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UNIVERSIDADE ESTADUAL DE FEIRA DE SANTANA

DEPARTAMENTO DE CIÊNCIAS SOCIAIS APLICADAS

Victor Lima Caribé

FICHAMENTO DO LIVRO:
DIREITO CONSTITUCIONAL: TEORIA, HISTÓRIA E MÉTODOS DE TRABALHO

Fichamento do livro: Direito constitucional: teoria, história e métodos


de trabalho de Cláudio Pereira de Souza Neto e Daniel Sarmento,
apresentado à disciplina de Teoria do Estado para obtenção de
avaliação, sob orientação do Professor Carlos Eduardo Behrmann
Ratis Martins.

FEIRA DE SANTANA – BA
2018
Sumário
1. Antecedentes, convocação e natureza da assembleia constituinte ............................ 1
2. Composição da Assembleia Constituinte ......................................................................... 2
3. Os trabalhos da Assembleia Nacional Constituinte ......................................................... 2
4. Traços essenciais da Constituição de 1988........................................................................ 6
5. A trajetória da Constituição de 1988 ..................................................................................... 8
6. Minhas conclusões .................................................................................................................. 10
SOUZA NETO, Cláudio Pereira de; SARMENTO, Daniel. Direito constitucional:
teoria, história e métodos de trabalho. 2. ed. Belo Horizonte: Fórum, 2014.

Capítulo 4
ASSEMBLEIA CONSTITUINTE DE 1987/88 E A EXPERIÊNCIA BRASILEIRA SOB
A CONSTITUIÇÃO DE 1988. (p. 155-182)

1. Antecedentes, convocação e natureza da assembleia constituinte

Em um clima ainda de tensão por conta da ditadura militar, o descontentamento


da população gerava revoltas, porém, não foram os setores mais radicais da
sociedade que lideraram a transição do regime autoritário para a democracia, aos
remanescentes da ditadura ainda sobrava poder político para negociar com a
oposição, o que resultou na chamada “transição com transação” que garantiu algum
poder ao regime autoritário durante o início da transição. (p.155-156)

A primeira aparição da ideia da convocação da Assembleia Constituinte foi em


um manifesto do MDB (Movimento Democrático Brasileiro), no ano de 1971, porém,
apenas em 1977 é que o partido conseguiu aprovar a convocação da Constituinte por
unanimidade. No mesmo ano, a CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil) e
a OAB também se posicionaram a favor da convocação, sendo a OAB responsável
por pregar a volta do poder constituinte ao povo. Raymundo Faoro, importante
acadêmico, publicou um texto clássico em que afirmava que apenas uma nova
Assembleia Constituinte, investida de soberania, poderia conferir legitimidade ao
Estado Brasileiro, fundando sobre bases mais democráticas o poder político. Outro
fator de grande importância pró-constituinte foi a campanha das diretas já, que serviu
para deixar mais clara a ilegitimidade do regime constitucional da época. (p.156)

Com a chamada Aliança Democrática, mesmo após o falecimento de Tancredo


Neves, José Sarney honra sua palavra e envia ao Legislativo a Proposta de Emenda
Constitucional n°43, prevendo a atribuição de poderes constituintes ao Congresso
Nacional, além de ter nomeado uma Comissão Provisória de Estudos Constitucionais,
que ficou encarregada de elaborar um anteprojeto de constituição. Entretanto, os
modelos propostos por Sarney não agradaram aos progressistas, que preferiam uma
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Assembleia Constituinte Exclusiva, isso aconteceu por conta de um certo
compromisso com o regime autoritário, pois os mesmos temiam que uma Assembleia
Constituinte Exclusiva iria resultar em um revanchismo contra os militares. Quanto ao
anteprojeto, que possuía inclinações ideológicas bastante heterogêneas e teor
altamente democrático, não foi enviado à constituinte por conter um teor
parlamentarista. (p.157)

