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REVISTA BRASILEIRA DE

ESTUDOS
publicação da associação nacional de pós-graduação

URBANOS
e pesquisa em planejamento urbano e regional

E REGIONAIS
S U M Á R I O

15 ANOS DE ANPUR 133 SEGREGAÇÃO DINÂMICA URBANA: MODELAGEM


MEMÓRIA DOS PRESIDENTES E MENSURAÇÃO – Vinicius de Moraes Netto e Romu-
lo Krafta
7 LÚCIO GRINOVER 153 SÃO PAULO, VELHAS DESIGUALDADES, NOVAS
A criação da ANPUR. 1983-1984
CONFIGURAÇÕES ESPACIAIS – Lúcia Maria Machado
9 RICARDO FARRET
Bogus e Suzana Pasternak Taschner
Os primeiros tempos de uma idéia que deu certo.
1984-1986
13 CELSO M. LAMPARELLI RESENHAS
Uma corporação nas incertezas do início dos anos 90. 1º PRÊMIO BRASILEIRO “POLÍTICA E
1989-1991 PLANEJAMENTO URBANO E REGIONAL”
19 MILTON SANTOS
Atividades para visibilidade e projeção da ANPUR. 177 Origens da habitação social no brasil: arquitetura
1991-1993 moderna, lei do inquilinato e difusão da casa própria, de
24 WRANA MARIA PANIZZI Nabil Bonduki – Prêmio Livro – por Luiz César de
A consolidação de uma proposta. 1993-1995 Queiroz Ribeiro
31 CARLOS B. VAINER 179 O espaço de exceção, de Frederico de Holanda
De Brasília a Recife, passando por Istambul. 1995-1997 – Prêmio Tese de Doutoramento – por Cláudia
38 NORMA LACERDA Loureiro
Revendo o passado, vivendo o presente e pensando o 181 Fragmentação da nação, de Carlos Américo Pa-
futuro. 1997-1999 checo – Prêmio Tese de Doutoramento – por Leonar-
do Guimarães Neto
ARTIGOS 184 Planejamento urbano nos anos 90: negociações en-
O MELHOR DO 8º ENCONTRO NACIONAL
tre as esferas pública e privada, de Ana Cláudia Miran-
DA ANPUR
da Dantas – Prêmio Dissertação de Mestrado – por
Adauto Lúcio Cardoso
47 O URBANISMO E O SEU OUTRO: RAÇA, CULTURA E
CIDADE NO BRASIL (1920-1945) – José Tavares de Lira 186 Confrontos e contrastes regionais da ciência e tec-
79 DISCURSOS DA SUSTENTABILIDADE URBANA – nologia no Brasil, de Fernando Antônio de Barros –
Henri Acselrad Menção Honrosa Dissertação de Mestrado – por
91 O PARADIGMA DAS GLOBAL CITIES NAS ESTRATÉ- Brasilmar Ferreira Nunes
GIAS DE DESENVOLVIMENTO LOCAL – Rose Compans 190 O mundo do trabalho brasileiro em perspectiva
115 P OLÍTICAS U RBANAS EM R ENOVAÇÃO : UMA histórica, de Jorge Luiz Alves Natal e Cesar Augusto
LEITURA CRÍTICA DOS MODELOS EMERGENTES – Fer- Miranda Guedes – Menção Honrosa Artigo – por
nanda Sánchez Jorge Natal e Cesar Guedes
REVISTA BRASILEIRA DE ESTUDOS URBANOS E REGIONAIS
Publicação semestral da Anpur (maio/novembro)
Número 1, maio de 1999

