, o casamento ritualístico e as
A tradições religiosas.
H
I
S Outra preocupação de Vico em Ciência Nova foi o de demostrar que o direito natural
T
Ó nasceu em todos os povos, mesmo que estes tivessem contato entre si, ou seja, pode-se
R
I deduzir que para Vico, as atividades humanas possuem um fundo comum e que é recorrente
A
a todo gênero humano, o que depois mais tarde foi estudado e aprofundado por Carl Jung
E
(1875-1961) e compreendido como ‘inconsciente coletivo’.
H
I
S
T Vico defendia que a maior criação do homem é a sua própria história, que esta não
O
R significa somente uma necessidade política ou econômica, mas o registro da necessidade que
I
O o próprio homem tem de se expressar. Com isto Vico pretendia colocar a História em grau
G
R de hierarquia maior do que as ciências naturais. Para Vico o conhecimento histórico deveria
A
F ser compreensivo, e promover ao ser humano, em sua diversidade, uma autoconsciência de
I
A sua própria vida. Estes argumentos foram utilizados posteriormente para justificar a ciência
UNIDADE 1 TÓPICO 1 19

enquanto disciplina do conhecimento.

Burke (1997) considera Vico ‘o homem do futuro que nasceu no passado’, pois
anunciava reflexões que seriam contempladas posteriormente pelo historicismo, existencialismo,
estruturalismo e na fenomenologia.

UNI

CARO ESTUDANTE!
Inspiraram-se nos estudos de Vico estudiosos de diversas épocas.
No século XIX, Goethe, Herder, Dilthey, Ranke, Victor Cousin,
Michelet e Marx; no século XX Collingwood, Croce, Meinecke,
Levi-Strauss, Piaget e os integrantes dos Annales, que serão
abordados na continuidade deste Caderno de Estudos.

4 O IDEALISMO ALEMÃO: AS PERSPECTIVAS DE KANT E


HEGEL SOBRE A HISTÓRIA

4.1 O EXEMPLO DE KANT


T
E
O
R
Concordia discors. I
A
Kant
D
A
Immanuel Kant (1724-1804) tem sua produção intelectual e filosófica denominada de H
I
filosofia crítica, idealismo transcendental, que tinha como finalidade estabelecer um método S
T
cognitivo e uma doutrina da experiência pelo uso da razão que suplantasse a metafísica Ó
R
racionalista dos séculos XVII e XVIII, que ele chamava de sono dogmático. I
A

Kant foi leitor de Isaac Newton (1643-1727), John Locke (1632-1704), Gottfried Wilhelm E

Leibniz (1646-1716) e David Hume (1711-1776). A principal questão de Kant foi: com que direito e H
I
entre quais limites a razão pode formular juízos sintéticos a priori sobre dados do sentido? Pergunta S
T
que procurou responder na obra ‘Crítica da razão pura’, escrita entre os anos de 1781 e 1787. O
R
I
O
As contribuições de Kant à História estão no sentido de favorecerem a compreensão da G
R
ideia de progresso da humanidade na sua dimensão cultural. Para Kant os homens possuem A
F
planos e objetivos diversos, que almejam por desenvolvimento, e que se movem numa dinâmica I
A
20 TÓPICO 1 UNIDADE 1

do pior ao melhor, e que deve ser percebida e buscada ao longo de toda a experiência humana
e não localizada em experiências individuais.

Segundo Kant, o fator responsável por colocar em movimento tal dinâmica residia
nos desejos antagônicos do homem em sociedade, o que favorecia o desenvolvimento e a
manifestação dos talentos individuais, bem como promovia a diferenciação e o acúmulo de cultura.

Bodei (2001, p. 46) afirma que no entendimento de Kant:

é com a busca do ganho e com a avareza que nasce o comércio e, por conse-
guinte, a benéfica troca entre os homens; é pela vaidade de serem recordados,
de deixar o próprio nome, que as pessoas realizam atos de beneficência e
fazem erguer hospitais ou asilos; é pela inquietação e pela violência de homens
sempre prontos a combaterem-se, que as civilizações entram em contato.

Neste raciocínio, tanto leis, instituições e estruturas coletivas eram o resultado


materializado do operar de bilhões de homens, mesmo vivendo em tempos e lugares diferentes.

Segundo Kant (2001), a História avançava por que existe uma espécie de competição
benéfica entre indivíduos e estes para se realizarem como pretendem são dependentes uns
dos outros. Para Kant (2001) a civilização é o resultado do ondular de homens comedidos na
discórdia pela concórdia e por serem concordes na discórdia.

Para explicar este processo, Kant faz analogia entre o homem e uma planta, ao ponto
que se não tivéssemos outros indivíduos que concorrem pelos mesmos bens que nós e se
fizéssemos somente o que mais nos agrada, seríamos como uma árvore, que se expande
T
E de forma horizontal e tranquila. Mas como somos ameaçados pelos próprios semelhantes e
O
R podemos perder para estes os bens que possuímos e almejamos, nos expandimos para o alto
I
A
e de forma vertical; competimos, nos qualificamos para obter e conservar tais bens.

D
A

UNI
H
I
S
T
Ó
R Caro(a) acadêmico(a)! Percebe-se aqui a prefiguração da dialética
I que foi discutida e aprofundada posteriormente por Hegel e Marx.
A

H
I Nos estudos de Kant percebe-se o forte afastamento da noção de que a providência
S
T divina representava um fator determinante da História, a ampla defesa da ideia de racionalidade
O
R e de télos (fim/alvo) e de progresso, que se há passos contínuos, conduziriam a humanidade
I
O à emancipação plena. A história, guiada pela razão, seria a fonte maior a partir da qual se
G
R alcançaria a liberdade e a perfeição humana. Estas intenções contagiariam a humanidade e se
A
F realizariam em escala universal. A ideia de uma história universal se realizaria na conjugação
I
A das forças do homem de posse e uso da razão apoiado nas disposições da natureza.
UNIDADE 1 TÓPICO 1 21

4.1.1 A ideia de história cosmopolita

Para Kant o fim supremo da natureza seria um ordenamento cosmopolita, em uma


federação dos povos na qual cada Estado seria tutelado por uma organização maior. Dosse
(2003) descreve que quando Kant trata de uma História cosmopolita, refere-se a um sistema de
ordenamento semelhante aos dos corpos celestes. Para assegurar uma sociedade reguladora,
o homem encontraria no direito formas de conter as alterações e distorções do uso da liberdade.

Raulet (apud Dosse, 2003) apresenta que Kant é contrário à ideia cosmopolita que
negligencia o que é oriundo das peculiaridades antropológicas dos povos e das culturas, ou dos
impactos da absorção de um Estado por outro e contra toda fusão orgânica dos Estados-nações
que, enquanto realidade jurídicas e territoriais, possuem e impõem uma identidade própria.

Dosse (2003) apresenta que a concepção de história de Kant é teleológica, que atribui
à espécie humana a primordialidade diante dos outros seres da natureza, pois estes são
dotados de liberdade e razão. O ser humano em Kant seria o cidadão responsável e principal
protagonista da História. Bodei (2001) descreve que, para Kant, a Historiografia constitui um
conhecimento que fornece elementos à decifração de nós mesmos, e em especial que dá
significado e inteireza à nós mesmos.

T
4.2 O PENSMENTO HEGELIANO: ESPÍRITO E RAZÃO NA HISTÓRIA E
O
R
I
A
Georg W. Friedrich Hegel (1770-1831) foi influenciado pelas obras de Heráclito (353
D
a.C-475 a.C), Espinoza (1632-1677), Kant (1724-1804) e Rousseau (1712-1778), assim como A
pela Revolução Francesa e Napoleão Bonaparte. Dedicou-se aos estudos do Idealismo Absoluto, H
procurou investigar a relação entre mente e natureza, sujeito e objeto do conhecimento, para I
S
tanto, empreendeu estudos em história, arte, religião e filosofia. T
Ó
R
I
Com a obra “Fenomenologia do espírito” pretendeu mostrar que a ideia não é seguir A

o acumular do desenvolvimento histórico da humanidade na dimensão do tempo, mas de E

colher os momentos estratégicos, de vicissitudes e ideais que são responsáveis por conferir H
I
desenvolvimento ao espírito. Para Hegel o desenvolvimento da realidade passa por três S
T
momentos fundamentais: o da ideia, o da natureza e o do espírito. O
R
I
O
O espírito é o absoluto, o complemento de todas as coisas, o ponto extremo de síntese G
R
para a qual tende toda filosofia, ciência, religião e cultura. O espírito não é transcendente em A
F
relação ao mundo, mas constitui seu complemento interno e sua essência que é a liberdade. I
A
22 TÓPICO 1 UNIDADE 1

Para Hegel o espírito subjetivo e o espírito objetivo são a via pela qual se vai elaborando o
espírito absoluto, cujas formas são a arte, religião e filosofia.

Hegel apresenta também a unidade dos opostos, como princípio fundador de uma nova
lógica, no sentido de que esta é imanente, de modo que aquilo que é real deve ser caracterizado
pela unidade dos opostos. Nesse momento, Hegel se aproxima do que defendia anteriormente
Vico quando apresentava as fases/eras humanas como um tecer espiralado. Para Hegel o
espírito absoluto e o fio formam a espiral, e que cada anel do espiral é uma determinação do
espírito absoluto, que segue, avançando de um anel a outro, configurando assim uma espécie
de progresso, e destes ao todo.

Bodei (2001) apresenta que para Hegel a História deveria ser olhada na perspectiva de
buscar a razão, a finalidade, o objetivo “eu” se encontrava por traz das ações humanas, pois
defendia que a História não se explicava pelas intenções conscientes dos homens, mas sim
pelas suas paixões e pelos interesses individuais.

Para Hegel as paixões são o verdadeiro motor da História, elas realizam a si mesmas e
os seus fins segundo as suas finalidades naturais e fazem surgir o edifício da sociedade humana.
Hegel não foi tão idealista em defender que somente a consciência/razão é a condutora da História.
Segundo Hegel, o ordenamento do mundo é constituído pelo ‘ingrediente’, o das paixões e o
outro pelo ‘momento racional’, mas para Hegel o elemento ativo é dado pelas paixões.

Para Hegel o ‘Espírito’ é nós mesmos, ou os indivíduos, ou os povos; e ‘Razão’ é o


sentido.
T Para Hegel o homem se apresenta como um animal que não tem uma natureza
E
O determinada, mas que se forma incessantemente. Seguindo este raciocínio, a História do
R
I passado não é capaz de ensinar alguma coisa de útil ao momento presente; o que coloca
A
Hegel distante da doutrina historia magistra vitae que foi proposta desde os historiadores da
D
A época antiga como Heródoto, Tucídides e Cícero.
H
I
S A história apresenta uma racionalidade própria, mas não deve apresentar uma tendência
T
Ó na direção de um telos (fim, alvo) específico. Para Hegel os ‘meios’ são mais importantes que
R
I os ‘fins’; ou seja, o navio, o automóvel e o trem são mais importantes do que alcançar e chegar
A
do outro lado do oceano, na cidade, e qualquer destino traçado. Uma vez que se conta com tais
E
recursos, pode-se trilhar novos caminhos, percorrer outras distâncias, chegar a diferentes lugares.
H
I
S
T Bodei (2001) aborda que os instrumentos inventados pelo homem (conceitos, ideias,
O
R máquinas, tecnologias) e que são transmitidos de geração a geração são indispensáveis e
I
O primordiais. Segundo ele, nós usamos as nossas energias, nossas paixões, para dominar
G
R outras energias, na direção dos objetivos por nós mesmos almejados. O homem se apropria
A
F dos meios e os submete à sua finalidade, que são diferentes em cada homem e fornecem
I
A diferenciação e contraste diante dos demais homens.
UNIDADE 1 TÓPICO 1 23

A grande tese de Hegel reside na defesa de que o finalismo ad usum hominis (para uso
humano) não existe na natureza e, que quando existe na história, não é por virtude da divina
providência, mas unicamente pelos feitos das ações humanas. E o fato de propor a relação de
prioridade dos meios diante dos fins distanciava-se do pensamento que havia sido proposto
desde Maquiavel (1469-1527), Voltaire (1694-1778) até Herder (1744-1803).

Para Hegel a racionalidade está por trás de tudo no mundo e a filosofia tem o poder de
compreender a racionalidade da história. O pensamento capta a racionalidade da história. Mas
Hegel substitui a história linear do progresso por uma filosofia da contradição, da dialética. O
percurso dialético que resulta disso pressupõe uma visão unitária e uma síntese do espírito
por meio de suas múltiplas concretizações.

No pensamento de Hegel, o espírito do mundo está na preparação de um desenvolvimento


cuja efetividade escapa aos atores, conforme Dosse (2003, p. 236) procura explicar que “todo
momento histórico é atravessado por uma contradição interna que lhe dá seu caráter singular,
ao mesmo tempo que o prepara para ultrapassar para um novo momento”. Pode-se pensar
que se trata de um momento ideal e revolucionário que fornece as condições de superação
das condições anteriores.

Hegel nos adverte que cada ator acredita realizar unicamente as suas paixões, quando
que na verdade, só está cumprindo um destino que está inserido em um vasto contexto. Por
conseguinte, os indivíduos não conseguem evitar que aconteça o que deve, tende a acontecer;
seja o mal, seja uma guerra, pois impera a razão que é almejada e desejada por um todo, pelo
conjunto, por uma nação, um Estado.
T
E
Nesse raciocínio, o autor explana a ideia de Hegel (1995) de particularidade nos termos O
R
de que o Espírito particular de um povo pode declinar, desaparecer, mas ele forma e registra uma I
A
etapa na marcha geral do Espírito do Mundo e isso não pode desaparecer. Em Hegel (1995),
D
a partir da ideia de que cada ator acredita realizar suas paixões quando, na verdade, ele só A

cumpre, apesar dele, um destino mais vasto que o engloba, procura explicar que os indivíduos H
I
desaparecem diante da substância do conjunto e este conjunto forma os indivíduos dos quais S
T
ele necessita. Os indivíduos não conseguem impedir que aconteça o que deve acontecer. Ó
R
I
A
Veja o teor de importância que Hegel (1995, p. 31) atribui à razão no curso da história:
E

O único pensamento que consigo traz a filosofia é o simples pensamento da H


I
razão, de que governa o mundo, de que, portanto, também a história universal S
transcorreu de modo racional. Esta convicção e discernimento é um pressuposto T
relativamente à história como tal. Na filosofia, porém, isto não é pressuposto O
R
algum; demostra-se nela, mediante o conhecimento especulativo, que a razão I
[...], a substância, como poder infinito, é para si mesma a matéria infinita de toda O
a vida natural e espiritual e, como forma infinita, a atuação deste seu conteúdo. G
R
A
F
Dosse (2003) discute que o horizonte de percepção de Hegel sobre a realização do I
A
24 TÓPICO 1 UNIDADE 1

Espírito não foi o de uma história linear do progresso, mas que se dava pelos caminhos da
contradição. Para Hegel todo momento histórico é atravessado por uma ‘contradição interna’
que lhe fornece as condições para ultrapassar e adentrar em um novo momento, o que ele
denominou como ‘motor da história’.

ÇÃO!
ATEN

A noção de Espírito explicada por Hegel no século XVIII pode ser


verificada no século XX por meio da ideologia nazista, que surgiu
após a Primeira Guerra Mundial. Acabou por fazer com que os
indivíduos, cidadãos alemães, fossem unânimes em apoiar as
razões do governo de Hitler em submeter a população judaica
ao holocausto.

LEITURA COMPLEMENTAR

O olhar de Hegel sobre a história e seus heróis


Agemir Bavaresco

Entrevista concedida à Márcia Junges e Ricardo Machado, do Instituto Humanistas da


Unissinos On Line (IHU On Line).

IHU On-Line - Quem eram os heróis na História segundo Hegel?


T
E
O Agemir Bavaresco - A figura do herói aparece ao longo de toda a trajetória intelectual de
R
I Hegel. Ele apresenta muitas figuras de heróis que atravessam a história, desde a antiga
A
Grécia (heróis na cultura) até a modernidade (heróis na moral e na política). Para compreender
D
A quem são os heróis, é preciso levar em conta a teoria da ação que justifica o agir do herói
H na história. Na Fenomenologia do Espírito (Petrópolis: Editora Vozes, 1992), Hegel usa, ao
I
S menos 12 vezes, explicitamente, a palavra herói vinculada às figuras da consciência, agindo
T
Ó na cultura e na política. Aqui, nós encontramos uma das chaves da teoria da ação, pois se
R
I
trata de um silogismo formado pelo fim, meio e objeto, expressando-se como interesse, meio
A
e circunstâncias. Ele descreve a consciência ativa, por exemplo, na figura do herói moderno,
E que se especializa em atividades como comércio, artesanato etc., constituindo a esfera da
H
I
sociedade civil em formação. Os indivíduos como heróis modernos tendem a se fixar em sua
S tarefa privada, trabalhando de forma isolada. Porém, o conceito de individualidade contém a
T
O reflexividade relacional, tornando a ação universal. Ou seja, o indivíduo descobre o público
R
I no seu agir privado, isto é, ele, pouco a pouco, universaliza-se na ação pública. O sujeito
O
G burguês é reconhecido como singular na esfera da sociedade e na intimidade familiar e, ao
R
A mesmo tempo, é reconhecido como universal na esfera pública. Este duplo reconhecimento
F
I é a identidade entre o Eu e o Nós que é realizado no sujeito burguês. Então, os heróis, para
A
UNIDADE 1 TÓPICO 1 25

Hegel, são aquelas figuras históricas, tanto individuais como coletivas, que são capazes de
articular a dimensão privada com a pública, ou seja, a ação que realiza os interesses privados
conduz a ampliar a participação nos interesses sociais e públicos.

IHU On-Line - Qual é a fundamentação filosófica e quais as influências da ideia de herói nesse autor?

Agemir Bavaresco - Na Filosofia do Direito, Hegel usa sete vezes, explicitamente, o termo herói,
que está vinculado à figura dos grandes homens ou indivíduos. O herói e o grande homem, em
sentido amplo, têm sua fundamentação no agir inserido em mediações históricas constituídas
pelas estruturas da liberdade, ou seja, a pessoa de direito, o sujeito moral e o cidadão membro da
sociedade civil e do Estado. Os direitos do indivíduo são afirmados no interior de uma comunidade
ética em que a liberdade pessoal e pública é garantida num sentido político-pedagógico: “Faze-o
cidadão de um Estado no qual as leis são boas”, afirma Hegel em Princípios da Filosofia do Direito
(HEGEL, G. W. F. Filosofia do Direito. Trad. Paulo Meneses e outros. São Paulo: UNISINOS/
UNICAP/LOYOLA, 2010). Esta é a resposta de um pitagórico a um pai que lhe pergunta qual é
a melhor maneira de educar seu filho. Esta resposta mostra que o indivíduo é mediatizado pelo
Estado, num processo pedagógico em que ele se torna um cidadão.
Para que ocorra uma mudança essencial na história não é suficiente apenas a boa vontade
ou as boas ideias, mas a ação. “O que o sujeito é, é a série de suas ações”, afirma Hegel na
Filosofia do Direito. A essência do homem não está apenas no seu interior, mas se exterioriza. A
história não é um processo anônimo que sucede sem os indivíduos acima deles ou reduzindo-
os a meros instrumentos da astúcia da razão. O processo da história existe apenas através
da mediação das ações dos indivíduos. São esses os fundadores do Estado, isto é, os heróis
que fundam os Estados na história. Ora, são os indivíduos ou os heróis que podem instituir,
mediante seu agir, um Estado ou mudar a Constituição de um Estado em direção à liberdade. T
E
Por isso, Hegel coloca a fundamentação da ideia de herói na ação, tanto no começo do Estado O
R
como nas permanentes mediações dos grandes homens individuais ou coletivos em nível do I
A
direito, da moralidade e da eticidade.
D
A

IHU On-Line - Como pode ser compreendida a ideia de herói em Hegel a partir do H
I
autodesenvolvimento do Espírito e a situação histórica? S
T
Ó
R
Agemir Bavaresco - Cabe afirmar, inicialmente, que, para Hegel, o critério determinante para I
A
avaliar o progresso ou a evolução da história é o grau de consciência da liberdade que os povos
E
alcançam em seu desenvolvimento. Trata-se de uma concepção teleológica da história que
H
encontramos também em Kant, isto é, há um fio condutor nas ações humanas que conduz a I
S
um progresso contínuo da humanidade a fim de realizar suas disposições naturais racionais, T
O
como se a espécie seguisse um propósito da natureza. R
I
O
G
Para Hegel, esse propósito da natureza implica a ideia da astúcia da razão, pois é a razão que R
A
governa a história. Os indivíduos realizam seus interesses movidos por paixões particulares, F
I
porém, eles são aliados do universal, pois o resultado da atividade particular efetiva o universal. A
26 TÓPICO 1 UNIDADE 1

Ou seja, na ação de um indivíduo, o interesse particular e universal é inseparável do histórico


universal. O indivíduo que se expõe aos perigos gerados por sua ação e se desgasta nos
conflitos de oposição, enquanto agente privado, nele, a astúcia da razão está realizando a ideia
universal de liberdade. Então, a astúcia da razão permite que as paixões individuais atuem por
si mesmas, experimentando perdas e danos, avanços e recuos; porém, nessa luta e nessas
perdas, tem-se como resultado algo positivo, isto é, a razão afirmativa. Este é o fenômeno
da progressiva consciência da liberdade e que justifica as ações dos grandes homens não só
de imediato, mas em toda a história da humanidade. Por isso, o progresso na consciência da
liberdade torna-se o critério e o tribunal da história para avaliar quem é, ou não é, um “grande
homem”. Pois um herói permite o progresso na consciência da liberdade, enquanto o anti-
herói permite a recaída na barbárie. Então, o herói é aquele que, em seu tempo, participa do
desenvolvimento do Espírito, ou seja, da consciência histórica como realização da liberdade.

IHU On-Line - De que forma pode-se compreender o Espírito do mundo como a moral do herói,
e a situação privada como a moral da vítima?

Agemir Bavaresco - A famosa frase “ninguém é herói para seu criado-de-quarto”, que, segundo
os intérpretes, é atribuída a Napoleão, mostra o homem privado na sua singularidade da
necessidade imediata – representada pelo criado-de-quarto — ainda amarrado ao domínio privado
da subjetividade familiar ou da sociedade civil, enquanto domínio da troca de mercadorias e do
trabalho. No domínio da família e da sociedade civil, o indivíduo permanece preso pelo imediato
do homem privado e de suas necessidades – o comer, o beber, o vestir. Enquanto o herói, que
já representa a esfera pública ou o lado universal do sujeito burguês, é o sujeito que se opõe
à singularidade da individualidade e, pela ação pública, afirma sua universalidade. O herói é
T a encarnação reconciliada da ação privada e pública. O agir moral da sociedade burguesa do
E
O século XVIII vive esta contradição: o domínio privado do criado-de-quarto ou o espaço público da
R
I sociedade civil emergente. Hegel encontra a reconciliação no herói, que se pode, aqui, interpretar
A
como sendo o sujeito burguês e, ao mesmo tempo, o cidadão, enquanto ele é membro do
D
A Estado. O “burguês-cidadão” age ao mesmo tempo como criado-de-quarto no domínio privado
H da intimidade de sua família ou da sociedade civil e como cidadão na esfera pública cultural e
I
S política. O sujeito burguês sabe que ele realiza, através de sua ação moral, a reconciliação de sua
T
Ó essência universal e de sua essência singular. Por isso, o agir moral do herói moderno efetiva a
R
I reconciliação da ação privada e pública para além de dualismos excludentes que não encontram
A
justificação lógica nem sustentação filosófica no pensamento hegeliano.
E

H
I IHU On-Line - Quais são as implicações de que o herói hegeliano é completamente orientado
S
T pelo Espírito do mundo e o Espírito do mundo o utiliza para seus próprios fins?
O
R
I
O Agemir Bavaresco - No Prefácio da Fenomenologia do Espírito (Petrópolis: Editora Vozes, 1992),
G
R Hegel entende o conceito de Espírito como a consciência capaz de expressar a verdade não
A
F apenas como uma substância estática, mas como sujeito, isto é, como movimento dialético em
I
A permanente mediação na história. Assim, o Espírito do mundo se exterioriza na objetividade das
UNIDADE 1 TÓPICO 1 27

culturas, da arte, da religião e da filosofia dos povos, na objetividade das ações dos indivíduos.
O Espírito do mundo ocupa-se dos Estados, dos povos e dos indivíduos, enquanto estes
desenvolvem seu princípio particular em suas constituições políticas, conscientes e imersos
em seus interesses; ao mesmo tempo, são meios e figuras que passam para um grau superior
da humanidade. A história do espírito é um apreender de sua exteriorização e passagem, isto
é, um apreender de novo esse apreender, indo dentro de si a partir da exteriorização. Nesse
processo de aprendizagem, o herói é capaz de apreender a contradição do fim sempre aberto
no finito, ou seja, reinventando novos conteúdos para a liberdade ao infinito.
A filosofia da história positivista afirma que há uma linearidade na evolução da humanidade em
três estágios: o teológico, o metafísico e o positivo. Essa evolução está vinculada à figura do
herói, do grande homem que conduz a sociedade e a própria história de um modo absoluto. Não
é assim que Hegel pensa a história, pois, para ele, há o princípio da liberdade que funciona como
critério evolutivo da humanidade, ou seja, os povos que concebem a liberdade em grau mais
elevado é que evoluem na história. O herói ou o grande homem estão inseridos dentro deste
princípio da liberdade, agindo para implementar o espírito de seu tempo e o Espírito do mundo.

IHU On-Line - Que implicações éticas surgem da compreensão de que o herói histórico, através
de sua percepção e energia, é o sujeito da história e que o indivíduo humano sem tal percepção
e energia é o objeto da história, sua vítima?

Agemir Bavaresco - Hegel usou, inicialmente, a figura do herói para designar o fundador do
Estado. Nesse caso, o herói aparece apenas na fundação dos Estados, isto é, antes do início
da história? A rigor, o herói tem a função de fundar o Estado, depois, uma vez que continua a
marcha da história, cabe, daí em diante, aos grandes homens levar o estandarte do Espírito para
desenvolver os princípios éticos dos povos. O grande homem é, portanto, aquele que explicita o T
E
que seu tempo quer e realiza-o. Ele é grande, porque ele realiza o que é, objetivamente, segundo O
R
o conceito racional da liberdade. O grande homem torna efetivos os princípios substanciais e I
A
desenvolve as exigências do espírito do tempo. Hegel afirma, no parágrafo 348 da Filosofia
D
do Direito, que “no ápice de todas as ações, portanto também das ações histórico-mundiais, A

situam-se indivíduos, enquanto subjetividades que efetivam o substancial”. H


I
Basta olhar a história mundial para constatar que ela tem sido sempre atravessada por mudanças S
T
mais ou menos profundas. Hegel é muito atento às transformações que têm permitido a Ó
R
fundação dos Estados nos diferentes momentos de sua evolução. Ele exprime isso pelo direito I
A
do herói a fundar ou a transformar os Estados. Hegel reserva esse direito a um momento
E
histórico, em que não se alcançou ainda a maturidade do conceito. Mas isso é apenas uma
H
das possibilidades, pois, se o conceito tende à reforma, ele não é, necessariamente, submetido I
S
a ela. Aqui, intervém de novo o conceito de insurgência, ou melhor ainda, o direito do herói a T
O
transformar uma situação dada. As causas que podem levar a uma insurreição são múltiplas, R
I
como a reificação de uma sociedade ou a passividade de seus cidadãos que torna necessária O
G
a transformação social. O conceito de seu lado pode encontrar-se no máximo de sua paciência. R
A
É neste cenário que se justifica a intervenção dos heróis. O direito dos heróis torna-se, então, F
I
essencialmente um direito de revolta. Ele é um recurso constante dos indivíduos, dos grupos A
28 TÓPICO 1 UNIDADE 1

sociais, que se revoltam contra uma situação de injustiça insuportável e buscam por lá fazer
valer seus direitos. O conceito tem o direito de impacientar-se. Reforma sim, se for possível.
Direito dos heróis ou insurgência se isso for necessário.
O grande homem é capaz de descobrir a parte de verdade que contém a opinião pública.
Hegel, na Filosofia do Direito, quando aborda a questão da opinião pública, afirma, no adendo
ao parágrafo 319, que o grande homem de sua época é aquele que expressa o que quer seu
tempo e realiza-o. Aquele que não é capaz de desprezar a opinião pública, tal qual se ouve
aqui e acolá, não realizará jamais nada de grande. Ele afirma que, em política, é preciso não
se deixar, imediatamente, influenciar pela opinião pública, caso contrário não se criaria nada de
verdadeiramente grande, permanecendo cativo de prejuízos ou de proposições gerais, o que não
atende à condição formal do racional. A opinião pública imediata caracteriza-se pela impaciência,
pois quer a realização do próprio direito. A este nível do direito abstrato, cabe lembrar que a
impaciência da opinião busca realizar seu direito privado e defender seus interesses particulares.
Porém, em nível da liberdade pública, a impaciência do opinar torna-se também portadora dos
interesses universais. A opinião não suporta a lentidão da paciência do conceito e o longo processo
de efetivação de suas determinações históricas. Isso porque a opinião tem um papel importante
no cenário sociopolítico, pois ela contém em si a força da contradição e a reserva da indignação
moral e ética, que faz mudar toda situação que não corresponde à ideia de liberdade. Então, as
implicações éticas do herói e de todo o indivíduo humano precisam ser compreendidas que, em
todas as ações, quer sejam em nível privado ou público, quer sejam as ações histórico-mundiais,
situam-se indivíduos, enquanto subjetividades que efetivam o substancial, isto é, a mediação da
opinião pública em suas diversas esferas culturais e políticas.

IHU On-Line - Por que Hegel tinha Napoleão em mente quando falava sobre o “grande homem”?
T
E
O Agemir Bavaresco - Hegel elaborou dois conceitos para compreender os movimentos da história:
R
I Zeitgeist (espírito do tempo) e Volksgeist (espírito do povo). Ele pensa o seu tempo conforme a
A
estrutura lógico-conceitual, cuja expressão resulta na auto-organização e na autodiferenciação
D
A da realidade histórico-cultural de seu contexto histórico. Hegel valoriza a história, o espírito
H do povo e o espírito do tempo. Aquilo que corresponde ao espírito do povo pode não coincidir
I
S com o espírito do tempo e vice-versa, pois, em determinados períodos históricos, sobretudo
T
Ó em épocas de crise, em que ocorrem as grandes transformações, as acelerações da história, a
R
I adequação ao espírito do tempo precede e faz avançar o espírito do povo. Ou seja, na filosofia
A
da história hegeliana, o espírito do povo representa o princípio da continuidade, e o espírito
E
do tempo encarna o princípio da mudança. A razão hegeliana não se sobrepõe à história, mas
H
I também não se limita a justificá-la, daí a dialética entre o espírito do povo e o espírito do tempo.
S
T Segundo Hegel, essa dialética foi realizada pelo grande homem Napoleão, porque foi capaz
O
R de reconciliar tanto o espírito do tempo como o espírito do povo.
I
O
G FONTE: Texto adaptado da entrevista ‘O olhar de Hegel sobre a história e seus heróis’ proferida
R
A
por Agemir Bavaresco ao Instituto Humanistas da Unisinos On Line nº 430, Ano XIII, de
F 21.10.2013. Disponível em: <http://www.ihuonline.unisinos.br/index.php?option=com_content
I &view=article&id=5234&secao=430>. Acesso em: 30 jan. 2016.
A
UNIDADE 1 TÓPICO 1 29

RESUMO DO TÓPICO 1

Nesse tópico, você viu que:

• Historiografia consiste no estudo de como se deu o processo de redação da História, de que


forma os historiadores pesquisam, organizam e narram o conhecimento, os métodos que
utilizam para alcançar e apresentar os resultados, as categorias de análise e interpretação,
o repertório conceitual, o sentido e o valor moral/ético que foi atribuído aos fatos e ações
humanas no tempo.

• O Iluminismo versava contra as narrativas mitológicas, o pensamento dogmático, as crenças


teológicas da Idade Média e advogava a favor do pensamento racional, do progresso, da
autonomia dos indivíduos e liberdade de pensamento.

• Os critérios investigativos do método cartesiano consistem nas operações de ‘verificar’


as evidências reais e indubitáveis acerca do fenômeno ou coisa estudada; ‘analisar’ que
significava dividir ao máximo as coisas, em suas unidades mais simples e estudar essas
coisas mais simples; ‘sintetizar’: agrupar novamente as unidades estudadas em um todo
verdadeiro; ‘enumerar’: as conclusões e princípios utilizados, a fim de estabelecer coerência
e ordem do pensamento.
T
E
• O Pensamento de Vico defendia que o desenvolvimento humano não se dava de forma O
R
linear e que não se encontrava em marcha constante, mas que ocorria em uma relação de I
A
integração progressiva, cíclica, espiralada, helicoidal, da emoção à razão, da fantasia ao
D
pensamento racional, da fase dos deuses, fase dos heróis e a fase dos homens. A

H
I
• Kant contribuiu ao pensamento histórico no sentido de que refletia que o ser humano almeja S
T
se desenvolver, se aprimorar, e que isto se dá em meio a contradições, competições e Ó
R
antagonismos de um com os outros, dinâmica que fornece o cenário necessário de realização I
A
a todos os indivíduos.
E

H
• Hegel defendeu que as paixões constituem o motor primordial da história; que existe uma I
S
razão/sentido por trás das ações humanas e que o pensamento humano é capaz de captar T
a racionalidade na história; substitui a história linear e progressista pela noção da relação O
R
de contradição e dialética que compõem a natureza de todas as coisas. I
O
G
R
A
F
I
A
30 TÓPICO 1 UNIDADE 1


IDADE
ATIV
AUTO

1 René Descartes (1596-1650) foi responsável pela difusão do método cartesiano que
nortearia a prática científica moderna. Entre suas teses está a de Ego cogito ergo
sum: “eu que penso, logo existo”, que outras teses também são referentes às teorias
de Descartes?

Analise as sentenças a seguir atribuindo V para as verdadeiras e F para as falsas:

( ) Entre os princípios de investigação encontrava-se o pressuposto da dúvida que em


contrapartida exigia que se provasse, por procedimentos e métodos, a existência
de algo.
( ) No interior do processo de investigação do funcionamento ou da composição de
um ser ou objeto o autor defendeu que fazia necessário dividir, isolar, reduzir e
reunir/recombinar novamente o que estivesse sendo estudado.
( ) Em meio aos exercícios de investigação deviam ocorrer as operações de verificar,
analisar, enumerar e sintetizar, e deveriam ser as partes primordiais para que se
garantisse a verdade no interior do processo científico de produção do conhecimento.
( ) O autor defendeu que a ciência e os métodos de investigação deveriam buscar
T a verdade como finalidade, e como método deveria resguardar a integridade dos
E
O seres e não intervir nos fenômenos e ao em meio/sociedade em que eles ocorrem.
R
I
A
Agora, assinale a alternativa CORRETA:
D
A

H a) ( ) V – F – F – V.
I
S b) ( ) F – F – V – F.
T
Ó c) ( ) V – V – V – V.
R
I d) ( ) V – V – V – F.
A

E
2 Na tabela a seguir procure preencher variáveis que fazem parte do pensamento de
H
I cada autor:
S
T
O
R
I
O
G
R
A
F
I
A
UNIDADE 1 TÓPICO 1 31

VARIÁVEIS VICO KANT HEGEL


PRINCIPAIS
CONCEITOS
DINÂMICA/FASES DE
DESENVOLVIMENTO
FATORES
RESPONSÁVEIS
POR MUDANÇAS/
DESENVOLVIMENTO
FINALIDADE/
TENDÊNCIAS A
LONGO PRAZO
IMPORTÂNCIA DA
HISTÓRIA

T
E
O
R
I
A

D
A

H
I
S
T
Ó
R
I
A

H
I
S
T
O
R
I
O
G
R
A
F
I
A
32 TÓPICO 1 UNIDADE 1

T
E
O
R
I
A

D
A

H
I
S
T
Ó
R
I
A

H
I
S
T
O
R
I
O
G
R
A
F
I
A
UNIDADE 1

TÓPICO 2

O PENSAMENTO SÓCIO-HISTÓRICO DO
SÉCULO XVIII E XIX

1 INTRODUÇÃO

O contexto histórico no qual se instaura a filosofia positivista foi o das revoluções e o dos
grandes impérios, em que ocorria paulatinamente a desagregação das estruturas remanescentes
da sociedade feudal, e em contrapartida, a consolidação da civilização capitalista; nas
relações internacionais à política imperialista e uma espécie de eclosão em grande escala dos
acontecimentos políticos, econômicos, religiosos e artísticos, que se acumulavam e avolumavam
desde o século XVIII.

A produção capitalista, que introduziu a máquina a vapor, a modernização dos métodos


de produção, acabou por desintegrar costumes e introduzir novas formas de organização da
T
vida social. A transição da produção artesanal para a manufatureira e desta para a produção E
O
fabril, foi o fator principal para o surgimento de novos sujeitos, novas realidades e acordos R
I
sociais, que se caracterizaram pela migração do campo para a cidade; pelo fim da servidão; A
pelo desmantelamento da família patriarcal; pela introdução do trabalho feminino e infantil. D
A

No campo da produção científica ocorreu a tendência da universalização do conhecimento H


I
ocidental, no qual a sociedade industrial sinalizava ao alcance da condição de prosperidade e de S
T
poder; no sentido de que a cada indivíduo, conforme a sua capacidade e aptidão, seria capaz de Ó
R
obter. Assim, a indústria passa a se alinhar à organização científica do trabalho, que produziria I
A
crescimento constante das riquezas e a concentração dos operários no interior das fábricas.
E

H
Em meio ao curso destes fatores, duas ideologias se destacavam, a do positivismo, que I
S
ia ao encontro aos interesses das mudanças de pensamento e as revoluções tecnológicas, e o T
O
marxismo, que procurava refletir sobre os impactos destas mudanças e denunciar os impactos R
I
e as perdas sociais e culturais que a primeira era responsável por fomentar. O
G
R
A
Caro(a) acadêmico(a)! Prossiga na leitura, pois cada uma delas, positivismo e marxismo, F
I
será estudada e aprofundada nas próximas páginas desta unidade. A
34 TÓPICO 2 UNIDADE 1

2 O POSITIVISMO COMTEANO: A FÍSICA SOCIAL E A HISTÓRIA


ENQUANTO CIÊNCIA DO PASSADO

Não se conhece completamente uma ciência


enquanto não se souber da sua história.

Auguste Comte

Auguste Comte (1798-1857) foi politécnico organizador, bem como hostil ao pensamento
socialista/marxista e quem fosse inimigo da propriedade privada. Possuía como objetivo fundar
uma ciência social, que deveria ser chamada de física social ou sociologia, que no pensamento
de Comte somente a síntese das ciências e com a criação de uma política positiva daria conta
de analisar conflitos e as contradições sociais e propor reformas e soluções.

O principal ponto de partida residia no próprio século XIX, que almejava superar a
tradição teológica e favorecer a transição a uma sociedade científica e industrial. Os principais
temas que interessaram a Comte foram a filosofia da História, a classificação das ciências
e física social ou sociológica. Para tanto escreveu as obras Curso de Filosofia Positiva – 6
volumes (1830-1842), Discurso Preliminar sobre o Espírito Positivo (1844) e Sistema de Política
Positiva – 4 volumes (1851-1854).

Comte defendeu a lei dos três estados pelos quais o espírito humano percorre em
seus estágios de desenvolvimento: estado teológico ou fictício (fenômenos sobrenaturais);
T
E estado metafísico ou abstrato (fenômenos da natureza); e o estado científico ou positivo (fatos
O
R e leis que determinavam a realidade): maneira de pensar positiva. Vamos analisar com mais
I
A detalhes como funcionava a filosofia histórica das ‘leis dos três estados’ que Comte formulou
D e procurou explicar.
A

H
I QUADRO 3 - OS TRÊS ESTADOS DE COMTE
S
T
Os fenômenos e fatos sociais são explicados a partir de causas
Ó sobrenaturais ou vontades divinas/transcendentais.
ESTADO TEOLÓGICO
R O mundo e as relações humanas tornam-se compreensíveis a partir
I
A
do ponto de vista da divina providência.

E É o estado de transição, no qual o homem procura explicar os fenômenos


que o rodeiam através da abstração e da argumentação, fazendo com
H que a metafísica deslegitime a influência da ideia teológica, em que
I ESTADO METAFÍSICO
S prevalece a subordinação da natureza e do homem ao sobrenatural.
T Neste momento, predomina o uso da razão e da especulação. É a fase
O em que o espírito se prepara para a chegada da ciência.
R
I
O
G
R
A
F
I
A
UNIDADE 1 TÓPICO 2 35

Se caracteriza pela subordinação da imaginação e da argumentação,


diante da observação. Neste momento, ocorre o abandono da busca
das causas dos fenômenos (como fazia o teológico e metafísico).
ESTADO POSITIVO
O homem procura compreender as ideias reais dos fenômenos, através
da observação direta e da pesquisa das leis que regem os fenômenos,
que já são independentes da vontade de Deus e dos homens.
FONTE: Os autores

Aron (1999) descreve que os três estados formulados por Comte precisam ser
compreendidos ao longo da História francesa, no sentido de reconhecer a dependência que
existe de um momento histórico com o outro. Neste raciocínio que deve ser entendida as
sucessões políticas do governo francês, a ‘Restauração’ só pode ser compreendida pela
‘Revolução’, e ‘Revolução pelos séculos de ‘regime monárquico’. Com base nestas três variáveis
e processos de desenvolvimento, encontrava-se estruturada a nova ciência, a filosofia positiva,
agora nomeada de sociologia, que reconhecia a prioridade do todo sobre o elemento e da
síntese sobre a análise, e por sua vez possuía o objeto a história da espécie humana.

O conhecimento positivo se caracterizou pela previsibilidade; o “ver para prever” que


funcionou como lema da ciência positiva. A previsibilidade científica permitiria o desenvolvimento
da técnica e, assim, o Estado corresponderia ao pleno desenvolvimento industrial, no sentido de
exploração da matéria-prima (recursos naturais) e do trabalho do homem. Neste estado, Comte
determinou que o poder do conhecimento passaria para os sábios e cientistas e o poder material
para as indústrias e os industriais, configurando assim o desenvolvimento científico e tecnológico.

No pensamento positivista de Comte a civilização material só poderia se desenvolver


se cada geração produzisse mais do que o necessário para sua sobrevivência, transmitindo T
E
assim à geração seguinte um estoque de riqueza maior do que o recebido da geração anterior. O
R
Comte foi um organizador que desejava manter a propriedade privada e transformar seu I
A
sentido, para que embora exercida por alguns indivíduos, tivesse também uma função social
D
(catolicismo social). A

H
I
Para Comte, as ciências libertavam o espírito humano da tutela exercida sobre ele S
T
pela teologia e pela metafísica, e que a partir de então tendia a se prolongar indefinidamente. Ó
R
Consideradas no presente, elas deveriam servir, seja pelos seus métodos, seja por seus I
A
resultados gerais, para determinar a reorganização das teorias sociais. Consideradas no
E
futuro, constituiriam a base espiritual permanente da ordem social, enquanto durar a atividade
da nossa espécie no planeta. H
I
S
T
O
R
I
O
G
R
A
F
I
A
36 TÓPICO 2 UNIDADE 1

S!
DICA

Os principais adeptos do positivismo no Brasil: Benjamin


Constant, Nísia Floresta Augusta Brasileira (Dionísia Gonçalves
Pinto, a primeira feminista brasileira e discípula direta de Auguste
Comte), Miguel Lemos, Euclides da Cunha, Luís Pereira Barreto,
Marechal Cândido Rondon, Júlio de Castilhos, Demétrio Ribeiro,
Carlos Torres Gonçalves, Ivan Monteiro de Barros Lins, Lindolfo
Collor, João Pernetta, Luís Hildebrando Horta Barbosa, Júlio
Caetano Horta Barbosa, entre outros.

3 O MATERIALISMO HISTÓRICO

A anatomia do homem é a chave da anatomia do macaco.


Karl Marx

O centro do pensamento de Karl Marx (1818-1883) reside em compreender e denunciar


as contradições do regime capitalista. As principais influências teóricas de Marx são as do
idealismo alemão de Hegel e seus seguidores, os estudos de economia política inglesa feita
por Adam Smith (1723-1790), Jean-Baptiste Say (1767-1832) e David Ricardo (1772-1823), o
socialismo utópico francês representado por Saint Simon (1760-1825), Jean-Baptiste Fourier
T
E
(1768-1823) e Robert Owen (1771-1858).
O
R
I Quando Marx entra na Universidade, o universo acadêmico e científico da época era
A
dominando pelas ideias de Hegel. Foi da tese de Hegel de que “a consciência é que determina
D
A a existência”, que Marx retirou a sua principal chave de entendimento e explicação do seu
H momento histórico, mas agora com Marx na perspectiva inversa, a de que é “a existência que
I
S determina a consciência”.
T
Ó
R
I Para Hegel a racionalidade está por trás de tudo no mundo e a filosofia tem o poder
A
de compreender a racionalidade da história, ou seja, o pensamento capta a racionalidade da
E
história. Para Marx, Hegel e todos os filósofos estavam alienados e poderiam ser chamados de
H
I a-históricos, e, segundo suas teses, as características da história seriam sempre as mesmas
S
T em todas as épocas, a natureza humana era somente crítica; procuravam mudar, transformar
O
R o mundo com filosofias e teorias. Marx, em contrapartida, defendia que o mundo não se
I
O transforma com o pensamento, com críticas, o mundo se transforma pela ação politicamente
G
R orientada, que ele preferiu chamar de práxis, e que se faziam necessárias tanto a explosão
A
F como a revolução das antigas estruturas.
I
A
UNIDADE 1 TÓPICO 2 37

Marx, ao longo da vida intelectual e financeira, contou com a ajuda de Friedrich Engels
(1820-1895). No livro ‘A Ideologia alemã’, de 1846, ambos abordam as bases do materialismo
histórico, e procuram ao longo da obra defender que o homem é fruto do seu trabalho e das
relações de produção, e não da vida espiritual e intelectual que levam. Para Marx o trabalho
é o que diferencia e distingue os seres humanos de outras espécies.

A concepção de História defendida por Marx e Engels residia no fato de que está na vida
material, no modo de produção e na estruturação da sociedade civil, as chaves de entendimento
de todo o processo histórico, e que ao invés de resultar em ‘emancipação e autonomia’ do
homem, como foi defendido pelos iluministas e idealistas, o que ocorre é a exploração e a
‘alienação’ dos indivíduos. Com a defesa destes termos, Marx e Engels foram responsáveis
por tecer as críticas mais expressivas às teorizações defendidas anteriormente tanto por Kant
e como por Hegel.

Dosse (2003) explica que no paradigma marxista a História resulta de uma dinâmica
dialética de transformação das relações sociais de produção e das forças produtivas; e que as
contradições resultantes em meio a este processo é que são responsáveis pelo processo de
mudança/revolução na história. Em meio a isso o autor sugere que se faz necessária a práxis,
ou seja, a prática política orientada (por meio de sindicatos e partidos políticos) para favorecer
a conscientização dos indivíduos dos processos de exploração, alienação e organização da
revolução que estão submetidos.

Para Marx e Engels o processo histórico obedece aos critérios econômicos, que se
encontram permeados pelos modos de produção, pela divisão do trabalho e pelas diferentes
formas de propriedade. Os modos de produção tratam como uma sociedade em uma T
E
determinada época e região se organizou para obter, produzir, distribuir e usufruir os itens de O
R
necessidade material. I
A

D
O modo de produção é composto pelas forças de produção e pelas relações de produção. A

As forças de produção são compostas por materiais, tecnologias, instrumentos, equipamentos; H


I
as relações de produção compostas pela dimensão política, pelos aspectos jurídicos, pelas S
T
tradições religiosas, expressões artísticas, correntes filosóficas, entre os homens. Ó
R
I
A
Segundo Marx e Engels, as fases do processo histórico seguiriam as seguintes fases
E
e estágios:
H
I
S
QUADRO 4 - SÍNTESE DO MODOS DE PRODUÇÃO T
O
MODO DE PRODUÇÃO FORMAS DE ORGANIZAÇÃO R
I
Trabalho em conjunto, os frutos do trabalho eram propriedade coletiva, O
G
relações de trabalho baseadas na cooperação, os meios de produção
COMUNISMO PRIMITIVO R
eram coletivos; não existia Estado, não havia classes sociais. A
Corresponde às primeiras organizações humanas na história. F
I
A
38 TÓPICO 2 UNIDADE 1

Camponeses são os responsáveis pela produção, a organização do


trabalho era compulsória, cujo excedente deveria ser entregue ao
Estado. Os integrantes do Estado compunham o grupo de aristocratas.
O florescimento das atividades comerciais, o crescimento da escravidão
SOCIEDADE TRIBAL
seguida de rebeliões, a ambição pela propriedade privada foram os
(ASIÁTICA)
fatores responsáveis pela decadência deste modo de produção.
São exemplos desta forma de organização as civilizações da
Mesopotâmia e do Egito, as primeiras sociedades da China, África,
Índia e os povos americanos.
A sociedade basicamente se resumia em proprietários de terras e
escravos; e de outros, os próprios escravos que eram as únicas forças
SOCIEDADE ANTIGA de produção, entendidos e tratados como animais e ferramentas, ou
seja, também como meios de produção.
Os exemplos mais expressivos são Grécia e Roma Antiga.
Senhores e servos/camponeses formavam os principais grupos sociais.
Os servos encontravam-se vinculados aos senhores por laços de
dependência para com moradia e terra para produzir os itens de
subsistência, em contrapartida deviam trabalhar, realizar serviços (trabalho
servil) no interior da propriedade do senhor feudal, assim como entregar
SOCIEDADE FEUDAL
parte da produção obtida e se submeter às leis políticas e religiosas.
O enfraquecimento da tutela religiosa, as crises nas colheitas as
contradições entre dominantes e dominados e o florescimento do
comércio e da vida nas cidades.
Predominou na Europa Ocidental ao longo da Idade Média.
A propriedade privada e os meios de produção se tornaram um
privilégio de uma minoria de capitalistas. O trabalhador vende sua força
de trabalho em troca de um salário (trabalho assalariado). Divisão e
especialização do trabalho.
A produção é organizada conforme as necessidades da burguesia.
Capitalistas e burgueses almejam a maior obtenção de lucro possível.
CAPITALISMO A produção passou a ocorrer no interior de fábricas e indústrias.
Foi um modo de produção que passou a se fortalecer a partir do século
XV, XVI e se desenvolveu amplamente na sociedade ocidental nos
T
E
séculos XIX e XX.
O De maneira resumida o capitalismo passou pelas fases de acumulação
R primitiva de capital, predomínio do capital mercantil na organização da
I
A
produção, capitalismo industrial e do capitalismo financeiro.

D Modos de produção que suplantariam de forma revolucionária o


A capitalismo. O último estágio de desenvolvimento da produção.
SOCIALISMO/ Inexistência de classes, igualdade social, ausência de divisão do
H
I COMUNISMO trabalho, seja intelectual ou manual. Propriedade e riqueza coletiva
S e a distribuição seria regido pela máxima de “de cada um de acordo
T com a sua habilidade, para cada um de acordo com o seu trabalho”.
Ó
R FONTE: Os autores
I
A

E Segundo Marx e Engels, o modo de produção capitalista engendrava as próprias


H contradições e crises, e estas seriam as oportunidades de derrubar o próprio sistema. A contradição
I
S entre as forças e as relações de produção eram as mais expressivas sendo que, os meios de
T
O produção crescem e ficam sofisticados, enquanto as relações de produção e a distribuição de
R
I renda não se transformam no mesmo ritmo e promoviam o aumento da riqueza de uma minoria
O
G (capitalistas e burgueses) e a pobreza crescente da maioria (trabalhadores e proletários).
R
A
F
I A luta de classes seria o motor da história, responsável por promover as condições
A
UNIDADE 1 TÓPICO 2 39

necessárias à transformação, cujo fim era o de alcançar uma sociedade mais justa e não
antagônica. Neste contexto recaía ao proletariado o papel de ator protagonista em fazer a
revolução e transformar a sociedade. Conforme defendiam estes estudiosos, quando a classe
proletária tomasse o poder, seria abolida, por violência, a antiga relação de produção (capitalista).
A antiga sociedade seria substituída por uma associação em que o livre desenvolvimento de
cada um desencadearia a condição do livre desenvolvimento de todos.

