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Prefácio de Bernard lion orE

Esta obra, que se dirige ao mundo da enfermagem e a todos Os profissionais


de saüde, faz-nos partilhar a necessidade, e ate a urgência, de restituir a
palavra cuidado todo o seu sentido; por isso, distingue entre "fazer cuidados
e cujdar
Fondo em relevo toda a dimensao hurnana necessária para dar ao cuidado
urn contributo qualitativo, o autor aprofunda e ilustra a necessidade de me-
ihorar os serviços hospitalares.
Através de testemunhos, de sinceridade e da realidade da vivéncia quotidiana,
Walter Hesbeen apresenta uma reflexao clara e profunda que faz desta obra
um elemento essencial a necessária evoluçao da organizaçao das institui-
çOes hospitalares. A obra desti na-se, pois, a todos aqueles que tém a preocu-
paçäo de inscrever as suas acçOes numa perspectiva de cuidar,

Waiter tiesbeen, enfermeiro e doutor em saôde piTh//ca pela universidade de


Lovaina (UCL-Béigica), é act ualrnente professor na École nationale de sante
publique (ENSI'-França). Através deste livro, o autor revela-se urna pessoa
I'refácio de
reflex/va, sensIvel e preocupada em aperfeiçoar cern cessar o dornInio em
que se tern empenhado: o cuidar.

MASSON lii

!IHIIIIJIJ iI
ISBN - 972-8383-11-8
-

Walter Hesbeen

Do mesnio autor

Les dfficultés de recrutement des personnels infirmiers en France.


Ed. ENSP, Rennes, 1993.
La réadaptation - Du concept an soin. Ed. Lamarre, Paris, rtuw# P
1994.

La dérnarche du projet dans les établisseinents de sante -


IEI]fliUUt1J
Ouvrage collectif sous la direction de Bernard Honoré et Enquadrar os cuidados de enfermagem
Genevieve Samson. Ed. Privat, Toulouse, 1994.
numa perspectiva de cuidar
Sante publique et soins infirmiers - Fonnez-vous et testez-vous.
Ed. Lamarre, Paris, 1996.
Prefdcio de Bernard Honoré

Agradecimentos

Agradeço a todos aqueles que, pelo seu olhar crItico e pelas suas

g
sugestOes, me deram uma ajuda preciosa na redacçao deste livro.
E-me particularmente grato sublinhar a colaboraçao de Gerald
Michaud.
4At5N1 DE S J0A0

; an\nA\ gL!

t@li?JE4fl 'WiQJS3
© InterEditions, Masson Editeur, 1997

MASSON T
TItulo do original em Frances:
PRENDRE SOIN A L'HOPITAL: Inscrire Le Soin
lnfirn,ier Dans Une Perspective Soignante

Direitos reservados para a Lingua Portuguesa ®, 2000


LUSOCIENCIA - Ediçoes Técnicas e Cientificas, Lda. A Charlotte

LLsoclErcl;
Titulo em Português:
CUIDAR NO HOSPITAL: Enquadrar os Cuidados
de Enfermagem Nurna Perspectiva de Cuidar
Anton
Walter Hesbeen
Tradução:
Maria Isabel Baptista Ferreira
Revisão Técnica:
Margarida Cunha Rosa
Revjsao Gráuica:
Maria Isabel Baptista Ferreira
Fotolito e Montagem:
Tons & Imagens - Arles Graficas, Lda.
Impressao e acabamento:
SIG - Sociedade Industrial Grafica, Lda.
2685 CAMARATE
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Rua Dário Cannas, 5-A - 2670-427 LOURES
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ISBN: 972-8383-11-8
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ou por quaisquer metes (electronico, mecânico, gravação, [otocôpia ou outro) sem permissao expressa
do Editor.
Sumário

Prefãcio IX
Introduçao
o cuidar e o contexto da saüde .........................................9
o cuidado na nossa sociedade biomedicalizada 9
Uma atençâo particular (10), A medicina cientifica..
(13), 0 desempenho e os limites da mediciria (17),
Representaçao da saüde e da doença (23).
Que e <<cuidar>>7 .............................................................. 31
Cuidar e complexo (31), Cuidar é uma arte (37),
Cuidar enquanto valor (38), Cuidar em saude
publica (40).
2. Os cuidados de enfermagem .............................................45
A força e a fraqueza dos cuidados de enfermagem 46
As <<pequenas coisasx. que constituem os cuidados
de enfermagem (47), 0 contexto (49).
As expectativas da pop Wacao ...................................... 54
Especificar os cuidados de enfermagem .................... 58
Que evoluçao? (60), 0 essencial e o acessório (63),
Designá-los sem fries alterar a natureza (66).
3. A enfermagem ...................................................................75
Uma identidade a clarificar e a afirmar ...................... 75
Concentraçao na taref a (77).
Uma profissao em movimento ..................................... 79
Que estruturaçAo? (80), Teorias e instrumentos (83).
As bases da construção de uma identidade ............... 87
Que definiçao? (88), Uma concepçäo errónea (90),
Unir, nao separar (93).
4. A pessoa do enfermeiro .....................................................99
A prática da arte da enfermagem ................................ 99
VIII SuMAIuo

A necessidade de urn processo 102


Tecer laços de confiariça (103). reraclo
A capacidade de inferência ........................................... 106
Referencias metodologicas (108), Tender para a
autonorrua (110), Reconhecer (111), Respeitar o
mterdito (111), Assumir (112), Cultivar (112).
Os contornos da personalidade do enfermeiro ......... 114
- 0 livro que Walter Hesbeen nos oferece hoje seth certarnente urna
5. Aformacao ........................................................................ 119 fonte de esperariça para todo o pessoal hospitalar e também para
A formaçao em enfermagem ........................................ 120 todos aqueles que se preocuparn corn o futuro das organizaçOes e
Ser capaz de se mdignar (122), Despertar para as das praficas de sañde, nesta época em que as referencias a tecnologia
coisas da 'vida (123), A questão da saüde (126). e a econornia deixarn na sombra a questäo do sentido das acçOes
As modalidades pedagOgxcas ...................................... 126 empreendidas para socorrer, salvar, libertar do sofrirnento e
O perfil dos formadores ................................................ 131 ultrapassá-lo e cultivar a saüde.
Ser portador de uma palavra de enfermagem (134), Pres tar cuidados no hospital poderia ter tido corno subtItulo <Pen-
Transrnthr a arte da enfermagem (134). sat os cuidados'> ou "Etica e estética dos cuidados>>. Efectivarnente,
O acollurnento em estagio ............................................ 135 Walter Hesbeen convida-nos a urna rneditaçao sobre o sentido da
A formaçao continua ..................................................... 138 acção de cuidar e sugere carninhos e perspectivas para urna evolu-
- o uesenvotvzmento ................................. çäo das práticas daqueles que exercern urna profissao de cuidar.
6 A investzgacaoe 143 Mas Prestar cuidados no hospital não é nern urn livro de ifiosofia
IrLteresse e limites ........................................................... 143 i nern urn manual de métodos e técnicas para uso dos enfermeiros.
145 Estaobraéaexpressointereladoradeurnprofissionaldecuida-
Aenfermagem ...::::::::::::::::::::::::::::::::
ormizar. (152).
pensar a acção e de conjugar a sua reflexao corn a de colegas seus
investigagdo artedeenfermagem ...................... 155
ncui-
(rnuitas vezes citados), realçando a experiência de quern presta
dados e a dos doentes, corn vista a contbuir
n para urn enqueci-
O Consell-io da E
Europa .................................................. 1
£JJ
rnento das concepçoes e das práticas dos cuidados.
Algurnas vias de desenvolvimento ............................. 162 Walter Hesbeen não enuncia urna nova teoria dos cuidados. Nao
Conclusao ............................................................................... 167 se refugia na conternplacao platOnica de cuidados idealizados, nurn
lugar thstante sob ilumiriaçao rnetafIsica ou divina, de onde traria
Anexos .................................................................................... 171 preceitos edificantes para os seus colegas que ficararn no fundo da
caverna na ignorância da verdade. Não cede a tentaçAo da polénii-
Bibliografia ............................................................................. 197 ca opondo o seu ponto de vista ao de outros pensadores. Adopta
urna abordagem critica (no sentido fenornenologico de krisis) das
acçOes de cuidados, abordando-as corn o intuito de as avàliar e ernan-
cipar relativarnente as referencias predominanternente tecnico-cien-
tIficas, sem, no entanto, negar a sua incontestável riqueza. Hesbeen
escreve urn ensaio, numa linguagern clara e aberta as opiniöes dos
outros, para, ern minha opiniao, revelar, muitas vezes, de urna for-
X PREFACLO
PptpAcio XI

ma feliz, o sentido que a acçäo de cuidar tern pan ele quando pensa cuidar, levanta a questao do lugar do sujeito ern todas as for-
nos aspectos mais autenticarnente humanos do encontro entre apes- rnas de intervençao.
soa que presta cuidados e a pessoa que os recebe. Escreve empe- • A não oposição entre a saMe e a doença, conceito chave para a
nhando-se de forma deterrninada para a realizaçao de uma. profis- abertura dos nossos sisternas de cuidados em saMe, como in-
são - a enfermagern - elaborando uma obra sobre sañde. Mas dica a nova designaçao dos hospitais - instituiçoes de saMe.
não interpela apenas os enfermeiros; interpela todos os profissio- Urna concepção global, não fragmentada, da saüde püblica,
nais de saüde, ern particular os medicos. A intenção mais forte integrando os seus aspectos individuais e colectivos.
expressa nesta obra e realçar que os cuidados de enferrnagetn se en qua- • Uma concepçao do processo de enfermagern como acompa-
dram numa perpectiva de cuidar, perpectiva essa que diz respeito a rtharnento, fazer carninho corn o outro, ern dificuldade no que
todas as profissoes implicadas nas acçoes junto dos doentes. <<A se refere a sua saMe. Urn rnovirnento que conduz ao outro para ir
lógica do cuidar tern necessidade de reuriir todos os actores numa 110 seu encontro no carninho que é a seu.
rnesrna perspectiva e de não lirnitar os cuidados a uma iinica cate- • A reabilitaçao da palavra e dos diferentes meios de expres-
goria>>. Esta perspectiva diz tambern respeito, fundamentalmen±e, a são na prática do cuidar. Reabilitar a palavra sabre os factos
cada urn de nos no encontro corn aquele cuja saüde está em causa. A vida... Não se trata de urn "fazer relacional>>, rnas sirn de se
Ao longo dos vários capItulos, rnanifesta-se uma procura de coe- ser relacional.
rencia e de ligaçao na diversidade das situaçöes e dos actores. <<Ligar e • 0 interesse pela vida quotidiana feita de mil pequenas coisas
não separar>> - Coerência entre a missao do hospital e a sua orgartiza- que são, efectivamente, coisas da vida, fonte de dificuldades
cão - Coerencia entre as concepcoes das várias categorias profissio- mas tambCrn de coriforto possIvel na atençao prestada a quem,
nais - Coerência entre o discurso e a prática - Coeréncia entre a for- de alguma rnaneira, está em sofrimento on preocupado corn a
maçào e a acção no terreno - Coerencia entre os métodos de investi- sua saMe.
gação e o seu objecto. Mariifesta-se tambérn uma referenda constante • A afirrnaçao de que o futuro dos cuidados de enfermagem não
àqullo que e vivido por pessoas - prestadores e beneficiarios dos cui- pode construir-se corn base nas faihas da abordagern rnédica
dados - em situaçOes sempre particulares. <<Pensar as estruturas a dominada pela cientificidade, pela tecnicidade e pelas
partir das pessoas a quern estas se destinam e de todos aqueles que categorizaçOes.
prestam cuidados nas situaçöes concretas que vivern no quotidiano>>. • A necessidade de a profissao de enfermagern ultrapassar os
Walter Hesbeen esboça uma revisáo e uma reorientaçAo das con- conflitos entre os que vivern a prCtica e os que pensam o seu
cepçoes, das condiçOes e das práticas dos cuidados de enfermagern desenvolvimento. Pensar a prática quo tidiana de quem presta cui-
ressituando todos os aspectos relativarnente a pessoa (a pessoa que dados, cuja riqueza e utilidade social são tao pouco cornpreendidas, e
cuida e a pessoa que C cuidada), dernasiadas vezes esquecida desde não a constituir a partir de pontos de vista teóricos que se impaern a
que a diência e as técnicas dominam a cena hospitalar. prática. Trata-se de recorthecer nas pessoas que prestam cui-
Na riqueza das reflexoes propostas, algumas parecem-me part-i- dados a capacidade de pensar a sua acção.
cularmente fecundas não so para o futuro da enferrnagem rnas tam- • Encarar a formação inicial e continua como o contributo para o
bern para o futuro de todas as práticas de saMe. Cito-as como Ca- desenvolvirnento de uma pessoa, enfenneira, cujo perfil é detennina-
mirthos possIveis para uma refiexao sobre a acçAo de cuidar. do tanto pelos seus conhecimentos como pelas suas capacidades e qua-
• A diferença entre <<fazer>' cuidados e cuidar, noçOes cornplernen- lidades humanas.
tares como a poiesis e a praxis na cornpreensao do sentido de • Valorizar, no campo dos cuidados, a investigacao exploratória
qualquer acçao. como primeira fase, heurIstica, de estudos de carácter experi-
• A distinçao entre o corpo-objecto ou corpo que se tern e o corpo- mental, a fim de elaborar hipOteses pertinentes fundarnenta-
-sujeito on corpo que se e, distinçAo que, a propósito da acçao de das na pratica.
XII PREFACTO

Todas estas reflexöes são expostas pot Walter Hesbeen num esti-
lo claro, feito de palavras carregadas de matizes, abundantemente Introduçao
docurnentadas, sempre irispiradas par aquio que ele próprio corn-
preende a partir da atençAo prestada a experiéncia dos seus colegas
e a dos pacientes, sem negligenciar as dirnensoes históricas e cultu-
rais do terreno que explora.
Realmente, este livro da que pensar... B e disso que hoje temos
mais necessidade quarido é a sañde que está em causa.

Bernard HONORE
Presidente do <Jnstitut de Formation
et d'Etudes psychosociologiques et pedagogiques>>
(IFBPP)
o püblico a que mais particularmente pretendi dirigir-me ao re-
digir este livro e o dos profissionais dos cuidados de enfermagern,
tanto as que exercem a pratica clInica como tambem os gestates ou
Os que se dedicam ao ensirto. Dirige-se igualmente aos estudantes
nestes vários dornInios, hem coma a todos as outros profissionais
do sistema da saüde.
Tratarei aqui dos aspectos conceptuais do cuidar, mais concreta-
mente dos cuidados de enfermagern, para ajudar a leitor no seu Ca-
minho de clarificaçao e de aprofundamento da finalidade do cut-
dat.
Esta obra está organizada em torno de trés missOes classicamen-
te atribuldas ao hospital: os cuidados, a ensino e a investigacao.
A intençao principal que orientou este meu trabalho foi a de pro-
mover urn encontro mais intimo entre a natureza profundamente
humana dos cuidados de enfermagem e os meios desenvolvidos para
as organizar nurn determinado lugar. Demasiadas vezes, por ra-
zöes diversas, verifica-se urn desfasamento considerável entre a fi-
nalidade dos cuidados que anima os profissionais e a realidade das
modalidades praticas de realizaçao desses mesmos cuidados. Este
desfasamento e fonte de inquietaçAo - de mal-estar - e, portanto,
nAa favorece uma prática profissional serena e gratificante. Mais do
que nunca, deve interrogar-se e desenvolver-se a coerência entre a
missao fundamental do hospital— as cuidados - e tudo o que the
serve de suporte. Esta interrogacao diz respeito a cada urn dos pro-
fissionais de saüde, porque eles são profissionais cuja missão esco-
thida 6 a de trabalhar para uma rnethor saüde da populaçAo, mas
2 INTR0DUcA0
INTR0DUçA0 3

tambern porque são cidadaos e, corno tal, detentores de urna parce- téncias e corn a eficacja dos cuidados. Quase não criticarn o descon-
la da nossa hurnanidade e de urna parte da responsabifidade pelo forto, as promiscuidades do hospital, as atrnosferas carregadas de
futuro desta. rniasrnas e de desinfectantes, os despertares matinais e as dietas
0 fio condutor do rneu discurso seth o cuidar pois, corno rnuitos rniserávejs. De facto, os doentes ternem aquilo que concorre para a
outros, sinto hoje a necessidade, diria mesmo a urgéncia, de reflectir alienaçao da sua liberdade, para a irnersão nurn anonimato fabril,
e de agir corn vista a contribuir para urn sisterna mais autêntica e para a irreverencia ou para o desinteresse dos prestadores de cuida-
generosarnente hurnano. Parece-me que urna reorientação, que nao dos e das iniciativas rnedicas tornadas sern inforrnação do paciente
pode lin-dtar-se a urna simples reorganizaçao, deve ser iniciada rea- ( ... ). A medicina hospitalar ganhou, sern düvida, ern ciência, rnas
justando o olhar posto na saüde e pensando as estruturas a partir nAo ern humanidade>>1.
das pessoas a quern estas se destinarn, isto e, os doentes e seus farni- sern düvida, porque a perspectiva da reparaçao do corpo
hares, bern corno as várias pessoas que prestarn cuidados nas situa- ou da ausência de doença não é suficiente enquanto tal para as
çöes concretas que aqueles vivern no quotidiano. pessoas que se ye o sisterna ganhar balanço e gerar urn consurno
E a partir de urna lógica do <<utente>> ou lógica de cuidados que acrescido e dispendioso de actos diversos e de prescricOes tera-
se pode insuflar nos contextos de cuidados urna nova atrnosfera de pêuticas. Que sentido tornarn no percurso particular da vida de
hurnanidade e meihorar a qualidade real do serviço que se oferece. urna pessoa as investigaçoes, os diagnosticos, as prescriçöes, as
Efectivarnente, do que se frata e de urna qualidade de cuidados e várias tarefas, as recornendaçOes, etc.? Que representa, na vida
não de urna qualidade rnacroscOpica, normativa, técnica, cientifica de urn indivIduo, a doença e a cura? Que sentido tern para ele
ou hoteleira que, por mais necessárias que sejam, nunca passarAo ouvir dizer que furnar faz mal, que devia ernagrecer ou corner
de aspectos parciais. Corn efeito, nao nos podernos contentar corn sern sal? Que sentido fazern tarnbern as carnparihas de informa-
actos realizados corn cuidado ou corn atenção, corn precisão e segu- ção, as acçOes de prevenção e de educaçao para a saUde? Nao
rança. Isso não basta, ainda que seja irnportante, pois o ser humano seth a questão do sentido que perrnite cornpreender o seu relati-
não se liniita a urn corpo-objecto - uma forma de rnáquina - ern vo fracasso? Nao será esta rnesrna questão do sentido que con-
que podernos aplicar os nossos conhecirnentos e as nossas técnicas, vérn associar a constatação de urna parte crescente da populaçao
por mais brilharites, sofisticadas e espectaculares que sejarn. t ser que deseja outra coisa e que se desvia da medicina tecnico-cien-
enquanto ser, enquanto corpo-sujeito, que tern necessidade de senti- tffica para experirnentar os rneios oferecidos pelas medicinas
do, que exige atenção. E aI que intervérn a distinçao que se pode charnadas suaves ou paralelas, esperando encontrar nelas urna
estabelecer entre <<tratar alguérn>> e <<cuidar de alguérn>>. F esta die- resposta mais adaptada ao rnal que sentern? Tudo isto não será
rença que perrnite enquadrar a sua acção, o conteüdo da sua profis- prova de urn fosso cada vez mais acentuado entre urna medicina
são, nurna perspectiva de cuidados, portadora de sentido e de aju- da doença, centrada no Orgão ou na funçao a reparar ou a tratar,
da para corn a pessoa cuidada. F a qualidade da atençao prestada e urna medicina do doente baseada na atençao e na ajuda singu-
ao sujeito, a do <<cuidar>>, ada perspectiva de cuidados que hoje con- lar que ela pode day ao sujeito que sofre ou que receia sofrer?
vérn desenvolver e valorizar, o que não poderá lirnitar-se a urna ex- A logica do <<utente>> é tarnbérn aquela que deveria perrnitir re-
celencia técnica salpicada de intençOes humanizantes, airida que duzir as dificuldades, as insatisfaçoes e o stress dos prestadores de
profundarnente sinceras. cuidados em geral e dos enierrneiros ern particular, restituindo-Ihes
F essa qualidade que mais corresponde as expectafivas da popu- a esperança gracas a logicas profissionais hurnanamente rnenos
laçao após urn prirneiro pedido de "reparaçao>> corno testeminiham, destrutivas e rnenos compartimentadas.
entre outros, estas linhas do medico Philippe Meyer: <<Nao é das
praticas rnédicas que os doentes se queixarn, rnas da rnaneira corno
elas são exercidas. Eles ate estão bastante satisfeitos corn as compe- Meyer, Ph., L'irresponsabHite médicale, Grasset, Paris, 1993.
4 INTRODUçA0
INTR0DUcA0 5

Nessa Iogica, a expressão <<prestador de cuidadoso não deve- creto, servern interesses estranhos aos cuidado prestados a pessoa,
na ser reservada unicamente aos profissionais de cuidados de rnesrno que seja em norne desta que se exprirnern e se desenvolvern.
enfermagem, porque, na verdade, a acção de prestar cuidados Cruel paradoxo este de ver todas estas logicas, rnarcadas norneada-
diz respeito a todos os que exercem a sua profissao em contacto rnente par uma concepção rnuito estrita do rendimento e da econo-
directo corn as pessoas que necessitarn de cuidados. São esses rnia, consurnir uma energia consideravel em estratégias por vezes
que constituem a universo dos prestadores de cuidados. A lógi- engenhosarnente estudadas para, no film de contas, resultarern numa
ca do cuidar tern necesidade de reunir todos estes actores em crescrente insatisfaçao quer dos utentes do sisterna quer dos profis-
torno de uma rnesma perspectiva e de não limitar as cuidados a sionais que al exercern a sua actividade.
uma ünica categoria de entre os mesmos. Assirn, não deve con- Alérn disso, estas diversas logicas e, desde ha alguni tempo, a
fundir-se a lógica do cuidar corn a lógica da enfermagern, pois juncão de lógicas transversais, ern norne de uma organização efi-
tal confusão reforçaria os corporativisrnos envolventes e susten- ciente e menos hierarquizada, pesarn cada vez mais na actividade
taria a ideia errada de que Os cuidados são apenas essencialmente quotidiana dos prestadores de cuidados. Os profissionais que todos
cuidados de enferrnagem. E certo, contudo, que a profissao de os dias se encontram lada a lada corn os doentes e com as suas
enfermagern, pela sua historia e pela natureza da sua prática, farnIlias sentern-se cada vez corn menos possibilidade de cuidar das
possui urn capital de conhecimentos que ihe seria iltil fazer fru- pessaas. Tal como urn funil, todas as decisoes tornadas pela hierar-
tificar, não para a irnpor aos outros mas para participar na reali- quia, as iniciativas provenientes de diferentes comissOes ou grupos
zação de uma obra comurn. Mas terernos beneficiado suficiente- de trabailto trarisversais, ou airida o aparecimento de nov05 proto-
rnente desses conhecirnentos? Parque cuidar é isso mesrno: uma colas de experimentaçoes ou de validaçOes de instrumentos inva-
obra comum mas dnica, uma arte cujo resultado para uma pes- dern, acumularn-se e ernpurram-se para tentar impor-se, por vezes
soa so pode ser o fruto do encontro subtil entre diferentes corn- de forma autoritária, àqueles cuja printeira preocupacão é o cuida-
petências, todas üteis, a seu tempo, ao processo empreendido. do prestado a pessoa. Quanta tempo Os prestadores de cuidados
Esse resultado nao pode, pois, ser reivindicado por este ou por passam a tentar libertar-se desta sujeição ou muito simplesrnente a
aquele grupo de profissionais, mas sin pelo conjunto destes, negociar alguns dos seus aspectos! Que fardo pesado a transportar
desde que tenharn a modestia de ihe associar plenamente o pa- para praticar serena e eficazmente a arte de cuidar! Quantas talen-
pel desenpenhado pelo próprio doente e pelos seus familiares. tos assim rnalbaratadas, quanta energia desperdiçada! Quantas
0 desafio lançado pela lógica do cuidar e considerável, pois trata- rnotivaçoes anestesiadas par arganizaçOes e compartamentos que
-se, para alérn das pai.avras, de fazer funcionar o sisterna de cuidados não estão em relaçao com a riqueza da arte de cuidar e tambérn não
ern geral e o hospital em particular para a saüde do beneficiário dos favorecern a seu aparecimento!
cuidados, sem esquecer a dos seus farniliares, na sua situação parti- E claro que cada urn, partinda do seu ponto de vista, arguntenta-
cular. Nao se pode confundir a saüde da pessoa ern questão corn a rá e justificará a sua posição par esta the parecer boa para a logica
ausência de doença ou o retorno a urn padrao cientificarnente esta- ern que se enquadra. Alguns dirao mesrno, com razãa, que as equl-
belecido. Esta lOgica tern de evoluir e de enriquecer a prória repre- pas prestadaras de cuidados, mesrno não estando sobrecarregadas
sentação que os prestadores de cuidados têm da saüde. E pot isso de trabailto, nem por isso são rnais disponIveis ou calorasas nern
que se trata de urn desaflo da sañde püblica, pois pretende ter rnais passarn rnais tempo junto dos pacientes. Mas par que e assim nurn
ern conta o individuo corn vista a uma meihor saüde da populacao. determinado contexta? Por desinteresse, par irreflexAo, pot fuga,
Isto não e simples e precisará de rnuita hurnildade, de tempo e de pot deficit de formaçao, por falta de coeréncia ou de transparéncia
dlistanciamento, de tal rnodo as práticas actuais estão impregnadas no sentida dado a prática do conjunto...
de certezas, de lógicas cientIficas no sentido estrito do termo, mas A unidade de cuidados, o serviça onde a paciente e as seus farni-
tarnbem de logicas de rneios, de carreiras e de poderes que, no con- liares se encontrarn torna-se assim a lugar de todas as pressOes, de
6 JNTRODUçA0
JNTRODUcAO 7

todas as tensOes. Por vezes, torna-se também no lugar de todas as


contradiçoes, quando e justamente al que os profissionais tern mais concretos e inovaclores. 0 aumento de meios não serve de nada e
não pode ser validan-iente argumentado se a prática do cuidar não
necessidade de serenidade e de disponibilidade para acornpañhar o
sofrimento on, muito simplesmente, para dar resposta as interroga- for previamente enriquecida por tuna reflexao essencial, a da pers-
pectiva dada as acçOes. Em muitos lugares, Os meios materiais e
çOes das pessoas a quem tern que prestar cuidados. E a partir des-
ses lugares que a lógica do cuidar deve ser pensada e posta em prá- humanos não faltarn, ao passo que a atençAo prestada aos pacientes
tica. e aos seus faniiliares apresenta numerosas lacunas. Constantemen-
te se levanta a questão do sentido dado a acção.
Muita gente me interroga acerca da questao do <<como>> quase
esperando encontrar na minha resposta, se nào uma receita, pelo 0 que certarnente não se atinge corn a questäo do <<como>> é que
menos um método. Esta expectativa exterior relativa ao "como fa- não se podem imaginar respostas novas corn as imagens de ontem.
zer para que isso evolua?>> nAo e de admirar, de tal modo está pre- Estamos num verdadeiro processo de inovaçao em que temos de
sente o desejo de mudança. Todavia, ela precisa de ser reformulada identificar o nosso espaço de liberdade e de ousar explorar e experi-
mentar carninhos nov05, 0 que, a priori, pode parecer tao difIcil como
sob a forma de oque vamos fazer no nosso hospital, no nosso servi- abstracto. Mas seth que isso e realmente diferente da prOpria práti-
ço, na formaçao, para desenvolver a lógica do cuidar?". Para que
ca do cuidar em que cada pessoa a quem se prestam cuidados e o
nurn dado lugar se possa iniciar a elaboraçao de uma resposta efi- sujeito do próprio processo de criaçao?
caz a tal pergunta, convém, antes de mais, informar-se e enriquecer
Os conlaecirnentos próprios para se conseguir um olhar critico sobre
a situaçao actual. E para isso que urn livro como este pode contri-
buir. A segunda etapa consiste em irnaginar a resposta, e para isso
os livros já näo chegam. A resposta a questao do <<como'> é obra da
imaginaçäo e, nessa qualidade, ñnica, como o cuidar. Desde logo, e
necessária uma foiha em branco para escrever urn projecto, aquele
que se pode criar e discutir de forma esclarecida nurn lugar preciso.
Nao se pode desistir perante a ausência preestabelecida de resposta
pertinente a esta questäo do como, mas antes regozijar-se por poder
ser seu autor, inventor e depois encenador e actor. A paciência tarn-
bern e necessária, e cada um pode utilmente inspirar-se na metafora
do jardineiro. Para fazer crescer uma árvore, pode puxar-se regular-
mente pelas hastes que corneçam a rebentat Para além do risco de
as partir, o resultado não seria muito eficaz porque essa estratégia é
contra a natureza. 0 jardineiro tambérn pode, todos os dias, regar a
planta, dar-lhe a dose correcta de adubo e garantir urn ambiente
propIcio ao seu desenvolvirnento. 0 resultado será certarnente mais
convincente.
Ha quem alegue que os meios são insuficientes para se fazer
meihor ou de outro modo. E uma realidade , por exemplo, em car-
tos meios notoriamente subdotados em efectivos. Contudo, não nos
podernos refugiar eternamente atrás dos meios que, demasiadas
vezes, servern de alibi para não irnaginarmos camirihos de evoluçao
[I

0 cuidar e o contexto da saüde

A palavra <<cuidado>, hoje urn pouco vaga e gasta, faz parte dos
terrnos utilizados frequenternente, corn conotaçoes várias. Representa
a n,issao principal de qualquer <<instituiçao de cuidados>>. Fazern-se
cuidados, prestarn-se cuidados ou cuida-se, age-se corn cuidado... Estes
cuidados ou este cuidado dizern respeito tanto a urna pessoa corno a
urna planta, a urn autornovel, a urna bicicleta, a urn animal, a urn brin-
quedo, a urn livro, a urn cornputador, a urn instrurnento musical, a urn
objecto de colecçao ou muito simplesmente a urna coisa a que se tern
afeiçao... Fala-se de cuidados medicos, de cuidados de enferrnagern,
de instituiçoes de cuidados, de sisterna de cuidados, etc., rnas tarnbern
de cuidados de beleza. As crianças são convidadas a fazer os seus de-
veres escolares corn cuidado para os entregar ao professor. Quantas
vezes näo sornos instados pelos paLs ou pelos amigos a ter cuidado, a
prestar atençao a nós próprios. A expressão <<take care>> é muitas vezes
usada pelos anglofonos no firn de urna carta ou para terrninar urna
discussao, testernurthando o interesse que se tern pelo outro, convi-
dando-o a ter cuidado corisigo próprio.

0 C1IJIDADO NA NOSSA SOCIEDADE BIOMEDICALIZADA


o cuidado tern, assirn, a ver corn a atençffo. 0 cuidado designa
facto de estar atento a alguern ou a algurna coisa para se ocupar do
seu bem-estar ou do seu estado, do seu born funcionarnento. Mais
precisarnente, a expressao xcuidar de< ou <<fazer corn cuidado>> real-
ça essa atençao particular que se vai dar a si próprio ou a outro, a
urn objecto ou a tarefa que se está a realizar.
10 CUIDAR NO HOSPITAL 0 CUIDAR ho CONTEXTO DA SACJDE 11

Lima atençllo particular considerar as formas plurals e diversificadas dos cuidados ( ... ). NAo
ha nenhurna situaçäo na vida corrente em que cuidados de nature-
Liniltando este trabaiho ac, campo da saMe, o conceito de upres- za diferente näo se entrelacem. Nao poderia ser de outro rnodo nas
tar cuidados>> ou ((cuidar>> designa essa atenção especial que se vai situaçOes em que prestadores de cuidados profissionais tern de
dar a uma pessoa que vive urna situaçäo particular corn vista a ajudá- intervir>>. Os cuidados designam, assim, os actos através dos quais
-la, a contribuir para o seu bem-estar, a prornover a sua sailde. As- se cuida, através dos quais se conserva o corpo nas diferentes etapas
sirn, ye-se ate que ponto a concretizaçao dessa ajuda será tributária da vida. Quando estes se enquadram numa perspectiva de cuidar,
da representacão que o prestador de cuidados tern da saMe. trata-se de cuidados que revelam o cuidado que se teve corn urna pes-
A atençäo particular nAo se resume a escuta indispensável, rnes- soa. Como mostram os vários escritos desta autora, a sua preocupa-
rno que esta necessite de muita aptidäo, como mostra o texto apre- çAo per uma atenção ao outro rnari±festada através dos cuidados
sentado no anexo I. A atençäo enquadra-se na perspectiva de pres- prestados e omnipresente. Mao ha, pois, antagonismo entre o singu-
tar ajuda a uma pessoa, logo, de lhe aparecer como urn profissional lar e o plural que, se näo abarcam a mesma realidade, reflectem uma
de ajuda, na sua situação singular e utilizarido as competéncias pro- mesma preocupação. Retenha-se, contudo, o alerta de M.-F. Colliere
fissionais que caracterizam os actores desta ou daquela profissão. e de muitos outros autores a que me associo plenarnente. Esse alerta
Partindo destas clarificaçoes, os cuidados medicos podem con- consiste nurna representaçao abstracta da actividade de prestacão
ceber-se como a atenção particular prestada por urn medico com de cuidados que cava urn fosso inquietante entre, por urn lado, os
vista a ajudar urna pessoa utilizando, para concretizar essa ajuda, o que intelectualizarn e idealizam a prática de cuidados e, muitas ye-
conjunto das competências que fazem dele urn medico. Os cuida- zes, a encerram nurna <prisão>> teórica e, per outro lado, o profissio-
dos de enfermagem ou os do dommnio das outras profissoes de sail- nal prestador de cuidados que, dia a dia, lida com a realidade da
de podem definir-se da mesma maneira. vida, com interrogaçOes, corn inquietaçoes e ate corn o sofrirnento
Nesta abordagem do cuidado e exactamente no singular que do doente e dos seus familiares.
ha que o escrever, pois a atenção particular contida no <<cuidar>> Se prefiro o singular e porque a conotaçAo que a expressäo <<05
nunca pode set senão ünica. Mao é preestabelecida nem pro- cuidadoso adquiriu se tomou muito instrumental e designa os actos
gramável nem pode ser repetida de indivIduo para individuo. realizados pelos profissionais. Trata-se, per conseguinte, das suas
Deve set sempre pensada, repensada, criada. E singular como o tarefas que a expressAo tao corrente "fazer cuidadoso sintetiza.
é a situação de vida em que um prestador de cuidados e levado Aqui a dimensao singular está ausente ou, pelo menos, pouco em
a prestar cuidados a uma pessoa. Revela urna perspectiva do relevo. Pode-se, assim, efectuar urna tarefa ou realizar urn acto corn
cuidar sem a qual as intervençoes se limitariam aos gestos, as cuidado rnas sern de modo algurn cuidar da pessoa <<sobre a qual>>
tarefas, as técnicas, etc., e teriam muito pouco sentido para os se intervem, pois a atenção está centrada no acto realizado. A orga-
beneficiários de cuidados, dando-lhes apenas um pouco de aju- nizaçao mais cornum dos serviços de cuidados mostra ate que pon-
da. A longo prazo, acabariam per ter muito pouco interesse para to as tarefas a efectuar, os actos a realizar, tomararn urn lugar fulcral,
os prestadores de cuidados. diria mesmo preponderante, que pontuam aquio que se deve de-
A palavrá cuidado e, no entanto, muita vezes utifizada no plural. signar per <<ritual quotidianoo. 0 cuidado, no singular, perinite re-
Alias, Marie-Françoise Coffièr& não defende a utilizaçao do singu- cordar que se trata — ou deveria tratar-se — de urna obra de criação
lar porque levaria a urna representacão dernasiado abstracta da ac- sempre uinica que diz respeito a uma pessoa na singularidade da
tividade dos prestadores de cuidados: ((A maneira de evocar 0 cui- sua situação de vida. E por isso que a pratica do cuidar e urna arte e
dado no singular, fazendo DO cuidado urna abstracção em vez de não urna ciência.
A concentraçao em tarefas a efectuar mostra o desvio rnas tam-
Cohere M.-F., Soigner... le premier art de la vie. Intertditions, Paris, 1996. bem os limites do sistema actual. Apesar do seu custo, gera tanto a
12 CUIDAR NO HOSPITAL
0 CUIDAR 5 0 CONTE)cro DA SAUDE 13

insatisfaçao, expressa cada vez corn mais frequencia pelos doentes e terna-ta a perspectiva dada as acçOes dos profissionais e orienta as
pelos seus fainiliares, corno o cansaço, a fadiga e o stress crescentes suas forrnas de organizaçao e a escotha dos diferentes instrurnentos
dos prestadores de cuidados. As tarefas dirigern-se a corpos-objectos,
que utilizarn. A escolha dessas formas de organizaçâo e desses ins-
enquanto a realidade dos cuidados confronta cada pessoa corn a trurnentos e reforçada pelo contexto econOrnico, inforrnatico e
iriesgotável riqueza da cornplexidade do ser hamarto, ou seja, corn corporativista ern que se enquadrarn. A lógica da gestho nern sern-
0 corpo-sujeito. pre tern deixado muito espaço a lógica do cuidar. 0 olbar que os
0 corpo objecto ou corpo que se tern é aquele em que se baseou a diferentes prestadores de cuidados diigern a situaçAo vivida pela
medicina cientIfica que hoje corthecernos e que congrega necessaria- pessoa doente e pelos seus familiares alterou-se consideravelmente,
rnente todos os medicos e todos os pararnédicos, pelo rnenos pela ernpobreceu-se mesmo, rnenosprezando o cuidado, a intensidade
natureza da sua forrnaçao inicial. 0 corpo sujeito ou corpo que se é é da atenção particular efectivamente prestada a alguém. Para se apreen-
aquele que nào se pode limitar a urn conjunto de órgãos, de rnern- der rnethor a origem desta orientação, irnpOe-se uma rápida pas-
bros e de funçoes. E diferente da soma das partes que o cornpOern. E sagern pelo contexto do nascirnento da medicina rnoderna.
aquele que a abordagern sisternática nao pode dominar porque é
anirnado de uma vida particular, pode rnesrno dizer-se excepcional,
feita de projectos, de desejos, de prazeres, de riscos, de alegrias e de A medicina cientIfica
dores, de fontes de rnotivação, de decepcao rnas também de espe-
rança, etc., e aquele que näo pode subrneter-se inteirarnente a A medicina cientifica ou medicina rnoderna, tambérn chamada
racionalidade do outro nem corresponder perfeitamente as teorias e biotecnologica ou tecnico-cientffica, nasce no inicio do século XIX.
aos iristrurnentos utilizados pelos profissionais. E por isso que o outro Tern por pals dois franceses, François Magendie (1783-1855) e o seu
tem necessidade de uma atençao que the seja particular, e nao de cliscIpulo Claude Bernard (1813-1878). E o norne deste ültimo que
actos ou de palavras ou ate de acçOes respeitantes aos indivIduos devernos reter ern particular, pois ele e considerado corno o funda-
em geral. dor da fisiologia, tarnbern designada por <<ciência do hornern nor-
A distinçao entre o corpo que o doente tern e o corpo que o doen- mal".
tee assernelha-se a que perrnite distiriguir a medicina da doença, da A vontade que prevalece no inIcio do século XIX e a de aprofundar
medicina do doente. Como já realçava o rnédico e fflOsofo frances e sistematizar os corthecimentos ern medicina e faze-la aceder a ca-
Georges Canguithern2, tratar uma doença nao corisiste no rnesrno tegoria de ciência, sendo esta definida rnuitas vezes corno <<o conhe-
processo que ajudar urn doente. G. Canguithern, verificando Os ii- cirnento da verdadeo. Para aceder a esta categoria e a toda a aura
mites da racionalidade rnédica sern the negar legitimidade, convida que a envolve, os protagonistas da época recorrerao aos processos
a mudar o registo deterrninando <<que não pode haver hornoge- cientificos utilizados ern outras disciplinas, norneadarnente na fisi-
neidade nern uniformidade de atençao e de atitude para corn a doen- ca e na qulmica. Passar-se-a, assim, de uma medicina de observaçao
ça e Para corn o doente, e que tornar a seu cargo urn doente não é da a uma medicina experimental. Claude Bernard exprirne-se muito
rnesrna responsabifidade que a luta racional contra a doençax'3. clararnente acerca do caininJ-to pelo qual enveredou: <<0 que eu pre-
Parece-me particularrnente importante sub]inhar esta diferença tendo e fundar a rnedicina experimental tornando cientifica a préti-
porque a medicina da doença, a do corpo-objecto, e a que hoje, de ca que hoje e apenas emplrica. Para isso, provo que se pode actuar
facto, e apesar da abundância de discursos sobre o ser humano, de- nos corpos vivos corno nos corpos inanimados,>. E bern evidente a
referencia a fIsica e a qairnica, permitindo reduzir os corpos vivos a
2 Canguilheni C., Le normal cc Ic pathologique. Ed. PUP/Quadrigue, Paris, 1966,
Canguilhem C., cPuissance et limites de Ia rationajitd en mddecine", in Etudes d'histoire 1 Bernard C., Principes de inédecine expériinentale. Ed. PUE Paris, 1987. Citado por J,-P.
et de philosophic des sciences. Ed. Vrin, Paris, 1983. Citado por f -F- Lebrun. Lebrun.
14 CumAR NO HOSPITAL 0 CUIDAR E 0 coNTExTo DA SACJDE 15

corpos inanirnados, ou seja, a corpos-objectos. 0 autor prossegue es- leva a fazer justica a Hipocrates, fundador da medicina de observa-
peciftcando <<A medicina de observaçao, embora ainda haja muito ção, a preocupaçäo corn o futuro exige que a medicina não negue a
a fa.zer, existe, foi Hipocrates quern a ftrndou Mas, por outro lado, medicina de observaçäo rnas que se separe dela. 0 hipocratismo é
defendo que a medicina experimental, a que tern por finahdade ac- urn naturisrno; a medicina de observaçao e passiva, conternplativa,
tuar no organisrno e modificar ou curar as doenças, não existe; a sua descritiva corno urna ciênda natural. Arnedicina experimental e urna
problernática nao foi levantada; espera ainda o seu fundador)''. E o ciência conquistadora 9.
que Claude Bernard virá a ser. Verifica-se assirn que a medicina conternporânea e, corn ela, os
Nao ha düvida de que não temos suficientemente consciência de medicos e os pararnédicos pouca ligacao tern corn o iurarnento de
que se trata do fundarnento de uma outra medicina; não se insere Hipócrates>>, apesar de o terern como referenda: <Esta diferença entre
no prolongarnento da medicina hipocrática mas está ern ruptura corn medicina hipocrática e medicina cientifica ern que Claude Bernard
ela. insistia ainda hoje é válida. Por conseguinte, se nos julgarnos suces-
Hipócrates (460 a. C.), tarnbem charnado o '<mestre de Cós'>, é sores de Hipócrates e porque nos permitirnos "esquecer" que este
considerado corno o pal da medicina ocidental porque preconiza foi abalado por Bernard no seu papel de fundador da medicina, e
urn método racional que não esté sujeito a prática rnágica dos adivi- que foi nurn rnovirnento de oposicão ao rnestre de Cés que o fun-
nhos. Deste modo, a escola hipoaatica volta as costas ao sobrenatu- dador da medicina experimental se constituiu pai da medicina mo-
ral. Jean-Pierre Lebrun especifica assirn que <<o que se inaugura corn derna>'10 .
Hipocrates, ou rnelhor, corn a "colecçao hipocrática"6, é urn rnétodo A ruptura e profunda. E qualificada corno <<brutab> nurna obra
que permite esta nova maneira de apreender a doença: afastarnento de história redigida por Jean-Charles Sourrtia, medico frances con-
do sobrenatural e instauraçao de urn regularnento que tenha em temporfineo: <<Ao longo da sua história, a medicina nunca conheceu
conta o doente real sern o ernpobrecer. E, pois, a instaurar o discurso ruptura tao brutal corno a do princIpio do século XIX Em poucas
medico que já se declica o rnestre de Cos. E e isso que nos leva a décadas, a doença torna-se diferente, ja nao é objecto de discursos
pensar que, corno rnédicos, sucedernos-Ihe Pura e sirnplesrnente. Mas rnas de observaçao material. 0 hornern já não é urn ser excepcional,
esta postura não tern ern conta o facto de, cerca de vinte e cinco a vida que o anima é a rnesrna que anima todas as outras criaturas
séculos rnais tarde, o medico ter percebido o partido que podia tirar vivas, e do estudo dos anirnais pode inferir-se o funcionarnento da
da sua subrnissao ao discurso dos fIsicos e dos quirnicos 7. rnáquina hurnana>>11 .
0 autor prossegue rnostrando os efeitos desta subrnissao da me- A ocrnáquina hurnana, e rnesrno disso que se trata! 0 organisrno
dicina a ciência e da ruptura que isso gerou: "Subrnetendo-se a es- e, corn ele, as suas doenças são dissociados da pessoa enquanto su-
ses discursos, a rnedicina ia podendo constituir-se corno cientIfica e, jeito. A medicina experimental, querendo basear e objectivar as suas
neste segundo movirnento, dessolidarizou-se da posicão hipocratica. práticas segundo os métodos dasciencias ditas <<duras" avança para
Crer nurna simples continuidade entre Flipócrates e nós é não ter urna reduçao do ser humano limitando-o apenas a sua parte
em conta os efeitos da intro duçao, por Magendie e Claude Bernard, objectivável. E por isso que, na medicina modema, ha tao pouco
da medicina experimental, o que devernos considerar como urna espaco Para o que o doente exprirne, Para a sua palavra que e, es-
verdadeira declaraçao de guerra a medicina hipocr6tica"8. sencialrnente, subjectiva. Ora, é a palavra que permite ao sujeito di-
Esta <cdeclaraçao de guerra'> a medicina hipocrática e claramente zer, contar o sofrimento que sente no seu ser, a sua doença ou o seu
expressa pelo próprio Claude Bernard: <<Se a historia da medicina rnal-estar.
Op. cit. Cni1hem C., <<L'idée de médecine experimentale selon Claude Bernard", in Etudes
6 Nome dado ao conjunto dos trabaihos reunidos em torno de Hipócrates. d'histoireet de philosophie des sciences. Paris, Ed. Win, 1968a 1983. Citado porJ.-P. Lebrun.
Lebrun J.-P., De la nmladie me'dicale. Ed. de Boeck Université, Bruxelas, 1993. ° Lebrun J.-P., op. cit.
Op. cit. Sournia J.-Ch., Histoire de la mddecine et des inédecins. Ed. Larousse, Paris, 1991, p. 364.
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Parece-me importartte sublirthar que o facto de querer escutar o Note-se que o que o autor aqui atribui ao medico diz, de facto,
doente nao muda, afinal, grande coisa a interpretaçao que será feita respeito igualmente as diferentes profissoes de saáde que, todas elas,
pelos profissionais, do que é expresso. Efectivamente, as palavras na sua forma actual, encontrarn o seu fundarnento e organizarn o
proferidas serão, na maioria das vezes, reinjectadas pelos profissio- seu funcionarnento a partir da abordagem biornedica do ser hurnano.
nais numa greiha objectiva de analise a fim de <<objectivan' 0 que se Esta ruptura que teve lugar ha duas centenas de anos e que sig-
passa. 0 que näo tiver lugar nessa greiha será deixado ou relegado nifica esta <<submissão da medicina a ciência>> tern injirneras repercus-
parauma categoria securtdâria e, per vezes, atribuldo ao imaginá- söes quer no desempenho e nos limites da medicina actual quer na
rio do doente. Se nao e objectivável e porque se passa na sua cabeça representaçao social da saüde e da doença. A emergência do cuida-
e, por isso, considerado como contribuindo pouco ou nada Para a do, da atenção particular prestada ao corpo que a pessoa é, não e
compreensão da situação. Tanto o discurso hurnano como a inten- facilitada e, Para conseguir desenvolver-se, necessitaria hoje de tuna
ção humana de inümeros profissionais de sañde encontram-se as- verdadeira reorientaçao.
sirn fechados, prisioneiros da abordagem cientifica do corpo burns-
no, reduzido a corpo-objecto. Ora, a ajuda singular que se situa ver-
dadeiramente no ârnbito do cuidar nao se pode basear senão na con- 0 desempenho e os limites da medicina
sideração do corpo-sujeito segundo os diferentes aspectos que 0 Ca-
racterizarn. Os estudos cada vez mais exigentes realizados desde essa época
Esta exclusão da palavra e, portanto, do sujeito - näo a exclusão permit-ham urn avanço extraordinário do saber medico e das técni-
que as palavras humanizantes e lenitivas negam mas a que é cas dele decorrentes. Inümeras patologias podem hoje ser tratadas.
constitutiva dh abordagem médica modema - é daramente express a Algumas desaparecerarn, mesmo que outras apareçam ou reapare-
pelo medico Raymond Gueibe: uA lógica cientifica provoca a exclu- cam. A assistência e cada vez mais rápida e eficaz. Traumatismos
são do sujeito. Nao é o sujeito que interessa ao medico, mas o sinto- cada vez mais graves podem ser reparados e certas funçoes reedu-
ma que este the apresenta e que vai poder incluir no seu repertOrio cadas. A esperança de vida aumentou significativarnente enquanto
de doenças. Esta lógica garante o primado do othar sobre a escuta. a natalidade e cada vez mais bern controlada, a ponto de se pode-
JA não se escuta a historia pouco contribufiva do paciente, olha-se: rem prever cientificamente as caracteristicas do futuro bebe. As in-
os resultados das prova de diagnóstico, a radiografia, a sua prova tervençOes cirtirgicas são cada vez mais audaciosas e cada vez me-
de esforço. "Nao vejo nada" significa, portanto: "o senhor não tern nos invasivas. Os métodos de diagnostico são cada vez mais sofis-
nada". Per conseguinte, será de admirar que a relaçao que se instala ticados, rapidos e fiáveis... Todas estas descobertas, todos estes pro-
entre medico e paciente seja do tipo "garagista": traga-me a peca gressos são tao notáveis como fascinantes. São-no tanto mais que a
defeituosa ou trago-Ihe a peça defeituosa - reparo-a ou peco que sua eficacia e extremarnente recente.
ma repare"? Nesta lógica, o remédio e mais importante do que o Como salientava J. de Kervasdoué, <<A excepcão de algumas inter-
'<como" da doença, do que o sentido e o <<porquê'> da doença. Ora, vençOes cirtirgicas, so a partir de 1930 se passou a ter mais hipoteses
Paul Ricceur lembra-nos que "o hornem tem necessidade de amor, é de se ser curado consultando urn medico do que consultando qual-
verdade; tern ainda mais necessidade de justica; mas tern sobretudo quer outra pessoa"3. Deste modo, o autor faz referenda a descoberta e
necessidade de sentido"12 . A utilização das sulfamidas e, urn pouco mais tarde, dos antibióticos.
0 prestIgio assirn adquirido pela medicina ja não precisa de ser
dernonstrado. Adquiriu urn lugar considerável na nossa sociedade,
12 Gueibe It., .QuelIe formation pour queue praque de la medecine? Impact pour
l'ensemble des professions de sante". Conferencia proferida no Congresso internacio-
nal: Lesoin infirmier dans le système de santé—quel avenir pour quel soin infirmier? ENSP/ 13
De Kervasdoué J., <Cestion hospitaliere", in Gestions Hospitaiières, if 298, Agosto/Se-
UCL, Saint-Malo (Franca), 10 a 12 Maio 1995. tembro 1990.
18 CUIDAR NO HOSPITAL 0 CUIDAR E 0 CONTEXTO DA SACIDE 19

a tal ponto que satide e medicina muitas vezes se confundern. Evo- as expectativas da sociedade e a realidade singular das situaçOes
luimos nurna verdadeira sociedade medicalrzada em que a opmiào hurnanas corn que esses profissionais se deparam
dos medicos e exigida em inümeras situaçOes que tern a ver corn Ao subscrever os metodos expenmentais utikzados nas ciências
a organização da nossa vida social Este facto não deixa de set <<duras>>, a rnedicma pôde conquistar os seus titulos de nobreza pot-
paradoxal quando o <<Haut Comite de la Sante publique>>, no seu que se tomou cada vez mais operacional Podia então actuar no cot-
recente relatorio, verifica que os prrncipais indicadores de saude p0 humano, pot vezes de forma espectacular, especializando-se pro-
se situarn fora do classico campo de acção dos <<profissionais de gressivamente neste ou naquele campo e depois <<hiperespe-
sa6de>"4 ciakzando-se>' numa parte cada vez mais precisa Tal corno urn puzzle,
A aura que rodeia o rnédico continua grande, sobretudo quando o corpo humano passou a ser urn conjunto de peças cada urna corn
se trata de urn especialista 0 medico é detentor de conhecirnentos 0 seu especiahsta Dai resulta urna objectivaçao do set humano que
que fascmarn e que rnspirarn respeito, p015 permitem-Ihe actuar no e 0 preço a pagar para ton-tar esta medicma mais operacional 0
corpo humano, rnodificar o curso das doenças, adiar a rnorte E igual- fliosofo Jean-François Matherbe afirrna que <<a abordagem cienfifica
mente o medico que e depositano de certos poderes legais, tais como do corpo humano, das suas doenças e das medidas a tomar para as
os que se prendem corn o reconhecirnento da vida e da rnorte, os evitar caractenza-se por pôr entre parênteses aspectos da existência
que dependern das prescnçOes medicamentosas ou da determina- hun-tarta que estão associados ao sentido. Esta objectivaçao da exis-
ção das taxas de rnvahdez que dao direito a mdemrnzaçOes Nestes tência hurnarta abre a methcma o campo da sua actividade mas, ao
ultirnos anos, porern, esta irnagem tende a esbater-se, em consequên- mesmo tempo, barra-Ihe o acesso àquilo que e, afinal, a sua razão de
cia de varios <<escandalos' que fizerarn reagir a populacao Houve set ahviar o sofrirnento humano ou, por outras palavras, ajudar os
urna dupla tornada de consciência dolorosa que mostrou que o rne- seres hurnanos a viver o corpo que são apesar das vicissitudes do
dico podia nem sempre agir no mteresse do bem-estar da pessoa e corpo que tern>>"
que os conhecirnentos medicos, pot mais prestigiosos que fossern, Se pôr entre parênteses aspectos da existéncia hurnana que estão
tmharn linutes e não podiarn tratar tudo nern sequer prevemr tudo associados ao sentido perrnitiu resultados mcontestaveis da rnedi-
0 paradoxo deste fun de seculo e de rnilemo não sera venficar, dna actual, não e menos verdade que o sujeito esta reduzido a urn
apesar de todas as descobertas cientificas e tecnicas, medicas, etc., a objecto 0 hornern e visto corno urn ser moldado pela racionahdade
irnporffincia dos problernas recorrentes ligados a sañde e a vida, a a quern bastaria dar urn certo nürnero de ordens para que a elas se
mtensidade do mal-estar caractenzado pela misena, pela exclusao, submetesse, urn pouco rnecanicarnente <<coma sem sal, ernagreça,
pelos suicidios, pelo alcoohsrno, pelos cancros, pela sida, etc? deixe de furnar, tome os rnedicamentos todos os thas as tantas horas,
De facto, cada urn de nos pode agradecer a medicma cientifica a lave os dentes, ponha o cinto de segurança, use urn preservativo
ajuda que ja nos pôde dar ou que não deixara de nos dar, mas con- Quantas vezes essas ordens ou recornendaçOes não preocupam o
vern que nos mterroguernos acerca dos excessos e dos hmites deste profissional ao ver que elas não são escrupulosarnente seguidas pela
fipo de abordagem e acerca dos dramas hurnanos que ela pode ge- pessoa a quern ele se dirige, sabendo ele que e born e salutar seguir
rar ao concentrar a sua atençao no corpo-objecto Nao esquecarnos as suas mdicaçOes ou que isso atenua os nscos Ha o sujeito que está
que este tipo de rnterrogacâo não desvalortza em nada o trabaiho no corpo de cada urn, e esse sujeito não pensa corn a racionalidade
notável de tantos profissionais de saüde que vivern, dia a dia, as do profissional mas corn a sua, a do sujeito singular. A que gariha
tensOes causadas pelo desfasarnento entre urna rnediciina cientthca sentido na sua vida, que the dá urna onentação e que anima os seus
que prescreve as regras da norrnahdade e da tecruca e que onentou desejos, os seus prazeres, mas tambern as suas angustias, Os seus

