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SOCIOLOGIA • volume único

Caro estudante,
todos os dias, certamente, você ouve frases como estas: “antigamen-
te era diferente”, “naquele tempo era melhor”, “a gente construía
os próprios brinquedos”, “os vizinhos conversavam mais”, e tantos
outros ditos, impossíveis de elencar nesta breve apresentação. De
fato, vivemos em um mundo diferente, que se modifica em uma
velocidade antes inimaginável. Além das mudanças aceleradas nas
últimas décadas, as sociedades deparam com desafios e problemas
de grandes dimensões, muitos dos quais criados pelos seres huma-
nos em convivência, como veremos ao longo deste livro.

Apesar das mudanças, há coisas que permanecem, e uma delas


é o próprio fato de as sociedades continuarem existindo, de as pes-
soas criarem laços entre si, tecerem planos e os executarem. Por
exemplo, é cada vez mais comum as pessoas utilizarem sites de rela-
cionamentos na internet para manter contato com os amigos e a
família, ou para conhecer outras pessoas. O que faço e como vivo,
meu comportamento e estilo de vida fazem parte da minha indivi-
dualidade, que foi construída nos processos de interação e sociali-
zação pelos quais passei. Essa convivência na família, na escola, no
grupo de amigos também tem relação com os processos históricos,
econômicos, políticos, sociais e culturais mais amplos. Assim, so-
mos produtores da sociedade e também somos produzidos por ela;
nossas atitudes modelam o mundo social e são por ele modeladas.
Investigar essas conexões entre o que a sociedade faz de nós e o
que fazemos de nós mesmos é justamente um dos trabalhos da So-
ciologia, segundo o sociólogo contemporâneo Anthony Giddens.

Estudar a vida social humana é o objeto das Ciências Sociais.


Entrar em contato com elas, no entanto, pode nos tirar do
nosso ponto de vista habitual, desacomodando nossas ideias e
provocando nossa ação. O pensar das Ciências Sociais nos
convida a ir além das aparências e daquilo que nos é familiar;
questiona-nos quanto ao que tomamos como natural e inevitável
na vida em sociedade. Diferentemente do senso comum (um co-
nhecimento prático, do cotidiano), a Antropologia, a Ciência Polí-
tica e a Sociologia nos possibilitam sair do nosso mundo particular
e apreender as múltiplas dimensões da política, da economia, da
cultura, da sociedade propriamente dita.

Salmo Dansa/Arquivo da editora

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Nas páginas deste livro você mergulhará na
sociedade contemporânea, buscando pensar e
cultivar a “imaginação sociológica”, como diz Wright
Mills. Será que compreendendo nós mesmos teremos
condições de compreender os outros? Entre os temas
deste livro, você verá a ciência, o trabalho, a cultura, a polí-
tica, os movimentos sociais e as instituições, como a família, a
escola, o Estado, a religião. É claro que você e sua juventude
Salm
oD
ans
a/A
rqu
ivo
da
também estão contemplados nessa análise, bem como a preocu-
edit
ora
pação premente e atual com as condições do meio ambiente.
Todas as questões que esses temas propõem às Ciências Sociais,
sobretudo ao entreverem situações de desigualdades, conduzem a
processos de construção da cidadania, vislumbrando nossos direi-
tos e deveres.

Para que você percorra essa trilha com ânimo para explorá-la,
cada capítulo está entremeado com atividades que levam à reflexão e
apresenta sugestões de leituras, filmes e sites para suas aventuras inves-
tigativas. Nesse sentido, algumas pistas vêm na forma de proposições
teóricas e de conceitos inter-relacionados destacados em negrito no
texto. De posse desse material, o seu trabalho de construção do co-
nhecimento ficará a cargo da sua leitura atenta e das discussões e
debates com os colegas e o professor. Portanto, prepare-se para uma
leitura ativa em que você é o protagonista. Suas investidas serão de
aproximação dos textos, análise das questões levantadas, estímulo ao
desenvolvimento da crítica social, cruzamento de informações, inda-
gações pertinentes e espaço para as suas dúvidas. Você está em pro-
cesso de descoberta de sua identidade, e acreditamos que este livro
trará contribuição nesse sentido.

Apaixone-se pelas Ciências Sociais, pois ciência é também pai-


xão na persistência dos métodos, perseguição de objetivos e curio-
sidade sempre alerta. Bom estudo!
4•

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Sumário
Capítulo 1 – Viver na sociedade contemporânea: a Sociologia se faz presente 9
As transformações da sociedade e as Ciências Sociais 10
As primeiras inquietações da Sociologia 12
A Sociologia se preocupa com a desigualdade social 14
As teorias de classe e a estratificação social 17
Desigualdade social e dominação 21
Globalização e novas questões sociais 27
O trabalho como grande questão social da globalização 31
Sociologia, uma ciência que articula conhecimentos 33
Diálogos interdisciplinares 34
Revisar e sistematizar 34
Descubra mais 35
Bibliografia 35

Capítulo 2 – Sociologia: uma ciência da modernidade 37


Nossa vida em sociedade 38
Uma ciência originada da transformação 40
Nasce a Sociologia 42
Senso comum e ciência 46
Métodos para pensar a realidade social 47
O positivismo na proposta de Comte 47
Durkheim e um método próprio para a Sociologia 48
A dialética como método de análise 49
O objeto de estudo da Sociologia 49
Durkheim e a análise dos fatos sociais 50
Weber e a compreensão da ação social 52
Marx analisa a realidade histórica 53
A produção teórica dos clássicos da Sociologia 55
A integração social sob o olhar de Durkheim 55
Teoria da ação social em Weber 55
Marx e a teoria da acumulação 56
Teorias e métodos das Ciências Sociais no século XX 58
Diálogos interdisciplinares 60
Revisar e sistematizar 61
Descubra mais 62
Bibliografia 62

Capítulo 3 – a família no mundo de hoje 65


As muitas configurações da família 66
A família como instituição social 68
A família patriarcal no Brasil e seus desdobramentos 71
A família como espaço de reprodução social 73
As Ciências Sociais observam a família 75
Famílias em transição 76
Movimentos de mulheres e relações familiares 78
O que há de novo nas famílias? 80
As relações familiares transformadas e os jovens 82
Diálogos interdisciplinares 84
Revisar e sistematizar 87
Descubra mais 87
Bibliografia 88

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Capítulo 4 – trabalho e mudanças sociais 89
O trabalhador e o trabalho 90
O sentido do trabalho 91
Organização do trabalho no século XX 95
Trabalhador: a chave dos sistemas flexíveis de produção? 100
Novo perfil do trabalhador 102
O trabalho é central na vida em sociedade contemporânea? 105
O trabalho em crise 105
Os sindicatos e seus desafios na atualidade 107
O labirinto do mercado de trabalho 110
Desigualdades no mercado de trabalho: questões de gênero e étnico-raciais 112
Diálogos interdisciplinares 115
Revisar e sistematizar 116
Descubra mais 117
Bibliografia 117

Capítulo 5 – a cultura e suas transformações 119


Comunicação e cultura 120
O que é cultura? 122
Cultura e civilização 124
O relativismo cultural 126
Nós e os outros 127
Diversidade cultural na sociedade brasileira 132
As dinâmicas culturais 136
Mudanças culturais na sociedade global 137
Indústria cultural e práticas sociais 140
A cultura que se mundializa 142
Diálogos interdisciplinares 145
Revisar e sistematizar 146
Descubra mais 146
Bibliografia 147

Capítulo 6 – Sociedade e religião 149


A religião como instituição social 150
A religião na visão dos autores clássicos da Sociologia 153
Auguste Comte 153
Émile Durkheim 154
Max Weber 154
Karl Marx 155
A religião em tempos de globalização 156
Fundamentalismo religioso 159
Desfazendo mitos 160
Conflitos religiosos no mundo 161
A religiosidade no Brasil 164
Diálogos interdisciplinares 167
Revisar e sistematizar 168
Descubra mais 168
Bibliografia 169

6 • SUMÁRIO

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Capítulo 7 – Cidadania, política e Estado 171
Cidadania é uma conquista 172
As origens dos conceitos de cidadão e cidadania 173
Políticas públicas: dilemas da cidadania 176
Condições da cidadania no Brasil 179
Poder e política: exercício e participação 182
Cidadania: entre o público e o privado 184
Estado e sociedade 186
Estado e governos 190
Duas visões sobre a atuação do Estado capitalista 192
Autoritarismos e totalitarismos: ameaças à cidadania 194
Diálogos interdisciplinares 196
Revisar e sistematizar 196
Descubra mais 197
Bibliografia 197

Capítulo 8 – Movimentos sociais 199


Movimentos sociais na pauta das Ciências Sociais 200
Características dos movimentos sociais 204
A questão da identidade 205
Breve história dos movimentos sociais 207
Os movimentos operários 207
Temas e protagonistas dos movimentos sociais contemporâneos 208
A emergência dos movimentos sociais no Brasil:
contestação ao Estado autoritário 210
Movimentos sociais latino-americanos e o Estado neoliberal 213
A exclusão social e os movimentos sociais na atualidade 215
As muitas configurações da exclusão 215
Movimentos sociais na era da globalização 217
Diálogos interdisciplinares 220
Revisar e sistematizar 221
Descubra mais 221
Bibliografia 222

Capítulo 9 – Educação, escola e transformação social 223


Educação e sociedade 224
A educação na história 226
Sociologia e educação 227
A escola como espaço de socialização 228
Além dos portões da escola 229
Sistemas escolares e reprodução social 230
Educação para o presente 234
Concepções da educação no Brasil 235
Problemas e dificuldades da escola brasileira no século XX 237
Desafios do ensino no Brasil 239
Educação e ensino: um direito 243
Diálogos interdisciplinares 244
Revisar e sistematizar 244
Descubra mais 245
Bibliografia 245

SUMÁRIO • 7

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Capítulo 10 – Juventude: uma invenção da sociedade 247
As juventudes 248
Ritos de passagem para a fase adulta 250
Juventude: um tempo de preparação e responsabilidades 251
Sociologia e juventude por Mannheim 253
O conceito de geração 257
Jovens e identidade nos grupos sociais 258
O jovem na sociedade brasileira 260
O que deseja a juventude brasileira? 263
Juventude contemporânea 264
Desafios para os jovens de hoje 266
Diálogos interdisciplinares 268
Revisar e sistematizar 269
Descubra mais 269
Bibliografia 269

Capítulo 11 – o ambiente como questão global 271


A relação ser humano-natureza 272
Sociedade de risco 276
Ecossistemas e globalização 280
Inovação: benefícios ou malefícios? 284
Desenvolvimento capitalista e meio ambiente 287
Sociedade sustentável: equilíbrio entre ser humano e natureza? 290
Diálogos interdisciplinares 293
Revisar e sistematizar 293
Descubra mais 294
Bibliografia 295

índice remissivo 296


Questões do Enem 301

8 • SUMÁRIO

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Salmo Dansa/Arquivo da editora

Capítulo 1

Viver na sociedade contemporânea:


a Sociologia se faz presente
ESTUDAREMOS NESTE CAPÍTULO:
o papel e as estratégias da Sociologia no estudo da sociedade contemporânea. Ciência ocupada com o seu tempo, a
Sociologia tem como tarefa central mostrar que fenômenos como as desigualdades, a pobreza e a estratificação social
não são “naturais”, e sim sociais. Ao desnaturalizar os fenômenos, as Ciências Sociais – Sociologia, Antropologia e Ciên-
cia Política – procuram explicá-los, desvendando os mecanismos de dominação social. Nas páginas que seguem, você
é convidado a se colocar também como um sujeito que indaga, reflete e investiga a sociedade em que vive.

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As transformações da sociedade e as Ciências Sociais
De algum modo todos participamos das coisas que acontecem no mun-
do, seja por que as estudamos, seja por estarmos atentos ao que acontece
à nossa volta: um show da banda preferida, a última eleição municipal, um
desastre aéreo, a safra de milho ou de café que está escoando pelas estra-
das e portos brasileiros, a reforma da escola, a recente crise econômica na
Europa, entre tantos outros acontecimentos.
No caminho para a escola, mesmo sem querer, você vai se inteirando do
que ocorre com notícias que martelam seus ouvidos na emissora de rádio
sintonizada, que circulam nas conversas nas ruas e pontos de ônibus, que
aparecem nas capas de revistas e jornais nas bancas. É um verdadeiro bom-
bardeio com informações que nos dizem e não nos dizem respeito.
A TV, o rádio, a internet nos colocam a par dos acontecimentos e produ-
zem, eles próprios, outros acontecimentos. Tudo ganha dimensões gigantescas,
interligadas, parecendo fugir ao nosso controle. Mas como se chegou a esse
ponto? É preciso ter em mente que vivemos em sociedade. Isso significa que
editora

participamos de um complexo conjunto de grupos sociais que mantêm laços


uivo da

entre si pela língua, pela cultura e pelas relações pessoais, produtivas e de traba-
cha/Arq

lho entre os indivíduos. Assim, indivíduo e sociedade influenciam um ao outro


Filipe Ro

o tempo todo. O sociólogo francês Edgar Morin (1921-) mobiliza nossa com-
preensão sobre a relação indivíduo/sociedade que vai se apresentar nos capítu-
los deste livro, e que diz respeito à nossa própria forma de organização social.

O ser humano define-se, antes de tudo, como trindade indivíduo/socieda-


de/espécie: o indivíduo é um termo dessa trindade. Cada um desses termos
contém os outros. Não só os indivíduos estão na espécie, mas também a espécie
está nos indivíduos; não só os indivíduos estão na sociedade, mas a sociedade
também está nos indivíduos, incutindo-lhes, desde o nascimento deles, a sua
cultura. [...] a cultura e a sociedade permitem a realização dos indivíduos; as in-
terações entre os indivíduos permitem a perpetuação da cultura e a auto-orga-
nização da sociedade.
MORIN, Edgar. O método 5: a humanidade da humanidade. 3. ed. Porto Alegre: Sulina, 2005. p. 51-52.

O último século apresentou profundas e intensas transformações no mo-


do de viver em sociedade. Fronteiras e alianças entre países se alteram, as
grandes potências econômicas tentam manter sua posição dominante, mui-
tos povos e nações clamam por paz e justiça, avanços tecnológicos surpreen-
dem, a quantidade e a variedade de informações aumentam, artistas buscam
ser ouvidos, vistos ou lidos. As estruturas familiares se diversi1cam, institui-
ções tradicionais da política ora ganham, ora perdem credibilidade, a eco-
nomia se torna mundialmente interligada. Regimes políticos entram em
colapso; mobilizações sociais convergem e divergem sobre problemas e solu-
ções para os problemas de seu tempo.
Se pararmos para analisar tantas e tão aceleradas mudanças, poderemos
perceber o que é “ser contemporâneo”. Ser contemporâneo é “estar no mun-
do”, no presente, participar do aqui e agora e, de certo modo, captar o espí-
rito do nosso tempo. Contemporâneo chega a ser sinônimo de novo na socieda-
de de hoje.

10 • CAPÍTULO 1

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Casa Fora do Eixo Minas/Flickr/Creative Commons

Reuters/Latinstock
Cenas da vida contemporânea: jovens
fazem grafitagem no viaduto Santa Tereza,
em Belo Horizonte, em 2012; o então
presidente da África do Sul, Frederik de
Klerke, passa o cargo ao seu sucessor,

Marco Busato/Demotix/Corbis/Latinstock
Nelson Mandela, em 1994 – eleito após um
período de mais de quatro décadas em que
negros foram privados de seus direitos
políticos; imigrantes durante manifestação
em Milão, Itália, em junho de 2012.
As Ciências Sociais se dedicam a estudar
a cultura, o poder e as relações sociais.

Algumas mudanças nem as vemos, tão acostumados estamos ao seu rit-


mo e amplitude: chips minúsculos controlam grandes máquinas e sistemas, a
caneta que usamos na escola muitas vezes nem é produzida em nosso país,
enquanto computadores são fabricados de todas as formas e tamanhos, e
telefones celulares nos localizam em qualquer lugar e nos permitem locali-
zar quem quisermos. Ligados em rede, vemos a necessidade de nos adaptar
a valores e situações em rápida mutação.
Para aqueles que têm acesso à comunicação, o mundo torna-se “pe-
queno”, mais próximo, mas não necessariamente mais igual. As relações so-
ciais continuam assimétricas, entre pessoas e nações. Embora a realidade em
nosso entorno se mostre com novas roupagens, o modo como a sociedade se
organiza perdura em suas características gerais.
O sociólogo brasileiro Octavio Ianni (1926-2004) a1rma que a socie-
dade atual, moderna, burguesa, informatizada, baseia-se em alguns princípios
que se reiteram ao longo da história, reproduzindo a estrutura social. Ou seja,
nem a ciência, nem a técnica ou a informática alteraram a natureza essencial
das relações sociais, processos e estruturas de apropriação ou distribuição das
riquezas e da dominação da sociedade capitalista.
As Ciências Sociais apresentam-se para analisar e tentar explicar o que
está acontecendo no âmbito político, econômico, cultural e social da reali-
dade complexa que existe sob a aparência das mudanças sociais. As Ciên-
cias Sociais indagam constantemente sobre o que se altera e o que perma-
nece, o que rompe com estruturas antigas e o que se constitui como novo
na sociedade.

Viver na sociedade contemporânea: a Sociologia se faz presente • 11

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A divisão entre as disciplinas das Ciências Sociais – uma visão crítica
Atenta aos problemas próprios de cada época, a política e a economia se constituem em campos autô-
Sociologia acompanha os questionamentos que a so- nomos que podem ser analisados separadamente –
ciedade se coloca e os enfrenta por meio da constru- quando, para ele, os fenômenos de que tratam as dis-
ção de teorias sociais. Este é o modo como a Sociolo- ciplinas das Ciências Sociais são interligados. E você, o
gia trabalha. Uma teoria social consiste em um que acha? Como podemos superar essas divisões dis-
conjunto de conceitos inter-relacionados de forma ciplinares ao estudarmos os fenômenos sociais?
coerente para explicar fenômenos sociais. Neste livro, Ao longo deste livro, há propostas de atividades
descobriremos inúmeras questões sociológicas sobre que integram diferentes áreas das humanidades, e tam-
as relações sociais e suas desigualdades, diferentes bém de ciências exatas e biológicas. A partir desses pro-
costumes e o modo de homens e mulheres se organi- jetos, você pode discutir de que forma a integração de
zarem para viver em sociedade. diferentes disciplinas influencia a vida social.
Além da Sociologia, integram as Ciências Sociais,

Igor Zarembo/Ria Novosti/Agência France-Presse


basicamente, a Antropologia e a Ciência Política. A An-
tropologia estuda o ser humano em suas dimensões de
origem, desenvolvimento, formas de organização cultu-
ral, entre outros aspectos, e seus principais ramos de co-
nhecimento são a antropologia física e a antropologia
cultural. A Ciência Política volta o seu olhar para os fenô-
menos relacionados ao poder, principalmente à institui-
ção do Estado e suas formas de organização e os proces-
sos de tomada de decisões políticas. Trataremos desses
outros dois ramos das Ciências Sociais ao abordarmos
os temas relacionados aos seus objetos de pesquisa.
Porém, há quem defenda que as Ciências Sociais
poderiam compreender outros campos do conheci-
mento. No estudo “Análise dos sistemas mundiais”, o
sociólogo estadunidense Immanuel Wallerstein
(1930-) afirma que as Ciências Sociais constituem
agrupamentos coerentes de objetos de estudo dis-
tintos uns dos outros e são constituídas por várias
“disciplinas” além das mencionadas – por exemplo, a
Economia. Esse sociólogo recorda o debate que exis-
te sobre se a Geografia e a História também integra- Mili russo manuseia
Militar i equipamento
i béli
bélico dde controle
l dde d
drones
(veículos aéreos não tripulados) em Khmelyovka, Kirov, Rússia.
riam as Ciências Sociais.
Foto de 2011. Apesar do progresso técnico-científico visto no
Wallerstein critica a divisão em disciplinas porque último século, os processos, estruturas e relações sociais
elas afirmam a visão de que o Estado, o mercado, a passaram por poucas mudanças.

As primeiras inquietações da Sociologia


A Sociologia nasceu, no século XIX, em um contexto de signi1cativas
mudanças sociais, políticas e econômicas, como veremos mais detalhada-
mente no capítulo 2. Nessa época, na Europa ocidental, muitas pessoas dei-
xavam o meio rural rumo às cidades, que viram uma expansão desenfreada
em termos de população e de pobreza. Com isso, novas questões sociais
surgiram, resultando em revoltas e mobilizações do povo por moradia, saú-
de, respeito humano, trabalho digno.

12 • CAPÍTULO 1

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Até então, predominava a visão de que as desigualdades sociais e econô-
micas eram fenômenos naturais. Essa concepção, chamada naturalista, não
acredita que seja necessário realizar pesquisas para entender a posição dos
indivíduos na sociedade. Pensava-se que o lugar de cada um já estava deter-
minado para sempre pelas normas, regras, tradições e valores sociais domi-
nantes, como os valores religiosos, por exemplo. Pensava-se, ainda, que essas
normas poderiam ser justi1cadas por fatores biológicos e divinos.
A fundação de uma Ciência da sociedade rompeu com essa visão, mos-
trando como as mudanças nas formas de conviver e de trabalhar repercu-
tiram e repercutem nas condições de vida da população. Explicar por que
a sociedade é desigual e como ela se altera ao longo do tempo era, e ainda
é, uma questão crucial para a Sociologia. Nessa re2exão sobre a realidade
das relações sociais, as diferentes áreas das Ciências Sociais puderam iden-
ti1car como se produziam e se produzem desigualdades em diferentes mo-
mentos da história da nossa sociedade.
A partir do século XVIII, quando se consolidou o sistema econômico
em que vivemos atualmente – o capitalismo –, as formas como os indivíduos
se apropriam dos recursos da natureza e dos bens produzidos passaram a
ser cada vez mais importantes para o pensamento social. Os estudiosos da
vida social perguntavam-se: por que tantos seres humanos estão relativa-
mente à margem do consumo dos bens e do usufruto de direitos?
Quando os indivíduos de uma sociedade acentuam as diferenças entre
si, os segmentos marginalizados e as minorias são postos em situação de
desvantagem. As diferenças de gênero (entre homens e mulheres), de ori-
gem étnica ou regional, dentre

Reprodução/Fundação Biblioteca Nacional, Rio de Janeiro, RJ.


outras, transformam-se em desi-
gualdades e são justi1cadas, disfar-
çadas ou mesmo negadas por
aqueles que exercem a domina-
ção, em contextos especí1cos, a
1m de garantir a manutenção da
ordem social vigente. No entanto,
essas desigualdades provocam
tensões e movimentos.
Os fundadores da Sociologia,
que serão estudados no capítulo 2
deste livro, buscaram explicar dife-
rentes mudanças sociais ao lidarem
com problemas como migrações
em massa, crises sociais cíclicas,
multidões de desamparados sem trabalho, alta mortalidade da população e Aquarela de Jean-Baptiste
Debret (1768-1848) publicada
marginalização social de alguns grupos. É importante notar que há uma rela-
no livro Viagem pitoresca e
ção muito forte das primeiras teorias sociais com o contexto social europeu histórica ao Brasil. As
da época, já que estes autores foram formados em universidades daquele desigualdades de gênero e
continente. etnia nas relações sociais são,
em geral, justificadas
ideologicamente para
Como uma ciência histórica, a Sociologia está ligada às condições de cada garantir a manutenção da
época e contexto. Ela se propõe a perceber o novo sem perder a capacidade ordem social vigente.
de compreender como velhas questões sociais se reproduzem nesse novo.

Viver na sociedade contemporânea: a Sociologia se faz presente • 13

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PAUS A PA R A R E F L E T I R

Leia o relato de uma revista inglesa sobre as ruas de um bairro industrial em Edimbur-
go, na Escócia, em meados do século XIX. Depois da leitura, responda às perguntas.

Das condições de moradia dos trabalhadores


Estas ruas são em geral tão estreitas que se pode saltar de uma janela para a
da casa da frente, e os edifícios apresentam, por outro lado, tal acumulação de
andares que a luz mal pode penetrar no pátio ou na ruela que os separa. Nesta
parte da cidade não há nem esgotos nem banheiros públicos ou sanitários nas
casas, e é por isso que as imundícies, detritos ou excre-
Album/akg-images/Latinstock

mentos de, pelo menos, 50 mil pessoas são lançados to-


das as noites nas valetas, de tal modo que, apesar da lim-
peza das ruas, há uma massa de excrementos secos com
emanações nauseabundas, que não só ferem a vista e o
olfato, como, por outro lado, representam um perigo ex-
tremo para a saúde dos habitantes [...]. As habitações da
classe pobre são em geral muito sujas e aparentemente
nunca são limpas, seja de que maneira for; compõe-se, a
maior parte das casas, de uma única sala – onde, apesar
da ventilação ser das piores, faz sempre frio por causa das
janelas partidas ou mal-adaptadas – que muitas vezes é
úmida e fica no subsolo, sempre mal mobiliada e invaria-
velmente inabitável, a ponto de um monte de palha ser-
vir frequentemente de cama para uma família inteira, ca-
ma onde se deitam, numa confusão revoltante, homens e
mulheres, velhos e crianças. Só se encontra água nas
bombas públicas e a dificuldade para ir buscar favorece
naturalmente toda a imundície possível.
Artigo da revista inglesa THE ARTIZAN, de outubro de 1843. In: ENGELS, Friedrich.
A situação da classe trabalhadora na Inglaterra. São Paulo: Global, 1986. p. 47.

O aumento desenfreado da urbanização a partir da Revolução


1. Destaque as questões sociais apresentadas no texto.
Industrial fez com que grande parte da população tivesse péssimas
condições de vida nas grandes cidades europeias. Esta gravura do 2. Com quais delas você imagina que a Sociologia se
século XIX, intitulada Wentworth Street, Whitechapel, de autoria de
ocupou no período? Por que o contexto europeu te-
Gustave Doré e Blanchard Jerrold, retrata pessoas no bairro
operário de Whitechapel, em Londres, na Inglaterra. ria sido a principal preocupação dos primeiros soció-
logos?

A Sociologia se preocupa com a desigualdade social


O fenômeno da desigualdade social é um tema presente na Sociologia clás-
sica e na contemporânea. Por que esse assunto continua sendo estudado pelos
cientistas sociais? A resposta está em nosso cotidiano. Basta dirigirmos um
olhar mais atento às pessoas que nos cercam, observando como elas vivem e
como se comportam socialmente. Como são diferentes os indivíduos e grupos
sociais em seus hábitos, interesses, costumes, gostos, manifestações culturais!

14 • CAPÍTULO 1

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Há diversidade e desigualdade nos tipos de moradia em diferentes bairros
e nos meios de transporte que a população utiliza rotineiramente. Também
são diversas as instalações físicas das escolas e as condições de ensino das pe-
quenas e desiguais grandes cidades. Da mesma forma, os trabalhos que reali-
zam, sua remuneração e acesso ao consumo são diferentes e produzem ou
reforçam a desigualdade. Em todas as instâncias estão presentes gradações e
contrastes: nos shoppings e sua localização, nos restaurantes, lanchonetes e
bares com serviços e preços variados, conforme o público a que se destinam.

PAUS A PA R A R E F L E T I R

Laerte/Acervo do cartunista
Pense sobre o signi1cado desta
charge de Laerte. De que ma-
neira ela pode ser relacionada
com a desigualdade presente
em nossa sociedade?

As Ciências Sociais mostram haver diferenças sociais que variam confor-


me características que o senso comum considera apenas biológicas, como
a idade, o sexo, a conformação física e a origem étnica das populações e
indivíduos. Porém, também a religião, a cultura e a pro1ssão estabelecem
distinções entre indivíduos e grupos e interferem em suas relações, como
aponta o sociólogo alemão Georg Simmel (1858-1917). Todas elas são, po-
rém, diferenças sociais e podem despertar o sentimento de pertencer a um
grupo, a uma sociedade ou a uma cultura, originando a construção de uma
identidade.
As desigualdades sociais, por sua vez, consistem em diferenças de acesso
de indivíduos e grupos sociais aos bens materiais, a direitos e a recompensas
que a vida em sociedade propicia, como o direito a serviços de saúde e a
compensações salariais por trabalho executado. Ou seja, as desigualdades
sociais estabelecem uma hierarquia, determinam quem tem maior ou me-
nor acesso a bens, serviços, direitos. Muitas vezes, se valem das característi-
cas físicas e étnicas, justi1cando-as pela Biologia e omitindo seu caráter so-
cial, para rea1rmar diferenças, como quando provocam discriminação social
e preconceitos contra mulheres ou negros. Portanto, as desigualdades estão
além da questão da posse de bens e da dimensão meramente econômica e
jurídica, uma vez que envolvem outras esferas da vida social.

Viver na sociedade contemporânea: a Sociologia se faz presente • 15

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Presente na história da humanidade, a desigualdade tem entre os seus
problemas a pobreza, que corresponde a um estado de carência material e
social. O conceito de pobreza não é universal, ou seja, não é o mesmo em to-
das as partes do mundo. Trata-se de uma condição histórica pela qual segmen-
tos da população mundial sofrem com a escassez de recursos ou com sua má
distribuição. A noção de pobreza é, portanto, relativa ao grau de desigualdade
socioeconômica em uma região ou em um país. Podemos dizer que a pobreza
é característica da estrutura social e tem relação com o modo como cada gru-
po se organiza para produzir, distribuir e garantir o sustento de seus mem-
bros. A estrutura social também é pesquisada pela Sociologia.

O adjetivo social despe o termo “estrutura” de sua conotação espacial, exata-


mente como sucede com termos tais como “distância” ou “mobilidade”. A “distância
social” não denota distância espacial, enquanto a “mobilidade social” não se refere à
mobilidade no espaço. [...] O conceito de estrutura social é mais amplo que o de
estrutura de classes, porquanto os grupos encarados como elementos na estrutura
social não precisam ser classes sociais, podendo ser, por exemplo, categorias de
idade (como crianças, jovens, adultos, anciãos). [...] poderiam também ser grupos
étnicos [...]. Concebo a estrutura social, portanto, como um sistema de relações hu-
manas, distâncias e hierarquias, tanto numa forma organizada quanto numa forma
desorganizada.
OSSOWSKI, Stanislaw. Estrutura de classes na consciência social. Rio de Janeiro: Zahar, 1976. p. 21-22.

A1rmar que a desigualdade faz parte da estrutura das sociedades não


signi1ca a1rmar que ela é natural. Pelo contrário, a desigualdade é produzi-
da e reproduzida pelos seres humanos em suas ações e na forma como criam
diferentes níveis de acesso e valor a modos de vida, serviços sociais, aos recur-
sos para lazer, etc. Um exemplo é a sociedade contemporânea em que vive-
mos, cuja estrutura é predominantemente capitalista: nela, o que é produzido
pelos que se organizam para obter a sobrevivência acaba sendo apropriado
de forma desigual entre aqueles que decidem e organizam a produção e os
que trabalham. Muitas desigualdades sociais nascem dessa divisão social do
trabalho e da riqueza produzida, como investigaremos ao longo deste livro.
Bernardo Soares/JC Imagem
Conforme a humanidade desenvolve
suas tecnologias e formas de organização,
emergem novas dimensões da desigualdade.
Entre elas, podemos citar aquela que passa
pelo conhecimento e pelo acesso à informa-
ção – desde a capacidade de ler e escrever na
língua dominante em uma sociedade até o
domínio das leis e dos meios tecnológicos
propiciados pela Informática.

Alunos acessam a internet em uma escola pública de


Arcoverde, Pernambuco. Foto de 2012. A falta de acesso
ao conhecimento e aos meios tecnológicos é uma das
novas dimensões da desigualdade social no mundo
globalizado. Nesse sentido, ações como a distribuição de
computadores nas escolas públicas e a existência de
telecentros comunitários dão suporte à inclusão digital.

16 • CAPÍTULO 1

Sociologia_vu_PNLD15_009a036_C01.indd 16 5/28/13 8:39 AM


As teorias de classe e a estratificação social
Talvez você já tenha ouvido falar em mobilidade social, que é a possibili-
dade de indivíduos e grupos mudarem de posição na sociedade. De modo
geral, quando alguém ascende socialmente, passa a dispor de melhores con-
dições de vida. Mas quais condições favorecem a ascensão social ou, ao con-
trário, levam alguém ou um grupo a ter uma posição menos privilegiada na
sociedade?
Sociedades capitalistas, como a brasileira, fundamentam-se nas diferen-
ças entre as classes sociais. Em linhas gerais, as classes sociais são grandes
grupos que se diferenciam pelo poder econômico e político que possuem e
pelo lugar que ocupam na produção e no consumo. A mobilidade de indiví-
duos, grupos e classes sociais pode se dar, por exemplo, devido à sua escola-
rização, participação política ou pro1ssão. Porém, há outros fatores deter-
minantes das desigualdades sociais, como as relações étnico-raciais e as de
gênero. Quando essas condições se somam, no dia a dia, podem potenciali-
zar a desigualdade, criando e recriando formas de exclusão social, como exclusão social: situação em que
será estudado mais adiante neste capítulo e também no capítulo 8. Assim, na indivíduos ou grupos são impedidos,
sociedade brasileira, uma mulher negra e pobre está muito mais sujeita à total ou parcialmente, de usufruir ple-
exclusão social do que um homem branco e rico, devido às relações étnico- namente da vida em sociedade. A ex-
clusão manifesta-se em aspectos re-
-raciais e de gênero historicamente desiguais no país.
lacionados à cidadania, à cultura, às
relações familiares e sociais e ao aces-
As desigualdades sociais variam em diferentes épocas e sociedades, havendo so a benefícios econômicos e sociais.
também organizações sociais em que esse conceito não se aplica.

O estudo da História nos mostra que as relações desiguais vêm de longa


data nas civilizações ocidentais. As sociedades grega e romana eram marca-
das pelas desigualdades entre cidadãos e escravos, por exemplo. Na Idade
Média, em que boa parte da população europeia vivia em sociedades de or-
ganização estamental, prevalecia a distinção entre senhores e servos. Os es-
tamentos eram segmentos da estrutura social que se baseavam no ordena-
mento dos poderes senhoriais; ou seja, quem ordena (manda) é o “senhor”
das terras e os que obedecem são seus “súditos”, seus dependentes pessoais
(os parentes e favoritos, os funcionários domésticos e aqueles ligados ao se-
nhor por vínculos de 1delidade, os servos e vassalos). Diz-se que essas rela-
ções de obediência servil são relações de vassalagem.
Na sociedade capitalista, por sua vez, o principal de1nidor da posição
do indivíduo na estrutura social é a propriedade dos meios de produção –
ou seja, se ele possui ou não a terra, a fábrica, o banco, os equipamentos, os
instrumentos de trabalho, etc. Essa é a interpretação do 1lósofo alemão
Karl Marx (1818-1883), no século XIX, assentada na noção de classes so-
ciais como grandes interesses sociais agrupados e contrários um ao outro.
Assim, a sociedade se encontra, basicamente, dividida em duas classes so-
ciais fundamentais: a daqueles que são os proprietários dos meios materiais
(os burgueses, donos do capital) e a dos que possuem apenas sua força de
trabalho (os trabalhadores).
Na sociedade capitalista, a maioria dos indivíduos vende sua força de
trabalho, sujeitando-se ao capital – seja ele produtivo (ligado às indústrias
de transformação e extração, à agricultura ou à pecuária), 1nanceiro

Viver na sociedade contemporânea: a Sociologia se faz presente • 17

Sociologia_vu_PNLD15_009a036_C01.indd 17 5/28/13 8:39 AM


(bancos, seguradoras, etc.) ou em serviços (comunicação, comércio, trans-
portes, entre outros). O capital é, assim, mais que dinheiro ou bens acu-
mulados, mais que as ferramentas e equipamentos de trabalho. Para Marx,
o capital resulta das relações sociais desiguais no processo de divisão da
riqueza produzida. Sua característica mais importante é que ele sempre
pode ser convertido em mais capital.
Outros cientistas sociais não se restringem aos aspectos econômicos para
apreender como se compõe a estrutura social. É o caso do sociólogo alemão
Max Weber (1864-1920). Weber a1rma que a posição social do indivíduo se
deve a três fatores, que podem estar sobrepostos ou se apresentar de modo
variado: o status, decorrente da honra e do prestígio (ou seja, do valor sim-
bólico que a sociedade dá a um grupo ou indivíduo); a riqueza (a renda
econômica e as posses); e o poder em relação ao restante da sociedade. Nem
sempre os indivíduos ou grupos detêm esses três aspectos simultaneamente.
Para Weber, as classes são posições no mercado, pois, segundo ele, “o fator
que cria ‘classe’ é um interesse econômico claro”. Nesse aspecto, uma “situ-
ação de classe” é gerada quando um grupo de pessoas possui condições co-
Filipe Rocha/Arquivo da editora

muns com relação à possibilidade (ou não) de dispor de bens materiais


(como certos tipos de casa ou aparelhos eletrônicos) e simbólicos (como o
acesso a certos conhecimentos valorizados socialmente).
Teremos oportunidade de estudar mais os autores clássicos da Sociolo-
gia no capítulo 2; por enquanto, vamos nos deter no pensamento social de
Marx e de Weber sobre o fenômeno das classes sociais, contrastando-os.
Marx tratou as classes como um fenômeno econômico e o con2ito entre
elas (luta de classes) como uma série de choques de interesses materiais
entre proprietários e não proprietários dos meios de produção. Para ele, o
agrupamento que tem a mesma relação com os meios de produção muitas
vezes só pode ser, corretamente, chamado classe quando os interesses com-
partilhados geram consciência e ação. Com essa ênfase, Marx acentua um
caráter diretamente político para a classe, a qual se torna um agente social
importante quando assume um foco para a ação coletiva.
Weber percebeu que as divisões de interesse econômico que criam clas-
ses nem sempre correspondem a sentimentos de identidade e posições com-
partilhadas na estrutura social. Assim, a diferenciação pelo status ocorre em
uma dimensão subjetiva, separada da classe, e varia de forma independente;
é um fenômeno da estratificação social.
Tanto o tema das classes sociais quanto o da estrati1cação social são mui-
to discutidos na literatura sociológica, por comportarem diferentes concep-
ções de divisão da sociedade na civilização ocidental. As diferentes socieda-
des ocidentais e algumas não ocidentais foram apresentadas divididas em
estratos e/ou camadas, ou seja, indivíduos e grupos estão dispostos de modo
hierárquico na estrutura social.
A posição de um indivíduo num sistema de estrati1cação é uma ques-
tão controversa. Inúmeras classi1cações da realidade social geralmente
utilizadas na mídia, como as que expressam as “classes sociais” A, B, C, D,
usam critérios simpli1cados para separar populações em grupos que
nem sempre dizem respeito à experiência real que cada um tem na socie-
dade, nem à sensação de identidade e pertencimento de classe. Os crité-
rios mais complexos mesclam informações como rendimento, ocupação,

18 • CAPÍTULO 1

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escolaridade, moradia, hábitos de consumo, entre outros, para aproxi-
mar-se da realidade empírica.
Uma das diferenças notáveis na concepção de classe social entre autores
clássicos é que, para Weber, de algum modo, o fenômeno de estrati1cação
social traduz a presença de classes sociais em diferentes tipos de sociedade,
ou a sociedade antiga (escravos e senhores), ou a medieval (servos e senho-
res), ou a moderna (trabalhadores e capitalistas), dizendo de modo simpli-
1cado. Marx, por sua vez, vê o surgimento das classes sociais como um fenô-
meno histórico próprio da sociedade capitalista moderna, que comporta
uma estrutura de classes: as relações fundamentais entre os burgueses (capi-
talistas) e o proletariado (trabalhadores). Assim, a estrati1cação social seria
um artifício para explicar a sociedade dividida, e não se confunde com o
fenômeno das classes sociais.

Gildo Lima/Agência A Tarde/Futura Press

Consumidores aguardam abertura de loja de móveis e eletrodomésticos em Salvador, Bahia. Foto de 2011.
O fim da hiperinflação e o aumento real da renda familiar observados nas duas últimas décadas fizeram
crescer o poder de compra da população brasileira.

O quadro na página seguinte sintetiza os critérios adotados por Marx e


por Weber ao analisar as classes sociais, além de trazer a contribuição de dois
sociólogos contemporâneos, o estadunidense Erik Olin Wright (1947-) e o
francês Pierre Bourdieu (1930-2002), que acrescentam novos fatores ao es-
tudo das classes sociais. Dentre esses fatores, podemos destacar as diferenças
de poder que Olin Wright assinala dentro da classe trabalhadora, de acordo
com o cargo ocupado, e a visão de Bourdieu, sobre o papel do conhecimen-
to e da cultura na sociedade moderna.

Viver na sociedade contemporânea: a Sociologia se faz presente • 19

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As classes sociais – síntese de algumas teorias

• Classes sociais são agrupamentos de indivíduos que estão em uma posição comum nas relações
de produção; uns são proprietários dos meios materiais de produção, outros detêm apenas sua
força de trabalho.
Karl Marx • São duas as principais classes sociais modernas: os capitalistas (donos dos meios materiais de
(1818-1883) produção) e o proletariado (aqueles que vendem sua força de trabalho aos capitalistas).
• As classes sociais são antagônicas e complementares: uma não existe sem a outra. Elas se
relacionam; há uma estrutura de classes.

• A sociedade é dividida em estratos ou camadas.


• O lugar ocupado pelos indivíduos na sociedade tem a ver com sua posição econômica, mas não
é o controle dos meios de produção que define as classes.
Max Weber • As divisões de classes se originam em diferenças sociais baseadas no poder, na riqueza e no status.
(1864-1920)
• Status é uma dimensão subjetiva e separada da classe. Traduz um conjunto de aspectos
positivamente avaliados em uma sociedade: a riqueza (ou propriedade), o poder (ou
influência) e o prestígio (ou valor sociocultural) atribuídos a quem ocupa determinada
posição social.

• Abordagem que combina aspectos das propostas de Marx e de Weber.


• A classe capitalista controla os investimentos (o capital) e os meios físicos de produção, além de
ter poder sobre a mão de obra.
Erik Olin Wright • Os trabalhadores não detêm controle sobre os meios de produção (terra, subsolo, insumos,
(1947-) água, equipamentos, instalações, etc.).
• Os responsáveis pelo trabalho administrativo (os chamados trabalhadores de colarinho branco)
são os gerentes do trabalho e têm uma posição contraditória: ora defendem os interesses dos
patrões, ora os dos empregados.

• Os grupos de classe são identificados pelos níveis de acesso a bens materiais e simbólicos (ou
seja, não materiais, como os bens culturais). A ênfase da teoria da distinção de classe está no
consumo típico de uma sociedade de massa.
• A distinção social é a diferenciação que existe entre indivíduos e grupos, e não se baseia apenas
Pierre Bourdieu
em fatores econômicos ou ocupacionais.
(1930-2002)
• Os grupos de classe agregam ao capital econômico (material) um legado relativo ao
conhecimento e à cultura (iniciação à Ciência, à Arte, à Literatura). Buscam prestígio e
ascensão social, desenvolvem gostos culturais e atividades de lazer, definindo padrões de
consumo e um estilo de vida próprio.

No Brasil, neste início do século XXI, tem chamado a atenção dos cien-
tistas sociais a emergência do que se denominou uma “nova classe social”.
Ou seja, um segmento da população obteve uma mobilidade social ascen-
dente pela facilidade de acesso a bens de consumo e a novos hábitos sociais,
marcando posição por seu poder aquisitivo. A indagação que se coloca é:
será essa realmente uma “nova” classe social ou apenas um estrato social que
se destaca no consumo de bens e serviços, sem que haja alteração na estru-
tura de classes e nas desigualdades da sociedade brasileira?

A Sociologia busca compreender a estrutura social mais ampla, mas também


as relações entre as classes sociais, próprias da sociedade capitalista.

20 • CAPÍTULO 1

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Desigualdade social e dominação
Marcelo Ximenez/Agência Estado

A desigualdade social está


presente em todo o mundo. No
Brasil, por exemplo, enquanto
alguns cidadãos têm acesso a
moradias seguras e a condições
dignas de sobrevivência, outros
se veem forçados a morar em
regiões sujeitas a enchentes,
correndo o risco de terem suas
casas inundadas e seus pertences
destruídos. Na foto de 2008,
vista de casas construídas ao
lado do córrego Tabatinguera,
em São Paulo.

Por ser considerada injusta e desumanizadora, a desigualdade tem sido


criticada e combatida em diversas instâncias da sociedade. Ela se apresenta
nas situações do cotidiano, como nas relações de classe, em que a classe tra-
balhadora se encontra subordinada ao capital, e também nas relações de
gênero, como a histórica opressão masculina, em tempos e sociedades diver-
sas. Há desigualdade também nas relações entre as diferentes etnias, princi-
palmente na exploração dos europeus do século XIX sobre os latino-ameri-
canos, asiáticos e africanos; ou, ainda, na dominação dos Estados Unidos
sobre os países da América Latina no século XX. Laerte/Acervo do cartunista

Charge do cartunista Laerte,


publicada no jornal Folha de
S.Paulo, em 2010, sobre
relações de gênero.

As múltiplas expressões da desigualdade revelam o fenômeno da domi-


nação social. Em sua origem sociológica, esse fenômeno foi tratado por Max
Weber como a probabilidade de encontrar submissão a uma determinada
ordem por diversos motivos: conveniência ou mera inclinação pessoal ou
costume. Mas, nas relações sociais, em geral, a dominação apoia-se em bases
jurídicas que lhe dão “legitimidade”. Nesse aspecto, a constituição do Esta-
do como organizador do poder político institucionalizado contribui para
um complexo ordenamento de deveres e direitos na sociedade.
Viver na sociedade contemporânea: a Sociologia se faz presente • 21

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Em sua teoria da dominação, Weber reconhece três tipos puros de domi-
nação social: a legal (presente na obediência às leis e às ações da burocracia,
ou seja, da administração pública), a tradicional (presente na relação entre
senhor e súditos) e a carismática (proveniente da devoção afetiva a um lí-
der/herói, em função de virtudes pessoais).
A dominação é fenômeno de comando de um grupo sobre outro e su-
põe que os dois lados estejam condicionados a essa situação, pondera o so-
ciólogo brasileiro Pedro Demo (1941-). Nessa lógica, há os dominantes e os
dominados, o que não signi1ca que estes não se rebelem. Leia e re2ita sobre
o fenômeno, sempre presente e atual na sociedade.

A dominação, como desigualdade, é fenômeno dialético, porque estabelece


uma “identidade de contrários”. Quer dizer, os dois lados se repelem, porque são
desiguais, mas se atraem, porque um não existe sem o outro. Há nele uma dose de
tensão que o torna histórico [...]. Cabem nele também os fenômenos de influência
consensual como podem ser encontrados num grupo de amigos, numa comunida-
de religiosa, numa família. Aí também existe o fenômeno da liderança, da obediên-
cia, do seguimento de normas. Pelo fato de a autoridade ser aceita ou eleita pela
maioria e até mesmo por aclamação geral, isto não retira o âmago da questão: há
desigualdade.
DEMO, Pedro. Sociologia: uma introdução crítica. São Paulo: Atlas, 1983. p. 27-28.

D E BAT E

Reunidos em grupos, debatam sobre os contrastes sociais vividos pela população


brasileira, com base na letra da música e na leitura deste capítulo.

Todo dia o sol da manhã


vem e lhes desafia,
traz do sonho pro mundo
quem já não o queria:
palafitas, trapiches, farrapos,
filhos da mesma agonia.
E a cidade que tem braços abertos Filipe Rocha/Arquivo da editora

num cartão-postal,
com os punhos fechados na vida real
lhes nega oportunidades,
mostra a face dura do mal.
OS PARALAMAS do Sucesso. Alagados. Os Paralamas do Sucesso, 1986. EMI.

No dia a dia podemos perceber o quanto a sociedade brasileira reproduz


formas de discriminação a indivíduos de grupos sociais distintos. Assim co-
mo as mulheres, os afrodescendentes são historicamente discriminados no
mercado de trabalho e em outras instituições. Os meios de comunicação e o
sistema educacional muitas vezes reforçam essas formas de discriminação
social, reproduzindo a desigualdade. Nos anúncios publicitários, por exem-
plo, pardos e negros aparecem em pequeno número, embora constituam

22 • CAPÍTULO 1

Sociologia_vu_PNLD15_009a036_C01.indd 22 5/28/13 8:39 AM


Heuler Andrey/Agif/Folhapress
cerca de metade da população brasileira.
É principalmente no ambiente escolar
que os jovens constroem e rea1rmam
sua identidade, como estudaremos no
capítulo 9. Os estudos sociológicos sinali-
zam que devem ser oferecidas oportuni-
dades aos jovens para que possam se ex-
pressar e discutir sobre as diferenças
sociais, conforme veremos no capítulo
10 deste livro.
No entanto, o que se observa na prá-
tica é que as coisas nem sempre ocorrem
como o esperado. Muitas vezes o acesso
ao ensino garante participação diferen-
ciada para os grupos sociais, reproduzin-
do tendências elitistas. As classes domi-
Manoel, do Atlético-PR, durante
nantes, intelectual, política e economicamente, procuram garantir aos
jogo pelo Campeonato
membros de suas famílias a ocupação de posições privilegiadas. Para isso, Brasileiro de 2010. Em 2012,
investem para que seus 1lhos estudem em instituições onde convivem ape- o atleta venceu processo por
nas com outros jovens da mesma classe, o que contribui para a reprodução injúria qualificada contra um
jogador que lhe dirigiu ofensas
da riqueza e dos privilégios sociais. racistas durante uma partida
em 2010.
Para além da desigualdade de classes, a nossa sociedade é desigual na forma
como se estabelecem as relações étnico-raciais, as relações de gênero e uma
série de outras relações simbólicas.

PAUS A PA R A R E F L E T I R

Angeli/Folha de S.Paulo
Observe esta charge do cartunista Angeli.
• Em grupos, descrevam a charge e discutam o
seu signi1cado sociológico, respondendo no
caderno às seguintes questões:
a) Qual é a posição do autor da charge em
relação ao preconceito?
b) Como a charge se relaciona com o conceito
sociológico de dominação? Que mecanismo
descrito no capítulo melhor se relaciona à
ideia trazida pelo cartunista?

Viver na sociedade contemporânea: a Sociologia se faz presente • 23

Sociologia_vu_PNLD15_009a036_C01.indd 23 5/28/13 8:39 AM


A distribuição das riquezas produzidas
A análise dos fenômenos das classes sociais e da também por novas formas de exclusão social, como
dominação social coloca-nos diante da presença de estudaremos mais adiante.
ricos e pobres em nossa sociedade. O
Brasil: renda per capita (2010)
Brasil é um dos países com maior con-

Portal de Mapas/Arquivo da editora


50° O
centração de renda no mundo, pois há
uma substancial diferença de valores
entre os rendimentos e as posses dos
RORAIMA
mais ricos e os dos mais pobres. É per- Equador AMAPÁ

versa e injusta a nossa distribuição de
renda e de oportunidades sociais. Co- RIO
GRANDE
DO NORTE
mo se pode observar no mapa, a renda AMAZONAS PARÁ
MARANHÃO CEARÁ

per capita entre os estados brasileiros PARAÍBA


PIAUÍ PERNAMBUCO
também é muito desigual.
ACRE ALAGOAS
O problema da distribuição das ri- RONDÔNIA
TOCANTINS
SERGIPE
quezas é histórico-estrutural no Brasil BAHIA
MATO GROSSO
e decorre de fatores como a herança Valor do rendimento
médio mensal (R$)
DF
do sistema escravista e a falta de re- Total GOIÁS
formas sociais, econômicas e políticas. 588 a 684 MINAS
GERAIS
ESPÍRITO
MATO SANTO
A exclusão histórica afeta parcelas sig- 685 a 826 GROSSO
DO SUL
SÃO PAULO
nificativas da população empobreci- 827 a 1 045 Trópico de Capricórnio RIO DE JANEIRO

da, compostas de famílias numerosas 1 046 a 1 285


PARANÁ OCEANO
que vivem o drama da fome e do anal- 1 286 a 2 177 SANTA ATLÂNTICO
CATARINA
fabetismo. Desde a década de 1990, Por sexo
RIO GRANDE
milhões de desempregados escolari- Homens DO SUL

zados e qualificados são atingidos Mulheres

Por cor ou raça 2 857 0 460 km

Branca 1 534
Fonte: IBGE. Indicadores de desenvolvimento sustentável
Preta ou parda 468 2010. Disponível em: <www.ibge.gov.br/home/geociencias/
recursosnaturais/ids/ids2010.pdf>. Acesso em: 16 jan. 2013.

Segundo o pensamento sociológico tradicional, elite refere-se a uma fração


da classe dominante que detém o poder, impõe seus padrões culturais, econô-
micos e/ou políticos à população e dela se mantém distante. Ao empregar o
termo pela primeira vez, em 1902, no livro Os sistemas socialistas, o sociólogo
italiano Vilfredo Pareto (1848-1923) insti-
Ruy Barbosa Pinto/Flickr/Getty Images

tuiu a conhecida teoria das elites. Ele dis-


tingue a elite ampla – o conjunto de indi-
víduos que chegou a um escalão elevado
da hierarquia pro1ssional – de uma elite
governante – um grupo mais restrito de
indivíduos da elite ampla que exerce fun-
ções de direção política.
Vista aérea da avenida Lúcio Costa e entorno no bairro da
Barra da Tijuca (RJ). Foto de 2012. Distante da zona
central da cidade e próxima à praia, a região viu surgirem,
nas últimas décadas, empreendimentos residenciais que
oferecem diversos serviços aos moradores sem que eles
tenham de sair do condomínio. Para Vilfredo Pareto,
a elite impõe seus padrões ao restante da população
e dela se mantém distante.

24 • CAPÍTULO 1

Sociologia_vu_PNLD15_009a036_C01.indd 24 5/28/13 8:39 AM


Permanece na cultura brasileira e em outros países a ideia de que a busca
e a obtenção de oportunidades dependem exclusivamente do querer e da
vontade de cada um. Assim, a responsabilidade de conseguir instrução, for-
mação pro1ssional e emprego é transferida aos indivíduos. Mas será que boa
formação pro1ssional e alto grau de instrução garantem empregos e salários
condizentes? A resposta nem sempre tem sido positiva. Hoje, mais do que em
outros períodos, a ênfase dada à educação como meio de ascensão na socie-
dade parece insu1ciente para garantir oportunidades para todos.
Os autores do texto a seguir chamam a atenção para a sutileza do fenô-
meno da dominação social. Leia-o com atenção.

Histórica e concretamente, deparamo-nos, no Brasil, com uma sólida relação


entre domínios econômico, político e ideológico, por parte de minorias poderosas
que desenvolvem contínuo trabalho de legitimação e reforço da posição que ocu-
pam, valendo-se das instituições da sociedade civil, do aparelhamento do estado e
de peculiares estratégias econômicas, arregimentando a sociedade em torno de
um conjunto de ideias e valores que sustentam, simbolicamente, uma forma de
produzir, organizar e distribuir os bens sociais de maneira extremamente desigual.
CATTANI, Antonio; KIELING, Francisco. A escolarização das classes abastadas. Sociologias, Porto Alegre, ano 9, n. 18, jun.-dez./2007, p. 170-187.
Disponível em: <www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1517-45222007000200009>. Acesso em: 10 jan. 2013.

