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andré thevet
COLEÇÃO RECG:{QUISTA DO BRASIL

Dirigida. por ~:;..E!l) G~;IMARÃES FEIUU


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VOL. 45

1f\IGULARIDADES
Capa de
eLÁ UDIO :M:ARTINS

Tradução de
Eugenio Amado

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EDiTORA DA UNiVERSIDADE DE SÃO PAULO


liVRARIA ffATlA1A EDITORA LIMITADA
Bele Horizonte: Rua da Bahia, 902 - Fones: 222·8630 e 222·7002 LIVRARIA ITATIAIA EDITORA LTDA.
Av. Afonso Pena, 766 - Fones: 222-6140 e 224-5151
II
~
"
rOupa5J deixarei a barba crescer e honrarei 3 Tupã, do mesmo modo que tU.1~ CUfou·~e. de
~
! fato, e o Senhor de Villegagnon resolveu batizá-Io e conservá-ia ali com de.
1 Outra tola crendice dos sHvfcolas referense às i..e(n-r:r~stadc~ c tcrrnentas, mnito fre·
qüentes nestas terras. Acreditam que sejam causad3s pC'Ías alrnas dos parentes e amigos de
seus inirnígos. Por isto, quando navegam por mar ou por rio guerreando seus vizinhos, se CAP!'rULO XXXVJIl
sobrevém uma tempestade, atiram algum objeto às águas, à guisa de oferenda, presumindo
que o presente tenha a virtude de apaziguar os elementos.
I
DE COMO ESTES SELVAGENS FAZEM GUERRA Ul'-lS CONTRA OS OUTROS,
Quando um selvagem morre, tenha sido Ghefe da tribo ou não, e algum objeto que ESPECIALMENTE CONTR.A. AQUELES QUE CHAIviAM DE "MARGAJÁS" E "TARA-
lhe pertencesse esteja em mãos de outra pessoa, esta não o conserva consigo, mas !eva-o
JARAS";E DEUMA ARVORE CHAMADA "AIRI", DA QUAL FAZEM SUAS CLAVAS
para a oca do morto, a fun de devolvê-Io publicamente, para que seja enterrado junto com
o corpo. Caso assim não proceda, acreditlUl1 os selvagens que a alma, depois de retirar-se DE GUERRA
do corpo, viria perturbá-Io por causa do ta! objeto. Deus bem que poderia fazer com que
muitos dentre nós passassem a pensar deste modo! Tenho absoluta certeza de que. então,
tantas pessoas não mais conservariam 05 bens alheios sem qualquer receio ou vergonha, Estrepes dos sehragens. - Farinha de raiz.e3 e outros vfvcres. - Ann.as dos
s.elvz..gens~- Airi (árvore). - Êbano (árvore). - Escudos' dos sctvZ-geX1S.
como se costuma fazer hoje em dia ...
Eu tão, tendo devolvido ao morto tudo o que lhe pertencia em vida, seu corpo é
a~T...arrado bem fumemente conl cordas feitas de algodão ou das cascas de certas árvores. d3 Arnérica vivem em pé de g'uerra GOtn seus VILJPj'105, especialrnentc
O~ s;:~lyagensacreditam que deste modo o morto não poderá regressar do Além. coisa de COfil os rralogrl/iJS"'" e taba/aras. Como não conhecem outra j';.12.n:;;ir~ de ..zpazigu2.! SUES que~
que têrn pavoL Dizem que isto já aconteceu a alg'J.ns de seus aí1tepassados,; e por isto relas. batem-se com braYUI3. e sem tréguas. O número dos combat~ntes sobe às veze::. seis
resolvenun agir assinl. Com isto estas pobres criaturas demonstram ter tanta espintualida- lni.1, a dez mi.L ou até me~mo 3.doze nlil hOD1ens"quando lutam alde~f<,.) contra aldeiéls. Mas;
de quanto engenho. os Índios u,r.':b,ér;~s.e mata.m uns aos out.ros quando se 'oTIco'nt:a;Tl casuzlrncnte. G G'•e
. smo
costume prevalece en t.re peru;:;.nos e canibais.

ou m,Hra qUaJquero os
pelos anciãos, l'w.,s

Tenninada;l e.ada orador passa 2J. paiavra 3.0 scrfuinte, aSSÚJ1por diante. 05 ou.vin-
tes tlcarn toco:! sçr; t2.dos ne chão, exceto alguns poucos que. v1.r,1ulc algum privl1ê~
gio provenien:c de SU3 linhagem ou seja J:1do que foi, :';0 CGnSo':[V,J,rn sent.adcs e:m sua~
redes. Vendo isto, 'ieio~me 3. mernória aquelê lO"Lwávei costurrie dos güverl12Jites de Teb2s,
antiga cÍ(i3de g.r~ga,0$ quJis talYlbém se scntava,m no (Flando sa reuniam D3..ra d.81Íu
berar sobre as questões de sua república. Este m.oco de parece que ~,cb85eava n:tqueia
idéia que os fLiósofo5 têm corno certa, de que o corpo ~~:s8ntado ~ em repouso deixa os
espíritos U'1Tesda.s preocupaç:ões físicas e, conseqüen ternen te:. m,ais pru.dentes.