" Haut Comae de Is Sante publique La sante en France - Rapport general Ed La Maiherbe I F Autonomic et prevention -Alcool tabac sida dans tine societe ,nedzcatisee
documentation française Pans 1994 Ed Artel Fides Montreal 1994
20 CumAR NO HOSPITAL 0 CUIDAR E 0 coNmxTo DA SACJDE 21

projectos, a sua esperança... A expressao utilizada pot urn psiquia- como a medicina cientIfica se constituiu; dito de outro modo, são
tra parece-me reveladora da situaçAo: (<Beber para além dos limites elernentos próprios da estrutura da medicina de hoje>>16 .
do razoável nao e beber sern razão'. E pot isso que se assiste a urn certo desfasarnento entre os conhe-
Estas palavras podern set ilustradas pelas preocupacOes que cirnentos adquiridos e as proezas tecnologicas e, por outro lado, a
me manifestavarn algurnas enfermeiras que trabaiham nurn ser- realidade das dificuldades, ate do sofrirnento, vividas pot quern acor-
viço de diabetologia. Ocupando-se de pacientes insulino- re ao sistema de cuidados. Lebrun ye aqui a razão pela qual urn
dependentes, mao tinharn deixado, desde ha anos, de ihes fazer nürnero crescente de pessoas recorre as rnedicinas paralelas endon-
um certo nürnero de recomeniacOes relativas a sua higiene de trando aI uma outra abordagern do problema, uma outra escuta,
vida, em particular a higiene alirnentar. Pretendiarn assirn preve- uma outra perspectiva da ajuda proposta: "Ao longo destes iiltirnos
nir o aparecirnento de perturbacOes secundárias, tais como a hi- anos, tem-se cavado incontestavelrnente o fosso entre tuna medi-
pertensao arterial, as Ulceras varicosas, as deficiências oculares, cina do doente e uma medicina da doença; sern o perigo de errar,
etc. Era grande a sua decepcao, pois viam que os pacientes nao podernos vet aI a principal razão pela qual certos pacientes se des-
seguiam as suas recornendaçoes e que as perturbacOes secundá- viarn desta medicina e esperam céus rnais clementes do lado das
rias não deixavarn de aparecer. Dialogando corn elas, deram-se medlicinas ditas paralelas"17. Para este autor, este afastarnento entre
conta de que nunca se tinharn interrogado sobre o que as suas uma medicina do doente e nina medicina da doença contribul tarn-
recornendacOes representavarn para cada urn dos pacientes. For bém para o aurnento das despesas de saüde, atendendo a resposta
outras palavras, nao se punha a questão do SENTIDO que as tecnico-cientIfica dada de forma demasiadarnente sistemática e ao
suas recornendaçOes adquiriarn na situação de vida de cada in- pouco espaco deixado a uma abordagem verdadeiramente singular
divIduo. De certa rnaneira, elas partiarn do princIpio de que os e centrada no cuidat
pacientes não podiarn deixar de aderir as suas palavras, visto A medicina cientIfica, apesar dos seus suceqsos, das esperanças
saberern que isso era born para eles. Era born, sern düvida, para que fez nascer e que acalenta, não vai an encontro das expectativas
o corpo-objecto geral e anónirno, rnas não era visto como tal na da populacao quando esta se confronta com o peso da vida, corn o
vida particular do corpo-sujeito, no seu projecto de vida. mal-estar associado a urn funcionamento social elitista que provoca
Partindo deste exemplo, vêem-se os unites contidos nas acçOes tanta exclusao, corn o sofrirnento que perdura e que não pode con-
ditas de oceducaçao pan a saüde>> ou de (prevencão>' quando essas fundir-se apenas corn a dor. Ora, tudo isso faz parte da vida e, pot
acçOes se reduzern a ditar cornportarnentos, a <<ensinar a fazer'>, a isso, tem influência na sañde. Lutar contra a doença, tratar urn cot-
querer que o outro se conforrne as regras que foram estabelecidas po traumatizado, agir no sentido de tuna vida mais longa, não bas-
Para os indivIduos em geral quando talvez não tenharn sentido pan tam para assegurar o bem-estar - harmonia consigo proprio no
urn indivIduo em particular. seu arnbiente. Quem viveu uma experiência de doentes hospitaliza-
Pela sua natureza, a medicina cientIfica não e, portanto, feita para dos ou de farniliares destes sente-o fortemente. Christine Clerc ex-
o sujeito, nao é, como se gostaria de acreditai humana ou carregada prime isto mesrno corn clareza: "Existirá hoje entre nós, em Franca,
de hurnariidade. Isto não quer de rnodo algum dlizer que os profis- uma verdadeira "violência hospitalar"? ( ... ) Tive que enfrentar tuna
sionais de satde mao sejam animados por tuna intençao hurnaria, terrIvel tomada de consciência: quando urn prestador de cuidados
mas esta e rnuitas vezes prisioneira do contexto pelo qual se deveria Mo luta contra a morte ou a doença - e isso e o que, gerairnente, se
exprmur ((0 caso, o nurnero da cama de que nos servimos para the pede - esquece que a prioridade das prioridades consiste em
identificar os doentes no hospital, ou amda o norne dos orgãos de aliviar o sofrmrnento. POT conseguinte, toma-se fatalinente carrasco
que nos servimos para falar dos operados previstos para a sala de
operaçOes näo são factos hgados a falta de tempo ou a nina msufl- '6 Lebrun J.-P., op. cit.
iéMè èoñéideraçao pelos pacientes, são consequêijcias da maneira 17
Lebrun J.-P., op. cit.
22 CmDAR NO HOSPiTAL 0 CUILDAR E 0 CONTEXTO DA SACJDE 23

( ... ). 0 que me faz sofrer é a ausência de sensibilldade de urn enfer- Representaçao da saáde e da doença
meiro ou a indiferença de urn radiologista, é a luz, a baruiho, o des-
conforto das proteses e o da cama'18 . Seria muito arriscado pretender propor uma deflniçao formal e
Por sua vez, Marie de Hennezel, na obra que relata a sua experien- universal da sañde como, de resto, da vida. No fundo, será realrnente
cia em unidades de cuidados paliativos, apresenta as motivaçOes de titil defini-las? E que qualquer pessoa pock verfficar que a saüde está no
urn jovem com sida para deixar as instalaçoes de urn serviço hos- centro da vida e que tudo o que diz respeito a vida diz respeito a sadde.
pitalar especializado em doenças infecciosas para dar entrada na uni- No seu ültirno ensaio, Bernard Honoré escreve: <<Porque a saáde
dade em que ela trabalha: "esté presente". Temo-la "como nossa" enquanto existimos. E con-
oO seu estado biolOgico é catastrófico, as suas defesas irnunitárias diçao da existência. Mas está muitas vezes mascarada na expectati-
nulas. Fala do seu estado corn bastante sererddade, sem grartdes ilu- va da sua manifestaçao, do seu reconhecirnento e da sua expressäo
sOes. Se pediu para mudar de serviço fol pot razOes muito especIfi- máxirna"21.
cas de hurnanidade. Já nao suporta esse sentimento de ser apenas 0 biologo René Dubos, pot sua vez, especifica: *Nao ha uma
urn nilmero de quarto ou de ser reduzido a uma patologia: "a citc5 definiçao universal de saüde; cada urn de nOs quer fazer algurna
do 12". Tarnbém nao suporta a maneira como Os medicos fazem a coisa da sua vida e, para isso, tem necessidade de uma saüde que
visita'>19 . the seja particular'.
Em seguida, o autor dá a palavra ao doente, permitindo-Ihe ex- 0 facto de a saüde estar no centro da vida, condiçao particular
prirnir o que sente durante a visita médica: da existéncia de cada urn, não impede de modo algurn que ela este-
'Desembarcarn aos dez no quarto. Apenas um aperto de mao ja, na maioria das vezes, estreitarnente associada a <<n2io doença".
indiferente 6 1 estâo eles a nossa volta a discutir o tratamento, como Bastará não se estar doente pan se estar corn saüde ou, por outras
se ja não estivéssemos ali! 0 medico chefe pergunta a enfermeira palavras, todas as pessoas que vivem corn uma doença tern por isso
chefe quantas vezes sujámos a cama, se dormirnos bem, se vomita- pouca sat'ide? B. Honoré prossegue o seu discurso: ((A saüde, nas
mos, tudo isso pot cirna da nossa cabeça como se fôssemos atrasa- nossas organizaçoes e nas nossas praticas, e sobretudo vista como
dos mentais! Os internos olharn pela janela corn othar vago para "ausência de doença". Irnagem sedutora do desaparecirnento do mal
não a cruzarem corn o nosso othar ansioso. Murmurarn qualquer e do sofrirnento. A ciência, ao dar-nos algurnas armas para lutarmos
coisa incompreensIvel a respeito do ensaio de outro tratarnento, e contra a doença e para fazer recuar urn pouco a moPe, afirmou-se
todos desaparecem sem que ninguém tenha tido a hurnanidade de como a condiçao para essa felicidade. Assirn, o nosso mundo tar-
se sentar junto de nós e de nos perguntar coma vivemos tudo aqui- nou-se biomedicalizado. No entanto, a felicidade tarda em chegar e
lob'20. a rnal-estar espa].ha-se. For toda a parte se fala de "crise". Nomea-
Poderá o actual sistema de cuidados na nossa sociedade evoluir damente de crise da sa(ide".
sem se interrogar mais acerca da nossa capacidade de prestar uma Em 1993 a <<Haut Comité de la Sante publiqueo realizou urn in-
atenção particular ao indivIduo que sofre ou está fragilizado pela quérito sabre a percepcäo da sañde em Franca. A sIntese dos resul-
situação que vive e, par conseguinte, acerca da representacão de tados está apresentada no quadro 1. Chega-se a conclusao de que a
saüde que anima os seus adores? boa saüde está sobretudo associada a felicidade e a autonomia. Os
autores deste estudo especificarn: <Para a grande malaria dos inqui-
ridos, a boa sañde e, prirneirarnente, ter prazer em viver. Este ponto
precede uma outra ideia que faz da saüde a suporte para uma vida
Clem Ch., Cent jours a l'hopital -Chronique d'un séjour force. Ed. Non, Paris, 1994.
19
De Flennezel M., La inort intime -Ceux qui vont mourir nous apprennent a vivre. Ed. 2! HonoréB., La sauté en projet. InterEditions, Paris, 1996.
Robert Laffont, Paris, 1995. Dubos R., iChercher des médecins". citado por J. Boireau, in Pour, Malo/ Junho 1991.
2oOp. cit. ' Honord B., op. cit.
24 CUIIDAR NO HOSPITAL 0 CUIDAR E 0 CONTEXTO DA SAUDE 25

autónoma e livre. 0 facto de não se estar doente e de viver ate uma Os termos ((doenteo e <<doença>> tern em si algo de maléfico. A
idade avançada é afirmado, por urn pouco menos de dois terços dos pessoa que está doente é atingida por urn mat que, por conseguirtte,
inquiridos, como essencial a uma boa saüde. Mais de uma pessoa convérn combater, evitar, erradicar. Os comportamentos sociais nern
em cada duas exclui o sofrirnento do campo da boa saüde. Em sempre distinguern entre o mal e o doente, gerando reacçOes que se
contrapartida, as opiniOes dividem-se mais no que diz respeito a assemeiham a rejeiçao e ate a exclusao. A titulo de exemplo, pense-
consulta médica>>. mos nurna criança leucémica que, a seguir a urn tratarnento por qul-
mioterapia, perde o cabelo. Neste caso, as crianças são mortificadas
Quadro 1.— Percepçfto da saüde em Prança segundo o inquErito na irnagem que tern de si próprias - ja não se acharn bonitas nern
Credoc/HCSP, 199324 normais - e sentem-se isoladas pelo olhar dos outros, a ponto de
algurnas ja não ousarem ir a escola e encontrar-se corn os colegas.
Associa boa saude a... Este exemplo e tao comurn em Frartça que constituiu objecto de uma
Muito Pouco Nada Nao sabe recente campanha televisiva de sensibffização. Outro exemplo pode
That prazer da vida 8810 1019 0,8 0,4
ser encontrado nos doentes vItirnas de sida ou seropositivos. Os
comportarnentos mais ou menos expilcitos de rejeicão precisam de
Pazer o que se quiser 79,5 18,0 1,5 1,0 tuna importante carnpanha de sensibilização.
Nao estar doente 63,4 27,2 8,8 0,5 Estes dois exemplos muito mediatizados podem parecer urn pou-
co extremos e lirnitados a algurnas afecçOes particulares. Nao e as-
Viver ate idade 60,4 28,1 8,4 3,0 sirn. Muitas pessoas doentes, sobretudo quando o são de forma du-
avançada radoura, veern-se, pouco a pouco, isoladas da suas relaçOes sociais.
Não softer 56,5 1 31,7 11,1 0,7 A farnilia, os amigos, os colegas de escola ou de trabaiho distan-
Nao ter que recorrer 39,7 34,5 25,7 0,2 darn-se progressiva e insidiosarnente. Ninguern gosta de se cruzar
a consulta medica corn a doença, e o doente é posto de parte.
Foote: Inquérito Credoc/HCSP 1993.
François Laplantine, cujos trabaihos sobre as interpretaçOes da
doença são uma autoridade, denuncia esta visão maléfica: <<As
interpretaçOes da doença em termos rnaleficos consideram qualquer
Ter prazer em viver e uma noção não medicalizada. Tornar p055 doença como nociva, prejudicial e indesejavel, como uma aberraçao
vel esse prazer em viver ultrapassa largamente as cornpetências e os a elirninar. 0 cancro & mais uma vez, revelador dos privilegios con-
rneios de acçäo unicarnente dos profissionais de saüde. Isto confirma cedidos a irtterpretação malefica no seio da cultura biomédica. E a
que a saüde não depende apenas dos medicos, dos enfermeiros e dos antivida em estado puro, objecto de vergonha e de escândalo (...).
vários pararnédicos. Colocar a saáde no centro da vida e dizer, como E, sem düvida, pot isso que a doença nao e apenas urn desvio biolO-
faz B. Honoré, que cada urn a tern como sua enquanto existe coloca gico mas urn desvio social, e o doente e visto pelos outros e ye-se a si
algurna dificuldade a representação mais cornum da doença. Esta iie- proprio como urn set socialrnente desvalorizado>>25.
presentaçao e, corn ela, a do doente, e muito influendada pelo desen- Seré a doença, definida como um desvio da norma, como urn
volvirnento da medicina cientIfica que identificou o que é normal e o disfuncionamento do corpo que se tern, realmente antivida? Seth
que o não é, o que e patológico. E muito difIcil irnaginar que pode realmente urn rnal que é preciso erradicar? A questao pode pare-
haver interpretaçOes diferentes da doença, de tal modo esta está asso- cer iconoclasta, visto que ninguém tern, a priori, desejo de estar
dada ao corpo-objecto, ao corpo que a pessoa tern. doente. Porérn, não diz respeito ao desejo de estar doente, mas an-
24
Haut Comité de la Sante publique, op. cit. I:: Laplantine P., Anthropologie de la rualadie. Ed. Payot, Paris, 1986.
26 CUIDAR NO HOSPITAL 0 CUIDAR SO CONThXTO DA SAODE 27

tes ao que a doença sigrnfica para uma pessoa em particular, ao A doença, qualquer que ela seja, não seth vivida da mesrna for-
que ela permite de novo a essa pessoa e, portanto, ao que essa ma por cada pessoa, pois inscreve-se nurna situação de vida ünica,
pessoa exprime pela sua doença, ao que quer fazer dela e, por anirnada pot urn desejo de viver também ünico. E que, por mais
conseguinte, ao que está pronta a aceitar para se fazer tratar. A que a doença sej a obj ectivada no corpo que se tern, ela nào afecta,
doença, <pequena ou grande*, faz parte da vida. Neste sentido, no firn de contas, senão o corpo que se é. E isso que perrnite corn-
ela participa na construção do ser de cada urn, isto e, contribui preender que algurnas pessoas recuperem rnelhor ou mais depressa
papa formar esse corpo que cada urn é. A doença, enquanto desta ou daquela afecção. Não será isso que explica, para cada urn
disfuncionarnento do corpo que se tern, modifica e enriquece a de nós, a nossa capacidade de nos restabelecerrnos mais ou menos
experiência de vida de cada pessoa, rnesrno que, num certo ná- depressa deste ou daquele acontecirnento, ern função das circuns-
rnero de casos, se trate de urna experiência sem a qual, a priori, se tàncias e da nossa motivaçao, por exemplo, no caso de urna gripe,
gostaria de passar. Assirn, ninguém é completamente igual de- de urna dor de cabeça, de urna entorse, etc.? Quantas vezes a ex-
pois de ter sido confrontado corn a doença. pressão tao comurn não posso adoecer agora produz efeito, o que mos-
Dizer que a doença faz parte da vida e que eririquece a experiên- tra a nossa forte motivaçao no rnornento de participar em deterrni-
cia de cada urn pode parecer perturbador, dada a representacao rna- nada actividade! A nossa capacidade pessoal para evitar ou relax-
lefica que se tern dela. Nao se trata, corn estes conceitos, de encora- dar a doença e assirn estirnulada.
jar o desenvolvirnento das doenças nem de propor inverter a ten- Qualquer que seja o carácter mais ou menos turnultuoso do ca-
dencia geral ern que a tónica é posta nurna vida saudável. Trata-se minho de cada pessoa, este conduz inevitaveirnente a morte. Faça-
antes de sublinhar que doença e vida saudável não são incompatIveis, -Se 0 que se fizer para elirninar os danos, para erradicar os flagelos
rnesmo queessa doença seja crónica ou incurável. ou para tratar as patologias, este dado fundamental nunca há-de
A vida pode ser representada por urn caminho mais ou menos rnudar. A morte está inscrita na vida, é a sua ultirna etapa, o "firn da
longo em que cada urn avança. Nao ha que ver nests expressão 1mnha, abstraindo das perspectivas espirituais que se the possarn
qualquer conotação religiosa, trata-se simplesmente de urna rnetá- dar. A morte está inscrita na natureza. Esta mostra-nos constante-
fora. 0 nosso caminho é ünico, não seth percorrido por mais nm- rnente que consegue desrnontar todas as armadilhas que se the at-
guérn senão por nós próprios, rnesrno que nos siritarnos muitas ye- rnern. A natureza aparece assirn corno o vencedor prograrnado da
zes muito próxirnos de alguem e caminhemos juntos na mesrna di- luta ernpreendida contra a morte, mesrno que nos possarnos van-
recção. Ao longo dele realizarernos acividades multiplas, consoan- gloriar pot urn certo nürnero de vitórias intermedias.
te Os flOSSOS meios, Os flOSSOS desejos, as nossas lirnitaçOes. Al en- Esta morte inevitável, que se encontra no firn de todas as vidas,
contraremos inürneras situaçOes, algurnas das quals nos parecerão faz nascer urna tensão que nos divide entre o desejo de viver e a
agradáveis enquanto outras nos confrontarao com mornentos difI- incontornável realidade da morte que se aproxirna continuarnente.
ceis. Entre essas inürneras situaçOes, ha as da doença representada o que quer que façarnos, qualquer que seja o nosso estilo e a nossa
ora por urn acidente ora pot urna agressão microbiana ora ainda higiene de vida, não podemos escapar a morte. Podernos tentar re-
por urn disfuncionarnento biologico. Algurnas dessas doenças são tardar a sua consurnação, rnas não a poderemos evitar. Retardar a
evitáveis, outras são-no menos. Isso depende do rneio em que se consurnaçao levanta a questão do sentido da vida, daquio para que
evolui, rnas tarnbém do estilo de vida que se adopta e dos riscos que ela se orienta e das fontes de esperanca que a alirnentam. Isto
se aceita correr. Algurnas dessas doenças são facilrnente reparaveis levanta a questão do desejo de viver apesar das dificuldades e
ou curáveis, outras não o são tanto. Isso dependera dos meios dis- da angüstia que a vida produz... Assim, compreende-se quanto
poniveis bern como do desernpenho dos profissionais, rnas também as noçOes gerais de riscos e danos, de prevencAo e ate de doença
do nosso desejo profundo de nos curarmos ou de nos restabelecermos mais objectivada podern parecer abstractas aos olhos de cada urn ao Ion-
ou menos depressa. go da sua existência: ((A interpretação objectivante da doença não
0 CU!DAR E 0 CONTEXTO DA SACJDE 29
28 CUIDAR NO HOSPITAL

esgota (em caso nenhurn) a realidade integral do que nos somos: prestador de cuidactos tern cia cloença, cia irnerpretacao que raz ucla,
corpos vividos confrontados corn a questäo do sentido da vida face vai influenciar fortemente a sua prática, que consiste em acorn panhar
A mode que se aproxima 26. aignérn na sua vida, por vezes, ate o fim. A doença e a maneira como
Podemos, assirn, interrogar-nos: será que a negacão da morte na se poderá reagir a ela enquadram-se, pois, na intensidade do desejo
nossa sociedade permite realmente ajudar as pessoas a viverem Se- de viver de cada pessoa. Como mostra o texto de Guibert, a doença
renamente? Nao haverá interesse em reconhecer mais a mode, no pode ser oportunidade pan novos ânimos, para urn novo sentido a
pr6l5rio processo de vida, para ajudar os indivIduos a libertarem-se dar a vida e para urna nova orientação. Isto equivale a dizer que a
de urna forma de angüstia pesada e patogénica associada a ausên- perspectiva do cuidar deve integrar-se nesta dirnensao que convém
cia de diálogo sobre a mode e ao tabu que a rodeia? não fazer regredir para am estado anterior ultrapassado mas de a
Algumas lirthas do romancista Hervé Guibert, que morreu em ajudar a progredir tentando revelar o que a experiência da doença
consequência de sida no inIcio dos anos 90, esciarecem-nos sobre o traz a vida do indivIduo e a daqueles que o rodeiam. Nao é isso que
que a doença pode representar para ama pessoa que avança na sua se verifica em muitas pessoas traurnatizadas, paralisadas, cancero-
vida e, no caso presente, a serenidade que ela dá a quem pode abor- sas, que, gracas ao seu desejo e a sua esperanca, lutarn por redeserihar
dar meihor a mode. o percurso da sua vida?
((0 Julio, numa altura em que näo acreditava que estivéssemos Assirn, o doente näo deve ser confundido corn a doença. A pes-
infectados, tinha-me dito que a sida era urna doença maravilhosa. E soa que está doente é a pessoa que sofre, on seja, que tern de su-
a verdade é que eu descobria algo de suave e de fascinante na sua portar, aguentar, sofrer qualquer coisa que the é difIcil. Estar ern
atrocidade. Era, sem duvida, urna doença inexoravel mas não era sofrimento, sobretudo de rnodo prolongado, e näo estar de boa
fulininante. Era ama doença de patamares, ama longa escada que saüde. Esse sofrimento deve ser posto em relaçao com o corpo que o
levava inexoravehnente a mode mas em que cada degrau represen- paciente e. Qualquer doença, mesmo dolorosa, não culmina auto-
tava urna aprendizagem sem igual, era ama doença que dava tem- maticamente no sofrimento do sujeito. A pessoa que está doente näo
po para morrer e que dava a morte tempo para viver, tempo para se identifica apenas pela sua afecção; é por isso que näo se aborda
descobrir o tempo e para, finahnente, descobrir a vida. Era, de alga- urn doente da mesma maneira que uma doença. Do mesmo modo,
ma maneira, ama invençao moderna genial que nos tinham trans- nem todo o sofrimento tern origem na dor ou numa doença
mitido aqueles macacos verdes de Africa. E a infelicidade, quando objectivada pela medicina cientifica. A doença e, corn ela, a dor silo do
estávamos mergulhados nela, era muito mais vivIvel do que o seu dornInio do corpo que o paciente tern. 0 sofrimento, esse, é do dornInio do
pressentimento, muito menos cruel, afinal, do que poderlarnos pen- corpo que o paciente é. Isto não significa, em caso aigum, que näo seja
sat Se a vida não era senäo o pressentimento da mode, torturando- preciso ocuparmo-nos eficazmente da doença e da dor, mas realça,
-nos sem descanso quanto a incerteza do seu firn, a sida, ao fixar urn como se isso ainda fosse precisorque, na acção profissional, é neces-
prazo certo a nossa vida, seis anos de seropositividade, mais dois sário não perder de vista o objectivo e, consequentemente, garantir
anos, na meihor das hip óteses, com oAZT ou alguns meses sem ele, que a doença e a dor não tomaram o lugar do doente no seu sofri-
fazia de nos homens plenarnente conscientes da nossa vida, liberta- mento singular. Muitos prestadores de cuidados, animados das
va-nos da nossa ignorância>>27. meihores intençOes, <tomam a seu cargo a dor>> ou <<lutam eficaz-
Aqui está ama interpretação da doença menos maléfica e mais mente contra o aparecirnento de escaras" ou da infecçao hospitalar
significativa para o indivIduo. Note-se que a representacao que o sem, ao mesmo tempo, se ocuparem do doente enquanto pessoa ou
corpo-sujeito. A dor, amplamente mediatizada, é também ant meio de
expressão, por vezes o ifitimo a que o doente pode recorrer. Fazer calar
' Maiherbe J.-F., op. cit. essa dor sem procurar compreender a mensagem que essa mesma
"Guibert H., A I'ami qui ne ma pas sauvé In vie. Ed. Gaflimard, Paris, 1991. Citado por dor permite expressar, consiste em confiscar ao indivIduo essa (ilti-
Maiherbe.
30 CUIDAR NO HOSPITAL 0 CUIDAR E 0 CONTExTO DA SAUDE 31

ma forma de palavra, não o ajudando enquanto sujeito. Perceber- Este breve extracto mostra, uma vez mais, os mites de uma ac-
-se-a bern que as minhas palavras näo encorajarn de maneira nenhu- ção que se centraria no corpo que o paciente tern quarido o que tem
ma a manter a dor mas antes a situar a acção que tenta atenuá-la sentido para ele, antes mesmo da manutenção do corpo, é ser. Esta
nurna pets pectiva de cuidar, logo, atenta ao indivIduo, na sua própria situação e semeihante a que se encontra inürneras vezes nos send-
existência. cos de longa perrnanência onde as pessoas hospitalizadas tern, por
A fronteira entre doença e sofrimento e, evidentemente, ténue. vezes, urn desejo muito moderado de se vestirem e de procederem
As interrogaçOes e os receios associados a doença, hem como a dor aos seus cuidados de higiene. Que sentido podem dar ao facto de
que esta gera, hao-de ser, muitas vezes, fonte de sofrimento. No en- estarem limpas, de estarern bern arranjadas e de vestirem roupas de
tartto, uma e outra não se podern conftmdir, porque o sofrimento cidade? A quem podera isso dar prazer? Urn grande ntixnero de pits-
não se pode reduzir a doença. Alérn disso, a doença de mu pode tadores de cuidados apesar do seu olhar que diz <para mirn vocé
provocar o sofrimento dos outros. Não sofrem os pais pela doença existe>', não consegue suscitar esse desejo e ser elemento significa-
do filho? Os casais não são dilacerados pela doença de urn dos con- tivo para actos tao insignificantes.
juges? 0 sofrimento convida a mu olhar mais amplo, mais rico, mais
generosarnente humano do que a simples doença. Esta diferença de
olhar pode explicar o comportamento Mo e autoritário de alguns QLIE E <<CUIDAR'>?
prestadores de cuidados que não vêern no paciente senão as suas
disfunçOes, por vezes consideradas menores, e não uma pessoa em Essa atenção dada ao outro para o ajudar inscreve-se na comple-
sofrimento. Isso e perder de vista que no sofrimento nAo ha gradaçao. xidade. 0 termo comp1exo" designa o que é tecido em conjunto. Isso
Nao he um que seja menor ou major que outro porque a natureza quer dizer que cada urn dos elementos de urn conjunto, de uma
objectiva da afecçao não determina o nIvel de sofrimento vivido pela situação, estão ligados entre si, interagern uns com os outros. Modi-
pessoa, mais exactamente, por uma pessoa. ficar urn (mico elemento do conjunto irnplica uma repercussão nurn
0 lugar deixado a palavra e aos vdrios rneios de expressão e, pois, essen- ou em vérios outros elementos.
cial na prática de cuidar, uma vez que vão pennitir expressar, dizer o sofri-
mento, o sofrimento que o "corpo-sujeito" vive.
Para situar estas palavras na desconcertante actualidade do Cuidar e cornplexo
fenomeno da exdusao, vivido por aqueles a quem se chama SDF (Sem
DomicIlio Fixo), podern ser üteis algurnas palavras extraidas de nina Por mais evidente que isso possa parecer, não estarnos realmente
recente conferéncia pmferida por Xavier Emmanuelli, medico que exer- habituados a pensar e a agir ern complexidade. Nao nos convida o
ce junto dessas pessoas: ((Ito tern exigências de saüde quando estão pensarnento cartesiano a tornar as coisas clams, nItidas e precisas?
no duche, embora apresentem problemas &icos manifestos. Perdem a Para isso, decompomos os conjuntos a firn de estudar as suas mais
imagem do seu corpo que vai ate a perda dos habituais sinais de aler- Infirnas partes observáveis. Na verdade, isso leva-nos a separar as
ta: dor, odores, comichoes... corno consequência desta perda dos si- partes de urn todo com vista a reduzi-lo as suas cornponentes mais
nS de alerta, não ha exigéncias. Esta perda da imagem do corpo é a pequenas. Assirn podernos estudar e descrever meihor os seus me-
perturbaçao essencial. A força de terern deixado de existir no olhar canismos. 0 corpo humano, por exemplo, foi separado em tantos
dos outros, deixaram de existir no seu próprio olhar. A primeira etapa órgAos e funçOes que, no decorrer dos anos, estes têm podido ser
da reinserção é, antes demais, reabilitar a imagem. estudados corn mais precisão. Foi graças a essa separacão dos ele-
mentos que, desde ha dois seculos, puderarn ser realizados estudos
'-' Emmanuelli X., Conference a I'écoie naflonale de Sante publique (ENS!'), Rennes, 16 Outu- cada vez mais minuciosos e audaciosos originando na rnedicina,
bro 1995. uma verdadeira explosão do campo dos conhecirnentos sobre o cot-
32 CUIDAR NO HOSPITAL 0 CUIDAR E 0 CONTEXTO DA SAODE 33

p0 humano. Este pensamento disjuntivo abriu caniinho a especiali- rnente. Este pensamento é, pot vezes, tarnbérn charnado <tholistico".
zação e depois a hiperespecializaçao (quadro 2). For mais interessante que seja, esta abordagern nAo deixa de apresen-
Esta acçäo pode ter sido eficaz na aquisiçao dos conhecirnentos so- tar limites. Encontrarnos nela Os excessos inversos aos do pensamento
bre o corpo humano, mas urn certo niirnero de limites aparece hoje disjuntivo. Corn efeito, uma abordagem global dá uma visAo geral do
corn uma acuidade crescente. Corn efeito, a disjunçao e fruto de uma conjunto sem permitir a identificaçao do seu conteüdo, as subpartes. A
ieduçao a mais mnfirna parte observável o que, progressivarnente, fez globalidade, permitindo identificar os contornos do conjunto, não per-
perder a consciência e o sentido do conjunto. A parte separada, pot mite identificar nem analisar o seu conteüdo. E urn pouco como se urn
exemplo, o milsculo cardiaco, tornou-se uma parte que os espedalistas prestador de cuidados observasse globairnente urn doente sem set Ca-
fazem existir enquanto tad, em estado <puro" sem já estar verdadeira- paz de observar o funcionarnento ou a disfunçao das diferentes partes
mente ligada ao conjunto a que pertence, isolada do ser humano. E que o cornpOem. For vezes, a nocüo de globalidade mascara uma tea-
isto que explica que, em rnedidna, rnuitos medicos especializados ou lidade muito diuntiva quando a palavra global é utilizada para de-
hiperespedalizados se ocupem apenas de urn Orgão ou de uma fun- signar <<o todo que a soma das partes representa". Ter-se-á uma visão
ção sem verdadeirarnente contextualizarem esse órgão ou essa funçao rica da complexidade da situação de urn paciente quando se obtive-
na complexa globalidade de urn individuo. De certa maneim, o indivIduo rarn respostas ao conjunto das questOes relativas as suas necessidades
sO Ihes interessa pelo órgão ou pela funçao que vao examinaz analisaz fundarnentais? A soma das catorze necessidades de uma, pessoa per-
tratar... Aqui está a diferença entre o corpo-objecto e o corpo-sujeito. mitirá, de facto, abordar essa pessoa enquanto sujeito? A expressão
<<abordagem global do padente" ganharia se fosse reformulada.
Quaclro 2. - Três modos de pensamento Estes dois modos de pensamento nAo se adaptarn a realidade
dos sistemas vivos. 0 pensamento é disjuntivo porque separa os
elementos fazendo perder a consciência da sua pertenca a urn todo.
Dá a ilusao de que urn elemento pode existir enquanto tad. 0 pensa-
mento e global quando dá uma visão geral do conjunto sern permi-
fir identificar o seu conteüdo. Dá a ilusao de que o conjunto não tem
subpartes. Estes dois modos de pensamento säo muito comuns, não
pensamento disjuntivo pensamento global so relativamente ao corpo humano rnas tarnbérn na organização so-
cial quotidiana. Arnbos sao, muitas vezes, insafisfatOrios, pot exem-
plo, em matéria de organizacao do trabaiho: e muito difidil suportar
uma decisão pardal, isolada do seu contexto, que nao tenha em conta
a rnultiphcidade dos elernentos em presenca, e igualmente dificil
suportar uma decisao global de urn problema que da a sensação de
ignorar a especificidade do lugar em que as pessoas se encontram.
Revela-se, pois, necessária uma outra maneira de abordar a rea-
lidade, para perceber melhor a sua complexidade.
Alguns autores trabaihararn no sentido de definir esta terceira
pensamento complexo
abordagem. 0 mais conhecido e, sern duvida, o sociOlogo frances
Edgar Morin, cujas obras são uma autoridade nesta matéria.
Os excessos do pensamento disjuntivo levararn progressivamente <<Vivemos sob o dommio dos prmcipios de disjunçao, de redu-
a preconizar urn pensamento global (quadro 2). Este considera que, ção e de abstracção cuio conjunto constitui aquilo a que eu charno
para não perder a riqueza de urn conjunto, convérn abordá-lo global- "o paradigma da simplificacão". Descartes forrnulou este paradigma
34 CUIDAR NO HOSPITAL 0 CUIDAR E 0 CONTEXTO DA SACJDE 35

mestre do Ocidente separando o sujeito pensante e a coisa desert- O facto de <<tocar> nurn elemento do conjunto implica reacçOes
volvida, ou seja, filosofia e ciência, e afirmando corno princIpio de nos outros elementos e assirn sucessivamente. E por isso que se pode
verdade as ideias "claras e distintas", isto e, o próprio pensamento falar de <<situação complexa, porque o encadeamento de todos es-
disjuntivo. 0 paradigma que controla a aventura do pensamento ses elementos faz corn que, a urn dado rnornento, se produza o con-
ocidental desde o século XVII permitiu, sem düvida, os enonnes fronto corn este ou aquele acontecirnento.
progressos do conhecirnento e da reflexao fflosofica; as suas conse- A dificuldade vern do facto de estarmos habituados a tentar racio-
qtf€ncias nocivas so corneçam a revelar-se no século XX. Tal nalizai a identificar uma causa directa em relaçao a urn efeito observa-
disjuncão, rarefazendo as comunicaçOes entre o conhecirnento den- do, a circunscrever bern urn acontecirnento, isto e, a delimita-lo ou
tIfico e a reflexao fflosofica, deveria acabar por privar a ciência de separá-lo. E-nos difidil estabelecer uma relaçao entre o prazer sentido
toda e qualquer possibilidade de se conhecer, de se reflectir e ate de por urn paciente hospitalizado após a visita de urn familiar e a motiva-
se conceber cientfficarnente a si prOpria... ção que se the segue e que modifica o seu comportamento face a doen-
Para especificar o seu pensamento, o autor acrescenta: ça, dando-Ihe mais serenidade e talvez favorecendo, ou ate aceleran-
<<Tal conhecimento baseava necessariamente o seu rigor e a sua do,o seu restabelecimento. A abordagem cientifica da "máquirta hu-
operacionalidade na rnedida e no cálculo; mas, cada vez mais, a mana" e das suas doenças reduziu consideravelmente o nosso campo
rnaternatizaçao e a forrnaJizaçao desintegrararn Os seres e a existên- de visao e a nossa capacidade Para interpretar o que se passa na corn-
cia Para apenas considerarem como realidades as fOrmulas e as equa- plexa situação de vida de uma pessoa ou de urn grupo.
çOes que govemarn as entidades quantificadas. A metodologia do- As interacçOes que se produzern numa tal situação, em que to-
minante prduz urn obscurantismo acrescido, uma vez que já não dos os elementos são tecidos ern conjunto, são interacçoes ünicas.
ha associaço entre os elementos separados do saber ( ... ). 0 conhe- Isto quer clizer que cada situaçao de vida com que o profissional se
cirnento e cada vez menos feito Para ser reflectido e discutido pelos depara e uma situação definitivarnente singular, nunca se repetirá.
espIritos hurnanos, cada vez mais feito para set gravado em memO- Se o complexo é sempre ünico e irrepetIvel, o cornplicado é rnui-
rias informáticas e rnanipuladas... to diferente e supOe, rnuitas vezes, rneios sofisticados. Para ilustrar
0 princIpio do pensamento complexo é que urn Sterna vivo deve, esta diferença, podemos referir-nos a dois autores corihecidos, Michel
ao mesmo tempo, set abordado de forma global sern ignorar os ele- Crozier e Herve Séryex, que apresentam o complexo e o cornplicado
mentos que o compOem e sobretudo sem negligenciar as miiltiplas de maneira tao expilcita corno hurnorIstica. Referem-se a urn con-
interacçOes que se produzem constanternente entre esses vários ele- gresso que se realizou em Montreal em 1993 relacionado corn as
mentos. Isto equivale a integrar a recornendaçao formulada pot A. modemas questOes da gestão51. Urna frase da obra afirma que a dtt-
Watts: <<Vet uma foiha em toda a sin clareza sem perder de vista a rença entre o complicado e o complexo é a dferença que existe entre urn
sua relaçao corn a arvore" Trata-se, portanto, de uma certa maneira, Boeing 747 e urn prato de espaguete;
de combmar os efeitos beneficos do pensamento chsjurthvo - Os ele- Esta forrnulaçao nao pode senäo atrair a atenção do leitor. A ar-
mentos são identiñcados - e do pensamento global - os elementos gurnentaçao não deixa de ter interesse. Corn efeito, os autores expli-
identificados são reurndos num todo - e, them disso, sahentar as m- cam que urn Boeing 747 é cornposto de 35 000 pecas e que, corn pa-
teracçOes constantes entre os elementos A titulo de exemplo, trata-se ciência, tenacidade, perseverança, ordern e rnetodo, seth sernpre
de identificar o musculo cardiaco a fim de o analisar e estudar e, ao possIvel desmontar esse Boeing 747 e voltar a rnonta-lo. E claro que
mesmo tempo, de hgar o seu funcionarnento a todos os outros ele- a tarefa e irnensarnente complicada rnas pode set dorninada e apa-
mentos que fazem a vida do corpo-sujeito reiho pode set reconstituldo. Em contrapartida, Para ilustrar o que e

" Morin E., Introduction a la pensie corn plexe. Ed. ESF, Paris, 1991. ' Crozier M., Séryex K, Vu management panique a I'ent reprise du XXI siècle. Ed. Maxima,
"Morin E., op. cit. Montreal, 1994.
36 CUIDAR NO HOSPITAL 0 CUJOAR E 0 CONTEXTO DA SAUDE 37

complexo, os autores desafiarn-nos, corn urna cother e urn garfo, a Assirn é o set hurnano, complexo. Assirn pode set a acção nurn
tentar tirar do prato duas vezes seguidas a rnesrna quantidade de órgão do set hurnano, cornplicada. Urn nao exclui o outro, rnas nao
espaguete... pode set confundido corn o outro. Realizar actos num corpo hurna-
Alérn do aspecto anedotico, reter-se-á que o complicado é no tern muitas vezes a vet corn o registo do complicado. Ajudar al-
dornirtavel e duplicavel e que e, muitas vezes, sofisticado e especta- guérn nurna situação de vida que the é própria inscreve-se nurn pro-
cular. Os rneios de que necessita são a sua irnagern: técnicos, cesso complexo. Aqui está toda a diferença entre a acção cornplica-
infcrrnáticos, racionais, precisos, grandiosos. 0 complexo é total- da no corpo que o paciente tern ou corpo-objecto e a acção de ajuda
rnente diferente. Nao e dorninável nern duplicável, não e sofistica- complexa que se dirige ao corpo que o paciente é ou corpo-sujeito.
do nern espectacular. Os rneios de que necessita são, por conseguin- E necessário, contudo, notar urn desequilibrio nas nossas represen-
te, rnuito diferentes. Precisando de set reflectidos, não são racionais taçOes sociais. A confusao entre o complicado e o complexo influen-
nern grandiosos. Se o complicado necessita de urna abordagern so- ciou fortemente a irnagern que se tern daqueles que trabaiharn o com-
fisticada e muitas vezes espectacular que perrnita 'dominan> o ob- plicado ou corn ele ern detrirnento dos que lidarn corn o complexo. Dal
jecto, o complexo necessita de urna abordagern mais simples que se resulta toda uma hierarquizacão social na qual quern doniina o com-
enquacira nurna forma de sujeição da situação e que renuncia a urn plicado, o espectacular, é rnuito mais reconhecido - brilha mais - do
conhecimento total desta, corno diz clararnente E. Morin: que aquele que está ern contacto corn o complexo. Esta bierarquizacao
<<Urn pensarnento capaz de conviver corn o real, de dialogar corn existe no seio das profissoes de cuidados. A titulo de exernplo, se é
ele, de negociar corn ele. Haverá que dissipar duas ilusoes que des- erninenternente complicado exercer a profissao de neurocirurgião que
viarn os espIritos do problerna do pensarnento complexo: a prirnei- intervérn microscopicamente nurna parte do cérebro, isso não prova
ra é a de crei que a cornplexidade leva a elirninação da sirnplicidade ern nada a capacidade de esse profissional abordar a situação de vida
a segunda ilusao consiste ern confundir complexidade e complexa de urna pessoa que necessita que cuidern dela.
cornpletacao: urn dos axiornas da cornplexidade é a irnpossibilida- Se levarrnos este exernplo para o plano da enferrnagern, assisti-
de, rnesrno ern teoria, de urna omnisciência. A própria ideia de corn- mos ao rnesmo fenorneno. As enferrneiras e os enferrneiros que tra-
plexidade envolve a impossibilidade de unificat a irnpossibffidade batharn ern reanirnação foram muitas vezes considerados mais pro-
de conduit, uma parte de incerteza, urna parte de indemonstra- fissionais ou mais competentes do que os que trabaiham ern psiquia-
bilidade e o reconhecirnento de urn dialogo final corn o inexplicável. tria ou em geriatria. Ora, a diferença reside apenas no complicado,
A cornplexidade surge a partida corno urna espécie de buraco, de não no complexo. Se a pratica é, por vezes, mais cornplicada, não e
confusão, de dificuldade"32. pot isso que e mais difIcil. Efectivarnente, se é mais complicado vi-
0 autor poe tambern em relevo o que pode parecer desconfortavel giar urn ventilador artificial do que proceder aos cuidados de higie-
para quern é atraIdo por certezas: ne de urna pessoa idosa dependente, isso não deterrnina a cornple-
<<A consciência da cornplexidade faz-nos compreender que nun- xidade das situaçOes encontradas em que, tanto nurn caso como no
ca poderernos escapar a incerteza e que nunca poderernos ter urn outro, se trata de cuidar e, portanto, de dispensar uma atenção par-
conhecimento total: "a totalidade e a não verdade". Estarnos con- ticular a pessoa a quern as intervençOes se dirigern.
denados ao pensarnento incerto, a urn pensamento cheio de vazios,
a urn pensarnento que não tern qualquer fundarnento absoluto de
certeza. Mas sornos capazes de pensar nestas condiçOes drarnati- Cuidar E urna arte
cas".
Cuidar e urna arte, é a arte do terapeuta, aquele que consegue corn-
Moth E., Science avec conscience. Ed. Seull, Paris, 1990. Citado por Lebrun.
binar elernentos de conhecimento, de destreza, de saber-ser, de intui-
' Op. cit.
ção, que the vão perrnitir ajudar alguérn, na sua situação singular.
38 CUIDAR NO HOSPITAL 0 CUIDAR E 0 CONTEXTO DA SACJDE 39

A ciência permite estabelecer conhecimentos globais, que dizern res- descobertas cientificas, todas as proezas tecnolOgicas, todas as cam-
peito as pessoas em geral, conhecimentos esses estabelecidos a partir panhas de inforrnaçao, todas as acçOes de formaçao complementar
da observaçao e da experirnentaçao realizadas nurn grande nürnero do pessoal e todas as reorganizacOes de serviços bem corno os mu-
de indivIduos. Baseiam-se no corpo que se tern. Conseguir adequar meros discursos hurnanizantes apresentam apenas urn interesse
esses conhecimentos globais a uma pessoa em particular não equi- genérico e, por isso, abstracto e ate intitil, por vezes desencorajador
vale a reduzi-la a norma cientificarnente estabelecida. porque despojado de sentido, tanto para os profissionais como para
A..arte do terapeuta é a que the permite apoiar-se em conheci- as pessoas a quem estes se dirigem.
mentos estabelecidos para as pessoas em geral com vista a apro- Jnümeras discussOes têm debatido esta expressão pondo em causa
priar-se deles para prestar cuidados a urna pessoa imica. a sua pertinência e, por vezes, o prOprio fundamento do conceito
Esta noçao de arte não agrada àqueles que vêem nela uma re- que ela veicula. Quanto a mirn, utilizo aqui o conceito de <<cuidar>'
gressào relativamente a ciência. E o caso do pai da medicina cienti- corno urn valor, não corno uma verdade. Corn isto pretendo explici-
fica, que, de forma rnuito expilcita, escrevia: ((E preciso abandonar tamente afirmar que, a partida, nao esté cientificarnente provado
todas essas pretensOes de o medico ser urn artista. Säo ideias falsas que <<cuidar>' seja urn conceito rnelhor do que qualquer outro. Sei,
que so servern para favorecer a preguica, a ignorância e o de resto, que não e novo, o que não o impede de ser sempre actual.
charlatanismo. A medicina e uma ciência e não uma arte. 0 medico Utiliza-lo corno urn valor é situá-io no piano do desejavel, ou seja,
não deve aspirar senäo a ser sábio... . Mesmo situando este dis- parece-me desejável que os profissionais de sa(ide enquadrern cada
curso no contexto da epoca, ye-se hem a confusao, hoje ainda muito vez mais as suas acçOes e as suas reflexOes nesta perspectiva. Este
difundida, entre o estabelecirnento de conhecimentos cientfficos e a desejo ultrapassa largamente o rnero quadro da enfermagem.
prática mediéa. Se os conhecimentos cientificarnente estabelecidos Utilizar "cuidar" como urn valor e não como urn facto cientIfico
a partir da observaçao de urn grande mirnero de indivIduos e iltil a quer dizer que me autorizo a pensar sem apresentar provas materials
prática dos medicos e dos vários profissionais, esses conhecimentos e intfutáveis. Isto não quer dizer pensar sem razäo e sem argumentos,
näo podern substituir-se a prática do cuidar, que diz respeito näo o que já nâo seria pensar. Trata-se de uma orient açäo de natureza fflo-
aos indivIduos em geral mas a um sujeito imnico. sofica. Enunciar o conceito de <<cuidar" sob a forma de valor e não de
verdade cientIfica permite fadilrnente a cada pessoa subscrever este
valor ou desviar-se dele escolhendo uma orientaçao mais cornpatIvel
Cuidar enquanto valor corn as suas ideias ou mais apropriada ao seu projecto, de vida ou
profissional. 0 que irnporta, neste case, é que se trate sempre de tuna
A expressao <<cuidar>', que nao deve ser confundida com a ex- orientaçao que se insaeva numa verdadeira perspectiva de cuidar.
pressão <<tornar conta de'> que tern uma conotaçao rnaterializante Três razOes principais, em minha opiniao, justificam a escolha
e desresponsabilizadora, parece-me sintetizar a missão essencial deste conceito:
dos vários profissionais do cuidar, sejam eles medicos, fisiotera- - a primeira: porque verifico e lamento os desvios do actual sis-
peutas, enferrneiros ou enferrneiras, assistentes sociais, dietistas, tema de cuidados que apenas dé urn lugar secundario ao ser
auxiliares de enferrnagern, ergoterapeutas, técnicos de electro- humano enquanto sujeito singular ou corpo que a pessoa é;
grafia, etc. dernasiado sofrimento e demasiada angtIstia se lêem nos olhos
Corn efeito, sern a perspectiva da atenção particular contida na daqueles que, por vezes de forma duradoura, se vêem obriga-
expressão <<cuidan' e, portarito, da acção especificarnente estudada dos a recorrer a este, sistema por si prOprios ou pan acompa-
para uma pessoa ou urn grupo de pessoas em particular, todas as nhar faniiliares. Essa angüstia e esse sofrimento, frutos da objec-
tivaçao das pessoas, estão cornpletarnente desfasados dos re-
Bernard C., Principes de inedecine expe'rinzentaie, op. cit. sultados tecnico-cientificos atingidos ern outros campos;
40 CU1DAR NO HOSPITAL 0 CUIDAR E 0 CONTE)CtO DA 5A0DE 41

