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Morro, logo existo: I die, therefore I am:

a morte como acontecimento death as a journalistic


jornalístico happening
Milena Carvalho Bezerra Freire de Oliveira-Cruz

Resumo Abstract
Considerando as significações da cultura presentes Considering the different cultural meanings within
no interior das práticas sociais cotidianas e a comuni- everyday social practices and communication as a
cação como espaço privilegiado para esta observação, privilege medium for this observation, this article
este artigo se propõe a traçar um caminho que percor- intends to explore the several implications of death 151
re as diversas elaborações da morte como elemento ex- as an expressive element in the constitution of the
pressivo na constituição do humano e do social, cujos humane and the social, whose meanings are embedded
sentidos se formulam, explicitam e circulam na enun- and expressed in the enunciation of the journalistic
ciação das narrativas jornalísticas. Para reconhecer as narrative. In order to recognize the threads that
tramas que compõem estas relações, faz-se necessário compose those relation, it's necessary to observe the
observar a concepção do homem como ser de cultura e Human conception as a cultural being, aware ofits finite
ciente de sua finitude, bem como entender as relações life to recognize the elements that form these relations.
e conseqüências desta consciência em sua organização Furthermore, to understand the implications of this
social e orientação individual. A partir destas conside- awareness in the social organization and the individual
rações, então, o artigo busca observar a participação orientation. This article proposes to observe the role
da comunicação como instância que elabora, inscreve which communication plays as medium that elaborates,
e reorganiza sentidos fundamentais para a construção inscribe and reorder fundamental meanings to build
da vida social. social life.

Palavras-chave: Key words:


Jornalismo, Morte, Processos sociais Journalism, Death, Social process

Estudos em Jornalismo e Mídia


Ano V - n. 1 pp. 149 - 159 jan./ jun. 2008
Cultura, morte e sujeito Percorrendo não alcança a consciência de si mesma a
Da intersecção entre morte e cultura as tramas da não ser através do enfrentamento da morte”
desencadeiam duas premissas nada novas, (Dastur, 2002: 13).
constituição do
mas não por isso menos importantes para Para Edgar Morin (1997: 10-11), aliás,
pensar o homem: a elaboração do conceito homem como a sociedade só se institui como organização
de cultura como um elemento indissociável ser de cultura, por, com e na morte, uma vez que a repro-
do humano e a certeza de ser este o único de significações, dução dos sistemas simbólicos que com-
ser consciente de sua finitude. Para isto, é temos contato com põem a cultura só tem sentido pleno em
válido recorrer a Clifford Geertz (1989: 32- o que representa função da morte. A consciência da morte é
33) que, para lançar a idéia do que seria o tida como motor que orienta a necessidade
a apreensão
homem, propõe pensar a cultura como um de transmissão e partilhamento dos signos
conjunto de mecanismos de controle (pla- simbólica de que compõem a cultura para mantê-los exis-
nos, receitas, regras, instituições) dos quais sua condição tentes. Desta forma, a certeza da finitude
o ser humano é “desesperadamente depen- transitória também estimula a elaboração de uma série
dente”. Esta noção desenvolve-se a partir de representações que orientam atitudes e
do pressuposto que o pensamento é social e comportamentos humanos - especialmen-
público, e, assim sendo, palco de construção te expressos em ritos e manifestações que
e partilhamento de signos da experiência configuram a organização do tempo (finito)
humana (individual e coletiva). a ser vivido. Aqui é importante esclarecer
Na maior parte dos casos, estes signos se que não se tratam de atitudes que se nor-
152 apresentam ao indivíduo como dados, já cir- teiam perante a morte em si. Como compo-
culantes na comunidade. E, embora possam nente intrínseco da cultura, o que orienta a
sofrer adições, subtrações e alterações, são conduta humana nestes casos são as repre-
coletivos e independentes da forma de apro- sentações sobre a morte que se articulam,
priação que o sujeito faz deles – espontânea, se classificam e assumem função conforme
deliberada ou cautelosa. O que importa, de cada sistema simbólico e em cada sociedade
fato, é que tais signos, organizados em pa- de uma maneira mais específica.