O estudo da Sociologia nos revela os mecanismos de poder e as tentativas,


por parte das classes dominantes, de nos fazer acreditar que esses fenômenos
são algo “natural”. Por essa razão, o sociólogo francês Pierre Bourdieu diz
que o conhecimento exerce um efeito libertador: por meio dele a sociedade
re2ete e volta o olhar sobre si; seus agentes sociais descobrem o que são e o
que fazem.

D E BAT E

• Considerando o que foi exposto neste capítulo, em especial no item “Desigualda-


de social e dominação”, você vai realizar uma atividade de júri simulado com seus
colegas. Os temas debatidos serão:
– Por que os jovens brasileiros têm di1culdade para encontrar espaço no mer-
cado de trabalho?
– Será o trabalhador o único responsável por seu aprimoramento pro1s-
sional?
a) Antes de tudo, será necessário: formar uma equipe para apresentar argumen-
tos e evidências que contribuam para a defesa de um ponto de vista; escolher
um juiz para coordenar os trabalhos; formar um grupo, o corpo de jurados,
devendo votar as diferentes opiniões mediante justi1cação do voto.
b) Para se preparar para o debate, realize, com a orientação do professor, pesqui-
sa e leituras prévias sobre:
– o papel do Estado na promoção de educação formal e pro1ssionalizante aos
jovens brasileiros.
– o discurso da quali1cação, que responsabiliza o trabalhador pelo próprio
desemprego e por não investir na própria formação e quali1cação.
c) Sistematize as informações de sua pesquisa para utilizá-las no debate.

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Pensamento sociológico sobre o Brasil
No Brasil, a Sociologia firmou-se como Ciência em Brasil (1942) e Cruz das almas (1951), também trouxe-
resposta às indagações da sociedade, descortinando a ram sua contribuição. Cientista social importante, o
diversidade cultural, as desigualdades sociais, as dife- antropólogo francês Claude Lévi-Strauss (1908-2009)
renças regionais. Perspectivas analíticas diversas com- viveu no Brasil e produziu trabalhos sobre os indíge-
preendem e explicam os grupos e as classes sociais em nas, entre eles, Tristes trópicos (1955).
sua situação histórica, como fez o sociólogo brasileiro Após a década de 1930, a temática sociocultural
Florestan Fernandes (1920-1995), para quem o conheci- esteve presente em interpretações com diferenças teó-
mento sociológico crítico é capaz de alertar a consciên- rico-metodológicas e ideológicas. Obras consagradas,
cia social sobre o curso dos acontecimentos históricos. como Evolução política do Brasil (1933) e Formação do
A estrutura social, a formação econômica e políti- Brasil contemporâneo (1942), de Caio Prado Júnior
ca, as relações de trabalho, o processo de industrializa- (1907-1990), Casa-grande & senzala (1933), de Gilberto
ção do país, a dinâmica rural-urbana e outras questões Freyre (1900-1987), e Raízes do Brasil (1936), de Sérgio
relacionadas à diversidade de um país de proporções Buarque de Holanda (1902-1982), marcaram a institu-
continentais: estas foram algumas das temáticas abor- cionalização da Sociologia no país e levaram gerações
dadas pelos intelectuais do século XX que se debruça- a conhecer as origens europeia, africana e indígena do
ram sobre a nossa realidade. povo brasileiro.
Alguns autores brasileiros do início do século pas- As preocupações culturais dessas análises socioló-
sado mesclaram estudos de história, política e socieda- gicas deram lugar, ao longo do século XX, às questões
de para o reconhecimento de uma identidade cultural políticas, como a formação da nação e das instituições
da nação, na tentativa de apreender um sentimento de e a atuação do Estado brasileiro. Muitos estudos sobre
“brasilidade”. Entre eles, destacam-se Silvio Romero o desenvolvimento econômico e social, realizados em
(1851-1914), com Ensaios de Sociologia e literatura meados desse século, analisaram a questão agrária e a
(1901), Euclides da Cunha (1866-1909), autor de Os ser- modernização da sociedade, a formação da classe ope-
tões (1902), e Oliveira Vianna (1883-1951), que escre- rária e do empresariado industrial, o nacionalismo eco-
veu Populações meridionais nômico, o sindicalismo e os
Reprodução autorizada por João Candido Portinari/Imagem do acervo do Projeto Portinari/Coleção particular

do Brasil (1920). governos ditos “populistas”,


Também autores estran- entre outros temas. Dessa ge-
geiros pesquisaram a socie- ração destacam-se: Florestan
dade no Brasil e aqui fizeram Fernandes, Hélio Jaguaribe
escola, como o sociólogo (1923-), Celso Furtado (1920-
francês Roger Bastide (1898- -2004), Octavio Ianni e Juarez
-1974), um dos cientistas so- Brandão Lopes (1925-2011).
ciais que integraram a mis- Outro tema que marcou
são europeia trazida à Uni- os estudos sociológicos bra-
versidade de São Paulo (USP), sileiros foi a história social do
em 1938. Lecionou Sociolo- trabalho no país, do escravo
gia, especializou-se no estu- ao trabalhador livre, do ho-
do de religiões afro-brasilei- mem do campo ao da cidade,
ras e foi parceiro de Florestan além de análises da composi-
Fernandes na obra Brancos e ção étnica da classe traba-
negros em São Paulo (1958). lhadora. Diversas pesquisas
O francês Jacques Lambert, foram publicadas, como As me-
autor de Os dois Brasis (1959), tamorfoses do escravo (1962),
e o norte-americano Donald de Octavio Ianni, A integração
Pierson (1900-1995), que es- do negro na sociedade de clas-
creveu Teoria e pesquisa em Retirantes, óleo sobre tela de Candido Portinari, de 1944, ses (1965), de Florestan Fer-
Sociologia (1965), Negros no revela o olhar do artista sobre as questões sociais do país. nandes, História econômica

26 • CAPÍTULO 1

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Fundação Gilberto Freyre, Recife, Pernambuco.
do Brasil (1953), de Caio Prado Júnior, Sociedade in-
dustrial no Brasil (1964), de Juarez Brandão Lopes, e
A imigração e a crise do Brasil agrário (1973), de José
de Souza Martins (1938-).
Na transição do século XX para o XXI, alguns
dos temas tratados pelos sociólogos brasileiros fo-
ram a transição da sociedade agroexportadora pa-
ra a urbano-industrial, o preconceito racial no país
e a relação entre a realidade local e a global.

Casa-grande do Engenho Noruega, antigo


Engenho dos Bois, em Pernambuco.
Ilustração aquarelada de Cícero Dias para
a primeira edição do livro Casa-grande &
senzala, de Gilberto Freyre, 1933.

PESQUISA

Em grupos, sua turma vai realizar uma pesquisa bibliográ1ca sobre um ou mais so-
ciólogos brasileiros.

1. O professor realizará uma enquete em sua turma com o tema: “Qual é a principal
preocupação da comunidade, bairro ou cidade onde você vive?”.

2. Uma vez tabulado o resultado, os grupos pesquisarão como a Sociologia brasilei-


ra estuda a questão mais indicada pela enquete.
a) Descubram qual(is) sociólogo(s) apresentado(s) no boxe “Pensamento socio-
lógico sobre o Brasil” tratou(aram) dessa questão. Então, com a orientação do
professor, pesquisem textos (do próprio autor e/ou de comentaristas) que
expliquem como esse problema é abordado pelo(s) autor(es) selecionado(s).
b) Elaborem um relatório que sintetize as principais contribuições do(s) autor(es)
pesquisado(s) com relação a esse tema. Apresentem, também, uma biogra1a
resumida dele(s), destacando sua trajetória, suas principais obras publicadas e
outros temas estudados por ele(s).

Globalização e novas questões sociais


As novas questões sociais colocadas pelo acelerado processo de mudan-
ças nas últimas décadas dizem respeito aos fenômenos ligados à globalização
econômica, à exclusão social, ao crescimento do desemprego e aos avanços
da Ciência e das tecnologias de informação. Outras questões também ga-
nham espaço nas discussões sociológicas, como o esgotamento dos recursos
naturais do nosso planeta, os desa1os para chegar ao respeito à diversidade
e à coexistência pací1ca e integração entre as diferentes etnias, e o aprofun-
damento das desigualdades no interior das nações e entre os países.

Viver na sociedade contemporânea: a Sociologia se faz presente • 27

Sociologia_vu_PNLD15_009a036_C01.indd 27 5/28/13 8:39 AM


Tim Graham/Getty Images

Contraste entre a riqueza e a


pobreza em Mahalaxmi, bairro de
Mumbai, Índia. Foto de 2011. As
aceleradas mudanças vistas nas
últimas décadas ainda não se
refletiram em soluções
abrangentes para os problemas
de infraestrutura, desemprego,
baixa remuneração e falta de
serviços sociais de qualidade que
afetam bilhões de pessoas.

Ainda que apareçam novas questões sociais, como a da globalização,


muitos problemas que a sociedade de hoje enfrenta provêm de fenômenos
anteriores, entre eles a desigualdade social e as alterações no mundo do
trabalho. Leia com atenção este texto sobre o contraste da realidade social
que o cientista político argentino Atílio Boron (1943-) nos apresenta.

Ainda vivemos num mundo onde metade da humanidade deve sobreviver com
pouco mais de um dólar por dia, ou em que o trabalho infantil sob regime de servi-
dão supera com folga o número total de escravos existentes durante o apogeu da
escravidão entre os séculos XVII e XVIII; onde pouco mais da metade da população
mundial carece de acesso a água potável; ou onde o ambiente e a natureza são
agredidos de modo selvagem.
BORON, Atílio. Filosofia política marxista. São Paulo: Cortez; Buenos Aires: Clacso, 2003. p. 43-44.

A globalização é um fenômeno político-social com dimensões culturais,


acentuado a partir das últimas décadas do século XX. Caracteriza-se pela
internacionalização das economias, possibilitada pelas novas tecnologias de
informação, como a rede mundial de computadores. Nesse processo em es-
cala mundial, as relações sociais se intensi1cam; localidades distantes se li-
gam e acontecimentos locais interferem e sofrem interferência de fatores de
outras partes do mundo.
Teorias recentes sobre a desigualdade social e econômica atribuem a
responsabilidade por mudanças nas condições de vida e na posição social
dos indivíduos e grupos sociais às modi1cações que a globalização causou.
O sociólogo português Boaventura de Sousa Santos (1940-) destaca serem
muitas as formas da globalização. Reconhece duas principais: a) o localismo
globalizado, em que um fenômeno local é disseminado com sucesso, como a
alimentação fast-food estadunidense, que foi levada ao resto do mundo; b) o
globalismo localizado, que é um re2exo, nas condições de vida locais, de prá-
ticas transnacionais (ou seja, de práticas que ultrapassam o espaço de um

28 • CAPÍTULO 1

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único país: por exemplo, a instalação de grandes empresas numa região, o
que, às vezes, modi1ca ou até destrói a economia local).
Nessa linha de raciocínio, Santos identi1cou uma divisão internacional
dos países em relação à globalização. Os países desenvolvidos, aqueles que
historicamente têm garantida sua posição na economia mundial, especiali-
zam-se nos localismos globalizados, isto é, eles disseminam valores, compor-
tamentos e hábitos culturais, bem como empresas e domínios econômicos.
Já os países em desenvolvimento estão sob os efeitos da globalização e so-
frem com as imposições de fora para dentro. São países que recebem in2u-
ências externas e também exercem, em maior ou menor grau, alguma in2u-
ência para além de seus territórios. O Brasil é um desses países onde
coexistem localismos globalizados e globalismos localizados. Nesse caso, é
um país emergente que está se inserindo de forma mais efetiva na economia
globalizada nas últimas décadas, e cria localismos globalizados em países de
maior fragilidade política, social e econômica como alguns países vizinhos
latino-americanos.
A globalização se mostra um campo de con2itos entre os grupos sociais,
os Estados e aqueles que se encontram em posição subalterna. Mas os proces-
sos de globalização não acontecem sem resistências, ao contrário, Estados-
-Nações, regiões, classes ou grupos sociais lutam contra as trocas desiguais
entre os países, a exclusão social, a dependência e a desintegração.
O mundo globalizado desa1a os cientistas sociais a apreenderem a diver-
sidade de acontecimentos, em diferentes níveis. Vivemos um turbilhão de
situações e informações e somos instados a ter consciência dos fatos, ao mes-
mo tempo que eles acontecem. As Ciências Sociais procuram explicar e ca-
racterizar o processo e as mudanças sociais decorrentes da globalização, co-
mo leremos na próxima página.

A Sociologia está ligada ao tempo presente e às questões sociais


emergentes, mas atenta à estrutura social que permanece, sendo uma
ciência que dialoga com a História.
Jasper Juinen/Getty Images

Manifestantes ocupam a Plaza del


Sol, na região central de Madri,
capital da Espanha, em 19 de maio
de 2011, em protesto contra as
desigualdades e o desemprego
resultantes da globalização
econômica. O movimento dos
“indignados” é um dos vários
surgidos no mundo após a crise
financeira de 2008, que atingiu
seriamente a economia espanhola,
entre outras.

Viver na sociedade contemporânea: a Sociologia se faz presente • 29

Sociologia_vu_PNLD15_009a036_C01.indd 29 5/28/13 8:39 AM


Matizes da globalização

Malcolm Evans/Acervo do cartunista


TUDO COBERTO, NADA COBERTO,
A NÃO SER OS A NÃO SER OS
OLHOS. QUE OLHOS. QUE
CULTURA MAIS CULTURA MAIS
CRUEL E CRUEL E
MACHISTA! MACHISTA!

Ch
Charge d
do cartunista
t i t neozelandês
l dê EEvans que expõe
õ um llado
d ddas dif
diferenças na
sociedade contemporânea.

Embora a globalização possa ser associada a com- ções são um fenômeno de grandes proporções; a
portamentos sociais que se expandem e tendem a se economia corporativa global é a forma econômica
padronizar, estes movimentos não se dão de forma li- dominante e mais estudada de globalização, mas é
near e unilateral. As sociedades têm visto um reforço apenas uma delas.
nas diferenças, umas em relação às outras e mesmo O que estamos tentando nomear com a palavra glo-
internas. Esses processos interculturais favorecem a balização? [...] ela abrange dois conjuntos distintos de
reflexão sobre a própria cultura e o questionamento dinâmicas. O primeiro envolve a formação de processos
de processos econômicos e sociais no âmbito do pró- e instituições explicitamente globais, como a Organiza-
prio país. Permitem também o aprendizado de colo- ção Mundial do Comércio (OMC), mercados financeiros
car-se no lugar do outro, do diferente, e respeitar ou- globais, o novo cosmopolitismo e os Tribunais Penais In-
tros grupos e culturas. ternacionais de Guerra. As práticas e formas de organi-
Nas sociedades contemporâneas, várias possibili- zação pelas quais operam essas dinâmicas constituem o
dades de organização familiar, de trabalho, de partido que geralmente se concebe como global. Embora ocor-
político, de relações de gênero, de religiões, de agrupa- ram parcialmente na escala nacional, são, em larga me-
mentos étnico-culturais, de cidades, de empresas, entre dida, formações globais novas e evidentemente globais.
outros, coexistem sem que uma só predomine. As ações O segundo conjunto de dinâmicas envolve [...] re-
sociais são vividas de forma múltipla e simultânea. des e entidades transfronteiriças que conectam diver-
Em oposição ao projeto de globalização econô- sos processos e atores locais ou “nacionais”, ou a recor-
mica liderado pelos países ricos, surgem movimen- rência de questões ou dinâmicas específicas em um
tos contra-hegemônicos, entre eles o Fórum Social número cada vez maior de países ou localidades. Entre
Mundial, que envolve movimentos sociais em favor essas entidades e processos, estão, por exemplo, redes
de diversas causas (ambientalistas, feministas, traba- transfronteiriças de ativistas envolvidos em disputas
lhistas internacionais, defensores dos direitos huma- específicas e localizadas com uma agenda global explí-
nos, entre outros) na construção de formas de resis- cita ou implícita, como ocorre com muitas organiza-
tência, como veremos no capítulo 8 deste livro. ções de direitos humanos e ambientais; determinados
As Ciências Sociais investigam esse conjunto de aspectos do trabalho nos Estados Unidos – por exem-
processos e instituições em escala global e dão-nos a plo, a implementação de certas políticas monetárias e
conhecer os matizes dessa dimensão ampliada da fiscais em um número crescente de países, muitas vezes
sociedade, como o faz o antropólogo cultural india- com grande pressão do Fundo Monetário Internacional
no Arjun Appadurai (1949-). As múltiplas globaliza- (FMI) e dos Estados Unidos. [...]
SASSEN, Saskia. Sociologia da globalização. Porto Alegre: Artmed, 2010. p. 11-12.

30 • CAPÍTULO 1

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E N C O N T R O C O M O S C I E N T I S TA S S O C I A I S

O texto a seguir aborda um dos muitos desa1os para a Sociologia hoje. Após a leitu-
ra, re2ita e responda às questões.

A globalização do mundo recria o objeto da Sociologia [...]. Como a globaliza-


ção abala os quadros sociais e mentais de referência, os horizontes que se abrem
com esse vasto, complexo e surpreendente processo permitem repensar critica-
mente os conhecimentos já acumulados sobre a sociedade nacional e o indivíduo
[...]. A Sociologia pode ser vista como uma forma de autoconsciência da realidade
social. Essa realidade pode ser local, nacional, regional ou mundial, micro ou ma-
cro, mas cabe sempre a possibilidade de que ela possa pensar-se criticamente,
com base nos recursos metodológicos e epistemológicos que constituem a Socio-
logia como uma disciplina científica. Isto significa que a Sociologia tem contribuí-
do para pensar e constituir a sociedade nacional em várias modalidades, com-
preendendo a sociedade civil e o Estado, os grupos sociais e as classes sociais, os
movimentos sociais e as correntes de opinião pública, as formas de integração e
os modos de antagonismos, as tensões e as lutas, as reformas e as revoluções, as
tiranias e as democracias.
IANNI, Octavio. A Sociologia numa época de globalismo. In: FERREIRA, Leila (Org.). A Sociologia no horizonte do século XXI.
São Paulo: Boitempo, 2002. p. 24-25.

1. Você concorda com o autor quando ele a1rma que “a globalização do mundo
recria o objeto da Sociologia”? Justi1que sua posição.
2. Você conhece alguma experiência de produção ou trabalho local que tenha refe-
rência em nível global? Relate-a em um texto sucinto.

O trabalho como grande questão social da globalização


O sociólogo francês Robert Castel (1933-) localiza nas transformações
do mundo do trabalho, sobretudo nas últimas décadas do século XX, gran-
des ameaças que assombram a sociedade contemporânea: o crescimento do
desemprego, a precarização do trabalho, a fragmentação da classe trabalha- uivo da editora
Filipe Rocha/Arq
dora, o comportamento individualista, entre outras que estudaremos no ca-
pítulo 4. Esses fatores deixam parte da população mundial sem perspectivas
de inclusão social, ou seja, de ter acesso a e de participar de determinadas
instituições ou instâncias da sociedade, como o sistema educacional, o cui-
dado com a saúde, os direitos sociais básicos. Políticas públicas de habitação,
educação, trabalho são exemplos de meios para promover a inclusão social
e atenuar as desigualdades sociais.
A desigualdade no âmbito do trabalho vem sendo intensi1cada à medida
que se ampliam os postos de trabalho precários, ou seja, sem estabilidade e
com menos garantias para o trabalhador. Também se reduzem os empregos
formais – no caso brasileiro, aqueles com carteira assinada e/ou cargos pú-
blicos concursados. A diminuição da estabilidade salarial, que signi1ca salá-
rio 1xo e pago em determinado dia do mês, tem provocado questões sociais
preocupantes nas últimas décadas. Uma parcela dos trabalhadores se vê
ameaçada de perder o emprego devido às oscilações no mercado de traba-
lho ou ainda pelo fato de suas pro1ssões correrem o risco de desaparecer.

Viver na sociedade contemporânea: a Sociologia se faz presente • 31

Sociologia_vu_PNLD15_009a036_C01.indd 31 5/28/13 8:39 AM


Rubens Chaves/Acervo do fotógrafo

Isso ocorre com maior frequência nos países po-


bres e emergentes, onde se concentram os empregos
menos quali1cados devido à divisão internacional do
trabalho. Esse fenômeno se iniciou com os países de
economia desenvolvida e suas colônias, no século
XVI, e hoje está ligado à globalização econômica. No
modelo atual, as empresas transnacionais optam por
estabelecer 1liais de suas indústrias em regiões que
oferecem mão de obra farta e barata. As condições
precárias do mercado de trabalho dos países menos
desenvolvidos favorecem, assim, a ampliação dos lu-
cros. São consequências desse processo: o desempre-
go, uma classe trabalhadora com grandes diferenças
Ambulante vende cangas, internas quanto à quali1cação e às condições de trabalho (o que contribui
chapéus e outros artigos em
para desuni-la) e a desigualdade que se aprofunda entre as classes sociais.
praia do Guarujá (SP), em 2008.
Uma das questões sociais A situação de desemprego e a precariedade no mercado de trabalho, no
emergentes no mundo entanto, não se restringem aos países pobres ou em desenvolvimento. Basta
contemporâneo é a diminuição observar que a crise econômica de 2008 iniciou-se nos Estados Unidos e
dos postos formais de trabalho
e a ampliação do mercado alastrou-se para outras economias desenvolvidas, o que aprofundou a crise
informal. Como este, milhares social também em países europeus.
de trabalhadores também Atualmente há um deficit de postos no mercado de trabalho: não há espa-
praticam atividade informal
ço para idosos ou jovens sem experiência e para aqueles que não possuem
para obter renda.
quali1cação. Esses são os “excluídos” do sistema capitalista, a1rma Castel: não
estão integrados socialmente, não produzem e nem consomem, como estuda-
remos no capítulo 8. A inutilidade social daqueles que não têm lugar no mer-
cado de trabalho também os desquali1ca em outras esferas da sociedade, co-
mo a participação política, conforme veremos no capítulo 7. Esses indivíduos
1cam desprovidos da cidadania, o que agrava as desigualdades sociais.

D E BAT E

Leia o texto a seguir e discuta com a turma as razões para a situação descrita no
texto do engenheiro brasileiro Gilberto Dupas (1943-2009).
Do lado social, a forte inserção da região [América Latina] na lógica global na década
que passou acelerou a deterioração dos seus indicadores [sociais]. Segundo o boletim
Panorama da América Latina (2002-2003), da Comissão Econômica para América Latina
e Caribe (Cepal), a população latino-americana abaixo da linha de pobreza evoluiu su-
cessivamente de 41% do total em 1980 (136 milhões de pessoas) para 43% em 2000
(207 milhões de pessoas); e em 2003 ela já alcançava 44% (237 milhões de pessoas). Já o
índice de população indigente crescia de 19% em 2001 para 20% em 2003. Esse número
teve forte influência da Argentina, onde a taxa de pobreza duplicou de 1999 a 2003 (de
20% para 42%) e a indigência quase quadruplicou (de 5% para 19%). Por outro lado, o
Programa Mundial de Alimentos (ONU), operando em parceria com a Cepal, apurou que
quase 9% das crianças menores de cinco anos sofrem de desnutrição aguda e 19% delas
de desnutrição crônica; combinadas, causam efeitos negativos irreversíveis. Apesar da
forte “modernização” das economias dos países latino-americanos, persiste, pois, na re-
gião, um quadro grave e crescente de miserabilidade das suas sociedades.
DUPAS, Gilberto. Atores e poderes na nova ordem global: assimetrias, instabilidades e imperativos de legitimação. São Paulo: Ed. da Unesp, 2005. p. 61.

32 • CAPÍTULO 1

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Sociologia, uma ciência que articula conhecimentos
Estudar Sociologia nos introduz em um atraente universo de ques-
tões e nos convida a participar da sociedade como cidadãos. Os seus
apoios conceituais são históricos e contextualizados, relacionados à
compreensão das necessidades locais e coletivas em diferentes momen-
tos. Este livro procura estabelecer essa ponte de entendimento entre as
realidades local e global, os níveis individual e coletivo, a teoria e a re-
alidade empírico-prática, a sociedade ampla e os pequenos grupos so-
ciais, mantendo a ideia de totalidade e das inter-relações que consti-
tuem a sociedade.
Para discutir, por exemplo, problemas como inclusão e exclusão so-
ciais, desemprego, violência urbana e no campo, participação política,
segurança, cidadania, consumo, indivi- Elio Rizzo/Esp. CB/D.A Press

dualismo, educação, saúde, a Sociologia


crítica articula-os teoricamente a fenô-
menos amplos: a mundialização da eco-
nomia, o capitalismo transnacional, as
condições do trabalho, a degradação
ambiental, o Estado neoliberal, a mer-
cantilização posta nas relações sociais,
os conflitos étnico-raciais, a cultura de
massa, os estilos de vida.
A produção sociológica traz para o
debate diferentes concepções teóricas,
responsáveis por explicar questões que a
sociedade se coloca ao longo do tempo;
por isso, não está livre de contradições.
O pensamento sobre a sociedade tem si-
Pessoas fazem fila na
do construído na contraposição de variadas formas de se apreender e inauguração oficial do
compreender o real. Mas essa característica do conhecimento socioló- Restaurante Comunitário do
gico, antes de ser uma fragilidade, mostra como a Sociologia, em dife- Riacho Fundo, região
administrativa do Distrito
rentes épocas, localiza problemas e aponta condições para superá-los. Federal brasileiro. Foto de 2012.
Com sua proposta de “imaginação sociológica”, o sociólogo norte-ameri- Quando muitos indivíduos de
cano Charles Wright Mills (1916-1962) exempli1ca um modo de diferen- uma sociedade são afetados
por uma mesma condição,
ciarmos a relação entre a sociedade que se organiza e os acontecimentos podemos dizer que se trata de
cotidianos na vida dos indivíduos: um fenômeno a ser analisado
criticamente pela Sociologia.
Quando, numa cidade de 100 mil habitantes, somente um homem está desem-
pregado, isso é seu problema pessoal, [...] mas quando numa nação de 50 milhões
de empregados, 15 milhões de homens não encontram trabalho, isso é uma ques-
tão pública e as soluções não podem ser individuais.
WRIGHT MILLS, Charles. A imaginação sociológica. 3. ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editores, 1972, p. 15.

Cabe ao sociólogo, portanto, como agente social ativo, desenvolver uma


re2exão para criticar a sociedade em que vive, levando os indivíduos a pen-
sarem a sua realidade social, experimentando uma avaliação de valores e
compreendendo o sentido cultural das Ciências Sociais.

Viver na sociedade contemporânea: a Sociologia se faz presente • 33

Sociologia_vu_PNLD15_009a036_C01.indd 33 5/28/13 8:39 AM


D I Á L O G O S I N T E R D I S C I P L I NA R E S

Neste primeiro capítulo do livro, apresentamos alguns conceitos


básicos da Sociologia e um pouco de sua história. Vimos que as diferentes
inquietações das Ciências Sociais ao longo do tempo estão relacionadas a
situações de desigualdade e de disputas na sociedade em cada época. Neste
projeto, você vai utilizar ferramentas e conhecimentos da disciplina de His-
tória para investigar um pouco mais sobre as Ciências Sociais.
1. Em grupo ou individualmente, acesse pela internet ou visite presencialmente o
arquivo público de seu estado ou de outro estado do Brasil. Se acessar pela inter-
net, veri1que se há coleções digitalizadas do arquivo disponíveis para visualização
on-line.
2. Escolha um período ou década da história do Brasil no século XX. Faça uma
pesquisa em jornais e revistas da época, prestando atenção às questões sociais e
políticas mais discutidas naqueles anos. Escolha uma das questões que mais cha-
maram a sua atenção.
3. Com a ajuda de seu professor de Sociologia e de pesquisas na internet, faça uma
lista dos principais autores da Sociologia brasileira e estrangeira, na época, que
abordaram o assunto. Busque os principais textos destes autores e faça uma leitura
com seus colegas, sistematizando as ideias mais importantes sobre o tema escolhido.
4. Compare as informações obtidas nas etapas anteriores do trabalho com o que
você conhece sobre o assunto e a situação atual desta questão no Brasil. Busque
responder às seguintes perguntas:
a) A abordagem da mídia sobre o assunto mudou neste tempo?
b) Como os cientistas sociais se posicionavam naquele momento? Isso também
mudou com o tempo?
c) A forma como abordamos a questão nos dias de hoje pode ter sido in2uencia-
da pelas Ciências Sociais de antes?

R E V I S A R E S I S T E M AT I Z A R
1. De que modo a Sociologia demonstrou que as desigualdades não são
algo natural? Explique com suas palavras.
Conceitos-chave: 2. As novas tecnologias e a comunicação em rede afetaram a sociedade nas
Desigualdades últimas décadas e os estudos em Sociologia? Justi1que e exempli1que.
sociais, pobreza,
estrutura social, 3. Por que as classes sociais são um fenômeno estudado pela Sociologia?
mobilidade social, Sintetize algumas das principais teorias a respeito das classes sociais.
classes sociais, 4. O que signi1ca dizer que a desigualdade não se de1ne apenas pela di-
teoria social, divisão
internacional do mensão econômica? Desenvolva o raciocínio tomando como base o
trabalho, sociedade que o tópico trata da sociedade brasileira.
capitalista, status,
estratificação social,
5. De que modo as classes dominantes se mantêm nessa posição social?
classes dominantes, Apresente algumas das estratégias abordadas no capítulo.
elites, dominação 6. A globalização é um processo unilateral? Seus interesses são divergen-
social, globalização,
inclusão social, tes? Re2ita sobre a realidade em que vivemos, estudada neste capítulo,
exclusão social. e justi1que sua posição.

34 • CAPÍTULO 1

Sociologia_vu_PNLD15_009a036_C01.indd 34 5/28/13 8:39 AM


DESCUBRA MAIS
As Ciências Sociais na biblioteca
BAUMAN, Zygmunt. Globalização: as consequências humanas. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1999.
O sociólogo polonês analisa a economia global e seus efeitos sobre as estruturas sociais e também
em nossas percepções de tempo e espaço.
CATTANI, Antonio David; DÍAZ, Laura Mora (Org.). Desigualdades na América Latina: novas perspectivas
analíticas. Porto Alegre: Ed. da UFRGS, 2005.
Este livro interpreta as questões da desigualdade, da pobreza e da exclusão nas sociedades latino-
-americanas.

As Ciências Sociais no cinema


Encontro com Milton Santos ou o mundo global visto do lado de cá, 2007, Brasil, direção de Silvio Tendler.
Documentário traz reflexão sobre a globalização e seus desdobramentos com base em uma entre-
vista com o geógrafo Milton Santos.

Guy Ferrandis/Kobal/The Picture Desk/Agência France-Presse


Oliver Twist, 2005, Reino Unido, direção de Roman Polanski.
A pobreza e suas consequências sociais são retratadas pelas condições dos miseráveis nos
arredores de uma casa de correção da cidade de Londres em sua primeira fase de industrialização.
Vista minha pele, 2004, Brasil, direção de Joel Zito Araújo.
Vídeo ficcional-educativo que conta uma história invertida: os negros são a classe dominante e os
brancos foram escravizados. O enredo desperta uma discussão sobre o racismo, o preconceito e as
desigualdades históricas.

As Ciências Sociais na rede


Biblioteca do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). Disponível em:
<www.ipea.gov.br/biblioteca>. Acesso em: 18 nov. 2012.
Disponibiliza resultados de pesquisas sobre o Brasil atual, incluindo dados sobre emprego, inclusão Cena do filme Oliver Twist
social, desenvolvimento econômico, entre outros. (2005), dirigido por Roman
Centro de Estudos sobre Desenvolvimento e Desigualdade (Cede). Disponível em: <www.proac.uff.br/ Polanski.
cede>. Acesso em: 22 out. 2012.
No site desse grupo de pesquisa da Universidade Federal Fluminense (UFF) constam estudos
sobre a desigualdade social no Brasil e suas implicações para o desenvolvimento.
Por uma globalização justa: criar oportunidades para todos. Ministério do Trabalho e Emprego.
Disponível em: <www.mte.gov.br/rel_internacionais/pub_Resumo-Globalizacao.pdf>. Acesso em:
18 nov. 2012.
Apresenta dados e uma análise consistente dos vários aspectos da globalização e propostas da
Comissão Mundial Sobre a Dimensão Social da Globalização, visando promover o debate acerca
das possibilidades de “um processo de globalização justo e integrador”.
Unesco Brasil. Disponível em: <www.brasilia.unesco.org>. Acesso em: 22 out. 2012.
Portal brasileiro da Unesco apresenta temas ligados à desigualdade social no Brasil.

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Viver na sociedade contemporânea: a Sociologia se faz presente • 35

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36 • CAPÍTULO 1

Sociologia_vu_PNLD15_009a036_C01.indd 36 5/28/13 8:39 AM


Salmo Dansa /Arquivo da editora

Capítulo 2

Sociologia: uma ciência da modernidade


EstudarEmos nEstE capítulo:
o fenômeno sociedade e seu estudo como ciência, iniciado no contexto das revoluções políticas, econômicas e culturais
dos séculos XVIII e XIX. Denominada Sociologia, essa ciência capta a preocupação com a ordem e as mudanças
sociais na modernidade. Veremos como os autores clássicos, principalmente Durkheim, Marx e Weber, chegaram a
conceitos diferentes para o estudo da sociedade com base no conhecimento científico da sua época. Ciência histórica, a
Sociologia elege o seu objeto de estudo e desenvolve métodos para interpretar a complexa realidade social.

37

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Filipe Rocha/Arquivo da editora

Nossa vida em sociedade


No jornal, uma notícia chama a atenção ao informar que uma professora
do Ensino Médio passou a postar na rede mundial de computadores os con-
teúdos das aulas e as atividades a serem realizadas pelos alunos. Além de os
alunos participarem mais intensamente, a iniciativa estimulou a adesão de
alguns pais e ex-alunos. Formou-se o que podemos chamar de um grupo de
interesse.
Uma notícia como essa pode passar despercebida pelos leitores, mas re-
vela algo da sociedade em que vivemos: estamos em interação constante e,
nos dias de hoje, cada vez mais por meio de novas formas de redes sociais de
comunicação.
Marcelo Ferreira/CB/D.A Press

Estudantes durante a volta


às aulas, na Universidade
de Brasília, UnB, em 2012.

Sociedade é, em princípio, uma teia de relações sociais, voluntárias e


contratuais, que envolve comunicação, consenso e diferenças entre os indi-
víduos e os grupos sociais. Estes mantêm laços mediante a língua, a cultura
e o modo como se relacionam e trabalham. Relações sociais, comunicação e
interação são, portanto, componentes fundamentais da vida social.
Acompanhemos o sociólogo alemão Norbert Elias (1897-1990) em sua
observação de uma rua movimentada qualquer, em seu livro A sociedade dos
indivíduos, de 1939:

O que une os indivíduos não é cimento. Basta pensarmos no burburinho das


ruas das grandes cidades: a maioria das pessoas não se conhece. Umas quase nada
têm a ver com as outras. Elas se cruzam aos trancos, cada qual perseguindo suas
próprias metas e projetos. Vão e vêm como lhes apraz. [...] Mas há, sem dúvida, um
aspecto diferente nesse quadro: funcionando nesse tumulto de gente apressada,
apesar de toda a sua liberdade individual de movimento, há também, claramente,
uma ordem oculta e não diretamente perceptível pelos sentidos. [...] A sociedade,
com sua regularidade, não é nada externo aos indivíduos; tampouco é simplesmen-
te um “objeto” “oposto” ao indivíduo; ela é aquilo que todo indivíduo quer dizer
quando diz “nós”.
ELIAS, Norbert. A sociedade dos indivíduos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1994. p. 20-21.

38 • capítulo 2

Sociologia_vu_PNLD15_037a064_C02.indd 38 5/27/13 5:18 PM


Na aproximação, as pessoas podem se valer do contato face a face ou de
outros meios – dos sinais de fumaça de alguns povos, no passado, à atualíssi-
ma comunicação virtual. Ser social é próprio da natureza humana. Por isso os
homens formam unidades sociais como famílias e associações diversas, que
atendem de uma forma organizada às suas necessidades básicas. Essa capaci-
dade de constituir grupos mostra que somos seres fortemente gregários. � gregário: aquele que tende a viver
A mútua influência entre pessoas e grupos com afinidades supõe troca em grupo.
de experiências, uma soma do conhecimento que acumulamos. Quando o
agrupamento de pessoas faz circular as informações, estabelecendo redes
sociais em que os indivíduos compartilham interesses, gostos, opiniões, co-
mo no exemplo anterior da professora e dos alunos, temos o fenômeno da
sociabilidade.
Na sociedade e nos processos de sociabilidade, a interação social desta-
ca-se como meio de manter unidos os grupos e a trama das relações sociais,
sejam estas harmoniosas, sejam conflituosas. O sociólogo alemão Georg
Simmel assim se expressa:

The Granger Collection/TopFoto/Keystone


O que faz com que “a sociedade”, na acepção até agora válida da palavra, seja
sociedade, são, evidentemente, as formas de interação. Uma pluralidade qualquer
de homens não se torna sociedade pelo fato de existir em cada um, isoladamente,
um determinado conteúdo de vida; só quando a vitalidade desses conteúdos ad-
quire a forma de interação, só quando há efeitos recíprocos – imediatos ou media-
tos – a mera coexistência dos homens no espaço ou, também, a sua sucessão no
tempo se tornou sociedade.
SIMMEL, Georg. As formas sociais como objeto próprio da Sociologia. (Soziologie, 3. ed., München und Leipzig, Duncker & Humblot, 1923. p. 3-7.)
In: CARVALHO, Nanci Valadares (Org.). Leituras sociológicas. São Paulo: Vértice, 1987. p. 59.

Essa reciprocidade presente nas relações sociais é a matéria-prima da vi- O sociólogo alemão Georg
da em sociedade. Mas como se definem as relações sociais? De natureza Simmel, em foto de 1901.
abrangente e subjetiva, elas aproximam os sujeitos (indivíduos e grupos) na
realidade imediata e dizem respeito aos seres humanos no processo dos
acontecimentos históricos e à sua ação individualizada. As relações sociais
têm e fazem história, acontecem no tempo e no espaço (físico, social e virtual)
e são consideradas o objeto de estudo, por excelência, da Sociologia.
Como as relações entre indivíduos e entre os grupos não acontecem em
plano de igualdade, mas a partir de posições sociais hierarquizadas, conforme
estudamos no capítulo 1, elas implicam relações de poder. O poder se consti-
tui na capacidade de conseguir algo, de condicionar a vontade de alguém, de
dirigir. Nesse sentido, são exemplos de relações de poder: a sobreposição e
subordinação na relação patrão e empregado; a concorrência entre as empre-
sas; a reprodução de comportamentos variados, como a moda e outros tipos de
consumo; a divisão do trabalho em diferentes tarefas e cargos; a formação de
partidos políticos; a organização de uma comunidade religiosa; uma quadrilha
de assaltantes, agindo contra a população; uma cooperativa econômica de
agricultores; uma escola, onde interagem professores e alunos; a família, com
a convivência entre pais e filhos, ou mesmo entre irmãos, primos, tios, avós.
Estamos falando da vida em sociedades que são históricas e cheias de sig-
nificado para os seus membros. Foi esse viver em comum, com igualdades e
diferenças, que chamou a atenção de alguns intelectuais tradicionalistas, nos
Sociologia: uma ciência da modernidade • 39

Sociologia_vu_PNLD15_037a064_C02.indd 39 5/27/13 5:18 PM


séculos XVIII e XIX. Pensadores como os franceses Louis de Bonald (1754-
-1840) e Joseph de Maistre (1753-1821) buscavam uma explicação para o fer-
vilhar de muitas e grandes mudanças no âmbito da sociedade. Afinal, as revo-
luções se estendiam nas ideias e nas artes (a explicação racional/lógica se
impunha sobre a explicação religiosa), na política (com a queda das monar-
quias), na economia e nas relações sociais (as condições da vida material mo-
derna alteravam-se devido à Revolução Industrial).

o fenômeno sociedade, com suas forças políticas, econômicas, culturais e


religiosas, despertou, em fins do século XVIII, um conhecimento
questionador e sistemático.

Uma ciência originada da transformação


Apesar de ter sido formalmente reconhecida como ciência apenas no
século XIX, a Sociologia deve sua origem ao intenso processo de mudanças
sociais desencadeado pelas revoluções burguesas, especialmente a Primeira
Revolução Industrial (aproximadamente 1750-1850), a Revolução Francesa
(1789) e o Iluminismo, movimento filosófico que embasou as mudanças em
curso (aproximadamente 1650-1800). Por que tais acontecimentos estão re-
lacionados ao surgimento da Sociologia? Justamente por ela estudar as for-
mas de produzir, viver, organizar e pensar a sociedade, áreas profundamen-
te influenciadas por essas revoluções.
� cercamento: processo ocorrido a A Revolução Industrial representou uma significativa alteração na ma-
partir do século XVI pelo qual grandes
neira de produzir, modificando o modo de os seres humanos se relaciona-
e médios proprietários de terra toma-
rem. Fatores como o aperfeiçoamento das técnicas e as inovações tecnológi-
ram para si, com a conivência do Esta-
do, áreas agrícolas de uso comum. Es- cas, a criação da máquina a vapor, a acumulação de capital por parte da
sas áreas foram usadas para criação burguesia em ascensão, o domínio inglês do comércio mundial e a liberação
de ovelhas, com o objetivo de abaste- da mão de obra para as cidades, com o cercamento dos campos na Inglater-
cer de lã as indústrias têxteis. ra, levaram a um acelerado crescimento da população e da produção.
A produção em série de alimentos, tecidos, objetos e máquinas aumen-
tou a oferta e barateou o custo final dos produtos, marcando o declínio do
modo de produção artesanal também no
Photo12/Agência France-Presse

campo. Isso forçou a migração para as


cidades e deu início a um acelerado pro-
cesso de urbanização.
Os camponeses destituídos de suas
terras e os artesãos arruinados passaram
a ser empregados nas fábricas, sujeitan-
do-se aos baixos salários e a extensas jor-
nadas de trabalho. Dessa forma, a Revo-
lução Industrial inaugurou uma situação
de pobreza e desemprego, distinta da de
outras épocas. Consolidava-se o capitalis-
mo, sistema econômico que se caracteri-
za: pela propriedade privada dos meios
Cena do filme Germinal (1993), de Claude Berri, inspirado no romance homônimo
de Émile Zola. Na história, trabalhadores de uma mina de carvão na França em de produção, mediante a divisão técnica
industrialização se revoltam contra as condições subumanas em que vivem. e social do trabalho; pela busca constante

40 • capítulo 2

Sociologia_vu_PNLD15_037a064_C02.indd 40 5/27/13 5:18 PM


de novos mercados; e por apresentar o lucro como principal objetivo, con-
forme estudaremos no capítulo 4. Essa é a perspectiva do filósofo alemão
Karl Marx em sua principal obra, O capital, publicada em quatro volumes
entre 1867 e 1905.
Na Europa, a contínua ascensão da burguesia durante a Idade Moderna � burguesia: classe social composta
levou essa classe a aspirar participar no Estado e no exercício da política – o de comerciantes, banqueiros e indus-
que veio a ocorrer de forma mais ampla com o fim do absolutismo. A Revo- triais, donos dos meios materiais de
lução Francesa (1789), que depôs na França o Antigo Regime, embasado no produção.
“direito divino”, tornou-se o grande símbolo dessa mudança e um marco na
história do Ocidente. Somente quando o pensamento revolucionário intro-
duziu a ideia da igualdade entre os seres humanos e a primazia da raciona-
lidade lógica sobre as explicações religiosas, abriu-se a possibilidade para
fundamentar a vida e as hierarquias em razões sociais, e não em alguma
instância transcendente.

The Bridgeman Art Library/Keystone/Museu Carnavalet, Paris, França.


A simbólica Declaração dos Direitos do Homem e do
Cidadão, de 1789, ainda hoje embasa os estatutos
dos Estados democráticos contemporâneos. Os va-
lores nela expressos tiveram como fundamento o
Iluminismo, movimento intelectual e filosófico
que elegeu a razão como a principal forma de ex-
plicação da realidade.
O Iluminismo foi protagonizado pelo pensamen-
to de filósofos observadores dos comportamentos
sociais, entre eles, os ingleses Thomas Hobbes (1588-
-1679) e John Locke (1632-1704), o escocês David
Hume (1711--1776) e o francês Charles de Montes-
quieu (1689-1755). Marcaram o período também
grandes transformações políticas, o surgimento dos
Estados-nação, a expansão dos direitos civis e a perda
de influência de instituições, como a nobreza e a
Igreja, assentadas em forte e rígida hierarquia. A par-
tir dessas mudanças foi possível elaborar novas bases
para o que hoje entendemos como “ciência”.

Reprodução da Declaração dos Direitos do Homem e do


Cidadão, de 1789, aprovada pelos franceses revolucionários
durante o processo da derrubada da monarquia absolutista.

As bases para uma nova ciência


No século XVII, físicos e matemáticos passaram a tica concederam ao conhecimento científico uma su-
entender que o Universo e a natureza estavam subme- premacia com relação aos demais.
tidos a leis físicas e naturais, ou seja, não resultavam No fim do século XVIII, o método científico foi es-
do que antes se imaginava serem forças divinas. A ex- tendido também ao estudo do ser humano, da socie-
plicação para os fenômenos da natureza passou a ser dade e da cultura. Filósofo da época, o francês Claude
buscada por meio de investigação que os comprovas- Saint-Simon (1760-1825) expressou seu pensamento
se cientificamente e os atestasse como “verdades ab- de que as revoluções científicas acompanham de
solutas” dentro da razão e da lógica empírica, como perto as revoluções políticas e ele podia prever e
proposto pelo filósofo francês René Descartes (1596- pressentia que uma grande revolução científica
-1650). A verificação lógica e a quantificação matemá- ocorreria.

Sociologia: uma ciência da modernidade • 41

Sociologia_vu_PNLD15_037a064_C02.indd 41 5/27/13 5:18 PM


�h
Nasce a Sociologia
Com movimentos revolucionários acontecendo na política, na econo-
mia, nas artes e nas ideias, a sociedade da qual somos herdeiros tornou-se
consciente de seu protagonismo histórico, isto é, de que era capaz de se
pensar e de provocar mudanças de diversas ordens. A própria sociedade
passou então a ser objeto de conhecimento científico. Todos esses movimen-
tos que abalaram os valores e o modo de vida naqueles séculos trouxeram a
necessidade de uma teoria social para explicar a nova realidade.
As mudanças sociais resultam de fatores culturais, políticos, econômicos,
religiosos que intervêm nas diversas dimensões da sociedade, dando-lhe ou-
tro sentido. Na busca por sistematizar um conhecimento sobre como os se-
res humanos se organizam na sociedade, os autores do século XIX partiam
das mudanças para entender a realidade social.

a Sociologia nasceu de uma sociedade que se desenvolvia com base na


razão, na emancipação, no progresso e na representação política, e não mais
apenas na tradição, na explicação religiosa e no domínio da política por um
soberano absoluto.

A Sociologia foi proposta inicialmente como uma forma de Filosofia


Social para compreender a origem, a mudança e o destino da socieda-
de. Em fins do século XIX, ela se constituiu como uma ciência autôno-
ma a partir da contribuição do francês Émile Durkheim (1858-1917),
que sistematizou a abordagem dos fenômenos sociais, como veremos
neste capítulo.
De modo geral, as Ciências Sociais – hoje compreendidas pela Sociolo-
gia, Antropologia e Ciência Política – foram influenciadas pelas Ciências
Naturais, com seu rigor nos métodos e a busca da objetividade do cientista.
Os primeiros pensadores das Ciências Sociais concebiam a sociedade como
uma totalidade objetiva, com existência própria, tal qual um organismo vi-
vo. Na visão corrente em meados do século XIX, pensava-se que a socieda-
de estava sujeita a uma evolução crescente que levava ao aprimoramento.
Havia, também, diagnósticos dos sintomas de suas “doenças”: sistemas de
ideias diferentes e incoerentes, rebeliões de insatisfeitos, períodos de crise.
Calvin & Hobbes, Bill Watterson © 1995 Watterson / Dist. by Universal Uclick

Tirinha de 1989 com


a personagem Calvin,
de Bill Waterson.

42 • capítulo 2

Sociologia_vu_PNLD15_037a064_C02.indd 42 5/27/13 5:18 PM


Os primeiros pensadores sociais acreditavam que a investigação me-
tódica e sistemática de uma ciência própria para a sociedade poderia
identificar possibilidades de ação para intervir na sociedade e, assim,
restabelecer a ordem quando conflitos e crises abalassem a sua estrutu-
ra. Pode-se dizer que procuravam um meio, segundo os critérios da
ciência nascente, de ordenar as mudanças sociais que fugiam à previsi-
bilidade de normas e regras. Entendiam por ordem social tanto a ten-
dência ao funcionamento harmonioso da vida social, a coexistência pa-
cífica dos indivíduos e grupos em dada sociedade (como sinônimo de
consenso), quanto uma forma de ordenação das relações sociais funda-
mentais.
Sob forte influência das Ciências Naturais, que já estavam consolidadas,
autores como os franceses Auguste Comte (1798-1857) e Alfred Espinas
(1844-1922) e o inglês Herbert Spencer (1820-1903) pensavam a ciência da
sociedade como uma Física ou uma Biologia social. Eram adeptos do evolu-
cionismo, corrente de pensamento que considera a sociedade e sua cultura
resultantes de um permanente processo de evolução, isto é, desenvolvendo-
-se continuamente rumo a estágios mais aperfeiçoados, que são os mesmos
para todos os seres humanos.
A busca por leis invariáveis e inde-

Bianchetti/Leemage/Agência France-Presse
pendentes da ação humana para a so-
ciedade era própria do pensamento
positivista. Para Comte, a mudança so-
cial aconteceria dentro da ordem, ou
seja, para haver progresso (entendido
como mudança para melhor), seria ne-
cessário preservar a ordem social.
Durkheim concebia as mudanças so-
ciais como regularidades que compor-
tam ordenação e evolução; por isso
uma ciência da sociedade seria capaz
de prevê-las.

os estudos dos primeiros


pensadores da sociedade visavam
conciliar a manutenção da ordem
social e a aceitação das mudanças
ocorridas naquela época.

Imagem que mostra guerreiros de Daomé


(atual Benin), divulgada na Exposição
Universal de Paris e que foi publicada no Le
Petit Journal em 1891. Entre o fim do século
XIX e o início do XX, alguns estudiosos da
sociedade criaram teorias para tentar
embasar a ideia de que haveria uma
evolução dos povos, estando alguns em
graus “mais avançados” do que outros.

Sociologia: uma ciência da modernidade • 43

Sociologia_vu_PNLD15_037a064_C02.indd 43 5/27/13 5:18 PM


A essa visão calcada em regularidades e na manutenção da ordem con-
trapuseram-se, respectivamente, dois outros autores “clássicos” da Sociolo-
gia: os alemães Max Weber e Karl Marx. No pensamento de Weber, são
muitas as possibilidades históricas de mudanças, devido à diversidade cultu-
ral dos valores, enquanto para Marx a história é um processo contínuo vivi-
do pela humanidade sujeito a mudanças resultantes da forma como os ho-
mens se associam para produzir.
Uma ciência se faz com produção de conhecimento que é comparti-
lhado, criticado e revisto pela comunidade científica. As Ciências Sociais
se institucionalizaram quando questionaram seus próprios fundamentos.
Acompanhemos, no quadro a seguir, as diferentes concepções de socie-
dade e da ciência que a estuda para Comte, Durkheim, Weber e Marx.

As concepções dos primeiros pensadores de uma ciência para a sociedade

Comte Durkheim Weber Marx

Sociedade A sociedade é tão real A sociedade resulta da A sociedade é o A sociedade é


quanto um organismo combinação das complexo de determinada pelas
vivo, com sentido consciências individuais, significados dos valores condições materiais em
científico e moral. tende à integração e se de uma época. transformação. O modo
organiza pelas normas e de produção (economia)
costumes. condiciona a vida social.

Sociologia A Sociologia é uma A Sociologia objetiva A Sociologia interpreta A Ciência Social realiza a
reflexão filosófica sobre chegar a leis gerais o sentido que orienta práxis, ou seja, as ações
a sociabilidade humana; sobre a realidade social, toda ação social. concretas e históricas do
uma ciência universal adquirindo um caráter ser humano que constrói
da civilização. normativo. a si e a seu mundo.

Entre os pensadores sociais que precedem o surgimento da Sociologia


estão os alemães Friedrich Hegel (1770-1831), filósofo, com seus princípios
do ser e uma filosofia do direito; Friedrich Engels (1820-1895), coautor em
muitas obras com Marx, pesquisador do materialismo histórico e das origens
da família, da propriedade privada e do Estado; e o escritor político francês,
Alexis de Tocqueville (1805-1859),
Bildarchiv Hansmann/Interfoto/Latinstock
Akg-Images/Latinstock

que discutiu as condições de uma


sociedade democrática.
Contribuíram para construir o
patrimônio científico da Sociolo-
gia: Herbert Spencer, na Inglaterra;
Ferdinand Tönnies (1855--1936)
e Georg Simmel, na Alemanha;
Vilfredo Pareto, na Itália, para
citar alguns pensadores. Entre os
precursores da Antropologia en-
contram-se o francês Marcel Mauss
(1884-1942) e os etnólogos: o nor-
te-americano Franz Boas (1858-
Alexis de Tocqueville, em pintura de Friedrich Hegel, em gravura de 1854. -1942) e o polonês Bronislaw
Theodore Chasseriau, de 1850. Malinowski (1884-1942), que se

44 • capítulo 2

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dedicaram à Etnologia, ramo das Ciências Sociais que estuda os caracteres
das etnias para apreender como as sociedades se estruturam e evoluem.
Ao se constituir como ciência para explicar por que as sociedades mu-
dam e permanecem, a Sociologia surgiu como uma ciência da modernida-
de. Enfim, a realidade social poderia ser estudada de modo científico tanto
quanto os fenômenos da natureza.

O que é modernidade?
A modernidade foi definida pelo filósofo alemão ao filósofo racionalista francês René Descartes e, poste-
Karl Marx com a frase “tudo o que é sólido se desman- riormente, ao positivismo, que defendiam a crença na
cha no ar”. A expressão faz referência às intensas trans- razão, nas possibilidades do progresso linear (ascen-
formações das revoluções econômica, política e do dente e evolutivo) e na formação de uma nova sensibi-
conhecimento, nos séculos XVIII e XIX, e que rompe- lidade racional diante da realidade.
ram com as condições históricas anteriores represen- No século XX, sob o impacto de transformações
tadas pela tradição. Por exemplo, no processo da Re- sociais cada vez mais aceleradas, a modernidade pas-
volução Industrial, quando as populações rurais se sa a se relacionar com a ideia do efêmero, do fragmen-
dirigiam para as cidades, passaram a enfrentar uma tado, da transição, da racionalidade, da cultura de
nova ordem social, em detrimento das condições so- massa, da padronização do conhecimento e da produ-
ciais a que estavam habituadas. ção, do planejamento racional, da tecnologia. Na con-
O termo moderno foi usado pela primeira vez no cepção atualizada de “modernidade” está embutido o
século V para distinguir a Roma cristã da antiga Roma sentido de tudo o que é recente, faz parte do hoje e é
pagã. Já a ideia de “modernidade” pode ser relacionada passageiro.