- a segunda: porque urn valor pode ser acessivel a toda a gente. no hospital são do donimnio da saüde individual e, pot isso, não são
Corn efeito, nao é uma representacão inflexIvel e definitiva si- do dominio da saüde püblica. Ern contrapartida, esses rnesrnos pro-
tuada algures no absoluto. Urn valor é aquilo a que Se atribui fissionais considerarn que a pratica rnédica ou de enfermagern nurn
irnportância, e o que vale alguma coisa aos nossos olhos e se centro de saóde, por exernplo, na escola, no trabaiho ou no carnpo, é
deseja fazer viver, é aquio de que não nos queremos separar do domInio da saüde püblica.
ou de que gostarIarnos de nos aproxirnar. Assim, não é correcto Quanto a mirn, insisto ern que Mo haja uma representacaofragmen-
falar de perda de valores na nossa sociedade ou nurna proflssao tada da saáde püblica. Esta diz respeito a csaüde do páblico" ou a saüdc da
mas antes de uma ausência ou de uma falta de desejo ou de populacao e preocupa-se tan to corn os aspectos individuals corno corn os
esperanca que não encorajarn a dar vida a certos valores. Con- aspectos colectivos. Tanto urn hospital corno urn centro de saüde esco-
sequenternente, cuidar, enquanto valor, pode ser acessivel a to- lar fazern parte do dispositivo de sa(ide püblica. Urna enfermeira
dos os que quiserern faze-b viver mesrno rnodestarnente ern no hospital, qualquer que seja o serviço ern que trabalba, e nina en-
certos lugares ou circunstârtcias. A este tItubo, "cuidar" aparece fermeira de urn centro de saüdefazein igualmente parte do dispositivo
corno urn conceito rnotivador porque desejável para todos os de saüde pdblica e, enquadram-se portanto na missao cornurn a todos
que querern sinceramente, rnas tarnbém pacienternente, os profissionais de saáde, que é a de trabaihar por uma melhor sañde
promovê-lo na sua dirnensao profunda e generosarnente hu- da populaçao. Pam todos estes profissionais, trata-se de agir corno vectores
rnana; de saáde páblica. Assirn, náo ha enfermeiras de saüde páblica e outras
- finalrnente, a terceira razão e que o conceito de <<cuidar'> e aber- que o não são. A diferença entre os profissionais reside nos lugares e
to, da urn espaco de liberdade para a reflexao e para a acção nos modos do exercIcio, não na sua finalidade. Isto sublinha a ne-
suficiënternente amplo para não constituir urn jugo ern que o cessária perspectiva dada a acção de cada urn, a da sañde na vida
profissional se veja constrangido ou lirnitado, corno acontece das pessoas ou, rnais exactarnente, na sua situação de vida.
corn as teorias ou corn os modelos que são apresentados corno Esta cisão entre o individual e o colectivo pode set prejudicial
incontomáveis e que, por conseguinte, levarn a uma forma de Para os beneficiarios dos cuidados, pois cone o risco de ocultar urn
pensamento ánica em que o profissional tern necessariamente ou vários aspectos dos problemas encontrados. Corn efeito, qual-
que se situar. A abordagern da pessoa passa a ser uniforrnizada, quer problerna individual de saüde - por exernpbo, urn braço par-
estereotipada e, portanto, consideravelmente reduzida e tido - tern repercussOes colectivas - preparar as refeiçOes ern casa,
ernpobrecida. 0 conceito de cuidar" e aberto ao conhecirnen- manter a casa, ft a escola ou ao trabaiho ou levar os filhos ou o con-
to, a todos os conhecirnentos que permitam rnelhorar, enrique- juge ate lá - e pode tambérn ter origens que afectarn a familia ou a
cer, tornar mais pertinente a ajuda prestada a uma pessoa. colectividade - no exemplo do braço partido, a causa pode estar na
viobência conjugal ou na falta de segurança na escola ou no traba-
Iho. Dever-se-a tambern estar particularrnente atento ao sofrirnento
Cuidar em saüde püblica que urn problema individual pode causar nos outros, ern especial
nos familiares. Serd que o cônjuge, os pais ou osJilhos Mo se inquietarn e
A expressão <<saüde pñblica>' e caracterizada por ser pouco nIti- Mo sofrern mats do que o seu proprio familiar doente? Pensernos tarn-
da. E utilizada, rnuitas vezes, para designar a administraçao do sis- bern na inquietação dos pais que tern de hospitahzar o seu bebe pot
tema de sañde ou das acçOes colectivas que dizern respeito a urn urn problerna difuso, não cbararnente identthcado Quantas vezes o
grande nürnero de pessoas. Para rnuitos profissionais, parece si- sofrunento dos famihares não e neghgenciado ou subestirnado ao
tuar-se fora do hospital. E notaveb a oposicão entre individual e colec- avaharern-se os elernentos da situação encontrada e, portanto, na
tivo. Não é raro encontrar profissionais de saüde que considerarn ajuda que nos propornos dat A repercussão de urn probberna de
que a consulta ern corisultório medico ou que os tratarnentos efectuados saáde nos farnibiares pode ser particularmente irnportante, so-
42 CUJOAR NO HOSPITAL IFX 0 CUIDAR E 0 CONTEXTO DA SAUDE 43

bretudo no caso de afecçOes ou de incidentes forternente geradores E assim que certos autores alertam para as tentaçOes totalitárias
de angUstia ou de luto. hoje estirnuladas pela pressao econórnica. 0 tItulo de urn artigo pu-
Da mesma forma, decisoes ou acçOes colectivas tornadas pelos blicado recentemente no jornal diário dirigido ao grande püblico
poderes püblicos dizern respeito a cada indivIduo que, de uma I Tribune de Genève é eloquente a este propósito: ((Corn o mito da sail-
maneira ou de outra, se deve tornar actor. Pensernos nas dificulda- de perfeita, o nosso corpo deixará de nos pertencer>'. 0 subtItulo
des corn que se deparam os poderes pilblicos em impor o uso do redigido pelo autor dá o torn: ((Proibição de furnai de beber, de in-
-
cinYo de segurança obrigatório nos automóveis tanto a frente corno gent gorduras; obrigaçao de prevenit de despistar e de curar: ama-
-
atrás ou para evitar a conduçao autornobilIstica após a ingestao nha, é garantido, não terernos outro remédio senão morrer em per-
feita saüde". Referindo-se, entre outros, ao livro de Lucien Sfez
dernasiada de bebidas alcoOlicas.
Como se ye, o individual e o colectivo estão intirnarnente ii- I intitulado La sante parfaite. Critique d'une nouvelle utopi&5, o articu-
gados e, de facto, são inseparáveis. Isto não exclui que se pos- lista alerta para as derrapagens que conremos o risco de importar
sam identificar na saide püblica duas dimensOes complernenta- I norneadarnente da America do Norte e que acabarn sempre por in-
res: uma que diz respeito a acção individual que, para ser perth j fluenciar as nossas concepcOes: <<A grande moda da prevencão apa-
nente, deve integran extensöes colectivas; outra que diz respeito rece a longo prazo corno perfeitarnente totalitaria. Efectivamente,
A acçdo colectiva que, para set eficaz, deve interrogar-se acerca do I passa-se, a pouco e pouco, de uma medicina destinada a tratar as
seu efeito individual. afecçoes inclividuais ao fantasma da saMe colectiva. Passa-se da tera-
0 que se revela corno primordial na acçäo de saMe pilbilca, seja pia individual a terapia generalizada. Ai de quern não liver sabido ou
ela individqal ou colectiva, e não extrair ou isolar essa acçäo do seu podido "prevenir-se". Aceitarão as seguradoras pagar o tratarnento
contexto ou, por outras palavras, e situar essa acçdo na particularidade de urn cancro que não tenha sido "prevenido" a tempo? Sem düvida
e na complexidade das situaçaes de vida encontradas. 0 espIrito da sail- alguma, os subsIdios por doença funcionarao embreve Segundo o prin-
de püblica é aquele em que o individual não é isolado do seu cIpio dos seguros autornóveis: o doente será inevitaveirnente culpado
contexto forçosamente colectivo e em que o colectivo näo ignora o
indivIduo enquanto sujeito particular.
[ da sua doença e deverá participar nas despesas que the forem imputa-
das. E, a longo prazo, essa prevenção custard ainda mais cam que o
E exactamente de uma perspectiva de cuidar que a saMe püblica I sistema actual, porque a ültirna astilcia do actual sistema medico será
necessita corn vista a disperisar rnais atenção a pessoa, tanto a tItulo conseguir convencer toda a gente, inclusive as pessoas que gozarn de
individual corno a titulo colectivo. Actualmente, a saMe piiblica pare- boa saMe, a recorrer constanternente aos medicos a tItulo preventivo
ce urn pouco pnisioneira da sua perspecliva colectiva que, curiosarnente, a fim de "despistar" eventuais afecçOes.
não tern sentido para as pessoas que deseja sensibilizar para uma saü- Mesrno que baja quern ache estas palavras urn pouco exagera-
de rnethor. 0 discurso sobre a prevenção, por exemplo, e pnisioneiro das, convérn, no entanto, inclul-lasta sua reflexao. Norneadamente
da abordagern materializante. Dizer a alguérn que fumar é rnau para a quando utifizar a expressão cada vez rnais cornurn cada urn é respon-
saMe muitas vezes não tern sentido para a pessoa, porque furnar sdvel pela sua saüde, pois ela pode levar a interpretaçâo rnalefica cada
dá-lhe prazer e talvez a ajude a viver e a enfrentar as dificuldades ou a urn e culpado da sua ma saáde. No actual contexto econOmico em que
angüstia da sua vida. Se bern que furnar seja considerado prejudicial a sañde está na benlinda pelas despesas que provoca, é desagradá-
ao born funcionarnento dos bronquios e dos pulmoes, talvez, baja ca- vel aparecer corno o culpado da sua rná saMe.
sos particulares em que isso não afecte a saMe da pessoa. Para se ser Nao e fdcfl encontrar o equilIbnio entre o dornInio püblico da sail-
eficaz, não e contra o tabaco que e preciso lutar rnas contra tudo o que de e o da esfena pnivada. Retertha-se que cada profissional de sae
faz corn que urn indivIduo, nurna sociedade, precise desse tipo de palia- _________
tivos. Assirn, convérn ser muito prudente para não pretender ditar ao Sfez L., La sante parfaite. Critique d'une nouvelle utopie. Ed. Seull, Paris, Outubro 1995.
outno o que 6 cu devena ser a sua própna saMe. Tribune de Genève, 2 Pevereiro 1996.
44 CUIDAR NO HOSPITAL

é afectado por este equilibrio. 0 seu cornportarnento deve dar pro-


vas de flexibiidade, de prudencia, de ponderaçao, mas tambern de 2
acçöes. E a subtileza que caracteriza urn dos elernentos do
profissionalismo ern que convérn conjugar, corn maturidade, os sa-
beres estabelecidos em geral e a sua aplicaçao as situaçOes particulares.
Verifica-se assirn que o cuidado, essa atenção particular prestada
ao otitro, é menosprezada pela lógica tecnico-cienfffica. Trata-se de Os cuidados de enfermagem
urn facto que nâo se pode negar se se quiser conseguir fazer evoluir
o contexto actual, pois quanto rnais técnico se tornar o ambiente
rnais o ser hurnano tern necessidade de urna dimensäo relacional.
Con'vérn, pois, reconhecer esse facto, identificá-lo e discutir sobre
ele. B a recornendaçao que nos faz Lebrun: E o essencial do nosso
cliscurso e tirar consequencias desse facto: ern si mesma, a medicina
de hoje e a-subjectiva, nao se preocupa corn os doentes, nao pode Se os cuidados de enferrnagern se enquadram no cuidar, não de-
considerar directamente o paciente; e ha que deixar de o negar, pois vern, no entanto, confundir-se corn este. A atenção prestada ao outro
é essa a sua natureza. Mais do que rnascarar o que e uma necessida- - o cuidado - diz respeito todos os profissionais de saüde, qualquer
de estrutural para o discurso medico, haveria grande vantagern ern que seja a sua profissao especifica. Esta confere-lhes os rneios para as
o declarar para se poder apreciar todo o seu alcance. PoderIarnos suas acçoes, os suportes da ajuda que podern prestar a pessoa. 0 ter-
assim evitar enterrarrno-nos na procura de cornprornissos sernpre rno cprestador de cuidados", tantas vezes atribuldo de forma restriti-
duvidosos porque, dado o seu carácter enganoso, são irnediatarnen- va e redutora apenas aos profissionais dos cuidados de enferrnagern,
te postos ern causa'>37. deveria agrupar todos os que, pela sua actividade profissional, estão
Esta orientaçao tomada pela rnedicina e a dificuldade que daI ern contacto directo e permanente corn os beneficiários dos cuidados e
advérn para o próprio cuidar não deixam de ter efeitos na concep- corn os seus familiares. Deveria, por conseguinte, aplicar-se aos medi-
ção e na evoluçao da prática de enferrnagern. cos, aos fisioterapeutas, as enfermeiras, as auxiliares de enferrnagern,
As assistentes sociais e as dietistas, aos técnicos de radiologia rnédica e
os ergoterapeutas, as parteiras, aos rnaqueiros, as auxiliares de acção
rnedica, as secretárias de unidade...
Os agentes de todas estas profissoes tern por rnissao enquadrarem-
-se na rnesrna perspectiva proflssional, a de piestarern cuidados as pes-
soas, de as ajudarern, de contribuIrern para o seu bem-estar utilizando
as cornpetêndas e as caracterIsficas próprias do exercIcio da sua pro-
flssao. 0 que os distingue não e, portanto, a perspectiva de cuidar que
deveria anirnar as suas acçOes, mas o conteádo destas. Pela sua mis-
são, são os adores privilegiados para desenvolver, concretizar e dar
força a légica do cuidar numa estrutura de cuidados.
Se todos os prestadores de cuidados tern a ver corn esta atenção
particular, corno dernonstrarn os textos apresentados no anexo II, é
porque cada urn deles se dirige a pessoas, a corpos-sujeitos que, a
' Lebrun J.-P., op. cit. esse tItulo, não podem ser partilhados, ser <<joguetes>>, de profissio-
46 CUIDAR NO HOSPITAL Os CUIDAIDOS DE ENFERMAGEM 47

nais a alguris dos quais caberia uma abordagem mais atenta e sin- cidade. Recordemos a evoluçao da medicina e a ruptura que teve
gular enquanto outros poderiarn basear as suas acçôes na objec- lugar no século XIX. A orientação dada a medicina pelas ciências
tivaçao do paciente. Não e, pois, pertinente desenvolver concepcOes <<duras'> so foi possIvel porque aquela consentiu em retirar a pala-
profissionais e modelos organizacionais em que uris tivessem a res- vra ao sujeito; consequentemente, esta abordagem empobreceu a
ponsabifidade do doente enquanto outros se interessassem apenas prática de cuidar dos medicos.
pela doença ou por urn tipo de órgão ou de funçao. 0 doente não e Parece-me interessante realçar urn terceiro elemento. E o dos enfer-
dissociavel da sua doença e, qualquer que seja o nIvel de especiali- meiros que tern a sua disposicao urn leque de meios e tempos de acção
zação dos profissionais, o interesse pela doença não pode suplantar muito mais arnplos do que os outros profissionais. Quando se atingem
o interesse pelo doente. os limites de intervenção dos outros prestadores de cuidados, as enfer-
Assirn, e pela própria qualidade do serviço oferecido a popula- ineiras e os enfenneiros terão sempre a possibilidade de fazer mais alguina
ção pelos profissionais, e conveniente que estes nao se apropriem, coisa por alg-uem, de o ajudar, de contribuir para o seu bem-estar, para a sua
par vezes insidiosarnente - em termos de reflexOes, de discursos e serenidade, mesmo ntis situaçães mais desesperadas. Porque os cuidados de
de publicacOes de enfermagem - de uma forma monopolista dos enfermagern são assirn, compostos de miiltiplas acçOes que são sobre-
cuidados nern mesmo daquilo a que infelizmente e comurn chamar- tudo, apesar do lugar tomado pelos gestos técnicos, uma irnensidao
-se <'o relacional>'. Nesta ordem de ideias, as outras profissoes médi- de <qequenas coisas" que dao a possibilidade de manifestar uma <<gran-
case pararnéclicas não podem exirnir-se desta missao de cuidat desta de atenção>> ao beneflciário de cuidados e aos seus farniliares, ao longo
perspectiva de atenção a pessoa, situando a dirnensão mais profun- das vinte e quatro horas do dia.
darnente humana apenas no que respeita a actos de enfermagem. A
atmosfera de hurnanidade nurn local de cuidados nao é apanágio
de urn ñnico grupo profissional mas decorre de urn estado de espI- As <<pequenas coisas> que cons tituem os cuidados de enfermagem
rita, antes de mais desejado e tornado possIvel pela equipa de direc-
ção, comum a todos os prestadores de cuidados e, de urn modo mais Esta caracterIstica indica, ao mesmo tempo, a força e a fraqueza dos
arnplo, a todos os adores. cuidados de enfermagem. Uma força real e sobretudo potencial, pois
todas essas <pequenas coisas'. são realmente üteis a populacão. Essas
<pequenas coisas" não se devem confundir com <pequenos actos>',
A FORA PA FRAQUEZA DOS CUIDADOS DE ENFERMAGEM <<pequenos comportamentos'> ou <<pequenos gestos calculados> que, a
esse tItulo, poderiarn equivaler a <<quase nada" ou a <<menos que nada'>.
Feito este esclarecimento, parece-me, contudo, ütil sublinhar Trata-se, isso sim, de todas essas <<pequenas coisas>' da Vida, aquelas
que, pela própria natureza da sua profissao, as enfermeiras e as que, para uma determinada pessoa, dao sentido a vida e são impor-
enfermeiros dispoem de trunfos suplementares e de oportuni- tantes. A atençao a essas <<pequenas coisas" revela a preocupacão do
dades bern maiores para exercerem essa arte de cuidar. Por urn lado, profissional corn o outro, na sua existéncia. Participa plenarnente na
porque durante o internamento, tern a possibilidade através de tudo sua saüde. Proporciorta ainda bern-estar as pessoas que recorrern ao
o que constitui a enfermagem, de ao longo do dia estar muito pro- sistema de cuidados. E, sem duvida alguma, a partir da valorizaçao da
ximo das pessoas. Por outro lado, porque os cuidados de enfer- utffidade social de todas essas upequenas coisas>> que constituern Os
magem são pouco pontuados por acçOes cientIficas quantitativas, o cuidados de enfermagem e as qualidades profissionais exigidas para
que oferece urn espaco de liberdade para actuarem como verdadei- Ihes dar vida e sentido que a enfermagem poderá esclarecer e firniar a
ros prestadores de cuidados, cuja finalidade é exercerem uma aPe sua identidade provando, gracas as raizes sOlidas e fecundas que cons-
de enfermagem que a partida não seja limitada e esvaziada da tituem essas <pequenas coisas'>, o seu contributo essencial para a sad-
sua essência pelas regras redutoras de uma certa forma de cientifi- de dos indivIduos.
48 CUIDAR NO HOSPITAL Os CU1DADOS DE ENFERMAGEM 49

A fraqueza dos cuidados de enfermagem é real, ainda que infeliz- de urn rnodo geral, tenha consciência da importãncia que isso re-
mente artificial e contextual. E proporcional a sua força. Efectivamente, presenta para ele, ele espera antes de mais set confortaveirnente ins-
todas essas <<pequenas coisas'> não são espectaculares, não são obser- talado, espera uma palavra de conforto, urn sorriso, urn toque, uma
váveis e rnensuráveis, ou são-no tao pouco que não gozarn da aura fricçao, urnas gotas de ágna para refrescar..., <pequenas coisas>' no
que rodeia os cientistas e os técnicos, cuja actividade é identificável e quadro clinico que ele apresenta mas incontestaveirnente (iteis ao
observável, o que ihes dá prestlgio. Todas essas <<pequenas coisas", seu restabelecirnento, ao seu bern-estar, a sua saüde.
mesmo quando feitas nurn serviço de práticas sofisticadas, nao são 0 estudo realizado no Quebeque pot Anne Legendre-Parent' corn
complicadas quando se enquadram venJadeirarnente na complexidade urn grupo de pacientes que necessitavarn de uma artroplastia da anca
da abordagem do ser hurnano. Na sua realidade profunda, os cuidados mostra as preocupacOes dos pacientes. A autora corneça pot verificar
de enfermagern são, assirn, mais marcados pela sub tileza, pela esponta- que <,as pessoas são adniitidas no hospital corn uma compreensão ii-
neidade, pela criatividade e pela intuiçao do que pela ciencia e pela mitada ou corn urn desconhecirnento do que as espera durante a hos-
técnica. Daf o seu difIcil reconhecimento nurn universo biornedica- pitalizacAo e das exigências da readaptacao ulterior>>. Depois da inter-
lizado, tecnico-cientIfico e onde os princIpios de gestao pretendern es- venção cinirgica, esperarn das enfermeiras elernentos que facilitem o
tab elecer parârnetros para tudo a firn de dominar meihor a actividade. conforto, bern corno urn <<arnbiente agradavel criado pela equipa de
cuidados de enfermagern". Aautora realça, entre outras coisas, a seguin-
Dal tambern que as enfermeiras e os enfermeiros apenas possarn te verificação: <<Após a cirurgia, as pessoas exprirnern preocupacOes
ter urn <(triunfo>> modesto e uma satisfaçao intensa, é certo, mas mais comuns: tern rnedo de vomitat medo de não urinar sozinhas, são desen-
interior do que aparatosa. Pot mais essencial que seja, a sua acção é corajadas a ficar deitadas de costas ... >'. Exprirnern também o rnedo
pouco visIvel e da aos cuidados de enfermagern apenas urn resulta- omnipresente <<de fazer rnovirnentos incorrectos que possarn "partir a
do muito jkuco palpavel. anca">>. Finairnente, Legendre-Parent evidencia que ono que respeita a
A tltulo de exemplo, recordo uma conversa corn urn cirurgiao preparacão para a alta, as pessoas dizern saber o que não devern fazer
num hospital de urn pals em vias de desenvolvirnento. Trabalháva- nos gestos quotidianos para evitar "partir a anca". No entanto, em
mos juntos nos prirtcIpios de organizacão da sua unidade de cuida- casa persistent inquietacOes que se prendern corn os habitos de vida (a
dos. A pergunta: <<Que pensa do trabaiho de enfermagem?" respon- higiene, as actividades permitidas, corno a jardinagern), corn a inter-
deu-rne corn muita rnodéstia: <<Nao imagina 0 sentirnento de poder pretacão das dores nas pernas, corn a recuperacão das forças e corn o
que eu experirnento enquanto cirurgiao quando urn paciente entra retornar dos contactos intirnos corn o cônjuge>>. Verifica-se, assirn, que
no bloco corn uma fractura e sai sem ela, quando urn paciente entra as pessoas, sab em o que não devern fazer, mas são rnenos esciarecidas
no bloco corn um turnor e sai sem ele ... >>. Insisto na sua modéstia. 0 quanto as suas possibilidades, quanto ao que ihes é permitido.
que ele queria era, antes de mais, sublinhar a diferença de estatuto Os elernentos tirados deste estudo rnostrarn aspectos não espec-
social entre as duas profissoes, mostrar consideraçao pot cada uma taculares, cuja utilidade ninguérn nega mas que tern enorrnes duff-
pela visibffidade e pelo resultado imediato que dava a sua profissao culdades em set desenvolvidos e valorizados.
de cirurgiao. Nesse mornento, não pude irnpedir-me de pensar no
bem-estar dado pela enfermeira que, talvez, simples e discretarnen-
te tinha dirigido urn sorriso ao paciente ou the tinha tocado na mao 0 contexto
no momento ern que ele transpunha a porta do bloco operatório... A natureza discreta, diria rnesrno anódina dos rneios de que a en-
Urn outro exemplo mais geral pode ser referido a partir da vigi- fermagem dispöe e o modesto <<triunfo" que proporcionarn so difidil-
lância dos parârnetros vitais após uma intervençao cinirgica. Essa
avaliaçao e importante - e considerada como tal pelo cirurgiao - Legendre-l'arent A., La preparation an dEpart dc/a personne ñgEe suite ñ une arthroplastic de
la hanche se/on une perspective infirmière, Tese de licenciatura da École des Sciences
mas e apenas secundária relativarnente ao acto cirürgico, que é o infirmières, Université Lava!, Quebeque, Canada, e comunicaçäo apresentada no cold-
iinico valorizado. Além disso, aos olhos do paciente, rnesmo que, quio de PRAQSI, Alicante, Espanha, Outubro 1993.
50 CUIDAR NO HOSPITAL Os CUmADOS DE ENFERMAGEM 51

mente se enquadrarn nurna sociedade elitista em que o (<económlcon vra especializada que dá eventualrnente ares de sabedoria mas que
valoriza o sucesso irnediato, o resultado tangIvel e visIvel e o estatuto de modo nenhurn revela urn comportarnento próprio do cuidar...
de quem ganha, criando assim o de quern perde. Assirn, a parcela dos For descqnhecirnento dos cuidados de enfermagem ou pot rejei-
exciuldos aurnenta mas não se liniita aos desempregados ou aos que ção do que eles representarn, os profissionais de enfermagem são
vemos nas ruas, nas estaçoes, no metropolitano. Ha tarnbém aqueles muitas vezes considerados pelos outros - profissionais ou não -
que, apesar de urn emprego e de uma qualificaçao, são exciuldos por como <<submédicos", que não tiveram oporturiidade ou não foram
causa do lugar que a hierarquia das representaçOes sociais ocupa. Es- capazes de <<fazer mechcrna", estando a exercer urna profissão de
tes nao podern senäo ter urna participacao muito fraca nos debates e <<segunda categoria>' em frequente contacto corn o que e <<sujoo e em
nas escoihas que orientarn o sistema em que exercern a sua profissão. que o serviço ao doente é, por vezes, nilnirnizado relativarnente ao
0 mesmo se passa corn a palavra das enfermeiras que, para set enten- que é prestado pelo medico.
dida e eventualmente tida em conta, tern que alterar a sua natureza e A tItulo ilustrativo, a directora de urna escola pós-básica contava-
transformar-se em lógicas cientIfica, económica e de gestão que tern -me um episodio que se tinha passado quando, ainda como enfer-
como temivel efeito apenas atender ao que e visIvel, ao que e para- meira, trabathava numa unidade de cuidados. Urn medico, aprecian-
métrico, e que escondem o essencial dos cuidados de enfermagem, do as suas competéncias, disse-ihe: uQue pena que uma rapariga inte-
retirando-Ihes o que e essencial a sua vida, a sua pereriidade. ligente como você não tenha tirado rnedicina". Sem se desconcertaz
A sociedade, por nina espécie de cegueira colectiva, valoriza quern ela respondeu-lhe: <<Que pena que urna pessoa tao inteligente como o
fez estudos farnosos e exerce profissOes brilhantes. Isto refere-se aos senhor doutor não tenha escothido ser enfermeiroo.
estudos e as profissoes de major prestIgio que os outros, colocarido Esta história não e tinica e foi descrita na literatura profissional ame-
cada profissional na situação de poder ter pelos outros urna certa ricana estabelecendo urna relaçao entre a percentagem de muiheres
dose de desprezo, sofrendo sirnultanearnente o mesmo da parte de que exercern esta profissao e os valores femininos corn que poderiam
quem está nurna posicão superior. Quantas enfermeiras não se quei- contribuir para ela. Urn artigo assinado por Gordon2 intitulado <<Fear
xarão do desprezo que sentem em certos medicos? Quantas auxilia- of caring: the feminist paradox" (0 receio de cuidar, o paradoxo ferni-
res de enfermagem não sentirao o mesmo nas suas relaçoes corn as nino) afirma que as rnulheres e a sua visao de urn mundo mais huma-
enfermeiras? no estão em perigo. 0 paradoxo de feminismo está em que as muffle-
Urn grande nürnero de feridas abertas ou mal cicatrizadas fazern its se distanciararn das profissoes relacionadas corn o cuidar para se
softer na sociedade todos aqueles que vivem ou viverarn a confusao aproximarern das profissoes que tradicionairnente tern a ver corn as
que se instaurou entre a expressão <<fazer da sua vida urn sucesso" e actividades e as preocupaçOes dos homens. De rnaneira insidiosa, as
essa outra reveladora de urn certo estado de espfrito que é <<ter su- profissOes traclicionairnente femininas perderarn algurn do seu valor
cesso na vida'). Esta confusao manifesta o pouco interesse que se dado que as próprias muiheres as abandonarn. Consequenternente, a
atribul ao que a pessoa e, hipertrofiando o que conseguiu fazer ou o situação das enfermeiras não meihomu desde que urn nuirnero mais
lugar que conquistou. significativo de muiheres passou a enveredar pela rnedicina. 0 autor
Para fazer face a este mal-estar, muitas enfermeiras e enfermei- cita ainda urn exemplo vivido por urna enfermeira de Boston seme-
ros consideram-se a si proprios como <<doutorzinhos", usando os- Ihante ao que relatei acirna: <<Por que é que uma pessoa inteligente
tensivaiente Os atributos destes, tal como urn estetoscópio, ou uti- como você e enfermeira? For que é que não e médica?". A enfermeira
lizando a sua linguagem tantas vezes incompreensIvel ou pouco gostaria de responder ao seu interlocutor: <<Nao esta contente pot urna
tranquilizadora para os pacientes. Conservo na rnemória a imagem pessoa tao inteligente como eu ser enfermeira para estar aqui e Die
de urna enfermeira que, <<acothendo>' urn dos meus familiares, the
disse: "Instale-se no seu quarto, minha senhora, que eu volto dentro 2 Gordon S., <Fen of caring: the feminist Paradox-, in American Journal of Nursing, Feve-
de cinco minutos para fazer a sua anamnese". Aqui está urna pala- reiro 1991.
52 CUmAR NO HOSPITAL Os CUIDADOS DE ENPERMAGEM 53

prestar cuidados?>> A representaçao da enfermeira que esta situação pessoa. Isto não significa, de modo algum, que no futuro o complica-
revela parece-me bastante conforme corn a imagem geralmente veicu- I do ou os actos técnicos devam set desvalorizados ou banalizados. Fa-
lada pelos media, norneadamente no cinema. zern parte integrante dos cuidados de enfermagem. No entanto, ha
Dal resulta uma ambiguidade nas representaçOes. Sea sociedade que relativizar a sua importãncia e atribuir-Ihes o devido lugar na corn-
exprime, geralmente, muita simpatia pelas er%fermeiras que são gen- plexidade dos cuidados. Se o complicado está essencialmente presente
fis, pot vezes mesmo bonitas", não se pode confundir essa simpa- em certos tipos de serviços, pot exemplo, in reanimação, o complexo
tia1com o reconhecimento por uma verdadeira profissão de saüde. esta omnipresente desde o momento em que se trata de prestar nina
No própriointerior dasvárias profissoes, estabeleceu-se uma hierar- atenção individual a pessoa. São, pois, as competências relativas a esta
quia absurda mas significativa. Muitos medicos generalistas são des- atenção que são determinantes e não apenas as —necessárias— corn-
prezados pelos seus colegas especialistas. Enfermeiras e enfermeiros petências de natureza técnica. Assim, ocuidaz comurn a todas as enfer-
que exercem em serviços de ponta, de elevada tecnicidade são anima- meiras e a todos os enfermeiros, deveria uni-los, quando o que os se-
dos pot nina forma de sentimento de sup erioridade relativamente aos para e os divide é a técnica ou o tipo de gestos realizados. A este tItulo,
seus colegas que exercem junto de pessoas ditas <crOnicas>>, pot terem o prOprio cuidar tern que set reconsiderado e revalorizado aos olhos
a impressão de exercer uma actividade mais interessante do que eles. dos vários profissionais, e não apenas os cuidados de enfermagem.
As paiavras relatadas por Marie-Claire Carpentier-Roy, tendo interro- São cuidados de enfermagem ricos no seu conteüdo incontornávei
gado enfermeiras de Montreal, são expilcitas a este respeito: ((Set en- e inedutIvel, socialmente üteis mas prisioneiros da realidade desse
fermeira de cuidados intensivos é sinai de qualidades superiores (...) conteüdo e do contexto tanto profissional corno social em que procu-
ele (o seu trabaiho) exige aptidOes intelectuais e afectivas espedais>>3. ram exprimir-se. Os cuidados de enfermagem são dupiamente vIti-
Quantas vezes também os responsáveis, tanto enfermeiros como mas da sua prOpria natureza. Pot urn lado, porque são <<cuidados>> e
medicos ou administrativos, concentraram em serviços de médio e ion-
go internamento o pessoal que Ihes ((causava probiemas", consideran-
i porque o contexto social, bern como o do sistema dito de cuidados,
não e verdadeiramente propIcio a valorização da atenção singular pies-
do que isso era urn mal menor. Tudo se passa como se houvesse situa- . tada a pessoa. Pot outro lado, porque são ode enfermagemo e atestam
cOes de vida mais importantes do que outras. Parece que a qualidade urn conteüdo que, apesar das tentativas para os tornar mais ou menos
do profissional, a importância da atenção prestada a pessoa e a ajuda sofisticados cientifica e tecnicamente, não pode mascarar por muito
que o prestador de cuidados the pode dat eram condicionados pelo tempo a sua componente mais importante, a sua realidade profunda,
nIvel de sofisticaçao dos actos ou pelo tipo de serviço. Nao ha, porém, I a de tantas (pequenas coisaso tao üteis, que não são espectaculares ou,
gradacão no sofrimento, nas interrogacOes ou nas inquietacOes. Não se osão, são-no rnuito pouco, que estão repartidas pelas vinte e quatro
ha situaçOes de cuidados grandes ou pequenas, so ha situaçOes de vida horas do dia e tern nina aparencia tao insignificante que muitas vezes
sempre singulares. A atenção de que essa situação necessita deve set parecem secundárias no ambientetecnico-cientIfico que caracteriza
sempre particular, sem set predeterminada peia natureza da afecção, aquilo a que se chama o mundo da saüde.
peia idade ou pelo serviço em que a pessoa se encontra. Se os discursos medicos, de gestão e de enfermagem não dei-
Esta hierarquizacão inerente as profissoes revela também o lugar xarn de sublinhar o interesse da atenção prestada ao doente e o
preponderante dado ao corpo-sujeito e a tarefa a efectuar. Reflecte rnui- das necessárias (pequenas coisaso, a sua concretizaçao e bern dife-
to bern a confusão que se impos entre o que e complexo o cuidado - rente. Vejamos, para nos convencermos, a importância dos investi-
- -
e o que, por vezes, é complicado o acto ou a tarefa. Assim, o mentos tecnoiOgicos nos serviços de ponta. Observemos agora, pot
complicado supiantou o complexo, e o ado, a ajuda singular dada a contraste, apesar dos esforços feitos, as situaçOes vividas pelo pes-
- -
soal e pelos pacientes nos serviços de internamento rnedio e
Carpentier-Roy M.-Cl., Corps et âme
Montreal, 1991.
-Psychopathologie du travail infirmier. td. Liber, proiongado, particularmente em geriatria. 0 interesse que se mos-
tra pelos mais fracos e pelos mais desarnparados revela, segundo
54 CuIDAR NO HOSPITAL Os CUIDADOS DE ENFERMAGEM 55

Winston Churchill, o nivel de democracia e de desenvolvirnento de As expectativas expressas pe!a populacão por ocasião de urn in-
uma sociedade... Urna publicacao da Organizaçao Mundial de Sail- quérito realizado pela Ordem das Enfermeiras e dos Enfermeiros
de assinada por Henri Vuori em 1984 já chamava a atenção para as do Quebeque (OIIQ) dividern-se em três grandes categorias:
derrapagens das orientaçOes actuais e para as suas repercussOes na - a comunicaçao;
qualidade das prestacöes de sadde. 0 autor especifica que nessa a!- - as aptidOes e os conhecirnentos técnicos;
tura "os programas de garantia da qualidade dedicaram-se quase - as atitudes e os comportarnentos.
exclusivamente a qualidade cientIfica e técnica, ainda que seja cer- Cada urna destas categorias subdivide-se nurn certo niirnero de itens
tamente mais necessário e mais possIvel meihorar a qualidade hu- exprimindo cada um urna expectativa. Vejarno-lo em pormenor.
mana, sobretudo se se quiser oferecer ac, consumidor aquilo que ele
espera. Actualmente tende-se a aperfeiçoar a qualidade técnica dos 1. As expectativas dos paciente relativamente ao pessoal de enfer-
cuidados, o que, sem düvida algurna, näo produzirá, para urn dado magem no que respeita a comunicação.
consumo de recursos, grandes me]Jaorias do estado de saüde>ø. As enfermeiras e os enfermeiros devem:
Para urn sistema de cuidados mais atento a pessoa do beneficiário • ter a amabilidade de se apresentar;
e aos seus fan-tiliares, muita esperança se pode fundar na enferma- • explicar-Ihes os tratamentos e dizer-Ihes se obtiveram os resulta-
gem. Esta engloba, sem contar as auxiliares de enferma gem que tam- dos esperados;
Win são profissionais de cuidados de enferrnagem, metade dos pro- • despender o tempo que for preciso para falar corn eles e, se neces-
fissionais de saüde. Ha aqui urn potencial humano que, se fosse re- sârio, para Dies dar expllcacOes;
velado em toda a sua riqueza, deveria permifir reorientar o sistema • mostrar-se conscienciosos e abertos as suas perguntas e, sobretudo,
Para uni'a rnaior importância atribuida ao corpo-sujeito. A enferma- nâo mentir relativarnente a dor que os tratanientos causam;
• informá-los todos os dias dos cuidados prograrnados e explicar
gem, se estivesse realmente e a todos os niveis reconciliada com a aos membros da famflia como podem colaborar;
natureza proftmda dos cuidados de enfermagem, ou seja, corn as • mostrar coerência quando se trata de os informar para não Dies
'<pequenas coisas" que os constituem, poderia desempenhar urn dar a impressao de que estão a receber informaçOes contraditórias
papel decisivo para o enriquechnento do olhar posto nas situaçOes de pessoas diferentes;
de vida encontradas e na ajuda singular que cada situação requet • responder aos seus charnamentos e aos seus pedidos dentro de
Trata-se de urna questao de valores que traduziriam a responsabifi- urn perlodo de tempo razoável;
dade das enfermeiras e dos enfermeiros como cidadaos, a sua capa- • assurnir a continuidade dos cuidados ou, mais exactarnente, evi-
cidade em se indignar e as suas acçOes em prol da meihoria da san- tar que o pessoal mude constanternente;
de da populacao. • inforrná-los sobre as consequências da doença que os afecta, bern
como sobre as razOes que justificam o recurso a urna intervençao,
de modo a que não tenharn a sèhsação de ser postos a rnargem;
• transmitir aos outros rnernbros da equipa de cuidados a informa-
AS EXPECTATIVAS DA POPLILAcAO ção que receberam dos pacientes a firn de estes nAo terern que res-
ponder várias vezes as rnesmas perguntas;
o estudo mais recente a este respeito parece-me ter sido realiza- • responder as suas perguntas e satisfazer as suas necessidades, mas
do no Quebeque. Foi publicado em 19961. tambem saber prevê-las, reconhecendo e interpretando os sinais
reveladores de urna necessidade ou de urna preocupacão, de rnaneira
a evitar-lhes terern sernpre de pedir, de irisistir, de explicar;
Vuori H., <L'assurance de la qualité des prestations de sante", in La sante publique en • dar-Ihes a sensação de que são realmente escutados e interessar-se
Europe, a° 16, OMS, Bureau regional de I'Europe, Copenhaga, 1984. pelos seus problernas e pelas suas preocupaçOes;
Millar C., <tA la rencontre des bes&ms des clients", in L'infirmiere du Quebec, Marco- • dizer-ilies claramente aquilo que tern ou não direito a esperar.
-Abril 1996.
56 CuDAR NO HOSPFFAL Os CUIDADOS DE ENFERMAGEM 57

santes sobre o que a pessoa doente espera, entre outros, dos profis-
2. As expectativas dos pacientes relativamente ao pessoal de en- sionais de enfermagem6.
fermagem no que respeita a aptidoes e competências técnicas.
As erifermeiras e os enfermeiros devem: • .•• S.. S •••S SS• SS• •S •• .
•• ••• e• S S 5555 S• S
• saber dar uma injeccao;
• ser capazes de explicar a técnica utilizada;
:• Este-me, senhora enfermeira!
Eu tinha forne e não podia corner sozinho.
:
wo possuir conhecimentos tecnicos avançados e mostrar segurança;
• saber dar atenção aos pormenores, mostrar delicadeza e ter aten-
:•A senhora deixou o tabuleiro fora do meu alcance e depois
discutiu as minhas necessidades nutricionais nurn colóquio.
:
çOes individuals para que eles se sintarn a vontade; : Eu tinha sede e nao podia beber sem ajuda. :
• adoptar urn determinado ritmo de cuidados segundo urn hor&io
que thes seja aceitável. :•A senhora pôs-me uma garrafa de água na mesa de cabeceira
e depois tornou nota de que eu nao tinha bebido nada.
:
•Sentia-me sO e tinha medo.
3. As expectativas dos pacientes relativamente ao pessoal de en- : A senhora deixou-me sozinho porque eu era um doente :
ferrnagem no que respeita a atitudes e a comportamentos.
As enfermeiras e os enfermeiros devem:
:•cooperante e nunca pedia nada.
Pensavarn que eu ia rnorrer.
:
• compreender e mostrar-se presentes e atentos;
• dirigir-se-Ihes de maneira educada e respeitosa, mostrar-se sorriden-
:•Pensando que eu nao ouvia, a senhora clisse que esperava que
eu não morresse durante a sen turno da noite.
:
tes e calovsos em vez de Ihes dar a impxessAo de que incomodarn; :•Ocupe-se de mirn!
Estou tao cansado, tao so e tenho medo.
:
• dominir as suas expressOes faciais, pois estas podem set inter-
pretadas como sinais de urn diagnOstico on de urn pmgnOstico pouco :• -
Fale comigo pegue-me na mao.
Reconheça o que e importante para mirn.
:
encorajador;
• mostrar-se dignos de confiança e respeitar os compromissos as- •For favor, senhora enfermeira, escute-me!
surnidos em relação a eles;

••.. S.. ••• •• S•• S• S•• S•• •• •• e• •• S 55eS••
S

• não dar a impressao de que ninguém tern tempo para eles e não
flies dizer frases como <dsso não é coungo> ou <<estA na hora do meu Por ocasião de urn colóquio orgariizado pela <<École superieure
intervalo'>; d'eriseignement infirmier de Lausanne> (Escola superior de enfer-
• respeitar a sua autonomia, a sua dignidade e o sen direito a inti- magem de Lausana) em Marco de 1996, os organizadores tinharn
midade, hem como os seus valores e as suas crenças, e aceita-Ios convidado pacientes para dar o seu testernunho7. Estes, corn muita
come são, mesmo quando vivem uma situação difIdil; sirnplicidade, pudor e clareza, expressararn algurnas expectativas e
• ter uma atitude e comportarnentos que revelem que se preocu- ate recornendaçOes as enferrneiras e aos enfermeiros. Destas So três:
pam corn eles; - lembrar-se de que o quarto em que o paciente se encontra, se
• tranquiiza-los e dizer-ihes que vão ser capazes de se desen- bern que pertenca a estrutura de cuidados, e para ele urn espaço
vencilhar quando voltarem para casa; privado, o ünico que tern. E, pois, irnportarite, não entrar de
• respeitar os seus direitos e dar-Ihes a sensação de serem senhores repente nesse espaco mas permitir que o paciente, rnesmo em
da situação. alguns segundos, se prepare para essa (<rntrusao)'. 0 testemunho
insistia em que alguns prestadores de cuidados não batiarn a
porta antes de entrar. Outros batiam, mas abrindo a porta ao
Urn texto bern rnais antigo e menos formal, de 1971 e publicado 6 Texto de Ruth Johnson publicado em American Journal of Nursing, em Fevereiro 1971.
nos Estados Unidos, dá também algurnas iridicaçOes rnuito interes- ESE, Coloquio Prendre soin de l'hu main. Lausana (Suica), 6 e 7 de Marco 1996.
58 CIMDAR NO HOSPITAL OS CUIDADOS DE ENFERMAGEM 59

mesmo tempo ou, as vezes, prirneiro abriarn a porta e depois Os autores sublinham a dificuldade das enfermeiras de saüde co-
batiam. A expectativa concrete expressa é a de bater, esperar munitária quando se vêern na obrigaçao de especificar, diante dos
apenas alguns segundos para dar tempo a que o paciente se outros mernbros da equipa pluridiscipiinar, o seu contributo parti-
prepare para essa visita a sua esfera privada e depois abrir a cular para a saüde.
porta; Fazem tambérn referenda a diversas publicaçOes. Mencionam urn
- nâo negligenciar a importância de urn sorriso, de urn sinai de trabaiho de Stevens' que apresenta a dificuldade que as enferrneiras
sirnpatia, de urn pouco de calor. Mostrar disponibilidade não tern em se fazer reconhecer como profissionais. 0 tItulo de <<profis-
falando corn o doente corn nina mao na rnaçaneta da porta. sao> e dificil de justificar quando os membros tern conhecimentos
Assirn, evitar-se-á que o doente tenha a irnpressao de incomo- superficiais de várias disciplinas mas não tern conhecimentos pro-
dar os prestadores de cuidados, de ser para eles urn fardo. Este fundos de nenhuma discipiina em particular. A enferrneira arvora-
sentimento coloca o doente em situação de dependéncia e de -se, em caso de necessidade, em pseudornédico, fisioterapeuta oca-
in.ferioridade. Poe-no pouco a vontade porque o culpabiliza pelo sional ou dietista provisOria. Nesta ordem de ideias, urn trabaiho de
facto de estar doente e de precisar de ajuda. Uma das testernu- Roy e Roberts" apresenta a dificuldade que as enferrneiras tern em
nhas afirrnava que certos dias podia passar sern ansioliticos, satisfazer realmente os critérios de uma profissao. Os autores per-
consoarite o primeiro contacto da manha fosse caloroso, sorri- guntam se as tarefas de enfermagem não podem ser confiadas a
dente e descontraido ou, pelo contrário, frio, distante e apres- outros intervenientes tais como dietistas, ergoterapeutas, fisiotera-
peutas, assistentes sociais, etc. Outros autores, como Quinn e Smith",
sado; sugerem que, de urn modo geral, as funçOes da enfenneira podern
- evitar, enquanto prestadores de cuidados, resolver entre si pro- ser desernpenhadas por outros profissionais de saüde ou pot pes-
biemas de organização ou exprirnir mau humor relativamente soal auxiliar. Segundo estes autores, respectivamente enferrneira e
a este ou àquele colega de trabaiho no quarto e na presenca do filOsofo, a enfermagem constitui uma redundanciafuncional.
doente. Isto reforça a impressão de incornodar, de não existir, A expressão <<redundância funcionab> nao e gratificante e e pou-
visto que as discussOes não the dizem respeito e não associam co encorajadora para construir o futuro. Para além da prOpria ex-
o doente. Estas discussoes contribuem para urn sentirnento de pressão, tenhamos atençAo aos efeitos das lógicas da gestão. Partin-
irisegurança e não para a serenidade. do da tarefa a realizar, estas iógicas são cada vez mais aliciadas pe-
Tambérn aqui, estes elementos de testemunho mostram expecta- las reduçOes de custos, logo, pot uma redistribuiçao das tarefas por
tivas que não são nem sofist-icadas nem espectaculares rnas são in- outras categorias de pessoal, menos qualificado e, por isso, menos
dispensáveis ao bern-estar das pessoas. Exprimem a atenção parti- caro, pelo menos no que se refere ao custo salarial imediato. E o que
cular que os doentes e os seus familiares, esperarn. refere Gyslaine Desrosiers12 , presidente da Ordem das Enferrneiras
e dos Enferrneiros do Quebeque, num dos seus editoriais. Esta auto-
ra verifica que, em certas estruturas de internamento de longa du-
ESPECIFICAR Os CLIIDADOS DE ENFERMA GEM
Stevens B. J., Nursing theory. Analysis, application, evaluation. Ed. Little Brown, Boston,
Urn artigo assinado por Evelyn Adam e Mireille Guyonnet8 mos- 1979.
tra a necessidade de ciarificar e especificar o contributo dos profis- ° Roy C., Roberts S. L., Theory construction in Nursing. Ed. Englewood Cliffs, Prentice
sionais dos cuidados de enfermagem num contexto pluridisciplinar. Hall, New Jersey, 1981.
11 Quinn C. A., Smith M., The professional commitment: issues and ethics in Nursing. Ed.
Saunders, Filadelfia, 1987.
Guyonnet M., Adam E., ccL'infirmiere dans l'équipe pluridisciplinaire", in L'inflrmière "Desrosiers C., Editorial ,Les usagers des CHSLD ont-ils encore besoin de soins
canadienne, volume 88, n° 10, Novembro 1992. infirmiersb', in L'infirmière du QuEbec, n° 1, 1993.
60 CUIDAR NO HOSEFFAL Os CUIDADOS DE ENFERMAGEM 61

ração, Os gestores suprimiram os lugares de enfermeiras chefes e forem menos necessitarn de qualificaçao. Assirn, conheci intneros
reduziram a actividade de enfermagem apenas aos actos técnicos gestores que não viarn por que haveriarn que recrutar pessoal de
(injecçOes, pensos, etc.) que são efectuados em funçao das prescri- enfermagem quando, em certos sectores, nao havia senão actos de
çOes. Todos os outros <<crndados de enfermagem>> são confiados aos <<nursing>>13. 0 seu radocmnio é lOgico na medida em que as tarefas a
<<awdliares de acção médica>>. A argumentação apresentada é que as efectuar não exigem uma grande formaçao, e assim chegarnos a
estruturas de iriternamento de longa duraçao são, antes de mais, noção do '<bom senso>>. Além disso, corresponde a imagem que os
locais de permanência e não urn hospital, e, nesta perspectiva, a corn- próprios profissionais de enfermagem dão da distribuiçao das tare-
petência profissional exigida não é a dos profissionais de cuidados fas. Nao é verdade que, em certas equipas, se diz: <Hoje nao ha
de enfermagem mas a do born senso. muitos cuidados de enfermagem, sO ha "nursing">>?
Finalmente, näo se pode perder de vista que as próprias técnicas
médicas evoluem. Tomam-se, assim, cada vez menos invasivas. Por
Que evoluçao? isso, são menos traurnatizantes e precisam de uma vigilfincia pos-
-operatOria ou pOs-intervenção diferente e sobretudo de urn perlodo
Mesmo para lá das palavras, e sem negar as competências e as de intemarnento menor. Nao ha qualquer comparação entre a ablaçao
qualidades humanas dos <<auxiliares de acção médica>', esta orien- de urn tumor do pulmão por toracotomia e o que hoje se faz por
tação não deixa de ter interesse por vérias razOes. celioscopia. 0 mesmo se passa corn os bypasses coronários que, apOs
Em primeiro lugar, mostra, como se ainda fosse necessário, a ima- uma estreia mundial realizada em Franca em 1995, podem agora ser
gem muito técnica e muito paramédica das enfermeiras e dos enfer- executados pela mesma técnica. As técnicas médicas vao assim alte-
meiros --2 ou seja, situa-se na subdivisao do trabalho medico. Esta raE profundamente o panorama hospitalar no qual, a longo prazo, o
iinagem, construlda sobretudo pelos próprios profissionais, não con- internamento terá quase desaparecido. Mesmo corn esta evolução,
segue dar-Ihes uma dimensao mais centrada na ajuda singular pres- defendemos que o hospital terá sempre necessidade de pessoal de
tada a pessoa, quàlquer que seja a natureza técnica das interven- enfermagem, mas o seu nümero e as suas funçOes serão alterados. 0
cUes. Dal resulta que, além da técnica e da aplicaçao da prescrição hospital do futuro assemelhar-se-á mais a uma plataforma técnica a
médica, as enfermeiras e os enfermeiros nao sejarn vistos como que cada urn - pacientes e medicos - acorre em funçao da hora
verdadeiramente indispensáveis ao bom ftrncionamento de nina marcada As enfermeiras e os enfermeiros serão ainda mais <<auxiha-
estrutura de cuidados ou que sejarn vistos apenas como alguem fa- res medicos>> se não conseguirem dar a sua proflssao uma outra di-
cilmente sub stituivel. Chegarnos assim a noção de cedundância fun- mensão que não seja tecmca Neste caso, deixara de haver no hospi-
cional>>, uma vez que os actos prescritos poderiam ser efectuados tal verdadeira especthcidade de enfermagem, tanto mais que o seu
pelos prescritores enquanto os outros, pouco técnicos, poderiam ser nurnero tera que ser reduzido Essa redução não sera devida tanto
efectuados por pessoal auxffiat As restnçOes orçamentais como a quase mexisténcia da funçao inter-
Alérn disso, esta irnagem técnica paramédica tao valorizada no narnento Esta onentação ja foi considerada nos Estados Unidos em
contexto descrito acirna ja provocou ama cisao de facto entre aque- 1988 no auge da escassez de enfermeiros Corn efeito, para fazer
les que são especializados na técnica e os que o são nos cuidados face a essa escassez, os medicos propuserarn a cnação de urn corpo
ditos de base. Esta cisão leva, a pouco e pouco, a duas profissoes de assistentes tecnicos (Registered care technician - RCT) A for-
- diferentes, uma voltada para a técnica e a outra voltada par os cui- mação que estes medicos desejariarn ver dada a tais assistentes tec-
dados <<de base>>. Ora, actualmente a determinaçao da qualificacao nicos sena de trés a nove meses, consoante a actividade Esta dura-
do pessoal so tern em conta a competéncia técnica. Isto näo é de çäo representara o tempo calculado para se aprender exciusivarnente
admirar, pois todas as abordagens se baseiarn essencialmente na ta-
refa a efectuar e, nessa logica, quanto mais simples e correntes elas e alimentaçao (N. do t).
62 CUTDAR NO HOSPiTAL Os CUIDADOS DE ENFERMAGEM 63

o conteüdo tecriico da enfermagem? Esta proposta, apesar do peso (<Eu dividiria a procura em três grupos:
dos medicos, acabou, no entanto, por nao se concretizar devido a - procura de cuidados curativos individuais depois de um aci-
oposicão dos enfermeiros que viarn nela uma restrição do seu cam- dente ou de urna doença fIsica elou mental;
p0 de acçäo e urna possIvel dirninuiçao da qualidade dos cuidados - procura de cuidados de ajuda pan viver e também para mor-
dado o nürnero acrescido de intervenientes'4. rer corn dignidade. A procura é individual mas tambem fami-
Se a eafermagem ye o nürnero dos seus profissionais dirninuir liar, pois afecta todas as idades da vida;
na4rea da prática hospitalar, nada garante que seja mais significa- - procura de proteccão mais difusa, rnenos nitida, ao mesmo tem-
tivo o ndmero dos que exercem no sector extra-hospitalar, nomea- po individual mas tambem colectiva - prevenir - promover
damente nas estruturas de internamento de media e longa dura- a saüde.
ção. Ora, o enveihecimento e a evoluçao da dependência da popu- <<Diante destes três tipos de procura coloco três grandes familias
lação tornam estas estruturas cada vez mais necessarias. Por conse- de profissionais ou ate tres tipos de enfermeiras".
guirite, convém iniciar sem demora urna viragem que permita mos- Na area do curativo, a autora considera que o detentor da res-
trar o interesse real da presença de enfermeiros em outras estrutu- posta será o medico ajudado por enfermeiras e enfermeiros que,
ras que näo sejam o hospital. Nao num espfrito corporativista e de eventualrnente, nao manterão esse titulo. Actuarao corno auxiliares
defesa do território mas no de competências üteis a evoluçao das medicos. Na area da ajuda para viver, considera que os profissio-
necessidades de saüde da populaçao. Esta por fazer urn trabaiho nais de enfermagern poderiarn ser os detentores da resposta encar-
importante para methorar a imagem das estruturas extra-hospita- regados, entre outras coisas, de coordenar a acção dos outros profis-
lares, coma mostram as palavras de Nadege Maréchal apOs urn in- sionais de sañde. 0 exercIcio será sobretudo no domicffio e nos esta-
quérito a eMermeiras que tinham deixado o hospital: <<Ao abando- belecirnentos que propOern urna alternativa a hospitalizaçao. Final-
nar a estrutura hospitalar, a major parte das enfermeiras inquiridas mente, na area da promoção da saüde, a autora pensa que o detentor
procurou sobretudo a qualidade das condiçOes de trabaiho: con- da resposta 6 politico, e que as enfermeiras e os enfermeiros poderao
fessa que o interesse por urn trabaiho hospitalar raramente é corn- contnibuir, corno peritos, corn urna funçao de conseiheiros.
pensado>>'5. Y. Sibiril especffica ainda que para cada urn destes tipos de profis-
Por ocasião do Congresso internacional de Saint-Malo que se tea- sionais ha que detenninar prograrnas e momentos de fonnaçao ade-
lizou em 1995, Yvonne Sibiril dava a sua visão prospectiva'6: <<Ha quados. Entre outras coisas, insiste no nIvel de competência dos for-
que refazer a panorfirnica dos profissionais de saáde (incluindo me- madores.
dicos). Para isso, devemos: 0 fib condutor mais pertinente, mais solido mas tarnbérn mais efec-
- observar e analisar a procura; tivo para orientate garantir esta evoluçao dos cuidados de enfermagem
- partir nào da oranizaçäo das instituiçOes mas sirn da procura e o que se refere constantemente a natureza proftmda desses cuidados.
por pane da populaçao. Todas as nossas acçOes actuais estão
centradas na organizaçao da resposta e näo na analise da pro- 0 essencial e o acessório
cura.
A abordagern de Jean Watson" é interessante para o conjunto
14 Donley R, The gift from theAmeican Medical Association", Guest Editorial, in Nursing dos prestadores de cuidados, mesmo se procede de urna separacão
health and care, volume 9, no 7, 1988. entre dois aspectos do cuidar irremediavelmente associados.
15 Maréchal N., "Regard des infirmières extra-hospitalieres sir l'exercice de leur métier a
l'hôpital>, in Cahiers de sociologie et démographie medicates, XXX' année, no 4, 1991. A autora estabelece assirn a diferença entre o essencial e o aces-
16 Sibiril Y., L'infirmiere demain: me prospective parmi d'autres". Conferéncia proferi- sorio dos cuidados de enfermagem Afirrna que
da no Congresso internacional U soin infirmier dons le système de sante— quel avenir pour
quel soin infirnzier?, organizado por ENSP e UCL, Saint-Malo (Franca), 10-12 Maio 1995. 17 Watson J., Nursing: the philosophy and science of caring. Ed. Lottie Brown, Boston, 1979.
64 CUIDAR NO HOSPITAL Os CUIDADOS DE ENFERMAC3EM 65