drões de cultura, são utilizados pelos sujei- As representações da morte vêm se mo-
tos sempre com o mesmo propósito: auto- dificando ao longo dos tempos, sendo possí-
orientar-se no curso das suas experiências vel observar verdadeiras transformações no
individuais e coletivas (Geertz , 1989: 33). que diz respeito às sensibilidades humanas
Percorrendo as tramas da constituição frente à própria finitude. Seguindo a demar-
do homem como ser de cultura, de significa- cação proposta por Ariès (2003), dois mo-
ções, temos contato com o que representa a mentos têm reflexos que se apresentam na
apreensão simbólica de sua condição transi- significação da finitude, hoje: a morte do ou-
tória. O “saber” da morte, a impossibilidade tro e a morte interditada. A partir do século
de negar racionalmente a própria finitu- XVIII, com uma maior integração social, a
de, colabora decisivamente na significação dramaticidade da morte voltou-se para a
que o homem fará da vida, e, portanto, de partida do próximo. A individualização do
si, da sociedade e do mundo. Neste sentido morto passa a variar de acordo com a pro-
“(...) podemos afirmar que a humanidade ximidade de quem fica: “(...) quanto mais o

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morto for próximo, íntimo, familiar, amado na fragilidade de um cotidiano que se su-
ou respeitado, isto é, ‘único’, mais violenta gere atemporal é também conseqüência do
é a dor; nenhuma ou quase nenhuma per- escamoteamento da finitude humana na
turbação se morre um ser anônimo, que não atualidade. O tempo, aliás, é outro fruto de
era ‘insubstituível’” (Morin, 1997: 32). modificações sensíveis. A contradição se põe
Entre os séculos XVIII e XIX, vê-se a hi- na exigência de aproveitamento qualitativo
gienização da morte e a medicalização do e inesgotável do tempo em todas as esferas
doente. A possibilidade de prolongar a vida da vida social com base em uma perspectiva
causa o horror à morte e este movimento única: que o destino do indivíduo depende
consolida-se até a sua interdição na socieda- de suas realizações e ações em vida. Mas,
de ocidental. A própria maneira de morrer pergunto: que destino? Se (...) “vivemos so-
também sofreu alterações: hoje o indivíduo bre o futuro: ‘amanhã’, ‘mais tarde’, ‘quan-
morre no hospital, e não mais em casa, e a do tivermos uma boa situação’, ‘com a idade
família, por sua vez, acompanha o processo hás-de compreender’. Estas inconseqüên-
cada vez mais de longe. cias são admiráveis, porque enfim, trata-se
de morrer” (Camus ,s/d: 25).
A morte como acontecimento Assim, projetamos nossas vontades para
Quanto mais o indivíduo tenta se colocar o tempo futuro, como se ele nos pertencesse
alheio ao enfrentamento da morte, mais o unicamente. A morte, de tão esquecida, ou
assunto torna-se repulsivo, porém, inevitá- escondida, aparece no cotidiano abrupta-
vel, por ser condição da existência huma- mente. E, mesmo sendo a única certeza, é 153
na. Diante disso, a saída encontrada pela recebida como surpresa, como evento ines-
sociedade atual - que pode adiar, suavizar, perado.
mas não contestar a morte - é exorcizá-la do
cotidiano como se ela não existisse, modifi- A sociedade ocidental insiste no caráter aci-
cando a experiência sobre o tempo vivido na dental da morte: acidentes, doenças, infec-
contemporaneidade: ções, velhice adiantada. A morte fica despo-
jada do caráter de necessidade em termos
[...] são as descobertas extraordinárias da do processo vital. É sempre um assombro. O
tecnologia médica e da pesquisa biológica nas traumatismo provocado pela morte é sempre
duas últimas décadas que fornecem material uma irrupção do real. No inconsciente esta-
para a mais antiga aspiração humana: viver mos todos persuadidos da nossa imortalida-
como se a morte não existisse, apesar de ser de, sem registro da morte, como o animal cego
nossa única certeza. Com isso, realiza-se a (Kovács, 1992: 39).
