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PORTUGAL SAÚDE MEDICINA

Filosofia não é ciência e está fadada a desaparecer, afirma


pesquisador
Responsável por renovar instituto de pesquisa em Portugal fala sobre a importância do método
científico

2.jun.2018 às 6h00

Alberto Nóbrega
Cristina Caldas

[RESUMO]  Responsável por renovar instituto de pesquisa em Portugal fala sobre


método científico e explica como organizar grupos de pesquisadores.

Em 1998, o Instituto Gulbenkian de Ciências (IGC), situado em Oeiras, perto de Lisboa,


inaugurou edificações modernas e recebeu um grupo totalmente renovado de
pesquisadores que ali se instalaram para fazer ciência num contexto muito diferente do
que existia até então em Portugal, um país sem tradição na área.

Meros 12 anos depois, o órgão recebeu reconhecimento internacional ao ser destacado


entre as dez melhores instituições de pesquisa em biociências na Europa como destino
para jovens cientistas. Nesse curto espaço de tempo, os pesquisadores do IGC deram
várias contribuições relevantes e publicaram trabalhos nos mais prestigiosos
periódicos.

O responsável pelo espantoso renascimento do IGC é António Coutinho, médico


imunologista português que esteve no Brasil a convite do Instituto Serrapilheira para
participar de evento de divulgação científica, organizado em parceria com a revista
Piauí.
Na entrevista a seguir, ele fala sobre o método científico e sobre como se produz
pesquisa de ponta —pesquisa que abre novos horizontes, traz inovações e tecnologias
que serão a base para a sociedade do amanhã; pesquisa que permite à sociedade decidir
de forma autônoma seu futuro. Pesquisa que faz muita falta em nosso país.

António Coutinho, médico imunologista português - Micael Hocherman

Qual é a singularidade das ciências naturais em relação a outras formas de ser e de


estar no mundo?

O exercício de derivar, racionalmente, as leis fundamentais que organizam o mundo. Se


descobrimos essas leis, sabemos como o mundo funciona e como nós próprios
funcionamos. Eu acho que a singularidade está totalmente baseada na racionalidade, e
isso é muito novo. Em geral, a humanidade tentou de forma predominante perceber as
coisas ou pela mágica, ou pela religião.

A ciência é distinta. É uma das poucas atividades humanas [cuja] origem se pode
identificar e que tem uma origem única, simultânea à origem da democracia.
Isso já diz muito, ou seja, não há ciência sem um regime em que as pessoas possam
exprimir o que pensam, porque a ciência avança pelas contradições que tem, pela
oposição das hipóteses emitidas. A ciência evolui no domínio das dúvidas, e não no
domínio das verdades, da certeza absoluta, que é o domínio da religião.

Como vamos excluindo as hipóteses que estão erradas, esta coisa avança, progride. Hoje
sabemos mais do que há cem anos, há dez anos, do que no ano passado. Todo o resto da
atividade humana não progride.

Por isso filosofia não é ciência, porque nunca progride. Eu tenho o maior respeito pelos
filósofos porque o objetivo da filosofia é o mesmo que o da ciência: explicar o mundo e a
nós próprios. Agora, nós temos um bom processo e eles não têm, portanto estão
fadados a desaparecer. O que é o objetivo da filosofia vai ser resolvido pela ciência, e a
filosofia vai passar a história.

Eu acho que os cientistas são os únicos que resolvem problemas, e [isso] é uma coisa de
que as pessoas, habitualmente, não estão muito cientes. Problemas absolutamente
fundamentais, que muita gente chamaria de metafísica, [como] a origem do universo, o
que é a consciência e outros problemas muito mais triviais, como [matar] uma célula
cancerígena, coisas assim. Isso é o que nós fazemos, resolver problemas.

Quando você fala ciência, você inclui também os processos tecnológicos, que de
alguma forma derivam, são consequência da ciência?

Eles são consequência da ciência. Durante muitos séculos, a tecnologia [teve] base
empírica. As pessoas andaram de barco durante muitos milênios, até que Arquimedes
descobriu por que aquilo flutuava. Hoje em dia, para inventar um nanotubo de carbono,
é preciso bastante ciência; para melhorar um tratamento médico, tem que haver ciência.

É por isso que de vez em quando algum governo um pouco menos estúpido e mais
iluminado que os outros investe na ciência: não é pela ciência, é pela tecnologia que está
se derivando, porque agora todos já veem que o motor do progresso é a ciência. Porque
a ciência produz tecnologia, a tecnologia produz inovação, inovação produz economia,
crescimento econômico etc. É triste que os governos não invistam na ciência pelo que a
ciência é.

Quais são as características dos grupos de pesquisa que trazem as maiores


inovações, que estão na fronteira do conhecimento, no caso da pesquisa em
biociências?
Sempre fui contra grupos muito grandes. Acho que um grupo é uma unidade funcional
em que as pessoas têm que se conhecer muito bem, saber o que o outro pensa e
colaborar ativamente. Por outro lado, o avanço tecnológico é tão rápido e tão
avassalador que grupos pequenos não têm nenhuma probabilidade de seguir o
progresso tecnológico se ficarem isolados.

A única maneira é que esses grupos tenham outras vantagens, que estejam reunidos,
postos todos juntos em instituições maiores que possam cuidar da infraestrutura.

Os cientistas e os seus alunos de doutoramento e pós-doutoramento deveriam apenas


pensar na ciência que querem fazer. Não deveriam ter que se preocupar em "como vou
arranjar dinheiro agora para comprar um microscópio ultrassensível?". Isso deveria
estar garantido pela instituição.