- a essência dos cuidados de enferrnagern é a acção interpessoal Por rnais banal que este exernplo possa parecer, recordernos que
da enfermeira e do paciente corn vista a produzir neste urn re- inümeras pessoas não tern vontade de se lavar ou de se vestir corn
sultado terapêutico; esrnero ou sirnplesrnente de lavado porque, a seus othos, isso não
- o acessório dos cuidados de enfermagern é o conjunto das téc- tern qualquer sentido, pois nao vêern para quern o deveriarn fazer,
nicas, dos protocolos, das termirtologias, das formas de organi- nina vez que não tern o sentirnento de existir para os outros, no olhar
zação, dos contextos dos cuidados... utili.zados pelas enfer- dos outros, isto e, de ter irnportãncia aos olhos dos outros.
rneiras. Centrar o trabaiho de enfermagern na tarefa a efectuar e, de fac-
Esta abordagem pOe a tOnica no que é essencial, ou sa, na relaçao to, centrá-lo no acessório, faltando-Ihe a sua dirnensao essencial,
entre duas pessoas, urna prestadora de cuidados e outra beneficiária aquela para a qual são precisos verdadeiros profissionais: a do sen-
desses rnesrnos cuidados. E esta relaçao que vai permitir esperar urn tido que todas essas tarefas passam a ter para deterrninada pessoa.
resultado terapeutico entendido no sentido de <<contribuir para o bern- Se so se desenvolver o acessOrio, so as tarefas são indicadas e iden-
-estar>> e não no sentido restritivo de curar ou de tratar. tificadas. Estas servern, então, para a hierarquização inerente a profis-
A autora estabelece, alérn disso, nina diferença corn o acessOrio, são ê para os vários instrurnentos relativos, entre ouftas coisas, a me-
isto e, o que serve de suporte a actividade de enferrnagern. 0 terrno dida da carga laboral. Quando se aborda a enferrnagern apenas a par-
acessOrio tern urna conotação urn pouco redutora porque poderia ser fir do acessOrio, rapidarnente se verifica que são rnuito poucas as tare-
entendido corno <<o que não tern irnportância>>. Nao é, evidenternente, fas de urn nIvel de cornplicacão que precise de profissionais qualifica-
este o sentido que the é atribuildo, porque urn acto técnico, por exern- dos. Assim, encarada desta rnaneira, a tarefa acaba por poder ser con-
plo, mesmo que sa do dominio do acessório, é irnportante e, por con- fiada a pessoal rnenos qualificado ou não qualificado. Se se considera-
seguinte, deve Aer realizado corn todo o rigor. No entanto, o termo rern os cuidados de higiene apenas do ponto de vista do acessorio,
e
acessOrio permite estabelecer a diferença entre o ado que realizado estes passam a ser urn acto da vida quotidiana que apenas necessita de
e
- não senão urn acessOrio - e o sentido que pode ter para urna urna forrnaçao rnuito breve para ser <<feito" a outra pessoa. Urna abor-
pessoa. E a rnaneira corno urn ado ou urn gesto torna sentido para a dagem diierente consiste ern ver esses rnesrnos cuidados de higiene
pessoa, que faz corn que ele the sa de ajuda e que contribua para o do ponto de vista do essencial ern que, ern rnuitos casos, profissio-
seu bern-estar. Aqui reside a ñnica e verdadeira cornplexidade da en- nais experirnentados não rnostrarn ainda capacidade para tentar
fermagem, a de dar sentido, para nina pessoa ern particular, a urn con- dar-thes sentido individual. 0 acessOrio inscreve-se na repeticão do
junto de elernentos acessórios que, enquanto ta!, não dizern respeito ado, o essencial na criação sernpre (mica de urna atenção particular, de
senão aos indivIduos em geral. Voltarnos a diferença entre o corpo que urn acompanhamento singular e da ajuda que daf decorre.
o paciente é ou corpo-sujeito, que precisa de urna acção portadora de Note-se igualmente que o acessório, pelo facto de se poder repe-
sentido e que é do dominio da essência dos cuidados de enfermagern, fir sempre que se quiser, leva a rotina, logo, ao desinteresse pela
e o corpo que a pessoa tern ou corpo-objecto, que, quando e reduzido a profissao exercida. Isto é fonte de rnal-estar e de stress na enferma-
So, não tern direito senão a actos acessOrios. gern. Como observava Marie-Claire Carpentier-Roy no seu estudo
A tItnlo de ilustraçao, tomernos o exernplo dos cuidados de higie- realizado no Quebeque, o que e rnais duro para as enfermeiras e
ne. Estes são do doniinio do acessório enquanto técnica de cuidados. para os enferrneiros é a ausência de conteüdo significativo da tarefa
Continuarao a ser acessOrios se o oljectivo do prestador de cuidados é efectuada. A autora afirrna que <<os resultados do inquérito demons-
<<tornar o paciente lirnpo'>, é urn objectivo que tern aver corn a higiene. tram a subordinação das irnposiçOes rnateriais ao conteüdo signifi-
Cornpletarnente diferente é a acção que 11ão visa apenas o aspecto hi- cativo da tarefa. DaI que a dificuldade fIsica da tarefa, face ao prazer
giénico, o da <<limp eza do corpo>, mas antes, partindo desse ado, visa e ao sofrimento, esteja clararnente sujeita a dificuldade fIsica asso-
contribuir para o bern-estar da pessoa procurando que esses cuidados ciada ao conteádo significativo. Isto vern contradi.zer, ou, pelo me-
de higiene ganhern sentido para ela, na sua vida. nos, mafizar a ideia cornurn de que as enferrneiras se sentern sobre-
66 CuIDAR NO HOSPITAL Os CU1DADOS DE ENFERMAGEM 67

tudo agredidas pelo aumento de carga fIsica do trabaiho; mesmo <'Os cuidados de enfermagem mpresentam urn assunto vasto e de
que essa carga fisica do trabalho tenha, de facto, aumentado, não é uma grande complexidade. Sao de catheter universal e multi -
esse o ceme da sua insatisfaçao; sofrimento e prazer são antes de dimensional, singularizando-se em cada cultura, em cada sistema so-
mais tributários do conteüdo significativo da tarefa>>18 . cio-económico, em cada situaçao. Se hi assunto delicado, este é urn
Os trabaihos de Watson, por mais interessantes que sejam, nao deles, devido as zonas de interferência de saberes, de poderes e de
contemplam senão os cuidados de enfermagem. Efectivamente, a decisOes que suscita.AssuntodifIcilporquefadlrnenteredutIvelaapli-
essência da profissao de todos os prestadores de cuidados inscreve- cação de uma técnica, de urn sisterna estereotipado ou, pelo contrário,
-se numa relação interpessoal, quer esses prestadores de cuidados incompreensIvel devido aos mültiplos aspectos que levanta. Assunto
sam medicos ou fisioterapeutas... Cada urn desses prestadores de [ fundamental porque associado a hábitos de vida, a crenças, a valores
cuidados tern a sua clisposicão urn acessório proveniente de modo que fazern ressoar em nós as interrogaçOes mais essenciais da vida, ou
mais particular da especificidade da sua profissao. Todos esses seja, a morte, a sexualidade, o amor, o sofrimento, o trabaiho.
profissionais, se limitarem a sua perspectiva de acçOes apenas ao Vé-se ate que ponto a autora se dedica ao que vive, logo, ao que é
acessório, ajudarn bern pouco as pessoas a quem essas acçOes se di- complexo e não redutivel a uma descrição mais ou menos exaustiva.
rigem; sao, nesse caso, muito pouco prestadores de cuidados. Quanto a mirn, quando alguém me pede que diga o que são, pa-
Partindo de uma logica pluriprofissional de cuidar, pode consi- rece-me que os cuidados de enfermagem são a atenção particular
derar-se uma outra formulação: prestada por uma enfermeira ou por urn enferrneiro a uma pessoa
O que faz a essência da prática do cuidar, que pennite prestar -
e aos seus familiares ou a urn grupo de pessoas corn vista a -
cuidados a uma pessoa, é a relação interpessoal de urn beneficiIrio ajudá-los na sua situação, utilizando, para concretizar essa ajuda,
de cuidados, que precisa de ajuda, e de uma pessoa prestadora de as competências e as qualidades que fazern deles profissionais de
cuidados que tern por rnissão ajudar, e isso nurna situação de vida enfermagem. Os cuidados de enfermagem inscrevem-se assirn
em que o prestador de cuidados e chainado a intervir. WI
nurna acção interpessoal e compreendern tudo o que as enfermei-
O que faz o acessório da prática do cuidar são os vários meios, ras e os enferrneiros fazern, dentro das suas cornpetências, para
mais ou rnenos especIficos, de urn grupo de profissionais que ser-
F
prestar cuidados as pessoas.
vern de suporte a acção de cuidar. Esses rneios são de naturezas Verifica-se, deste mode, que o seu conteádo é diverso, variado e
diversas e variadas e dependem tanto dos aspectos técnicos como indivisIvel. Consiste tanto em colocar nina perfusao como em pro-
dos aspectos cientIficos, educativos, organizacionais... ceder aos cuidados de higiene; em fazer urn penso como em ajudar
Assirn, se a essência e comum a todos os prestadores de cuida- alguem a ft a casa de banho; em reconfortar familiares como em
dos, o acessório de cada urn pode ser muito diferente. explicar a organizacao da hospitalizaçao; em preparar a alta como
em sentar-se a beira da cama pan falar ou para ficar calado, para
sorrir ou para tocaz ou muito simplesmente para estar all; em preo-
Designá-lo scm ihe alterar a natureza cupar-se com o autocisrno que verte como em explicar como execu-
tar certos cuidados a si próprio; em medir os sinais vitais como em
Como especificar os cuidados de enfermagem? Como procurar jogar as cartas ou ao Scrabble ou regular a televisão... Nada disto e
dizer o que são sem Ihes alterar a natureza? insignificante quando se inscreve mama perspectiva de enfermagem de
Marie-Françoise Colliere pode, mais uma vez, ser citada. Ela atenção e de ajuda a pessoa. Tudo isto é banal quando considerado
afirma que: em geral ou quando so se considera o ado, isolado do seu contexto

Carpentier-Roy M.-Cl., Corps et âme


Montreal, 1991.
-Psychopathologie du travail infirmier. Ed. Liber, 19 ColliereM.-F., Proinouvoirla vie—De ía pratiquedesfenunessoignantesauxsoins infinn lets.
InterEdition, Paths, 1982.
68 CUIDAR NO HOSPiTAL OS CUIDADOS DE ENFERMAGEM 69

humano, da situação de vida em que se enquadra. E so a perspecti- Quadro 3. -Ten tativa de representaçiio da prdtica de enferinagem.
va dada a acção que justifica as competências profissionais e as qua-
lfficaçOes requeridas. Sern perspectiva de enfermagem, nao pas -
sam de tarefas que, pot conseguinte, nada tern aver corn os cuida-
dos de enfermagem. I Os CUDADOS DE ENFERMAGEM são a
Embora os esquemas sejarn sempte umpouco redutores, urna repte- atençao particular prestada por uma enter-
sentação grafica pode ajudar a precisar esta abordagem. (Quadro 3). meira on por urn enfermeiro a uma pessoa
Para exercer a sua profissao, as enfermeiras e os enfermeiros tern ou aos seus familiares coin vista a ajudá-los
A sua disposição suportes que são rneios ao serviço da sua prática. na sua situação. Englobarn tudo o que os
Entre estes, os cuidados ditos de base e a presença continua tern urna
I profissionais fazem, dentro das suas compe-
tências, pain prestar cuidados As pessoas.
forte especficidade. São as raIzes mais seguras e mais fortes da profis- l'ela sun natureza, permitem sernpre fazer
são porque proporcionarn urn espaco de liberdade e de iniciativas I algurna coisa por alguérn a firn de contribuir
que os actos realizados por prescriçao não proporcionarn. Note-se que para o seu bern-estar, qualquer que seja o seu
estes cuidados e esta presenca contInua permitem viver momentos • estado.
que os outros membros da equipa nao viverão, pelo menos corn a
mesma intensidade. DaI resulta, entre outras coisas, que a equipa
de enfermagern terá a sua disposicão infonnacaes üteis a todos 05 2
membros da equipa pluridisciplinar. A pertinência e a sIntese des-
sas inforrnaOes aparecem como estirnulos interessantes que parti- pie Ihes proporcionarn
ciparn no reconhecirnento do trabaiho da enfermagem.
Na sua qualidade de profissionais de saüde, a enfermeira e o en- Os SUPORTES da OPORTUNIDADES
fermeiro estão habffitados a realizar todas as acçaes que contribuem prâtica de enfermagem: PARTICULARES
para a saiide da populaçao dentro dos lirnites das suas competências. - os cuidados ditos de para dar mais
base serenidade As pessoas
No entanto, é comurn a essas profissoes o facto de, todas elas, pode- - a orgariizaçao de urna através:
rem, por exemplo, orientar-se para aspectos de educaçao para a satide presença continua - do conforto
ou de inforrnação, de aconseiharnento... - os actos realizados por - da doçura
0 ensino, o enquadramento e o acompanhainento de pessoas menos prescricão - do calor
qualificadas ou não qualificadas é urn ramo da actividade que, não j - todas as acçöes que - da atençAo aos<<mil
podem ser realizadas e urn pormenores*
sendo especificarnente de enfermagem, não deixa de set importante I por urn profissional de
para a práfica. Com efeito, trata-se, pot urn lado, de ensinar o que o saMe, dentro das suas
saber de enferrnagem contém, mas tambem, por outro lado, de en- cornpetências
quadrar pessoas menos qualificadas, tais como Os auxiliares de en- - o ensino, o
fermagem ou os estudantes, a firn de os ajudar, para além de qual- enquadrarnento e o
quer abordagern centrada na tarefa, a dar as suas acçOes urna pers- acompanharnento de
pectiva de cuidar. Este aspecto compreende também o acompanha- pessoas menos qualifi-
cadas on não qualifica-
rnento dos pacientes, dos seus familiares (a quem tarnbérn.se charna, das
pot vezes, "ajudantes naturals'>) ou de qualquer pessoa que neces-
site de urna ajuda para poder praticar certos actos. Trata-se, neste
caso, de acornpanhar para permitir a prática de certos <<autocui-
70 CuDAR NO HOSPITAL Os CtJIDADOS DE ENFERMAGEM 71

dados>> a fim de tomar as pessoas menos dependentes do sistema junto de elementos que vao perrnitir a um beneficiário de cuidados
de cuidados. e aos seus familiares sentir-se numa situaçäo suficienternente con-
Para além destes suportes, mas gracas a eles, as enfermeiras e os fortável e ern segurança, sern receios inüteis, tais como a campainha
enferrneiros beneficiam de oportunidades particulares para dar a suas fora do alcance ou as cortinas mal fechadas, o receio de ter muito
praticas urn sentido de verdadeira ajuda e para actuar como vectores calor ou muito frio, ou ode uma Iuz agressiva ou dernasiado coada,
de serenidade junto das pessoas a quem se dirigern. Corn efeito, rnes- ou ainda de portas ou passos que fazem baruiho, ou se a perfusão
mo nãe devendo reivindicar a exciusividade nestas matérias, pare- está colocada do lado correcto...
ce-rne que ha quatro elementos muito particularrnente esperados A doçura, para ser adequada, cornedida, discreta mas apro-
pela populacao e que são directamente acessiveis aos profissionais priada, necessita de uma grande capacidade de atenção ao ou-
de enferrnagern pela própria natureza da sua prática. Trata-se de tro. E urn torn de voz, urn ouvido atento, um olhar, um toque,
actuar para tomar mais confortavel, mais suave e mais calorosa a si- uma massagern delicada. B it ao encontro de quern chora ou aju-
tuação vivida, bern como de ter uma atençao particular aos <<rnil e dat uma farnilia a exprirnir os seus lirnites, o seu <<saco cheio>', o
urn pormenores" que a compOern. Estes quatro elementos não são seu sofrirnento...
espectaculares nern cientIficos ou codificáveis. Dao a irnpressão de O calor e o que perrnite tomar caloroso urn lugar de cuidados, o
uma certa ingenuidade e parecern ter a vet mais corn o born senso que se traduz pelo simples sorriso que revela autenticidade e que e
do que corn o profissionalismo. Ha quern me diga que isso é o que dirigido a uma Unica pessoa e que não pode ser confundido corn
deve caracterizar o set hurnano na vida de todos os dias. Corn certe- qualquer ricto sisternático como se ye pot vezes em outras circuns-
za, mas por maioria de razão os profissionais dos cuidados de en- tâncias da vida quotidiana. B tambern a alegria de viver do pessoal,
fermagern. o calor que este liberta e que dá prazer ao outro, a luz que o seu
Observando mais de perto estes quatro elementos, rnesrno que, olhar reflecte, as notas que consegue cantarolar...
por vezes, irritern por parecerern ligar-se corn urn passado reli- Os <<rnil e urn porrnenores" são os que revelam urn verdadeiro olhar
gioso e não poderern ser cornprovados pelos instrurnentos de dirigido ao outro. B a capacidade de uma enfenneira dizer a uma se-
medida e, por isso, aparenternente pouco tendentes a alirnentar nhora idosa: <<Ah, hoje pintou os lábios". Apenas urn pormenor, esse
o processo de profissionalizacao, pode verificar-se, por urn lado, de pintar os lábios, mas quanta atenção particular em conseguir notá-
que correspondent àquilo que as pessoas sentern mais como uma -lo e exprimi-lo, pois isso quer dlizer <<a senhora existe para os meus
falta quando se encontrarn numa estrutura de cuidados e, por o]hos, ainda é motivo de surpresa e não objecto de decoração; o que
outro lado, que necessitarn de urn elevado nIvel de profissio- alterou em si ainda consegue atrair o meu olhar, surpreender-ine ... ".
nalismo. Efectivarnente, se não é muito difIcil velar pelo confor- Aparecer como vectores de serenidade conseguindo desenvol-
to, pela doçura, pelo calor e pelos <<pormenores" quando se está ver as suas aptidOes naqueles quatro aspectos do cuidar é o que
em presenca de alguérn de quern se gosta - tal como os pals em deveria restituir a esperança a enfermagem graças a expectativa real
relação ao seu bebé - é muito mais difIcil velar pelos rnesrnos da populacao nestas areas e, portanto, ao reconhecirnento que esta
aspectos quando se está perante pessoas ode quern não se gos- poderá manifestar.
ta", isto e, pessoas a que não se está ligado por urn laço afectivo B o profissionalismo que esses quatro elementos requerem que
forte. B, então, profissionalismo o que e necessário para enqua- permite tomar consciência de que demasiada atençllo ao outro nib é
drar corn intensidade esses quatro aspectos numa relaçao profis- uma atenção particular, e é tao desagradável e pouco profissional como
sional subtil, nern sufocante nern constrangedora, nao pondo se não fosse suficiente. Quantas pessoas dernasiado doces não se
ninguérn numa situação reciproca de dependencia. tornarn pot isso incOmodas? Quantas vezes urn toque rnal avaliado
o conforto nao se lirnita a colocaçao de uma airnofada, rnesmo não provoca mal-estar? Quantas vezes o profissional, preocupado
que, por vezes, so este gesto ja seja muito delicado. B todo um con- corn este ou aquele <<pormenor>>, não 6 desajeitado porque, aos olhos
72 CUDAR NO HOSPITAL Os CIJIDADOS DE ENFERMACEM 73

do beneficiario, não se trata realmente de urn {<pormenor+? Vemos zem para prestar cuidados a alguém>. A utilidade social dessas ca-
que a atenção a tudo isso e particularmente subtil, revelartdo sem- racterIsticas unidas aos suportes tao variados da prática e o
pre a capacidade que o profissional terá em tomar a justa thedida, profissionalismo que exigem podem constituir urna base sólida para
em descodificar o mais delicadamente possIvel o que, nurna situa- construir a identidade da enfermagem e garantir o seu reconheci-
ção particular e definitivamente singular, podera contribuir para o mento. Nao se trata de confundir tudo isso corn qualquer forma de
bem-estar de urn paciente e dos seus familiares. 0 profissionalismo cuidados pseudomaternais de aspectos infantilizantes. Trata-se an-
estd'nesta subtileza, nesta capacidade de ir ao encontro do outro e de dar tes de os enquadrar nurna acção profissional. Acreditar muito parti-
sentido a esse encontro e, depois, defazer carninho corn ele. Nao se pode cularrnente que essas quatro caracterIsticas contribuem para a sad-
alterar a natureza do profissionalismo pela ambiçao de descrever de da populaçao é ter confiança numa enfermagem decididarnente
tudo ou de tudo dominar através de instrurnentos. hurnana, feita de <<pequenas coisas)) nurn ambiente que não Ihes e
Estas quatro caracterIsticas, pela sua própria natureza, são acessI- muito propIcio rnas que delas necessita verdadeirarnente. E parti-
veis a todas as enfermeiras e a todos Os enferrneiros, quaisquer que cipar no nascirnento e depois no desabrochar de urna nova geração
sam o tipo,o lugai o mornento... do exercIcio da sua profissao. Quer de profissionais, tanto enfermeiros como outros, cuja perspectiva
se trate de urn serviço de reanimaçao ou de psiquiatria, de medicina não se limita a sofisticaçao tecnico-cientffica mas se enquadra nurna
interna ou de urgencia, de geriatria ou de consultas, de uma creche, de logica de cuidar, a que relativiza o corpo-objecto sem o negligenciar
urn dispensário..., estes quatro elementos podem estar presentes e re- para evidenciar a grandeza da ajuda, por vezes tao discreta, pres-
velar, muito particularmente, a presenca da enfermagem. Se os supor- tada a pessoa.
tes podem ser particularmente diferentes, sem medida comurn em cer-
tos casos, as dportunidades para dar mais serenidade mantêm-se iden-
ticas. Parece-me que de cada vez que uma enfermeira ou urn ether-
meiro actua enquanto tal, no hospital on fora dele, no ensino ou na
adrninistração, enquanto, quadro ou director... pode manifestar esta
mais-valia que the confere a perfeita cornpreerlsão da sua profissào, a
de velar pelo conforto, pela docura, pelo calor e pelos <(pormenores))
que, em conj unto, tornarn urna situação mais serena e, portanto, mais
propIcia ao bern-estar das pessoas. Parece-me assim que, faça eu o que
fizer, se 0 fizer enquanto enfermeiro, ou seja, enquanto portador de
urna palavra de enfermagem, posso velar por o fazer integrando essas
dimensoes subtis e discretas de conforto, de doçura, de calor e de aten-
ção aos <pormenores".
Se os suportes da pratica de enfermagem fazem corn que haja
realmente profissoes muito diferentes que, em certos casos, dividem
o corpo de enfermagem, as quatro caracterIsticas de conforto, doçu-
ra, calor e (pormenores)> podem constituir 0 fio que as tme. Porque
essas quatro caracteristicas do suporte da prática não se podem
dissociar. Forrnarn urn todo. 0 conforto, a doçura, 0 calor e os <<por-
menores' nAo podern existir enquanto tal de rnaneira isolada, no esta-
do <<puro>. Nao são urn complemento ao que se scfaz. Integram-se de
maneira subtil ern <<tudo o que as enfermeiras e os enfermeiros fa-
V
As enfermeiras e os enfermeiros tern dificuldade em ser reco-
nhecidos e estäo em busca continua de identidade, urn pouco como
se näo tivessern a sua disposicao urn conteüdo profissional consi-
derado por eles proprios corno suficientemente rico e ñtil que p0-
deria torná-los identfficáveis e, portanto, reconhecIveis na socieda-
de. No entanto, essa identidade existe, e, mais do que procurá-la,
deveriarn desenvolver uma estrategia para mostrar o valor de to-
das essas <<pequenas coisas" que constituern os cuidados de enfer-
magem.

LIMA IDENTIDADE A CLARIFICAR E A AFIRMAR

Deve, assim, estabelecer-se uma di.ferença entre tuna estratégia


que visa prornover a enfermagern corno profissao e a que visa a pro-
moção dos cuidados de enfermagem. 0 valor de uma profissao não
pode basear-se senão na valorizaçao do seu conteüdo profissional,
do seu contributo especifico e insubstitulvel para a saüde da popu-
laçao. Essa valorizaçao, para não ser artificial, eférnera e circunstan-
cial, não pode articular-se apenas corn as relaçOes de força que o
ntirnero dos seus rnernbros confere e que as opçOes poilticas, em
certos mornentos apenas, facifitarn. E a valorizaçao do conteüdo pro-
fissional que há-de dar, de forma duradoura, mais valor e mais re-
conhecimento àqueles que são seus actores. Antes de trabaihar pelo
reconhecirnento das enfermeiras e dos enferrneiros, ha que traba-
Ihar pelo reconhecirnento dos cuidados de enfermagem.
76 CUDAR NO HOSPITAL A ENFERMAGEM 77

A necessidade de valorizar o conteüdo dos cuidados de ether- auxiliares de enfermagem, pot exemplo. Foi o carniriho que estes ern-
magern antes mesmo de valorizar os profissionais que os exercern, preenderarn ern Franca ao reivindicar urn carnpo prOprio de activi-
por mais evidente que possa parecer, não é tarefa Mcii. Depara-se, dade. Notemos, contudo, que nurn perlodo de grande escassez de en-
no interior da própria profissao, corn dois grandes fenornenos asso- fermeiros no inicio dos anos 90, essa escassez não afectou ou afectou
ciados, pot urn lado, a representaçao que as enfermeiras e os enfer- muito pouco os auxiliares de enfermagern cujas condiçOes de frabaiho
meiros tern de si próprios e da sua profissao e, por outro lado, aos são identicas as dos enfermeiro&. Para alérn do facto de isso ter podi-
efeitos-induzidos pelo processo de profissionalizacao. do encorajar as entidades patronais a substituir uris pelos outros, isso
A representacão da profissao que tern os que a exercern e não revelará que urn nIvel de qualificacao mais elevado convida a hi-
multiforme, por vezes ambIgua. As enfermeiras e os enfermeiros gir a uma certa realidade, em termos tanto de condiçOes como de con-
procurarn dat uma imagem da sua profissao que, efectivarnente, é teádo de trabaiho?
condicionada e influenciada pelo contexto profissional e social em
que trabaiharn. Observa-se, assirn, urn deslumbrarnento nao so pelo
que é técnico mas tambern pelo que é sisternático, materializável, Concentração mi tarefa
ordenado, dernonstravel. E certamente isso que explica que eu já
tenha sido confrontado corn uma certa irritaçao e ate rejeição dos A profissao de enferrnagern e prática, enraIza na acção. Este
outros ao insistir em todas as <<pequenas coisas>> que constituern os enraizamento e talvez demasiado, porque se traduz nurn forte vInculo
cuidados de enfermagern. A expressão nem sempre convérn porque ao proprio <<fazer>>. A concentração na tarefa em que se passa de quar-
não parece suficierttemente gratificante. Efectivarnente, como ad- to para quarto e de paciente para paciente dá uma imagern atarefada e
quirir uma irnagem profissional brilhante, uma identidade e urn re- pouco gratificante de profissionais dernasiado apressados para termi-
conhecimento a partir daqullo a que se charna <<pequenas coisas>>? A nat as suas tarefas durante os respectivos tumos. Centrar-se na suces-
realidade, no entanto, e essa, mesmo que inclua coisas>> mais sofis- são de tarefas a realizar é o que ha de mais desastroso para a constru-
ticadas. A realidade é incontornável porque todas essas <<pequenas ção da identidade da enfermagem, porque esvazia de conteüdo e de
coisas>> pontuam inevitaveirnente a hospitallzacao de urn paciente sentido os cuidados de enferrnagem. Isto vai realmente contra o pro-
ou o acontecirnento pelo qual ele recorre ao sistema de cuidados e a cesso que levaria a urn maior reconhecirnento, pois uma tarefa não
vivência dos seus faniiliares. Negar esta realidade e negar a sua iden- necessita senão de urn executante mais ou menos especializado.
tidade, é fechar-se nurna espécie de irnaginário, é fugir an que, no Inspirerno-nos no que escreveu uma das nossas estudantes no contexto
entanto, serve de fundarnento a enferrnagern. Dal o desconforto, o de urn trabalho de reflexao: <Se analisarmos o que se passa actualmen-
dilema vivido por todos os que aspirarn a outra coisa diferente da te na enferrnagem, verificarnos que a rnaioria dos seus agentes no ter-
realidade dos cuidados de enfermagern, da profissao que exercem. reno, nos verbs sectores de actividade, se contentam ern executar cui-
Pam sair da crise de identidade, convérn, ern primeiro lugar, torn- dados prescritos pelo medico. Os outros cuidados ou são delegados
per corn esse imaginário para que se sintarn a vontade, enquanto vet- nos auxiliares de enferrnagem, ou são mal feitos ou pura e simples-
dadeiros profissionais de sañde, corn a natureza profunda da sua pro- mente não são kitos. Fala-se rnuito da globalidade dos cuidados mas,
fissao. Jsto necessita de uma apmpriacão dessas <<pequenas coisas>' para infelizmente, não se:faz senão falar. E quern fala mais? Urn grupo de
que elas revelem sernpre uma grande atenção ao outro e, portanto, enferrneiros ditos pensadotes, que escreve urn pouco, teoriza rnuito e
uma grande qualidade profissional. Agrandeza da enfermagern éessa, fica longe da realidade. Estes dois grupos raramente se encontram.
e de nada serve pmcurá-la em outros lugares pot processos que, todas Por isso, ha urn grande desfasarnento. Estas duas categorias de ether-
eles, levarn a impasses. A falta de se apropriar delas dando-ihes senti-
do nas práticas de cuidaz e dado o seu carácter inelutável, outros profis- Flesbeen W., Les difficultes de recrutement des personnels infinniers en France. Ed. ENS!',
sionais poderao tentar foijar nelas a sua identidade, como e o caso dos Rennes, 1993.
78 CUIDAR NO HOSPITAL A ENFERMAGEM 79

meiros evoluem cada uma no seu dominio sem nunca se encontrarem. fissionais de enfermagem se tornem traba]hadores qualificados como
Resultado, encontrarno-nos hoje perante nina profissao em crise, a qual nos Estados Unidos, onde cada gesto técnico supöe a intervenção
se faz crer que os medicos são a causa de todos os males e, sobretudo, de uma enfermeira especializada>>3.
que não nos consideram como nina profissao de pleno direito. Tudo o A utilização do tempo de passagem de turno e também reveladora
que nos acontece é por culpa dos outros. E prático e evita que nos dessa obsessão pelo <<fazer" e dessa concentracão na tarefa. Nesse mo-
ponhanios em causa>'2. mento, os prestadores de cuidados limitarn-se a fazer transmissães,
Se e verdade que a prática de enfermagem depende - mas por- por vezes muito directas, é certo, masque mesmo assim são transmis-
qué tanto? - da orgartizacão por vezes muito pessoal das outras sOes. Nao e que não sejam üteis, mas são insuficientes. Corn efeito, o
profissoes e dos outros serviços logisticos ou medico-técnicos nem que e necessário para tentar ver corn rnaior clareza uma situação de
sempre inclinados a modificar os seus hábitos, mesmo quando se cuidar e o debate, é a discussão entre os prestadores de cuidados. Pa-
trata de reforçar a lOgica de cuidar, não e menos verdade que essa rece, assirn, urgente reabilitar a palavra entre os enfermeims, se estes
situação e destruidora para a expressão e para a vida dos cuidados quiserem realrnente praticar a sua arte. Discutir assirn a situação do
de enfermagem. Centrando-se na tarefa, os profissionais dos cuida- beneficiário dos cuidados e a ajuda singular que os profissionais se
dos de enfermagem não se prepararn verdadeiramente para uma propoem dat-the necessita, e claro, de urn tempo e de urn lugar apro-
abordagem subtil, intuitiva, esponténea e concertada do beneficiário priados, hem como de urn modo de funcionarnento propIcio ao de-
dos cuidados. Por exemplo, sentar-se junto do paciente <<simples- bate. E ilusório pretender transformar o tempo de passagem de turno
mente'> para conversar corn ele e muitas vezes considerado pelos nurn momento de análise aprofundada se nessa altura se devem <pas-
colegas apressados em realizar e em terminar as suas tarefas como sat em revista" vinte ou trinta doentes ou se, ainda por cirna, isso se
uma perda de tempo. Dal resulta que essa <<conversa" 56 possa, faz na presenca de quinze enfermeims mais ou menos hem instalados
muitas vezes, ser efectuada de maneira discreta, por vezes margi- no gabinete da unidade de cuidados, sendo as discussoes marcadas
nal, e quando não se tem <<mais nada para fazer". por chamamentos ou diversas outras actividades.
Um extracto do artigo de Nicole Benevise publicado em 1993 pode A identidade da enfermagem existe, e os cuidados de enferma-
ilustrar o que cabo de dizer: ((No fundo, que pede urn doente a uma gem têm em si todos os fermentos que permitiriarn desenvolvê-la.
enfermeira de quem recebeu cuidados técnicos? Consideração, aten- Porérn, ela necessita de ser clarificada corn simplicidade e de ser
ção, benevoléncia. Paradoxairnente, é o mais difIdil de obter. Pri- expressa na organizacão quotidiana da prática.
meiro, ha as veihas fradiçOes que aflorarn por momentos e que são
estüpidas. Não ha muito tempo, tirna enfermeira surpreendida sen-
tada a cabeceira de urn doente era passivel de censura. Hoje, os er- LIMA PROFISSAO EM MOVIMENTO
ros de concepção na gestão de certos hospitais podem levar ao mes-
mo resultado. Quando, por exemplo, se avaliam as necessidades de A expressão <<profissão de enfermagem" intriga-me sempre um
pessoal em função do nümero de actos, chega-se a situaçOes irnpos- pouco. E que ninguém sabe muito hem quem e congregado ou de-
sIveis em que o tempo passado junto do doente se reduz a nada. 0 signado por essa expressão. Em primeiro lugat deveria tratar-se do
acto de tomar o paciente a seu cargo, o tempo que seria preciso para conjunto das enfermeiras e dos enferrneiros, do qual faço parte. Mas
o informat para o preparar, para o assistir na sua luta contra a doença, como explicar que tantos enfermeiros do terreno, tantas chefias, tan-
justarnente o que constitui o "papel especifico" da enfermeira, ada- tos docentes... não se reconheçam na orientação tomada pela pro-
ha por ser urn pesadelo quando a gestão hospitalar se torna dema- fissão que eles próprios constituem? Dão-me mais a impressão de
siado "racional", se perde no taylorismo ( ... ) Não desejo que os pro- se submeterem as decisoes tomadas em nome da profissão do que

2
Hesbeen W., Les difficultes de recrutement des personnels infirmiers en France, op. cit. Benevise N., in Le Monde des debats, Maio 1993. Citado For R. Gueibe.
80 CUIDAR NO HOSPITAL A ENFERMAGEM 81

propô-las, orientá-las. 0 corpo de enfermagem parece-me, assirn, da profissão e, consequentemente, a sua liderança. Mas de que lide-
desarticulado, entregue as forças, as correntes por vezes contradito- rartça se trata? A do pensarnento ou a da organizaçao? A criaçao de
rias que se exercern sobre ele. uma Ordern nao dá quaisquer garantias quanto an resultado. Se não
Outra hipotese seria que <<a profissao de enfermagem' näo designa, se trata de tomar posiçäo a favor ou contra a criaçao de uma Ordern,
de facto, senäo urn certo nümero de pessoas que Mo aparecern forço- dado que a perspectiva dada a sua criação será urn dos seus ele-
samente como lideres e que, dadas as funçoes que ocupam e as in- mentos determinarttes, é, no entarito, necessário verificar que isso
fluências que podem exercer, decidem ou propOem orientaçOes basea- Mo representa a panaceia. Corn efeito, mesmo nos palses em que já
das nurna representaçäo pouco partlihada da profissao. Que represen- existe ha muito tempo uma Ordem, pode verificar-se que, apesar de
tação da natureza profunda dos cuidados de enfermagem revelam es- haver uma organizacão muito - da profissao,
pro os proble-
sas pmpostas ou decisoes? Baseiarn-se nurna cornpreensao pertinente mas vividos pelos profissionais do terreno não estäo resolvidos.
da prática dos profissionais que exercem em rneio cimnico? Nesse caso, Pode citar-se o exernpio da celebre Ordem das Enfermeiras e dos
como construir uma identidade profissional se quem orienta as deci- Enfermeiros do Quebeque (OIIQ) a partir de uma das suas próprias
sOestem uma visãorestrita dos cuidados deenfermagemeestaconside- publicacOes. 0 docurnento que esta Ordem publica em 1989
raveirnente desfasado de quem os pratica e que, dia a dia, está em intitulado Hypertension' é particularmente revelador e funciona como
contacto directo corn a sua realidade profunda? Como e que os enfer- sinai de alarme. Nesse docurnento pode ler-se:
4
44
meiros do terreno que vivem e assurnem essa realidade podem dar <<A enfermagem está em crise e, no actual estado de coisas, seria
credito a quem decide ou pensa, estando fora das suas preocupaçoes e irresponsável considerar essa crise como passageira ou apenas pen-
por vezes longe de uma verdadefra lógica de cuidar? Como podem sar em paliativos avulsos para a resolver (...) 0 descorihecirnento
aderir a disposicOes ou a instrurnentos que, de facto, complicarn artifi- do papel das enfermeiras e a falta de reconhecimento do seu
cia]rnente a sua prática enquanto todos os dias se debatem para, muito contributo levarn irievitaveirnente a ausência de decisOes susceptI-
simplesmente, tentarprtstar cuidados corn urn minirno de serenidade? veis de meihorar uma situação que todos concordant em qualificar
Aenfermagem, enquanto os seus membros são geralmente anima- como desastrosa (...) Mas e preciso dar-Ihes condiçoes para exerce-
dos por uma forte intenção de cuidar, encontra-se assim dilacerada e A rem plenamente a sua profissao, inclusive os poderes necessários
dividida entre os que vivem a prática e os que pensarn o seu desenvol- para decidirern e agirem em todas as questoes que dizem respeito a
virnento. Trata-se de urn corpo sem cabeça e de uma cabeca sem cor- gestäo, a prática, a educaçao e a investigacao em cuidados de ether-
po.O corpo existe, a cabeça tarnbém, mas Mo estão ligados, e a cabeça magem. (...) 0 futuro dos cuidados de satide no Quebeque depen-
não e forçosamente pensante do ponto de vista do cuidar. A ausência de da vontade polItica do governo em situar corn clareza a impor-
de liderança reconhecida pelas enfermeiras e pelos enferrneiros que tância dos cuidados de enfermagem no conjunto do sistema e o pa-
todos os dias se cruzarn com o doente e com os seus farniliares explica pel que nele devem desempenhar as enfermeiras e os enfermeiros,
a irnagem de uma profissao desorientada. Ela e, de facto, inconstante, ja reconhecidos como o eixo desse sistema (...). Urn dia há-de ser
hesitante, ate mesmo incoerente. Apesar da sua irnportância numérica, preciso retirar Os antoihos que lirnitarn as enfermeiras ao papel de
da sua riqueza e de tudo o que representa para a satide da populacao, executantes sujeitas as ordens dos outros'>.
a enfermagem sofre a situaçao que ela própria contribui pan that. A referéncia as experiencias norte-arnericanas, tantas vezes apre-
ciadas na Europa, seth ainda a mais adequada? Convém, certamen-
te, Mo colocar o problema apenas na relação de força, nos jogos de
Que estruturaçao? poder.

Poderia pensar-se que a criaçao de uma Ordern dos Enfermeiros


seria capaz de resolver este problema garantindo a representação 4
OIIQ, Hypertension -L'urgence du choix, Dossier, Montreal, 1989.
82 CUIDAR NO HOSPFFAL A ENPERMAGEM 83

Nos Estados Unidos, os problemas recorrentes são idénticos, ape- moderna. Analisando a situação, urn medico manifestava-me a sua
sat de al a enfermagern set uma profissao particularmente admiração e inquietacao: <<Em medicina fomos longe demais e ago-
estruturada desde ha muito tempo. No fim dos anos 80, a escassez de ra tentarnos abrir todos os para-quedas possIveis para travar a nos-
enfermeiros naquele pals era particularmente significativa. Pode ter- sa imersão no poco da ciência. Hoje tenho a irnpressão de que as
-se uma visao geral do estado de esplrito da altura através do relato- enfermeiras querem cometer os mesrnos erros que os rnéclicos>. Será
rio sobre essa escassez redigido por uma comissão da American urn desvio obrigatório?
Hospital Association'. Os autores do relatório formulavam diversas
recomendaçOes, entre as quais a de reconsiderar a utilizaçao da pa-
lavra cen1errneira'> em virtude do seu peso historico e da imagem Teorias e instrumentos
pouco atractiva para a proflssao induzida por essa palavra!
Rosette Poletti, nurna conferência proferida em Bruxelas, referia Desde ha vários anos que se têm redigido teorias sobre cuidados
urn inquérito feito nos Estados Unidos em 1991. As enfermeiras nor- de enfermagern e se têm ensinado pianos e outros processos, estan-
te-americanas, quase pot unartimidade, referiam como problemas do, hoje em dia, muito difundidos os diagnosticos de enfermagern.
chave: Quantos belos trabaihos, quantas conferencias brilhantes e quanta
- a qualidade dos cuidados prestados; investigaçao por vezes sofisticada! Quanto azedume no terreno onde
- o facto de não se sentirem tratadas como profissionais; os enfermeiros nem sempre encontrarn a realidade da sua prática
- a iriadequada dotaçao de pessoal; nem uma rnelhoria concreta das suas condiçOes de traball'to!
- as reqwneraçOes insuficientes do pessoal de enfermagem6. Nao se podendo negar que muitos desses trabaihos são particu-
larmente interessantes, ha tambem que verificar que, por vezes, a
Do mesmo rnodo, R. Poletti verifica também que a investigacao utilizaçao que se faz deles resulta de urn dogmatismo esteril, por
em cuidados de enfermagern, tao desenvolvida na America do Nor- definiçao irreflectido e pouco propicio a serenidade, a realizaçao e a
te, não serve - ou serve muito pouco - para enriquecer a prática criatividade dos profissionais. Quanta inépcia e quanto desperdIcio
quotidiana dos profissionais. de energia não se verificarn para impor a todo urn hospital on ao
Uma estruturação forte da enfermagern não chega, portanto, para funcionamento de toda uma escola uma, e apenas uma, teoria de
meiltorar a sua imagem, a sua prática e o seu reconhecirnento. B isto referencia! Quanto.desencorajamento induzido por todos aqueles
leva-nos de novo ao ponto de partida: pensar a profissao a partir da que pretendem que todas as enfermeiras e todos os enfermeiros uti-
pratica quotidiana, cuja riqueza e utilidade social são tao pouco reve- lizem <<0'> processo de cuidados segundo uma gretha preestabeiecida
ladas. E justarnente da prática que e preciso partir para construir a onde, de facto, convérn mais preencher as casas do que reflectir na
profissao e não do irnaginário de uma profissão mais ou menos forte e situação singular de vida em que os prestadores de cuidados são
prestigiosa que pretendesse impor as suas opiniOes sobre a pratica. charnados a intervir para prestar cuidados! Quern pode realmente
A enfermagem encontra-se nurna situaçAo crltica, corno, de res- afirmar que o set humano e feito de catorze necessidades funda-
to, a medicina. A diferença entre ambas é, no entanto, paradoxal. Se inentais universais, tal como o apresentam os instrumentos que des-
a medicina padece de demasiada <<cientificidade'>, tecnicidade e virtuam o pensamento de Virgina Henderson e que fazem desespe-
categorizacao, a enfermagern luta pot conquistar o seu reconheci- tar tantos estudantes?
mento corn base exactamente naquilo que cria a doença da medicina Quanta inépcia em ensinamentos hesitantes e abstractos de dia-
gnósticos de enfermagern durante os quais vi equipas reunirem-se
AHA, Responding to the nursing shortage, Al-IA Report, Chicago, Agosto 1988. esporadicamente e sern convicçao para tentarern fazer urn doente
Poletti R L avenir del enseignernent et i/c to recherche en soins infirmiers urn defi a re/ever.
Conferencia profenda em Bruxelas no INS/UCL 13 Dezembro 1991 publicada na entrar na hsta descnta no hvro que Ihes era imposto' Podera sempre
vista de GRAS! 1992 n° 9 dizer-se que esses profissionais não entenderarn nada. Corn certeza!
84 CUmAR NO HOSPITAL A ENFERMAGEM 85

Mas serão xesponsáveis por isso? Felizmente, parece ter-se envereda- Se é legitirno agir no sentido do desenvolvirnento e do reconheci-
do pot urna reorientação no sentido daquilo a que se charna <<racioci- mento de urna profissao, essa legitimidade, porém, não pode senão
nio de diagnóstico" mas... porquê tanta precipitação e tao pouca dis- firmar-se na realidade profunda dos cuidados de enfermagern para
cussäo? Ter-se-á consciencia do efeito que urn ensinarnento inadaptado rnelhorar tanto a qualidade do serviço prestado a população como a
pode ter, posteriormente, na capacidade de raciocfriio do estudante e qualidade das condiçOes de trabaiho dos profissionais no terreno. Ora,
do futuro profissional? Ter-se-ao medido os efeitos das disfurtçOes essas condiçOes de trabaiho não são brilhantes porque, apesar da exis-
provecadas pot aqueles processos impostos no funcionarnento inter- tência de textos !egislativos que consagrarn cada vez mais as compe-
no das equipas e na sua posterior capacidade de se mostrarem perrneá- tências da enfermagem, as dlificuldades vividas pelos enfermeiros são
veis a urn raciocInio respeitador da complexidade do ser hurnano? recorrentes. Como revela este extracto de urna carta redigida por urn
Que paradoxo! Quando toda a gente está de acordo relativarnen- enferrneiro e publicada na irnprensa diana, ha rnuito a fazer para que
te a necessária criatividade que marca o profissionalismo das enfer- o pensarnento da enfermagem e os inürneros trabaihos de investiga-
meiras e dos enfermeiros, ao mesmo tempo impedern-nos de pen- ção possarn, finairnente, meihorar odia a dia daqueles que continua-
sat e de criar verdadeirarnente ao tornar a sua acção prisioneira de mente permanecern junto dos pacientes e vivem tanto as pressoes
urna teoria ou de urn instrurnento. A força de tudo se querer teorizar, emocionais como as organizacionais que se exercem sobre eles.
codificar, categorizar..., sufoca-se a prática da enfermagem e <<Enfermeiro. 0 major acidente da minha vida foj ter sido coloca-
desnaturam-se os cuidados de enfermagem. Pot conseguinte, é corn do através do concurso para enfermeiros (...) Não sou enfermeiro.
inquietacão que se deve verificar que, hoje, o processo de profissio- Sou enferrno, enfermo-enfermeiro.
nalizaçao parece mais impedir do que facifitar a prática quotidiana. Estive enfermo durante quinze anos. Enfermo da Vida e cuidei dos
Ter-se-á sufiiientemente consciência de que se nega e se destrói o outros. Morte a bata branca! Parem a hemorragia dos minutos que vos
profissionalismo dos profissionais da aPe de enfermagem ao irn- dedico. Estou farto de so neceber o salánio do suor, enquanto outros, a
por-Ihes wna teoria de referencia e instrurnentos uniformizados e força de jurarnentos de hip ocritas, se deleitarn em consideraçOes born-
idênticos para todo urn estabelecirnento, que depois será preciso básticas ( ... ). Os enfermeiros não pensarn. Fazern pensos. Fazern pen-
utilizar, bern ou ma!, no terreno? sos as chagas. Fazem pensosà chaga do rnundo sob o olhar distraldo
Hoje podemos regozijar-nos ao verificar que se começarn p pôr da sua supervisora. A supervisora, a enfermeira chefe. Pequena cate-
em causa - o que não quer dizer uma rejeicão de princIpio - essas goria irrisória inventada por necessidade de caneira. Carreira sem hi-
abordagens demasiado dogmaticas. turn porque quase sempre fechada ( ... ) Nao é born estar na base da
Como ja salientava Cede Lambert em 1989: <<Os nossos escritos, escala. Falem disso aos soldados de qualquer exército e vão vet 0 en-
muito em particular os que dizem respeito aos fundarnentos teóri- fermeiro é urn soldado. Apara todos os golpes: os rnaus hurnores do
cos da discip!ina, sofrem de males que são talvez erros de juventude doente, as rnás disposiçOes do chefe, a raiva do intemo que geme devi-
mas para os quais devernos desejar urn rápido restabelecirnento. do aos sup eriores e as obrigacoes sonhando vir urn dia a ser urn tirano
Desses males destaco dois: a utilizaçao de urn vocabulário demasia- chefe de dunicao8
do afectado que se assemeiha a gIna e urna propensão a dar o epIteto E prossegue a sua carta exprirnindo, corn urna forma de violên-
de cuidados de enfermagem a fenOrnenos que não tern nada do que cia verbal bastante forte, o seu sofrirnento que, felizmente, não atm-
e especIfico desses cuidados, sendo o meihor exemplo o do processo ge todos os profissionais com a mesrna intensidade:
de enfermagem>>7. <<Para se set enfermeiro e continuar a se-b, é preciso chamar-se
Madre Teresa ou set-se masoquista, submisso, vencido. ( ... ) Ao firn
de alguns anos, a alegria interior e a gratidão do paciente aliviado
Lambert C., LEn legs pour ía prochaine genEration d'infirmieres: l'EquÜibre entre ['action et to
conceptualisation, in Actas do Congresso para uma integraçao - Putting it all together,
École des Sciences infirmieres, Universidade de Otava, 1990. Lecalvez F., in LibEration, Quinta-feira 22 Setembro 1994.
86 CuIDAR NO HOSPITAL A ENFERMAGEM 87

pelos nossos cuidados já nao chegarn. A par de isso, ha dernasiada AS BASES DA CONS TRUcA0 DE UMA IDENTIDADE
ingratidão. Demasiada cobardia. Demasiadas palavras engolidas.
Demasiadas dotes de estômago. Demasiadas dotes nas costas. De- Nurn fascIculo publicado em frances e em ingles pela Associação
masiadas dotes nas pemas a noite. E demasiado difIcil. E demais. A das Enfermeiras Dinarnarquesas, Dorothy Hall, enfermeira canadiana
corda estica, estica, ate que se parte. Arnarrota a bata. Sai a assobiar. que trabalhou muitos anos na Organizaçao Mundial de Saüde, apre-
La fora respira-se. Ha uma bola azul a explorar. Ha que viver. Em senta o que intitula <<pontos de partida para urna reflex5o>01.
Fr&tça, ha 3 500 000 desempregados, mas 20 000 lugares de enfer- Esta autora lança um oil-tar critico a evolução da profissao de
meiras estão vagos. Onde estão as erifermeiras?>>9. enfermagem e verifica, entre outras coisas, que <<enquanto as enfer-
Se o niirnero de vinte mil postos vagos a que o autor se refere não meiras nAo souberem claramente quem são e qual é o seu papel na
está comprovado, a verdade é que o contraste se mantérn: por urn sociedade em geral e nos cuidados de saMe em particular, a disci-
lado desempregados, pot outro dificuldades de recrutamento. 0 plina dos cuidados de enferrnagern continuará subdesenvolvida>>".
texto não pode ter urna intençao representativa, apenas ilustra urna Hall identifica quatro razOes principais que, para ela, explicam
percepção que, apesar das palavras duras pot vezes empregues, re- esta situação:
vela o que e vivido pot urn certo niirnero de profissionais que real- <<l)o facto de a rnaior parte das enfermeiras ter sido e ser muiheres.
mente não encontrarn sentido na sua pratica de cuidar. Ora, as muiheres, mesmo hoje, não se considerarn, e não são consi-
E, no entanto, a profissao de enfermagem existe. E feita de homens deradas pelos homens, como sendo o motor principal do desenvol-
e de muiheres, jovens e menos jovens, profissionais experientes ou es- vimento de urna disciplina irnportante, qualquer que ela sa. Na
tudantes que, na sua irnensa maioria, se preocuparn com a sua profis- rnaior parte das culturas, as muiheres tern sido relegadas, na socie-
são e procuiarn garantir-ihe urn futum mais sereno. 0 desafio consiste dade, a urn papel subalterno que muitas vezes foi reforçado no en-
em os congregar nurna perspectiva portadora de esperanca. A este sino e na pratica dos cuidados de enfermagem;
desaflo so se pode responder consagrando-se a prática quotidiana em <<2) o facto de as enfermeiras não terem sabido utilizar o irnenso
toda a sua necessária realidade. 0 processo de profissionalização não poder que se Ihes oferecia nas colectividades nacionais e intema-
pode apoiar-se em bases artificiais. Deve assentar e encontrar a sua cionais para influenciarem o desenvolvimento de serviços de sad-
força no concreto das <<pequenas coisas)> que consfituern os cuidados de ern que os cuidados de enfermagem tivessem podido set pta-
de enfermagem a fim de mostrar meihor a grandeza da ajuda assirn ticados e desenvolvidos como urna disciplina autOnoma;
prestada, o bern-estar que se proporciona tanto ao paciente como aos <<3)a persistência e 0 sucesso com que as enfermeiras, os me-
seus familiares. 0 processo de profissionalizaçao sO poderá levar ao dicos e outras pessoas interessadas tern lutado para manter o
reconhecimento profissional se as prOprias enfermeiras e os proprios ensino da enfermagem em escolas sob o domfnio dos hospi-
enfermeiros valorizarem corn convicçäo o conteüdo real da sua profis- tais, fora das universidades ott dos estabelecirnentos de ensi-
são e a ajuda singular assirn prestada, e se esse conteüdo nAo se tomar no superior;
prisioneiro de processos redutores ou de jogos de poder. 4) o facto de as enfermeiras terem consentido em se tomarem
Assirn, ha que verificar que se assiste a nina forma de exclusão servidoras dos medicos e terem aceitado sem protestar deixar-se
forçada da enfermagem. Este tenno retomado por Jacques Lacan transformar em auxiliares pouco dispendiosos, mas eficazes, re-
designa <<a operacão do inconsciente pela qual urn indivIduo ou urna forçando assim no espirito do püblico e dos outros profissionais
colectividade se impedem eficazmente de atingir o objectivo que de saMe a sua irnagem de trabaihadores pararn6dicos>>13.
sincerarnente tern em vista'>10 .
"Hall DC., Soins infi rmiers—Points dedépa rt pour uneréflexion. Assodationdes infirmières
(ip. cit. danoises, 1990.
Maiherbe, J.-R, Autonomie et prevention -Alcool, tabac, sida dons une société tnédicalisée. 12 Op. cit.
Ed. Artel-Fides, Montreal, 1994. 13 Op. cit.
88 CUIDAR NO HOSPITAL

Quanta a mim, se partilho da opiriiao de disciplina subdesenvol- qualquer precisãa real a especificidade dos cuidados de enferma-
vida, introduziria uma atenuante pelo facto de as enfermeiras não gern, dada que os elementos descritos dizem respeito igualmente
saberem quern são nem qual é a seu papel social. Corn efeito, penso aos outros profissionais. Todos as prestadores de cuidados, sejam
que elas sabem quern são e que desempenharn uma funçäo social eles quern forem, participam na manutenção e na continuidade da
ütil mas que tern dificuldades - e aI está, sem dávida, a cerne da vida, bern coma na compensacão par uma falta de autonomia.
questão - em exprimir claramente qual é essa identidade e essa No fascIculo ern que apresenta a sua reflexão, Dorothy Hall men-
ftthçäo. Tenho muitas vezes a impres são de estar diante de profissio- ciona as definiçOes elaboradas a escala nacional ou internacional,
nais ricos da sua pratica, pelos seus contactos permanentes corn tan- norneadarnente pelo Conseiho Internacional das Enfermeiras. Rela-
tas e tantas situaçOes de vida, mas que nao conseguem revelar essa tando uma reunião desse Conselho realizada em 1987 na Nova
prática, encontrar as palavras para a descrever, para a explicar tanto Zelândia, a autora apresenta a definição que al foi determinada:
aos seus parceiros profissionais coma a populacao, para a valorizar. <<A enfermagern, enquanto parte integrante do sistema de cuida-
E-lhes, pois, muito difIcil identificar a seu contributo para a saüde dos de saMe, inclui a prornoção da saMe, a prevenção da doença, os
das pessoas, na sociedade. cuidados as pessoas fIsica e mentalmente doentes e deficientes de to-
das as idades, e isto em todos as estabelecimentos comunitârios e de
cuidados de saMe. Neste largo espectro de cuidados de saMe, o
Que definiçao? fenorneno que diz respeito de modo muito particular as enfenneiras
são "as respostas aos pwblemas de saMe reals ou potenciais" dos in-
Verifica-se, de resto, que nenhuma definição consegue verdadei- divIduos, da fanillia ou do grupo (ANA15, 1980). Estas respostas hu-
rarnente dizer o que são os cuidados de enferrnagem. Mas seth real- manas vão desde as reacçOes de restabelecimento da saMe ate ao epi-
mente necessário inscrevê-Ios numa definiçao definitiva? A nossa sódio individual da doença e ao desenvolvirnento de poilticas para a
lingua não permite nornear a actividade das enfermeiras. Pode di- pramoção da saMe da populacão a longo prazo.
zer-se que elas executam cuidados ou prestam cuidados, mas isso é <<0 papel essencial das enfermeiras ao prestarem cuidados aos
comum aos diferentes profissionais de saMe. A lingua inglesa utili- indivIduos, doentes ou de boa saMe, consiste em avaliar as suas
za a termo <<nursing" para designar as cuidados de enfermagem, a respostas quanto ao seu estado de saMe, ern as ajudar a manter ou
que, em Franca, limita a actividade apenas aos cuidados ditos bási- a recuperar a saüde (ou a morrer corn dignidade) através da realiza-
cos. Em inglês encontramos também <<nurse", aquela ou aquele que ção das tarefas que eles prOprios fariarn se tivessern forças e vonta-
pratica <<nursing". de para a fazer out se possuIssem os conhecirnentos necessários, e
Os textos legislativos limitam-se - e poderá ser de outra maneira? em desemperthar essas funçOes de maneira a ajudá-los a reconquis-
- as definiçoes gerais e a uma descriçao de actos. 0 decreto de 1993 tar a sua independencia, total ouparcial, a mais rapidarnente passi-
especifi...<<Os cuidados de enfermagem, preventives, curativos ou vel (Henderson, 1977). No vasto arnbiente dos cuidados de saüde,
paliativos são de natureza técnica, relacional e educativa" (art. 1) e as enfermeiras partilham corn outros profissionais de saMe e as de
<<São do domInio do papel especffico do enfermeiro as cuidados de outros sectores dos serviços piiblicos as funçOes de planeamento,
enfermagem associados as funçOes de manutenção e de continuida- de realização e de avaliação, a firn de garantirem urn funcionamen-
de da vida e as que visam compensar parcial out totalmente uma to satisfatorio do sistema de saüde no sentido da promoção da sad-
falta ou uma diminuiçao da autonomia de uma pessoa ou de urn de, da prevencão da doença e dos cuidados as pessoas doentes e
grupo de pessoas>' (art. 2)'. A leitura destas poucas linhas não traz deficientes>'16.