subversão final do ciclo de vida, e a vida tor-
na-se esta paisagem monótona entrecortada Embora não seja possível negar a exis-
1
Esta idéia de “a”mortal dá conta por selecionados momentos de experiências tência da morte, o seu caráter acidental
da representação que considera
a inexistência da morte; o que se
ricas e pobres na eterna butique dos senti- como noção de falha do curso normal re-
difere de ser “imune” a ela - que mentos personalizados (Castells, 1999: 478). monta a construção de uma rotina que se
pressupõe a existência da morte baseia na desejada amortalidade. Esta sig-
para que se possa ser imortal. Esta sensação de amortalidade1, vivida nificação da morte como irrupção do real,
como evento inesperado, em muito se asse- A imprevisibilidade da cultura, percebe-se o fundamental papel
melha ao conceito de acontecimento desen- da morte só pode da comunicação no processo que produz e
volvido por Adriano Duarte Rodrigues (1993: faz circular estas significações que se desdo-
aproximar-se
p. 27) como sendo “tudo aquilo que irrompe bram da certeza da morte e auxiliam a cons-
a superfície lisa da história de entre uma
da idéia de tituir os indivíduos (não só decodificadores,
multiplicidade aleatória de fatos virtuais”, acontecimento se mas produtores destes sentidos). Isso, por
destacando-se quanto mais imprevisível for considerada como sua vez, também contribui com as sustenta-
sua realização. Esta “imprevisibilidade” da elemento distante ções desta própria coletividade e o seu sen-
morte, é claro, só pode aproximar-se da idéia da elaboração do tido de realidade.
de acontecimento se considerada como ele-
cotidiano
mento distante da elaboração do cotidiano. Morte, acontecimento e a
A existência humana constrói-se, desta realidade percebida
maneira, a partir de uma presença “vigilan- Interessa notar a morte como elemento
te” da morte – que pode romper o cotidiano que nos permite discernir a construção do
inesperadamente. Esta idéia de temporali- significado moral dos acontecimentos em
dade restrita e urgente colabora com a noção vida: “(...) o que seria negado a um indiví-
de efemeridade da vida, sentida e absorvida duo sem horizontes finitos. O ‘chamado da
como período único de realizações. Contu- consciência’ que a consciência da finitu-
do, este mesmo sentimento, que apresenta de traz, estimula os homens a perceberem
muitas vezes apenas o lado positivo desta sua ‘essência temporal como seres-para-a-
154 urgência (carpe diem!), lembra ao sujeito, morte’” (Giddens, 2002: 52). É através da
mesmo que de maneira latente, o seu fim existência limitada, portanto, que o homem
intransponível. Esta linha tênue que equi- moderno pauta seus objetivos, constrói seu
libra o homem entre noções de vida e morte, cotidiano e atribui sentidos às suas relações
normalmente, se desdobra na atribuição de e conquistas. Sem o fim previsto, dificilmen-
“sentidos” para a vida e para várias ações te as expectativas e os acontecimentos vivi-
que nela se projetam. dos seriam iguais, ou, mesmo sendo, teriam
A morte aparece, portanto, como repre- as mesmas significações que as construídas
sentação da cultura que apresenta noções pelo homem consciente de sua morte. Estas
da regulação social necessária para organi- construções simbólicas “por extensão” de
zar as projeções destes “sentidos de vida” in- outros acontecimentos a partir do “chamado
dividuais – de sujeitos finitos inscritos num da consciência” provocado pela finitude são
coletivo de tempo contínuo (que permanece refletidas por Adriano Duarte Rodrigues:
após sua partida). A participação deste su-
jeito no social se dá na interiorização dos O nascimento e a morte são por isso os aciden-
signos, papéis e padrões, que variam confor- tes-limite em relação aos quais todas as outras
me a experiência, mas que são partilhados e ocorrências se posicionam e se referem. Para
conhecidos por todos – o que torna o mundo o nascimento e para a morte não há explica-
subjetivamente real para o sujeito. (Ber- ção plausível porque não há sentido racional
ger e Luckmann, 1985: 103). Considerando que os compreenda numa lógica causal, num
a compreensão da natureza comunicativa antes e num depois. Por isso, a notícia é no

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mundo moderno o lado negativo da raciona- e importantes, sendo importantes aquelas
lidade, no sentido fotográfico deste termo. O que são úteis na demarcação do tempo, e
racional é da ordem do previsível, da sucessão por isso, disponíveis para sua materializa-
monótona das causas, regida por regularida- ção como acontecimento.