“O projeto de emenda convocando a Constituinte, apresentado por Sarney, foi


aprovado pelo Congresso Nacional e promulgado como a Emenda Constitucional
n°26, em 27 de novembro de 1985”. A partir da aprovação, tal maneira de convocação
foi criticada por alguns juristas e políticos pois achavam que a convocação por
Emenda constitucional não corresponderia ao exercício de autêntico poder
constituinte originário. Entretanto, tal maneira de convocação foi apenas o veículo
formal, mas não o seu fundamento de validade. “Esse repousava na vontade presente
na sociedade e evidenciada em movimentos como o das Diretas já, de romper com o
passado de autoritarismo e de fundar o Estado e a ordem jurídica brasileira sobre
novas bases mais democráticas”. A soberania popular era o verdadeiro poder
constituinte originário, a democracia em seu sentido mais íntimo, essa a fonte de
validade da Assembleia Constituinte. (p.158-159)

2. Composição da Assembleia Constituinte

A Assembleia Nacional Constituinte reunida em 1° de fevereiro de 1987 era


composta por 559 membros – 487 deputados federais e 72 senadores. Boa parte dos
constituintes faziam parte do PMDB (Partido do Movimento Democrático Brasileiro)
com um total de 306 constituintes, entretanto, a bancada do PMDB incluía
parlamentares de inclinações absolutamente heterogêneas, o que não resultou em
um poder hegemônico, tanto é que, no decorrer da Assembleia Constituinte, cerca de
15% dos congressistas mudaram a sua filiação partidária. Curiosamente, apesar da
Constituição de 88 ser tachada de “progressista”, os partidos considerados de
esquerda possuíam apenas cerca de 9% da Assembleia. (p.160)

3. Os trabalhos da Assembleia Nacional Constituinte

Após a instalação da Assembleia Constituinte, em 1987, houve discussões


sobre a legitimidade da participação de alguns senadores que foram eleitos ainda no

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regime militar, porém, após a questão ter sido levada para o Plenário, foi decidido que
haveria a participação plena dos senadores eleitos em 1982. (p.161)

Antes de decidir o regime interno para a elaboração da Constituição, houve


várias discussões, uma delas diz respeito ao poder da Assembleia Nacional
Constituinte de estabelecer normas antes da promulgação da nova carta. As correntes
mais ligadas à esquerda queriam que esse poder fosse concebido para que se
livrassem logo dos remanescentes do regime autoritário, porém, não houve nenhuma
deliberação destinada a produzir efeitos antes da promulgação da nova carta. (p.162)

Outro problema constante foi decidir como seria a forma de tramitação e


votação do texto constitucional a ser elaborado. Tal procedimento não poderia ser
elaborado fora da Assembleia Constituinte e nem poderia atribuir tal tarefa à um grupo
parlamentar. Quanto a segunda opção, não seria viável porque reduziria a
participação daqueles que não integrassem a comissão eventualmente escolhida,
desigualando o papel dos constituintes. A assessoria de Ulysses Guimarães, atual
presidente da Constituinte e filiado ao PMDB, tentou criar uma prévia redação para
ser posteriormente apreciada pelo Plenário, porém, não foi efetivada pois geraria
discriminação entre os congressistas dividindo-os em “constituintes de 1° e 2° classe”.
(p.162)

Com tanta imparcialidade em relação a parte procedimental, era preciso buscar


uma forma de integrar todos os constituintes na tarefa da elaboração do novo texto
magno. Para isso, foram criadas 24 subcomissões temáticas, que elaborariam textos
sobre os temas de sua competência e os entregariam a 8 comissões temáticas, cada
uma congregando 3 subcomissões. Com isso, cada comissão redigiria projetos sobre
suas áreas e esses projetos passariam por um sistema cuidadosamente planejado.
Dessa forma, todos os constituintes seriam titulares de uma comissão temática e
suplentes de outra. Obviamente, o PMDB, por possuir hegemonia numérica,
conseguiu “controlar” melhor os seus interesses, porém, isso não resultou em uma
hegemonia ideológica. (p.163)

Em 1° de abril de 1987 (isso mesmo, bem no dia da mentira) as Subcomissões


começaram os trabalhos. Elas eram obrigadas a realizar entre 5 e 8 audiências
públicas e esse contato com a população gerou grandes discussões contraditórias.
Em seguida, as comissões temáticas foram iniciadas e se deu início a mais uma fase
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de grandes disputas, com intensa participação social e atuação marcante na
Constituinte dos mais variados lobbies. Ao final da fase, foram recebidas cerca de
14.911 propostas de emenda, aprovando textos que traziam avanços na área dos
direitos humanos e da organização estatal. Posteriormente, iniciou-se a fase da
Comissão de Sistematização que foi marcada pelas tensões entre o governo de
Sarney e a Constituinte, isso porque Sarney era contra a implantação do
parlamentarismo no Brasil. (p.164-165)