Um es::rannO costume dos americanos é o de jaIl13is ace-rtarern entre si qualquer tré,·


gua ou. acordo. :.Jisto não se assemelha.ri1 a outras nações~ mesmo cru tratando das mais
cruéis e bárbara.), qt;2is sej2.!"Tl as dos. turcos, f{10U.fOS e árabes. Penso que se Te5êu por aqui
aparecessÇ~ ele que foi o primeiro a combinaI t.1n1â trégua entre os gregos~ ficaria total~
rnente embaraçado peLaineficácia de seus argumento$ ...
Eles empregarn. certos ardis de guerra para surpreender os üúm.ir:,iQs., Alguns são
sen1elha.z1tes aos que tambên1 se U~11 alhures. .a ininüzade entre as tribos .ameri~
sio
os de outro
são obrigados a fortil1car su~ aldeias com pessoal e armas~

38
ND m.~..rv~e-1s".Os maracajtis habitam G lit~}r2..!entrei a Haia de GuarJ.3.barii c a foz do
...•
Rio do SuL (N. do T.)

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123

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não pen:lO assim, pois o ébano verdadeiro li mais brilhante .. Além do mais, a árvore do
Reúnem-se os índios em gr:mde ",""TIeropara seus ataques de $urpresa, preferindo
empreendê·los à noite. Em contnpmida. também tomam suas providências para que os ébano não se parece com o airi, que tem o tronco todQ cspinJlento. Acrescente·se que o
inimigos não os surpreendam. Frr:can1, ~o redor de seus abrigos, numa distância de um arre~ ébano legítimo provém de Calicute e da Etiépia.
mesro' de arco, uma infmidade de lIj;;'1ldissimascavilhas de rnadeira, de tal maneira que A madeira do airi é tão pesada que não flutua na água, afundando como o ferro.
quase não se podem ver suas pontas que!2em do chão. A melhor 'comparação que me vem Por isso, preferem-na os selvagens para fabricar seus espadões de guerra. O airi dá um
i\: mente é a dos estrepes que se usam cn ire nós. Seu objetivo é ferir os pés dos selvagens, fmto grosso corno uma péla, mas ligeiramente pontudo numa das extremidades. Dentro
:rempre nus como o resto do corpo. Com i.5:;0, frustram a surpresa do assalto e os atacantes dele existe um caroço branco corno neve. Trouxe uma boa quantidade deste fruto para a
acmam por ser mortos ou aprisionados. França.
Os selvagens prestam grandes honras àqueles que saem de ma aldeia para atacar os . Aínda desta maneira, fazem os selvagens belos colares. Por ser ela duríssirna e resis-
inimigos dentro de seu próprio território. Se eles porventura conseguem voltar trazendo tente (como há pouco dissemos), as flechas que com ela se fabricam pooem atravessar o
muitos prisioneiros, maiores ainda seno ss festas e honrarias que lhes serão dispensadas, melhor eorselete.
passsndo a' ser tratados como reis ou gr-ão-senhores, especialmente os que fIZeram maior
A terceira peça de seu armamento é o largo escudo'que usam nos combates. Ele é
número de vítimas.
feito do couro de um animallocall9 , semelhante às nossas vacas no que se refere à cor,
Quando querem surpreender urna zldeia inimiga, eles seguem à noite sorrateiramen· mas diferente no tamanho. Estes escudos são tão fortes e resistentes quanto os broquéis
te pelas florestas, quais raposas .. esperando durante todo o tempo que for necessário, até barcelonescs, não se deixando penetrar nem mesmo pelas balas dos arcabuzes!
que smja a oportunidade de se ar:reme=em sobre os adversários; Alcançando a alue ia,
E já que falamos de arcabuzes, muitos dos selvagens possuem dessas armas. Conse-
usarn a tática de atear fogo às cabmas dcs irlinligosj que assim terão de deixá-Ias, trazendo
guiram-nas com os cristãos que freqüentam estas paragens. Todavia. não sabem manejá-Ias,
par" fora toda a sua famíiia e seus per:ences. Neste momento, inicia·se entre eles uma
dando apenas eventualmente alguns tiros para o ar, mas com grande dificuldade, e unica-
confusa troca de golpes de tled:a. sepi:::do-se um terrível correra-corpo onde predomi-
m~n te para assustar seus inimigos.
naal golpes de clavas e porretes, Conte::-qlar tal espetáculo não constitui, positivamente,
um agr:.{dávelpassatempo. Ele:s ~ agarr3~s e se mordem em todas as partes do corpo dos
inim.igos que lhes passem ao alccloce dz; garras e dos dentes, mesmo que seja pelos beiços
perfurados. A fim de intimidz.r J5 i:::LT~g;]5,mostrarn-lhes às vezes os ossos daqueles que
foram derrotados e devorados ?or eles. =-_-:1 suma, empregara todos os meios para desmo-
ralizar os rivais.