des e por leis; o acontecimento é imprevisí- Para eles, a existência de demarcações
vel; irrompe acidentalmente à superfície epi- temporais criadas e partilhadas na esfera
dérmica dos corpos como reflexo inesperado, social dá suporte ao interessante conceito de
como efeito sem causa, como puro atributo tempo público como dimensão da vida coleti-
(Rodrigues, 1993: 129). va em que se protagonizam acontecimentos
públicos, orientados a partir de um passado
Volto ao homem como produto e produ- padronizado e perceptualmente partilhado,
tor de representações que se constroem, se presente e futuro. O sentido deste tempo
organizam e se tornam significantes quan- público, portanto, se dá na produção e as-
do reproduzidas, circulantes, partilhadas e, similação destes acontecimentos públicos,
por isso, coletivas. Este movimento próprio existentes como significação a partir do dis-
da cultura perpassa o sujeito e a sociedade curso que circula e se legitima nos assuntos
de modo que sua existência aponta esta ope- públicos:
ração interdependente de construção, de um
reconhecimento mútuo e contínuo que ex- Assim, o conteúdo das concepções de um in-
prime o individual no coletivo e vice-versa. divíduo da história e do futuro da sua comu-
Como fruto deste sistema, os acontecimen- nidade vem a depender dos processos através 155
tos, por sua vez, auxiliam na elaboração da dos quais os acontecimentos públicos se trans-
regularidade, da padronização (a superfície formam em recursos do discurso nos assuntos
lisa), bem como do seu oposto (a irrupção), públicos. O trabalho dos historiadores, jorna-
criando parâmetros para o esperado, o pos- listas, sociólogos e analistas políticos ajuda a
sível, e, por fim, o real. realizar esta tarefa de vários públicos, ofere-
Nesta construção do real, os aconteci- cendo aos cidadãos um leque de ocorrências
mentos se apresentam como referências a partir das quais se elabora um sentido do
para uma elaboração espacial e temporal tempo público (Molotoch e Lester, 1993: 36).
que ordenam a noção de passado e futuro, O papel do
sendo estes construídos e reconstruídos nas jornalismo Desta maneira, é na esfera do tempo públi-
atividades socialmente organizadas pelas co que se balizam parâmetros de mobilidade
configura-se como
rotinas. As construções que derivam dos e comportamentos a partir da elaboração de
acontecimentos, portanto, são base para a
relevante não só real que constrói, interpreta e faz circular
formulação de recursos que dividem, de- na interpretação representações contidas nos acontecimentos
marcam e moldam a vida em sociedade (Mo- como na própria públicos. O papel do jornalismo como estru-
lotoch e Lester, 1993: 35). Diante de uma construção do tura mediadora que realça ocorrências ao
previsível multiplicidade de acontecimentos sentido desta plano dos acontecimentos públicos no dis-
co-existentes nestas elaborações, Marilyn curso social configura-se como relevante não
realidade
Lester e Harvey Molotch dividem os fatos só na interpretação como na própria cons-
sociais entre ocorrências suplementares e
percebida trução do sentido desta realidade percebida.
A morte como Quanto mais imaginar tarefas e realizá-las. Depende do
acontecimento jornalístico insólita ou quanto a pessoa sente que sua vida foi re-
Ao retomar a morte como “acidente-limi- alizada e significativa – ou frustrada e sem
inesperada, a
te” que orienta a significação e posiciona- sentido” (Elias, 2003: 72). Estas represen-
mento de outros acontecimentos também
morte estará tações que auxiliam na constituição de um
reguladores da experiência individual e mais próxima da “sentido” para a morte do outro, tornando
coletiva, impera-se perceber que este papel classificação como possível inferir variações do quanto inespe-
norteador da morte se dá ainda pelo silên- acontecimento rado pode ser o fato, colaboram para iden-
cio que marca seu interdito, ou pela trans- jornalístico tificação da noticiabilidade, e, portanto, da
formação de seu caráter irrevogável em construção da morte como acontecimento
“inesperado”. Em função disso, o discurso jornalístico.