CONSELHO EDITORIAL
(para este número):
Alfredo Gastal (UnB), Ana Fernandes (UFBA),
Carlos Américo Pacheco (Unicamp), César Ajara (IBGE), Eva Machado (UFRGS),
Frederico Holanda (UnB), Jorge Luiz Natal (UFRJ), Margaret Cordeiro (Puccamp),
Maria Cristina Leme (USP), Maria do Carmo Lima Bezerra (UnB),
Marília Steinberger (UnB), Pedro Abramo (UFRJ), Ricardo Farret (UnB),
Sônia Helena Cordeiro (UnB), Susana Moura (UFBA), Tamara Egler (UFRJ)
EDITORA RESPONSÁVEL
Maria Flora Gonçalves (Unicamp)
COMISSÃO EDITORIAL
Ana Clara Torres Ribeiro (UFRJ), Marco Aurélio Filgueiras Gomes (UFBA),
Maria Adélia de Souza (Unicamp), Maria Cristina Leme (USP), Martim Smolka (UFRJ,
Lincoln Institute), Naia de Oliveira (FEE/RS), Roberto Monte-Mór (UFMG)
PROJETO GRÁFICO
João Baptista da Costa Aguiar
COORDENAÇÃO E EDITORAÇÃO
Ana Basaglia
REVISÃO
Fernanda Spinelli
REVISÃO (INGLÊS)
Maria de Fátima Rocco
FOTOLITOS E IMPRESSÃO
GraphBox Caram

CORRESPONDÊNCIA E ASSINATURAS
Núcleo de Economia Social, Urbana e Regional – NESUR
Instituto de Economia, Unicamp
Caixa Postal 6135 – 13083-970, Campinas, SP
E-mail: nesur@eco.unicamp.br

ASSOCIAÇÃO NACIONAL DE PÓS-GRADUAÇÃO E PESQUISA


EM PLANEJAMENTO URBANO E REGIONAL – ANPUR

PRESIDENTE
Norma Lacerda (UFPE)
SECRETÁRIO EXECUTIVO
Silvio Mendes Zancheti (UFPE)
DIRETORES
Aldo Paviani (UnB), Maria Flora Gonçalves (Unicamp), Tânia Fischer (UFBA)
CONSELHO FISCAL
Célia de Souza (UFRGS), Denise Pinheiro Machado (UFRJ), Leila Christina Dias (UFSC)
DISCURSOS DA
SUSTENTABILIDADE URBANA

HENRI ACSELRAD

R E S U M O A noção de sustentabilidade remete antes à lógica das práticas, em que efei-


tos práticos considerados desejáveis são levados a acontecer, do que ao campo do conhecimento
científico, em que os conceitos são construídos para explicar o real. Aplicada ao espaço urba-
no, a noção de sustentabilidade tem acionado diversas representações para a gestão das cida-
des, desde a administração de riscos e incertezas ao incremento da “resiliência” – a capacida-
de adaptativa - das estruturas urbanas. O que parece organizar analiticamente o discurso da
“sustentabilidade urbana” seria sua distribuição em dois campos: de um lado, aquele que pri-
vilegia uma representação técnica das cidades pela articulação da noção de sustentabilidade
urbana aos “modos de gestão dos fluxos de energia e materiais associados ao crescimento urba-
no”; de outro, aquele que define a insustentabilidade das cidades pela queda da produtivida-
de dos investimentos urbanos, ou seja, pela “incapacidade destes últimos acompanharem o rit-
mo de crescimento das demandas sociais”, o que coloca em jogo, conseqüentemente, o espaço
urbano como território político.* * Trabalho selecionado da
sessão temática 5 – “Desen-
volvimento urbano susten-
P A L AV R A S - C H AV E Sustentabilidade; planejamento urbano; política ambiental. tável: que qualidade e para
quem?”

