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Antologia Romantismo

POEMAS DE GONÇALVES DIAS Que não encontro por cá; Seus olhos tão negros, tão belos, tão puros,
Sem qu'inda aviste as palmeiras, Assim é que são;
Canção do exílio Onde canta o Sabiá. Às vezes luzindo, serenos, tranquilos,
Às vezes vulcão!
Minha terra tem palmeiras, Seus Olhos
Onde canta o Sabiá; Seus olhos tão negros, tão belos, tão puros, Às vezes, oh! sim, derramam tão fraco,
As aves, que aqui gorjeiam, De vivo luzir, Tão frouxo brilhar,
Não gorjeiam como lá. Estrelas incertas, que as águas dormentes Que a mim me parece que o ar lhes falece,
Do mar vão ferir; E os olhos tão meigos, que o pranto
Nosso céu tem mais estrelas, humedece
Nossas várzeas têm mais flores, Seus olhos tão negros, tão belos, tão puros, Me fazem chorar.
Nossos bosques têm mais vida, Têm meiga expressão,
Nossa vida mais amores. Mais doce que a brisa, — mais doce que o Assim lindo infante, que dorme tranquilo,
nauta Desperta a chorar;
Em cismar, sozinho, à noite, De noite cantando, — mais doce que a frauta E mudo e sisudo, cismando mil coisas,
Mais prazer eu encontro lá; Quebrando a solidão, Não pensa — a pensar.
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá. Seus olhos tão negros, tão belos, tão puros, Nas almas tão puras da virgem, do infante,
De vivo luzir, Às vezes do céu
Minha terra tem primores, São meigos infantes, gentis, engraçados Cai doce harmonia duma Harpa celeste,
Que tais não encontro eu cá; Brincando a sorrir. Um vago desejo; e a mente se veste
Em cismar –sozinho, à noite– De pranto co'um véu.
Mais prazer eu encontro lá; São meigos infantes, brincando, saltando
Minha terra tem palmeiras, Em jogo infantil, Quer sejam saudades, quer sejam desejos
Onde canta o Sabiá. Inquietos, travessos; — causando tormento, Da pátria melhor;
Com beijos nos pagam a dor de um Eu amo seus olhos que choram em causa
Não permita Deus que eu morra, momento, Um pranto sem dor.
Sem que eu volte para lá; Com modo gentil.
Sem que desfrute os primores Eu amo seus olhos tão negros, tão puros,

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De vivo fulgor; Que alheios males não sente, Nenhuma voz me diriges!...
Seus olhos que exprimem tão doce Nem se condói do infeliz! Julgas-te acaso ofendida?
harmonia, III Deste-me amor, e a vida
Que falam de amores com tanta poesia, Louco, aflito, a saciar-me Que me darias - bem sei;
Com tanto pudor. D'agravar minha ferida, Mas lembrem-te aqueles feros
Tomou-me tédio da vida, Corações, que se meteram
Seus olhos tão negros, tão belos, tão puros, Passos da morte senti; Entre nós; e se venceram,
Assim é que são; Mas quase no passo extremo, Mal sabes quanto lutei!
Eu amo esses olhos que falam de amores No último arcar da esperança, VII
Com tanta paixão. Tu me vieste à lembrança: Oh! se lutei!... mas devera
Quis viver mais e vivi! Expor-te em pública praça,
IV Como um alvo à populaça,
Ainda Uma Vez Adeus Vivi; pois Deus me guardava Um alvo aos dictérios seus!
Para este lugar e hora! Devera, podia acaso
I Depois de tanto, senhora, Tal sacrifício aceitar-te
Enfim te vejo! - enfim posso, Ver-te e falar-te outra vez; Para no cabo pagar-te,
Curvado a teus pés, dizer-te, Rever-me em teu rosto amigo, Meus dias unindo aos teus?
Que não cessei de querer-te, Pensar em quanto hei perdido, VIII
Pesar de quanto sofri. E este pranto dolorido Devera, sim; mas pensava,
Muito penei! Cruas ânsias, Deixar correr a teus pés. Que de mim t'esquecerias,
Dos teus olhos afastado, V Que, sem mim, alegres dias
Houveram-me acabrunhado Mas que tens? Não me conheces? T'esperavam; e em favor
A não lembrar-me de ti! De mim afastas teu rosto? De minhas preces, contava
II Pois tanto pôde o desgosto Que o bom Deus me aceitaria
Dum mundo a outro impelido, Transformar o rosto meu? O meu quinhão de alegria
Derramei os meus lamentos Sei a aflição quanto pode, Pelo teu, quinhão de dor!
Nas surdas asas dos ventos, Sei quanto ela desfigura, IX
Do mar na crespa cerviz! E eu não vivi na ventura... Que me enganei, ora o vejo;
Baldão, ludíbrio da sorte Olha-me bem, que sou eu! Nadam-te os olhos em pranto,
Em terra estranha, entre gente, VI Arfa-te o peito, e no entanto