jornalístico sobre a morte se apropria de re- Dois aspectos são relevantes para a apre-
presentações que vão classificá-la num pa- ensão desta morte insólita como apropriação
râmetro de normalidade e expectativa, em e construção no acontecimento jornalístico.
que, quanto mais insólita ou inesperada, a O primeiro diz respeito a constatação de que
morte estará mais próxima da classificação todo acontecimento quando mediado, ou
como acontecimento jornalístico. seja, quando representado simbolicamente
A significação do caráter “inesperado” da pela linguagem, se transforma no relato do
morte aproxima-se da elaboração do acon- acontecimento, que, por sua vez, não será
tecimento a partir da sua forma (suben- mera locução, mas um novo acontecimento
156 tendendo que, embora inexorável, existam a integrar o mundo: o chamado ato ilocutó-
maneiras mais, ou menos, “normais”, “regu- rio (Rodrigues, 1993: 31). O ato ilucutório,
lares”, ou momentos mais “adequados” para como construção do acontecimento na enun-
se morrer). Diante de uma possibilidade de ciação, dá nova perspectiva ao fato obser-
prolongamento da expectativa de vida, a vado através da formulação, adequação e
morte repentina é aquela que causa espan- subjetividades do enunciador e da relação
to. Para Freud (1996: 300), a sensibilização de reciprocidade dos interlocutores.
causada pela morte concentra-se no pensa- A constituição do jornalista como sujeito
mento sobre a sua “causa”, o que revela a competente para a enunciação produz no re-
sua consideração como um “fato” e não como lato que este faz do acontecimento um novo
algo natural. Vê-se claramente a construção estado de significação para o próprio fato,
de uma representação para a morte - não existente na própria enunciação, ou pelo
se trata da morte em si, mas de sua relação fato de ser enunciado – permitindo ao dis-
enquanto fato, e, portanto, acontecimento. curso jornalístico contribuir na construção
Desta maneira, a adequação do momento deste “estado das coisas”, que orientam a
para a realização deste “evento” diz respeito realidade percebida socialmente: “Ao darem
às realizações do indivíduo no que concerne conta dos actos enunciativos, os media não
às suas expectativas individuais e ao seu pa- só lhes conferem notoriedade pública, alar-
pel social: “o modo como uma pessoa morre gando (...) o âmbito e o alcance das trans-
depende em boa medida de que ela tenha sido formações que operam o mundo, como re-
capaz de formular objetivos e alcançá-los, de alizam igualmente novos atos ilocutórios e

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e perlocutórios de acordo com as suas pró- da morte. Estas significações dão conta da-
prias regras enunciativas” (Rodrigues, quilo que se esconde, se nega, porque se
1993: 31). teme. A morte do “outro” evidencia a fragili-
Interessa notar que tais significações dade de “si”, inevitavelmente consciente da
colocam a finitude humana como elemento condição de “ser-para-a-morte”.
tanto “presente” subjetivamente na orien- Se o discurso que constrói o aconteci-
tação do comportamento e da percepção da mento jornalístico, desta feita, elabora um
normalidade social, quanto fenômeno “au- novo acontecimento pela enunciação, en-
sente” objetivamente do cotidiano próximo, tendo que a morte expressa neste discurso
quando revela seu caráter inesperado ao (que já não se significa no evento em si, mas
irromper na superfície da rotina. Além dis- na sua representação enquanto fato social)
so, o relato da morte, talvez de forma mais também não se refere ao sujeito morto, mas
especial que qualquer outra ocorrência re- sim evidencia a construção de um outro su-
significada pela enunciação, revela a cons- jeito re-significado - primeiramente por sua
trução de um dado que só existe como re- morte, e posteriormente pela enunciação
presentação – sendo talvez o único fato que, de sua morte. Falo, portanto, que a morte
definitivamente, o enunciador não conhece, apropriada pela enunciação no discurso jor-
pois não há experiência da morte: nalístico constrói no falecido um outro sujei-
to que não aquele que deixou de viver, mas
Chego finalmente à morte e ao sentimento um sujeito que interpela o sobrevivente na
que dela possuímos. Sobre isso, tudo foi dito sua condição de “desinteressado” quanto ao 157
e é uma questão de decência se evitar o pa- seu próprio fim; um indivíduo que carrega
tético. Nunca, porém, nos espantaremos sufi- em sua morte as representações valorativas
cientemente com o facto de toda a gente viver quanto aos “sentidos” da vida, além de re-
como se “ninguém soubesse”. É que, na reali- meter à significação que o coletivo confere
dade, não há experiência da morte. No senti- aos seus membros conforme seus papéis e
do próprio, só aquilo que foi vivido e tornado participações.