INTRODUÇÃO

Diversas matrizes discursivas têm sido associadas à noção de sustentabilidade desde


que o Relatório Brundtland a lançou no debate público internacional em 1987. Entre
elas, podem-se destacar a matriz da eficiência, que pretende combater o desperdício da ba-
se material do desenvolvimento, estendendo a racionalidade econômica ao “espaço não-
mercantil planetário”; da escala, que propugna um limite quantitativo ao crescimento eco-
nômico e à pressão que ele exerce sobre os “recursos ambientais”; da eqüidade, que articula
analiticamente princípios de justiça e ecologia; da autosuficiência, que prega a desvincula-
ção de economias nacionais e sociedades tradicionais dos fluxos do mercado mundial co-
mo estratégia apropriada a assegurar a capacidade de auto-regulação comunitária das con-
dições de reprodução da base material do desenvolvimento; da ética, que inscreve a
apropriação social do mundo material em um debate sobre os valores de Bem e de Mal,
evidenciando as interações da base material do desenvolvimento com as condições de
continuidade da vida no planeta.
Desde a United Nations Conference on Environment and Development – Unced
(1992), a noção de sustentabilidade vem ocupando espaço crescente nos debates sobre de-
senvolvimento. De um lado, no interior do discurso desenvolvimentista – produzido por
agências multilaterais, consultores técnicos e ideólogos do desenvolvimento –, verificou-
se um investimento na correção de rumos, no esverdeamento dos projetos, na readequa-

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ção dos processos decisórios. Com ajustes – acreditam estes atores – a proposta do desen-
volvimento poderia ser resgatada, suas dimensões autofágicas, superadas, sua durabilida-
de, assegurada, sua vigência, sustentada. Por outro lado, no campo das ONGs, em meio à
crítica dos limites do conteúdo que governos e instituições oficiais vêm atribuindo ao de-
senvolvimento, que pretendem, sustentável, alguns vêem na sustentabilidade uma nova
crença destinada a substituir a idéia de progresso, constituir “um novo princípio organi-
zador de um desenvolvimento centrado no povo”, e ser capaz de “tornar-se a visão mobi-
lizadora da sociedade civil e o princípio guia da transformação das instituições da socie-
dade dominante” (PCDF, 1992).
O que prevalece são, porém, expressões interrogativas recorrentes, nas quais a sus-
tentabilidade é vista como “um princípio em evolução”, “um conceito infinito”, “que pou-
cos sabem o que é” e “que requer muita pesquisa adicional”, manifestações de um positi-
vismo frustrado: o desenvolvimento sustentável seria um dado objetivo que, no entanto,
não se conseguiu ainda apreender. Mas, como definir algo que não existe? E que, ao exis-
tir, será, sem dúvida, uma construção social? E que, como tal, poderá também compreen-
der diferentes conteúdos e práticas a reivindicar seu nome. Isto nos esclarece por que dis-
tintas representações e valores vêm sendo associados à noção de sustentabilidade: são
discursos em disputa pela expressão mais legítima. Pois a sustentabilidade é uma noção a
que se pode recorrer para tornar objetivas diferentes representações e idéias.
A suposta imprecisão do conceito de sustentabilidade sugere que não há ainda hege-
monia estabelecida entre os diferentes discursos. Os ecólogos parecem mal posicionados
para a disputa em um terreno enraizado pelos valores do produtivismo fordista e do pro-
gresso material. A visão sociopolítica tem se restringido ao esforço de ONGs, mais especi-
ficamente na atribuição de precedência ao discurso da eqüidade, com ênfase ao âmbito
das relações internacionais. O discurso econômico foi o que, sem dúvida, melhor se apro-
priou da noção até aqui, até mesmo por considerar sua preexistência na teoria do capital
e da renda de Hicks.
Mas, ao contrário dos conceitos analíticos voltados para a explicação do real, a no-
ção de sustentabilidade está submetida à lógica das práticas: articula-se a efeitos sociais de-
sejados, a funções práticas que o discurso pretende tornar realidade objetiva. Tal conside-
ração nos remete a processos de legitimação/deslegitimação de práticas e atores sociais.
Por um lado, se a sustentabilidade é vista como algo bom, desejável, consensual, a defini-
ção que prevalecer vai construir autoridade para que se discriminem, em seu nome, as
boas práticas das ruins. Abre-se, portanto, uma luta simbólica pelo reconhecimento da
autoridade para falar em sustentabilidade. E para isso faz-se necessário constituir uma au-
diência apropriada, um campo de interlocução eficiente onde se possa encontrar aprova-
ção. Poder-se-á falar, assim, em nome dos (e para os) que querem a sobrevivência do pla-
neta, das comunidades sustentáveis, da diversidade cultural etc. Em síntese: a luta em
torno a tal representação exprime a disputa entre diferentes práticas e formas sociais que
se pretendem compatíveis ou portadoras da sustentabilidade.
Para se afirmar, porém, que algo – uma coisa ou uma prática social – é sustentável,
será preciso recorrer a uma comparação de atributos entre dois momentos situados no
tempo: entre passado e presente, entre presente e futuro. Como a comparação passado-
presente, no horizonte do atual modelo de desenvolvimento, é expressiva do que se pre-
tende insustentável, parte-se para a comparação presente-futuro. Dir-se-ão então susten-
táveis as práticas que se pretendam compatíveis com a qualidade futura postulada como
desejável. E esta relação entre um presente conhecido e um futuro desconhecido e dese-