Observe a imagem a seguir, na qual o Partido Bolchevique, liderado por Lenin, toma o
palácio de Zimmy, na Rússia em outubro de 1917.

FIGURA 2 - TOMADA DO PALÁCIO ZIMNY EM 25/10/1917

T
E
O
R
FONTE: Disponível em: <http://www.educacional.com.br/recursos/ I
conteudomultimidia/poref2/p010/01/02/principal.htm>. Acesso em: A
30 jan. 2016. D
A

H
De forma resumida, o paradigma marxista apresenta a seguinte perspectiva de história: I
 a realidade social é mutável; S
T
 a mudança está submetida à leis que se encaixam em outras leis históricas; Ó
R
 as mudanças tendem a momentos de equilíbrio relativo. I
A

E
Entre os exemplos de sociedades que implantaram revoluções de cunho socialista/
H
comunista, existem os exemplos da Rússia (1917), China (1911), Cuba (1959), Vietnã do Norte I
S
(1950), Alemanha Oriental (1949), Coreia do Norte (1948). T
O
R
I
Marx e Engels também formularam e explicaram os conceitos de alienação, que resulta O
G
da divisão do trabalho e que é responsável perda da totalidade e da dignidade humana; classe R
A
social, que consiste em um grupo que ocupa um lugar determinado no processo de produção. Para F
I
que uma classe exista é preciso que haja a tomada de consciência da unidade e sentimento de A
40 TÓPICO 2 UNIDADE 1

separação, até mesmo de hostilidade, de uma em relação à outra; superestrutura e infraestrutura,


em que a superestrutura abarca as instituições jurídicas e políticas, bem como os modos de
pensar, as ideologias e as filosofias; e a infraestrutura, a base econômica e produtiva da sociedade.

S!
DICA

A recepção das teorias marxistas na intelectualidade brasileira pode


ser identificada nos estudos de: Astrogildo Pereira (1890-1985),
Otávio Brandão (1896-1980), Caio Prado Júnior (1907-1990),
Oswald de Andrade (1893-1945), Carlos Drummond de Andrade
(1902-1987), Sérgio Buarque de Holanda (1902-1982), Otto Maria
Carpeaux (1900-1978), Nelson Werneck Sodré (1911-1999),
Antônio Cândido (1918), Roberto Schwarz (1938), José Guilherme
Merquior (1941-1991) e Ciro Flamarion Cardoso (1942).

4 O MATERIALISMO DIALÉTICO

Os filósofos têm apenas interpretado o mundo de maneiras diferentes;


a questão, porém, é transformá-lo.
Karl Marx

Platão (428-347 a.C) e Aristóteles (384-322 a.C) já discutiam a noção de dialética, sob a
T nomenclatura de a ‘arte da conversação’, mas restringia-se ao universo especulativo e idealista
E
O que trata do movimento universal e de transformação constante das coisas, que já havia sido
R
I contemplado nos estudos de Hegel.
A

D
A A concepção de ‘materialismo dialético’ que Marx e Engels desenvolveram é oriunda
H dos estudos de Ludwig Feuerbach (1804-1872) presentes nas obras “Essência do cristianismo”
I
S e “Pensamentos sobre a filosofia do futuro” escritos entre 1841-1843; que somada à tradição
T
Ó de antagonismo social latente desde a Revolução Francesa, ao contexto de industrialização,
R
I da formação dos movimentos operários (cartismo e ludismo) forneceu a base de referências
A
para que Marx e Engels desenvolvessem a questão com propriedade.
E

H
I Marx e Engels aproveitam os elementos racionais da dialética de Hegel, negam a
S
T dimensão idealista e a adaptam à práxis social, reconhecem a vida cotidiana e ao modo
O
R de produção como responsáveis pela transformação da consciência e da subjetividade
I
O dos indivíduos. Os fenômenos materiais e mecanicistas passam a ser entendidos como os
G
R verdadeiros responsáveis pelo desenvolvimento das atividades humanas; tendo em conta estes
A
F
pressupostos acabavam por refutar tanto a tradição idealista como a tradição moral religiosa
I
A
que visava meramente observar e constatar os fenômenos sociais.
UNIDADE 1 TÓPICO 2 41

A pauta da discussão do materialismo dialético residiu na proposta de que o método


utilizado para compreender os fenômenos da natureza e gerar conhecimento deveria ser o
dialético, e a interpretação, a base conceitual de verificação deste conhecimento, de natureza
materialista. A noção central residia no fato de que o desenvolvimento de qualquer atividade
humana se dava a partir de contradições, no caso dos estudos do marxismo, os elementos
que protagonizavam esta contradição foram o proletariado e o capitalista/burguês.

Para ilustrar esta abordagem da realidade, Marx e Engels partiam do raciocínio de


que o homem tem necessidade de comer e beber, ou seja, de sobreviver antes de filosofar
ou expressar-se artisticamente; o restante (Estado, instituições civis, religiões, cultura...), se
desenvolveria no prolongamento. Primeiro os homens almejavam satisfazer suas necessidades
básicas: a vida material determina a vida intelectual; o ser social, determina a consciência
social; o material determina o espiritual e os assuntos sociais.

A sociedade, os fatos e os acontecimentos sociais deveriam ser tomados na sua


totalidade; a economia entendida como a responsável por organizar as estruturas básicas da
sociedade; a política e a cultura estabeleciam as formas históricas de gestão econômica. Em
meio a este contexto de determinações o materialismo dialético serviria como referência tanto
como categoria de análise como de orientação teórica à ação prática da política revolucionária.

Como já foi estudado anteriormente, os modos de produção: comunismo primitivo, escravismo


antigo, asiático, o feudalismo e o capitalismo se sucederiam ciclicamente um a um, até entrarem em
colapso e atingirem definitivamente o estágio do socialismo/comunismo. A concepção materialista da
história previa o cumprimento de um futuro histórico em suas linhas gerais, que supunha arquitetar,
exercer influência e até mesmo dirigir o desenvolvimento das atividades humanas. T
E
O
R
I
A
UNI D
A

H
I
S
T
Ó
R
Caro acadêmico! I
Quando Marx e Engels propuseram o materialismo dialético, viviam em uma época em A
que ocorria o desenvolvimento e ascensão do capitalismo nos sistemas de produção.
E
Porém a exploração, a acumulação da riqueza e aumento da pobreza sugeria que em
pouco tempo os trabalhadores tornar-se-iam conscientes e empreenderiam a revolução, H
derrotariam o capitalismo e instaurariam socialismo/comunismo. I
S
As previsões dos autores somente se concretizaram em casos específicos de países em T
que ocorreu a mudança de sistema econômico e regime político de forma revolucionária O
(Rússia, China, Cuba, entre outros). De maneira geral, aos demais países ocidentais, R
I
o que se sucedeu foi que o capitalismo passou por sucessivas crises, mas que foram O
gradualmente superadas com ajustes econômicos e políticos que salvaguardavam os G
interesses de mercado, e que conferiam espaço privilegiado aos grupos financeiros em R
A
meio aos governos/Estados ao ponto de estes não conseguirem mais garantir os direitos F
mínimos e o bem-estar de suas populações. I
A
42 TÓPICO 2 UNIDADE 1

UNI

SUGESTÃO DE FILME:
Para aprofundar a reflexão que foi sugerida anteriormente, procure assistir ao filme:
‘Capitalismo: uma história de amor’
O filme/documentário procura remontar os momentos e situações políticas que foram
responsáveis por desencadear a crise econômica do início dos anos 2000 no país.
Denuncia a ação dos bancos em deixar a crise se agravar, bem como a preferência
do governo norte-americano em injetar dinheiro nos bancos para evitar a falência
ao invés de atender à população que se encontrava desempregada e perdendo suas
propriedades imobiliárias pelas hipotecas assumidas com os bancos. Por outro lado,
o documentário se preocupa em demonstrar as respostas da população ao governo e
aos bancos, em termos de manifestações e reocupação das casas. Capitalismo: uma
história de amor. Michael Moore, EUA, 2009. 120 min. Disponível em: <https://
www.youtube.com/watch?v=FaMRSjiL4IE>.

T
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UNIDADE 1 TÓPICO 2 43

RESUMO DO TÓPICO 2

• O positivismo comteano almejava fundar uma nova ciência e a partir desta, analisar os
problemas e conflitos e fornecer soluções para eles.

• Conforme a filosofia positivista, para que o espírito humano se desenvolva é necessário que
o espírito humano passe pelos estágios teológico, metafísico e positivo.

• O pensamento positivista caracterizava-se pela previsibilidade, desenvolvimento da técnica


e da ciência, valorização da indústria, do trabalho industrial, do poder material.

• O materialismo histórico deve-se ao embate feito por Karl Marx às ideias de Hegel, nos
termos de que, segundo Hegel, “a consciência é que determina a existência”, para Marx “a
existência determina a consciência”.

• Marx e Engels defendiam que o mundo não se transforma com o pensamento, com críticas
ou leis abstratas, mas ação politicamente orientada, a práxis, e que se faziam necessárias
tanto a explosão como a revolução para superar as antigas estruturas.

• O centro do pensamento marxista residia nas ideias de que a realidade social é mutável, a
mudança está submetida às leis que se encaixam em outras leis históricas e as mudanças T
E
tendem a momentos de equilíbrio relativo. O
R
I
A
• O materialismo dialético reconhece a vida cotidiana e ao modo de produção como
D
responsáveis pela transformação da consciência e da subjetividade dos indivíduos. Os A
fenômenos materiais e mecanicistas passam a ser entendidos como os responsáveis pelo H
I
desenvolvimento das atividades humanas. S
T
Ó
R
• A noção central do materialismo dialético residia no fato de que o desenvolvimento de qualquer I
A
atividade humana se dava a partir de contradições, no caso dos estudos do marxismo, os
E
elementos que protagonizavam esta contradição eram o proletariado e o capitalista/burguês.
H
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44 TÓPICO 2 UNIDADE 1


IDADE
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1 Os pensadores alemães Karl Marx (1818-1883) e Friedrich Engels (1820-1895)


dedicaram a trajetória política e intelectual em entender como funcionava a sociedade
industrial e revelar as contradições que o sistema capitalista estava gerando no
interior da sociedade europeia que acabava de se modernizar; as preocupações e
militância de ambos fez com que eles encontrassem inúmeros adversários por onde
passassem, ou seja, nos meios acadêmicos ou econômicos/financeiros. Com relação
às principais teorias defendidas por Marx e Engels, analise as sentenças a seguir:

I- Os indivíduos determinam sua vida a partir das condições materiais, ou seja, das
circunstâncias estruturais com as quais se deparam e mobilizam para sobreviver.
II- Para romper com as condições estruturais da sociedade capitalista se faz necessária
a luta de classes e a revolução, que deve ser conduzida pelo proletariado.
III- No interior da sociedade capitalista, o que determina e rege a política são os interesses
econômicos dos grupos proprietários do capital.
IV- A existência de um indivíduo é determinada pela sua consciência, pelas ideologias,
pelas estruturas políticas e intelectuais que toda a sociedade possui.

T Agora, assinale a alternativa CORRETA:


E
O
R
I a) As sentenças I, II e III estão corretas.
A
b) As alternativas II, III e IV estão corretas.
D
A c) Somente as sentenças II e III estão corretas.
H
d) Somente as sentenças I e II estão corretas.
I
S
T
Ó
2 Na tabela a seguir, procure preencher variáveis que fazem parte do pensamento de
R
I
cada autor:
A

E
VARIÁVEIS POSITIVISMO MARXISMO

H
I
S
T
O PRINCIPAIS CONCEITOS
R
I
O
G
R
A
F
I
A
UNIDADE 1 TÓPICO 2 45

DINÂMICA/FASES DE
DESENVOLVIMENTO

FATORES RESPONSÁVEIS POR


MUDANÇAS/DESENVOLVIMENTO

FINALIDADE/TENDÊNCIAS A
LONGO PRAZO

IMPORTÂNCIA DA HISTÓRIA
T
E
O
R
I
A

D
3 Construa um texto explicando o ponto central e a justificativa da tese de Marx e Engels A

contra o pensamento de Hegel e dos idealistas de sua época. H


I
S
T
Ó
R
I
A

H
I
S
T
O
R
I
O
G
R
A
F
I
A
46 TÓPICO 2 UNIDADE 1

T
E
O
R
I
A

D
A

H
I
S
T
Ó
R
I
A

H
I
S
T
O
R
I
O
G
R
A
F
I
A
UNIDADE 1

TÓPICO 3

O HISTORICISMO DA SEGUNDA METADE


DO SÉCULO XIX

1 INTRODUÇÃO

O historicismo deu o passo primordial no reconhecimento da História como ciência ao


defender pela primeira vez que a interpretação histórica consiste na operação essencial do
pesquisador em história, distinguindo e diferenciando o fazer das demais ciências humanas e
sociais. A interpretação historicista transformou os fatos, os resultados das fontes, em fatos históricos,
vinculando-os uniformemente e linearmente à noção temporal de passado, presente e futuro, agora
dotados de coerência e sentido; ou seja, transformando os resultados empíricos em “história”.

O historiador do historicismo defendia que a história se constituía pelas forças espirituais


da ação humana, o que implicava uma espécie de autoafirmação de que a classe média culta
seria a classe dotada de competência e criatividade cultural e que deveria dominar e conduzir T
E
as transformações que se encontravam em curso. O
R
I
A
A separação entre passado e presente representava um dos principais fazeres historicistas. A
D
competência de vasta erudição bastava para trabalhar com os períodos recuados, e foi responsável A

por garantir praticamente o monopólio do saber histórico aos especialistas. Assim os historiadores H
I
recrutados pelas universidades do final do século XIX se especializaram em Antiguidade e Idade S
T
Média, períodos que exigiam o domínio de um conjunto de procedimentos eruditos, como por Ó
R
exemplo o conhecimento de línguas como o grego e o latim. Com isso pretendiam impor critérios I
A
rígidos que permitissem separar os verdadeiros historiadores dos amadores.
E

H
I
S
T
O
2 A HISTÓRIA, AS FONTES E A ESCRITA R
I
O
G
Dosse (2003) discute que o ‘bom historiador’ metódico e historicista poderia ser R
A
reconhecido pelo amor que dedicava ao trabalho, pela modéstia e pelos critérios incontestáveis F
I
de julgamento científico, ou seja, a grandeza do historiador estava na capacidade de controlar A
48 TÓPICO 3 UNIDADE 1

a sua subjetividade. Os estudiosos que se destacaram neste período foram Jules Michelet
(1798-1874), Johann Gustav Droysen (1808-1884) e Leopold von Ranke (1795-1886), Faustel
de Coulanges (1830-1889).

Os documentos, as principais fontes/testemunhos de pesquisa do historicismo ganhavam


relevância ainda no século XVII, quando na linguagem jurídica francesa surgiu a expressão
titres et documents (filtro dos documentos), porém o sentido moderno de ‘testemunho histórico’,
data apenas do início do século XIX.

O documento que, para a escola historicista do fim do século XIX e do início do século XX,
foi o fundamento do ‘fato histórico’, mesmo que resultasse da escolha, da decisão do historiador,
para aqueles historiadores apresentava-se por si mesmo como a verdadeira ‘prova histórica’.

Desde as teorias da escola positivista, o documento passou a ser monumentalizado.


A partir de então, todo o historiador que se dedicava a escrever a história era indispensável
o recurso do documento. E o melhor dos historiadores deveria proceder a uma forma que
se mantivesse o mais próximo possível dos textos. A habilidade primordial solicitada aos
historiadores deste período consistia em tirar dos documentos tudo o que eles continham e
em não lhes acrescentar nada do que eles não continham.

O ponto de partida do ofício de historiador envolvia pesquisar documentos,


reuni-los, classificá-los e, com o amparo das chamadas ‘ciências auxiliares’ da
história, proceder à crítica externa, especialmente sobre a origem das fontes;
em seguida passar à crítica interna visando à determinação dos fatos para,
finalmente, coroar com a construção narrativa, agrupando e ordenando os
fatos numa sequência de causalidades. (SILVA, 2001, p. 196).
T
E
O
R Observe o quadro a seguir, no qual procuramos sistematizar a perspectiva de história
I
A
que foi defendida pelos historicistas:

D
A QUADRO 5 - SÍNTESE DO PENSAMENTO HISTORICISTA
H VARIÁVEIS HISTORICISMO: definições
I
S OBJETO DE ESTUDO O passado escrito, registrado em textos e documentos.
T
Ó Tempo curto (èvènementelle), acontecimentos e fatos instantâneos,
R NOÇÃO DE TEMPO
I localizados; com a ideia do progresso simples (linear) e cumulativo.
A
Documentos escritos e oriundos de instituições oficiais (Estado,
FONTES HISTÓRICAS
E exército, marinha, diplomacia).
H Crítica interna e externa do documento, através das “ciências
I TÉCNICAS DE APOIO
S
auxiliares”: diplomática, numismática e paleografia.
T
O
O QUE É HISTÓRIA? Uma ciência do passado.
R
I RESULTADOS História essencialmente descritiva, narrativa, imparcial e objetiva.
O
G FONTE: Os autores
R
A
F Os historiadores se preocupavam no sentido de promover uma acumulação volumosa
I
A de trabalhos científicos; os temas ganhavam uma abordagem linear e eram enriquecidos pelos
UNIDADE 1 TÓPICO 3 49

conhecimentos advindos das áreas vizinhas como a antropologia, numismática, paleografia,


epigrafia, diplomacia, entre outras.

3 O EXEMPLO DE LEOPOLD VON RANKE (1795-1888)

A história foi atribuída a função de julgar o passado, de instruir os homens a tirar


o melhor proveito dos anos por vir. A tentativa atual não tem tamanha pretensão.
Ela aspira, meramente, mostrar como as coisas efetivamente aconteceram.
(RANKE apud RÜSEN, 1996, p. 76-77).

Ranke (1795-1888) estudioso alemão, foi responsável por defender o uso de método
científico na pesquisa histórica que privilegiava as fontes primárias e a erudição em meio à
narrativa. Ranke discursava que os profissionais da história deviam estar comprometidos em
apresentar o passado, transformado em conhecimento histórico tal como o passado realmente
foi, em um todo coerente e inteligível, ou seja, que a narrativa fosse isenta dos excessos do
observador, em especial de julgamentos morais e políticos.

Ranke foi responsável por fornecer as diretrizes da pesquisa histórica do século


XIX. As principais referências em que se inspirou foi Tucídides (460 a.C-400 a. C), Tito Lívio
(59 a.C – 16 d.C.), J. V. Goethe (1749-1832) e Immanuel Kant (1724-1804). Pesquisava os
‘‘grandes momentos da história’’, centrava seus estudos na história das grandes nações da
Europa, na origem dos povos alemães, franceses e ingleses. Foi um apaixonado por arquivos,
suas principais fontes eram os documentos de governos, relatórios secretos que estavam em
posse do governo prussiano, ex. Relazioni dos embaixadores venezianos; estudou ‘‘grandes T
E
personagens’’ como Carlos V da Burgúndia. O
R
I
A
Negou as teorizações de Hegel e de toda a filosofia histórica do século XVII, no ponto em
D
que aquela não reconhecia o ser humano como agente transformador da história; criticou também A

as tendências de narrar o passado como uma espécie de ‘romance histórico’ que haviam sido H
I
difundidas por Walter Scott (1771-1832), que segundo Ranke pecavam com relação à veracidade S
T
dos fatos. Observe como Jaspers (2010) explica o sentido da história que Ranke propôs: Ó
R
I
A História, como ciência, tem propósito diferente [da história que recorre ao A
mito]. Desejamos saber o que efetivamente se passou. Em consequência, E
apenas apegamo-nos às realidades ainda presentes ou a suas fontes: docu-
H
mentos, relatos, testemunhas, monumentos, realizações técnicas, produções I
artísticas e literárias. Percebemo-las através dos sentidos, mas isso não há de S
fazer-se de forma que patenteie o sentido intencional nelas contido. A ciência T
O
estende-se até o ponto em que sejamos capazes de corretamente compreender R
os tangíveis registros do passado e até o ponto em que possamos verificar a I
correção dos testemunhos que nos oferece. (JASPERS, 2010, p. 28). O
G
R
A
Ranke, assim como os demais historicistas de seu tempo, influenciados pelas ciências F
I
sociais, estavam imbuído de que a história se caracterizava por generalizações ou leis A
50 TÓPICO 3 UNIDADE 1

universais. Ranke apresentava suas teorizações na tentativa de fazer contraponto à tradição


da filosofia especulativa e do moralismo religioso que perduravam até então. Porém, suas
teses acabaram por ser indefensáveis; na perspectiva rankeana. Bastava reunir um número
significativo de fatos bem documentados e que já havia cumprido a função do historiador e da
história. E neste ponto, a reflexão teórica ou filosofia trariam complicações ao conhecimento
histórico, pois levantavam dúvidas e especulações.

Por outro lado, foi criticado pelos estudiosos das gerações sucessoras por contribuir para
uma história de antiquários e sem finalidades/justificativas ou relevância social do conhecimento
que estava sendo produzido. Ao longo do século XX, a Escola dos Annales das duas primeiras
gerações dedicou-se a fazer as principais críticas a Ranke e que serão temas de estudos nas
próximas unidades deste caderno.

Para compreender melhor o contexto social, científico e intelectual do final do século


XVIII e meados do século XIX, aproprie-se da sugestão de leitura e filme apresentada a seguir:

S!
DICA

Sugestão de leitura e cinema: FAUSTO, DE GOETHE


O enredo:
A obra foi publicada em 1808 e apresenta Dr. Fausto, um cientista estudioso que,
desiludido com a ciência e o conhecimento de seu tempo, faz um pacto com o demônio,
T apresentado com o nome de Mefistófeles, que o entusiasma e deslumbra com as
E
O
possibilidades da técnica e do progresso moderno. O personagem de Mefistófeles se
R apresenta como oportunista, exaltado, egoísta e sem escrúpulos morais, ajustava-se
I e poderia ser associado com perfeição ao perfil de um empresário capitalista ávido
A
por recompensas materiais e financeiras.
D Mefisto induzia Fausto com a ideia de que seus empreendimentos não eram somente
A em benefício próprio e imediato, mas, antes, estariam contribuindo com o futuro da
H
humanidade e, a longo prazo, o que promoveria benefícios, alegria e liberdade de todos.
I Os personagens de Mefistófeles e Fausto criaram uma espécie de síntese histórica, que
S combinava poder privado e poder público: Mefistófeles, o pirata e predador privado,
T
Ó
que executa a maior parte do trabalho sujo, e Fausto, o administrador público, que
R concebe e dirige o trabalho como um todo. A obra termina em meio às conturbações
I espirituais e materiais de uma revolução industrial.
A
Fausto apresenta-se como um dos grandes problemas éticos e morais de sua época:
E vendia sua alma, valores morais e dignidade em troca de determinados bens materiais,
que por sua vez representavam itens universalmente desejados, como dinheiro, sexo,
H
I poder sobre os outros, fama e glória; e tudo o mais ao mesmo tempo, uma espécie
S de processo dinâmico que incluiria toda sorte de experiências humanas, alegria e
T desgraça juntas, assimilando-as todas ao seu interminável crescimento interior; até
O
R mesmo a destruição do próprio eu que seria parte integrante do seu desenvolvimento.
I
O LIVRO:
G
R GOETHE, Johann H. Fausto: uma tragédia. São Paulo: Editora 34, 2004. 552 p.
A FILME:
F Fausto. Alexander Sokurov. Rússia, 2011. 2 h 20 min, Cor.
I
A
UNIDADE 1 TÓPICO 3 51

4 O PROBLEMA DA OBJETIVIDADE NA CIÊNCIA E NA HISTÓRIA

O passado é uma espécie de écran sobre o qual cada geração projeta a sua visão do
futuro, e, por tanto tempo quando a esperança viva nos corações dos homens, as ‘histórias
novas’ suceder-se-ão.
C. Becker

O tema da objetividade nas ciências, e em especial na História, representa o calcanhar


de Aquiles, um ponto sobre os quais transcorrem grandes debates e até dividem os estudiosos.
Para algumas áreas como as das ciências naturais, físicas e matemáticas tais questões são
resolvidas de forma mais técnica, metodológica, pragmática e em outras como nas ciências
humanas, é responsável por fomentar a separação entre os pesquisadores e até a criação de
correntes de pensamento distintas.

Ainda nos modelos do cartesianismo e do positivismo foi defendida a ideia de uma ciência
neutra e imparcial, os idealistas destas tradições de pensamento acreditavam que a garantia
de uma história e conhecimento verdadeiro residiria no fato de o pesquisador/investigador
manter-se distante e com a supressão da subjetividade e das emoções na relação com objeto
ou fenômeno em estudo.

Na historiografia desta época não foi diferente, ainda mais por que a História, assim
como as demais ciências sociais, estavam ainda por galgar reconhecimento científico, tanto
T
quanto uma ciência como uma disciplina do conhecimento. O que pautou os trabalhos dos E
O
historiadores na busca pelo reconhecimento científico da História foi a crença na objetividade R
I
dos métodos e a utilização de uma narrativa erudita. A

D
A
Emile Durkheim (1858-1917), sociólogo francês, foi um dos principais idealizadores da
H
concepção e método de neutralidade em meio às ciências sociais; defendendo que havia a I
S
necessidade de objetividade nas análises e de que o fato social deveria ser abordado como T
Ó
uma coisa propriamente dita. Entre as principais obras do autor, que contemplavam e defendiam R
I
este pensamento, se deu a publicação, em 1895, de ‘As regras do método sociológico’ e em A
1897, de ‘O Suicídio’. E

H
I
As teses de Durkheim advogavam que se fazia necessária a experiência seguida S
da observação prática, ou seja, a necessidade de sair do ‘nós especulativo’ para acender T
O
à escola das coisas, dos fatos, para melhor conhecer e compreender. Assim, os fatos e os R
I
acontecimentos deveriam ser encarrados como coisas, e deviam ser reconhecidos como O
G
fenômenos que possuíssem vida própria e capacidade de exercer influência sobre os demais R
A
indivíduos (o exemplo mais célebre desta teoria de não divulgação de casos de suicídio, pois F
I
A
52 TÓPICO 3 UNIDADE 1

tornados públicos, poderiam exercer influência no sentido de estimular outras pessoas agirem
por estímulo à praticarem o mesmo).

Outra sugestão deste sociólogo aos historiadores foi o de que a História somente
conseguiria se tornar uma ciência se ela fosse capaz de se distanciar da esfera individual e
particular dos fatos e dos fenômenos, ou seja, capaz de estabelecer uma separação entre os
fatos psicológicos/individuais e os fatos sociais/coletivos. Observa-se aqui uma espécie de apelo
à ‘generalização’, que foi um dos principais campos de análise empreendidos pela Sociologia.

Ranke apresentava a convicção de que o historiador somente alcançaria objetividade


quando se afastasse do turbilhão dos acontecimentos recentes, ou da História do tempo
presente. Segundo ele, a diferença da história contemporânea para a história de outros tempos
históricos, constituía uma questão de grau, de escala; e defendia que se fazia necessário
estabelecer um ponto de vista acima da perspectiva individual. O historiador deveria conquistar
um ponto de vista independente, preferir uma visão geral, e que do ponto de vista objetivo e
científico se tornaria cada vez mais confiável.

Para Coulanges, o olhar do historiador sobre o presente sempre seria tendencioso por
causa dos interesses pessoais, os preconceitos e das paixões; para o autor compreende-se
melhor os acontecimentos e revoluções quando nada mais se pode esperar deles, por isso
a ideia de pesquisar épocas mais distantes do presente, o deslocamento no tempo remoto
garantiria a rejeição do subjetivismo em favor de uma pretensa neutralidade e imparcialidade,
isenta de injunções políticas e morais.

T Rüsen (1996) reflete que a objetividade pretendida pelos historiadores do século XIX,
E
O especialmente, por Ranke, acaba por limitar a capacidade interpretativa na história, pois
R
I demanda distanciamento passional do historiador diante dos fatos e acontecimentos, bem como
A
economias e recuos discursivos na composição das narrativas. Porém, foi um dos caminhos
D
A necessários para se inserir a História como uma ciência e aproximação da pretensão de verdade,
H especialmente quando se almejava o reconhecimento e circulação nos meios acadêmicos.
I
S
T
Ó Observe os termos em que Rüsen (1996, p. 82) analisa e faz a crítica do porquê as
R
I teses de Ranke são destituídas de sentido:
A

E O aforisma de Ranke, que exprime essa pretensão de objetividade, pressupõe


H uma determinada filosofia da história: história é a realidade temporal do mundo
I humano, é a conexão interna das mudanças temporais, previamente dadas no
S modo de experiência dos historiadores. O historiador, em sua historiografia, tem
T
O de representar essa estrutura histórica do mundo humano, previamente dada.
R Ele conta "como tudo efetivamente aconteceu". Essa realidade é mais do que
I a sequência de acontecimentos e mudanças no passado tal como relatados
O
G nas fontes; ela é, em si mesma, uma corporificação de sentido.
R
A
F
I Rüsen (1996) chama a atenção de que nem todos os historiadores do século XIX se
A
UNIDADE 1 TÓPICO 3 53

entorpeceram pela ideia de objetividade científica. Droysen foi um exemplo que polemizou contra
o que ficou conhecido como a 'objetividade de eunucos' nos estudos históricos, objetividade
que almejava neutralizar a história diante do conflito político e diante de questões da identidade
coletiva (sobretudo a nacional), na qual o argumento historiográfico desempenhava um papel
importante e decisivo.

Karl Popper (1902-1994) também se dedicou a criticar o pensamento científico do século XIX,
pois refletia que as explicações de leis gerais somente conduziam a determinismos, à generalização
de fatos e fenômenos e às compreensões de que o que existe é um todo homogêneo.

Popper em contrapartida defendeu que se faz necessário desfatalizar a história, fazer


análises situacionais (individuais e particulares) e reconhecer a singularidade das ações
humanas. Observe as pontuações que Popper (1980, p. 81) faz:

É de algum interesse notar que a usualmente denominada “objetividade


científica” se fundamenta, até certo ponto, em instituições sociais. A ingênua
concepção de que a objetividade científica se apoia na atitude mental ou psi-
cológica do cientista individual, no treinamento que recebe, na cautela com
que age, em sua imparcialidade científica, é uma concepção que gera, como
reação, a concepção cética segundo a qual o cientista jamais é objetivo. De
acordo com essa maneira de ver, a falta de objetividade do cientista pode não
ter maior importância no campo das Ciências Naturais, onde suas paixões não
se excitam, mas será fatal no campo das Ciências Sociais, onde as tendencio-
sidades, os preconceitos de classe e os interesses pessoais estão presentes.

O que Popper defendeu foi a ideia de que uma mesma obra de arte, uma mesma paisagem,
um mesmo templo é percebido de forma diferente, que se encontra relativo ao ponto de vista
do observador, uma paisagem é descrita de forma completamente diferente pelo turista, pelo T
E
curador, pelo morador nativo, pelo minerador, pelo ciclista, pelo militar, pelo padre, pela criança, O
R
pelo adulto, pelo ocidental, pelo oriental, pelo cientista. Popper (1980, p. 83) argumenta que: I
A

O evolucionista que exige controle “científico” da natureza humana ignora o D


A
quão suicida é essa exigência. A mola da evolução e do progresso é a variedade
do material que venha a ser sujeito à seleção; é, no que interessa à evolução H
do homem, a “liberdade de ser ímpar e diferente dos outros”, “de discordar da I
S
maioria” e seguir o próprio caminho. T
Ó
R
I
Para Popper quanto mais a sociedade for aberta, percebida na sua diversidade, mais as A
disposições individuais podem desdobrar-se e realizar-se; a indeterminação se torna essencial E
para pensar e ampliar o horizonte de possibilidades que está latente na História. A crítica de H
I
Popper abrange desde o idealismo especulativo de Hegel, aos modelos restritos e fechados S
dos modos de produção de Marx e Engels até a pretensão de distanciamento temporal que T
O
os historicistas defendiam. Leia nas palavras de Popper (1980, p. 79): R
I
O
G
O historicismo confunde essas interpretações com teorias. É um de seus erros R
fundamentais. Cabe, por certo, interpretar a “História” como a história da luta A
de classes ou como luta de raças em busca da supremacia, ou como história F
I
de ideias religiosas, ou como história da luta entre a sociedade “aberta” e a A
54 TÓPICO 3 UNIDADE 1

sociedade “fechada”, ou como história do progresso científico e industrial. Todos


esses são pontos de vista mais ou menos interessantes e, como tais, perfeita-
mente aceitáveis. O historicista, entretanto, não os apresenta como tais, não
reconhece que haja, necessariamente, uma pluralidade de interpretações que
se situam, basicamente, no mesmo nível de sugestividade e de arbitrariedade
(ainda que alguns daqueles pontos de vista possam merecer realce por sua
fertilidade – que é de alguma importância). O historicista apresenta aqueles
pontos de vista como doutrinas ou teorias, asseverando que “toda História é
história da luta de classes”, e assim por diante.

A ideia de que a objetividade é constituída pela parcialidade obedece a uma filosofia


idealista da história, que identifica as forças mentais em ação no interesse histórico dos
historiadores com as forças mentais da atividade humana, que constituem a história como
realidade temporal da vida humana.

Rüsen (1996) discute que a concepção marxista agrega o fator de objetividade pela
parcialidade, ou seja, a escolha pelo operariado na luta de classes, que na interpretação
marxista é a condição necessária do conhecimento objetivo da sociedade humana, em geral,
e de sua evolução histórica, em particular.

Para Rüsen (1996) a questão está em que, nem toda parcialidade leva à objetividade,
mas apenas aquela que for refletida, na qual o historiador emprega a aptidão cognitiva da
inteligência humana de forma específica, em que o historiador generaliza o seu ponto de vista
de tal modo que consegue integrar também os interesses conflitantes que residem em seu
próprio contexto político. No caso do historicismo, a garantia do objetivismo parecia residir na
crítica das fontes, e a do subjetivismo (marxista) no engajamento do historiador na luta política
por uma identidade coletiva, no caso o proletariado.
T
E
O
R Ambas as concepções antes colaboraram para que a abordagem objetivista perdesse
I
A a credibilidade. O impacto ideológico não poderia ser negligenciado: o interesse subjetivo e a
D luta política pelo poder facilmente poderiam ser encontrados nas diversas ideias da história. O
A
último recuo da objetividade como ideia constitutiva dos estudos históricos ficou evidente com
H
I a emergência das análises das narrativas históricas a partir dos anos de 1990. Rüsen (1996)
S
T relaciona os principais problemas que esta historiografia apresenta:
Ó
R
I A pretensão de objetividade efetivada no procedimento acadêmico da cognição
A
histórica é pensada, amiúde, como exalando um certo odor de mofo. Muitos
E historiadores profissionais consideram que seu serviço à verdade só pode ser
prestado se isolarem sua representação do passado com relação aos embates
H
I de suas épocas. Essa neutralidade é uma esperança vã. Nenhuma narrativa
S histórica é possível sem uma perspectiva e os critérios de sentido histórico com
T ela relacionados. Esses critérios são derivados da orientação cultural da vida
O
R prática. Eles têm de estar expressos numa forma conceitual tal que mantenham
I sua relevância para a vida atual, mesmo se versam sobre coisas passadas.
O Assim, a objetividade histórica não exorciza, da representação histórica, a
G
R variegada multiplicidade da vida prática, pelo contrário: ela é um princípio que
A organiza essa variedade. Emoção, imaginação, poder e vontade são elementos
F necessários da produção histórica de sentido. A pretensão de objetividade não
I
A lhes subtrai o vigor da vida. Objetividade pode ser reconhecida como uma forma
UNIDADE 1 TÓPICO 3 55

de sua vivacidade, na qual as narrativas históricas reforçam a experiência e a


intersubjetividade na orientação cultural. E assim fazendo, tornam o peso da
vida – quem sabe? – um pouco mais suportável. (RÜSEN, 1996, p. 101).

Rüsen (1996) analisa que a situação atual dos estudos históricos se caracteriza por uma
relação pouco clara com relação às questões de objetividade e cientificidade do conhecimento
produzido. Para o autor existe, de um lado a limitação dos recuos de narrativas como princípio
do pensamento histórico, que dificulta, logicamente, qualquer objetividade científica na
representação do passado como história; de outro, existem as atitudes e os procedimentos
acadêmicos dos historiadores profissionais que os habilitam a realizar o trabalho de pesquisa
e historiográfico em obediência imediata à racionalidade metódica.

5 A PROBLEMÁTICA DA VERDADE NA HISTÓRIA

... é e continua verdade que uma demonstração científica


metodicamente correta, no campo das ciências sociais, se quiser alcançar seu
objetivo, tem de ser reconhecida como correta também por um chinês.
Max Weber

Dosse (2003) analise que a história resulta de uma lenta e gradual ruptura com o gênero
literário. Isso se deu por volta do século V a. C. e Heródoto de Halicarnasso foi um dos grandes
responsáveis por esta tarefa, que passou a empregar o ‘ele’, o homem e não mais os deuses e
os mitos nas narrativas. Tucídides deu o passo além, pois reclamou que fossem estabelecidas
T
e seguidas regras e métodos para alcançar a verdade, uma espécie de contrato, no caso a E
O
‘testemunha ocular e crítica atenta e quanto mais completa possível das informações’, ou seja, R
I
privilegiou-se o olhar, o olho, o ver como fonte de verdade. Em ambos existe também a ideia e A
ocultamento do sujeito que narra a história e a pretensão de que os fatos falam por si mesmos. D
A

H
Na Idade Média ocorria a distinção entre textos autênticos e textos apócrifos (sem I
S
autenticidade confirmada), porém os historiadores daquele período não criticavam os T
Ó
testemunhos, somente consideravam as pessoas que testemunhavam, ou seja, os historiadores R
deveriam submeter seus textos à aprovação dos poderes das cortes (reis) e da Igreja. Uma vez I
A
aprovado, o texto ganhava além dos status de verdade, o de um monumento; para conseguir E
tal feito, deveriam antes de mais nada agradar ao rei e ao clero.
H
I
S
Dosse (2003) apresenta que a congregação beneditina de Saint-Maur de Paris, na França, T
O
antecipou a eclosão de história erudita entra na pauta dos historiadores a partir do século XVII. O R
I
superior da ordem Jean-Gregoire Tarrisse, fixou na ordem dos trabalhos as seguintes demandas: O
G
R
A
encontrar os atos, fundações e bens de mosteiros, ocupar-se da administração F
das abadias, de suas regras e costumes com base nos documentos originas, I
revelar os altos feitos e curiosidades naturais, enumerar a lista de santos, A
56 TÓPICO 3 UNIDADE 1

das relíquias e santuários, mencionar os castigos, prodígios, milagres, fatos


edificantes, e, enfim, reunir todas essas informações na história da ordem e
da igreja. (BARRET-KRIEGEL apud DOSSE, 2003, p. 33).

A partir dos séculos XV e XVI os pensadores reforçam a ideia de verdade na história


que poderia conciliar história e literatura, agora comportando um projeto de história total com a
utilização de novas fontes e novos métodos de investigação feitos com auxílio da arqueologia
e da numismática.

A ideia de verdade que constou em meio a tradição cartesiana, positivista e historicista do


século XVII, XVIII e XIX consistia em que não se poderia trabalhar com a perspectiva de dúvida
e incertezas; pelo contrário, o conhecimento somente teria validade científica se não restassem
suspeitas entre o corpo documental e as descrições dele extraídas. Estes pressupostos foram
responsáveis tanto por conferir objetividade como verdade, uma vez cumpridas as regras, a
objetividade ao conhecimento histórico estaria garantida.

Nos tempos atuais vivemos em uma sociedade que caminha "ao compasso da verdade",
no sentido de que se produz e circulam discursos que funcionam como verdade, e que por
isso carregam e representam poderes específicos. Neste campo de forças, Foucault (1984)
apresenta uma visão de história da verdade que deve ser entendida como "política da verdade",
que almeja mostrar o caráter eminentemente político da produção da verdade ou seja, que
leva em conta as condições políticas pelas quais o conhecimento foi construído; para Foucault
tratam-se de elementos fundamentais da história dos saberes, dos quais não podemos nos dar
o privilégio de desconsiderar, ou interpretar como sendo um véu ou um obstáculo.

T
E Para Foucault (1984) o conhecimento é uma relação estratégica em que o homem se situa
O
R para se constituir enquanto sujeito cognitivo. Daí o caráter perspectivo do conhecimento, isto é,
I
A de sua constituição como estratégia de dominação e de luta, segundo a qual só há conhecimento
D na medida em que se estabelece um confronto, um duelo entre o homem e o objeto.
A

H
I À luz das análises de Foucault, fica explícita a impossibilidade de neutralidade do
S
T conhecimento. O conhecimento é sempre uma certa relação estratégica que remete ao local onde
Ó
R o homem se encontra situado. Nas palavras de Foucault (1984, p. 19), “é essa relação estratégica
I
A que vai definir o efeito de conhecimento e por isso seria totalmente contraditório imaginar um
E conhecimento que não fosse em sua natureza obrigatoriamente parcial, oblíquo, perspectivo”.
H
I
S De acordo com este ponto de vista, mesmo na ciência, existem modelos de verdade
T
O
formulados numa relação uso do saber às estruturas políticas. Contudo, tais estruturas não
R
I
podem ser compreendidas como impostas do exterior ao sujeito do conhecimento, que o poder
O lhe é imanente. Quando se investigam os mecanismos das regras que delimitam formalmente
G
R
A
o poder e os efeitos específicos de verdade que ele produz e transmite, a noção de "política
F da verdade" se opõe às teorias generalizadoras do poder e da verdade.
I
A
UNIDADE 1 TÓPICO 3 57

Foucault sugere uma espécie de análise do poder, com base em uma concepção que
descreve o poder como um conjunto de realidades abertas, mais ou menos coordenadas,
para além da noção de coisa dada. Ao contrário, para compreendermos o poder, precisamos
estabelecer estrategicamente uma rede que possibilite a análise das relações de poder e sua
relação com a verdade.

Caro(a) acadêmico(a)! Prossiga aprofundando a questão de objetividade e verdade na


História fazendo a leitura da entrevista como professor Fernando Tula Molina sobre a ‘falsa
neutralidade’, que circula nos meios acadêmicos e em meio à sociedade de maneira geral.

LEITURA COMPLEMENTAR

A falsa neutralidade

Fernando Tula Molina

Entrevista de Fernando Tula Molina, da Universidade de Quilmes, na Argentina concedida


à Fábio de Castro, da Agência FAPESP em 16/01/2009, durante o 15º Seminário Internacional de
Filosofia e História da Ciência, realizado pelo Grupo de Filosofia, História e Sociologia da Ciência
e da Tecnologia do Instituto de Estudos Avançados (IEA), da Universidade de São Paulo (USP).

Agência FAPESP – Uma das ideias centrais desenvolvidas pelo senhor durante o seminário
realizado no mês passado em São Paulo é a de que a ciência não pode ser dissociada da
política. Como essa questão foi tratada nos debates?
T
E
Fernando Tula Molina – As discussões tiveram origem em um Projeto Temático apoiado pela FAPESP O
R
dirigido pelo professor Pablo Mariconda, do Grupo de Filosofia, História e Sociologia da Ciência e I
A
da Tecnologia do IEA, responsável pelo seminário. Esse projeto discute a gênese e os significados
D
da tecnociência. Isso envolve questões históricas, filosóficas e sociológicas, mas no fundo tudo A

está virando uma área importante ligada à política. Tentamos problematizar duas ideias que hoje H
I
são muito fortes em nossa cultura: a neutralidade da ciência e o determinismo tecnológico. Essas S
T
duas noções estabelecem no imaginário popular uma ideia de que a ciência é neutra, desprovida Ó
R
de política, quando, na verdade, a ciência – e sobretudo a tecnologia – tem muita política. I
A

E
Agência FAPESP – Como esse aspecto político se manifesta?
H
I
S
Molina – Uma das linhas que está sendo desenvolvida é que essa política pode ser vista com T
O
clareza, por exemplo, no chamado código técnico. Esse gravador digital que você está utilizando, R
I
por exemplo, possui um design, que encerra em si todo o contexto de sua concepção e está ligado O
G
a determinadas estratégias. Essas estratégias representam interesses – que, no caso de uma R
A
sociedade capitalista, correspondem aos interesses das corporações. São interesses que têm a F
I
ver com o consumismo tecnológico. O projeto do gravador já prevê quando ele sairá de linha, isto A
58 TÓPICO 3 UNIDADE 1

é, carrega consigo uma estratégia de obsolescência programada. Para que você consuma mais,
é preciso que na sua cabeça a aquisição de novos produtos tecnológicos seja entendida como um
progresso. Você acredita que está progredindo e tem um aparelho melhor, de última tecnologia.
Mas eventualmente os aparelhos mais antigos tinham mais qualidade. Isso é pura política.

Agência FAPESP – Essa é a ideia do determinismo tecnológico? Uma crença de que o produto
que acaba de ser lançado é necessariamente melhor, mais eficiente e mais desejável?

Molina – Sim. É uma estratégia de consumo que se baseia na novidade. O produto é um


bem cultural que se vale do valor simbólico que tem a “eficácia” na nossa cultura, levando a
pessoa a pensar que os produtos desenvolvidos mais recentemente são melhores. Mas isso
é uma falácia. Outra falácia está no discurso político oficial dos nossos países: a ideia de que
o cientista pode dizer o que é melhor para a sociedade. O cientista não sabe o que é melhor
para a sociedade. Não existem nem mesmo elementos conceituais para abordar essa questão.
O seminário teve, portanto, a tarefa central de instalar uma discussão e conscientizar sobre
alguns erros. Muitos desses erros, como o individualismo, têm origem filosófica.

Agência FAPESP – Como o individualismo é tratado nessa discussão?

Molina – Quando a lógica predominante é a de que alguém só consegue ganhar quando os


demais perdem, o resultado é que as pessoas passam a achar que podem ser livres apenas
de portas fechadas. O que gostaríamos de opor à essa ideia individualista é a possibilidade
de pensar que, ainda hoje, apesar das assimetrias e desigualdades do capitalismo, podemos
aprender a nos organizar de um jeito diferente e reaprender a conviver. A convivência é o
T ponto central da política em um sentido muito antigo, do qual já falava Sócrates. Como todos
E
O os atores, tão diferentes, podem conseguir a felicidade e a plenitude no meio de todos, no
R
I espaço restrito da polis? A ideia de democracia que está por trás do seminário é mais profunda
A
que uma noção de igualdade: é a ideia de que somos todos diferentes.
D
A

H Agência FAPESP – Qual o efeito desse contexto dominado pelo individualismo sobre o
I
S desenvolvimento tecnológico e científico?
T
Ó
R
I Molina – Vamos tentar falar do conjunto ciência e tecnologia: a tecnociência. Se as pessoas
A
acreditam que o investimento em ciência e tecnologia leva o país a crescer automaticamente,
E
melhorando a vida da população, temos o determinismo tecnológico. Nesse caso, já que
H
I o resultado seria necessariamente bom para todos, o investimento poderia ser feito sem
S
T preocupação com a participação da coletividade – esse determinismo tecnológico é favorecido
O
R em um contexto individualista.
I
O
G
R Agência FAPESP – Então, sem a participação da coletividade nas decisões científicas e
A
F tecnológicas, os avanços do conhecimento não chegam a beneficiar a sociedade?
I
A
UNIDADE 1 TÓPICO 3 59

Molina – Acho que é por isso que temos que combater o determinismo tecnológico. Com essa
lógica, o investimento não volta diretamente para a população, mas para as corporações. Os
investimentos públicos formam técnicos, especialistas e recursos humanos para a universidade e
para o sistema tecnológico. Mas essas pessoas poderão desenvolver tecnologias que melhorem
as corporações, não necessariamente o país. Se nossa sociedade tem base tecnológica e
capitalista, mesmo que se possa desenvolver a melhor tecnologia, ela irá se limitar a desenvolver
a tecnologia com melhor custo-benefício. Tudo o que está envolvido com essas tecnologias será
avaliado do ponto de vista quantitativo, porque estará orientado pela produtividade. Incluindo
as relações com trabalhadores.

Agência FAPESP – Esse tipo de modelo tecnológico tenderia a agravar o quadro de exclusão social?

Molina – Acredito que sim. A tecnologia orientada pela produtividade só é acessível a quem tem
determinado poder de consumo. As distâncias sociais que deveriam ser diminuídas por conta
da tecnologia começam a aumentar. O crescimento das diferenças sociais agrava a violência.
No fim, a tecnologia, que poderia ter um papel de inclusão, acaba fazendo o contrário.

Agência FAPESP – As tecnologias sociais seriam um possível caminho para contornar esses
problemas?

Molina – O Brasil tem uma rede muito boa de tecnologia social. Ela tem 700 organizações
– a maioria organizações não-governamentais –, sendo 400 muito ativas. Todas pensam
em confrontar essa ideia da tecnologia capitalista associada à corporação. Nesse modelo
fundamentado na produtividade, não se pode acessar o conhecimento – que deve ser
patenteado. O usuário não é dono do meio onde essa tecnologia vai se produzir e não se pode T
E
decidir para onde vai o benefício do desenvolvimento. O
R
I
A
Agência FAPESP – Essas tecnologias teriam, então, mais legitimidade?
D
A

Molina – As tecnologias sociais têm um papel importante na democratização do conhecimento, mas H


I
elas não chegam a garantir a legitimidade da forma como a entendemos. É preciso distingui-la da S
T
eficácia. A tecnociência tem eficácia, mas não tem legitimidade social. Esses dois conceitos muitas Ó
R
vezes são confundidos no próprio discurso do desenvolvimento tecnológico, que está baseado na I
A
ideia de controle. O que é o controle? Uma coisa é poder controlar a matéria ou a partícula – como
E
pode a nanotecnologia – no espaço e no tempo. Esse é o controle científico, que é necessário e
H
desejável. Mas não suficiente. Outra coisa é poder dar legitimidade a esse controle. I
S
T
O
Agência FAPESP – E como dar mais legitimidade ao controle das práticas científicas? R
I
O
G
Molina – Para mim, a legitimidade não está no conteúdo das decisões sobre os rumos R
A
tecnológicos, mas no jeito como essas decisões são tomadas. Se a decisão foi tomada de F
I
maneira coletiva e democrática e daí gerou os rumos e decisões, isso a legitima, não pelo A
60 TÓPICO 3 UNIDADE 1

conteúdo, mas pela forma coletiva. O que temos que pensar é quais são os atores em cada
âmbito que deveriam participar democraticamente, sendo reconhecidos como diferentes e
igualmente importantes, do rumo mais democrático da enorme capacidade tecnológica que
já temos. Mas se não conseguimos dar a isso um caráter democrático, então o rumo será
tecnocrático e corporativo. A responsabilidade é nossa. A palavra-chave é participação.

Agência FAPESP – Há propostas para melhorar essa participação?

Molina – O controle tecnológico, voltado para o controle da matéria no espaço e no tempo, não
tem, em si, nenhuma legitimidade. Propomos dois novos eixos para pensar essa legitimidade: o
tempo da educação e o espaço da participação política. Para melhorar essa participação, temos
que gerar um espaço de protagonismo social em que os outros atores possam interagir com os
cientistas. O especialista tem uma função consultiva importante, um compromisso de indicar as
possibilidades, mas não a prerrogativa de ditar os rumos. Com a ajuda dele, o leigo poderia ter
a possibilidade democrática de decidir o futuro. Mas isso não acontece. Na nossa organização
estamos excluídos de todas as decisões tecnológicas. Não temos o espaço da participação política.

Agência FAPESP – E quanto ao tempo da educação?