consciente, foi experimentado. Mal é possível A partir de um levantamento de estudos
falar-se da experiência da morte dos outros. É já realizados sobre a representação midiá-
um sucedâneo, uma visão do espírito, e nunca tica da morte, alguns aspectos se mostram
ficamos muito convencidos. (Camus, s/d: 27). importantes para que a ocorrência do fato
seja relevada à condição de acontecimento
A re-significação
A morte apropriada jornalístico: a circunstância do falecimento,
do sujeito pela enunciação pela enunciação o papel e a participação social do falecido,
A morte como acontecimento jornalísti- no discurso e, por fim, uma reivindicação do poder na
co será sempre uma representação que se jornalístico sociedade. Partindo destas reflexões, Ma-
constrói essencialmente no outro, na expe- constrói um outro rialva Barbosa (2004) faz uma interessante
riência do outro. Contudo, é na ruptura que sujeito que não análise da morte midiática, identificando
a ausência do outro provoca no cotidiano construções discursivas que variam da dra-
dos sobreviventes que se elaboram as sig-
aquele que deixou matização à indiferença, conforme mudam
nificações “por extensão” ao acontecimento de viver os personagens e as circunstâncias.
Na sua análise (Barbosa, 2004: 2), a mor- Nos casos de anônimos, vítimas da violência banal, a sua
te de caracterização dramática e excessiva é vítimas da re-significação, elaborada através da enun-
elaborada no discurso midiático quando os ciação de sua morte no discurso midiático,
violência, o
falecidos são personalidades públicas, cujos está justamente na sua desqualificação en-
cortejos de despedida são ritos públicos emo-
que está sendo quanto sujeito a partir da naturalização da
cionados, acompanhados pela população nas representado ocorrência - que pode transformá-lo, muitas
ruas ou pela transmissão televisiva. Para não é a morte vezes, na expressão numérica do fenômeno
Freud (1996: p. 300), o sentimento de perda em si, e nem que lhe tirou a vida: a violência. Nos casos de
se intensifica de acordo com a relação entre mesmo o morto, vítimas da violência, o que está sendo repre-
sobreviventes e falecido: “o complemento a sentado não é a morte em si, e nem mesmo o
mas a tragédia, a
essa atitude cultural e convencional para morto, mas a tragédia, a criminalidade.
com a morte é proporcionado por nosso com-
criminalidade É válido reconhecer o quanto a morte
pleto colapso quando a morte abate alguém enunciada permanece centrada “no outro”,
que amamos”. distante, que não se apresenta como ame-
Nestas narrativas midiáticas, não exis- aça concreta “a si”. Nesta perspectiva, na
te, contudo, espaço para a exibição do cor- impossibilidade de retirar a finitude e sua
po - a representação da morte se constrói ameaça real do cotidiano, esta morte “dos
na dramatização, na celebração. O sujeito, outros” publicada representa uma lembran-
neste contexto, também é re-significado ça constante, mas ao mesmo tempo distan-
pela sua morte, uma vez que a dramatici- te. Uma forma de manter a morte existente
158 dade da partida é ampliada pela enuncia- – e isso não é opção, é fato – mas subtraí-
ção midiática. Mesmo quando o falecido de da da ameaça de si ao ser projetada como
conhecimento público tem uma história de perigo para “o outro”. Esta convivência, de
contradições ou polêmicas, costuma-se reti- alguma maneira re-estabelece em “seguran-
rar do discurso quaisquer desavenças após ça” a relação entre homem e morte. Assim
a sua morte. “Deixamos de criticá-la, negli- “o jornal atende a uma necessidade incons-
genciamos suas possíveis más ações (...), e ciente, onde o cadáver ‘ilustrado’ morre ‘por
julgamos justificável realçar tudo o que seja procuração’ no lugar do leitor” (Angrimani,
mais favorável à sua lembrança na oração 1995: 56).