Finda a refrega, voltam os '"ritono:S;Js com seus prisioneiros, trazendo--os maniatados


corno ladrões. E quando estes b:2.YCS g"Jê::euos regressam triunfantes a seus lares, só Deus
sabe das festas e do alarido com GCleScio rece bidosl

~L!!)JllhJ!les seguem ~o seu~:::os para a guelTa. Não tomam pme nos comba· \ \
tes~ corno as amazonas. Sua m~::..:=:oên:::l ;; a de c~afmas e viveres, preparar os ali- j i
mentos, etc. Eventualmente s::o obri;ei:l$ a ficar fora de casa, nestas andanças, pelo
espaço de cinco ou seis mesesl
Quando resolvem partir ?1Iõ a :p.çrra, os selvagens incendeiam suas cabanas
dei.xam enterrados seus perten("s mais preçiosos, até o (',ia de seu regresso. "

Pelo número de mulheres a ser,-iço de cada homem, pode-se avaliar o grau de consi· JJ
deração de que ele desfnna. .
Suas provisões de guerra $;:Toseus 2.fu'11entos COnlUn$: fat."i.llilus de raizes (deHcadissiw
mas enquanto novas, mas ain\Ía perfei::uuente comestíveis quando começam_ a ficar
velha.,~~lembrando cevada ou aveia) e, ie resto, carnes de a.•umals
. selvagens e peixes, tudo
defumado no moquém.
As mulheres ainda carreg:rm as rede:; de algodão. Os homens não trazem nas mãos
senão seus arcos e flechas.
Suas armas são grossos espldõcs de madeira, muito duros e pesados. De resto, arcos
e flechas. Tanto os arcos quanto as flechas têm comprimento uma vez e meia maior do
que os us..ados pelos tU.rcos~ As flechas 510 feitas ou de canas luarinhas, ou da madeira de
uma árvore chamada aut, .;uj23 folhas são semelhantes às de uma palmeira. Por ter a 39
J."" d. Léry diz que .stO$ escudos são reitos de couro d. ma (N. do T.)
madeira uma cor de márraore r~-~gro,ju.lg~ alguns que ela seria um tipo,de ébano. Eu
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124
\,

CAPITULO XXXIX
.~
DE COMO OS SELVAGENS COMBATEM TANTO NA ÁGUA QUA.NTO EM TERRA

·1
Motivo das guerras que 0$ selvagens travam entre si. - Os selvagens r,áQobs-
tinados e corajoso!\...- O costume de devorar os inimigos. - Uma expressão.
- O, habitante, do RIO de Janeiro são inimigos dos ",!vagens d" Morrmo.
- Canoos feitas de cascas de árvore. - Superstição dos selvagens referentes
ao descascamcnto das árvores. - Americanos aliados dos franceses. - Tola.
superstição <L71crican.a, também encontrada entre os turcos e mouros..
- TamborLTl.S-,pifaras e outros instrumento;; que excitam os espíritos..

Se O leitor perguntar por que estes selvagens fazem guerras uns contra os outros,
conquan to quase não existam entre eles diferenças hierárquicas~ nem. riquezas que des~
pertcDl c-obiças, (; sendo que a terra U1es concede até mais do que necessitam~ só poderia
responder-lhe que as causas de tais guerras são absolutamente fúteis. Move-os apenas o
nH~ro apetite de vingança, e nada mais, tal e qual se fossem animais ferozes. Como unla
desculpa para sua impossibilidade de $.eiarern um acordo honesto, alegam que seus vizinhos
e eles têm sido inimigos desde todo o sempre ..

,:'ssim sendo, reúnex1t-se 0$ índios em grande número (confofD1e rel.atamos há pouco)


partenl para ;ltacar os inirnigos~ especialmente no caso de terem. .sofrido alguma agressão
recente. Onde quer qu.e se encontrem, batem-se com t1eehas até que se aprOx.Imam sufi-
cientemsnte para passar ao corpo-a-co:·po. Aí., então) agarra.D1-se pelos braços ou peias
creth35. esmurra.ndo-se firmententc. Cavalos. ninguém utiliza; nem rnesmo os mais fortes,

/-, ao contririo do qU'3 se poder.ia supor.

'·,::5 guerras demonstram g:ra..'1d.c


obstinação e cor,agern. Antes de entrarem e:m luta
aberta {o que já descrevemos no capitulo precedente), postam-se no carrIpo onde $C trava-
rá o combate, 3.fzstados do inimigo à distância U,111 tiro de arcabuz. Durar1te U1TI certo

ternpo (i-; vezes, um dia inteiro), tlc2ill trocxHlo injúrias e ameaças, fazendo uns para os
outros as mais cruéis e medon.has caretas que podem, ululando e gritando com tal estridor
que n3:o se conseguiria ouvir o ron.co de UIl1 trovão. ReveíarI1 ai.nda suas terríveis ir'!tenções
por m-~iode gestos, erguendo seus brâJ;OS e mãos, e exibindo suas clavas e tacapes, enquan-
to vociferam: ~·Nós sornos vG1entes! Ontem, deyor~rnos vossos pais; hoje, devorar-vos-
--ernos!'~. /~ gravura mostra corno fazem enquanto gritam estas e outras ameaças semelhanG
teso

r\ssirn fazendo, os selvagens parecem estar irr..itando a antiga tática dos guerreiros
romEnos, que a.'1tes de entrarem na refrega gritavam de m2S1cira terrível, proferIndo me-
don.l~as ameaças. Este modo de agir foi posteriormente utilizado pelos gauleses ern seus
combates, conforme nos conta Tito Lívio. Tais procedimentos pareceram-me bastante
diferentes do sistema empregado pelos aqueus. Revela-nos Homem que este povo, nos
momentos que antecedia.\'Il às batalhas e ataques, evitava fazer qualquer ruído e dizer
a menor palavra.