Molina – Levamos tempo para educar alguém a ser crítico com a tecnologia e a conhecer sua
própria capacidade de decisão e sua autonomia de criatividade. Essa é a dimensão do tempo
da educação. Temos que introduzir essa discussão na escola inicial, porque ali as crianças
já têm celular, videogames e muitas possibilidades tecnológicas. Seria importante começar
a combater cedo a ideia introjetada de que a ciência é apolítica. Ao superar as ideias de
T neutralidade e determinismo do desenvolvimento tecnocientífico, só nos restará a possibilidade
E
O de um desenvolvimento político, democrático, com participação cidadã. Mas esse cidadão
R
I crítico ainda não existe, daí a importância dessa dimensão da educação.
A

D
A Agência FAPESP – Ainda estamos muito distantes da formação desse cidadão crítico?
H
I
S Molina – Talvez nem tanto. Podemos pensar no que aconteceu com a cultura ecológica. As crianças
T
Ó e as novas gerações já colocam o problema ecológico de forma mais prioritária. Isso ocorreu,
R
I entre outros fatores, porque a ecologia começou a ser apresentada às crianças de forma muito
A
forte, desde a escola inicial. Acho que poderia acontecer o mesmo com o problema tecnológico.
E
Para isso temos que começar a refletir com mais clareza sobre lixo tecnológico, obsolescência
H
I planejada, qualidade tecnológica, durabilidade, tecnologias para o futuro, tecnologias sustentáveis,
S
T tecnologias adequadas aos problemas – e não apenas ao consumo em massa – e tecnologias
O
R customizadas, que não impõem uma única solução, como se fôssemos todos iguais.
I
O
G FONTE: Disponível em: <http://www.revistadehistoria.com.br/secao/artigos/falsa-neutralidade>.
R
A
Acesso em: 30 jan. 2016.
F
I
A
UNIDADE 1 TÓPICO 3 61

RESUMO DO TÓPICO 3

Nesse tópico, você aprendeu que:

• O historicismo defendia que o historiador deveria suprimir a imaginação e a subjetividade; se


dedicar exclusivamente a pesquisar, reunir e classificar documentos; a partir disso identificar
a origem das fontes, determinar a natureza dos fatos em questão e suceder uma narrativa
ordenada e coerente.

• O pensamento historicista privilegiava as fontes documentais escritas oriundas de


instituições oficiais do Estado, relatórios de diplomacia, militares, estatísticas econômicas e
os historiadores deveriam somente descrever os conteúdos que comportavam.

• Para o historicismo a história representava uma ciência do passado, os estudos concentravam-


se em temas da antiguidade e Idade Média, e no fazer metodológico deveria estar amparado
em ciências como a paleografia, numismática e a paleografia.

• Leopold von Ranke defendeu o uso de método científico na história e identificava-se com as
ciências sociais que indicavam a abordagem generalista para fatos e fenômenos históricos
e, ao mesmo tempo rejeitava o idealismo filosófico proposto por Hegel.
T
E
• Para os estudiosos do historicismo a objetividade na história seria alcançada com a estratégia O
R
do recuo temporal, ou seja, debruçar-se em temos de épocas remotas, distantes do tempo I
A
presente (estudiosos da época moderna estudando antiguidade e Idade Média).
D
A
• Rüsen defende que a objetividade e/ou a parcialidade só pode ser alcançada se o H
I
conhecimento for refletido especificamente ao ponto de vista que integra tanto o seu ponto S
T
de vista do historiador como os interesses que se encontram no contexto político. Ó
R
I
A

H
I
S
T
O
R
I
O
G
R
A
F
I
A
62 TÓPICO 3 UNIDADE 1


IDADE
ATIV
AUTO

1 Leopold Von Ranke (1795-1886) foi um dos historiadores fundamentes do movimento


do historicismo que prevaleceu na segunda metade do longo do século XIX. Com
relação às principais teorias defendidas em meio ao historicismo e por Ranke é correto
afirmar que:
I- O empirismo prevaleceu em meio aos pressupostos teórico-metodológicos do
historicismo, que por sua vez, consideravam que os fenômenos e os fatos históricos
deveriam ser deduzidos os conhecimentos históricos.
II- Ranke defendeu que o historiador possuía autonomia e liberdade no sentido de optar
ou pela história erudita ou pelo romance histórico, pois ambos possuíam elementos
de cientificidade e verdade histórica.
III- Ranke e os demais empiristas dedicaram-se aos estudos de inventários, organização
e arquivamento de documentos, história dos feitos políticos e diplomáticos e da origem
histórica das nações europeias.
IV- Os historicistas censuravam a ideia de subjetividade na historiografia, bem como
julgamentos morais e políticos, com isso acreditavam conferir teor de neutralidade e
imparcialidade ao conhecimento histórico.

T Agora assinale a alternativa correta:


E
O a) As alternativas I, II e III estão corretas.
R
I b) As alternativas I, II e IV estão corretas.
A
c) Apenas as alternativas II e III estão corretas.
D
A d) Apenas as alternativas I, III e IV estão corretas.
H
I
S
2 Na tabela a seguir responda aos principais elementos que compunham a tradição de
T
Ó
pensamento do historicismo:
R
I
A VARIÁVEIS HISTORICISMO:
E
NOÇÃO DE TEMPO
H
I FONTES HISTÓRICAS
S
T PAPEL/POSTURA DO HISTORIADOR
O
R O QUE É HISTÓRIA?
I
O
G
R
A
F
I
A
UNIDADE 1 TÓPICO 3 63

IAÇÃO
AVAL

Prezado(a) acadêmico(a), agora que chegamos ao final


da Unidade 1, você deverá fazer a Avaliação referente a esta
unidade.

T
E
O
R
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64 TÓPICO 3 UNIDADE 1

T
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O
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A
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I
A
UNIDADE 2

O PENSAMENTO HISTÓRICO A PARTIR


DO SÉCULO XIX

Objetivos de aprendizagem

Esta unidade tem por objetivos:


 apresentar as principais tendências historiográficas que
prevaleceram em meio à produção do conhecimento histórico
ocidental ao longo dos séculos XIX e XX;

 discutir elementos do contexto histórico, político, social e cultural


dos séculos XIX e XX no sentido de identificar como estes
influenciaram e impactaram toda a historiografia;

 situar autores, as respectivas obras e as contribuições destes à


historiografia de cada momento histórico;

 relacionar as principais concepções metodológicas, as tipologias


de fontes, os conceitos de História, as noções de tempo histórico,
o sentido e função que foi atribuído ao conhecimento histórico;

 identificar as heranças teóricas e metodológicas, as continuidades,


ampliações, rupturas e mudanças que determinados autores T
apresentaram e alcançaram com suas produções. E
O
R
I
A
PLANO DE ESTUDOS D
A
Ao longo da discussão dos temas no interior de cada tópico de H
I
estudos serão relacionadas sugestões de materiais e referências no S
T
sentido de ampliar e potencializar os conteúdos estudados. No final de Ó
R
cada tópico encontra-se o resumo e estão relacionadas autoatividades I
A
que visam à fixação e compreensão dos conteúdos estudados.
E

H
TÓPICO 1 – A TRADIÇÃO HISTORIOGRÁFICA NO I
S
SÉCULO XIX: ALGUNS EXEMPLOS T
O
TÓPICO 2 – A HISTORIOGRAFIA DO SÉCULO XX R
I
O
TÓPICO 3 – AS PRINCIPAIS TENDÊNCIAS DO G
SÉCULO XXI R
A
F
I
A
T
E
O
R
I
A

D
A

H
I
S
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A
UNIDADE 2

TÓPICO 1

A TRADIÇÃO HISTORIOGRÁFICA NO
SÉCULO XIX: ALGUNS EXEMPLOS

1 INTRODUÇÃO

A História como ciência foi reconhecida no final do século XIX, no ano de 1880, em
meio a um contexto em que predominou a força de trabalho livre e assalariado, da organização
racional do trabalho, da legitimação do Estado Moderno, da profissionalização da atividade
política e burocrática, da autonomização e emancipação da ciência e da arte, da secularização
da sociedade, da concorrência por hegemonia de nações/países sobre outras, do crescimento
das forças produtivas, entre outros aspectos.

O ímpeto do homem moderno foi o de ser capaz de decidir sobre a sociedade, de projetar
e garantir sua plena realização e alcançar a imortalidade na terra. Na tentativa de alcançar
T
tal façanha, estabelece profundas discussões no campo da cultura procurando desfazer a E
O
legitimidade do senso comum e das tradições, em favor do progresso da ciência, da liberdade R
I
e da revolução. (DIEHL, TEDESCO, 2001). A

D
A
Em termos teóricos e epistemológicos, a ciência moderna instaurou o regime dúvida, de
H
suspeita, de dicotomias, de contrastes e de aperfeiçoamentos evolutivos, tecendo interpretações I
S
e relações de oposição entre comunidade e sociedade, objetividade e subjetividade, moralidade T
Ó
e contratualidade, economia e natureza, indivíduo e institucionalização, racionalidade e R
I
encantamento, normatização e liberdade, público e privado, macro e micro. A

Caro(a) acadêmico(a)! Ciente disto, o(a) convidamos a refletir diante da seguinte afirmação H
I
de Michel de Certeau: “A prática histórica é totalmente relativa à estrutura da sociedade”. S
T
O
R
Partindo de que a afirmação possui coerência e teor de verificação significativo, indaga- I
O
se: Como o perfil da sociedade, da ciência, da política, da economia do século XIX influenciou G
R
a produção do conhecimento histórico? A
F
I
A
68 TÓPICO 1 UNIDADE 2

Agora, de outra forma, pensando no sentido de que a História pode manifestar-se


de forma autônoma e até apresentar-se de forma rebelde/revolta, pergunta-se: Como o
conhecimento histórico se comportou diante das necessidades e expectativas da sociedade
do século XIX?

Prossiga na leitura do texto, que ao longo deste procurou-se apresentar, de forma


resumida e introdutória, alguns dos principais autores que foram responsáveis pela produção
do conhecimento histórico no contexto social do século XIX, o que tornará possível reunir
elementos e aspectos que lhe ajudarão na resolução das questões colocadas anteriormente.

2 SÉCULO XIX: QUAL HISTÓRIA?

Prevaleceu um fazer histórico que se preocupava com os temas da diplomacia,


relações entre países e nações; em criar normas e sistemas de organização de arquivamento
e organização de documentos oriundos das instituições oficiais do Estado; prescrever cuidados
que deveriam ser tomados no transporte, no armazenamento e na exposição de relíquias, itens
e objetos que possuíam valor histórico excepcional ou que ilustravam de eventos, fatos e feitos
de personalidades políticas, de governos e da oficialidade.

Os historiadores voltavam-se para revisitar e estudar épocas de grandes impérios e


reinos feitas em meio a gabinetes, arquivos públicos e oficiais com documentos chancelados
pelos mesmos. Uma história e um historiador comprometidos em dar conta de procedimentos
T
E metodológicos, tais como a eurística e crítica documental e das fontes de pesquisa. Interrogavam-
O
R se basicamente sobre a veracidade, a autenticidade, a procedência do material que tinham
I
A em mãos e diante dos olhos.
D
A
A historiografia acabava por colaborar com o pensamento chauvinista, uma espécie de
H
I nacionalismo exagerado, que foi fomentado em meio à população no sentido de consolidar os
S
T processos de unificação política de nações, como por exemplo, da Alemanha e da Itália. Entre
Ó
R os estudiosos que estiveram escrevendo suas obras e escrevendo a História neste período,
I
A podem-se destacar: Leopold Ranke, Jacob Burckhardt, Jules Michelet, Fustel de Coulanges,
E Edward Gibbon, Max Weber, Johann Droysen, entre outros. A seguir procuramos ilustrar as
H contribuições desses autores à teoria da História e à historiografia daquela época e aos tempos
I
S que se sucederam.
T
O
R
I
O
G
R
A
F
I
A
UNIDADE 2 TÓPICO 1 69

3 JULES MICHELET

O verdadeiro historiador é um homem simples que busca a verdade.

Jules Michelet

Jules Michelet (1789-1874) era filósofo e historiador francês, filho de uma família de
tradição huguenote que atuava com impressão. Foi um estudioso que além de estudar temas
como questões nacionais e de identidade, dedicou-se à história de bruxas, do irracional, da
heresia, se solidarizava com os negligenciados e pela cultura popular.

Michelet nasceu no ano em que estourou a Revolução Francesa e mais tarde quando já se
encontrava atuando como historiador, ele afirmava que a França não possuía História, e assumiu
para si esta tarefa. Michelet procurou dar conta dela numa espécie de dedicação sacerdotal, que
buscava ressuscitar as vozes dos ancestrais que já se encontravam sepultados, numa tentativa
de reacender as cinzas apagadas, observe: “Há!, minha grande França, se fosse preciso, para
reencontrar tua vida, que um homem se doasse, passasse e repassasse muitas vezes o reino
dos mortos, ele se consolaria com isso, ele ainda te agradeceria”. (MICHELET, 1962, p. 62).

A narrativa de Michelet também se apresenta carregada pelos emblemas do cristianismo,


expressões tais como a ‘encarnação’ e ‘paixão’ são transferidas à nação e ao povo; em especial
ao povo, em torno do qual reside toda a centralidade de sua narrativa, que o coloca como
T
protagonista primordial em meio à Revolução Francesa. E
O
R
I
A

UNI D
A

H
Cara(o) acadêmica(o)! Observe o tom narrativo, chauvinista e I
nacionalista que Michelet apregoava a seus escritos na seguinte S
T
passagem: “O que há de mais simples, de mais natural, de mais Ó
artificial, quer dizer de menos fatal, de mais humano e de mais R
livre no mundo, é a Europa; de mais europeia, é minha pátria, é I
A
a França”. (MICHELET, 1962, p. 62).
E

H
I
Michelet defendia que a História deveria surgir e emergir de um lugar imaginário e S
T
fantasmático por excelência, isto é, o corpo humano; numa espécie de edificação e ressurreição O
R
lírica dos corpos passados, de fantasmas, cuja narrativa deveria expressar a interminável luta I
O
que se dava “do homem contra a natureza, do espírito contra a matéria”. (MICHELET, 1962). G
R
A
F
[...] o método histórico é frequentemente o oposto da arte propriamente lite- I
rária. O escritor ocupado em aumentar os efeitos, em colocar as coisas em A
70 TÓPICO 1 UNIDADE 2

destaque, quase sempre gosta de surpreender, agarrar o leitor, fazê-lo gritar:


‘Ah!’ Ele fica feliz se o acontecimento natural parece um milagre. Ao contrário, o
historiador tem por missão especial explicar o que parece milagre, cercar seus
precedentes, as circunstâncias que o conduzem, trazê-lo de volta à natureza.
Aqui, devo lhe dizer, eu tive o mérito. Admirando, amando esta personalidade
sublime, mostrei em que ponto ela era natural. (MICHELET, 1974, p. 23).

Dosse (2003) avalia que Michelet sugeria uma narrativa histórica tecida como uma
invocação e sopro épico, com fortes matizes de paixão dramática e literária, enriquecida com
a utilização frequente de métodos quantitativos, bem como pretendia criar uma história total,
reunindo todos os aspectos da realidade em um mesmo movimento.

Entre outras obras encontram-se: Origens do direito francês (1837); História romana:


república (1839); O Processo dos Templiers (1841); Do padre, da mulher e da família (1844),
O povo (1845), Joana D´Arc.

4 FUSTEL DE COULANGES

Outro exemplo é o francês Numa Denis Fustel de Coulanges (1830-1889), que estudou
a história do antigo Império Romano na tentativa de reconhecer as raízes da França. Sua
principal obra é A cidade antiga (1864) e os historiadores sucessores, da geração dos Annales,
a reconhecem como sendo uma obra da História Social.

Fustel de Coulanges recomenda ao historiador interessado em ressuscitar


T
E uma época que esqueça tudo o que sabe sobre fases posteriores da história.
O Impossível caracterizar melhor o método com o qual rompeu o materialismo
R histórico. Esse método é o da empatia. Sua origem é a inércia do coração, a
I
A acedia, que desespera de apropriar-se da verdadeira imagem histórica, em
seu relampejar fugaz. (BENJAMIN, Tese VII, 1987).
D
A

H Coulanges foi um estudioso que reclamou para que o historiador se debruce numa
I
S operação delicada sobre os documentos e ao tratamento que estes carecem, mas apontava
T
Ó que o levantamento, a leitura e a interpretação da história devia conter-se a simples restituição
R
I dos documentos.
A

E
A contingência e toda a bagagem subjetiva do historiador deveria ser banida, que se
H
I dedicando ao método indutivo, totalmente entregue e dedicado ao texto, segundo ele, o melhor
S
T historiador seria aquele que se fixa nos textos, que os interpreta com mais justeza, exatidão;
O
R e que era preciso que ele só escrevesse e pensasse segundo os textos.
I
O
G
R
A
F
I
A
UNIDADE 2 TÓPICO 1 71

5 JOHANN GUSTAV DROYSEN

Droysen (1808-1884) natural da Pomerânia, foi estudante de Hegel, escreveu a História


da política prussiana (1855-1856), História do Helenismo (1877-1878), mas a principal obra de
Droysen é o Manual de teoria da história.

Em seus estudos apresentava que a arte e a cultura podem desenvolver-se num caminho
comum e defendia que o saber histórico deve conter uma fundamentação metodológica rigorosa
e autônoma das demais ciências.

Apresentava que o historiador e a História deveriam dedicar-se ao conhecimento e


‘compreensão’ das ‘individualidades’, e que diante isto fazia com o conhecimento histórico
deveria ser pensado de forma separada do conhecimento científico, pois este almejava as
‘generalidades’ e que é de caráter ‘explicativo’. Observe a ilustração da citação a seguir:

O propósito da história não pode ser nem oferecer modelos para a imitação,
nem fornecer regras a serem repetidamente aplicadas. [...] O que a história
conduz à alma, formando-a, é um modelo do essencial, do decisivo, do po-
deroso; é essa força dos grandes pontos de vista. Com isso, a alma se eleva
sobre as pequeninas particularidades, aprende a se sentir grande e a pensar
a partir do eu da humanidade. (DROYSEN apud ASSIS, 2014).

Segundo Droysen, a operação historiográfica deve começar com uma pergunta, e


seguir o percurso do reconhecimento dos traços do passado no presente, nas lembranças, nos
esquecimentos, nos vestígios. Por conseguinte, dever-se-ia avançar no sentido da compreensão T
E
da historicidade, pensar histórica e teleologicamente, na intenção de captar o passado no O
R
presente e a partir destes recursos ousar vislumbrar o futuro. Droysen (apud ASSIS) já alertava I
A
que o olhar do presente nunca é estático, encontra-se em constante avaliação e reflexão e que
D
se fazia necessário buscar e elaborar os sentidos do passado. A

H
I
Identifica-se aqui já uma forte crítica ao positivismo historiográfico que vigorava na época. S
T
Para Droysen a partir da compreensão do passado, a pesquisa histórica poderia fornecer uma Ó
R
interpretação da realidade presente. O autor apresentou elementos que também são recorrentes I
A
nos escritos de Weber e mais recentemente reforçados nas teorizações Rusen, autores que
E
serão abordados ao longo desta unidade.
H
I
S
T
O
R
I
6 JACOB BUCKHARDT O
G
R
A
Buckhardt (1818-1897) foi um estudioso francês que se dedicou a estudar a História da F
I
alta cultura no Renascimento e do Iluminismo. ‘Civilização da renascença na Itália’, inspirando A
72 TÓPICO 1 UNIDADE 2

em meio aos seus leitores o amor e a paixão pelas obras e pelos gênios artísticos da época
do Renascimento, literatura que favorecia a legitimação dos mais novos grupos sociais, agora
os burgueses industriais e não mais os burgueses comerciantes de outrora. “As fontes da
abundância criadora dos gênios nada mais são do que a grandiosa energia sobre-humana
neles, ativa, que após cada progresso obtido, documenta o poderio e a vontade expressiva de
seu espírito inquieto e poliédrico”. (BURCKHARDT, 1961, p. 233).

Para Burckhardt, quando da hegemonia do movimento cultural é que se dá o momento


pleno do desenvolvimento do ser humano, caminho pelo qual o ser humano alcançaria realizar
os maiores desejos, tais como a igualdade e a liberdade. Nesse sentido o autor defende que o
Estado deve ser a grande referência e o responsável por propiciar tais recursos aos indivíduos,
como é possível identificar na passagem abaixo:

A missão do Estado grande é a de realizar grandes feitos históricos, a fim de


manter e assegurar a sobrevivência de certas culturas que sucumbiram de
outro modo, de fazer avançar certos componentes passivos de sua população,
que se atrofiaram se entregues a si mesmos, formando Estados minúsculos
e, finalmente, de estruturar e desenvolver grandes energias coletivas. O es-
tado pequeno existe a fim de que haja um pequeno espaço sobre a face da
Terra no qual a maior parcela possível de pessoas pertencentes à mesma
nacionalidade sejam cidadãos desse Estado no sentido mais pleno do termo.
(BURCKHARDT, 1961, p. 39-40).

Conforme Burke (1995), o fazer histórico de Burckhardt centrou-se na atividade de


descrever as tendências em meio a um contexto histórico e social ou artístico, ultrapassando
a narrativa pura e simples de fatos políticos e do Estado, conferindo à interpretação da história
uma mobilidade, dinâmica e mutabilidade que rompe com a mera cronologia e sequenciamento
T
E coerente dos fatos; ou seja, descredencia a noção de linearidade e progresso, que era tão
O
R reclamada pelos historiadores contemporâneos a ele; potencial que foi reconhecido e identificado
I
A pelos historiadores que o sucederam e o revisitaram a partir Escola dos Annales no final dos
D anos de 1920. Observe a citação a seguir:
A
Salientamos ainda que renunciamos a qualquer sistematicidade, não é nossa
H
I ambição formular ideias sobre a História mundial, satisfazemo-nos com obser-
S vações genéricas da História, em tantas direções quanto possíveis. Fique bem
T claro que não nos propomos absolutamente a fazer uma Filosofia da História
Ó
R (BURCKHARDT, 1961, p. 10).
I
A

E Outra obra importante de Buckhardt é a ‘História da civilização grega’, que perpassa


H
as leituras que a influência do filósofo Schopenhauer (1788-1860) exerciam sobre o autor,
I
S
em que se dedica a revelar aspectos de uma cultura helênica grega que se caracterizam em
T
O
contraponto às concepções de harmonia, serenidade, equilíbrio, racionalidade, tais como o
R
I
pessimismo nas peças de teatro de Sófocles, o desespero na história de Tucídides e a angústia
O filosófica de Platão.
G
R
A
F Buckhardt queixa-se nesta obra também das transformações que a vida na cidade, polis,
I
A
UNIDADE 2 TÓPICO 1 73

impunha aos indivíduos, tais como a demagogia política e social, ao invés de uma democracia
real e universal, agravada pelo processo de racionalização do pensamento e pelo distanciamento
dos fundamentos e regulações religiosas e das tradições.

7 MAX WEBER

Weber (1864-1920), natural da cidade de Erfurt, Alemanha, foi considerado um dos


fundadores da sociologia moderna, se dedicou a estudos em filosofia, economia, direito, história,
ciência política e administração.

O contexto que perpassou em sua obra foi o da burocratização, a rotinização,


administração racional-legal, que conduziria a uma euforia otimista em relação ao futuro
da humanidade. O avanço da racionalidade das relações sociais e econômicas acaba
enclausurando o homem na ‘jaula de submissão do futuro’ ou ‘conferindo ao homem uma
experiência de mundo semelhante a uma noite gélida em que se percebia em plena ‘morte
térmica’, que segundo Weber, só poderia ser superada pelo ‘carisma’.

Weber contribuiu juntamente com os estudos de Karl Marx quando se propunha discutir o
processo de secularização da sociedade via racionalização do pensamento, da industrialização
da produção e das relações de trabalho, que por sua vez levaria à substituição da tradição
das referências religiosas e comunitárias pela autoridade do Estado moderno, do positivismo
e noção de progresso linear.
T
E
O
Weber defendeu que a pesquisa histórica era essencial para a compreensão das R
I
sociedades, combinava as perspectivas de que cabia à pesquisa histórica tratar do que é A

particular, daquilo que permitiria identificar na sua peculiaridade uma configuração cultural e D
A
buscar explicações causais para a particularidade e sugeria o método compreensivo como
H
um esforço interpretativo do passado e de sua repercussão nas sociedades contemporâneas. I
S
T
A Sociologia constrói – o que já foi pressuposto várias vezes como óbvio – con- Ó
ceitos de tipos e procura regras gerais dos acontecimentos. Nisso contrapõe-se R
à História, que busca a análise e interpretação causal das ações, formações e I
A
personalidades individuais culturalmente importantes. (WEBER, 1991, p. 12).
E

H
A defesa de Weber estava em um método comparativo que permitisse trazer à tona I
S
o que é ‘peculiar’ e ‘singular’ a cada época histórica. Outra contribuição seria a de que cada T
interpretação histórica para um interesse contemporâneo, ultrapassando a noção de simples O
R
descrição de fatos preestabelecidos, e numa abordagem que contemplasse as ligações lógicas I
O
dos fenômenos históricos sobre os valores culturais. G
R
A
F
Diehl (1996) aponta que as proposições de Weber à História estão no sentido de I
A
74 TÓPICO 1 UNIDADE 2

romper com os métodos históricos historicistas, que versavam de que o historiador apenas
podia compreender épocas passadas por meio do arsenal informativo que estaria registrado
nas próprias fontes.

Foi um intelectual com forte influência nos meios políticos de sua época, participou como
delegado quando da reunião do tratado de Versalhes após o término da 1ª Guerra Mundial e
foi um dos principais redatores da constituição da República de Weimar. As principais obras
de Max Weber são: Ética protestante e o espírito do capitalismo, A política como vocação e
Economia e Sociedade.

8 FRIEDRICH NIETZSCHE

Nietzsche (1844-1900), nascido em família em que o pai foi pastor protestante alemão,
estudou filosofia clássica, leitor de Arthur Schopenhauer (1788-1860) e dedicou-se aos estudos à
compreensão do mundo grego, em especial em problematizar a imagem tradicional da serenidade
clássica, e propondo que se tratava de uma síntese do conflito entre a sobriedade apolínea
(Apolo) e a ebriedade dionisíaca (Dionísio). Nietzsche defendeu que o espírito da tragédia era
oriundo da falta de capacidade de conciliação entre ambas as forças (sobriedade e ebriedade).

Nietzsche preocupou-se em discutir ‘a morte de Deus’ pelo viés da racionalização e do


niilismo, e em debater o aparecimento do super-homem, um indivíduo além do homem que se
apresentava em sua época, que precisa deixar para trás o peso do passado e os vínculos doentes
T
E da moral comum e conseguir viver a realidade de modo ‘afirmativo’, que aprendeu a ‘querer’, a
O
R dizer sim, e que encontrou no caráter terrestre de seu ser homem, que reconhecia que na raiz
I
A de todas as coisas residia a ‘vontade’ e que este deveria ‘tornar-se aquilo o que realmente era’.
D
A
Outro ponto de discussão de Nietzsche foi o das intenções da moral (religiosa, política,
H
I social e científica) em voga que foi o de reclamar e buscar pelos mitos de origem que a
S
T legitimassem, reconhecendo que residia na História a possibilidade de superar estes estigmas.
Ó
R
I
A Observe na passagem que se apresenta a seguir:
E
A história ensina a rir das solenidades da origem. A alta origem é o exagero me-
H tafísico que reaparece na concepção de que no começo de todas se encontra
I
S o que há de mais precioso e de mais essencial. Gosta-se de acreditar que as
T coisas em seu início se encontravam em estado de perfeição; que elas saíram
O brilhantes das mãos do criador, ou na luz sem sombra da primeira manhã.
R
I [...] Fazer a genealogia dos valores, da moral, do ascetismo, do conhecimen-
O to não será, portanto, partir em busca de sua ‘origem’ negligenciando como
G
R
inacessíveis todos os episódios da história; será ao contrário, se demorar nas
A meticulosidades e nos acasos dos começos; prestar uma atenção escrupulosa
F à sua derrisória maldade; esperar vê-los surgir, máscaras enfim retiradas, com o
I
A
rosto do outro; não ter pudor de ir procurá-las lá onde elas estão. [...]. É preciso
UNIDADE 2 TÓPICO 1 75

saber reconhecer os acontecimentos da história, seus abalos, suas surpresas,


as vacilantes vitórias, as derrotas mal digeridas, que dão conta dos ativismos
e das hereditariedades. (NIETZSCHE apud FOUCAULT, 1979, p. 18-19).

Neste momento, Nietzsche em seus estudos, já prestava seu senso crítico à História
quando abordava o ‘mito da origem’ questão que se encontrava em voga no final do século
XIX e que acabava por justificar as buscas desesperadas pelas genealogias familiares, as
campanhas nacionalistas, e as práticas de chauvinismo e imperialismo, assim como é possível
atualizar a discussão no momento presente em meio aos contextos em que se desenrolaram
conflitos étnico-sociais e até religiosos.

As principais obras do pensador são: ‘O nascimento da tragédia’ (1872), ‘Assim falou


Zaratustra’, ‘Humano Demasiado Humano’, ‘Aurora’, ‘A gaia ciência’, ‘A genealogia da moral’,
‘O Anticristo’, ‘Ecce homo’, ‘Além do bem e do mal’.

9 CHARLES-VICTOR LANGLOIS (1863- 1929) E CHARLES


SEIGNOBOS (1854- 1942)

A História nada mais é do que o trabalho dos documentos.


Langlois e Seignobos

A obra primordial destes autores foi ‘A introdução aos estudos históricos’ (1898), que
foi considerado texto manifesto da escola metódica. Nele, encontra-se a militância por uma
História que fosse dotada de rigor científico, que deveria primar por acontecimentos políticos, T
E
conhecimentos cívicos e oficiais. Estes estudiosos priorizam o uso dos documentos escritos, O
R
e deixaram em segundo plano os fenômenos singulares, individuais e únicos. Procuravam I
A
reconstruir tramas políticas e militares acidentais, sem relação de causalidade alguma.
D
A
A produção do conhecimento histórico deveria observar quatro procedimentos H
I
metodológicos básicos: o de reunir e classificar documentos e fontes; proceder a crítica interna S
T
dos mesmos; proceder ao encadeamento dos fatos, e por fim organizá-los através de uma Ó
construção lógica. R
I
A

Conforme sugerem Souza & Klanovikz (2012), os documentos oficiais oriundos de E

arquivos seriam a máxima expressão da objetividade dos interesses de estado, e das realizações H
I
político-administrativo-burocráticas, reafirmando, também, sua importância na vida pública de S
T
nações ou de grupos sociais, dos cidadãos e indivíduos modernos. O
R
I
O
O historiador deveria atribuir a estes documentos um tratamento semelhante a um G
R
inquérito, que se daria em nível e ordem interna e externa, no sentido de verificar a autenticidade A
F
e a validade deles. Para tanto, na heurística interna, o historiador deveria buscar analisar I
A
76 TÓPICO 1 UNIDADE 2

pormenorizadamente a constituição do documento por si, sua forma, sua estética, seu discurso,
sua construção em sentido restrito. Na heurística externa, a sua validade levando-se em conta
a relação existente com outros documentos, com as instituições originárias, com a época e
local de formulação.

Dosse (2003a) apresenta que Langlois e Seignobos recusaram-se a prestar o trabalho


de reflexão teórica no ofício de historiadores, e reduziram o papel da História à coleta de fatos,
atitudes e posturas que colaboram à passividade do historiador no fazer histórico.

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UNIDADE 2 TÓPICO 1 77

RESUMO DO TÓPICO 1

• No final do século XIX, a História se tornou uma disciplina da ciência, das políticas imperialistas
de governo, consolidação da economia capitalista, da produção industrial, da secularização
da sociedade e do cientificismo.

• A história que foi produzida ao longo do século XIX caracterizou-se por prezar questões
de verificação da veracidade e origem, formas de transporte, técnicas de arquivamento de
documentos, relíquias que pertenciam a personalidades políticas e ou à história das nações.

• Os historiadores que se destacaram na produção da História do século XX foram: Leopold


von Ranke, Jules Michelet, Fustel de Coulanges, Jacob Burckhardt, Edward Gibbon, Max
Weber e Johann Droysen.

• Jules Michelet se dedicou ao estudo da cultura popular, procurando saber das histórias de
hereges, bruxas, do povo francês e com a História da França. A narrativa de Michelet se
caracterizava por narrativas que evocavam o imaginário cristão, possuíam lirismo dramático
e poético e com forte tom épico.

• Fustel de Coulanges militou por uma história mais sóbria, completamente dedicada ao texto,
cuja interpretação nada acrescentou aos fatos e documentos, ou seja, que o historiador T
E
controla sua subjetividade. O
R
I
A
• Johann G. Droysen defendeu que o saber histórico deve conter fundamentação metodológica
D
rigorosa e autônoma das demais ciências. Uma pergunta deveria motivar o reconhecimento A
dos traços do passado no presente, nas lembranças, nos esquecimentos, nos vestígios; e H
I
a partir destes recursos ousar vislumbrar o futuro. S
T
Ó
R
• Jacob Buckhardt dedicou-se ao estudo das artes da renascença italiana, no sentido de I
A
descrever as tendências que perpassavam a produção artística e filiação que as mesmas
E
possuíam em meio aos contextos socioculturais.
H
I
S
• Max Weber se dedicou aos estudos da sociedade em processo de racionalização e T
secularização do estado moderno, da relação que a economia capitalista estabeleceu com O
R
as comunidades religiosas protestantes. I
O
G
R
• Friedrich Nietzsche foi estudioso crítico da antiguidade clássica para os conceitos de ‘serenidade’ A
F
e ‘tragédia’; reclamava que o homem deixasse para traz as concepções de um passado heroico I
A
78 TÓPICO 1 UNIDADE 2

e as lições morais e assumisse de frente os impasses e os desafios de sua época.

• Langlois e Seignobos defendiam uma ciência histórica que primasse por temas políticos,
militares e cívicos; por documentos escritos e que fossem oriundos de instâncias oficiais,
sem estabelecer relações de causalidade e dependência entre eles.

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UNIDADE 2 TÓPICO 1 79


IDADE
ATIV
AUTO

1 Michel de Certeau defende que a prática histórica, ou seja, o conhecimento histórico


é totalmente relativo à estrutura da sociedade. Partindo da concepção de que esta
premissa é verdadeira, com relação à tradição da produção do conhecimento histórico
do final século do XIX é possível afirmar que:
I- Foi um momento em que a História buscou aproximação com as demais áreas do
conhecimento, tais como a filosofia de Hegel e Kant, e a sociologia positivista de
Weber e Marx.
II- A historiografia preocupava-se com os temas de história política, diplomacia, pois as
nações europeias empreendiam políticas de imperialismo nas relações internacionais, o
que favoreceu a formação de um pensamento de forte cunho nacionalista/chauvinista.
III- Os historiadores centravam seus trabalhos em procedimentos metodológicos, tais
como a eurística e crítica documental e das fontes de pesquisa, em que procuravam
verificar a autenticidade e a procedência das mesmas.
IV- Os historiadores eram solicitados sobre orientações que deveriam ser tomados no
transporte, no armazenamento e na exposição de itens e objetos que possuíam valor
histórico excepcional ou que ilustravam eventos, fatos e feitos de personalidades
políticas, de governos e da oficialidade.
T
E
Agora assinale a alternativa correta: O
R
a) As afirmativas I e II estão corretas. I
A
b) As afirmativas II, III e IV estão corretas.
D
c) As afirmativas I, III e IV estão corretas. A
d) A afirmativas III e IV estão corretas. H
I
S
T
2 Com relação aos principais pensadores e a sua contribuição à produção do Ó
conhecimento histórico do final do século XIX, procure reconhecer o pensamento de R
I
cada um e relacionar corretamente a primeira coluna com a segunda. A

(1) Jules Michelet. E

(2) Fustel de Coulages. H


I
(3) Johann G. Droysen. S
T
(4) Jacob Buckhardt. O
R
( ) Dedicou-se aos estudos da história e da cultura helênica, da arte e o movimento I
O
cultural da época renascentista, e fazia ampla defesa que o Estado deveria fomentar G
R
a pesquisa histórica. A
F
I
A
80 TÓPICO 1 UNIDADE 2

( ) Defendeu que o historiador deveria manter-se imparcial e objetivo diante do


conhecimento que estava narrando, e somente restringir-se à restituição dos
documentos.
( ) Defendeu que a história deveria apresentar um caminho metodológico próprio e
rigoroso, autônomo das demais ciências, e prezar pelas individualidades e evitar
as generalidades.
( ) Foi um estudioso apaixonado pela História da França; defendia que o historiador
deveria esforçar-se no sentido de narrar a história de forma épica e dramática, no
sentido de conferir vida honrosa aos ancestrais.

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TÓPICO 2

A HISTORIOGRAFIA DO SÉCULO XX

1 INTRODUÇÃO

Neste tópico do nosso Caderno de Estudos vamos estudar Walter Benjamin; Theodor
Adorno; a Escola de Frankfurt; a nova esquerda inglesa; a historiografia latino-americana; a
tradição dos Annales e o caso de Michel Foucault. Bons estudos!

2 A ESCOLA DE FRANKFURT

Foi um grupo de estudiosos que na primeira metade do século XX encontrava-se T


E
congregado junto ao Instituto de Pesquisa Social da Universidade de Frankfurt. Possuem forte O
R
influência marxista, mas não se resumiam aos dogmatismos e ao marxismo tradicional do I
A
século XIX, atuaram como críticos tanto das ideologias do capitalismo e liberalismo internacional
D
como do socialismo soviético, e o que os identificava com mais coerência era lançar mão de A

alternativas que promovessem o desenvolvimento e o bem-estar social. Para tanto inspiravam- H


I
se em um quadro teórico e metodológico amplo que combinava ao legado de estudiosos como S
T
Emanuel Kant, Hegel, Karl Marx, S. Freud, Max Weber e George Lukács. Ó
R
I
A
Na primeira leva de integrantes da Escola estavam Max Horkheimer, Theodor Adorno,
E
Herbert Marcuse, Friedrich Pollock e Erich Fromm. Na segunda geração participaram Jürgen
H
Habermas, Franz Neumann, Albrecht Wellmer, outros estudiosos como Walter Benjamin, I
S
Siegfried Kracauer, Karl A. Wittfogel participaram associando-se temporariamente ao Instituto. T
O
R
Cara(o) acadêmica(o)! A seguir procura-se apresentar o caso de Theodor Adorno e I
O
Walter Benjamin. Prossiga na leitura! G
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82 TÓPICO 2 UNIDADE 2

3 THEODOR ADORNO (1903-1969)

Theodor Adorno foi um sociólogo e compositor alemão. Entre as suas principais obras
está a ‘Minima Moralia’ (1945), ‘Dialética do esclarecimento’ (1947) e ‘Filosofia da nova música’
(1948), que escreveu em parceria com Horkheimer. Os temas centrais debatidos foram a
indústria cultural e a cultura de massa, quando esta nascia e articulava-se em meio aos sistemas
políticos e econômicos e às sociedades.

Para Adorno a razão se instrumentaliza e o que não se ajusta às medidas da


calculabilidade e da utilidade é suspeito para ela. Foi a lógica formal da grande escola de
uniformização, que ofereceu aos iluministas o esquema da calculabilidade. O pensar se coisifica
no processo automático, no fazer o homem compete com a máquina, que por sua vez ele próprio
produz para que esta possa finalmente substituí-lo. O Iluminismo deixou de lado a experiência
clássica de pensar o pensamento, a reflexão, a razão e se tornou uma ferramenta, um mero
instrumento auxiliar do aparato econômico. 

Quando Adorno discute as implicações da indústria cultural, o faz com certo entusiasmo,
de que em meio aos processos de violência e dominação, se criam as condições de galgar por
democracia e liberdade. Observe na passagem que segue:

O efeito do conjunto da indústria cultural é o de uma antidesmistificação, a de


um anti-iluminismo [anti-Aufklärung]; nela, como Horkheimer e eu dissemos,
a desmistificação, a Aufklärung, a saber a dominação técnica progressiva, se
T transforma em engodo das massas, isto é, em meios de tolher a sua consciência.
E
O Ela impede a formação de indivíduos autônomos, independentes, capazes de
R julgar e de decidir conscientemente. Mas estes constituem, contudo, a condi-
I
A
ção prévia de uma sociedade democrática, que não se poderia salvaguardar
e desabrochar senão através de homens não tutelados. Se as massas são
D injustamente difamadas do alto como tais, é também a própria indústria cultural
A
que as transforma nas massas que ela depois despreza, e impede de atingir a
H emancipação, para qual os próprios homens estariam tão maduros quanto as
I forças produtivas da época o permitiriam. (COHN apud ADORNO, 1971, p. 295).
S
T
Ó
R O Iluminismo ao mesmo tempo em que pretendia livrar os homens da dominação dos
I
A mitos para fazer deles senhores e livrar o mundo do feitiço, acabou por lhes aprisionar, pois
E no Iluminismo a razão se instrumentaliza, o pensar se coisifica, o homem deixou de lado a
H experiência clássica de pensar o pensamento, a reflexão, a razão se torna uma ferramenta,
I
S um mero instrumento auxiliar do aparato econômico.
T
O
R
I Outro tema a que Adorno se dedicou foi aos estudos das condições da música em
O
G sua época, reflexões que são sintetizadas no ensaio “O fetichismo na música e a regressão
R
A da audição”, em que almeja apontar as modificações que a percepção musical sofria a partir
F
I
A
UNIDADE 2 TÓPICO 2 83

da produção comercial padronizada (estandardizada) de cultura que se consolidava naquela


época, mudanças que por sua vez não repercutiam somente às questões de gosto, mas que
abalava a própria faculdade e capacidade de audição dos ouvintes.

4 WALTER BENJAMIN (1892-1940)

Precisamos da história, mas não como precisam dela os ociosos que passeiam no
jardim da ciência.
NIETZSCHE

O dom de despertar no passado as centelhas da esperança é privilégio exclusivo do


historiador convencido de que também os mortos não estarão em segurança se o inimigo
vencer. E esse inimigo não tem cessado de vencer.
BENJAMIN

Esta passagem de Nietzsche encontra-se citada na tese de nº 12, que Benjamin publica
intitulada “Sobre o conceito de História”. Benjamin é um homem do século XX, mas que acabou
de se despedir do século XIX, o século por excelência da modernidade. Walter Benjamin
recuperou na obra de Klee alguns pontos que podem servir à reflexão sobre o conceito de
história, de historiador, de indivíduo e cidadão em termos de consciência e agir diante de seu
momento histórico no qual nos encontramos e que foi gestado ao longo da modernidade. T
E
O
R
Benjamin (1987, p. 226) propõe a interpretação da obra de Klee nos seguintes aspectos: I
A
Há um quadro de Klee que se chama Angelus Novus. Representa um anjo que D
parece querer afastar-se de algo que ele encara fixamente. Seus olhos estão A
escancarados, sua boca dilatada, suas asas abertas. O anjo da história deve
H
ter esse aspecto. Seu rosto está dirigido para o passado. Onde nós vemos I
uma cadeia de acontecimentos, ele vê uma catástrofe única, que acumula S
incansavelmente ruína sobre ruína e as dispersa a nossos pés. Ele gostaria T
Ó
de deter-se para acordar os mortos e juntar fragmentos. Mas uma tempestade R
sopra do paraíso e prende-se em suas asas com tanta força que ele não pode I
A
mais fechá-las. Essa tempestade o impele irresistivelmente para o futuro, ao
qual ele vira as costas, enquanto o amontoado de ruínas cresce até o céu. E
Essa tempestade é o que chamamos de progresso.
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FIGURA 3 - ANGELUS NOVUS. PAUL KLEE, 1920

FONTE: Disponível em: <https://pt.wikipedia.org/wiki/Angelus_Novus#/


media/File:Klee,_paul,_angelus_novus,_1920.jpg>. Acesso em: 16
dez. 2015.

Tanto a obra de Paul Klee como o texto de Walter Benjamin expressam um anjo que
comporta a atribuição e o sentido de um anjo salvador/redentor diante da tragédia provocada
pela maré do progresso.

T No Angelus Novus percebe-se certo descaso em relação ao futuro, ao devir, pois seu
E
O olhar encontra-se fixo no passado. Quem sabe o que mais interessa ao Angelus Novus esteja
R
I realmente no passado. Pois existem inúmeras possibilidades que se encontram encobertas
A
pelas ruínas e destroços do progresso, e esperam pelo agir e atuar dos indivíduos, no sentido
D
A de revirar o passado, desentulhar projetos, sonhos e expectativas que foram esquecidas e que
H estes podem trazer orientação e caminhos ao presente.
I
S
T
Ó Todo acontecimento para Benjamin significava um choque, um trauma, em sua
R
I irreversibilidade. A tradição, incorporando os acontecimentos numa lógica contínua, tem
A
tendência a apagar as asperezas e a torná-las naturais. Uma data, em si mesma, é apenas
E
um dado vazio que é preciso preencher, ou melhor animá-lo com o auxílio de um saber que
H
I não é conhecimento, mas reconhecimento e rememoração e que está depositado na memória.
S
T
O
R Benjamim contribui com a história quando aponta na superação do pensamento de que
I
O o passado e o presente se sucedem, segundo ele o passado é contemporâneo, simultâneo do
G
R presente, ambos se sobrepõem. Com isto benjamim pretende responder às expectativas não
A
F verificadas de um passado de sofrimento no interior do presente, vigilante para tornar possível
I
A uma atualização do esquecido.
UNIDADE 2 TÓPICO 2 85

Dosse (2003a) reconhece em Benjamim uma espécie de aporte criacionista, ou melhor


recriacionista, plasmado por meio de uma espécie de redenção messiânica, que promove a
reconciliação da humanidade com seu passado, que tanto desespera e angustia o momento
presente, conforme é possível identificar quando tece que: o dom de despertar no passado as
centelhas da esperança é privilégio exclusivo do historiador convencido de que também os mortos
não estarão em segurança se o inimigo vencer. E esse inimigo não tem cessado de vencer.

As teses de Benjamin dirigiam-se à escola metódica, ao historicismo, à secularização,


à racionalização, ao progresso, ao materialismo histórico e procuravam alertar que processos
históricos poderiam sobrepor-se de forma fatal e resignadora aos sujeitos históricos e à tradição
das populações.

O historicista apresenta a imagem “eterna” do passado, o materialista histórico faz


desse passado uma experiência única. Ele deixa a outros a tarefa de se esgotar no bordel do
historicismo, com a meretriz “era uma vez”. Ele fica senhor das suas forças, suficientemente
viril para fazer saltar pelos ares o continuum da história. (BENJAMIN, 1987, Tese XVI).

As críticas de Benjamin atestavam que o historicismo se contentava em estabelecer


meramente um nexo causal entre vários momentos da história. Benjamim insistia que nenhum
fato, meramente por ser causa, é somente um fato histórico. Segundo Benjamin (1987), ele se
transforma em um fato histórico postumamente, graças a acontecimentos que podem ser dele
separados e desdobrados, e isto pode implicar, ocorrer e repercutir por milênios.

O historiador consciente disso renunciaria a desfiar entre os dedos os acontecimentos,


como as contas de um rosário, ao invés disso se preocuparia em captar a configuração do T
E
todo, e como sua própria época entrou em contato com uma época anterior, perfeitamente O
R
determinada e encadeada. Com isso, ele funda um conceito do presente como um “agora” no I
A
qual se infiltraram estilhaços do passado, que clamam por justiça, pelo juízo final, e por sua
D
vez seria conduzido por forças messiânicas. A

H
I
Certamente, os adivinhos que interrogavam o tempo para saber o que ele ocultava em S
T
seu seio não o experimentavam nem como vazio nem como homogêneo. Quem tem em mente Ó
R
esse fato, poderá talvez ter uma ideia de como o tempo passado é vivido na rememoração: I
A
nem como vazio, nem como homogêneo. Sabe-se que era proibido aos judeus investigar
E
o futuro. Ao contrário, a Torá e a prece se ensinam na rememoração. Para os discípulos, a
H
rememoração desencantava o futuro, ao qual sucumbiam os que interrogavam os adivinhos. I
S
Mas nem por isso o futuro se converteu para os judeus num tempo homogêneo e vazio, pois T
O
nele cada segundo era a porta estreita pela qual podia penetrar o Messias e cumprir com seu R
I
dever heroico e justiceiro. (BENJAMIN, 1987, Apêndice 2). O
G
R
A
O materialismo histórico e dialético de Marx se fez presente na obra de Benjamin F
I
quando este sugere que a História deve se constituir, de um fazer e interpelar ‘a contra pelo’, A
86 TÓPICO 2 UNIDADE 2

ou seja uma operação e abordagem capaz de ultrapassar os grandes feitos e dos heróis da
História oficial, que seja capaz de revelar e fazer justiça para com os projetos, os indivíduos
e os sujeitos que foram negligenciados, excluídos e jogados para baixo da capa primeira que
se apresenta como lustrosa, bem penteada e acomodada da História.

Os estudos de Benjamin contidos em “A obra de arte na era da reprodutibilidade técnica”,


em que a arte passou a ser reproduzida mecanicamente combinam-se com os estudos de
Adorno, no sentido de que os meios de comunicação comandados pela indústria cultural e
consumo de massa fornecia e favorecia a perda de autonomia e integridade dos indivíduos.
Conforme sugere Benjamin, a autenticidade e a dignidade de uma coisa reside em seu conteúdo
que se estende desde a sua transmissão e duração material até a capacidade que comporta
de testemunho histórico.

5 A NOVA ESQUERDA INGLESA

Este grupo foi receptor das obras de Karl Marx, porém a continuidade se deu
numa dedicação e atenção a aspectos tais como as percepções e experiências de vida de
camponeses, trabalhadores e artesãos, nas relações de violência experimentadas pela via
econômica, religiosa e simbólica, e processada tanto na esfera local, regional, nacional e
global. Os estudiosos deste nicho da historiografia atribuem à cultura o papel decisivo e força
motivadora da transformação histórica.

T
E Uma espécie de análise sutil e sensível de interação dialética entre economia, valores
O
R e moral, uma clivagem de elemento materiais e culturais. Para tanto lançam mão de categorias
I
A de análise e métodos oriundos da antropologia, no sentido de perceber contradições, conflitos,
D interações de indivíduos e o mundo exterior em meio às estruturas sociais, que podem ser
A
identificados insights, tumultos, ativismos, insurreições e distúrbios, individuais, grupais ou
H
I comunitários de enfrentamento diante de sistemas de autoridade, controle e hegemonia.
S
T
Ó
R No fazer e tecer do conhecimento histórico contestavam o conjunto de leis universais
I
A ou de paradigmas generalizantes que a tudo englobam, incluir o comportamento histórico,
E recriado numa espécie de textura ou descrição densa, em que se revela a dialética trilhada
H entre experiência e consciência social.
I
S
T
O Um tumulto, um ritual, um sacrifício, uma sublevação, por exemplo, pode conter o potencial
R
I
e a significância de transformar e reconfigurar, expurgar ameaças e conferir coesão a um conjunto
O
G
de funções religiosas, morais, sociais e políticas em uma dada localidade ou comunidade. Dançar
R
A
ilegalmente num dia santo não era apenas uma celebração religiosa e comunitária, constituía um
F
I
desafio com forte conotação política. A violência contribuiu não só para a definição de comunidade
A
UNIDADE 2 TÓPICO 2 87

e significado, mas também para a transformação de sistemas simbólicos e o realinhamento de


poder, status e papéis dentro da comunidade (DESAN apud HUNT, 2001).

5.1 A PRODUÇÃO HISTORIOGRÁFICA DOS MARXISTAS


INGLESES NA SEGUNDA METADE DO SÉCULO XX

O marxismo no ocidente se fez presente com diferentes contribuições no campo da


historiografia. Mais do que a União Soviética, foi da Inglaterra que surgiram novas e interessantes
análises com base no materialismo histórico e dialético durante a segunda metade do século.
Estas novas abordagens surgiram no interior de uma grande crise nos partidos comunistas
em vários lugares do mundo.

A crise ocorreu com o fim do culto a figura de Stalin. Em grande parte, o stalinismo era
um padrão para a conduta comunista no mundo. Porém, Nikita Kruschev expôs ao mundo os
crimes cometidos por Stalin, que fora extremamente cruel com seus adversários políticos. Deste
modo, muitos militantes e intelectuais largaram as fileiras do partido comunista. Na Inglaterra, os
comunistas ficaram divididos. Porém, mais que uma questão interna entre os comunistas ingleses,
esta crise motivou uma criativa reinterpretação do marxismo, não ligado à ortodoxia soviética.