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jável coloca a noção de sustentabilidade no campo do que alguns chamam de “causali-


dade teleológica” – “que tem, como causa suficiente de um comportamento, um acon-
tecimento que contém em sua descrição a exigência de que um outro acontecimento,
chamado seu fim, aconteça” (Costa, 1994). Ou seja, a causa é definida pelo fim; a or-
dem de seqüência dos acontecimentos está embutida na condição antecedente definida
como causa. É sustentável hoje aquele conjunto de práticas portadoras da sustentabili-
dade no futuro.
O recurso a esta “causalidade teleológica” é particularmente questionável quando ela
implica reconstruir o presente à luz de supostas exigências do futuro.1 A experiência his- 1 Na causalidade teleológi-
ca, “o que não existe ainda
tórica registra exemplos no mínimo discutíveis desta atualização política do futuro: “é pode agir sobre o que é”; cf.
preciso crescer para depois distribuir”, “estabilizar a economia para depois crescer”, “sacri- Soubeyron, O., “La mer du
Sahara”, in L’Aventure Hu-
ficar o presente para conquistar o futuro” etc. Os riscos são tanto maiores quanto se sabe maine, Paris, n.1, p.27, jan-
que os que ocupam posições dominantes no espaço social também estão em posições do- vier 1995.

minantes no campo da produção das representações e idéias. Se o Estado e o empresaria-


do – forças hegemônicas no projeto desenvolvimentista – incorporam a crítica à insusten-
tabilidade do modelo de desenvolvimento, passam a ocupar também posição privilegiada
para dar conteúdo à própria noção de sustentabilidade.
Mas isto não quer dizer que a questão esteja resolvida de uma vez por todas. Ao con-
trário, autoridade e legitimidade, atributos decisivos para todos os atores que disputam o
poder de definir o que é sustentável, também dependem da maneira como estes atores ela-
boram seus discursos alternativos sobre a questão, e da força relativa que acumulam no
campo das idéias. No presente trabalho faremos um mapeamento das principais matrizes
discursivas da sustentabilidade urbana, procurando identificar as inflexões que os atores
sociais, que recorrem a esta noção, apontam para as práticas sociais de construção do es-
paço das cidades, pois o futuro das cidades dependerá em grande parte dos conceitos
constituintes do projeto de futuro construído pelos agentes relevantes na produção do es-
paço urbano.

