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Vírgula – um elogio ao espírito humano

Júlia Godoy1

Resumo
O ensaio desenrola-se a partir dos estudos entre palavra e imagem e da construção
de sentido que se estabelece nesse processo. Além disso, o interesse também decorre
do entusiasmo em entender como a construção de uma sintaxe entre diferentes
linguagens é capaz de produzir novos elementos interativos e interpretativos –
tendo como interface a performance coletiva nos diversos usos da linguagem.
Desenvolver uma outra possibilidade de leitura de fotografias e uma
interdiscursividade a partir da associação do signo linguístico-gramatical – a
vírgula – com imagens fotográficas exemplifica a relevância do processo de criação
como produto final, já que envolve a própria pesquisa temática como assunto de
trabalho e da ancestralidade verbo-visual que existe entre falantes, leitores e
produtores de imagem. O processo também levou em conta o percurso histórico da
linguagem escrita humana e o papel do Outro nessa trama civilizatório-cultural.

Disseram que nos “Tempos dos Sonhos”, naquelas paredes, nossos ancestrais desejaram
atravessar as sombras e encurtar as distâncias entre deuses e homens. Desses desenhos,
ainda movidos pela quimera de transpor a fala ao sentido material da língua, criaram o
primeiro signo. Foi há cinco mil anos. Nossos antecessores da palavra escrita também
contemplaram as estrelas, os animais e os corpos na terra e continuaram buscando
transcender pela imagem sígnica o silencioso enigma do mundo. Do ideograma ao
alfabeto, eis que surge a ruptura. A abstração caminhava a passos largos para a função
utilitária da escrita e dava adeus à figuração. Da pedra ao papiro, a enunciação
sobrepunha-se à primeira imagem. Novos potenciais trespassaram a superfície do texto
dando espessura à trama da linguagem. Impregnados pelo entusiasmo da letra, surgem

1Graduada em Letras pela Universidade de São Paulo (USP) e em Fotografia pelo Instituto de Educação
Superior de Brasília (IESB). Transita diariamente entre escrita e imagem e busca, por meio da fotografia,
uma conciliação entre elas.
os diacríticos na Biblioteca de Alexandria pelas mãos de Aristófanes de Bizâncio. As
pontuações, então, passaram a confortar os leitores.
Pela brecha metafórica do visível e do invisível, ainda no curso da história, a
engenhosidade humana agora corre pelos enredos dos tecidos. Apesar da fragilidade da
matéria, sabe-se que foram testemunhas do esforço e do capricho humano por cerca de
vinte mil anos. Desventuras do clima ou da geografia, indumentárias às vezes mágicas
excediam as necessidades da vida cotidiana. Pelas fibras da casca do carvalho e de
tantos outros materiais, o encanto pela tecelagem fascinava os caçadores do Paleolítico.
A Vênus de Lespugue foi adornada com linhas, faixas, um cordão e uma franja. Faz-
nos deslumbrar.
Do texto ao tecido, os cruzamentos das histórias, suas tranças e tramas, do anonimato de
práticas coletivas a práticas individuais, esse ensaio é um elogio ao espírito humano.
Orientado pelas linhas, pelas (des)costuras e pela intimidade que desafia a solidão do
não-lugar, as intersecções estabelecem pontos de contato entre diferentes disciplinas,
atravessa a semantização da imagem, do texto e da linguagem como um habitante que
vive na história, reinventa itinerários e prolonga a fantasia. Reconhecemo-nos no
rompimento da palavra, na cumplicidade de um texto perdido e na abundância do verbo
na história da escrita, das tramas e dos itinerários do homem comum.

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Imagem 1 – Júlia Godoy, Vírgula I, 2016, Impressão sobre tecido, 43x28cm. Brasília/
DF. Foto da autora. Fonte: acervo particular.
Imagem 2 – Júlia Godoy, Vírgula II, 2016, Impressão sobre tecido, 43x28cm. Brasília/
DF. Fonte: acervo particular.
Imagem 3 – Júlia Godoy, Vírgula III, 2016, Fotografia, 43x28cm. Brasília/DF. Fonte:
acervo particular.
Imagem 4 – Júlia Godoy, Vírgula IV, 2016, Fotografia impressa em fine art e linha,
43x28cm. Brasília/DF. Fonte: acervo particular.