O ideal é instituições com 20, 30 ou 40 grupos, que já tenham tamanho suficiente para
assegurar a infraestrutura e o avanço tecnológico, que proporcionem às pessoas
maneiras de interagir, de discutir, mas mantendo cada grupo pequeno.

Em algumas partes do mundo, como nos Estados Unidos, há grupos que são do
tamanho que eu acho que deveria ser a instituição. Estudantes e pós-doutorandos
desses grupos grandes veem o chefe do grupo uma vez por mês, ou um pouco mais. É
triste.

A tendência dos grupos é acumular muito financiamento, e quanto mais financiamento,


maiores são. A consequência disso é que os grupos estão cada vez maiores e cada vez há
menos recursos para jovens que estão começando.

E isso vai de certa forma cercear a diversidade. Você fica com grandes grupos,
monotemáticos, e aquela ideia nova não emerge porque você não tem recurso fora
daqueles grandes temas.

As ideias novas vêm sempre dos grupos pequenos. O grupo pequeno está sempre contra
a maioria, o que é bom por causa dessa história da evolução no domínio da dúvida, da
contradição. Além disso, e há muitos estudos sobre isso, o dinheiro que se dá a um
grupo grande é muito menos rentável do que o dinheiro que se dá ao grupo pequeno.
Vocês deveriam fazer esse estudo no Brasil, avaliar dez grupos grandes, dez médios e
dez pequenos.

Há experiências a nível nacional. A Suécia sempre teve boa investigação. Então fizeram
uma reforma para concentrar recursos. Foi uma catástrofe, até agora. Cada vez tem
menos produtividade científica. Concentraram recursos, ou seja, a maior parte dos
grupos pequenos deixou de ter financiamento e só teve duas alternativas: parar ou
juntar-se ao grupo grande.

Se você tem tudo igual, não há cooperação possível, é só competição. E a competição,


apesar de os biólogos dizerem que é o motor da evolução, não é. Competição não
inventa nada de novo, é uma gestão de recursos limitados. A cooperação nos leva a vidas
melhores, a níveis de vida mais interessantes, de unicelular para multicelular. E a
possibilidade de cooperação aumenta com a heterogeneidade dos componentes.

Quais são as opções de carreira para doutores em ciência?

Sempre uma minoria irá pesquisar e liderar grupos de pesquisa. Em média, um bom
chefe de um grupo ativo, pequeno, forma um doutor por ano. Ao final de 20, 25 anos de
carreira, um cientista formou 20, 25 novos cientistas. Mesmo que a gente fique com os
20, em pouco tempo são 20 vezes 20. Eu já tenho [cientistas] da terceira geração. São
400 vezes 20. Estamos em 8.000 formados por um só cientista.

É absolutamente utópico pensar que esses 8.000 deveriam todos fazer a mesma coisa
que eu fiz. É uma estupidez total. Há muitas outras maneiras de utilizar o que se
aprendeu fazendo doutorado. Há o que se costuma chamar de mobilidade lateral, ou
seja, continua a trabalhar em coisas científicas, mas não como pesquisador.

A maior parte dos doutores nos Estados Unidos vai ensinar, e não fazer pesquisa. Além
disso, a mobilidade lateral também implica ser divulgador de ciência, atuar na gestão da
ciência, ser lobista de assuntos científicos.

Há no Brasil ainda a imagem de que se você fez doutorado e não é professor ou


pesquisador, você "debandou".

É muito importante que as pessoas se deem conta [da importância da mobilidade


lateral]. A parte mais bonita do tango é quando vai a lateral. Nem toda gente nasce para
fazer isso [pesquisa]. Acho que é um indicador de desenvolvimento científico: se a
maioria ainda faz a mesma coisa, o país está muito pouco desenvolvido. Quanto mais
desenvolvido o país, mais saídas têm que não a da pesquisa universitária.

Nos programas de doutorado em Lisboa, muitos médicos fizeram doutoramento e


voltaram a trabalhar no hospital. Eles dizem: "Deixamos de ver os doentes da velha
maneira; agora estamos preocupados com o mecanismo da doença". A medicina não
ensina a fazer perguntas, ensina a ter procedimentos corretos. Portanto, as coisas
mudam muito.

Quais são as suas indicações de livros para quem se interessa pela ciência?
Há tantos que já não sou capaz de fazer uma lista de cabeça. Há um autor que eu gosto
de ler, porque é muito otimista, e eu acho que a ciência, por natureza, é otimista: Steven
Pinker. Há um [livro dele] que eu acho que toda gente deveria ler: "Os Anjos Bons da
Nossa Natureza".

E um mais recente ["Enlightenment Now", iluminismo agora], em que a coisa


fundamental do livro é que o que conta para avançarmos é a racionalidade, a ciência e o
humanismo. Como ele disse, o conhecimento tanto pode ser para um bom fim, ou um
mau fim.

Portanto, o conhecimento em si não tem valor intrínseco. Por isso, uma ciência que seja
consequência da racionalidade, e profundamente humanista, só pode contribuir para a
melhoria do mundo. 

Alberto Nóbrega, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro, é mestre em


matemática e doutor em imunologia. Fez seu pós-doutorado com António Coutinho
no Institut Pasteur, em Paris.

Cristina Caldas, diretora de Pesquisa Científica no Instituto Serrapilheira, é mestre em


biologia molecular pela UnB, doutora em imunologia pela USP e especialista em
jornalismo científico pela Unicamp.

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