fúnebre e sobre a lápide tumular” (Freud, Uma outra construção de morte encon-
1996: 300). Neste sujeito, representa-se, por trada no discurso jornalístico é aquela que
fim, o herói. marca o aspecto de introjeção do poder da
Já a morte indiferente caracterizada por sociedade (especialmente do Estado) sobre o
Barbosa é aquela banalizada pela violência: indivíduo, cuja coerção punitiva resguarda
“a mídia, diante da violência, banaliza o corpo o controle da vida:
insepulto. A proliferação da morte violenta,
fruto da guerra urbana e da desigualdade so- (...) a sociedade delega seu poder de carrasco a
cial, faz com que, para os meios de comunica- um de seus membros: este faz justiça em nome
ção, neste caso, seja importante não a morte da lei, em nome do rei. Todos os outros homi-
em si mesma, mas o espetáculo da brutalidade cídios são reprimidos por tabus, regras jurí-
cotidiana” ( Barbosa, 2004: 2). Nos falecidos dicas, convenções ou ritos religiosos: cultua

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alguma os considera coisas insignificantes. idéia de liberdade deste sujeito quanto ao
Mas os homicídios praticados em nome do po- fim de sua própria vida – é a sustentação do
der são diferentes: não são assassinatos, são “todo”, especialmente, que se preza. Daí, a
“justiça” (Rodrigues, 1983: 107) decisão individual da morte, por ser inacei-
tável, é enquadrada nos campos da anorma-
Volto, portanto, para a noção da morte lidade (loucura ou possessão) para assumir
como instância que auxilia na regulação significação que não revele as “falhas” do
da conexão social, pelo “sentido” de vida e projeto social. Considerando a formulação
participação que sugere aos indivíduos per- do social pela atuação regulada dos sujeitos,
tencentes a esta coletividade. Quando não a escolha individual pela interrupção da
é apresentada como irrupção, evento ines- vida é concebida por muitos como a denún-
perado, acontecimento, a morte incorpora cia de uma crise coletiva.
o sentido de regulação social pela coerção, Assim, segundo a perspectiva de que o
inspirada como conseqüência àqueles que sujeito existe em reciprocidade, em relação,
transgridem as regras. Este cenário estaria torno à noção de interpelação causada pela
representado na morte “justa” daquele que inscrição da morte na narrativa jornalística.
promove a violência: o bandido. Nestes casos Em comparação àqueles sujeitos anterior-
“admitimos a morte para estranhos e inimi- mente citados (cujo falecimento noticiado
gos, destinando-os a ela tão prontamente e se constrói na circunstância inusitada, no
tão sem hesitação quanto ao homem primiti- exercício da violência ou na proeminência do
vo” (Freud, 1996: 307). Assim, este poder do falecido), o suicida apresenta uma diferença 159
social sobre o indivíduo encontra seu espaço fundamental: dentre todos, ele é o único que
legitimado nas tramas do cotidiano, em que voluntariamente e conscientemente buscou
a vida é o preço pago pelo transgressor. (e agiu para) a sua própria morte. Percebe-
O controle do social sobre a atuação do se então como e por que a enunciação (ou
sujeito se apresenta na inscrição dos papéis não) da morte voluntária na narrativa jor-
que sugerem a importância e a função de As diferentes nalística revela o próprio caráter conflituoso
cada indivíduo na existência e manutenção construções sobre do tema. As diferentes construções sobre a
do social. Isso implica, mais uma vez, con- a morte voluntária morte voluntária (sendo o silêncio também
cepção de “sentidos”, expectativas do coleti- na narrativa uma forma de tratar o tema) na narrativa
vo a serem cumpridas individualmente – o jornalística explicitam este lugar tenso, e
jornalística
que, de certa forma, retira do sujeito a pos- por vezes contraditório, que situa a relação
se de sua vida: “O interesse do poder pela
explicitam este entre morte, sujeito e coletividade. Para
vida dos homens é também apropriação da lugar tenso, Dapieve (2007: 20) a postura reservada e
morte deles. Poder algum admite a liberda- e por vezes discreta da imprensa ao tratar o suicídio as-
de de suicídio. Vê-se nela uma afronta peri- contraditório, segura sua atuação como “instância social
gosa e intolerável” (Rodrigues, 1983: 107). que situa a solidária ao tabu que a suplanta”.