SUSTENTABILIDADE E CIDADE

A associação da noção de sustentabilidade ao debate sobre desenvolvimento das ci-


dades tem origem nas rearticulações políticas pelas quais um certo número de atores en-
volvidos na produção do espaço urbano procuram dar legitimidade a suas perspectivas,
evidenciando a compatibilidade delas com os propósitos de dar durabilidade ao desenvol-
vimento, de acordo com os princípios da Agenda 21, resultante da Conferência da ONU
sobre Desenvolvimento e Meio Ambiente.2 Ao mesmo tempo que verificamos uma “am- 2 Várias redes internacio-
nais de municipalidades,
bientalização” do debate sobre políticas urbanas, observamos, também, um movimento notadamente européias, fo-
em sentido oposto, com a entrada crescente do discurso ambiental no tratamento das ram articuladas, a partir de
1992, com o fim de pôr em
questões urbanas, seja por iniciativa de atores sociais da cidade que incorporam a temáti- prática os preceitos globais
ca do meio ambiente, sob o argumento da substancial concentração populacional nas me- do desenvolvimento susten-
tável sob a forma de orien-
trópoles, seja pela própria trajetória de urbanização crescente da carteira ambiental dos tações práticas e tangíveis;
projetos do Banco Mundial. cf. Emelianoff, C., “Les Villes
Durables, l’émergence de
Não podemos deixar de associar também o recurso à noção de sustentabilidade ur- nouvelles temporalités dans
des vieux espaces urbains”,
bana a estratégias de implementação da metáfora cidade-empresa que projetam na “cida- in Ecologie Politique, n.13,
de sustentável” alguns dos supostos atributos de atratividade de investimentos, no contex- p.38, printemps 1995.
to da competição gobal. Conduzir as cidades para um futuro sustentável significa neste
caso “promover a produtividade no uso dos recursos ambientais e fortalecer as vantagens

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competitivas” (Durazo, 1997, p.51). Com maior ou menos vinculação às perspectivas de


planejamento “empresarial” das cidades, a noção de sustentabilidade oferecerá a oportu-
nidade para a legitimação de uma “ecocracia” emergente, favorecida em particular pela
criação de novas instâncias governativas e regulatórias voltadas para o tratamento da ques-
tão ambiental, em geral, e ambiental urbana, em particular.
No debate contemporâneo, econtraremos várias articulações lógicas entre a reprodu-
ção das estruturas urbanas e sua base especificamente material. Encontraremos, em par-
ticular, três representações basicamente distintas da cidade, às quais corresponderão tam-
bém diferentes sentidos do que se pretende legitimamente capaz de dar durabilidade à
integridade do urbano.

A REPRESENTAÇÃO TECNO-MATERIAL DAS CIDADES

Uma primeira articulação associa a transição para a sustentabilidade urbana à repro-