127
~t·

A maior das vmga11ças praticada.) pelos :ielvagens. a que me parece ser a nlais cruel De resto, seus combates navais são em tudo semelhantes aos que travara entre si em
e indigna, é a de devorar os il1iInigos. Quando capturam prisioneiros de guerra e não têm terra. Se acontec~ que o mar esteja bravo,jogam às águas uma pena de perdiz ou qualquer
meios de conduzi·ios à sua aldeia, os t>raços ou as pernas e, se houver tempo outra coisa, acreditando que deste modo conseguirão aplacar a füria das ondas. l:.le manei.
antes de recomeçar o combate, devoram·nos :til mesmo, enquanto não chega a hora de se ra algo semelhante procedem os mouros e turcos em idêntica situação: banh= seus oor-
retirarem do locaL Caso contrário, cada um leva seu pedaço maior ou menor. Sempre que pos nessas águas turbulentas, obrigando os que os acompanham a agir de modo igual, MO
podem, levam os cativos para a sua aldeia, mas ali também o devorarão posteriormente. importa de quem se trate, como aconteceu comigo em certa ocasião.
Os antigos turcos, mouros e árabes também procediam de modo qU<lieidêntico. Quando nossos selvagens regressam vitoriosos a seus lares, são recebidos pelos que lá
Ainda hoje usa-se entre eles a seguinte expressão corrente: Quisera tcr comido teu cora- ficaram com demonstrações de júbilo, ao som de pífaros, tamborins e cãnticos. t muito
ção". Também as armas que estes povos empregavam eram bastante semelhantes às dos interessante ouvir·se esta música, tocada com instrumentos primitivos, feitos de frutos dos
selvagens, Entretanto, depois que os cristãos L'les revelaram e ensinaram os segredos da quais se retira a polpa, ou então de ossos de animais (quando não de ossos humanos ... ).
fundição dos metais e do fabrico das armas de foge, empregam-nas hoje em dia em seus Estes instrumentos de guerra são ricamente enIeitados com alguns penachos decorativos.
combates. Queira Deus que tal não se dê com os demais povos selvagens, sejam os ameri· Trata·se de um costume muito antigo, que se conservou inalterado até os dias que correm.
canos ou sejam outros.
Flautas, tamborins, etc, parecem despertar os ânimos adolmecidos, reaviv<lA,do-os
Além disso, esses indígenas também se aventuram nas águas do mar e dos rios, sem- qual sopro de fole no braseiro semi-apagado. Realmente, não me parece haver melhor
pre com o objetivo de ir ao encontro do inimigo. E o que fazem, por exemplo, nossos meio de inflamar os espíritos do que o som destes instrumentos, pois a música excita não
índios do Rio de Janeiro quando vão guerrerar os que vivem em Morpião'"'. Tanto os por- apenas os homens, mas até mesmo os cavalos! Não que eu ql,leira com isso fazer qualquer
tugueses quantos os índios qli(~ aí residem são inimigos dos franceses e dos selvagens ins- comparação entre ambos, mas es cavalos até parecem estremecer ao som da música, em
t,:ilado,sna região do Rio de Janeiro. virtude da alegria que lhes enche o coração. Este fato tem sido freqiientcmente observado
As embarcações que os índios usam s.qOpequenas canoas, isto é, barcos feitos da através dos tempos.
casca de certas árvores, sem pregos nem cavilhas, de 5 ou 6 braças de comprimento e 3 Na verdade, não só os americanos, mas também outros povos bárbaros têm o costu-
pés de largura. Note-se que não !hes interessa constmir embarcações mais sólidas, pois não me de realizar seus assaltos e combates ao som de medonhos gritos e uives, como veremos
c6nseguiriam manobrá-Ias com a necessária habilidade quando se tratasse de fugir dos ini- dentro em pouco no capítulo referente às amazonas,
l'nigos ou ent.ão de perseguivlos

Os selvagens observam um tolo preceito quando vão despojar as árvores de suas


cascas - o que fazeln~ aliás, tirando a casca desde a raiz até à copa4 Nesse dia, nada
bebem nem comem .. Dizem eles - e nisso acreditam fmnelnente que estariam sujeitos
a grandes azares nas suas navegações se não procedessem desta maneira.
Suas l10tilhas de guerra são compostas de cem ou cento e vinte canoas, mais ou
menos, levando. cada uma, de quarenta a CL'lqüenta pessoas, entre homens e mulheres.
Cabe a estas a tarefa de tirarem fora a água que entra pelas frestas da canoa. Fazem·no
com o auxl1io de uma pequena vasilha feita da casca de certo fruto do qual extraem a
polpa.
Os homens ficam bem abrigados no fundo da embarcação, carregando as armas. As
canoas seguem junto à margem. Quando os selvagens deparam com alguma aldeiazinha no
trajeto e sentem-se suficientemente fortes' pará saqueá·ia, descem à terra e lançam-se ao
ataque, deixando atrás de si um rastro de fogo e de sangue.
Pouco antes de nossa chegada, os selvagens aliados dos fra"'lceses tinham aprisionado
no mar um pequeno navio português, que til'~'lam abandonado próximo da praia, apesar
da resistência oferecida pelos seus tripulantes, que dispunham inclusive de artilharia. Não

abstante, a em.barcação fora aprisionada e os marujos devorados, salvo alguns que con.se.i1\
guimos resgatar
trataram quandoaosai!seus
os selvagens apartamos.
inimigos Este episódio qumdo
portugueses serviu para mostrar·nos idêntico
os capturaram, que se assim
tra- I I'
tamento teríamos nós os frarlceses se por infelicidade fôssemos aprisionados pelos índios 11
que se consideram nossos in.imigos. II
40 No orig:in.a1, Morpion. TI2.ta·se de nome indígena da região que se estendia ent.--e a vba de São
Vicento o o litoral de Santa Catar""" lcl>itadlll'elo, tupiniquins. (N. do T.)