Album/akg-images/Latinstock/Museu Marmottan Monet, Paris, França.

A locomotiva – símbolo da Revolução Industrial do século XVIII – é retratada em óleo sobre tela, em 1875, pelo pintor impressionista
Claude Monet, que, em rápidas pinceladas, registrou os momentos de uma sociedade em constante transformação.

Sociologia: uma ciência da modernidade • 45

Sociologia_vu_PNLD15_037a064_C02.indd 45 5/27/13 5:18 PM


pausa par a r E f l E t i r
Filipe Rocha/Arquivo da editora

O fragmento abaixo retrata a Sociologia em seus primeiros momentos. Depois de


ler o texto, responda às questões.

A Sociologia do século XIX marca incontestavelmente o momento da reflexão


dos homens sobre eles mesmos, aquele em que o social como tal é posto em ques-
tão [...]. Ela também exprime uma intenção não radicalmente nova, mas original por
seu radicalismo, a de um conhecimento propriamente científico, baseado no mode-
lo das ciências da natureza, tendo em vista o mesmo objetivo: o conhecimento
científico deveria dar aos homens o controle de sua sociedade e de sua história as-
sim como a Física e a Química lhes possibilitaram o controle das forças naturais.
ARON, Raymond. Apud CASTRO, Anna M. de; DIAS, Edmundo (Org.). Introdução ao pensamento sociológico. Rio de Janeiro: Eldorado, 1974. p. 24.

1. De acordo com o texto, qual é o papel da Sociologia no século XIX?

2. Em sua opinião, o modelo de análise para as Ciências Sociais pode ser o mesmo
das ciências da natureza? Por quê?

Senso comum e ciência


No cotidiano, vendo televisão, lendo revistas, conversando com as pessoas,
navegando na internet, percebemos como o nosso microuniverso individual é
afetado pelo movimento das estruturas sociais, seja por uma crise econômico-
-social, seja pelo lançamento de um novo produto eletrônico, por exemplo. As
inovações e a intensidade dos eventos tornam a vida social mais complexa e a
vida individual mais sujeita a mudanças e a novas formas de limitações.
Na ânsia de chegar ao conhecimento científico da sociedade, os primei-
ros cientistas sociais, como vimos, inspiraram-se nos métodos das ciências da
natureza. Ao propor um conhecimento objetivo, manifestavam o desejo de
ultrapassar o senso comum, ou seja, aquele conhecimento com base na ex-
periência cotidiana e na opinião dos homens em sociedade.
O senso comum nasce da experiência cotidiana compartilhada e se relacio-
na ao nosso espaço social, ao lugar de onde observamos os acontecimentos.
Esse conhecimento é limitado porque se baseia em observações espontâneas,
nas aparências dos fenômenos e em ideias preconcebidas e não refletidas.
Quando levantamos pela manhã, por exemplo, não questionamos a
composição química da pasta de dentes nem a procedência do pó usado
para fazer o café. Essas ideias concebidas sobre os hábitos cotidianos e a
nossa sociedade, que não passam por indagações profundas, fazem parte do
senso comum. É ele que nos dá confiança para continuarmos vivendo, pois
nos sentimos seguros dentro de uma lógica de probabilidades que nos for-
nece expectativas a respeito de nós e dos outros.

ao construírem a realidade por meio de suas relações sociais, os homens são,


ao mesmo tempo, produtores e produtos da sociedade, afirmam os
sociólogos peter Berger (austro-americano, nascido em 1929) e thomas
luckmann (alemão, nascido em 1927).

46 • capítulo 2

Sociologia_vu_PNLD15_037a064_C02.indd 46 5/27/13 5:18 PM


A ciência é a busca e a descober-

British Library of Political and Economic Science/London School of Economics and Political Science
ta, com base em métodos definidos,
das relações entre os fenômenos e
os motivos que as justificam e expli-
cam. No caso das Ciências Sociais,
métodos próprios procuram expli-
car a realidade social mediante a
construção de teorias coerentes. Os
estudos científicos pressupõem que
conhecer é uma forma de viver e
transformar a realidade social.
Embora o senso comum seja
um tipo de saber limitado ao coti-
diano, atualmente a ciência tende
a valorizá-lo como ponto de partida
As Ciências Sociais nasceram
para o conhecimento sociológico. Segundo o sociólogo português Boaven- com o ideal de distanciamento
tura de Sousa Santos, se o primeiro salto qualitativo da ciência moderna e neutralidade diante dos fatos
ocorreu ao afastar-se do senso comum para chegar ao conhecimento cientí- estudados. Posteriormente,
fico, hoje a ciência busca se aproximar e reconhecer também o conheci- novas formas de pesquisa
surgiram, como a observação
mento do senso comum, reabilitando-o como uma dimensão que pode en- participante. Na foto de 1918, o
riquecer a nossa relação com o mundo. antropólogo Bronislaw
Malinowski com nativos das
ilhas Trobriand.
Métodos para pensar a realidade social
Duas grandes vertentes metodológicas marcam os estudos da Sociologia
clássica: o positivismo e a dialética. Vejamos como esses métodos propõem
um pensamento sobre a realidade social.

�h
O positivismo na proposta de Comte

SPL/Latinstock
A emergência do sistema capitalista e da burguesia, nos séculos XVIII e XIX,
encontrou suporte teórico no positivismo. Essa filosofia social prima pela obser-
vação e experimentação dos fenômenos, privilegiando a evidência dos fatos.
A abordagem positivista toma os métodos e os critérios das Ciências Na-
turais, sobretudo a Biologia, para explicar a sociedade. Auguste Comte, au-
tor da obra Curso de filosofia positiva (publicada entre 1830 e 1842), que lhe
garantiu o título de fundador do positivismo, considerava que a ciência tem
normas preestabelecidas e se constitui num instrumento de transformação
e domínio da realidade física e social. Vem dessa ideia de controle da ordem
social o lema “prever para prover”.
Comte, o primeiro autor a utilizar o termo Sociologia, recomendava es-
tudar a sociedade com o mesmo espírito que se estudam as ciências da
Auguste Comte, fundador do
natureza, isto é, livre de juízos de valor – sem a interferência de pré-con- positivismo, em retrato de Tony
ceitos, opiniões e valores do pesquisador nas suas análises. Em sua origem, Toullion, de cerca de 1850.
a Sociologia foi marcada pela visão de que a sociedade e os seus fenôme-
nos também poderiam ser apreendidos e explicados de forma objetiva,
com neutralidade da parte do investigador, a fim de alcançar um conheci-
mento neutro, “positivo”, fundamentado na experiência, nos fatos verifica-
dos, testados e quantificados.

Sociologia: uma ciência da modernidade • 47

Sociologia_vu_PNLD15_037a064_C02.indd 47 5/27/13 5:18 PM


Ao buscar estabelecer os fundamentos gerais das explicações acerca
da ordem e da mudança social, Comte elabora a Lei dos três estados (ou es-
tágios) da história, referindo-se à evolução da estrutura social e política e
aos ramos do conhecimento humano, como estudaremos no capítulo 6.
Assim, na história da humanidade, no primeiro estágio, o teológico, as
explicações associariam os acontecimentos “às ações de um ou mais deu-
ses”; no segundo estágio, o metafísico (transitório), os elementos explica-
tivos da evolução seriam a natureza e a razão, ou seja, entidades abstratas;
e, finalmente, o terceiro estágio, o positivo, culminaria na busca de leis
científicas para descrever e explicar os fenômenos sociais, seguindo os
passos das demais ciências. Como vimos, esse é um tipo de pensamento
evolucionista-social, que pressupõe uma ideia de progresso, organizado
em estágios universais.

�h
Durkheim e um método próprio para a Sociologia
O emprego de métodos das ciências da natureza para testar o conhe-
cimento sobre a realidade social implicava verificar os dados, as informa-
ções, admitir explicações gerais, teorias abrangentes, e chegar a “verda-
des” ou certezas das afirmações sobre a realidade. Como explicar os
fenômenos sociais, uma realidade tão distinta da realidade dos fenôme-
nos naturais?
A influência do positivismo permanece na ciência, até mesmo nas Ciên-
� parâmetros teórico-metodológi- cias Sociais, em um conjunto de parâmetros teórico-metodológicos no
cos: critérios estabelecidos pelas re- qual conhecimento objetivo e verdade absoluta são equivalentes. As ações
gras, leis e hipóteses (teoria) adota- sociais, no entanto, são históricas, acontecem numa realidade concreta,
dos por uma ciência, bem como pelos
contextualizada e em contínuo processo. Como acontecimentos únicos, as
métodos aplicados por ela.
ações/relações sociais demandam métodos próprios para captar a sua
complexidade.
Por isso o francês Émile Durkheim é considerado pioneiro ao ter pro-
posto uma metodologia própria para a ciência da sociedade. Em seu livro As
regras do método sociológico, de 1895, ele propôs submeter os chamados “fatos
sociais” a métodos científicos próprios do estudo sociológico para compro-
var esses fatos como algo externo aos indivíduos, algo que lhes é imposto
Bettmann/Corbis/Latinstock

para que sigam determinados costumes e se comportem de acordo com va-


lores e normas vigentes. Entre as obras de Durkheim, destacam-se O suicídio
e As formas elementares da vida religiosa, publicados em 1897 e 1912, respecti-
vamente. Ele também foi o fundador de L´Année Sociologique, primeiro perió-
dico francês de teoria e pesquisa sociológica.
Apesar de sofrer críticas nas Ciências Sociais, a abordagem positivista
pode ser observada ainda hoje, como quando se busca um conhecimento
definitivo sobre a realidade em mutação ou quando se aplicam medidas
simplificadoras da realidade social, tais como combater a criminalidade sem
eliminar a desigualdade social.

Retrato de Émile Durkheim, os primeiros cientistas sociais propunham-se a observar os fatos, avaliá-los e
um dos principais nomes da
submetê-los ao rigor do método positivista. levantavam hipóteses acerca da
chamada Sociologia clássica,
tirado por volta de 1900. realidade e testavam-nas com observações e experimentações.

48 • capítulo 2

Sociologia_vu_PNLD15_037a064_C02.indd 48 5/27/13 5:18 PM


�h
A dialética como método de análise
De certo modo contrário ao positivismo, o método dialético concebe que
nem a realidade e tampouco o conhecimento podem ser pensados como ele-
mentos separados. Ambos, sociedade e conhecimento, são produtos históricos,
transformam-se e nunca se apresentam como acabados. Mas o que é dialética?
Historicamente, o termo ‘dialética’ significa ‘a arte do diálogo’, um mé-
todo de argumentação que remonta à Antiguidade. O filósofo grego Platão
(427-347 a.C.) acreditava que, para chegar à verdade, era necessário contra-
por ideias contrárias para chegar a uma ideia una, à essência de algo. Para a
dialética moderna, esse choque de partes contrárias, e complementares ao

Filipe Rocha/Arquivo da editora


mesmo tempo, move o mundo. O desenvolvimento desses contrários (que
podem ser definidos como tese e antítese) resulta em uma unidade nova
transformada, que corresponde à síntese. Por exemplo: a Revolução France-
sa seria a síntese da luta entre a nobreza (tese) e a burguesia (antítese).
O pensamento dialético é constituído dos seguintes princípios:
• Tudo se encontra inter-relacionado e se transforma de modo permanente.
• Mudanças qualitativas nos fenômenos podem ocorrer em diferentes ritmos.
• Há uma luta dos contrários, ou seja, existem contraposições e contradições.
• Os conhecimentos articulam-se e confrontam-se.
• Sujeito (aquele que investiga) e objeto de conhecimento (a realidade investiga-
da), apesar de distintos, não podem ser separados.
• Um novo acontecimento nasce do velho, o qual já traz em si a semente do novo.

a abordagem dialética, aplicada à realidade material, identifica as


contradições e os conflitos, dos quais se origina algo novo.

A abordagem dialética capta as ambiguidades da vida dos seres humanos


ao procurar entender os fenômenos em sua totalidade e multiplicidade, como
a natureza, a cultura, a economia, a política e outras dimensões. A lógica dia-
lética pressupõe a mudança incessante da realidade social e distingue os fenô-
menos, explicando-os historicamente e criticando a ideologia dominante. A
teoria de Karl Marx é a mais conhecida abordagem dialética da sociedade.
As abordagens positivista e dialética continuam validando o conheci-
mento nos dias atuais e, de certo modo, alimentam a multiplicidade de me-
todologias nas Ciências Sociais, como veremos adiante.

O objeto de estudo da Sociologia


Algumas condições são exigidas para que um conjunto de conhecimen-
tos possa ser considerado ciência: a existência de um método de investiga-
ção, a constituição de um objeto de estudo e a construção de teorias expli-
cativas da realidade estudada.

De diferentes perspectivas de análise, os autores definem o seu objeto de


estudo e produzem ciência. a metodologia que utilizam mostra coerência
entre o pensamento do investigador e os conceitos teóricos com que
explicam a realidade histórica.

Sociologia: uma ciência da modernidade • 49

Sociologia_vu_PNLD15_037a064_C02.indd 49 5/27/13 5:18 PM


Para definir o seu objeto, uma ciência traça parâmetros para observar e
analisar a realidade. Nas Ciências Sociais, essa dinâmica do pensamento de-
senvolve teorias que interpretam e explicam a realidade. Chegar a interpre-
tações implica ter uma concepção do que é a realidade social e de um modo
de conhecê-la, ou seja, de fazer ciência. Isso prova que o processo de conhe-
cimento é histórico, muda com o tempo tal qual a própria sociedade.
Os fundadores da Sociologia são observadores da realidade social; dian-
te dela se posicionam e com ela se relacionam e projetam um caminho para
conhecer a sociedade. Se Durkheim procura a objetividade do conhecimen-
to, afastando as ideias preconcebidas sobre a realidade, Weber considera
que apenas uma parte da realidade pode ser estudada. Marx, por sua vez,
pensa que o sujeito que conhece é capaz de intervir na realidade social,
transformando-a. Vejamos, no quadro a seguir, seus diferentes modos de
apreender a realidade.

O conhecimento sociológico da realidade

Durkheim Weber Marx

Sociedade A realidade social A realidade é infinita e A realidade está em


antecede o indivíduo. tem significado constante movimento.
conforme os valores
de uma época.

Sociologia O conhecimento Conhecer é Conhecer é uma forma


científico é uma compreender o histórica de se
representação teórica significado de uma apropriar do real.
da realidade. realidade cultural.

�h
Durkheim e a análise dos fatos sociais
Na produção sociológica do francês Émile Durkheim, fatos sociais são
maneiras coletivas de agir, pensar e sentir que são exteriores ao indivíduo e
exercem pressão ou coerção social, ainda que não se perceba, sobre sua
consciência. Também apresentam a característica de serem gerais na exten-
são de uma sociedade, na medida em que são comuns à maioria dos indiví-
duos. Durkheim considera que os fatos sociais não se confundem com as
manifestações das consciências individuais, eles são uma realidade sui gene-
ris, uma realidade peculiar.
Alexandre Tokitaka/Pulsar Imagens

Alunos de escola particular


acompanhados por monitores em
rua do bairro Perdizes, em São
Paulo. Foto de 2012. Para
Durkheim, os indivíduos
apresentam maneiras de pensar e
agir que estão além de suas
próprias consciências, pois se
relacionam à coerção exercida, por
exemplo, pelas instituições.

50 • capítulo 2

Sociologia_vu_PNLD15_037a064_C02.indd 50 5/27/13 5:18 PM


A maneira de nos vestirmos, a moda, por exemplo, pode ser considerada
um fato social no sentido durkheimiano? Sim, pois imagine algum colega
chegando à sala de aula vestido de modo completamente diferente do grupo,
com roupas de outras épocas ou típicas de outros grupos sociais. Possivelmen-
te ele receberia alguma sanção da turma, mesmo que indireta, pois existe um
modo de vestir mais ou menos comum, instituído socialmente. Espera-se que
todos, numa sala de aula, estejam vestidos mais ou menos de acordo com a
maioria (generalidade), que pode ser com o uniforme, dependendo das re-
gras da escola. É a sociedade que define os padrões e normas do vestuário
(exterioridade), e aquele que se vestir de maneira muito diferente do grupo
pode sofrer alguma sanção, como um olhar reprovador ou uma zombaria

da editora
(coercitividade). Há inúmeros outros exemplos parecidos na vida social, basta
olhar ao seu redor. Pense em outros a que se aplicam essas regras.

a/Arquivo
Embora se distingam dos fenômenos biológicos, físicos e psicológicos,

Filipe Roch
os fenômenos sociais também são reais e passíveis de observação científica.
Leia como Durkheim os concebe formando uma realidade distinta: a so-
ciedade.

[...] a sociedade não é simples soma de indivíduos, e sim sistema formado pela
sua associação, que representa uma realidade específica com seus caracteres pró-
prios. Sem dúvida, nada se pode produzir de coletivo se as consciências particulares
não existirem; mas esta condição necessária não é suficiente. É preciso ainda que as
consciências estejam associadas, combinadas, e combinadas de determinada ma-
neira; é desta combinação que resulta a vida social e, por conseguinte, é esta com-
binação que a explica.
DURKHEIM, Émile. As regras do método sociológico. 14. ed. São Paulo: Nacional, 1990. p. 90.

dE batE

Ao conceber os fatos sociais como realidades objetivas, coercitivas e exteriores à


consciência individual, Durkheim alerta sobre a força dos costumes e valores vigen-
tes que internalizamos no processo de socialização. Depois de lerem a proposta a
seguir, debatam, com a turma, sobre como reagiriam diante do relato.

Você acaba de se hospedar em um hotel. Chegou ao apartamento que lhe foi


destinado. Está só. Passa os olhos rapidamente nas instalações, situa-se no ambien-
te, satisfazendo a curiosidade de sempre: a primeira impressão, o quarto equipado,
o banheiro, a limpeza. Testa o ar-condicionado, liga a televisão, olha a vista da jane-
la. Observa a decoração, os armários e os móveis, abre a gaveta do criado-mudo...
Opa! Uma carteira de dinheiro... e cheia de dólares!

1. Levando em consideração o contexto acima, responda:


a) O que você faria nesta situação? Qual seria sua primeira reação?
b) Que decisão tomaria ao final? Por quê?

2. De que maneira as atitudes tomadas por você podem ser relacionadas à análise
de Durkheim sobre os fatos sociais?

Sociologia: uma ciência da modernidade • 51

Sociologia_vu_PNLD15_037a064_C02.indd 51 5/27/13 5:18 PM


�h
Weber e a compreensão da ação social
Se fato social, explicado anteriormente, é considerado por Durkheim o
objeto sociológico por excelência, o sociólogo alemão Max Weber elegeu a
Sociologia como a ciência da ação social, sendo capaz de compreendê-la e
explicá-la. Mas o que é uma ação social? Weber concebe a ação social como
aquela que se guia pela conduta do outro. Nem toda ação é considerada
social, só aquela que leva em conta o comportamento de outros.
As ações sociais são dotadas de significado quando os indivíduos impri-
mem a elas um sentido conforme os valores culturais predominantes em
cada período. Compreender uma ação social é apreender o seu significado,
se o seu sentido é racional, emocional ou baseado em tradições, por exem-
plo. Weber identifica quatro tipos principais de ação:
a) Ação racional com relação a um objetivo: trata-se, por exemplo, da
ação do engenheiro que constrói uma ponte e combina os meios para
atingir esse fim.
b) Ação racional com relação a valor: nesse caso, a ação é racional não
porque tende a alcançar um objetivo definido e exterior, mas porque
seria desonroso deixar de responder a um desafio. Por exemplo, um
comandante que não abandona o navio que está afundando com os
passageiros.
c) Ação afetiva: é aquela definida pelo estado de consciência ou o hu-
mor do sujeito. Exemplo: uma pessoa xinga outra no trânsito; esta
ação é definida por uma reação emocional do ator (quem xinga).
d) Ação tradicional: consiste na ação ditada pelos hábitos, costumes e
crenças de uma sociedade. É a ação que obedece a reflexos enraiza-
dos por uma prática desenvolvida há longo tempo, transformando-se
numa espécie de segunda natureza.
Ricardo Lima/Futura Press

Fiéis católicos na celebração


conhecida como Círio de Nazaré,
em Belém, capital do Pará, em
foto de 2012. Manifestações
religiosas como esta são
consideradas, pela teoria
weberiana, ações tradicionais.

52 • capítulo 2

Sociologia_vu_PNLD15_037a064_C02.indd 52 5/27/13 5:18 PM


É claro que não existem tipos puros de ações, e Weber considera isso. Para
ele, os indivíduos tendem a pautar suas ações com base em avaliações racio-
nais. Nessa lógica, o indivíduo que quer “melhorar de vida” – ou seja, ascender
socialmente – vai buscar os meios (escolarização, trabalho, jogos de azar, etc.)
para atingir tal objetivo. Ou seja, ele adota um comportamento racional con-
siderando a eficiência dos meios e as consequências futuras de suas ações.

E ncon tro com os ciEn tis tas s oc i ai s

Leia o trecho abaixo e depois responda às questões.

Deve-se entender por Sociologia (no sentido aqui aceito desta palavra empre-

Hulton Archive/Getty Images


gada com tantos significados): uma ciência que pretende entender a ação social,
interpretando-a, para, dessa maneira, explicá-la causalmente no seu desenvolvi-
mento e efeitos. Por “ação” entende-se uma conduta humana (um fazer externo ou
interno, seja em omitir ou permitir) sempre que o sujeito ou os sujeitos da ação
deem a ela um sentido subjetivo. A “ação social”, portanto, é uma ação na qual o
sentido pensado por um sujeito ou sujeitos toma por referência a conduta de ou-
tros e por ela orienta o desenvolvimento de sua ação.
WEBER, Max. Economía y sociedad: esbozo de sociología comprensiva. Bogotá: Fondo de Cultura Económica, 1977. v. I. p. 5.
(Texto publicado originalmente em 1922. Tradução própria.)

1. Pensando na definição dada acima, cite alguns exemplos de ação social que você
O pensador alemão
identifica no seu dia a dia. Max Weber, em foto de 1910.
2. Qual a relação dessas ações com o conceito de ‘sociedade’? Você imagina que
elas possam ser estudadas pela Sociologia? Por quê?

�h
Marx analisa a realidade histórica
Em que consistiria o objeto de estudo da Sociologia na obra de Karl
Marx? De sua perspectiva teórica, pode-se extrair que são as relações sociais.
Elas se estabelecem em diferentes tempos e modos de produção, nos quais
os homens produzem a realidade histórico-social e dela são produto. As re-
lações sociais são, portanto, determinadas historicamente.
Em uma nota introdutória ao livro Contribuição à crítica da economia políti-
ca, publicado em 1859, Marx relata que passou a dar importância às relações
econômicas ao estudar a legislação sobre roubos de lenha e ao pesquisar a
situação dos camponeses da região do rio Mosela, na Alemanha, em 1842.
Dizia não ser a vontade dos homens que dava estrutura ao Estado, mas sim
a situação objetiva das relações entre eles.
Para Marx, a sociedade moderna tem por base relações de propriedade:
de um lado, os proprietários dos meios materiais de produção (capitalistas)
e, de outro, aqueles que vendem aos primeiros sua força de trabalho (os
trabalhadores). Denomina-as relações de produção, as quais se estabelecem
independentemente da vontade dos homens e são históricas, por corres-
ponderem a determinado grau de desenvolvimento da sociedade.

Sociologia: uma ciência da modernidade • 53

Sociologia_vu_PNLD15_037a064_C02.indd 53 5/27/13 5:18 PM


pausa par a r E f l E t i r

Ao analisar a complexidade da existência do indivíduo e da sociedade em uma pers-


pectiva histórica, Marx procura ir além das aparências da realidade social. Leia o
texto a seguir e responda à questão por escrito:

O homem é, no sentido mais literal, um dzôon politikhón [animal político], não


só um animal sociável, mas um animal que só em sociedade pode isolar-se. A pro-
dução realizada à margem da sociedade pelo indivíduo isolado – fato excepcional
que pode muito bem acontecer a um homem isolado transportado por acaso para
um lugar deserto, mas já levando consigo, em potência, as forças próprias da socie-
dade – é uma coisa tão absurda como o seria o desenvolvimento da linguagem sem
a presença de indivíduos vivendo e falando em conjunto. [...] Assim, sempre que
falamos de produção, é à produção num estágio determinado do desenvolvimento
social que nos referimos – a produção de indivíduos vivendo em sociedade.
MARX, Karl. Contribuição à crítica da economia política. São Paulo: Martins Fontes, 1977. p. 202.

• O que aparece como uma questão banal – o indivíduo em sociedade – pode revelar,
pela análise de Marx, quanto a vida em conjunto é determinada historicamente.
Como você interpreta esta questão reportando-se a épocas históricas anteriores: o
caçador e o pescador isolados, o escravo, o servo da terra do senhor feudal, até che-
gar ao trabalhador moderno na sociedade em que a concorrência é, em tese, livre?
Palácio Gustavo Capanema, Rio de Janeiro/Fundação Portinari

Colheita de cana (1938), tela de Candido Portinari.

54 • capítulo 2

Sociologia_vu_PNLD15_037a064_C02.indd 54 5/27/13 5:18 PM


A produção teórica dos clássicos da Sociologia
Os métodos são ferramentas indispensáveis para a construção das teorias
sobre a realidade social. Estas, por sua vez, são propostas que os cientistas
produzem para explicar e interpretar o objeto em estudo. Resultantes de
pesquisas e análises criteriosas, levando em conta o contexto histórico, as
teorias sociais são explicações científicas para as relações e as transforma-
ções que ocorrem na sociedade e nas suas instituições.
As teorias sociais são transitórias: variam conforme as mudanças nas so-
ciedades e conforme o avanço do conhecimento; explicam e aplicam-se a
um momento histórico, embora o conjunto dos grandes traços da vida em
sociedade não mude de forma tão rápida.
Ao longo do livro, estudaremos as principais teorias sociológicas, de
acordo com as temáticas tratadas. A seguir, veremos as linhas teóricas gerais
de alguns autores clássicos que apresentam sua visão do fenômeno socieda-
de e, por decorrência, da realidade dos indivíduos.

�h
A integração social sob o olhar de Durkheim
O sociólogo francês Émile Durkheim formula uma teoria da integração
social, mostrando como as partes da sociedade (suas instituições e/ou indi-
víduos) se relacionam de forma harmoniosa e estável. A partir de uma de
suas proposições – “tratar os fatos sociais como coisas” –, sua teoria afirma
ser possível observar com isenção os fatos sociais, por serem fenômenos ob-
jetivos e exteriores ao indivíduo.
As ideias de Durkheim estão em sintonia com o funcionalismo, uma corrente
de pensamento que compreende que as instituições exercem funções específicas
e necessárias em uma sociedade, que podem ser observadas e comparadas com
objetividade. Nesse sentido, ele é considerado um representante positivista.
Durkheim acredita na prioridade do social sobre o indivíduo e na separação
entre realidade psíquica e realidade de natureza social, por esta última resultar da
combinação das consciências individuais, e não do seu somatório. Produziu, em
1893, a obra Divisão do trabalho social, na qual confirma a ideia de coerção social,
no sentido de que a solidariedade produzida pela divisão do trabalho cria tam-
bém, de forma durável, um sistema de direitos e deveres entre os homens.

�h
Teoria da ação social em Weber
O sociólogo alemão Max Weber tem uma concepção mais subjetivista da
realidade social. Sua teoria da ação social procura reconhecer o sentido
(significado) da ação social no conjunto dos acontecimentos histórico-cultu-
rais. Como vimos, Weber concebe a ação social como uma ação humana que
se deixa guiar pela conduta de outrem. Em sua obra clássica de 1922, Econo-
mia e sociedade, assim expressa a relação entre indivíduo e sociedade:

A relação social consiste única e exclusivamente – ainda que se trate de forma-


ções sociais, como Estado, Igreja, corporação, matrimônio, etc. – na probabilidade
de que uma forma determinada de conduta social, de caráter recíproco por seu
sentido, tenha existido, exista ou possa existir.
WEBER, Max. Economía y sociedad. Bogotá: Fondo de Cultura Econômica, 1977. v. I. p. 22.

Sociologia: uma ciência da modernidade • 55

Sociologia_vu_PNLD15_037a064_C02.indd 55 5/27/13 5:18 PM


As ações sociais são, portanto, recíprocas, porque os indivíduos impri-
mem a elas um sentido levando em conta o comportamento de outros. We-
ber exemplifica: dois ciclistas vêm em sentidos contrários numa rua e, para
evitar um acidente, desviam um do outro. Há reciprocidade nas ações so-
ciais. Podemos observar, na ilustração a seguir, como as ações interindivi-
duais e sociais movem e constituem a sociedade.

Filipe Rocha/Arquivo da editora

O método de análise de Weber da ação social, em sua Sociologia Com-


preensiva, é definido como histórico-comparativo, pois se vale da constru-
ção de tipos ideais (conceituais) que expressam a singularidade de cada
fenômeno e procuram compreender o sentido da ação. Um exemplo disso
está em sua pesquisa sobre a religião e o capitalismo, no livro A ética protes-
tante e o espírito do capitalismo (1905), no qual ele buscou compreender a
relação entre determinada ética religiosa e a formação do capitalismo. É
considerado um relativista por propor que os valores de uma cultura con-
dicionam o conhecimento.

�h
Marx e a teoria da acumulação
O filósofo alemão Karl Marx, na obra A ideologia alemã, de 1845, escrita
em parceria com Friedrich Engels, sintetiza a dinâmica da vida em socieda-
de da seguinte forma: os homens produzem suas representações e suas
ideias sobre as relações sociais que vivem concretamente. Esse conjunto de
relações de produção que os homens estabelecem para sobreviver é a base
econômica da sociedade sobre a qual se assenta o aparato de relações de
natureza política, jurídica, científica, religiosa, etc. É o que Marx denomina
modo de produção.
Essa é uma realidade histórica e, portanto, mutável. A forma com que
os homens produzem socialmente sua sobrevivência material se acha con-
dicionada por determinado desenvolvimento das forças produtivas e pelas
relações que a ele correspondem. Assim, o processo da história tem sido
explicado como uma sucessão de diferentes modos de produção – o primi-
tivo, o asiático, o escravista, o feudal, o capitalista –, cada qual com suas
relações sociais.

56 • capítulo 2

Sociologia_vu_PNLD15_037a064_C02.indd 56 5/27/13 5:18 PM


Marx produz uma teoria da acumulação tomando as características das
relações de produção na sociedade capitalista – que, como dissemos ante-
riormente, são relações entre proprietários e não proprietários dos meios
de produção. Basicamente, esta teoria explica como ocorre o crescimento
do capital na sociedade capitalista. Na medida em que o trabalhador aluga
a sua força de trabalho ao capital para produzir, ou seja, transforma os

Akg-Images/Latinstock
meios materiais de produção em mercadorias com o seu trabalho, não re-
cebe tudo o que lhe é devido. Esse “valor a mais” que ele produz é apro-
priado pelo capitalista. Assim, em contínuo movimento, cresce o capital, o
conjunto dos meios de produção, não só em volume, mas também em ní-
vel técnico e tecnológico.
Marx adotou a dialética como método de análise da realidade. Em
seu pensamento, o movimento dos contrários é encontrado na supera-
ção de um modo de produção histórico para outro (escravismo, feuda-
lismo, capitalismo, por exemplo), ou mesmo em compreender o anta-
gonismo complementar que se encontra nas relações de classe, na luta Karl Marx,
por interesses diferentes que disputam a riqueza acumulada no proces- em pintura de 1920,
so produtivo. de P. Nasarov e N. Gereljuk.

p E sQuisa

Observe a fotografia abaixo e pesquise como a realidade retratada na imagem pode


ser explicada pela produção teórica da Sociologia de um dos clássicos e como o
senso comum pode a ela se referir. Destaque as diferenças entre as duas formas de
observar a realidade social e apresente o resultado de sua pesquisa à turma.

Vincent West/Reuters/Latinstock

Polícia e manifestantes entram em confronto na Espanha, durante greve em protesto contra a crise econômica que atingiu vários países da
Europa. Foto de 14 de novembro de 2012.

Sociologia: uma ciência da modernidade • 57

Sociologia_vu_PNLD15_037a064_C02.indd 57 5/27/13 5:18 PM


�h
Teorias e métodos das Ciências Sociais no século XX
As teorias sociais costumam ser divididas em clássicas e contemporâneas.
As primeiras, embora datem de mais de um século, permanecem válidas. As
teorias mais recentes partem muitas vezes das proposições dos clássicos para
reafirmar, redimensionar ou mesmo romper com elas. Todas as teorias, clás-
sicas ou contemporâneas, apresentadas neste livro estão atreladas a grandes
metodologias.
As teorias valem-se de conceitos inter-relacionados, ou seja, uns ajudam
a compreender outros com argumentos coerentes que explicam como e por
que as coisas acontecem na sociedade. Tomemos conhecimento dos concei-
tos presentes na produção teórico-metodológica dos autores clássicos:

Alguns conceitos básicos da Sociologia

Comte Durkheim Weber Marx

Ordem social, Fatos sociais, Ação social, relação Modo de produção,


estágios teológico, consciência coletiva, social, dominação, capital, trabalho,
metafísico e positivo representações burocracia, práxis, contradição
ou científico da sociais, coesão social, capitalismo social, classes sociais,
evolução da solidariedade, ocidental, luta de classes,
humanidade. integração social, racionalização. conflito, relações de
instituição social. produção.

Ancoradas ou não nos autores clássicos, novas teorias e abordagens das


Ciências Sociais são concebidas no compasso das mudanças sociais. Veremos
a seguir características gerais do pensamento de alguns dos sociólogos mais
representativos do século XX: o norte-americano Talcott Parsons (1902-
-1979), o francês Pierre Bourdieu e os autores alemães da chamada Teoria
Crítica, denominada Escola de Frankfurt, na década de 1920. São represen-
tantes da Teoria Crítica, em diversos momentos do século XX: Theodor
Adorno (1903-1969), Max Horkheimer (1895-1973), Walter Benjamin
(1892-1940), Herbert Marcuse (1898-1979), Erich Fromm (1900-1980) e
Jürgen Habermas (1929-).
A Sociologia mais recentemente pro-
Baptistão/Agência Estado

duzida pensa a sociedade pela óptica de


sujeitos ativos em relações. Ao desenvolver,
nos anos 1950, uma teoria geral dos siste-
mas sociais, Parsons está pensando na in-
ter-relação entre as partes, numa ação hu-
mana que é individual e também coletiva.
Quando a Teoria Crítica elege a razão e a
sociedade contemporâneas como objeto
de estudo, tece críticas a uma concepção
do mundo que não respeita a liberdade e a
O sociólogo alemão Walter autodeterminação. Bourdieu, com sua teo-
Benjamin, em caricatura de
ria das práticas sociais, mostra como os ato-
Eduardo Baptistão de 2009.
Benjamin foi um dos fundadores res sociais internalizam os valores, as nor-
da chamada Teoria Crítica. mas e os princípios, na sociedade global.

58 • capítulo 2

Sociologia_vu_PNLD15_037a064_C02.indd 58 5/27/13 5:18 PM


Vejamos como as propostas teóricas desses autores concebem a socieda-
de e, em decorrência, situam a ciência Sociologia.

A Sociologia pelos autores contemporâneos

Parsons Teoria crítica Bourdieu

Sociedade Uma coletividade de Dimensão histórica com Existe na ação de


pessoas em interação suas normas e formas sujeitos que se
constitui um sistema simbólicas. relacionam e está
social. A orientação de inscrita nas relações de
cada ator nesse processo poder.
interativo – como pai,
irmão, professor, etc. – é
o papel social.

Sociologia Uma ciência ligada a Questiona a ciência e a Ciência que estuda a


outras ciências do sociedade ação subjetiva e seus
homem, capaz de contemporâneas. significados, com base
sistematizar a ação nas relações de poder
social. entre os agentes.

Louis Monier/Gamma-Rapho/Getty Images


as metodologias mostram haver coerência entre a posição social e de
pensamento do investigador e os conceitos construídos para explicar a
realidade.

Tal qual a produção dos clássicos, a Sociologia contemporânea enfoca a


questão da mudança social. Talcott Parsons, em obras como A estrutura da
ação social (1937), O sistema social (1951) e Teoria sociológica e sociedade moderna
(1967), pondera que um sistema social complexo não é totalmente estável
nem muda como um todo. Esse pensamento é compatível com a metodolo-
gia estrutural-funcional que ele desenvolve, ou seja, considera que o sistema
social é mantido pelas forças institucionais e padrões culturais.
Utilizando-se de conceitos como cultura, indústria cultural, Estado, legi- Pierre Bourdieu, sociólogo
timação, razão, pós-modernidade, autoridade, crise, transformação, os estu- francês, em foto de 1991, de
diosos da Teoria Crítica empregam uma metodologia dialética que se vale Louis Monier.
da razão para resgatar o passado e compreender as limitações do presente.
Nesse caso, toda mudança social é acompanhada de um saber histórico, con-
cebido como lógica da contradição social.
Conhecer é desenvolver o espírito crítico e também a crítica social. O
estudo das Ciências Sociais nos revela os mecanismos de poder que nos fa-
zem acreditar serem “naturais” muitos fenômenos que caracterizam a socie-
dade. Por essa razão, Pierre Bourdieu afirma que o conhecimento exerce
um efeito libertador. Por meio do conhecimento, a sociedade reflete, volta
o olhar sobre si mesma, e seus agentes sociais descobrem quem realmente
são e o que fazem. Bourdieu embasa seu pensamento na ideia de reprodu-
ção social, como as transformações culturais que acontecem na educação e
na sociedade de massa, estudadas no capítulo 9.
O filósofo italiano Antonio Gramsci (1891-1937) dizia que todo ser humano
é um intelectual, pois participa do mundo em que vive e pensa sobre ele. Assim,
podemos afirmar que aquele que desenvolve consciência do espaço social que
ocupa pode ser considerado um crítico da sociedade, e não apenas os cientistas.

Sociologia: uma ciência da modernidade • 59

Sociologia_vu_PNLD15_037a064_C02.indd 59 5/27/13 5:18 PM


Monique Renne/CB/D.A Press

Artista durante apresentação no


ato político e artístico pela
aprovação da PEC 98/2007
(proposta de emenda à
Constituição), em palco montado
na Câmara dos Deputados.
A emenda propõe isenção fiscal
para gravações de obras de
artistas e/ou compositores
brasileiros. Foto de 2011. Este é
um dos exemplos de como
indivíduos em sociedade
exercem a crítica social.

É importante descobrir-se como sujeito portador de uma herança social


e perceber que indivíduo e sociedade são elementos que se influenciam
mutuamente. Essa é uma das condições para os cientistas sociais produzirem
ciência, o que implica desenvolverem um conjunto de conceitos capazes de
interpretar a realidade e derivarem esse conhecimento de uma concepção
de mudança que lhe é implícita.
Com um corpo organizado de saberes, a Sociologia procura dar entendi-
mento à condição de “estarmos no mundo”, e não prover certezas absolutas.
Desse modo, o conhecimento sociológico tem um compromisso com o de-
senrolar das ações concretas, históricas, pelas quais o ser humano constrói a
si e seu mundo social, político, econômico, cultural.

diálogo s i n t E r d i s c i p l i nar E s

Neste capítulo, conhecemos um pouco mais da Sociologia como ciência


e de sua história. A história das ciências modernas é, de certa forma, seme-
lhante, pois todas foram influenciadas pela mesma base de pensamento,
como vimos nas páginas anteriores. A ideia deste projeto é elaborar um
olhar sociológico sobre as outras ciências, humanas, exatas e biológicas,
além da Sociologia.
1. Individualmente ou em grupos, escolha uma das seguintes disciplinas:
História – Geografia – Física – Matemática – Biologia – Química – Filosofia

2. Faça uma pesquisa em bibliotecas e na internet para saber um pouco mais sobre
a história desta ciência. Preste atenção especial aos fatos ligados aos séculos
XVIII, XIX e XX.

60 • capítulo 2

Sociologia_vu_PNLD15_037a064_C02.indd 60 5/27/13 5:18 PM


3. Com a ajuda de colegas que pesquisaram outras disciplinas, monte um quadro
comparativo da Sociologia com estas outras ciências, seguindo o modelo abaixo.

Sociologia História Geografia Física Matemática Biologia Química Filosofia

Primeiros cientistas:
nome, sexo,
nacionalidade

Época em que se
firmou como
ciência

Primeiro curso em
universidade
(quando, onde,
quem inaugurou/
criou)

Principais
descobertas e
invenções da época

Fatos históricos
interessantes e
curiosos

4. Observando o quadro, discuta com seus colegas:


a) Que ciências são mais antigas e que ciências são mais novas? Como vocês expli-
cam essa diferença?
b) O que essas ciências têm em comum umas com as outras? E entre todas? Por
que motivo você acha que estes aspectos são semelhantes entre elas?

r E v i s a r E s i s t E m atiza r
1. Com base no que estudou no capítulo, como você definiria sociedade?
Em que momento de sua vida há evidência de sociedade?
2. Analise as condições histórico-sociais que explicam o aparecimento da
Sociologia.
3. Por que se diz que a Sociologia é uma ciência histórica?
4. Em equipe, escolham um dos autores clássicos da Sociologia (Durkheim,
Weber ou Marx) e apresentem a concepção do autor escolhido acerca do
seu método de apreensão da realidade social. A apresentação pode utili-
zar formatos diferentes, como música, história em quadrinhos, teatro, etc.
5. Escreva sobre a relação entre senso comum e ciência, mostrando quan-
do e por que elas se afastaram ou se aproximaram.
6. Levando em consideração o conteúdo do capítulo, qual a importância
do conhecimento sociológico para entender a sociedade e poder trans-
formá-la?

Sociologia: uma ciência da modernidade • 61

Sociologia_vu_PNLD15_037a064_C02.indd 61 5/27/13 5:18 PM


conceitos-chave:
Sociedade, sociabilidade, interação social, relações sociais, relações de poder,
capitalismo, modernidade, mudanças sociais, ordem social, evolucionismo,
positivismo, dialética, fatos sociais, funcionalismo, ação social, relações de produção,
modo de produção, teoria da integração social, teoria da ação social, teoria da
acumulação, senso comum.

dEscubr a m ai s

As Ciências Sociais na biblioteca


MARTINS, Carlos. O que é Sociologia. São Paulo: Brasiliense, 2001.
Este livro explicita, de forma concisa, em que consiste a disciplina da Sociologia e o seu objeto de
estudo.

BAUMAN, Zygmunt; MAY, Tim. Aprendendo a pensar com a Sociologia. 1. ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2010.
Partindo de temas do dia a dia, os autores mostram como a Sociologia pode ampliar o olhar sobre
aspectos aparentemente triviais.

As Ciências Sociais no cinema


Rocco e seus irmãos, 1960, Itália, direção de Luchino Visconti.
Longa-metragem de ficção que conta a saga de uma família italiana que migra para o norte do
Photononstop/Agência France-Presse

país, fugindo da miséria. Esse novo contexto de sobrevivência provoca conflitos na família.

Capitalismo: uma história de amor, 2009, Estados Unidos, direção de Michael Moore.
O cenário é o do capitalismo recente sob o domínio das corporações, em plena crise financeira
global de 2008, e o seu impacto na vida dos norte-americanos.

As Ciências Sociais na rede


Cena do filme Rocco e seus Biblioteca Virtual de Ciências Humanas. Centro Edelstein de Pesquisas Sociais.
irmãos, de 1960. Disponível em: <www.bvce.org>. Acesso em: 7 set. 2012.
Este site disponibiliza livros e artigos sobre a sociedade da informação em várias línguas. Todos os
textos podem ser consultados gratuitamente.

Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap). Disponível em: <www.cebrap.org.br>. Acesso em:
9 out. 2012.
Referência entre os centros de pesquisa da área de ciências humanas no país, desenvolve
importantes estudos, disponibilizando-os para acesso na internet.

Revista Brasileira de Ciências Sociais. Disponível em: <www.scielo.br/scielo.php?pid=0102-6909&script=sci_


serial>. Acesso em: 9 out. 2012.
Periódico on-line que reúne trabalhos e pesquisas desenvolvidos recentemente na área de
Ciências Sociais.

Sociedade Brasileira de Sociologia. Disponível em: <www.sbsociologia.com.br>. Acesso em: 9 out. 2012.
Entidade jurídica sem fins lucrativos que busca promover o ensino e a pesquisa na área da
Sociologia.

bibliog r af i a
ARON, Raymond. Apud CASTRO, Anna M. de; DIAS, Edmundo (Org.). Introdução ao pensamento sociológi-
co. Rio de Janeiro: Eldorado, 1974.

BAECHLER, Jean. Grupos e sociabilidade. In: ARON, Raymond (Dir.). Tratado de Sociologia. Rio de Janeiro:
Jorge Zahar Editor, 1995. p. 65-89.

62 • capítulo 2

Sociologia_vu_PNLD15_037a064_C02.indd 62 5/27/13 5:18 PM


Reprodução/Jorge Zahar Editor
BAUMAN, Zygmunt. Por uma sociologia crítica: um ensaio sobre o senso comum e emancipação. Rio de
Janeiro: Zahar Editores, 1977.

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LAZZARINI, Guido. L`integrazione sociale. Milano: FrancoAngeli, 1991.

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MARX, Karl. Manuscritos econômico-filosóficos. In: Os pensadores. vol. XXXV. São Paulo: Abril Cultural,
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Capa do livro Enigmas da
modernidade-mundo, de Octavio
_. O capital: crítica da economia política. 3. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1975. Ianni (ed. Civilização Brasileira).

Sociologia: uma ciência da modernidade • 63

Sociologia_vu_PNLD15_037a064_C02.indd 63 5/27/13 5:18 PM


MARX, Karl. Contribuição à crítica da economia política. São Paulo: Martins Fontes, 1977.

MAUS, Heinz; FÜRSTENBERG, Friedrich (Org.). Dialettica e positivismo in sociologia. 3. ed. Torino: Giulio Eunadi Editore, 1977.

MORAES FILHO, Evaristo de (Org.). Sociologia: Comte. São Paulo: Ática, 1978.

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SIMMEL, Georg. As formas sociais como objeto próprio da Sociologia. [Soziologie, 3. ed., München und Leipzig, Duncker & Humblot, 1923,
p. 3-7). In: CARVALHO, Nanci Valadares (Org.). Leituras sociológicas. São Paulo: Vértice, 1987.

SOUSA SANTOS, Boaventura de. Um discurso sobre as ciências. 10. ed. Porto: Afrontamento, 1998.

TOURAINE, Alain. Crítica da modernidade. Petrópolis: Vozes, 1994.

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WRIGHT, Erik Olin. Classe, crise e estado. Rio de Janeiro: Zahar, 1981.

Filipe Rocha/Arquivo da editora

64 • capítulo 2

Sociologia_vu_PNLD15_037a064_C02.indd 64 5/27/13 5:18 PM


Salmo Dansa /Arquivo da editora

Capítulo 3

A família no mundo de hoje


EstudarEmos nEstE capítulo:
por que a família é considerada uma instituição social. Vamos conhecer as origens da família patriarcal no Brasil e per-
ceber como a ideologia patriarcal influenciou a configuração da família nas sociedades ocidentais. Além das mudanças
sociais que levam ao fenômeno de famílias em transição, com novos arranjos familiares, analisaremos como as famílias
contemporâneas dividem a socialização (transmissão de valores e comportamentos) com a escola, os meios de comu-
nicação e outras instituições sociais.

65

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As muitas configurações da família
Filipe Rocha/Arquivo da editora

Entre todas as mudanças que estão se dando no mundo,


nenhuma é mais importante do que aquelas que acontecem em
nossas vidas pessoais – na sexualidade, nos relacionamentos,
no casamento e na família.
GIDDENS, Anthony. Mundo em descontrole. 3. ed. Rio de Janeiro: Record, 2003. p. 61.

Há uma grande variedade de situações e arranjos familiares no mundo.


Como é sua família? Que imagem vem à sua mente quando pensa nesse
assunto? Será que família é apenas um pequeno grupo formado por pai,
mãe e filhos morando juntos? Ou você incluiria avós, tios e primos, ainda
que nem todos habitem a mesma casa? Quem mais você considera parte do
seu núcleo familiar?
As Ciências Sociais lançam também questionamentos em relação ao te-
ma família; por exemplo, o que significa dizer que a família é uma institui-
ção social? Que papéis sociais desempenha cada um de seus membros? O
que mantém a unidade familiar e como ela se configura em diferentes socie-
dades? Que tipos de família podem ser identificados?
A palavra família é usada para designar grupos bastante distintos, que vão
além da estrutura “nuclear”, composta pelas figuras paterna e materna, além
dos filhos, todos vivendo sob um mesmo teto. Durante muito tempo, porém,
perante o Estado brasileiro, somente esse modelo de família era considerado
legítimo. Isso significa que apenas as pessoas vivendo em famílias formadas
por um casal heterossexual e filhos tinham acesso a direitos como a herança.
O registro formal de casamento, pela Igreja católica ou pelo Estado, também
era necessário para que se considerasse uma família aos olhos da lei. Apenas
uma parcela pequena da população vivia nessas condições: em geral, eram as
famílias mais ricas, que tinham propriedades e bens a serem herdados. Hoje,
modelos de família que sempre existiram estão começando a ser reconheci-
dos pelo Estado, garantindo uma ampliação dos direitos de pensão, divisão de
bens, adoção e herança, entre outros.
Uma definição mais ampla caracteriza a instituição familiar como um
conjunto de pessoas relacionadas entre si por laços afetivos, e não somente
pelo casamento ou pela filiação. O que aproxima e mantém unidos os mem-
bros de uma família são laços de parentesco e vínculos de afinidade, como
sentimentos e interesses semelhantes e/ou a necessidade de sobrevivência.
Não obrigatoriamente esses indivíduos coabitam.
O parentesco é um sistema de alianças que ordena e classifica a vida social,
com especificidades no tempo e em diferentes sociedades. Os integrantes de
uma rede de parentesco não se reconhecem biologicamente, mas sim por
meio de uma complexa lógica de classificação social, que varia entre os dife-
rentes grupos, segundo o antropólogo francês Claude Lévi-Strauss. As rela-
ções de parentesco também determinam, muitas vezes, a distribuição de po-
der econômico ou político numa sociedade, e nos dizem quem tem direitos
sobre quem. No caso da sociedade brasileira hoje, por exemplo, uma mãe tem
direitos sobre seu filho, e esse direito é regulado pelo Estado.

66 • capítulo 3

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Gerson Gerloff/Pulsar Imagens

Gerson Gerloff/Pulsar Imagens


1 2

Rita Barreto/Acervo da fotógrafa

Renato Soares/Pulsar Imagens


3 4

Gerson Gerloff/Pulsar Imagens


Stringer/Agência France-Presse

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Não há um único modelo de família, podendo variar o número de membros e a composição de cada uma, como podemos ver
nestas imagens: 1. Três gerações numa mesma foto: avós, mãe e neto representando uma família de Custódia (PE). Imagem de 2011.
2. Pai e filhos na zona rural de Restinga Seca (RS). Foto de 2011. 3. Família da etnia Kuikuro no Parque Indígena do Xingu (MT). Foto
de 2012. 4. Família da etnia Kambeba em Manaus (AM). Foto de 2011. 5. Casal homoafetivo espanhol com filhas recém-nascidas em
hospital na Índia. Foto de 2011. 6. Uma família de Santa Maria (RS) composta por avó, mãe e filhas. Foto de 2010.

É possível afirmar que o parentesco quase sempre engloba relações de


poder, dominação e subordinação. Além de estarem presentes na esfera fami-
liar, as relações de dominação são encontradas na política, na economia, no
trabalho. São relações assimétricas em que os indivíduos, para impor autori-
dade e influenciar outros indivíduos e grupos, podem se valer de meios físi-
co-materiais e simbólicos, como a violência, a persuasão, a pressão, o assédio,
a sedução e até a própria educação, os valores, a moral. Essas relações impli-
cam dependência e obediência, na concepção de dominação de Max Weber.
Certas relações de dominação típicas da tradição da elite europeia deram
origem à família moderna, cujo modelo ainda hoje é referência no Ocidente.
A família no mundo de hoje • 67

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A concepção hegemônica de família que
Fernando Favoretto/Criar Imagem

persistiu nos últimos dois séculos é a de um gru-


po social constituído, basicamente, pelas figuras
do pai, da mãe e dos filhos, o que se convencio-
nou denominar família nuclear. Nos dias de ho-
je, porém, o Estado reconhece como famílias
outros tipos de grupos: mães solteiras e pais sol-
teiros com seus filhos, crianças criadas por seus
avós, e até mesmo casais sem filhos. Outra con-
figuração familiar que está sendo reconhecida
pelo Estado somente agora são aquelas em que
a relação afetiva se dá entre pessoas adultas do
mesmo sexo.
Acima vemos o que poderia ser
chamado de exemplo de uma
O grupo familiar tende a se manter unido por relações sociais, econô-
família nuclear tradicional em micas e afetivas, mesmo quando seus membros não residem no mesmo
São Paulo. Hoje em dia sabe-se domicílio. Se incluirmos nesse conjunto os ascendentes, descendentes e
que tal modelo não é
os que se agregam ao grupo familiar indiretamente, estaremos nos refe-
hegemônico, sendo bastante
comuns os núcleos em que um rindo à família extensa. Também se discute nas Ciências Sociais se outros
dos pais não está presente ou tipos de relação – como as relações profissionais – poderiam ser incluídos
em que eles são do mesmo na ideia de família. Um exemplo disso são casos em que empregadas do-
sexo. Foto de 2011.
mésticas vivem junto à família que as contrata, participando da vida fami-
liar ativamente.

A família como instituição social


Como vimos nos capítulos 1 e 2, a Sociologia estuda a mudança social.
Em diferentes ritmos e momentos, vivemos transformações em todas as áreas
– política, econômica, social, cultural – e, embora sejam estudadas separada-
mente, elas estão todas inter-relacionadas. Ao analisarmos as mudanças eco-
nômicas, por exemplo, é necessário levar em conta o contexto social em que
elas ocorreram, suas razões e implicações sociais.
As mudanças na família – seu tamanho, seus valores e os papéis sociais
desempenhados por cada indivíduo que a compõe – nos remetem a outros
aspectos da sociedade, como os novos hábitos e estilos de vida, a acelerada
urbanização, as metamorfoses no mercado de traba-
Shutterstock/Glow Images

lho, a melhoria dos níveis de escolarização, a emer-


gência de novos valores e culturas, a massificação dos
meios de comunicação, entre outros. Com essas ques-
tões em mente, podemos analisar de forma mais ade-
quada a instituição família, compreendendo as trans-
formações pelas quais passou nos últimos tempos.
Uma prática social repetida e aceita por indiví-
duos e grupos se torna um padrão de comporta-
mento, ao menos durante certo período; assim
acontece com os grupos familiares em diversas cul-
turas. Ainda que a família esteja em contínuo pro-
cesso de mudanças, ela não é uma organização sim-
O afeto é um componente importante da instituição família, ples, nem tende a desaparecer facilmente. Nas
como se pode observar nos bilhetes acima. palavras do sociólogo francês Pierre Bourdieu:

68 • capítulo 3

Sociologia_vu_PNLD15_065a088_C03.indd 68 5/27/13 5:20 PM


[...] a família é produto de um verdadeiro trabalho de instituição, ritual e téc-
nico ao mesmo tempo, que visa instituir de maneira duradoura, em cada um dos
membros da unidade instituída, sentimentos adequados a assegurar a integração
que é a condição de existência e de persistência dessa unidade. Os ritos de insti-
tuição (palavra que vem de stare, ‘manter-se, ser estável’) visam constituir a família
como entidade unida, integrada, unitária, logo, estável, constante, indiferente às
flutuações dos sentimentos individuais. Esses atos inaugurais de criação (imposi-
ção do nome de família, casamento, etc.) encontram seu prolongamento lógico
nos inumeráveis atos de reafirmação e de reforço que visam produzir, por uma
espécie de criação continuada, as afeições obrigatórias e as obrigações afetivas
do sentimento familiar (amor conjugal, amor paterno e materno, amor filial, amor
fraterno, etc.)
BOURDIEU, Pierre. O espírito de família. In: _____. Razões práticas: sobre a teoria da ação. Campinas: Papirus, 1996. p. 126.