"Journal offide1 de la République française, Decreto n'93-345 de 15 de Maio 1993 relati- 15 ANA - American Nurses Association.
16
vo aos actos profissionais e ao exercfcio da enfermagem, art. I e 2. op. cit.
A ENFERMAGEM 91
90 CUIDAR NO HOSPiTAL

A autora larnenta que este texto não apresente <urna descriçao lo pela qual o diagnostico de enfer-
clara e definitiva do papel da disciplina de enfermagem na socieda- ão nope-americana dos cuidados de
de". Assirn, propOe a sua própria descriçao, que exprirne da seguin- ?acçOes a doenqa>> enquanto 0 dia-
te forma: '<0 papel da enfermagem na sociedade consiste em assis- ença.
hr os indivIduos e os grupos a utilizarern e a integrarem as suas doente e as funçOes que competem
funçOes fisicas, mentais e sociais quando estas são notoriarnente afec- reocupação dos anglo-saxoes relati-
tadas por alteraçOes no seu estado de saüde"'7. aparece tambern corno extrernamen-
A leitura destes textos, mesmo no que e proposto por Hall a par- )mplexidade real da situação de ciii-
tir da critica dos outros, subsiste uma pergunta: que são os cuidados .vIduo sobre o qual se encontra uma
de enfermagem? Efectivarnente, a excepcão da definição de Itulo, não e redutIvel a urn (inico dos
Henderson, que especifica <<através da realizaçao das tarefas que loente e doença sejam indissociáveis
eles próprios fariam se tivessern forças e vontade para o fazer ou se pOe urn e outra são tecidos em con-
possuIssem os coithecimentos necessários>>, todos os outros discur- rite. Como já referi atrás, se se tiver a
sos não são especificos dos cuidados de enfermagem. Para nos con- nplexidade do ser humano - o que
vencermos disso, basta retomar a descriçao de Hall e substituir a pessoa, enquanto corpo-sujeito - não
expressão ao papel dos cuidados de enfermagem" pela expressão oença e profissionais do doente. As
'<0 papel dos cuidados medicos>> e verfficar que a frase mantém todo
no o doente ye esse episodio da sua
o seu sentido. em respeito a todos os profissionais
fissionais de enfermagem. E por esta
as suas acçOes nurna perspectiva de
Uma concepção errónea [os são prestadores de cuidados ou,
r a se-b.
Para alérn do aspecto semanhco, ha que ter atenção a fraqueza enfermagem baseados nas reacçoes
fundamental destas definiçoes ou descriçOes. Corn efeito, elas ba- ide acentuar a separacão entre doen-
seiam-se na ideia errónea mas cornurn de que o medico existe para ução da identidade da enfermagem.
curare a enfermeira para cuidar. No espIrito dessas abordagens ins- , trata-se de uma inépcia resultante,
piradas essencialmente per certas correntes anglo-saxónicas, o me- ssiva simplfficacao das situaçOes de
dico existe para se ocupar da doença e a enferrneira para se ocupar eocupacão consideravel de catego-
do doente. Curiosamente, neste fipo de abordagem näo ha lugar das situaçOes e, finairnente, de uma
para Os outros profissionais de saüde (fisioterapeutas, ergotera- )rtheclrnento construldo sobre bases
peutas, osteopatas ... ) ou, rnais precisamente, o seu lugar está ligado riplificadoras.
ao do medico come seus auxiliares. SAO <<paraméthcos" no sentido irecer severas, não pOem em causa a
de actores da subdivisao do trabalho medico. o enfermeiro analisarem urna situa-
Por mais errónea que seja, esta dlstinçao e cornoda porque per- iue poderia charnar-se urn diagnósti-
mite lirnitar o medico e os seus auxiiares a urn papel de "repara- i, muito diferente do que consiste em
dot>>, oferecendo, per conseguinte, as enfermeiras e aos enfermeiros stabelecido por estudos diversos. Res-
urn campo extremarnente vasto e pouco desenvolvido: o da própria izem os medicos ao formülar diagnós-
entanto, os diagnosticos medicos,
up_cit. lhe reconhecern, so dizem respeito a
92 CUDAR NO HOSPITAL A ENFERMAGEM 93

urn aspecto isolado do iridivIduo: o aspecto biológico. São do do- começarmos pot nos conhecer a nOs próprios e, mais tarde e confor-
minio da abordagem objectiva. Se não convérn contestar a necessi- me as necessidades, procurar o que ha de semeihante e o que ha de
dade operacional de proceder a esta objectivaçao, temos, contudo, diferente entre a Enferrnagem e outras disciplinas, tais como a me-
de nos mariter conscientes dos seus limites para a integrarmos vet- dicina, a psicologia, a sociologia, etc. Em vez de set corn os outros, a
dadeiramente nurna perspectiva de cuidar. Enfermagem nesta tendência ye-se sufocada e diluida nurna ou em
Muito mais complexo seria urn diagnostico relativo as reacçOes a várias outras disciplinas, perdendo assirn toda e qualquer possibili-
doença — mas não é a própria doença uma reacçao? - porque tern dade de se reconhecer uma identidade que, no entanto, está presente
de atender a aspectos psicolOgicos, sociais, espirituais, cuJ.turais... mas cuja existéncia ignorarnos pot causa da nossa falsa percepcão e
Assirn, neste caso ja nao ha urn ünico elemento que está isolado - o da nossa incornpreensão. Urn exemplo eloquente é o dos diagnOsti-
elemento biologico - mas uma rnnitidao de factores que se entrela- cos de enfermagem, que partem do modelo dos diagnOsticos medi-
cam. 0 processo de categorizacao neste domInio pode tomar aspec- cos, para os irnitar ou para os contestar. 0 modelo dos diagnOsticos
tos anojados porque o cornplexo não cabe em categorias, a não set a medicos é apropriado a compreensão e a percepção dos rnédicos
custa de ser reduzido por estas. A este propósito, inspiremo-nos twin sobre o que é a natureza da rnedicina e a sua missao. Nenhurn estu-
Iongo extracto de urn trabaiho particularmente explicito de Hend do sério sobre a natureza da Enfermagern e sua missao precedeu o
Abdel-Al e no quadro comparativo apresentado no anexo 11118. lançarnento cego de uma grande parte da profissão nas taxonomias
.xActualmente, ha na profissao tendencias que nos levarn a endu- (ciência das leis da classificação) dos diagnOsticos de enfermagem.
recer, a perder de vista, a ignorar e a denegrir a Vida, sobretudo por A tendência para a percepcão por categorias, encorajada e reforçada
cegueira. ( ... ) A Vida está naturalmente presente ern todas as coisas, pelo processo de enfermagem e pelos modelos conceptuais, nao foi
em todos os sees, mas, pot causa da nossa percepcão que categoriza senäo nina acha irreflectidarnente atirada para a fogueira.
e divide, reduzirnos o Espirito e a Matéria a duas variáveis a estu- E evidente que deste moclo obtemos mais fadilmente grandes fogos
dar, cada nina por seu lado. A nossa compreensão separa o que e de artifIcio, mas o perigo de queirnar tudo é ainda maior. Quern procu-
naturairnente inseparável e que so tern sentido pela sua natureza ra a aparência e bern servido, durante algurn tempo, pot estas tendén-
particular. ( ... ) se dividirnos e fragrnentarnos, isso endurece os ciii- cias. A pergunta a que devemos responder é: valerá a pena sacriflcar o
dados da vida que os habita. Estas tendencias, que nos levant a en- Essencial a urn momento de gloria efemera e mal furtdada?'>.
durecer a Vida, agent sob pretexto de pretender fazer da enferma-
gem algo de cientIfico, de objectivável, de credIvel, de fazer dela uma
profissao, de acordo corn critérios mal concebidos, mal cornpreen- Linir, não separar
didos, mal interpretados e, consequentemente, nao pertinentes a
natureza dos Cuidados de enfermagem. Estas tendências nern rnes- Para iustrar este carácter arrojado, referia-me também àquilo a
mo pensam em termos de natureza das coisas e dos seres. Neste que se charna <<a teoria do caring" elaborada por Jean Watson, ether-
contexto, a preocupacão de certos lideres da profissao é imitar as meira americana já mencionada atrás. Ainda que a sua abordagem
outras disciplinas, sacrificando-nos a nOs próprios, é explicitar o se pretenda "existencial - fenornenolOgica e espiritual", introduz-
nosso prOprio campo e revelar a especificidade da Enferrnagern. -se urna distincao entre o <<curing" e o <<caring)9. Nurn artigo redigi-
Porque, na nossa preocupação de sennos como o outro, procura- do ern frances comentando a sua teoria, pode let-se: <Watson distin-
mos identificar o que ha dos outros em nOs próprios, ern vez de gue clararnente entre a curing reservado ao domInio medico e o caring, a
essência dos cuidados de enfermagem. A autora espec(flca que o curing se
aplica a., curar a doença, ao passo que o caring se aplica a manutençäo ou a
Is Abdel-Al H., Qualiti des coins infinniers et qualité de vie, Conferencia proferida no
Congresso da Association des soins infirmiers communautaires, Valência, Espanha, 1 e
2 Dezembro 1995. "Watson J., Nursing: the philosophy and science of caring, Little Brown, Boston, 1979.
94 CUIDAR NO HOSPITAL A ENFERMAGEM 95

recuperacão da saüde, bern como ao apoio dodo no Jim da vida e no inornen- De rnaneira mais fundamental, o fosso real que separa a aborda-
to da morte>'20. gem da doença da abordagern do doente nao pode ser preenchido
Apesar do interesse dos seus trabaihos, verifica-se que a doença pot urn complernento de enfermagem. Efectivarnente, este não pode
está isolada do doente e que as acçOes que dela decorrem supOem voltar a unir o que foi previamente separado. Nao se pode, portan-
duas categorias de profissionais, uns para o <<curmg>> e outros para to, construir a identidade da enfermagem tendo por base lacunas
o <<caring. Alérn disso, esta abordagem parece extrair as acçOes de medicas, mas sirn participar na construçao do conjunto. Pot outras
enfermagem do registo de <<curar a doença>>. No entarito, estas ac- palavras, não se trata de that proveito da cisão real entre o <<curing'>
çOes contribuem igualmente para a cura. e 0 <<carmg" para se apropriar da exclusividade deste (iltirno, mas
Corn efeito, tanto as listas de diagnosticos de enfermagem como a antes de trabaihar no sentido de voltar a colocar o <<curing>> no
separação entre 0 <<curmg" e 0 <<caring" assentarn nurna verfficaçao <<caring>' ou de trabaihar para que a doença näo seja destacada, iso-
que não pode set negada: a da medidna cientifica <<objectizante" que lada do doente. E esta a lOgica de cuidar, a que cada profissional de
se dirige ao corpo que o doente tern, sem se interessar, ou interessando- saüde coloca na acção de prestar cuidados a alguérn para o aju-
-se muito pouco, pelo corpo que o doente é. Esta constatação, que apre- dar utilizando as suas cornpetências especIficas. Esta lOgica deveria
sentei e comthtei ariteriormente, explica que os profissionais dos cui- fazer evoluir o diagnostico de enfermagem <<fadiga", pot exemplo,
dados de enfermagem sintarn e vivam pot vezes iritensamente a faiha para urn verdadeiro diagnOstico de cuidar, que dissesse respeito ao
que se iristalou: a de uma medicina que, para alérn de se interessar conjunto dos prestadores de cuidados, que incluIsse, entre outras
pela doença, se interesse tambérn pelos doentes. Confiando nesta coisas, a fadiga. Na realidade, não nos podemos lirnitar a designar
constatação, as enfermeiras e os enfermeiros pensarn poder construir apenas o diagnOstico de enfermagem como urn complernento ao
a sua identidade na faiha observada. A tItulo de exemplo, o diagnOsti- diagnostico medico porque esse complernento reforça a separacão
co de enfermagem <<fadiga>> é muito interessartte pois mostra e per- e, ainda por cirna, não e especificamente de enfermagem.
mite identificar urn elernento que não é tido em conta pelos diagnosti- Urn tal diagnOstico de cuidar, indispensavel a urn verdadebo
cos medicos. Trata-se de urn c/ado complemen tar indispensdvel ao diagnosti- processo de cuidar pluriprofissional, deve set o reflexo de uma aná-
co medico. Este, corn efeito, não da indicaçOes senäo a respeito da doen- lise aprofundada e actualizada da situaçäo de vida encontrada e,
ça - por exemplo, urn tumor do colon - mas nao diz nada a respeito por conseguinte, não pode limitar-se a uma forma de categorizacäo
da prOpria pessoa do doente e da maneira como ela vive essa situação. em que, corn demasiada frequência, o rótulo passa a set mais irn-
.0 problema é que o diagnóstico de enfermagem <<fadiga" näo e uma portante do que a prOpria clarificação dos fenórnenos presentes.
observaçao nern fruto de uma análise exciusivarnente de enfermagem. Prestemos atenção as palavras de Jean-Pierre Lebrun":
A verificaçao da fadiga pode ser feita pelo conjunto dos intervenientes <<Hoje em dia, as enfermeiras queixarn-se de ser tratadas como
e, a esse tItulo, não pode, para ser eficazmente tida em conta, ser apenas nñmeros, como puros e simples executantes, de ter que anular as
do dominio da enfermagem. Deve ainda set integrada pot cada urn suas emoçOes para não prejudicar a eficacia tecnico-cientffica e de
dos profissionais da equipa pluridisciplinar aquando da escoiha das não ser reconhecidas na especificidade do seu trabaiho; tudo isso
suas acçöes. pode muito bern ser entendido como efeito da influência cada vez
Alérn disso, se o diagnósfico de enfermagem <<fadiga" dá urn corn- maior do discurso medico cientIfico, atestando a dificuldade cada
plernento ütil de inforrnaçao, este não pode ser isolado da complexa vez maior em dar lugar ao sujeito, tanto por parte do prestador de
situação de vida da pessoa, caso em que se confrontaria corn os rnes- cuidados como pot parte do paciente. Corn efeito, é evidente que o
mos lirnites que os diagnosticos medicos. mundo da enfermagem é o que está mais prOximo dos pacientes e é
o que, no hospital, se encontra nurna posicão semeihante a do pro-
° Gallant-Aucoin C., -La théorie do caring de Watson", in L'infirmiere canadienne, De-
zembro 1990. 21 Lebnm J.-P., Dc la maladie medicate. Ed. de Boeck Université, Bruxelas, 1993.
96 CUIDAR NO HOSPFAL A ENFERMAGEM 97

fissional para todo o serviço: é ele que tern, na maior parte das ye- sernpre foi ode serern construIdas a partir da diferença entre a abor-
zes, a responsabilidade de apoiar a singularidade do doente face as dagern médlica da doença e a abordagern de enfermagem do doen-
irnposicOes da eficacia técnica rnédica ( ... ) A procura pela enferrnei- te, quando estas abordagens deveriam ter contribuIdo mais para
ra de urna nova identidade através, por exemplo, da constituiçao de reunir do que para separar ou reforçar a separacão. Hoje ern dia, os
urn "diagnost-ico de enfermagem" pode ser entendida como urna conhecimentos provenientes dos trabaihos de enferrnagern não são
tentativa de salvar urna especificidade arrastada para a ruptura do suficienternente revelados e difundidos, quando poderiarn ser inte-
sujeito a que obriga a submissao da medicina apenas ao aspecto ressantes para o conjunto dos profissionais de saüde.
tecnico-cientifico". 0 futuro da enfermagem nao pode ser construido a partir das
0 autor prossegue corn o que pode ser entendido corno urn alerta: falhas da abordagern rnédica tecnico-cientIfica porque, na sua que-
<<Toda a questão consistirá ern saber se o mundo da enfermagem da, essas faihas arrastarão os cuidados de enfermagem pan os rnes-
fará dessa acção urna acçào de rivalidade corn o saber medico - o mos escornbros. Tal futuro não pode ser encarado senão na constru-
que sO podera levar a urna escalada suplernentar da conflituosidade çâo ou na reconstrução de urna lOgica de cuidar verdadeirarnente
- on se val permitir que se escreva um saber-fazer ate aqui confina- piuriprofissional em que as enferrneiras e os enfermeiros consigarn
do a tradiçao oral. encontrar e identificar a sua função e, do rnesrno modo, o seu
a tentação técnica e grande para o mundo da enfermagem, contributo insubstituivei para a saüde da populacao. Este futuro da
porque 0 aspecto tecnico-cientffico não promove outro modelo que enfermagern não pode construir-se a partir de urna abordagern
nào seja o seu e porque, consequenternente, será cada vez mais difI- disjuntiva prejudicial ao doente porque, para que os cuidados de
cii a enfermeira rnanter urna posicão especIfica se o seu interlocutor enfermagem possam existir, e necessário, antes de mais, que os cui-
medico näo char o distanciamento necessário para poder pensar o dados existarn e tenham a vet corn todos os profissionais de saüde.
desfecho inerente a racionalidade da ciência. Actualmente, a enfermagem é rica pelas situaçOes yiyidas por
<<Nurn universo determinado pelo discurso da ciência, é para urna cada urn dos seus membros e por urn certo nñrnero de trabaihos.
acção concertada ern benefIclo do paciente que são convocados o Esta riqueza, porérn, continua oculta porque se encontra prisioneira
mundo medico e o mundo da enfermagem, o que não deverá ser nurna concepcao binária do cuidar que opOe, per urn lado, a acção
confundido corn obediencia". pelo doente e, por outro, a acção contra a doença. Do rnesrno rnodo,
Vê-se, assim, que o tratarnento ou o <<curing>> nao deve ser reproduz as rnesrnas abordagens redutoras realizadas pela rnedici-
dissociado do cuidado ou <<caring", mas antes integrado neste. Nao na cientifica. Mesmo que convenha ser operacional, esta procura de
se pode esperar legitirnarnente curar on tratar urna pessoa sem a pragrnatisrno não pode ser feita em detrirnento do pensarnento re-
cuidar. Aqui está urn beio desaflo para a enfermagem: o de utffizar lativo ao cuidado e ao serviço oferecido a populacão.
as suas reflexoes conceptuais e os seus instrurnentos não para os
tornar especificamente mas artificial e erradarnente de enfermagem
mas antes para enriquecer a reflexao e a prática dos outros parceiros
profissionais no sentido de ajudar estes illtirnos a desenvolver as
suas capacidades pan "prestar cuidados a". Para serern verdadei-
ramente (iteis aos beneficiários dos cuidados e aos seus farniliares,
os eiementos mais significativos dos diagnósticos de enfermagem
devem evoluir para <diagnósticos>> de cuidar. Neste carnpo, as en-
fermeiras e os enfermeiros tern toda a legithnidade para fazerem e
alirnentarern esta reflexao a respeito da sua historia e dos iniimeros
trabaihos realizados. 0 probierna das abordagens de enferrnagern
11

A pessoa do enfermeiro

Os cuidados de enfermagem são urna arte - a arte da enferma-


gem - porque o seu resultado para urn beneficiario de cuidados
provérn sempre de uma ado ünico de criaçäo. A este titulo, os pro-
fissionais que os praticarn são verdadeiros artifices dos cuidados.
Corn efeito, a prática desta arte supöe não a aplicaçao de conheci-
mentos gerais a urn indivIduo em particular mas a apropriacão, por
urn processo singular, artesanal, dos conhecimentos e das aptidoes,
para que estes sejarn portadores de sentido e de ajuda. Esta arte não
se pode limitar a soma das intervençOes de cada urn, rnesmo que
estas denotern sempre atenção a pessoa. Não se trata de procurar
dar sentido a cada acto, mas de inscrever o conjunto das interven-
çOes nurna perspectiva que tenha sentido para a pessoa. B pot isso
que a arte da enfermagem se inscreve nurn projecto de cuidados,
projecto sign 4ficativo tanto para os beneficiários dos cuidados como
para os prestadores dos mesmos. So urn projecto assirn permite a
complementaridade dos adores, cujas diferentes intervençOes não
se reduzem a tarefas a executar mas antes a cornpetências particula-
res face a urna dada pessoa. Este projecto está na base do trabaiho
em equipa pluridisciplinar em que cada profissional e levado a si-

A PRATICA DA ARTE DA ENFERMAGEM

Nern sempre se aceita que se situern os cuidados de enfermagem


to registo da arte e se utilize o vocabulo "artifice>>. Corn efeito, en-
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contrei urn certo nñmero de interlocutores que rejeitavarn estas ex- o filOsofo Jean-François Matherbe afirma que o othar do cientis-
pressOes. Estas pareciarn-Ihes marcadas pelo arnadorismo, pelo pou- ta, do investigador, se cruza corn o do terapeuta, ou ate se the opOe.
cc mais ou menos", pela falta de precisao que caracteriza uma produ- Corn efeito, declara que o investigador exarnina series de indivI-
cáo artesanal. Aos seus olhos, a arte opor-se-ia ao profissionalismo e duos para, a partir das suas observaçOes, obter parâmetros üteis para
ao processo que conduziria a urn major reconhecimento social. Este defirtir o funcionamento normal do corpo hurnano em geral. A par-
processo necessitaria de uma referencia mais cientIfica e menos lit daI, poderão determinar-se os funcionamentos patolOgicos. As-
ambIgua do que a da arte. No entanto, a própria essência dos cui- sirn, o cientista interessa-se pelo corpo que as pessoas tê,n. Pot seu
dados nao deixa qualquer düvida. Nenhurna pratica de cuidados, lado, e sem negar o interesse dos trabaihos dos cientistas, o terapeuta
quer seja medica, de enfermagem ou outra, é cientifica, pelo menos apoia-se nos corthecimentos gerais estabelecidos pelos investigado-
se se pretende verdadeiramente respeitadora da pessoa abordada res para descobrir urn caso individual. 0 terapeuta - o prestador
enquanto <<corpo-sujeito". Isto não exclui de modo algum que esta de cuidados - interessa-se, assirn, pelo corpo que a pessoa é. Diz-
prática possa referir-se a conhecirnentos, alguns dos quais - mas -nos este autor: <<O investigador esforça-se por induzir urn conheci-
so alguns - são cientificamente estabelecidos e nos quais se situa mento geral da observaçao de series de indivIduos. 0 terapeuta in-
aquilo a que muitas vezes se dá o norne de ciências de enferma- teressa-se pela crise singular de urn indivIduo. A mediaçAo e a
gem'>. bioestatIstica, construIda por uris e utilizada por outros"1.
A arte do prestador de cuidados, a que tambern se pode charnar o rnesmo autor propãe-nos urn exemplo que qualifica de simples e
arte do terapeuta, e aquela que vai em auxllio de uma pessoa para elucidativo. Os trabathos dos cientistas permitirarn estabelecer que o
contribuir para o seu bem-estar, para a sua saüde. E, portanto, mais peso ideal de urn individuo do sexo masculino e correlativo ao nürne-
ampla db que a que visa curar. Esta arte é subtil porque tenta, entre rode centImetros que excedem o prirneiro metro, com algurnas varia-
outras coisas, adequar conhecirnentos estabelecidos em geral, a par- çOes ligadas ao tipo de ossatura. Assirn, urn homem de cento e setenta
hr da observação de urn grande nilmero de inclivIduos, a uma pes- centImetros de altura deveria apresentar urn peso ideal de cerca de
soa em particular, na sua situaçao singular. E nesta capacidade de setenta quilos. Quando urn medico ye entrar no seu consultOrio urn
encontrar Os outros procurando ajustar saberes gerais a situação de homem corn aquela altura mas a pesar cern quilos e a queixar-se de
vida de uma (mica pessoa - ou de urn grupo, tratando-se de abet- dores diversas e de dificuldade em respirar, teria justfficaçao, segundo
dagens colectivas - que reside a verdadeira cornplexidade mas tam- os dados estatIsticos estabelecidos pelos investigadores, para prescre-
bém a grandeza da prática do cuidar. ver urn regime severn para fazer o paciente voltar ao <<normal)>. Devia,
Rejeitar a ideia de arte em beneficio da de ciencia para abordar a assirn, prevenir-Ihe perturbacOes secundárias ]igadas ao excesso de
prática de enfermagem nao é apenas uma simples questão de se- peso. Se, ao agir assirn, o medico pode ter razão do ponto de vista
mântica ou de sensibilidade terrninológica que apenas interessaria estatIstico, o mesmo não se poderá dizer em relaçao a sua missao como
a uris quantos indivIduos. Trata-se de uma questão fundamental que terapeuta. Com efeito, o que o paciente pede não é a sua reposicão na
deve permitir não opor um aspecto a outro mas antes situar a arte e norma estatIstica mas ajuda para gerir o seu problema de obesidade, o
a ciencia no seu respectivo lugai sendo a prirneira alimentada, en- que não deve ser dissociado da sua histOria pessoal, da sua heredita-
tre outras coisas, pela outra. Pretender qualificar a prática de enfer- riedade, dos seus hábitos de vida...
magem como cientIfica revelaria uma concepção de cuidados tao No caso anterior, a acçäo do terapeuta não consiste em fazer o
pobre como inadequada, que não se pode encorajar nem em nome paciente voltar ao <<peso ideal'> mas antes em o acompanhar nas di-
do processo de profissionalizaçao. Percebe-se imediatarnente o que ficuldades que vive para o ajudar a mventar tuna rnaneira de viver
tal orientação per parte das chefias de enfermagem e dos docentes
teria como repercussáo na organi.zacao das unidades de tratamento Malherbe J.-F., Autononfie et prevention -Akool, tabac, sida dons une société mCdicalisée.
ou no ensino. Ed. Artel-Fidès, Montreal, 1994.
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a vida corn rnenos descor,forto e que seja mais cornpat-rvel corn o
seu estado e corn Os seus projectos. E por isso que se trata de urna bern concebidos que sam. Não se frata, corno nurn dever, de ofazer
arte. J.-F. Matherbe acrescenta; <E provável que, no seu caso, urn urn processo>> pot vezes abstracto e lirnitador, mas antes de situar a
excesso de peso do ponto de vista geral da estatIslica não seja urn sua acção nurn processo, aquele que designa urn movirnento, que se dirige
excesso de peso do ponto de vista particular do indivIduo. Dal re- ao outro para ir ao seu encontro no caminho que é o seu. Para conseguir
sulta, Para o autor, que <<a arte do terapeuta consiste em ajudaro seu iniciar e ajustar este rnovirnento que leva ao outro, os pmfissionais são
paciente a negociar a definiçao do ponto de equilthrio entre o fun- convidados a clialogaz a reflectiz a analisaz a identificar os elernentos
cionarnento perfeito do corpo que ele tern e o prazer de viver o cor- que constituent a situação de vida em que VãO intervir. Deverão Car
P0 que ele e>>. Como e ate onde será possivel negociar a definiçao urn largo espaco a sua intuição. 0 processo é aquele que permite ela-
desse ponto de equilIbrio? <<E esta a questao central corn que o borar corn a pessoa que e cuidada e, consoante a sua situação, corn os
terapeuta se depara todos os dias se liver a honeslidade de exigir de seus farniliares urn projecto de cuidados, ou seja, identificar corn ela
Si
próprio não ser apenas urn engenheiro biornedico, se entender urn horizonte Para o qual ela pretende progredk Esse horizonte ora se
viver a relaçao terapeutica de forma sinergetica e não mecamca 2. inscreve nurn prazo rnuito curto ora e percebido corno rnuito distante.
Este exemplo ligado ao excesso de peso diz respeito tanto as en- For vezes, e o de rnorrer serenarnente. Esse horizonte nao e definido
ferrneiras e aos enfermefros como a todos os outros terapeutas na de urna vez por todas porque evolui, precisa-se ou reorient-a-se duran-
sua prática diana. Esclarece o que está ern jogo nas várias situaçOes te o processo. Esse horizonte não é o do regresso a situação anterior
encont-radas pelos profissionais quando estes procurarn, de forma porque, necessariarnente, depois do acontecirnento vivido, qualquer
artesanal, inscrever as suas accOes num projecto sigriificativo para a que seja a sua importância, já nao se é cornpletamente igual, tern-se a
pessoa a firn de que cada urna dessas acçOes seja verdadeiramente riqueza de urna experiência de vida que contribui Para a construção
sent-ida como ut-il e de ajuda Para as pessoas a que se dirige. do ser, rnesrno se se tratar de uma experiência dolorosa, difIcil, sem a
qual se gostaria de passar. 0 acontecimento assirn vivido pela pessoa
no seu encontro corn os prestadores de cuidados pode permitir que o
A NECESSIDADE DE UM PROCESSO paciente e os seus fatniliares abordern rnelhor a sua saüde e ajarn corno
vectores de saüde no seu respectivo rneio ambiente.
A prática dos cuidados de enfermagern inscreve-se assim num
encontro entre urna pessoa que e cuidada e pessoas que cuidaa-n.
Para os prestadores de cuidados, trata-se de encontrar urna pessoa Tecer tacos de confianca
no sen carninho particular de vida e de fazer carninho corn ela, indo,
por vezes, ate ao <<firn do caminho>>. Este encontro e o <<passeio>> que A base desta acção, o prirneiro objectivo que ela procura alcan-
se segue tern mais pOssibilidades de produzir urn resultado car, é conseguir, através de wna abordagern judiciosa e subtil, tecer
terapeufico quando provérn de urna relaçao rica, aquela que permi- tacos de conflanca corn o beneficiário dos cuidados. Para este, ter confian-
te acornparihar e ser acomparthado por alguern em quern se tern ça equivale a dizer <<creio que este prestador de cuidados pode aju-
urna certa esperança. dat-me respeitando quern eu SOW>. 0 que, a parfida, pode dizer res-
Este encontro necessita de urn processo, aquele a que se pode peito a urn prestador de cuidados pode, progressivarnente, implicar
charnar urn <<processo de cuidados> on, mais exactarnente, urn toda urna equipa.
<processo de cuidan>. Nao se deve confundir esta ideia de pro- Parece-me, pois, que tecer laços de confiança fundados no res-
cesso corn quaisquer docurnentos ou grelhas a preenther, pot mais peito pela pessoa e que permitarn caininhar corn ela necessita da
conjugaçao de, pelo rnenos, oito elernentos:
Majherbe J.-F., op. cit. - o color, que permite que o beneficiário dos cuidados perceba o
prestador de cuidados corno urn ser caloroso, que não 6 hostil
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nern distarite, que tern a palavra, o sorriso, o olhar adequados e <Cornpadecer-se e deixar-se habitar pelas angüstia e pelas dores
personalizados; de quern sofre, é estar ali, escutar, receber os gritos de revolta e de
- a escuta, que permite acolher a palavra do outro e que se pre- dot A cornpaixao e de nina total ineficacia técnica mas de urn infini-
tende de ajuda, graças a expressào das suas inquietaçOes ou do to valor humano, e creio cada vez mais que nina ética médica que
seu sofrirnento (ver Anexo I, P. 173); procura di.zer o que é urna boa rnedicina não o pode ignorar, o que
- a disponibilidade, que permite ao prestador de cuidados mos- faz corn dernasiada frequência>>3.
- trar que está all, presente a tal pessoa. Revela urna atenção par- Marie de Hennezel vai no rnesrno sentido quando escreve:
ticular. Permite escutar serenamente - não de maneira artifi- <<A cornpaixao consiste ern acolher o sofrirnento e a angüstia de
cial e apressada entre duas tarefas, por vezes entre duas portas outros e, por sua vez, oferecer a confiança e a serenidade que cada
-, responder as perguntas, identfficar as inquietacOes ... ; urn pode descobrir ern si. Trata-se, nesta participacao tao simples no
- a simplicidade, que se caracteriza tanto por urn comportamento sofrirnento do outro, de estar corn ele, de não o deixar s6'0.
corno pelo recurso a urna linguagem acessIvel. Os ares de sabe- V8-se, assim, que a compaixao é inevitável na verdadeira prática
doria e as palavras exageradarnente complicadas podem dar de cuidar e que se dirige ao corpo-sujeito. Rejeitá-la equivale a rejei-
nina irnagern séria mas não fadilitarn o estabelecirnento de urna tar a prOpria funçao de cuidar e situar a sua profissao num registo
relaçao de confiança: diferente do da ajuda singular prestada a pessoa. Nesta perspecti-
- a humÜdade, que revela urn profissional consciente dos seus li- Va, a cornpaixão deve ser percebida corno profuridarnente hurnana,
mites, que tern a arnbiçao de prestar ajuda sern ter a pretensão e não pode ser confundida corn urna qualquer qualidade proveni-
de tudo dominar e de tudo saber sobre a pessoa e que não quer ente das práticas religlosas.
exercet, no paciente e nos seus familiares, urna forma de supre- As cornpetências profissionais de natureza cientIfica e técnica são,
macia ligada ao seu estatuto profissional, o de <<quern sabe>>. é evidente, igualmente necessarias, insinuarn-se naqueles oito ele-
Esta forma de superioridade que se pretende irnpressionante rnentos mas sern poder substitul-los.
e, muitas vezes, percebida corno insuportavel, como infan- Tecer laços de confiança corn urna pessoa que acaba de ser admi-
tilizante e alienante; tida no hospital, por exemplo, precisa de urn processo particular
- a autenticidade, que revela inn profissional que exerce a sua pro- irnpregnado de todas aquelas <pequenas coisas>> que constituent os
flssao corn verdade para consigo e, por conseguinte, corn ver- cuidados de enfermagern. Corn efeito, ern tal situação, a prirneira
dade na relaçao que mantérn corn os outros; etapa que conduz a confiança é a que permite diminuir a ansiedade
- o humor, que permite não tornar pesada urna situação, rnesrno associada a urn ambiente que não se conhece ou a nina situação
dramatica ou difIcil, revelando urn prestador de cuidados ca- inquietante. Percebe-se facilmente que, nesse rnornento, não con-
paz de recuar, relativizando as coisas e identificando, tanto vérn procurar fazer urn interrogatOrio de adrnissao para preencher
quanto possIvel, os aspectos positivos, insolitos ou interessan- urna grelha de <<colheita de dados>> mas antes tranquilizar procu-
tes para o futuro ... ; rando prevenir a famIlia1 explicando o funcionarnento do serviço,
- a compaixão, que permite ao prestador de cuidados parti- mostrando a casa de banho, indicando as horas das refeiçOes, das
lhar o sofrirnento do outro, carregar urna parte do fardo, visitas de farniliares, da presenca dos medicos. 0 rnesrno se poderá
aligeirando assirn o fardo carregado pelo doente e pelos seus dizer relativarnente ao horário do pessoal de enfermagern, de corno
farniliares. utilizar a campainha, a televisao e o telefone, a localizaçao e o aces-
o termo ccornpaixao" nern sernpre é aceite; eu próprio fui, mul- so a loja, os mornentos de encontro corn os ministros dos cultos...
tas vezes, interpelado pela sua rejeicão no mundo da enfennagern.
Muita gente parece chocada ou paralisada pela sua conotação reli- conand Th., ,De Is compassion,,, in Soins inflrzniers/Krankenpflege, 1993.
giosa. 0 medico Thierry Colland diz: De Hennezel M., De la inort inthne. Ed. Robert Laffont, 1995.
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Aquando da admissao, o primeiro contacto resume-se, ainda rnui- junto de referências, nern todas procedentes de teorias ou de mode-
tas vezes, a fazer perguntas, muitas perguntas relativas ao passado los. Alérn disso, essas referencias não devern ter todas fundarnentos
e a toda a espécie de hábitos. Estas são, pot vezes, percebidas como cientificarnente estabelecidos porque estão associadas aquio que
pessoais ou ate rnesmo intimas. Para alérn de nao favorecerern a vive, aquilo que faz a vida dos seres. Penso que nao se rnediu suficien-
confiariça por darem a irnpressão de agredirem a pessoa, de a pot <<a temente o impacte antiprofissional das decisoes que levarn este hos-
nu, näo suscitarn, na major parte das vezes, senão respostas par- pital ou aquela escola a referirern-se exciusivarnente a uma de-
ciaisrporque 0 paciente está na defensiva. Consequenternente, quart- terminada teoria dita de cuidados. Esta prática que, felizrnente, ten-
do se consegue instaurar urn clirna de confiança, já näO é preciso de a regredir nega, de facto, a capacidade de inferência dos profissio-
fazer perguntas, pois o paciente exprirne-se de born grado esponta- nais e, portanto, a sua capacidade de criar e, consequenternente, 0
nearnente. seu profissionalisrno. As teorias ou os modelos apresentados como
referencias imicas encerrarn a pratica dos profissionais e lirnitam a
sua reflexao quando as situaçöes de vida encontradas, sernpre üni-
A CAPACIDADE DE INFERENCIA cas, precisarn de uma abordagem rica, dinârnica e corn referencias
rnültiplas e variadas. Todas essas teorias, todos esses modelos, to-
o processo de cuidar remete para a capacidade de inferencia dos dos esses instrumentos, quando impostos, convidam a uma forma
profissionais, a capacidade que perniite estabelecer relaçOes corn os de pensarnento ih'tico e, pot isso, nao aparecern como de ajuda para
diferentes elementos. Isto significa que, para it ao encontro de urn a pratica diana da arte de enfermagem, cuja realidade e tao diversa.
doente, para agir na sua situação e procurar identificar o rnais Além disso, em muitos casos, nurnerosos responsáveis e docentes
fmarnente pOssIvel as componentes dessa situação que interagern, tern dado mais irnportância ao respeito pot tal teoria e a redacçao
as enfermeiras e os enfermeiros vão ter de it buscar a urn vasto cam- dos documentos que dela decorrern do que a própria prática da en-
p0 de conhecirnentos os elementos, ou os ingredientes, que ihes vão fermagem. Nenhurn projecto de cuidados individualizados para uma
permitir praticar a sua arte, criar cuidados. 0 vasto carnpo de co- pessoa determinada, logo, nerihum processo de cuidar se pode ins-
nhecirnentos inclul tanto elementos tirados da sua observaçao como crever numa teoria ou proceder de urn modelo. Se estes podern aju-
dados cientIficos, teorias diversas ou modelos, bern como dar a compreensão da situação, nao podern constituir 0 projecto de
ensinamentos tirados das suas experiências pessoais anteriores, tanto cuidados. 0 processo profissional que termina no projecto de cui-
profissionais como privadas. 0 campo é vasto e variado e inclui dados não e o que consiste ern tentar conformar-se e, portanto, re-
necessanarnente a intuição. 0 profissionalisrno assenta nesta capa- duzir a situação de vida encontrada a esta ou aquela teoria ou a este
cidade de estabelecer relaçOes corn uma multidao de elementos e de ou aquele modelo. E a que ganha sentido na vida de nina pessoa.
agir de rnaneira esciarecida, subtil e adaptada a cada situação de Nenhurna teoria nern nenhum modelo pode conter a singularidade,
vida encontrada. a riqueza do set
Isto e importante porque os cuidados de enfermagem são obra A nIvel da prát-ica de cuidados e da pedagogia, isto tern urn
de criação guiada pot esta capacidade de inferência que os profissio- impacte considerável. Corn efeito, ao organizar-se urn serviço ou o
nais tern. Sc estes se sentirern obrigados a praticar a sua arte refe- ensino a partir de urn ünico modelo conceptual, tern-se, de uma cer-
rindo-se a uma iSnica teoria ou a urn modelo preestabelecido, já não ta forma, a arnbiçao de prograrnar 0 cérebro dos profissionais e dos
será arte. Corn efeito, agindo assim, irnpor-se-lhes-ia que pensas- estudantes corn vista a analisar todas as situaçOes de vida que estes
sern de forma predeterminada. Surpreendenternente, isto é, por ve- vão encontrar através desse ünico modelo. Já nao se trata verdadei-
zes, acompanhado de urn discurso sobre a criatividade e o profissio- ramente de anélise mas de procura de pontos de convergencia, de
nalisrno. Para praticar a sua arte, nao e de uma teoria ou de urn conformidade entre o modelo e a situação encontrada. Tal progra-
modelo que os profissionais tern necessidade, mas antes de urn con- mação não 6 propIcia a uma verdadeira abertura as <coisas da vida>>
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e nao da urn equipamento rnetodológico suficienternente rico para tradas e Os diversos ataihos, não indicarn para onde a pessoa se deve
exercer e desenvolver a capacidade de inferência de cada urn. Pot : diriü.
conseguinte, não e suficiente para it, de forma esciarecida e profis- Esses pontos de referencia devern ainda ser objecto de nurne-
sional, ao encontro de uma pessoa no percurso da sua vida. rosos trabaihos. Devern ser elaborados a partir de trocas de irn-
pressOes, de leituras e de reflexoes aprofundadas baseadas, en-
tre outras coisas, nas situaçOes encontradas. Percebe-se facilmente
Referencias metodolOgicas que o processo de elaboração de referencias rnetodologicas numa
J1111 I instituição de ensino ou de cuidados é urn processo diferente e
Desenvolver a capacidade de inferência, situar os cuidados de muito mais enriquecedor do que o que consiste em determinar a
enfermagem nurn encontro e a prática da arte de enfermagern numa escoiha de urn rnodelo e ern procurar corno aplicar ou adaptar
relaçao rica baseada na confiança e na esperanca que permitarn fa- f
esta ou aquela teoria. Nurn caso, trata-se de urna abertura a vida
zer caminho juntos necessitarn, efectivarnente, de referencias e de urn contributo de oxigénio saldo da discussäo dos protago-
rnetodologicas. Corn efeito, se a enfenneira e o entermeiro vão ao nistas presentes; no outro caso, trata-se de urna forma de se do-
encontro da pessoa beneficiária de cuidados, para eles trata-se de R brar sobre si próprio guiado pela procura de conforrnidade a urn
conseguir tomar a medida certa desse encontro a firn de que ele seja modelo preestabelecido. E claro que isto não exclui de rnodo a!-
de ajuda para o beneficiário de cuidados. Situar igualmente o en- gum a análise cornparada de diversas abordagens conceptuais,
contro nurn contexto profissional permite não transformar a ajuda não para nos conforrnarrnos a elas mas para daI tirarmos urn
prestada em situação de dependéncia reciproca. 0 profissional e, ensinamento baseado na crItica.
assirn, chathado a acornpanhar o outro o mais de perto possIvel, a A questão levantada pela elaboraçao de referéncias rnetodológicas
deixar-se tocar pelo seu sofrirnento sern se deixar invadir pot este. E . não pode ser tratada em breves linhas ou ern algurnas págirias. Ela
tuna questão de perrnartente ajustarnento, que indica a capacidade procede de urn processo voluntário e sincero realizado pot urn gru-
de o profissional estar rnuito perto do doente, sern o estar dernasia- po irtteressado nesta abordagern e pronto a discuti-la. Corn efeito,
do, estar suficientemente distante dele, sern tarnbérn o estar - cornpreende duas grandes etapas que se subdividem em taritas par-
exageradarnente. Quern, para não cotter o risco de urna proxirnida- tes quantas as consideradas üteis pelo grupo ern causa.
de rnuito grande, se afasta sisternaticarnente, não é -ainda não é --- Pot urn lado, a de clarificar no mornento oportuno aquilo a que cha-
verdadeiramente profissional. Quern não consegue tornar a devida tnamos cuidados de enfermagem. Pot mais evidente que possa parecer,
distância aproxirnando-se dernasiado ou corn dernasiada frequên- - urna discussao sobre este tema nunca se esgota rapidarnente. Pelo
cia tarnbern o nao e. : menos, se se tratar de urna resposta construlda, guiada pela preocu-
As referências rnetodológicas visarn, assirn, ajudar as enfermei- . pacão pela clarificaçao para urn dado grupo e não pela preocupacão
ras e os enfermeiros que acornpanham o beneficiário de cuidados e - pela conformidade as correntes dominantes ou aos lideres. Ser-se-i
os seus famillares. Em sentido etirnologico, a rnetodologia é <o dis- tentado a pensar que esta discussAo é mais urna a juntar as outras. E
curso que acornpanha o caminho>. Essas referências são, portanto, claro! Mas, se fosse preciso reter penas urna thiica, esta é a mais fun-
esciarecedoras, porque acornpartharn o caminho a percorrer sern pot damental de todas as que the estão indiscutivehnente associadas: a
isso ditar urn caminho tipo aos profissionais que, nesse caso, já não . saüde. B ela que permite verdadeirarnente esciarecer o caminho e
poderiam ser os iniciadores ou os criadores desse caminho. Seriarn oferecer rnuitas chaves de resoluçào de problemas tanto pedagogi-
então prisioneiros da rnetodologia. J.-F. Malherbe5 da assirn o exern- . cos corno organizacionais. B graças a luz salda dessa discussao que
pio do rnapa de estradas que, indicando onde se encontrarn as es- . podern ser tomadas orientacOes pertinentes e duradouras, porque
solidamente firmadas nas próprias raIzes da profissao de ether-
:1 MMher J.-F., op. cit. rnagern.
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Por outro lado, as referencias metodologicas assentam nurna lei que está inscrita no mais profundo de si prOpria e que define a
questão mats instrumental ligada ao próprio encontro entre os sua pertenca a hurnanidade. Esta lei é a rnesma pan todos porque
beneficiários e os prestadores de cuidados. Esta divide-se em, pelo define a nossa hurnartidade cornurn<& A seguir, o autor interroga-se
menos, duas subquestOes que encontram as suas respostas na dis- sobre a natureza dessa lei que permite let no mais profundo da
cussão que nasce da cornplexidade das situaçOes de vida nossa identidade e que faz de nós seres hurnanos solidários uns corn
encontradas: OS outros)>.
- como vamos orgariizar-nos e preparar este encontro, através Para responder a esta questão, o filosofo propOe-nos urna
de que ensinamentos, modalidades pedagogicas, corn que apoios quena excursão" através da qual nos quer fazer descobrir as condi-
e corn que instrurnentos? çOes que devem ser satisfeitas para que possa existir am dialogo
- que lintites varnos pôr a este encontro, e porno-los em funçao entre duas pessoas. Essas condiçOes são doze e subdividern-se em
de que? quatro rubricas. Sao erwnciadas da seguinte forma.
Para abordar os lirnites postos pot esta ültirna subquestao, pare-
ce-me interessartte desenvolver a noção de autonomia no diálogo
corn 0 outro. Reconhecer

A presenca do outro, mesmo que essa presenca seja mediatizada


Tender para a autonomia de forma diferente, tal como pelo te!efone, pot urna carta... e preci-
so que urn esteja presente ao outro.
A autonomia e, geralmente, identificada corn a independencia. Ora, A dqerença do outro que e necessária para que possa haver dialo-
podemos vera nossa volta situaçOes ern que pessoas são dependentes go entre as pessoas. E a diferença que faz corn que cada pessoa seja
mas autónornas e outras em que pessoas independentes não são auto- urn set singular.
nomas. No sentido mais lato do termo, a autonomia é a capacidade de A equivaléncia entre as pessoas. Trata-se aqui de urna questão de
se governar a partir das suas próprias normas, das suas próprias leis, valor dado ao outro que e idêntico, quaisquer que sejarn as suas
tal como urn Estado, pot exemplo. A nIvel do indivIduo, este sentido diferenças. A vida de urn e de outro procede da mesrna dignidade e,
lato da autonomia não deixa de ter iriteresse porque pode significar por coriseguinte, do mesmo respeito. Para comunicar, e preciso que
<capacidade de gerir os seus 1imites'. E assirn que se podem ver pes- consideremos o outro como estando no mesmo piano moral que nós.
soas invalidas dependentes como paraplegicos ou tetraplégicos que, Nao se the pode dizer urna coisa qualquer nem pensar que ele nos
apesar da sua dependencia, são autónomas porque podem gerir os diz uma coisa qualquet
seus limites; podem orientar a sua vida tendo em conta a sua depen-
dênda. Do ponto de vista da acção terapeutica, o campo da autonomia
e muito mais vasto do que o da independência, porque é sempre p05- Respeitar o interdito
sIvel acompanhar alguém no caminho da autonomia, o que não acon-
tece corn a independência. HomicIdio, ou seja, renunciar a escother os que conservamos e Os
Coven-tar-se a partir das suas próprias leis pode, em casos extre- que eliminarnos.
rnos, tradazir-se por <<determinar o seu prazer e torná-lo lei>>. Este Incesto, que caracteriza o respeito por, pelo rnenos, urn limite ao
tipo de cornportamento não passaria de uma falsa autonomia por- desejo de incorporar o outro, de nos fundirmos com ele. Trata-se do
que, de facto, não é respeitador dos outros nern do ambiente. E, pois, interdito da dominacão.
necessária tirna abordagem mais flexIvel deste conceito. Para J.-F.
Maiherbe, <<urna pessoa verdadeirarnente autónoma aprende a ler a 6 Malherbe J.-E, op. cit.
112 CUIDAR NO HOSPITAL A PESSOA DO ENPERMEIRO 113