Uma das principais questões que envolvem a historiografia foi o surgimento de uma
interessante geração de intelectuais ligados a esta perspectiva analítica na Inglaterra. Em
grande parte, estes historiadores publicavam artigos em uma revista da esquerda inglesa, de
nome New Left Review.
T
E
O
Exemplos de estudiosos que se dedicaram são Perry Anderson (1938), Cristropher Hill R
I
(1902-2003), Eric Hobsbawm (1917-2012), George Rudé (1910-1993), Charles Tilly (1929- A

2008), Eduard Palmer Thompson (1924-1993) e Maurice Dobb (1900-1976). D


A

H
Eric Hobsbawm foi o historiador de maior destaque neste grupo de intelectuais. Seus I
S
estudos em geral versavam sobre aspectos da vida social, política e econômica na Idade T
Ó
Moderna. Porém, seu maior sucesso editorial foi um ensaio sobre o século XX (A Era dos R
I
Extremos). Seus livros de maior sucesso tinham como título a palavra “era”, pensando as A
temporalidades para além da dimensão cronológica. São eles: A Era das Revoluções, Era do E
Capital, A Era dos Impérios e Era dos Extremos. H
I
S
T
A ideia básica da forma diferenciada de como Hobsbawm lidava com a ideia de O
R
temporalidade está explícita no livro a Era dos Extremos, no qual relata o “breve século XX”. Pois, I
O
para o autor, o século XX se iniciou em 1914, com a Primeira Guerra Mundial, e terminou em G
1991, com o fim do Comunismo Soviético. Assim, Hobsbawm considerava o tempo vivenciado R
A
pelos indivíduos, e não apenas as convenções cronológicas para refletir sobre os séculos. F
I
A
88 TÓPICO 2 UNIDADE 2

Uma das principais contribuições de Eric Hobsbawm para a compreensão da História


do Ocidente foi o de pensar de forma crítica a presença ocidental no mundo. Outra importante
colaboração dos seus estudos é um alargamento do entendimento de processos históricos
de longa duração. Por exemplo, o desenvolvimento do capitalismo e das grandes revoluções
do século XVIII, como a Revolução Industrial, a Revolução Francesa e a Independência dos
Estados Unidos. Outra importante consequência dos estudos de Hobsbawm foi a compreensão
do sistema capitalista.

Um dos seus mais famosos livros foi A Invenção das Tradições, escrito em parceria com
Terence Ranger. O livro apresenta estudos sobre a cultura popular inglesa. Os autores conseguem
com argúcia compreender a relação entre produção popular (folclórica) de “tradições culturais”
e os aspectos de dominação social aos quais certos ritos socioculturais expunham. Além de
Hobsbawm, outros autores ingleses possuem destaque na produção historiográfica do século XX.

Perry Anderson possuiu uma grande importância em seus estudos sobre a sociedade
feudal e do absolutismo europeu. Em relação ao feudalismo, Anderson escreveu o clássico
‘Passagens da Antiguidade Clássica ao Feudalismo’, no qual apontou a construção do sistema
feudal como uma continuação de convenções sociais romanas (a servidão) e germânicas
(o cumitatus, forma de organização guerreira). No livro ‘Linhagens do Estado Absolutista’,
Anderson mostra de forma eloquente a construção dos principais Estados nacionais europeus,
na transição da Idade Média para a Idade Moderna.

Thompson se destacou nos estudos que foram reunidos no livro ‘A Formação da


Classe Operária Inglesa’. Nele, apresentou diversas pesquisas, com base antropológica, na
T qual apontou as transformações cotidianas vivenciadas pelas populações que migraram do
E
O campo para a cidade ao longo do século XVIII, e que lutaram por manter seu estilo de vida e
R
I seus valores. Assim, uma das grandes contribuições de Thompson foi compreender os motins
A
realizados pelos plebeus não como uma expressão da fome pela qual passavam, mas sim,
D
A uma revolta motivada pelos valores profundos que estavam sendo desrespeitados pela nova
H ética do trabalho, ligada à produção industrial.
I
S
T
Ó Christopher Hill se destacou na produção historiográfica relativa ao século XVII inglês.
R
I Uma interessante época, na qual foram realizadas a Revolução Puritana, a República de
A
Cromwell e a Revolução Gloriosa. Os livros “O Mundo em Ponta Cabeça” e “A Bíblia Inglesa e
E
as Revoluções do Século XVII” são exemplos máximos dos estudos realizados por Hill.
H
I
S
T Maurice Dobb também está incluído entre os destaques da historiografia marxista inglesa
O
R do século XX. Economista de formação, sua contribuição à historiografia esteve relacionada
I
O ao campo da história econômica. Em especial, seus estudos possibilitaram um melhor
G
R entendimento sobre o importante tema da transição da sociedade feudal para a capitalista.
A
F O capitalismo sendo compreendido como um modo de produção no qual as relações sociais,
I
A entre o proletariado e a burguesia, são marcadas pelo antagonismo social, produtor da luta
UNIDADE 2 TÓPICO 2 89

de classes. A sua principal obra tinha por título A Evolução do Capitalismo, no qual analisou a
secular formação da moderna economia mundial, entre os séculos finais da Idade Média e o
início do século XX.

Em grande parte, os estudiosos marxistas ingleses possibilitaram uma melhor


compreensão da sociedade ocidental, com especial destaque para a denominada Idade
Moderna, no qual tivemos a formação dos estados nacionais e a constituição do sistema
capitalista de produção. Uma das novidades apresentadas no interior dos estudos marxistas
foi a de uma recusa ao determinismo econômico, não mais compreendendo a história humana
apenas como um esquema de sucessões de modos de produção econômicos. Para estes
marxistas, aspectos ligados ao cotidiano, assim como as crenças dos indivíduos, foram
considerados fundamentais para a compreensão da história humana.

6 A HISTORIOGRAFIA LATINO-AMERICANA

A historiografia latino-americana no século XX pode ser medida na grande influência


que a produção intelectual mexicana teve sobre o continente em dois aspectos. Um primeiro,
as instituições; a Universidade Autônoma da Cidade do México, além do Colégio do México,
que formaram muitos historiadores que atuaram em universidades nos vários países de língua
espanhola. Um segundo e importante aspecto de influência do panorama cultural mexicano
sobre o continente foi a editora “Fundo de Cultura Econômica”, responsável por traduzir grande
parte da produção intelectual europeia para o espanhol. Podemos lembrar que foi no México,
T
a primeira tradução de Economia e Sociedade, de Max Weber, para outro idioma que não o E
O
alemão. Também Karl Marx e Fernand Braudel foram traduzidos por esta importante e influente R
I
editora mexicana. A

D
A
Entre as coleções coletivas editadas no México, podemos destacar a História Mínima
H
de México, produzidas pelo Colégio de México. Entre os importantes historiadores mexicanos, I
S
podemos citar Luiz Weckmann e Edmundo O’Gorman. Luiz Weckmann defendia a tese de que T
Ó
existiam continuidades entre a Península Ibérica da Reconquista e a Colonização Americana. R
I
Ideia exposta em textos como A Idade Média na Conquista da América e As Raízes Medievais A
do Brasil. Outro importante historiador, Edmundo O’Gorman, defendeu a interessante tese E
A Invenção da América, na qual apresentava a América como uma “invenção da Europa H
I
Renascentista”. Assim, podemos compreender que grande parte das compreensões sobre a S
T
América, enquanto continente, surgiram das utopias europeias quinhentistas. O
R
I
O
No que tange às influências do marxismo, o principal historiador marxista latino- G
americano foi José Carlos Mariátegui. Um intelectual autodidata, teve como principal livro os R
A
Sete Ensaios de Interpretação da Realidade Peruana, na qual analisou a história econômica, a F
I
A
90 TÓPICO 2 UNIDADE 2

questão indígena, e responsabilizando os grandes latifundiários para grave situação de pobreza


pela qual amplos setores da população sofriam. O tipo de história produzida por Mariátegui pode
ser classificada como politicamente engajada. Foi ele membro fundador do Partido Comunista
Peruano, sendo personagem de grande influência continental.

Dentre os estudiosos dos países andinos, também é destaque a produção do historiador


chileno Mário Góngora, autor do livro “Ensayo histórico sobre la noción de Estado en Chile en
los siglos XIX y XX”. Também estudou o jesuíta Manual Lacunza, personagem da transição do
século XVIII ao XIX. No que confere à produção historiográfica platina, foi destaque durante os
anos 1970 o ensaio histórico produzido por Eduardo Galeano, jornalista uruguaio que escreveu
o afamado clássico As Veias Abertas da América Latina. Livro que fez uma análise da História
do continente em uma época no qual o mesmo sofria a falta de liberdade individual marcada
pelas ditaduras de segurança nacional.

A historiografia latino-americana não se restringe apenas aos autores nativos do


continente latino-americano. Podemos citar autores de língua inglesa e francesa que produziram
sobre a América Latina. Entre os autores de língua inglesa é destaque Leslie Bethell, o
coordenador de uma importante coleção sobre a História da América Latina, que contou com
a colaboração de importantes pesquisadores sobre o continente. Bethell também produziu
diversas pesquisas sobre o continente.

Entre os autores de língua francesa, alguns autores se destacaram: Pierre Chunu


e Serge Gruzinski. Pierre Chuanu, pesquisador de temas ligados à História Moderna e da
Expansão Ultramarina Ibérica nos Séculos XV e XVI, produziu uma História da América Latina.
T Entre os pesquisadores franceses, temos a produção de Serge Gruzinski. Autor de livros
E
O como O Pensamento Mestiço e a Colonização do Imaginário, abordou os aspectos culturais
R
I da história americana colonial.
A

D
A No que se refere à história da América, um dos mais revolucionários livros editados
H foi escrito não por um historiador, mas por um crítico literário polonês radicado na França:
I
S Svetan Todorov. Este foi o autor do livro “A Descoberta da América: a questão do outro”.
T
Ó Nesta importante análise, Todorov apresenta uma interessante interpretação da dominação
R
I espanhola sobre a América, apresentando a importância da questão da comunicação. Para o
A
autor, a dominação ocorreu, em grande parte, porque os dominadores espanhóis conseguiram
E
desarticular o sistema de símbolos dos nativos.
H
I
S
T A historiografia da América Latina e sobre a América latina é de grande importância
O
R para o acadêmico de história, pois, ela revela a multiplicidade, as vivências e os valores do
I
O continente a qual pertencemos.
G
R
A
F Malerba (2009) aponta que a historiografia latino-americana ao passo da historiografia
I
A brasileira conta com um forte impulso nos anos de 1960, cujo caráter se expressa pela presença
UNIDADE 2 TÓPICO 2 91

de influências oriundas da produção intelectual dos países da França, Estados Unidos e


Inglaterra, para com as vertentes pós-estruturalistas e pós-moderna, e mais recentemente,
uma espécie de mistura entre a tradição marxista e do movimento dos Annales.

Nos anos de 1970 e 1980 a Comissão Econômica para América Latina e Caribe (CEPAL),
que se dedica a analisar de forma macroestrutural questões do desenvolvimento da região
como sendo diretamente relacionadas ao passado, cujos estudos se centram em questões de
escravidão, trabalho e movimentos sociais, que vão sendo ampliados e renovados dando espaço
a estudos sobre questões de gênero, etnias, cultura popular, identidades e história do cotidiano.

Diversos países (Chile, Argentina, Uruguai) conheceram as experiências de ditaduras


militares e conforme estes regimes foram desfeitos a preocupação dos estudiosos centrou-se
em como a sociedade civil e os movimentos sociais se articularam e contestavam o regime
militar e como este respondia à população. Ultrapassado este momento, a partir dos anos de
1990 ocorre forte fragmentação temática como trajetória de sindicatos, gays, ambientalistas,
movimentos feministas, ao mesmo tempo em que ocorria a revitalização por temas da política,
da formação do Estado, da legitimação do poder, processos político-partidários, como os
processos de independência (colônia e metrópole), a formação das elites nacionais, movimentos
federalistas, experiências populistas, movimentos camponeses.

Estudiosos que têm se dedicado a pensar a produção do conhecimento histórico em


Cuba são Sergio Guerra Vilaboy (1949), com a obra “Os fundadores da historiografia marxista
na América Latina” e “História e Nação: trajetória da historiografia cubana do século 20”, de
Oscar Zanetti Lecuona (1946), “A Historiografia Latino-americana da Questão Nacional: nações
inacabadas; inimigos da nação e a ontologia da nacionalidade”, da brasileira Cláudia Wasserman. T
E
O
R
Centros como a Universidade Nacional Autônoma do México (UNAM), Universidade I
A
Federal da integração Latino-Americana (UNILA), Universidade do Chile, Universidade de São
D
Paulo (USP) a existência Asociación de Historiadores Latinoamericanos y del Caribe (ADHILAC). A

H
I
S
T
Ó
R
7 A TRADIÇÃO DOS ANNALES I
A

E
Quanto mais sociológica a história se tornar, e quanto mais histórica a sociologia se H
I
torna, tanto melhor para ambas. S
T
E. H. Carr O
R
I
Os Annales surgiram de encontros aos sábados entre filósofos, sociólogos, historiadores, O
G
geógrafos, juristas e matemáticos docentes da Universidade de Estrasburgo, cidade a nordeste R
A
da França, região da Alsácia, que buscavam refletir sobre temas de filosofia e orientalismo, F
I
A
92 TÓPICO 2 UNIDADE 2

história das religiões e história social.

Os colaboradores dos Annales assumiam o esforço de ampliar as fontes e os métodos, ir


além dos textos; incluir estatísticas, referências da linguística, da psicologia da numismática, da
arqueologia, demonstrar interesse pela natureza, pela paisagem, pela população, demografia,
pelas relações de troca, pelos costumes; rejeitar o factual em benefício da abordagem e
compreensão da longa duração.

O historiador desta tradição historiográfica tendeu a privilegiar aquilo que dura, aquilo
que se repete para poder estabelecer os ciclos longos, as tendências seculares, na tentativa
de romper com a história historicizante e factual do século XIX e que ainda se faz presente
no século XX.

Tem-se a impressão que ao longo do século XX foram exorcizadas experiências que


foram mantidas em tensão, abafamento e reclusão pelos projetos de modernidade transcorridos
do século XIX. De maneira ampla o paradigma no interior dos Annales debruçava-se em indagar
como funcionavam os sistemas de toda uma sociedade ou coletividade, procurando levar em
consideração as múltiplas dimensões tais como a percepção temporal, espacial, humana,
social, econômica, cultural, o contingente, as circunstâncias, engendrando uma espécie de
história total (HUNT, 2001).

Cara(o) acadêmica(o)! Ao longo do texto situaremos e aprofundaremos melhor estes


aspectos, esteja atenta(o)!

T Segundo Burke (1997), a criação dos Annales ocorreu logo depois do final da Primeira
E
O Guerra Mundial. Lucien Febvre idealizou uma revista internacional dedicada à história econômica
R
I e transferiu a direção ao historiador belga Henri Pirenne, porém o projeto encontrou grandes
A
dificuldades e foi abandonado.
D
A

H Em 1928, March Bloch retomou os planos da revista (uma revista francesa, agora) e
I
S obtendo sucesso em seu projeto, e novamente, foi solicitado que Pirenne dirigisse a revista; o
T
Ó que não pôde fazer, cabendo a Febvre e Bloch se tornarem os editores-chefes. O historiador
R
I Henri Pirenne (1862-1935) foi reconhecido pelos fundadores como um grande padrinho e
A
motivador do projeto dos Annales.
E

H
I Originalmente chamada Annales d’histoire économique et sociale, teve por modelo os
S
T Annales de Gégraphie, de Vidal de la Blache, editada ainda em 1891. A revista foi planejada,
O
R desde o seu início, para ser algo mais do que outra revista histórica em circulação nos meios
I
O acadêmicos. Pretendia exercer uma liderança intelectual nos campos da história social e
G
R econômica. Seria a porta-voz, melhor dizendo, o alto-falante de difusão dos apelos dos editores
A
F em favor de uma abordagem nova e interdisciplinar do conhecimento histórico.
I
A
UNIDADE 2 TÓPICO 2 93

O primeiro número surgiu em 15 de janeiro de 1929. No editorial apresentava uma


mensagem que procurava explicar que a revista havia sido planejada muito tempo antes,
e lamentavam as barreiras existentes entre historiadores e cientistas sociais, enfatizando a
necessidade de intercâmbio intelectual. Para dar conta da intensão interdisciplinar, o comitê
editorial incluía não somente historiadores, antigos e modernos, mas também um geógrafo,
Albert Demangeon; um sociólogo, Maurice Halbwachs; um economista, Charles Rist, um
cientista político; André Siegried, antigo discípulo de Vidal de La Blache.

7.1 PRIMEIRA FASE DA ESCOLA DOS ANNALES (1929-1945)

Somos devedores da palavra social. Destaco (o estudo da organização da


sociedade, das classes etc.) ao lado da palavra econômico.
Marc Bloch

Os estudiosos que se destacam na primeira fase da Escola dos Annales foram Marc
Bloch (1866-1944), Lucien Febvre (1878- 1956), Georges Lefebvre (1874-1959), André Piganiol
(1883-1968), Henri Pirenne (1862-1935), François Simiand (1873-1935) e Ernest Labrouse
(1985-1988).

A historiografia defendida pelo grupo dos Annales nascia em meio à morte da Belle
Époque, em meio ao cemitério da Primeira Guerra Mundial, dos descaminhos da Revolução
Russa e Chinesa, da crise de 1929, da formação e fortalecimento de regimes como do nazismo
T
e do fascismo; expansão da hegemonia norte-americana e japonesa em termos econômicos, E
O
tecnológicos e bélicos. R
I
A
Os estudiosos dos Annales se preocupam em tornar evidentes os aspectos econômicos D
e sociais, abandonando o campo político em suas pesquisas, pesquisam momentos pré- A

industriais, um discurso que versava contra a tradição do século XIX do historicismo, do H


I
evolucionismo, da ideia de progresso e a realização triunfante da ‘civilização’. S
T
Ó
R
Essa guinada é resultante também da percepção de falência de esquemas ideológicos que se I
A
centravam basicamente na personalidade e na singularidade dos indivíduos, introjetados no centro
E
da economia capitalista e no interior dos regimes políticos totalitários. Os Annales reclamavam por
H
alternativas e revoluções coletivas, e de um indivíduo liberto da dominação e tutela do Estado, que I
S
vislumbra um novo tempo, ou a alternativa “de uma terceira via”. (DOSSE, 2003b, p. 39). T
O
R
I
Os historiadores da primeira fase dos Annales identificam-se com as preocupações de O
G
Émile Durkheim (1858-1917), em especial Bloch (2001, p. 48), quando escreve que “ele nos R
A
ensinou a analisar mais profundamente, a cerrar mais de perto os problemas, a pensar, ousaria F
I
dizer, menos barato”; o que por sua vez requer que os historiadores estejam dispostos a se A
94 TÓPICO 2 UNIDADE 2

aproximar das áreas de conhecimento das ciências sociais, como a linguística, a psicanálise, a
antropologia, entre outras ciências e disciplinas, de lá obtendo conceitos, métodos e hipóteses,
que possibilitavam alargamento das interpretações e reconhecimento das contingências.

Os historiadores dos Annales passam a questionar os grandes trunfos até então


sustentados pelos historiadores do século XIX, trunfos como o da preocupação e zelo perpétuo
pela história política, a história como fruto e resultado de indivíduos singulares e a obsessão
por estudos sobre de retorno às origens.

Os combates dos Annales, referiam-se à esfera do compreender e do agir e diante de


uma realidade que se apresentava em franca crise. A crise se abatia tanto na América (Nova
York) como na Europa (Londres e Paris) e em sua essência suspeitava diante da ideia de
progresso contínuo e a crescente euforia pelo consumo e acúmulo de bens materiais.

A exemplo disto o primeiro exemplar da Revista dos Annales, lançado em 15 de


janeiro de 1929, levou o título de Annales d´historie economique et sociale (Annais de História
econômica e social). A História assumia o desafio de apresentar respostas diante da crise que
se encontrava instaurada nos setores financeiros e se debruçava em quantificar as variáveis
econômicas e as evoluções de preços de outras épocas históricas.

Por outro lado criticam a neutralidade e a impessoalidade do historiador diante dos


fatos, o fazer e ofício como um mero datilógrafo; reclamavam que se fazia necessária a
intervenção ativa do historiador como um pesquisador científico, que em meio aos arquivos e
aos documentos; nos termos de que fosse quebrada a ingenuidade da erudição pela erudição
T e se desperta no sentido de que nada caminha por si mesmo, nada é dado e neutro, tudo
E
O é construído; o próprio historiador deveria construir seu material; os documentos, em séries
R
I inteligíveis e com formulações problemáticas, confrontando-as aos documentos; ou seja o
A
historiador engendraria, quem faria nascer, quem invocaria a história.
D
A

H Marc Bloch (1866-1944) foi um estudioso cheio de resguardos e inconclusões,


I
S apresentava-se com uma postura reflexiva e complexa. Marc Bloch, na primavera de 1944 foi
T
Ó preso pela Gestapo nazista, encarcerado, torturado e executado em Montluc.
R
I
A
Defendia que “uma história ampla, profunda, longa, aberta, comparativa não pode ser
E
feita por um historiador isolado, só pode ser feita com ajuda mútua”. (BLOCH, 2001, p. 25).
H
I Com esta proposição reforçava a necessidade de a História carecer de parcerias e projetos
S
T de cunho interdisciplinar.
O
R
I
O O fazer metodológico do historiador Bloch (2001) sugeria que o primeiro trabalho a
G
R ser feito é o da ‘observação histórica’, sem jamais ignorar a imensa massa dos testemunhos
A
F não escritos e utilização de um procedimento de reconstrução e estruturação narrativa que
I
A levava em consideração através de pistas; e enfatiza que a história só é feita por meio de uma
UNIDADE 2 TÓPICO 2 95

multiplicidade de documentos e simultaneamente, ferramentas dessemelhantes. Ou seja, o


arsenal teórico e metodológico de que o historiador deveria apropriar-se no fazer histórico
deveria portar o mesmo teor que deve ser reconhecido aos fatos humanos, que possuem
relação um com os outros e permeados por emaranhados complexos.

Bloch (2001) aconselha que o historiador não deve se contentar em identificar mentiras,
erros, falsificações na realização de seu ofício de crítica, precisa descobrir seus motivos. Em
certos seres humanos, a mentira, embora em geral associada, aí também, a um complexo de
vaidade ou do recalcamento, torna-se quase, um ato gratuito e que “o gosto pela mentira às
vezes assume o aspecto de uma verdadeira epidemia coletiva”. (BLOCH, 2001, p. 98).

Lucien Febvre (1878-1956), socialista fervoroso, não fazia ressalvas ou rodeios para
alçar seu discurso. Questionava francamente que a História, os acontecimentos, os fatos, o
passado está dado, afrontava ele que tudo é criado pelo historiador, ou melhor, o historiador que
faz nascer a história; deveria confrontar suas hipóteses com os documentos assim como não
poderia se contentar em escrever sob o ditado dos documentos, deveria questioná-los, inseri-
los em uma problemática; por outro lado também enfrentava as noções de impessoalidade,
neutralidade e imparcialidade que era defendida pela historiografia do século XIX.

Como possibilidades de pesquisa sugeria exercícios e estudos de história comparada; a


comparação a partir dos aspectos originais, similitudes e diferenças entre épocas e sociedades,
levando em consideração as longas durações; a etnografia; a etnologia, a psicologia; o
estruturalismo; as práticas simbólicas; os sentimentos (o amor, a morte, a piedade, o medo, a
crueldade,...), as mentalidades, as expressões da iconografia, da literatura, semeava os germes
das novas fontes, dos novos objetos e novos problemas. T
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R
I
A

D
7.2 SEGUNDA FASE DA ESCOLA DOS ANNALES (1945-1968) A

H
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S
A revista, a partir da segunda geração do Annales, sofre mudanças de nomenclatura T
Ó
e é intitulada de Annales: Économies, Societés, Civilisations (Anais: Economia, Sociedade e R
I
Civilização); que ficou sob a direção de Fernand Braudel (1902-1985), que se esforçou em A
levar adiante os projetos da geração anterior dos Annales e contou com a colaboração dos E
estudiosos Ernest Labrousse (1895-1988); Pierre Goubert (1915-2012); Georges Duby (1919- H
I
1996); Pierre Chaunu (1923- 2009) e Robert Mandrou (1921-1984). S
T
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Foi o momento em que os estudiosos lançam mão de conceitos, abordagens e métodos I
O
oriundos da demografia, etnologia, história regional, geografia, relações sociais, ciência política; G
R
visavam recuperar a globalidade dos fenômenos humanos, numa perspectiva de movimento A
rumo à totalidade do social. F
I
A
96 TÓPICO 2 UNIDADE 2

Compreendiam que existia uma relação de reciprocidade e de pertencimento entre as


esferas da economia, da política, da cultura e da sociedade (a cultura é economia, política,
sociedade); se utilizavam de tabulações e programas de computadores, consolidava-se assim
o método comparativo, que versou sobre o tempo mais longo e maiores extensões de espaço,
ou seja, preconizavam a longa duração.

Braudel era filho de pai matemático, entre os anos de 1923 e 1932, lecionou em uma
escola secundária na Argélia. Em 1934, o filho do fundador do jornal O Estado de São Paulo,
o jornalista Júlio de Mesquita Filho (1892-1969),  convidou o antropólogo Fernand Braudel
e Claude Lévi-Strauss (1908-2009) para ajudarem a criar a Universidade de São Paulo, onde
Braudel lecionou entre os anos de 1935 e 1937.
 
Na  Segunda Guerra Mundial  em  1939, ele foi convocado para o serviço militar, e
posteriormente foi feito prisioneiro em 1940 pelas tropas alemãs. Enquanto ficou prisioneiro
de guerra em um campo na Alemanha, Braudel elaborou o seu trabalho La Méditerranée et
le Monde Méditerranéen à l'époque de Philippe II, mesmo sem acesso a seus livros ou notas,
baseando-se apenas no seu repertório de lembranças e memórias, reforçadas a partir de breves
consultas a uma biblioteca local.

Braudel propôs teorizações fundamentais quanto à percepção temporal e cronológica


da história, propondo uma tripartição que estabelecia o factual, como sendo o que possui
curta duração, e que ocorre a experiências de indivíduos, insurreições, levantes; conjuntural-
cíclico, fatos e fenômenos que transcorrem em média duração; tais como ciclos econômicos,
ditaduras, regimes políticos; longa duração: o que praticamente não se percebe mudar, que
T é imóvel, que é marcado por permanências e continuidades, o tempo da natureza.
E
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R
I Braudel contribuiu muito quando propôs a percepção de três temporalidades históricas,
A
a curta, a média e a longa duração. A percepção de curta duração, o evento, efêmero que se
D
A circunscrevia no campo da política do indivíduo; a média duração, a conjuntura, que diz respeito
H à temporalidade das relações e instituições sociais; longa duração, ou a noção de estrutura,
I
S que se refere ao ambiente geográfico, aos ciclos da natureza, e a lentidão dos processos
T
Ó geológicos, pela qual o autor reclamava prioridade.
R
I
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H
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S
T A síntese braudeliana pode ser compreendida e percebida
O também na seguinte máxima: OS HOMENS (curta duração) E AS
R
I ORGANIZAÇÕES (média duração) PASSAM, O MEDITERRÂNEO
O (longa duração) PERMANECE.
G
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F
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UNIDADE 2 TÓPICO 2 97

Braudel em especial, aponta para a fragilidade da História enquanto ciência e faz uma
provocação aos historiadores no sentido de que estes deveriam estar dispostos a transpor
fronteiras e disponibilizar-se a reagrupamentos, ou seja, dialogar com outras ciências e áreas
do conhecimento; neste movimento a economia descobriria a sociologia; e a história – talvez a
menos estruturada das ciências do homem – aceitaria as lições que lhe oferece a sua múltipla
vizinhança e esforça-se para repercuti-las.

Braudel debatia que a História deveria esforçar-se para sintetizar a soma de todas
as histórias possíveis, uma espécie de coleção de ofícios e de pontos de vista, de ontem,
de hoje e de amanhã; evitar escolher e centrar-se somente em uma dessas histórias, ou em
um acontecimento. Não pensar apenas no tempo breve, não acreditar que só os setores,
maquinarias que fazem ruído e alarde são os mais autênticos e legítimos, mas também que
existem os silenciosos e que são capazes de rombos e desestruturas irreversíveis. Fazendo
estas ressalvas, o estudioso combatia por uma história de análises conjunturais.

Dosse (2003b) analisa que observar, classificar, comparar, isolar são as grandes
operações cirúrgicas praticadas por Fernand Braudel, isso encorpado com o método
comparativo que leva em consideração o tempo de longa duração e dimensões espaciais mais
estendidas possíveis, apontando para uma história global, quase fora do tempo; contemplando
a multiplicidade de pontos de vista conferida pela cooperação entre as disciplinas que iam
desde a antropologia à psicologia.

Entre as principais obras de Braudel encontra-se ‘Civilização e impérios do Mediterrâneo


na época de Felipe II’ (1949), ‘O mundo atual’ (1963), ‘Escritos sobre a história’ (1969), ‘O
Mediterrâneo’ (1985). T
E
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R
A segunda geração dos Annales dedicou-se a criticar a percepção de tempo histórico I
A
que privilegiava o indivíduo e o acontecimento (protestos, nascimento, morte, ato de casamento,
D
formatura), que por sua vez foi entendido como explosivo, ruidoso, nada mais que fogo de palha, A

e que se caracterizaria por promover uma narração dramática, precipitada e de pouco fôlego. H
I
S
T
Dosse (2003b) tece críticas à moral histórica braudeliana, no sentido de que a apelação Ó
R
ao meio geográfico, em especial pelo determinismo, acabava por diminuir a velocidade da I
A
história. Por outro lado, a espacialização e a temporalidade, pelo viés da economia, favoreciam a
E
dissolução das forças contraditórias internas e das forças de cisão e possibilidades de revolução
H
que aparecem em meio à mudança; por outro lado, também, diminuía a influência e o poder I
S
do homem como ator e transformador da História. T
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98 TÓPICO 2 UNIDADE 2

7.3 TERCEIRA FASE DA ESCOLA DOS ANNALES (PÓS 1968...):


NOVOS MÉTODOS, OBJETOS E ABORDAGENS

Dosse (2003a, p. 249) discute que a crise da ideia de progresso acentuou o renascimento
das culturas anteriores à industrialização e em especial que “a Nova História se esconde,
então, na busca das tradições, ao valorizar o tempo que se repete, as voltas e reviravoltas
dos indivíduos”.

Trata-se do contexto em que ocorrem a tentativa de descolonização dos países e povos


da África, Ásia, América e os demais povos que compunham o terceiro mundo. O eurocentrismo
é relativizado. Os projetos das duas gerações anteriores dos Annales acabaram por produzir
uma consciência etnológica, em especial que confere força às estratégias de resistências ao
colonialismo, as estruturas e os valores que não foram afetadas pelas investidas ocidentais.

Abandonam-se os tempos fortes e os movimentos voluntaristas de mudança em direção


à memória do cotidiano das pessoas simples. Dosse (2003a, p. 249). Uma nova topografia
estética se instala, segundo a qual se fala de uma aldeia, das mulheres, dos imigrados e dos
marginais, uma espécie de antropologia histórica, uma história sociocultural.

A revista passa por uma estruturação interna na composição de sua direção; agora um
colegiado que foi composto por André Burguière (1938), Marc Ferro (1924), Jacques Revel
(1942), Jacques Le Goff (1924-2014), Emmanuel Le Roy Ladurie (1929); vai reger e decidir
sobre os caminhos dos Annales e não mais a estrutura centralizada em uma liderança.
T
E
O
R Ao lado dos estudiosos que compunham o colegiado da revista, outros estudiosos se
I
A destacaram neste período como Pierre Nora (1931), Michel Foucault (1926-1984), Hayden
D White (1928), Dominick LaCapra (1939), Clifford Geertz (1926-2006), Peter Burke (1937),
A
Carlos Ginzburg (1939), Joan Scott (1941), Robert Darnton (1939), Michel Vovelle (1933) Pierre
H
I Chaunu (1923-2009).
S
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R Pode-se falar de uma espécie de radicalização dos projetos das duas fases anteriores
I
A e conforme os anos se sucedem os estudiosos passaram a se preocupar cada vez menos
E
com a histórica econômica e social. Dosse (2003) qualifica a terceira geração dos Annales

H
como ‘História em migalhas’, matizada por interesses e buscas por exotismos, preciosismos,
I
S
memórias, lembranças, ritos, tradições, experiências que se caracterizavam por ser pré-
T
O
modernos (medieval, artesanal, modernos), não industrializadas ou que foram inseridas na
R lógica capitalista; por irracionalismos, sensibilidades, emoções, o corpo, a infância, o imaterial,
I
O o intangível, a paisagem, os cheiros e odores, entre outros, que evocam cada vez mais o tempo
G
R estático, congelamento do tempo, a antropologia, a etnografia, a psicanálise.
A
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UNIDADE 2 TÓPICO 2 99

Dosse (2003b) uma espécie de renúncia à história global e total, sugerida pelas gerações
anteriores da Escola dos Annales (Bloch-Febvre-Braudel). Para os historiadores da terceira
geração dos Annales, a história total teria validade somente no plano programático restrito,
mas ao passar para a experimentação, a totalidade se fragmenta em uma miríade de objetos
singulares a serem especificados e construídos.

Diehl (1993) apresenta que tendência da “Nova História”, herdou a estrutura


organizacional e a própria Revista Annales, a qual, a grosso modo, parece ter mantido suas
características anteriores na nova fase; a preocupação interdisciplinar, a atenção às técnicas
de pesquisa, a concentração dos estudos medievais e modernos.

Dosse (2003b) discute que os historiadores dos Annales se tornaram especialistas do


tempo imóvel em um presente congelado, petrificado de pavor diante de um futuro incerto.
Ele é a vestal de uma sociedade angustiada em busca de certezas que reflui em direção ao
passado como nova religião.

Uma vez lançadas estas possibilidades, temas da história econômica, história social,
história e poder; história das ideias, história das mentalidades, história cultural; história agrária,
urbana, empresarial, colonização, industrialização; história familiar, genealogias, biografias,
história da demografia, etnia, história do cotidiano e da vida privada; história das mulheres, da
sexualidade, história do corpo, subjetividade, história da infância; literatura, discursos, narrativas,
linguística, semiótica, imagens, hermenêutica; história oral, memória e identidade, patrimônio
histórico e cultural (tangível e intangível).

Fala-se em mentalidades e representações sociais, que são explicadas como os T


E
componentes próprios da realidade social. As relações econômicas e sociais não são anteriores O
R
a relações culturais, nem as determinam; elas próprias são campos ao mesmo tempo de prática I
A
e produção cultural.
D
A

Os estudiosos da escola dos Annales trilharam uma história que se adaptou às mutações H
I
e turbulências da sociedade do século XX e da legitimação da História em meio às demais S
T
disciplinas do conhecimento científico. Colocando as três fases dos Annales, Marck Bloch/Lucien Ó
R
Febvre a Jacques Le Goff/Pierre Nora em perspectiva, é possível identificar continuidades I
A
e descontinuidades, mas que esteve no centro da preocupação de todos a noção de longa
E
duração e a negação do aspecto político e do acontecimento na História.
H
I
S
Os historiadores da escola do Annales atacaram os mitos herdados do século XX que T
O
foram o gênero biográfico, político e factual. Trataram de tecer uma espécie de terceira via, R
I
entre historicismo e marxismo, mas que se reverteu não em ideologia, mas em mentalidades, O
G
não ao materialismo, mas à materialidade, não à dialética, mas às estruturas sociais, mais R
A
descritivas do que explicativas; isso tudo numa tentativa de unificar as ciências sociais, colocá- F
I
A
100 TÓPICO 2 UNIDADE 2

las em um mercado comum, em que a História exerceria uma espécie de liderança federativa.

As descontinuidades podem ser identificadas quando a 1ª geração dos Annales propôs


a ideia de que fosse elaborada uma história total, uma história de tudo e de todos ao mesmo
tempo; a 2ª geração, quando defendia o projeto de que deveriam ser contempladas a pluralidade
de objetos, métodos e temporalidades, com o intuito de discerni-los e diferenciá-los; e a 3ª
geração dos Annales, quando se torna evidente o esmigalhar, o esfacelar das perspectivas
históricas, em que as singularidades e peculiaridades de fatos e fenômenos históricos se tornam
os objetos e temas de estudo dos pesquisadores, uma espécie de ‘história em migalhas’ como
explicou Dosse (2003) explicou como; diante deste contexto de mudanças, Pierre Vilar (1906-
2003) defende que já não existe um projeto de História, como tanto queriam os representantes
fundadores da escola do Annales.

Dosse (2001) faz a crítica de que no interior do discurso dos Annales encontra-se a
predominância dos meios de comunicação de massa, pois se apresenta um conhecimento
essencialmente cultural e etnográfico, descrito de modo espetacular e neorromântica, permeada
por uma áurea mitológica, em que os loucos são colocados ao lado das feiticeiras, em que as
margens e a periferia sobrepõem ao centro, precedendo uma espécie de apaziguamento e
anulação das contradições entre eleitos e excluídos dos projetos de modernidade.

No campo institucional da História como ciência foi quando ocorreu a reforma universitária,
a criação dos cursos de mestrado e doutorado; a departamentalização das ciências humanas.
Pairava no ar o espectro do mal-estar da ciência, da história, da política, da humanidade;
atestava-se além da morte de Deus (ainda por Nietzche no século XIX) agora a morte da
T ciência, que se apresentava como amoral diante das questões do presente; bem como diante
E
O do peso do passado (inquisição, ditaduras, escravidão; nacionalismos, identidades, racismos,
R
I homossexualismo, feminismo), ou seja, a desreferencialização do real, o discurso intertextual,
A
a dessubstancialização e dessacralização do sujeito, retorno ao estudo do microcosmo, a
D
A fragmentação da ciência.
H
I
S Dosse (2003b) atesta que na falta de um projeto coletivo essa pesquisa faz-se mais
T
Ó pessoal e mais local. Diehl (1993) discute que vivemos numa época em que o fantasma da
R
I intransparência teórico-metodológica ronda a ciência histórica, o que torna urgente a tarefa de
A
discutir os parâmetros, os e as possibilidades dos fundamentos da própria História.
E

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S
T
O
R 8 O CASO DE MICHEL FOUCAULT
I
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G
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Michel Foucault (1926-1984) aproxima-se e encontra-se inserido no quadro teórico
F
I
plasmado anteriormente por Karl Marx e Friedrich Nietzsche. A proposta de Foucault é a de
A
UNIDADE 2 TÓPICO 2 101

um olhar antropológico da História, que vai ser levado ao cabo pelas pesquisas em História
do cotidiano, das mentalidades, crítica e problematização de instituições do Estado, táticas
de dominação, dominação, disciplina e controle social, com forte tendência em buscar a
contingência e a subjetividade em História.

Foucault esteve no Brasil atuando junto à Universidade de São Paulo (1965 e 1975) e
proferiu conferências no Rio de Janeiro. Entre suas principais obras estão A História da loucura,
Vigiar e Punir, O nascimento da clínica, A arqueologia do saber, As palavras e as coisas.

Foucault propõe um método arqueológico, como forma de negação dos modelos


racionalistas tanto de História como de sociedade. Vayne (1998) apresenta que Foucault provoca
o historiador para que dê mais atenção, e assim encontrará algo nas "entrelinhas", algo que
até então não haviam percebido, que coloca o sujeito no centro do protagonismo histórico:

Faz dois ou três séculos que a filosofia ocidental postulava, implícita ou expli-
citamente, o sujeito como fundamento, como núcleo central de todo conhe-
cimento, como aquele em que não apenas se revelava a liberdade, mas que
podia fazer emergir a verdade. [...] Atualmente, quando se faz história – história
das ideias, do conhecimento ou simplesmente história – atemo-nos a esse
sujeito de conhecimento e da representação, como ponto de origem a partir
do qual é possível o conhecimento e a verdade aparece. Seria interessante
que tentássemos ver como se produz, através da história, a constituição de
um sujeito que não está dado de antemão, que não é aquilo a partir do que
a verdade se dá na história, mas de um sujeito que se constituiu no interior
mesmo desta e que, a cada instante, é fundado e refundado por ela. [...] Isto é,
em minha opinião, o que deve ser levado a cabo: a constituição histórica de um
sujeito de conhecimento através de um discurso tomado como um conjunto de
estratégias que formam parte das práticas sociais. (FOUCAULT, 1986, p. 16).

T
E
Por outro lado, chamava atenção de que a constituição histórica do sujeito exigia que O
R
se operasse uma espécie de arqueologia fragmentadora do saber, ao ponto de “A história será I
A
‘efetiva’ na medida em que ela reintroduzir o descontínuo em nosso próprio ser. Ela dividirá nossos
sentimentos; dramatizará nossos instintos; multiplicará nosso corpo e o oporá a si mesmo. É que D
A
o saber não é feito para compreender, ele é feito para cortar”. (FOUCAULT, 1979, p. 27).
H
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Nestes termos, Foucault (1979) propôs uma história que fornecesse elementos para além T
Ó
da compreensão de instituições políticas e estruturas sociais. Ele propôs que os historiadores, R
I
em suas pesquisas, abordassem questões subjetivas e psíquicas que compõem os indivíduos. A

Assim, as pessoas teriam elementos para libertar-se de determinismos sociais, heranças morais E

e dos próprios esquemas mentais que os aprisionam. H


I
S
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Diehl (1993) apresenta que Foucault propõe uma espécie de positivismo, que se pretende O
R
eliminar os últimos objetos não historicizados e os últimos traços da metafísica, e ao mesmo I
O
tempo propõe um materialismo que seja capaz de tecer uma explicação que envolva um objeto G
R
a outro, de tudo a tudo, uma espécie de genealogia histórica. A
F
I
A
102 TÓPICO 2 UNIDADE 2

Segundo Reis (2006), em Foucault, as esferas do saber e do poder não são


incomunicáveis, pelo contrário, eles são duas faces de um mesmo processo. A relação entre
ambos fica clara através do conceito de regime de verdade. Nesta compreensão a verdade não
é uma essência atemporal que paira acima dos interesses particulares, ela não existe fora do
poder. Cada sociedade estabelece quais tipos de discurso ela “faz funcionar como verdadeiros”,
quais instâncias irão distinguir os enunciados verdadeiros dos falsos. Por verdade Foucault
entende um conjunto de regimes através dos quais se distingue o verdadeiro do falso, e se
atribui aos verdadeiros efeitos específicos de poder.

Encerra-se este tópico apresentando uma leitura complementar que traz a entrevista
com o ensaísta, historiador e filósofo Tzvetan Todorov, que é muito solicitado na historiografia
contemporânea através de suas obras ‘Conquista da América: a questão do outro’, ‘Estruturalismo
e poética’, ‘Teorias do símbolo’, ‘Simbolismo e Interpretação’.

No conjunto da obra do autor encontram-se os temas da relação com o outro, no sentido


hermenêutico interpretativo, no reconhecimento da alteridade, e para tanto se utilizou no exemplo
da época das grandes navegações e da experiência transcorrida entre navegadores europeus
e as populações nativas da América Latina.

Atualmente, o estudioso se dedica à discussão e reflexão de temas como o ressurgimento


do totalitarismo, as experiências de intolerância, as implicações da ‘guerra pelos direitos
humanos e universais’ e as demais crises de civilização e sentido de mundo que se abate
ao ser humano contemporâneo. O autor ainda se revela um apaixonado pela ficção literária,
em especial pela literatura, que por sua vez advoga que a literatura é a responsável por nos
T humanizar, e a ficção por salvar o homem do desencantamento e desilusão do mundo exterior.
E
O
R
I
A LEITURA COMPLEMENTAR
D
A SÓ A FICÇÃO NOS SALVA
H TZVETAN TODOROV
I
S Entrevista concedida a Bruno Garcia em 1 de janeiro de 2012.
T
Ó
R
I Revista de História – O que o levou a trabalhar com uma variedade tão grande de temas?
A

E
Tzvetan Todorov – Nem acho que sejam tão variados assim. Meu horizonte de interesses é
H
I muito largo, mas em contrapartida não posso estudar tudo. Não sou um especialista sobre
S
T Brasil, por exemplo. Embora tenha vindo diversas vezes, nunca tive a chance de me aprofundar
O
R verdadeiramente. Na América, acabei por estudar o México, os Maias e outros povos da América
I
O Central. Mas não conheço bem Brasil, Peru, Argentina. É necessário fazer escolhas.
G
R
A
F
RH – E que critérios usa para isso?
I
A
UNIDADE 2 TÓPICO 2 103

TT – Bom, não é fácil, mas sempre senti a necessidade de falar do que diz respeito à minha
experiência pessoal. Eu não gostaria, no entanto, de escrever minha autobiografia, ou algo
do gênero, mas sim fazer o trabalho de historiador com uma motivação pessoal forte. Percebi
muito cedo que, no domínio das ciências humanas, era importante, essencial, uma relação
entre o objeto de trabalho e o sujeito que o faz. Escolher os temas arbitrariamente, porque o
acaso assim quer, põe em xeque a consistência do trabalho, que corre o risco de se tornar
apenas uma reprodução daquilo que já existe.

RH – Qual foi o seu primeiro interesse?

TT – O primeiro tema com o qual fui confrontado foi o da alteridade cultural. Obviamente, minha
motivação era ser um búlgaro vivendo na França. Isso causava uma dupla exterioridade, uma
dupla diferença. A primeira, linguística, já que cresci em contato com a língua búlgara, que
faz parte das línguas eslavas. A grande literatura próxima a mim era a Literatura Russa. É
verdade que eu me interessava pelas tradições literárias inglesa, francesa e alemã, mas não
tinha conhecimento profundo sobre elas. Portanto, eu era um estrangeiro de outra cultura. A
segunda era uma diferença política: os regimes na Bulgária e na França não tinham nada a ver.
O primeiro era um regime comunista muito severo na época, anos 1950 e 1960, enquanto, na
França, era uma democracia liberal, o contrário de uma ditadura. Então, eu tinha a motivação,
mas me faltava a matéria, o objeto.

RH – E o encontrou na Conquista da América?

TT – Sim, porque não achava interessante escrever sobre um búlgaro em Paris. Foi nessa
época que, por acaso, fui convidado para lecionar um ou dois meses no México a respeito de T
E
questões relativas à crítica literária. Estar no México me impressionou bastante, sobretudo o O
R
contato com a forte cultura local e nacional. Fiquei encantado por um livro que contava relatos I
A
do encontro entre europeus e indígenas, e bastante interessado pela natureza desse encontro.
D
Não pelo fato em si, pois foi extremamente violento. Mas, confesso, fui arrebatado pela história A

e me senti muito motivado a falar sobre o encontro de culturas, no caso o encontro das culturas H
I
europeia e indígena no século XV-XVI no Golfo do México. Eu aprendi espanhol, li muitos relatos S
T
dos conquistadores, de monges franciscanos e dominicanos que contavam a respeito do que Ó
R
haviam testemunhado. Também tive acesso aos preciosos relatos dos indígenas, redigidos I
A
tanto na língua deles quanto em espanhol. Diante disso, escrevi esse livro [A Conquista da
E
América, 1982] sobre a relação entre populações que até então se ignoravam. Percebi uma
H
série de coisas que mostram ter sido esse contato muito mais complexo do que imaginava. I
S
T
O
RH – Quais? R
I
O
G
TT – Percebi que Hernan Cortez não era apenas um peão, mas um sujeito dotado de estratégias R
A
de como se infiltrar no outro. Surpreendeu-me a atitude de um universalismo moral, encarnado F
I
por Bartolomeu de las Casas, religioso que tentou tratar o espírito de ambos os lados da mesma A
104 TÓPICO 2 UNIDADE 2

maneira. Outros testemunhos procuravam preservar as diferenças, reforçar não o que havia
de universal, mas o que cada cultura tinha de específico. Bernardino de Sahagún e Diego
Duran deixaram documentos de grande riqueza e originalidade. Mitos e lendas se misturam
ali, e tudo isso produz um material realmente magnífico. Enfim, escrevi esse livro pensando
em minha experiência na França, na condição de estrangeiro imigrado, mas também como um
ensaio para reconstituir esse encontro. Minha maneira de escrever a história é sempre dessa
natureza: o que me interessa é o caráter exemplar de um movimento, o evento. Poder refletir
sobre o presente a partir desses episódios do passado; tirar lições do passado para viver melhor.

RH – Como a Literatura ajuda a entender a História?

TT – Quando se pergunta o porquê da Literatura, só resta responder: porque somos seres


humanos. A Literatura é uma necessidade humana, vem da própria existência. Somos animais
que consomem voluntariamente grande quantidade de relatos e poesias. Todas as populações
do globo, de todas as épocas, contam suas histórias e cantam seus poemas. Somos obrigados,
por exemplo, a nos recontar histórias para saber sempre o que fizemos, por isso constituímos
essa quantidade enorme de impressões. Vivemos o dia a dia, escutamos tudo o que nos
acontece, observamos tudo o que está à nossa volta, e o que resta disso é sempre uma
história. Eu encontrei um amigo, tomamos café, falávamos disso ou daquilo etc. Essa é a
função narrativa, mas ela se encontra condensada, sublimada e magnificada na Literatura. A
ficção conta melhor nossas próprias experiências. As palavras me permitem expressar meus
sentimentos, mas também enxergam a pluralidade humana. A Literatura é a forma pela qual
percebemos que os seres humanos não vivem cada um no seu mundo, mas numa pluralidade
infinita. Apesar dos muitos interesses que tenho, ela continua especial.
T
E
O RH – A opção pela multidisciplinaridade é uma tendência?
R
I
A
TT – Não saberia dizer se é uma tendência. Eu não tenho exatamente uma carreira acadêmica.
D
A Não trabalho muito na universidade, mas em um centro de pesquisa [Centro de Pesquisa de
H Artes e Linguagens, da Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais de Paris] onde cada
I
S um decide por si mesmo a orientação temática do seu trabalho. Lá, ninguém me obrigou a
T
Ó me adaptar a um modelo dado; fui guiado por meus interesses. Sei que não é assim sempre,
R
I nem em todas as profissões. Na universidade, por exemplo, o professor é obrigado a repetir
A
seu curso porque não tem tempo de preparar um novo. E a divisão das diferentes disciplinas
E
humanísticas, das ciências humanas e sociais, é um tanto artificial, feita ao acaso. Às vezes,
H
I um bom professor de uma cadeira de História Econômica se destaca, e a instituição cria a
S
T disciplina História Econômica, o que é um pouco arbitrário. Eu não ensinei muito, quase nada,
O
R na universidade. Tive a possibilidade de sempre fazer algo diferente dos meus trabalhos
I
O anteriores. Mas, é claro, há aqueles que estudam a mesma coisa a vida toda.
G
R
A
F RH – Como é a vida acadêmica na França?
I
A
UNIDADE 2 TÓPICO 2 105

TT – Hoje, a vida acadêmica considerada ideal, pelo menos na França, é aquela em que
um intelectual escolhe um autor e com ele passa um longo tempo pesquisando, até que,
por fim, escreve sua grande tese, confirmando sua especialidade. Esses intelectuais sabem
absolutamente tudo sobre seu escritor, o que já escreveram a seu respeito, sua biografia,
suas amantes, seus professores, discípulos, tudo sem exceção. Não surpreende que a grande
maioria dos professores de Literatura publique um só livro, que é justamente sua tese, além
de alguns pequenos artigos em torno do mesmo escritor.

RH – Qual é a sua opinião a respeito?

TT – Penso que essa é uma concepção muito escolástica. Por mais que escrevam a vida toda
sobre alguém, nada disso substitui a experiência da leitura direta. Os estudos literários podem
nos ajudar a compreender melhor os escritores, podem desempenhar um útil papel auxiliar, até
porque há textos que são realmente difíceis. Um bom comentador e suas reflexões auxiliam
muito, uma vez que facilitam o acesso a esse livro, mas nunca substituem o escritor e sua
própria prosa.

RH – Há uma valorização excessiva da teoria?

TT – Isso está em evidência. Aliás, uma evidência obrigatória para a qual procurei chamar a
atenção. A importância da Literatura não é o método ou teoria com a qual a estudamos, mas é
a própria Literatura. Porque ela fala de nós mesmos, da condição humana, da nossa sociedade.
Ela nos permite compreender melhor o mundo. Quando lemos um livro, está lá o que é mais
importante. Quando eu leio a Flor do Mal, de Baudelaire, a importância não é a metáfora nem
as figuras retóricas, e sim o motivo pelo qual continuamos a ler esse poema. É a imagem que T
E
nos dá do mundo e de nós mesmos. A Literatura nos ajuda a viver por um enriquecimento de O
R
nosso mundo interior. I
A

D
RH – Foi essa reflexão que o motivou a escrever Literatura em perigo [Difel, 2009]? A

H
I
TT – Escrevi esse livro, um pouco polêmico, para mostrar que esse tipo de estudo não é mau S
T
em si mesmo, mas que se torna sufocante se é a única coisa que fazemos. Podemos estudar Ó
R
a imagem em um poema com a intenção de compreendê-lo melhor, e não pelo prazer de fazer I
A
um inventário de suas imagens e de suas figuras retóricas.
E

H
RH – Se a Literatura é tão reveladora por si só, por que se aventurar por ouras áreas? I
S
T
O
TT – A Literatura é suficientemente rica, séria e interessante para ocupar toda a sua vida. R
I
Mas, quando eu comecei, fui privado da possibilidade de tratar de outros temas por conta da O
G
minha educação na Bulgária e da forte restrição dos temas que podíamos abordar. Senti-me R
A
inclinado, depois, a falar um pouco do mundo que nos rodeia. Tornei-me alguém que pretende F
I
A
106 TÓPICO 2 UNIDADE 2

incluir a Literatura numa mescla mais vasta, que contém a Filosofia, a Política, a Sociologia,
em diferentes tipos de discursos da sociedade, como a Pintura, que é também algo que me
interessa muito. Mas nunca abandonei a Literatura. Continuo me servindo dos escritores e me
referindo a eles.