Presume-se compreender, portanto, a
relação entre
origem da condenação cívica, religiosa e Geral e particular: sobre
moral do suicídio (e sua representação como
morte, sujeito e lógicas e formas de olhar o social
tabu), como forma de manter distanciada a coletividade Considerando que este discurso sobre a
morte se instaura no conflito e na comple- Sentidos diversos sujeitos e contextos distintos. Estas signi-
mentaridade entre sujeito, sociedade e mí- atribuídos à ficações, por sua vez, interpelam os atores
dia, é importante conservar a cautela para do processo comunicacional de formas va-
morte como
que se possa extrair destes cenários aspec- riadas. Esta consideração exige perceber a
tos importantes para revelar o social. As-
acontecimento comunicação como espelho da pluralidade
sim, deve-se considerar tudo o que precede jornalístico são que alimenta os processos sociais. “Essa
esta elaboração, como os sentidos individu- parte do cenário pluralidade e diversidade de lógicas seguin-
ais e coletivos assumidos pela finitude, em complexo em que do práticas específicas remetem a novas in-
suas regulações, ordenações e negociações, os atores sociais terpretações do espaço e do tempo presentes
conforme contextos culturais e históricos também na comunicação” (Sousa, 1994: 29).
interseccionam
específicos. Para visualizar esta narrativa A percepção destas lógicas específicas, como
jornalística também é preciso perceber as
referências possibilidades explicativas da vida social, permi-
significações e re-ordenações de sentidos culturais, te a abertura para novos olhares e significados
que se inscrevem na relação entre mídia e históricas, para o tempo social, em que a articulação entre
sociedade conforme especificidades que são subjetivas, comunicação e sociedade se apresenta como es-
subjacentes a cada grupo e contexto, em individuais e fera rica de observação. Assim, a compreensão
particular. dos sentidos construídos a partir da enuncia-
coletivas
Se a morte revela este lugar de tensão na ção da morte no discurso jornalístico possibilita
trama social, que se sustenta inclusive como a noção do quanto estas narrativas afloraram
tabu, é interessante dirigir a percepção para sentidos, bem como re-elaboram novas signifi-
160 as narrativas jornalísticas, como discursos cações para a relação tão fundamental que se
sobre e para a sociedade, que “criam e re- institui entre homem, cultura e morte. Por isto,
criam práticas sociais discursivas que tanto a observação da estruturação deste discurso jor-
desejam falar da sociedade como se cons- nalístico sobre a morte a partir de seu processo
tituir enquanto saber acerca desta mesma de construção de significados, na própria enun-
sociedade” (Resende, 2006: 161). Partindo ciação, é preponderante. Poderá se ver mais do
desta noção sobre as narrativas, sem reti- exercício e da participação do jornalismo como
rar a concepção do conflito existente na fi- também do próprio homem: “A mídia, portanto,
nitude, é interessante considerar o quanto o explora aspectos fundamentais de como o ho-
tema se inscreve de maneiras diferenciadas mem contemporâneo coloca-se diante da morte
na pauta jornalística de nossa cultura. e através de encenações de sentido que produz
Estes sentidos diversos que são atribu- pode-se reconstruir cenários de significações do
ídos à morte como acontecimento jornalís- mundo contemporâneo” (Barbosa, 2004: 14).
tico são parte do cenário complexo em que Ora, se entendemos a mediação como es-
os atores sociais interseccionam referências paço em que se dão a estruturação e a or-
diversas: culturais, históricas, subjetivas, ganização da percepção da realidade, admi-
individuais e coletivas. Sem dúvida, fala- te-se, portanto, o papel dos media operando
se de um espaço em que a experiência viva ativamente no processo de construção desta
das relações, onde se formulam tais narra- realidade percebida. Desta maneira, no caso
tivas, tem atuação expressiva da comuni- da morte, a observação deste palco se dá na
cação. Para mortes diferentes, observamos percepção de relatos que partem sempre e

Estudos em Jornalismo e Mídia


Ano V No 1 - 1o semestre de 2008
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