Mentira, pela qual nao se pode pretender respeitar 0 outro ou ser panha este caminho para o que ha demais Intirno em nós, consiste
respeitado por ele, visto ela exprimir urn desprezo de urn pelo outro. precisamente em reconhecer a presenca, a diferença e a equivalência
do outro, em respeitar os interditos do homicIdio, do incesto e da men-
tin, em assumir a nossa solidao, a nossa precariedade e a nossa incer-
Assutnir teza, em cultivar os valores de solidariedade, de dignidade e de liber-
dade. A autonomia é tudo isso. E urn ser autOnomo e um set que, dia
A solidao, porque cada urn está sO, definitivarnente sO. Ninguém apOs dia, se esforça por viver segundo essa lei que descobre no pro-
pode ocupar o lugar seja de quem for, nem pode dizer <<eu" em lu- prioIntimo da sua humanidade. A autonotnia nâo é, pois, uma ques-
gar de outro, mesmo que ele seja muito prOximo. tao de tudo ou nada, mas uma questão de mais ou menos, de progres-
A precariedade, que exprime os linfites de cada urn. Embora todos são on de regressão. Nao nos vem de fora. B a expressão da nossa
sejarnos anirnados por desejos infinitos, temos apenas capacidades própria hurnanidade, que lemos no rasto do outro em n6s' 7.
limitadas para realizar esses desejos. Isth precisa de escoihas, por- A autonomia, a do prOprio e a do outro, aparece assirn como urn
tanto, de renuncias que caracterizam a nossa precariedade, porque conceito fundamental em matéria de saüde. A prevencão, entre ou-
não se pode fazer tudo, realizar tudo. tTas coisas, encontraria aI urn terreno extremamente fértil de refle-
A incerteza, que está associada a recusa da mentira e que, por xao e de acçOes cujos limites aparecem hem menos estreitos do que
conseguinte, toma evidente que não ha quase nada certo, que ha Os que o caracterizam hoje. 0 desenvolvirnento da autonomia de
muitas ilusOes de que, por vezes, e muito difIcil desligar-se. E a incer- cada urn não se pode fazer sem o outro saber on na ausência de
teza que permite abordar uma questão de maneira crItica. outros. Ajudar o outro a tornar-se mais autOnomo é ajudá-lo a ler, a
compreender e a viver essa lei rnestra da hurnanidade que diz res-
peito a todos os seres humanos sem excepcão. B, ao mesmo tempo,
Cultivar repensar a autonornia de cada urn que é irnediatarnente alterada
pelo encontro com o outro. E dizer a importãncia de que esteconcei-
A solidariedade que permite a cada pessoa ocupar urn lugar proprio, to se reveste no <4saber tomar-se" dos estudantes e dos profissionais
dizer <<eu>> porque outros disseram <<tu>. B a prOpria solidao que im- que tém pot missao favorecer a autonomia do outro e, consequente-
plica esta solidariedade necessaria. mente, questionar e desenvolver a sua. B dizer também que isso nan
A dignidade que a nossa precariedade nos confere porque, se nao se ensina de forma magistral masque se aprende, se cultiva, se man-
podemos fazer tudo, isso nan equivale a não saber fazer nada. Cada tém.
pessoa é, pot si prOpria, urn valor na medida em que e pessoa. De- 0 profissional autónomo é aquele que, entre outras coisas, con-
masiada dignidade impede a solidariedade, e demasiada solidarie- segue <<passar a mao'>. Nao se trata aqui dessa demissao fácil diante
dade pode fazer perder a dignidade. das situaçOes mais ou menos atormentadoras on pesadas, mas an-
A liberdade que nos vern da nossa incerteza porque, se nao hou- tes da justa apreciacão dos seus lirnites, que permite respeitar os
vesse incerteza, nan haveria escoihas. Sem escoihas nao pode haver outros e favorecer a sua autonomia.
responsabilidade, porque é ela que nos permite exercer o nosso de- A partir das palavras precedentes, ye-se hem a realidade da arte
ver, responder pelas nossas escolhas. do terapeuta e das exigéncias profissionais associadas a essa capaci-
J.-F. Maiherbe conclui esta <pequena excursão>> pelo caminho das dade de ft ao encontro do outro pan fazer caminho corn ele, encon-
condiçOes para o diálogo, da seguinte forma: trando a justa distância que o separa dele. Esta dimensão artesanal
<<Afinal de contas, a lei mestra da hurnanidade, a lei moral dita da profissao de prestador de cuidados em geral e de enfermeiro em
"natural", em certas escolas de pensamento, a lei que podemos ler
no mais profundo de nOs próprios no diálogo corn o outro, que acorn- 7 Op. cit.
Al-
' A PESSOA 00 ENFERMEIRO 115
114 CUIDAR NO HOSFFFAL

particular precisa de cultivar o <<saber tornar-se>. Não somos artesãos, A enfermeira e o enfermeiro são pessoas que praticarn uma arte,
assim sem mais nem menos, a salda de uma formaçao que da uma são artesãos dos cuidados de enfermagem. A prdtica da arte de enfer-
qualificação. Tornarno-nos artesãos. Nao nos tornamos artesãos ape- magem implica:
nas pela experiência porque, de facto, a experiência enquanto tal - conhecimentos de natureza humana, cientifica e técnica em re-
não fabrica conhecimento e não chega para aurnentar a competên- laçao com a saMe;
cia do profissional. Para tornar uma experiência, por vezes longa, - dominlo dos apoios necessários a prática da enfermagem;
rica de conhecimentos reais e não apenas de aptidoes manuals ou - situar a sua acção na equipa pluridisciplinar;
de hábitos, convém marcar urn tempo de paragem para a observar, - exercer e desenvolver a sua capacidade de inferência;
analisar, criticar, discutir..., em surna, para fazer dela algo que aju- - um lugar deixado a intuiçao;
de o artesão a crescer, a progredir na pratica da sua arte. B esse tem- - a capacidade de ii ao encontro do outro, de tecer laços de con-
po de paragem que the vai permitir alargar o seu campo de referência e, fiança e de carninhar com ele no ambito de um projecto de cui-
assim, aumen tar e enriquecer tanto a sua capacidade de inferencia como a dar. Este encontro e este caminhar precisarn que se escute e que
sua autonomia. Favorecer esse tempo de paragem, que nao deve ser se seja caloroso, disponivel, simples, humilde, autêntico e com-
necessariamente longo, e essencialmente o que deveria permitir a passivo e que se tenha sentido de humor;
formação contInua. B também o que deveria permitir a formaçao - tender para a autonomia e favorecer a dos outros;
pos-básica em escola ou na universidade. - revelar uma presenca de enfermagem forte, fonte de serenida-
de, estando particularmente atento aos aspectos de conforto,
de doçura, de calor e aos <mil e urn pormeflores)) que são irn-
OS CONTORNOS DA PERSONALIDADE DO ENFERMEIRO portantes para osbeneficiários dos cuidados.
Ser urn art esão dos cuidados de enfermagem implica:
Determinar um tal contomo equivale a perguntar: oiQuais seriam - procurar continuarnente afinar e desenvolver a sua arte;
as caracterIsticas fortes de uma personalidade de enfermeiro?>>. Um - ter curiosidade pelas <<coisas da vida, pelas várias novidades
certo mimero destas caracteristicas parecem-me comuns ao conjun- e pelas experiências vividas por outros;
to dos prestadores de cuidados. - procurar tanto partilhar como discutir e criticar a sua pratica, a
0 exercIcio que esta pergunta supOe não é simples e envolve o firn de a tomar acessIvel a outros e de enriquecer a sua.
perigo de ser percebido como utópico ou como idealista. Por vezes, Outros elementos merecem ser mencionados para caracterizar a
as palavras faltam porque são intirneros os elementos que parecem personalidade do enfermeiro, mesmo que alguns deles estejam su-
provir do irtdizIvel. Ora, não se trata de definir o ideal mas antes de bentendidos nas caracterIsticas já referidas. Retenhamos os se-
detenninar Os fundainentos que desenham os contornos da personalidade guintes:
do enfermeiro. Desconfiemos da rejeição do que e muito facilmente - uma visao enriquecida da vida, da hurnanidade, da saüde, do
designado como <(ideal)) quando, de facto, se trata do que é funda- cuidar e dos cuidados de enfermagem;
mental. Retenhamos, conhido, que não se trata de querer ser confor- - a capacidade de cuidar de si próprio;
me as caracteristicas fundamentals descritas mas de nos inspirar- - set portador de uma palavra de enfermagem autentica e reflec-
mos nelas para <<tender para>>, ou seja, para catninhar e progredir. Es- tida e querer utiliza-la em diferentes lugares, não apenas numa
tas caracteristicas dao indicaçOes que permitem a cada urn fazer o Optica de cuidar, a firn de participar nurna major atmosfera de
ponto da situação, orientar-se ou reorientar-se e, em seguida, pot-se hurnanidade;
a caminho. - uma capacidade explicita de se indignar.
Para estabelecer estas caracteristicas, referir-me-ei em primeiro Um esquema pode tentar representar estas caracteristicas que,
lugar ao que já expus anteriormente. de facto, são, todas elas, tecidas em conjunto.
116 CUIDAR NO HOSPITAL A PESSOA Do ENFERMEIRO 117

Corn esse esquema, corro o risco de urna interpretaçao idealiza- Quadro 4. -Tentativa de representação da pessoa do enfermeiro
da, utôpica e asséptica da enfermeira ou do enfermeiro. Näo se trata nunia perspectiva de progressäo
disso porque, felizmente, trata-se de muiheres e de hornens corn A eeoira ou 0 oee e urn a peSSOa
personalidade rica, tanto no que se refere as suas alegrias corno as uma
suas penas, as suas qualidades corno aos seus defeitos... que pres- a do vida, do
uo tendo pars quo oscuta e pratica urna arte
tarn cuidados enquanto seres, que abordam o outro sendo o que e, do sañde, portadora do sentido pam o
ar o dos autonomia 0
sãø Este esquerna oferece, por conseguinte, pontos de referência e avoroce a dos boneficiarlo dos cuidados quo a
Qf
do enforrna- toma capaz do ft ao
que tern outros
pistas de reflexao que alirnentain tanto as interrogaçOes de cada urn encontro do oufro, do tecor laços
ado pelas
corno o seu desejo de progressão. Apresenta tambérn urna base a da vida de confiança e de carninhar corn
ole no ârnbito do urn projecto do
partir da qual podem ser reflectidas os modelos tanto de forrnaçao cuidados signiflcativo '
corno de organizacao de urn serviço.

quo possui corthoci- quo cuida \_/juo exorce odosonvot'


mentos do natureza doss sua capacidado do
hurnana, ciontffica o ( inferencia incluindo
tecnica em rolaçäo neIa a intuiçâo ,.,'
corn asaddo

hurnilde, disponivel, quo


so compadoco o quo ago
quo procura MInor o corno vector do seronidade
dosonvolver a sua vobando polo conforto,
arte, here corno polo doçura, polo color o
discuti-la o partilhA- \ pobosomil ount /
-Ia corn outros

quo domina as apoios da pratica


da orsiorniagern, nornoadarnonte:
- os cuidados ditos bisicos,
exerco a sua - a prosonca continua,
acidadodoso) - Os oct05 prescritos,
indignar _' —as várias acçôes do saude,
- o onsino, o onquadrarnonto o o
situa numb acornpanharnonto do pessoas rno
qualificadas ou nSo qualificadas

'quo pathcipa orn\


forentos situaçOes nAo
do humor oxcbusivarnonte do
cuidados para urna
major atrnosfora do
'.. hurnanidado /
Iii

formaçao

o ensino representa a segunda grande missAo do hospital. Esta


missao pretende atingir o objectivo de participar na forrnaçao de estu-
dantes de diversas disciplinas que hao-de vir a ser profissionais de
saüde. Não p ode, no entanto, liniltar-se a forrnaçao inicial, e prolonga-
-se no desenvolvirnento perrnanente das cornpetencias dos vários pro-
fissionais. A responsabifidade social veiculada por esta missão é im-
portante pois leva a forrnaz isto e, a contribuir Para a evoluçao daque-
les e daquelas que, na sociedade, ocuparn ou irao ocupar funçOes
determinantes no que diz respeito a sailde da populaçao.
Se os cuidados de enferrnagern são a atenção prestada a urna pes-
soa pot uma enferrneira ou por urn enfermeiro corn vista a ajudá-la,
utilizando, para concretizar essa ajuda, as cornpetências que fazem deles
profissionais de enferrnagern, é na aquisição e no desenvolvirnento
dessas competéncias, que definern o enferrneiro, que se baseia a for-
rnação. Consequenternente, o objectivo da forrnaçao tanto inicial corno
continua consiste em contribuir pan o desenvolvirnento de urna pes-
soa enferrneira" cujo perifi e determinado tanto por conhedmentos
corno pot aptidoes e qualidades humanas. Este objectivo não deve ser
confundido corn o de preparar profissionais pam realizarern urn certo
nUrnero de actos. Corn efeito, não pode set urna questão de colocar no
macado de trabaiho especialistas do fazer>>, mas antes muiheres e
hornens que adquirirarn urn perifi de enfermeiro e que vão set capa-
zes de agir nurna perspectiva de enferrnagern, de a desenvolver, de a
aperfeiçoaz de a valorizar. Para rnarcar bern esta diferença, recorde-
mos a resposta dada a Gerard Depardieu no filme Thus les matins du
monde: O senhor faz rniisica rnas não 6 rnñsico>'. E este perfil que Ihes
120 CUIDAR NO HOSPITAL A F0RMAcA0 121

vai permitir não <<fazer cuidados de enfermagem" mas, antes, ser para cularmente abertos e sensIveis as <<caisas da vida". Trata-se de serem
a sociedade em geral, e para o sistema de cuidados em particular, en- curiosos e <<apaixanadas" pela vida a firn de canseguirern lançar urn
fermeiras e enfermeiros portadores de uma palavra de enfermagem e o]har enriquecido sabre as diferentes situaçoes encontradas. Ista equi-
capazes de <<cuidar das pessoas". vale a cansiderar cada pessaa digna de interesse, digna de nina aten-
çãa particular. Esta consideraçao pelo outro, seja ele quem for, pot mais
evidente que passa parecer, nãa é verdadeiramente fácil.
A FORMAcAO EM ENFERMAGEM A noção de <maravilha'> utilizada par Albert Jacquard pode ser-
-nos difi aqui. Numa das suas conferências, dizia que, durante os
As caracteristicas que permitem definir a personalidade do enfer- cursos que dava, quando sentia as alunas distraIdas, as surpreen-
meiro sao, de facto, as que podem orientar a elaboraçao de urn pmgra- dia dizenda: <<Sau uma maravilha>>. A seguir, pedia-Ihes que aihas-
ma pedagógico e fixar as suas modalidades. Vejarnos, em prirneiro sem uris para as autras e se interragassem: <<Serei capaz de identifi-
lugaz que a ensina relativo aos conhecimentos e aos suportes da práti- car aquila em que o outro é uma maravilha?". Tive apartunidade de
ca de enfermagem e a mais facil, mesmo que pareça fasficliaso e ocupe reproduzir este exercIcio corn estudantes de enfermagem. Se o me-
uma importante carga horária. Eu diria que o ensino das matérias que todo nos surpreende, tarnbém não nos deixa indiferentes.
se the referem se situarn no registo do complicado. Tad as as outras Esta noção de <<maravilha" pode parecer excessiva, porque e muito
caracterIsticas situarn-se no do complexo. Todas se inscrevem na cap a- difIdil considerar todas as pessoas como urna maravilha, sobretuda
cidade de dar provas de uma personalidade de enfermeira, tanta no quanda essas pessoas fizerarn alguma coisa que não apreciamos. No
meio profissional como na sociedade, e na capacidade deft ao encon- entanta, cada ser, pot set humarto, e (mico, logo, excepcianal e, par
tro de outreffi e de a acompanhar no momenta próprio. isso, maravilhaso, sa ele a que for e independentemente do que te-
Par conseguinte, a questão que se levanta aos docentes e que ja nha feito. ha descoberta desta maravilha é prestar an outro nina aten-
está parcialmente esciarecida pelo que foi exposto é: <<Que perfil çäa particular, é prestar-the cuidados. Negar que possa haver esta di-
varnos procurar dat aos nossos estudantes e que métodos pedagO- mensão maravilhosa em cada set é, de alguma maneira, não the reco-
gicos varnos utilizar?'>. 0 que está em jogo nesta pergunta é impor- nhecer o estatuto de set hurnano, a que equivale a negligenciar ou ate
tante, e a responsabilidade social que se prende corn ela e praporcia- desprezar uma parcela da humanidade a que cada urn de nós perten-
nal ao que está ern jogo. Nao podendo haver nina resposta ünica e ce. Ma não quer dizer que se deva set capaz de amar tada a gente nem
definitiva, esta pergunta exige uma reflexão aprofundada e sequer ter simpatia por tados, mas que se deve estar convencido de
esciarecida com base tanto numa abertura a sociedade e a sua eva- que em tada a gente ha uma dimensao maravilhosa, mesrno que esta
luçao como na literatura especializada e nos debates. Note-se que, não se manifeste espontaneamente, mesma que ela nos pareça muita
se devern ter-se em conta as expectativas e as desejos dos estudan- escondida. Revelar a maravilha do-outro, set capaz de descobrir al-
tes, urn programa pedagógico responsável não pode liniltar-se a isso. guns dos seus aspectas e ajuda-lo a exprimi-los são elementas funda-
Trata-se sabretudo de despertar e de fazer crescer uma consciencia mentais e incontornáveis que dizem respeito a tados os que, na socie-
profissional voltada para a serviça que pode prestar a populaçaa. dade, exeitem uma pmfissão de serviço ao set humano. E par isso que
Os estudantes e, consequentemente, as enfermeiras e as enfermei- tudo a que concorre para a exclusão do outro au tadas as orientacOes
ros,vão vet-se confrantados corn nina multiplicidade de situaçOes de ou atitudes que refarçarn esta exclusaa são incampativeis comas cui-
vida. Vão estar lado a lada cam tuda o que faz a vida e constitui a dados e, par canseguinte, cam a prafissãa de prestador de cuidados. A
humanidade. Estarao em contacto corn situaçOes que as entusiasmarn, descoberta da maravilha do outro predsa, muitas vezes, que sejamos
atemorizarn e irtterpelam. Para poderem it ao encarta de pessoas em cap azes de adaptar ou de ajustar as oculas para vet melhor a outro na
situaçOes vârias e procurarem ter cam elas urn relaçaa rica que Ihes riqueza da sua singularidade. 0 alcance destas palavras não pode set
permita evaluir conjuntarnente no momenta prOprio, têm que ser parti- limitada pot qualquer conotaçao religiasa. Os cuidados, par estarem
122 CUIDAR NO HOSPITAL
A FORMAçAO 123

ao serviço do ser humano, de cada ser humano, devem ser profunda- Despertar para as coisas da vida
mente laicos, o que não exclui de maneira nenhuina as crenças pes-
soais de cada prestador de cuidados. o papel dos docentes, na rncdida ern que cstes fazem despertar
para a maravilha do outro, é primordial. Isto implica reflcxao e dis-
cussao para se compreender rnelhor a maravilha hurnana e, corn ela, a
— Ser capaz de se indignar humanidade. Nào se trata de tentar ern vao, e jima vez mais, de definir
o Hornern, mas de reflectir na vida dos homens e das rnulheres que
E no contexto da abertura a maravilha do outro que Sc enqua- nos rodeiarn, cstejam eles perto ou longe de nós, sejam eles ricos ou
dra a capacidade de se indignar. Em virtude da sua proflssao, os pobres, alegres, tristes ou infelizes. Como recorda Yves Thiebaud, <<0
profissionais de saüde ocupam posicOes privilegiadas para ob- Homern näo existe. 0 Hornem é a rcpresentacão imaginária, abstracta,
servarern e se interessarern pelo que Sc passa na sociedade, na universalizada, "assepsiada", cm suma, dos hornens. 0 horncrn que
vida das pessoas e no rumo tornado pela humanidade. A capa- está diante de mim, aquele ern direcção ao qual rnc proponho it atra-
cidade de se indignar é aquela que, a semelhança de qualquer yes de tim cuidado, pot exernplo ... >>L Quarido se tenta definir o Ho-
cidadao mas mais ainda por se de tratar de profissionais da aten- rnern, quase sempre de rnaneira fastidiosa, acaba-se numa forma de
çâo que se presta ao outro, recusa calar-se ou aceitar todas as abstracção idealizada que nunca corresponde a realidade. A pcssoa
orientaçOes poilticas ou sociais e todas as situaçOes que não Se- que o pitstador de cuidados vai encontrar näo é o Homem mas urn
jam profundarnente respeitadoras das pessoas ou que sejarn de- hornern ou jima rnulher corn tuna vida singular, particular. Sc cu cons-
gradantcs,para a humanidade. Quer se trate de alguma tornada truo jima imagern idealizada do Hornem, corro o risco de cornparar a
de posicad na sociedade, da organização de urn serviço, do corn- pessoa que encontro corn esse ideal. Faço-a correr o risco de querer
portamento deste ou daquele parceiro profissional, de algurna levá-la a esse ideal que Mo existe. Nao se trata, pois, de definir urn
situação vivida por alguern ou de factos que ihe dizern respei- Homem, mas antes de enriquecer o meu olhar, a minha cornpreensão
to..., nada que seja desumano ou participe no desprezo pelos da vida das pessoas que, comigo, constituem a humanidade e que e
outros pode ser aceite pelos profissionais de cuidados. Isto não rica pela diferença de cada urn.
convida a quaisquer formas de denirncia ou a outras rnanobras Esta abertura as <<coisas da vida)> e a maravilha do outro pode rapi-
duvidosas que, ern si, não seriarn respeitadoras dos outros. Con- damente set ocultada em proveito do fascInio técnico. Este risco é tan-
vida, no entanto, a exprirnir vigorosamente, corn convicção mas to rnaior quanto alguns estudantes nào tern como representacäo es-
corn serenidade, o seu desacordo corn o que é degradante para a sencial da enfermagem, ou ate corno atractivo inicial, senäo essa di-
humanidade. Trata-se de exprimir a sua indignacäo e, deste mensaobastante tecnico-cientIfica, espectacular e sofisticada. Alérn dis-
rnodo, de testernunhar a atenção prestada aos outros. Cada cida- so, os docentes estão rnuitas vezes mais a vontade corn métodos peda-
dAo é detentor de urna parcela da humanidade e, por isso, co- gógicos que tern aver corn o complicado do que corn os que tern aver
-responsável pela evolução da humanidade. Esta responsabilida- corn descobertas da complexidade das situaçOes de vida. Esta verffica-
de, que leva cada urn a responder pelos seus actos perante os ção não diz respeito apenas a enfermagem. François Grémy, ao tratar
outros, por rnaioria de razão deve set exercida pelos profissio- da formaçào dos rnédicos, e dos mais explicitos a este respeito:
nais de saiide. <<A nossa rnedicina, a de Hipocrates e de Ambroise Pare, está a
Nao ha düvida de que a situação de inñmeras pessoas nas estru- morrer, e nós, inconscientes, imp otentes ou consentidores, conforrne o
turas de sadde poderá rnelhorar no dia em que todos os prestadores caso, assistirnos a essa morte. Cada vez mais, esquecemos que a es-
de cuidados se indignarern c recusarern tudo o que contribui para a séncia da nossa profissäo e confrontar-nos corn o sofrimento, com a
alienaçao da dignidade humana - tarito dos beneficiários corno dos
prcstadores de cuidados. Thiebaud I etal., Du soin a in personne. Ed. INFIPP, Lyon, 1994.
124 CIADAR NO HOSPITAL A F0RMA4;AO 125

angñstia ou corn o sentido da vida... e que a medicina nao pode esqui- a dirnensäo da necessidade; o estudante foi convidado a substituir
var-se as questOes formuladas por Gauguin: "Quern sornos nos? De respostas feitas pela singularidade das perguntas, a pôr de parte
onde virnos? Para onde vamos?". Estarnos presentes muitas vezes tudo o que não entra nas categorias da lOgica rnédica cientIfica, a
quando "a vida dos hornens se transforma em destino", para falar como confiar, sabe Deus a quem, o cuidado de ouvir e mesmo mais sirn-
A. Mairaux. Seth que preparamos verdadeirarnente os nossos estu- plesrnente o de escutar o doente... todas estas atitudes reflexas fo-
dantes para esta dirnensao essencial da nossa profissao? A resposta é, ram tomadas no decurso dos seus estudos e darão ao futuro medico
esildente e infelizmente, não. De resto, seremos cap azes disso? Deixo a a garantia de estar a altura da sua tarefa, totairnente dedicado a cau-
cada urn o cuidado de Se auto-analisar. A nossa profissao não e so sa de uma pratica toda ela tecida pelos meios da ciencia e podendo
urna pmfissao técnica. E tarnbéin e sempre o sera urna profissao de abster-se de pensar que e a urn sujeito que essa pratica se dirige'>3.
compaixao e de amor, o que esquecernos dernasiadas vezes, excep- J.-P. Lebrun cita o exemplo seguinte tirado da literatura:
tuando algurnas subtilezas verbS que sabemos camuflarem a reali- <<Durante o verão, o hospital estava deserto. Agora enche-se, e
dade da nossa pratica, que cada vez mais se reduz a actos'>2. grupos de estudantes reünem-se aqui e ali. Reconheço-os pela sua
Vê-se bern o que está em jogo mas tambérn se vêem as dificuldades bata branca e pelo estetoscOpio pendurado ao pescoço. B o dia tao
inerentes a urn programa pedagOgico voltado pan a enfermagern corno esperado do seu prirneiro contacto corn urn doente. No elevador,
sujeito e não apenas orientado para o profissional que sabe realizar surpreendo a sua conversa.
cuidados de enfermagem. Assim, a forrnaçao inicial convida a reflectir "—Viste a sua icterIcia?
sobre 51 próprio enquanto ser e permite iniciar esta carnirihada para se —Vi e aposto que a bilirrubina está elevada.
tornar nuin ser prestador de cuidados, profissional da atenção prestada an - E, no entanto, näo e urn alcoOlico.
outro enqdanto enferrneira ou enfermeiro. Quanto a mim, penso que - Nao, deve ter urn sIndroma de disfunçao hepática".
as diferentes caracteristicas da personalidade do enfermeiro não pro- *Parecem encantados ern dominar a sua nova gIna que significa
vérn do registo do inato, mesmo que alguns tenharn recursos mais que o hornem tern urna doença que torna a pele arnarela, que não
imp ortantes que outros. Bias podem set progressivarnente descobertas bebe e que provavelirtente sofre de cancro no figado. Agitarn-se de
pot cada urn dos estudantes ou dos profissionais, tornar sentido na exaltaçao. Mas para o doente e aterrador>'4.
sua prOpria caminhada de vida e, assirn, ser adquiridas a pouco e pou- E o autor conclui:
co. Facilmente nos darnos conta de que a complexidade da formaçao <<Corno nos da a entender esta bistonia contada pelo Dr. Rosenbaum,
reside sobretudo no desenvoivirnento de aptidoes que permitarn o en- a forrnação médica leva a esta transferência de interesse tao carregada
contro profissional entre urn prestador de cuidados, que tern cornpe- de consequências: a transferencia da atençào ao doente para a satisfa-
tencia para prestar urna ajuda apropriada e subtil, e urn beneficiario ção proveniiente do conhecirnento da doença. Nurna palavra, e duran-
de cuidados, que necessita de ajuda através de urna justa dose de aten- te a sua formaçao que o rnédlica aprende a cometer este "pecado de
ção - a que faz dela urna atenção particular. resposta">5.
Isto não é simples. Para nos convencermos, varnos buscar a Jean- Dal que, se o prograrna de formaçao e os modelos pedagogicos
-Pierre Lebrun algurnas palavras que, referindo-se aos medicos, en- devern incontestavehnente permitir a descoberta do corpo-objecto e o
contram certamente eco na enfermagern. domlnio das diferentes técnicas de que necessita, devern ainda set ob-
<cFoi, corn efeito, no decorrer dos seus estudos que o medico foi jecto de reflexao e devern set perisadas e repensadas a firn de se deixar
preparado para responder pela técnica ao peclido do paciente: foi o espaco conveniente a esta abordagern que provérn do acessorio mas
assirn que ele foi levado a esmagar a dimensao do deso e a rebaixa-lo
Lêbrun J.-P., Dc la maladie inedicale. Ed. de Boeck Université, Bruxelas, 1993.
2
Crémy K, Signification humaine de l'informatique en santé', in Louvain Medical, volu- Rosenbaum K, Le Docteur. Ed. J'ai Lu, Paris, 1988.
me 114, n3, Marco 1995. Lebrun J.-P., op. cit.
126 CIJIDAR NO HOSPITAL AF0RMAçA0 127

tambem, sobretudo, deixar espaço ao estudo das situaçOes de vida tunidades, todos os espacos de liberdade e de iniciativa que, incon-
encontradas, em que 0 profissional é levado a viver a esséncia dos testavelmente, todo o prograrna permite, nomeadamente pela
cuidados de enfermagem - o essencial da pratica da sua arte. pertinência das modalidades pedagógicas. Os docentes são assirn
convidados a criatividade, a irtovação e ate a audacia.
Tais modalidades são charnadas a evoluir, pois cada vez mais se
A questão da saáde ye que o ensino magistral em anfiteatro que aborda de maneira sis-
temática diferentes matérias ja não se adapta nem a boa compreen-
A questâo da sailde exige nina caminhada permanente. Nunca são e integração dessas matérias pelos estudantes, nem as suas Ca-
se esgota e nAo pode ser contida numa definiçao que se imponha a pacidades para ir ao encontro do coipo-sujeito. Um ensino em
toda a gente. Tal como para a definiçao do homem, nao ha urna grupo restrito, centrado nao num certo aspecto de um certo órgão
c<Saüde mas antes a saóde de cada pessoa. Esta questão é funda- ou furtção mas antes naquilo a que se chama ocresoluçao de proble-
mental porque é determinante para a orientaçao ulterior que cada ma>>, parece mais eficaz. Estas práticas desenvolvern-se nomeada-
urn dá a sua prática de cuidados. Nao é simples de gerir porque se mente no Canada e nos Paises Baixos.
inscreve nos hábitos, nos preconceitos, nurn meio social e nutria cons- Urn ensino em grupo restrito centrado na <resolução de proble-
trução moral. 0 verdadeiro profissional não pode limitar-se a corn- ma)> não se decreta de urn momento para o outro. Precisa de urna
preensão comurn dos fenomenos. Deve conseguir elevar-se, manter preparacão para permitir que os docentes se preparem para as op-
uma distância critica relativamente a tudo o que se the disse ou a çOes ligadas a esta modalidade pedagogica. Demasiadas vezes, os
tudo o que parece socialmente bem estabelecido. A tItulo de exem- trabalhos de grupo, assirn como os trabaihos orientados, esbarrarn
plo, se é commit e admitido dizer que fumar e mau para a saüde, o corn a falta de preparacão dos docentes, como testemimham estas
profissional não pode limitar-se a esta afirmaçao. Se fumar e palavras de Christiane Martin:
efectivamente nefasto para os bronquios e para os puirnoes, não deixa Quando se pOem em comum os famosos trabaihos de grupo, o
por isso de poder contribuir para a saüde de urn indivIduo, para o docente encontra-se muitas vezes na impossibilidade de precisar ou
seu bem-estar, na sua situaçao singular, tanto pelo prazer que o ta- de completar os dados fornecidos pelos alunos, por conhecer mal os
baco the dá como pela eventual angiistia que ele encontra na vida e conteildos, os metodos de animação e os processos metodológicos
que o furno the permite enfrentat Ter prazer e dirninuir a sua an- e/ou mentais mobilizados pelos alunos para realizar a tarefa pedi-
güstia fazem parte das 'coisas da vida e, por conseguirtte, dizern da e atingir os objectivos previstos. Este ponto parece-me muito fin-
respeito a saüde da pessoa abordada enquanto <corpo-sujeitoo. E portante nina vez que a falta de dominio dos metodos pedagogicos
evidente que isto não quer dizer que os profissionais de sañde de- por parte de urn grande nt5mero de docentes tern contribuido para
yam exortar a populacao a beber ou a fumar... Mas isto pode ajudar urna diminuiçao e urn empobrecirnento dos saberes profissionais
a reorientar e a enriquecer as acçOes de prevencão e de educaçao mobilizadosx&
para a saüde, para que sejarn mais judiciosas porque mais portado- Do mesmo modo, o método pedagógico de aprendizagem por
ras de sentido para a pessoa a quem se dirigem. objectivos está actualrnente a ser reexaminado por levar a urn co-
nhecimento demasiado fragmentado. Mesmo que cada urn dos ob-
jectivos seja atingido, não é por isso que o estudante tern nina visão
AS MODALIDADES PEDAGOGICAS de conjunto e pode estabelecer relaçOes entre eles.
Nurn livro corn o tItulo provocador de Pour une pedagogie de la
Se cabe ao legislador determinar, corn mais ou menos precisão, o parole, Claude Lagarde, corn diferentes colaboradores, apresenta a
contetido dos prograrnas de formaçao, cabe aos docentes dar inteli-
gência a esses programas, dar-thes vida, aproveitando todas as opor- 7 Martin Ch., Soigner pour apprendre. Ed. Labor/LEt', 1991.
128 CUIDAR NO l-loSPrrAL A F0RMAçA0 129

sua crItica da pedagogia pot objectivos a partir, norneadarnente, de Dado que os estudantes serão levados a tornarem-se profissio-
uma experiencia feita no Quebeque7. Nesse livro pode ler-se: nais voltados para tudo o que constitui a vida, deve deixar-se urn
<(Insidlosamente, o ado educativo fica extremamente fragmentado. lugar importante a palavra, a discussao. Trata-se, deste modo, de
Diariarnente, professores e alurtos centram-se em "unidades" de reabilitar verdadeiramente a palavra, nao so nos métodos pedagO-
aprendizagem. Alem disso, os objectivos de aprendizagem rararnente gicos mas também nas situaçOes profissionais. Reabilitar a palavra e
ultr4passarn o nIvel taxonórnico da "cornpreensão", isto e, o nivel voltar a dar lugar a discussao, no sentido nobre do termo, o que
4a palavra logica, que estabelece relaçOes de primeiro nivel. Relati- designa a discussão sobre temas que dizern respeito a comunidade
varnente poucos objectivos visarn o nIvel de análise, menos ainda o e a vida dos seus rnembros. Convém assirn discutir em grupo restri-
da sIntese. Não e de admirar que inñmeros estudantes nunca che- to situaçOes encontradas tanto durante os estágios como na vida de
guem a desenvolver tirna visao de conjunto e uma visao pessoal. todos os dias, e suscitar nos estudantes a expressão dos seus senti-
Enfirn, a integraçao torna-se dificil. Nao se tern poder sobre a realida- mentos, das suas interrogacOes, das suas admiraçOes, das suas in-
de senão de maneira fragmentada, sem nunca se ter a garantia de se dignaçOes ou satisfaçoes, das suas ernoçöes. Trata-se de fazer das
conseguir urn pensarnento sintético. Ha sempre objectivos gerais (e discussoes urn momento de aprendizagern, de descoberta, de
generosos) nos prograrnas, mas vive-se na ilusao de que a aquisição estruturação, de enriquecimento do pensarnento e do olhar, de en-
das partes produzirá autornaticarnente a aquisiçao do todo. Os conhe- contro com o outro e de acornpanhamento deste.
cimentos tomam-se dispersos e frágeis. Apalavra pessoal é prisionei- Existem outros rneios para suscitar a discussão sobre as <<coisas
ra do pensamento 16gico>>8. da vida". E assim que a leitura de romances, de narrativas, de notI-
Os autores precisarn que as aprendizagens são pré-programadas cias, de poernas ou de contos, por exemplo, aparece corno urn méto-
por objectivos cujo nürnero não permite o espaço necessário a do interessante de descoberta da cornplexidade das situaçOes de vida,
caminhada dos estudantes, a sua interpelaçao pelo conteüdo do as- muito mais do que a literatura profissional. Essa leitura nao pode
sunto abordado. Isso nao favorece o verdadeiro questionamento. E reduzir-se a elaboraçao de uma ficha de leitura. Deve conduzir a
prosseguem afirmando que: uma discussão situada nurna perspectiva de enfermagem a partir,
O nñmero demasiado elevado de objectivos impede que se te- por exernplo, das seguintes perguntas:
nha paciência para Os percursos interiores. Em vez de elaborar tuna - Qual é, em sIntese, a histOria de vida descrita neste romance
acção pedagógica apropriada, o docente, sobrecanegado, é tentado ou a mensagem contida nesta narrativa?
a recorrer ao pronto a consurnir, ao pronto a ensinar. Nao tern tem- - Quais são as passagens que mais me interpelaram? Porquê?
po, e muitas vezes já nem tern a preocupação, de desenvolver urna - Qual e o olhar que, enquanto futura enfermeira ou futuro en-
atenção clirigida para os processos intelectuais ou afectivos de apro-
priaçao da realidade e para se centrar no aluno. Tern tendencia a dar fermeiro, ponho nas situaçOes descritas?
sobretudo respostas, as respostas. 0 conhecirnento Rca, pot isso, - Que retenho daqui para a minha actuação posterior?
reduzido a urn produto já feito em vez de set urn ado de recriaçao Se for bent conduzido pelo docente, o debate saldo destes pontos
do saber. Torna-se, pois, difIcil para o aluno aprender a pensar, a de vista expressos por alguns estudantes que tenham feito a mesma
jülgar, a aceder a uma palavra e a urn pensarnento pessoal existen- leitura pode ser particularmente interessante. A letra de uma can-
cial. Assirn, a prática educativa dos programas tende a tornar a in- ção, urn fihne ou urn prograrna de televisao, a leitura de urn texto
tençao inicial de se centrar no aluno nurna atençao quase exciusiva publicado na imprensa, etc., podern tarnbém alirnentar urn debate.
dirigida ao conteüdo a fazer passar e ao desempenho a obter>'9. Os textos apresentados no anexo II, relativos ao .cuidan, podem
igualrnente revelar-se üteis.
Lagarde C. etal., Pour une pedagogic deJa parole— De la culture,! l'Ethique. Ed. ESF, Paris, Não se frata, pelo desenvo!ento destes métodos, de abando-
1995.
$ Op. cit. nat a aprendizagem técnica. Por urn lado, porque a tecnica faz parte
Op. cit. integrante da profissAo e, pot outro, porque da uma visibilidade
130 CUIDAR NO HOSPITAL A F0RMAcA0 131

imediata pot vezes muito esperada tanto pelos estudantes como nos tecnico para ((fazerem o relacional>> noutro serviço? Nao se pode
meios profissionais. Chegam-me, cada vez corn mais frequencia, evitar esta dimensão relacional em nenhurn serviço, muito simples-
recriminaçOes feitas pot chefias de enfermagem relativarnente aos mente porque em todos eles nos dirigimos a seres hurnanos. E pela
recem-diplomados que, a seus ollios, não sào rapidamente eficien- riqueza desta relaçao que convém trabaihar, para que ela possa ser
tes para efectuar diferentes técnicas. Estas recriminaçoes não me pa- desenvolvida e valorizada em todos os lugares de cuidados, inde-
recem justificadas pois, de facto, as técnicas enquanto tal não preci- pendentemente do seu nIvel de tecnicisrno. Tambérn convém não
sam de uma longa aprendizagem. Esta poderia, de resto, ser inserida cultivar a espécie de cisão que existe entre <funçao especIfica>> e fun-
na poiltica de integraçao do novo pessoal de urn estabelecimento. ção delegada. A <<fimç5o especifica>> deve estar presente em tudo o
Procurar-se-ia, por essa integraçao, aprofundar as técnicas requeridas que a enfermeira e o enfermeiro fazem. A *funcao especifictv> é a pers-
e adaptadas a este ou aquele estabelecirnento, ou mesmo a este ou àquele pectiva de enfermagem dada ao que efeito, independentemente de onde
serviço, nomeadamente em funçao do material aI utilizado, tendo a vem a prescriço ou a decisao de realizar este ou aquele acto.
base sido adquirida na escola.
Ouço igualmente afirmaçOes deste género: "Primeiro, ha que
domtar a técnica; quando se estiver a vontade com o gesto a fazer, 0 PERFIL DOS FORMADORES
então poder-se-á estar atento a pessoa>. Se isto me pareceu evidente
durante muito tempo, hoje duvido da legitimidade dessa afirina- Nao e simples set-se formador num domInio tao complexo pot-
ção. Corn efeito, ela comporta uma forma de dicotomia entre a téc- que, para além dos aspectos de conhecirnentos diversos e de domi-
nica e o relacional. A perturbadora expressão <<fazer o relacional)' é, nio das tecnicas, trata-se de ser alguern quefaz despertar para a riqueza,
alias, muitas vezes utilizada. Nao se trata, no entanto, de ((fazeD>, para a maravitha do outro bem como para as coisas da vida>> con-
mas antes de set relacional. Ha quem deixe serviços altamente téc- textualizando tudo isso numa perspectiva de enfermagem. Trata-se
nicos'> para se voltar para serviços <mais relacionais>>. Nao se ouve também de ser urn revelador da be!eza dos cuidados de enfermagem ape-
muitas vezes dizer em psiqulatria que al se e mais relacional, logo, sar da sua incontornével dimensao não espectacular e de todas as
mais atento a pessoa porque menos invadido pela técnica? Também c<pequenas coisas>' que Os caracterizam. A revelação desta beleza pro-
aqui, duvido. Parece-me que, a partir da aprendizagem, o gesto nao cede de um verdadeiro trabaiho de estetizaçao. Este trabaiho, no
pode ser dissociado da pessoa a quem se dirige. Nao se trata, pois, entanto, convida a prudência pois é conveniente estetizar respei-
de *programar c6rebros>> primeiro para a técnica e depois para a tando a natureza profunda dos cuidados de enfermagem e não re-
pessoa, ou o inverso, mas de desenvolver uma aptidao que una uma duzindo-os a parârnetros facilrnente observáveis.
A outra. Pot conseguirtte, não se deve passar da técnica ao relacional, Despertar e revelar são as duas palavras que, em meu entender,
mas situar o gesto técnico numa situação singular de vida. Ao reali- caracterizam meihor a missão do formador. Ser alguém que desper-
zar o gesto, qualquer que ele seja, situo-o no projecto de cuidados e ta é, antes de mais, set despertado para a maravilha do outro e para
na acção de que ele necessita, a acção que me permite acompanhar o as coisas da vida" e set capaz de ter urn olhar enriquecido para as
outro no seu caminho e que é essencialmente relacional. A pergunta diferentes situaçöes encontradas. Se tomo o exemplo da situação de
de fundo que faz da prática de enfermagem uma aPe e esta: <Como vida do jovem que está a morrer de sida, que é homossexual e tern
you contribuir, pela minha acção, para dar vida a este projecto?>>. urn passado de toxicodependéncia e de delinquência, rapidarnente
Dissociar a técnica da pessoa, mesmo em fase de aprendizagem, se ye a dificuldade que pode haver para abordar este doente en-
é afastá-las uma da outra e, consequentemente, entravar 0 que as quanto pessoa sem o encerrar em categorias e preconceitos. Para o
liga uma a outra. Perceber uma dicotomia entre a técnica e a relaçao docente é uma questão de abordar desde o infcio corn o estudante
com a pessoa reflecte uma construção fragmentada do espfrito. Nao assuntos tao sensIveis quanto complexos como sejarn a rnorte, aim-
será uma pena ouvir profissionais declarar que deixarn urn serviço da pot cirna a de urn jovern, a sida corn todas as irnagens que the
132 CUIDAR NO HOSPITAL A FORMAcAO 133

estão associadas, a sexualidade que em geral nao é simples e o e Descobrir a sañde na diversidade de aspectos diferentes da
ainda menos quando se trata de hornossexualidade, dificilmente näo doença. Reconhecer que ela caracteniza a existência do cada pes-
aceitável pela malaria, a toxicodependência e a delinquência que soa e que não desaparece quanda sobrevém a doença ou o acldente.
estigmatizarn urn indivIduo. Reconhecer que toda a prática curativa, preventiva e preditora
A palavra e o comportarnento do docente relativamente a tal si- tern urn sentido que ultrapassa os seus objectivos particulares rela-
tuação devem reflectir a sua autenticidade, a sua maturidade, a sua tivos a doença, a deficiência fIsica ou mental, para dizer respeito a
reflexae profurtda e a sua abertura a esses assuntos, e ate o seu saüde, e que, par isso, se pode inserir numa missao global de saüde
empenhamento que dana testernunho da sua capacidade de se in- que envolve as pessoas e as instituiçoes.
dignar. Este não se pode limitar a <pregar a tolerância>>, a que con- Estabelecer uma relaçao entre a saiide e a cidadania. 0 esta-
firma as raIzes da discriminaçao, mas deve, pelo contrário, incitar a belecirnento desta relaçao admite que todo a diente ou beneficiánio
reflexao sobre as fundamentos rnorais da injustiça social que atirtge de urn serviço de saüde, doente ou não, é urn parceiro corn a possi-
tanto os hornossexuais coma os ex-presidiários, por exemplo, e so- bilidade de se envolver nun processo de sailde para si próprio, para
bre situaçOes semeihantes. Os profissionais de saácle devem distin- os seus, para a colectividade.
guir-se pelo olhar que tern sobre as situaçöes de vida e sobre a pala- Favorecer a participacao de todos as cidadaos em investigar
vra que delas decorre. Os docentes devem ajudá-los a construir esse e pot em prática condiçOes de arnbiente favoráveis a expressao da
olhar e a exprirnir essa palavra. E tambem nisto que os profissionais saiide e não apenas a da doença, logo, condiçOes de reforço do ted-
hao-de ser vectores de sadde póblica porque, qualquer que seja o do social>"°.
lugar em que se encontrem, tern a possibffidade de lutar ou, pelo Consequentemente, ye-se quanta os métodos pedagóglcos de-
menos, de se inLlignar contra os preconceitos que induzem a exclu- vem evoluir e, corn eles, as docentes, para que a processo de farina-
são, logo, ao rnal-estar daqueles que dela são objecto. cáo consiga dar um sentido a tantas e tantas matérias e experiên-
Lembro-me da situação de urn bebé de dois dias encontrado nurn cias, sentido esse que permlta <<descobnir a saüde>>. Coma sugere B.
caixote do lixo numa auto-estrada. Foi recothido pela unidade de Honoré, eu insistiria no desenvolvimento da reflexão e dos meios
pediatria de urn hospital. Toda a gente estava de acordo quanta ao de acçOes para permitir que o <<ciente>> do sistema, que não é incó-
lado escandaloso do acto realizado pela mae. E óbvio! No entanto, a lurne a sua expeniência, venha a ser um parceiro corn a possibifida-
olhar que a prafissional de sañde distante da situação pode ter, não de de se envolver numa acção de saude, tanto por si próprio como
é o de reforçar as palavras ouvidas e consensuais, na verdade, faceis •pelos seus e pela colectividade.
de dizer, que condenarn a mae - já agora, por que não o pal? - Como precisa Thérèse Lanriec, <<A formaçao do outro fala de urn
mas de levar também a reflectir no sofrirnento da mae, em tudo desejo criador>>. Este desejo de criar nao se limita a transmitir a
aquilo que na nossa sociedade faz corn que uma muffler chegue a que o docente sabe, mas deve tambémpermitir que as estudanfes
tais extremos que, em caso algurn, a podem deixar incolurne. As- estruturem as suas proprias referencias e elaborem as suas propnias
sirn, ye-se o interesse pedagógico da reflexao e da discussao a partir palavras. Claude Lagarde observava: <<Muitos docentes desenvol-
de pequenos acontecirnentos que são, corn efeito, componentes da verarn a sua palavra pessoal e existencial diante dos alunos, mas
humanidade. poucos tiverarn a preocupacão de a suscitar, de a estruturar e de a
0 perifi dos docentes deve permitir abrir os estudantes a vida, sustentar nesses alunos+12 .
logo, a saáde que está no centro desta.
No seu recente trabaiho, Bernard Honoré interroga-se sobre quais
sedan as principais intençOes das acçOes de formação a empreen- °Honoré B., La sante en projet. ThterEditions, Paris, 1996.
"Lanriec Tif., L'eco!e a !'envers - Former des enseignantes en infirmerie. Ed. Lamarre, Pads,
der para comprometer e manter os processos de saüde. Retém qua- 1992,
tro, que são as seguintes: 12
Lagarde Cl. etal., op. cit.
134 CUmAR NO HOSPITAL A F0RMA4;AO 135