RH – O senhor identifica a emergência de um messianismo contemporâneo. Qual a importância


desse fenômeno?

TT – O mundo todo, da América do Sul ao Vietnã, se manteve politicamente organizado em


torno, até o fim, do conflito da Guerra Fria [Período que se estendeu do final da Segunda Guerra
Mundial, em 1945, ao fim da União Soviética, em 1991, marcado pela oposição e pela tensão
militar entre os blocos capitalista, liderado pelos Estados Unidos, e socialista, liderado pela
União Soviética]. Quando isso terminou, quando deixamos de estar presos à divisão do mundo
em dois polos, entramos em nova fase com diferentes características. Uma delas diz respeito
às relações internacionais: é a invenção de uma guerra dita humanitária, justificada por um
objetivo nobre e generoso. Em geral, esse objetivo consiste em defender os direitos humanos,
ajudar as vítimas de violências etc. Mas isso é feito por meio de intervenções militares, o que
acaba por produzir muito mais vítimas do que a causa que se pretendia combater. Esse tipo de
guerra, a meu ver, é uma das grandes características do nosso tempo. E hoje não há apenas a
guerra civil de um lado e as guerras humanitárias do outro. Há muitas outras guerras. No lugar
das guerras de conquista ou mesmo ideológicas, há, por exemplo, a guerra punitiva, como a
Al Qaeda atacando os Estados Unidos, e, claro, sua resposta imediata, que ainda permanece
em curso. Essa é uma guerra tipicamente justificada por nobres razões, o que eu chamo de
messianismo.
T
E
O RH – Qual é a diferença desse messianismo daqueles produzidos nos séculos XVIII e XIX?
R
I
A
TT – A ideia de messianismo carrega um processo levado a cabo pelo Iluminismo e pela
D
A Revolução Francesa, mas hoje tem um caráter bastante diferente. Não podemos dizer que
H nossas guerras se assemelham às guerras coloniais, por exemplo: não se trata de submeter
I
S ou integrar um país e sua população ao seu território. Mudaram os ideais, mudaram os meios
T
Ó técnicos, que evoluem muito. Hoje, as guerras também influenciam a condução dos negócios.
R
I Mesmo a ideia de direitos humanos daquele período é completamente diferente da nossa.
A
Antes, eles diziam respeito à emancipação do indivíduo.
E

H
I RH – E hoje?
S
T
O
R TT – Enquanto princípio universal, os direitos humanos defendem algumas coisas importantes,
I
O como a liberdade do indivíduo, a igualdade perante a lei, a dignidade da pessoa humana, enfim,
G
R elementos que podem ser reivindicados por todos. No entanto, o que acontece nos nossos
A
F dias é a utilização dessa ideologia como justificativa para uma política agressiva. Podem dizer
I
A que em tal país acontecem violações dos direitos humanos, e, portanto, temos o direito de
UNIDADE 2 TÓPICO 2 107

intervir e corrigir. Mas está claro que não podemos impor esses direitos. Isso não nos deve
impedir evidentemente de socorrer prisões injustas e torturas, mas é necessário lidar com
essas categorias com precaução, sem a ousadia de pensar que nós somos proprietários e
juízes desses direitos, e cabe a nós então o papel de agir sobre os outros povos “selvagens”.
Somos filhos do Iluminismo, mas nossa relação com algumas de suas ideias é muito diferente.
Os direitos humanos não só foram construídos numa época específica, como correspondem a
um tipo específico de sociedade ocidental. Há outras sociedades que não reservam um lugar
especial ao indivíduo, mas à coletividade, ao grupo. Neste sentido, os direitos humanos não
são verdadeiramente universais.

RH – É o fim da crença no progresso?

TT – Sim, mas acho que não nos livraremos dela com facilidade. Mesmo se não acreditarmos
mais na teoria do progresso, há, na própria ideia de humanidade, a convicção de que sempre
devemos melhorar nossa condição. Houve o momento em que a crença em movimentos
políticos, como o comunismo, era muito forte. Certamente uma tentativa de melhorar as
condições da massa pobre sofrida. Mais tarde se deram conta de que o remédio era pior que
a doença, o resultado não era melhor que o motivo com o qual se revoltaram. Mas está sempre
ligado à ideia do progresso, de melhorar o mundo.

RH – E qual seria o “remédio” de hoje?

TT – Em nossos dias, essa crença do progresso está muito ligada à Tecnologia. Ora, é um
produto novo, um computador, um telefone, mais tarde também a Biologia, pois queremos
filhos lindos, inteligentes, geniais se possível. É a obrigação de procurar o melhor, mesmo se T
E
na Filosofia e na teoria política não compartilhamos mais do mesmo otimismo dos iluministas, O
R
que acreditavam que o futuro sempre seria algo melhor que o presente. A ciência traz melhorias I
A
para a nossa vida. Entretanto, há o risco também. O átomo, por exemplo, pode significar a
D
energia que acende a luz das casas, mas também riscos inimagináveis e grandes catástrofes A

como Chernobil [Acidente na Usina Nuclear Vladimir Lenin, localizada na cidade de Chernobyl, H
I
na Ucrânia, parte da União Soviética, em 1986. A explosão de um dos reatores provocou uma S
T
das maiores tragédias da história da energia nuclear, contaminando grandes áreas de toda a Ó
R
Europa Central] I
A
A clonagem talvez seja necessária para produzir órgãos humanos para aqueles que sofrem de
E
certa doença, mas também podemos imaginar a produção de uma subespécie humana, robôs
H
ou até zumbis. Tudo isso é incerto. O sociólogo alemão Ulrich Beck desenvolveu a ideia de I
S
que, durante o século XIX, a ciência era uma fonte de esperança. Depois da segunda metade T
O
do século XX, se tornou fonte de desespero, quer dizer, de risco e inquietude. Ficou muito R
I
difícil ser otimista. O
G
R
A
RH – O Humanismo está em crise? F
I
A
108 TÓPICO 2 UNIDADE 2

TT – Não tenho certeza. O Humanismo é uma concepção ideal e moral que não sei ao certo
se está em crise. Ao menos, não sozinha. Tenho a impressão de que nós achamos que o
Humanismo não é muito forte, que é frágil. Ele certamente recebe muitas agressões. Mas
talvez não esteja em crise se nós não encontrarmos nada para colocar no seu lugar. Talvez
por não sabermos, hoje em dia, o que ainda não está em crise.

FONTE: Disponível em: <http://www.revistadehistoria.com.br/secao/entrevista/tzvetan-todorov>.


Acesso em: 16 dez. 2015.

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UNIDADE 2 TÓPICO 2 109

RESUMO DO TÓPICO 2

• E escola de Frankfurt formou-se na primeira metade do século XX, apresentava influência


marxista e os estudiosos dedicaram-se a questionar questões ideológicas do capitalismo e
do liberalismo internacional e pensar alternativas que promovessem o bem-estar social.

• Theodor Adorno dedicou-se a fazer crítica à indústria cultural que engendrava a padronização
e massificação dos padrões culturais e por outro lado a perda de espaços e momentos de
reflexão e consciência crítica dos indivíduos, que acarretam em última instância a perda de
autonomia e o exercício da liberdade.

• Walter Benjamin foi um crítico dos projetos de modernidade, como o progresso e a


racionalização, diante disto defendeu um conceito de história, na figura de um anjo
redentor, que vasculha em meio aos escombros do passado e visa recuperar e trazer à vida
experiências que foram negligenciadas.

• O movimento da ‘nova esquerda inglesa’ consiste em uma vertente do pensamento que se


dedicou à crítica da sociedade moderna ocidental, pesquisando temas como a exploração
econômica de trabalhadores, as contradições entre os grupos sociais, a dominação religiosa
e violência simbólica dos indivíduos, ressaltando processos de luta e revoluções populares.
T
E
• A historiografia latino-americana mesmo em meio a regimes ditatoriais, ganhou forte impulso O
R
a partir dos anos de 1970 quando foi criada a Cepal-Comissão Econômica para a América I
A
Latina e o Caribe, que se dedicou aos estudos de temas como trabalho e escravidão,
D
movimentos sociais, cultura popular, identidades. A

H
I
• Os Annales da primeira fase deixaram de lado os temas da história política, e se dedicaram S
T
aos estudos de temas econômicos e sociais, pesquisaram momentos pré-industriais, e Ó
R
questionaram a tradição do século XIX do historicismo, do evolucionismo e da ideia de I
A
progresso cumulativo; por outro lado, reclamavam por alternativas e revoluções coletivas,
E
e de um indivíduo liberto da dominação e tutela do Estado.
H
I
S
• A segunda geração dos Annales se utilizou de conceitos, abordagens e métodos oriundos T
de outras ciências como a demografia, etnologia, geografia e da ciência política; visavam O
R
recuperar a globalidade dos fenômenos humanos, numa perspectiva de movimento rumo à I
O
totalidade do social. G
R
A
F
• A segunda geração dos Annales reforçou o argumento de que existia reciprocidade e I
A
110 TÓPICO 2 UNIDADE 2

pertencimento entre as esferas da economia, da política, da cultura e da sociedade (a


cultura é economia, política, sociedade); bem como o uso de tabulações e programas de
computadores e do método comparativo; procuravam perceber a ocorrência de fenômenos
na dinâmica temporal da longa duração.

• A terceira geração dos Annales dissolve-se em grande parte em nova história cultural
e os temas que até então se encontravam mais globalizantes (economia, sociedade e
cultura) fragmentam-se em história do cotidiano e da vida privada; história das mulheres,
da sexualidade, história do corpo, subjetividade, história da infância; literatura, discursos,
narrativas, linguística, semiótica, imagens, hermenêutica; história oral, memória e identidade,
patrimônio histórico e cultural (tangível e intangível).

• Michel Foucault dedicou-se aos estudos do cotidiano, das mentalidades, da subjetividade e


em fazer crítica às instituições repressivas do Estado moderno. Como método histórico propôs
o modelo arqueológico que previa a negação dos modelos racionalistas e que buscasse as
origens e a genealogia das formas de dominação e poder.

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E
O
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UNIDADE 2 TÓPICO 2 111


IDADE
ATIV
AUTO

1 A Historiografia do século XX, em especial a “Escola dos Annales” procurou renovar


e problematizar toda a produção do conhecimento histórico do século XIX. Os
historiadores assim o fizeram, pois atestavam que a História, assim como todo o
espírito humano que chegava ao século XX, encontrava-se em crise. Com relação
às questões postuladas pelo grupo dos Annales é possível afirmar que: analise as
sentenças a seguir:

I- Questionavam o evolucionismo, o historicismo, a ideia de progresso; e sugeriam que


se recriasse a singularidade do homem e da civilização humana.
II- Sugeriam que se reforçasse a dimensão diplomática e política dos eventos e fatos e
que se quantifica cada vez mais as expressões sociais e culturais.
III- O historiador não poderia mais se contentar em escrever sob o ditado dos documentos,
deveria questioná-los, inseri-los em uma problemática.
IV- Introduziram as abordagens da História comparada, a longa duração, a etnografia,
a psicologia; estruturalismo, as práticas simbólicas; iconografia e a literatura.

Agora, assinale a alternativa CORRETA:


a) ( ) As sentenças I, II e IV estão corretas. T
E
b) ( ) As sentenças I e II estão corretas. O
R
c) ( ) As sentenças II e IV estão corretas. I
A
d) ( ) As sentenças I, III e IV estão corretas.
D
A
2 Fernand Braudel (1902-1985), estudioso francês, que pertenceu à segunda geração H
I
do grupo dos Annales, propôs a categorização de tempo tripartida em “acontecimento”, S
T
“conjuntura” e “estrutura” como meio de classificar fatos e fenômenos que ocorrem Ó
na experiência/trajetória das mais diferentes sociedades e indivíduos. Levando em R
I
consideração as concepções e formulações de Braudel é possível afirmar que: analise A

as sentenças a seguir: E

H
I
I- Ocorrências acidentais tais como mortes, nascimentos, assaltos, greves, ataques, S
T
disparos, invasões, desembarques, entre outros foram identificados como O
R
acontecimentos. I
O
II- Como fenômenos estruturais pode-se identificar desequilíbrios, oscilações, G
R
turbulências e flutuações em meio a regimes, tais como revoluções, crises, guerras. A
F
I
A
112 TÓPICO 2 UNIDADE 2

III- Como acontecimentos é possível relacionar as comemorações que constam nos


calendários de países e nações, tanto cívicas como religiosas.
IV- Pertence à dimensão das estruturas os comportamentos e costumes de uma
dada coletividade, assim como ideologias que permeiam as mentalidades e que se
estendem por várias gerações.
Agora, assinale a alternativa que apresenta a alternativa CORRETA:
a) ( ) As sentenças II, III e IV estão corretas.
b) ( ) As sentenças I e IV estão corretas.
c) ( ) As sentenças I, III e IV estão corretas.
d) ( ) As sentenças III e IV estão corretas.

T
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UNIDADE 2

TÓPICO 3

AS PRINCIPAIS TENDÊNCIAS DO SÉCULO


XXI

1 INTRODUÇÃO

Vive-se em um momento em que as relações humanas e o universo mental haviam


sido modificados, desengajados socialmente, haviam recuado para o campo doméstico, do
cotidiano, do individual e do particular.

Esta interpretação de recuo das manifestações do sujeito enquanto corpo coletivo não
quer dizer que os indivíduos, numa esfera social mais ampla, passam a agir apenas com base
em condições históricas criadas por outros, utilizando os recursos materiais e de cultura que
lhes foram fornecidas pelas gerações anteriores e que não poderiam de nenhuma forma ser
os “autores” ou os agentes de sua própria história. T
E
O
As saídas deste labirinto de enclausuramento intimista e particular demoraram para R
I
surgir, mas estiveram plasmadas ao longo do século XX, em especial a partir dos anos de 1960, A

através de movimentos como do feminismo, dos panteras negras e movimentos ecológicos, os D


A
chamados “novos movimentos sociais”, juntamente com as revoltas estudantis, de contracultura
H
e antibelicistas, que reclamavam pelo retorno às lutas pelos direitos civis, os movimentos I
S
revolucionários do terceiro mundo, as questões pela paz, entre outros. T
Ó
R
I
Percebeu-se assim o nascimento histórico do que veio a ser conhecido como a política A

das identidades, e, em especial, uma identidade para cada movimento: sexuais: gays e lésbicas; E

raciais: negros; gênero: mulheres; antibelicistas: paz. Criaram-se nichos, partículas ou mônadas H
I
sociais circunscritas, fracionadas, segmentadas em guetos e redutos específicos, distantes do S
T
todo que forma o coletivo e a sociedade. O
R
I
O
G
R
A
F
I
A
114 TÓPICO 3 UNIDADE 2

2 A NOVA HISTÓRIA CULTURAL

Os estudos regionais possibilitam um trabalho de pesquisa artesanal pelo historiador


que se valeria de praticamente toda a documentação disponível. Permite seguir uma evolução
de um grupo social a longo prazo, analisando-o em diferentes níveis estruturais: geográficos,
demográficos, econômicos, sociais, ideológicos e mentais. A história regional é melhor entendida
como um fenômeno que se circunscreve e que abarca uma determinada região e dimensão
espacial e temporal.

Os estudiosos da história cultural defendem que a cultura não se situa acima ou abaixo
das relações econômicas e sociais, nem pode ser alinhada com elas. Todas as práticas, sejam
econômicas ou culturais, dependem das representações utilizadas pelos indivíduos para darem
sentido a seu mundo.

Jacob Burckhardt e Johan Huizinga representam as grandes referências aos estudiosos


desta corrente historiográfica. Ambos se centram na história dos clássicos, das obras-primas
da arte, da literatura, da filosofia, da ciência, que os preenchem com o ‘contexto histórico’ ou o
‘espírito da época’ na qual elaboram e teceram seu legado, ampliando e aprimorando o campo
hermenêutico e o leque interpretativo da História.

Debates teóricos e categóricos entre cultura, barbárie, civilização, níveis de consciência


e sofisticação, erudito, popular, são estabelecidos. Os estudos da História Cultural buscam pelas
T
E expressões como os modos, formas, artefatos e recursos materiais, no corpo, nas emoções, nos
O
R sentimentos, na percepção, nos sons, nos cheiros, nas formas, nos detalhes, nos rituais, nas
I
A paisagens, nos acabamentos, nas particularidades, nas especificidades, nos nuances, nas sutilezas.
D
A
No interior da História cultural também ocorre a tendência que é pela redescoberta do
H
I povo, a Volkskultur como era nominada na Alemanha do final de século XVIII. Apreciadores de
S
T antiguidades, folcloristas e antropólogos elegem em seus estudos elementos como canções,
Ó
R contos populares, danças, rituais, tradições, costumes, artes e ofícios que se encontravam
I
A ofuscados pelo contexto industrial e moderno.
E

H
Áreas como a psicologia, a filosofia, a antropologia, são acionadas pelos historiadores
I
S
da cultura e estão empenhados em empreender uma espécie de hermenêutica visual, que
T desvela a visão de mundo de uma cultura ou grupo social, sintetizada em uma obra.
O
R
I
O O quadro teórico que forneceu referência aos estudos da História Cultural pode ser
G
R encontrado nos estudos de Norbert Elias em O processo civilizador (1939); Mikhail Bakhtin,
A
F Cultura popular na Idade Média e no Renascimento (1965); Michel Foucault, nas obras A ordem
I
A
UNIDADE 2 TÓPICO 3 115

do discurso (1971), A ordem das coisas (1966) e Vigiar e Punir (1975); Pierre Bordieu, na obra
O poder simbólico (1989).

3 A MICRO-HISTÓRIA

Deus está no particular.


A. Warburg

Trata-se de um fazer que está no campo da etno-história, que se pretende como uma
ciência do vivido, estabelecendo um entrecruzamento entre história econômica, social e
cultural. Para os estudiosos deste período a hegemonia será reconhecida ao nível cultural das
sociedades, que por sua vez é responsável por engendrar o nível social, em seus conflitos,
contradições e inteligibilidades, ou seja a capacidade e potencialidade de mudança não está
mais na dimensão política, econômica, ou social, antes no mundo cultural.

O debate, a clivagem, o conflito existente erudito/civilizado/urbano/industrial/


alfabetizado/laico versus popular/rural/religioso/artesanal/bárbaro é reconhecido em vantagem.
Os componentes da sociedade ganham o palco, seja como vilões (bandidos, vagabundos,
soldados, feiticeiras, judeus, ciganos, assassinos), povo das cidades (operários, comerciantes,
intelectuais, jornalistas, profissionais liberais), o povo do campo (artesãos, camponeses,
ferreiros, açougueiros), e os nobres.

T
O que por sua vez evidencia uma história em migalhas, a fragmentação de todo um corpo E
O
social, ou seja, uma espécie de exaltação de personalidades, individualidades, o espírito dos R
I
tempos, “cada um por si e o mercado para todos”, em que o campo político e do engajamento A

coletivo se encontra enfraquecido e em desencanto. D


A

H
A micro-história apresenta-se como alternativa à macro-história, que vai se munir de I
S
pequenas histórias, que possuem sentido e significado por si mesma. As estruturas globalizantes T
Ó
e generalizadoras como da economia de mercado, sociedade de consumo política internacional R
I
são preteridas; no seu lugar enfatiza-se os indivíduos, suas expectativas, frustrações, alegrias, A
sofrimentos e os meandros de seu cotidiano. E

H
I
A micro-história encontra-se despojada de textos e manifestos teóricos sólidos e S
T
fundantes, por outro lado, requer uma prática historiográfica com variadas ecléticas. A micro- O
R
história consiste em um trabalho experimental, que não possui um campo teórico e metodológico I
O
circunscrito e fechado. Os historiadores que aderiram à micro-história possuem raízes e fortes G
R
influências do marxismo, com orientação política à esquerda e que se desviam do neoidealismo, A
ou para filosofias de irracionalismo. (LEVI apud BURKE, 1992). F
I
A
116 TÓPICO 3 UNIDADE 2

A ação social é vista como o resultado de uma constante negociação, manipulação,


escolhas e decisões do indivíduo, diante de uma realidade normativa que, embora difusa, não
obstante oferece muitas possibilidades de interpretações e liberdades pessoais.

A micro-história, ou seja, a redução da escala é um procedimento analítico, que pode


ser aplicado em qualquer lugar, independentemente das dimensões do objeto analisado.
Deveríamos discutir o problema da escala, não só como aquele da escala da realidade
observada, mas também como uma questão de uma escala variável de observação para os
propósitos experimentais.

Um dos principais estudiosos em micro-história é o italiano Carlo Ginsburg (1939), que


em suas obras aborda a magia, bruxaria e as mentalidades da época renascentista.

Mas as maiores contribuições se dão em termos de metodologia histórica que acaba


por reunir elementos à análise das formas de investigação de tipo histórico-cronológico,
morfologia e história, do qual resultou o método indiciário, conforme se procura apresentar, de
forma condensada, a seguir:

3.1 O MÉTODO INDICIÁRIO DE GINZBURG

O autor propôs a retomada do “método morelliano” proposto pelo historiador da arte


Giovanni Morelli (1816-1891). O método morelliano preocupava-se em corrigir os equívocos de
T
E autoria que é atribuída a inúmeras obras de arte, em especial, distinguir as obras originais das
O
R cópias, o que não representa uma tarefa fácil, pois muitas obras não se encontram assinadas,
I
A ou foram repintadas, restauradas ou em mau estado de conservação.
D
A
O percurso metodológico sugerido por Morelli é o de procurar, farejar as particularidades,
H
I os pormenores mais negligenciáveis, que vez apresentam menor influência das tendências,
S
T escolas, movimentos artísticos e culturais a que são identificados.
Ó
R
I
A Existe uma atenção muito grande às asas de anjos, aos narizes e olhos que Leonardo da
E Vinci pintou, todavia, a proposta de Morelli é a de se voltar a atenção aos lóbulos das orelhas, as
H unhas, as formas dos dedos dos pés e das mãos, os detalhes secundários, as particularidades
I
S insignificantes, os lapsos do ofício do artista.
T
O
R
I
Estes aspectos acabam por revelar a propriedade de cada artista, pois existe uma forma
O
G
de dedos que é de Botticelli, outra de Dürer, outra ainda de Giotto, e em especial pormenores
R
A
e cuidados que somente são encontrados nos exemplares originais, detalhes que escapam à
F
I
capacidade das cópias.
A
UNIDADE 2 TÓPICO 3 117

É possível encontrar correspondência do método de Morelli na literatura de romance


policial do escritor inglês Arthur Conan Doyle, através de seu personagem Sherlock Holmes,
quando que o pesquisador e conhecedor de arte é associado a um detetive em busca de
indícios e provas de um crime.

O personagem Sherlock Holmes considerava em seu percurso investigativo as pegadas


na lama, a cinzas de cigarro esquecidas, as marcas digitais, os indícios, os detritos, os refugos,
resíduos triviais, dados baixos, marginais, as centelhas que se perderam em meio à realização
do crime.

Wind (apud GINZBURG, 1989) afirma que a personalidade deve ser procurada onde o
esforço pessoal é menos intenso. Os pequenos gestos, inconscientes, que carregam o nosso
caráter, mais do que qualquer atitude formal, é mecânica e conscientemente controlada.

A psicanálise e a medicina moderna também se interessaram pelos pressupostos de


Morelli, especialmente no que diz respeito em se levar em consideração os sintomas dos
indivíduos, uma espécie de semiótica médica, que atentam pela observação indireta e sutil.

O historiador é comparável ao médico ao analisar o mal específico de cada paciente.


Por sua vez o conhecimento histórico é indireto, indiciário e conjetural. Por outro lado, o método
de Morelli quer dizer que a parte oculta, invisível/imaterial/inconsciente/intangível da realidade
não é menos importante do que a visível/material/consciente/tangível.

Ginzburg (1989) defende que o saber contido nos elementos negligenciáveis possui a
capacidade de remontar uma realidade complexa e não acessível diretamente. O ato de “ler” ou T
E
“decifrar” pistas e indícios de eventos não vivenciados e ou experimentados diretamente pelo O
R
observador, pode ser atribuído aos tempos da invenção da escrita. Esterco, pegadas, pelos, I
A
plumas, entranhas de animais, gotas de sangue, de óleo na água, as fezes, os odores, os sabores,
D
entre outros, compunham os aspectos que as populações antigas levavam em consideração. A

H
I
Porém este método foi bastante julgado e condenado como positivista, mecânico e até S
T
arrogante e logo caiu em descrédito. Entre as críticas que são feitas ao método indiciário, diz Ó
R
respeito à fragilidade do estatuto científico-metodológico que este percorre e encerra, porém I
A
como contrapartida existe o fato de conseguir alcançar resultados relevantes.
E

H
Ginzburg (1989), em defesa do paradigma indiciário, discute que ninguém aprende o I
S
ofício de conhecedor ou de diagnosticador limitando-se a pôr em prática regras preexistentes T
O
e frisa que o percurso metodológico do método indiciário considera elementos como o faro R
I
e os demais sentidos, golpe de vista, intuição, sensibilidade, e aproxima o animal homem às O
G
outras espécies animais. R
A
F
I
A
118 TÓPICO 3 UNIDADE 2

4 HISTÓRIA E SABER LOCAL

O homem é um animal suspenso nas teias de significado que ele próprio teceu.
Clifford Geertz

Clifford Geertz (1926-2006) e Roger Keesing (1935-1993), que buscaram referências


nos estudos culturais de Max Weber (1864-1920) e métodos interpretativos de Wilhelm Dilthey
(1833-1911) e os antropológicos de Claude Lévi-Strauss (1908-2009), Victor Turner (1920-1983)
e Mary Douglas (1921-2007) com a intenção de compor uma espécie de antropologia histórica
que se preocupa com a interpretação das culturas, ou melhor de uma outra consciência cultural
e de uma forma que possibilite captar o centro e a periferia dentro de uma única estrutura.

A decodificação disso e transformação em conhecimento histórico deve ser plasmada


com a preocupação de descrição densa, que é capaz de registrar e diferenciar um reflexo
insignificante, um soslaio e um piscar. A descrição densa examina o comportamento público
em termos do que ele ‘diz’, não do que ‘faz’, ou seja, ‘lê’ e interpreta o conteúdo simbólico da
ação. (BIERSACK apud HUNT, 2001).

Geertz (1973) adota a compreensão e o particularismo, em vias de superar a explicação


causal, evita comparações no sentido comum, procura estabelecer semelhanças e dessemelhanças
numa tentativa de criar uma tipologia, fazer junções e não agrupações. O homem é um animal
suspenso nas teias de significado que ele próprio teceu. As teias, não o ato de tecer; a cultura,
T
E não a história; o texto, não o processo de textualização interessava a Geertz.
O
R
I
A As culturas são teias de mistificação, bem como de significação. Precisamos perguntar
D quem cria e quem define os significados culturais, e com quais finalidades. E alerta que o
A
exame da natureza ideológica e política do saber local exige que nos atenhamos ao contexto
H
I histórico em que esse saber opera.
S
T
Ó
R
I
A

E 5 LINGUÍSTICA E NARRATIVA
H
I
S Os livros eram ladrões. Roubavam-nos do que nos acontecia.
T
O Mas também eram generosos, ofereciam-nos o que não nos acontecia.
R
I Valter Hugo Mãe
O
G
R
A O conhecimento histórico que se envereda por estas temáticas, categorias de análise e
F
I abordagens de certa forma procuram vingar o que foi rechaçado pelas três fases de hegemonia
A
UNIDADE 2 TÓPICO 3 119

dos Annales, ou seja, trata-se de uma espécie de reinvenção do acontecimento. Algumas teorias
enfatizam a recepção ou leitura dos textos, outras são produções ou escritas, outras a unidade
e coerência do significado, outras ainda enfatizam o papel da diferença e as maneiras pelas
quais os textos funcionam no sentido de subverter suas aparentes finalidades.

Chartier (CHARTIER apud HUNT, 2001) ler é uma prática criativa que inventa significados
e conteúdos singulares, não redutíveis às intenções dos autores dos textos ou dos produtores
dos livros. Ler é uma resposta, um trabalho, ou, como dizia Michel de Certeau (1982), um
ato de caçar em propriedade alheia. Ler é entendido como uma ‘apropriação’ do texto, tanto
por concretizar o potencial semântico quanto criar uma mediação para o conhecimento do eu
através da compreensão do texto.

Paul Ricouer (1923-2005), em seu livro “A escrita da história”, postula que o fazer
histórico reside fundamentalmente na sua escritura, tecida entre as performances do fazer e o
contar histórias, o que reacende a discussão em torno da problemática de História ‘ciência’ e
‘ficção’. Por outro lado, Certeau (1982) defende que o corpo social deve ser o objeto primordial
da História, enquanto discurso científico.

Para o autor antes de saber o que a história diz de uma sociedade, importa analisar
como a história funciona nessa sociedade. A prática histórica é correlativa à estrutura da
sociedade que desenha as condições de um dizer que não seja nem legendário, nem utópico,
nem desprovido de pertinência.

Certeau (1982) recorre ao método de crítica interna e externa das fontes, semelhante
ao que Langlois e Seignobos já se utilizavam no século XIX, que consiste na pesquisa e no T
E
estudo de documentos e fontes originais, de forma muito erudita e rigorosa com o intuito de O
R
avaliar a veracidade contida na base documental, uma espécie de ‘arte de ler’. I
A

D
Na tentativa de encontrar novas formas de abordar o passado os historiadores A

inclinaram-se às áreas e disciplinas como da antropologia, economia, psicologia e sociologia e as H


I
aproximações mais recentes estão se dando ao campo da crítica literária, filosofia da história e S
T
da história intelectual que procuram através da linguagem, dos textos e das estruturas narrativas Ó
R
expandir a erudição histórica, proceder à criação e à descrição de realidades históricas, que I
A
compõem um pano de fundo composto por elementos oriundos da filosofia, da literatura e
E
escritos teóricos das culturas do passado.
H
I
S
Os estudiosos que ganharam forte projeção nesta proposta de História são Hayden T
O
White (1928) e Dominick LaCapra (1939). Ambos defendem que a atenção às perspectivas R
I
crítico-literárias pode tornar os historiadores mais inovadores e mais conscientes de seus O
G
próprios postulados e repressões (KRAMER apud HUNT, 2001). White relaciona-se e aproxima- R
A
se mais das perspectivas estudadas pelo estudioso Michel Foucault (1926-1984), La Capra, F
I
identifica-se com a obra do filósofo Jacques Derrida (1930-2004), que apresenta influências A
120 TÓPICO 3 UNIDADE 2

teóricas de Martin Heidegger (1889-1976) e Mikhail Bakhtin (1895-1975), que possuem como
modelo teórico-crítico os escritos do filósofo alemão do século XIX, F. Nietzsche (1844-1900).

Os estudos, que estes pesquisadores realizaram, permitiram identificar que a tendência


da história tem sido a de manter-se situada dentro de paradigmas literários e científicos que
vigoraram ao longo do século XIX, que não conseguem ultrapassar a tarefa de encontrar o
simples no complexo e o familiar no estranho, negligenciando insights que a literatura, a arte,
a teoria crítica, a imaginação histórica e a ciência podem percepcionar.

White (1994) discute que a principal diferença entre história e filosofia da história
consiste no fato de que a última traz para a superfície do texto o aparato conceitual através
do qual os fatos são ordenados no discurso, enquanto a história propriamente dita (como é
chamada) esconde-o no interior da narrativa, onde atua como um dispositivo oculto ou implícito
de configuração.

Bodei (2001) aponta que os estudos de White sustentam que a explicação histórica consiste
em um ato poético, porque as estratégias interpretativas do historiador constituem a formalização de
instituições poéticas e que se baseiam em razões estéticas e morais. ‘Meta-história: a imaginação
histórica do século XIX’ e ‘Trópicos do discurso’ são as principais obras do autor.

Os historiadores que repensam as categorias da compreensão histórica têm, de fato,


maiores probabilidades de encontrar um grande número de vozes submersas que contestam
seu desejo histórico (e metafísico) de um significado unificado e sem ambiguidade (KRAMER
apud HUNT, 2001).
T
E
O La Capra (1983) defende que um texto é uma rede de resistências, e um diálogo é uma
R
I relação bilateral; um bom leitor é também um ouvinte atento e paciente. Ainda sugere que se
A
deve ler os textos e contextos históricos de um modo que se reconheça sua complexidade e
D
A que possa levar também a novos tipos de escrita, que o estilo que se adota, ao escrever, está
H sempre associado ao estilo que se adota para ler. Ler e escrever constituem dois aspectos
I
S imbricantes da inevitável relação entre o historiador e a linguagem.
T
Ó
R
I La Capra (1983) motiva os historiadores a terem os textos e contextos históricos de um
A
modo que reconheçam sua complexidade e que possam levar também a novos tipos de escrita,
E
visto que o estilo que se adota, ao escrever, está sempre associado ao estilo que se adota para
H
I ler. Alerta que os historiadores devem ler o contexto com sensibilidade para o processo literário
S
T de ‘intertextualidade’, não com a noção causal de reflexão. A leitura e a interpretação do contexto
O
R levantam problemas tão difíceis quanto aqueles suscitados pelo mais intrincados dos textos escritos.
I
O
G
R As questões são agora mais sutis, não são menos importantes. Os historiadores estão
A
F se conscientizando cada vez mais de que suas escolhas supostamente objetivas de técnicas
I
A de análise também têm implicações sociais e políticas.
UNIDADE 2 TÓPICO 3 121

6 A HISTÓRIA AMBIENTAL

A temática começou a ganhar atenção pelos estudiosos desde os anos de 1970, quando
passaram a ocorrer manifestações de movimentos ambientalistas, bem como conferências e
encontros de estudiosos e autoridades mundiais para discutir questões. A segunda geração dos
Annales, através dos estudos de Fernand Braudel, já intuía para esta tendência da historiografia.

Centra-se na percepção das forças da Terra e da natureza, agora como um agente e uma
presença que se impõem ao tempo, ao homem, às sociedades, às civilizações, aos impérios e à
História. O universo de trabalho do estudioso da História Ambiental são os campos, as florestas,
os rios, as marés, vulcões, abalos sísmicos, tornados, tsunamis, nevascas, estiagens, enchentes,
propriedades do solo, as eras geológicas, as fronteiras, as tecnologias, as paisagens, as planícies,
os planaltos, as geleiras, os desertos, as intempéries, as catástrofes, as migrações, a cidade, o
campo, as especulações imobiliárias, as epidemias, fomes, as colheitas/safras, as infestações, os
desiquilíbrios, os ciclos reprodutivos, as ocorrências de espécies, os exotismos, o ecossistema,
a biosfera, os aspectos ecológicos e humanos, ou seja, um universo amplo e complexo.

O pesquisador em História ambiental precisa estar atento a outras áreas do conhecimento,


tais como a geografia, a antropologia, bem como as ciências naturais, e empreender uma espécie
de aliança interdisciplinar, que são compostas por números, leis, conceitos, terminologias e
experiências. As fontes mais utilizadas são dados estatísticos, índices de PH (potencial de
hidrogênio) e IDH (Índice de Desenvolvimento Humano), medidas de níveis, cartografias, mapas,
T
globos, condições meteorológicas, dados geológicos e hidrológicos. E o tempo histórico é da E
O
longa duração, a tentativa de empreender uma história ‘total’, de ‘quase tudo’, e extrair sentido R
I
do todo e complexo funcionamento conjunto. A

D
A
Temas ambientais, a crise energética, doenças e epidemias, situação das matérias-
H
primas, a poluição da água e do ar, as contaminações, as degradações, a produção de alimentos, I
S
o crescimento populacional, a urbanização, sempre com uma preocupação moral e ética de T
Ó
discutir e reorientar os modos/estilos de vida e consumo dos indivíduos e obter compromissos R
I
e responsabilidades por parte dos sistemas econômicos, de produção e dos governos. A

E
Worster (1991) discute que é provável que os historiadores se dediquem mais a temas H
I
como o de povos organizados em sociedades avançadas e complexas, e que se relacionam com S
a natureza através de rituais e religiões modernos; mas aponta que a história ambiental deve T
O
incluir em seu programa o estudo de aspectos de ética e estética, mito e folclore, literatura e R
I
paisagismo, ciência e religião, deve ir a toda parte onde a mente humana esteve às voltas com O
G
o significado da natureza, no sentido de revelar como uma cultura inteira percebeu, interferiu R
A
e avaliou a natureza. F
I
A
122 TÓPICO 3 UNIDADE 2

O autor ainda chama atenção para o fato de que não se pode presumir que algumas
culturas foram mais respeitosas com a natureza que outras, nos alerta que as sociedades e
as épocas são muitas e que existe um leque complexo de experiências e valores (materiais
e espirituais) em meio a elas e que jamais ocorreu que uma cultura conseguiu viver de forma
harmônica integral e total com a natureza.

Aldo Leopold (1887-1948), James Malin (1893-1979), Julian Steward (1902-1972),


Emanuel Le Roy Ladurie (1929), Simon Schama (1945) representam os principais estudiosos
da História Ambiental. A temática ganhou grande ênfase ainda nos anos de 1960 quando
ocorre a publicação e os debates sobre explicação/metáfora ‘A tragédia dos comuns’ que foi
popularizada por Garrett James Hardin (1915-2003) que visa elucidar questões sobre ecologia,
ciência política, econômica, imigração e densidade populacional ao mesmo tempo.

O texto procura abordar a metáfora que consiste numa espécie de armadilha social, que
é deflagrada diante da exploração e do acesso a recursos finitos em que acabam prevalecendo
os interesses individuais diante do uso comum. Que se revela como a condenação de um
determinado recurso, mediante o livre acesso, a superexploração e a demanda irrestrita.

UNI

Assista ao filme: Rapa Nui (umbigo do universo): uma aventura


no paraíso. Kevin Reynolds. Estados Unidos: 1994. 107 min.
O filme apresenta a população da Ilha de Páscoa, no Oceano
Pacífico Sul no período anterior ao contato de exploração e
T colonização europeia, por volta do ano de 1680. Duas tribos
E centralizam a trama: os orelhas grandes e os orelhas pequenas.
O
R A população da ilha encontra-se extinta, mas estima-se que a
I população nativa existiu por volta do ano de 900 d.C. A Ilha conta
A com mais de 800 estátuas gigantes, os moais, que se especula
D serem em homenagem a ancestrais, chefes de família e lideranças
A religiosas das populações que ali viviam.
H
No pano de fundo, o filme procura explorar estes aspectos todos,
I despertando interesse investigativo para com as discussões e teorias
S ainda não são suficientes e intrigam estudiosos e a admiradores
T
Ó
do local, que se perguntam sobre as explicações de da origem, da
R edificação e da finalidade das estátuas, bem como dos motivos e
I causas prováveis ao desaparecimento da população nativa.
A

H
I
S
T
O
R 7 A HISTÓRIA DO TEMPO PRESENTE
I
O
G
R A era da globalização, o movimento, a aceleração das informações abate-se sobre a
A
F História, fazendo com que esta centre-se no acontecimento e dilate-se no sentido de abarcar
I
A a cadeia e a multiplicidade de relações que o acompanham.
UNIDADE 2 TÓPICO 3 123

O atentado às torres gêmeas dos Estados Unidos da América, ocorrido em 11 de


setembro de 2001 e a Invasão do Iraque, e as sempre surpreendentes descobertas de fraudes
e práticas de corrupção em meio aos governos democráticos, representam um exemplo recente
que colocou em xeque até as mais tolerantes e flexíveis categorizações da História foram
abaladas, entre os grupos de intelectuais murmurava-se a possibilidade de se inaugurar um
novo momento histórico.

Para Dosse (2003a) a leitura histórica do acontecimento não é mais redutível a um


fato estudado, mas visto em seu vestígio, situado numa sequência de acontecimentos. Todo
discurso sobre um acontecimento veicula e conota uma série de acontecimentos anteriores, o
que confere grande importância à trama discursiva que os reata numa colocação em intriga.

A temática do tempo presente solicita que o profissional da história esteja consciente e


alerta com o seu tempo e momento histórico. Não mais imerso em tempos e momentos históricos
longínquos do passado. Esta temática possibilita que o historiador se aproxime de outras áreas
do conhecimento, tais como a Sociologia, Economia e Geografia, Geopolítica, entre outras.

Quando ocorrem as coberturas de fatos ou fenômenos, os meios de comunicação


(canais de televisão, jornais, blogs e demais mídias sociais) solicitam os conhecimentos dos
profissionais da História, que munidos de seu olhar articulador para com os fatos, fenômenos
e categorias de análise, estabeleçam relações, faça comparações, profira sua interpretação,
decodifique e torne inteligível num todo coerente aquilo que aparentemente é apenas um
acaso, uma fatalidade ou um fato despretensioso. Os telespectadores encontram-se ávidos
para que esta explicação lhe confira sentido, orientação e para que a vida possa seguir em
frente e que a roda continue. T
E
O
R
Diante deste cenário observa-se que recaem sob a temática da História do tempo presente I
A
muitas expectativas; ela solicita que se formule uma base teórica cujas referências proporcionem
D
a acomodação e explicação dos fatos e fenômenos que já tenham ocorrido em algum momento A

do passado, por outro lado, que permita destrinchá-los e discerni-los das forças que o compõem H
I
e tencionam no momento presente; uma espécie de profissional que conferirá objetividade e S
T
inteligibilidade a um todo caso/acontecimento aleatório e subjetivo; por fim, existe outro desejo Ó
R
e expectativa que o analista da História do tempo presente seja capaz de revelar nuances de I
A
futuro, o que deve ser evitado a todo custo, que se alcance as expectativas.
E

H
Este campo da historiografia requer que o historiador tenha em mente a proporção e I
S
a contextualização que sua fala e informações prestadas podem adquirir, que seja capaz de T
O
resistir ao assédio e ao sensacionalismo midiático. R
I
O
G
Na História do tempo presente, o principal objeto de estudo do historiador são os fatos, R
A
os acontecimentos que podem até ocorrer e se concentrar num determinado espaço geográfico, F
I
mas que possuem a capacidade de repercutir e ganhar amplitude no sentido de afetar e tocar A
124 TÓPICO 3 UNIDADE 2

um amplo público.

A história do tempo presente se utiliza de fontes da imprensa, digitais ou impressas,


documentários, fotografias, reportagens ou coberturas jornalísticas.

Os temas podem ser oriundos a contextos políticos, econômicos, dos movimentos sociais,
do meio ambiente. Podem ser acidentes, protestos, manifestações, catástrofes, quebras, prisões,
desastres, fatalidades, invasões, greves, visitas, aparições, tomadas, atentados, entre outros. E
contar com as fontes da História oral, tais como relatos de vivências, entrevistas e registros de
testemunhos e depoimentos diante de algum momento, fato acontecimento relevante.

O historiador é convidado a agir, proferir julgamentos e reclamar por justiça. Precisa


recusar as noções de acaso, acidente, aleatório, efêmero; a estabelecer unidades, sequências,
prolongamentos, reinvenções e repetições. Dosse (2003) apresenta que o acontecimento é
criador de atores que falam em seu nome, que estão interessados em realizar e propagar ideias
ou inovações, empreender outras possibilidades de futuro.

O historiador desta corrente historiográfica possui grande acesso e controle para com
os testemunhos dos acontecimentos. Isto requer cuidados metodológicos, prudência crítica e
procedimentos éticos.

8 CONSIDERAÇÕES FINAIS
T
E
O
R É preciso mudar o mundo, não o passado.
I
A Moses Finley
D
A
Vive-se um tempo de profundas crises. Bodei (2001, p. 71) analisa que:
H
I
S Não existe mais nem um império unificador, como em Políbio; nem uma credí-
T
Ó vel civitas peregrinans, como em Agostinho; a ‘procissão do espírito santo’ na
R história, como em da Fiore; os Volksgeiter, como em Herder; a ‘educação do
I gênero humano’, como em Lessing; os saltos de época, como em Condorcert;
A
o proletariado na qualidade de protagonista da revolução que deveria terminar
E com todas as revoluções, como em Marx. Em segundo lugar, esvaziou-se a
confiança no progresso e no futuro, garantia pelo avançar para uma meta
H
I única e satisfatória, e com ela a crença de que o negativo e o mal na história
S possam tornar-se o ‘fermento’ do bem e que as fases de extremo sofrimento
T dos povos sejam simples parênteses do desenvolvimento.
O
R
I
O Deus, a providência, o Estado-nação, o povo e a classe, todos perderam o monopólio
G
R da condução sensata dos fatos, encontram-se numa trama em que desempenham papéis de
A
F coadjuvantes e não mais protagonistas solenes.
I
A
UNIDADE 2 TÓPICO 3 125

A historiografia atual encontra-se matizada por fortes traços de anacronismos, que


podem ser identificados pelo revisitamento e atualização dos mais diversos ‘usos’ e ‘costumes’
que pertencem a outras épocas e sociedades. Por outro lado, observa-se a transposição
dos modelos e angústias do presente ao passado acaba por revelar experiências que se
caracterizam por extremismos, feminismos, racismos, totalitarismos, machismos e outros
tantos ‘ismos’.

Dosse (2001) reflete que a trajetória da História ao longo do século XX, trilhada e
permeada pelas ciências sociais, acabou por fazer com que se fragilizasse a identidade da
História enquanto conhecimento e disciplina do saber. A aproximação com outros objetos,
temas, métodos e abordagens pode, em grande potencial, fazer com que a história se perca em
meio a uma teia de possibilidades desconexas e sem sentido, e por meio desse esfacelamento
desaparecer ou ser conduzida à marginalização diante de outras ciências e conhecimentos
mais concentrados e concisos.

Diehl (1993) atesta que o conhecimento histórico a desreferencialização do real, o


discurso intertextual, a dessubstancialização do sujeito e o retorno ao estudo dos microcosmos,
o que significa no conjunto, a fragmentação da história como ciência; e vive-se em uma época
em que a ciência histórica é assombrada pelo espectro da intransparência teórico-metodológica,
e que se faz necessário e urgente assumir a tarefa de discutir os parâmetros, os limites e as
possibilidades de se tecer fundamentos, justificativas e sustentação à própria História.

Rüsen (2007b) aponta que no quadro de superação da tradição da História moderna


tecida no século XIX instaura-se uma espécie de post-historie, que se centra nas questões
culturais, um retorno ao não moderno, que é matizado pela desreferencialização do real, o T
E
discurso intertextual, a dessubstancialização do sujeito e o retorno ao estudo dos microcosmos, O
R
que busca fazer uma espécie de compensação diante dos custos e das perdas culturais e sociais I
A
dos projetos de modernidade, dando espaço às possibilidades, às temáticas da memória, da
D
identidade e do patrimônio, em que ocorre uma fuga circunstancial, de que quando o presente A

frustra o passado reconforta. H


I
S
T
Pode-se perceber que a grande preocupação da historiografia sistematizada ao longo Ó
R
do século XX dedicou-se em fazer todo um percurso de complementação e compensações I
A
dialéticas para com as negligências que os projetos modernos foram responsáveis por produzir.
E
E mais recentemente tem-se uma tentativa compensação do que a historiografia do século XX
H
acabou por negligenciar, que segundo Dosse (2001) pode ser identificado com o renascimento I
S
da narrativa e do discurso histórico nos dias atuais está numa tentativa de recuperar aquilo que T
O
foi rejeitado desde o começo da escola do Annales, que foi o acontecimento. R
I
O
G
Para Dosse (2001) reside exatamente no ‘acontecimento’ o que confere à História sua R
A
especificidade e função, uma vez deslegitimado tal fundamento dilui-se e coloca-se em risco F
I
a própria História. Para o autor não se trata de recorrer aos fatos pelo mero divertimento ou A
126 TÓPICO 3 UNIDADE 2

evasão, mas de reabilitar o acontecimento agora de forma significativa, ligado às estruturas


que o tornaram possível e como fonte de inovação e genuinidade. Numa abordagem presente-
passado numa relação orgânica entre os dois, para que o conhecimento do passado sirva à
inteligibilidade de nossa sociedade.

Rüsen (1997) e Diehl e Machado (2001) apresentam-se como autores preocupados com
o que se refere ao teor da História enquanto ciência, didática e conhecimento histórico com
funções racionais e reflexivas na sociedade atual, que se encontram em momentos de forte
crise de expectativas, seja pela ausência de critérios orientadores ou de soluções e alternativas
que realmente gerem mudanças e superações.

Os autores chamam a atenção para o fato de que em meio aos profissionais da história
ocorre uma espécie de silêncio e indiferença para com as questões que dizem respeito à
didática da História, o que é nefasto e prejudicial a ela enquanto conhecimento e ciência, e em
especial à sociedade, a qual demanda por orientações diante das problemáticas que a envolve.

De maneira ampla, os autores estão propondo que a história enquanto conhecimento


tenha plausibilidade científica e que a didática da história não seja compreendida somente como
um mero ornamento externo do conhecimento científico, e, em especial, que o profissional da
História se questione sobre a origem, a estrutura, as funções, as perspectivas orientadoras do
conhecimento histórico.

Para aprofundar estas questões encerra-se este tópico sugerindo a leitura da


entrevista em que Rüsen aprofunda estas questões que se impõem à teoria e à historiografia
T contemporânea.
E
O
R
I
A LEITURA COMPLEMENTAR
D
A Entrevista com o Prof. Dr. Jörn Rüsen, realizada no Kulturwissenschaftlisches Institut-
H nrw, Essen, na Alemanha, em 20 de fevereiro de 2008, conduzida pelo Prof. Dr. Luiz Sérgio
I
S Duarte da Silva/ UFG.
T
Ó
R
I DUARTE: O senhor poderia, por favor, fazer um balanço do trabalho do Centro de Investigação
A
Interdisciplinar de Bielefeld, no final dos anos 80 e início dos anos 90?
E

H
I RÜSEN: Eu só posso falar sobre o tempo durante o qual eu estava ainda na Comissão Executiva
S
T do Centro de Investigação Interdisciplinar (ZfIF). Não pode haver uma síntese do conteúdo,
O
R porque as questões no tema de recurso ZfIF estão constantemente mudando e são muitas as
I
O diferentes áreas da ciência com as quais ele se ocupa. Quando se fala de um balanço, então
G
R
podemos realmente dizer: tratava-se de encontrar um foco temático para tornar interessantes
A
F
e inovadoras as constelações de disciplinas. Devem ser temas de fácil sobreposição. Essa é
I
A
a natureza do ZfIF, que é totalmente aberta a todas as disciplinas. E no momento em que eu
UNIDADE 2 TÓPICO 3 127

estava lá na Comissão Executiva, estivemos envolvidos com diferentes grupos de pesquisa.


Eu mesmo por um ano dirigi um grupo de pesquisa sobre o tema: “o sentido histórico da
educação”, com psicólogos, historiadores, historiadores da arte, filósofos, etnólogos, estudiosos
do islamismo e sinólogos. Este é um exemplo de uma pesquisa sofisticada na ZIF. Lá você
também pode organizar de alguma forma, pequenas reuniões ou grupos de conferência. Assim,
tivemos no momento em que eu estive lá, fizemos uma sequência de reuniões menores, que
no seu conjunto produziu uma “história do pensamento histórico moderno”, que depois foi
publicada em cinco volumes.

DUARTE: O que é pesquisa interdisciplinar?

RÜSEN: O trabalho interdisciplinar vem depois que certas questões são tratadas por várias
disciplinas. O que se quer é evitar uma visão unilateral. Tomemos, por exemplo, “a teoria da
narrativa” ou o tema de “a narração”. Se alguém quiser estudá-los seriamente, então você
precisa de linguistas, literatos, historiadores, psicólogos, sociólogos, antropólogos e filósofos.
Somente quando essas diferentes disciplinas em conjunto produzirem uma leitura do problema
a partir de um diálogo produtivo surgirá o trabalho interdisciplinar.

DUARTE: A respeito da pesquisa sobre narrativa, o Sr. trabalhou durante um bom tempo com
Baumgartner e com ele produziu uma teoria da narrativa articulada à teoria da história. Ele
morreu muito jovem, certo?