O que Bourdieu quer dizer nesse trecho é que a família se torna uma ins-
tituição quando suas regras são colocadas em prática, cotidianamente, por
muitas pessoas. As regras da família também asseguram sua existência e conti-
nuidade como estrutura social instituída. Um bom exemplo é a regra social
– hoje questionada – de que uma família precisa ter filhos. Ao colocar essa
regra em prática (ou seja, ter filhos), ela é reforçada, e reforça a existência de
um modelo de família com filhos.
As instituições sociais são maneiras duradouras e legitimadas de fazer, sen-
tir e pensar, estabelecidas para atender necessidades e objetivos das pessoas
organizadas em sociedade, exercendo uma espécie de controle social, diz
Émile Durkheim, um dos teóricos clássicos que abordaram a família como
instituição. De acordo com ele, a família, o Estado, a escola e o Direito são
instituições básicas da nossa sociedade, porque promovem a coesão social,
dando certo grau de solidariedade e de interdependência entre indivíduos e
grupos. As instituições são responsáveis pela preservação e transmissão dos
valores, das tradições e da cultura. Essa é a perspectiva da integração social,
que estudaremos mais detidamente no capítulo 8.
Para Durkheim, o ser humano é, em grande parte, fruto do meio social
em que vive e o convívio familiar tem papel fundamental na sua formação.
Desse modo, a sociedade é uma realidade externa e anterior ao indivíduo,
pois, quando este nasce, aquela já está pronta, com seus costumes, conheci-
mentos e outros bens culturais. Essa forma de pensar atribui à família e a
outras instituições, como a escola e a religião, o papel de promover a socia- Orlando Pedroso/Arquivo da editora

lização do indivíduo e de fornecer instrumentos para seu aprendizado cul-


tural. O processo de socialização é a transmissão da cultura ao longo do
tempo e das gerações com a finalidade de inserir e ajustar o indivíduo à so-
ciedade. Há a socialização primária, que ocorre na infância e passa condi-
ções fundamentais para a vida social, e a socialização secundária, um proces-
so contínuo de novas aprendizagens para conviver.
A família desenvolve estratégias para que variadas questões, como as re-
lativas a matrimônio, herança, economia e educação, se reproduzam de
uma geração para outra. Desse modo, a família tem um caráter conservador,
pois nos leva a preservar e a reverenciar as tradições. Entretanto, ela tam-
bém nos ensina a enfrentar os desafios que se colocam à vida social: confli-
tos, diferenças, desigualdades.

A família no mundo de hoje • 69

Sociologia_vu_PNLD15_065a088_C03.indd 69 5/27/13 5:20 PM


Na análise de Pierre Bourdieu, a família aparece para os indivíduos como
um universo social separado, portador de um espírito coletivo que demarca
fronteiras com o que está fora, de modo a idealizar e preservar as relações em
seu interior. A ela associam-se a noção de residência, do lar como lugar está-
vel, e o caráter de permanência do grupo doméstico – também conhecido por
grupo familiar, que reúne seus membros por laços de sangue ou afinidades e
valores sociais comuns, ainda que não habitem sob o mesmo teto.

[...] a família é o lugar da confiança e da doação – por oposição ao mercado e à dá-


diva retribuída – [...]; o lugar onde se suspende o interesse no sentido estrito do termo,
isto é, a procura por equivalência nas trocas. O discurso comum frequentemente (e, sem
dúvida, universalmente) inspira-se na família de modelos ideais das relações humanas
(em conceitos como os de fraternidade, por exemplo), e as relações familiares em sua
definição oficial tendem a funcionar como princípios de construção e de avaliação de
toda relação social.
BOURDIEU, Pierre. O espírito de família. In: _____. Razões práticas: sobre a teoria da ação. Campinas: Papirus, 1996. p.126.

Na família, as vidas de várias pessoas assumem diferentes papéis inter-


-relacionados. Os papéis sociais são expectativas de comportamento que os
indivíduos carregam em suas relações uns com os outros e dizem respeito às
funções a serem exercidas nos grupos sociais, na concepção do sociólogo
estadunidense Talcott Parsons (1902-1979). Por meio dos papéis, os mem-
bros de uma família se adaptam a novas situações e lutam por melhores
condições de vida, auxiliando-se mutuamente, como quando os jovens esta-
belecem um lar independente, tornam-se pais, etc.

Família é um grupo de pessoas cujos membros possuem entre si laços de


parentesco – consanguíneo ou por afinidade – e podem habitar ou não o
mesmo domicílio.

pausa par a r E f l E t i r

Observe a imagem e faça as atividades.

1. Descreva como as personagens estão posicio-


Coleção Banco Safra/Pinacoteca do Estado de São Paulo, São Paulo, SP.

nadas no ambiente.
2. Que papel social você atribui a cada uma das
personagens retratadas?
3. Você identifica relações de dominação nessa
família? Justifique sua resposta.
4. Explique as diferenças entre as ações desem-
penhadas por homens e mulheres retratados
na tela.

Cena da família de Adolfo Augusto Pinto (óleo


sobre tela), 1891, do pintor e desenhista
brasileiro Ferraz de Almeida Júnior.

70 • capítulo 3

Sociologia_vu_PNLD15_065a088_C03.indd 70 5/27/13 5:20 PM


A família patriarcal no Brasil e seus desdobramentos
O grupo familiar é dinâmico e tanto sofre influências do contexto social
em que se insere quanto contribui para promover ou apoiar mudanças no
meio. Dessa forma, entende-se por que a família nem sempre foi como a vi-
vemos hoje. Hoje ela divide a função de socialização e de transmissão de
valores e comportamentos com a escola, as creches, os meios de comuni-
cação, as redes sociais e outras instâncias sociais. No período do Brasil
colonial e imperial, por exemplo, a situação era diferente.
Ao analisar a formação das sociedades indígenas do continente
americano, o antropólogo Claude Lévi-Strauss indicou algumas ca-
racterísticas comuns, entre as quais o sistema de circulação de mu-
lheres, como regra de convivência entre os grupos. Tal costume
consiste na cessão de uma mulher de um grupo familiar para ser
cônjuge de um indivíduo de outro grupo, que retribui cedendo, tam-
bém, uma mulher para casar-se com um homem do primeiro grupo.
Esse sistema estabelece as alianças que organizam essas sociedades.
No Brasil, houve um tipo de dominação entre colonizadores e indí-
genas em que a união entre homens portugueses e mulheres indíge-
nas significou a multiplicação de filhos fora do casamento. A explo- Filipe Rocha/Arquiv
o da editora

ração sexual e do trabalho das mulheres negras pelos colonizadores


também foi uma relação desigual que resultou em inúmeras relações
interétnicas. Os grupos de elite entre colonizadores portugueses importaram
para o Brasil o que chamamos de família patriarcal, um modelo em que a
autoridade é do patriarca e passa apenas a seus filhos homens.
Gilberto Freyre ressaltou que o grande fator colonizador do Brasil desde
o século XVI não é o indivíduo nem o Estado ou qualquer companhia de
comércio, mas a família, “a unidade produtiva, o capital que desbrava o solo,
instala as fazendas, compra escravos, bois, ferramentas, a força social que se
desdobra em política, constituindo-se na aristocracia colonial mais poderosa
da América” (1997, p. 18).
Até o período do Brasil republicano, as famílias de elite eram bastante
numerosas, com muitos filhos. Tendo por objetivo evitar a divisão das fortu-
nas, mantendo ou melhorando as condições econômicas, eram estabeleci-
dos casamentos e contratos sociais entre membros de famílias ricas – gran-
des proprietários de terras ou ocupantes de cargos de prestígio.
Até o século XVIII, o processo de colonização do território foi marcado
pela dificuldade de administração do governo colonial, diante da extensão
do território, da distância da metrópole. As famílias contavam apenas com
seus membros e vizinhos, o que favoreceu o desenvolvimento de relações de
compadrio e a prática do apadrinhamento, que estabelecem vínculos mui-
tas vezes mais fortes do que os consanguíneos. Esse tipo de relação predomi- hh consanguíneo: laço determinado
nou de modo ostensivo até 1930, permanecendo em várias regiões coman- por origem biológica comum.
dadas política e economicamente por famílias oligárquicas centenárias.
Caracterizavam essas famílias a posse de terras, de gado e de mão de obra
(até a abolição da escravidão, em 1888), conferindo status social a muitos
líderes locais e seus familiares, fato que favorecia o exercício do poder. Isso

A família no mundo de hoje • 71

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ajuda a explicar o caráter patrimonial ainda presente na política brasileira,
em que a distinção entre a esfera pública e a esfera privada praticamente
inexistem.
Acervo Iconographia/Reminiscências

Núcleo familiar típico da elite


brasileira no século XIX: Os chefes políticos locais agiam segundo sua conveniência, guiando-se pe-
Martinho Prado Jr. e sua família, la posição social e fortuna das pessoas na escolha tanto do noivo para as filhas
em 1890. quanto da profissão dos filhos. Os patriarcas interferiam na vida social da lo-
calidade e nos cargos e jogos políticos. Na época, as relações de gênero ti-
nham nas esferas pública e doméstica um significado mais opressor e conser-
vador do que podemos encontrar hoje. A autoridade dos homens sobre as
mulheres estava não apenas nas práticas sociais, mas legitimada na legislação
e no funcionamento do Estado. O fato de apenas homens poderem votar du-
rante mais de um século no Brasil independente é um exemplo disso que
chamamos “sistema patriarcal”.
No período de maior influência desse sistema, era marcante o desequilí-
h relações de gênero: diz-se das rela- brio nas relações de gênero; para citar um exemplo, pode-se lembrar que as
ções sociais de poder determinadas mulheres, em especial as filhas, eram mantidas nos espaços privados da casa,
pelas ideias culturais de masculino e afastadas da sala e da varanda, considerados locais públicos em que os pro-
feminino. prietários recebiam os convidados e onde entravam somente se chamadas
ou autorizadas pelo fazendeiro.

o poder patriarcal é exercido pelo homem sobre sua família e sobre a


sociedade.

O patriarcalismo dificultava o reconhecimento de outras estruturas


familiares. Os africanos trazidos para o Brasil na condição de mão de
obra escrava, por exemplo, enfrentavam dificuldades para manter suas
famílias unidas e para transmitir e manter seus próprios valores e costumes.
72 • capítulo 3

Sociologia_vu_PNLD15_065a088_C03.indd 72 5/27/13 5:20 PM


Ao serem capturados na África, eram separados de seus familiares, que,
muitas vezes, eram encaminhados para distintas regiões, no momento da
venda. Quando constituíam novas famílias, nem sempre eram respeita-
dos, começando pelo fato de viverem em senzalas sem qualquer privaci-
dade. Os filhos nascidos da união entre fazendeiros e escravas não eram
reconhecidos legalmente, embora muitos tenham sido declarados filhos
nas confissões deixadas em testamento pelos fazendeiros.

A família como espaço de reprodução social


No final do século XIX e início do XX, a organização familiar no Brasil
recebeu influência dos imigrantes vindos de vários países europeus e do Ja-
pão. Eles tiveram papel importante na produção agrícola de exportação e
de subsistência, além de contribuírem para o desenvolvimento industrial do
país. Esses imigrantes constituíram famílias numerosas e procuraram mantê-
-las unidas, preservando e recriando costumes e tradições de sua origem.
Assim, agregaram à cultura local valores sociais e novas formas de educar e
socializar as crianças.
Na segunda metade do século XX, com as modificações no campo (mo-
dernização e mecanização da agricultura, desenvolvimento da agroindústria
e diminuição da necessidade de mão de obra), muitas famílias migraram
para os centros urbanos, em busca de melhores oportunidades. Essas famí-
lias atuaram como agentes de mudança no Brasil que se urbanizava, ao mes-
mo tempo que se adaptavam a novos modos de vida, ao trabalho industrial
ou em serviços e à moradia nas cidades.
Diante da impossibilidade de produzir para a própria subsistência no
ambiente urbano e das dificuldades por que passavam por conta da baixa
remuneração, esses grupos familiares se reorganizaram para viabilizar a
participação de seus membros no mercado de trabalho. Assim, os filhos
menores de famílias pobres, por exemplo, passaram a ser cuidados pelos
irmãos mais velhos ou por alguém da vizinhança; se não houvesse essa pos-
sibilidade, iam para creches ou, dependendo da idade, ficavam sozinhos
em casa.

A família é um coletivo
As famílias em geral constituem uma rede. Isso sig- mentos), e os demais comeriam depois. Tal costume
nifica que elas envolvem os parentes em uma trama de seria uma forma de assegurar àqueles indivíduos as
obrigações morais e laços de solidariedade que viabili- condições mínimas necessárias para o trabalho e, as-
zam a sobrevivência dos indivíduos. Elas se valem do sim, garantir a sobrevivência de toda a família.
grupo doméstico, e também da vizinhança e outros ti- Esse exemplo, estudado pela antropóloga em co-
pos de comunicadores, como clubes e associações de munidades de baixa renda, ilustra bem a forma como
bairro, para garantir sua manutenção. A antropóloga o interesse do coletivo família pode se sobrepor ao
brasileira Cynthia Sarti (1941-) observou algumas famí- interesse individual. Outros trabalhos de Sociologia
lias de trabalhadores de baixa renda e percebeu que mostram que o mesmo acontece em famílias de clas-
aquele que é responsável por prover o sustento da ca- se média e de elite: existem sempre formas de a famí-
sa teria a preferência para alimentar-se (quando há ali- lia fazer um investimento coletivo em seus indivíduos,

A família no mundo de hoje • 73

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o que garante a manutenção ou ascensão de seu status são algumas mães de classe média alta que optam
social. Isso pode ser feito priorizando que apenas um por não dar continuidade a suas carreiras, pois pen-
dos filhos frequente uma escola particular, por exem- sam que seu tempo pode ser mais bem investido cui-
plo, pois os pais entendem que esse investimento re- dando de perto das atividades e do desenvolvimento
tornará frutos para toda a família. Outro exemplo disso dos filhos.
Iano Andrade/CB/D.A Press

Em muitas famílias, a noção de comunidade é importante, por exemplo, para criar vínculos que permitam
que os pais trabalhem enquanto os filhos ficam em casa. Na foto, crianças brincam na rua na região
administrativa de Ceilândia, no Distrito Federal. Foto de 2012.

Mais que responsáveis pela reprodução biológica, as famílias são “unida-


des de reprodução social”. Nos espaços de convivência familiar, ocorre a
socialização permanente de seus membros, fundada em relações sociais que
reproduzem ideologicamente e perpetuam determinados costumes, hábitos
e padrões de comportamento.

En con tr o c om os c i E n t i s tas s oc i ai s

A família não deve suas virtudes à unidade de descendência: é simplesmente


um grupo de indivíduos que se encontram próximos uns dos outros, no centro da
sociedade política, por uma identificação particularmente estreita entre suas ideias,
sentimentos e interesses. A consanguinidade pôde facilitar essa concentração [...].
Mas muitos outros fatores intervieram: a vizinhança material, a solidariedade dos
interesses, a necessidade de se unir para lutar contra um perigo comum, ou sim-
plesmente para se unir, foram causas igualmente fortes de aproximação.
DURKHEIM, Émile. De la división del trabajo social. Buenos Aires: Schapire, 1973. p. 27. Texto traduzido.

• Esse trecho de Durkheim, escrito em 1893, mostra que o que mantém uma família
unida muitas vezes não é necessariamente a consanguinidade. Relacionando essa
leitura da obra Da divisão do trabalho social com o boxe iniciado na página anterior,
você consegue pensar em exemplos e situações em que a família facilita sua vida?
Lembra também de exemplos de como ela dificulta em outros momentos?

74 • capítulo 3

Sociologia_vu_PNLD15_065a088_C03.indd 74 5/27/13 5:20 PM


As Ciências Sociais observam a família
Dentre as Ciências Sociais, a Antropologia e a Sociologia são aquelas que
têm estudado com mais afinco todo tipo de questão ligada a famílias, arran-
jos familiares e parentesco. Como a família é uma instituição central para
compreender nossa sociedade, pela importância que damos a ela, centenas
de autores abordaram o assunto, antes mesmo de a Sociologia ser “inaugu-
rada” como ciência, no século XIX.
Um dos achados mais curiosos sobre parentesco é descrito pela antropó-
loga inglesa Marilyn Strathern (1941-) em um livro chamado After Nature
[“Após a natureza”, sem publicação em português], de 1992. No volume, ela
comenta etnografias – estudos descritivos das características culturais e so-
ciais de etnias – feitas na Papua-Nova Guiné, descrevendo sociedades em que
as relações com as pessoas são desfeitas após sua morte. Em uma dessas socie-
dades, por exemplo, se uma mãe vier a falecer, seu filho deixa de ser “filho”
e ela deixa de ser “mãe” e ambos perdem qualquer status associado com essas
posições. Isso nos faz perceber que, na nossa sociedade, o parentesco é em
geral fixo, com exceção de algumas posições conjugais. É possível ser “ex-
-marido”, mas de maneira geral não é possível ser “ex-pai” ou “ex-filho”.
Além das relações simbólicas que nos tornam “pai”, “mãe”, “filho” num hh simbólicas: que não são materiais,
sistema de parentesco e de muitos papéis sociais, a Antropologia do paren- físicas, mas sim decorrentes de inter-
tesco tem se dedicado também a entender de que forma a organização da pretação.
vida comum, em grupos de parentesco ou “famílias”, influencia a constru-
ção de nossas visões de mundo. Janet Carsten, uma importante antropóloga
britânica, diz em seu livro After Kinship [“Após o parentesco”] que a “casa”
tem uma dimensão física – o espaço, as paredes, os objetos – mas também
uma dimensão simbólica. Esta é formada pelas pessoas e pelas visões de
mundo que orientam suas relações umas com as outras, com os objetos e
com o espaço. Essas relações são executadas nos rituais do dia a dia. Segun-
do essa autora, a forma como a casa está organizada, ou a forma como seus
habitantes fazem as refeições ou dividem tarefas, são importantes momentos
de construir, transmitir e reafirmar valores, conceitos e visões de mundo.
Divulgação/CinemaScópio

Cena do filme O som ao redor


(Brasil, 2012), de Kleber Mendonça
Filho. Francisco (W. J. Solha),
patriarca de uma família da elite
tradicional pernambucana,
senta-se à cabeceira da mesa
durante a refeição.

A família no mundo de hoje • 75

Sociologia_vu_PNLD15_065a088_C03.indd 75 5/27/13 5:20 PM


Pierre Bourdieu partia dessa mesma percepção. Por esse motivo, utilizou a
família em estudos sobre os mais variados assuntos, entre eles, sobre como a
estrutura desigual da sociedade consegue se manter de forma tão sólida. Se-
gundo ele, as famílias e outros grupos sociais transmitem a seus membros uma
série de valores, formas de se comportar e visões de mundo, criando uma iden-
tidade própria que lhes permite dizer quem são seus “semelhantes”. A trans-
missão desse conjunto de propriedades simbólicas, chamado habitus, é uma
das formas que os grupos com mais poder na sociedade têm para manter seu
status. Informações sobre a vida familiar e cotidiana das pessoas foram ferra-
mentas centrais para Bourdieu e os demais sociólogos e sociólogas que partem
de suas teorias.
Vertentes da Sociologia veem a família por diversos ângulos. Os funcio-
nalistas procuram ver na família as necessidades sociais que ela satisfaz, co-
mo o controle da sexualidade e a procriação, o sustento dos seus membros
e a garantia de um status social a eles, a socialização, o cuidado e a proteção
das crianças. Outros estudiosos consideram a família uma unidade na qual
se encontram diferentes tensões que podem controlar o convívio no seu in-
terior, como as relações entre cônjuges, pais e filhos, irmãos. Essas situações
podem desencadear disputas de poder em processos de socialização, de luta
pela sobrevivência ou mesmo por herança.
Talcott Parsons, por exemplo, sustenta que a família nuclear surgiu co-
mo resposta às exigências do sistema econômico da sociedade industrial.
Estudos recentes e críticos alertam para o fato de a família estar vinculada ao
processo geral de constituição da sociedade; nesse sentido, nas sociedades
modernas avançadas tem-se estabelecido a paridade entre os cônjuges.
Sociólogos da Teoria Crítica, como os alemães Theodor Adorno e Max
Horkheimer, refletem sobre interesses conflitantes na instituição familiar.
Indagam: uma vez que deve proteger seus membros de um mundo no qual
é inerente a pressão social, é possível manter a função protetora da família
e eliminar seu aspecto disciplinar?

Famílias em transição
As mudanças na família, mais evidentes no século XX, originaram-se, em
parte, da Revolução Industrial – que trouxe distinção entre a casa e o local
de trabalho –, de fatores demográficos (redução da mortalidade e da natali-
dade, por exemplo) e da maior mobilidade das populações. Alteraram-se os
papéis tradicionais do pai e da mãe nas famílias de elite nas sociedades oci-
dentais e surgiram novas formas de gestão da vida doméstica.
Em geral, quando pensamos em família logo nos vem à mente a imagem
da família nuclear, composta por pai, mãe e filhos, baseada no modelo oci-
dental monogâmico heterossexual (aquele em que uma pessoa pode ter
apenas um cônjuge do sexo oposto enquanto dura a união). No entanto,
nos dias de hoje, outros arranjos são bastante comuns em todos os contextos
h consensuais: de comum acordo en- sociais, como uniões consensuais, famílias monoparentais (aquelas que con-
tre as partes, sem mediação de uma tam somente com um dos pais vivendo com seus filhos; o pai ou a mãe é o
instituição. único responsável pela prole, ainda que outros parentes residam na casa),
pessoas casadas vivendo em casas separadas, etc.

76 • capítulo 3

Sociologia_vu_PNLD15_065a088_C03.indd 76 5/27/13 5:20 PM


Um fenômeno demográfico recente despertou a atenção de cientistas so-
ciais de diversos ramos: no Brasil, é crescente e sólido o número de famílias
chefiadas por mulheres, em especial as monoparentais. Isso acontece não ape-
nas porque mais mulheres têm trabalho remunerado nos dias de hoje, mas
também porque houve uma série de mudanças nas concepções da nossa socie-
dade sobre o que significa “ser mulher” e “ser homem”, o que chamamos,
grosso modo, de “sistema de gênero”. Além disso, as reformas legislativas que
passaram a permitir o divórcio por livre e espontânea vontade do casal (ou de
um de seus integrantes), na década de 1970, também foram fundamentais
para que isso ocorresse.
Naquela época, as mulheres que chefiavam famílias eram principalmen-
te viúvas ou aquelas cujos maridos migravam para outras regiões em busca
de trabalho – como as “viúvas da seca” do Nordeste brasileiro. Mais recente-
mente, mães solteiras, separadas ou divorciadas predominam nas famílias
monoparentais.
Mesmo no caso das famílias monoparentais, há uma rede familiar e
profissional mais extensa que apoia as necessidades cotidianas das mães e
pais “solteiros”. Além da ajuda de parentes (co- Brasil: taxa de fecundidade (1960-2011)
mo avós, primos, tios) e vizinhos, muitas famílias
recorrem a serviços profissionais para suprir os
cuidados básicos com a casa e o desenvolvimento
dos filhos. Uma mãe que trabalha como faxinei-
ra, por exemplo, pode estar inserida em duas re-
des diferentes. Durante o expediente ela pode
ser parte da rede de apoio de uma família mono-
parental em que a responsável trabalha fora de
casa e não deseja despender parte de seu tempo
livre na faxina. Porém, para que a faxineira possa
realizar esse trabalho, ela recorre a outra rede de
apoio, deixando seus filhos pequenos numa cre-
che municipal ou particular, e às vezes pede a vi-
Adaptado de: INSTITUTO Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
zinhos ou parentes que os levem até lá e/ou os Séries estatísticas & Séries históricas.
Disponível em: <www.ibge.gov.br/series_estatisticas/>. Acesso em: 15 out. 2012;
tragam de volta para casa. É importante lembrar Brasil em números – volume 19, 2011. Rio de Janeiro: IBGE, 2011.
que o trabalho de cuidados nem sempre se diri-
ge às crianças da família; ele também acontece Brasil: taxa de mortalidade (1960-2011)
Gráficos: Cassiano Röda/Arquivo da editora
com idosos, doentes ou pessoas com deficiência.
Outra característica das famílias brasileiras é a
diminuição do tamanho médio de seu núcleo. No
Brasil, baixou de 2,3 em 2000 para 1,7 em 2011 o
número de crianças nascidas, por mulher. Por ou-
tro lado, o Censo de 2010 mostrou que a taxa de
mortalidade infantil no país decresceu de 29,7,
em 2000, para 15,6 mortes, em 2010, para cada
mil crianças com menos de um ano nascidas vivas.
Esses dados inserem o país em um quadro de tran-
sição demográfica, de um contexto de altas taxas
de fecundidade e de mortalidade para a redução
de ambos os índices. Podemos conferir esses da- Adaptado de: INSTITUTO Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
Séries estatísticas & Séries históricas. Disponível em:
dos nos dois gráficos ao lado. <www.ibge.gov.br/series_estatisticas/>. Acesso em: 15 out. 2012.

A família no mundo de hoje • 77

Sociologia_vu_PNLD15_065a088_C03.indd 77 5/27/13 5:20 PM


Como resultado, há um aumento na idade média da população. A alte-
ração do índice de natalidade levou a um menor número de membros com-
pondo uma família, principalmente após a década de 1970. Estima-se que
nas áreas urbanas o número de filhos por núcleo familiar tenha caído de
uma média de 5 a 3 para uma média de 3 a 2. Isso ocorreu graças a uma
conjugação de fatores, tais como o intenso processo migratório campo-cida-
de, a popularização do uso da pílula anticoncepcional, as dificuldades habi-
tacionais e de subsistência para os trabalhadores das cidades.
As famílias que permaneciam no meio rural tinham dificuldades para se
manter com a redução das propriedades voltadas à subsistência e à agricul-
tura familiar. A concentração de terras para o plantio mecanizado dispensou
mão de obra familiar, requisitada apenas para trabalho temporário ou sazo-
nal. Essa realidade do campo resultou na redução do número de filhos por
família também nas áreas rurais brasileiras.

hh
Movimentos de mulheres e relações familiares
8 de março
[...] mulher é homem que volta do
me perdoe poeta e contista trabalho e alimenta os filhos
nem beleza homem é mulher que põe pra
nem mulher dormir e conta histórias
são fundamentais essa androginia das funções
por que sobrepor o epíteto ensina novo conceito:
ou o gênero à espécie? essência é mais [...]
fundamental é ser
mulher e
ponto. [...]
Trechos do poema de Juarez Poletto. In: POLETTO, Juarez.
Vaidade. Curitiba: Mileart, 2002. p. 59.

A ideologia patriarcal difundiu atitudes de dominação masculina e de sub-


missão da mulher, não apenas no âmbito doméstico como em outras esferas
sociais. Como já foi dito, mudanças nas ideias e nos costumes de uma socieda-
Anderson Barbosa/Folhapress
de são processos lentos. Isso tam-
bém vale para a transformação nas
relações de gênero, as quais, envol-
vendo relações de poder entre ho-
mens e mulheres, manifestas em
tensões tanto por diferenças bioló-
gicas quanto psicoculturais, são
próprias de cada contexto social,
com seu tempo e espaço.

Manifestação nas ruas de São Paulo (SP) em 8 de


março de 2012. Além de comemorar o Dia
Internacional da Mulher, as participantes
reivindicaram igualdade de direitos, melhores
condições de trabalho e o fim da violência contra
a mulher.

78 • capítulo 3

Sociologia_vu_PNLD15_065a088_C03.indd 78 5/27/13 5:20 PM


Na família, a diferenciação de papéis mas-

Joênia Wapichana/Acervo pessoal


culinos e femininos é, em geral, reforçada pela
educação. Em busca da igualdade nas relações
de gênero, os movimentos feministas e os movi-
mentos sociais conquistaram vitórias contra a
opressão. Mas, segundo os estudiosos desses te-
mas, ainda há muito a fazer para a construção
da igualdade, seja no ambiente doméstico (on-
de raramente os homens partilham a sobrecar-
ga de tarefas com as mulheres), seja no traba-
lho (onde a mulher ainda tem dificuldade de
acesso a cargos e funções de altos salários).
Os movimentos feministas têm atuado em A advogada Joênia Batista Carvalho Wapichana durante a conferência
climática da ONU, a COP 18, em 2012. Ela se destaca em sua profissão,
muitos países, visando assegurar a participação principalmente na defesa da demarcação de terras indígenas.
da mulher de forma igualitária nas diversas ins-
tâncias da sociedade. Algumas de suas principais bandeiras são: o sufrágio hh sufrágio: direito de voto.
universal, a participação em igualdade de condições no mercado de traba-
lho, a valorização dos serviços domésticos, o direito sobre o próprio corpo, o
combate à violência e à opressão, entre outras. Esses movimentos têm promo-
vido modificações importantes em diversas instituições sociais, como o direi-
to ao exame de DNA e o reconhecimento de paternidade, a criminalização
da violência doméstica (no Brasil, mediante a Lei Maria da Penha), a institui-
ção da licença-paternidade e a ampliação da licença-maternidade. As lutas
feministas transformaram, para além dessas questões mais concretas, tam-
bém o campo simbólico: por causa delas, mudamos a forma de compreender
o que significa ser mulher na sociedade.

Relações de igualdade na família


Apesar das mudanças pelas quais passou a família, Um novo texto do Código Civil, estabelecido em
nas relações entre seus membros e na concepção de 2002, distingue-se dos anteriores sobretudo pelo prin-
seu amparo político e jurídico, encontra-se ainda bas- cípio da isonomia: homens e mulheres possuem direi-
tante arraigada em suas bases a ideologia patriarcal. tos iguais. Além disso, outra mudança importante é que
Até 2002, por exemplo, o Código Civil Brasileiro (que hoje não se fala mais em “pátrio poder”, expressão
estava em vigor desde 1916) conferia ao homem a con- que remete à figura
Reprodução/Editora Saraiva

dição de chefe nas configurações familiares. masculina, mas em


Do ponto de vista jurídico e social, a mulher brasi- “poder familiar”, pelo
leira era considerada incapaz, devendo ser represen- qual cabe ao pai e à
tada pela figura masculina do pai ou do marido. Tal mãe, em igual medi-
da, cuidar da família.
situação foi alterada apenas pela Constituição de
1988, que reconheceu a união estável entre um ho-
mem e uma mulher como uma família e equiparou a
posição dos sexos, além de não fazer diferença com
relação aos filhos desse tipo de união e aos novos vín-
culos. No entanto, apesar dos avanços nas leis, sabe-
Capa de edição publicada
mos que a cultura de uma sociedade não se transfor- em 2012 do Código Civil e
ma da noite para o dia. da Constituição Federal.

A família no mundo de hoje • 79

Sociologia_vu_PNLD15_065a088_C03.indd 79 5/27/13 5:20 PM


Desde o século XX, a família patriarcal tem se modificado e perdido terre-
no, tendência que, segundo o sociólogo espanhol Manuel Castells (1942-), se
deve às mudanças no mundo do trabalho e na educação. Os movimentos so-
ciais, especialmente os feministas, e a rapidez na difusão das ideias, em tem-
pos de globalização, também colaboraram com as mudanças nas relações de
gênero, afetando diretamente a legitimação de diversas configurações familia-
res. Durante esse período, as mulheres conquistaram a cidadania, garantindo
o recebimento de salário e direitos trabalhistas, o registro de bens em seus
nomes, o direito à herança, à educação superior, entre outras coisas.

dEBatE

Leia esta notícia e verifique suas dúvidas de vocabulário. Depois, em grupo, discu-
tam e façam as atividades propostas.

Mulher é a nova chefe do lar


O homem está deixando de ser o chefe da casa, dividindo esse papel com a
mulher e até transferindo para ela as responsabilidades de sustentar e cuidar dos
filhos. No Brasil, o total de famílias formadas por casais com filhos e chefiadas por
mulheres cresceu de pouco mais de 200 mil, em 1993, para 2,2 milhões em 2006. Em
13 anos, esse novo modelo da família brasileira expandiu 10 vezes, evoluindo de
3,4% para 14,2% do total de lares brasileiros, segundo a pesquisa Retrato das Desi-
gualdades de Gênero e Raça, elaborada pelo Instituto de Pesquisa Econômica Apli-
cada (Ipea), em parceria com o Fundo de Desenvolvimento das Nações Unidas para
a Mulher. [...] Dentre os novos arranjos familiares, a pesquisa detectou também um
ligeiro aumento das famílias formadas por homens cuidando sozinhos dos filhos.
Na última década, esse modelo cresceu de 2,1% para 2,7%.
KIEFER, Sandra. Estado de Minas (MG): mulher é a nova chefe do lar. Revista Desafios do Desenvolvimento. Brasília: Ipea, 2008.
Disponível em: <http://desafios.ipea.gov.br/003/00301009.jsp?ttCD_CHAVE=5954>. Acesso em: 13 dez. 2012.

1. Quais as características e dimensões das mudanças recentes na família brasileira?


2. Com base nas transformações em termos de estrutura familiar indicadas pelo es-
tudo do Ipea, discutam suas prováveis implicações sociais e culturais.

Um casal face a face, hh


O que há de novo nas famílias?
ilustração de Trina Dalziel.
O sociólogo britânico Anthony Giddens (1938-) consi-
Trina Dalziel/Illustration Works/Getty Images

dera o casal como o centro da vida familiar, tendo como


fundamento da união, na sociedade contemporânea, a in-
timidade. Ainda na visão do sociólogo, uma relação estável
é compatível com o que denomina “democracia das emo-
ções”, uma situação que aceita as obrigações e os direitos
previstos nas leis e contempla a proteção das crianças co-
mo política pública, em que os pais devem prover a subsis-
tência dos filhos, sejam quais forem os arranjos de vida.
Essas ideias são úteis para compreender a dinâmica de
muitas famílias, embora não se apliquem exatamente àque-
las que não são baseadas em um casal, como quando uma
mulher solteira que tem filhos adotados ou biológicos
constitui propositalmente uma família monoparental.

80 • capítulo 3

Sociologia_vu_PNLD15_065a088_C03.indd 80 5/27/13 5:20 PM


o uso de técnicas contraceptivas, a adoção do planejamento familiar e a
primazia concedida pela mulher à carreira profissional contribuíram para as
mudanças na família moderna.

Giddens refere-se à família como um local de luta entre a tradição (repre-


sentada pela transmissão fiel dos comportamentos coletivos e do patrimônio
cultural, via memória e linguagem, ao longo das gerações) e a modernidade
(uma nova sensibilidade racional diante da realidade). Os conflitos geracio-
nais dentro das famílias são um exemplo concreto dessas tensões. Dessa forma,
o processo de redução da influência do patriarcalismo foi acelerado com a di-
fusão das novas informações e ideologias em escala mundial, modificando al-
guns dos valores sociais.
Um exemplo claro dessas modificações é o Estatuto da Criança e do Ado-
lescente. A ideia de uma infância que deve ser protegida pela sociedade como
um todo – inclusive pelo Estado – não existiu desde sempre. Até o século XIX,
o que hoje consideramos “crianças” eram pessoas consideradas “miniadultos”,
que trabalhavam legalmente e, no caso das meninas, casavam por vontade de
suas famílias. Até relativamente pouco tempo atrás, crianças até podiam ser
vendidas como mão de obra para trabalhos de lavoura ou domésticos. A partir
da difusão de um ideal de infância, e do reforço desse ponto de vista por parte
de diversos países, principalmente por meio da Organização das Nações Uni-
das (ONU), as práticas em relação à infância se modificaram em grande parte
do mundo e também no Brasil.
Essas novas informações, valores, ideologias e visões de mundo afetaram
diretamente o direito e o Estado e acabaram trazendo novas possibilidades
às famílias e aos relacionamentos conjugais. Algumas consequências dessas
novas possibilidades, que podemos constatar hoje, são: o crescimento do
número de separações e divórcios, a dificuldade em compatibilizar o traba-
lho com a rotina da família e a distinção entre sexualidade e reprodução.
Outros fatores que influenciam a formação de novos arranjos domésticos
são as uniões tardias, os relacionamentos informais, o envelhecimento da
população e a maior mortalidade entre os homens. Lucas Lacaz Ruiz/Futura Press

Também os movimentos pela diversidade sexual co-


laboram com as mudanças no âmbito familiar, pois
questionam a heterossexualidade como norma social.
Isso abriu espaço para o reconhecimento de arranjos fa-
miliares fundados em relações homoafetivas, termo usa-
do para referir-se aos sentimentos de afeto e aos relacio-
namentos amorosos entre pessoas do mesmo sexo. A
união civil de duas pessoas do mesmo sexo e a adoção
de crianças por elas, possíveis em alguns países, refletem
alterações nos valores das sociedades referentes às rela-
ções familiares, pois passam a reconhecer e a respeitar a
diversidade. No Brasil, o Supremo Tribunal Federal legi-
timou pela primeira vez, em 2011, a união entre homos-
sexuais, concedendo-lhes os mesmos direitos civis de
Acima, imagem do primeiro casal homossexual a
que dispõem os casais heterossexuais, por exemplo, a formalizar seu casamento no Brasil. Tal fato ocorreu em
herança. Jacareí (SP), em 28 de junho de 2011.

A família no mundo de hoje • 81

Sociologia_vu_PNLD15_065a088_C03.indd 81 5/27/13 5:20 PM


Além dessas, outras mudanças podem ser observadas no que diz respeito
aos relacionamentos e às ideias que temos hoje sobre conjugalidade, família e
casamento. Observando os relacionamentos contemporâneos percebemos
que muitos casais jovens têm preferido manter relações duradouras e estáveis
sem a imediata oficialização contratual por meio de matrimônio, e parte deles
opta por oficializar sua união apenas mais tarde. A possibilidade de ter aber-
tamente relacionamentos curtos e “experimentais” também é um fenômeno
recente. Tanto a recusa/adiamento da formalização da aliança conjugal quan-
to a brevidade de muitos relacionamentos são indicativos da mudança de va-
lores, principalmente entre os jovens.

Muitas mudanças nas famílias, que marcaram as últimas gerações, decorrem


da maior liberdade conquistada por seus membros.

Hoje há famílias em que os cônjuges já desfizeram uniões anteriores e


constituem uma nova família – chamada família recomposta. Nesse caso, os
papéis sociais se misturam e modificam o cotidiano: além de pai, mãe e fi-
lhos, convivem o padrasto, a madrasta, os meios-irmãos e meias-irmãs. As
crianças recebem influências diversas ao circularem em diferentes ambien-
tes familiares. Na família recomposta pode ocorrer a pluriparentalidade –
compartilhamento entre pais biológicos e sociais – ficando divididas as prin-
cipais funções parentais, como possibilitar ao filho uma identidade ao
nascer, alimentar, ensinar valores e atitudes morais, ajudar a desenvolver
conhecimentos técnicos e fazê-lo chegar à idade adulta.

hh
As relações familiares transformadas e os jovens
As questões relacionadas às novas formas de sociabilidade e de socializa-
ção das crianças, no ambiente doméstico e fora dele, afetam os relaciona-
mentos familiares. O fato de os pais ausentarem-se de casa para trabalhar,
deixando a educação de seus filhos a cargo da creche, da escola, de familia-
res, vizinhos ou profissionais, muda a forma como ocorrem a transmissão de
valores e a dedicação de afeto entre pais e filhos.

Socialização e educação: o papel social da família e da escola


Como vimos neste capítulo, a família vem mudan- la, em seu papel social: ela precisa considerar a di-
do seu papel social, atribuindo algumas funções, até versidade cultural e fornecer padrões de comporta-
então suas, a outras instâncias, como a escola; nesse mento, uma vez que a educação deve assegurar a
contexto, essas instituições disputam ou comparti- aquisição de uma experiência social acumulada e
lham a socialização da criança. culturalmente organizada.
A escola, afirma o educador Jean-Claude For- Segundo o sociólogo Pierre Bourdieu, a relação
quin, é um espaço, por excelência, de transmissão entre família e escola diferencia-se sociologicamente
cultural e de aquisição de conhecimentos, capacida- conforme suas origens sociais. A manutenção do status
des e hábitos. Assim, educar nesse espaço é uma social das elites, por exemplo, não ocorre mais exclusi-
ação política, e não um trabalho meramente técnico, vamente pela herança, sendo necessária sua legitima-
pois exige um projeto de sociedade para alcançá-lo. ção por meio de diplomas – daí a necessidade de in-
Atualmente as famílias esperam ainda mais da esco- vestimento na escolarização. Já nas classes populares,

82 • capítulo 3

Sociologia_vu_PNLD15_065a088_C03.indd 82 5/27/13 5:20 PM


Leo Drummond/Agência Nitro


a relação com a escola é ambígua, pois, embora te-
nham certo distanciamento, aceitam-na como fonte
legítima de aquisição de conhecimento e como uma
das poucas possibilidades de ascensão social.
Segundo a socióloga brasileira Maria Alice No-
gueira, as classes médias, por sua vez, adotam a
contenção de gastos e a limitação do número de fi-
lhos para oferecer-lhes uma educação de qualida-
de; por isso, aderem aos valores, normas e exigên-
cias escolares. Nesse caso, os investimentos que
A escola tem ganhado um espaço cada vez maior na formação
realizam chegam a ser excessivos em relação aos dos jovens na atualidade. Na imagem acima, de 2010, alunos de
seus recursos. uma escola em Belo Horizonte (MG).

Um dos maiores desafios que as famílias enfrentam é o de criar e educar


os filhos. Entre as mais pobres, há dificuldade em conciliar a maternidade/
paternidade e o emprego e, sem recursos suficientes para sustentar os filhos,
as famílias podem até mesmo perder sua custódia. Isso conduz a um círculo
vicioso que mantém algumas mães, por exemplo, no limite da sobrevivência
ou como dependentes das políticas públicas de complementação de renda
e de outros programas assistenciais.
Parte dessas inúmeras mudanças registradas no âmbito familiar resulta
de saídas criativas diante das novas necessidades e valores. Alteram-se as ma-
neiras de criar, educar e socializar os filhos, incluindo o diálogo e as relações
mais democráticas, quando a criança e o jovem passam a ter abertura para
expor suas ideias e explicitar suas escolhas no âmbito da família.
Outras mudanças de atitudes revelam a

Alexandra Moraes/Folhapress
conscientização feminina com relação aos
seus direitos. O fato de as pessoas poderem
permanecer juntas apenas enquanto assim o
desejarem reduz a vulnerabilidade das mu-
lheres no grupo doméstico como um todo.
Nesse contexto, percebe-se que há hoje famí-
lias mais complexas, na qual os papéis sociais,
as regras e as responsabilidades estão sendo
renegociados entre seus membros.

a reconstrução da família em condições de


igualdade e a responsabilidade das
instituições públicas em assegurar apoio
material e psicológico às crianças são as
medidas capazes de alterar o curso da
destruição total da psique humana, implícita
na vida instável de milhões de crianças.
CASTELLS, Manuel. O poder da identidade. São Paulo: Paz e Terra, 2003. v. 2. p. 283.

“O Pintinho”, de Alexandra Moraes. Charge


publicada em 26 de outubro de 2012 no caderno
especial Eleições, do jornal Folha de S.Paulo.

A família no mundo de hoje • 83

Sociologia_vu_PNLD15_065a088_C03.indd 83 5/27/13 5:20 PM


Uma das tendências para as relações familiares está em parcerias econô-
micas e afetivas nas quais o trabalho doméstico e a responsabilidade pelos
filhos sejam compartilhados integralmente, como sugere a poesia 8 de março,
apresentada neste capítulo: “mulher é homem que volta do trabalho e ali-
menta os filhos / homem é mulher que põe pra dormir e conta histórias”.

pEsquisa

Em equipes de quatro pessoas, sigam o roteiro de entrevista, para pesquisa explora-


tória, sobre papéis sociais no âmbito das famílias.

1. Cada membro da equipe deve realizar entrevistas com dois pais ou mães de ida-
des distintas – um com 60 anos ou mais e outro com idade entre 20 e 30 anos,
conforme segue:
a) Qual é seu estado civil (solteiro, casado, união consensual, separado ou viúvo)?
b) Em sua opinião, qual é o papel do pai e qual é o papel da mãe na família?
c) O que você acha do trabalho do homem e da mulher fora de casa?
d) Quem cuida de seus filhos?
e) Como você contribui para a educação de seus filhos?
f) Caso a pessoa seja separada ou viúva, pergunte: depois da separação ou da
perda de seu(sua) companheiro(a), você constituiu ou pretende constituir
uma nova família? Por quê?

2. Em sala de aula, reúnam as respostas e verifiquem as coincidências e as diferenças


entre os depoimentos dos pais mais velhos e dos mais jovens. Analisem as tendên-
cias de comportamento dos dois grupos e, depois, sistematizem por escrito o re-
sultado.

diálogo s i n t E r d i s c i p l i nar E s

As famílias, como vimos neste capítulo, são uma instituição social e


uma organização centrais em nossa sociedade. É nas famílias que entra-
mos em contato com uma série de códigos culturais, sociais, simbólicos;
esses códigos, por sua vez, também nos fazem ocupar um determinado lu-
gar social: nascer e crescer em uma família com pouco acesso à educação
e a empregos estáveis não é o mesmo do que nascer numa família proprie-
tária de grandes empresas.
Depende também das famílias a coleta de informações mais importan-
te que o Estado brasileiro realiza, o Censo. É com entrevistas feitas nos
domicílios das famílias brasileiras que começa esse processo de produção
de dados e informações sobre a população do país. Durante a coleta, um
agente treinado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE)
faz uma série de perguntas para a pessoa apontada como responsável pelo
domicílio. Essas perguntas servem para obter informações sobre aquela
família e seus membros, que vão desde o sexo e idade das pessoas que mo-
ram ali até condições de trabalho e renda, orçamento da casa, acesso à
educação e hábitos de consumo.

84 • capítulo 3

Sociologia_vu_PNLD15_065a088_C03.indd 84 5/27/13 5:20 PM


Fábio Cortez/DN/D.A Press
Agente recenseador do IBGE
realiza entrevista para o Censo
2010 em Parnamirim, no Rio
Grande do Norte. O Censo mapeia
a realidade socioeconômica
brasileira buscando entrevistar,
em cada domícilio do país, o
responsável pela família.

As informações colhidas durante o Censo, realizado a cada 10 anos,


são estratégicas para a elaboração de políticas públicas que visem me-
lhorar a vida da população brasileira. Elas também são usadas por em-
presas para identificar seu público-alvo e caracterizá-lo, o que lhes per-
mite adequar seus produtos ao interesse dos consumidores a fim de
garantir sua permanência ou crescimento no mercado. Para as Ciências
Sociais, esses dados são essenciais, pois ajudam pesquisadores e pesqui-
sadoras a elaborar perguntas sobre a sociedade e traçar perfis de alguns
grupos sociais específicos.
Se fôssemos ler, um a um, os questionários respondidos pelas famílias
brasileiras durante o Censo, é provável que não conseguíssemos identificar
rapidamente as tendências e perfis comuns a elas, nem a certas regiões geo-
gráficas, bairros, classes sociais, etc. O tratamento estatístico dos dados é que
nos permite compreendê-los de forma mais geral. Por isso, as Ciências So-
ciais aliam-se à disciplina da Estatística, que é parte do campo da Matemáti-
ca, para obter dados empíricos fundamentais aos seus estudos. Outras ciên-
cias humanas também utilizam dados dos estudos populacionais para pensar
questões e elaborar explicações sobre a sociedade, como a História, a Geo-
grafia e a Economia.
Ao mesmo tempo, sem as teorias e percepções dos estudiosos da socieda-
de, esses tipos de dados não começariam sequer a ser produzidos de forma
consistente e relevante para a compreensão da vida social. Dentro das Ciên-
cias Sociais, a área que se dedica ao estudo massivo de populações inteiras se
chama Demografia. hh
Demografia: palavra originada dos
Para conhecer as ciências que pensam os fenômenos da vida em socieda- termos gregos demos, que significa
de, visite o site do IBGE Teen, uma seção da página oficial do IBGE na inter- ‘povo’, e graphia, ‘registros’. A demo-
net dedicada a estudantes de Ensino Fundamental e Médio: <www.ibge.gov. grafia seria o “registro do povo, da
br/ibgeteen>. Explorando as seções do site, você vai encontrar informações população”.
que podem ser utilizadas para analisar a sociedade brasileira pela perspecti-
va da História, da Geografia, da Economia ou da Sociologia.

A família no mundo de hoje • 85

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1. Clique no ícone da prancheta e visite a seção “Mão na Roda!” (www.ibge.gov.br/
Filipe Rocha/Arquivo da editora

ibgeteen/pesquisas/index.html). Identifique que conteúdos parecem estar mais


relacionados a...
a) Sociologia.
b) História.
c) Economia.
d) Geografia.
e) Biologia.
2. Os dados mais fortemente ligados à Sociologia são aqueles relacionados à estru-
tura política, à cidadania, à democracia, à composição e características da popu-
lação, aos hábitos e condições de trabalho, às famílias, às desigualdades, a grupos
sociais específicos (como as populações indígenas), etc. Organizados em duplas
ou trios, escolham um tópico relacionado à Sociologia e outros dois tópicos liga-
dos a outras ciências. Em seguida:
a) Abram as páginas correspondentes aos três tópicos. Observem cada uma, com-
parem e reflitam:
• Como as informações estão sendo apresentadas (textos, gráficos, tabelas,
quadros, mapas...)?
• Por que vocês acham que os técnicos do IBGE escolheram apresentar essas
informações dessa maneira?
• A apresentação das informações facilita a compreensão em alguns casos?
Quais? Também é possível que a apresentação torne-os mais difíceis de en-
tender? Vocês conseguem dar exemplos disso?
b) Leiam atentamente as informações disponíveis sobre os assuntos que vocês
escolheram. Analisem, anotem em seus cadernos e discutam com colegas:
• As informações que vocês acharam mais curiosas, estranhas, diferentes, ines-
peradas.
• As informações que vocês já conheciam ou já tinham percebido intuitiva-
mente, isto é, sem conhecer os dados, apenas com suas experiências de vida.
c) Elaborem, com base nessas informações, três perguntas sobre a sociedade bra-
sileira e a vida das pessoas no Brasil. Elas podem ser perguntas que buscam:
• explicações (Por que acontece?)
• compreensão (Como acontece?)
• exploração aprofundada (Quais são...? Quem são...? Qual é...?)
d) Planejem no caderno e depois realizem oralmente uma apresentação curta,
seguindo o roteiro proposto:
• Digam quais foram os temas escolhidos.
• Falem brevemente quais foram as principais informações que vocês leram
nas páginas disponíveis sobre o tema.
• Expliquem se foi fácil ou difícil entender as informações, e se essa facilida-
de/dificuldade está relacionada com o jeito com que a página apresentava
os dados. Falem um pouco sobre como os dados estavam na página (texto,
gráficos, tabelas, mapas, etc.) para ilustrar o que vocês querem dizer.
• Apresentem as perguntas que vocês elaboraram.

86 • capítulo 3

Sociologia_vu_PNLD15_065a088_C03.indd 86 5/27/13 5:20 PM


r E v i s a r E s i s t E m atiza r
1. Explique o que significa falar em “família patriarcal” no Brasil.
2. Relacione as transformações econômicas e sociais ocorridas no século
XX com a instituição social família.
3. De acordo com o sociólogo Émile Durkheim, qual é o papel social da
família como instituição?
4. Aponte alguns dos novos arranjos familiares na sociedade brasileira.
Que fatores têm contribuído para o enfraquecimento do modelo de
família nuclear pai-mãe-filhos?
5. Cynthia Sarti identificou entre as famílias pobres uma organização em
rede, que acontece também nas elites. Qual é a importância desse tipo
de organização?
6. A família tem passado por muitas transformações, principalmente nos
últimos tempos. Quais as implicações dessas alterações? Qual o papel
da escola e da família na socialização das crianças?

conceitos-chave:
Família, relações de dominação, família nuclear, instituição social, família extensa, socialização,
papéis sociais, família patriarcal, relações de gênero.

dE scuBra m ais
As Ciências Sociais na biblioteca
ALMEIDA, Manuel Antonio de. Memórias de um sargento de milícias. São Paulo: Saraiva, 2006.
A saga das personagens ajuda a entender a família patriarcal brasileira do início do século XIX.
GIDDENS, Anthony. Mundo em descontrole: o que a globalização está fazendo de nós. 3. ed. Rio de Janei-
ro: Record, 2003.
Análise das mudanças no âmbito da família no contexto da globalização.
HEILBORN, Maria Luiza (Org.). Família e sexualidade. Rio de Janeiro: Ed. da FGV, 2008.
Textos que tratam das transformações nas relações familiares nas últimas décadas e das condições
de mudança na iniciação dos jovens à sexualidade.
LÉVI-STRAUSS, Claude. As estruturas elementares do parentesco. 5. ed. Petrópolis: Vozes, 2009.
Nesse livro, o autor analisa a proibição do incesto, tratando-o como um critério de passagem da
natureza à cultura.
MALOT, Hector. Sem família. 2. ed. Curitiba: Chain, 2010. Kobal/The Picture Desk/Agência France-Presse

História de um garoto que busca seus pais verdadeiros.


TEZZA, Cristovão. O filho eterno. Rio de Janeiro: Record, 2007.
Romance autobiográfico da relação entre um pai e um filho com síndrome de Down. O impacto
da notícia, o tempo e o futebol aproximam os dois.

As Ciências Sociais no cinema


A árvore da vida, 2011, Estados Unidos, direção de Terrence Malick.
O relacionamento entre pai e filhos em uma família comum da década de 1950, no Texas, abre
para reflexão sobre a origem do universo e o sentido da vida.
Kramer vs. Kramer, 1979, Estados Unidos, direção de Robert Benton.
Relato do divórcio de um casal com hábitos culturais e estilo de vida contemporâneos, processo
com consequências na vida tanto dos pais quanto do filho.
Pai patrão, 1977, Itália, direção de Paolo Taviani e Vittorio Taviani.
História de um menino e seu relacionamento com o pai em uma área rural italiana.
Tudo sobre minha mãe, 1999, Espanha, direção de Pedro Almodóvar. O ator Fabrizio Forte em cena
Após a morte de seu único filho, Manuela vai atrás do pai dele – uma travesti que nunca soube do filme Pai patrão, de Paolo e
que a engravidara. Vittorio Taviani.