Após o recebimento dos anteprojetos das comissões temáticas, Bernardo


Cabral, em 26 de junho de 1987, oferece o primeiro projeto, com 501 artigos, que
depois foi reformulado para 496 artigos e aprovado em 11 de julho pela Comissão de
Sistematização. Com a aprovação, o projeto foi aberto para novas emendas, inclusive
de mérito, que poderiam ser apresentadas pelos constituintes ou pela própria
população. Foram apresentadas 122 emendas populares, reunindo 12.277.323
assinaturas, tendo 83 aceitas por atenderem aos requisitos regimentais. Elas
versavam sobre temas diversos. Isso demonstra como a participação popular foi de
extrema importância para a elaboração de uma carta mais humanitária. (p.165)

Bernardo Cabral apresentou seu 1°Substitutivo, que ficou conhecido como


“Cabral 1” e continha diversas alterações em relação ao texto anterior. “Cabral 1” foi
alvo de críticas dos conservadores por limitar as forças armadas, sustentar direitos
trabalhistas e pela anistia aos perseguidos pelo regime militar. Porém, a constituinte
não se intimidou. (p.166)

Posteriormente, foi apresentado o “Cabral 2”, que manteve o teor avançado


sobre direitos fundamentais, mas também fez algumas concessões ao governo
Sarney para acalmar os ânimos. “Cabral 2” será o texto votado na Comissão de
Sistematização, a partir do dia 24 de setembro de 1987. Quando iniciadas as votações
de cada título do “Cabral 2”, o parlamentarismo e a proposta de fixação do governo
de Sarney por mais 6 anos foram os temas mais discutidos. Após o encerramento da
Comissão de Sistematização, foi criado o “Projeto A” e encaminhado para o Plenário
da Assembleia Nacional Constituinte. (p.166)

Algumas emendas criaram um grande descontentamento em algumas partes,


principalmente entre os conservadores. O “Centrão”, bloco conservador
interpartidário, defendia interesses como a redução dos direitos trabalhistas e rejeição
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dos mecanismos de democracia participativa. Tal descontentamento mudou o rumo
dos acontecimentos, isso aconteceu porque o “Centrão” propagou um discurso que
acabou alienando o “baixo clero” e ganhando força suficiente para travar uma longa
batalha para mudar o Regimento e apresentar novas emendas. O plenário acabou
favorecendo o “Centrão” e alterou substancialmente o Regimento Interno da
Constituinte. “Contudo, a hegemonia no Plenário dos conservadores, agrupados sob
o Centrão, estava longe de ser absoluta. O primeiro substitutivo apresentado pelo
grupo, atinente ao Preâmbulo da Constituição, foi derrotado em 27 de janeiro,
evidenciando a necessidade de negociação com as forças mais à esquerda”. (p.167)

Para mediar tais negociações, surgiu um modelo de negociação prévia, antes


da votação, para que somente os assuntos mais divergentes fossem discutidos
posteriormente. O consenso serviu para recuperar boa parte do conteúdo do “Projeto
A”. Entretanto, houve três pontos onde a conciliação não foi possível: a definição do
direito de propriedade, disciplina na reforma agrária e greve de servidores públicos.
(p.168)

Durante todo o processo da criação da nova carta, houve importantes


reviravoltas como a aprovação, por 344 votos a 212, da emenda presidencialista, com
o apoio do Centrão em aliança com as bancadas do PT e do PDT. Outra decisão
polêmica foi a fixação do governo de Sarney por mais 5 anos, porém, lotada de
denúncias de que o os votos estariam sendo cabalados pelo Executivo. Após
encerrado o 1° turno das votações da Constituinte, José Sarney comete um grande
erro ao se posicionar em rede nacional de rádio e televisão para criticar a Constituição
elaborada. No dia seguinte ao pronunciamento de Sarney, Ulysses Guimarães
também se pronunciou em rede nacional para proferir um discurso que pode ter
mudado os rumos da democracia brasileira:

“A governabilidade está no social. A fome, a miséria, a


ignorância, a doença inassistida são ingovernáveis. A injustiça social
é a negação do governo e a condenação do governo. (...) Repito, esta
será a Constituição Cidadã. Porque recuperará como cidadãos
milhões de brasileiros (...). Viva a Constituição de 1988! Viva a vida
que ela vai defender e semear! ” (p.168-169)

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O segundo turno iniciou a votação para o texto que foi chamado de “Projeto B”
e foi amplamente aprovado. Apesar de apresentarem algumas emendas, como os
conservadores que tentaram reduzir os direitos trabalhistas, mas não obtiveram
sucesso. Sendo assim, em 2 de setembro de 1988, encerrou-se o 2° turno da
Constituinte. Em seguida, o texto foi enviado para uma Comissão de Redação, que
tinha o papel de resolver aspectos linguísticos e de técnica legislativa do Projeto, mas
que acabou indo além disso. Houve acusações de uso de procedimentos irregulares
para aprovação de diversas alterações do conteúdo da Constituição e por isso o texto
teve que passar novamente pelo Plenário onde seria avaliada, só ocorrendo a
derradeira votação em 22 de setembro de 1988. (p.169)

Em 5 de outubro de 1988 a constituição foi promulgada, após um longo


processo de 20 meses. Alguns trechos do discurso de Ulysses Guimarães devem ser
lembrados, pois definem o valor da nossa constituição:

“A constituição não é perfeita. Ela própria o confessa, ao


admitir a reforma. Quanto a ela, discordar, sim. Divergir, sim.
Descumprir, jamais. Afrontá-la, nunca. Traidor da Constituição é
traidor da Pátria. [...] A persistência da Constituição é a sobrevivência
da democracia [...]” (p.169-170)

4. Traços essenciais da Constituição de 1988

Constituição de 1988 se tornou um marco para o povo brasileiro, ela


representou o coroamento do processo de transição do regime autoritário em direção
à democracia, criando um profundo compromisso com os direitos fundamentais,
relações políticas, sociais e econômicas e também se esforça para garantir uma
sociedade mais inclusiva, fundada na dignidade humana. Esses aspectos não são
exclusivos e inéditos para um modelo de Constituição, Portugal e Espanha também
haviam optado pela reorganização estatal em bases democráticas, com a
manifestação do poder constituinte originário, ou seja, o poder do povo. (p.170)

Desde sua promulgação em 1988, a Constituição só vem aumentando o seu


tamanho, isso acontece porque há a inclusão de novos dispositivos, novas emendas
constitucionais, tornando a nossa norma magna longa e analítica. Uma das causas
dessa expansão constitucional é gerada por conta dos longos processos da
Assembleia Constituinte para a elaboração da Carta, pois todos os parlamentares
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deveriam fazer parte da elaboração e isso resultou em várias analises por parte deles
para que nenhuma brecha fosse deixada e viesse a favorecer a oposição. Portanto,
uma das consequências que nossa Carta possui é a necessidade de estar sempre
tendo edições de emendas constitucionais. (p.170-171)

No entanto, a Constituição de 1988 qualifica-se como compromissória, já que


o seu texto não representa a cristalização de uma ideologia política pura e ortodoxa.
Há um pluralismo social na sociedade brasileira que foi, de certa forma, transmitido
para a Carta. Outro aspecto importante da nossa Constituição é que ela é
programática, não se limita a tratar de poucos assuntos, ela prevê direitos, estabelece
metas, objetivos, programas e tarefas a serem perseguidos pelo Estado e pela
sociedade, se revestindo de uma forte dimensão prospectiva, definindo uma direção
a ser seguida pelos governantes. (p.171-172)

A Constituição também é multidisciplinar, pois trata de questões econômicas,


relações de trabalho, da família e da cultura, além de conter princípios e valores
fundamentais que devem ser tomados como nortes na interpretação de toda a ordem
jurídica e ensejar uma releitura dos instintos e normas do ordenamento
infraconstitucional, também indica o reconhecimento da prioridade dos direitos
fundamentais nas sociedades democráticas, tornando o sistema de direitos
fundamentais o ponto alto da Constituição. Outro fator importante é o desenvolvimento
do fenômeno da constitucionalização do Direito. (p.172)