RÜSEN: Não, não muito jovem. Michael Baumgartner é na verdade um filósofo, um discípulo
de Hermann Krings. Ele escreveu sua habilitação sobre “Continuidade e História”. Nesse texto,
ele mostra que o pensamento histórico é sempre determinado por representações sobre um T
E
contexto transtemporal, que pode ser chamado de continuidade. Ele deixou claro que a ideia O
R
de continuidade cria uma estrutura narrativa. Sem recorrer à estrutura narrativa, não se pode I
A
compreender o que é história. É o que eu aprendi com ele. Isso era novo para mim. Eu fiz um
D
doutorado sobre Droysen e eu era muito tradicional na teoria da história, ou seja, trabalhei A

com os clássicos, com Hegel, com os neokantianos, me ocupei com Max Weber e a teoria da H
I
historicidade. O pensamento histórico tem uma estrutura narrativa, e só pode ser realizado S
T
através desta estrutura, disso eu não sabia e isso aprendi com Hans Michael Baumgartner. Ó
R
I
A
DUARTE: A narrativa é um tipo de explicação?
E

H
RÜSEN: Sim. I
S
T
O
DUARTE: O Sr. poderia ser mais específico sobre isso? R
I
O
G
RÜSEN: Esta tese é defendida por Arthur Danto, em “Filosofia Analítica da História”. Lá ele R
A
demonstrou brilhantemente que narrar uma história é um processo de explicação e que esse modo F
I
de explicação possui uma lógica diferente daquelas que se referem às intenções ou às leis gerais. A
128 TÓPICO 3 UNIDADE 2

DUARTE: Danto ampliou o conceito de ciência. Então, o senhor acha que devemos integrar o
conceito de interpretação na teoria da ciência. O que o senhor pensa sobre isso?

RÜSEN: A filosofia da história de Danto foi um passo crucial para pensar a particularidade do
pensamento histórico. As tentativas de explicar o pensamento histórico segundo modelos de
racionalidade de outras ciências falha. Se você enxerga narrativa como explicação, como um
ato racional e não reduz explicação e produção da verdade aos procedimentos nomotéticos,
então, o conceito de ciência tem que incorporar as “ciências do espírito”. Em inglês, o termo
“ciência” tem um significado muito mais estreito. Infelizmente, porém, essa descoberta da
estrutura narrativa por Danto na teoria da história levou a um mal-entendido sobre a questão
de racionalidade e da cientificidade da história. A produção historiográfica considerada a partir
de sua estrutura narrativa passou a ser entendida exclusivamente como objeto literário, poético
no sentido de doação de sentido e não como ato de explicação, com sua racionalidade própria.
Esse é o caminho que liga Arthur Danto e Hayden White. Nesse percurso, a racionalidade
própria, o caráter retórico da história, foi perdida.

DUARTE: Então esse é o significado da matriz do pensamento histórico moderno, precisamos


olhar para ele sistematicamente. Não só a partir de uma estética ou de uma epistemologia, de
uma metodologia ou uma ética, mas levando em consideração todos os seus ângulos.

RÜSEN: Sim. Você tem que enxergar a complexidade do tema e abordá-lo analítica e
estruturalmente. A teoria da história nos últimos cinquenta anos passou de uma situação
cuja ênfase estava em tentar comprovar sua racionalidade e objetividade para uma outra
situação que lhe nega qualquer uma dessas características. A virada para a narrativa fez com
T que perguntas sobre método, validade, autenticidade, funcionalidade e objetividade fossem
E
O esquecidas. E isso é lamentável.
R
I
A
DUARTE: A partir das Ciências da cultura, como encarar a diferença entre explicação e
D
A compreensão?
H
I
S RÜSEN: A diferença entre explicação e compreensão se fez no século XIX e tem sido desenvolvida
T
Ó para diferenciar a singularidade do pensamento histórico do pensamento da ciência. Quem
R
I se tornou famoso com essa diferença foi Wilhelm Dilthey, mas o primeiro que formulou essa
A
questão epistemológica foi Johann Gustav Droysen. O problema com esta distinção é que ela
E
entende explicação e compreensão como opostos, e isso é um erro. A compreensão é uma
H
I forma de explicação. Não há compreensão que não explique. Assim, o termo mais geral é
S
T explicação. Explicar é a resposta a uma pergunta sobre o porquê. Primeiro vem uma pergunta
O
R sobre por que algo foi feito e depois vem a resposta, uma explicação. E se a minha pergunta
I
O se dirige para sujeitos e suas ações, para pessoas e suas vidas, só contextualmente posso
G
R entender consentimentos e sofrimentos. Eu só posso explicar compreendendo esses contextos.
A
F Se eu não proceder assim perderei o que é decisivo e constituinte da vida humana: explicamos
I
A compreendendo. Em outras palavras, no campo dos estudos culturais, então, as perguntas são
UNIDADE 2 TÓPICO 3 129

respondidas por recurso sistemático aos contextos em que as pessoas vivem, sofrem e agem.

DUARTE: O que é didática da história?

RÜSEN: Didática da história é a ciência do ensino da história.

DUARTE: Quando o senhor escreveu sobre ensino de história, não tinha apenas a ver com
a técnica de ensino, mas também colocou a questão da função do pensamento histórico na
modernidade...

RÜSEN: Nossa didática da história é o campo do ensino acadêmico ou a instituição acadêmica


que se dedica aos problemas nascidos das necessidades, experiências e competências
daqueles que estão dispostos a dar aulas de história. Portanto, há uma didática da história
porque há ensino de história. O decisivo é a formação da consciência histórica na sociedade
contemporânea. A didática da história trata de todas as formas da consciência histórica e,
em especial, daquelas formas que se desenvolvem através de processos formais de ensino-
aprendizagem. Mas isso é completamente diferente do comum entendimento de didática da
história como a disciplina da intermediação ou transmissão da história. O erro está em pensar
que exista algo chamado história e outra coisa que seria a sua transmissão ou comunicação.
O aprendizado da história acontece em todo lugar, na mídia, nos museus, na cultura popular.
A categoria central é consciência histórica e não transmissão histórica. A consciência histórica
não pode ser transmitida ela só pode ser formada, cultivada.

DUARTE: Há então um problema de comunicação intercultural, porque há muitos tipos de


consciência histórica... T
E
O
R
RÜSEN: Isso nos leva ao problema da experiência e da aprendizagem. Um exemplo: na I
A
década de 70, chegou à Alemanha a história das mulheres. Ela chega cheia de eurocentrismo.
D
Não se sabia nada sobre mulheres chinesas, indianas muçulmanas. Mas a pesquisa tinha A

um caráter intercultural no sentido de que uma cultura masculina, patriarcal, machista, uma H
I
forma do pensamento histórico foi confrontada. Isso é interculturalidade. Há outras: católicos e S
T
protestantes, cristãos e muçulmanos. Na década de 50, quando eu estava na escola me sentia Ó
R
um peixe fora d’água sendo um aluno protestante em uma região católica. Era uma cultura I
A
diferente. A magnitude da experiência dessas diferenças se amplia no mundo globalizado. Estão
E
em contato cada vez mais lógicas distintas de aprendizagem histórica. A consciência histórica
H
é o lugar onde os indivíduos e os grupos são formados em torno de coisas como as ideias de I
S
pertencimento ou o que chamamos de identidade. E isso significa que, a adesão a uma posição T
O
implica uma maior diferenciação diante das demais. As opções são limitadas. Sem esses limites R
I
as pessoas não podem viver culturalmente. Diferenças é o que produzimos. Mas não é só o O
G
que produzimos. A aprendizagem intercultural se dá quando essas diferenças se constroem de R
A
modo que a alteridade do outro não é naturalizada e é reconhecida enquanto tal. Sobre isso F
I
mais um exemplo: na Europa, tem sido a forma dominante de aprendizagem histórica a noção A
130 TÓPICO 3 UNIDADE 2

de pertencimento nacional. Com o processo de integração europeia os currículos do ensino


de história e os livros de história estão sendo europeizados. Mais que isso, devemos superar
também o eurocentrismo e caminhar em direção a um universalismo humanista. E isso não
se faz sem teoria da história.

DUARTE: Por quê?

RÜSEN: Bem, por que precisamos de uma clara concepção teórica de humanidade como
categoria histórica. E nós não temos. Na origem do pensamento histórico moderno, no final
do século XVIII e início do XIX havia uma categoria histórica da humanidade formulada por
Herder, Kant, Humboldt, e certamente no Iluminismo francês e inglês. Isso foi perdido ao longo
da racionalização do pensamento histórico, no século XIX. E agora temos de trabalhar duro
novamente. Nós não podemos simplesmente voltar para a ideia clássica da história universal
assim como exposta por Kant no texto “Ideia de uma História Universal de um Ponto de Vista
Cosmopolita”. Temos de pensar em termos comunicativos, relacionais e discursivos. Deverá
ser um ato comunicativo entre representantes de diferentes tradições. Assim, por exemplo,
entre Brasil e Alemanha, entre os chineses e indianos, entre japoneses e africanos etc. etc. O
trabalho principal ainda não está feito.

DUARTE: Qual seria um bom relacionamento entre a sociedade civil e a religião? Entre filosofia
e religião? O que significa preservar um espaço para o impensável?

RÜSEN: Essas são três questões muito diferentes. O impensável é um problema filosófico
de extrema dificuldade. De novo um exemplo para ajudar. Em “Ciência como vocação”, Max
T
E
Weber levantou a questão sobre de onde provém o progresso científico. A sua resposta é: ele
O
R
não vem das regulamentações metodológicas dos processos de investigação, mas dependem
I de intuição, imaginação, iluminações, ideias repentinas. Esses verdadeiros acidentes ocorrem
A
em um domínio que está além do pensamento e do conhecimento. Esse é o sentido do
D
A impensável. Se pode elaborar melhor essa ideia com a ajuda da filosofia da história e da teoria
H do conhecimento. Mas isso demoraria muito e é muito complicado. Em qualquer que seja a
I
S história o sentido se mostra dependente de domínios não acessíveis a ele, sentido. Essa
T
Ó intensividade, essa realidade última tão próxima e tão distante, ao mesmo tempo, é impensável
R
I e isso é um problema fundamental da filosofia da história. Sobre o tema da relação entre
A
sociedade civil e a religião, vou apenas dizer que a vida de uma sociedade secular moderna
E
civil é uma conquista histórica mundial de importância única. É a única forma de vida social
H
I que permite a convivência pacífica de diferentes religiões. O secularismo é a condição para
S
T a liberdade religiosa. A questão é se a sociedade civil necessita de elementos religiosos para
O
R sua manutenção. A maioria da intelectualidade expressa a opinião de que o secularismo pode
I
O viver por si mesmo. Quanto a isso sou cético. O certo é que após séculos de sangrentas
G
R guerras religiosas descobrimos o valor da tolerância e do espaço público não religiosamente
A
F controlado. Construir identidades e comunidades inclusivas, eis a tarefa. Infelizmente o que
I
A assistimos hoje é exatamente o contrário. Por todos os lados o que temos são as variadas
UNIDADE 2 TÓPICO 3 131

formas do fundamentalismo.

DUARTE: Rüsen, o senhor descreveria os últimos 20 anos de história alemã a partir da categoria
de perda de paradigmas?

RÜSEN: Acho uma boa categoria. Será que assistimos a uma mudança de paradigma? Fala-se
de uma virada cultural e antropológica. Mas isso é um paradigma? Acho que não. Paradigmas
são a história social ou historicismo clássico do XIX. Mas poderíamos pensar no significado
paradigmático da pluralidade e da diversidade. Mas podemos avançar ainda mais e pensar
sobre onde estariam as questões realmente relevantes para o nosso tempo. É aí que aparece
a relevância da história global de Jürgen Osterhammel.

DUARTE: Depois de seus estudos sobre a Historik de Droysen e da montagem da sua própria
teoria da história, o Sr. passou a estudar as diferentes ideias de tempo de desenvolvidas pelas
diferentes culturas.

RÜSEN: Falaremos sobre o projeto do humanismo?

DUARTE: sim.

RÜSEN: O projeto do humanismo não é um projeto histórico. Tem uma perspectiva histórica,
mas é também filosófico, político, psicológico. É decididamente interdisciplinar. A componente
histórica é, certamente, forte. Eu diria que é uma tentativa de seguir este caminho sugerido de
uma nova perspectivização do pensamento histórico a promover novos conceitos de história
T
universal. Queremos submeter a uma revisão a tradição do humanismo ocidental. A partir de E
uma perspectiva comunicativa desejamos colocar em contato as diversas tradições humanistas. O
R
Cruzamentos proporcionados, semelhanças localizadas: esse trabalho é uma resposta aos I
A
problemas produzidos pela globalização. De uma perspectiva ocidental a ideia de tempo axial
D
de Jaspers é uma referência de pluralismo que se apega também à proposta de uma história A

universal, única, global. Devemos resgatar a consciência da nossa igualdade original que se H
I
esconde atrás das línguas, das tradições. As diferenças nascem de qualidades que são comuns S
T
a todos os seres humanos. E isso pode ser mobilizado para produzir uma nona consciência Ó
R
de nossa comunidade. I
A

FONTE: Revista de Teoria da História Ano 2, Número 4, dezembro/ 2010 Universidade Federal de E
Goiás. p. 179-185
H
Tradução: Daniele Maia Tiago Revisão: Luiz Sérgio Duarte da Silva I
S
T
O
R
I
O
G
R
A
F
I
A
132 TÓPICO 3 UNIDADE 2

RESUMO DO TÓPICO 3

• A Nova História Cultural se torna uma tendência do pensamento histórico a partir dos anos de
1970, e de maneira geral pode-se dizer que os temas da história local e regional, da cultura,
os modos de fazer e viver dos indivíduos e das comunidades ganham espaço nas pesquisas.

• Foi o momento em que a história se aproximou e se apropriou de métodos de pesquisa e


categorias de análise das áreas do conhecimento e disciplinas tais como a antropologia, a
psicologia, a filosofia, literatura, linguística, economia e geografia.

• A micro-história reconhece o microcosmo cultural dos indivíduos, os elementos que


evidenciam as contradições e os conflitos que ocorrem nas relações sociais e públicas mais
amplas. Como método de pesquisa é utilizado a investigação de pormenores como rastros
e vestígios como provas e elementos reveladores de responsáveis e culpados.

• A história e o saber local se preocupam com a interpretação das culturas, nas suas redes de
imbricações, em especial, busca saber quem e como foram definidas as estruturas culturais
que acompanham os indivíduos.

• A história ambiental ganhou ênfase a partir dos anos de 1970 por meio dos atos e discussões
T dos movimentos ambientalistas; centra-se nos estudos do planeta terra e da natureza tendo
E
O como agente o homem, as sociedades e as civilizações; apoiam-se nas áreas da antropologia,
R
I geografia, da geologia e demais ciências naturais.
A

D
A • A história do tempo presente se dedica à pesquisa temas oriundos do cenário político e
H econômico, dos movimentos sociais, questões climáticas e ambientais: acidentes, protestos,
I
S manifestações, catástrofes, quebras, prisões, desastres, fatalidades, invasões, greves, visitas,
T
Ó aparições, tomadas, atentados, entre outros.
R
I
A

H
I
S
T
O
R
I
O
G
R
A
F
I
A
UNIDADE 2 TÓPICO 3 133


IDADE
ATIV
AUTO

1 A história do tempo presente ganhou amplitude e representatividade em meio


à historiografia a partir dos anos de 1980, mas já vinha sendo cogitada quando
dos estudos e análises da primeira e segunda guerra mundial. Entre as questões
conceituais e metodológicas da história do tempo presente, é correto afirmar que:
I- As principais fontes consistem na tomada de depoimentos e testemunhos da história
oral, notícias de jornal e os documentos estatais.
II- Possibilita o confronto entre o conhecimento histórico/narrado, o noticiado, o
testemunho vivo, a vivência do fato/acontecimento.
III- Representa um tema de pesquisa que não requer maiores cuidados metodológicos
e éticos ao historiador e permite ampla liberdade de estudos.
IV- Acontecimentos e fatos que causaram repercussão em ampla escala e impactaram
de forma expressiva toda uma população/sociedade são tomados à pesquisa.

Agora assinale a alternativa correta:


a) As afirmativas I, III e IV estão corretas.
b) As afirmativas I, II e IV estão corretas.
c) As afirmativas II e IV estão corretas.
d) As afirmativas I e II estão corretas.
T
E
O
2 A micro-história é uma das tendências historiográficas que compõe o grupo da R
I
Nova História Cultural, possui como principal referência teórica e metodológica o A

pesquisador italiano Carlo Guinzburb e a obra Queijos e Vermes, que foi publicada D
A
em 1976. Com relação à micro-história, analise as sentenças a seguir atribuindo V
H
para as verdadeiras F para as falsas: I
S
( ) Entre os principais temas de debate está o conflito que se instaurou entre erudito/ T
Ó
popular, religioso/laico, bárbaro/civilizado, artesanal/industrial, cidade/campo, R
I
vilões/nobres. A
( ) rocura defender as abordagens da macro-história, estruturas globalizantes e E
generalizadoras que se encontram-se fundamentadas pela sociologia. H
I
( ) Os historiadores que aderiram à micro-história possuem fortes influências do S
T
positivismo, racionalismo e historicismo do século XIX, com orientação política à O
R
direita e apoiam amplamente o neoidealismo. I
O
( ) Entre os princípios metodológicos encontram-se os de ler e decifrar pistas e indícios. G
R
Para tanto podem ser considerados estercos, pegadas, plumas, pelos, pegadas, A
inscrições digitais, entre outros. F
I
A
134 TÓPICO 3 UNIDADE 2

Agora assinale a alternativa que apresenta a sequência correta:


a) V – V – F – V.
b) F – V – V – V.
c) V – F – F – V.
d) V – V – V – F.

T
E
O
R
I
A

D
A

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A
UNIDADE 2 TÓPICO 3 135

IAÇÃO
AVAL

Prezado(a) acadêmico(a), agora que chegamos ao final


da Unidade 2, você deverá fazer a Avaliação referente a esta
unidade.

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136 TÓPICO 3 UNIDADE 2

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A

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F
I
A
UNIDADE 3

A HISTORIOGRAFIA BRASILEIRA

Objetivos de aprendizagem

A partir desta unidade você será capaz de:

• compreender a presença da História no quadro das Ciências


Humanas no Brasil;

• analisar as influências políticas e sociais nas reflexões


historiográficas;

• avaliar os diferentes momentos da produção historiográfica


brasileira.

PLANO DE ESTUDOS

Esta Unidade está dividida em três tópicos, sendo que, ao final


de cada um deles, você encontrará atividades que o(a) ajudarão a
refletir e fixar os conhecimentos adquiridos. T
E
O
R
I
A

TÓPICO 1 – HISTORIOGRAFIA BRASILEIRA: DO IHGB À D


A
GERAÇÃO DE 1930
H
TÓPICO 2 – A HISTORIOGRAFIA BRASILEIRA DURANTE I
S
A GUERRA-FRIA T
Ó
TÓPICO 3 – A HISTORIOGRAFIA BRASILEIRA R
I
CONTEMPORÂNEA A

H
I
S
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A
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A
UNIDADE 3

TÓPICO 1

HISTORIOGRAFIA BRASILEIRA: DO IHGB À


GERAÇÃO DE 1930

1 INTRODUÇÃO

Neste primeiro tópico, iremos analisar a historiografia brasileira, em um período anterior


à formação do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, até as principais obras intelectuais
produzidas e fundamentais para a compreensão da realidade histórica nacional, formuladas
pelos eminentes pensadores Gilberto Freire, Caio Prado Júnior e Sérgio Buarque de Holanda,
que publicaram seus estudos nos anos 1930, representando uma importante geração de
intelectuais brasileiros.

T
2 O PERÍODO ANTERIOR AO INSTITUTO HISTÓRICO E E
O
GEOGRÁFICO BRASILEIRO (IHGB) R
I
A

A historiografia brasileira no período Pré-IHGB pode ser descrita como um tempo no D


A
qual a história do Brasil foi incluída dentre a história do império ultramarino português. Durante
H
a denominada Idade Média, existiu um tipo de literatura histórica denominada crônica. Pela I
S
mesma, se contavam os feitos dos reinos. Duas crônicas medievais portuguesas são de grande T
Ó
relevância para a compreensão do início da expansão ultramarina. A Crônica da Tomada de R
I
Ceuta e a Crônica dos Feitos da Guiné. Ambas escritas por Eanes Gomez Zurara. Tais obras são A

relatos que se destinavam a louvar os feitos da nobreza portuguesa, em especial, a liderança E


do infante D. Henrique. Tais escritos devem ser criticados como fonte histórica sobre o período, H
I
pois não buscam relatar as ações militares da expansão portuguesa no norte africano, mas S
T
sim fazer uma apologia da monarquia portuguesa. O
R
I
O
No século XVI, tanto na Espanha como em Portugal, tivemos uma alteração na G
R
nomenclatura das obras que se destinavam a relatar a expansão ultramarina. Ao invés de A
F
se utilizar o termo crônica, se passou a utilizar o termo História. Na Espanha, uma das obras I
A
140 TÓPICO 1 UNIDADE 3

principais foi a História General e Natural de las Índias, publicada em 1519 por Gonzalo
Fernández de Oviedo. Por sua vez, no que tange ao Império Português, tivemos a primeira
história brasileira escrita em 1576, de nome História da Província de Santa Cruz. Da autoria
de Pero de Magalhães Gandavo, o livro advogava a ideia de que a função primordial dos
portugueses na Costa do Pau-Brasil deveria ser a expansão da fé cristã, e não o comércio de
madeira (GANDAVO, 2008). Todavia, como podemos observar, o nome que prevaleceu não foi
a madeira da cruz cristã, mas aquela que servia para o comércio ultramarino atlântico. Mesmo
com o toponímico da nova terra sendo comercial (o Brasil), muitos dos primeiros relatos da vida
brasileira dos primeiros séculos foram escritas por padres, como os jesuítas José de Anchieta,
em Informação da Terra do Brasil e suas Capitanias, como também o texto Tratado da Terra e
das Gentes do Brasil, do também jesuíta Fernão Cardim.

No século XVII, o livro História do Brasil, escrito pelo Frei Vicente do Salvador, apontava
os eventos da vida nacional dos dois primeiros séculos (VICENTE DO SALVADOR, 2008). O
livro de Vicente do Salvador é a obra mais importante sobre a história brasileira do século XVII,
pois foi por muitos intelectuais, apresentado como o primeiro historiador brasileiro. Salvador,
para escrever sua história, contava com diversos relatos. Por sua vez, outro importante relato
sobre a vida brasileira do século XVII foi realizado por André João Antonil, um jesuíta que
escreveu Cultura e Opulência do Brasil por Suas Drogas e Minas. De Antonil, é a máxima que
afirma: “Brasil: purgatório para os brancos, inferno para os negros e paraíso dos mulatos”.

No século XVIII, fundou-se, na Bahia, a Academia Brasílica dos Esquecidos,


posteriormente substituída pela Academia Brasílica dos Renascidos, uma sociedade literária,
que existiu em Salvador, a então capital do Brasil, e que buscava descrever a história pátria dos
T primeiros séculos (KANTOR, p. 2004). Todavia, o principal livro escrito no século XVIII sobre
E
O o Brasil foi História da América Portuguesa, de Sebastião da Rocha Pitta, um dos primeiros
R
I historiadores nacionais (PITA, 1976). Livro que buscava realizar um relato pormenorizado da
A
presença portuguesa no Atlântico Sul, visando legitimar a presença lusitana, em vista das
D
A rivalidades com a Espanha.
H
I
S
T
Ó
R
UNI
I
A
Um interessante site para a consulta de obras da época do
E Brasil Colonial é o da Biblioteca Nacional de Portugal, no
H
setor Biblioteca Digital. Nele, existem cópias fotografadas
I dos originais de livros como o de Pero Magalhães Gandavo
S sobre o Brasil. Site: <http://www.bnportugal.pt/>.
T
O
R
I
O Grande parte dos autores brasileiros dos três primeiros séculos que escreviam sobre o
G
R passado nacional, possuíam algumas características comuns. Em geral eram clérigos jesuítas
A
F ou bacharéis em direito da faculdade de Coimbra. A origem social, em geral, vinculadas ao
I
A sacerdócio católico, eram presentes não apenas nas biografias dos sujeitos, como também
UNIDADE 3 TÓPICO 1 141

na ideologia subjacente, buscando demonstrar a “vantagem da presença cristã católica no


continente americano”. Neste sentido pode-se apontar uma primeira crítica, pois, mesmo a
Igreja Católica hoje reconhece as falhas da catequese na América Latina Colonial.

Outra questão é a metodologia apresentada pelos autores porque mesmo se tratando


de títulos cuja palavra História era presente, tais livros podem ser considerados um ramo da
literatura. Isto porque mantinham a tradição medieval das “mirabilias”. Isto é, o mágico e o
real faziam parte do mesmo texto. Por exemplo, tanto os escritos de Frei Vicente do Salvador
e Pero de Magalhães Gandavo apresentavam histórias fantasiosas como fatos reais. Por
exemplo, ambos afirmam que um monstro saiu do mar para atacar e assustar a população de
São Vicente no século XVI, dedicando um capítulo inteiro de suas obras a tal evento. Podemos
afirmar que é óbvio que tal monstro não existiu. Porém, sua existência ser considerada real,
apresenta o imaginário, a mentalidade da época.

Deste modo, estas obras são consideradas fontes úteis para a compreensão do Brasil
colonial. Mas os textos passam por uma severa crítica, pois não se trata de textos históricos
que seguem a uma metodologia científica rígida, com vistas a apresentar uma interpretação
coerente da realidade social a ser analisada. Mas sim, textos que buscam realizar uma apologia
da presença portuguesa no atlântico sul. Todavia, era um tipo de história coerente com o tempo
social dos autores que a escreveram.

O mundo ocidental, após o Iluminismo do século XVIII, com a busca da utilização da razão
e não mais da fé para o encontro de verdades, alterou profundamente a forma como o homem
ocidental pensa sobre a realidade. Deste modo, a História passou a ser concebida de forma
diferente, pois os historiadores passaram a ser reconhecidos como autores de obras importantes T
E
a explicar a origem a e dinâmica política das populações que viviam em um Estado Nacional. O
R
Podemos pensar que durante o século XIX, surgiram no globo, vários novos países, como as I
A
antigas colônias americanas, além da Itália e da Alemanha, que passaram pelo denominado
D
“processo de unificação”. Assim, a figura social do historiador era relacionada a um intelectual que A

teria a capacidade de explicar a origem das nações e seu desenvolvimento até o tempo presente. H
I
S
T
Esta ambição de uma história científica que explicasse o desenvolvimento nacional, no Ó
R
Brasil, está relacionada à construção de uma instituição que pesquisasse o passado nacional, I
A
o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro.
E

H
I
S
T
O
3 O INSTITUTO HISTÓRICO E GEOGRÁFICO BRASILEIRO R
I
O
G
A história enquanto disciplina, assim como também a geografia, são fundamentais R
A
para a constituição de um Estado Nacional, pois as nações possuem soberania em relação F
I
A
142 TÓPICO 1 UNIDADE 3

aos demais países do mundo ao possuírem um passado comum, além de um território, que
delimita as fronteiras com os demais Estados Nacionais. Ao mesmo tempo, a forma com a
qual o passado fosse retratado, iria implicar uma ampliação de direitos para as camadas então
subalternas, como os escravos negros e os indígenas. Deste modo, em 1838, ainda durante
o período regencial, foi fundado o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. Instituto que teria
a função de escrever a história nacional, conforme os interesses dos mandatários políticos do
Brasil Império (GUIMARÃES, 1988).

Para que se pudesse escrever uma história nacional, o Governo Imperial promoveu um
concurso internacional, buscando profissionais que tivessem esta capacidade, de ofertar uma
diretriz aos demais intelectuais, ensinando-os a escrever uma história pátria. O referido concurso
teve como vitoriosos os historiadores alemães Von Marcius, autor do texto: “Como se deve
escrever a história do Brasil”. A presença desta diretriz apresentava uma nova abordagem na
história nacional, pois, o IHGB buscava relacionar a História do Brasil como uma continuidade
das ações da monarquia portuguesa, não mais vinculado aos ideais católicos coloniais.

FIGURA 4 - ATUAL SEDE DO INSTITUTO HISTÓRICO E GEOGRÁFICO BRASILEIRO, NO


RIO DE JANEIRO

T
E
O
R
I
A

D
A FONTE: Disponível em: <http://www.ihgb.org.br/>. Acesso em: 17 dez. 2015.
H
I
S O principal nome da Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro no século XIX foi o de
T
Ó Francisco Adolfo de Varnhagen. Historiador que escreveu diversos textos, organizados em
R
I vários tomos sobre a história brasileira, a apresentando como uma continuidade das ações da
A
monarquia portuguesa (VARNHAGEN, 1981). Como exemplo típico de sua época, a forma como
E
Varnhagen escreve a História é deveras descritiva. Ao invés de buscar empreender análises
H
I sobre os eventos estudados, utilizando-os para melhor compreender a realidade presente, a
S
T narrativa empreendida por Varnhagen buscava ser excessivamente descritiva.
O
R
I
O
G
R
A
F
I
A
UNIDADE 3 TÓPICO 1 143

FIGURA 5 - VARNHAGEN

FONTE: Disponível em: <http://www.unicamp.br/unicamp/unicamp>.


Acesso em: 17 dez. 2015.

Varnhagen buscava em seus textos legitimar, com suas descrições, as ações sociais
do Império do Brasil, mesmo quando estas eram condenáveis. Em relação aos indígenas, os
apresentava como úteis à colonização. Porém, em seus relatos, mesmo quando (raramente)
elogiosos, os apresentava como inferiores e subordinados aos colonizadores lusitanos. O
mesmo se refere às descrições em relação à presença dos escravos no Brasil Imperial.
Varnhagen apontava a importância da escravidão, apresentando os negros escravizados como
inferiores, e afirmando (de forma falsa) que até mesmo os evangelhos apoiavam as práticas
escravistas. Autor que compôs uma das principais obras históricas no Brasil no século XIX,
as suas pesquisas em relação à História Nacional são por muitas vezes criticadas, devido ao
conservadorismo presente em seus relatos sobre o passado brasileiro.
T
E
O
Uma das primeiras renovações no interior do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro R
I
ocorreu na virada do século XIX para o XX, com a figura do historiador João Capistrano de Abreu. A

Cearense nascido em Maranguape, Capistrano de Abreu foi um dos principais pesquisadores do D


A
passado brasileiro. Um dos seus primeiros e inovadores livros foi A Viagem do Descobrimento,
H
tese apresentada para o magistério no Colégio Pedro II, no qual Capistrano apontou que o I
S
primeiro navegador a apontar na costa do Pau-Brasil foi o italiano Vicente Pinzón, que a mando T
Ó
dos reis espanhóis, aportou em Cabo de Santo Agostinho (litoral pernambucano) no ano de R
I
1499. Com isto, se desmentiu a visão portuguesa, que o Brasil foi “descoberto” por Pedro A
Álvares Cabral em 1500 (ABREU, 1999). E

H
I
S
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A
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A
144 TÓPICO 1 UNIDADE 3

FIGURA 6 - CAPISTRANO DE ABREU

FONTE: Disponível em: <http://www.buscatematica.net/imagens/


capistrano-abreu.jpg>. Acesso em: 17 dez. 2015.

Outros importantes livros de Capistrano de Abreu foram Caminhos Antigos e o


Povoamento do Brasil e Capítulos de História Colonial (ABREU, 1963). Em Caminhos Antigos
Capistrano possibilitou compreender a relação existente entre o povoamento do território
brasileiro com a existência de antigos caminhos utilizados pelos indígenas. Porém, o principal
livro escrito por Capistrano de Abreu foi Capítulos de História Colonial, no qual o autor apontou
novidades para a compreensão do passado brasileiro. Uma primeira novidade é que Capistrano
não incluiu em sua história pátria a Inconfidência Mineira e seu “herói” Tiradentes, pois para
Capistrano, não foi o retrato do povo, mas sim um pequeno movimento de intelectuais ligado
às elites. Também foi um marco o fato de ter iniciado a sua história brasileira com os indígenas,
e não com a chegada europeia. Com isto, subverteu a ideia do Brasil como uma continuidade
T
E
dos portugueses, pois já existia presença humana antes da chegada europeia à América.
O
R
I Em relação aos indígenas, Capistrano travou um debate pela imprensa com Sílvio
A
Romero. Capistrano defendia que os indígenas teriam uma maior relevância na constituição do
D
A povo brasileiro, enquanto Romero apontava a maior importância dos escravos negros. Quando
H observamos tal debate, com a distância de mais de um século, podemos apontar que tanto
I
S indígenas quanto africanos foram importantes para a construção do Brasil enquanto nação.
T
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R
I Além de Varnhagen e Capistrano, que são sem dúvidas os principais nomes dentre os
A
historiadores que pertenceram ao Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, podemos lembrar
E
outros nomes, nos quais três são de grande importância. Pedro Calmon, Rocha Pombo e
H
I Afonso Taunay.
S
T
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R Rocha Pombo foi um dos principais historiadores brasileiros da primeira metade do
I
O século XX. A sua principal contribuição ao debate historiográfico foi a escrita de uma História
G
R do Brasil em Cinco Volumes, no qual apresentou a história nacional. Tinha uma escrita próxima
A
F aos historiadores metódicos do século XIX europeu, como o alemão Hanke e o Francês
I
A Charles Segnobois. Isto é, sua principal preocupação era a de descrever os eventos ao invés
UNIDADE 3 TÓPICO 1 145

de analisá-los. Porém, em sua descrição, apesar de ter por vezes o reconhecimento das ações
dos africanos, como no caso do Quilombo de Palmares, sua escrita em geral tinha o indígena
e o negro como figuras subalternas aos brancos portugueses.

A diferença entre a produção historiográfica de Varnhagen e Capistrano para a de Rocha


Pombo era a de amplitude e área de influência, pois as obras dos dois primeiros estavam
vinculadas ao ensino universitário. O trabalho de Rocha Pombo está vinculado ao ensino
primário. Isto porque foi o principal recurso didático utilizado pelos professores brasileiros,
durante décadas, para ensinar a história do Brasil.

Além de Rocha Pombo, outro importante nome do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro
foi o de Afonso de Taunay. Filho de Visconde de Taunay, foi professor na Universidade de São
Paulo. A sua produção intelectual como historiador se destacou na pesquisa sobre os bandeirantes
paulistas, em sua ação de expansão das terras, apresentando os atos de aprisionamento dos
indígenas e da “caça ao ouro”. Porém, ao invés destes serem apresentados como assassinos,
eles foram tidos por Taunay como os heróis paulistas, que possibilitaram a expansão do território
da América Portuguesa. A história Geral das Bandeiras Paulistas, de Taunay, é um exemplo de
um tipo de história que caracterizou o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro.

Pedro Calmon foi um dos principais destaques do IHGB ao longo do século XX. Natural
da Bahia, sua produção historiográfica se caracterizou por uma narrativa mais positivista,
ligada em grande parte às questões políticas e da história do Estado. Publicou vários livros
sobre a História do Brasil, sendo o primeiro A História das Bandeiras Baianas, de 1926. Assim
como Rocha Pombo, escreveu volumes da “História Pátria”, da formação no século XVI até o
desenvolvimento no século XX. T
E
O
R
Outro nome do IHGB que pode ser lembrado é o de Américo Jacobina Lacombe, I
A
historiador ligado ao pensamento católico conservador, escreveu importantes textos sobre a
D
história da igreja no Brasil, além de livros sobre questões culturais em geral. Católico militante, A

ele foi o professor de História do Brasil da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro H
I
por várias décadas. S
T
Ó
R
A principal crítica que podemos realizar em relação à historiografia produzida pelo I
A
instituto histórico e geográfico brasileiro é a de sua postura laudatória em relação ao Estado
E
Brasileiro (GOMES, 2012), pois, nem sempre, as ações do Estado foram o reflexo dos anseios
H
da população. Outra questão é a do conservadorismo presente na historiografia produzida I
S
pela instituição. Hoje, porém, o instituto não mais se comporta como um local de produção T
O
historiográfica, mas sim como uma academia de notáveis, assim como a Academia Brasileira R
I
de Letras. Na atualidade, a instituição tem como presidente o historiador Arno Welling, que O
G
possui o título de Doutor em História pela Universidade de São Paulo e que foi professor da R
A
Universidade Federal do Rio de Janeiro. Também mantém a sua centenária Revista do IHGB, F
I
que mantém a qualidade de relevante periódico historiográfico. A
146 TÓPICO 1 UNIDADE 3

UNI

visite o site do IHGB. Em especial, a sua revista de História,


que possui um rico acervo de textos, sendo que todos os
números, desde o século XIX, estão disponíveis on-line.

Outra importante contribuição dos membros do IHGB, ao longo do século XX, foi a
construção da Coleção Brasiliana. Tratou-se de um empreendimento ambicioso, coordenado
pela Companhia Editora Nacional, que visava publicar obras que auxiliassem na compreensão
da vida brasileira através dos séculos. Assim, tivemos entre 1931 até 1993, a publicação de
415 volumes que informam aspectos variados do país, tanto nos aspectos geográficos, como
clima, relevo, fauna e flora, quanto nos aspectos históricos e sociais, como as questões ligadas
a história das instituições (exército, marinha, diplomacia) quanto dos personagens da vida
nacional (migrantes, negros, indígenas).

UNI

A Coleção Brasiliana da Companhia Editora Nacional está


disponível on-line para a consulta pública, no site <http://
www.brasiliana.com.br/>. Um trabalho realizado pela
Universidade Federal do Rio de Janeiro, que vale a pena
ser conferido!

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4 A GERAÇÃO DOS ANOS 1930 E SEUS DESDOBRAMENTOS
A

H
I O pensamento social brasileiro apresentou nas primeiras décadas do século XX um
S
T fecundo e importante debate sobre os problemas nacionais e as possibilidades de serem
Ó
R resolvidos. Todavia, tanto o diagnóstico quanto as medidas que foram consideradas necessárias
I
A para a resolução dos problemas são altamente criticáveis. Neste sentido, dois autores se
E destacaram: Alberto Torres e Oliveira Vianna. Alberto Torres, autor da virada do século XIX
H para o XX, escreveu dois livros que influenciaram gerações: O Problema Nacional Brasileiro e A
I
S Organização Nacional. Em grande parte, Alberto Torres é classificado como pertencente a uma
T
O linha intelectual conservadora, pois, alguns analistas vinculam suas ideias a uma perspectiva
R
I autoritária da sociedade brasileira.
O
G
R
A Oliveira Vianna se afirmou um seguidor dos ideais propostos por Alberto Torres, e
F
I
também foi um dos mais importantes intelectuais do denominado conservadorismo brasileiro.
A
UNIDADE 3 TÓPICO 1 147

Seus livros principais foram: As Populações do Brasil Meridional, Instituições Políticas Brasileiras
e Ocaso do Segundo Império. Em grande parte, o pensamento de Oliveira Vianna era marcado
por um forte e lastimável racismo. Para ele, o Brasil Meridional era mais desenvolvido por contar
com maior carga de “elementos brancos”.

Tais pressupostos foram criticados por três grandes nomes da intelectualidade brasileira.
Gilberto Freire, Caio Prado Júnior e Sérgio Buarque de Holanda.

Gilberto Freire foi um dos principais intelectuais brasileiros do século XX. E, que se
opôs de forma radical ao racismo de Oliveira Vianna. Sua obra primeira a criticar o pensamento
conservador brasileiro foi Casa-Grande e Senzala (FREYRE, 2000), na qual apontava a
miscigenação racial como uma das principais contribuições da cultura brasileira aos demais
países do mundo, e aponta a cultura de tolerância e convivência inter-racial no Brasil como uma
das características do povo brasileiro. Para sustentar suas teses, Gilberto Freyre em grande
parte se baseou em um antropólogo alemão radicado nos Estados Unidos, denominado Franz
Boas, que desenvolveu o conceito de relativismo cultural, no qual não se considerava a cultura
branca superior das demais, mas valorizava as diferenças existentes entre as etnias humanas.

Casa-Grande e Senzala foi um marco na cultura brasileira, não apenas para a sociologia,
antropologia e história como também teve reflexo na literatura e demais artes, pois, o autor
revolucionou ao apresentar uma valorização dos hábitos cotidianos advindo tanto dos locais
de moradias das elites (as casas-grandes) quanto das classes subalternas (as senzalas). A
principal questão de Gilberto Freire foi desmistificar a ideia de uma sociedade na qual existiria
uma oposição rígida entre senhores e escravos no nordeste colonial. Assim, Gilberto Freyre
aponta existirem relacionamentos entre os negros escravos e seus senhores. Uma alteração T
E
radical na concepção de escravidão e colonização na América Portuguesa ocorre ao Freyre O
R
reportar o negro como um cocolonizador, ao lado do português, de um continente americano I
A
anteriormente habitado pelos indígenas. A radicalidade do discurso de Gilberto Freyre estava
D
exposta ao descrever com minúcias os hábitos sexuais das famílias patriarcais nordestinas, A

em especial as relações sexuais entre os filhos das famílias patriarcais com as escravas das H
I
senzalas, com quem iniciavam sua vida sexual. No dizer de Freyre, antes da civilização, veio S
T
a “sifilização”. Assim, os filhos destes relacionamentos ilegítimos, os mulatos, formaram um Ó
R
contingente importante dentro da estrutura social. I
A

E
Gilberto Freyre também escreveu outros importantes livros, tais como Sobrados e
H
Mocambos (FREYRE, 2003), Ordem e Progresso (FREYRE, 1990) e o Luso e o Trópico I
S
(FREYRE, 1961). Em Sobrados e Mocambos, Gilberto Freyre continua a cronologia de seus T
O
estudos, agora apontando as transformações que advieram ao Brasil com o século XIX. R
I
Em especial, o centro de poder, que estava nas casas-grandes rurais até o século XIX, se O
G
transmigraram para as grandes cidades portuárias novecentistas, como o Recife e o Rio de R
A
Janeiro. Somada a esta alteração espacial, temos uma profunda mudança nos hábitos cotidianos F
I
das elites, que não mais habitam as casas-grandes das fazendas, mas nos sobrados das A
148 TÓPICO 1 UNIDADE 3

cidades. A população pobre, também não mais habita as senzalas rurais, mas sim os casebres,
os mocambos. Somam-se a isto, outros gostos culinários, como a cerveja, e demais hábitos
que foram trazidos ao Brasil pelos capitalistas ingleses. Por sua vez, em Ordem e Progresso,
Gilberto Freire aponta os mecanismos sociais e políticos que possibilitaram a proclamação
da república. Porém, nela não localiza profundas alterações no quadro social. Pois, para o
pensamento gilbertiano, a República ainda manteve determinados preceitos sociais antigos,
em especial o paternalismo.

O Luso e o Trópico é um livro que amplia a visão que Gilberto Freyre teve sobre a
presença do Império Marítimo Português no globo. Quando esteve em exílio político em Portugal,
Gilberto Freire teve contato com a política fascista de Antônio de Oliveira Salazar, ditador ao
qual Freire nutriu simpatias políticas. Assim, Gilberto Freyre desenvolveu o conceito de luso-
tropicalidade. Para Freyre, a presença portuguesa no trópico era marcada pela escravidão.
Porém, a escravidão nos trópicos teria traços de brandura, seria doce, assim como o açúcar
produzido nos engenhos. Tal perspectiva foi utilizada para legitimar a presença portuguesa
na África, assim como a guerra de descolonização, a qual Portugal foi um dos últimos países
europeus a reconhecer a independência das antigas colônias africanas e asiáticas.

Assim, Freyre, que nos anos 1930 foi considerado um inovador, ao final de sua vida
foi classificado como um pensador conservador. O principal crítico do pensamento de Gilberto
Freire foi o sociólogo Florestan Fernandes, que pontuava o livro Casa-Grande e Senzala como
uma visão elitista sobre a sociedade colonial brasileira. Não apenas Florestan, como vários
outros pensadores marxistas desconsideravam o pensamento de Gilberto Freyre.

T Também em oposição ao ideário conservador de Oliveira Vianna e Alberto Torres,


E
O tivemos as publicações do pioneiro pensador marxista brasileiro, Caio Prado Júnior. Caio Prado
R
I publicou em 1933, Evolução Política do Brasil-Colônia e Império (PRADO JÚNIOR, 2006), no
A
qual inaugurou a utilização do materialismo histórico e dialético na historiografia nacional. Teve
D
A uma importância destacada como um ativo militante do PCB – o Partido Comunista Brasileiro.
H Oriundo de uma das mais tradicionais famílias da plutocracia paulistana, cursou a Faculdade
I
S de Direito do Largo do São Francisco, na capital paulista, e foi o proprietário de uma das mais
T
Ó importantes e inovadoras casas de edição de livros no Brasil, a Editora Brasiliense.
R
I
A
O livro Evolução Política do Brasil foi inovador ao propor uma nova metodologia ao refletir
E
sobre a história brasileira (o materialismo histórico e dialético). Outros livros importantes foram
H
I História Econômica do Brasil (PRADO JÚNIOR, 1970), Formação do Brasil Contemporâneo
S
T (PRADO JÚNIOR, 2004) e A Revolução Brasileira (PRADO JÚNIOR, 1966).
O
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I
O O livro História Econômica do Brasil teve como principal mérito o de conseguir ampliar a
G
R compreensão do passado brasileiro para além das questões meramente políticas. Em especial,
A
F uma melhor compreensão sobre o significado da independência nacional, pois Caio Prado
I
A Júnior apontou, de forma brilhante, que a independência política do Brasil em 1822 não foi
UNIDADE 3 TÓPICO 1 149

acompanhada de uma independência econômica. Pois, a nação continuou agrário-exportadora,


e vinculada aos interesses do capitalismo inglês. Também, o sete de setembro de 1822 não
era o principal marco das alterações sociais vividas no Brasil na primeira metade do século
XIX, mas sim o ano de 1808, no qual a capital do Império Marítimo Português foi transferida
de Lisboa para o Rio de Janeiro.

Em 1808, D. João VI liderou a fuga da nobreza lusitana das tropas de Napoleão,


que ameaçavam invadir Portugal. O mesmo que abriu os Portos às Nações Amigas (leia-se,
ao Império Marítimo Inglês). Assim, o Brasil deixou de ser uma colônia em 1808, e não em
1822, pois em 1808 já possuía liberdade comercial. Caio Prado Júnior, ao analisar a história
econômica Brasileira, teve uma postura crítica, ao não confundir o crescimento de exportações
e a industrialização como sinônimos de desenvolvimento social.

Do ponto de vista teórico, a sua principal contribuição ao debate foi pensar a história
brasileira através das diferenças sociais, utilizando a categoria de análise classe. Pois, são
as diferenças entre as classes que possibilitam compreender as dinâmicas excludentes do
capitalismo. Em seu outro importante e polêmico livro, A Revolução Brasileira, Caio Prado Júnior
apontou que o Brasil foi uma nação que tem o nome de um produto do mercado internacional (o
pau-brasil). Assim, na visão de Caio Prado Júnior, o Brasil não passou por nenhum outro modo de
produção que não o capitalismo. Deste modo, Caio Prado afirma que o Brasil “nasceu capitalista”.

Um de seus mais polêmicos textos se chama A Formação do Brasil Contemporâneo –


Parte 1- Colônia. Neste livro, o capítulo O Sentido da Colonização, é até hoje discutido pelos
historiadores que pesquisam as temáticas ligadas ao Brasil dos primeiros séculos. Pois nele,
apresenta a função da colônia como um local que tinha a função de prover a metrópole. Assim, T
E
neste texto, fica patente uma diferenciação que Caio Prado Júnior oferta sobre a colonização O
R
nos Estados Unidos daquela realizada no Brasil. Enquanto os colonos na América do Norte I
A
migraram com motivações religiosas, devido a perseguições sofridas pelas minorias cristãs como
D
os batistas e alguns puritanos calvinistas, no Brasil, a colonização foi marcada pelos interesses A

mercantis. Aqui, ao invés de se buscar construir uma nova sociedade, como nos Estados Unidos, H
I
a colonização tinha como principal interesse o lucro dos empreendimentos comerciais. S
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Para além das temáticas de pesquisa e dos debates historiográficos ao qual estava I
A
envolto, são as questões políticas também importantes para a compreensão da carreira de
E
Caio Prado como intelectual. Como filiado ao Partido Comunista Brasileiro, foi eleito membro
H
da Câmara dos Deputados em 1946, porém, foi cassado com os demais membros do I
S
Partido Comunista durante o governo Dutra. Outro momento de sua biografia no qual sofreu T
O
perseguições política foi durante a Ditadura Militar, na qual, após conceder uma entrevista numa R
I
revista comandada por alunos de História da USP, foi preso. A coragem de seu posicionamento O
G
político, e a ousadia de sua interpretação marxista, o fez ser reconhecido como um importante R
A
intelectual brasileiro. Hoje, porém, grande parte de suas análises são severamente criticados F
I
por uma nova geração de historiadores, que discordam das categorias de análise ofertadas A
150 TÓPICO 1 UNIDADE 3

pelo materialismo-histórico e dialético na análise dos processos históricos.

Dentre os três autores citados como pertencentes a um pensamento social inovador


na compreensão da realidade nacional, temos o de Sérgio Buarque de Holanda. Filho de uma
família de classe média, formado em direito. Sérgio Buarque de Holanda estudou na Alemanha
no final dos anos 1920 e início da década de 1930, onde teve contato com o pensamento de
importantes intelectuais germânicos. Em 1936, publicou um importante livro para a compreensão
da realidade nacional: Raízes do Brasil (HOLANDA, 1995). Trata-se de uma obra pioneira ao
propor uma interpretação da realidade nacional pautada em categorias de análise do sociólogo
alemão Max Weber, como o patrimonialismo, que consiste na falta de distinção entre a esfera
pública e privada, porém o mais debatido capítulo de Raízes do Brasil é “O Homem Cordial”.
Este capítulo afirma ser o brasileiro extremamente passional, ligado às relações pessoais de
família e parentesco, e não a racionalidade e impessoalidade. Assim, o brasileiro não seria
um homem pautado pela racionalidade analisada por Max Weber na sociedade europeia, mas
sim pela cordialidade ibérica.

Neste sentido, cordial deve ser compreendido como um homem que pauta suas ações
pela emoção, que age pelo coração e não pela mente, pela razão. Uma das confusões feita
com o conceito é pensar cordial como sinônimo de cortês, de bem-educado, e por isso, pouco
afeito a luta pelos seus direitos, um indivíduo passivo. Ao contrário, é importante reafirmar que
cordial, para Sérgio Buarque de Holanda, é sinônimo de passional.

FIGURA 7 - SÉRGIO BUARQUE DE HOLANDA

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I FONTE: Disponível em: <https://upload.wikimedia.org/wikipedia/
S
T pt/2/29/Sergio_Buarque.jpg>. Acesso em: 17 dez. 2015.
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Em relação à obra e vida de Sérgio Buarque de Holanda, vale


a pena conferir o documentário realizado por Nelson Pereira
dos Santos, de título Raízes do Brasil. Documentário ao qual
a vida do intelectual é retratada, ao mesmo tempo em que
se expõem aspectos da história brasileira do século XX.

Em Visão do Paraíso (HOLANDA, 1995b), Sérgio Buarque de Holanda pesquisou a


mentalidade dos navegadores ibéricos no século XVI. O livro surgiu de uma tese, apresentada
no concurso público realizada pelo historiador para o seu ingresso como professor do curso
de História, na faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo. Ao
pesquisar os vários relatos referentes às grandes viagens empreendidas nos séculos XV e
XVI, observou a presença de várias lendas da Europa Medieval, como o Mito da Ilha Brasil,
pertencente às tradições da Irlanda. Também observou algumas histórias como a de Ponce de
Leon, que fora o primeiro europeu a pisar na Flórida, cuja motivação principal era a descoberta
da fonte da juventude. Também Cristóvão Colombo, ao estar presente em “Cipango”, relacionou
esta façanha ao cumprimento da escritura bíblica, presente no livro profético de Esdras. Assim,
para além das motivações econômicas, apontadas por Caio Prado Júnior, existia uma motivação
utópica para as navegações oceânicas empreendidas pelos reinos ibéricos: a busca pelo
paraíso terrestre, do qual a humanidade foi expulsa após o pecado de Adão, como apontava
o relato bíblico do Gênesis.