Ser portador de uma palavra de enfermagem format na arte do terapeuta. Tratando da formaçao médica, afirma:
(<A profissao de rnédico, a arte do cimnico, a arte de discernir corn urn
o docente no campo da arte da enfermagern tern a vet corn as mes- paciente concreto o que e possIvel fazer pan o ajudar a viver apesar
mas caracteristicas da personalidade de enfermeiro descritas mais atrás. das crises que atravessa, essa arte aprende-se a cabeceira dos pa-
E portador de uma palavra de enferrnagern e reconhecivel pela auten- cientes, cornimica-se de mestre para discIpulo. Mas e predso que o
tiddade corn que a exprime. Para alérn desta palavra autêntica que rnestre seja um terapeuta e näo urn investigador disfarçado de dm1-
—permite que o docente <<fale corn verdadeo, o que não equivale a estar co, corno acontece rnuitas vezes. Ern resumo, os medicos são, salvo
convenddo de que detérn a <verdade", existe uma forte expectativa raras excepçOes, formados por investigadores e não par terapeutas&4.
pot parte dos estudantes que não se pode subestirnar. Relatando os Isto aplica-se tambern a forrnaçao ern enfermagern. 0 autor pre-
seus trabaihos de investigação no âmbito de urn estudo europeu sobre cisa que estarlarnos no direito de nos regozijar por esta forrnaçao set
os valores dos jovens, Lifiane Voyé refere o pedido dos jovens pan assegurada por cientistas de alto nivel. Sem negligendar o interesse
uma abertura ao rnundo e para rnodelos de referenda on para <<rnes- deste ensino, convérn, no entanto, identificar os litnites desta for-
tres>> no sentido forte do terrno. Esta autora pivcisa: rnação, visto que ela não chega para ensirtar a praticar a sua arte. A
<<Interrogados sobre o que é para eles o professor ideal, os nossos cornpetência do cientista não faz dele autornaticamente urn docente
estudantes, quase unanimernente, puseram a tónica na paixao. Dão a competente para a pratica da arte do terapeuta.
todos as seus professores - salvo raras excepcOes - crédito de cornpe- A relação corn o meio clInico deve, portanto, ser madurarnente
tenth e de saber, mas manifestarn a sua expectativa relativarnente a reflectida, bern corno a exploracão das experiências de estagio vivi-
professores apaixonados pelo que fazem ensinando e transmitindo a das pelos estudantes.
sua pabEao. Dizern tambérn esperar deles qualidades de escuta e de
acoihimento, sentido de humor e reconhedrnento de algumas ignorân-
das e eros. Recusam vet-se a si próprios corno recipientes a encher 0 ACOLHIMENTO EM ESTAGIO
pela transferências de conhecimentos, desando urn acompanhamento
pessoal nurna exploraçao da vida que para todos se tornou hesitante>>13. o acolhirnento dos estudantes para efectuarern diferentes está-
Transmitir a sua paixao, sern a qual nAo se pode verdadeirarnente gios levanta, ern primeiro lugar, a questão das relaçOes entre o meio
reclamar o estatuto de docente, e, entre outras coisas, libertar calor, cilnico e os estabelecirnentos de ensino. Estas relaçoes nern sernpre
rnostrar o seu ernpenharnento e dat provas de uma simplicidade que são féceis e, pot vezes, chegarn a set conflituosas. Pode existir
the permita não ter que se refugiar atrás de palavras eruditas e de confusao entre a rnissão de uris e a de outros. Se o meio clInico está
dernonstraçOes mais cornplicadas do que complexas e que escondern centrado no doente, o do ensino deve estar centrado no estudante.
mal o seu ernbaraço ou ate a sua incornpetênda no assunto abordado. Nao se trata, pois, de opor duas lógicas, mas antes de perceber que
elas são diferentes rnesrno que se unam na finalidade ültima, parti-
cipando uris e outros na forrnaçao de estudantes corn vista a que
Transinitir a arte da enfennagem estes possam progressivarnente prestar cuidados aos doentes que
Ihes são confiados. Como nos recorda Christiane Martin, "as rela-
Retenhamos também a diferença que 1.-F. Maiherbe estabelece çOes entre os prestadores de cuidados, os docentes e as chefias de
entre quern transmite conhecimentos cientificos e quern pretende enferrnagern não podem deixar de ser conflituosas enquanto cada
urn dos parceiros não liver podido dar urn passo no sentido da corn-
'>Voyé L., Pour revisiter Ms valeurs. Conferénda proferida no congresso internacional de
Saint-MaIo (Franca): Le soin infinnier dans le système de sauté— Quel avenir pour quet soin preensão e da aceitação da especificidade do seu colega ( ... ). 0 pro-
infirmier?, 10 a 12 Maio 1995. Esta conferéncia foi tambem publicada na revista Soins,
1996, no 17,10 trimestre. 14
Malherbe J.-F., op. cit.
136 CUIDAR NO HOSPITAL A FORMAçAO 137

blerna está em que o estudante de enfermagern contribui muitas vezes Ser acoihido E:
para as tensOes existentes entre Os estágios e a escola*15. Nâo se deve - set esperado com vista a realizar algurna coisa;
procurar a todo o custo a conformidade de pensarnento entre os - beneficiar de urn sorriso;
dois rneios, clinico e docente, para que os elementos fundamentals - captar calor hurnano;
sejam respeitados. Pensarnentos diferentes ou simplesmente cliscor- - beneficiar de urna acção personalizada em que o norne das pes-
darttes participam na abertura de espIrito do estudante e no alarga- soas acoihidas é utilizado;
mento dos seus pontos de vista. Nao ha dóvida de que é pot falta de - set apresentado aos outros mernbros da equipa;
clarlficaçao sobre o que e realmente fundamental na prática de en- - perceber disponibffidade em termos de rnornento, de lugar, de
fermagem que tantas situaçôes degeneram e se traduzem em verda- pessoas ... ;
deiros diálogos de surdos. - set ajudado a descobrir e aprender a conhecer o rneio, nornea-
o profissionalismo dos responsáveis pedagógicos e dos presta- darnente em terrnos de locals, de organizacão, de função dos
dotes de cuidados não deveria permitir que essas situaçOes outros serviços ... ;
conflituosas se desenvolvessern, porque, pot urn lado, são incoeren- - set ajudado a identificar o seu lugar no grupo e perceber que
tes relativamente a missao de cuidar e, por outro, são prejudiciais todos conhecern esse lugar, o seu alcance, os seus limites;
não so para os estudantes mas para todo urn estado de espIrito que - recorrer a urna pessoa que e referenda;
reina tanto no estabelecirnento de ensino corno no de cuidados. - ter oportunidade de expriniir as suas expectativas, as da esco-
o estágio é a ocasião de o estudante descobrir a realidade das la, bem como os seus eventuais receios ou as suas dfficuldades;
situaçOes de vida. E o complemento do ensino escolar que, mesmo - tomar conhecirnento das expectativas do servico, dos seus li-
corn as thodalidades pedagogicas mais eficazes, não se pode mites, das suas exigéncias (pot exemplo, bater a porta de urn
substituir a este contacto directo corn a realidade. Dal a importância quarto e esperar antes de entrar).
do que os prestadores de cuidados possarn mostrar aos estudantes. Este acoihintento supöe:
E no esfágio que estes podern descobrir concretamente o que signi- - urn estado de espfrito propIcio ao enquadramento de estudan-
fica prestar urna atenço particular ao outro através de todas aque- tes;
las <<pequenas coisas>> que constituem os cuidados de enfermagern. - urna compreensão dos objectivos que se pretendem atingir:
Dal a irnportância tambérn de prever mornentos de exploraçao dos
estágios corn os docentes, a fim de permitir que os estudantes ex- • objectivos atribuldos a escola,
pressem as suas interrogaçOes, as suas satisfaçoes, bern corno a suas • objectivos ligados a <forrna'> que se pretende vet nos esta-
indignaçOes, as suas ernoçOes... em resurno, tudo o que permite ao glirios,
docente situar-se no seu papel de quern faz despertar para a corn- • objectivos dos estudantes;
plexidade e para a riqueza do set hurnano e de quern revela a beleza - aferição dos vários instrumentos áteis ao acoihimento:
dos cuidados de enferrnagern.
Acoiher é receber em sua casa. Acoiher estagiários é recebê-los • cartão de apresentacão,
corn vista a participar na sua forrnaçao, na <<forrna de cuidar" que • caderrio de evoluçao da adaptacao ao meio e da consecução
eles devem adquirir. dos objectivos,
Este acolbirnento inscreve-se em algurnas grandes caracterIsti- • docurnentação e bibliografia especIficas da actividade do set-
cas e exigências. viço;
- urn trabaiho de preparacão e perguntas regulates sobre os corn-
portarnentos relativos ao acothirnento;
' Martin Ch., op. cit. - urna escoiha judiciosa dos rnomentos de acoihirnento.
138 Cuja&it NO HOSPITAL A FORMAcAO 139

o próprio facto de receber estagiários supOe, para além do aco- Dois grandes eixos parecem-me dever ser retidos para orientar a
thirnento: escotha destas acçOes. Por urn lado, todas as acçOes que contribuern
- que a equipa prestadora de cuidados esteja perfeitarnente fa- para desenvolver o saber-tornar-se e para alirnentar a capacidade
miliarizada corn a saüde, corn os cuidados e corn os cuidados de inferéncia do artifice dos cuidados de enfermagem. Aqui trata-se
de enferrnagem, numa palavra, corn a lógica do cuidar. Esta essencialmente de favorecer, por urn lado, tudo o que perniite ao
clarificaçao pode constituir o objecto de urn trabaiho pluripro- profissional alargar os seus horizontes e meihorar a sua capacidade
fissional ern formaçao continua; de ft ao encontro do beneficiário dos cuidados e de carninhar corn
- decidir urn rnomento formal para, em equipa, reflectir e discu- ele e, por outro, todas as acçOes que perrnitem desenvolver ou actua-
tir acerca da finalidade dos estágios e dos pontos fracos e fortes lizar competências técnicas ou instrurnentais, nomeadarnente corn
da equipa para atirigir essas finalidades, vista a uma major destreza, a uma mudança de serviço ou a utiliza-
- desenvolver urna colaboraçao continua corn os docentes e ga- ção de novos procedirnentos operatórios ou de novas tecnologias.
rantir a actualizaçao reciproca dos conhecirnentos; Este ültirno aspecto e mais pontual.
- identificar pessoas que sejam mais particularmente qualifica- Desenvolver o saber-tornar-se e alirnentar a capacidade de inferéncia
das como referentes; do artifice inscreve-se nurn processo permanente que permite a enfer-
- reflectir acerca da arte edo modo de ft ao encontro das expectati- meira e ao enfermeim aurnentar as suas cornpetências pessoais na pres-
vas dos estagiários, procurando enriquece-los e ate orientá-los; tação de cuidados a doentes e seus familiares. Isto supOe:
- prever mornentos de trocas de impressOes para fazer o ponto - prever urn tempo de paragem para olhar, analisar, discutir e
da situação corn os estagiários sobre o desenrolar do estágio; criticar a sua prática e a organizaçao em que esta se thscreve;
- favoreker a descoberta, por parte dos estagiários, das diferen- - prosseguir o despertar para as <<coisas da vida;
tes actividades exteriores ao serviço rnas em ligacao corn ele; - ser inforrnado da prática dos outros profissionais e discutir corn
- preparar o mornento da separacão através de uma avalia- eles as situaçOes de vida encontradas;
ção global do estágio e de uma escuta atenta da expressão - actualizar ou aurnentar os seus conhecirnentos sobre as várias
dos pontos fortes e dos pontos fracos percebidos por ambas novidades, sejam elas cientIficas, técnicas ou ligadas a evolu-
as partes. cáo das ideias.
For conseguinte, aceitar estagiários nurn serviço não se decide o irnportante neste processo e o sentido que ele toma e o projec-
corn ligeireza, pois isso comprornete a responsabilidade de todos os to ern que se inscreve. 0 fundamento deste projecto é a saüde e a
que vão contribuir para a forrnaçao dos profissionais de amanha. perspectiva do cuidar dada a acção de enfermagern. Trata-se de aju-
dar, pela formaçao, a enquadrar as praticas <<no seu destino - a
saüde - libertando-as do rnodelo em que estão encerradas, a medi-
A FORMAçAO CONTINUA dna cientIfica>'16 .
Do ponto de vista organizacional, o processo de formaçao continua
As acçOes de formação continua são, por vezes, extremamente traduz-se por acçães internas ao estabelecirnento e por acçoes externas.
variadas e nurnerosas, e nern sempre permitem identificar o seu fib As acçOes internas podern beneficiar das intervençoes dos for-
condutor. A questão da coerência e rnuitas vezes levantada porque madores afectos ao <<serviço de forrnação continua", bern como de
os diferentes pedidos individuais nem sempre se inscrevem nurn forrnadores-consultores. Neste caso, ha que ter especial atenção a
projecto coerente. A forrnaçao continua é a oportunidade de prosse- coerência do grupo bem como aos efeitos induzidos. A sessão de
guir e aprofundar o despertar para a rnaravilha do outro e para as formação não deve, por exernplo, resultar nurna insatisfaçao cres-
<<coisas da vida", bern como a estetizaçao e a revelaçao da beleza e
da utilidade dos cuidados de enferrnagem. 16 Honoré B., op. cit.
140 CUIDAR NO HOSPITAL AFORMAcAO 141

cente ligada a frustraçao sentida entre o que se pensa ou se ela- Também e interessante organizar encontros regulares sob a for-
bora na formaçao e a realidade do terreno. Assim, o papel do for- ma, por exemplo, de <<colóquios de enfermagern'>, aquilo a que por
mador-consultor pode consistir em ajudar os profissionais a reflec- vezes se chama <<as terças ou quintas-feiras de enfermageim>. São-no
fir na sua prática para que esta ganhe sentido para eles. Consiste em sobretudo se os profissionais acorrern a eles para expor a essencia da
ajudá-los a identificar a sua zona de liberdade, aquela que cada urn sua prática. Com efeito, o que tern interesse ao preparar uma exposi-
tern em si e que muitas vezes convérn revelar. E esta zona de liber- cáo que de lugar a discussao é o processo interpessoal vivido entre
dade que permite, muitas vezes, iniciar mudanças ou, pelo menos, enferrneiro e doente, isto é, a verdadeira prática da arte da enferma-
atenuar algurnas pressöes ou o stress vivido. gem. Assirn se compreende a inutilidade de passar por vezes urn
Insisto muito particularmente na funçao das chefias de pro- tempo considerável a proceder a uma revisão anatomopatolOgica
ximidade a firn de que eles próprios se tornern, de tempos a tem- ou a apresentacão de uma técnica. Mesmo que estas se revelern ne-
pos, animadores de sessOes. Trata-se, de organizar a equipa cessarias, têm a ver corn outro objecto de formaçao.
prestadora de cuidados em sub grupos que possam, cada urn Finalmente, não se deve negligenciar o recurso a documentação, a
por sua vez, encontrar-se em lugares exteriores ao serviço para biblioteca, que são outros tantos meios - subutilizados - de actualiza-
reflectir sobre diferentes aspectos ligados ao funcionamento da cáo e de desenvolvimento dos conhecirnentos. 0 trabaiho dos docu-
unidade de cuidados, sobre a prática de enfermagem e sobre as mentalistas, que podem sugerir ou propor leituras ou efectuar pesqui-
situaçOes encontradas, sobre o acoihimento dos pacientes e dos sasbibliogréficas, parece-me dever set desenvolvido e valorizado.
seus farniliares, sobre a elaboraçao de documentos ou de diver- As acçöes externas são, muitas vezes, excessivas. Tern a vanta-
sos instrumentos de trabaiho, sobre o acompanhamento dos es- gem, por exemplo no caso de congressos, de favorecer trocas de ex-
tagiArios.L Inümeros aspectos podem assim ser discutidos, re- periências e estabelecirnento de contactos. Abrern ao exterior. Os con-
correndo, por vezes, a urn conseiho exterior que, todavia, não gressos permitem tambérn, pela apresentacão de nina comunicação
deve estar permanenternente presente. Podern propor-se ternas ou de urn poster, valorizar o trabaiho realizado num serviço.
inovadores, tais como a analise do processo do doente hospitali- Sessoes de formacao interestabelecimentos são igualrnente enri-
zado e a situação do serviço relativamente a esse processo. Pode quecedoras na medida em que se inscrevern nesta mesma coeréncia
tambem iniciar-se e prosseguir-se regularrnente uma discussao de conjunto. Trata-se de ajudar o artifice na sua caminhada, na sua
de fundo a partir das representacOes da saüde ou da doença. capacidade para cuidar meihor os doentes e os seus familiares. Jsto
Isto não exclui seininários de discussflo interprofissionais ou não pode, portanto, limitar-se a questão do <<como fazer>>, que muito
interserviços. Trata-se, através dos seminários, de mostrar interesse rapidarnente se associa a receitas. A questão do <<corno fazer>> sufoca
pela prática dos outros - e de despertar o interesse dos outros pela muito rapidamente a reflexão pessoal e a capacidade de se cornpro-
práfica de enfermagern - e de rnostrar interesse também por ou- meter numa rnudança ou na realizaçao desta. Thérèse Lanriec afirma:
tras areas de intervenção. Ia vérias vezes fiquei surpreendido ao ouvir <<Parece-me que a formaçao continua deveria deixar de organizar ses-
enfermeiras de pediatria declarar que a doença de Parkinson não soes do fipo "como acompanhar doentes rnoribundos" e por vezes ate
ihes interessava porque nunca iriarn encontrar doentes desses no "a morte", para se interrogar sobre a razão pela qual as enfermeiras
seu serviço. Palavras semeihantes são ditas em todos Os cases patti- não os acompanharn>>17. De facto, esperar do outro a resposta a per-
cülares. Isso e, sem düvida, esquecer que o profissional de saüde gunta sobre o <<como" é, de certa forma, demitir-se da sua responsabi-
não o é unicamente no seu serviço e que pode ser levado, se não a lidade de criador, de iniciador e de vector da mudança.
dar uma opirtião, a sugerir uma orientação a alguém das suas rela-
çOes. E esquecer também aquela abertura necessária, aquela curio- "Lanriecm., De !'exteriorité de!'acte infirmier... a I'interiorifédu soin infirmier... Conferén-
sidade relativarnente a vida que é uma da caracterIsticas profissio- da proferida no 3° congresso nacional da Société fraiiçaise d'accompagnement de soS
nais de quern cuida paffiatils, Saint-Malo (Franca), 3 Abel!1993.
142 CurnAR NO HOSPITAL

Não se pode evitar a questão do tempo da forrnaçao, do seu cus-


to e da disponibilidade de cada pessoa. Parece-me que se trata, an-
[.1
tes de mais, de uma questäo de projecto, logo, de sentido. 0 sentido
dado as coisas permite irnagiriar meihor a sua orgartizaçao e arrari-
jar tempo para a tornar possIvel. Seria interessante avaliar o tempo
consagrado hoje a toda a espécie de acçOes que, não se inscrevendo
tuirn projecto de conjunto coerente, são, de facto, de pouca utilidade
A investigação e o desenvolvimento
para urn dado serviço. Alérn disso, está fora de questão reunir-se
para um colOquio sobre enfermagern todas as semanas e ft a urn
congresso uma vez por mês. Também aqui deve encontrar-se a justa
medida, e so a balança do sentido me parece poder determina-la.
A formaçao, tanto inicial corno continua, é urn assunto ao mes-
rno tempo apaixonartte e delicado, porque é determinante para a
orientação tomada pelos diferentes profissionais, a qual seré A investigacão representa a terceira grande missao do hospital. Se
determinante para a natureza do serviço prestado a populaçao. A esta toma uma acuidade ma jor nas instituicOes universitárias, não Ihes
responsabiidade social que de!a decorre nao pode ser subestirnada. e reservada e pode ser desenvo!vida em todas asesthithras de cuida-
dos, porque toda a prática do cuidar é digna de interesse e constitui
urn campo de estudo pwpIcio que permite aurnentar os conhecimen-
tos üteis aos diferentes profissionais. Além disso, as actividades de th-
vestigacao e o espIrito de rigor, de abertura e de curiosidade de que
necessitam podem integrar-se hannoniosarnente na poiltica de gestao
e de desenvo!virnento dos recursos humanos. Oferecern igualmente
oportunidades interessantes em rnatéria de forrnaçao continua.

INTERESSE £ LIMITES

As palavras <<investlgacao)' e <<investigador> provocam em muitos


casos efeitos fascinantes, urnas vezes gratificantes, outras duvidosos...
0 fruto do trabaiho de infirneros investigadores tern motivo pan sus-
citar admiracão. Esta será tanto rnaior quanto rnais importante for con-
siderada a utilidade social das descobertas realizadas.
Apesar do carácter fascinante de certas descobertas ou demons-
traçOes, convérn estar-se cada vez rnais atento a utillzação que se
fará delas, a qua!, em muitos casos, escapa aos próprios investiga-
dores. So muito recentemente, a seguir a segunda guerra mundial,
com o lançarnento de uma bornba atómica sobre Hiroxirna, é que a
populacao começou, tinildarnente, a tomar consciência de que os
efeitos de algurnas investigacOes também podiarn transforrnar-se
144 CUIDAR NO HOSPITAL A INvESTIGAçA0 E 0 DESENVOLVIMENTO 145

nurna anna perigosa que podia actuar contra a humanidade. Isto <<As crianças foram condlicionadas a escola de tal forma que inia-
pode ser posto em relaçao corn o actual debate ético em torno da ginarn que uma afirmaçao e "cientifica" quando pode ser expressa
investigaçao genetica e das suas eventuais consequências eugénicas. sob a forma de um nümero que mede uma quantidade. Estão
A noçäo de investigacao está associada a de ciências, normal- empanturradas de valores numéricos ( ... ). A compreensäo do sujeito
mente qualificadas como <(puras", <<duras>>, <<moles>>, <<exactas>>..., encontra-se como que encarcerada pela quantificaçao na prisão dos
que, de facto, thstituern entre si uma bierarquia iniltil. Evoca tam- nürneros; as interrogaçOes já nao tern por objecto senão o valor dos
bdin ideias de laboratorio, de experirnentaçao, de rigor parâmetros. Corn efeito, a atitude inteligente consistiria sobretudo
metodologico, por vezes a de acaso associado a esta ou àquela des- em se interrogar sobre o sentido desses parâmetros. A verdadeira
coberta fortuita. Hoje, cada vez mais, evoca ainda as idelas de ética, questão não é "quanto vale pi?" mas "que sigrilfica p1?".
de notoriedade e de prestIgio, de poder, de carreira e de promocão A enfermagem, na sua procura de reconhecimento, mostra-se
profissional, de opçOes comerciais... Nao é, pois, isenta de fraque- muitas vezes particularmente atraIda por esta magia dos nürneros.
zas, apesar da nobreza da sua prirneira intençao. Assirn, certas acti- Estes dariam um acesso rnais fdcil a comunidade cientifica e ao esta-
vidades ditas de <<investigaçao>> nâo fazem senão vestir o fato desta. tuto de investigador. Embora seja grande o interesse pela investiga-
Sob urn aparente rigor rnetodologico, tais actividades reduzern-se, ção qualitativa, convém ter atenção aos riscos de desvios decorren-
nesses casos, a perseguir objectivos muito pessoais ou a prornover tes de investigaçOes essencialmente quantitativas, pois estas pode-
algurna ideologia que procura atingir o Unico objectivo de irnpor Ham levar progressivamente a uma reduçao do estudo da prática
esta orientaçao ou aquela decisao. Por vezes, parece bem difIdil, so- de enfermagem apenas a sua parte observável e rnensurável.
bretudo em presença de urna argurnentação sofisticada, recusar uma Se é claro, em rneu entender, que convém desenvolver a investiga-
afirrnaçao dita "cientIfica>> quando esta foi talvez estabelecida sobre ção em enfermagem, dedicar-Ihe tempo e atribuir-Ihe meios, convém
bases parciais ou fragmentadas ou segundo uma metodologia Pon- tarnbém questionar e voltar a questionar o sentido a dar a esses traba-
co pertinente. Faltam muitas vezes o espIrito crItico e os argurnen- il-tos. Qual é a sua perspectiva? B realrnente a de cuidar ou reforça as
tos necessários a refutaçao de certas afirmaçOes audaciosamente abordagens objectizantes? Quais são os limites e as cautelas relativos a
qualificadas como cientificas, abrindo camini-to a toda a espécie de aplicacão concreta dos resultados publicados? Se a investigacao pode
abusos e ate de rnanipulaçOes. servir a promocão dos cuidados de enfermagem e o reconhecirnento
Uma concepcão da irtvestigaçao tao errónea quanto lirnitada leva da profissao de enfermagem, não pode, ainda hoje, dispensar uma fase
muitas vezes a pretender dominar tudo e a tudo explicar por uma prévia de reflexao sobre a própria natureza dos cuidados de enferma-
abundancia de nuirneros ou de correlaçOes estatIsticas que parece- gem, logo, sobre os conhecirnentos üteis ao seu desenvolvimento.
Ham dar rnais peso a uma forma de dernonstraçao irrefutavel da
<<verdade>>. Este risco de desvio de tipo cientIfico é particularmente
irnportante no campo do hurnano, em que a própria noção de <<ver- QUE E A INvEs'FIGAcAO?
dade)> deve ser sempre relativizada. Se dados e conhecirnentos ge-
rais que dizem respeito aos seres podern ser estabelecidos graças a Nurn dos seus artigos, Genevieve Poirier-Coutansais2 faz refe-
observaçOes rigorosamente feitas, devemos lembrar-nos constante- rência a três defiriiçôes. A primeira e tirada do dicionário Petit Robert,
mente de que estas não se aplicarn tal qual a cada pessoa vista como que a define como <<os trabaihos feitos Para encontrar novos conhe-
sujeito, a firn de não a reduzir unicarnente a corpo-objecto.
Hoje particularmente, não se pode ignorar a magia dos nürneros
e, corn ela, a atracçao por tudo o que é mensurave!, quantificável e Jacquard A., AbCctdaire de t'arnbiguIté, de Z a A, des mots, des choses, des concepts... Ed. du
Seuil, collection ((Point Virgule", Pans, 1987.
apresentável em forma de quadro estatistico e de gráfico. Albert 2
Poirier-Coutansais G., oQu'est-ce que la recherche?", in Recherche en soins infinniers.
Jacquard recorda-nos que: Publicaçao de ARSI, 1994, n° special métodologie.
146 CUn)AR NO HOSPITAL A INVESTIGA(;AO E 0 DESENVOLVIMENTO 147

cimentos, para estudar urna questâo>>. A segunda é dada por Jacques Estes autores distinguem varios tipos de investigaçao que podem
Perrier, que afirma que "a irtvestigaçao e urn caminho que se abre ser agrupados em seis grandes categorias, como mostra o quadro 5.
no que e parcialrnente conhecjdo, mal conhecido ou desconhecido,
Para se saber mais e, a mais ou menos longo prazo, para se obterem
meihores meios de acção>>3. Uma terceira definiçao é proposta por Quadro 5.—Os tipos do investigacao e a sues caracterIsticas
Shirley Chater no âmbito dos seus trabaihos na Organizaçao Murt-
dial de Saiide. Chater define a irtvestigacao como uma <<busca siste- Tipos de investigacão Caracteristicas
mática de urna resposta a questOes, corn base em factos concretes e 1. Investigacöes
nas relaçoes entre esses factos"4. experimentais
Na major parte das vezes, o objectivo apregoado da investigaçao
é o de produzir saber. Trata-se, de certa forma, de <<fabricar conhecj- Estas são de trés tipos:
meMo>>. No existe apenas urn ünico tipo de investigação, e nenhurn
é mais nobre ou mais interessante do que qualquer outro. Convem a) investigaçao Procura enunciar as leis cientificas fundamentais. Es-
cientifica tas não são directamente aplicáveis. Trata-se, por exem-
que ela seja adaptada a matéria estudada e ao saber que se deseja
fundamental on de plo, de estabelecer as leis da aprendizagem, seja esta
produzir. Jean-Marie de Ketele e Xavier Roegiers dao irnportantes IaboratOrio qual for. Este tipo de investigacão não visa a acção ou a
indicaçOes de precisão que permitem clarificar e definir os vários tomada de decisOes, mas o conhecimento da verdade.
tipos de investigacao5. Os prirneiros destinatários dos resultados da invest1-
Estes autores definem a investigacao, em prirneiro lugar, de for- gação são os investigadores.
ma geral: <cA investigaçao é urn processo sistemitica e intencio-
nalmente orientado e ajustado corn vista a inovar ou a aumentar o b) investigação Procura enunciar leis cientificas cuja descoberta pro-
conhecimento num dado cainpo 6. cientifica no cede de urn contexto preciso. Trata-se, pot exernplo,
terreno de estabelecer as leis da aprendizagem da prática de
Citam diferentes formas de que esse conhecimento se pode re- cuidados pot estudantes de enfermagem. Este tipo de
vestir corlsoante o tipo de investigaçao realizada, ou seja: investigação não permite, no entanto, a acção irnedia-
- um corpo de conheciwentos expressos sob a forma de lei; ta num dado contexto, mas enunda osconhecirnentos
- o conhecimento de um contexto especifico que permite tomar em que podem basear-se as investigaçôes relativas a
decisoes adequadas a esse contexto; acção concreta. Portanto, visa tambem a verdade, e os
- o conhecimento das detenninantes do ambiente e dos compor- resultados destinam-se igualmente em primeiro lugar
tarnentos dos agentes de urn sistema; aos investigadores.
- conhecirnentos hipoteticos;
c) investigacão 0 valor prioritátio deste tipo de investigacão é a eficâ-
- conhecirnentos especIficos; cia. Visa essencialmente a acção. Trata-se, graças ao co-
tecnologica ou de
- conhecirnentos sob a forma de criaçao de novos referenciais de desenvolvimento nhecimento das leis estabelecidas pelos dois tipos de
pensamento; investigacão precedentes, de construir ferrarnentas eli-
- etc. cazes para a pratica quotidiana, tais como instrurnen-
tos, diversos materiais, estratégias de acção... Estas let-
Pettier J., Quest-ce que la recherche et a quot sert-elle dam le domaine des soins ramentas satisfazem os critdrios de validade e de
infirrniers?n, in Revue de l'Association suisse des infirmiers et infirmieres, Marco 1980. fiabilidade e podem ser generalizadas nurn determi-
Chater Sh., Introduction a ía recherche infinniere. Publicaçao da OMS, 1975. nado contexto. Os primeiros destinatários deste tipo
De Ketele J.-M., Roegiers X., Methodologie du recueiI d'inforznations. Ed. de Boeck de investigacão são os decisores e os investigadores.
tJniversite, Bruxelas, 1993.
& op. cit.
148 CUIDAR NO HOSPITAL A INvESTIGAçA0 E 0 DESENVOLVIMENTO 149

Quadro 5. - (continuaçao) Quadro S. - (continua çdo)

Tipos tie investigaçao Caracteristicas Tipos de investigaçao Caracteristicas


2. Investigacffo 0 objectivo deste tipo de investigaçao nAo e ernitir uma 4. Investigacao Foi muitas vezes abandonada ou desvalorizada, sen-
operacional ou c/c lei cientifica on uma decisao generalizavel. Trata-se de exploratdria do capital em toda a investigacão. Permite ao investi-
avaliaçdo fazer urna investigaçao corn o objectivo de fundamen- gador farniliarizar-se corn o assunto a estudar e corn as
tar uma decisao nurn contexto especifico. Esta decisão situaçOes em que este ou aquele fenOrneno se produz.
é o mais esciarecida e o mais cientifica possivel, e e to- Permite revelar a complexidade do assunto abordado
mada por tuna autoridade diferente dos investigado- e, por conseguinte, fazer o inventário das variáveis que
res. Visa a adequaçao entre a decisão a tornar e Os CO- podem ter uma incidencia no processo iniciado. Este
nhecimentos estabelecidos. A tftulo de exemplo, pode tipo de investigacao corresponde, de facto, a primeira
referir-se a investigaçao epiderniologica, que estabele- fase de uma investigaçao experimental. Esta prirneira
Ce uma correlaçao entre urn certo factor do ambiente e fase, também charnada -fase heuristica", é indispen-
O aparecimento de uma certa doença, ou ainda a in- savel para elaborar, para gerar hipóteses. Demasiadas
vestigação que tende a avaliar os efeitos de urn pro- vezes, ixiiciam-se trabalhos partindo logo de hipóteses
grarna de ensino apOs alguns anos de funcionarnento. quando estas não beneficiaram de urn trabaiho explo-
As decisdes resultantes destes dois tipos de investiga- ratório prévio que permitisse construir essas hipote-
ção não dependern dos investigadores rnas dos deci- ses. Este tipo de processo pode conduzir a urn impasse,
sores preocupados corn urn contexto especifico. E, por- porque o investigador não tern urn conhecimento sufi-
tanto, a estes iuitirnos que Se destinarn prioritariarnen- ciente de toda a cornplexidade do fenOmeno estudado
te os relatOrios de investigaçao. Este tipo de investiga- ou da situação em que ele se produz. A investigaçSo
ção pode dar origern a uma investigaçao experimental exploratoria é, pois, uma investigacão corn o rnesmo
quando, por exemplo, as conclusoes de várias investi- valor das outras. Os seus resultados não são gene-
gaçOes operacionais ou avaliativas vão no rnesrno sen- ralizaveis, pois dizem respeito a urn contexto preciso.
tido, fazendo surgir uma hipótese nova que convirá Os prirneiros destinatários dos relatOrios de investiga-
verificar através de uma investigaçao experimental. çAo assirn estabelecidos são os próprios investigadores.

3. !nvestigacão-accüo E bastante recente e caracteriza-se pelo empenhamento 5. Investigacão Depende de urn processo preparatório de uma avalia-
explicito dos investigadores, o que tern muitas vezes descritiva ção ou de outra investigação quando a cornplexidade
levado a debates apaixonados que pOem ern questão a dos fenomenos on das situaçOes a estudar é tal que
validade deste tipo de investigação. Tern sido muitas necessita, previarnente, de uma descriçao minuciosa,
vezes acusada de recuperação politica, ideolOgica... 0 o mais rigorosa possivel. 0 objectivo principal é, pois,
seu interesse reside no facto de ser, antes de mais, rea- identificar urn contexto corn vista a preparar outro tipo
lizada para ajudar os autores de urn contexto preciso a de investigacão, corno seja nina investigação explora-
identificar as determinantes das suas acçOes e a tomar tOria, operacional ou avaliativa... Visa, antes de mais,
as decisoes especiticas importantes. Este tipo de inves- a objectividade, e os seus resultados são generalizáveis.
tigação está fortemente subordinado as reacçOes dos O beneficio de investigação dirige-se prioritariarnente
agentes e aos acontecimentos que se produzem. Não é, aos investigadores.
portanto, generalizável nem susceptivel de ser repeti-
do porque diz respeito a urn contexto preciso. Visa so-
bretudo permitir aos agentes distanciar-se, ernancipar-
-se. São estes os primeiros e principals beneficiarios da
investigação.
150 CUIDAR NO HOSPITAL A INVESTIGAçAO E 0 DESENVOLVIMENTO 151

Quadro S. - (continuaçdo) ainda demasiado diftmdida da investigação que se baseia nurna hi-
pótese a validar ou que pOe a necessidade de tuna hipótese como
'flpos de investigação Caracteristicas ponto de partida de toda a investigacão aparece assim tao redutora
6. Investigaçdo Dirige-se essencialmente a funçao prospectiva. Nâo tern como errónea.
especu!ativa a preocupaçâo de chegar a urna decisao, a jima acção
nern mesmo a urna conclusao. E muitas vezes feita por
eruditos de alto nivel, tais corno futurologos, astro- AS APOSTAS PARA A ENFERMAGEM
fIsicos... Apreserita urn elevado gnu de incerteza rela-
tivarnente a prova. Uma aposta é o que se pode perder ou garthar. Que se perde ou
Procura conceber uma outra maneira de ver as coisas se ganha corn o desenvolvimento da investigaçao em enfermagem?
pondo em desordern, Se for caso disso, os refemnciais 0 ganho indubitável, tanto para os cuidados de enfermagem
existentes. Abre pistas que permitem, por exemplo, ter
urn outro olhar sobre os problemas corn que somos con-
como para a profissao de enfermagem, 6 de urn aurnento dos co-
frontados de forma recorrente estabelecendo relaçoes nhecirnentos em que os profissionais pudessem basear ou organi-
entre elementos em que ainda näo Se tinha pensado. zar a sua prática, bern como urn meihoramento da sua capacidade
Leva forçosamente a outros tipos de investigaçSo. Pode de inovar. Esta prática ganharia em eficacia e a sua utilidade social
igualmente reorientar certas investigaçOes em curso, seria pot isso mais marcada. Dal deveria resultar urn meihor reco-
na medida em que pode pôr em causa a sua pertinência. nhecirnento tanto desta prática como da profissao de enfermagem
pot parte da popuiaçao em geral e dos parceiros profissionais e dos
poderes pñblicos em particular.
Vemos assirn como a palavra <<investigaqAo>> abarca aspectos Va- Se o ganho potencial para a profissao de enfermagem aparece
riados que, todos eles sern excepcão, participam nesta busca de mo- assirn claramente, tambern existem riscos de derrapagem.
vação ou de aurnento do conhecirnento. Näo ha, portanto, razão para Corn efeito, o objectivo de aurnentar o conhecirnento e de traba-
estabelecer urna hierarquia entre os tipos de irtvestigacao, desde que Ihar pelo reconhecirnento profissional não se pode traduzir por for-
a investigaçao feita seja adaptada a situaçäo estudada. J.-M. de Ketele nar cientIfica a prdtica que hoje Mo é sendo empIrica. Esta expressão, já
e X. Roegiers exprirnem-se a este respeito nos termos seguintes: <'Pen- rnencionada anteriormente e formulada pot Claude Bernard quan-
samos que e necessário dar lugar a diferentes formas de investiga- do pretendia fazer aceder a rnedicina a categoria de ciencia, nao é
ção, que nenhurna delas tern, em absoluto, prioridade ou mais va- das mais judiciosas quando os profissionais perseguem o objecivo
lor, mas que cada urna tern urna funçao prirnária especIfica para a de se dirigir ao corpo-sujeito. De facto, seem certos campos a medi-
qual os processos rnetodologicos são pensados corn antecedênciaxY. dna tornada cientifica ganhou em eficacia, ao mesmo tempo per-
Vemos tambérn, a partir da descrição dos diferentes tipos de in- deu arnplarnente em hurnanidade. Como descrevi no primeiro
vestigação, como essas actividades são abertas e acessIveis a multi- capItulo, a doença da rnedicina actual nasceu da submissllo da medici-
plas formas de irivestigadores e de fenornenos ou situaçöes a estu- na a ciência. Esta doença e também a que espreita a prática de enfer-
dat Muitas vezes, urn processo de investigaçao deverá fazer apelo a magem se esta se reduzir apenas aos seus aspectos cientificamente
diferentes tipos de investigaçao. Assirn, a investigacão não se reduz estabelecidos. Convérn, pot conseguinte, náo cometer os mesmos
A dernonstraçao irrefutável da verdade, mas abre-se, entre outras erros que a medicina nern inspirar-se nos seus excessos, a fim de
coisas, a vontade sirtcera de compreender rnelhor os elementos do não os reproduzir no carnpo da enfermagem.
ambiente em que se situa a acção dos profissionais. Urna concepcão Para ilustrar os possIveis riscos de excessos, refiramo-nos aos tra-
bathos realizados pot Isabelle Feroni que, enquanto investigadora
Op. cit. universitária gozando de urna posicão exterior ao mundo dos pres-
152 CtJIDAR NO HOSPITAL A INVESTIGAçAO E 0 DESENVOLVIMENTO 153

tadores de cuidados, foi mandatada pelos poderes püblicos para tervençOes podia, por vezes, causar efeitos contraproducentes pre-
lancar urn olhar crItico e fazer o inventário do que existia no campo judiciais a continuidade dos cuidados e que provocariam, em certos
da investigacao em enfermagem em Franca'. casos, urn deficit da qualidade dos cuidados. A investigação resul-
tante desta verificação que foi feita no estabeledmento mencionado
visava <<a unifonnizaçao das intervençOes com a preocupacão de
Liniformizar? uma meihor qualidade e continuidade dos cuidados, ao mesmo tem-
po que contribuiu activamente para a promocão de urn saber-fazer
Num artigo resultante dos seus trabaihos e intitulado <<La em enfermagem'>11 .
recherche infirmiere: construire scientifiquement la prestation 0 segundo exemplo provém da unidade de transpiantes de me-
soignante>>9, a autora afirma, entre outras coisas, que (<as enfermei- dula de urn serviço de pediatria: ((As enfermeiras confrontavam-se
ras entendem fundamentar a legitimidade das suas práticas em sa- cam o problema da dot das crianças na altura de mudar as pensos
beres cientificarnente vaJidados. 0 modelo cientIfico e apresentado dos cateteres. Um estudo comparativo permitiu demonstrar a inuti-
pot oposicão ao modelo experimental, como o quadro ideal de aqui- lidade de refazer sistematicarnente os pensos e, assim, diminuir o
sição ou de produçao de conhecimentos em enfermagem. ( ... ) 0 in- sofrimento dos doentes e dos prestadores de cuidados. Foi a aprecia-
teresse pela investigacão em enfermagem parte da verificaçao de ção objectiva do grau de toxicidade da pele quando se reduzia a
uma insatisfaçao relativamente as práticas profissionais. São a au- frequência do refazer dos pensos que permitiu modificar a pratica
séncia debases cientificas que fundamentem essas praticas e a qua- anterior"'2. E a autora conclui: <<A investigação em enfermagem pode
se inexistência de avaliaçao dos resultados que constituem as prin- contribuir para reduzir a desconforto dos doentes. Quando a acto
cipais recribiinaçOes das enfermeiras. As priticas de enfermagem de enfermagem assenta em conhecimentos, traduz-se pot um signi-
(termo que designa os procedirnentos de trabaiha, os protocolos, os ficativo ganho de qualidade>".
actos) são apresentadas coma os resultados de saber-fazer, de expe- Pot estes exemplos, ye-se hem a interesse de investigaçOes relati-
riência, extremamente variáveis e, na maioria das vezes, cientifica- vas a tais preocupacOes. São legItirnas, e devem encorajar-se as tra-
mente infundados. Esses conhecimentos não poderiam ser transmi- baJhos que permitem aumentar a conhecirnento sabre essas práti-
fidos por falta de formalizaçao teórica'>'°. cas. Note-se, contudo, a possibilidade de escoihos ligados a uma
Ha que ter atençãa a expressão bases cientIficas que fundatnentem visão demasiado sistemática, demasiado racionalizada..., numa
essas prdtkas, tanto mais que as práticas de enfermagem são al defi- palavra, inerentes aos excessos da cientificacao. Um destes escoihos e
rtidas coma procedirnentos de trabaiho, protocolos e actos. Se estes ode querer pmgressivarnente lixnitar apenas aos seus elementos den-
fazem, sem dñvida, parte das práticas, nao podem, contuda, por si tificamente estabeleddos a prática de enfermagem reconhecida, logo,
so conter toda essa prática. valorizada. Note-se, a este propOsito, que a recente tese de
A autora ilustra estas palavras cam dois exemplos tirados das doutoramento de Agnes Jacquerye" sabre a qualidade dos cuida-
suas observaçOes no terreno. A primeira diz respeito a prevenção dos junta de pacientes em risco de ou com escaras mastra resultados
das escaras, situação em que, apesar da presenca de urn grande co- que a autora apresenta com reservas, não podendo a qualidade dos
nhecimento de enfermagem, a ausência de homogeneidade das in-
" Op. cit.
12
Feroni I., La recherche infirmiere. Inventaire de I'existant et étude des conditions d'une action op. cit.
' Op. cit.
incitative. Relatorlo de investigaçao realizado a pedido da Mission intermInisterielle
14 Jacquerye A., Effets d'un programme d'ami(ioration continue de (a qualité dans la prise en
recherche experimentation (MIRE), Outubro 1991, no 428/91.
° Feroni, I., "La redierche htmiere construire scientifiquement Ia prestation soignante", charge des patients a risque on atteints d'escarres. Tese apresentada corn vista a obtençäo
in Gestions Hospita(ières, Novembro 1991, no 320. do gnu de Doutor em Sadde Pdblica. Université Libre de Bruxelles, École de Sante
10 Op. cit. Pubuique, Abril 1996.
154 CUIDAR NO HOSPITAL A 1NvESTLGAcAO E 0 DE5ENVOLVIMENTO 155

cuidados ser atribulda apenas a uniformização das práticas. Urn visto que esta procede de rnodos de pensar operados no cerne da
outro escoiho, que ja se observa na termirtologia utilizada, é o de complexidade hurnana e deve set sempre ünica, artesanal, porque
querer tomar cientIfica a prática de cuidar, quando esta nãoo é nem, adaptada a situação singular encontrada.
de resto, poderá ser, se pretende set verdadeirarnente de cuidar. Corn Se a investigacão em enfermagem é necessária para aurnentar os
efeito, se a prática de enfermagem tern interesse em se basear cada conhecimentos, para aurnentar a eficacia da pratica e para influir no
vez mais em conhecimentos pot vezes cientificamente estabeleci- reconhecirnento profissional, não deve acontecer que o aumento dos
dos e sem por isso rejeitar o que procede da intuiçao, tal prática, saberes em enfermagem leve a urn empobrecirnento da pratica de
para set de cuidar, deve set sernpre reflectida com vista a adaptá-la cuidar dos profissionais e do serviço oferecido a populacão.
a uma pessoa thilca. Assim, chega-se claramente a definiçao já refe-
rida da arte do terapeuta ou da arte do prestador de cuidados. Igno-
tar esta dimensao é correr o risco de uma major objectizaçao, de A INVESTIGAcAO E A ARTE DE ENFERMAGEM
uma desurnanizaçao crescente e, corn ela, de urn descrédito da prá-
tica de enfermagem, logo, da proflssao. Quando nos referirnos a tipologia apresentada antenormente,
Elisabeth Darras, nurna das suas conferências, também charnou podemos pensar que todos Os tipos de investigacao podem ser aces-
a nossa atenção para os riscos de desvios: <<Nas ciências do homern, sIveis as enfermeiras e aos enferineiros, desde que estes desenvol-
como são os cuidados de enfermagem, a construção de saber a par- yarn ou se rodeiem das competências necessérias para actuar corn
fir da abordagern positivista, determinista, racionalista, encontra-se pertinência e eflcácia.
num. impasse. 0 set hurnano, a relaçao hurnana, nao podern estar Quanto a mirn, no estado actual, a tónica deveria set posta ern
sujeitos a ësse reducionisrno; tal saber perderia então todo o seu sen- trés grandes tipos de mvestigação propicios ao desenvolvimento e a
tido, ficaria de algum rnodo deslumianizado e dernasiado longe das promocão da arte de enfermagern Nao ha razão para estabelecer
realidades do terreno05. uma hierarquia ou urn sistema de prioridades entre estes trés eixos,
0 risco ern que se incorre pot uma investigaçao em enfermagem porque cada urn deles é util ao desenvolvimento dos conhecimen-
mal concebida porque pouco irispirada na natureza profunda dos tos relativos aos cuidados de enfermagem. Alem disso, a
cuidados de enfermagem e da arte de cuidar e, por urn lado, o de concretização deste ou daquele tipo de investigaçao dependerá
pretender decalcar o rnodelo biomédico que se baseia nurna abor- muitIssimo dos centros de interesse de uma instituição, dos meios
dagern objectizante do ser humano e, por outro lado, o de pretender dispomveis e das oportunidades que se the apresentarn
chegar a uma forma de uniformização das práticas que, por isso, Urn primeiro eixo de desenvolvimento é o das investigacoes de
priva as enferrneiras e os enfermeiros do espaco de liberdade neces- natureza experimental, que procuraria determinat se não a verdade,
sário para <<cHar>> cuidados, para verdadeirarnente cuidar de alguern. pelo menos elernentos de verdade relativos a certos asp ectos da prá-
Isto esvaziaria a arte de enfermagem da sua esséncia. Nao se pode, tica quotidiana, tais como os gestcis técnicos. Trata-se, por exemplo,
pois, tratar de normalizar as práticas pela investigação em enfer- de fazer investigaçOes que permitarn precisar o mais objectivamen-
magem, o que levaria obrigatoriamente a urn empobrecirnento dos te possIvel a rnaneira ou, mais provaveirnente, as maneiras de reali-
cuidados de enfermagem, mas de estabelecer, pot vezes cientifica- zar deterrninado acto técnico. Isto leva-nos ao exemplo já citado
mente, referencias pertinentes de urn ponto de vista hurnano em e apresentado pot Isabelle Feroni em que uma mvestigacão per-
que a acção de cuidar se apoie. Além disso, nao é possIvel estabele- mitiu determinar a frequência corn que é ütil mudar o penso. das.
cer referencias para todas as componentes desta acção de cuidar, perfusoes em crianças imunodepriniidas. Neste tipo de investiga-
çãoj convem estabelecer os elementos de verdade tanto quanto os
15 Darras E., La recherche infirnzière: pour qul? Pour quoi? Conferencia proferida no coló-
que são marcados pela düvida ou pela ausencia de conhecimentos.
quio de ANFUDE, Paris, 24 e 25 Novembro 1995. Esses trabathos perinitirão dizer aos profisszonazs o que esta cientqiea-
156 CUIDAR NO HOSPITAL A INVESIIGAcAO E 0 DESENVOLVIMENTO 157

mente estabelecido e 0 que a não está. E nestas bases que os profissio- sência dos cuidados de enfermagem podem inscrever-se ern duas
nais poderao apoiar-se para praticar urna pafte da sua arte de enfer- etapas cornplernentares que necessitarn, urna e outra, de rnodalida-
magem, bern corno para a avaliar. Trata-se, no entanto, de permane- des diferentes de acompanhamento.
cer no registo da arte, a que equivale a referir-se a conhecimentos cientIfi- A prirneira é a que me parece acessIvel ern todos os locais de cui-
cos, nao para os aplicar tal qual a todas as pessoas mas para tentar adequd- dados, se a vontade real dos responsáveis é promover este tipo de in-
-los as caracterIsticas de cada situaçllo singular en cant rada. Este tipo de vestigacão, inclul-la nurna organizacão e dotá-la de rneios adequados
investigaçao precisa de relaçOes estreitas corn os rneios especializa- sern que estes sejarn excessivos. Pode tratar-se, rnuito simplesmente,
dos (laboratorio universitário, unidade de investigacão ... ) que dis- de urna enfermeira nurna unidade que prepara a análise e a apresenta-
ponharn das cornpetências metodolOgicas necessárias e dos adequa- ção de urna situação de vida na qual ela foi levada a prestar cuidados
dos rneios de investigacao e de tratarnento da inforrnaçao. a alguém. Essa análise e a consequente apresentacão, se se inscreve
Urn segundo eixo consiste nas investigaçoes-accllo que permitam nurna intençao sincera de urna rnelhor compreensão da situação e, con-
aos profissionais, no seu próprio contexto, ser ajudados no sentido sequentemente, se Mo se liniita apenas a descricilo dosfenómenos em pre-
de identificarern as suas deterrninantes, os seus pontos fortes e fra- sença,é rnotivadora para o seu autor e interessante para os diferentes
cos, os seus espacos de liberdade, os seus rneios de acção possIveis adores. Esses trabaihos, se não se lirnitarern a contar a sua experiên-
de mudança... Este tipo de investigaçao e particularmente impor- cia>' e se forern realizados corn o necessário distanciarnento crItico e
tante quando os actores desejam fortemente fazer evoluir as suas argumentados tanto pelos factos corno pelas referencias bibliográflcas
práticas a firn de que estas sejarn mais conforrnes as suas aspiracOes ou outros elementos pertinentes, são constitutivos de urn saber de en-
de prestadores de cuidados, nomeadamente, por exemplo, quando fermagem que se constrói. Essas investigacOes, forçosarnente modes-
desejarn evohuir de uma organizacao centrada na tarefa a efectuar tas, como o são os cuidados, podem facilmente ser encorajadas pelo
para uma modalidade organizacional mais propIcia ao desenvolvi- enquadrarnento da enfermagem. Não necessitam de rneios muito fin-
mento da "prestação de cuidados)) da pessoa. Este tipo de investi- portantes e podem constituir objecto de apresentacOes no seio de uma
gacão não necessita dos mesmos meios técnicos de pesquisa que as equipa mono ou pluridisdplinar de acordo corn urn ritmo a determi-
investigaçOes experimentais, mas, no entanto, supOe recorrer a urn naz ou em colóquios, nomeadarnente colóquios internos a estrutura
interveniente exterior a instituiçao e cornpetente para levar a seu de cuidados. Esses trabaihos contribuern para me!hot-ar a capacidade de
terrno este tipo de acção no respeito pelas diferentes componentes inferencia dos profissionais descrita anteriormente e servern de alirnento
do meio. 0 contexto da formaçao continua parece-me rnuito parti- a essa cap acidade essencial na prática da arte de enfermagem. Podem,
cularmente propIcio ao desenvolvimento das investigacOes-accao. portanto, ser directamente utilizados pelos profissionais no terreno,
não enquanto <<verdade>' mas enquanto fonte suplementar de reflexão
corn vista a acção. Note-se, pois, que nao ha pequenas ou grandes situa-
Explorar a essência do <<cuidar> çOes que merecam constituir o objecto dessas investigaçOes, dado que
se trata sempre de situaçoes particulares de vida que, todas elas, podem
Eu situaria o terceiro eixo na rubrica das investigacoes exploratorias. alirnentar a construcâo desse saber de enfermagem.
Estas parecern-me as mais apropriadas para revelar e evidenciar a Ha quem possa recear que esses estudos, pelo seu carácter isola-
própria esséncia da prática da arte de enfermagem e, por conseguinte, do, careçarn de rigor, de acornpanharnento, de difusao... Todos es-
estabelecer e aurnentar os conhecimentos que se the referern. As in- ses receios são legItirnos mas não podem opor-se sistematicarnente
vestigacOes exploratorias são as que devern permitir analisar, corn a esses trabaihos, desde que se inscrevarn num contexto verdadei-
vista a uma rnaior cornpreensão, as situaçOes de cuidados caracteri- rarnqnte crItico e construtivo. Aiérn disso, esses receios não podem
zadas pela interacção dos profissionais de cuidados e dos benefi- mascarar a realidade da prática de cuidar, que é, fundarnentalmente,
ciários dos cuidados. Estas investigacOes relativas a própria es- obra de criação e, a esse tItulo, tnica, não duplicável nem repetIvel.
158 CIJIDAR NO HOSPITAL A INVESTIGAçAO E 0 DESENVOLVIMENTO 159

o medico e escritor frances Jean Bernard, nurna das suas conferên- na Europa, ha domInios que cada vez interessarn mais aos poderes
cias, afirmava que '<0 homern de ciência descobre; o artista, o escri- páblicos, tanto a escala nacional como a intemacional.
tor, inventarn. Sern Claude Bernard, as funçöes do fIgado nâo dei-
xarn de existir. Mas sem Vinci não ha Gioconda, sem Shakespeare
nao ha Hamlet ( ... ). A obra de ciência precisa da cópia, a obra de 0 CONSELHO DA EUROPA
arte recusa a c6pia'>16. Neste tipo de investigacao, trata-se nao de
dEscobrir o que ja existe mas de revelar a pratica de cuidar, de a o Conselho da Europa tem-se preocupado corn a investigaçao
estetizar, de por certosfactos em evidência e de partÜhar urn certo nümero em enfermagem. Em 1996, foi publicado urn relatório que continha,
de interrogacJes. E este tipo de acção que val permitir esciarecer urn norneadarnente, recomendaçOes aos Estados membros'7.
pouco mais o profissional, o artifice dos cuidados, na sua vontade Este relatório tern a sua origem na quarta conferência dos minis-
de criar cuidados Unicos, singulares, pertinentes e que sejan-L de aju- tros da saüde europeus, que se realizou em Chipre a 18 e 19 de Ou-
da na situação de urn paciente e dos seus familiares. tubro de 1990.0 preârnbulo afirma:
V@-se quanto a difusao de todas estas acçöes é importante, don- <cForarn discutidas dificuldades de recrutarnento de pessoal de
de a necessidade de familiarizar as enfermeiras e os enfermeiros corn saüde, nomeadarnente no que diz respeito a area da enfermagem. A
a redacçao de artigos e corn a apresentação de cornunicaçOes. diminuiçao do nthnero de candidatos a profissao de enfermagem
Para que estas diferentes <<obras de criaçao" concorrarn para a ela- mostra que a sua irnagem social se degrada. A Bin de melhorar o
boraçao de conhecimentos mais formalizados e mais referenciáveis papel das enfermeiras, foi sugerido dar mais atenção a investigacão
como urn saber átil a prática de enfermagem, impOe-se uma segunda em enfermagem. Calcula-se que a prática baseada na investigação
etapa. Trata-se de fazer uma forma de leitura crItica baseada num gran- meihoraria a qualidade dos cuidados de enfermagem e, desse modo,
de nilrnem destes trabalhos elaborados em vários lugares. Essa leitura ate o estatuto da profissäo".
permitirá evidenciar pontos de convergéncia ou de divergência, inter- Constituiu-se urn grupo de trabaiho composto por representan-
rogaçOes, contextos favoráveis ou outros que o são menus, dificulda- tes de oito palses. A Franca era representada por René Magnon.
des, originalidades... Esta segunda etapa depende muito particular- Este relatorio exprirne-se, entre outras coisas, sobre a importân-
mente dos laboratórios urtiversitários ou das unidades de investiga- cia da investigação em enfermagem, precisando que:
cáo especializadas que dispoem de pessoal especialrnente preparado '<—A evolucão da situação sanitária e demográfica modificou con-
e afecto, todo ou emparte, a esse tipo de trabaihos. Estes dao testemu- sideravelmente o papel da enferrneira e tornou a investigacão
ito da capacidade dos investigadores em formular ou reformular uma mais essencial. Alem disso, o sistema de sailde deve acentuar,
problemática mais ampla, dando origern a trabaihos de maior enver- mais do que urn sistema curativo, urn sistema que tenha como
gadura. As publicaçOes resultantes contribuirao em grande medida objectivo a prevencão e a promocão da saüde, no qual oscuida-
para a difusao desse saber e para 0 seu reconhecimento. Pot corise- dos de enfermagem desempenhem urn papel capital.
guinte, os laços que unem o rneio cilnico e o dos <cinvesligadores> de- Os enfermeiros constituem em todos os paIses o grupo mais
vem set numerosos, contribuindo cada urn para a competencia e para irnportante de profissionais de saMe. For conseguinte, é do seu
o desempenho do outro, graças as respectivas possibilidades. interesse profissional velar pot que os cuidados que dispensarn
As investigaçOes exploratórias aparecem assirn como trabaihos sejarn fruto de uma reflexao baseada ern rigorosos trabaihos de
preliminares de outros tipos de irivestigaçao relativos, entre outras investigacao.
coisas, a pedagogia, aos instrumentos, a avaliaçao da qualidade...
no carnpo da enfermagem. Como provarn os traba]hos que se fazem "Conseiho da Europa - Comité européen de Ia sante. Rapport et recommandations sur hi
recherche inflrmière, Doc. N° S :/santé/cdsp 95.O6/FCDSP 95.3 iv, Estrasburgo, 22 Mar-
"Bernard, J., Circonstances. Ed. Buchet/Castel, Paris, 1991. ço 1996,38 pp.
160 CUmAR NO HOSPITAL A LNvE5TIGAçA0 E 0 DESENVOLVIMENTO 161