128 129
,~),

CAPITULO XL

DE COMO ESSES BÁRBAROS MATAM E DEVORAM SEUS PRIS!ONEIROS


DE GUERRA

11 Tratamento dado pelos selvagens aos seus prisioneiros. - O. selvagc"IIJ050


temem a morte. - Tratamento dispensado às moças e mulheres aprisio.n.a-
11 das. - Cerimônia.< da execução dos prisioneiros. - Cauim (bebida). _ Ca-
a
nibais: inimigos mortais dos espanhóis. - AntropÓfagos.
11
!j
li
11 Após ter relatado como os selvagens da América levam seus inimigos capturados na
li guerra para suas tabas; resta narrar o modo como os tratam, fmdas as hostilidades. Os pri-
sioneiros trazidos para a aldeia - cada guerreiro pode trazer quantos quiser, mas geral- I

mente só traz um ou dois - serão ali regiamente tratados. Cinco dias depois de sua clle- li!!
gada .. entrega-se
capturou! ao encanegada
Eia está prisioneiro uma rnuL'ler,
de prover que pode
a todas sernecessidades,
as suas até mesmo a inclusive
fi.lha daquele
a de que o ~ ,
fazer.;' I
~he companhia na rede. Ao mesmo tempo, são-lhe servidos os melhores alimentos que se
puderem encontrar. O objetivo é o de engordã~lo, qu.al capão na ceva. até que chegue o
dia de matá·l0.

:,aoe~se facilrnente- qual é esse dia da execução pelo exarr.e de um colar de fio de
algodão que o prisioneiro traz ao pescoço. Enfiam=sc neste colar. eomo contas de ros.ário,
certos frutos redondin.hos~ ou então c;scs de peixe ou de outro 3...rümal.
Se os Índios que~
renl. por 3xemplo, manter () prisioneiro durante quatro ou cinco iuas, ent1ili"11 no colar
igual nám,ero de contaso Estas irão sendo retiradas. à medi.da que se sucedem as ruas, a:é
chegar~$e à última. Então. ll1atarn--rlo.

Em outras tabas, ao invc::; de contas em um colar~ coloc8.m nc· Pt~scoço do pris.io.


neiro tantos colares qua.nta.s luas de vida ele aiI1da terá. A proposito. quero aqui lembrar
que 0$ selvagens só sabt:rn con tar até cinco~ desconhecendo por completo o que sejaITI
horas~ dias da semana~ meses ou ar~os. Marca...1"fl o tempo apenas por l~as. E.)te mesmo pro-
cesso fei outrora imposto por Sólon aos atenienses. ou seja, o de marcz:~se o tempo pelo
curso da Lua.

Se porventura nascerem filhos da união do prisioneiro e da mulher que Ule foi


dada. eles serão criados na tribo durante algum tempo, mas depois também serão devo-
rados porque. afinal de contas, são f1111o$de um ininugo.
Depois que o prisioneiro está deviàamente cevado e engordado, matam-no, con$i~
derando uma grande honra o ato da execução. E para a solenidade convidam todos os
seus amigos, que morarn mais dist2-fltey para que venham assistir às festas c participar do
banquete.
Nosse dia, o prisioneiro é deitado na rede e preso com correntes de: ferro (cujo uso~
aliás. foi introduzido entre os Índios pelos cristãos). Durante todo o dia e toda a noite, o
condenado entoa canções como esta: ~~rvíeusamigos margajás são pessoas honradas e são