Além deste período da História Colonial Brasileira, Sérgio Buarque de Holanda buscou
T
compreender a expansão das fronteiras do território brasileiro realizada pelos bandeirantes E
O
paulistas, retratado em dois livros principais: Monções (HOLANDA: 1976), no qual aponta a R
I
expansão bandeirante para o Matogrosso, com destaque para a navegação fluvial, e Caminhos A
e Fronteiras (HOLANDA: 1957), versando também sobre a temática da expansão colonial D
A
paulista. Porém, ao contrário de Afonso Taunay, que fazia um elogio à presença bandeirante,
H
Sérgio Buarque buscou realizar uma análise crítica. A base teórica para as suas reflexões foi I
S
a historiografia norte-americana, em especial o historiador Frederick Jacson Turner, autor do T
clássico A Fronteira na História Americana. Ó
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I
A
Sérgio Buarque de Holanda é um dos principais autores da historiografia nacional,
E
que coordenou uma importante coleção de História do Brasil, com o título, História Geral da
H
Civilização Brasileira (HOLANDA: 1960). Tratou-se de uma iniciativa de diversos professores I
S
universitários, como Eurípedes Simões de Paula e Antônio Cândido, da USP, Américo Jacobina T
O
Lacombe, da PUC-Rio, entre tantos outros colaboradores, que contaram com a liderança de R
I
Sérgio Buarque de Holanda neste esforço coletivo de compreensão da realidade social brasileira, O
G
tendo como lume a formação histórica nacional. R
A
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I
A biografia de Sérgio Buarque de Holanda também se relaciona, assim como Caio A
152 TÓPICO 1 UNIDADE 3

Prado Júnior, a Ditadura Militar. Porém, por não ser ligado ao partido comunista brasileiro,
Sérgio Buarque de Holanda não foi perseguido diretamente pelos militares, tendo inclusive
proferido palestras antes do AI-5 na Escola Superior de Guerra. Porém, não apoiou ao regime,
se aposentando da USP em 1968, após a cassação de vários de seus colegas professores da
universidade. Não era ligado ao marxismo, mas sempre defendeu posições políticas avançadas,
sendo no contexto do início dos anos 1980, ao lado de outros intelectuais, um dos membros
fundadores do Partido dos Trabalhadores. Vindo a falecer em 1982, Sérgio Buarque de Holanda
foi um dos principais intelectuais brasileiros de todo o século XX.

UNI
Sérgio Buarque de Holanda não é o personagem mais
conhecido de sua família. Seu filho, o cantor Chico Buarque,
em sua condição de artista, acabou por suplantar o pai
em popularidade. Por vezes, Sérgio Buarque de Holanda
brincava com a situação, e antes das palestras que
ministrava na última década de sua vida não se apresentava
como professor, mas sim como “O pai do Chico Buarque”.

FIGURA 8 - SÉRGIO BUARQUE DE HOLANDA E SEU FILHO FAMOSO

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T FONTE: Disponível em: <http://www.chicobuarque.com.br>. Acesso
O
R em: 17 dez. 2015.
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UNIDADE 3 TÓPICO 1 153

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Em relação à obra e vida de Sérgio Buarque de Holanda, vale


a pena conferir o documentário realizado por Nelson Pereira
dos Santos, de título Raízes do Brasil. Documentário no qual
a vida do intelectual é retratada, ao mesmo tempo em que
se expõe aspectos da história brasileira do século XX.

Os três autores apresentados como representantes de um pensamento social mais


crítico Freire, Prado e Holanda, assim como os autores apresentados como pertencentes a um
pensamento autoritário e conservador Torres e Vianna, foram assim classificados pelo eminente
crítico literário e professor da Universidade de São Paulo Antônio Cândido, em seu prefácio ao
livro Raízes do Brasil, na edição de 1969. Tal classificação, usualmente utilizada, porém, é aberto
a críticas. Alguns intelectuais brasileiros das últimas décadas buscaram resgatar determinados
aspectos do pensamento de Oliveira Vianna, não o necessariamente classificando como racista.
Todavia, no presente Caderno de Estudos, mantivemos a classificação tradicional levantada
por Antônio Cândido. Pois, qualquer leitor, ao passar os olhos em livros como Populações do
Brasil Meridional, observa o conservadorismo de Oliveira Vianna. Ao mesmo tempo, notamos
a ousadia interpretativa dos três principais intelectuais das ciências humanas brasileiras, que
publicaram suas primeiras obras na década de 1930: Sérgio Buarque de Holanda, Caio Prado
Júnior e Gilberto Freire.

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RESUMO DO TÓPICO 1

Neste tópico, você pôde observar que:

• Durante o Período colonial foram escritos livros sobre a História do Brasil, como os de
Gandavo, Frei Vicente do Salvador e Sebastião da Rocha Pita. Obras que foram criticadas
por abrir grande espaço para a narração de eventos mágicos, como um monstro que saiu
do mar, na vila de São Vicente.

• No século XVIII existiu em Salvador a Academia Brasílica dos Renascidos, sociedade literária
a qual pertenceu Sebastião da Rocha Pita.

• Após a Independência de Portugal, o Estado Brasileiro criou o Instituto Histórico e Geográfico


Brasileiro, que teve como seus principais nomes os historiadores Varnhagen, autor de História
Geral do Brasil, e Capistrano de Abreu, autor de Capítulos de História Colonial.

• Nos anos 1930, como uma reação ao pensamento conservador de Alberto Torres e Oliveira
Vianna, surgiram três grandes interpretes da realidade nacional: Gilberto Freire, Caio Prado
Júnior e Sérgio Borque de Holanda.

T • Gilberto Freire é o autor de Casa-Grande e Senzala.


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I • Caio Prado júnior é o autor do livro Formação do Brasil Contemporâneo.
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A • Sérgio Buarque de Holanda é o autor do livro Raízes do Brasil.
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UNIDADE 3 TÓPICO 1 155


IDADE
ATIV
AUTO

Podemos estabelecer que diferentes momentos históricos produzem diferentes


formas e interesses na escrita da história. Assim compreendendo, estabeleça as
diferenças entre a História produzida pelo Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, o
IHGB, da produzida pelos ensaístas brasileiros dos anos 1930.

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TÓPICO 2

A HISTORIOGRAFIA BRASILEIRA DURANTE


A GUERRA FRIA

1 INTRODUÇÃO

Durante a chamada Guerra Fria, o mundo viveu lances históricos de disputas entre
os países capitalistas e as nações comunistas. Estas disputas tiveram profunda influência
na produção historiográfica do Brasil entre as décadas de 1940 e 1980. Um dos vetores para
a compreensão da produção historiográfica, naquela época, foram os desdobramentos da
denominada geração que publicou seus primeiros e relevantes ensaios na década de 1930.
Podemos compreender que Gilberto Freire, Caio Prado Júnior e Sérgio Buarque de Holanda
não foram os gênios solitários a compor obras ímpares. Devemos compreender que eles tiveram
uma profunda interlocução com outros intelectuais, que também tiveram grande relevância na
contribuição da compreensão do passado brasileiro. Assim, tivemos vários outros pensadores,
T
autores de importantes ensaios interpretativos. E
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Concomitantemente a existência de eruditos e ensaístas, também podemos lembrar A

que em 1934, tivemos a fundação da Universidade de São Paulo, simbolizando ao país uma D
A
melhor formação dos professores de história que lecionaram tanto para os colegiais quanto
H
para o ensino superior. Além da USP, podemos citar o surgimento de outras instituições, que de I
S
forma direta ou indireta contribuíram com a formação de profissionais que militaram na escrita T
Ó
de História do Brasil, como a CEPAL (Comissão para a América Latina, da Organização das R
I
Nações Unidas), o ISEB (Instituto Superior de Estudos Brasileiros, já extinto), além da FGV – A

Fundação Getúlio Vargas. Outras importantes instituições formadas foram as universidades E

federais e estaduais dos vários estados, além do ensino superior privado. H


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Outro grupo importante para a compreensão da História Nacional foram os historiadores O
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norte-americanos, que se descolaram para o Brasil, no contexto da Guerra Fria. Estes, I
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denominados brasilianistas, escreveram obras sobre a história brasileira, em sintonia com G
R
demais estudos sobre os demais países latino-americanos. Apesar das severas críticas que A
F
sofreram, estes estudiosos também contribuíram para a compreensão da história brasileira. I
A
158 TÓPICO 2 UNIDADE 3

A historiografia brasileira durante a guerra-fria retratava as disputas políticas e sociais


daquele período. Assim, tivemos uma grande gama de estudiosos ligados às duas esferas do
pensamento social: os marxistas, favoráveis à União Soviética, outros liberais, vinculados aos
ideais das democracias ocidentais. Ao mesmo tempo, podemos lembrar que o Golpe Militar de
31 de março de 1964 foi um dos principais eventos da Guerra-Fria no Brasil. E, infelizmente,
muitos historiadores foram perseguidos pelo governo ditatorial.

2 OS ENSAÍSTAS DA REALIDADE HISTÓRICA BRASILEIRA

O sucesso das abordagens historiográficas inovadoras de Gilberto Freyre e Sérgio


Buarque de Holanda motivara a construção de outros livros, que podem ser considerados como
ensaísticos. Isto é, ao invés das análises se pautarem em uma análise exaustiva de fontes,
os ensaístas se baseiam em outros estudos empíricos, tendo como principal contribuição ao
debate uma construção de um novo olhar sobre a temática a qual escrevem. O ensaísmo foi
muito presente no Brasil entre os anos 1940 até meados dos anos 1980. Podemos classificar
em dois grandes blocos os ensaios e textos de síntese sobre a história brasileira. Num primeiro
bloco os autores ligados ao materialismo histórico e dialético. Num segundo, autores que eram
ligados ao pensamento liberal.

Seguindo a linha marxista, inaugurada por Caio Prado Júnior, tivemos outros autores
que trabalham com perspectivas marxistas nas análises sobre a realidade nacional, tanto
realizando ensaios interpretativos, como pesquisas acadêmicas. Em relação a ensaístas,
T
E podemos citar alguns importantes marxistas, como Nelson Werneck Sodré (SODRÉ, 1982),
O
R Leôncio Bausbaun (BASBAUN, 1986), Alberto Passos Guimarães (GUIMARÃES, 1968), Jacob
I
A Gorender (GORENDER, 1976) e Darcy Ribeiro (RIBEIRO, 1995).
D
A
Nelson Werneck Sodré foi um importante intelectual marxista, autor de livros como
H
I Formação Histórica do Brasil, História da Imprensa no Brasil, História Militar do Brasil, além
S
T de dois livros memorialísticos: Memórias de um soldado e Memórias de um escritor, e esteve
Ó
R relacionado a vários dos debates historiográficos e políticos do Brasil ao longo do século XX.
I
A Leôncio Bausbaun, membro do Partido Comunista Brasileiro, teve como o seu principal livro
E A História sincera da república. Alberto Passos Guimarães escreveu Quatros Séculos de
H Latifúndio, texto no qual criticava a estrutura fundiária brasileira. Estes autores estavam ligados
I
S a uma visão majoritária do Partido Comunista Brasileiro, sobre a existência de um “feudalismo
T
O colonial no Brasil”. Tese hoje refutada (isto é, desmentida), como veremos a seguir. Entre estes,
R
I
Sodré foi o autor de maior destaque, que conseguiu influenciar grande parte dos acadêmicos
O
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de História dos anos 1950/1960. E, justamente por isso, também foi o intelectual que sofreu
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as maiores e virulentas críticas. Entre os críticos de Sodré, esteve o militante e intelectual
F
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comunista Jacob Gorender.
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UNIDADE 3 TÓPICO 2 159

FIGURA 9 - NELSON WERNECK SODRÉ

FONTE: Disponível em: <https://revistaparametro.files.wordpress.


com/2011/08/imagesca23yets.jpg>. Acesso em: 17 dez. 2015.

Jacob Gorender foi um ativo militante do Partido Comunista Brasileiro. Suas principais
obras historiográficas foram: O escravismo colonial e Combate nas trevas. Em seus escritos está
presente uma crítica ao Partido Comunista Brasileiro, do qual se retirou, sendo posteriormente
membro do Partido Comunista do Brasil. O livro Combate nas trevas apresenta uma revelação
polêmica. Os justiçamentos, isto é, os assassinatos cometidos por membros dos grupos
guerrilheiros, cuja motivação era eliminar os que desejavam sair da luta armada contra a ditadura.

Entre os interpretes marxistas da história nacional, temos o nome de Darcy Ribeiro.


Antropólogo de formação, que possuiu alguns importantes ensaios com os quais influenciou a T
E
historiografia. Em o Processo civilizador apontou uma interpretação, com base no materialismo O
R
histórico e dialético, sobre a história humana. Os índios e a civilização é uma obra fundamental I
A
para os estudiosos da História Indígena, porém a maior contribuição de Darcy Ribeiro à
D
historiografia brasileira foi o livro O povo brasileiro. Escrito no final da vida do autor, no início A
dos anos 1990, nele apresenta uma bela visão do passado e do futuro nacional. Na visão H
I
de Darcy Ribeiro, o Brasil sempre foi, até o presente, um “moinho de gastar gente”. Porém, S
T
neste “moinho de gastar gente”, estaria em gestação uma nova Roma. Assim como todos os Ó
R
caminhos do mundo levavam à antiga Roma, os caminhos do mundo passavam pelo Brasil, ao I
ter, em nosso país, representantes de quase todas as etnias que existem ao redor do globo. A

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FIGURA 10 - DARCY RIBEIRO

FONTE: Disponível em: <http://www.pdt.org.br/uploads/noticias/darcy_155-1g_1.jpg>.


Acesso em: 17 dez. 2015.

UNI

Para obter um conhecimento mais aprofundado sobre a


trajetória de Darcy Ribeiro, que além de intelectual foi um
destacado militante político no Brasil da segunda metade do
século XX, é interessante visitar o site da Fundação Darcy
Ribeiro. Disponível em: <http://www.fundar.org.br/>.

Além de intelectuais marxistas, ligados ou não ao Partido Comunista Brasileiro, temos


vários outros intelectuais, que não foram classificados como ligados à compreensão teórica do
T materialismo histórico e dialético, mas que contribuíram para uma aprofundada compreensão
E
O da realidade nacional. Podemos citar vários intelectuais, como Raymundo Faoro (FAORO,
R
I
2001), Victor Nunes Leal (LEAL, 1976) e Vianna Moong (MOONG, 1969).
A

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Raymundo Faoro foi um destacado advogado brasileiro, com importante presença no

H
processo de redemocratização ao final da ditadura militar. Além de sua destacada atuação
I como jurista, teve grande importância na publicação de livros que auxiliam a compreensão do
S
T passado nacional. Entre suas publicações, uma teve grande destaque: Os donos do poder:
Ó
R a formação do patronato político brasileiro. Neste livro, Faoro apresenta como uma categoria
I
A social, que ele denominou (com inspiração no sociólogo alemão Max Weber) como “estamento
E patrimonial”, que acabou por se transformar nos “donos do poder”. Pois, uma camada de
H burocratas e demais funcionários ligados ao Estado, possuem, na visão de Faoro, um maior
I
S poder que as burguesias industriais brasileiras.
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FIGURA 11 - RAYMUNDO FAORO

FONTE: Disponível em: <http://perspectivaonline.com.


br/2015/04/27/90-anos-de-raymundo-faoro/>. Acesso
em: 17 dez. 2015.

Victor Nunes Leal foi um outro importante intelectual brasileiro. Jurista, assim como
Raymundo Faoro, escreveu um importante texto para a compreensão da dinâmica eleitoral
do período republicano: Coronelismo Enxada e Voto. Em grande parte, Leal apresentou uma
visão crítica sobre as relações de poder e a corrupção que permeava as eleições brasileiras.
Viana Moong, na obra Bandeirantes e pioneiros, apresentou uma comparação entre as formas
de colonização no Brasil e os Estados Unidos da América. Enquanto nas colônias inglesas da
América do Norte, os pioneiros buscaram construir uma nova nação, na América portuguesa,
a ética da colonização era a do enriquecimento a qualquer custo.

T
E
3 A PRODUÇÃO UNIVERSITÁRIA DE HISTÓRIA DO BRASIL, O
R
A FORMAÇÃO DE CENTROS DE DOCUMENTAÇÃO E PES- I
QUISA HISTÓRICA A

D
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Grande parte dos intelectuais anteriormente citados não tinha realizado uma graduação
H
(bacharelado ou licenciatura) em História, pois, no Brasil, o curso de História demorou a ser I
S
formado. Assim, grande parte dos historiadores brasileiros tiveram formação em Direito, uma T
Ó
área que, à época, era próxima as Ciências Humanas. Esta perspectiva se alterou a partir R
I
da década de 1930, pois, em 1934, foi fundada a Universidade de São Paulo. O contexto A

de fundação da USP foi o de uma dupla crise da elite paulista. Política, com a Revolução de E

1930, que retirou os oligarcas de São Paulo do poder político nacional. Econômica, com a H
I
crise de 1929, que retirou da elite paulistana as benesses financeiras que possuíam. Uma das S
T
motivações para a construção desta universidade foi a visita do Rei Alberto, da Bélgica, que O
R
ao perguntar onde ficava a universidade do Brasil, teve a resposta que o Brasil (até aquele I
O
momento) não possuía universidade. G
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Em São Paulo, a USP contou com a presença de uma missão de professores universitários I
A
162 TÓPICO 2 UNIDADE 3

franceses, que contribuíram para a formação de uma importante geração de historiadores


brasileiros. Entre os professores franceses que estiveram trabalhando em São Paulo, eram
destaque Jean Gagé, Emille Leonard, e, especialmente Fernand Braudel, que obteve mérito
internacional ao voltar para a França, e publicar a sua tese de grande repercussão: O mediterrâneo
e o mundo mediterrânico na época de Felipe II. Com o retorno dos professores universitários
para a França, antigos alunos brasileiros os substituíram, como Eurípedes Simões de Paula,
Eduardo de Oliveira França, e posteriormente, Sérgio Buarque de Holanda, que ingressou na
USP em meados dos anos 1950, com a tese Visão do paraíso. A presença feminina também era
constante, com as professoras Alice Piffer Canabrava e Olga Pantaleão.

UNI

O Curso de História da Universidade de São Paulo possui


uma prestigiada Revista de História, que é publicada desde
1950, sendo ao lado da Revista do Instituto Histórico
e Geográfico Brasileiro, uma das mais prestigiadas
publicações do país. Todos os números estão disponíveis
on-line, no site <http://revhistoria.usp.br/index.php/
br/>. Vale a pena conferir.

O curso de graduação em História também foi formado no Rio de Janeiro, na Faculdade


Nacional de Filosofia da Universidade do Brasil, que posteriormente teve o nome alterado para
Universidade Federal do Rio de Janeiro. No Rio de Janeiro foram destaques a professora Maria
Ieda Linhares e o Professor Francisco Calazans Falcon. No restante do país, a ampliação do
T
E curso de história teve grande impulso com a formação de universidades federais nas capitais
O
R de todos os estados, como previa o plano de metas do governo Juscelino Kubistchek.
I
A

D A pesquisa em História, até os anos 1960, era pequena no Brasil. Alguns marcos
A
foram importantes para a criação de uma grande quantidade de pesquisadores das questões
H
I históricas. Em 1950, o curso de História da USP fundou sua revista acadêmica, até hoje
S
T importante e editada semestralmente. Em 1962, em um encontro de professores sediado em
Ó
R Marília, no interior paulista, foi fundada a ANPUH – Associação Nacional dos Professores
I
A Universitários de História, instituição que incentivou a formação de professores de História
E com maior capacitação profissional. Nos anos 1970, existiu um incremento da pós-graduação
H em História, com a abertura de cursos de mestrado em várias instituições, em especial, nas
I
S universidades federais. A ampliação do doutorado ocorreu a partir dos anos 1980.
T
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I Não apenas as universidades foram instituições importantes para a formação do
O
G conhecimento científico sobre o passado brasileiro. Também foram formadas diversas
R
A instituições, como o ISEB, a CEPAL, o CEBRAP e a FGV.
F
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O ISEB foi o Instituto Superior de Estudos Brasileiros, órgão ligado ao Ministério da


Educação, fundado no governo Juscelino Kubistchek. Tratava-se de um centro de estudos que
tinha como principal motivação a produção de conhecimento histórico e sociológico, que visava
contribuir com o desenvolvimento do Brasil (TOLEDO, 1982). Alguns importantes nomes da
intelectualidade brasileira dele participaram, como Cândido Mendes de Almeida, Hélio Jaguaribe,
Alberto Guerreiro Ramos, Álvaro Vieira Pinto e Nelson Werneck Sodré. Por ter se ligado às
Reformas de Base do governo João Goulart, o ISEB foi fechado pelo Golpe Militar de 1964.

A CEPAL é a sigla pelo qual é conhecida a Comissão Para o Desenvolvimento


Econômico da América Latina, um órgão pertencente à Organização das Nações Unidas, e
que teve importante contribuição para o conhecimento da história econômica brasileira. Em
especial, pela atuação de Celso Furtado (FURTADO, 1998), autor, nos anos 1950, do clássico
Formação Econômica do Brasil. Na CEPAL trabalharam alguns dos intelectuais perseguidos
pela ditadura militar, como o sociólogo Fernando Henrique Cardoso, e os economistas Carlos
Lessa e José Serra. Órgão existente até os dias atuais, porém, sem a mesma relação com a
produção historiográfica entre os anos 1950 e 1970.

Alguns dos intelectuais que fizeram parte da CEPAL, ao retornar ao Brasil nos anos
1970, fundaram, ao lado de outros intelectuais, que não foram exilados, o CEBRAP – Centro
Brasileiro de Planejamento. Entre os intelectuais que a ele pertenceram estava o sociólogo
Fernando Henrique Cardoso e o historiador Fernando Novais. Estes dois eminentes pensadores
da realidade nacional participaram de um famoso grupo de estudos do livro “O Capital”, de Karl
Marx. Outros professores da USP eram também ligados ao grupo fundador do CEBRAP, como o
filósofo Arthur Gianetti, além do sociólogo das religiões Cândido Procópio Ferreira de Camargo.
T
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Outra importante instituição que trabalhou (e ainda trabalha) com questões ligadas à O
R
História Brasileira é a FGV – Fundação Getúlio Vargas. A mesma tem uma importante tradição I
A
no que concerne à História Oral, um tipo de produção de fonte histórica, na qual personagens
D
da vida pública, independentemente de sua posição na hierarquia social, são entrevistados, A

prestando depoimento sobre os fatos que vivenciaram (MEIHY, 2000). Algumas entrevistas H
I
realizadas pela FGV foram muito importantes para o esclarecimento de fatos da história política S
T
brasileira do século XX, como as concedidas pelos generais Cordeiro de Farias e Ernesto Ó
R
Geisel. O CPDoc – Centro de Pesquisa e Documentação em História Contemporânea do Brasil, I
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contou com a colaboração de grandes pesquisadores, como Maria Celina de Araújo, Ângela
E
de Castro Gomes, Celso Castro, entre outros pesquisadores.
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A Fundação Getúlio Vargas possuiu o seu Centro de Pesquisa


e Documentação em História Contemporânea Brasileira,
o CPDOC, que realizou muitas entrevistas com vários
personagens da história política nacional. Este material pode
ser conferido no site: <http://cpdoc.fgv.br/>.

Podemos observar que, até os anos 1980, a produção de conhecimento histórico estava
mais vinculada às instituições não universitárias, como a FGV e o CEBRAP. Atualmente, este
quadro se alterou, sendo as universidades os principais locais de produção historiográfica.
Um movimento interessante na segunda metade do século XX foi a construção de instituições
ligadas à memória brasileira. Já em 1936 fundou-se o IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico
e Artístico Nacional). Com isto, podemos compreender que muitos espaços de memória foram
criados no Brasil entre meados dos anos 1940 e 1980. Podemos citar o Museu da República,
além de outros vários museus pelo país, tanto em cidades pequenas como em capitais,
simbolizando um aumento do interesse do poder público em relação à construção da memória
nacional, além da importância social da História ter sido ampliada.

4 OS PRINCIPAIS DEBATES ACADÊMICOS

T
E Durante os anos em análise, meados 1940 até meados dos anos 1980, se pode observar
O
R que a historiografia, isto é, a escrita da história, estava vinculada às disputas políticas e da
I
A ampliação de cidadania em relação a uma possibilidade de melhora das condições de vida
D da população brasileira. Em um período no qual o país se transformou, deixando de ser uma
A
nação rural agrário-exportadora, para se tornar uma nação urbana e industrializada, podemos
H
I compreender que dois grandes debates foram considerados relevantes: a exploração econômica
S
T do Brasil Colonial e a Revolução de 1930.
Ó
R
I
A Os debates relativos ao Brasil Colonial tiveram como principal tema a História Econômica,
E pois grande parte da intelectualidade brasileira interpretava os principais dilemas da economia
H brasileira tendo como causa mais relevante o legado colonial. Uma das principais questões
I
S levantadas pelos historiadores marxistas era relativo à procedência ou improcedência de relações
T
O
capitalistas no Brasil durante os três primeiros séculos. O que possibilitaria compreender o
R
I
retardo do desenvolvimento capitalista nacional.
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A
Para uma linha de pesquisadores, ao qual estava incluído Nelson Werneck Sodré e
F
I
Leôncio Basbaum, existiu um feudalismo na sociedade colonial brasileira. A ideia deste tipo
A
UNIDADE 3 TÓPICO 2 165

de análise, é que o Brasil teria seus senhores feudais durante a colônia, simbolizados pelos
grandes proprietários rurais, donos de sesmarias, uma doação da Coroa Portuguesa, criando
no campo tanto relações escravistas quanto servis. Este tipo de relação de trabalho teria se
mantido até o século XX, em especial até a Revolução de 1930, que permitiu a ascensão das
classes médias e da burguesia nacional ao poder. Para os marxistas citados, a burguesia
nacional era uma força revolucionária, que unida ao proletariado urbano, tiraria do poder os
dois principais inimigos no povo brasileiro: os grandes latifundiários rurais e o imperialismo
industrial internacional. Tal visão foi criticada tanto no interior do Partido Comunista Brasileiro,
assim como entre intelectuais não ligados diretamente ao marxismo-leninista.

Entre os críticos marxistas da tese de “feudalismo colonial”, podemos citar Caio Prado
Júnior e Jacob Gorender. Caio Prado Júnior, no livro A revolução brasileira, afirmou que o Brasil
nasceu capitalista, não tendo conhecido o feudalismo. Deste modo, o país teria “nascido” sobre
o signo deste tipo de relação comercial, sendo a função do Brasil, de ser um fornecedor de
produtos agrícolas e matérias-primas para o mercado internacional. Jacob Gorender criou o
conceito escravismo colonial, no qual o escravismo era a principal forma de relação trabalhista
no país dos três primeiros séculos, não havendo na colônia relações servis.

O principal crítico não marxista da tese de feudalismo colonial foi o jurista Raymundo
Faoro. No livro Os donos do poder, ele apresentou uma interessante análise sobre a vida
colonial brasileira, utilizando categorias de análise oriundas da sociologia de Max Weber.
Assim, ao invés de considerar o Brasil feudal, apresentou-o como patrimonialista. Isto é, uma
sociedade na qual a presença de uma separação entre o que concerne ao direito público e ao
direito privado é pouco clara, pois temos uma forma de “privatização” das relações públicas, ao
ter a estrutura fundiária pautada em doações régias, como as capitanias e sesmarias (glebas T
E
de terras doadas pelo rei português). Assim, ao invés de termos uma dominação de classe, O
R
entre a burguesia nascente e o proletariado, o que teríamos na história brasileira, segundo I
A
Raimundo Faoro, é uma dominação estamental. Por estamento, se compreendem grupos
D
sociais garantidos por convenções e leis, mantidos através da honra e de um estilo de vida A

diferenciado. Assim compreendendo, Faoro afirma ter existido no Brasil uma dominação do H
I
estamento patrimonial, que se burocratizou, sendo os membros do estamento burocrático os S
T
donos do poder no Brasil do século XX. Ó
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Estes debates relativos ao Brasil Colonial tinham uma relação direta com as lides
E
políticas, como já fora afirmado. Porém, outro importante debate em relação à historiografia
H
brasileira do século XX foram as questões relativas à Revolução de 1930. Debate este também I
S
extremamente polêmico, pois o significado das transformações ao qual o Brasil passou ao longo T
O
do século XX se referem à presença de Getúlio como chefe do poder executivo federal. Assim, R
I
existiram os admiradores e detratores da figura política de Getúlio Dorneles Vargas. Admiradores O
G
e detratores que elaboraram os principais debates acadêmicos sobre a Revolução de 1930. R
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Uma visão mais positiva da Revolução de 1930 foi ofertada pelos historiadores ligados ao A
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marxismo ortodoxo, como Leôncio Basbaum e Nelson Werneck Sodré. Ambos acreditavam no
aspecto revolucionário da Revolução de 1930, como uma espécie de continuação do tenentismo.
Uma das principais críticas a estes autores foi o de seguir as ideias de Virgínio Santa Rosa
(SANTA ROSA, 1976), intelectual que escreveu um dos primeiros livros sobre a temática, de
título O Sentido do tenentismo. Nele, apontou o tenentismo como um típico movimento social
de classe média, cuja Revolução de 1930 seria uma espécie de coroamento. Para Leôncio
Bausbaun e Werneck Sodré, a Revolução de 1930 marcaria o fim de ranços feudais ainda
existentes no campo.

Todavia, tal percepção foi duramente criticada por outros especialistas. Ao mesmo tempo,
que outras visões também foram agregadas à compreensão da Revolução de 1930. Um dos
primeiros autores universitários que trabalhara com a temática foi Edgard Carone (CARONE,
1978), que apontava o tenentismo como um movimento da jovem oficialidade do exército,
ligados a ideais nacionalistas, se portando como defensores da moralidade pública. Porém,
o primeiro grande crítico do modelo marxista de Nelson Werneck Sodré para a Revolução de
1930 foi o historiador Boris Fausto (FAUSTO, 1979). Fausto, em seu livro a Revolução de 1930:
história e historiografia, criticou duramente a ideia que o tenentismo e a Revolução de 1930
eram movimentos que expressavam os anseios das classes médias urbanas. Fausto apontou
que 1930 representa, apenas, uma troca de elite agrária, que antes era ligada aos latifundiários
paulistas, e que após a Revolução de 1930, passou para as mãos das elites agrárias gaúchas,
simbolizadas por Getúlio Vargas.

Mesmo contando com grande parte dos tenentes dos anos 1920, a Revolução de 1930
e o tenentismo, como movimento anterior, não significariam, na visão de Boris Fausto, um
T avanço das classes médias urbanas. Para Fausto, o tenentismo deveria ser compreendido
E
O como um movimento de origens internas nas próprias forças armadas, ligadas ao ideal de
R
I salvacionismo militar.
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A FIGURA 12 - BORIS FAUSTO
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A FONTE: Disponível em: <http://investgpi.com.br/wp-content/uploads/2013/03/
F BORISFAUSTO.jpg>. Acesso em: 17 dez. 2015.
I
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UNIDADE 3 TÓPICO 2 167

Outra visão importante sobre a Revolução de 1930 foi ofertada pelo historiador José
Murilo de Carvalho (CARVALHO, 2005), no capítulo da coleção História Geral da Civilização
Brasileira, As Forças Armadas na Primeira República: o poder desestabilizador, no qual
apontou o exército como uma instituição total, e os anseios dos militares, tendo como causas
aspectos internos a própria corporação, não considerando os tenentes como os porta-vozes
de uma classe social, mas sim os elaboradores de uma projeto autônomo e autoritário para
o Brasil. Edgar Salvadore de Deca (DECA, 1981) também apresentou uma nova forma de
compreender a Revolução de 1930, em seu importante livro 1930: o silêncio dos vencidos.
Sua perspectiva o levou a recusar a utilização do termo revolução para o movimento militar de
1930, o considerando, muito mais, um Golpe de Estado.

5 OS BRASILIANISTAS

Pelo termo brasilianistas, ficaram conhecidos os intelectuais estrangeiros, mais notadamente


os de língua inglesa, que pesquisaram sobre a História do Brasil. Desde o século XIX, o conhecimento
sobre o passado nacional contou com a colaboração de pesquisadores “vindos de fora”. No início
do século XIX, o inglês, Robert Southey, escreveu uma História do Brasil, publicada em Londres no
ano de 1810. Trata-se de um pioneiro livro, no qual apontava uma visão sobre a história nacional.
Além deste pioneiro, muitos outros autores de língua inglesa, tanto ingleses quanto estadunidenses,
contribuíram com o conhecimento que possuímos sobre o passado nacional.

A presença de intelectuais ingleses não se restringiu ao século XIX. Um dos principais


T
estudiosos do Brasil colonial, assim como de todo o Império Marítimo Português, foi Charles E
O
Boxer (BOXER, 2002), que produziu livros importantes como O Império Marítimo Português, além R
I
de Salvador de Sá e a luta pelo Brasil e Angola 1602-1686, entre outros importantes estudos. A

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FIGURA 13 - CHARLES BOXER
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FONTE: Disponível em: <http://www.companhiadasletras.com.br/ F
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images/autores/01817_gg.jpg>. Acesso em: 17 dez. 2015. A
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Ainda no que se refere aos estudos relacionados ao Brasil Colonial, também são
destaque os estudos de outro historiador inglês, nosso contemporâneo, Kenneth Maxwell, autor
de um clássico sobre a Inconfidência Mineira, de título A Devassa da Devassa (MAXWELL,
1995). Ainda dentro da tradição inglesa podemos citar Russel-Wood, britânico que lecionava na
Universidade John Hopkins, nos Estados Unidos da América. Tinha como área de especialização
em pesquisa a sociedade mineira colonial. Um de seus mais importantes livros foi Um Mundo
em Movimento (RUSSEL-WOOD, 1998), no qual apresentou uma história do império colonial
português durante a Idade Moderna.

Apesar da relevância dos estudos dos historiadores ingleses em relação à história


brasileira, a maior quantidade de estudos fora realizada pelos brasilianistas norte-americanos. O
termo, inclusive, é mais utilizado a eles que aos historiadores britânicos, que em geral escrevem
de modo amplo sobre o império ultramarino português, ao qual o Brasil era parte integrante.
Entre os estudiosos norte-americanos, muitos mitos foram criados. Pois, nos anos 1970 e
1980, podemos afirmar que existiu uma “Colônia Brasilianista”, como sugere o historiador da
USP José Carlos Sebe Bom Meihy (MEIHY, 1990).

Estas Colônias Brasilianistas nas Universidades Brasileiras podem ser compreendidas


pelo interesse norte-americano de obter um maior conhecimento sobre o maior país da América
do Sul. Ao mesmo tempo, se relacionava ao desejo da Ditadura Militar em ampliar o sistema
universitário brasileiro, que estava com uma defasagem de mão de obra, porque muitos dos
antigos professores haviam sido cassados pelo AI-5. Ao mesmo tempo em que o governo militar
almejava, nos anos 1970, ampliar a Pós-graduação no Brasil.

T Assim, com a ampliação da pós-graduação em História nas Universidades Federais,


E
O muitos historiadores norte-americanos foram contratados para instituir os cursos de pós-
R
I graduação, sendo na maioria formados em Universidades Norte-americanas. Como se tratava da
A
época da Ditadura Militar, que contou com apoio direto do governo americano, os historiadores
D
A que vieram ao Brasil foram acusados de serem simpatizantes, e até mesmo colaboradores
H do regime militar. Este tipo de acusação também era realizado para menosprezar, diminuir as
I
S pesquisas que realizavam.
T
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R
I O mais destacado brasilianista norte-americano foi Thomas Skidmore (SKIDMORE,
A
2010), autor de um importante texto sobre a historiografia do Brasil Republicano, de título Brasil:
E
De Getúlio a Castelo. Richard Morse também pode ser citado como importante pesquisador
H
I da história nacional. Kenneth Serbin, autor do livro Diálogos na sombra, pesquisou sobre a
S
T relação entre a Igreja Católica e a ditadura militar. A historiadora June E. Hahner pesquisou a
O
R história do florianismo da primeira república, além da história das mulheres, no mesmo período.
I
O Em relação às questões concernentes à História Atlântica e ao Brasil Colonial, é destaque o
G
R historiador, Stuart B. Schwartz, autor de grande relevância nos estudos coloniais.
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Para os falantes da língua inglesa, é interessante visitar


alguns sites de revistas norte-americanas especializadas
nos estudos sobre a realidade latino-americana. Para
todos, é interessante a visita ao site Latin American Studies
Association, também disponível em português no seguinte
site: <https://lasa.international.pitt.edu/por/>.

FIGURA 14 - THOMAS SKIDMORE

FONTE: Disponível em: <www1.folha.uol.com.br>. Acesso em: 17 dez. 2015.

Além dos estudos até aqui citados, é importante lembrar de um importante livro que
refletiu a posição de um brasilianista sobre a participação do exército na política brasileira, da
T
autoria de Alfred Stepan (STEPAN, 1975), cujo título é Os militares na política, em que analisa E
O
a participação do exército nas disputas políticas do Brasil Republicano. Para o aprofundamento R
I
de sua análise, desenvolveu o conceito de Poder Moderador. Assim, segundo Alfred Stepan, A

no Brasil, o exército agiu, ao longo do século XX, como um poder responsável por dirimir as D
A
disputas políticas existentes entre as diferentes facções que disputavam o comando do Estado.
H
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A atuação dos historiadores brasilianistas é de grande relevância, pois ao lermos T
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estes autores, podemos observar algumas características que poderiam ser naturais aos R
I
“nativos”. Isto é, certos hábitos cotidianos, como o hábito do consumo de arroz com feijão, a A
caipirinha ou o futebol aos domingos, são por eles estranhas, e por eles também descritas com E
curiosidade. Além deste aspecto positivo, outro que podemos destacar é a internacionalização H
I
das pesquisas, e um maior intercâmbio entre os historiadores brasileiros e norte-americanos. S
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Tal intercâmbio é revolucionário, ao pensarmos que grande parte da intelectualidade nacional O
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tinha como principais influências pensadores europeus. Deste modo, apesar da Guerra-fria, a I
ação de historiadores norte-americanos apresentou uma relevante inovação. O
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170 TÓPICO 2 UNIDADE 3

RESUMO DO TÓPICO 2

Neste tópico, você pôde observar que:

• Além de Gilberto Freire, Caio Prado Júnior, o Brasil possuiu outros ensaístas da realidade
nacional, que podem ser divididos entre marxistas e não marxistas.

• Os principais ensaístas marxistas foram: Nelson Werneck Sodré, Leôncio Basbaum, Alberto
Passos Guimarães, Jacob Gorender e Darcy Ribeiro.

• Os principais ensaístas não marxistas foram: Victor Nunes Leal, Raymundo Faoro, Vianna
Moong e José Honório Rodrigues.

• As principais instituições a pesquisar a história brasileira durante a segunda metade do


século XX foram a USP (Universidade de São Paulo), a CEPAL (Comissão Econômica Para
a América Latina), o ISEB (Instituto Superior de Estudos Brasileiros, entidade extinta com o
Golpe de 1964) e a FGV (Fundação Getúlio Vargas).

• Os principais debates acadêmicos foram sobre a estrutura econômica do Brasil Colonial


(feudalismo, patrimonialismo, escravismo, capitalismo) e sobre a Revolução de 1930 (Golpe
T ou Revolução? Rearranjo entre as elites ou avanço das classes médias?)
E
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I • Os brasilianistas, isto é, norte-americanos que estudam a história brasileira, estiveram
A
presentes no Brasil em grande número, durante a Guerra-fria. Entre os principais nomes,
D
A se podem citar Thomas Skidmore, autor do livro De Getúlio a Castelo.
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UNIDADE 3 TÓPICO 2 171


IDADE
ATIV
AUTO

1 Alguns eventos políticos interferem na visão de mundo dos intelectuais. Um dos


principais eventos da história do mundo, na segunda metade do século XX, foi a
Guerra-fria. Assim, relacione a produção historiográfica brasileira da segunda metade
do século XX com a Guerra-fria.

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TÓPICO 3

A HISTORIOGRAFIA BRASILEIRA
CONTEMPORÂNEA

1 INTRODUÇÃO

A denominada história tradicional, que em grande parte ainda está presente no contexto
escolar, e que tem sua importância ao ser uma das principais fontes de conhecimentos básicos
sobre a história do Brasil e do mundo ocidental, não é hoje o principal objeto de estudo dos
historiadores profissionais. Em grande parte, dados biográficos de grandes personagens, além
da relevada importância que era ofertada aos eventos políticos e econômicos do Brasil nas
pesquisas realizadas por eminentes historiadores até décadas passadas, cederam espaço a uma
nova forma de se pensar a História, não mais ligada às grandes transformações econômicas
e sociais. Na atualidade, muitos novos eventos são temas de estudo dos historiadores.

T
Ao partirmos da premissa do historiador francês Marc Bloch que a história é filha do E
O
seu tempo, os debates contemporâneos, em seu âmbito cultural, social, político, econômico R
I
e religioso, possuem grande espaço na academia. Porém, não de forma instrumentalizada, A

como nos partidos políticos ou sindicatos, mas sim, como objeto de estudo dos historiadores. D
A
Assim, podemos compreender que novos temas adentraram no campo da história, como a
H
análise de grupos até então não contemplados pelos historiadores em sua escrita, como as I
S
mulheres, os negros, os indígenas, os operários e o meio ambiente. T
Ó
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I
Assim, começaremos nossa narrativa sobre a historiografia brasileira buscando A

compreender o contexto destas alterações. Tanto o externo a universidade (fim da Guerra-Fria), E

quanto o interno, marcado pela profissionalização da carreira docente do magistério superior. O H


I
que significou uma formação acadêmica com melhora na qualidade dos historiadores formados S
T
pelas universidades brasileiras. O
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174 TÓPICO 3 UNIDADE 3

2 NOVOS ESTUDOS, NOVAS INSTITUIÇÕES, NOVOS TEMAS:


O CONTEXTO DAS TRANSFORMAÇÕES HISTORIOGRÁFI-
CAS DAS ÚLTIMAS TRÊS DÉCADAS

Após a queda do Muro de Berlim, em 1989, a historiografia mundial passou por uma
grande reavaliação de seus pressupostos, pois, uma predominância existente do marxismo
(ortodoxo) como modelo explicativo para as transformações e processos históricos passou a
ser severamente criticada. A queda do muro de Berlim colocou em xeque a ideia do socialismo
soviético como um paradigma, um modelo a ser seguido por todos os povos do mundo. Com
isto, observamos o declínio do materialismo histórico e dialético como método de análise dos
eventos históricos. E, a busca dos historiadores por novos métodos e teorias que pudessem
auxiliar na compreensão das transformações históricas.

Como no panorama externo ao Brasil, tivemos a queda da hegemonia do marxismo e no


interno, a redemocratização, que também alterou o modo de se compreender a história nacional,
pois, o governo militar possuía uma visão positivista da história, pautada na ideia de cultos a
grandes heróis. Todavia, este tipo de produção historiográfica caiu em desuso desde os anos
1930, no exterior com a Escola dos Annales, e no Brasil com os ensaios de Sérgio Buarque,
Gilberto Freire e Caio Prado Júnior, porém a ditadura possibilitou uma espécie de retorno, em
especial nas escolas, de um tipo de produção historiográfica considerada pelos especialistas
como ultrapassada. Neste contexto, uma grande alteração no campo historiográfico foi um fim da
predominância de historiadores marxistas e das pesquisas em História econômica, assim como
um declínio dos pesquisadores positivistas, ligados ao Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro.

T
E A maior parcela dos historiadores começou a se interessar por outras temáticas,
O
R relacionadas à denominada Escola dos Annales, como a Nova História Cultural (PESAVENTO,
I
A 2003). Também podemos relacionar uma revisão das teses marxistas, em especial a recusa
D aos determinismos econômicos dos modos de produção, buscando inspiração não mais no
A
marxismo soviético, mas sim no marxismo inglês de Eric Hobsbawm e Edward Thompson
H
I (FENELON, 2014). Outros temas também passaram a fazer parte da pauta de pesquisa dos
S
T historiadores, como a história das relações de gênero, a história das religiosidades (tema
Ó
R anteriormente pesquisado por antropólogos e sociólogos), além da história ambiental. Outros
I
A temas relevantes de pesquisa são a história da escravidão e a História Atlântica.
E

H
Estas pesquisas são realizadas, em geral, por professores doutores e seus orientados de
I
S
teses e dissertações, defendidas nas universidades brasileiras nos últimos anos. Assim, podemos
T concluir que são as universidades os principais locais da pesquisa histórica no Brasil atual.
O
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I
O Uma das principais características da historiografia brasileira nas últimas décadas foi
G
R um amplo processo de profissionalização da ocupação de historiador, ao mesmo tempo em que
A
F jornalistas ganharam notoriedade publicando livros de história que foram sucessos editoriais.
I
A
UNIDADE 3 TÓPICO 3 175

Os jornalistas Eduardo Bueno, com seu livro A viagem do descobrimento, e Laurentino Gomes,
com seu livro 1808, que retrata a vinda da família real, são os principais exemplos. Ambos os
livros, não escritos por historiadores, mas por jornalistas, foram úteis na divulgação de dados
históricos. Porém, ao mesmo tempo, estão distantes da pesquisa histórica realizadas nas
universidades, que possuem preocupações teóricas e metodológicas maiores, e que não são
destinadas, necessariamente, ao grande público, mas sim aos pares historiadores, visando
aprofundar o conhecimento sobre o passado nacional. Assim, podemos afirmar que os livros
de história mais vendidos não são o retrato da produção historiográfica de melhor qualidade.

A profissionalização da pesquisa foi possível devido à ampliação dos cursos de


pós-graduação em nível de mestrado e doutorado nas universidades brasileiras, sendo as
universidades públicas as principais pontas de lança deste processo. Assim, temos uma grande
gama de temas pesquisados por jovens em busca de graus acadêmicos (os títulos de mestre
ou doutor). Deste modo, existe uma grande gama de temas e pesquisas sendo realizadas.
Todavia, como apontou o historiador João Fragoso da UFRJ (FRAGOSO & GOUVÊA, 2014,
p. 7), “a maior parcela dos estudos históricos realizadas nas universidades brasileiras versam
sobre a história do Brasil dos séculos XIX e XX”. Com isto, temos ainda vários campos a
serem explorados em história do Brasil Colonial, como também em novas temáticas antes não
exploradas pelos historiadores, como a História Ambiental.

Entre as instituições importantes para a compreensão da dinâmica do aumento da


profissionalização da função de historiador, temos a presença da ANPUH, a Associação Nacional
dos professores Universitários de História, que, atualmente, tem como nome Associação
Nacional de História. Com encontros anuais, nos anos ímpares um encontro nacional, nos
anos pares encontros estaduais, a ANPUH permite algo fundamental para o desenvolvimento T
E
da pesquisa histórica no Brasil. O contato entre diferentes pesquisadores, das mais variadas O
R
regiões do Brasil, que pesquisam temáticas semelhantes. Este intercâmbio entre historiadores I
A
permitiu uma melhora na produção historiográfica recente, nos mais variados temas e tendências
D
teóricas. Ao mesmo tempo, um debate que surgiu no interior da ANPUH foi uma luta institucional A

e política para a regulamentação da profissão de historiador. Isto é, uma tentativa de se buscar H


I
criar conselhos que promovam uma qualidade mínima e que incluam a discussão sobre a S
T
ética profissional de um pesquisador em História. Desde 2013, a profissão de historiador foi Ó
R
regulamentada. Porém, ainda se trata de um debate em aberto. I
A

E
Como se poderá observar nas linhas subsequentes, muitas foram as análises
H
empreendidas pelos historiadores brasileiros nos últimos trinta anos. Um pouco destas análises I
S
e do debate acadêmico é o que veremos. T
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176 TÓPICO 3 UNIDADE 3

3 HISTÓRIA ATLÂNTICA/ HISTÓRIA DA ESCRAVIDÃO/ BRA-


SIL COLONIAL E IMPERIAL

Por História Atlântica se pode compreender uma abordagem analítica na qual se


privilegia abordar a formação territorial, cultural, política e econômica do Brasil o relacionando
as dinâmicas comerciais do Atlântico Sul nos séculos da Idade Moderna (séculos XV-XVIII). O
Oceano Atlântico foi um palco privilegiado das principais disputas entre os impérios marítimos
da era moderna. Assim, ao pensarmos a História do Brasil Colonial, observamos que muitos
dos episódios da história brasileira, como a França Antártica, a França Equinocial, a presença
Holandesa no Nordeste, além da Abertura dos Portos às Nações Amigas estão relacionadas
às disputas comerciais por correntes marítimas que possibilitassem ampliação do comércio.

Deste modo, podemos inferir que uma das mais importantes contribuições da história
atlântica é a possibilidade de compreender as relações econômicas, militares, sociais e culturais
entre o continente europeu, o americano e o africano. Assim, os historiadores que lidam com tal
temática pensam as relações espaciais para além das fronteiras do estado nacional. No Brasil,
o principal pesquisador a lidar com a temática da história atlântica foi Luis Filipe de Alencastro
(ALENCASTRO, 2000), autor de O trato dos viventes: a formação do Brasil no Atlântico Sul. Nesta
obra, Alencastro aborda a importância do tráfico negreiro para a compreensão da formação do
Brasil. Porém, ao invés de apontar os interesses metropolitanos no tráfico, Alencastro abordou os
interesses coloniais, em especial, a participação de alguns agentes, que pode ser simbolizado na
figura de Vidal de Negreiros, que após liderar a expulsão dos holandeses de Pernambuco, comanda
a expedição que visava libertar Angola do jugo holandês. A libertação de Angola era fundamental
T
E para a economia açucareira, porque era do continente africano de onde se retirava a mão de obra
O
R utilizada nas lavouras açucareiras, que alimentavam o mercado europeu desta especiaria.
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D FIGURA 15 - LUIZ FELIPE DE ALENCASTRO


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I FONTE: Disponível em: <http://cpdoc.fgv.br/sites/default/files/
A luiz_felipe_alencastro.jpg>. Acesso em: 17 dez. 2015.
UNIDADE 3 TÓPICO 3 177

Além de uma melhor análise das relações intercontinentais da Idade Moderna, a


perspectiva atlântica possibilita aos estudiosos uma melhor compreensão da escravidão, pois
a mesma se desenrolava no tráfego humano entre a África e a América. Entre os principais
estudiosos da história da escravidão no Brasil das últimas décadas, nós podemos citar os
professores Bivar Marquese (USP) e Silvia Lara (UNICAMP). A pesquisa sobre a questão
da escravidão está hoje envolta aos debates relativos às formas de legitimação do poder
metropolitano português sobre a sua colônia americana. Duas correntes teóricas são utilizadas
pelos pesquisadores. Os que utilizam o conceito Antigo Regime nos Trópicos e os que utilizam
o conceito Antigo Sistema Colonial.

A produção dos historiadores que utilizam o conceito de Antigo Regime nos Trópicos
em geral utiliza da perspectiva analítica protagonizada pelo professor de História do Direito da
Universidade de Lisboa António Manuel Hespanha, autor de um livro clássico denominado As
vésperas do Leviatã. Os historiadores ligados à Universidade Federal do Rio de Janeiro, como
Maria Fernanda Bicalho, Fátima Gouvêa e João Fragoso (FRAGOSO; BICALHO; GOUVÊA,
2001), organizaram um livro de título Antigo Regime nos Trópicos, no qual esta perspectiva
analítica é demonstrada. Em especial, defendem uma descentralização das relações de poder
na época do Brasil Colonial.