Dar destaque tão importante ao estabelecimento dos direitos fundamentais até


parece “bobo”, mas todo esse destaque se dá porque, além de passar a trata-los como
normas pétreas, antes da Constituição de 1988, os direitos fundamentais não eram
efetivados, constavam alguns, mas nenhum era “levado a sério”. Por conta disso é
que alguns conservadores se preocuparam tanto com políticas voltadas para
economia, mas aceitaram as propostas de direitos fundamentais mais tranquilamente,
achando que seriam como os das Cartas anteriores. (p.172)

Além dos direitos fundamentais, o outro “coração” da Constituição de 88 é a


democracia. Dentre outras medidas, ela consagrou o sufrágio direito, secreto,
universal e periódico para todos os cargos eletivos; consagrou instrumentos de
democracia participativa, como o plebiscito, o referendo e a iniciativa popular de leis.
Quanto ao federalismo, a Constituição não rompeu a tradição brasileira, de extrema
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concentração das competências normativas no plano federal. Contudo, ampliou a
autonomia dos municípios e descentralizou a administração financeira. (p.173)

Em relação aos poderes estatais, a Constituição fortaleceu tanto o Legislativo,


como o Judiciário e não desproveu o poder Executivo de suas ferramentas essenciais
para o cumprimento de suas funções, porém, não exercia mais um poder hegemônico
sobre os demais poderes, apesar de ainda possuir relevantes faculdades normativas,
o Executivo já não consegue governar contra a maioria parlamentar e isso dá origem
ao chamado “presidencialismo de coalizão”, que é a necessidade de o Chefe do
Executivo construir uma base de apoio no Legislativo. Ela também manteve o regime
presidencialista e instituiu a eleição presidencial direta. Já em relação ao Poder
Legislativo, a Constituição de 88 manteve o bicameralismo federativo e a distorção na
representação entre Estados mais e menos populosos, pela fixação do número
mínimo de 8 e máximo de 70 deputados federais por Estado. Além disso, a
Constituinte reforçou os poderes do Legislativo na esfera de produção normativa em
comparação ao regime passado, ela também robusteceu as funções fiscalizatórias do
legislativo, fortalecendo o seu papel no controle externo dos demais órgãos estatais.
(p.174-175)

Quando ao Judiciário, foi reforçada a sua autonomia administrativa e financeira


e foi ampliada a sua importância política. Foi conferido um novo perfil para instituições
como o Ministério Público e a Defensoria Pública, fazendo com que a promoção de
justiça fosse ampliada com ações voltadas à tutela de direitos. (p.175)

A Constituição também adotou princípios de livre-iniciativa, o direito de


propriedade e a livre concorrência, mas, por outro, tingiu esse sistema com
preocupações com a justiça social, a valorização do trabalho e a dignidade da pessoa
humana. Além disso, a Constituição prevê amplos espaços para a regulação estatal
da economia, mas a intervenção estatal direta nessa seara é vista como exceção,
justificada apenas “quando necessária aos imperativos de segurança nacional ou
relevante coletivo, conforme definidos em lei”. (art. 173) (p.175)

5. A trajetória da Constituição de 1988

Após a promulgação da Constituição de 1988, José Sarney ainda governou por


mais de um ano, porém, em meio a grave crise econômica. Logo depois, ocorreram

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as eleições diretas para a Presidência da República, tendo como vencedor Fernando
Collor de Melo. Collor teve um mandato bastante conturbado e alvo de várias críticas,
principalmente por ter posto em prática o seu plano econômico que “congelou” todas
as contas poupança acima de 50 mil cruzados e por suas políticas com viés neoliberal.
Collor sofre um processo de impeachment em 29 de dezembro de 1992, antes de ser
afastado, ele ainda tentou uma manobra para se safar de os 8 anos sem poder tomar
posse de qualquer cargo público, mas foi impedido pelo Senado e pelo STF. (p.176-
177)

O processo de impeachment de Fernando Collor de Melo foi um importante


teste que a Constituição soube superar com maestria. Após tal evento, Itamar Franco
assumiu o cargo de Presidente da República e em seu governo ocorreram dois
importantes acontecimentos: o plebiscito sobre a forma e o regime de governo e a
revisão constitucional. Após ser aprovado o plebiscito, quase de forma consensual,
organizaram-se três campanhas, três opções: presidencialismo, parlamentarismo
republicano e parlamentarismo monárquico. O presidencialismo venceu com cerca de
55% dos votos. Quanto à forma de governo, a República venceu com 66% dos votos.
(p.177-178)

Agora era a vez da revisão constitucional, instaurada em 6 de outubro de 1993.