A família no mundo de hoje • 87

Sociologia_vu_PNLD15_065a088_C03.indd 87 5/27/13 5:20 PM


As Ciências Sociais na rede
IBGE Teen. Disponível em: <www.ibge.gov.br/ibgeteen>. Acesso em: 2 jan. 2013.
Página do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística dedicada a estudantes de Ensino
Fundamental e Médio.
Traz informações que permitem análises amplas da sociedade brasileira.

BiBliog r af i a
Reprodução/Editora Fundação Perseu Abramo

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88 • capítulo 3

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Salmo Dansa /Arquivo da editora

Capítulo 4

Trabalho e mudanças sociais


EstudarEmos nEstE capítulo:
que o significado e as características do trabalho variam conforme o tempo e as diferentes organizações sociais. Na so-
ciedade ocidental, por exemplo, a moderna racionalização teve como consequência o aumento da produtividade, do
controle e da subordinação do trabalhador ao processo produtivo. Com as inovações tecnológicas propiciadas pela mi-
croeletrônica, a robótica e a informática, as empresas reestruturam sua produção, introduzindo novas formas de gestão
da mão de obra. Disso resultaram a redução, em diversos setores, do contingente de trabalhadores empregados e a
ampliação dos lucros, às quais se somaram outras formas de flexibilização resultantes das políticas neoliberais. Essas
mudanças implicam alterações no perfil dos trabalhadores e novos desafios às organizações sindicais.

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O trabalhador e o trabalho
Eu às vezes fico a pensar
Em outra vida ou lugar
Estou cansado demais
ora

Eu não tenho tempo de ter


edit
a/Arquivo da

O tempo livre de ser


De nada ter que fazer
e Roch

É quando eu me encontro perdido


Filip

Nas coisas que eu criei [...]


Eu acordo pra trabalhar
Eu durmo pra trabalhar
Eu corro pra trabalhar
VALLE, Marcos; VALLE, Paulo Sérgio.
Capitão de indústria. In: OS PARALAMAS do Sucesso.
9 Luas. EMI, 1996. 1 CD.

A letra dessa música nos alerta para o fato de o trabalho poder criar um
conflito entre o ser, o ter e o fazer. Muitas dessas questões decorrem de pro-
blemas históricos da formação do país e do sistema capitalista. Outras medi-
das, mais recentes, como o estabelecimento de metas diárias e prêmios por
produtividade, aperfeiçoam os métodos de controle sobre o trabalhador
que, intensif icando sua atividade, aumenta a produtividade das empresas;
ou seja, em menor tempo e com menos recursos, cresce a produção.
Por estar intensamente integrado ao trabalho, o trabalhador tende a dei-
xar de lado aspectos importantes de sua vida, como sugere a música: “Eu
não tenho tempo de ter / O tempo livre de ser”. Essa sobrecarga de trabalho
não leva em conta as necessidades do indivíduo e de sua família.
Considere-se, por exemplo, as empregadas e os empregados domésticos
que pernoitam em seus locais de trabalho, distanciando-se de seus familia-
res; ou, ainda, os caminhoneiros que f icam mais de 24 horas sem dormir
para cumprir os prazos das entregas e garantir a rentabilidade das empresas
que os contratam, pondo em risco suas próprias vidas e as de outros.
Hoje em dia, principalmente nas metrópoles, além de cumprirem a jor-
nada normal de trabalho, muitos trabalhadores carregam o notebook (ou uti-
lizam o computador pessoal) para terminar tarefas em casa. Os contatos por
e-mail ou telefone celular também os mantêm conectados à empresa. O re-
frão da música revela essa imposição da rotina de trabalho que interfere nas
outras atividades: “Eu acordo pra trabalhar / Eu durmo pra trabalhar / Eu
corro pra trabalhar”.
A letra da música remete também às incertezas que rondam o trabalha-
dor, seu trabalho e sua vida: “É quando eu me encontro perdido / Nas
coisas que eu criei”. As condições de trabalho reduzem o espaço da criati-
vidade, do livre pensar, do aperfeiçoamento, e parecem impedir o traba-
lhador de viver plenamente. Elas podem levar a um trabalho alienado,
aquele em que o trabalhador não se reconhece no produto do seu traba-
lho nem consegue apreender o processo de produção como um todo. Ele
não se vê como semelhante a outros trabalhadores e não se identif ica com
eles. A teoria da alienação, desenvolvida originalmente por Karl Marx, nos

90 • capítulo 4

Sociologia_vu_PNLD15_089a118_C04.indd 90 5/27/13 5:22 PM


mostra que o trabalhador não se apropria de toda a riqueza que gera no
processo produtivo.

William Andrew/Photographer’s Choice/Getty Images


Na imagem ao lado vemos
um pai estadunidense
dividindo-se entre os
cuidados com o filho e as
atividades de trabalho. Essa
imagem exemplifica como
os computadores
ampliaram as
possibilidades de trabalho
para além do espaço da
empresa. Foto de 2010.

O geógrafo britânico David Harvey (1935-) alerta que, nas condições de


produção capitalista, a socialização do trabalhador envolve o controle social
amplo das suas capacidades físicas e mentais. Ou seja, o controle do traba-
lho, utilizado para f ins de acumulação, envolve elementos organizados não
somente no local de trabalho como fora dele, estimulando a familiarização
do trabalhador com os objetivos da empresa e convencendo-o a participar e
a cooperar com o processo produtivo, estratégias típicas das novas formas de
gestão do trabalho.

O sentido do trabalho hh
suplício: tortura, punição corporal.

Marcus Pedrosa/Acervo do artista


A origem latina da palavra trabalho está rela-
cionada ao tripalium, instrumento de suplício
composto por três estacas. Isso porque, ao longo
da História, o trabalho tem sido relacionado a
esforço físico e cansaço e, em muitas sociedades,
ele constituiu uma obrigação à qual os seres hu-
manos deveriam se submeter. Atualmente, o tra-
balho é necessário para que se obtenha, em tro-
ca, uma remuneração que permita ter uma vida
digna. Mas trabalho é só isso?

Inicialmente, o tripalium era um


instrumento utilizado na agricultura,
sendo apenas posteriormente
empregado com fins de tortura. Na
foto de 2012, uma réplica.

Trabalho e mudanças sociais • 91

Sociologia_vu_PNLD15_089a118_C04.indd 91 5/27/13 5:22 PM


O signif icado atribuído ao ato de trabalhar tem variado ao longo do
tempo. Nas antigas Grécia e Roma, por exemplo, a base da mão de obra era
escrava, constituída geralmente por prisioneiros de guerra ou escravizados
por dívida. O trabalho manual era considerado indigno pelas elites, que
usavam os escravos para a produção, dedicando seu tempo às atividades in-
telectuais, políticas e artísticas. Naquelas duas sociedades também não exis-
tia remuneração para o trabalho intelectual, político e artístico. Os proprie-
tários de terras e escravos, que acumulavam riqueza, tornavam-se mecenas
dos intelectuais, f ilósofos e artistas, ou seja, sustentavam-nos com seus bens
para que continuassem produzindo pensamento, obras de arte, peças de
teatro, etc. O trabalho político, por sua vez, era realizado pelos mecenas e
pelos intelectuais, f ilósofos e artistas. Também é importante ressaltar que as
mulheres, salvo exceções, eram excluídas tanto do trabalho político quanto
da f ilosof ia, da arte e da intelectualidade.
Na Idade Média, a sociedade europeia era hierarquizada e os trabalhado-
res, chamados servos, estavam na posição mais baixa da estrutura social. Isso
Filipe Rocha/Arquivo da editora

signif ica que sua função era trabalhar para que as camadas sociais mais altas,
a nobreza e o clero, pudessem se dedicar a outras atividades, como as bata-
lhas e os compromissos ligados à religião. Naquela época, nas sociedades
feudais europeias, o que depois Marx chamou de meios de produção (ou seja,
as ferramentas e recursos necessários para produzir qualquer coisa, desde
alimentos até objetos, máquinas, etc.) já se encontravam concentrados nas
mãos de alguns poucos homens, que transmitiam esses bens por meio de
herança aos f ilhos homens e/ou dotes de casamento aos que desposassem
suas f ilhas. A maioria da população trabalhava para esses proprietários, numa
relação de dominação de classe da qual somos ainda herdeiros.
O momento histórico de transição do regime feudal para o modo de
produção capitalista, incluindo os contextos revolucionários estudados no
capítulo 2, marcou uma fase de profundas transformações institucionais
que resultaram no chamado capitalismo industrial.
Durante a constituição do capitalismo industrial, no século XVIII, f ir-
mou-se o trabalho assalariado, reservado aos indivíduos que não dispunham
de posses (leia-se: de meios de produção). Por isso, eles precisavam vender
ou alugar sua força de trabalho – energia despendida para realizar ativida-
des – em troca de uma remuneração que garantisse seu sustento. No entan-
to, o pagamento que o trabalhador recebe não corresponde ao valor daqui-
lo que ele produziu. Essa diferença, que é apropriada pelo detentor dos
meios de produção, é denominada mais-valia por Marx.
Aos poucos, essa transformação envolveu toda a estrutura da sociedade
que, sendo capitalista, mercantiliza, ou seja, transforma em mercadoria mui-
tas de suas relações sociais, incluindo as de trabalho. O capitalismo, como
um sistema de organização da produção material baseado na propriedade
privada, conjuga capital e trabalho. O capital é o conjunto dos bens e meios
de produção (como as máquinas, as ferramentas, os equipamentos, a terra,
as instalações, o dinheiro, etc.) que são valorizados e multiplicados graças ao
trabalho, físico e/ou mental, realizado por aqueles que, desprovidos dessas
coisas, apenas dispõem de sua força como moeda de troca. Por isso, dizemos
que o trabalho incorpora valor aos bens, ou seja, por meio do trabalho o ser
humano transforma a natureza e a si próprio.

92 • capítulo 4

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Album/akg-images/Latinstock
Ao lado, xilogravura de
Heinrich Leutemann, do
século XIX, que mostra a
alimentação de escravos
romanos. Na Antiguidade,
o trabalho manual era
considerado indigno para
as classes dominantes.

A noção de que o trabalho é uma atividade dignificante foi construída


historicamente. Na clássica obra A ética protestante e o espírito do capitalismo, Max
Weber mostra de que forma tais ideias impulsionaram o capitalismo em países
protestantes. Antes da Reforma protestante, o catolicismo não valorizava o
trabalho da forma como ele é valorizado hoje. Independentemente de traba-
lhar ou não trabalhar (sustentar-se com o trabalho dos outros, como faziam os
monarcas absolutistas e a nobreza, por exemplo), as pessoas ganhariam o Pa-
raíso, após sua morte, dependendo da relação que tivessem com a prática re-
ligiosa institucionalizada. Com a Reforma protestante, surgiu a ideia de que o
acúmulo de riqueza ao longo da vida garantiria um lugar no céu. Essa mudan-
ça de valores foi acompanhada da luta dos grupos burgueses para se firmarem
na sociedade. O acúmulo de riquezas e a ascensão social por meio do trabalho
são frutos da mesma disputa. Essa ideologia do trabalho contribuiu e contri-
bui ainda para que os detentores do capital mantenham privilégios.

a sociedade moderna ficou conhecida como a sociedade do trabalho, ou


seja, que se institui e se organiza pelo e para o trabalho.

Por esse motivo, muitos sociólogos discutem hoje se a verdadeira emanci-


pação dos indivíduos não estaria mais ligada ao ócio, ao lazer e ao tempo livre
do que a um domínio maior do próprio trabalho (“desalienação”) e à reali-
zação social pelo trabalho. O francês Paul Lafargue (1842-1911), que, curio-
samente, era genro de Marx, publicou no f inal do século XIX um livro, O
direito à preguiça, criticando justamente o que chamava de “culto ao trabalho”
por parte dos trabalhadores e de alguns f ilósofos socialistas, como seu sogro.
Cerca de um século mais tarde, o antropólogo político francês Pierre Clas-
tres (1934-1977) publicou a famosa obra A Sociedade contra o Estado. Analisan-
do sociedades consideradas “primitivas”, ele recusa a ideia de que o caminho
tomado pelas sociedades europeias, no que diz respeito à concentração de
bens, propriedades privadas e poder econômico e político, seja “natural” e se
aplique à humanidade como um todo. Clastres ressalta que, em diversas socie-
dades estudadas por etnógrafos na Antropologia, o entendimento do “traba-
lho” e da “produção” são tais que não existe nem o trabalho individual nem o

Trabalho e mudanças sociais • 93

Sociologia_vu_PNLD15_089a118_C04.indd 93 5/27/13 5:22 PM


trabalho pelo trabalho: trabalha-se coletivamente para suprir certa necessida-
de do grupo, e tão logo a necessidade seja atendida, o trabalho cessa. Esse foi,
segundo ele, um dos pontos de conflito entre sociedades indígenas e coloni-
zadores europeus nos territórios que hoje chamamos Brasil e América do Sul.
Na mesma época, o f ilósofo austríaco André Gorz (1923-2007) propu-
nha que a verdadeira emancipação e autonomia dos indivíduos em nossa
sociedade só poderiam ser alcançadas diminuindo-se o tempo de trabalho e
aumentando-se o tempo de ócio e lazer, e afazeres não relacionados ao tra-
Filipe Rocha/Arquivo da editora balho. Considerando a grande imersão no trabalho que as tecnologias de
comunicação e informação trouxeram para uma parte da população, e con-
siderando que a outra parte é composta de muitas pessoas que dependem
de trabalho informal no setor de serviços, muitas vezes também realizando
trabalho no que deveriam ser “horas livres”, percebemos que esse ideal está
longe de ser alcançado.
O signif icado do trabalho e o processo a ele relacionado alteraram-se
consideravelmente no século XX graças às modif icações ocorridas no mun-
do do trabalho – designação ampla que engloba a organização do trabalho,
as relações laborais, as inovações tecnológicas, o ambiente de trabalho, as
organizações dos trabalhadores, entre outros. Embora o trabalho continue
sendo um dos pilares sobre o qual se sustenta a nossa sociedade, outros fato-
res têm contribuído para o desenvolvimento das relações sociais e para a
manutenção e integração das pessoas, como o conhecimento, o lazer, etc.

En con tr o c om os c i E n t i s tas s oc i ai s

Marx é considerado um autor de grande importância nas Ciências Sociais por ter
desenvolvido a concepção do trabalho como um processo subjetivo que se concreti-
za materialmente. Leia o texto e, a seguir, responda à pergunta no caderno.

Antes de tudo, o trabalho é um processo de que participam o homem e a natu-


reza, processo em que o ser humano, com sua própria ação, impulsiona, regula e
controla seu intercâmbio material com a natureza. [...] Pressupomos o trabalho sob
forma exclusivamente humana. Uma aranha executa operações semelhantes às do
tecelão, e a abelha supera mais de um arquiteto ao construir sua colmeia. Mas o que
distingue o pior arquiteto da melhor abelha é que ele figura na mente sua constru-
ção antes de transformá-la em realidade. No fim do processo do trabalho aparece
um resultado que já existia antes idealmente na imaginação do trabalhador.
MARX, Karl. O capital: crítica da economia política. 3. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1975. Livro 1, v. I, p. 202.
(Texto publicado originalmente em 1867).

• No trecho da obra O capital, destacado acima, Karl Marx reflete sobre o que existe
de específ ico no trabalho humano, que o diferencia do trabalho dos demais ani-
mais. Se, por um lado, ele def ine que o resultado do trabalho é imaginado e pla-
nejado pelo trabalhador, ele mesmo reflete em outros momentos de sua obra que
o trabalho pós-Revolução Industrial é “alienado” do trabalhador, ou seja, que o
trabalhador deixaria de possuir total controle sobre o próprio trabalho. Conside-
rando as explicações e teorias comentadas até este momento no capítulo e que
grande parte do trabalho realizado hoje em dia ainda é alienada, você consegue
pensar em outras características que diferenciam o trabalho humano em nossa
sociedade do trabalho dos outros animais? Quais?

94 • capítulo 4

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Organização do trabalho no século XX
As crises econômicas, que de tempos em tempos assolam a sociedade
capitalista, promovem alterações nas formas de produzir e de controlar o
trabalho. Em parte do século XX, predominou em nossa sociedade, ainda
que não de modo uniforme, um sistema específ ico de produção denomina-
do fordismo.
O fordismo consiste em um sistema de produção em massa cuja palavra-
-chave é padronização (tanto das tarefas quanto do produto). Esse sistema
que articula inovações técnicas e organizacionais visando à otimização da hh otimização: forma de obter melhores
produção e ao consumo em massa foi empregado por Henry Ford (1863- condições para algo. No contexto de
-1947) em sua fábrica de automóveis, sediada em Detroit (Estados Unidos), produção, significa produzir mais em
nas primeiras décadas do século XX. Por meio da criação de linhas de mon- menos tempo ou com menos recursos.
tagem, nas quais os operários f icavam parados enquanto as peças se movi-
mentavam em esteiras rolantes, cada trabalhador executava apenas uma eta-
pa do processo de trabalho.
O taylorismo, sistema ao qual o fordismo é constantemente associado, foi
desenvolvido pelo engenheiro norte-americano Frederick Winslow Taylor
(1865-1915), no início do século XX, também com vistas a otimizar a produ-
ção. Os trabalhadores são treinados para a alta produtividade mediante o uso
ef iciente do tempo, a divisão de atividades, a separação entre concepção e
execução das tarefas, a economia de movimentos exercidos em cada função.
Essa racionalização científ ica do tempo e dos movimentos leva à especializa-
ção e à intensif icação do ritmo de trabalho.
O consagrado f ilme de Charles Chaplin, Tempos modernos, retrata de ma-
neira instigante o trabalho de tipo fordista-taylorista, ao mesmo tempo que
demonstra suas consequências para os indivíduos. United Artists/The Kobal Collection/The Picture Desk/Agência France-Presse

O filme Tempos modernos (1936), de Charles Chaplin, expressa uma crítica à produção fordista, que torna o
trabalho repetitivo, monótono e alienante.

Trabalho e mudanças sociais • 95

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Nos anos 1960 e 1970, ocorreram importantes mudanças no âmbito do
trabalho. Para adaptarem-se às oscilações do mercado, as empresas implan-
taram um conjunto de inovações tecnológicas (derivadas da informática e
da robótica) e organizacionais que alteraram a maneira de gerir o trabalho.
A introdução de máquinas, equipamentos, programas, processos e novas
formas de administrar os empregados levou à diminuição geral dos custos, a
um maior controle sobre os trabalhadores e à redução de mão de obra utili-
zada – correspondendo ao que se convencionou chamar produção enxuta.
Nesse modelo de produção, de origem japonesa, também denominado
toyotismo, o processo de trabalho é flexibilizado: a mão de obra é multifun-
cional, ou seja, deve se adequar a diferentes funções; há controle visual da
produção, com a supervisão de todas as etapas, buscando a qualidade do
produto f inal; e a produção é estabelecida segundo a demanda e a necessi-
dade de produtos personalizados. Inaugura-se um tempo de grande flexibi-
lidade não apenas na produção, mas também nas relações sociais e do traba-
lho, nas bases econômicas e geográf icas.
Essa reorganização da produção, baseada na inovação de equipamentos,
na flexibilidade de tempo e de mão de obra, na redução do custo e no con-
trole da qualidade, é denominada reestruturação produtiva. Desenvolvida
nos países centrais nas décadas de 1970 e 1980, ela chegou ao Brasil com
intensidade nos anos 1990, período marcado por ajustes políticos e sociais
nas relações de trabalho. É importante conhecer as alterações que aconte-
cem nas relações de trabalho, uma vez que essas se compõem de um conjun-
to de leis e normas sociais que regulam a compra e a venda da força de tra-
balho e também os conflitos que delas resultam.
A maneira de produzir transitou da rigidez das formas de organização
taylorista-fordistas, nas quais cada homem detinha um posto de
trabalho e uma máquina, para a flexibilização na produção,
no trabalho e nos mercados. Isso não signif ica que a pro-
dução fordista tenha desaparecido. Essas formas de
produção coexistem e, muitas vezes, em uma mesma
empresa, combinam-se elementos do fordismo, do
taylorismo e de sistemas flexíveis de produção.
Presente na indústria e nos serviços, a pro-
dução flexível acontece por encomenda, uti-
liza técnicas que produzem mais em menos
tempo e com menor número de traba-
lhadores, diferenciando-se da produ-
ção fordista, que é baseada na pro-
dução em massa e com altos níveis
de estoque. Algumas dessas mu-
danças podem ser vistas no
quadro a seguir, em que são
comparadas as principais ca-
racterísticas dos dois sistemas
de produção, em países de ca-
Salmo Dansa/Arquivo da editora
pitalismo avançado.
96 • capítulo 4

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O sistema de produção taylorista-fordista e o sistema de produção flexível

Aspectos Sistema taylorista-fordista de produção Sistema de produção flexível


considerados Predominante no período de 1930 a 1970 Predominante a partir da década de 1970

Mercado – Objetiva o consumo de massa – Objetiva atingir nichos específicos de mercado

Produção – Produção em massa – Produção especializada


– Rigidez e controle das etapas – Produção flexível em relação à organização e ao
– Integração vertical, ou seja, todas as partes do trabalho
produto são fabricadas na mesma empresa – Terceirização: transferência de parte da produção
– Utilização de mão de obra intensiva para outras empresas, constituindo redes
integradas de empresas
– Redução dos postos de trabalho

Organização do – Tarefas mecânicas, fixas e bem definidas – Flexibilidade e multifuncionalidade


trabalho – Hierarquização de cargos e salários – Redução das hierarquias internas
– Fixação do trabalhador no posto de trabalho, – Trabalho em equipe; rodízio de tarefas, funções
exercendo uma única função genéricas
– Disciplinarização e controle do trabalhador – Intensificação do controle sobre o trabalhador
– Contrato de trabalho formal por tempo por meio de equipamentos e autocontrole
indeterminado – Diversificação das formas de contrato de trabalho
(autônomo, por produção, por tempo
determinado, etc.)

Inovações – Administração científica e centralizada – Administração científica


técnicas e da produção – Organização da produção com tecnologia de
organizacionais – Linhas de montagem e esteiras rolantes no base microeletrônica e células de produção
processo produtivo associadas à linha de montagem
– Produção em série – Produção por demanda
– Separação entre a concepção e a execução do – Automação e robotização; integração entre
trabalho empresas
– Relativa integração entre concepção e execução
do trabalho; responsabiliza o trabalhador pelos
equipamentos e pela qualidade do produto;
programas de participação do trabalhador
(círculos de qualidade, sugestões, etc.)

Fábricas – Grandes estruturas de produção exigem elevados – Fábricas espalhadas pelos mercados mundiais
investimentos – Reorganização do espaço físico das empresas
– Concentração da produção em um único espaço – Descentralização da produção, apenas com
– Concentração da produção e das decisões decisões centralizadas na matriz

Perspectiva do – Emprego estável, protegido – Crescimento da subcontratação e da consultoria


trabalhador – Distribuição dos ganhos de produtividade por – Redução do número de trabalhadores protegidos,
meio dos salários o que causa a precarização do trabalho
– Grandes contingentes de trabalhadores – Novas formas de organização industrial e retorno
– Rígido controle de tarefas de formas antigas, como trabalho em domicílio,
– Remuneração salarial regular por tempo parcial, entre outras
– Intensificação do ritmo de trabalho
– Novas ferramentas de controle do trabalho
– Introdução de formas de remuneração variáveis,
como prêmios por produtividade e participação
nos resultados

Adaptado de: HARVEY, David. Condição pós-moderna. São Paulo: Loyola, 1993; CASTELLS, Manuel. A sociedade em rede. São Paulo: Paz e Terra, 1999.

Trabalho e mudanças sociais • 97

Sociologia_vu_PNLD15_089a118_C04.indd 97 5/27/13 5:22 PM


Embora a forma como é organizada a produção não dependa do Estado,
este exerce um papel no desenvolvimento da economia. Assim, no sistema
taylorista-fordista de produção há maior intervenção do Estado na econo-
mia: ele regulamenta as negociações entre capital e trabalho, oferece forma-
ção técnica ao trabalhador e regula as atividades capitalistas e de interesse
nacional. Quando a produção se tornou mais flexível, o Estado tendeu a
reformular seu papel, buscando atrair investimentos externos e legislar pela
desregulamentação e/ou flexibilização das relações de trabalho.
hh
logística: área que se ocupa do plane- Os sistemas flexíveis reduzem os estoques ao aprimorarem a logística
jamento e da organização dos proces- interna e externa das empresas, por meio da organização de transportes e
sos envolvidos em uma dada operação. de abastecimento. Com essa reestruturação da produção, o capital se prepa-
ra para enfrentar crises, concorrência, oscilações econômicas e impasses téc-
nicos, além de poder regular o uso da força de trabalho em face de tantas
mudanças. Essa flexibilização pode ser compreendida como:

[...] a possibilidade de alteração da norma como forma de ajustar as condições


contratuais, por exemplo, a uma nova realidade, a partir da introdução de inovações
tecnológicas ou de processos, que podem ser negociados legitimamente entre os
hh
discricionário: isento de restrições, atores sociais ou impostos pelo poder discricionário da empresa, ou ainda através
independente de regras. da atuação do Estado. Assim, em princípio, a flexibilidade pode significar a depres-
são dos direitos com a finalidade de redução dos custos. Por outro lado, ela pode ser
uma forma de adaptar as equipes e os processos produtivos às inovações tecnoló-
gicas ou à mudança de estratégia da empresa, investindo e capacitando os recursos
humanos ou até melhorando as condições de trabalho.
KREIN, José Dari. O aprofundamento da flexibilização das relações de trabalho no Brasil nos anos 90.
Campinas: Ed. da Unicamp, 2001, mimeo. (Dissertação de Mestrado). p. 28.

Ser flexível signif ica realizar diferentes tarefas e fabricar diversas merca-
dorias na mesma linha de produção, como quando variados modelos de
carros são produzidos simultaneamente. Aliás, a indústria automobilística e
o setor bancário são exemplos de ra-
Carlos Barria/Reuters/Latinstock

mos em que foram implantados siste-


mas flexíveis de produção. Na indústria
de veículos, a introdução de equipa-
mentos de microeletrônica e robótica
trouxe para os trabalhadores maior
responsabilização pelo processo de tra-
balho e pelos resultados da produção.
A informatização do trabalho agilizou
as atividades bancárias, fazendo com
que um mesmo funcionário concen-
trasse mais tarefas.
A revolução microeletrônica possi-
bilitou a informatização do controle da
produção, a agilização das compras e
Funcionários trabalham em linha de montagem de fábrica de automóveis em do fluxo f inanceiro, além da gestão
Chongqing, na China, em 2012. Atualmente, em muitas fábricas do setor planejada de todos os recursos, incluin-
automotivo, parte dos trabalhadores é substituída por máquinas e robôs.
do o chamado “recurso humano”.
98 • capítulo 4

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O uso desses sistemas tecnológicos integrados permite controlar a pro-
dução com acelerada comunicação e transferência de dados em tempo real.

a chamada terceira Revolução tecnológica, ocorrida nos anos 1970,


automatizou o trabalho e introduziu a informática e a robótica, desenvolvendo
a capacidade de acumular, armazenar, processar e distribuir informações.

Outro recurso bastante comum nos dias de hoje, a comunicação on-line


permite que o capital seja investido e transferido de diversas partes do mun-
do em tempo real, o que o torna mais volátil. Tal cenário, denominado
f inanceirização do capital, indica que o capital f inanceiro exerce um papel
supervalorizado na sociedade contemporânea: ele movimenta os negócios e
gera riquezas, sem necessariamente aumentar a produção de bens.
As políticas governamentais dos países em desenvolvimento, influencia-
das pela ideologia política neoliberal, procuraram atrair recursos vindos dos
Brendan McDermid/Reuters/Latinstock
países mais ricos (via bolsa de valores) para o seu
desenvolvimento nas últimas décadas do século
XX. Esses investimentos externos nem sempre
foram aplicados na produção de bens e de servi-
ços locais, desvinculando-se da necessidade de
criar empregos, distribuir renda e ampliar o
mercado consumidor. Com isso, ocorreu maior
concentração de riqueza, com uma minoria da
população consumindo parte signif icativa da
produção e a maioria tendo acesso restrito aos
bens produzidos.

Corretores trabalham na Bolsa de


Valores de Nova York, nos Estados
Unidos, em fevereiro de 2013.

Neoliberalismo
O neoliberalismo é um movimento político e teóri- das corporações transnacionais, analisa o sociólogo
co que concebe a sociedade assentada na liberdade brasileiro Giovanni Alves. Nesses termos, cabe ao Esta-
dos indivíduos e de funcionamento do mercado. Inspi- do manter o equilíbrio entre os preços das mercado-
rado no liberalismo clássico, que defende um capitalis- rias e dos salários e atentar para temas como a redu-
mo livre de regras, o neoliberalismo rejeita a interven- ção dos gastos públicos.
ção do Estado na economia e valoriza a superioridade No Brasil, as ideias neoliberais passaram a ter in-
do mercado na vida social, incentivando a concorrên- fluência nas políticas governamentais na década de
cia e a liberdade de iniciativa como mecanismos capa- 1990, inaugurando um novo padrão de desenvolvi-
zes de assegurar a soberania do consumidor, o cresci- mento capitalista identificado principalmente com
mento da riqueza e o desenvolvimento humano. um conjunto de medidas econômicas, como a redu-
Considerado como ideologia política da classe ção da atividade econômica do Estado (por meio da
que detém o capital na globalização, o neoliberalismo privatização de empresas estatais), a abertura comer-
não implica “negar” o papel central do Estado na eco- cial, a reestruturação das políticas sociais e a desregu-
nomia capitalista, mas reconstituí-lo segundo a lógica lamentação financeira e do mercado de trabalho.

Trabalho e mudanças sociais • 99

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hh
especulativo: que se aproveita da Com relação ao capitalismo f inanceiro com forte caráter especulativo
oscilação do mercado financeiro para que tem prevalecido, vale lembrar que, no f inal dos anos 2000, a economia
obter lucro rápido. mundial sofreu um forte abalo provocado pela crise f inanceira e imobiliária
ocorrida nos Estados Unidos. As consequências nos anos seguintes atingi-
ram os países da União Europeia e os chamados emergentes, desdobrando-
-se numa grave crise político-econômica com reflexos em diferentes setores,
levando milhões de trabalhadores de todos os níveis de escolaridade e qua-
lif icação ao desemprego.

Orlando Pedroso/Arquivo da editora

a partir dos anos 1980, a política econômica neoliberal avançou em muitas


partes do mundo visando garantir amplas liberdades ao mercado, o que, em
contrapartida, afetou a regulação do trabalho.

Trabalhador: a chave dos sistemas flexíveis de produção?


A tendência de flexibilizar a produção, o trabalho e os produtos perpas-
sa todas as esferas da sociedade e a própria vida dos indivíduos, do mercado
de trabalho aos padrões de consumo, analisa André Gorz. Com o intuito de
atingir outros mercados, surgem novos setores de produção e as empresas
intensif icam os investimentos em inovações comerciais, tecnológicas, mer-
cadológicas e organizacionais, aspectos fundamentais do fenômeno que Da-
vid Harvey denomina acumulação flexível.
As condições de trabalho tornam-se precárias devido à redução do
número de trabalhadores contratados e a sua incorporação como terceiriza-
dos à cadeia produtiva – nome dado ao conjunto de unidades que atuam de
forma integrada na produção, distribuição e comercialização das mercado-
rias. Os trabalhadores flexíveis têm menor remuneração e os empresários se
desobrigam de alguns encargos sociais, contratando-os sem proteção nem
garantias de estabilidade no cargo ou assistência social. Os estagiários exem-
plif icam esses trabalhadores que podem ser dispensados mais facilmente
pelas empresas, que os contratam, muitas vezes, em substituição a trabalha-
dores efetivos com melhores condições salariais.

100 • capítulo 4

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Terceirização
Terceirização é o recurso mediante o qual uma de telecomunicações transfere para outras empresas
empresa (em geral, de grande porte) transfere a res- as tarefas de instalação de terminais telefônicos.
ponsabilidade de serviços ou de atividades produti- Reflexo da pressão, cada vez maior no capitalismo
vas para uma empresa “terceira”. Essas atividades po- contemporâneo, pela redução de gastos e aumento
dem ser feitas no interior da empresa contratante ou de lucros, a terceirização contribui para a precarização
fora dela. das condições de trabalho e de salários. Em alguns ca-
Em geral, as terceirizadas assumem funções auxi- sos, as terceirizadas oferecem salários abaixo da média
liares nas empresas contratantes, como limpeza, segu- a seus funcionários, a fim de se mostrarem competiti-
rança, cozinha, transporte, ou fornecem componentes vas e serem contratadas. Em outros, para dar contor-
prontos (por exemplo, fornecendo peças para uma nos de legalidade ao trabalho de indivíduos sem regis-
indústria automotiva). Porém, muitas vezes há a ter- tro, as contratantes exigem que o trabalhador abra
ceirização da atividade-fim, ou seja, a atividade funda- uma empresa, a qual teria seus serviços contratados.
mental da empresa contratante. É o que acontece, co- Nesses casos, além de ficar desprovido dos direitos
mo exemplifica o sociólogo brasileiro Sandro Ruduit trabalhistas, o trabalhador precisa arcar com as despe-
Garcia, quando uma empresa prestadora de serviços sas de manutenção de uma empresa.

A legislação trabalhista brasileira assegura uma série de direitos: carteira


de trabalho assinada, exames médicos de admissão e demissão, repouso se-
manal remunerado, salário pago até o quinto dia útil do mês, licença-mater-
nidade, aviso prévio de trinta dias (em caso de demissão), seguro-desempre-
go e outros. Porém, devido à pressão das empresas, nas últimas décadas do
século XX, os governos do Brasil e de outros países criaram medidas para
adequar o trabalho à produção flexível, alterando, para isso, os direitos do
trabalhador. Sob influência do neoliberalismo, de crises econômicas e do
índice de desemprego, os setores empresariais passaram a acusar o Estado
de “excesso de proteção ao trabalhador”, tomando isso como obstáculo para
novos negócios.
As políticas de trabalho neoliberais adotadas traduziram-se numa série
de leis e medidas favoráveis à flexibilização dos contratos de trabalho, dando
maior liberdade às empresas para determinar as condições de contratação,
de remuneração, de utilização e mesmo

Leticia Moreira/Folhapress
de demissão da mão de obra do trabalha-
dor. Esse processo atingiu os trabalhado-
res brasileiros de maneira contundente,
principalmente nos anos 1990.
Como consequência da flexibilização
das relações de trabalho, diminuiu a prote-
ção social do trabalhador e aumentaram a
instabilidade e a insegurança no mercado
de trabalho, com alterações na previdên-
cia social, no auxílio-saúde e em outros be-
nefícios. Alguns direitos trabalhistas previs-
tos na Consolidação das Leis do Trabalho
(CLT) – como 13º- salário, descanso sema-
nal remunerado, férias, salário-família e A carteira de trabalho é o documento em que fica registrado o contrato formal de
outros – se mantêm regulados pelo Estado. trabalho no Brasil. Foto de 2010.

Trabalho e mudanças sociais • 101

Sociologia_vu_PNLD15_089a118_C04.indd 101 04/06/2013 09:52


A Justiça do Trabalho continua a regular e a f iscalizar as relações de traba-
lho, embora certos direitos consagrados já sejam negociados entre empre-
gado e empregador, como é o caso da jornada de trabalho, da hora extra
e dos salários. Exemplos de flexibilização são a modalidade de contratação
por prazo determinado e a adoção do sistema de compensação de horas
extras por meio de uma lei de 1998, que permite que as horas trabalhadas
fora do expediente sejam computadas em um banco de horas, para poste-
rior compensação.

Horas extras e banco de horas


Pela CLT, as horas trabalhadas além de oito horas do valor normal da hora-trabalho de segunda-feira a
diárias são caracterizadas como horas extras. Nessa sábado e, aos domingos ou feriados, o acréscimo pas-
condição, está previsto o pagamento de 50% a mais sa a 100%. Para evitar esse pagamento adicional, as
empresas computam essas horas a mais para
Bruno Galvão/Acervo do artista

serem compensadas na forma de folgas, nos


momentos de queda da produção. É um modo
de estender a jornada de trabalho quando
cresce a demanda e de diminuí-la em épocas
de pouco movimento, expondo os trabalha-
dores às chamadas forças do mercado.

Direitos trabalhistas que eram garantidos aos


trabalhadores há muito tempo hoje não são
mais tão certos, como podemos observar na
charge de Bruno Galvão, de 2008.

Novo perfil do trabalhador


Na atualidade, além de realizar as tarefas que lhe cabem diretamente,
muitos trabalhadores se ocupam com a manutenção dos equipamentos
que usam para trabalhar, observam as metas estabelecidas pela empresa,
assumindo o compromisso de concretizá-las, cooperam com os colegas
da equipe e também são corresponsáveis pela qualidade f inal do produ-
to, cujo controle se inicia já na concepção do processo de produção. Pa-
ra atender a esses requisitos, valoriza-se um novo perf il de trabalhador,
escolarizado e com conhecimento tecnológico. São-lhe cobradas habili-
dades como trabalhar bem em equipe, adaptar-se facilmente às mudan-
ças, ser criativo, mostrar empenho e iniciativa para resolver imprevistos,
além de acompanhar as mudanças na produção de bens e na prestação
de serviços.
Nesse contexto, as exigências das empresas quanto à formação dos prof is-
sionais aumentaram e a preferência recai, em sua maioria, sobre prof issio-
nais com conhecimentos de informática e domínio de língua estrangeira.

102 • capítulo 4

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Para alguns trabalhos é exigida formação superior. A busca de qualif ica-
ção e de formação permanentes é até incentivada pelas empresas que, estra-
tegicamente, selecionam os trabalhadores com mais credenciais, ainda que
o cargo ou função não necessite disso. Algumas formas de as empresas pes-
quisarem sobre jovens talentos para prof issões de nível universitário é a sele-
ção deles na condição de estagiários e a contratação de trainees, prof issionais
formados que passam por “aprendizado em serviço”, concorrendo com os
efetivos em busca de vagas.

Euler Junior/EM/D.A Press


Na imagem, jovens de Belo
Horizonte, Minas Gerais, em aula
de informática, em 2011. Nos dias
de hoje, os trabalhadores
precisam se capacitar
constantemente para conseguir
(e manter) um posto razoável no
mercado de trabalho formal.

Com o objetivo de aumentar a produção, as empresas adotam progra-


mas, como sistemas de controle de qualidade, sistemas de melhoria contí-
nua e treinamentos comportamentais, que favorecem o trabalho em equipe
e o atingimento de metas corporativas. Durante esses programas e treina-
mentos os trabalhadores dão sugestões, testam suas habilidades e realizam
projetos. Essas modernas técnicas de gestão do trabalho convocam o traba-
lhador a aderir às estratégias mercadológicas da empresa e a assumir suas
tarefas como uma missão.
Na prática, isso faz com que os trabalhadores precisem desempenhar
várias tarefas: o bancário, por exemplo, que antes era operador de caixa,
agora também vende seguros, títulos e produtos f inanceiros, sendo exigidos
dele, para tanto, habilidades de venda, capacidade de gerenciamento, com-
preensão do mercado f inanceiro e aptidão para oferecer atendimento per-
sonalizado, além do cumprimento de metas.
Bruno Galvão/Acervo do artista

Charge de Bruno Galvão retratando a


multifuncionalidade exigida dos
trabalhadores nos dias atuais. Charge
de 2010.

Trabalho e mudanças sociais • 103

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Sob influência das estratégias flexíveis de trabalho praticadas pelas em-
presas, o funcionário precisa desenvolver novas competências, qualif icar-se
constantemente, estar física e emocionalmente saudável e engajar-se nos ob-
jetivos da organização. Reforça-se, assim, a chamada individualização no tra-
balho, processo que transfere para o trabalhador a responsabilidade de
manter-se empregado.
A nova geração de trabalhadores multifuncionais trabalha mais horas e
em um ritmo mais intenso. O controle do tempo de trabalho, agora, está
incorporado aos equipamentos e às máquinas, nas empresas e fora delas. Os
trabalhadores podem ser chamados a qualquer momento para tarefas de
emergência, disponibilizando seu tempo livre para o trabalho. Essa nova
modalidade emergiu com o advento dos computadores e da internet e a
popularização das linhas telefônicas móveis: é o teletrabalho.
A precarização do trabalho signif ica, entre outras coisas, instabilidade
em suas condições gerais e mudanças na atividade laboral, como ritmos in-
tensif icados, aumentos exagerados da jornada diária, situações física e psico-
logicamente extenuantes para o trabalhador. Também caracterizam o traba-
lho precário a introdução de novas regras salariais, como a remuneração
variável, que combina um salário f ixo e um ganho extra variável, de acordo
com a produtividade do funcionário. Há ainda as alterações contratuais
que, ao facilitarem os trâmites e a burocracia para a demissão de emprega-
dos, como é o caso dos chamados temporários, aumentam a sensação de
insegurança no trabalhador.

Teletrabalho: mais trabalho?


No contexto da Revolução Industrial, o trabalho A ideia de trabalho eletrônico data dos anos 1970,
realizado pelo trabalhador em sua casa era uma mo- quando a crise do petróleo trouxe a necessidade de
dalidade amplamente difundida. Todos os membros economizar combustível e a preocupação com os des-
da família se envolviam na produção das mercado- locamentos para o local da empresa. O teletrabalho
rias, ainda que não estivessem diretamente ligados era apresentado com as vantagens de maior convi-
a ela. As fronteiras entre trabalho e família quase vência familiar.
inexistiam. Por demandar competências específicas do tra-
Devido à concentração do capital, à expansão balhador, alterações nas formas contratuais, no horá-
da grande indústria, à ampliação do trabalho assa- rio e no tempo de trabalho, e não apenas no local, o
lariado e às conquistas trabalhistas, o trabalho em teletrabalho apresenta-se como a flexibilização por
domicílio tenderia a desaparecer. O espaço do tra- excelência, sobretudo do vínculo do emprego e de
balho já não se confundia com a moradia do traba- suas garantias. Diversas pesquisas discutem as van-
lhador: instrumentos de trabalho, máquinas e equi- tagens e as desvantagens dessas “novas” formas de
pamentos integravam o ambiente próprio para as trabalho.
atividades laborais – o escritório, a fábrica, a loja, a É importante ressaltar que o teletrabalho é mais
oficina, etc. comum em ocupações ligadas ao trabalho intelectual,
Entretanto, desde as últimas décadas do século em geral executado pelas classes médias e altas da so-
XX, essa distância física foi quebrada com o avanço ciedade brasileira. Ele pressupõe que o trabalhador
das tecnologias de informação e comunicação (TICs): tenha infraestrutura em sua casa, como internet via
surgiram os trabalhadores a distância, conectados ao banda larga e um computador pessoal dedicado ao
negócio por meio dos computadores, muitas vezes trabalho, além do domínio da língua escrita e de re-
instalados em domicílio. cursos da informática.

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O trabalho é central na vida em sociedade contemporânea?
As mudanças no mundo do trabalho nas últimas décadas levaram cientis-
tas sociais europeus a questionar se o trabalho ainda detinha uma posição
central na organização da vida social. Para alguns, como o alemão Jürgen
Habermas, conceitos como trabalho e capital tinham perdido espaço para ou-
tros como informação e conhecimento. Habermas considera que é o plano do sim-
bólico (propiciado pela comunicação) que organiza a vida social na contem-
poraneidade, enquanto o trabalho garantiria apenas a subsistência.
Essa posição foi rejeitada por autores como o sociólogo brasileiro Ricar-
do Antunes (1953-). Para ele, o trabalho ainda é essencial para a organiza-
ção da sociedade, pois continua sendo responsável pela produção tanto de
riquezas (apropriadas pelos capitalistas) quanto de sentido simbólico (para
os trabalhadores).
As transformações decorrentes das novas tecnologias também levaram
pensadores a questionar o futuro do trabalho material. Autores como os
italianos Antonio Negri (1933-) e Maurizio Lazzarato (1955-) e o norte-ame-
ricano Michael Hardt (1960-) acreditam que as características dos sistemas
flexíveis de produção permitem a libertação do trabalho material. Para eles,
nas formas flexíveis o trabalhador, sem a incumbência de tarefas mecânicas
do fordismo-taylorismo, pode intervir diretamente no processo de trabalho
e recuperar sua autonomia.

o trabalho é um dos principais fatores estruturantes das relações sociais, e


compartilha essa condição com outras dimensões da vida, como o consumo
e o lazer.

Vale destacar, porém, as duas principais críticas a essa visão. A primeira,


feita por pensadores marxistas, é a de que o trabalhador flexível é ainda
mais explorado e gera uma mais-valia ainda maior para o capitalista. A se-
gunda é a de que nem mesmo nos países do capitalismo central, como os
Estados Unidos, o Japão e os da Europa Ocidental, o trabalho material está
perto de desaparecer – vide setores como a construção civil.

hh
O trabalho em crise
É fato que a sociedade contemporânea continua se estruturando, em boa
medida, pelo trabalho organizado socialmente. O desenvolvimento de moder-
nas tecnologias de automação, comunicação e de informática reduziu o uso
do trabalho humano, mas não o substituiu. Em alguns casos, por sinal, gerou
a necessidade de novas funções assalariadas, como nas áreas de tecnologia da
informação, informática e serviços. Continuamos a ser uma sociedade produ-
tora de mercadorias, bens e serviços que são trocados continuamente.
Jean/Arquivo da editora

Acima, charge de Jean sobre a crise mundial e o desemprego.

Trabalho e mudanças sociais • 105

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Persiste, no entanto, a preocupação com o futuro do trabalho. Basta
notar a diminuição do número de trabalhadores formais em um mundo em
que a população dobrou em pouco mais de 20 anos, para se ter ideia do
cenário atual. Enquanto o tempo de trabalho se estende para alguns poucos
trabalhadores multifuncionais, milhões de outros indivíduos f icam desem-
pregados. De que viverão as pessoas que não encontrarão emprego quando
os sistemas flexíveis de trabalho predominarem?
Desenha-se, assim, um quadro de desemprego estrutural, ou seja, resul-
tante das mudanças na estrutura mesma da economia. Nas situações de de-
semprego estrutural, o número de pessoas sem emprego mantém-se, no lon-
go prazo, muito acima da quantidade de vagas disponíveis.
Esse processo não se limita à esfera industrial e urbana. Pelo contrário:
no campo, a mecanização agrária e o desenvolvimento de técnicas e insu-
mos visando aumentar a produtividade na agricultura e na pecuária f izeram
com que se produzisse cada vez mais com cada vez menos trabalhadores.
O Brasil, grande produtor e exportador de produtos agropecuários, foi um
dos países mais afetados por esse processo.
Enquanto os grandes proprietários de terras contratam menos traba-
lhadores porque investem em tecnologia e maquinário, os pequenos pro-
prietários veem-se sem condições de compe-
Yasuyoshi Chiba/Agência France-Presse

tir com os grandes produtores, pois não têm


como f inanciar máquinas e insumos. Assim,
nas últimas décadas, milhares de trabalhado-
res rurais e pequenos agricultores trocaram
o meio rural pela busca por emprego nas
médias e grandes cidades.

Colheitadeiras em plantação de soja no


município de Campo Novo do Parecis, Mato
Grosso, em 2012. As máquinas reduziram a
necessidade de mão de obra no campo.

Trabalho, emprego e desemprego


Os termos trabalho e emprego são usados, mui- seguro, típico da era fordista, tende a decrescer em
tas vezes, como sinônimos, mas nem sempre isso é termos relativos (quando comparado ao crescimento
correto. do emprego precário e instável), pode-se afirmar que
Emprego se refere ao vínculo de trabalho em o trabalho não corre o risco de desaparecer, já que se
qualquer tipo de atividade econômica; designa o pos- trata da condição para a reprodução da própria vida,
to ocupado por um trabalhador que realiza atividade segundo Karl Marx.
remunerada formal, regulamentada, e que pode ser Desemprego é a situação em que não existem va-
assalariado, autônomo ou prestador de serviços. Tra- gas remuneradas suficientes para o total de trabalha-
balho é qualquer atividade que transforme a natureza dores disponíveis e que estão em busca de emprego.
ou produza bens e serviços, independentemente da Em períodos de crise econômica, o decréscimo do em-
existência de contrato formal. prego pode acontecer de forma rápida e atingir gran-
Segundo essa distinção entre trabalho e empre- des dimensões, mesmo em países desenvolvidos, co-
go, podemos interpretar a realidade que vivemos da mo aconteceu com os países europeus em período
seguinte forma: enquanto o emprego, mais estável e recente.

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paus a para rEflEtir

Leia os fragmentos abaixo e depois responda por escrito às questões propostas.


TexTO 1
O processo da reengenharia nas corporações está apenas começando e o de-
semprego já está aumentando [...]. Um levantamento recente de desenvolvimento
e de tendências tecnológicas nos setores agrícola, industrial e de serviços sugere
que o mundo quase sem trabalhadores está se aproximando rapidamente e pode
chegar muito antes de a sociedade ter tempo suficiente, tanto para discutir a abran-
gência de suas implicações quanto para preparar-se para seu impacto total.
RIFKIN, Jeremy. O fim dos empregos. São Paulo: Makron Books, 1995. p. 113.
TexTO 2
Em resumo, parece que, como tendência geral, não há relação estrutural siste-
mática entre a difusão das tecnologias da informação e a evolução dos níveis de
emprego na economia como um todo. Empregos estão sendo extintos e novos em-
pregos estão sendo criados, mas a relação quantitativa entre as perdas e os ganhos
varia entre empresas, indústrias, setores, regiões e países em função de competitivi-
dade, estratégias empresariais, políticas governamentais, ambientais, ambientes
institucionais e posição relativa no mercado global.
CASTELLS, Manuel. A sociedade em rede. 3. ed. São Paulo: Paz e Terra, 2000. v. 1. p. 284.

1. Os autores têm posições semelhantes? O que os aproxima e o que os distingue?


2. Pensando na realidade social brasileira, como você avalia essas duas teses?
3. Levando em consideração tudo o que vimos até agora no capítulo, você diria que
os seres humanos podem viver sem trabalho? Por quê?

Os sindicatos e seus desafios na atualidade


O trabalhador contemporâneo vive no contexto de transição do trabalho
regulamentado e duradouro para formas de negação do trabalho-emprego,
sua escassez e precarização. Essa situação é reforçada por múltiplas estratégias
que individualizam o trabalhador: ele se torna flexível, clandestino, desloca-
do de estruturas sindicais de defesa, com reduzidos direitos sociais e políticos.
Os sindicatos – entidades nascidas para organizar os trabalhadores, encami-
nhar suas reivindicações e representar seus interesses junto aos empregadores
– tiveram seu poder de pressão reduzido. As mudanças no mundo do trabalho,
decorrentes das políticas neoliberais, interromperam o processo de conquista
de direitos e de ampliação da cidadania no país. Assim, hoje os sindicatos en-
frentam desafios para garantir os direitos já alcançados pelos trabalhadores.
Albari Rosa/Gazeta do Povo/Futura Press

Trabalhadores metalúrgicos no
Paraná fazem paralisações e
discutem melhoria de salário
durante assembleia realizada em
2011, em São José dos Pinhais.

Trabalho e mudanças sociais • 107

Sociologia_vu_PNLD15_089a118_C04.indd 107 5/27/13 5:23 PM


São desaf ios sindicais: combinar estratégias de proteção do emprego e
melhoria das condições de trabalho; responder ao cenário de flexibilidade
e estimular a construção de identidades coletivas; posicionar-se com relação
à reestruturação produtiva e garantir a negociação coletiva, ou seja, a regu-
lação conjunta, entre empresários e trabalhadores, dos termos e das condi-
ções do emprego.
Um dos problemas enfrentados pela organização sindical é que ela tem
representado majoritariamente os trabalhadores efetivos ou formais, isto é,
aqueles que têm vínculo formal, carteira de trabalho assinada, pertencendo
of icialmente a determinada categoria ou empresa.
Há, porém, um segmento não organizado do mercado de trabalho, ou
seja, que está na informalidade. Os trabalhadores desse grupo, que estão nas
pequenas empresas ou trabalham por conta própria, vivem sem registro e/
ou remuneração f ixa e direitos trabalhistas, são facilmente substituídos e
f icam mais tempo desempregados. No Brasil, em 2011, 45,4% dos trabalha-
dores brasileiros em idade produtiva estavam na informalidade, de acordo
com o IBGE – índice bem menor que o de 55,3%, constatado dez anos an-
tes, mas ainda assim muito elevado.
Muitos dos trabalhadores informais encontram-se submetidos a péssimas
condições de trabalho e recebem baixíssimos salários. Esse é o caso dos car-
voeiros, no Brasil, e de trabalhadores de outros setores, alguns dos quais vi-
vendo em regime semelhante ao de escravidão em pleno século XXI.
Já os trabalhadores terceirizados não dispõem, via de regra, de represen-
tação sindical, pois operam para uma empresa que pode ser uma prestadora
de serviços ou produtora de partes do produto.
A redução das vagas de emprego e as no-
Bianca Pyl/Repórter Brasil

vas condições de trabalho f izeram crescer a


competição entre os trabalhadores, o que
levou alguns sindicatos a aglutinar diferen-
tes interesses. Trata-se de uma tentativa de
conter o avanço da precarização do traba-
lho, incorporar os trabalhadores informais e
ajustar a agenda para defender questões
mais amplas da sociedade, como a previdên-
cia, a saúde e a ecologia.

um dos maiores desafios dos trabalhadores e


de suas organizações é universalizar os
direitos, uma vez que os instrumentos de
flexibilização do trabalho aumentaram as
desigualdades sociais.

Flagrante de trabalho escravo contemporâneo


em oficina de confecção na cidade de São Paulo,
em 2011. A falta de oportunidades ou de
condições de disputar uma vaga de trabalho
formal leva alguns trabalhadores a se
submeterem a condições de trabalho precárias,
desumanas e inseguras.

108 • capítulo 4

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Bruno Galvão/Acervo do artista
Charge de 2011 retratando o sindicato
como entidade responsável por
proteger e garantir os direitos do
trabalhador.

p E squisa

Reúnam-se em grupos e realizem a atividade proposta a seguir.


1. Discutam o que é trabalho informal.
2. Façam uma lista das atividades informais que vocês conhecem.
3. Entrevistem três trabalhadores que se encontram na informalidade. Para isso uti-
lizem as perguntas sugeridas abaixo:
– Que tipo de trabalho você realiza? Especif ique algumas das atribuições desse
trabalho.
– Você já trabalhou com carteira assinada? Por quanto tempo? Em caso positivo:
por que saiu desse emprego?
– Qual o seu grau de instrução? Fez algum curso de qualif icação?
4. Após a entrevista, elaborem um pequeno relatório sobre o que descobriram.
Conversem com os demais grupos e, com base nos dados colhidos por todos,
apontem propostas e sugestões para mudar a realidade encontrada.
Recomendação:
Para fazer a entrevista, leve caneta e caderno. Identif ique-se como aluno do colé-
gio e pergunte se o entrevistado pode conceder-lhe um tempo para responder a
uma pesquisa sobre trabalho informal. Não esqueça de agradecer ao f inal.
Mário Bittencourt/BA Press/Futura Press

Vendedores ambulantes oferecem


bananas a motoristas em trecho
urbano da BR-116, em Jequié, na
Bahia, em 2013.