Esta perspectiva teórica foi duramente criticada pela historiografia ligada à Universidade de
São Paulo. Laura de Mello e Souza, em O sol e a sombra (SOUZA, 2006), apresenta uma forma
de compreensão da administração do Império Português, apontando a centralidade do poder na
Metrópole, que ditava as resoluções do Império Colonial Português. Esta perspectiva analítica
tem como principal formulador o historiador Fernando Antônio Novais, autor do livro: Portugal
e Brasil na crise do antigo sistema colonial (NOVAES, 1979). Outro historiador que trabalha T
E
com o mesmo conceito é Pedro Luis Puntoni (PUNTONI, 2000), autor de Guerra dos bárbaros, O
R
que apresentou uma nova abordagem da história indígena no Brasil Colonial, apresentando o I
A
protagonismo indígena, ao buscar se opor, de forma armada, ao colonizador português.
D
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As análises sobre o Brasil imperial sofreram influências díspares e autores com temáticas H
I
igualmente variadas. Uma das primeiras e mais importantes obras sobre o período foi composta S
T
por Manolo Florentino e João Fragoso, de título o Arcaísmo Como Projeto (FRAGOSO; Ó
R
FLORENTINO, 2001). Neste livro, os autores apontam como se formaram as fortunas no Rio I
A
de Janeiro, que tinham como principal base o comércio de escravos.
E

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Em relação ao Brasil Império, temos uma grande gama de importantes estudos sendo I
S
realizados nas universidades brasileiras. Algumas questões são próximas à história atlântica, T
O
como os estudos que tratam da questão da proibição do tráfico negreiro, assim como a Lei R
I
Eusébio de Queiróz e o decorrente tráfico interprovincial. Todavia, para além das questões O
G
econômicas, as relações políticas também são analisadas pelos pesquisadores do Brasil no R
A
século XIX. Entre os vários autores que trabalharam com o período, podemos destacar José F
I
Murilo de Carvalho e Sidney Chalhoub. A
178 TÓPICO 3 UNIDADE 3

José Murilo de Carvalho, Imortal da Academia Brasileira de Letras e professor emérito


da Universidade Federal do Rio de Janeiro, é um dos principais historiadores brasileiros da
contemporaneidade. Sua principal contribuição se refere à compreensão das elites imperiais
e a construção da sociedade brasileira nas primeiras décadas republicanas, marcadas pelo
fim da escravidão. Seus principais livros são A construção da ordem, O teatro das sombras
(CARVALHO 1996), A formação das almas (CARVALHO, 1990), Os bestializados (CARVALHO,
1887). A construção da ordem e o Teatro das sombras se referem à estrutura política do
Brasil Imperial. A formação das almas e Os bestializados se referem às primeiras décadas da
república, na qual um imaginário criado pelos positivistas não se transformou em realidade para
a população brasileira, que deixou de ser súdito, passando a ser cidadão portador de direitos,
que não eram efetivados no cotidiano das populações empobrecidas dos cortiços e favelas.

Este período, da transição monárquica para a república foi estudado por um outro
destacado historiador: Sidney Chalhoub. Professor da Universidade Estadual de Campinas,
no interior do estado de São Paulo, sua contribuição para a historiografia foi explicitada em
dois livros: Trabalho, lar e botequim (CHALHOUB, 2001) e Visões da liberdade (CHALHOUB,
1990). Em Visões da liberdade, o historiador pesquisou, com base em vasta documentação,
a visão de escravos sobre o processo de emancipação do negro em face da escravidão. Em
Trabalho, lar e botequim, aponta o cotidiano das classes populares do Rio de Janeiro da última
década do século XIX e das primeiras décadas do século XX.

O principal debate acadêmico que envolve o Brasil Império se relaciona aos significados
da Guerra do Paraguai. Em relação a esta polêmica historiográfica, dois posicionamentos foram
presentes: um primeiro, representado por Júlio José Chiavenato, e uma revisão, apresentada
T por Francisco Doratioto.
E
O
R
I A primeira grande interpretação não militar sobre a Guerra do Paraguai foi representado
A
pelo jornalista e historiador autodidata Júlio José Chiavenato, autor do livro Genocídio Americano
D
A (CHIAVENATO, 1979). Nele, Chiavenato apresenta uma visão economicista radical sobre a
H guerra, relacionando-a aos interesses econômicos do Imperialismo Inglês na América do Sul,
I
S que precisava arrasar o Paraguai. O país vizinho estaria, segundo Chiavenato, aumentando sua
T
Ó produção industrial, e assim, seria um concorrente direto aos interesses bretões no Cone-sul.
R
I Como os paraguaios visavam invadir o território do Brasil, Uruguai e Argentina, não foi difícil
A
para os representantes ingleses convencerem aos líderes políticos brasileiros, uruguaios e
E
argentinos a guerrear contra o país liderado por Solano Lopes.
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I
S
T Francisco Doratioto, professor do Instituto Rio Branco, apresenta outra visão da Guerra
O
R do Paraguai. Doratioto relativiza a visão apresentada pela qual o conflito é explicado pelas ações
I
O do imperialismo inglês na América do Sul. No livro Maldita Guerra (DORATIOTO, 2012), o autor
G
R apresentou sua principal visão, que aponta as próprias rivalidades entre os países do Cone-Sul
A
F pela navegação no Rio da Prata, com uma das principais causas a explicar as constantes tenções
I
A na região platina, a qual a Guerra do Paraguai é apenas mais um sangrento e triste episódio.
UNIDADE 3 TÓPICO 3 179

Os debates acadêmicos sobre o Brasil Colonial e Imperial revelam grande profundidade


teórica e múltiplas abordagens. Abordagens estas vinculadas às novas formas de compreensão
do passado, e novos olhares demonstrados pelos historiadores, ligados a movimentos
historiográficos que analisaremos a seguir.

FIGURA 16 - JOSÉ MURILO DE CARVALHO

FONTE: Disponível em: <https://www.ufmg.br/online/arquivos/


anexos/jose-murilo.jpg>. Acesso em: 17 dez. 2015.

4 NOVA HISTÓRIA CULTURAL, GÊNERO, NOVA HISTÓRIA


SOCIAL E HISTÓRIA AMBIENTAL: OS NOVOS TEMAS DA
HISTORIOGRAFIA BRASILEIRA CONTEMPORÂNEA

T
Uma das principais transformações na historiografia brasileira, no final do século XX E
O
e início do século XXI, foi o advento de uma grande quantidade de estudos ligados a uma R
I
tendência historiográfica denominada Nova História Cultural. Esta, identificada com a História A
dos Annales Francesa, buscou pesquisar temas que anteriormente não eram objeto de estudo D
A
dos historiadores, como as sensibilidades, as mentalidades, o imaginário, a sexualidade, entre
outras temáticas ligadas às subjetividades humanas. Este tipo de história se mostrou como H
I
grande novidade, pois, até então, a maior parte do debate acadêmico era pautado em estudos S
T
de história política e econômica. Ó
R
I
A
A recepção de novas ideias e tendências historiográficas, ligados a uma abordagem
E
mais antropológica que econômica ou sociológica, teve no Brasil, como nomes principais alguns
H
historiadores, como Laura de Mello e Souza e Ronaldo Vainfas. Laura de Mello e Souza foi I
S
autora de um dos principais livros de história do Brasil Colonial, de título, O diabo na Terra de T
O
Santa Cruz (SOUZA, 1986), no qual buscou analisar a ideia de diabo presente nos relatos R
I
do Brasil no século XVI, realizando uma etnografia das tribos conforme os relatos dos padres O
G
jesuítas e demais clérigos e escritores quinhentistas. A produção de Laura de Mello e Souza R
A
no tocante às questões da Nova História Cultural foram complementadas com a produção de F
I
um contemporâneo, o historiador Ronaldo Vainfas. Professor da UFF – Universidade Federal A
180 TÓPICO 3 UNIDADE 3

Fluminense, foi autor de trabalhos importantes sobre a temática do Brasil Colonial, no qual se
destacou o artigo Moralidades brasílicas (VAINFAS, 1997), onde foram analisadas as práticas
sexuais do Brasil Colonial.

Outro autor ligado à Nova História Cultural no Brasil e que merece especial destaque é
Mary Del Priori, que trabalhou com questões ligadas às sensibilidades e mitos sociais. Alguns
de seus livros ganharam grande destaque na imprensa, ao relatar aspectos da vida cotidiana
e da intimidade de personagens famosos, como D. Pedro II. Seus principais livros são História
das mulheres no Brasil (PRIORI, 1997), História da criança no Brasil (1991), além de Histórias
íntimas: sexualidade e erotismo na História do Brasil (2011).

Outro nome entre os pioneiros na constituição de uma História Cultural no Brasil foi o
historiador Nicolau Svcenko. Autor de um clássico da historiografia brasileira, tese defendida
na universidade de São Paulo e publicada com o nome de A literatura como missão, no qual
foi analisada a produção dos escritores durante a primeira república (1889-1930). Também se
destacou como arguto analista do tempo presente ao publicar o livro No Looping da montanha
russa, em que analisa o início do século XXI.

A Nova História Cultural também se mostrou eficiente recurso metodológico para a


análise de eventos que anteriormente não eram contemplados a contento pelos historiadores,
como a História da vida privada e a História do cotidiano. A História da vida privada no Brasil
foi uma das principais novidades da historiografia brasileira dos anos 1990. Livro escrito por
vários autores e organizado por Fernando Antônio Novais e Laura de Mello e Souza (NOVAIS;
SOUZA, 1997), tinha como principal objetivo relatar as práticas sociais cotidianas das famílias
T e dos indivíduos no Brasil desde a época colonial até o presente. Hábitos novos dados pela
E
O modernidade urbana, como o rádio e a televisão, que alteraram a vida familiar brasileira no
R
I século XX, foram relatadas e analisadas, por vários historiadores. Em relação à história do
A
cotidiano, ela está presente em diversas análises de diversos eventos históricos.
D
A

H A micro-história italiana (ESPADA LIMA, 2006), cujos principais teóricos são Geonavi Levvi
I
S e Carlo Gizburg, também influenciaram os historiadores culturais. A micro-história teve como livro
T
Ó paradigmático O queijo e os vermes, de Carlo Ginzburg, que relata a história de Menóquio, um
R
I moleiro do interior italiano perseguido pela inquisição no século XVI. A metodologia desenvolvida
A
pelos italianos para analisar as fontes advindas da Santa Inquisição, fonte principal da análise de
E
Ginzburg sobre Menóquio foi amplamente utilizada pelos historiadores brasileiros que trabalham
H
I com a legislação sobre os processos que envolveram cristãos-novos (judeus forçados a se
S
T converter ao cristianismo) além de demais perseguidos pela inquisição no Brasil Colonial, cujos
O
R processos se encontram arquivados na Torre do Tombo, em Portugal. O principal autor a influenciar
I
O a reflexão historiográfica brasileira contemporânea foi o pensador francês Michel Foucault.
G
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A
F Apesar dos posicionamentos contrários dos críticos, Michel Foucault foi uma grande
I
A influência para a historiografia cultural realizada no Brasil. Foucault foi um importante intelectual
UNIDADE 3 TÓPICO 3 181

francês, oriundo do campo da filosofia, e que teve destacada participação intelectual nos debates
acadêmicos franceses. Possuiu dois grandes momentos intelectuais, a fase arqueológica,
quando trabalhou com a história das ciências e uma fase genealógica, quando trabalhou com
a gênese da formação das relações de poder. Muitos historiadores brasileiros utilizaram suas
categorias de análise desenvolvidas nos seus estudos (RAGO, 1995), como o que Foucault
denominou de corpos-dóceis e instituições de sequestro. Por corpos-dóceis, se compreende a
relação de dominação entre os portadores de um conhecimento científico, como os médicos, e os
seus pacientes, que não reagem às investidas violentas (como as cirurgias), que os profissionais
da saúde realizam nos seus corpos. Por instituições de sequestro, Foucault compreende as
prisões, os conventos, os quartéis e os presídios, nos quais grande quantidade de pessoas
era confinada em um regime disciplinar diferenciado.

A influência de Foucault pode ser medida em grande número de citações das suas obras
nas teses e dissertações defendidas nas universidades brasileiras no campo de história e das
demais ciências humanas, pois o autor trabalhou com temas caros aos historiadores culturais,
como a história da loucura, a formação de espaços de reclusão, como quartéis, e também a
história da sexualidade, caro aos pesquisadores e pesquisadoras da história das mulheres e
das relações de gênero.

Em relação à História das mulheres e das relações de gênero, temos um grande


número de pesquisas na área de História (PEDRO, 2011). Em geral, os pesquisadores e as
pesquisadoras desta área do conhecimento histórico se utilizam do artigo da historiadora norte-
americana Joan Scott, de título Gênero: categoria útil de análise histórica, como referencial
teórico. Também textos clássicos sobre a condição feminina, como O Segundo sexo, de
Simone de Beavoir, e a Mística feminina, da norte-americana Betty Friedan, são amplamente T
E
citados, assim como a História da sexualidade, de Michel Foucault. Entre as historiadoras que O
R
se destacaram nas pesquisas relativas à história das mulheres e relações de gênero no Brasil, I
A
temos a presença de Margareth Rago, da Unicamp, Mary Del Priori, da USP, além de Cristina
D
Scheibe Wolf e Joana Maria Pedro, da Universidade Federal de Santa Catarina. A

H
I
Uma das principais novidades da utilização da categoria de análise gênero é pensar S
T
que a condição social das mulheres está intimamente relacionada a masculina. Portanto, os Ó
R
estudos de gênero não envolvem apenas as questões relativas às feminilidades, como também, I
A
com a construção social das masculinidades. Neste sentido, alguns trabalhos de pesquisa
E
também pensam a construção de masculinidades. Outra e polêmica temática relacionada às
H
pesquisas de gênero versam sobre as relações sexuais não convencionais ao mundo judaico I
S
cristão ocidental, como os homossexuais masculinos e femininos, além de outras figuras sociais T
O
também vítimas de preconceito, como os travestis. R
I
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As pesquisas sistemáticas nos estudos de gênero também abordam temas relacionados R
A
às questões clássicas da história das mulheres, em sua luta por emancipação à dominação F
I
masculina. Com isto, temas como o direito das mulheres ao voto, a conquista de espaço em A
182 TÓPICO 3 UNIDADE 3

profissões anteriormente consideradas masculinas, como o oficialato das forças armadas,


o direito e a medicina, que hoje já contam com uma expressiva participação feminina, são
pesquisados em seus mais diferentes aspectos. Também, o triste problema da sistemática
violência contra a mulher, que aflige a uma grande parte da população feminina brasileira, é
constantemente pesquisado.

UNI

Uma das principais revistas sobre a temática de gênero no


Brasil é a Cadernos Pagu, da Unicamp, e a Revista Estudos
Feministas, da Universidade Federal de Santa Catarina.
Ambas possuem artigos disponíveis no sítio Scielo. Vale a
pena conferir!

As temáticas pesquisadas utilizando como chave conceitual e teórica a Nova História


Cultural, que em grande parte é influenciada pela Escola dos Annales Francesa, tem como
principal contribuição à historiografia brasileira a inovação temática de se trabalhar com temas
pouco analisados pela historiografia tradicional, dando voz a grupos de excluídos sociais, como os
perseguidos pela Santa Inquisição Portuguesa, como os cristãos-novos, até a grupos marginalizados
contemporâneos. Todavia, a Nova História Cultural sofreu duras críticas, em especial dos antigos
historiadores marxistas, com destaque para o falecido historiador Ciro Flamarion Cardoso
(CARDOSO, 1999), que criticava duramente o abandono da história econômica. Outras críticas,
porém, veladas, eram realizadas por simpatizantes do materialismo histórico e dialético, que
T
E
pontuavam a Nova História Cultural como uma “perfumaria”, e não como uma área de estudos séria
O e comprometida academicamente, porém, após o decorrer dos anos, se observa que os estudos
R
I em Nova História Cultural ganharam grande representatividade acadêmica.
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A FIGURA 17 - MARY DEL PRIORI
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A FONTE: Disponível em: <http://www.objetiva.com.br/arquivos/
F fotosAutores/Mary%20Del%20Priore.jpg>. Acesso em:
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A 17 dez. 2015.
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Além da Nova História Cultural, de orientação francesa, também estão presentes, na


universidade brasileira, pesquisas relacionadas à Nova História Social Inglesa. Em especial,
o livro A formação da classe operária inglesa, do historiador social E. P. Thompson, foi
uma influência para estes historiadores, que pesquisam temas relacionados à história dos
trabalhadores brasileiros. Alguns temas como o dos trabalhadores das cidades, novas visões
sobre as greves e motins urbanos, assim como também uma nova visão da realidade social
dos operários fabris. Um conceito importante utilizado pelos marxistas thompsonianos é o
conceito de experiência operária. Neste sentido, uma das principais contribuições desta nova
perspectiva analítica é a de tentar abordar a história nos movimentos de trabalhadores a partir
das suas vivências.

Entre os principais pesquisadores que atuam nesta temática histórica podemos citar
Cláudio Batalha, da UNICAMP, Marcelo Badaró Mattos, da Universidade Federal Fluminense,
e Edgar de Deca, da UNICAMP. A importância de Deca para os estudos relativos às questões
da História do Trabalho se deve ao fato dele ter sido o intelectual responsável por trazer as
obras de E. P. Thompson para o Brasil. Cláudio Batalha, autor do livro O movimento operário
na primeira república (BATALHA, 2000) e Marcelo Badaró Mattos, autor de O sindicalismo
brasileiro após 1930 (MATTOS, 2003), se caracterizaram por estudos relativos à história dos
trabalhadores urbanos da República Velha e do período populista. As principais questões
levantadas por estes pesquisadores são a da possibilidade mais ampla da compreensão do
papel de protagonismo dos operários na conquista de direitos sociais e políticos, algo tratado
pela historiografia oficial como uma benesse de governos populistas, como o de Getúlio Vargas.

A história dos sindicatos também foi revista pela nova historiografia social. Isto porque
tivemos uma grande gama de pesquisas que reavaliaram alguns “mitos historiográficos”. Um T
E
primeiro é a da existência de uma legislação trabalhista anterior à Consolidação das Leis do O
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Trabalho (CLT), pois, anteriormente, a historiografia que se dedicou em pesquisar a temática, I
A
desconsiderava a presença de leis existentes e que regulamentavam a relação capital/
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trabalho antes do período getulista. Outro estudo importante realizado pela Nova História A

Social foi a da presença dos brasileiros na formação dos principais sindicatos da República H
I
Velha. Anteriormente, a historiografia apontava apenas os imigrantes italianos, inspirados pelo S
T
anarquismo, como os principais articuladores das organizações sindicais. Os italianos tiveram Ó
R
participação, porém, a parcela majoritária de muitos sindicatos, eram formados por brasileiros, I
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como no caso da Estiva, o primeiro sindicato regulamentado no Brasil, em 1932.
E

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A nova história social, que em geral, se ocupou da vida de trabalhadores e seus dilemas I
S
na difícil relação entre o capital e o trabalho no Brasil dos séculos XIX e XX se apresentou T
O
como uma das principais correntes da historiografia brasileira contemporânea. Em especial, R
I
pela ousadia das análises históricas, que possuem um cuidado especial em relação às fontes, O
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buscando com elas reconstituir as lutas dos brasileiros, que através do suor do trabalho cotidiano, R
A
lutam por melhores condições de vida e auxiliam a construir um melhor país. F
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184 TÓPICO 3 UNIDADE 3

Um outro tema importante da nova historiografia brasileira é a incorporação dos estudos


de História Indígena. Em geral, os estudos da história dos primeiros habitantes do Brasil não
eram realizados por historiadores. Varnhagen teve uma infeliz frase, a de que “não existe
história indígena, apenas etnografia”. Tal perspectiva conservadora e retrógrada atrasou em
muito o desenvolvimento de uma “historiografia indígena brasileira”. Tal processo está em
formação, com um importante diálogo interdisciplinar entre antropólogos e historiadores, que
realizam uma antropologia histórica. Um marco dos estudos relativos aos indígenas foi o livro
organizado por Manuela Carneiro da Cunha, de título História dos índios do Brasil (CUNHA,
1992). Obra composta por vários autores e que analisa a presença indígena e sua relação
com o Estado desde o período colonial até o século XX, abordando questões clássicas como
a catequização do período colonial, as políticas em relação aos indígenas no Império, assim
como a afamada Missão Rondon, no período republicano.

Como já afirmado, tanto antropólogos quanto historiadores realizam pesquisas sobre


a temática indígena no Brasil. Entre os antropólogos em diálogo com a História Indígena,
podemos citar João Pacheco de Oliveira, do Museu Nacional, da Universidade Federal do
Rio de Janeiro, que pesquisa temas relativos à história dos indígenas brasileiros em múltiplas
temporalidades e espacialidades (OLIVEIRA FILHO, 1999). Entre os historiadores, foi grande
destaque o (recentemente falecido) professor da Universidade de Campinas John Manuel
Monteiro, autor de duas importantes obras historiográficas. A primeira foi Negros da terra
(MONTEIRO, 1994), que analisa a presença indígena na construção do estado de São Paulo,
na época colonial. Outra importante contribuição de John Manuel Monteiro para a História dos
Indígenas Brasileiros foi Tupis tapuias e historiadores, que apresenta uma análise sobre a
historiografia produzida sobre os indígenas brasileiros.
T
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O O Brasil ainda não possuiu um grande livro de história indígena escrita pelos próprios
R
I índios. Tal lacuna pode ser compreendida pela secular ausência de descendentes dos primeiros
A
habitantes do Brasil nos bancos universitários. Tal lacuna na historiografia brasileira deverá ser
D
A preenchida em breve futuro, em grande parte pela existência, em algumas universidades, como
H nas federais de Goiás e Santa Catarina, de uma licenciatura em História específica para indígenas.
I
S
T
Ó Uma das novidades referentes à história nacional é a preocupação com o meio ambiente,
R
I que também está presente na historiografia, com a criação de um novo campo de estudos, a
A
História Ambiental. Este tipo de produção historiográfica surgiu nos Estados Unidos nos anos
E
1970, no contexto do despertar do movimento ecologista, pois, em grande parte, a história
H
I humana é pautada pela relação do homem com o meio ambiente, nas mais variadas formas
S
T as quais as diferentes sociedades culturalmente se relacionam com a natureza.
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O No Brasil, esta área teve como seus pioneiros dois historiadores, que publicaram trabalhos
G
R entre meados dos anos 1990 e início dos anos 2000. Trata-se de Varrem Dean e José Augusto
A
F Pádua, que escreveram verdadeiros clássicos da temática ambiental no âmbito da história, sendo
I
A as principais referências para os novos estudiosos desta importante temática contemporânea.
UNIDADE 3 TÓPICO 3 185

Waren Dean foi um historiador brasilianista, isto é, um norte-americano que visitou o


Brasil em missão de estudos. Suas primeiras investidas em relação à história brasileira foram
em temáticas ligadas à história econômico-social, porém se destacou ao escrever um importante
e pioneiro livro, de título A Ferro e Fogo (DEAN, 1998), que demonstra a presença humana
na mata atlântica, e o processo de degradação constante deste importante ecossistema do
bioma da floresta tropical.

José Augusto Pádua, autor do livro Um sopro de destruição (PÁDUA, 2004), elaborou
uma história das legislações ambientais brasileiras ao longo do século XIX. Uma das importantes
contribuições de Pádua é dar historicidade às legislações ambientais, que não advieram ao
país com a Constituição de 1988, mas são existentes no Brasil desde o final do século XVIII,
quando ainda era uma colônia portuguesa.

FIGURA 18 - JOSÉ AUGUSTO PÁDUA

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FONTE: Disponível em: <www.historiaambiental.org>. Acesso em: 17 dez. R
2015. I
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A importância dos estudos em história ambiental é clara. Basta observar o atual estágio A

de poluição da maior parte das cidades em que vivem os seres humanos na maior parte dos H
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países do mundo. Outra questão importante para a compreensão da relevância da história S
T
ambiental é seu caráter interdisciplinar. Isto é, a amplitude interdisciplinar da história ambiental Ó
R
é mais ampla que os diálogos interdisciplinares tradicionais dos historiadores com as demais I
A
ciências humanas e sociais, como a sociologia, a economia e a antropologia, pois, para uma
E
melhor compreensão da relação entre os homens e as suas relações com a natureza, existe
H
uma necessidade do conhecimento de aspectos das ciências naturais e exatas, como os I
S
ofertados pela biologia e química. Assim, muitos dos antigos temas, antes abordados apenas T
O
por pesquisadores das ciências exatas, passaram a ser temas das pesquisas de historiadores. R
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186 TÓPICO 3 UNIDADE 3

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A História Ambiental se apresenta como uma das


importantes novidades para a pesquisa histórica neste
início de século XXI. Uma importante fonte de informação
sobre esta área do conhecimento histórico é disponibilizada
na página mantida na internet pela Rede Brasileira de
História Ambiental, que pode ser conferida no seguinte
sítio eletrônico: <http://www.historiaambiental.org/>.
Acesso em: 17 dez. 2015.

5 OS DEBATES SOBRE O GOLPE MILITAR DE 1964

Os principais debates acadêmicos, que extrapolaram os muros das universidades, se


referem às questões relativas aos debates sobre a compreensão dos acontecimentos que
levaram a tomada de poder pelas forças militares em 1964, e que se mantiveram no executivo
federal até 1985. Tal questão é tema constante de acalorados e polêmicos debates acadêmicos
nas universidades brasileiras.

Um primeiro debate foi considerar o movimento militar de 1964 um golpe militar ou uma
revolução? Em grande parte, no contexto da guerra-fria, a palavra Revolução era vinculada
a grupos sociais de esquerda. Porém, os grupos militares de esquerda, ligados as correntes
T
E nacionalistas do Clube Militar, foram expulsos das forças armadas brasileiras nos anos iniciais
O
R do golpe. Ao mesmo tempo, para a população, os generais ditadores apresentaram o movimento
I
A militar como uma revolução. Em grande parte, por considerar as ações do grupo de militares que
D assumiu o poder como de Direita (expressão que fazia grande sentido durante a guerra-fria),
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a maior parte da historiografia brasileira considerou o 31 de março de 1964 como um golpe.
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Entre os principais formuladores deste primeiro debate sobre a ditadura militar estão
Ó os historiadores Hélio Silva (SILVA, 1975), Renê Armand Dreiffus (DREIFFUS, 1981), Alberto
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Moniz Bandeira (MONIZ BANDEIRA, 2010), além do jornalista Élio Gáspari.

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Hélio Silva foi autor do livro 1964 Golpe ou contragolpe? Em grande parte, utilizando como
H
I fonte as notícias jornalísticas veiculadas em jornais do eixo Rio-São Paulo, Hélio possibilitou
S
T uma melhor compreensão dos eventos. Porém, os trabalhos mais revolucionários para o
O
R entendimento do golpe militar de 1964 foram os produzidos por Alberto Moniz Bandeira e Rene
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O Armand Draiffus. Alberto Moniz Bandeira escreveu o livro, O governo João Goulart e as lutas
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R sociais no Brasil, que apresentou uma análise das reformas de base do governo João Goulart.
A
F E, em especial, como determinados grupos nacionais e estrangeiros tiveram seus interesses
I
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econômicos prejudicados. Um dos exemplos máximos foi a lei de remessa de lucros. O lucro
das companhias multinacionais não poderia ser remetido às matrizes nos países do primeiro
mundo. Renê Armand Dreiffus, em a Conquista do Estado (1964), apresentou a existência de
grupos, muitos deles financiados pelo grande capital internacional, e que buscou influenciar
na política brasileira. Eram eles a CAMDE- Campanha das Mulheres pela Democracia, o IPES
– Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais, assim como também o IBAD, Instituto Brasileiro
de Ação Democrática. Estes grupos, eram ligados ao exército através da Escola Superior de
Guerra e seu líder Golbery do Couto e Silva. Grupos estes que representavam interesses
capitalistas, e que tiveram acesso ao Estado através da tomada do poder político federal pelos
militares do exército.

Entre os estudiosos do Regime Militar Brasileiro, a obra do jornalista político Élio Gáspari
teve grande destaque. Contendo fontes primárias documentais produzidas pelos generais
Golbery do Couto e Silva e Ernesto Geisel, Gáspari escreveu quatro importantes livros aos
estudiosos da temática: A ditadura envergonhada, A ditadura escancarada, A ditadura derrotada
e A ditadura encurralada. Seus livros apresentam uma análise da ditadura pelos olhos de um
grupo político de militares liberais, denominados como os da linha moderada.

Os estudos sobre a ditadura formam um importante debate acadêmico contemporâneo.


Alguns estudiosos, baseados nos estudos precedentes, realizaram novas abordagens sobre
a temática. Rodrigo de Pato Sá Motta, escreveu um importante livro Em guarda contra o
perigo vermelho (MOTTA, 2002), no qual aborda a construção do imaginário anticomunista,
fundamental para compreender o golpe. Outros autores que se destacaram são aqueles que
estão travando um debate sobre o caráter do golpe: um golpe militar ou um golpe civil militar?
T
E
Para autores como Daniel Araão Reis (REIS, 2000), tratou-se de um golpe civil militar. O
R
Isto porque grande parte dos políticos civis e dos empresários nele se envolveram, tanto na I
A
conspiração, quanto na legitimação do golpe. Também podemos incluir o fato do presidente
D
da Câmara Federal, deputado Ranieri Mazilli, afirmar a vacância da Presidência da República, A

o que legitimou a ação militar realizada no Rio de Janeiro por Olímpio Mourão Filho. Por sua H
I
vez, outros historiadores, como o já citado Rodrigo Patto Sá Motta, discordam, apresentando o S
T
golpe como um movimento tipicamente militar. Por fim, outros historiadores apresentam novas Ó
R
proposições analíticas, como o professor da UFRJ Renato Lemos, que apresenta o golpe como I
A
um golpe empresarial militar. Pois, a principal camada da população civil a apoiar o golpe foram
E
as organizações empresariais. Ainda sobre o tema da ditadura, temos o importante estudo
H
do também historiador da UFRJ Carlos Fico (FICO, 2008) sobre a Operação Brother San, da I
S
Marinha Americana, que ofertaria apoio militar caso o presidente João Goulart buscasse reagir T
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ao golpe impetrado por setores do exército. R
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FIGURA 19 - RODRIGO PATTO SÁ MOTTA FIGURA 20 - DANIEL ARAÃO REIS

FONTE: Disponível em: <www.ufmg.br>. FONTE: Disponível em: <http://www.


Acesso em: 17 dez. 2015. zahar.com.br/>. Acesso em:
17 dez. 2015.

Os debates sobre a ditadura militar ainda estão acalorados, pois as repercussões


políticas dos eventos que ocorreram há cinquenta anos ainda reverberam nas disputas
políticas contemporâneas. Uma questão a que todo o estudante de História deve estar em
perene contato, pois diz muito sobre a nossa área de atuação. Ao mesmo tempo, é importante
o professor de História compreender que não é tarefa do professor de história proselitismos
políticos, ao mesmo tempo em que se deve defender valores importantes, como a necessidade
da ampliação da ainda abstrata noção de democracia no Brasil.

Obter uma noção sobre os debates acadêmicos, de historiadores sérios, sobre a Ditadura
Militar permite ao professor de história um aprofundamento no conhecimento sobre a questão, ao
mesmo tempo em que se evita posicionamentos radicais. Um ponto importante de ser lembrado
é que muitos dos principais historiadores brasileiros foram perseguidos politicamente durante
T
E a ditadura militar. Nelson Werneck Sodré, mesmo sendo general de brigada, foi preso, tendo
O
R de responder a inquérito policial militar. O mesmo aconteceu com Caio Prado Júnior, preso
I
A por motivos políticos. Algumas das principais universidades brasileiras foram invadidas por
D tropas militares, como ocorreu na Universidade de Brasília em 1968. Devido à ação violenta
A
da Ditadura Militar para com as universidades, muitos dos historiadores possuem uma visão
H
I extremamente negativa do período. Todavia, os revisionistas aqui citados possibilitam pensar
S
T a ditadura para além das visões coorporativas da universidade, e tendo uma visão positiva das
Ó
R instituições militares. O que pode significar um auxílio da historiografia para o estabelecimento
I
A da democracia no Brasil contemporâneo.
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I LEITURA COMPLEMENTAR
S
T Como leitura complementar, indicamos a entrevista concedida pelo historiador Francisco José
O
R Calazans Falcon à Revista de História da Biblioteca Nacional. 17/9/2007.
I
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R A trajetória de Francisco José Calazans Falcon confunde-se com o estabelecimento do ofício
A
F de historiador nas universidades do país. Presente nos cursos mais importantes, parecia ter a
I
A capacidade de estar em todos os lugares ao mesmo tempo, dando muita aula e integrando-se
UNIDADE 3 TÓPICO 3 189

àqueles que criaram as linhas de pesquisa. Seu livro A época pombalina é leitura obrigatória
para quem se propõe a estudar o governo do marquês de Pombal (1750-77), tornando-se
referência central não só pela qualidade da análise, mas também pela abrangência das fontes
utilizadas. O tempo afinou seu senso crítico. Nada passa despercebido ao mestre, nem mesmo
sua própria tese: “Quando fui começar a estudar, Pombal era para mim um momento único
excepcional da história portuguesa; um momento de visão modernizadora, secularizante.
Depois que continuei a estudar, comecei a relativizar esse caráter excepcional, porque percebi
que existem muitas coisas já antes de Pombal”. O professor Falcon recebeu a Revista de
História em sua casa para um bate-papo descontraído cheio de revelações: os primeiros anos
de carreira, “uma correria danada, atravessando a baía e subindo a serra”; a difícil missão
de lecionar história driblando os agentes da ditadura militar e o processo do qual foi réu nos
anos de chumbo, acusado “de espalhar comunistas pelas faculdades do Rio”. Sobre o papel
da crítica para o trabalho do historiador, é contundente: “Acredito que o trabalho intelectual,
o trabalho do historiador, avança justamente pelo confronto das divergências, das oposições.
Uma unanimidade acaba sendo ilusória”.

Revista de História – Como nasceu sua paixão pela história?

Francisco Falcon – Isso remonta aos meus tempos de ginásio, no internato do Colégio Pedro
II. O que mais me incentivou foi na quarta série, quando meu professor era o Álvaro Lins,
grande crítico de literatura, mas excelente professor de história. Ele me estimulou muito. Um
dia eu fui fazer uma exposição sobre a conquista da Guiana Francesa, na época do d. João.
Ele achou uma maravilha! Aí comecei a me interessar... terminado o quarto ano, fui para o
Colégio de Aplicação da Nacional de Filosofia, recém-fundado. Minha turma foi a segunda,
em 1949. E lá tive como professora de história, por três anos seguidos, a Marina São Paulo T
E
Vasconcellos, que realmente me incentivou muito, despertou meu interesse. Acho que aí eu O
R
comecei a gostar mesmo de estudar história... eu e vários da mesma turma fomos fazer curso I
A
de história na Nacional de Filosofia.
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RH – Era uma época muito marcada por essas opções quase obrigatórias – direito, engenharia... H
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Era um gesto corajoso fazer história? S
T
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FF – Ah, era. Meu pai achou que eu ia morrer de fome e era preferível eu fazer jornalismo. Mas I
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eu teimei, com apoio de minha mãe. Mas a gente vivia realmente muito preocupado. Lembro
E
que, no final do curso, ainda tivemos um movimento grande justamente contra uma portaria
H
ministerial que facultava a médicos, advogados, juízes, engenheiros (cada qual na sua área) I
S
a lecionar sem cursar a faculdade de filosofia: direito podia lecionar história, português, latim; T
O
médico podia lecionar história natural, ciências; engenheiro podia lecionar matemática, física. R
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Foi uma greve fantástica, se não me engano em 55. O
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RH – E sua trajetória como professor? F
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190 TÓPICO 3 UNIDADE 3

FF – Comecei a lecionar quando ainda fazia o último ano da faculdade, em 1955, dando aulas
na Faculdade Fluminense de Filosofia – Universidade Federal Fluminense (UFF) nem sonhava
existir. Em 1956, fui convidado pela professora Maria Yedda Linhares a dar aulas na Faculdade
Nacional de Filosofia. Eu era o que se chamava “auxiliar de ensino não-remunerado”. Mas
eu não era exceção, aquilo era uma praxe: os que começavam a trabalhar tinham que ficar
algum tempo – alguns anos, às vezes – trabalhando sem remuneração, à espera de que viesse
um contrato, uma nomeação, um concurso – que eram coisa rara. Em seguida, comecei a
lecionar também na Católica de Petrópolis, no Instituto Rio Branco, no Itamaraty e na Escola
de Sociologia e Política da PUC. Uma correria danada, atravessando a baía e subindo a serra.

RH – E como era o ensino de história nessa época?

FF – É um meio século em que as coisas mudaram radicalmente. O doutorado, por exemplo,


não existia. Não era mais que uma inscrição que você podia fazer na secretaria. Eu tenho
guardado um canhotozinho, “inscrito do curso de doutorado”. Que curso? Não tinha curso, nada.

RH – Quando isso mudou?

FF – A discussão sobre pós-graduação é dos anos 60, ligada à Reforma Universitária, aos
movimentos estudantis. O envolvimento dos docentes tinha um sentido, mas sofreu uma
inflexão após 64, quando se transformou em uma forma de contestar o regime militar e por
isso se tornou alvo da repressão. Então, misturou-se a luta política mais geral com a luta pelas
reformas na universidade. Nisso, o governo militar solicitou ao Conselho Federal de Educação
um parecer do Newton Sucupira, o qual ainda hoje, em grande parte, rege essa estrutura.
T Veio o AI-5 e o governo aproveitou isso e fez a nova lei do ensino superior, que consagrou a
E
O Reforma Universitária.
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I
A
RH – Havia espaço para pesquisa?
D
A

H FF – A gente nem pensava em pesquisa. O que eu acho graça é que as pessoas pensam que
I
S as coisas sempre existiram tal como existem hoje. A gente começou, realmente, a pensar em
T
Ó pesquisa talvez em 1959 ou 1960 – eu, a professora Yedda –, a partir dos nossos primeiros
R
I contatos, em 1958, com o pessoal da Universidade de São Paulo, onde a preocupação com a
A
pesquisa estava sedimentada. E os alunos de história começaram a se movimentar, criaram
E
seus núcleos de estudantes.
H
I
S
T RH – Mas havia, nessa época, contato entre as universidades, entre os departamentos?
O
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I
O FF – Os contatos eram muito escassos. Até que em 1960 apareceu um grupo – José Roberto
G
R do Amaral Lapa, Maria da Conceição Vicente de Carvalho e Olga Pantaleão. Vieram nos
A
F convidar – eu, a Yedda, o Hugo Weiss e, por sugestão nossa, o professor Fernando Lima, da
I
A UERJ – para participar de um seminário previsto para 1961, em Marília, onde iriam participar
UNIDADE 3 TÓPICO 3 191

os professores Fernando Novais, Eduardo de Oliveira França, Sérgio Buarque e ainda muitos
outros. Esse seminário tinha um objetivo: produzir um currículo de história.

RH – E qual foi a direção tomada a partir de então?

FF – Começamos a ficar convencidos de que tínhamos que fazer duas coisas: pesquisar e
redirecionar o nosso curso para alguma coisa mais atual.

RH – E como isso foi feito na prática?

FF – Bem, ao contrário das outras cadeiras, a gente já trabalhava com documentos – embora
limitados à história, vamos chamar assim, diplomática. Nossa primeira ideia era fazer uma
pesquisa sobre o que chamamos o Atlântico Luso-Afro-Brasileiro. Era um estudo sobre relações
comerciais entre esses três pontos, e cada um de nós pegaria um porto brasileiro. Existia um
Conselho de Pesquisa para distribuir recursos para projetos de pesquisa. Um dia eu encontrei
a professora Yedda furiosa da vida, porque ela tinha sido informada de que, quando o nosso
projeto foi apreciado nesse conselho da universidade, um professor se levantou e disse: “Bem,
mas onde está a embarcação, possivelmente um submarino, para eles fazerem essa pesquisa
do Atlântico?” [Risos] Para você ver o nível!

RH – E como ficou o ambiente das universidades com o Golpe de 1964?

FF – No 1º de abril houve uma invasão na Faculdade Nacional de Filosofia. Nós tínhamos uma
pequena biblioteca de história moderna e contemporânea que foi toda saqueada, depredada.
Era um momento pesado. Nesse mesmo ano a Yedda sumiu, porque foi perseguida por ser T
E
diretora da Rádio Ministério da Educação. Ficamos eu e o Hugo Weiss com a responsabilidade O
R
de levar adiante a cadeira de história moderna e contemporânea. Foi tenso o dia em que I
A
tivemos que entrar na faculdade: “Será que eles estão à nossa espera? Será que vão acabar
D
conosco? ”. Mas depois a gente foi levando, reorganizando as coisas, tocando para a frente. A

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RH – O clima piora muito com o AI-5? S
T
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FF – Foi um período difícil, os chamados anos de chumbo. O Eremildo Viana vigiava todo I
A
mundo, tinha auxiliares – faxineiros, varredores, todo mundo prestava serviço a ele. Eu dava
E
as aulas do modo que sempre dera, com os mesmos autores. Usava muito o Maurice Dobb
H
para dar Revolução Industrial; o Albert Soboul nas aulas sobre a Revolução Francesa. Nunca I
S
mudei nada em função do clima existente, mas tinha um indivíduo estranho, encostado em T
O
uma vassoura, que diziam ser um agente do Eremildo para saber o que eu estava dando. R
I
Não sei se um pobre-diabo daqueles podia entender alguma coisa. Nesse período – de 70 O
G
até 78, quando finalmente o Eremildo saiu –, o que eu fiz foi, na medida do possível, reduzir R
A
ao mínimo a minha presença lá. Tirei tudo que podia de licença-prêmio e dois anos de licença F
I
sem vencimentos. Tratava de driblar o que eu podia, entrar lá, botar as aulas em horário em A
192 TÓPICO 3 UNIDADE 3

que eu tivesse chance de não encontrar com ele, e assistir o mínimo possível de reunião de
departamento. E ficar mudo.

RH – Que grupo o apoiava?

FF – Ele se dizia muito bem apoiado pelos militares. Mas o José Linhares, que tinha bons
contatos na área militar, dizia que eles detestavam o Eremildo. Aturavam, mas o consideravam
um sacripanta, um indivíduo realmente inqualificável. A Yedda conta que num belo dia, na
entrada da faculdade, o Elio Gaspari deu umas boas bolachas no Eremildo. Chamou ele e,
bum!, arrebentou. Me lembro de um dia, a única vez em que eu tremi. Subi no elevador, a
Yedda estava possessa porque o Eremildo tinha arquitetado um processo contra ela. Ela abriu
a bolsa e puxou uma pistola. “Eu vou acabar com aquele crápula!” E eu: “Yedda, não faça isso.
Não vale a pena. Guarda esse negócio. ” E ela com aquele trabuco.

RH – E o senhor nunca sofreu diretamente com a repressão?

FF – Chegaram a abrir um processo no meu nome, do qual só fui saber depois, e que fazia
parte de uma pilha imensa de processos de professores que deveriam ser cassados – no
mínimo, aposentados. Meu processo foi arquivado, mas em 1973 eles receberam ordem de
rever aqueles processos para poder saber se iam ter sequência ou seriam definitivamente
arquivados. Foi aí que eu entrei na brincadeira e fui me defender na justiça. O processo dizia
que eu, sob a orientação da Yedda, estava espalhando comunistas pelas faculdades do Rio.

RH – E como nasceu o interesse pelo tema da ilustração portuguesa?


T
E
O FF – Comecei a pesquisar companhias de comércio, e daí o mercantilismo. Em seguida, passei
R
I para o absolutismo ilustrado, em Portugal e Espanha, me dedicando especialmente ao período
A
pombalino. Porque, na verdade, meu ambicioso projeto de doutorado era fazer um imenso
D
A estudo comparativo entre o reinado de d. José e o reinado de Carlos III na Espanha, mas vi
H que não dava, por causa do prazo para a entrega da tese.
I
S
T
Ó RH – E o que é específico dessa história portuguesa que produz um Marquês de Pombal?
R
I
A
FF – Eu já tive, em épocas diferentes, visões também diferentes sobre isso. Quando comecei a
E
estudar, Pombal era para mim um momento excepcional da história portuguesa; um momento
H
I de visão modernizadora. Depois, vi que devia relativizar esse caráter excepcional, pois percebi
S
T que já existiam muitas coisas antes de Pombal. Eu já tinha estudado muito sobre o início
O
R do século XVIII, a época do padre Rafael Bluteau, dos Ericeiras. Mas o que é interessante
I
O perceber são as ideias iluministas depois de Pombal, assumindo outras características. Eu
G
R tentei mostrar como o mercantilismo era incongruente e, no entanto, era lógica a associação
A
F entre mercantilismo e práticas ilustradas. Porque, na verdade, o mercantilismo – em termos
I
A de ideias econômicas – era anti-ilustrado por excelência. Mas é interessante ver como isso se
UNIDADE 3 TÓPICO 3 193

articula, em Portugal, de modo a adquirir uma certa logicidade na prática pombalina.

RH – E qual a importância das reformas pombalinas para a história de Portugal e do Brasil?

FF – Acho que as práticas reformistas foram decisivas em alguns setores e praticamente


inexistentes em outros. Do ponto de vista educacional, houve muita coisa importante que se
realizou. Na parte econômica não há grandes mudanças. No caso do Brasil, havia grande
preocupação com a extração de ouro e diamantes do Distrito Diamantino. Esse foi um problema
sério: uma minúcia dos regulamentos que não condizia com a precariedade dos recursos postos
à disposição de quem devia aplicá-los. Então, para mim, as reformas pombalinas não podem
ser analisadas a partir dos textos emanados da metrópole. Você tem que ver como esses
documentos foram lidos, entendidos e, eventualmente, postos em prática. Procurei mostrar que
uma coisa são as belas declarações dos textos pombalinos, cheias de referências às Luzes,
e outra a realidade dessas providências no âmbito colonial, ou, como chamamos agora, na
América portuguesa. Recentemente, escrevi um artigo desmistificando o Tratado de Methuen
[“O Império luso-brasileiro e a questão da dependência inglesa”, Nova Economia 15 (2), p.
11-34, maio-agosto de 2005].

RH – Por quê? O Tratado de Methuen não teve tanto peso?

FF – Acho que não tem. Na própria visão do Pombal, o Tratado de Methuen é quase irrelevante.
Ele está muito mais preocupado com os tratados do século XVII, aqueles, sim, fatais para
Portugal, durante as Guerras da Restauração. Aqueles tratados – acho que de 1654 e 1660 – é
que, segundo ele, deram a vantagem decisiva aos ingleses. Na verdade, colocar o Tratado de
Methuen na origem de todos os males é uma afirmação que aprendi com o Nelson Werneck T
E
Sodré. Tudo bem, depois a gente vai revendo essas coisas. Há um excesso de valoração O
R
atribuído ao Tratado de Methuen. I
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RH – O Brasil herdou o peso da palavra escrita, da legislação? A

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FF – Acho que sim. Embora também tenha se tornado um tabu, as pessoas falam em iberismo, S
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mas a gente não sabe bem que diabo é isso. Explicação das nossas culpas, das nossas falhas Ó
R
ou reconhecimento de uma tradição? De fato, o Brasil herdou essa tradição pesada – que você I
A
vê também em Portugal – da valorização das funções burocráticas. Acredito que, quando você
E
fala hoje em iberismo, é preciso saber em que sentido está tratando. Para alguns iberismo
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tem uma conotação negativa – síntese de todos os males, de todo arcaísmo –, para outros é I
S
apenas o reconhecimento de uma tradição cultural, que não é necessariamente má ou boa, T
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mas tem aspectos variáveis. É apenas o reconhecimento de uma diferença em relação, por R
I
exemplo, ao anglo-saxônico e a outras tradições. O
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RH – E esse iberismo encontra continuidade no Brasil? F
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194 TÓPICO 3 UNIDADE 3

FF – Acho que de um lado há uma herança autoritária, ora no primeiro plano, ora semissubmersa.
Basta ver a época do reinado do d. Pedro I para perceber como essa coisa está presente. Já
na época do d. Pedro II... Eu não me considero tão em condições de discutir essa questão,
mas acho que ela sobrevive de outras maneiras. Não de forma tão ostensiva. De fato, essa
visão iluminista das coisas, de ser detentor de um conhecimento, de uma racionalidade que
não pode ser contestada, isso é mais ou menos constante. É cíclico na história brasileira.
Mas, dizer se isso aí é devido ao Pombal, às vezes é exagerado também. Mas acho que está
dentro da estrutura.

RH – A figura do Pombal ficaria mais diluída?

FF – Ah, sim. Ele, de fato, não é aquele deus que surge, que faz e acontece. Ele tem uma
trajetória, não surge assim de repente empolgando, determinando. É preciso considerar a
importância, por exemplo, que teve para a posição dele o terremoto de Lisboa. Seria uma
especulação: como seria Pombal sem o terremoto? Isso é uma das tais histórias hipotéticas.
Mas acho que é preciso ver sob vários ângulos, e não atribuir tudo a essa figura, a esse Pombal
que só existe na imaginação.

RH - O que interessa ao senhor atualmente?

FF – Estou mais preocupado com a historiografia contemporânea. Eu gosto de ler as coisas


do Capistrano de Abreu, considerando, sobretudo, os endeusamentos, as louvações do José
Honório Rodrigues – tentando trazer a importância do Capistrano para um terreno mais real,
mais concreto.
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O RH – A história hoje vai bem?
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FF – O historiador espanhol Carlos Barros, que organiza os encontros da História Debate, na
D
A Espanha, diz que a história andou para trás. Eu morro de rir. A história deu retrocesso e hoje
H está mais para Ranke, para Langlois e Seignobos do que para os Annales ou para o marxismo.
I
S Eu acho interessantíssimo. Ele diz que o processo da história foi o inverso: ela foi buscar cada
T
Ó vez mais o empirismo, a neutralidade do historiador, o medo de o historiador tomar posição.
R
I Apenas dizer: “Os textos nos dizem isso, assim”.
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RH – E a postura crítica na universidade?
H
I
S
T FF – A crítica seria importante, se existisse. O problema é que a crítica sofreu um eclipse. As
O
R pessoas, ou dizem apenas banalidades, obviedades sobre os trabalhos apresentados, ou
I
O elogios. Ninguém quer mais se comprometer, ou poucos querem. Você assiste às defesas
G
R de tese e raramente vê uma crítica contundente ou mesmo construtiva ao trabalho que está
A
F sendo examinado. E eu acredito que o trabalho intelectual, o trabalho do historiador, avança
I
A justamente pelo confronto das divergências, das oposições. A unanimidade acaba sendo ilusória.
UNIDADE 3 TÓPICO 3 195

RH – Que personagem histórico gostaria de ter sido?

FF – Nas minhas fases mais radicais, eu adorava Robespierre. Depois, fui me contentando
com Tocqueville ou, quem sabe – eu gostava muito de história inglesa –, o Gladstone. Mas,
na verdade, nunca me fixei em um personagem. Em épocas diferentes, foram diferentes
modelos. Gostava muito de Trótski. De todos da Revolução, o que eu achava o mais genial, o
mais sofrido também, era Trótski. Mas, em história do Brasil, não sei qual seria a figura ideal.
Durante muito tempo quiseram me convencer de que era o Rui Barbosa. Mas isso era o meu
ramo de origem baiana – minha mãe era baiana, e eu tinha um tio que, quando eu chegava
lá, dizia: “Homem era o Rui!”

FONTE: Disponível em: <http://www.revistadehistoria.com.br/secao/entrevista/francisco-jose-


calazans-falcon>. Acesso em: 11 dez. 2015.

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RESUMO DO TÓPICO 3

Neste tópico podemos observar que:

• As transformações sociais globais com o fim da guerra-fria estabeleceram novos paradigmas


teóricos aos historiadores brasileiros, não mais vinculados ao marxismo ortodoxo.

• Os principais debates em História do Brasil Colonial se referem à História Atlântica, no qual


se destacaram os estudos de Luis Felipe de Alencastro.

• Os principais debates em relação ao Brasil Império se relacionam aos estudos de dois


importantes historiadores: José Murilo de Carvalho e Sidney Chalhoub.

• Os principais debates sobre a Guerra do Paraguai expuseram dois historiadores com posições
distintas. Júlio José Chiavenato, que apontava a presença do Imperialismo Inglês como
principal motivador para a guerra, e Francisco Doratioto, que apresenta as disputas políticas
dos países platinos como principal motivador para a Guerra do Paraguai ter ocorrido.

• Entre as novas tendências historiográficas, podemos citar: a nova história cultural, a história
das mulheres e relações de gênero, a nova história social, a história indígena e a nova história
T ambiental.
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I • Um dos mais polêmicos debates acadêmicos atuais versa sobre os significados da ditadura
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militar brasileira. Muitos intelectuais foram perseguidos pela ditadura militar, porém os
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A historiadores buscam realizar uma reflexão não coorporativa do golpe de Estado, intentando
H compreender o mecanismo social e político que o possibilitaram.
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IDADE
ATIV
AUTO

As características da historiografia brasileira variaram conforme os séculos.


De uma história que no século XIX enaltecia as posturas políticas e sociais do Estado
Nacional, passando pelos anos 1930, com o surgimento de ensaístas da realidade social
do Brasil, chegando até a atualidade. Neste sentido, responda à seguinte indagação:
por que podemos afirmar que a historiografia brasileira nas últimas três décadas se
caracteriza pela multiplicidade?

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IAÇÃO
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Prezado(a) acadêmico(a), agora que chegamos ao final


da Unidade 3, você deverá fazer a Avaliação referente a esta
unidade.

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