Surgiram três teses jurídicas sobre a revisão. Para a primeira, ela não teria cabimento,
pois só deveria ocorrer se o povo tivesse, no plebiscito, decidido por mudança na
forma ou no sistema de governo. A segunda era a de que a revisão e o plebiscito
seriam institutos independentes, e que, portanto, a primeira ocorreria
independentemente de qualquer alteração definida em via plebiscitária. A terceira, que
prevaleceu na revisão, e foi confirmada pelo STF, era no sentido de que a revisão
deveria ocorrer, independentemente do resultado do plebiscito, mas que teria de
respeitar todas as cláusulas pétreas, bem como o resultado da consulta plebiscitária.
Apesar de terem sido apresentadas mais de 17.000 propostas de alteração da
Constituição, apenas 6 foram aprovadas pelo plenário, o que demonstra que a
Constituição já não era tão frágil quanto as anteriores. (p.178-179)

Outro fato importante ocorrido no governo de Itamar Franco foi o Plano Real,
que visava combater a crise econômica e conseguiu resultados expressivos.

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O seu sucessor, Fernando Henrique Cardoso (FHC), trouxe consigo uma
grande quantidade de reformas constitucionais, foram aprovadas, durante seus dois
mandatos, 35 emendas constitucionais e vieram acompanhadas de um amplo
programa de privatizações e pela mudança da atuação do Estado na esfera
econômica. Esses dois mandatos de FHC só foram possíveis por conta de uma
Emenda Constitucional que autorizou a reeleição de Presidente da República, dos
governadores de Estado e dos prefeitos. (p.179-180)

O sucessor de FHC foi Luiz Inácio Lula da Silva (Lula), que se elegeu pelo PT.
Logo no início de seu governo, Lula promoveu uma significativa alteração no texto
constitucional, desconstitucionalizando o sistema financeiro nacional. Apesar de ter
mantido alguns aspectos centrais da orientação econômica de FHC, Lula promoveu
mudanças significativas no que toca às políticas sociais, intensificando as políticas
públicas de caráter redistributivo, voltadas para a população mais carente, com
expressivos resultados do ponto de vista da melhoria das condições sociais do país.
Quando ao ritmo de emedas constitucionais, ele manteve-se intenso durante o
governo Lula. Ao longo dos seus dois mandatos foram aprovadas 30 alterações à
Constituição. Dentre elas, a Emenda Constitucional n°45, que promoveu importantes
alterações no Poder Judiciário, com destaque para a criação do Conselho Nacional
de Justiça e da súmula vinculante. (p.180-181)

6. Minhas conclusões

É de extrema importância ver como foi todo o processo de elaboração da


Constituição, saber que todo esse processo não ocorreu por vontade estritamente dos
poderes estatais, ocorreu também pela força do povo, pela força do verdadeiro poder
constituinte. É ainda mais interessante saber que, por mais que a Constituição de 88
seja um marco importante para a história da democracia brasileira, o processo de
desenvolvimento não foi marcado por boas intenções pela maior parte dos
parlamentares, todos pensariam em seu próprio benefício se não houvesse a
oposição para se preocupar. O fato da própria população se mobilizar, tanto em
movimentos quanto na própria elaboração de emendas constitucionais, mostra como
a Constituição de 88 carrega um valor muito maior do que as anteriores, mas também
mostra como ela peca por ter que ser sujeita a tantas emendas constitucionais. Como
disse Ulysses Guimarães, a Constituição não é perfeita, mas devemos honrá-la acima

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de tudo. Talvez seja isso o que esteja faltando nos dias atuais, já não se encontra
honra em nossa política, infelizmente.

No geral, a obra acrescenta muito para quem objetiva entender melhor os


acontecimentos ocorridos antes, durante e depois da Assembleia Constituinte, é como
assistir um filme de história cheio de reviravoltas e batalhas travadas entre os partidos.

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