Trabalho e mudanças sociais • 109

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O labirinto do mercado de trabalho
Quantas vezes perguntaram a você: o que vai ser quando crescer? Para
qual curso vai prestar vestibular? Que prof issão gostaria de exercer? Muitas
vezes, as respostas a essas questões expõem a indecisão dos jovens sobre qual
prof issão escolher. Atualmente, quem tem uma formação ou uma carreira
única perde espaço no mercado de trabalho em favor daqueles com trajetó-
rias prof issionais mais complexas, em razão das mudanças ocorridas no âm-
bito do trabalho.
Hoje, o jovem tem dif iculdade para se inserir no mercado de trabalho,
especialmente no primeiro emprego, por não ter experiência (assunto que
será retomado no capítulo 10, sobre a juventude). As empresas costumam
exigir também uma formação mínima, que inclui, pelo menos, o Ensino Mé-
dio completo. Esses requisitos visam selecionar prof issionais qualif icados que
estão disponíveis no mercado de trabalho. Esse é o nome dado ao arranjo de
instituições sociais, econômicas, jurídicas e políticas que possibilita a compra
e venda da força de trabalho, ou seja, dos indivíduos aptos ao trabalho.

o mercado de trabalho é complexo e depende de muitos fatores:


da necessidade e disponibilidade de mão de obra até a criação de postos de
trabalho; da diversidade nas relações entre as empresas de diferentes níveis
à posição do país no cenário econômico global.
Leo Drummond/Agência Nitro

Com o aumento da concorrência entre os


trabalhadores, os salários tendem a ser rebaixa-
dos e os menos preparados são excluídos. O tra-
balhador com mais anos de estudo tem mais
chances de conseguir um emprego formal, em-
bora isso não garanta bons salários, e com frequ-
ência as pessoas têm exercido funções não com-
patíveis com sua formação. A proporção de
estagiários tem aumentado, mas ainda faltam
empregos efetivos.
As saídas para um mercado de trabalho in-
certo não se apresentam de imediato. O desen-
volvimento econômico, ainda que represente
condição necessária para a geração de empre-
gos, não é suf iciente para tal, e há setores que
geram relativamente poucos empregos. Os pos-
tos de trabalho praticamente não correspondem
mais a funções delimitadas, pois essas são exerci-
das por prof issionais de áreas e prof issões distin-
tas que aplicam seus conhecimentos e habilida-
des em tarefas complexas.

Ao lado, trabalhadores de empresa de reatores em Varginha, no estado


de Minas Gerais, em foto de 2010. Atualmente, profissionais de áreas e
formações distintas desempenham funções diversificadas, embora
tenham sido contratados para uma atividade específica.

110 • capítulo 4

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A tendência tem sido o trabalho executado por equipes multidisciplina-
res e trabalhadores polivalentes. A polivalência de um trabalhador signif ica
que ele opera várias máquinas ao mesmo tempo ou realiza múltiplas tarefas
simultâneas, como programação, preparação, limpeza e inspeção de uma
máquina ou célula de trabalho. Grupos de trabalhadores são responsáveis
por etapas da produção, além de cobrarem e executarem metas de qualida-
de e de produtividade f ixadas pela empresa.
Diante desse quadro, surgem experiências alternativas, como a do tra-
balho solidário, que implica autonomia de tarefas, reciprocidade e solida-
riedade em empreendimentos econômico-sociais e públicos. Nele, os laços
sociais são valorizados, pois o objetivo é atender aos interesses coletivos,
num modelo de produção mais voltado para a colaboração que para a con-

Filipe Rocha/Arquivo da editora


corrência. Feiras solidárias, cooperativas populares, redes de solidariedade,
moeda social, banco comunitário e organizações em assentamentos agrá-
rios são algumas das atividades da economia solidária, no Brasil.
A economia solidária contribui para a democratização da economia
por sua dupla dimensão – a econômica e a política –, na medida em que
os cidadãos se mobilizam para construir sua independência econômica
por meio da associação e de cooperação, e que somente a ação pública é
capaz de estabelecer direitos e def inir normas de uma redistribuição da
riqueza que reduza desigualdades, como af irma o sociólogo francês Jean-
-Louis Laville.

dE batE

Leia o trecho abaixo, escrito em 1937 pelo jornalista e escritor inglês George Orwell
(1903-1950), e observe como se retrata o indivíduo desempregado nessa época.
Depois, reunidos em grupos, discutam e respondam às questões propostas.

Tomei consciência do problema do desemprego em 1928. [...] As classes médias


ainda falavam “desses preguiçosos que vivem de subsídios”, dizendo que “todos es-
ses homens podiam encontrar trabalho se quisessem”; e, naturalmente, essas opi-
niões infiltravam-se na própria classe operária. Lembro-me do choque e do espanto
que senti quando convivi pela primeira vez com vagabundos e mendigos, ao desco-
brir que uma proporção razoável, talvez um quarto, desses seres, que me haviam
ensinado a considerar como parasitas desavergonhados, eram afinal jovens minei-
ros e operários têxteis respeitáveis que encaravam o seu destino com a expressão
perdida de um animal apanhado numa armadilha. Simplesmente não compreen-
diam o que lhes acontecera. Tinham sido trazidos ao mundo para trabalhar e, de
repente, tudo se passava como se nunca mais viessem a ter a mínima hipótese de
encontrar trabalho. Nestas condições, era inevitável sentirem-se, numa primeira fa-
se, perseguidos por um sentimento de fracasso pessoal. Era a atitude que prevalecia
entre os desempregados [...]. Era um desastre que acontecia a você como indivíduo
e a culpa era sempre sua [...]. Quando um quarto de milhão de mineiros estão de-
sempregados, faz parte da ordem das coisas que Alf Smith, mineiro a viver nas rue-
las esconsas [da cidade inglesa] de Newcastle, fique sem trabalho. Não passa de um
indivíduo entre um quarto de milhão, um dado estatístico. Enquanto Bert Jones,
que mora na casa em frente, estiver empregado, Alf Smith será irremediavelmente
levado a sentir-se desonrado, a considerar-se um falhado. Daí o terrível sentimento

Trabalho e mudanças sociais • 111

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de impotência e de desespero, talvez um dos piores males do desemprego – muito
pior do que qualquer privação, pior do que a desmoralização causada pela ociosi-
dade forçada, e pouco melhor do que o lamentável estado de degenerescência físi-
ca dos filhos de Alf Smith, nascidos quando ele já era subsidiado pelo PAC [sigla em
inglês para Comitê de Assistência Pública].
ORWELL, George. O caminho para Wigan Pier. Lisboa: Antígona, 2003. p. 116-118.

1. Quais são as constatações de Orwell ao deparar com a questão do desemprego na


Grã-Bretanha da década de 1920?
2. Como era visto o desempregado no contexto da crise capitalista europeia do iní-
cio do século XX? Na sua opinião, essa imagem é condizente com a realidade ou
trata-se de uma visão preconceituosa e estereotipada?
3. Agora, converse com seus colegas e responda: essa visão sobre o desempregado
ainda é comum nos dias de hoje? Por quê?

hh
Desigualdades no mercado de trabalho: questões de gênero e
étnico-raciais
Você já percebeu que em algumas prof issões predominam mulheres e
que certas atividades costumam f icar a cargo dos homens? Observe também
como em determinados nichos do mercado de trabalho os afrodescenden-
tes são maioria. O que produz essa participação desigual dos segmentos so-
ciais no mercado de trabalho?
A desigualdade social não se dá somente entre empregados e desempre-
gados, trabalhador formal e informal, qualif icado e não qualif icado, com
altos ou baixos salários, trabalhadores experientes ou jovens buscando o
primeiro emprego, trabalhadores efetivos ou terceirizados, patrões e empre-
gados. Outras formas de desigualdade, historicamente construídas, envol-
vem a diversidade de gênero, raças e etnias.
No século XVIII, por exemplo, o trabalho de mulheres e crianças era uti-
lizado nas fábricas na Europa, assim como o dos homens, mas o valor da remu-
neração delas era inferior. Embora as mulheres sempre tenham trabalhado,
principalmente as mais pobres, no século XX a mão de obra feminina entrou
maciçamente no mercado de trabalho: no período das duas guerras mundiais,
para suprir a escassez de mão de obra, e após a década de 1970, com o cresci-
mento da indústria, dos serviços e o surgimento de novas tecnologias.
Contribuíram também para inserir a mulher no mercado de trabalho os
movimentos feministas e a chamada liberação feminina, propiciada pelo
uso da pílula anticoncepcional, que permitiu o planejamento familiar, entre
outros fatores. Dados da Organização Mundial do Trabalho (OIT) mostra-
ram que em 2005 as mulheres já eram 45% da mão de obra no mundo e que
essa proporção era maior nas famílias com rendas mais baixas, devido à ne-
cessidade de melhorar suas condições de vida.
Filipe Rocha/Arquivo da editora

As mulheres representam mais da metade da população do Brasil, que


era de 191 milhões de habitantes, em 2010, segundo o IBGE. De acordo
com o Censo 2010, 37,3% das famílias têm mulheres como responsáveis,
embora elas recebam, na média, salários inferiores aos dos homens.

112 • capítulo 4

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Wesylle Santana Silveira/Acervo do fotógrafo

Além de desvantagem na remuneração, elas


enfrentam também o problema da dupla (ou tri-
pla) jornada, pois trabalham fora, trabalham em
casa (cuidando dos f ilhos e dos afazeres domésti-
cos) e, muitas vezes, ainda frequentam cursos com
vistas a melhorar sua carreira e remuneração.
A desigualdade na distribuição das tarefas do-
mésticas ainda é enorme: dados da Pesquisa Na-
cional por Amostra de Domicílios (Pnad) de 2011
mostram que, entre as mulheres acima de 18 anos
empregadas no mercado de trabalho, 89,4% tam-
bém se ocupavam dos afazeres domésticos, en-
quanto apenas 47% dos homens na mesma situa-
ção o faziam. Entre os homens que se encontravam Marido e esposa dividem afazeres domésticos em Itaporã, Mato
fora do mercado de trabalho, somente 45,5% se Grosso do Sul. Cenas como essa ainda são pouco comuns nos lares
brasileiros, de acordo com dados da Pnad 2011. Foto de 2012.
responsabilizavam por atividades domésticas.
Pesquisas apontam que 28% das mulheres trabalhadoras no país se con-
centram em algumas áreas do setor de prestação de serviços: saúde, educa-
ção, comércio, serviços comunitários, domésticos e pessoais. Algumas prof is-
sões são consideradas, pelo senso comum, “tipicamente” femininas:
trabalhadoras domésticas, enfermeiras, prof issionais responsáveis pelo aten-
dimento ao público, cuidadoras de crianças e de idosos. Além disso, as mu-
lheres ocupam cargos mais baixos em prof issões valorizadas, sendo raras
entre diretorias de grandes empresas, por exemplo.
Habilidades como coordenação motora f ina, paciência, concentração,
boa observação, dedicação, atenção e exercício simultâneo de várias tarefas
são tradicionalmente atribuídas às mulheres, como se fossem características
do gênero feminino. Isso é um mito, uma vez que tais habilidades podem ser
desenvolvidas por qualquer um e foram adquiridas nas relações sociais his-
tóricas entre homens e mulheres.
As relações de gênero influenciam a inserção no mercado de trabalho,
afetando a atividade da mulher. De modo geral, é maior o desemprego entre
as mulheres do que entre os homens. Segundo a Pnad 2011, elas compunham
59% da população brasileira desocupada, ou seja, sem trabalho, mas que esta-
va à procura de um. A mesma pesquisa indica que a taxa de desocupação en-
tre mulheres era de 9,9%, enquanto entre homens era de 5,3%. A taxa, tanto
para homens como para mulheres, era mais alta entre a população negra.
Moacyr Lopes Junior/Folhapress

Linha de produção de ovos de


Páscoa em fábrica de
chocolate, em São Paulo, na
qual predomina a mão de obra
feminina. Foto de 2009.

Trabalho e mudanças sociais • 113

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Outras distinções e desequilíbrios no mercado de trabalho se baseiam
em fatores étnico-raciais. A escravização de africanos e descendentes até o
f inal do século XIX e as dif iculdades de integração social e econômica im-
postas aos libertos, após a abolição, demarcaram uma herança histórica de
desigualdades. Associou-se a cor da pele à condição de escravos e a determi-
nadas funções. Dessa forma, a discriminação social foi reforçada, embora
seja veiculada uma imagem do Brasil como uma democracia racial. A forma
velada de racismo dif iculta seu combate e impede a meta de participação
igualitária desse segmento no mercado de trabalho. A temática das desigual-
dades é trabalhada com mais detalhes no capítulo 1.

Mecanismos de discriminação étnico-racial no país se revelam na dinâmica


do mercado de trabalho.

A população negra está mais sujeita ao desemprego, permanece mais


tempo em busca de trabalho e costuma ocupar postos de menor prestígio e
remuneração e na base da hierarquia das empresas. Pesquisas indicam que,
quando estão empregados, os afrodescendentes ganham menos que os tra-
balhadores brancos, mesmo quando têm idêntica formação, e também são
maioria no setor informal.
Pesquisa do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioe-
conômicos (Dieese) realizada em 2010 mostra que a população negra brasi-
leira tem uma trajetória desfavorável para se manter ou ascender no empre-
go, quando comparada com a dos não negros no trabalho principal, nas
principais Regiões Metropolitanas. Aproximadas, as taxas de desemprego
por cor, entre 2007 e 2010, indicam um maior número de desempregados
negros. Em função da pobreza de parte dessas famílias, a entrada dos jovens
no mercado de trabalho costuma ser precoce, dif icultando a conclusão dos
estudos de nível básico e o ingresso no ensino superior ou em cursos de
qualif icação. Em razão do trabalho precário exercido, muitas vezes infor-
mal, os negros precisam permanecer mais tempo trabalhando devido aos
entraves para obter o direito de aposentadoria.
Leia, a seguir, uma análise do economista Marcio Pochmann (1962-)
sobre a discriminação no mercado de trabalho brasileiro.

A variação, entre 1992 e 2002, da taxa de desemprego da população branca de


baixa renda (49,5%) é pouco maior que a verificada para a população negra nessa
faixa (46,7%). Nas classes de maior rendimento, ocorreu justamente o contrário, ou
seja, a desigualdade entre as raças na variação do desemprego foi ampliada. Assim,
o desemprego dos negros de renda alta, entre 1992 e 2002, aumentou 68%, enquan-
to o dos brancos dessa classe de rendimento cresceu 46,2%. De acordo com o com-
portamento do desemprego, pode-se observar que a discriminação racial alcançou
novas formas de manifestação, ainda mais sofisticadas. A taxa de desemprego dos
negros pobres cresceu menos, uma vez que estes tenderam a estar associados, em
geral, às ocupações mais precárias, enquanto o desemprego dos negros de média e
alta renda explodiu, provavelmente porque, em um contexto de escassez de empre-
gos especializados, o preconceito racial atuou como um requisito decisivo na contra-
tação. Assim, a discriminação racial passou a excluir de ocupações mais nobres aque-
les que, depois de muito esforço, haviam alcançado maior renda e escolaridade.
POCHMANN, Marcio. Desempregados do Brasil. In: ANTUNES, Ricardo (Org.). Riqueza e miséria do trabalho no Brasil.
São Paulo: Boitempo, 2006. p. 64-65.

114 • capítulo 4

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A segmentação do mercado de trabalho e as diversas formas de discrimi-
nação estão associadas à má distribuição da renda e à falta de políticas sociais
que valorizem o trabalhador. Existem, porém, cada vez mais políticas públi-
cas de cotas e outras ações af irmativas que visam ampliar o acesso a bens ou
serviços essenciais para a parcela menos favorecida da população, promoven-
do uma participação mais efetiva desses segmentos nas esferas de poder da
sociedade. Essas políticas de inserção, embora amenizem o problema, con-
centram-se nas consequências e não na causa do problema. A criação de mais
vagas em universidades públicas e os programas públicos de f inanciamento
da educação são formas capazes de compensar, em parte, as dif iculdades de
acesso da população em geral à educação de qualidade, por exemplo.

paus a para rEflEtir

Leia o trecho abaixo, sobre o mito de Sísifo, e depois res-

The Art Archive/Musée Archéologique Naples/Gianni Dagli Orti/The Picture Desk/Agência France-Presse
ponda à questão.

Por ter enganado Tânatos, deus da morte, sucessivas


vezes, Sísifo foi condenado, por toda eternidade, a em-
purrar uma pedra para o topo de uma montanha e, lá do
alto, soltá-la de volta para baixo, repetindo o processo
ininterruptamente. Com isso, tornou-se um símbolo do
trabalho humano feito em vão.
Adaptado de: GUIA visual da mitologia no mundo. São Paulo: Abril, 2010. p. 171.

• Com base nos temas abordados no capítulo, em especial


o conceito de trabalho alienado, responda: de que modo
o mito de Sísifo manifesta-se na vida cotidiana dos traba-
lhadores?

Neste vaso grego datado do século IV a.C., Sísifo é


representado cumprindo sua sina: empurrar inutilmente
uma pedra que sempre voltará a rolar montanha abaixo.

diálogos in tErdisciplinar E s

Produção de um conteúdo artístico-lúdico com base na comparação de conceitos li-


gados à palavra “trabalho” na Sociologia, na Filosof ia e na Física. [As disciplinas tra-
balhadas em conjunto são Língua Portuguesa, Arte, Sociologia, Filosof ia e Física.]
Você certamente já ouviu falar muito em “trabalho”. Ao longo do capítulo 4, você
pôde conhecer a abordagem sociológica para esse conceito. Ela não é a única. Com-
pare as seguintes def inições de “trabalho”, dadas por três diferentes disciplinas:
Sociologia/Ciências Sociais
O trabalho é uma relação social produtiva submetida às exigências técnicas e mate-
riais da produção. Portanto, o trabalho deve ser explicado no âmbito das especificidades
de uma dada sociedade. Para Marx, por exemplo, o trabalho assalariado objetivado é o
trabalho da época capitalista.
Fonte: SPURK, Jan. A noção de trabalho em Karl Marx. In: MERCURE, Daniel; SPURK, Jan (Org.).
O trabalho na história do pensamento ocidental. Petrópolis: Vozes, 2005.

Trabalho e mudanças sociais • 115

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Filosof ia
Para o filósofo alemão Jürgen Habermas, o trabalho é uma ação racional com respei-
to a fins, por meio da qual homens e mulheres se apropriam da natureza em busca da
sobrevivência e interagem comunicativamente entre si.
Fonte: HABERMAS, Jürgen. Técnica e ciência enquanto ideologia. In: Textos escolhidos.
v. XLVIII. São Paulo: Abril Cultural, 1975. p. 310-311. (Os Pensadores)

Física
Realizar trabalho em Física implica a transferência de energia de um sistema para
outro e, para que isso ocorra, são necessários uma força e um deslocamento adequados.
Fonte: DOCA, Ricardo Helou; BISCUOLA, Gualter José; VILLAS BÔAS, Newton. Física.
São Paulo: Moderna, 2010.

Utilizando sua criatividade, escolha um dos projetos a seguir para realizar indivi-
dualmente ou em grupo:
a) escrever um poema;
b) escrever uma paródia de uma música famosa;
c) compor uma música e sua letra;
d) escrever, ensaiar e apresentar uma cena curta (esquete) de teatro;
e) fazer um vídeo curta-metragem de um minuto;
f) elaborar, escrever o roteiro e gravar um programa de rádio;
g) fazer uma obra de artes visuais (pintura, desenho, instalação);
h) elaborar uma história em quadrinhos, charge ou tira;
i) tirar fotograf ias, selecioná-las e realizar uma exposição.
O seu projeto deve estabelecer uma comparação ou relação entre as três definições
apresentadas anteriormente. Quando todos os projetos estiverem prontos, organizem
uma sessão para apresentá-los aos colegas de sala ou aos demais alunos da escola.
Caso tenha outra ideia de projeto artístico-lúdico para trabalhar o tema, converse
com o professor sobre a possibilidade de realizá-la.

r E v i s a r E sistEm atiza r
1. Pode-se dizer que as relações de trabalho permanecem as mesmas ao
longo da História? Justif ique sua resposta utilizando exemplos.
2. Descreva as principais características do fordismo e do taylorismo e iden-
tifique elementos deles na organização do trabalho na indústria brasileira.
3. Indique algumas implicações dos sistemas flexíveis de produção para o
mercado de trabalho.
4. Explique as razões do crescimento do desemprego, nas últimas décadas,
no mundo.
5. Analise a permanência de antigas formas de discriminação e desigual-
dades no trabalho.

conceitos-chave:
Trabalho, trabalho alienado, mais-valia, mundo do trabalho, força de trabalho,
capital, relações de trabalho, fordismo, taylorismo, toyotismo, flexibilização,
financeirização, cadeia produtiva, reestruturação produtiva, neoliberalismo,
mercado de trabalho, emprego, desemprego, precarização do trabalho, sindicato,
trabalho solidário, informalidade.

116 • capítulo 4

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dE scubra m ais
As Ciências Sociais na biblioteca
ANTUNES, Ricardo (Org.). Riqueza e miséria do trabalho no Brasil. São Paulo: Boitempo, 2006.
Tendo como tema principal o trabalho e o sindicalismo no Brasil atual, e tomando por base
pesquisas recentes, os autores buscam compreender as transições por que tem passado o
trabalho urbano.
DOWBOR, Ladislau. O que acontece com o trabalho? São Paulo: Senac-SP, 2002.
Leitura com discussões atuais sobre as macrotendências de mudanças no trabalho. Acompanha
breve glossário.
HOLZMANN, Lorena. O trabalho no cinema (e uma socióloga na plateia). Porto Alegre: Tomo Editorial,
2012.
Valendo-se do cinema como meio de comunicação, são comentados alguns filmes que tratam do
trabalho, seus conflitos e mudanças.

As Ciências Sociais no cinema


Coisas belas e sujas, 2002, Inglaterra, direção de Stephen Frears.

Leon Hirszman Produções/Embrafilme


Com base na história de um médico nigeriano e uma jovem turca, em Londres, o filme discute a
situação daqueles que lá trabalham ilegalmente.
Eles não usam black-tie, 1981, Brasil, direção de Leon Hirszman.
Na conjuntura do final da década de 1970, o filme retrata a angústia pessoal e de cunho político
do trabalhador em participar do movimento grevista no ABC paulista.
Roger & eu, 1989, Estados Unidos, direção de Michael Moore.
Documentário que relata o fechamento de onze fábricas de automóveis na cidade de Flint (EUA), Fernanda Montenegro e
que deixou dezenas de milhares de pessoas sem trabalho. Gianfrancesco Guarnieri em
Tempos modernos, 1936, Estados Unidos, direção de Charles Chaplin. cena do filme Eles não usam
Filme clássico do cinema mudo que se tornou uma referência também por retratar a sociedade black-tie (1981), dirigido por
industrial do início do século XX, em que prevalecia o sistema fordista de produção. Leon Hirszman.

As Ciências Sociais na rede


Ministério do Trabalho e do Emprego. Disponível em: <www.mte.gov.br>. Acesso em: 28 abr. 2013.
Portal do Ministério disponibiliza dados, estatísticas e notícias sobre trabalho, emprego e renda.
Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Disponível em: <www.ibge.gov.br>. Acesso em:
28 abr. 2013.
Apresenta dados sobre o mundo do trabalho no Brasil.
Instituto Observatório Social. Disponível em: <www.observatoriosocial.org.br>. Acesso em: 28 abr. 2013.
Traz informações sobre o panorama do trabalho e dos salários, do mercado de trabalho e da
organização dos trabalhadores no Brasil.
Organização Internacional do Trabalho (OIT). Disponível em: <www.oitbrasil.org.br>. Acesso em: 28 abr.
2013.
O site traz informações atualizadas sobre temas como diálogo social, emprego, gênero e raça,

Reprodução/Editora Boitempo
proteção social, trabalho escravo e forçado, trabalho infantil, além de normas e convenções do
trabalho e publicações.
Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). Disponível em: <www.ipea.gov.br/portal>. Acesso em:
28 abr. 2013.
Informações atualizadas e resultados de pesquisas sobre a realidade socioeconômica brasileira.

b i b liografia
ALVES, Giovanni. O novo (e precário) mundo do trabalho: reestruturação produtiva e crise do sindicalismo. São
Paulo: Fapesp/Boitempo Editorial, 2000.
ANTUNES, Ricardo (Org.). Riqueza e miséria do trabalho no Brasil. São Paulo: Boitempo, 2006.
_______. Adeus ao trabalho? Ensaio sobre as metamorfoses e a centralidade do mundo do trabalho. 2. ed. São
Paulo: Cortez; Campinas: Ed. da Unicamp, 1995. Capa do livro Riqueza e miséria
CACCIAMALI, Maria Cristina; TATEI, Fábio. A transposição do umbral da universidade; o acesso das mulheres, do trabalho no Brasil, de Ricardo
pretos e pardos no ensino superior e a persistência da desigualdade. São Paulo: LTr, 2012. Antunes (ed. Boitempo).
CARDOSO, Adalberto Moreira. Trabalhar, verbo transitivo: destinos profissionais dos deserdados da indústria
automobilística. Rio de Janeiro: Ed. da FGV, 2000.

Trabalho e mudanças sociais • 117

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CARMO, Paulo Sérgio. História e ética do trabalho no Brasil. São Paulo: Moderna, 1998.
CASTELLS, Manuel. A sociedade em rede. A era da informação: economia, sociedade e cultura, v.1. 3.ed. São
Paulo: Paz e Terra, 2000.
CATTANI, Antonio; HOLZMANN, Lorena (Org.). Dicionário de trabalho e tecnologia. Porto Alegre: Ed. da UFRGS,
2006.
CLASTRES, Pierre. A sociedade contra o Estado. v.3. São Paulo: Cosac Naify, 2012.
DAL ROSSO, Sadi. Mais trabalho! A intensificação do labor na sociedade contemporânea. São Paulo: Boitempo,
2011.
DIEESE – Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos. Anuário dos trabalhadores
2010-2011. 11.ed. São Paulo, 2011.
DOWBOR, Ladislau. O que acontece com o trabalho? São Paulo: Senac-SP, 2002.
FRANÇA FILHO, Genauto; LAVILLE, Jean-Louis. A economia solidária: uma abordagem internacional. Porto Ale-
gre: Editora da UFRGS, 2004.
GARCIA, Sandro Ruduit. Terceirização. In: CATTANI, Antonio David; HOLZMANN, Lorena (Org.). Dicionário de
Reprodução/Edusp

trabalho e tecnologia. 2.ed. Porto Alegre: Zouk, 2011. p. 423-426.


GORZ, André. Adeus ao proletariado: para além do socialismo. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1982.
________. Metamorfoses do trabalho: crítica da razão econômica. São Paulo: Annablume, 2003.
GUIMARÃES, Nadya Araújo; HIRATA, Helena; SUGITA, Kurumi (Org.). Trabalho flexível, empregos precários?: uma
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118 • capítulo 4

Sociologia_vu_PNLD15_089a118_C04.indd 118 5/27/13 5:23 PM


Salmo Dansa/Arquivo da editora

Capítulo 5

A cultura e suas transformações


EstudarEmos nEstE capítulo:
a cultura, um aprendizado social que compreende a produção de bens materiais e simbólicos. Trataremos sobre a
diversidade cultural na sociedade brasileira, e veremos que a identidade cultural envolve a experiência e a consciên-
cia de pertencer a um coletivo. Todos produzem cultura, e os grupos sociais minoritários produzem culturas pró-
prias, alternativas ou contra-hegemônicas. Desde que se firmou a sociedade de massas, nossos hábitos culturais
também passaram a ser influenciados pelos meios de comunicação de massa. Ao analisar o novo sistema tecnoló-
gico de comunicação da sociedade global, aprenderemos como ele pode aproximar grupos geograficamente distan-
tes e, ao mesmo tempo, aprofundar as diferenças sociais, sinal de que a cultura é um fenômeno heterogêneo.

119

Sociologia_vu_PNLD15_119a148_C05.indd 119 5/27/13 5:24 PM


Comunicação e cultura
Se você é um usuário da internet ou de jogos eletrônicos, saiba que par-
ticipa de uma nova cultura – a “cultura virtual do real”, assim denominada
pelo sociólogo espanhol Manuel Castells (1942-). A realidade virtual é a ge-
ração de um mundo artif icial com base na relação ser humano-máquina,
cuja meta é envolver todos os sentidos do usuário. Acompanhemos a narra-
tiva sobre uma mulher, no Japão, que destina algum tempo do seu dia para
ditora
vivenciar outra identidade em um cenário de um mundo paralelo. Que cul-
da e
uivo
/Arq
Filip
e Roch
a
turas emergirão dessas realidades vividas virtualmente?

O mundo de Mariko Ito, de 32 anos, moradora de Tóquio, usuária de Habitat,


hh
avatar: é uma palavra derivada de essa cidade japonesa de dez mil habitantes, que não se encontra no mapa, porque
avatara, que significa ‘descida do céu à é uma cidade virtual fabricada pela Fujitsu e lançada na rede Nifty-Serve, em 1990.
Terra’ em sânscrito, antiga língua in- Mariko Ito vai à Habitat ciberespacial, por uma ou duas horas todos os dias, porque,
diana. Atualmente, a palavra tem sido diz ela, “é fantástico, lá, posso ser outra pessoa”. Lá, Mariko pode escolher sua roupa,
largamente utilizada nos meios de co- sua aparência e seu sexo, optando entre os 1 100 rostos possíveis, depois de ter se
municação e na informática para de-
registrado como avatar ou residente. Atravessando o espelho da tela e entrando, do
signar personagens que são criadas
virtualmente à semelhança de seu
outro lado, num mundo ciberespacial, Mariko torna-se um avatar, isto é, uma reen-
criador (o usuário desses programas e carnação, ou uma metamorfose. Parece ficção, mas é realidade virtual.
jogos de computador), possibilitando SANTOS, Laymert. Considerações sobre a realidade virtual. In: FERREIRA, Leila (Org.). A Sociologia no horizonte do século XXI.
sua “entrada” no mundo virtual. São Paulo: Boitempo, 2002. p. 113-114.
20th Century Fox/Divulgação

Na foto ao lado, cena do filme


Avatar, dirigido por James
Cameron (Estados Unidos, 2009)

A concentração de conhecimentos tecnológicos, instituições, empresas e


mão de obra qualif icada dá ensejo à era da informática, na expressão de
Castells. Os novos sistemas de comunicação transformam o espaço e o tem-
po, reintegrando-os em redes funcionais na cultura moderna.
As alterações em ritmo acelerado nos meios de comunicação contribuí-
ram para transformar o nosso estilo de vida, o modo de nos relacionarmos,
produzirmos, consumirmos, de vivermos e até de morrermos. Essas grandes
mudanças resultaram, segundo alguns historiadores e sociólogos, de uma
Revolução Tecnológica que ocorreu na metade do século XX. Originada
nos Estados Unidos e centrada na informação, esta revolução surgiu a partir
de inovações na microeletrônica, como o circuito integrado, o microproces-
sador e o microcomputador.

120 • capítulo 5

Sociologia_vu_PNLD15_119a148_C05.indd 120 5/27/13 5:24 PM


Alberto Pomares/E+/Getty Images

As tecnologias da informação e da
comunicação contemporâneas
permitem conciliar atividades de
lazer e de trabalho, comunicar-se
com familiares e amigos a
distância, registrar momentos de
lazer, resolver pendências como
pagamentos em tempo real,
entre outras facilidades.
Data desconhecida.

Os sistemas de comunicação modif icam nossa vida. Quem dispõe de te-


lefone ou internet já não precisa mais se deslocar f isicamente para falar com
pessoas, pagar contas bancárias, comprar ou vender produtos. Transações
antes feitas entre duas ou mais pessoas agora são mediadas por máquinas. A
ligação entre os mercados do mundo em tempo real também só foi possível
com as tecnologias de informação. O sistema f inanceiro internacional habi-
ta o ciberespaço – aquele espaço virtual em que se dá a comunicação entre
indivíduos e grupos sem a presença física –, e pode ser responsável por crises
e mudanças com desdobramentos globais imediatos. Mesmo que uma pes-
soa não utilize os meios de comunicação virtuais, seu cotidiano está ligado
de alguma forma a eles.
Você já entrou em uma agência bancária e observou seu movimento? A
pessoa se despoja de seus pertences metálicos para passar pela porta girató-
ria; depois, retira uma senha que lhe dá acesso a um atendente apenas se
pretender abrir uma conta-corrente ou resolver um problema específ ico,
porque quase todos os demais serviços podem ser realizados por meio de
máquinas eletrônicas. Retirar e depositar dinheiro, pagar con-

Alex Silva/Agência Estado


tas, verif icar saldos: todas essas atividades, a partir dos anos
1990, passaram a ser realizadas diretamente entre o cliente e
a máquina.
As sociedades humanas se produzem e reproduzem em um
ambiente simbólico por meio do processo de socialização, co-
mo estudamos no capítulo 3 deste livro. Isso signif ica que in-
ternalizamos sistemas de signos produzidos culturalmente, co-
mo é o caso da linguagem, da escrita, dos números, etc.,
ajustando-nos aos padrões de comportamento vigentes. Em
toda relação que os seres humanos estabelecem com o seu en-
torno, modif icando-o – das árvores fazem móveis, com os me-
tais elaboram utensílios domésticos, em uma roda de batuque
compõem músicas, produzem meios para se comunicar, por
exemplo –, eles criam uma cultura plena de signif icados que Atualmente, é possível efetuar o pagamento de
dá sentido à sua existência, af irma o antropólogo polonês Bro- uma fatura bancária ou consultar a movimentação
nislaw Malinowski (1884-1942). financeira utilizando o celular. Foto de 2011.

A cultura e suas transformações • 121

Sociologia_vu_PNLD15_119a148_C05.indd 121 5/27/13 5:24 PM


As conversas cotidianas, as coisas sobre as quais falamos, o modo de nos
relacionarmos com fatos como nascimento, crescimento e morte são cultu-
ra. A maneira de prepararmos as refeições e lidarmos com os alimentos, o
modo como trabalhamos, nos vestimos, nos divertimos, as músicas que ouvi-
mos, os f ilmes a que assistimos, enf im, o relacionamento com aquilo que
nos rodeia: tudo que pode ser aprendido e ensinado faz parte da cultura.
Mas, af inal, o que podemos entender por cultura?

O que é cultura?
Geralmente, quando falamos em cultura, a primeira ideia que nos vem à
mente é algo relacionado ao teatro, à música, à literatura, à pintura, à escul-
tura e a outras áreas das artes. Mas também são considerados como elemen-
tos culturais de grande relevância as festas tradicionais, as lendas, o folclore
e os costumes de um povo. Seu signif icado abrange ainda os meios de comu-
nicação de massa, como a televisão, o rádio, a mídia impressa, a internet, o
cinema, etc. Cultura, portanto, não se resume às manifestações artísticas, às
tradições e aos hábitos de uma dada coletividade. Na Sociologia e na Antro-
pologia, o conceito de cultura também está relacionado aos conhecimentos,
às ideias e às crenças de uma sociedade e/ou das diversas sociedades.

Vinda do verbo latino colere, Cultura era o cultivo e o cuidado


Mauro holanda/Arquivo da editora

com as plantas, os animais e tudo que se relacionava com a terra;


donde, agricultura. Por extensão, era usada para referir-se ao cuida-
do com as crianças e sua educação, para o desenvolvimento de
suas qualidades e faculdades naturais; donde, puericultura. O vo-
cábulo estendia-se, ainda, ao cuidado com os deuses; donde, culto
[na antiga Grécia]. A Cultura [...] era o cuidado com a terra para
torná-la habitável e agradável aos homens, era também o cuidado
com os deuses, os ancestrais e seus monumentos, ligando-se à me-
mória e, por ser o cuidado com a educação, referia-se ao cultivo do
Os hábitos alimentares também são manifestações
culturais. Na foto acima, feijoada completa, prato muito espírito. Em latim, cultura animi era o espírito cultivado para a ver-
apreciado da culinária brasileira. dade e a beleza, inseparáveis da Natureza e do Sagrado.
CHAUI, Marilena. Conformismo e resistência: aspectos da cultura popular no Brasil.
São Paulo: Brasiliense,1986. p. 11.

O termo cultura foi aplicado em português por bastante tempo como si-
nônimo de erudição, mas não existe diferença em termos de importância
entre a chamada “alta cultura” e as expressões culturais populares, pois am-
bas (cada uma a seu modo) são criadas e cultivadas pela participação efetiva
do ser humano na sociedade. Foi pensando dessa forma que o antropólogo
britânico Edward Tylor (1832-1917) concebeu cultura como a totalidade de
conhecimento, crença e expressão emocional, à qual se somam as regras
estabelecidas, os hábitos, comportamentos e habilidades adquiridas no con-
vívio dos membros de uma sociedade.

tudo que pode ser aprendido e ensinado faz parte da cultura. Em toda relação
que os seres humanos estabelecem com o seu entorno, modificando-o, eles
criam uma cultura plena de significados que dá sentido à sua existência.

122 • capítulo 5

Sociologia_vu_PNLD15_119a148_C05.indd 122 5/27/13 5:24 PM


Os nossos gostos, por exemplo, não são determinados antes do nasci-
mento; ao contrário, resultam das relações que estabelecemos com os ou-
tros indivíduos e com o meio em que vivemos. Eles são construídos cultural-
mente no contínuo processo de interação social, o qual se dá pela
comunicação e pela ação recíproca entre os indivíduos e os grupos sociais.
Assim, aprendemos a gostar de rock, de f ilmes de ação, de sair com os amigos
e até de consumir certos tipos de alimentos em vez de outros.
Alguns entendimentos são fundamentais para o estudo da cultura. Os
três principais axiomas sobre esta esfera da vida em sociedade, para as Ciên-
cias Sociais, são:
• A cultura é uma característica do ser humano como ser social;
• A cultura é adquirida, um comportamento aprendido, como um patrimô-
nio social;
• Por meio da cultura se estabelece uma parte da relação ser humano-socie-
dade-mundo.
Assim como outras dimensões da vida social são interpretadas de dife-
rentes maneiras, também a cultura é estudada por diferentes visões e meto-
dologias. Acompanhemos as interpretações que alguns cientistas sociais fa-
zem do fenômeno cultural que, por ser heterogêneo, durável, mas em
contínua transformação, teve muitas tentativas de def inições.

Cultura: algumas leituras teóricas

Metodologia Representantes

Funcionalismo Para o antropólogo polonês Bronislaw Malinowski (1884-1942) e para o antropólogo inglês
(as instituições sociais Radcliffe-Brown (1881-1955):
são vistas pela função - a cultura designa o modo de vida das diversas comunidades; as necessidades humanas são
que desempenham universais e toda cultura cria instituições para atendê-las, desde as necessidades primárias às
para estabilizar a emocionais e aquelas das atividades econômicas e políticas.
sociedade) Para o antropólogo estadunidense Ralph Linton (1893-1953):
- a cultura é um fenômeno universal e diferencia os grupos.

Estruturalismo Para o antropólogo francês Claude Lévi-Strauss (1908-2009):


(as culturas se - a cultura é uma forma universal da linguagem pela qual os seres humanos buscam diferenciar-se da
estruturam por natureza e apresenta variações baseadas em pares de oposições (discrição e excesso, cru e cozido,
padrões implícitos) etc.).

Estrutural- Para os sociólogos estadunidenses Talcott Parsons (1902-1979) e Robert Merton (1910-2003):
-funcionalismo - a cultura de um povo ganha sentido na rede de relações sociais;
(as estruturas sociais - sociedade e cultura são partes interdependentes do sistema social.
delimitam a cultura)

Tendências recentes Para o antropólogo estadunidense Alfred Kroeber (1876-1960), numa linha de pensamento relativista
(há relações entre os da Antropologia Cultural, misturam-se na cultura os elementos materiais e os ideológicos com o
fenômenos) declínio das crenças mágicas; assim, ele argumenta que a cultura progride, evolui.
O historiador britânico Edward Thompson (1924-1943), ao fazer a crítica ao materialismo histórico
radical, entende a cultura como resultado das experiências comuns das pessoas (herdadas ou
partilhadas), presentes em tradições, sistemas de valores, ideias e formas institucionais.
O sociólogo britânico Anthony Giddens (1938-) vê, na cultura, a interdependência de aspectos
intangíveis (subjetivos), como ideias, crenças e valores, e aspectos tangíveis (objetivos), como os
objetos produzidos pelo ser humano, suas técnicas e tecnologias, trabalho, moradia, etc.

A cultura e suas transformações • 123

Sociologia_vu_PNLD15_119a148_C05.indd 123 5/27/13 5:24 PM


Filipe Rocha/Arquivo da editora

A cultura é um nível particular da realidade social muito importante,


pois suas dimensões objetiva e subjetiva não se contrapõem, ao contrário,
elas se complementam e estão relacionadas numa organicidade vital. O fa-
zer, o saber, o conviver dos seres humanos produzem padrões particulares
de estar na sociedade; produzem cultura. Cultura, portanto, não se aplica a
um grupo, ou a este ou àquele segmento social, mas está em nível global,
dada a amplitude do campo da experiência existencial.

hh
Cultura e civilização
Em seu livro O processo civilizador, o sociólogo Norbert Elias defende que,
mais do que pela “natureza humana”, o ser humano se def ine por meio da
relação com o outro – ou seja, ele se faz humano e se torna membro da hu-
manidade. Incompleto e dependente, até no aspecto biológico, ao nascer, o
ser humano se humaniza porque necessita da família e das relações sociais
típicas do seu grupo para se constituir. Ele depende, portanto, de seu con-
texto cultural e social.
Nesse sentido, é a cultura de uma sociedade que def ine os parâmetros
do bem e do mal, do justo e do injusto, do lícito e do ilícito. Envolto nessa
relação com sua cultura, o indivíduo pode se adaptar, se sujeitar ou se rebe-
lar. Ainda segundo Elias, os ocidentais, por exemplo, nem sempre se com-
portaram da maneira como o fazem hoje: alguns atributos que considera-
mos típicos do indivíduo “civilizado” resultaram de lentas transformações,
por meio das quais suas condutas, comportamentos e costumes foram sendo
condicionados socialmente. Então, civilização e cultura coincidem? Aliás, o
que signif ica exatamente civilização?

A partir do século XVIII, [...] o termo Cultura articula-se, ora positiva ora negati-
vamente, com o termo Civilização. Este, derivando-se do latim cives e civitas, referia-
-se ao civil como homem educado, polido e à ordem social (donde o surgimento da
expressão Sociedade Civil). Entretanto, Civilização possuía um sentido mais amplo
que civil. Significava, por um lado, o ponto final de uma situação histórica, seu aca-
bamento ou perfeição, e, por outro lado, um estágio ou uma etapa do desenvolvi-
mento histórico-social, pressupondo, assim, a noção de progresso.
CHAUI, Marilena. Conformismo e resistência: aspectos da cultura popular no Brasil.
São Paulo: Brasiliense, 1986. p. 11-12.

Alguns cientistas sociais def inem os termos civilização e cultura como si-
nônimos, outros os distinguem. É o caso de Norbert Elias, para quem civili-
zação é a consciência que as sociedades ocidentais têm em relação a si pró-
prias, ou seja, um termo que designa as alterações especif icamente ocidentais
em dimensões de relacionamento e criatividade, como os costumes, a tecno-
logia e o conhecimento científ ico.
O historiador inglês Eric Hobsbawm (1917-2012) concebe como socie-
dade “civilizada” aquela que determina regras e comportamentos de contro-
le para seus membros e para os de outras sociedades. Desse tipo de prática
pode-se citar o imperialismo do século XIX e início do XX, o qual nada mais
era do que a supremacia de caráter territorial, cultural e f inanceiro exercida
por uma nação sobre outra. Nessa época, os europeus def iniam a si mesmos
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como “civilizados”, em oposição aos povos considerados por eles “selvagens”
– os africanos, os asiáticos e os latino-americanos, ou seja, todos aqueles con-
siderados diferentes deles.
Esse discurso da superioridade europeia caracterizava o outro (o dife-
rente) como algo fora do padrão, tornando-o um inimigo a ser vencido.
Como analisa o antropólogo brasileiro Carlos Brandão (1940-), o argumen-
to utilizado era o de que os outros povos precisavam também se tornar parte
da “civilização”. O texto abaixo, do escritor britânico Joseph Kipling (1865-
-1936), ilustra como era vista essa “missão” europeia com relação aos povos
considerados não civilizados:

A nós – não aos outros – incumbe um dever precioso: levar a luz e a civilização
aos lugares mais distantes do mundo. Despertar a alma da Ásia e África para as
ideias morais da Europa; dar a milhões de homens, que sem isso não conheceriam a
paz, nem a segurança, essas condições prévias do progresso humano.
KIPLING, Joseph apud COMBLAIN, José. Nação e nacionalismo. São Paulo: Duas Cidades, 1965. p. 240.
Centre historique des Archives Nationales, Paris, France/Archives Charmet/the Bridgeman Art Library/Keystone

Na foto ao lado, da década de


1910, habitantes da atual
República dos Camarões
trabalham em plantação de café.
Alguns povos do continente
africano foram explorados pelos
europeus visando atender aos
interesses destes.

Tendo em vista que o ser humano se coloca no mundo, o vê e o interpre-


ta pela perspectiva da cultura em que se insere, uma tendência comum em
nossa sociedade tem sido naturalizar o nosso próprio modo de vida como se
fosse o único correto, tomando-o como padrão de análise na comparação
com outras culturas. Tal atitude é denominada etnocentrismo. Esse compor-
tamento explica a sensação de estranhamento causada por hábitos e valores
diferentes daqueles com os quais estamos acostumados e que são preconiza-
dos por nossa cultura. Conforme nos diz o antropólogo brasileiro Roque
Laraia (1932-):

O fato de que o homem vê o mundo através de sua cultura tem como conse-
quência a propensão em considerar o seu modo de vida como o mais correto e o
mais natural. Tal tendência, denominada etnocentrismo, é responsável em seus
casos extremos pela ocorrência de numerosos conflitos sociais.
LARAIA, Roque. Cultura: um conceito antropológico. Rio de Janeiro: Zahar, 1988. p. 75.

A cultura e suas transformações • 125

Sociologia_vu_PNLD15_119a148_C05.indd 125 5/27/13 5:24 PM


hh
O relativismo cultural
Para evitar visões distorcidas e etnocêntricas sobre o “outro” – como a
expressa na citação de Kipling, anteriormente, – a Antropologia propõe
uma análise sobre aquele que é diferente de nós fundada no chamado rela-
tivismo cultural. Relativizar culturalmente signif ica que, ao falarmos sobre
outros povos e grupos, precisamos antes nos indagar: como concebemos a
sociedade da qual fazemos parte? Podemos def inir outros povos e culturas
como primitivos ou arcaicos, civilizados ou não? Quais parâmetros seriam
utilizados para tal def inição? Até que ponto uma classif icação desse tipo se-
ria adequada, ou tendenciosa?
Cabe refletir e entender que outras sociedades ou grupos sociais têm
concepções e valores diferentes dos nossos acerca da vida e do mundo, por
exemplo – nem melhores, nem piores. Isto pode ser explicado por inúme-
ros fatores inter-relacionados, fruto das distintas experiências e de uma com-
plexa teia de relações sociais, constituídas historicamente no âmbito de cada
cultura.
Nossa perspectiva cultural (a educação do nosso olhar) normalmente
está relacionada com o lugar social ocupado por nós e as relações estabele-
cidas com os demais, na sociedade. O modo como vemos o mundo, aprecia-
mos as coisas de forma valorativa e moral, nossos comportamentos sociais e
até posturas corporais são produtos de uma herança cultural, analisa Laraia.
As Ciências Sociais, em especial a Antropologia, ao ampliar nosso conhe-
cimento acerca de outras culturas e suas expressões, nos ajudam a relativizar
nossa visão de mundo. Em outras palavras, fazem refletir sobre as diferenças
entre as diversas culturas e aprimoram a perspectiva por meio da qual per-
cebemos e interpretamos a própria cultura. Esse processo também nos ensi-
na que muitos comportamentos e visões de mundo que nos parecem “natu-
rais” ou “biológicos” na verdade são produtos da cultura, já que variam em
diferentes grupos e sociedades.
O reconhecimento da existência do outro, de culturas de diferentes
hh
alteridade: do latim alteritas (‘outro’), grupos, povos e sociedades (a alteridade), implica a experiência do conta-
indica a condição daquilo que é dife- to com outras culturas, a aceitação das diferenças. Essa é uma forma de
rente, distinto. desvendar alguns aspectos da nossa cultura que antes nos passavam des-
percebidos.

pEsquis a

Compreendendo outras culturas, podemos passar a compreender melhor as


nossas próprias. [...]. Cada sociedade humana é única, mas as instituições que ela
compreende são variações de temas que são compartilhados por todas. Aprenden-
do alguma coisa sobre estas variedades podemos aprender a nos ver no contexto
etnográfico; podemos passar a ver que nossas soluções para os problemas comuns
da vida em comunidade não são as únicas possíveis. Assim, aprendendo a impor-
tância prática das crenças de feitiçaria para os Azande [grupo étnico do Norte da
África Central, República Democrática do Congo], o ocidental pode vir a compreen-
der algo de seu próprio passado; não faz muito tempo que os europeus ocidentais
também acreditavam em feiticeiras e as destruíam quando eram descobertas.
BEATTIE, John. Introdução à Antropologia Social. São Paulo: Companhia Editora Nacional/Edusp, 1971, p. 322.

126 • capítulo 5

Sociologia_vu_PNLD15_119a148_C05.indd 126 5/27/13 5:24 PM


• A leitura deste fragmento da obra de John Beattie (1915-1990), antropólogo so-
cial irlandês, nos faz pensar sobre o aprendizado da convivência e do respeito in-
tercultural. Pesquise e apresente na turma alguns traços de outras culturas que se
aproximam da nossa. Discutam sobre os contrastes e semelhanças no modo de
viver desses povos.

Nós e os outros
A diversidade cultural diz respeito às distintas maneiras segundo as quais
sociedades e grupos sociais se organizam e se relacionam entre si e com a
natureza. Vivências em outras sociedades, leituras variadas, viagens, f ilmes
retratando diferentes costumes podem se constituir em instrumentos que
nos permitem refletir sobre o quanto somos diferentes ou iguais em relação
a outros povos e culturas. Constatada a coexistência e a convivência de dife-
rentes culturas, cabe às Ciências Sociais não apenas estudá-las e compará-las
de maneira a evidenciar as diferenças nos modos de vida, mas favorecer a
reflexão sobre a própria sociedade, seus valores e costumes.
Tantas são as culturas quantos são os povos, os grupos sociais e as etnias
existentes. Para além da diversidade de culturas, porém, as relações entre
as diferentes culturas são marcadas pela desigualdade. Os interesses e as
visões de mundo são distintos, gerando tensões no âmbito das sociedades
e certa hierarquização entre povos e nações decorrentes de disputas de
fundo político e econômico. Essa diferenciação social está explicitada,
muitas vezes, na busca por emprego, nos diferentes locais de moradia, na
necessidade de povos se deslocarem e/ou se abrigarem em acampamen-
tos. Esses são apenas exemplos de conflitos de interesses que podem impli-
ora
car a luta por um espaço físico e cultural com os quais os grupos sociais se od
ae
dit

rquiv
a/A
identif icam culturalmente. pe
Ro
ch
Fili
Em decorrência de processos históricos de dominação e migração, entre
outros, ocorrem também processos de interação cultural que implicam difu-
são e reconf iguração da cultura, traços ou manifestações culturais espe-
cíf icos. É como se sociedades distintas convivessem no interior de um mesmo
grande grupo social. O resultado da influência cumulativa e da imbricação
entre diferentes culturas pode ser identif icado no trecho a seguir.

O cidadão norte-americano desperta num leito construído segundo padrão


originário do Oriente Próximo, mas modificado na Europa Setentrional, antes de ser
transmitido à América. Sai debaixo de cobertas feitas de algodão cuja planta se tor-
nou doméstica na Índia; ou de linho ou de lã de carneiro, um e outro domesticados
no Oriente Próximo; ou de seda, cujo emprego foi descoberto na China. Todos estes
materiais foram fiados e tecidos por processos inventados no Oriente Próximo. Ao
levantar da cama faz uso dos “mocassins” que foram inventados pelos índios das
florestas do Leste dos Estados Unidos e entra no quarto de banho cujos aparelhos
são uma mistura de invenções europeias e norte-americanas, umas e outras recen-
tes. Tira o pijama, que é vestuário inventado na Índia, e lava-se com sabão, que foi
inventado pelos antigos gauleses, faz a barba, que é um rito masoquístico que pa-
rece provir dos sumerianos ou do antigo Egito.
LINTON, Ralph. Apud LARAIA, Roque. Cultura: um conceito antropológico. Rio de Janeiro: Zahar, 1988. p. 110.

A cultura e suas transformações • 127

Sociologia_vu_PNLD15_119a148_C05.indd 127 5/27/13 5:24 PM


A interação cultural gera novas formas de identidade cultural. A consciên-
cia de pertencer a determinado grupo social – seja por caracteres comuns
de gênero ou de origem étnica, seja por interesses específ icos, prof issão,
atividades realizadas, crenças e costumes semelhantes – aproxima os indiví-
duos em determinada sociedade, levando à formação de agrupamentos de
diversos tamanhos. Nesse sentido, a identidade cultural é aquela marca ca-
racterística de um grupo social que partilha um ideal, valores, costumes e
comportamentos formados ao longo da sua história.
A identidade cultural de um grupo (independentemente de seu tamanho)
é de extrema importância para seu reconhecimento social e político e assenta-
-se em ideias e representações sociais. Ao se defrontarem, os grupos sociais
podem desenvolver ideias de aceitação ou não de outros grupos, provocando
disputas. Um exemplo é o filme brasileiro Cidade de Deus, inspirado no roman-
ce de mesmo nome escrito pelo jornalista Paulo Lins e que se baseia em notí-
cias de jornais sobre a comunidade carioca que batiza as obras. O protagonista
Buscapé encontra-se em diferentes crises de identidade cultural. Por um lado,
ele é morador da Cidade de Deus, pobre e negro. Quando começa a trabalhar
no jornal, passa a conviver com pessoas brancas da classe média do Rio de Ja-
neiro. Em vários momentos do filme ele se questiona se deveria “ficar de um
lado ou de outro”, se deveria se identificar mais com um grupo ou outro.
É a partir da nossa identidade cultural que construímos a ideia de “eu”,
“nós” e “outros”. A forma como o fazemos muitas vezes constrói fronteiras
sociais ligadas à classe socioeconômica, à raça, ao gênero, ou mesmo a ou-
tros fatores como o bairro onde moramos, os programas de TV de que gos-
tamos, o tipo de roupa que preferimos, etc. Por meio destes e de muitos
outros elementos combinados, identif icamos “semelhantes” e “outros” nas
pessoas com quem compartilhamos a vida social. Algumas dessas fronteiras
sociais, aliadas a tendências etnocêntricas que reproduzimos até hoje – em-
bora tenham sido mais populares antes do século XX –, formavam as chama-
das “teorias” sociais racistas.
O2 Filmes/VideoFilmes/hank Levine Film

Protagonista do filme Cidade de


Deus, Buscapé (interpretado por
Alexandre Rodrigues) se vê em
crise de identidade depois que
começa a conviver com uma
realidade muito diferente daquela
em que cresceu.