731
,~

hábeis e fortes guerreiros. Eles prenderam e devoraram grande número de inimigos. Agora
serei devomdo por eles, no dia marcado. Eu, porém, já matei e devorei muitos parentes e
I f()mc qae se seguiu
bém os antropófagos
obrigou as m.ães a mato.r seus filhos c. ,::"evorá"los! Con.heceln~se laJn~
da Cítia, que se alimentam de C3Tne humaml, assim como estes que
ora desc,evo.
antigos do homem que me aprisionou ~ E outras canções como esta. Isto mostra clara-
mente que a morte quase não lhes causa preocupação de espécie alguma.
TIve diversas oportunidades de conversar com prisioneiros na véspera de sua morte. I Retomemos a descrição. O selvagem que executou
tarefa, retira-se para sua morada, onde permanece todo
() prisioneiro, cumprida a sua
o dia sem comer nem b-eher
Quando perguntava a esses bravos e fones guerreiros se não se importavarn absolutamente deitado em sua rede, onde fica durante três diaJI seguidos sem pôr o pé no chão. Se tive;
com o fato de estarem prestes a ser executados, viravam-se para mim entre risos e zomba- necessidade de ir a um lugar qualquer, pedirá que para li a transportem, em virtude da
riss: "'Meus amigos virão ,ingar·me", diziam, seguros de si e cheios de coragem. E se al- tola e generalizada crendice de que se ele assim não pro0e6~r, poderá ser vítima de algum
guém por acaso dissesse que iria tentar libertá-los das mãos dos inimigos, novamente fa- infortúnio, arriscando-se até mesmo a morrer! Depois de \l.m determinado tempo, tomará
ziam troça de suas palavras. ele de um instrumento cortante, feito dos dentes de um ~rimal chillllado aguti (cutia), e
com ele fará diversas incisões e furinhos em vários pontos do corpo, especialmente no pei-
Quanto às mulheres e moças capturadas na guerra, são conservadas como prisio-
to, que ficará todo marcado. Perguntando a alguns deles v porquê de tal procedimento,
neiras durante algum tempo, do mesmo modo que os homens, e tratadas de maneira
responderam-me que era devido ao regozijo pela eJtCe1saglória de ter sido escolhido para
idêntica, saJ.vo pelo fato de que não lhes dão um marido. Por outro lado, não ficam
executar um inimigo.
totalmente presas, mas têm liberdade de a11dar por aqui e ali. Mandam-nas ajudar nos
trabalhos agrícolas e na pesca de ostras. Quando censurei a um destes carrascos a crueld~ de sua ação, replicou-me ele

Mas voltemos à execução do prisioneiro. O dono deste, como dissemos, convida pronta e indignadamente, dizendo que nós, sim. ~ue deveríarnos nos envergonhar de 1 )

todos os reus amigos para o grande dia, para que vçnham comer sua parte dos despojos perdoar nossos prisioneiros de e!erra. Melhor far~os se os matàssemos, não Jhes fome.:-ll
eéri1!l'l uma outra oportunidade de iniciar outra guerra ecmra nos. EiS o mõãô~
e bd)er muito cauim (bebida feita de milho e raízes). No dia solene, todos os assisten-
deste povo ignorante.
tes adamam-se com belas plumas de diversas cores, ou pintanl o corpo inteiro, especial·
mente aquele que irá desferir o golpe fataL Este carrasÇ{) deverá estar o mais completa· Devo ainda acreso:.::ntar, a propósito deste l$Sun:c que ta.mbérn as jovens fazem
mente ataviado que pude.r, trazendo sua espada de madeira ricarnente guarnedda de incisões no corpo~ durante os três dias que se segtiern prüneiro t1uxo de san.gue pró-
penas. Quanto fllaioíes forem os preparativos para a sua morte~ e rnais radiante ficará prio das rnulheres. Em conseqüência disto, Ci~egz_"11 ~i2S às vezes a ficar berrl doentes.
o condenado. Terrrrinados os preparativos, conduzem-n.o à praça pública, devidarnente DUi"d.nte este tempo, àevem abster~se de certos iliInentC:5 .. de sair dli! casa e ,ité mesrno de

2...rnarr3docom cordas de algodão, acompan.h.ado de dez cu doze mil selvagens. Ali, exe· pisar no chão~ curnprindo o mcsn10 ritual dos :J.r!:lS·k:S. ,;cnform~ há pouco rel.atarnos ..
cutalp-~no do rneSTI10 illo..1o como se mata um porco: a porretadas. Estas, porém, são prea Permite-se apenas qu.e se assentern sobre urna ceru ~~.:'72.~ J.11colocada urüca:mente para
tal fim.
cedIdas de um longo cerimonial. A mulher que tinha sido dada ao prisioneiro, morto
estet guardará u.rn luto aliviado.

Logo depois que o ITlat31u, os selvagens reduzem o corpo a postas, tomando o cui~
d1)do de aparar o sangue. La,varn seus filhos hOTI1enS neste sangue COIU o fito de tomá~lo5
m.otis corajosDs, GOnfOrn1e pensam, e de mo-strar-lhes como deverão proceder com os i.ni~
rrigos quando chegarern à idade adulta. É de crer que 03 seus contrários procedam de
mweira idêntica em relação a eles.

I Retalhado o corpo e assado à moda indígena, seus pedaços serão distribuídos entre
tantas pessoas quantas ali se encontrem. Cada pessoa recebe seu naco. Gerahnente, às
!nuh~eres cabem as entranhas. A cabeça, eles a reserv2.J"'n para espeta~la na ponta de uma
1
i vara que é colocada sobre suas ocas, como sinal de vitória e triunfo. Causa-lhes prazer

I e~~~!il*'ar a~ de um português. . . ~
Os canibais e os que vivem àJImargens do Rio M:a'inhão41 são aL'1damais cruéis em
relação aos seus inimigos espanhóis, dando·lhes morte incomparavelmente mais atroz, e

I igualmente devorartclo-os em seguida.

I A História não nos fala de neí'J:uma outra nação que tenha sido tão bárbara e que

I tenha tratado seus inimigos com uma tão excessiva crueldade. Sabe·se
com os escritos de Josefo, que houve algo de semelhante em Jerusalém
apenas, de acordo
qu:mdo os roma-
I
I:
nos ali chegaram: Após terem seus habitantes dado cabo de todos os víveres, a terrível
l'íl
41
li No 01~ "Mli.rign.anrt. Trata-se d" Rio An".azonas, que os espanllóis chmnavam de Maral1Õn.
Em Port~ ainda se diz "'castanha.-do-rna.a~T1hão~, ao invés de ca.stalU'1a-do-paci.. (N. do r.)
i:
11

H 132 133

11
~"'tu«'!M'.ii~~

CAPITULO XL!