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Nem me podes encarar; Mártir quis ser, cuidei qu'era... Dói-te de mim, que t'imploro
Erro foi, mas não foi crime, E um louco fui, nada mais! Perdão, a teus pés curvado;
Não te esqueci, eu to juro: XIII Perdão!... de não ter ousado
Sacrifiquei meu futuro, Louco, julguei adornar-me Viver contente e feliz!
Vida e glória por te amar! Com palmas d'alta virtude! Perdão da minha miséria,
X Que tinha eu bronco e rude Da dor que me rala o peito,
Tudo, tudo; e na miséria C'o que se chama ideal? E se do mal que te hei feito,
Dum martírio prolongado, O meu eras tu, não outro; Também do mal que me fiz!
Lento, cruel, disfarçado, Stava em deixar minha vida XVII
Que eu nem a ti confiei; Correr por ti conduzida, Adeus qu'eu parto, senhora;
"Ela é feliz (me dizia) Pura, na ausência do mal. Negou-me o fado inimigo
"Seu descanso é obra minha." XIV Passar a vida contigo,
Negou-me a sorte mesquinha... Pensar eu que o teu destino Ter sepultura entre os meus;
Perdoa, que me enganei! Ligado ao meu, outro fora, Negou-me nesta hora extrema,
XI Pensar que te vejo agora, Por extrema despedida,
Tantos encantos me tinham, Por culpa minha, infeliz; Ouvir-te a voz comovida
Tanta ilusão me afagava Pensar que a tua ventura Soluçar um breve Adeus!
De noite, quando acordava, Deus ab eterno a fizera, XVIII
De dia em sonhos talvez! No meu caminho a pusera... Lerás porém algum dia
Tudo isso agora onde pára? E eu! eu fui que a não quis! Meus versos d'alma arrancados,
Onde a ilusão dos meus sonhos? XV D'amargo pranto banhados,
Tantos projetos risonhos, És doutro agora, e pr'a sempre! Com sangue escritos; - e então
Tudo esse engano desfez! Eu a mísero desterro Confio que te comovas,
XII Volto, chorando o meu erro, Que a minha dor te apiade
Enganei-me!... - Horrendo caos Quase descrendo dos céus! Que chores, não de saudade,
Nessas palavras se encerra, Dói-te de mim, pois me encontras Nem de amor, - de compaixão.
Quando do engano, quem erra. Em tanta miséria posto,
Não pode voltar atrás! Que a expressão deste desgosto
Amarga irrisão! reflete: Será um crime ante Deus!
Quando eu gozar-te pudera, XVI

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Se Eu Morresse Amanhã Como um olhar que a morte envolve em
Álvares de Azevedo luto. Só tu à mocidade sonhadora
Que me resta, meu Deus? Do pálido poeta deste flores.
Se eu morresse amanhã, viria ao menos Morra comigo Se viveu, foi por ti! e de esperança
Fechar meus olhos minha triste irmã, A estrela de meus cândidos amores, De na vida gozar de teus amores.
Minha mãe de saudades morreria Já não vejo no meu peito morto
Se eu morresse amanhã! Um punhado sequer de murchas flores! Beijarei a verdade santa e nua,
Quanta glória pressinto em meu futuro! Verei cristalizar-se o sonho amigo.
Que aurora de porvir e que manhã! Ó minha virgem dos errantes sonhos,
Eu perdera chorando essas coroas LEMBRANÇAS DE MORRER Filha do céu, eu vou amar contigo!
Se eu morresse amanhã!
Que sol! que céu azul! que doce n’alva Eu deixo a vida como deixa o tédio Descansem o meu leito solitário
Acorda ti natureza mais louçã! Do deserto, o poento caminheiro, Na floresta dos homens esquecida,
Não me batera tanto amor no peito - Como as horas de um longo pesadelo À sombra de uma cruz, e escrevam nela:
Se eu morresse amanhã! Que se desfaz ao dobre de um sineiro; Foi poeta - sonhou - e amou na vida.
Mas essa dor da vida que devora Álvares de Azevedo
A ânsia de glória, o dolorido afã... Como o desterro de minh’alma errante,
A dor no peito emudecera ao menos Onde fogo insensato a consumia: MEU SONHO
Se eu morresse amanhã! Só levo uma saudade - é desses tempos
Que amorosa ilusão embelecia. EU
Adeus, Meus Sonhos! Cavaleiro das armas escuras,
Álvares de Azevedo Só levo uma saudade - é dessas sombras Onde vais pelas trevas impuras
Que eu sentia velar nas noites minhas. Com a espada sanguenta na mão?
Adeus, meus sonhos, eu pranteio e morro! De ti, ó minha mãe, pobre coitada, Por que brilham teus olhos ardentes
Não levo da existência uma saudade! Que por minha tristeza te definhas! E gemidos nos lábios frementes
E tanta vida que meu peito enchia Vertem fogo do teu coração?
Morreu na minha triste mocidade! Se uma lágrima as pálpebras me inunda,
Misérrimo! Votei meus pobres dias Se um suspiro nos seios treme ainda, Cavaleiro, quem és? — O remorso?
À sina doida de um amor sem fruto, É pela virgem que sonhei. que nunca Do corcel te debruças no dorso...
E minh´alma na treva agora dorme Aos lábios me encostou a face linda! E galopas do vale através...