128 • capítulo 5

Sociologia_vu_PNLD15_119a148_C05.indd 128 5/27/13 5:24 PM


No decorrer do colonialismo do século XIX, emergiram diversas “teorias”
racistas que tomaram a forma de “teorias sociais”, uma vez que os países euro-
peus precisavam do aval da ciência para justificar suas ações imperialistas na
África e na Ásia, bem como as ações pregressas, durante a colonização das Amé-
ricas, quando os europeus subjugaram indígenas e negros, forçando-os ao tra-
balho doméstico e na lavoura. Nestes casos, as teorias sociais racistas desobriga-
vam os grupos dominantes europeus de tratarem como humanos os indígenas
e negros escravizados, uma vez que não eram considerados “semelhantes”, e sim
“inferiores”. Vejamos algumas dessas “teorias”, que hoje são totalmente rechaça-
das e recusadas pelas Ciências Sociais, pois não têm validade científica alguma;
declaravam-se teorias, mas sempre foram ideologias.

Bases teóricas do racismo – século XIX

Denominação Justificativa

Arianismo Justificava a desigualdade entre os seres humanos e advertia contra o cruzamento das
Classifica uma população em “limpos raças. Um de seus teóricos foi o filósofo francês Joseph Gobineau (1816-1882), que
de sangue” e “infectos” distinguiu os semitas dos arianos, os quais seriam física, moral e culturalmente
superiores. Essa teoria foi apropriada no século XX em defesa da superioridade
germânica e induziu as experiências do Terceiro Reich, na Alemanha.

Darwinismo social Inspirados na teoria da seleção natural das espécies, do naturalista britânico Charles
Defende a sobrevivência dos mais Darwin (1809-1882), teóricos sociais buscaram aplicar a mesma ideia à sociedade
aptos humana, afirmando que só os mais capazes sobreviveriam.

Evolucionismo social Essa teoria pensava a espécie humana como única, com desenvolvimento desigual e
Trabalha com o conceito de evolução diferentes formas de organização. Para seus teóricos, a sociedade europeia tinha
da humanidade, dividindo os atingido o progresso, ponto máximo da evolução – a “civilização” –, enquanto povos
indivíduos em categorias, como “menos evoluídos” eram considerados “primitivos”. Um representante deste
selvageria, barbárie e civilização pensamento foi o filósofo inglês Herbert Spencer (1820-1903).

Eugenia Inspirada na proposta do cientista inglês Francis Galton (1822-1911), defendia a


Defende a pureza das raças seleção, pelo Estado, de jovens saudáveis e fortes, aptos para procriar seres mais
capazes. Acreditando ser possível a “purificação” da raça, essa teoria chegou a propor a
esterilização de doentes, criminosos, judeus e ciganos. Essas ideias inspiraram as
terríveis experiências pseudocientíficas do Terceiro Reich na Alemanha.

Essas correntes de pensamento desenvolvidas no século XIX tiveram reper-


cussão social, com desdobramentos políticos entre as nações, no século XX.
Em diversos momentos, a adesão dos brancos a tais ideias dif icultou a acei-
tação da diversidade étnica e cultural, ratif icando a ideia de que o outro
(não branco) é ameaçador, estranho, estrangeiro, diferente.
As descobertas dos horrores provocados durante a Segunda Guerra
Mundial (1939-1945) – com os campos de concentração e a eliminação de
judeus, ciganos e doentes – não foram suf icientes para derrotar o precon-
ceito e o racismo. Na Europa, sobretudo nos anos 1980, com o aumento da
imigração vinda das ex-colônias, reemergiram nacionalismos de caráter
conservador, fundados no racismo, na intolerância e na xenofobia. Quan- hh
xenofobia: nome dado ao senti-
do a sensação de pertencimento (o sentimento coletivo de pertencer a mento de ódio ou aversão ao que
uma nação, a um grupo social, partilhar um sistema de valores, experiên- é estrangeiro.
cias, tradições e a mesma língua) se torna exacerbada, muitas formas de
violência vêm à tona.

A cultura e suas transformações • 129

Sociologia_vu_PNLD15_119a148_C05.indd 129 5/27/13 5:24 PM


No Brasil, o período de escravidão também era embasado nestas “teorias”.
Na época, diversas fontes supostamente “científicas” defendiam que os negros
eram “naturalmente” mais fortes do que os brancos e, portanto, “forjados” pa-
ra o trabalho braçal. As mesmas “teorias” defendiam que eles não seriam hu-
manos, mas uma sub-raça, e por este motivo não teriam direitos como os bran-
cos. Embora a abolição da escravidão no Brasil tenha acontecido em 1888,
políticas racistas continuaram a ser colocadas em prática pelo Estado. Um
exemplo de política racista foram os acordos de imigração, feitos com países
europeus para trazer imigrantes e “branquear” a população. Com a força de
trabalho semiescrava branca dos imigrantes, os proprietários de terra não pre-
cisavam pagar salários aos seus ex-escravos, coisa que eles se recusavam a fazer,
podendo pagar salários àqueles que eles julgavam dignos disso – seus “seme-
lhantes” brancos. Os escravos libertos ficaram à margem da sociedade, e os
imigrantes brancos recém-chegados tinham mais direitos sociais que eles, po-
dendo inclusive comprar terras quando acumulassem algum dinheiro, coisa
que era vetada socialmente aos negros. Ou seja, os proprietários de terra recu-
savam-se a vendê-las a negros, priorizando os imigrantes europeus brancos.
Essas “teorias” desempenharam o papel de ideologias, que têm, entre
suas f inalidades políticas e econômicas, a dominação, o controle e a subor-
dinação de indivíduos e grupos sociais.

Ideologia e cultura
Muitas manifestações culturais são expressões

Acervo Iconographia/Reminiscências
da ideologia, um conceito importante e polêmico.
Ele expressa um fenômeno que ocorre no plano das
ideias e pensamentos sobre a realidade material.
A palavra ideologia tem muitos sentidos e foi
criada, em 1801, pelo filósofo francês Destutt de
Tracy (1754-1836), que a empregou como ciência das
ideias (fatos da consciência). Ideologia também pode
designar uma doutrina, um conjunto de ideias que
influencia grupos sociais, legitimando formas de
ação: doutrinas econômicas, políticas, filosóficas, etc.
Em meados do século XIX, Marx e Engels deram
ao termo sua concepção política. Presente no dia a
dia, a ideologia justifica as posições que assumimos e
nos dá sua visão das relações sociais. Ela se manifesta
nas representações sociais, em palavras, sentimentos
e condutas que se cristalizam nas crenças, nas reli-
giões, na filosofia, no direito, na política, etc.
Ao instaurar essas crenças, a ideologia sustenta a
dominação social, estudada no capítulo 1, porque ela
explica o fato de a sociedade ser de um modo e não
de outro, valendo-se de justificativas convenientes
aos que ocupam postos de mando. Com isso, ela faci-
Cartaz de propaganda oficial do governo militar brasileiro,
lita a aceitação dessa realidade desigual, legitima de-
veiculado em 1976. A ideologia nos dá a visão que as classes
terminadas posições políticas e justifica práticas so- dominantes querem que tenhamos, para ocultar ou dissimular os
ciais que reproduzem as relações de dominação. fatos da realidade.

130 • capítulo 5

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Mesmo nos dias de hoje, minorias populacionais no mundo todo enfren-
tam a discriminação e os ataques de grupos racistas, oriundos da não aceita-
ção da diferença e de uma visão deturpada de superioridade cultural que
desrespeita o outro. No Brasil, apesar da linha de pensamento sociológico
que, nos anos 1930, cunhou o mito de existir uma “democracia racial” –
uma sociedade multirracial e livre de preconceitos –, indígenas e negros
ainda são alvos de discriminação social, bem como os nordestinos que mi-
graram devido ao contexto econômico desfavorável em seus estados de ori-
gem, especialmente na segunda metade do século XX.
hulton-Deutsch Collection/Corbis/Latinstock

A descoberta dos horrores provocados nos


campos de concentração, por exemplo, não
foi suficiente para derrotar o preconceito e o
racismo. Na foto colorizada ao lado, Hitler
durante comício em Dortmund, Alemanha,
na década de 1930.

Reprodução/Fundação Biblioteca Nacional, Rio de Janeiro, RJ.


Transporte de um comboio de negros,
aquarela de Johann Moritz Rugendas que
retrata um comboio de escravos durante
parada em um rancho no interior do Brasil
do século XIX. O viés racista da sociedade
brasileira nos períodos colonial e imperial
deixou resquícios em formas de
discriminação racial vistas na atualidade.

No f inal do século XX, as questões étnico-religiosas e os conflitos cultu-


rais ganharam espaço novamente na esfera pública. O antropólogo estadu-
nidense Clifford Geertz (1926-2006) observou como algumas identif icações
do tipo “sou indiano” ou “sou xiita” se difundiram em várias partes do mun-
do. Como cada indivíduo pertencente a um grupo com cultura própria tem
sua concepção desse grupo e do sentimento de pertencimento a ele, pode-
-se dizer que essa construção mental depende mais de fatores coletivos gru-
pais do que somente do indivíduo. Dessa forma, uma pessoa geralmente se
identif ica não só por seu nome e sobrenome, mas também por meio de
marcadores coletivos/sociais, como nacionalidade (brasileiro), prof issão
(socióloga), fenótipo ou aparência física (negro, ruiva), etc. Nossa associa-
ção com estes marcadores também acontece pelo contexto em que nos
identif icamos. Se estamos num grupo apenas de brasileiros, muito provavel-
mente não nos identif icaremos com esse marcador.

A cultura e suas transformações • 131

Sociologia_vu_PNLD15_119a148_C05.indd 131 5/27/13 5:24 PM


En con tr o c om c i E n t i s tas s oc i ai s

A identidade cultural também tem um propósito político, muitas vezes. No caso


dos países que foram colonizados, como o Brasil, a criação de uma identidade cultu-
ral nacional teve e tem um papel fundamental para que o Estado se f irme após a in-
dependência. Em muitos países da América Latina, a identidade cultural dos povos
formou o Estado. No Brasil, num processo “de cima para baixo”, o Estado se instituiu
antes que houvesse uma identidade nacional popular. No início do século XX, mui-
tos sociólogos, intelectuais e pensadores brasileiros dedicaram-se a investigar a cul-
tura brasileira, perguntando-se o que teríamos de específ ico em nossa identidade, o
que nos tornaria brasileiros. Também foram feitos esforços em vários governos (co-
mo no Estado Novo de Getúlio Vargas) para instaurar símbolos de uma cultura na-
cional. Uma das obras clássicas da Antropologia brasileira, O povo brasileiro (1995),
de Darcy Ribeiro (1922-1997), investiga a trajetória de nossa identidade cultural
nacional. Leia um trecho da conclusão desta obra, abaixo, e depois responda às
questões no caderno.

Nós, brasileiros, [...] somos um povo em ser, impedido de sê-lo. Um povo mesti-
ço na carne e no espírito, já que aqui a mestiçagem jamais foi crime ou pecado.
Nela fomos feitos e ainda continuamos nos fazendo. Essa massa de nativos oriun-
dos da mestiçagem viveu por séculos sem consciência de si, afundada na ninguen-
dade. Assim foi até se definir como uma nova identidade étnico-nacional, a de bra-
sileiros. Um povo, até hoje, em ser, na dura busca de seu destino. [...] É de assinalar
que, apesar de feitos pela fusão de matrizes tão diferenciadas, os brasileiros são,
hoje, um dos povos mais homogêneos linguística e culturalmente e também um
dos mais integrados socialmente da Terra. Falam uma mesma língua, sem dialetos.
Não abrigam nenhum contingente reivindicativo de autonomia, nem se apegam a
nenhum passado. Estamos abertos é para o futuro.
RIBEIRO, Darcy. O povo brasileiro. São Paulo: Companhia das Letras, 2007. p. 410. (Cia. de Bolso)

1. O Brasil é um país culturalmente muito diverso. Você consegue dar exemplos de


diversidade cultural entre bairros, cidades, regiões do país? Que costumes são si-
milares e diferentes entre esses lugares que você conhece? (Se você nunca tiver
saído da sua cidade, pense nas pessoas que já conheceu que vinham de outros
locais, ou nas coisas que vê na televisão, no cinema, nos jornais e livros.)
2. Que características identificam você como brasileiro/a? Será que estas caracterís-
ticas são comuns a todos os brasileiros e brasileiras?
3. Segundo Darcy Ribeiro, os esforços para construir no Brasil uma identidade cul-
tural nacional teriam dado certo? Qual a sua opinião, pensando na realidade
brasileira dos dias de hoje?

Diversidade cultural na sociedade brasileira


O Brasil é uma nação pluriétnica e multicultural, composta por diversas
formas de organização social em diferentes grupos. Podemos observar essa
diversidade e suas variações, por exemplo, entre os proprietários de terras,
os dirigentes e os representantes políticos, os moradores das favelas nas

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grandes cidades, a população jovem que cursa o Ensino Médio em escolas
públicas. Neste país com indivíduos tão diferentes entre si – pela cor da pe-
le, pela classe social a que se integram, pela região onde moram, pela gera-
ção a que pertencem, etc. – existem um racismo difuso e uma discriminação
velada, porém efetivos. Esses sentimentos perpassam as relações sociais, seja
no trabalho, seja na escola, e se expressam na intolerância cotidiana e na
não aceitação da diferença, seja ela de cor de pele, de comportamento, de
costumes ou de aparência.
Desconsiderar a diversidade cultural, muitas vezes, nos impede de perce-
ber que a desigualdade social e a discriminação restringem o acesso aos bens
materiais e culturais por amplos setores da população. Desencadeadas pelo
preconceito e pela concentração de renda (e de poder), novas formas de
exclusão social derivam hoje do desemprego, do trabalho precário, das exi-
gências da tecnologia informacional, próprias do moderno processo de pro-
dução capitalista.

Lula Marques/Folha Imagem

Na foto ao lado, indígenas da


Reserva Raposa Serra do Sol,
em Roraima, protestam em
frente ao Congresso Nacional
(Brasília), em 2008, pela
demarcação de suas terras.

Devido à desigualdade social marcante no Brasil, surgem diferentes con-


cepções e representações da realidade nacional. A cultura, assim como os
códigos de conduta e de sobrevivência entre as populações marginalizadas
– moradores de rua, de comunidades de baixa renda, desempregados –,
expressam modos de vida muito particulares. O caso das comunidades in-
dígenas brasileiras é signif icativo para pensarmos na marginalização de
certas culturas.
Durante muitos séculos, os indígenas não foram respeitados em seus costu-
mes e no seu direito ao uso das terras. Os povos indígenas que sobreviveram ao
genocídio causado pela colonização foram limitados a espaços onde não con-
seguem viver sua cultura de forma plena. A falta de respeito à sua cultura tam-
bém faz com que empresas multinacionais e fazendeiros se aproveitem ilegal-
mente de suas terras, muitas vezes acabando com a sustentabilidade dos
recursos naturais que as tribos utilizariam como forma de subsistência.
A cultura e suas transformações • 133

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Renato Soares/Pulsar Imagens

A Constituição brasileira de 1988


garante a demarcação das terras in-
dígenas com o objetivo de reverter
algumas injustiças e proporcionar
condições de subsistência para o
modo de vida de suas populações,
embora o conflito com fazendeiros e
representantes do agronegócio seja
constante. Ainda que muitos de seus
traços culturais estejam presentes
em nosso cotidiano e seja signif icati-
va a sua contribuição para o desen-
volvimento do país, a participação
desses povos em nossa história conti-
nua pouco valorizada pela maioria
das pessoas.
Um processo semelhante ocor-
reu com os negros escravizados, cuja
Índios Kuikuro em festa do chegada ao Brasil se relaciona aos
Kuarup na aldeia Afukuri, no processos de escravização e deportação de pessoas da África para a América.
Parque Indígena do Xingu, em Na visão do antropólogo Carlos Brandão, esse grupo étnico também foi
2012.
“educado” pelos europeus, ou seja, tornado “igual” para melhor servir aos
interesses dos grandes proprietários de terra. Aos africanos trazidos e a seus
descendentes foram impostas a língua e a religião dos colonizadores para
que pudessem entender as ordens recebidas e obedecer.
Muitas vezes as culturas do branco, ou seja, dos europeus e seus descen-
dentes foram (e são) julgadas superiores às outras, o que resultou no passa-
do e no presente em diversas formas de resistência à dominação cultural.
Um episódio histórico de 1835, na Bahia, ilustra uma resistência, a dos
Malês, escravos africanos de religião muçulmana, dispostos a abolir a domi-
nação dos senhores brancos. A revolta foi duramente reprimida pelas for-
ças of iciais.
A importância dos africanos e seus descendentes para a história do Bra-
sil, como alertam diversos estudos culturais, precisa ser reconhecida e valo-
rizada. Os registros de sua trajetória, de sua cultura e de seu trabalho – fun-
damentais para nossa economia – estão muito aquém da riqueza e da
diversidade de sua participação. Visando reparar essa situação e expor o
preconceito existente na nossa sociedade, alguns sociólogos se dedicaram
ao tema, como foi o caso de Florestan Fernandes, em A integração do negro na
sociedade de classes (1964), e de Octavio Ianni, com As metamorfoses do escravo
(1962) e Raças e classes sociais no Brasil (1966). Esses estudos mostram que o
preconceito e o racismo têm raízes em condições sociais históricas.
Os direitos conquistados na legislação por esses grupos não têm sido
suf icientes para constituir uma sociedade de justiça e democracia. Basta
lembrar que a discriminação é considerada crime desde a Constituição de
1988, mas nem por isso ela deixou de existir. Em seus artigos 215 e 216,
por exemplo, a Constituição discorre sobre a possibilidade de regulariza-
ção de terras para as comunidades remanescentes de quilombos, reco-
nhecendo a propriedade def initiva sobre elas, desde que ocupadas por

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descendentes de escravos. Porém, como no caso das terras indígenas,
muitos processos de regularização demoram anos para serem concluídos,
devido à pressão de grupos econômicos.
Ainda que indivíduos e famílias pertencentes aos grupos denomina-
dos minorias estejam conseguindo galgar posições valorizadas social e
economicamente pela conquista de um emprego formal ou de melhores
condições de vida, superando preconceitos, barreiras econômicas e cultu-
rais, os dados estatísticos brasileiros revelam a persistência da desigualda-
de social racial.
O racismo é uma construção histórica que resiste no campo simbólico,
ou seja, nas ideias que as pessoas têm sobre “ser negro” e “ser branco”. Os
estudos sobre esse tema sugerem que o combate ao preconceito precisa
ser enfrentado pelo Estado por meio da educação e de políticas af irmati-
vas, com o objetivo de desenvolver a cidadania plena, isto é, com todos os
direitos sociais e políticos assegurados, como veremos no capítulo 7.

a construção de uma identidade nacional está ligada à ideia de


pertencimento a um território, a um país ou a um povo. assim, as diferenças
culturais estão presentes na formação da sociedade.

Há, no mundo atual, intenso imbricamento cultural entre as realidades


locais e a global. O diverso e o diferente se ampliam para além das questões
étnico-raciais. As demais culturas estrangeiras, especialmente as europeias e
a estadunidense, influenciam na constante transformação da cultura brasi-
leira, seja pela presença do imigrante em nossa história, seja pelo desen-
volvimento do mercado de consumo – moda, tecnologia, artes,
conhecimentos variados – e dos meios de comunicação de massa.

Alex Almeida/Folhapress

Acima, descendentes de japoneses no monumento em homenagem ao Centenário da Imigração Japonesa, concebido pela artista plástica
Tomie Ohtake e instalado no Aeroporto Internacional de Guarulhos (SP). Foto de 2008.

A cultura e suas transformações • 135

Sociologia_vu_PNLD15_119a148_C05.indd 135 5/27/13 5:24 PM


dEbatE

A cultura brasileira deve tributo aos primeiros habitantes das nossas terras e, no
entanto, até hoje há dif iculdades para garantir aos povos indígenas os direitos que
lhes foram assegurados pela Constituição brasileira de 1988. A matéria jornalística
abaixo é um convite a essa reflexão. Depois da leitura, em equipe, discutam a ques-
tão colocada.
[...] na Amazônia, a Funai resgatou em agosto [de 2007] dois índios isolados
no meio de uma área tomada pela extração ilegal de madeira, na região mais
violenta do Brasil [Colniza, em Mato Grosso]. Falantes da língua tupi kawahib,
chamados de piripkuras, são os últimos sobreviventes de massacres perpetra-
dos ao longo dos últimos 20 anos. Nunca haviam feito contato tão próximo com
sertanistas da fundação [Funai]. Viviam escondidos, à espreita do movimento de
madeireiros [...]. Ao contrário do resto de seu povo, os índios, que atendem pe-
los nomes de Tucan, com cerca de 50 anos, e Mande-I, com mais ou menos 35,
conseguiram desenvolver estratégias de sobrevivência extremamente sofistica-
das para uma vida sem contato em uma floresta.
MILANEZ, Felipe; ALCâNTARA, Araquém. Contato na selva. Especial de CartaCapital, 31 out. 2007. p. 10.

• Por meio desse texto f ica claro que, muito além do direito de expressão da pró-
pria cultura, os indígenas estão sendo privados de outros direitos básicos, previs-
tos por nossa Constituição. Pensando sobre isso, discorra em algumas linhas sobre
a integração dos povos indígenas na construção do Brasil.

Palê Zuppani/Pulsar Imagens hh


As dinâmicas culturais
Ao observarmos nosso país, podemos nos perguntar: de onde vêm nosso
modo de vida, nossos hábitos, os objetos do dia a dia? Por que o Brasil se
apresenta tão diverso regionalmente?
A ocupação das terras pelos colonizadores, o uso de mão de obra africana
e indígena e a vinda de imigrantes a partir do século XIX trouxeram contri-
buições que fizeram a diversidade cultural do país. Com os imigrantes euro-
peus e asiáticos, entre outros, vieram costumes, tradições, manifestações artís-
ticas, culinárias, crenças e ritos religiosos de suas culturas de origem, além de
conhecimentos próprios de suas ocupações profissionais, como agricultores,
marceneiros, ourives, comerciantes, artesãos, artistas, construtores, operários
que eram. Muitos desses imigrantes também contribuíram com a própria or-
ganização dos trabalhadores e de seus movimentos associativos, quando o Bra-
sil, antes um país de base econômica predominantemente rural, transitava
para uma economia urbano-industrial.

o convívio de povos tão diferentes em regiões diversas é responsável pela


variedade de características culturais no cenário nacional.
Acima, em Juazeiro, na Bahia,
vaqueiro vestindo roupa As migrações internas propiciaram não apenas crescimento econômico
tradicional: o gibão. Foto de como trocas e o aprendizado intercultural. Esses fluxos de população ocor-
2008. Os diferentes trajes reram em diversos momentos e por razões distintas, como evasão das regiões
usados, conforme as regiões do
país, revelam traços culturais
semiáridas devido às secas, modernização da agricultura, criação e transporte
específicos de determinados de gado, expansão da fronteira agrícola, exploração dos recursos minerais,
grupos sociais. entre outras atividades.

136 • capítulo 5

Sociologia_vu_PNLD15_119a148_C05.indd 136 5/27/13 5:24 PM


As migrações, porém, não ocorreram sem conflitos. Muitas foram as dis-
putas e as dificuldades por que passaram os migrantes: enfrentamentos com
o poder local, a luta pela terra, a procura por trabalho, os problemas de adap-
tação às regiões receptoras, a exploração do trabalho. Os nordestinos que fo-
ram para São Paulo e para os estados da Amazônia; os gaúchos e catarinenses
instalados no sudoeste do Paraná; os sulistas nos estados de Rondônia e Mato
Grosso; os paulistas e mineiros no norte do Paraná e no Rio de Janeiro; são
exemplos que reconfiguram a diversidade dos costumes e das tradições.
Essa dinâmica cultural é resultado do movimento da sociedade e nela
interfere. Ela leva a culinária, os valores, as tradições artísticas, os modos de
vida típicos de uma região para outra. Por exemplo, o pão de queijo, o chur-
rasco, a tapioca, a polenta, a pizza, o vatapá, a feijoada, o quibe e outros qui-
tutes são elementos portadores de identidade cultural.
O mesmo intercâmbio cultural ocorre com manifes-

Pedro Carrilho/Folhapress
tações como o bumba meu boi, a Festa do Divino, o fan-
dango, entre outras, quando levadas de seus locais de
origem para outras regiões. Quando se pensa em cultura,
é preciso considerar as influências mútuas e de como
elas coexistem e subsistem.
A cultura e sua relação com as classes sociais é um te-
ma recorrente nas Ciências Sociais, gerando muitos e ca-
lorosos debates, como estudado no capítulo 1. Para a psi-
cóloga brasileira Ecléa Bosi, a cultura formada por
expressões típicas e espontâneas vindas do povo articula
uma concepção do mundo que é diferente das visões da
elite, a chamada cultura erudita. A f ilósofa Marilena
Chaui (1941-) pondera que, quando determinada prática
cultural é def inida como “popular”, ela assimila as divi-
sões da sociedade em classes e tende a ocultar as ideias
dominantes.
Não é possível definir manifestações culturais de mo-
do fragmentado, pois os diversos grupos coexistem e ex-
pressam sua visão de mundo e representações sociais com
base também nas relações estabelecidas com os demais. A
crítica social da literatura de cordel no Nordeste brasileiro
é um exemplo disso. Outro exemplo se refere à capoeira,
criada pelos africanos escravizados no Brasil colonial. Co-
mo uma dança/luta, ela está diretamente relacionada à Literatura de cordel no Mercado de Artesanato Paraibano,
oposição estabelecida entre escravos e seus senhores. em João Pessoa (PB). Foto de 2008.

Mudanças culturais na sociedade global


Como produtores e consumidores de cultura, os grupos socioculturais se
diferenciam e podem reproduzir simbolicamente as relações de poder vigen-
tes, e até contestar determinadas formas culturais no interior de sua comuni-
dade e da sociedade. De que modo distinguimos uma comunidade de uma
sociedade, ainda mais quando as relações entre as realidades locais e a global
tendem a ser mais intensas e interinfluentes?

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Comunidade e sociedade
O sociólogo alemão Ferdinand Tönnies foi o pri- Por ser um representante da Sociologia clássica,
meiro a empregar o termo comunidade, contrapon- Tönnies conceitua sociedade contrapondo-a ao con-
do-o ao conceito de sociedade, dentro da tradição ceito de comunidade. Assim, ele classifica sociedade
sociológica de classificar os fenômenos sociais. como um fenômeno em que há relações contratuais,
Segundo Tönnies, comunidade refere-se a uma regidas por interesses econômicos, culturais, políticos,
coletividade na qual é alto o grau de coesão com base tomando por modelo a sociedade industrial, da qual
em valores, interesses, normas e costumes partilhados as fábricas, as organizações e o Estado moderno são as
pelos indivíduos e grupos que a integram. Em termos principais expressões.
físico-territoriais, comunidade corresponde a um A análise de Tönnies exclui, porém, outros mode-
agrupamento cujos laços de vizinhança, consanguini- los de sociedade, sendo, portanto, eurocêntrica. Ela
dade e/ou étnicos criam condições de afinidades en- nos serve aqui para compreender o contexto em que
tre os membros. vivemos hoje, e não para generalizações.

O desenvolvimento da sociedade moderna mostrou que as relações so-


ciais tendem a mesclar o que é comum (partilhado em pequenos grupos)
com o que se apresenta na extensão da sociedade. Comunidade também
pode se referir, genérica e idealmente, a um modelo de vida coletiva, não
necessariamente delimitado no espaço geográf ico (caso das comunidades
que não estão próximas, mas se apoiam), que apresentam interesses comuns
e ligações afetivas.
O processo de globalização, visto no capítulo 1, no que se refere às diver-
sas culturas, apresenta uma ambivalência: por um lado, pode representar
algum risco para as identidades culturais de variados grupos sociais locais
quando em contato ou sob o domínio de uma outra cultura (certa tendên-
cia de homogeneização); por outro, a diversidade tende a se reaf irmar tam-
bém, seja pela via de resistência, seja pelo uso de suas tecnologias (como a
internet) para a difusão de suas manifestações.
De fato, com a globalização emergiu o debate sobre “cultura global”.
Alguns autores consideram que a globalização levaria à homogeneização
cultural. No entanto, as relações em sociedade são mais complexas. Não
podemos af irmar que há uma cultura global de modo def initivo nem que a
globalização padronizou os povos culturalmente, já que estes se apropriam
da “cultura global” de várias formas.
Na contramão das mudanças acarretadas pela globalização, alguns gru-
pos sociais tendem a criar resistências à homogeneização da cultura. A ques-
tão da identidade desponta como um elemento-chave nesse processo de
af irmação. As minorias sociais alimentam a ideia de identidade para buscar
reconhecimento e inserção social quando grandes transformações as atin-
gem e menosprezam seus modos de vida ou suas “comunidades”.
As minorias sociais não são def inidas pela questão numérica, mas pelas
dif iculdades impostas a esses grupos no acesso às instâncias de poder e pela
situação discriminatória e excludente em que se encontram. Por exemplo,
o número de indivíduos que se consideram negros e pardos no Brasil, se-
gundo o IBGE, corresponde proporcionalmente à população que se diz
branca. Entretanto, se comparados aos brancos, apresentam reduzida pre-

138 • capítulo 5

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sença em funções socialmente mais valorizadas e com melhores salários. Co-
locadas em situações como essas, sobretudo por fatores históricos, tais mino-
rias enfrentam dif iculdades em manter ou melhorar sua condição
socioeconômica e em expressar suas tradições culturais.
Muitas manifestações culturais alternativas são consideradas contra-
-hegemônicas, por serem reações à cultura dominante e à sua visão do
mundo. Hegemonia cultural é o conceito utilizado pelo cientista político
italiano Antonio Gramsci para designar a dominação de uma classe social
sobre outra fundada na ideologia e, portanto, no convencimento (e não
na coerção).

Resistência e culturas alternativas


Muitas vezes, grupos considerados minorias sociais contestador, que procura mostrar a cidade em seus
propõem culturas alternativas ou formas diferenciadas diversos aspectos. Os jovens que o integram consi-
de expressão, criando processos de resistência e afirma- deram-no uma filosofia de vida que difunde a “voz da
ção. Alguns exemplos desse tipo de manifestação são o periferia”. Mediante suas narrativas, propõem a revi-
movimento hip-hop e o funk, entre outros. talização do espaço urbano com práticas que propi-
O funk carioca surgiu na década de 1970 com os
ciam a criação de grupos artísticos e políticos. O hip-
denominados bailes “da pesada”, festas populares com
-hop tem várias manifestações em artes distintas,
potentes equipamentos de som. Seu impacto decorre
como o grafite, o rap ou a dança break, embora não
do fato de reunirem milhares de jovens para encon-
tros musicais e dançantes. Os grupos de “funkeiros”, se limite a elas.
antes concentrados no Rio de Janeiro, difundiram-se Ao contestarem as organizações dominantes e os
para outras regiões do país. mecanismos de dominação cultural, esses movimen-
Hip-hop é um movimento social com traços de tos constroem identidades coletivas baseadas em rei-
cultura de rua, definição que enfatiza seu caráter vindicações, aspirações e desejos comuns.
Christophe Simon/Agência France-Presse

thiago Domingos/Futura Press

DJ toca em baile funk da comunidade Rocinha, na capital do Rio Apresentação de hip-hop em galeria no centro de São Paulo (SP),
de Janeiro, em março de 2012. em 2009.

A cultura e suas transformações • 139

Sociologia_vu_PNLD15_119a148_C05.indd 139 5/27/13 5:24 PM


Indústria cultural e práticas sociais
Nos dias de hoje, as culturas são influenciadas tanto pelos costumes locais
como por comportamentos que, em certa medida, tendem a uniformizar as
expressões culturais pelo mundo. Contudo, apesar de sofrerem modificações,
as diferentes culturas locais não desaparecem. A cultura é um processo social
refeito e renovado continuamente. Analisemos como isso ocorre.
hh
hábitos culturais: são manifesta- Os hábitos culturais são influenciados por modismos, imposições e estí-
ções e costumes que dão significado às mulos ao consumo, que é um comportamento social ligado ao estilo de vida
práticas sociais de grupos da popula- na sociedade contemporânea e envolve aquisição, troca ou obtenção de ser-
ção. Uma parte desses hábitos se for- viços e bens materiais ou simbólicos, supondo seu uso, gozo e fruição.
ma pela maneira como os indivíduos
O consumo na atualidade é proporcionado por um sistema flexível de
utilizam seu tempo, no modo de con-
viver e agregar prazer àquilo que fa-
produção e de ampla circulação de mercadorias e tem provocado mudanças
zem e nas relações que estabelecem. nos hábitos culturais e nos espaços de comercialização. Desse modo, nos free
shops, shopping centers, parques temáticos, nas redes de hipermercados, cida-
des turísticas, no mercado virtual on-line, o consumo ocorre sem fronteiras
para a origem das mercadorias e o tempo de funcionamento é liberado ao
ritmo da acumulação capitalista.
Certos gostos e hábitos são associados pela publicidade a determinadas
faixas etárias; outros, aos mundos “masculino” ou “feminino”; alguns se
constituem como preferências prof issionais; há ainda a diferenciação decor-
rente da renda e das classes sociais. Isso mostra que o consumo é diferencia-
do e os produtos e serviços são destinados a públicos determinados, segundo
o que a cultura hegemonicamente atribui a cada grupo social. Segundo o
sociólogo francês Pierre Bourdieu, em nossos tempos a posição econômica
não necessariamente garante a distinção social. Sendo assim, muitas vezes
recorremos ao gosto, associado à classe socioeconômica, como forma de nos
distinguirmos de uns e nos identif icarmos com outros grupos.
A formação de hábitos e práticas culturais não é igual para todos os seg-
mentos sociais, sendo diferenciada culturalmente (e não biologicamente) por
fatores como idade, etnia, sexo, ocupação prof issional, pertencimento a as-
sociações, organizações, agrupamentos def inidos e outros. A variedade de
perf is pode ser observada quando nos referimos, por exemplo, ao segmento
social de “jovens estudantes da escola pública brasileira”.
Os hábitos culturais recebem influência dos meios de comunicação de
massa em sua formação e transformação, devido à sua possibilidade de co-
municação com milhões de pessoas para informar, entreter e educar. A tele-
visão, o rádio, o jornal impresso, o cinema, etc. são considerados veículos de
ampla difusão porque atingem a massa, ou seja, uma quantidade indetermi-
nada de indivíduos que, de maneira anônima e difusa no espaço-tempo,
congrega-se numa mesma atividade e/ou interesse. Quando se refere à pro-
dução industrial e/ou ao consumo, o termo faz referência a algo que busca
atingir a maioria da população. Esse potencial quantitativo também está nas
expressões “massa revolucionária” ou “democracia de massas”.
Normalmente, no Brasil, os conteúdos veiculados pelos meios de comu-
nicação de massa são def inidos pelas emissoras, privadas ou estatais, e repro-
duzem a ideologia e os interesses dos grupos que os administram. O rádio,
hoje em dia, é um meio que se conjuga a outras atividades, como ao trajeto
de automóvel entre a residência e o trabalho, e é muito ouvido por aqueles
140 • capítulo 5

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que exercem atividades solitárias e isoladas. A televisão, por sua vez, é cons-
tante em moradias, lanchonetes e até nas salas de espera de consultórios
médicos, funcionando também como mediadora de transações comerciais
de objetos e serviços. Já o cinema, um hábito cultural ainda restrito a alguns
segmentos sociais, tem se popularizado por meio dos aparelhos de DVD, das
locadoras de f ilmes e de sua exibição em canais de TV.

Zanone Fraissat/Folha Imagem


Os hábitos culturais são
influenciados pelos meios de
comunicação de massa. Ao
lado, consumidores em loja
de eletrodomésticos
aproveitam para assistir à
televisão. Foto de 2009.

Esses meios de comunicação e outros mais são representativos da indústria


cultural, um termo empregado pela primeira vez, em 1947, pelos sociólogos
alemães Max Horkheimer e Theodor Adorno, para dizer que a produção ar-
tística e cultural veiculada pelos meios de comunicação de massa insufla o
consumo por ser transformada em mercadoria. Os produtos culturais – publi-
cações impressas, DVDs e filmes, obras de arte, composições musicais, etc. – se
assemelham assim, de certa forma, aos produtos industriais.
A sociedade contemporânea institui uma cultura do lazer padronizada
pelos meios de comunicação de massa. Essa aproximação da cultura com o
produto industrial estimula o público a esperar por próximos lançamentos
– de músicas, f ilmes, equipamentos de som e imagem – que se tornam bens
rapidamente obsoletos. Logo, a cultura tem, na atualidade, sua face mais
visível na forma de bens e serviços e, muitas vezes, nem percebemos sua di-
mensão de uma produção acumulada, transmitida, herdada socialmente,
como nos alerta o texto do crítico literário Alfredo Bosi (1936-):

[...] ficamos irritados quando falta luz. Aí telefonamos para reclamar que está
faltando luz. Parece que é um dever que os outros nos forneçam esse milagre. São
realmente poucos os que podem entender todo o mecanismo que vem desde as
águas da represa até os fios da nossa casa e produz para nós o fenômeno da luz.
Digo que todos esses exemplos ilustram a ideia de que ter cultura é possuir uma
alta soma de objetos da civilização. É uma ideia (ou uma atitude) que nos barbariza;
no fundo, somos bárbaros no sentido de que usamos os bens, mas não consegui-
mos pensá-los. No entanto, cultura é vida pensada. [...] Em vez de tratar a cultura
como uma soma de coisas desfrutáveis, coisas de consumo, deveríamos pensar a
cultura como o fruto de um trabalho. Deslocar a ideia de mercadoria a ser exibida
para a ideia de trabalho a ser empreendido. Acho que é essa a ideia-chave, o projeto
que eu diria recuperador.
BOSI, Alfredo. Cultura como tradição. In: Cultura brasileira: tradição/contradição. Rio de Janeiro: Jorge Zahar/Funarte, 1987. p. 38.

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O pensamento expresso por Bosi nos mostra que a cultura é fruto do
empenho acumulado de diversas gerações e de vários grupos sociais que dela
participam de diferentes formas – produzem, compartilham e reproduzem
cultura, em seus aspectos materiais e imateriais. O autor nos diz mais: ele nos
convida a pensar a cultura como trabalho de muitas gerações.

A cultura que se mundializa


A produção de bens de consumo se tornou flexível, como estudamos no
capítulo 4, quando foram introduzidos, na década de 1970, processos de
automação e inovações na organização do trabalho, responsáveis pela redu-
ção do tempo de produção e do tempo de consumo. Essas transformações
levam à mundialização da cultura, analisada pelo sociólogo brasileiro Rena-
to Ortiz (1947-) como um acontecimento histórico, no qual as formações
nacionais rompem com as realidades locais e as tradições regionais. Nesse
processo chamado de desenraizamento cultural, algumas referências socio-
culturais são retiradas dos indivíduos.
A cultura que ganha ares de fenômeno mundializado desestabiliza a tra-
dição, destituindo-a de seu papel legitimador das práticas e concepções de
mundo tradicionais. A cultura se torna flexível.
Para designar esse grande processo sociocultural que não é homogêneo
nem se explica territorialmente, mas impõe uma nova lógica de tempo e
espaço, o sociólogo brasileiro Octavio Ianni emprega a expressão “moderni-
dade-mundo”, que é a sociedade global, o world system, onde as relações dos
universos micro e macrossocial, entre as dimensões local e global, são inten-
sas, mútuas e extensivas.

Na transição do século XX para o XXI, uma cultura mundializada, sob efeito


das comunicações e da informatização, atravessa as fronteiras nacionais. o
consumo passa a ser seu traço dominante.
Karina tengan/Acervo da fotógrafa

Consumidores fazem
compras de Natal em
shopping de Belo
Horizonte, Minas Gerais.
Foto de 2011.

142 • capítulo 5

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Determinadas práticas culturais – como o esporte, a moda, os estilos de
penteados, as compras, os jogos, os rituais sociais – nivelam a cultura dos
setores sociais, sobrepondo hierarquias sociais e extrapolando as fronteiras
físicas e sociais, avalia o crítico literário inglês Steven Connor (1955-). Isso
signif ica que as esferas do cultural, do social e do econômico deixam de ser
distinguíveis umas das outras. O rock é um exemplo de fenômeno de influên-
cia global que unif ica gostos, mas se combina com uma pluralidade de esti-
los, de mídias e de identidades étnicas espalhadas pelo mundo.

Album/Latinstock
Centenas de fãs assistem
a show de Elvis Presley,
em 1957.

A nova conf iguração da cultura transnacionalizada, por ultrapassar fron-


teiras, aproxima grupos distantes geograf icamente, mas também aprofunda
distâncias sociais pela desigualdade no acesso a bens materiais e simbólicos.
São múltiplos os processos socioculturais que atravessam territórios e ocea-
nos, mesclando culturas. Assim, modos de ser, agir, sentir, pensar e imaginar
já não se encontram distantes, provocando um “etnocentrismo às avessas”,
segundo o sociólogo Renato Ortiz. Chamamos contradições sociais às diver-
gências e contraposições existentes nas relações sociais dentro da sociedade
capitalista.
O processo de transculturação – pelo qual as diferentes culturas transitam
entre as nações – tem criado novas configurações com elementos de várias
culturas, mantendo aspectos locais, tribais, regionais e nacionais, ou seja, pro-
voca a ocidentalização, a orientalização, a africanização, a indigenização. Co-
mo exemplo, basta observar as pulseiras de adorno que usamos, o nosso corte
de cabelo, a linguagem com que nos comunicamos usualmente. Essas mani-
festações fazem surgir expressões sociais sincréticas, mistas, que vão acentuan-
do traços culturais ao mesmo tempo que reinterpretam a realidade social a
que se referem.
Nossa sociedade sofre as consequências de um modo de vida em que
persiste um desenvolvimento desigual, em que tudo é comercializado, em
que a técnica domina as energias naturais, submetendo o ser humano à ló-
gica determinista das máquinas no trabalho, nas famílias, nos bancos, nos
edifícios, na infraestrutura da vida urbana.

A cultura e suas transformações • 143

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tiago Queiroz/Agência Estado
Ao lado, moradores da aldeia
Kaxinawá em Santa Rosa do
Purus, no Acre, fronteira com o
Peru, em campanha social para
registrar os cidadãos acrianos.
Foto de 2009. As sociedades são
afetadas por culturas próximas
às suas, como o que acontece
em regiões de fronteira, mas
também são influenciadas
internacionalmente em razão do
acesso digital e da comunicação,
que torna próximo o que
antes era distante.

São muitas as ambivalências da trajetória histórica da ciência, da técnica, da


economia, da urbanização, da tecnologia, da burocracia e, mesmo, de uma
individualização generalizada.

Em termos culturais, a sociedade moderna tende a ser individualizadora,


afirma o sociólogo alemão Ulrich Beck (1944-). Ele concebe a individualiza-
ção provocada pelo processo de modernização contínua e inacabada da nossa
sociedade, na qual indivíduos e grupos são chamados a participar, mas não há
redes de segurança socialmente construídas. Assim, o individualismo cresce à
medida que as relações sociais são renegociadas cotidianamente e os indivídu-
os vendem sua força de trabalho cada qual separadamente.
Valorizadas excessivamente, a razão e a autonomia individual são fontes
do comportamento individualista, que se fecha a iniciativas da coletividade.
Pode-se dizer que a mercantilização da vida tem sufocado manifestações so-
lidárias. Mas essa solidariedade de resistência em moldes mais coletivos não
é o mesmo fenômeno tratado pela Sociologia.

Solidariedade social
Originalmente, o conceito de solidariedade foi ria pela diferenciação e interdependência entre in-
pensado pelo sociólogo francês Émile Durkheim co- divíduos e grupos.
mo laços de coesão social, conforme o tipo de so- Organizados institucionalmente, indivíduos e gru-
ciedade, que visam à sua integração. Assim, nas so- pos cumpririam diferentes funções ou necessidades
ciedades ditas simples, nas quais os indivíduos e sociais, mantendo a vida social estável e em harmonia.
grupos são mais semelhantes e intercambiáveis, Devido à maior densidade das relações nas sociedades
prevaleceria a solidariedade mecânica, enquanto complexas, surgiram outros sentidos para solidarieda-
na sociedade industrial moderna, com a divisão do de, entre eles, o sentimento de comunhão de interes-
trabalho social, a solidariedade orgânica responde- ses, por instalar a reciprocidade nas relações sociais.

144 • capítulo 5

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Diante disso, o f ilósofo Edgar Morin propõe a adoção de uma “política
de civilização”. O que vem a ser essa política?
Uma política de civilização propõe tomar consciência das ameaças à vida
física e psíquica do ser humano em sociedade, vencer o pensamento compar-
timentado, individualista, construir resistências e deter o ritmo desenfreado
do progresso a qualquer custo, a

André Goldman e Marina Cavalcante/Ad2m Comunicação


necessidade da modernização
contínua. Morin convida-nos a
utilizar os aspectos positivos das
ciências, das técnicas, do Estado
em prol de avançar em solidarie-
dade e ética.

Cortejo de encerramento da
Mostra Artística da Teia Brasil
2010 – Tambores Digitais, em
Fortaleza, capital do Ceará.
Eventos como esse valorizam a
diversidade e a solidariedade
nas manifestações culturais.

di á logos in tErdisciplinar E s

Considerando o exposto neste capítulo, formem equipes e escolham uma das se-
guintes pesquisas aqui propostas, sobre diversidade cultural e etnocentrismo. Para
enriquecer sua pesquisa e ampliar seus conhecimentos sobre a nossa e outras cultu-
ras, vocês devem pesquisar na internet e consultar os livros de Sociologia, História e
Geograf ia (peçam orientação aos professores dessas disciplinas, sobre os sites a se-
rem consultados e outras dúvidas e, se possível, reúnam algumas ilustrações).

p E squisa 1

O Brasil é conhecido por abrigar grande diversidade cultural, devido ao seu proces-
so de colonização, aos movimentos migratórios, internos e externos, ao tamanho de
seu território e às diferenças regionais, entre outros fatores. Pesquisem e elaborem
uma síntese sobre os costumes, as tradições, as influências e contribuições das etnias
que povoaram o Brasil, especif icamente a sua região (cidade ou estado), procuran-
do identif icar traços dessas culturas e o contexto histórico e geográf ico em que se
inserem.

p E squisa 2

No passado e na atualidade, registram-se alguns conflitos sociais (interculturais), de


caráter etnocêntrico, que envolvem questões étnicas e/ou religiosas. Para conhecer
mais, escolham um destes fenômenos/eventos históricos e pesquisem sobre: o tipo
de conflito, denominação e grupos envolvidos; o contexto histórico e geográf ico em
que se insere; sua origem e principais motivações; implicações sociais e econômicas.

A cultura e suas transformações • 145

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r E v i s ar E sistEm atiza r
1. Estabeleça as diferenças entre cultura e civilização.
2. Destaque as bases das ideologias racistas e explique suas distinções.
3. Que processos levam à formação de uma identidade cultural?
Arquivo da editora

4. Em que consiste o etnocentrismo?


Filipe Rocha/

5. Quais concepções sobre cultura aprofundam as desigualdades sociais?


Justif ique.
6. O que você entende por diversidade cultural? Cite alguns exemplos
deste fenômeno e como ele se apresenta no Brasil.
7. Estabeleça uma relação entre hábitos culturais, meios de comunicação
de massa e indústria cultural.

conceitos-chave:
Cultura, civilização, identidade cultural, diversidade cultural, ideologia, visão de mundo,
representações sociais, comunidade, sociedade, minorias sociais, etnocentrismo, indústria
cultural, massa, consumo, desenraizamento cultural, distinção social, solidariedade.

dEscubr a m ai s
As Ciências Sociais na biblioteca
ORWELL, George. Dias na Birmânia. São Paulo: Companhia das Letras, 2008.
Um madeireiro inglês reflete sobre demonstrações de racismo na ex-colônia britânica.

SANTOS, José Luiz dos. O que é cultura. São Paulo: Brasiliense, 1984.
O autor analisa de modo abrangente o conceito e as visões de cultura.

As Ciências Sociais no cinema


Matrix, 1999, Estados Unidos, direção de Andy e Larry Wachowski.
Um hacker descobre que máquinas dotadas de inteligência artificial dominam a humanidade.

Quilombo, 1984, Brasil, direção de Cacá Diegues.


Escravos fugidos das plantações canavieiras do Nordeste, no século XVII, organizam uma república
livre, o Quilombo dos Palmares, que sobreviveu por mais de 70 anos.

Serras da desordem, 2008, Brasil, direção de Andrea Tonacci.


Índio Carapiru, expulso de sua aldeia natal, no Maranhão, segue um périplo de perda de identidade.

As Ciências Sociais na rede


Cultura Afro-Brasileira. Disponível em: <www.suapesquisa.com/temas/cultura_afro_brasileira.htm>.
Acesso em: 23 nov. 2012.
Site com informações diversas sobre a cultura, arte, religião e história afro-brasileira.

Memorial do Imigrante. Disponível em: <www.memorialdoimigrante.org.br/>. Acesso em: 23 nov. 2012.


Site com várias informações sobre os imigrantes vindos para nosso país.

Povos Indígenas no Brasil. Disponível em: http://pib.socioambiental.org/pt> Acesso em: 11 dez. 2012.
Site aborda questões atuais das culturas indígenas Bororo, Kayapó, Xingu, Yanomami, Guarani,
Kaiowá e outras.

146 • capítulo 5

Sociologia_vu_PNLD15_119a148_C05.indd 146 5/27/13 5:25 PM


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A cultura e suas transformações • 147

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Filipe Rocha/Arquivo da editora

148 • capítulo 5

Sociologia_vu_PNLD15_119a148_C05.indd 148 5/27/13 5:25 PM


Salmo Dansa/Arquivo da editora

Capítulo 6

Sociedade e religião
EstudarEmos nEstE capítulo:
a religião, que também é uma instituição social. Veremos que a modernidade traz alterações para o papel da religião,
mas não a descaracteriza como fenômeno social. Debateremos o significado do crescimento das religiões e o sentido da
religiosidade contemporânea, no mundo e no Brasil. Indagaremos também se existe alguma relação entre o funda-
mentalismo religioso e a globalização, além de analisar a natureza de alguns conflitos em diferentes partes do mundo,
noticiados cotidianamente como de origem religiosa. Compreender a real natureza de tais conflitos, sob a óptica das
Ciências Sociais, está entre os objetivos da discussão deste capítulo.

149

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A religião como instituição social

DIA NACIONAL DE COMBATE À INTOLERÂNCIA RELIGIOSA


Com apoio da Fundação Cultural Palmares,
Comissão de Combate à Intolerância Religiosa
lança livro e DVD sobre o tema
Cerca de 300 participantes – religiosos das mais diversas vertentes, além de
autoridades governamentais – prestigiaram o lançamento do livro e do DVD Ca-
minhando a gente se entende, realizado na última segunda-feira, 23/1 [de 2012],
no auditório Gilberto Freyre, no Palácio Gustavo Capanema, no Rio de Janeiro.
[...]
O lançamento do livro integrou as comemorações pelo 21 de janeiro – Dia
Nacional de Combate à Intolerância Religiosa. [...]
Filipe Rocha/Arquivo da editora

O babalaô Ivanir dos Santos, interlocutor da CCIR e mediador da solenidade,


anunciou que, com esse evento, o objetivo da Comissão era “compartilhar mo-
mentos de reflexão sobre o sentido da liberdade religiosa”.
Disponível em: <www.cultura.gov.br/site/2012/01/24/caminhando-a-gente-se-entende>. Acesso em: 7 nov. 2012.

Em dezembro de 2007 foi of icializada, no Brasil, a Lei n. 11 635, que


criou o Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa. A comemoração
na data de 21 de janeiro lembra o enfrentamento do preconceito e as for-
mas de estimular a sociedade a valorizar a diversidade religiosa. Você imagi-
na qual foi a razão que levou à criação dessa data? Pensando na realidade
mundial, considera necessário esse tipo de ação?
Você deve se lembrar de estudos nas aulas de História em que o papel
determinante da religião, em diferentes períodos, era destacado tanto na
vida íntima das pessoas quanto nas relações políticas e econômicas da socie-
dade. Será que isso mudou? É possível que o avanço da Ciência e seus des-
dobramentos na vida social tragam consigo o declínio da religião? Em sua
opinião, as pessoas hoje estão mais ou menos descrentes em uma esfera di-
vina? Podemos atribuir à religião a responsabilidade por alguns dos grandes
conflitos ocorridos na atualidade? Existe alguma relação entre globalização
e fundamentalismos? Como as Ciências Sociais analisam o papel da religião
nas relações sociais contemporâneas? Essas são algumas das indagações ana-
lisadas neste capítulo.
As Ciências Sociais desmitif icam ideias, concepções e preconceitos acerca
das relações sociais e dos acontecimentos políticos, culturais, econômicos e
religiosos. Por meio do processo de desnaturalização, ela demonstra que fe-
nômenos aparentemente naturais têm caráter social e histórico, isto é, são
produtos de relações sociais contextualizadas no tempo e no espaço. Seguin-
do tal linha de pensamento, vamos analisar a religião como instituição social.
Valendo-se das teorias para explicar a dimensão social (como vimos no
capítulo 2), a Sociologia procura compreender quais elementos da realidade
empírica e histórica e quais do pensamento lógico justificam (“tornam natu-
ral”) um modo de ser de uma sociedade, de um grupo e mesmo de uma classe

150 • CAPítulo 6

Sociologia_vu_PNLD15_149a170_C06.indd 150 5/28/13 8:42 AM


social. De um lado, a religião é um fenômeno vivido muitas vezes sem questio-
namentos, de forma aparentemente espontânea, pelos indivíduos e grupos
sociais em sua rotina; de outro lado, a religião é passível de explicação cien-
tífica como um acontecimento presente em muitas sociedades; nesse caso, é
um fenômeno social. O trabalho da Sociologia é “desnaturalizar” os fenôme-
nos sociais, problematizando-os e mostrando sua origem, seus elementos
constitutivos e suas relações com outros fenômenos. Émile Durkheim diria
que a religião é um fato social por ser observável e assimilada pelos indivíduos
e grupos, existindo na extensão de uma determinada sociedade.
O termo religião vem do latim religare e signif ica ‘algo que liga o ser hu-
mano ao sagrado’. Para o antropólogo Clifford Geertz, a religião é uma das
dimensões da cultura, consistindo em um sistema de símbolos que propi-
ciam intensas motivações aos indivíduos. Sua existência social tem por base
a vontade de crer das pessoas e a construção de uma manifestação coletiva
vinda dessa crença.
A religião é considerada uma instituição social por ser constante ao lon-
go da nossa história e exercer um padrão de controle na sociedade e uma
programação da conduta individual. Dessa forma, ela apresenta característi-
cas próprias das instituições sociais: é socialmente coercitiva, é exterior aos
indivíduos, possui objetividade e historicidade, detém autoridade moral.

A religião é um dos principais objetos de estudo das Ciências Sociais. Para a


Sociologia, ela é um fenômeno social, ainda que trate de algo não palpável
ou visível: a ligação do indivíduo com o sagrado.