DE COMO ESSES SELVAGENS SÃO EXTRAORDlNAR1At\1ENTE VINCA TIVOS

A vingança é proibida aos cristãos.. _. Hi~1óIia de um p'Jrtuguês aprhkr


nado pelos selvagens. - Honestidade dos selvagens, mas não em rcla~'iio aos
cristãos.

Não é muito de se admirar que este povo, que vive nas trevas porque ignora a 'lerda·
de, não se dê por satisfeito em somente desejar a vingança, mas efetivamente dispenda
todos os esforços possíveis para levá·la a cabo, Digo isto I'O!'que os próprios cristãos, a
quem ta! sentimento é expreSSaZ!lente proibido pelas Escrituras" nem sempre conseguem
evitá-Io, agindo como se pretendessem imitar a MeHdo, para o qual não se deveria jarnais
perdoar os inirrtigos. Este erro, que perdurou por longo tempo DO Egitoj foi contu.do
abolido posteriormente por um imperador romano. DeSf~j~tra vingan.ça signifIca odiar o
próximo, coisa completamente contrária aos preceitos da nossa lei.
Entretanto. no que concenlC 3. esta gente que, conforrrw por diversas vezes fala-
mos, vive sem fé e sem lei, tal atitude não é de Todo estranha. E aSSIm ê que todas as SU8$
guerras não se d::vem senão a um absurdo te gratuito senIÍn1ônt.o de 'fingança. Fodeis ficar
certos de que os :.e1Yagens são e continuarão sendo dontinado~b por este desa.rrazoado ,y2n~
timento. a não ser que se consiga modHlci·lo$,
I: taJ-nanna a ignorância desses infelizes, que ~~hega.màs vias de fato por dá-c:i<:.que-
i3-pa1~a! Se um espinho os espeta, ou se uma pedra 0$ fere, enche;n~se de cóiera e esma~
gam aquilo que ihes causou a dor. reduzindo·o a cem rrül pedaços) como se tal entei:nae
nimadc possuísse algum sentiInento~ Isto é devido uI1icarne.nte à sua [aHa de discerni-
mento.
A bern da verdade, sou forçado a acrescentar um czrto por-menor~ embora o faça
com um pouco de vergonha. É que eles se Vl.i1g3.lTI até mesn10 dos piOU10S e pulgas1 mas de
um modo antes bestial que razoável: esmagando-os ... com os dentes!
Não se pense jarnais em reconciliar um siJ.vicola com a.1g'Jém que ele julgue t6alo
ultrajado, por menor que seja a ofensa.. Isto é um sentirI1ento que se transmite de pai para
filho. Pode-se vê-Ias ensinando ()s seus fllhos de três Oli quatro anos a manejar o arco e a \'
i1echa,eXortãiido-os continu;unente a ser co~josÕs;-ãtirar vingança de se~s ininúgo~ II
~ãoJ~erdõãrqüei~ue sej~~tes mo~lAssim,"qüãndõ'c"~ pris1õ"neír~)S ÜÍísdõS"1
oúi-ro~, !1ã~ pênse queprôêüiêiTI-algurri~eio de escapar, pois nada mais esperall1 do
que morrer deste modo, que consideram dignificante e honroso, Por isto, costumam
zombar de nós e repreender-nos asperamente par libertarmos nossos prisioneiros, seja a
troco de resgate ou seja por que motivo for, considerando ",te costume indigno de um
guerreiro de verdade. "Quanto a nós?', dizemt.~ja.lTIaisfariamos tal coisa?'.
Aconteceu de certa feita que um português, tendo caído nas mias destes selvagens,
achou que poderia salvar sua vida com beloz discms()s, Pôs-se então li suplicar-lhes que o
libertassem, empregando as mais temas e doces palavras de, que se lembrou, Entretanto, a