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Oh! da estrada acordando as poeiras [...] E amamos juntos... E depois
Não escutas gritar as caveiras na sala
E morder-te o fantasma nos pés? Cristo! embalde morreste sobre um monte "Adeus" eu disse-lhe
Teu sangue não lavou de minha fronte a tremer co'a fala...
Onde vais pelas trevas impuras, A mancha original.
Cavaleiro das armas escuras, Ainda hoje são, por fado adverso, E ela, corando, murmurou-me: "adeus."
Macilento qual morto na tumba?... Meus filhos - alimária do universo,
Tu escutas... Na longa montanha Eu - pasto universal... Uma noite... entreabriu-se um reposteiro...
Um tropel teu galope acompanha? E da alcova saía um cavaleiro
E um clamor de vingança retumba? Hoje em meu sangue a América se nutre Inda beijando uma mulher sem véus...
Condor que transformara-se em abutre, Era eu... Era a pálida Teresa!
Cavaleiro, quem és? que mistério... Ave da escravidão, "Adeus" lhe disse conservando-a presa...
Quem te força da morte no império Ela juntou-se às mais... irmã traidora
Pela noite assombrada a vagar? Qual de José os vis irmãos outrora E ela entre beijos murmurou-me: "adeus!"
Venderam seu irmão.
O FANTASMA Passaram tempos... sec'los de delírio
Sou o sonho de tua esperança, Basta, Senhor! De teu potente braço Prazeres divinais... gozos do Empíreo...
Tua febre que nunca descansa, Role através dos astros e do espaço ... Mas um dia volvi aos lares meus.
O delírio que te há de matar!... Perdão p'ra os crimes meus! Partindo eu disse — "Voltarei!... descansa!...
Álvares de Azevedo Há dois mil anos eu soluço um grito... Ela, chorando mais que uma criança,
escuta o brado meu lá no infinito,
Vozes d’África Meu Deus! Senhor, meu Deus!!... Ela em soluços murmurou-me: "adeus!"
Deus! ó Deus! onde estás que não
respondes? Quando voltei... era o palácio em festa!...
Em que mundo, em qu'estrela tu t'escondes O Adeus de Teresa E a voz d'Ela e de um homem lá na orquesta
Embuçado nos céus? A vez primeira que eu fitei Teresa, Preenchiam de amor o azul dos céus.
Há dois mil anos te mandei meu grito, Como as plantas que arrasta Entrei!... Ela me olhou branca... surpresa!
Que embalde desde então corre o infinito... a correnteza, Foi a última vez que eu vi Teresa!...
Onde estás, Senhor Deus?... A valsa nos levou nos giros
seus... E ela arquejando murmurou-me: "adeus!"

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Vivo - que vaga sobre o chão da morte,
Mocidade e Morte Morto - entre os vivos a vagar na terra.
Oh! Eu quero viver, beber perfumes
Na flor silvestre, que embalsama os ares; [...]
Ver minh'alma adejar pelo infinito,
Qual branca vela n'amplidão dos mares. E eu morro, ó Deus! na aurora da existência,
No seio da mulher há tanto aroma... Quando a sede e o desejo em nós palpita...
Nos seus beijos de fogo há tanta vida...
— Árabe errante, vou dormir à tarde [...]
À sombra fresca da palmeira erguida.
Sinto que do viver me extingue a lampa...
Mas uma voz responde-me sombria: Resta-me agora por futuro — a terra,
Terás o sono sob a lájea fria. Por glória — nada, por amor — a campa.

Morrer... quando este mundo é um paraíso, Adeus! arrasta-me uma voz sombria
E a alma um cisne de douradas plumas: Já me foge a razão na noite fria!..
Não! o seio da amante é um lago virgem...
Quero boiar à tona das espumas.
Vem! formosa mulher — camélia pálida,
Que banharam de pranto as alvoradas.

[...]

E eu sei que vou morrer... dentro em meu


peito
Um mal terrível me devora a vida:
Triste Ahasverus, que no fim da estrada,
Só tem por braços uma cruz erguida.
Sou o cipreste, qu'inda mesmo flórido,
Sombra de morte no ramal encerra!

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