<-6 investirnento na invesfigaçao em enfermagem é ainda limi- - As conclusoes do estudo poderão ser traduzidas e transferidas
tado, ate mesmo inexistente em alguns palses. No entanto, o fun- para outros profissionais que se deparem corn problemas se-
darnento da investigaçao em enfermagem está a desenvolver-se, meihantes.
e o ensino universitário contribui fortemente para isso>>. - Os trabaihos de investigacao seguiräo urn protocolo claro e bern
As principais recornendaçOes dirigidas aos Estados membros fo- definido que tenha sido submetido a apreciacão cientIfica de
ram sintetizadas da seguinte forma: pares e tenha recebido a aprovacão das estruturas encarrega-
s- 0 reconhecirnento da irnportância da investigacao em enfer- das de aprovar, no Plano ético, Os trabaihos de investigacão e
magem para meihorar a qualidade da prática dos cuidados de de desenvolvirnento.
enfermagem e dos cuidados aos pacientes. - 0 calendário e as metodologias do estudo devem set clararnente
0 reconhecirnento da investigaçao em enfermagem, enquan- defirddos.
to campo de investigaçao independente, necessita de uma estru- - Os resultados deverao ser comunicados segundo urn plano
tura e de urna organizaçao que permitam as enfermeiras e aos aceite para urn exarne crItico livre e de acesso disponIvel a to-
enfermeiros participar na poiltica de investigacao e no processo dos os que dele possarn beneficiar; isto inclui, em princIpio, a
de decisao. sua publicacao.
Uma atenção particular relativarnente ao financiarnento e aos Se a formalizaçao destes criterios procede de urn processo que se
recursos para o ensino de enfermagem ate ao nIvel do pretende rigoroso, não é, contudo, certo que estes se possam aplicar
doutorarnento e a previsão de urn financiamento suficiente e de aos diferentes tipos de investigacão apresentados atrás. Isto nAo
subsIdios especiais para Os trabaihos de investigacao. deveria impedir que os trabaihos que não satisfaçam o conjunto dos
Coopèracao na investigacao em enfermagem corn urn reco- chico critérios fossem considerados corno trabaihos de investiga-
rthecirnento das redes de irtvestigação a todos Os niveis. ção, desde que, evidenternente, se inscrevam numa perspectiva sin-
Medidas que prornovam a difusao e a aplicacao dos resulta- cera de aurnento do conhecirnento iltil a prática de enfermagem e se
dos da investigaçao a prática de enfermagern>>. baseiern nurna metodologia pertinente.
Estas recomendaçOes encorajarn, entre outras coisas, o desenvolvi- Para participar no desenvolvirnento da investigacão, o grupo de
mento de acordos de cooperação entre os serviços de enfermagem e as peritos identifica aquilo a que charna <<as alteraçOes pertinentes para
estruluras de ensino e as unidades de investigaçao em enfermagem a investigacao em enfermagem'>18. Estas <<alteraçOes" são dez e são
corn vista a aperfeicoar programas de investigacao. Convidarn ainda a formuladas do seguinte modo:
aperfeiçoar a formaçao prática para a investigacao em enfermagem <<Os progressos tecnicos da rnedicina que permitem rnanter a vida
nos proprios estabelecimentos de ensino superior, o que irnplica que levam a um aurnento do n(lrnero de pessoas que têm necessidade
sejam criadas unidades especializadas e que investigadores em enfer- de cuidados de enfermagem. A investigacão em enfermagem torna-
magem qualificados possarn nelas exercer de forma permanente. -se cada vez mais necessária a meclida que se multiplicarn os pro-
A firn de assegurar a credibifidade dos processos identificados blemas sanitários e sociais em relação corn os cuidados de enferma-
corno trabaihos de investigaçao em enfermagem, o grupo de traba- gem associados:
Iho constituldo pelo Conseiho da Europa pronuncia-se sobre cinco - ao nürnero crescente de pessoas idosas que tern problemas de
critérios que, em seu eMender, devem ser considerados na aprecia- saMe e incapacidades rnáltiplas;
ão das propostas de estudo que teriarn a ver com a investigacao - ao nurnero de pessoas psicologicarnente perturbadas ou vIti-
cientifica em cuidados de enfermagem. Esses chico criterios são: mas de perftirbacoes rnentais;
- 0 estudo dará inforrnaçOes novas que perrnitirao meihorar a aos estilos de vida que podern provocar doenças crónicas;
acção das enfermeiras relativamente a preparacão dos cuida-
dos e a prornoção da saiide e do bern-estar. 18 Op. cit.
162 CUIDAR NO HOSPFI'AL A INVESTIGAçA0 F 0 DESENVOLVIMENTO 163

- ao aumento dos problemas ambientais que afectam a saüde; sam na prática clinica não se prolonga. Seria interessante conhe-
- ao niimero crescente de pessoas que sofrem de problemas cau- cer a causa deste fenomeno.
sados por acidentes; <<2.A satisfaço das enfermeiras e dos enfermeiros e dos pacien-
- ao niirnero crescente de doenças malignas, inclusive as deficien- tes/dientes em funçao do tipo de gestao dos cuidados.
cias irnunitarias; <<3. A qualidade dos cuidados, ou seja, a forma de a promover e
- ao aumento dos problemas cárdio-vasculares e das doenças cró- de a avaliar.
- - nicas e metabolicas, mesmo nas camadas mais jovens; 4. Como se poderao encontrar os meios para ajudar urn pacien-
- a multiplicaçäo de tecnologias médicas, inclusive os meios mecâ- te a diminuir os seus sentimentos de impotencia face a doença,
nicos, Os transpiantes de órgãos e as manipulaçOes genéticas; face ao meio em que se encontra, once recebe cuidados?
- ao papel das muiheres enquanto prestadoras de cuidados de saiide <<5. 0 ensino ao paciente, o que durante muito tempo foi conside-
e ao pessoal associado a alteraçao das estruturas familiares; rado urn "pequeno extra" que alguns prestadores de cuidados
- as expectativas crescentes dos consurnidores de cuidados de faziam se Ihes apetecesse, quando se percebe que é urn factor
saóde>>. crucial que pode dar a pessoa a capacidade de gerir o seu trata-
Se estes dez pontos identificados pelo grupo de peritos designa- mento quando voltar para casa.
dos pelo Consetho da Europa oferecem urn certo ntirnero de vias a <<6. Como se podera aumentar a capacidade e o interesse do pa-
explorar ou a aprofundar pela irtvestigacao em enfermagem, pOem ciente/diente em aprender?
tambem em evidência a necessidade de desenvolver investiga cUes de <<7. Os programas de orientaçäo para os jovens licenciados: como
cuidados, pluriprofissionais, em que diferentes profissionais de saüde se podera ajuda-los a não softer "o choque da realidade" que já
(assistentbs sociais, ergoterapeutas, enfermeiros, fisioterapeutas, foi objecto de muitas irivestigacOes?
medicos, terapeutas da fala, psicólogos ... ) conjugariarn os seus pon- <<8.A enfermeira e a politica.
tos de vista a fim de chegarem a uma compreensão, o mais comple- <<9.A relaçao enfermeira—paciente: como? Ate once?
ta e o mais rica possIvel, das situaçOes estudadas. Essas investiga- <40.Os cuidados de enfermagem aos doentes senis.
çOes deveriam contribuir tanto para uma abertura das profissOes <41.A adesao do paciente ao seu tratamento.
como para uma major eficácia da prática de cuidar. <42.Por em prática resultados de investigaçOes em enfermagem
dlinica. Efectivamente, ha muitas respostas a questOes de cuida-
dos de enfermagem, mas poucas investigaçOes são integradas na
ALGLIMAS WAS DE DESENVOLVIMENTO prática de enfermagem".
A autora prossegue comentando os resultados de um inqué-
Tratando, em 1991, do futuro da investigaçäo em cuidados de rito realizado na SuIça, onde-um desejo particular diz respeito a
enfermagem, Rosette Poletti, referindo-se a urn inquérito norte-ame- especificidade dos cuidados de enfermagem a prestar aos pacien-
ricano, cita doze grandes prioridades que aparecem como outros tes vItimas de doença de Alzheimer, bem como aos pacientes vi-
tantos campos em que a investigacao pode desenvolver-se 19: timas da <<sIndroma de Diógenes'. Este ültimo caracteriza os pa-
4. A longevidade na praflca clinica, porque, se a formaçao das cientes que vivem sozinhos em condiçOes precárias e que recu-
enfermeiras e dos enfermeiros se prolonga e e cada vez meihor, sam uma ajuda de que, no entanto, necessitam. Esta sindroma
parece, sirnultaneamente, que o tempo que os profissionais pas- preocupa muito particularmente as enfermeiras de cuidados
domiciliários.
19 Poletti, R., L'avenirde I'enseignement a dela recherche en 60mB infinniers. Conferencia pro- - Alertando contra a mania das investigaçOes quantitativas, Poletti
ferida no Institut superieur de nursing (!SN) (actuaimente 1SF!) da Universite catolique
de Louvain (DCL) an Bruxelas, 13 Dezembro 1991, publicada na revista de GRAS!,
insiste <<no facto de as nossas investigacOes deverem ser quantitati-
1992, n° 9. vas mas também qualitativas. Devem levar-nos a encontrar meios
164 CUTrOAR NO HOSPITAL A INWsTIGAçA0 B 0 DESENVOLVIMENTO 165

para ajudar os pacientes a viver meihor o que tern de viver na situa- A este propósito, Poletti afirma:
ção de doença que atravessarn>>20. <<Muitas vezes, quando se detem o poder do controlo dos outros,
A fraca utilizaçao dos resultados das irtvestigacOes na pratica pensa-se ter algo de solido, quando esse poder é totahuente ilusório
quofidiana é sublinhada pela autora, mostrando assim o lugar dei- porque, quando eu controlo o outro, também eu perco a minha ii-
xado aos ritos, a tradiçao, aos hábitos. Urn desenvolvirnento da in- berdade. Esse perigo é importante Para mint, aqui, neste mornento,
vestigaçao e uma meihor utffizaçao dos resultados poderiam ser porque creio que, por vezes, o desejo de profissionali.zacao da nossa
garantidos integrando a investigacão naquilo a que Poletti chama profissao, que é justificado, que é importante, poderia levar-nos a
"a realizaçao de projectos>>. Para esta autora, deveria haver recurso essa ilusao de poder de controlo. Dizemos que quando tivermos esse
a projectos de investigacao a partir da forrnaçao inicial: <<A investi- poder de dizer as coisas, de nos implicarmos, então teremos verda-
gacão em enfermagem poderia ganhar tirna amplitude muito major deiramente atingido alguma coisa de importante. Mas é urn perigo,
se os estudos de enfermeiras e de enfermeiros pudessem basear-se porque o verdadeiro poder nao é odo controlo. 0 verdadeiro poder
na realizaçao de projectos de investigação mais do que unicarnente é o do enraizamento nos valores profundos, na coerência entre Os
na aquisicão de conhecirnentos. A gestão de projectos, a investiga- valores e a acção. E também o poder da paixão, apaixao pelo que se
ção sobre dados que são recoihidos pelos estudantes ao longo da faz, pelos objectivos que se pretendem atingir. B ainda o poder da
sua formaçao, pode depois integrar-se na sua vida de prestadores comurticação autentica corn os que nos rodeiarn. E o poder do co-
de cuidados de maneira completamente diferente>>21. nhecimento integrado. E o poder do amor, uma palavra que não se
A conferência de Poletti termina insistindo: utiliza muito nos cuidados de enfermagem nern no ensino e que é,
- na necessidade de obter, por vias multiplas, financiarnentos na verdade, urn dos poderes mais extraordinários do nosso rnurido.
adapfados, nomeadamente financiamentos provenientes de E, depois, diria que e tarnbém o poder da trar,scendencia, e esse
certas empresas privadas; poder e ainda mais importante do que o poder do controlo. Faço
- na verificaçao de urn desafio a veneer, que constitui uma <<tare- votos Para que a nossa profissao saiba reconhecer este perigo>>.
fa verdadeirarnente irnensa>> em que, no entanto, se pode iden- A afracção e o interesse pela investigacao não pode fazer esquecer,
fificar urn certo nürnero de perigos. mesmo que isso contribua grandemente Para a alirnentar, que, a parti-
Os perigos referidos são quatro: da, a enfermagem tern ainda necessidade de uma reflexao sobre a sua
- o primeiro é o do medo. Trata-se de urn medo associado a no- natureza profunda a fim de não levar a invesflgação em enfermagem
ção de correr riscos, a noção de erro e de fracasso; por caminhos sem salda. A investigacão deveria, assirn, permitir asse-
- o segundo é o da clareza, pois esta é sempre ilusoria. Nunca gurar urna razoavel e fecunda dose de düvida, pois so a düvida per-
nada é adquirido. 0 perigo da clareza reside na ilusao que, por mite pensar e, portanto, distandar-se, levantar questOes e pôr em prá-
vezes, pode surgir de se ter encontrado a soluçao. Quando al- flea meios que possibilitern encontrar elementos de resposta. Tanto as
guma coisa e compreendida - ou considerada como tal - trata- certezas como os cornportarnentos dogmaflcos não permitern a dilvi-
-se sirnplesmente de urn patamar a partir do qual se pode ft da e não dao lugar as interrogacOes, mais exactarnente ao questio-
mais longe; narnento. São estranhos ao espIrito da investigacão.
- o terceiro é o do hábito, que fecha os othos do espfrito a tudoo A investigacão em enfermagem e o desenvolvirnento pessoal e
que e distirito, a tudo o que e completarnente diferente, a tudo profissional que ela permite tern diante de si urn futuro promissor,
o que é inesperado; desde que saibarn manter-se no caminho de uma verdadeira pers-
- o quarto e ültirno perigo e o da autoridade, do poder. pecflva de cuidar.

10 Poletti It, op. cit.


II Poletti R., op. cit. Poletti it, op. cit.
Conclusao

A intençao de cuidar que anima inürneros profissionais de saude


tern certas dificuldades em se manifestar, em se exprimir e, por con-
seguinte, em se concretizar na pratica quotidiana das diferentes pro-
fissoes abrangidas pela palavra ucuidado". Dal resulta urn deficit
no serviço ofereddo a populacäo que se traduz sobretudo na defid-
ente atenção particular prestada as pessoas que recorrern ao sistema
de cuidados. Se este se mostra, na generalidade, eficaz no registo do
<fazer cuidados", apresenta, no entanto, nurnerosas lacunas no re-
gisto mais complexo da capacidade de <cuidar'> o doente e os seus
farniliares na situação singular que vivern. Dal resulta igualmente
urna inquietaçao - urn rnal-estar - sentida pelos diferentes profis-
sionais na pratica da sua profissao de prestadores de cuidados que
exercem, dia após dia, a <<cabeceira>> dos pacientes. A coerência do
grupó, bern como o sentido dado as suas acçOes, nern sempre thea
parece clara.
Estas dificuldades prendem-se, ern parte, corn o próprio fundamento
da rnedicina tecnico-cientIfica fortemente centrada no <<corpo-objec-
to", cujos desenvolvirnentos actuais, por mais notáveis que sam em
certos aspectos, interpelarn a vários tItulos. Prendem-se tarnbém corn
os excessos de certas logicas de gestão de efeitos redutores que, sob a
pressão de imperativos económicos cada vez mais prementes e em
nome de urn certo tipo de radonalidade organizadonal, rnuitas vezes
nao atribuem senão urn lugar secundário a emergência de uma verda-
deira logica de cuidar. E, no entanto, esta deveria orientar a
concretização da missão fundamental das instituiçOes de cuidados.
Estas duas lógicas, por diferentes que sarn, não tern porvocacäo con-
frontarern-se, porque são complernentares, indissociáveis, necessárias
urna a outra. Assirn, convent clarificar a missão de cuidar e repensar a
Iógica da gestAo e Os modelos organizadonais dal decorrentes pan
que estas, tendo em conta as limitaçoes que encontrarem, sejam apro-
priadas a finalidade de cuidar e se mostrem como auxiliares e como
facilitadoras na pratica quoticliana das profissoes de cuidados.
168 PRESTAR CUIDADOS NO HOSPITAL CONCLUSAO 169

Neste contexto, os cuidados de enfermagem, caracterizados pela - trabathar para tuna organizacào coerente e efica.z de todos os
sua dimensao pouco espectacular e pot tantas <<pequenas coisas'> profissionais de enfermagem a fim de constituir urn grupo pro-
que, pan urna dada pessoa, revelam a grande mas subtil atenção fissional de referencia, entre outras razöes, pela força da logica
que the é prestada, tern ainda grande dificuldade em set valoriza- que o anima e, por conseguinte, credIvel aos olhos dos outros
dos tanto pelos profissionais de saüde em geral como pelos de en- profissionais de saüde, dos poderes püblicos e da população.
fermagem em particular. Daqui resulta que o reconhecirnento da Esta credibiidade näo poderá set obtida se ela se inscrever em
utilidade social do exercIcio da enfermagem, apesar do seu con- acçOes corporativistas pouco compativeis com a própria noção
tributo especifico para a saüde da populaçao, seja pouco afirmado, de cuidados;
para alem da simpatia que, de urn modo geral, a populaçao tem - velar pot urn enquadramento de enfermagem, qualquer que
pelas enfermeiras e pelos enfermeiros. Parece, assirn, que o desen- seja o lugar ocupado pelo quadro de referéncia, portador de
volvirnento do cuidado de enfermagem passa, inevitavelmente, pot urna autentica palavra de enfermagem que the permita exercer
urn novo questionarnento da própria noçäo de cuidado no universo plenamente e de forma credIvel a sua função de facilitador da
pluridisciplinar dos profissionais de saMe. Trata-se de trabathar para pratica quotidiana e de desenvolvirnento desta.
que a pratica de todos os actores do grupo pluriprofissional se en- A enfermagem, se conseguir rnanter-se fiel as <<pequenas coisas>)
quadre nurna verdadeira perspectiva de cuidar, aquela que se did- que a caracteriza, tem diante de si urn futuro promissor. Por urn
ge ac, corpo-sujeito e que, pot isso, dá urn lugar mais amplo as carac- lado, porque os limites das suas possibiidades de acçâo são bem
teristicas da acçào de enfermagem. menos restrictos do que os dos outros profissionais de sa(ide. Pot
o desenvolvirnento da enfermagem, permitindo consolidá-la mais outro lado, porque, sam quais forem a evoluçao e o desempenho
profundaménte nurna perspectiva de cuidar, supOe igualmente: da tecnologia, a populaçao terá sempre, e cada vez mais, necessida-
situar a prdtica de cuidar no registo da arte e não no da den- de de todos esses elernentos, de conteildo tao pouco sofisticado e
cia, o que näo exclui, de modo algum, que os dados cientifi- tao pouco espectacular, que constituent a natureza profurtda dos cui-
camente estabelecidos possam servir de referência a essa dados de enfermageth.
prática;
- fazer evoluir as modalidades pedagogicas a fim de que estas,
para alem da necessidade de transmissao de conhecirnentos,
deem urn lugar maior a descoberta da arte de enfermagem e ao
inevitável despertar para as <<coisas da vida>> de que esta ne-
cessita;
- recorihecer a investigaçao como elemento essencial para a visi-
bilidade dos cuidados de enfermagem, permitindo explidtar o
contributo dos profissionais de enfermagem para a saMe da
populaçäo. Esta investigacao, contudo, não pode levar a uma
<<submissao>> da prática de enfermagem a dência. Neste caso,
essa pratica predpitar-se-ia nmn beco sem saida;
- pôr em questão a pertinência dos instrurnentos e das concep-
çOes de referenda a firn de se assegurar do seu respeito pela
logica do cuidar e do seu carácter verdadeiramente de ajuda
na prática quotidiana dos profissionais dos cuidados de enfer-
magem;
ANEXO I - Escutar.

ANEXO II - Alguns textos e testernunhos sobre cuidarx. publicados na


revista Presences de Lyon em Abril 1995.

ANEXO III - Quadro corn parativo segundo Hend Abdel-AL


Anexo I - ESCUTAR1

- Escutar

E talvez o mais belo presente que podemos dat a alguem...


E dizer-the, näo corn palavras rnas corn os nossos othos, corn o
nosso rosto, corn 0 flOSSO sorriso: tu és importante para mirn, és
interessante, estou contente pot estares aqui... Nao admira que se
verifique que a methor maneira para urna pessoa se revelar a si pro-
pria é set escutada pot outra.
Escutar

E corneçar pot se calar...


Já reparararn corno Os diá1ogos" estäo cheios de expressOes do
t-ipo: <é corno eu quando... ou <<isso faz-me lernbrar 0 que me acon-
teceu ... >>. Muitas vezes, o que o outro diz näo é senäo urna oportu-
nidade para falarrnos de nos. Escutar é começar pot parar o nosso
pequeno filme interior, o nosso monólogo portátil, para nos dei-
xarrnds transforrnar pelo outro. E aceitar que o outro entre em nos
corno se entrasse ern nossa casa e aI se instalasse pot urn instartte.

Escutar

Nao e procurar responder ao outro, sabendo que ele tern em si mes-


rno as respostas para as suas próprias intetrogacöes. E recusar pen-
sar em vez do outro, dat-the conseihos e ate querer cornpreende-lo.
Escutar é acoiher o outro corn reconhecirnento, tal corno ele se de-
fine a si próprio, sern nos substituirmos a ele para ihe dizer o que
ele diz ser. E estar positivamente aberto a todas as ideias, a todos os
assuntos, a todas as experiências, a todas as soluçOes, sern interpre-
tare sent julgar, deixando ao OUITO espaco e tempo para encontrar 0
eu carninho.
Referências näo indicadas
174 CUIDAR NO HOSPITAL

Escutar
Anexo II— TEXTOS E TESTEMLJNHOS2
Nao e querer que alguém seja assim ou assado, é aprender a desco-
brir as suas qualidades especIficas. SOME 0 UCUIDAR"
Estar atento a alguém que sofre nao é dar uma soluçao ou uma (publicados na revista Presences de Lyon, em Abril 1995)
explicacão para o seu sofrimento; é permitir que ele próprio diga e
enQontre os seus próprios meios para se libertar do sofrimento.
Aprender a escutar alguém
Editorial
E o exercIcio mais (iffi que podemos fazer para nos libertarmos das
nossas prOprias angñstias... E se cuidar fosse viver de doçura para connosco e para corn os
Escutar é dar ao outro o que talvez nunca ninguérn nos tenha outros;
dado: atenção, tempo, uma presenca afectuosa. E aprendendo a es- e se cuidar fosse viver em permanente atenção - ser cuida-
cutar Os outros que acabamos por nos escutar a nós proprios, a es- doso - a relaçao corn o homem;
cutar o nosso corpo e todas as nossas emoçöes; é o camirtho para e se cuidar fosse deixar o outro perceber que ele e importante
aprender a escutar a terra e a vida; é tomarmo-nos poetas, ou seja, para nos;
sentirmos o coração e vermos a alma das coisas. Aquele que sabe e se cuidar fosse lançar urn olbar de esperanca sobre o sofrimen-
escutar e dãdo deixar de viver de forma superficial: ele comunga da to dernonstrado;
vibração de todos os seres vivos. e se cuidar ao outro nos charnasse a descobrir a nossa humanida-
de comum;
e se cuidar tivesse a ver corn urn acto de fe, porque e al que se
experimenta a confiança;
B se cuidar fosse o que nos é comum, o que faz a <<como-uniao"
da nossa presenca junto do hornem ferido, sofredor, exciuldo. 0
rnundo da sañde abrange urnas quatro dezenas de categorias socio-
profissionais: que riqueza e que diversidade!
A. Garcin

Tratar não é cuidar


Duas verificaçães:
Pode-se tratar sem cuidar; pode-se cuidar sem tratar.

Reproducao gentilmente autorizada pelo editor.


176 CUmAR NO HOSPITAL VIA

Uma conclusllo: sivamente aos cuidados ditos paliativos. Assirn, o que eu thgo é vá-
Tratar näo é cuidar. lido para todas as circtmstâncias
Tratar 6 0 que aprendemos na escola, é a teoria que se encontra
nos livros. B saber que, para certa pert-urbaçao na articulaçao das Cuidar da pessoa doente
palavras, se deve pôr a lingua assim e assado. Tratar e considerar o
outro como urn sintoma contra o qual ha que lutar. Em si, isso está E urna forma de mostrar a pessoa doente que ela existe para os ou-
bern, was talvez nâo seja suficiente. tros, é reconhecer a sua dignidade, qualquer que seja o grau de
Aquela criança que a mae nos traz, cicia... corn a sua idade, corn- alteraçao das suas capacidades fisicas ou psIquicas.
preende... por isso,o seu aparetho ortodôntico não serve para nada: B centrar-se naquio que ela exprirne verbal ou corporalrnente, o
não ha problema, você conhece perfeitamente as secçOes e as que exprirne sobre a sua maneira de viver a doença, a deficiência ou
subsecçOes do capItulo sobre perturbacOes da articulaçao... 56 que a hospitalizaçao; o que exprirne sobre as suas necessidades, sobre a
no capItulo em questäo se esqueceram de dizer que a criança co- ajuda que solicita ou que näo solicita.
nhece muito bern a técnica de reeducaçao que você the quer ensi- B procurar uma parceria, preservar ou estirnular tuna autono-
nar, mas que não quer de modo nenhum deixar de ciciar, porque mia.
assirn talvez a mae perceba que ela já e crescida e deixe de the dar Isso exige urna grande atenção para perceber a carninhada da
mirnos e presentinhos e a defenda menos quando o pal a repreen- pessoa doente, para adaptar o meu passo an seu, para eventualmente
de... descodificar urn pedido urn pouco codificado.
Cuidar é considerar o outro, antes de mais nada, como urn ho- Exige tambérn delicadeza para tomar a iniciativa, para propor
mem, urna müther ou urna criança que, no momento em que nos sem dominar nern hurnilhar.
vem consultar, apresenta urn sintoma; é procurar lutar corn ele con- B procurar saber como a pessoa beneficiária dos cuidados pode
tra esse sintoma; é encontrar com 0 nosso <<cicioso>> urna soluçao ter mais bern-estar, viver methor consign própria e corn os que a
Para que o seu sigmatismo deixe de the deformar os dentes e para rodeiarn.
que ele possa crescer sem perder a suas referencias. Cuidar traduz-se nurna aproxirnacão da pessoa que nâo permite
Cuidar e o que humaniza os prestadores de cuidados; é acorn- distinçOes: fIsica, psIquica, espiritual; técnica, relacional, de ether-
panhar os cuidados de urna relaçao de ajuda que me parece essen- magem.
cial em ortofonia, porque quem somos nos senäo <<parteiros da co- Nesta optica, os cuidados técnicos inscrevem-se nurna relaçao
rnunicaçao>>? B a comunicaçao não nasce senão na confiança e no corn risco de sofrirnento e igualrnente corn o benefIcio de sinais de
desejo. reconhecirnento.
C. Thibault Cuidar a familia
Estudante de ortofonia
Para mirn, cuidar é tambérn prestar atenção a farnIlia, aos que to-
deiarn a pessoa doente. Antes de mais, pela simples razäo de que o
Para todas as circunstâncias comportarnento da farnulia influl na caminhada da pessoa doente.
Mas tarnbém porque nao é possIvel deixar sem urna palavra essas
Cuidar é urna expressâo de que gosto rnuito e que actualrnente qua- pessoas que sofrem, desamparadas perante o que Ihes acontece, pe-
lifica a forma como desejo trabaihar. rante as alteraçOes cornportarnentais dos faniiliares. Dal a iniciativa
Cuidar organiza a minha forma de tratar e, pot conseguinte, apli- de um cliálogo:
ca-se a todos os tipos de cuidados, a todos os contextos, e não exclu- - para exprimit clarificar sentimentos;
178 CuWAR NO HOSPITAL ANEXOS 179

- para medir a compreensão da situação, das informaçoes rece- que se encaminha para a morte ou a alguém que hide voltar as
bidas; suas actividades. Isto torna a minha actividade mais confortável
- para explicar uma atitude de cólera, de reserva; porque the dá urudade.
- muito simplesmente para dizer que é normal a diferença entre
os sentimentos experimentados pela pessoa doente e pela pes- B. Sauzaret
soa que vem visitá-la: Enfermeira no hospital de Antiqualile
- para ajudar a entrar num. quarto; (texto composto por ocasião do debate
proposto a 12/10/82 sobre o tema:
- para cativar esse desconhecido em que a pessoa doente se tor- <'Entre a vida e a morte, ser acompanhado')
nou, e muitas outras acçOes possIveis inspiradas pot aquilo que
vejo e percebo da situação.
Cuidar a equipa
Como pode o psicologo cuidar da pessoa doente
Isto traduz-se numa autorizaçao mütua pan nos substituirmos quan- participando nos cuidados dispensados no hospital?
do uma relaçao se torna demasiado desgastante, e não apenas nurn
contexto de firn de vida. Ora, substituinno-nos nem sempre é fácil Ha qualquer coisa que se joga, através do corpo, que desloca a
porque e reconhecer Os flOSSOS lirnites quando e suposto sermos for- pessoa, num momento de inquietacão, de impotência e de isola-
tes. E mais fácil responder sim a proposta <Queres que te substi- mento. Nessa altura, a pessoa encontra-se fora do seu tempo ha-
tuaTh do que formularmos nós próprios o pedido. bitual, o tempo do relOgio, para se interrogar sobre a sua histO-
Isso passa por ajudar a verbalizar os sentimentos experimentados, na biolOgica. Ela interroga os conlaecimentos da medicina, o sa-
por dat indIcios de compreensäo relativamente a situação vivida. ber-fazer dos medicos e das enfermeiras. Interroga também a
E reconhecer as várias competências dos seus membros, e valori- vida, a sua vida.
zar a interdisciplinaridade para major benefIcio da pessoa Que se passa?
beneficiária dos cuidados. E aceitar que um ou Outro desenvolva Donde vem isto?
uma relaçao privilegiada, porque foi isso que a pessoa doente esco- Isto ira mudar alguma coisa na sua vida futura? Reencontrar or-
lheu, sem que isso crie rivalidades. dem e uma necessidade primánia.
E convidar-se mutuamente a empenhar-se num processo de for- Neste lugar, a pade, a que as pessoas acorrem porque estão per-
mação, a participar num grupo de apoio. didas na gestão da sua saüde, nem sempre se espera vet um psicO-
E prestar uma atençào muito particular as pessoas em formaço logo. Nao e f6cil encontrar outra pessoa que se proponha falar, que
- embora elas so estejam na equipa de passagem -, porque são esteja all para escutar, pan ouvir, quando se está na acção.
mais frágeis, para as formar e preparar para situaçOes com que se Durante o tempo passado no hospital, onde, na maionia das ye-
hao-de confrontar quando forem profissionais. zes, a pessoa doente tem pressa de voltar para casa, o psicologo está
Parece-me dificil prestar cuidados apenas ao doente. Sem pre- presente pan ter tempo para falar, para sentir, para pensar. Enquan-
tender estar em todas as frentes ao mesmo tempo, sem negar as di- to o corpo fala, com os seus enigmas, a palavra pode tambem ter
ficuldades inerentes a este modo de relaçao, não p0550 deixar de ter lugar com palavras e ser ouvida por alguém que está atento a ela e
em conta aqueles que gravitam em torno do doente, porque cuidar que vela pelo sentido do que e expresso. 0 psicólogo encontra-se no
é uma maneira de entrar em relaçao que, a pouco e pouco, se torna hospital porque ha algo a ouvir a partir do acontecirnento actual,
uma maneira de set Alem disso, é um modo de relaçao que orienta isto e, algo que tem necessidade de ser transmitido de uma pessoa a
os meus actos inerentes ao cuidar, sejam estes destinados a alguém outra e que tem urn sentido nurna histOnia.
180 CUIDAR NO uOsvrrAL RVIVETIMEffCii

Atraves do corpo doente do adulto é tambérn a criança que fala, designar os cuidados pararnédicos feitos aos doentes! Depois, yen-
e o psicólogo está presente para velar por que ela seja reconhecida do bern, parece-me cada vez mais evidente que a fisioterapia, como
pela pessoa que sofre e pelos outros. qualquer tratarnento bem compreendido e bem conduzido, e antes
Per vezes, a pessoa doente nao está em condiçOes de falar. 0 seu de ms urn tratamento a individualizar consoante o paciente e as
estado fisico ou psIquico não the permite elaborar urn discurso, tra- suas reacçOes pessoms, e e neste espirito mais humano que o profis-
duzir o sea pensarnento. 0 psicólogo está presente para os que a sional se clingira nào a uma patologia mas ao doente, porque odoente
rodeiam, que pensarn per ela, desejam per ela, decidern per ela. Corn nao deve ser reduzido apenas a sua doença
a famIlia, corn as enfermeiras, está atento a sua presença nos seus Nurn prirneiro tempo, cuidar é pan mirn prestar atençäo ao doen-
discursos, ao mesmo tempo que está atento ao que os outros vivern te logo desde a sua chegada ao serviço. E certo que o meu primeiro
per ela e corn ela. olhaz condicionado pela minha profissao, é purarnente reflexo e fixa-
No meu gabinete, integrado nurn local de consulta e de reeduca- se imedliatarnente nurna dificuldade em andar, nurn coxear... Esta
ção, recebo pacientes que tern perturbaçOes da fala, da memória ou observaçao sucinta da rapidamente lugar a urn olhar que se detem
outras deficiencias associadas a uma lesao cerebral ou a uma nurn rosto, e o acothimento torna-se mais caloroso: apresento-me e
disfunçao inquietante. Para alérn da avaliaçao das suas capacida- digo: <<Já venho ye-b>>, e então o paciente, <<impaciente>' por se en-
des, trabaiho corn eles o momento da mudança na sua historia e a contrar nurn quarto, <<assume o seu mal corn paciência>> porque a
possibilidade que eles tern de participar nela. espera per uma cama disponivel pode ser interminável. Neste for-
Tambern you ver doentes aos quartos, em neurologia ou em migueiro de prestadores de cuidados que passarn e correm num cor-
neurociruria. Nestes casos é conveniente recorihecer a situação de rector, o doente está all, desarmado, anOnimo, esperando que se the
regressäo em que se encontram, corn as defesas debilitadas. Parece- dê alguma importancia. Per vezes, tenho tempo ou reservo tempo
-me importante atribuir, para cada urn, urn valor para esse tempo para acompanhar o doente ao quarto ou a sala de acolbirnento: po-
de crise e de observaçao. nho urna mao no seu ombro ou ofereço o braço como suporte, e esta
Nas minhas intervençOes em diferentes mementos da doença, aproxirnação corporal profissional toma-se nurn contacto afavel,
compete-me encontrar urn sentido particular, sendo testemunha de tranquilizador que poderia significar: Tenha confiança na equipa,
uma ruptura que e preciso pôr em relaçao corn uma rnudança. Ciii- deixe-se guiar e tudo correrá bem; não se esqueceram de si, vamos
dar as pessoas que vejo no hospital obriga a que o meu pensarnento falar dessa prOxima intervenção>>.
esteja presente mas também que possa seguir o ritmo do que essas Em seguida, o doente estende-se sobre uma cama ou uma mar-
pessoas ali vivem. quesa, e o meu lado profissional leva a methor: a conversa toma-se
médica, remonto as origens das dificuldades e para isso tenho que
D. Labourel fazer vários exames, avalio as possibilidades motoras, palpo, mo-
Psicologo no laboratório de neuropsicologia bilizo os membros inferiores tendo a preocupacäo de não causar
e de reeducaçào da fala, dores fIsicas, interrogo sobre as capacidades de mobffidade na vida
Hospital de neurologia. quotidiana. Este balanço clfnico que me dá informaçOes sobre o es-
tado da doença permite-me estar atento a sofrirnentos tanto fIsicos
como rnorais, e imperceptivelmente instala-se urn dma de con-
Estar atento ao corpo fiança. 0 doente ousa exprimir-se, faz perguntas sobre sua patolo-
gia, informa-se acerca da intervençao que espera corn grande im-
Quando Maria, de passagem pelo serviço, me propôs escrever al- paciência: ira recuperar as suas capacidades anteriores? Será que as
gurnas linhas sobre o tema <<cuidar>' no contexto da minha prática dores vão desaparecer ou atenuar-se? Nasce um larnpejo de espe-
profissional, pensei para comigo: que ideia utilizar esse tenno para rança.
182 CUIDAR NO HOSPITAL ANExos 183

E chega o dia D. Entao, <<cuidar>> significa para mirn "prestar cui- 0 acolhimento do doente
dados>>, <passar a acqao>> graças a uma intervençao fisioterapeutica
que ira completar os benefIcios da cirurgia. Quem chega a este universo que não the é familiar, com apreensão e
Convenço o doente da utilidade em estabelecer urn prograrna de arigüstia, não é urn nilmero nem uma patolpgia, mas um ser hurna-
reeducação durante o tempo de hospitalizacao para optimizar os no corn a sua identidade e a sua história. F irnportante charná-lo
resultados da intervençao cirñrgica. pelo nome. Ao acolhê-lo, apresento-me irtdicando o meu nome e a
Explico-the o desenrolar das sessOes. minha funçao. E preciso tempo para lhe dar a conhecer o ambiente e
Monsell-to urn tratamento prolongado que deverá ser acompa- O funcionamento do serviço, para responder as suas perguntas, para
nhado de uma participacao activa por parte do doente. Ao longo osossegar a ele e as pessoas que o acornpanham. Corneça então urna
das sessOes, sou, alternadamente, tranquilizadora, directiva, mas tentativa de cativação recIproca.
sempre encorajadora e valorizadora para levar o doente a <<tomar-se a
seu cargo'>, a <<ter atenção ao seu corpo" em vias de restabelecimento, Os cuidados de higiene
corn urn corpo em parte liberto da dor.
Nurn ambiente mais descontraIdo, o doente toma consciência das Através de gestos, que pretendo que sejam marcados pelo respeito,
suas novas possibilidades fIsicas que explorará, ou então utilizará estabelece-se urn corpo a corpo, urn conhecirnento mntirno da pes-
compensaçOes. Assirn, para o profissional, trata-se de orientar o soa, nesse <<prestar cuidados>> pelo toque que restitui urn pouco de
doente, qualquer que seja a seu nivel de recuperaçao, para uma vida conforto, de bem-estar, e uma certa dignidade. Nesse mornento pri-
o mais indçpendente possIvel, de o encorajar a adquirir uma auto- vilegiado nasce na confiança uma cornunicacão recIproca. Sao ges-
nomia furuiona1 e fIsica e talvez, secundariamente, de o levar a inte- tos do dominio do comurn, naturais, na panoplia dos cuidados bási-
grar-se no seu mein social e profissional. cos: ajudar a levantar, a andar, a respeitar a regime alirnentar, a ar-
rumar o quarto, a fazer a cams, etc.
J. La Barbera A observação
Fisioterapeuta - Hospital de rieurologia
Ver o que evoluiu no sentido do agravarnento ou da meihoria do
estado geral. As minhas observaçOes fazem parte do que devo mdi-
car a equipa durante o tempo charnado <<passagem de turno", etapa
irnportante para o conhecimento dos doentes a firn de continuar a
Gestos que têm peso
<<prestar-lhes cuidados>>.
E sempre com agrado que partilho o que representa para mirn a A escuta
funçao de auxiliar de cuidados. Ha quase virtte anos que a exerço e
não pretendo ter esgotado todas as suas riquezas. o tempo passado a escutar não é tempo perdido. Tenho a certeza de
Como a expressão <<auxthar de cuidados" indica, o seu papel con- que é parte integrante do <<prestar cuidados". Escuta do que é ex-
siste em confribuir para as cuidados de higiene e de conforto do presso, mas também escuta do que nào e verbalizado e do que é
doente, numa estreita colaboraçao com a equipa dlita de <cuidados<'. preciso descodificar, do que o doente exprirne pela sua atitude.
<<Prestar cuidados>> a urn doente supOe uma certa aplicaçao, urn sa- A presenca junto do doente é favorecida pelo tempo que se passa
ber-fazer, uma vigilãricia, uma solicitude, uma presença atenta. Con- nos quartos na altura das lirnpezas, urn tempo longo que e vivido
cretamente, eis como funciono: de modo diferente do dos cuidados mas que faz parte deste; e uma
184 CUIDAR NO HOSPITAL

maneira natural de estar ali ao serviço do seu conforto, maneira que cuidado contigo>> é come, rnuitas vezes termirto uma carta, como
facilita urn vaivérn na relaçao. Fala-se de tudo urn pouco... e, por digo adeus.
vezes, de assuntos muito importantes. A doçura em relaçao a nós prOprios, a doçura para corn o outro,
Nurn serviço de hematologia desde ha sete anos, descubro a im- são os prirneiros passos do arnot
portancia destes momentos mais ou menos longos, por vezes irn- Doçura... palavra estranha no nosso mundo dividido, despeda-
previstos, em que se cia uma relaçao de confiança privilegiada, pro- çado, insensato por vezes. Eta supOe a vigilância no dia a dia, o dom
pith a confidencia em que se inicia <<urn caminho>> de uma certa desses pequenos sinais que vão ao encontro do outro no que para
duraçao a que não ouso charnar acompanharnento, mas rico desta ele e importante e precioso, no que the fala de beleza; uma breve
realidade. Quem acompanha quem? carta enviada de tempos a tempos mais do que uma longa rnissiva,
Acontece o próprio doente <<cuidar>> do prestador de cuidados tao boa mas sernpre adiada - urn desvio para urn sorriso ou para
através de gestos de atenção e de palavras que SãO como que urn dar os bons-dias - uma, data retida e escrita porque é etapa numa
bálsarno para o coração. caminhada - urn silencio dado sirnplesrnente na sua presenca.
Nos casos de uma doença grave e de uma longa hospitalizaçao, e Esta doçura nao e voluntarismo, exige abandonar a investi-
tambern importante prestar cuidados ao cônjuge e aos farniliares do gacäo e a perfeicao e acoiher a nossa hurnanidade, as suas lirni-
doente. Durante esse tempo criarn-se laços, é preciso acompanhar o taçOes e as suas grandezas, criando, dia a dia, urn espaco de paz
acompanhartte para the permitir resistir a esta experiencia e, por e de bondade. Doçura paciente que nao exige ser contida, doçu-
vezes, ajudá-lo a encontrar o gesto adequado para Se manter próxi- ra tenaz que se alimenta de confiança, doçura hurnilde que se
mo ate ao firn. acoihe e se transmite.
Tendo cdnhecido bem o doente e a sua farnflia, desde o seu Cuidar do hornem, saber othar as pequenas coisas de todos os
acothimento ate ao fim, por vezes ate ao ültirno suspiro, é corn dias e nelas descobrir a paciente criaçao de vida em vez daquilo que
emoção que the prestarnos urn ültirno testemunho de respeito ocasiona a morte.
no cuidado posto nos ñltimos cuidados de higiene. Isto passa-se Cuidar do homem, ousar acreditar que atençao e compaixão dao
muitas vezes entre a enfermeira e a auxiliar que tiveram de <<cui- frutos para além do gesto trocado.
dan> do doente nos 61timos instantes que precederam 0 seu Prestar cuidados, urn presente a receber e a dar, uma verdadeira
falecimento. alegria renovada.

M.-Th. Dalbeigue G. Exeter


Auxiiar de cuidados do hospital Edouard-Herriot

Cuidar?
Doçura
Nem capelao nern crente,
As linhas que se seguem são expressão de uma certeza que se desti- Medico geriátrico,
la, se constrói e se recebe no decorrer dos dias, certeza ensinada pela Cuidar de pessoas idosas vItirnas de doença de Alzheimer ou de
aprendizagem da vida, pela travessia de tempestades, pelas cicatri- dernenda senil.
zaçOes lentas, pelas alegrias partilhadas... Cuidar é:
A vida e-nos confiada: gestão as apalpadelas, aptidao para corn- Cuidar do corpo: aliviar as dores, lavar, vestiz pentear, fazera
por corn essas opaddades que nern sempre sabemos negociar. <<Torna barba, perfumaz pintar o rosto, massajar, tocar, acariciar, ajudar a
186 CumAR NO HOSPITAL ANEXOS 187

dar uns passos, instalar confortavehnente, apoiar urn gesto esboça- Cuidar tie si próprio é o preâmbulo de todos Os outros cuidados
do e acornpanhá-lo no seu cumprirnento. que dizem respeito a outro. Como poderia eu desejar para o outro
Cuidar: escutar a queixa, t@-la em conta, escutar simplesmente, aquilo a que eu própria não aspiro?
partilhar a confiartça, receber uma confidéncia, ser cilmplice, discu- Cuidar do outro, para aquele que vai pedir ajuda a assistente
tk estar perto sem falar, estar presente, parar urn instante, deixar-se social, é levar o tempo que for necessário para o acoiher tal corno ele
interpelar, atender ao charnarnento. se apresenta, tendo o cuidado de nos mantermos enquadrados na
..Cuidar: urn bom-dia, um ate breve, um sorriso, urna gargalha- profissao e na iristituiçao em que trabaihamos. Esse enquadramento
da, urn othar, urna carIcia, urn beijo, urn aperto de mao, calor, ter- permite-nos fazer a triangulaçao da relaçao corn o outro, o ciente, e
nura. assim escutar o seu pedido no respeito por Si e pelo outro.
Cuidar: consolar, tomar nos braços, receber a tristeza, o desespe- o enquadramento profissional é o nosso estatuto de assistente
ro, a angilstia, a cólera, a dor, a agitaçao, a agressividade, trabaihar do serviço social obtido a seguir a urn tempo de formaçao, sendo
juntos, acahnaz arnar. esta sancionada por urn diploma que reconhece as nossas cornpe-
Cuidar: reconhecer as prOprias lirnitaçOes, dat a iniciativa ao co- téncias na rnatéria. Essa formaçao deu-nos instrurnentos de reflexao
lega, apagar-se, revelar-se na relaçao, ser hurnilde, aceitar a recusa, sobre o sentido e as questOes das nossas funçOes. B por isso que ela
aceitar a oposicão, não irnpor a própria vontade de <<fazer bern>>, participa na maneira como varnos prestar cuidados e ter atençao an
respeitar a palavra e o comportarnento do ser hurnarto que esté diante outro enquanto assistentes sociais; dal a irnportância de ter constan-
de Si. temente a preocupacão de continuarmos a formar-nos.
Cuidar: e beberji.mtos urn cafe, partilhar urna sobrernesa, sentar- o enquadramento institucional é a instituiçao que nos paga para
-Se lado a lido... exercermos esta profissao definindo a missão desta. Não se consul-
Cuidar: valorizar, nada esperar, aceitar o que e dado, recomeçar ta a assistente social do bairro como se consulta a da segurança so-
a cada instante, procurar o possIvel sem cessar, não se deter perante cial ou a do centro rnédico-psicolOgico ou ainda a da escola. Os pe-
o deficit que se acentua, a perda, reconhecer a vida. didos são diferentes consoante a iristituiçao a que se acorre. Conse-
Cuidar não é apenas: medicarnentos, injeccOes, pensos. quentemente, o nosso discurso e a nossa atitude variarn consoante a
Cuidar nao é: curar. instituiçao que representamos. 0 trabalho de equipa é urn dos ga-
Cuidar. rantes deste enquadramento.
- estar pronto a encontrar o outro, Estas duas referencias principals funcionam como dois olhares
- acompanhar no dia a dia, externos em relaçao an nosso trabaiho e, por isso, nao nos deixarn
- acompanharem-se urn an outro no desconhecido da vida e da sos face aos cientes do serviço social. Ocuparn a posicão de tercei-
morte. ros aquando dos nossos encontros sociais e garantem assim o triân-
gulo necessário a toda a construção hurnana. Protegem-nos, den-
P. Morel-Vulliez tes e assistentes sociais, da relaçao dual que pode acabar em espelho
ou em fusao e que anularia toda a escuta possIvel. Cuidam de nOS.
Cuidar de si próprio e cuidar dos outros são aqui inclissociáveis.
Cuidar de Si prôprio Manter em nOs e nos nossos encontros sociais este lugar para a for-
Cuidar do outro maçao e para a instituiçäo não é fad. Exige que nos rnantenharnos
vigilantes relativarnente a estes pontos, que não são acessOrios mas
Cuidar é ser cuidadoso, atento, tomar precaucOes. E neste sentido condiçOes essenciais para a qualidade da nossa atenção ao outro e,
que o entendo e you aprofundá-lo no texto que se segue, através da portanto, aos cuidados que prestarnos ao outro, on seja, a nOs pro-
miriha experiência de assistente social. prios.
188 CUIDAR NO HOSPITAL ANEx0S 189

Urn exemplo: A Senhora X vinha, desde ha varias semanas, con- Sob a sua supervisao, pude vo!tar a falar daquela situaçao, o que
sultar-me regularmente por causa de problernas de ambito social me permitiu cornpreender de que lado tinha escutado aque!a mu-
quando, pela primeira vez, fala comigo a respeito dos fllhos. Diz- ffler e o que tinha originado a minha própria violência e angiistia.
-me que gostaria muito de ver as duas filhas mas que era impedida Estes dois sup ortes - a equipa de cuidados e a supervisao - per-
de o fazer por uma f<mA assistente social>>. Isto leva-me a contactar mitirarn-me cornpreender me!hor o que tinha estado em jogo naquela
corn a assistente social em causa, durante a conversa esperando en- conversa. Foi assirn que consegui depois voltar a encontrar aquela pes-
cotrar, elementos reais que venharn desdramatizar a situação que soa nurna relaçao de ajuda tendo em conta o que tinha sabido da sua
a Senhora X me tinha apresentado. patologia e reajustando o meu lugar de profissional face a ela.
B então que a minha colega, do outro lado do flo, me informa de Foi so a esse preco que consegui de novo estar a altura de cuidar a
que a Senhora X tinha sido privada da sua autoridade paternal rela- Senhora X, ao mesmo tempo que cuidava de mirn própria.
tivarnente a filha mais vetha, corn interdiçao de a ver, e que ja nao
tinha a custodia da filha mais nova, confiada a avó rnaterna, filha M- Junique
que não podia ver senão na presença da referida avó. assistente social em psiqulatria
Em seguida, a minha colega assistente social pergunta-me qual a CHS Le Vinatier
razäo da hospitalizaçao da Senhora X, razão que eu desconheço.
Depois de desligar o te!efone, revejo corn ela os elementos que
acabo de conhecer relativamente as fllhas, o que ela aceita sem ver-
dadeira resistência, ate com uma certa resignação que parece acal- Pelo gesto do ergoterapeuta...
mar a sua àngüstia do princIpio.
Face ao seu aspecto descontraido no firn da conversa, permi- Para mirn, que evoca <<cuidar>> na minha acção de ergoterapeuta?
to-me, então, pergimtar a Senhora X rnotivo da sua entrada no Começo por definir ergoterapia: é uma reeducaçao funcional ou
serviço. Isto pOe-na num estado de colera difIcil de descrever: psiquica que utiliza gestos da vida quotidiana, diversas actividades
levanta a voz, ergue-se da cadeira, corn a cara verrnelha e o olhar artesanais ou manuais, jogos de observaçao, de lógica, de rnemória,
furioso, injuriando todos os demonios da terra que a tinharn le- de estratégia, de construção, etc., corn vista a recuperar autonomia e
vado para all, arneaçando de morte aqueles que acusava de a independencia.
terern enfeitiçado ou obrigado a beber pocOes mágicas malefi- Para isso, os cuidados ergoterapêuticos não podem deixar de
cas. ser globais. Utilizo o gesto humano que e funciona!, relacional
Nmn primeiro tempo, sem fala perante aquele <<catacismo>> que e/ou criador. Trata-se, entäo de recuperar os gestos que se tor-
se desencadeava no meu gabinete, procuro em seguida insinuar al- naram impossIveis, incontrolaveis ou desorganizados (no caso,
gumas palavras para a acalmar (e/ou para me acalmar) quando ela por exemplo, de uma pessoa com uma lesao cerebral) ou de ad-
deixa escapar urn momento de silêncio no meio do seu delirio. Quan- quirir gestos que ainda nào existiram (no caso de uma criança
do, por firn, sinto que a sua colera diminui lentarnente, acornpanho- deficiente motora).
-a a unidade de cuidados. Para mliii, prestar cuidados é, portanto, reconhecer no outro as
Logo após esta conversa, cruzo-me com o psicologo do serviço e capacidades para se exprimir, para criar, para realizar urn gesto. E
peco-lhe que me de uris mornentos. Depois de me ter libertado ao acolher a sua identidade de ser humano. Sabe-se que no reino ani-
maxirno das tensOes acumuladas durante a conversa, posso final- mal o homem e o tThico ser que possui o doniInio do gesto com ou
mente ouvir a sua explicaçao acerca da patologia daquela rnulher, o sem ferramentas para criar, construir, entrar em re!ação corn os seus
que me permite apreciar a violência das minhas palavras, que não semeihantes. E urn gesto motor mas tambem social. Assim, "cui-
tinha medido a priori. dan> 6 reconhecer a humanidade do outro.
190 CUIDAR NO HOSPFAL

Isto e tartto mais indispensável quartto o corpo foi, muitas vezes,


maifratado fisicarnente, quando e marcado pela doença, pela bruta- Anexo III - MATERIA PARA REFLEXAO:
lidade de urn acidente ou pela veihice.
E acreditar que ha urn fUtUIO possivel corn o que se mantérn in- DUAS TENDENCIAS NOS CUIDADOS
tacto. B ouvir, escutar as necessidades do paciente. Ele vai falar da DE ENFERMAGEM
sua incapacidade, do seu mal-estar, do seu sofrirnento; o seu corn-
pertarnento também há-de exprirnir isso. Preciso, então, de corn-
preender as suas expectativas para the propor uma ajuda, decifrar
onde estão as suas dificuldades quotidianas para encontrar o cami-
nho que o ha-de levar a uma major autonomia. Quadro comparativo segundo Hend Abdel-AP
Adquirir uma rnaior autonomia é essencial para a estruturaçâo
da pessoa. Isso passa pela aprendizagem muitas vezes lenta e ion- (na pigina seguinte)
ga. Ambos precisamos de paciencia, de não queirnar etapas, de orien-
tação, de encorajarnento perante aos fracassos.
Por vezes, pôr-me ern situação semeihante ajuda-me a compreen-
der a deficiência e a encontrar uma soluçao aceitável para o pacien-
te. De algurna maneira, aproprio-me da sua dificuldade para o aju-
dar, mas ha que manter a necesséria distârtcia afectiva para me pro-
teger, poréue eu não estou no lugar dele. Não e desejável ser invadi-
do pela experiência do paciente. Posso sentir cornpaixao e manter
urn certo distanciarnento.
0 paciente vai também falar do seu passado antes da doença ou
do acidente. E preciso levá-lo a resignar-se corn a perda da autono-
mia anterior para que ele possa recriar urn outro espaco de liberda-
de. Ele vai reencontrar certos gestos, mas vai descobrir outros que
the facilitarao a vida e, por vezes, vai utilizar ajuda técnica.
Vai refazer a sua imagem mental para depois poder renascer para
si próprio e para Os outros.
Para mirn, prestar cuidados ern ergoterapia é, pois, estar atento a
globalidade da pessoa. Desenvolver e manter os gestos necessários
A vida e propor actividades que a ajudarao a reconquistar o seu cor-
po mortificado.
I. Riffaud
Ergoterapeuta
Hend Abdel-Al, Licenciatura em Ciências e Doutoramento em cuidados de enferma-
gem; extracto do texto QualitE des so ins infirmiers et qualité de vie. Conferênda pmferida
no congresso da Association des soins infirmiers communautaires, Valência, Espanha,
1 e 2 Dezembro 1995.
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