135
única coisa que conseguiu foi que o matassem a flechadas ali no pr6prio local onde fora
aprisionado. "Que seja assim", disseram, "pois nao mereces que te matemos nomadamen-
te e em boa companhia, como fazemos aos outros!".
Outro fato digno de ser narrado: Certa vez, uns mercadores normandos trollxemm
para a França um menino da tribo dos tabajaras, inimigos mortais dos selvagens desta re· ../.
CAPITULO XLII
gião onde se instalaram. os franceses_ O menino foi batizado e criado em Ruão, onde se
casou e tornou-se homem de bem. Então, já com cerca de 22 anos, resolveu voltar à terra DO CASAMENTO ENTRE OS SELVAGENS AMERICANOS
natal em um de nossos navios. Ao chegar, alguns cidadãos revelaram. sua identidade aos
seus antigos inimigos. Para quê! Estes, imediatamente, tomaram nosso navio de assalto,
como cães fanúntos e raivosos, aproveitando-se do fato de já terem descido quase todas Como se casam os selvagens da América. - Defloração das jo •••"s ames do
as pe~as. Lá encontraram o rapaz, atirando-se a ele sem dó nem piedade, e fazendCH:lem casamento. - O Senhor de Villegagnon proibiu aos franceses de se a.rn.z.:;,.:;e~
pedaços, sem contudo tocar nos outros que se encontravam por perto. Deus deu-lhe for· balem com as mulheres selvagens. - Antigo costume dos üdio~ dos arrr:..•... :...
ça.; para. que, durante este massacre, ele lhes demonstrasse sua fé em Jesus Cristo, um só ruos e do. habitante. de Chipre. - Os selvagens têm várms esposas.
em trindade e pessoas e unidade de essência. E assim morreu o inditoso rapaz entre
as mãos dos selvagens, mas como bom cristão. Talvez por isto os índios não o tenham de·
vomdo, como costumam fazer com seus inimigos. É coisa digna da maior comiseração o fato de existirem criaturas que. embora radç...
nais, vivam como animais. Só podemos concluir que esta brutilidade seria uma her31~lJ
C~ueespécie de vingança poderia ser mais contrária à nossa lei? Não ohstante. ainda
trazida do ventre matemo, e que nela teríamos permanecido se Deus não tivesse. com ;::2
hoJe ern dia encontrarn~se muitos dentre nós que ainda persistem teimosamente em se
bondade, iluminado nossos espíritos. Em vista disso, não é de se esperar que os selnge;;.s
villgaI do próximo, como o fazem os selvagens.
arnerlcanos aja.nl com algum discemimento no que se refere aos seus casamentos, já que
Outras idéias dos indígenas: Se um deles ferir alguém, deverá receber, sem tardw.ça.
uma punição igual ou maior. E não deixa de ser um beio espetáculo o vê-Ios discutir:do ou
lutando entre si. No mais,)ãe-muito-honcstos uns com os outros, No entanto, em relação
aos cristãos, não passam dos mais fIngidos e sutis ladrões que se possa imaginar, conquan-
I assim não cerimônias.
quaisquer procedem em relação às oütras
O .ól.rimocasa
gimento nem reprovações~~
com a coisas.
prima~\oPortanto,comeles
não se casam en~i.
apenas ajuntam.,-se.
a sobrinha~S(T2.2:f! se:TI !lj;

to r:ão ocultem os objetos furtados sob as roupas, já que não as usam ... Para eles. tra·
ta·se d", um ato nobilíssimo roubar de nós o que quer que seja! Digo-o por experiência
, Quanto mais se notabiliza o homem por seu herolsmo e suas proezas guerreiras, e
tanto maior será o número de mulheres que poderá ter a seu serviço. Aos menos vaJer::tiõ.s.
própria. Aconteceu por volta do Natal, quando eu lá me encontrava. O chefe de uma menor número. E diga-se, a bem da verdade, que as muJ_heres trabalham m,:ol:nf'ar.",~
ccrta tribo tinha vindo visitar o Senhor de Villegagnon, e 05 membros da sua comitiva.
:;abendo que eu me encontrava, doente, aproveitaram-se dessa circunstância e surripiaP...lTI
I; mente mais que.osJl.ome~1S,'pois,é a ql!e ..2ªº_em t~;~fà-- ...
_-
a f;~;~l~a e -;5 bebidas .. ap;mIlar os -frutos, cultivar· os campos: e tudo o mais que se
mirJlas roupas ... t à =~uant;i~~~~-;~n-ãSevelüualmente vão os hon"len.s pescar 'Ou c~;::r j
alguma coisa nos matos) sendo que alguns se ocupanl somente carn a confecção de 31ÇS$
Eis uma rápida amostra de sua honestidade e seu modo de agir, encerrando nossa
exposição sobre seu caráter obstinado e sua sede de vingança. I e flechas, deixando todo o restante do trabalho às mulher,;s.
I
Cede-se ao visitante uma jovem da tribo, para servi-Ia durante o tempo em que
ali tiver de permanecer, ou enquanto assim o preferir. Ele tem a liberdade de devolvê·ia
I

I também quando bem o desejar, e é assim que se procede habitualmente. Logo que o ,i.s1· I
II
tante chega à aldeia, fazem-lhe esta pergunta: "Ei! O que me darias para que eu te c~dQ
minha filha? Ela é bonita e trabalha bem. Fará a tua farinha e cuidará de tudo o que
cisares. ,~

Com o fito de evitar este abuso, logo ao chegannos fomos proibidos pelo Senhor
I
~
de Vil!:.~,!~lg_l12Q.lJ--lW1~l:..I1!0rt~.~~~cebmnos c9El..2U!.~Y~~,
coi&1 qu'O'.
aléInao mais, é vedada á qualquer cristão. _

<::=...
~e, ~
no casoãede surpreendê.la
tudo isso, nãoemcostum~~air o nWido depois
adultério, não hcsitaJ.::rerri"'matá·la, <k.':.~
visto
gens consideram esta falta como uma das mais graves que existem. O marido, no enWl'
poo
que os se}.;l-
I
to, nada fará ao culpado, pois se tocar nele acarretará contra si a inimizade de to-'Jos os
p3J.-entes do outro, dando motivo a um rompimento e) conseqüentementet a urna guerra
perpétua_ Todavia, não temem os selvagens repudiar a esposa, o que lhe. é permitido em

I
caso de adultério, e também se ela for estéril, além de alguns outros motivos.

il)'
~
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