O surgimento das religiões relaciona-se à vontade humana de explicar


questões como a origem do Universo, o mistério da vida e da morte, a rela-
ção entre indivíduo e natureza, a possibilidade de transcendência, a consti-
tuição da matéria e do espírito, as dimensões do natural e do sobrenatural.
De acordo com o sociólogo francês Jean Baechler (1937-), o fenômeno
religioso é um impulso que impele o indivíduo a superar sua condição hu-
mana para se abrir a algo que o supera e ao mesmo tempo o engloba, seja
esse “algo” imanente, ou seja, manifesto concretamente, seja transcendente,
além da experiência concreta. Revelam-se, então, as produções sociais da
religião – agrupamentos, ritos, crenças, costumes, regras de conduta – por
meio das quais os seres humanos procuram a harmonia de sua existência.
Ainda segundo Baechler, o fenômeno religioso implica a ação de atores
sociais, como os produtores, os gestores e os f iéis. Os gestores (líderes e di-
rigentes religiosos) organizam, por meio das práticas religiosas, a difusão da
fé entre os crentes, aqueles que buscam entrar em contato com a esfera di-
vina. Já os responsáveis pela fonte original do conjunto de crenças religiosas
são personagens místicos, como Jesus Cristo, Maomé, Buda, os primeiros
antepassados, para citar exemplos do cristianismo, do islamismo, do budis-
mo e de muitas religiões indígenas. Na def inição dos sociólogos Peter Berger
e Thomas Luckmann, no processo de institucionalização social, isto é, no
processo de repetição de uma ação que def ine um padrão de conduta so-
cial, aceito e legitimado coletivamente por determinado grupo, os gestores
lançam mão de práticas como crenças, gestos, formação de comunidades e
regras de conduta.
Sociedade e religião • 151

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Museu do Prado, Madri, Espanha.

Teresa Berlinck/Acervo da artista

Biblioteca Nacional de Paris/Archives Charmet/


The Bridgeman Art Library/Getty Images
Popperfoto/Getty Images

Gravura de data desconhecida Detalhe de Cristo na cruz (c. 1632), O orixá Oxóssi, representado Esta ilustração chinesa, do
representa o profeta Maomé, do pintor espanhol Diego acima em aquarela de Teresa século XVIII, mostra Buda
fundador do islamismo, em Velázquez. Berlinck feita em 2011. sentado em cima de uma flor
cena de combate. de lótus.

Uma crença pode se cristalizar em mitos, dogmas ou construções teoló-


gicas. Frutos da imaginação humana, em oposição ao componente racional,
os mitos são narrativas fantasiosas e alegóricas, geralmente ligadas à nature-
za, que revelam soluções para problemas existenciais e sociais, como o sofri-
mento. Os mitos estão presentes em todas as culturas e representam simbo-
licamente fenômenos humanos ou da natureza, como o mito da criação do
mundo. Quando assumem, em uma religião, o caráter de verdades doutri-
nárias a serem aceitas sem discussão, por serem consideradas de origem di-
vina, as crenças constituem dogmas. Já as construções teológicas são regras,
procedimentos e interpretações elaboradas, no decorrer do tempo, por
aqueles reconhecidos como intermediários entre a divindade e o mundo
profano. As bases de uma crença mobilizam as emoções e a sensibilidade
dos f iéis, traduzindo-se em práticas religiosas, tais como celebrações, dan-
ças, transes, sacrifícios, ritos, orações, gestos sistematizados, que são dirigi-
das a uma comunidade congregada por cerimônias, que marcam o tempo e
o espaço com simbolismo próprio.

As religiões [...] propõem regras de vida sob a forma de obrigações e de proibi-


ções. [...] Algumas são pontuais ou referem-se às consequências diretas de uma de-
terminada prescrição religiosa relativa a um determinado aspecto de uma dada
sociedade. Se, por exemplo, o judaísmo e o islã proíbem o consumo de carne de
porco, daí resulta que o porco está ausente das comunidades judaicas e muçulma-
nas. A partir do momento que o vinho é indispensável à celebração da missa, em
virtude de um dogma central do cristianismo, a vinha é cultivada nos países cris-
tãos. [...] podemos demonstrar, com base em documentos, que não há um único
domínio da vida social que não tenha sido afetado, mais ou menos decisivamente,
pela religião.
BAECHLER, Jean. Religião. In: BOUDON, Raymond (Org.). Tratado de Sociologia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1995. p. 465.

152 • CAPítulo 6

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O fenômeno religioso tem, portanto, muitas facetas, e é heterogêneo
por se basear em diversas fontes de inspiração e interesses relacionados à
condição humana. Nas diferentes interpretações sobre sua existência, as re-
ligiões destacam-se por sua função moral, por consolidar costumes e pelo
caráter ideológico de suas ações, que procuram justif icar uma ordem social
como se ela fosse natural.

A religião na visão dos autores clássicos da Sociologia

Yawar Nazir/Getty Images


Um dos desaf ios da So-
ciologia ao tratar do fenôme-
no religioso é que ele abarca
dois universos: o espaço pri-
vado, relativo à intimidade, e
o espaço público, que lhe dá
o caráter social. Os autores
clássicos voltaram seu olhar
para a religião como um fe-
nômeno social e procuraram
interpretá-lo.

hh
Auguste Comte
A obra do francês Auguste
Comte, por exemplo, iden-
tif ica o fenômeno religioso
como um estágio relativa-
mente “primitivo” da evolu-
Mulheres hindus seguram
ção social e cultural da humanidade, que ele chama de “estado teológi-
oferendas de água e leite para a
co”. Nessa fase, o ser humano tenderia a passar, gradativamente, da deusa Shiva, uma das principais
crença em muitos deuses (politeísmo) para a crença em um Deus único divindades do hinduísmo,
(monoteísmo). Para elaborar tal teoria de caráter evolutivo, Comte pro- durante o festival de Maha
Shivratri, em fevereiro de 2012,
cura demonstrar que a História é o desenvolvimento evolutivo-temporal em Jammu, no território da
do espírito humano, entendendo que, após uma segunda fase, classif ica- Caxemira administrado pela
da por ele como metafísica, haveria um terceiro estágio, “mais aprimora- Índia. Milhares de hindus de
do”, da humanidade, fundado na razão e na ciência. Veja abaixo o esque- diversas partes da Índia lotam
os templos em celebração à
ma analítico de Comte. deusa.

“Lei dos três estados ou estágios”, de Auguste Comte

Estágios Características

O ser humano acredita em muitos deuses e evolui para a crença em um só


Teológico
Deus (fase religiosa).

Metafísico Indagações ontológicas, acerca da origem do ser humano (fase filosófica).

Estágio mais evoluído da humanidade, correspondendo ao uso da razão e da


Positivo
política (fase científica).

Sociedade e religião • 153

Sociologia_vu_PNLD15_149a170_C06.indd 153 5/28/13 8:42 AM


hh
Émile Durkheim
Já a abordagem funcionalista de Émile Durkheim considera o conteúdo
das doutrinas e os sentimentos religiosos como impedimentos ao progresso.
O autor propõe em seu livro As formas elementares da vida religiosa, de 1912,
que uma das principais funções sociais da religião é de natureza moral, ou
seja, manter a coesão social, a união dos seus membros, assegurando a esta-
bilidade da sociedade por meio de relações harmoniosas.
Para Durkheim, a religião consiste em um sistema de crenças e de prá-
Cui Shenyi/Xinhua/Agência France-Presse

ticas relativas ao sagrado que une indivíduos em uma comunidade moral,


regida por princípios e valores específ icos. Defende ainda que seu funda-
mento não está no sobrenatural ou na ideia de Deus, mas na distinção
entre os conceitos de sagrado e profano. O sagrado indica uma realidade
diferente, protegida, superior e separada do que é mundano (profano),
na qual a coletividade projeta e objetiva a própria consciência religiosa e à
qual presta reverência.
06_f007A_SOCg15S A religião satisfaz necessidades do ser humano, como a curiosidade, o
desejo de segurança, a tendência à vida em comunidade, os problemas de
consciência e o estabelecimento de normas. Nessa linha de pensamento,
em sociedades tradicionais a religião organizava as relações sociais e o pró-
Chineses celebram o Ano-Novo prio tempo. Porém, à medida que essas sociedades se modernizaram e os
Chinês em Shangqiu, em conhecimentos científ icos ganharam mais espaço, a religião perdeu força
fevereiro de 2013. Embora
preservem as comemorações
como centro da vida social. Durkheim duvidava de que a religião, como
culturais, religiosas e místicas um sistema de ideias que desempenharam ao longo da história um impor-
relacionadas ao seu tradicional tante papel de integração social, fosse um mero conjunto de ilusões. Para
calendário lunar, os chineses ele, o Direito, a moral e a própria ciência não somente nasceram da reli-
utilizam o calendário
gregoriano (ocidental e de base gião como foram com ela confundidos por muito tempo.
solar) no dia a dia.
Durkheim explica o fenômeno religioso pela garantia da ordem social,
ressaltando seu fundamento moral em diferentes culturas.

hh
Max Weber
O pensamento do sociólogo alemão Max Weber segue uma linha distin-
ta daquela de Durkheim. Weber via a religião como uma dimensão social
depositária de signif icados culturais por meio dos quais indivíduos e coleti-
vidades interpretavam sua condição de vida, construíam uma identidade e
controlavam o ambiente como um todo.
Weber acreditava que a força da religião estaria em declínio, na medida
em que a sociedade moderna se afastava das crenças fundadas em supersti-
ções, religiões, costumes e hábitos ancestrais como um todo. Desse modo,
enquanto nas sociedades tradicionais a religião e as crenças a ela relaciona-
das eram centrais, na modernidade ocorria uma crescente racionalização e
consequente afastamento do campo religioso, decorrentes do desenvolvi-
mento da ciência, da tecnologia e da burocracia.
A esse processo de declínio do poder da religião nas diferentes dimen-
sões da vida social, que passa a ser explicada também pela ciência, Weber
denominou secularização. A secularização é a passagem de fenômenos que
até então eram do domínio religioso ou sagrado para a esfera mundana, ou
154 • CAPítulo 6

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seja, de certas representações do mundo e do lugar do

Imagno/Getty Images/Museu do Louvre, Paris, França.


homem no mundo deixam de ser sagradas ou místicas
e ganham uma explicação racional, científ ica e técni-
ca. A secularização favoreceu o movimento histórico
ocorrido com as Revoluções Burguesas, como estuda-
do no capítulo 2, resultando na separação entre reli-
gião e Estado.
Weber, perguntando-se como as religiões afetavam
a economia, demonstra na obra A ética protestante e o es-
pírito do capitalismo, publicada em 1905, a proximidade
entre os valores apregoados pelo protestantismo e a
moral veiculada pela sociedade capitalista moderna.
Nessa obra, ele defende que o surgimento do “espírito
do capitalismo” – um conjunto de qualidades intelec-
tuais e morais indispensáveis à racionalização econô-
mica – foi possível graças a algumas qualidades exalta- O banqueiro e sua esposa (1444), pintura de Quentin Metsys.
das e preconizadas pela religião protestante (a chamada Antes da Reforma protestante, no século XVI, a usura era
“ética protestante”), em especial a visão do lucro obti- considerada na Europa como contrária aos valores religiosos,
como se pode observar na tela: a mulher desvia o olhar da
do por meio de trabalho racional como virtude.
Bíblia para ver as moedas.

hh
Karl Marx
O pensador alemão Karl Marx concebia a religião como responsável pe-
la alienação do indivíduo na estrutura da produção material da sociedade
capitalista. Ele criou a famosa expressão “a religião é o ópio – ou lenitivo – hh lenitivo: aquilo que abranda, que
do povo”, que está no livro Crítica da filosofia do direito de Hegel, de 1844, no acalma, que traz consolo.
qual af irma que a religião é uma forma de o ser humano se tornar alheio,
afastar-se da vida moderna. Considerava a religião uma expressão da imper-
feita consciência de si do homem: não do homem como indivíduo abstrato,
mas como homem social.
No livro A ideologia alemã, de 1845, Marx e seu colega Friedrich Engels
propunham a história como uma série de transformações sociais e materiais.
Nesse sentido, a religião era um obstáculo ao progresso e à emancipação
político-social, ou seja, à possibilidade de os homens organizados mudarem
as estruturas sociais.
Para o pensamento marxista, as religiões poderiam ocultar as forças de
mudança e encobrir os conflitos sociais ao tomá-los como desígnios divi-
nos, naturalizando-os. Ao fazer isso, a religião nega aos seres humanos a
capacidade de decidirem sobre si, seu destino, seu país, sua sociedade,
e de transformarem a realidade. A realidade pesquisada por Marx era a
luta de classes provocada por interesses materiais conflitantes; daí a sua
crítica de que toda ideologia (conceito estudado no capítulo 5), para rea-
lizar a f inalidade a que se propõe – satisfazer-nos com ideias em detrimen-
to do real conhecimento da realidade –, desenvolve-se com base em cren-
ças preexistentes a f im de mascarar a realidade social.
Ainda que difiram em sua abordagem, pode-se perceber que esses quatro
autores clássicos – Comte, Durkheim, Weber e Marx – caracterizaram a reli-
gião como uma instituição de grande influência nas relações sociais ao longo
da história.

Sociedade e religião • 155

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En con tr o c om os c I E n t I s tas s oc I aI s

Na Sociologia clássica prevaleceu a ideia de que a religião era uma força que decres-
cia na medida em que as sociedades atingiam a modernidade. Pensando sobre isso,
leia o trecho abaixo, escrito por Durkheim em 1893, e responda à questão a seguir.

Ora, se há uma verdade que a história pôs fora de dúvida é que a religião abarca
uma porção cada vez menor da vida social. Inicialmente, ela estende-se a tudo; tudo
que é social é religioso. Depois, pouco a pouco, as funções políticas, econômicas,
científicas desvinculam-se da função religiosa, constituem-se à parte e tomam um
Filipe Rocha/Arquivo da editora

caráter temporal cada vez mais patente. Deus, se assim nos podemos exprimir, que
no princípio estava presente em todas as relações humanas, retira-se delas progres-
sivamente; abandona o mundo aos homens e às suas disputas.
DURKHEIM, Émile. da divisão do trabalho social. São Paulo: Martins Fontes, 1977. p. 197.

• Com base nesse trecho, discuta com seus colegas o lugar que a religião ocupa nas
relações sociais na sociedade atual.

A religião em tempos de globalização


A expressão “desencantamento do mundo”, que consiste no movimento
pelo qual a esfera do sagrado vai sendo invadida por manifestações profanas
e explicações racionais, foi cunhada por Weber em sua análise sobre a rela-
ção entre religião e modernidade. A secularização das instituições e das re-
lações sociais, pela qual elas se desprenderam da explicação religiosa e se
tornaram laicas, a separação entre a Igreja e o Estado e a emergência da
ciência substituindo, aos poucos, o espaço ocupado pela magia fazem com
que a religião deixe de ser o elemento central de organização da sociedade.
Muitas vezes esse debate levou (e ainda leva) a discussões sobre um possível
“f im da religião”, reavivando o confronto entre revelação e razão para expli-
car a realidade social.
Hoje, diante de novas religiões, do fundamentalismo, dos conflitos re-
ligiosos e dos fanatismos, muitos autores defendem a ideia de que vivemos
um retorno ao sagrado. Porém, não se trata de um consenso. Na visão do
sociólogo brasileiro Renato Ortiz, por exemplo, a religião nunca deixou
de estar presente na sociedade. Nesse sentido, vale indagar se nos depara-
Lidove Noviny/Ondrej Nemec/Getty Images

mos com o declínio, a transformação ou o renascimento da religiosidade,


como sugere o sociólogo polonês Zygmunt Bauman (1925-).
A ideia do f im da religião ou do seu enfraquecimento nas relações so-
ciais está associada, muitas vezes, à perspectiva positivista que prevê etapas
sucessivas de desenvolvimento na sociedade. Esse pensamento considera o
desenrolar da história como uma escala evolutiva crescente de aconteci-
mentos em direção ao progresso. Seguindo essa linha, diversas teorias con-
ceberam o término da religião como decorrência dos avanços científ icos e
consideraram as sociedades tradicionais “arcaicas”, por se orientarem pe-
O sociólogo polonês Zygmunt los valores morais da religião. Entretanto, alguns pensadores refutam tal
Bauman, em retrato de 2010. opinião, como expõe o sociólogo francês Jean Baechler:

156 • CAPítulo 6

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[...] Normalmente, o progresso técnico contemporâneo deveria fazer recuar e
desaparecer o recurso à magia e à intercessão. Este “normalmente” proporciona-
-nos uma outra maiúscula, a maiúscula do Progresso. Com efeito, para o Homem,
a magia e o recurso aos deuses retrocederam perante a eficácia técnica. Hoje em
dia, o Homem recorre mais prontamente aos antibióticos do que aos amuletos, e
aos adubos químicos do que à bênção dos campos. Mas as coisas nem sempre são
assim tão simples. As técnicas eficazes podem ser inacessíveis. A eficácia nunca
vai a ponto de excluir o fracasso. Apesar de todos os progressos da Medicina, os
homens contraem doenças e acabam por morrer. Sobretudo, a vida de cada um é
dominada pela incerteza radical que afeta tudo aquilo que advém da ação: nin-
guém controla jamais o resultado nem as consequências de qualquer empreendi-
mento. Essa incerteza faz a fortuna das cartomantes, das quiromantes, dos faze-
dores de horóscopos, de todos os que prometem reduzir ou suprimir a incerteza
através de métodos que só podem ser irracionais, dado que a matéria tratada é
racionalmente incerta.
BAECHLER, Jean. Religião. In: BOUDON, Raymond (Org.). Tratado de Sociologia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1995. p. 483.

A relação de contraposição comumente estabelecida entre religião e ciên-


cia tem sua base na ideia de que a fé se opõe à consciência científ ica, como
se a primeira f izesse parte da irracionalidade e a ciência se inserisse no ter-
reno do racional. Será que a ciência, em suas descobertas e aplicações, é
sempre racional? O capítulo 11, que discute meio ambiente, vai lhe permitir
refletir mais profundamente sobre isso.
Ao contrário do que haviam suposto alguns autores no passado, a socie-
dade industrial não trouxe necessariamente o desaparecimento da religião,
apenas limitou-a como forma de organização social. Podemos af irmar que
a modernidade abriu espaço para uma maior diversidade de práticas reli-
giosas. Prova disso é que as sociedades modernas globalizadas são conside-
radas multirreligiosas, ou seja, abrigam um número elevado de religiões
simultaneamente.

A modernidade-mundo não se organiza segundo princípios religiosos (o que


não significa que não existam países, por exemplo, no mundo árabe, onde o pre-
domínio da religião, como “consciência coletiva”, não tenha um peso capital). Ape-
sar do florescimento de novas crenças religiosas, da intensificação de uma religio-
sidade individualizada, da vitalidade de religiões que pareciam extintas, uma
constatação se impõe: o lugar que o universo religioso ocupava nas sociedades
tradicionais foi definitivamente remodelado pela modernidade. Entretanto, não se
pode deixar de entender que a ação das religiões num mundo globalizado adquire
uma outra configuração.
ORTIZ, Renato. Anotações sobre religião e globalização. Revista Brasileira de Ciências Sociais.
São Paulo, v. 16. n. 47, out. 2001, p. 64.

A consciência coletiva, citada por Ortiz, refere-se a valores, sentimen-


tos, crenças e tradições que são legitimados e repetidos ao longo das ge-
rações. Segundo Durkheim, a consciência coletiva exerce coerção sobre
as consciências individuais (ainda que, muitas vezes, de forma velada, por
ser tomada como um processo “natural”), reforçando hábitos, costumes e
representações sociais nas sociedades. Como fenômeno, a consciência co-
letiva é perceptível, sobretudo, nas sociedades tradicionais, nas quais indi-

Sociedade e religião • 157

Sociologia_vu_PNLD15_149a170_C06.indd 157 5/28/13 8:42 AM


víduos e grupos são muito semelhantes e o controle social de uns sobre
outros é exercido mais diretamente. Nessas sociedades, segundo
Durkheim, a religião concentra essa pressão conformadora das consciên-
cias individuais para preservar a ordem social.
Danilo Verpa/Folhapress
A globalização recente, estudada no capítu-
lo 1, como todo grande processo sociocultural,
gera desigualdades e diversidades entre grupos
e nações, pois não acontece com a mesma inten-
sidade e do mesmo modo em todos os lugares;
por outro lado, ela tende a homogeneizar os
comportamentos sociais espalhados pelo globo.
Nesse sentido, a religião passa a desempenhar
com mais intensidade um papel de resistência,
por ser uma dimensão que confere identidade
ao ser humano, ao reunir as pessoas e fornecer
um referencial comum aos grupos sociais. Uma
prática religiosa, por exemplo, cria af inidade de
pensamentos e permite compartilhar experiên-
cias entre os integrantes de um determinado
grupo social.
Localizada em São Paulo, a
Cristoteca é um espaço As crenças religiosas, enquanto “consciências coletivas”, aglutinam o que se en-
destinado aos jovens católicos
contrava antes disperso. [...] A memória é uma técnica coletiva de celebração das
para apresentações de shows,
baladas de música eletrônica e lembranças, aproxima o passado, soldando os indivíduos no seio de uma mesma
missas, que expressa uma comunidade. Ora, como tem sido apontado por inúmeros autores, a temática da
parcela da diversidade da identidade transforma-se radicalmente com o processo de globalização. Ela se tor-
religiosidade no Brasil
contemporâneo. Foto de 2007.
na crucial. A crise das identidades nacionais abre espaço para a explosão de identi-
dades étnicas, particulares, e até mesmo de dimensões identitárias mundializadas,
forjadas no seio de fluxos transnacionais de consumo.
ORTIZ, Renato. Anotações sobre religião e globalização. Revista Brasileira de Ciências Sociais. São Paulo, v. 16, n. 47, out. 2001, p. 65-66.

A difusão dos meios de comunicação favoreceu a expansão das religiões


e até a multiplicação de manifestações religiosas. Se antes a pregação era li-
mitada pelo espaço físico, hoje a comunicação on-line rompe essas barreiras.
As religiões puderam diversif icar seus meios de divulgação com emissoras de
rádio e televisão, CDs, editoras, revistas, vídeos, objetos religiosos e lembran-
ças, serviços de terapia e aconselhamento, imóveis e estruturas de marketing.
Segundo o sociólogo brasileiro Antônio Flávio Pierucci (1945-2012), esses
elementos se caracterizam como atividades econômicas desenvolvidas pelas
organizações religiosas para atingir públicos específ icos de adeptos/clientes.

Na era globalizada, os meios de comunicação não apenas permitem a


articulação das ações dos grupos religiosos como também as potencializam.

Nas últimas décadas do século XX, em meio aos avanços tecnológicos e


científ icos, à globalização e à disseminação mais intensa da informação, ve-
rif icamos o crescimento de algumas religiões e o avanço do fundamentalis-
mo religioso. Esse cenário desafia as Ciências Sociais a refletir sobre a exis-
tência, ou não, de um novo papel da religião na sociedade.

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Ismoyo/Agência France-Presse

Fundamentalismo religioso
O fundamentalismo religioso foi re-
conhecido como fenômeno recentemen-
te, quando o termo passou a ser mais uti-
lizado pelos cientistas sociais. O sociólogo
britânico Anthony Giddens o descreve
como um movimento de adesão incondi-
cional a determinados valores e crenças,
cujos adeptos têm um entendimento lite-
ral dos seus livros sagrados. Nos casos
mais radicais, isso se reverte em meios
violentos para a imposição dessa leitura
ao restante da sociedade.
Na visão de Zygmunt Bauman, o radi-
calismo religioso resulta do desgaste dos
elementos que mantêm unida uma con-
gregação de f iéis, levando alguns grupos
a desejarem identif icar e eliminar aquilo
que pareça indiferente ou discordante
com relação ao conjunto de princípios
que professam. Manifestantes indonésios
reivindicam, em Jacarta, capital
Valores sociais como a fé, a conf iança e a capacidade de autoaf irmação do país, a expulsão da
são oferecidos aos f iéis por meio de regras simples dos fundamentalistas, os população Ahmadiyah, um
quais rejeitam, contudo, o diálogo com os que pensam de maneira diferente grupo islâmico considerado
herético pelos mais ortodoxos.
da sua. A Indonésia é o país com a
Para Bauman, o fascínio exercido pelo fundamentalismo provém de sua maior concentração de
promessa de “libertar” o indivíduo da autossuf iciência a que estava condena- praticantes do islamismo. Foto
de 2011.
do, informando-o do que ele deve fazer, eximindo-o, de certa forma, da
responsabilidade sobre seus atos e ações. Assim, ele oferece uma “racionali-
dade alternativa” que se opõe às incertezas da vida e aos seus riscos.
O fundamentalismo pode vir associado a situações de desigualdade so-
cial por fornecer às populações pobres e injustiçadas um sentido já def inido
para a realidade vivida, a qual, sob outra visão, elas seriam incitadas a trans-
formar, segundo Bauman. Os despojados de hoje são indivíduos frustrados
diante da impossibilidade de consumir tudo o que a sociedade oferece os-
tensivamente, e os movimentos religiosos fundamentalistas denotam parte
do mal-estar da sociedade contemporânea, causado, entre outros fatores,
pelo desemprego e pelo desamparo social, por exemplo. Essa sociedade,
identif icada com a condição sociocultural do capitalismo contemporâneo,
aposta no consumo, no poder econômico-f inanceiro exacerbado; nela, tudo
se torna efêmero e fragmentado, prevalecendo a diversidade e a flexibilida-
de nos relacionamentos nas diversas instâncias sociais. Para explicar a insta-
bilidade da sociedade contemporânea, Bauman utiliza a metáfora do estado
de “liquidez” da matéria e denomina “realidade líquida” as mudanças re-
pentinas e estímulos constantemente renovados da presente fase da histó-
ria, que se apresenta imprevisível, indeterminada.

Sociedade e religião • 159

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hh
Desfazendo mitos
O fato de alguns ataques de grupos terroristas serem feitos em nome de
uma crença não signif ica que todos os adeptos daquela religião sejam terro-
ristas em potencial. Apenas alguns grupos apresentam reações fundamenta-
listas violentas diante do outro, daquele que é alheio ou discordante com
relação à sua crença religiosa.
Entre os estudos sobre o terrorismo, é preciso destacar aqueles que sina-
lizam para a situação de empobrecimento e marginalização de vastas popu-
lações em diversas partes do mundo, sobretudo após os anos 1990. Muitas
congregações religiosas assumem obrigações e deveres que foram abando-
nados pelo Estado, que, como temos visto ao longo dos capítulos, reduziu
seu papel no sistema de proteção social em tempos de neoliberalismo. As-
sim, outros fatores sociais e políticos também estão relacionados ao tema do
terrorismo, mostrando que suas motivações estão para além das questões
puramente religiosas.
Por vezes o terrorismo está relacionado ao fundamentalismo religioso, mas
convém lembrar que nem todos os atos terroristas têm uma motivação religiosa,
tal como o caso de grupos separatistas na Espa-
Spencer Platt/Getty Images

nha (como o ETA, movimento pela indepen-


dência do País Basco). Tampouco se deve asso-
ciar o terrorismo a religiões específicas. O
historiador inglês Eric Hobsbawm (1917-2012)
relaciona o aumento da violência no mundo
atual com as guerras no final do século XX,
quando os Estados nacionais perderam em par-
te o monopólio do poder e da violência, os
quais mantinham os cidadãos mais passivos e
disciplinados, respeitadores dos limites estabe-
lecidos pelas leis. Como exemplo da intensifica-
ção da violência social tem-se o caso do Sri
Lanka, cuja população, composta de uma maio-
ria budista e uma minoria hinduísta, hoje en-
volvida em sérios conflitos, antes tinha uma
convivência pacífica.
Os ataques às Torres Gêmeas, em Nova
York, e ao prédio do Pentágono, sede do De-
partamento de Defesa dos Estados Unidos,
em Washington, ocorridos em 11 de setem-
bro de 2001, colocaram sob suspeita a reli-
gião islâmica e seus seguidores. Nesse contex-
A foto retrata o momento em que um avião se chocou com a torre sul do to, o então presidente dos Estados Unidos,
World Trade Center, complexo comercial em Nova York, nos Estados George W. Bush, fez uma convocação inter-
Unidos, e explodiu. Minutos antes, outro avião já havia colidido com a
torre norte. O ataque, ocorrido em 11 de setembro de 2001, foi atribuído nacional para a luta contra o terrorismo, na
ao grupo fundamentalista islâmico Al-Qaeda. forma de uma “cruzada” do Ocidente cristão
contra os muçulmanos do mundo. Desse mo-
do, generalizou-se a ideia de que o islamismo era sinônimo de terrorismo –
ideia reforçada pela mídia de grande circulação, o que gerou um aumento
da intolerância e da violência no mundo.

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No século XX, nas duas guerras mundiais e, depois, nos conflitos ocor-
ridos durante a Guerra Fria, houve desrespeito aos princípios convencio-
nados entre a maioria dos Estados como os de uma “guerra civilizada” por
meio das Convenções de Genebra de 1929 e 1949, segundo os quais a
população civil deve ser protegida, os países neutros não podem ser ata-
cados e os prisioneiros de guerra devem ter sua integridade física assegu-
rada, entre outros cuidados. Muitas vezes o discurso do respeito às regras
e aos valores não é cumprido e produz uma situação que Hobsbawm de-
nomina “retorno à barbárie”, expressando atos criminosos que têm a po-
pulação civil por alvo, como acontece nos ataques terroristas.
Af inal, como começa o terrorismo? Os terroristas alegam reagir em
legítima defesa a um ataque anterior vindo da parte do Estado ou do sis-
tema. Para os que praticam o terror, trata-se de um contra-ataque àquele
que o privou de outra forma de reação, como a negociação. Veiculador de
reivindicações nem sempre precisas, o terrorismo não deixa de ser uma
estratégia política que usa a violência, física ou psicológica, em ataques a
governos, a grupos políticos ou mesmo à população, criando um pavor
incontrolável, o terror, que se expande além do círculo de suas vítimas.

Conflitos religiosos no mundo


FOLHA Online, 26 out. 2012. Disponível em: <www1.folha.uol.com.
Número de mortos por br/mundo/1175504-numero-de-mortos-por-conflito-religioso-em-
mianmar-chega-a-112.shtml>. Acesso em: 3 abr. 2013.

conflito religioso em
Mianmar chega a 112
O GLOBO, 20 fev. 2013. Disponível em: <http://oglobo.globo.com/
mundo/bomba-mata-tres-pessoas-em-reduto-islamico-da-
 Bomba mata três pessoas em
nigeria-7632878>. Acesso em: 3 abr. 2013.
reduto islâmico da Nigéria
Décimo monge tibetano
ateia fogo ao corpo em
ESTADAO.com.br, 26 out. 2011. Disponível em: <http://www.estadao.com.br/noticias/internacional,decimo-
protesto na China monge-tibetano-ateia-fogo-ao-corpo-em-protesto-na-china,790716,0.htm>. Acesso em: 3 abr. 2013.

As manchetes acima, publicadas em diversas mídias no Brasil, desta-


cam conflitos em que o caráter religioso está presente. Esses, entretanto,
não são os únicos. Podemos citar também, por exemplo, as ações desenca-
deadas pelo Exército Republicano Irlandês, o IRA, inseridas em uma dis-
puta na Irlanda do Norte entre protestantes que desejam continuar inte-
grados ao Reino Unido e católicos que querem a união com a República
da Irlanda. A guerra entre palestinos e judeus, desde a criação do Estado
de Israel, em 1948, também está relacionada (embora não se limite) à
questão religiosa. Outro conflito religioso ocorre entre Índia e Paquistão,
pela posse da região da Caxemira, de maioria muçulmana, conf igurado
como uma batalha entre hindus e muçulmanos. Em países africanos –

Sociedade e religião • 161

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especialmente República Democrática do Congo, Ruanda e Burundi –,
nos anos 1990, violentos embates foram apresentados como de caráter
étnico e/ou religioso.
Será que a Sociologia e a História permitem generalizar a denominação
de tais conflitos como “guerras religiosas”? Até que ponto a religião é real-
mente um fator determinante nesses episódios? Será que, por trás da justifica-
tiva da religião, não existem outras razões? Essas são questões que as Ciências
Sociais buscam responder.
conflitos na caxemira (2010) No conflito pela região da Caxemira (norte da
Índia e do Paquistão), por exemplo, são comuns as
Portal de Mapas/Arquivo da editora

70° L Zona contestada pela


Índia e pela China

AFEGANISTÃO
CAXEMIRA referências a diferenças religiosas. A historiografia,
Islamabad Zona contestada pela CHINA
Índia e pelo Paquistão porém, também aponta outros fatores como moti-
vadores para os conflitos, como os problemas de-
PAQUISTÃO Délhi
IRÃ
Nova Délhi
NEPAL BUTÃO
correntes do processo de colonização e as divisões
Karachi
incentivadas pela Inglaterra no período em que os
BANGLADESH
Mar indianos lutavam por sua independência.
Arábico Kolkata
ÍNDIA
MIANMAR
No caso do conflito entre árabes e judeus na
Mumbai
Golfo
de Palestina, vale assinalar que, apesar das guerras e
Hyderabad Bengala
OCEANO da violência que o caracterizam nos dias de hoje,
ÍNDICO esses dois povos mantiveram relações harmonio-
OCEANO
ÍNDICO
sas durante um longo período da história. Isso
10° N
ocorreu, por exemplo, na época em que os ára-
bes ocuparam a península Ibérica (711-1492),
SRI LANKA
Posicionamento dos mísseis quando os judeus que lá viviam desfrutaram de
balísticos
Instalações nucleares liberdade religiosa e cultural. Outro exemplo são
0 510 1 020
Violências étnicas
km
as pequenas colônias judaicas remanescentes no
Atentados terroristas
Oriente Médio que viviam em paz com a maioria
Adaptado de: Le Monde diplomatique, 2010. p. 212. muçulmana há menos de um século.

Israel (1948-1949) conflitos árabe–israelenses (1956-2000)


Allmaps/Arquivo da editora
Allmaps/Arquivo da editora

35° L 35° L
LÍBANO
LÍBANO
32° N Mar Mediterrâneo SÍRIA
SÍRIA
Mar Mediterrâneo
Golã
Telavive
Cisjordânia
Jerusalém
Telavive Cisjordânia
32° N Gaza Mar
Morto
Jerusalém ISRAEL

JORDÂNIA
Mar
Morto Suez
ISRAEL Península
do Sinai
ARÁBIA
Golfo

JORDÂNIA SAUDITA
EGITO
de

EGITO Ofensivas em 1956


Su
ez

(Guerra de Suez)
Territórios ocupados por
Palestina sob domínio
Israel por ocasião da Guerra
Ma

britânico (até 1948)


dos Seis Dias (1967)
rV

Estado de Israel (1948)


erm

Guerra do Yom Kippur (1973)


0 50 100 Israel após conflitos de 0 90 180
elh

Ocupação do sul do Líbano


1949
o

km km por Israel (1982-2000)

Adaptado de: DUBY, Georges. Atlas Histórico Mundial. Madrid: Debate, 1989. p. 213. Adaptado de: DUBY, Georges. Atlas Histórico Mundial. Madrid: Debate, 1989. p. 214-215.

162 • CAPítulo 6

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Portanto, a intolerância religiosa ou pseudoétnica não parece suf iciente
para explicar o conflito entre esses povos, pois se trata de uma questão gera-
da por disputas políticas e fatores sociais e econômicos. O conflito tomou
proporções maiores sobretudo a partir da criação do Estado de Israel (1948),
do qual, após a Primeira Guerra Árabe-Israelense (1948-1949), os árabes
palestinos foram expulsos.

Conflitos sociais
Para compreendermos melhor os contextos de tológicos da sociedade que põem em risco a inte-
confronto entre grupos sociais inspirados por moti- gração social.
vos declarados como religiosos, é interessante nos Com Weber, o conflito social passa a ser visto co-
determos sobre o conceito sociológico de conflito mo uma ação cotidiana, resultado de uma relação de
social. Não é simples defini-lo, pois o risco de con- concorrência entre indivíduos. Na teoria weberiana,
frontação entre adversários, indivíduos e/ou grupos como cada um tem a intenção de fazer triunfar sua
remete à natureza do próprio sistema social. Veja- própria vontade, o conflito perde o seu caráter “pato-
mos, então, algumas das diferentes concepções so- lógico” e aplica-se a todo sistema social.
ciológicas de ontem e de hoje. Para algumas teorias, os conflitos sociais são res-
O darwinismo social, elaborado pelo filósofo in- ponsáveis pelas mudanças históricas centrais, como a
glês Herbert Spencer, considerava o conflito um interpretação dialética de Marx da luta de classes. O
ponto central, na medida em que acreditava na norte-americano Lewis Coser (1913-2003) faz uma
“evolução” da sociedade como decorrente da “so- abordagem funcionalista do conflito, considerando-o
brevivência do mais forte”. Já a vertente funcionalis- a mola para a renovação e a mudança da sociedade,
ta, inaugurada por Durkheim, contrapõe consenso por gerar novas normas e novas instituições. Outro so-
e conflito. Embora reconheçam uma “dimensão con- ciólogo contemporâneo, o alemão Ralf Dahrendorf
flitual” na sociedade, ou seja, uma tensão perma- (1929-2009), observa que a sociedade contemporâ-
nentemente moderada pela solidariedade social nea vai institucionalizando o conflito, ou seja, emer-
(vista no capítulo 5), os funcionalistas consideram gem instituições de regulação dos conflitos, em que
as situações conflituosas (conflitos étnico-raciais, os parceiros se acertam e recorrem a mediações e for-
guerras, revoluções, etc.) disfuncionais, estados pa- mas de conciliação próprias do mundo industrial.

Diante desses e de outros conflitos, não apenas religiosos,


Baz Ratner/Reuters/Latinstock

cabe destacar que a realidade social comporta múltiplas di-


mensões – política, econômica, cultural, histórica – e um dos
desaf ios do conhecimento científ ico consiste em montar os
muitos quebra-cabeças de que é composta a história. Para isso,
é necessário sempre ir além das aparências dos fatos e das in-
terpretações prontas e, no caso de conflitos religiosos, observar
o princípio do teórico militar prussiano Carl Clausewitz (1780-
-1831) de que toda guerra se subordina aos interesses políticos.

p E squIsa

Em equipe, pesquisem sobre algum conflito tido como religioso


ocorrido no século XX ou no XXI, levantando suas causas, batalhas e
desdobramentos. Após a busca de informações (em livros, mídias im- Judeu ortodoxo caminha ao lado do muro em
pressas e na internet), o resultado da pesquisa de cada grupo deve ser torno do túmulo de Raquel, personagem bíblica,
em Belém. Erguido com o pretexto de proteger
apresentado para a turma. Fiquem atentos para outras motivações,
as peregrinações judaicas ao templo, o muro é
de natureza econômica, social e/ou política, que colaborem para um dos elementos estruturais de segregação da
uma melhor compreensão do conflito selecionado. Palestina. Foto de 2012.

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Algumas sugestões de temas de pesquisa são:
• o conflito palestino-israelense;
• o conflito entre indianos e paquistaneses na região da Caxemira;
• o conflito entre católicos e protestantes na Irlanda do Norte;
• a Revolução Iraniana e suas implicações no cenário atual do país;
• os conflitos étnico-religiosos na região da ex-Iugoslávia nos anos 1990.

A religiosidade no Brasil
O Brasil é um Estado laico, ou seja, legalmente o Estado é independente
e não está submetido aos desígnios de qualquer conf issão religiosa. Além
disso, os cidadãos têm a garantia constitucional de poderem professar a re-
ligião que desejarem, sem discriminações. Diz o inciso VI do artigo 5 da
Constituição Brasileira: “É inviolável a liberdade de consciência e de crença,
sendo assegurado o livre exercício dos cultos religiosos e garantida, na for-
ma da lei, a proteção aos locais de culto e suas liturgias”.
No Brasil e no mundo, tem aumentado o número de grupos religiosos,
que em sua maioria representam cisões nas denominações religiosas mais
antigas. É o caso, na América Latina e no Brasil, da expansão de grupos de
caráter protestante e pentecostal. Embora os católicos ainda sejam a maioria
da população brasileira, a proporção com relação ao total caiu de 73,6% em
2000 para 64,6% em 2010, de acordo com o Censo Demográf ico 2010, do
IBGE. Já os seguidores de denominações evangélicas, que representavam
15,4% da população em 2000, chegaram a 22,2% em 2010 – um aumento de
cerca de 16 milhões de pessoas. Algumas pesquisas antropológicas discutem
a tese de que a conversão a esses novos grupos religiosos seria, em parte,
uma reação à situação de pobreza e de marginalidade da população.

população evangélica no Brasil população católica apostólica romana


por estado, em % (2010) no Brasil por estado, em % (2010)
Mapas: Portal de Mapas/Arquivo da editora

OCEANO OCEANO
RR ATLÂNTICO RR
AP AP ATLÂNTICO
Equador Equador
0º 0º

AM PA AM PA
MA CE MA CE
RN RN

PI PB PB
PI
PE PE
AC AC
AL AL
RO TO TO
SE RO SE
BA BA
MT MT

DF DF

GO GO

MG MG
ES MS ES
MS

SP SP RJ Tr
RJ Tróp ópico de Capric
ico de Capricó órnio
rnio
PR PR

De 9,7% a 15% SC De 45,8% a 50% SC

De 15,1% a 20% RS De 50,1% a 65% RS

De 20,1% a 30% De 65,1% a 75%


0 610 km
0 610 km
De 30,1% a 33,8% De 75,1% a 85%
45º O 45º O

Adaptado de: CENSO Demográfico 2010. Disponível em: Adaptado de: CENSO Demográfico 2010. Disponível em:
<www.censo2010.ibge.gov.br/apps/mapa>. Acesso em: 9 jan. 2013. <www.censo2010.ibge.gov.br/apps/mapa>. Acesso em: 9 jan. 2013.

164 • CAPítulo 6

Sociologia_vu_PNLD15_149a170_C06.indd 164 5/28/13 8:42 AM


O Censo 2010 também aponta um aumento do nú-

Luciano da Matta/Ag. A Tarde/Folhapress


mero de pessoas que se declaram sem religião, no mes-
mo período, de 7,3% para 8% da população brasileira.
Para a antropóloga brasileira Regina Novaes (1952-),
uma explicação possível para esse crescimento, sobre-
tudo entre os jovens, está menos relacionada ao ateís-
mo e mais a formas de ligação com o sagrado e com o
religioso desvinculadas de instituições religiosas. Essas
formas se expressam numa espiritualidade individuali-
zada e também na participação em manifestações cole-
tivas, como festas religiosas e seus símbolos.
Ainda de acordo com o Censo, os seguidores da
umbanda e do candomblé mantiveram-se em 0,3% em
2010, enquanto a população que se declara espírita
passou de 1,3%, em 2000, para 2%, em 2010. Embora
sejam contingentes populacionais pequenos, a presen-
ça dessas religiões nas representações sociais e nas ma-
nifestações culturais e artísticas no Brasil são signif ica-
tivas, o que revela que sua influência vai além daqueles
que se declaram adeptos desses grupos religiosos.
É recorrente a fala de que o Brasil é um país em que
o sincretismo religioso está muito presente, ou seja, no
qual elementos de cultos e doutrinas diferentes se com- Fiéis durante lavagem das escadarias da Igreja do Senhor do
Bonfim, em Salvador, Bahia. Foto de 2009.
binam e são reinterpretados. Para o antropólogo e soció-
logo francês radicado no Brasil Pierre Sanchis (1928-), o sincretismo não é
próprio do campo da religião, mas sim da cultura, e se dá no interior de uma
relação desigual entre duas culturas ou duas religiões. Essa desigualdade é
consequência de relações históricas de dominação de classe, dominação polí-
tica ou hegemonia cultural, em que elementos de uma religião subjugada ou
discriminada são incorporados às práticas religiosas dominantes. Assim sen-
do, é preciso considerar a diferença entre declarações de identidade (associa-
das à instituição religiosa), em geral captadas pelo Censo, e declarações de
convicções (associadas à vivência e às crenças dos indivíduos).
No conjunto das manifestações religiosas brasileiras, a umbanda seria,
segundo o sociólogo francês Roger Bastide, a expressão ideológica da inte-
gração do negro à sociedade nacional. No período colonial e do Brasil Im-
pério, a repressão dos colonizadores portugueses e luso-descendentes, pri-
meiro, e das autoridades oficiais, depois, às religiões africanas e afro-brasileiras
levaram os seus adeptos a fazerem adaptações para escapar da perseguição.
Foi assim que entidades divinas como os orixás do povo ioruba e os inquices
dos povos bantos foram associados a santos católicos, como, por exemplo,
nas associações entre a orixá Iemanjá e a inquice Dandalunda com Nossa
Senhora, ou entre a orixá Iansã e Santa Bárbara. A umbanda, fundada no
século XX, resultou da sistematização de um processo maior de modif ica-
ções, como a crença da manifestação de espíritos errantes em sessões medi-
únicas e o abandono de rituais de sacrifício.
Já o candomblé é a mais difundida entre as religiões trazidas pelos grupos
africanos para o Brasil, tendo preservado muitas das características originais,
apesar das mudanças. Seus rituais costumam ser embalados por cantos, em

Sociedade e religião • 165

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terreiros, como são chamados os locais de culto aos orixás, onde se realizam
oferendas aos deuses e são feitas consultas espirituais. Tais locais são cuidados
e dirigidos por um pai (babalorixá) ou uma mãe (ialorixá) de santo.
As religiões dos indígenas brasileiros são tão diversas quanto são os po-
vos indígenas que habitam o território nacional, e muitas delas são ainda
hoje praticadas. Recentemente houve grande aumento de pesquisas que
oferecem aos etnólogos material para o melhor conhecimento da sociedade
brasileira. Estudos sobre os movimentos messiânicos no Brasil revelam, por
exemplo, a associação de personagens míticos e rituais de origem indígena
à sua ação política, como na Guerra do Contestado, região em disputa pelos
estados do Paraná e de Santa Catarina no início do século XX.

dEBatE

De que forma o sincretismo religioso está presente nas práticas sociais do brasileiro?
Segundo o que aprendemos neste capítulo, você diria que somos ou não um povo
religioso? Acompanhe a exposição do antropólogo brasileiro Roberto DaMatta
(1936-) e, em equipe, discutam o assunto.

Do mesmo modo que temos pais, padrinhos e patrões, temos também entida-
des sobrenaturais que nos protegem. E elas podem ser de duas tradições religiosas
aparentemente divergentes. Isso realmente não importa. O que para um norte-
-americano calvinista, um inglês puritano ou um francês católico seria sinal de su-
perstição e até mesmo de cinismo ou ignorância, para nós é modo de ampliar nossa
proteção. E também, penso, um modo de enfatizar essa enorme e comovente fé
que todos nós temos na eternidade da vida. Assim, essas experiências religiosas são
todas complementares entre si, nunca mutuamente excludentes. O que uma delas
fornece em excesso, a outra nega. E o que uma permite, a outra pode proibir. O que
uma intelectualiza, a outra traduz num código de sensual devoção. Aqui também
nós, brasileiros, buscamos o ambíguo e a relação entre esse mundo e o outro [...]
Assim, se no Natal vamos sempre à Missa do Galo, no dia 31 de dezembro vamos
todos à praia vestidos de branco, festejar o nosso orixá ou receber os bons fluidos
da atmosfera de esperança que lá se forma. Somos todos mentirosos? Claro que
não! Somos, isso sim, profundamente religiosos.
DAMATTA, Roberto. o que faz o Brasil, Brasil? Rio de Janeiro: Rocco, 1986. p. 115-116.

pausa par a r E f l E t I r

Quando tratamos de religião, estão em pauta questões referentes aos direitos huma-
nos, por serem eles inerentes a todas as pessoas, independentemente de sexo, na-
cionalidade, etnia, idioma, religião ou qualquer outra condição. As sociedades de-
vem garantir aos indivíduos e grupos sociais o direito à vida e à liberdade, o direito
ao trabalho e à educação, mediante o poder político organizado. Essas garantias ao
cidadão têm inspiração, por exemplo, na Declaração Universal dos Direitos Huma-
nos, um dos documentos básicos das Nações Unidas, assinada em 1948, logo após a
Segunda Guerra Mundial. A Declaração contém os direitos de todos os seres huma-
nos, mencionando, entre outros assuntos, a questão da religião. Acompanhemos
um excerto do texto original: artigos I, II e XVIII:

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Declaração Universal dos Direitos Humanos
(Adotada e proclamada pela Resolução 217 A (III) da
Assembleia Geral das Nações Unidas, em 10 de dezembro de 1948)

Artigo I.
Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e direitos. São dota-
dos de razão e consciência e devem agir em relação uns aos outros com espírito de fra-
ternidade.
Artigo II.
1. Todo ser humano tem capacidade para gozar os direitos e as liberdades estabe-
lecidos nesta Declaração, sem distinção de qualquer espécie, seja de raça, cor, sexo,
idioma, religião, opinião política ou de outra natureza, origem nacional ou social, ri-
queza, nascimento, ou qualquer outra condição.
2. Não será também feita nenhuma distinção fundada na condição política, jurídi-
ca ou internacional do país ou território a que pertença uma pessoa, quer se trate de um
território independente, sob tutela, sem governo próprio, quer sujeito a qualquer outra
limitação de soberania.
Artigo XVIII.
Toda pessoa tem direito à liberdade de pensamento, consciência, religião; este di-
reito inclui a liberdade de mudar de religião ou crença e a liberdade de manifestar essa
religião ou crença, pelo ensino, pela prática, pelo culto e pela observância, isolada ou
coletivamente, em público ou em particular.
NAÇÕES Unidas. declaração dos direitos humanos. Disponível em: <http://unicrio.org.br/img/DeclU_D_HumanosVersoInternet.pdf>.
Acesso em: 17 set. 2012.

1. O que afirma a Declaração Universal dos Direitos Humanos a respeito da religião?


2. Pelo que vemos diariamente nos noticiários e pelo que estudamos neste capítulo,
sabemos que existem manifestações de intolerância religiosa em diversas partes
do mundo. Na sua opinião, é possível conciliar liberdade religiosa, tolerância e
direitos humanos? Qual seria o papel do Estado em relação a essa questão?

dI á logos In tErdIscIplInar E s

Considerando o que você aprendeu neste capítulo, sugerimos que pro-


cure conhecer mais sobre as religiões afro-brasileiras, como segue:
1. Faça uma pesquisa na internet sobre as religiões afro-brasileiras (candomblé e
umbanda), seus símbolos, rituais e divindades, estabelecendo as semelhanças e
diferenças entre ambas, e escreva uma breve síntese. Finalize seu texto com um
comentário sobre o sincretismo religioso no Brasil e os locais em que há maior
presença das religiões afro-brasileiras no país.
2. Pesquise as músicas interpretadas por Clara Nunes e Maria Bethânia que fazem
referência a essas religiões. Selecione algumas dessas letras de música ou assista
aos clipes disponíveis na internet.
3. Apresente o material que conseguiu produzir em sua aula de:
• Sociologia, de forma a provocar um debate sobre religiões afro-brasileiras e a
noção de sincretismo religioso;

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• Língua Portuguesa, para analisar o texto produzido, do ponto de vista da estru-
tura, normatização e argumentação;
• Música/Arte, para estudar a composição musical, seu ritmo e forma de expressão;
• Geograf ia, para verif icar os estados do país onde as religiões afro-brasileiras
estão mais presentes.

r E v I s a r E sIstE m atIza r
1. Como os chamados “autores clássicos” da Sociologia analisam o tema
da religião na modernidade?
2. Qual é a análise de Renato Ortiz sobre a religião na realidade atual?
Para o autor, é correto af irmar que ela está em declínio?
3. Por que a religião é considerada culpada por inúmeros conflitos, sobre-
tudo após os atentados de 11 de setembro de 2001, nos Estados Uni-
dos? Essa perspectiva de análise é correta? Justif ique sua resposta.
4. Relacione globalização, religião e fundamentalismo religioso.
5. Quais são as tendências apontadas por pesquisas recentes quanto ao
Filipe Rocha/Arquivo da editora

comportamento dos brasileiros com relação às práticas religiosas?


6. Pode-se observar ao longo da história, em períodos diversos, uma es-
treita relação entre o Estado e as religiões institucionalizadas. De que
forma essas instituições se influenciam nos dias de hoje?

conceitos-chave:
Religião, processo de desnaturalização, secularização, fundamentalismo religioso,
fenômeno religioso, consciência coletiva, sagrado, institucionalização social, conflitos
sociais, sincretismo religioso.

dEscuBr a m aI s

As Ciências Sociais na biblioteca


DEMANT, Peter. O mundo muçulmano. São Paulo: Contexto, 2004.
Essa obra trata do Islã, das suas origens à atualidade, além de conflitos que envolvem direta ou
indiretamente a religião islâmica.
Divulgação/Embrafilmes

PINSKY, Carla B.; PINSKY, Jaime. Faces do fanatismo. São Paulo: Contexto, 2004.
Essa reflexão mostra os vários tipos de fanatismos na realidade histórica e social, e que o religioso
é apenas um deles.

As Ciências Sociais no cinema


A árvore dos tamancos, 1978, Itália/França, direção de Ermanno Olmi.
História em uma aldeia italiana que mostra o papel da fé religiosa na vida simples dos
camponeses, entre a incerteza e o idealismo.
Domingo sangrento, 2001, Inglaterra, direção de Paul Greengrass.
Narra o início do confronto entre o IRA e o exército britânico, que provocou uma guerra civil.
O nome da rosa, 1986, Alemanha/França/Itália, direção de Jean-Jacques Annaud.
História escrita por Umberto Eco e adaptada para o cinema que possibilita refletir sobre o papel
da Igreja católica e sua relação com o conhecimento na Idade Média.
Cartaz do filme O pagador de O pagador de promessas, 1962, Brasil, direção de Anselmo Duarte.
promessas, dirigido por Filme clássico do cinema brasileiro que, sem se restringir à questão religiosa, revela o preconceito,
Anselmo Duarte. a intolerância e o dogmatismo na realidade social.

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As Ciências Sociais na rede
Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Disponível em: <www.ibge.gov.br/home/presidencia/
noticias/noticia_visualiza.php?id_noticia=2170&id_pagina=1>. Acesso em: 6 nov. 2012.
No site do IBGE é possível acessar dados e estatísticas sobre as religiões no Brasil.

Retratos das Religiões no Brasil. Disponível em: <www.fgv.br/cps/religioes/inicio.htm>. Acesso em:


2 set. 2012.
Site ligado à Fundação Getúlio Vargas que traz informações e dados sobre as religiões no Brasil.

Atlântico Negro – na rota dos orixás. Disponível em: <www.youtube.com/watch?v=JYp6dM0dNxM>.


Acesso em: 6 nov. 2012.
Vídeo dirigido por Renato Barbieri sobre as religiões e os diversos tipos de cultos afro-brasileiros.

B IB lIografIa
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ARRUDA, José Jobson; PILETTI, Nelson. Toda a história. São Paulo: Ática, 1999.

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Sociedade e religião • 169

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NOVAES, Regina. Os jovens sem religião: ventos secularizantes, “espírito de época” e novos sincretismos.
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