dução adaptativa das estruturas urbanas com foco no ajustamento das bases técnicas das
3 Pillet & Odum assim enun- cidades, com base em modelos de “racionalidade ecoenergética”3 ou de “metabolismo ur-
ciam as bases eco-energéti-
cas de uma macroeconomia
bano”. Em ambos os casos, a cidade será vista em sua continuidade material de estoques
ambiental: “O meio ambien- e fluxos.
te pode ser visto, pouco a
pouco, como um quase-se- Na perspectiva da eficiência especificamente material, a cidade sustentável será
tor da economia … e as ex- aquela que, para uma mesma oferta de serviços, minimiza o consumo de energia fóssil
ternalidades ambientais po-
dem ser definidas como e de outros recursos materiais, explorando ao máximo os fluxos locais e satisfazendo o
consequências permanen- critério de conservação de estoques e de redução do volume de rejeitos. Vigora aqui uma
tes da extração, do trata-
mento, do consumo e da representação técnico-material da cidade como uma matriz composta por um vetor de
descarga de matéria e ener-
gia. A lei de conservação da
consumo de espaço, energia e matérias-primas e um vetor de produção de rejeitos
matéria e da energia exige (Déléage, 1995, p.35). A leitura da cidade como um sistema termodinâmico aberto
que o conjunto dos rejeitos
lançado pela economia no
identificará no urbano o locus privilegiado da produção crescente de entropia, emblema
meio ambiente seja igual à da irreprodutibilidade ilimitada do processo de crescimento econômico-material.4 A in-
soma de todos os recursos
extraídos do mesmo atra- sustentabilidade urbana é, nesta perspectiva, uma expressão social da irreversibilidade
vés das atividades econô- termodinâmica. Com base em uma leitura da cidade como lugar por excelência da per-
micas”, cf. Pillet, G., Odum,
H. T., Énergie, Écologie, da de capacidade de transformação de energia em trabalho, caberia ao planejamento ur-
Économie, Genebra, 1987, bano minimizar a degradação energética e desacelerar a trajetória da irreversibilidade.
p.178-9.
Tal representação das cidades aponta para novos modelos técnicos do urbano, fundados
4 “A cidade torna-se o lugar
onde se concentram os pro-
na racionalidade econômica aplicada aos fluxos de matéria-energia. Para se reduzir o im-
blemas ambientais e sociais pacto entrópico das práticas urbanas, caberia assim adotar tecnologias poupadoras de es-
da nação”, cf. Beaucire, F.,
“La Ville Éclatée”, in Passet,
paço, matéria e energia, e voltadas para a reciclagem de materiais. A idéia de eficiência
R., Theys, J., Héritiers du Fu- ecoenergética pretende conseqüentemente estender o campo de vigência da racionalida-
tur – Aménagement du Terri-
toire, Environnement et de econômica.
Développement Durable, A ineficiência ecoenergética pode ser traduzida também em termos de distribuição
Paris: L’Aube, s.d., p.187.
“Não é impossível pensar-se espacial inadequada à economia de meios, ou seja, como o resultado de uma imprópria
que o encontro da ecologia distribuição locacional das populações e atividades no espaço urbano. A insustentabilida-
com a cidade possa concor-
rer para a requalificação de de decorreria assim das “crescentes assimetrias entre a localização espacial dos recursos e
um sentido do urbano, de
forma e identidade originais,
da população, das pressões excessivas sobre o meio físico circundante e sobre os sistemas
e subtrair a cidade da entro- ecológicos regionais” (Durazo, 1997, p.51). A sustentabilidade decorreria, neste caso, da
pia que a ronda, conferindo-
lhe um dinamismo mais po-
redistribuição espacial da pressão técnica de populações e atividades sobre a base de recur-
sitivo”, cf. Lévy, J. C., “Les sos ambientais urbanos. A problemática malthusiana é aqui inscrita no quadro urbano,
Étapes de la Métropolisa-
tion”, in Passet, R., Theys, introduzindo a “hipótese do limite da capacidade urbana” e concentrando o foco nas es-
J., op. cit., p.189. tratégias de descentralização, a saber, na distribuição de funções das metrópoles para as

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regiões, das áreas metropolitanas internas para as áreas metropolitanas periféricas, do cen-
tro para os subcentros das cidades.5 5 Cf. Omishi, T., “A Capacity
Approach for Sustainable
A concepção da sustentabilidade como trajetória progressiva em rumo à eficiência Urban Development: an Em-
ecoenergética é normalmente acompanhada da constituição de uma base social de apoio pirical Study”, in Regional
Studies, v.28.1, p.39-51.
a projetos de mudança técnica urbana, pela via da “educação ambiental”, da dissemina- Tal abordagem será ques-
ção de uma “consciência ecológica”, de projetos comunitários de reciclagem ou pelo en- tionada por aqueles que en-
tendem a cidade como “in-
gendramento de uma “economia da reciclagem”. A recusa do antagonismo entre o meio strumento da liberação das
ambiente e a economia fará também da busca da sustentabilidade urbana a ocasião de fa- atividades humanas com re-
lação à dependência dos re-
zer valer a potência simbólica do mercado como instância de regulação das cidades. Pois cursos locais”. Associar a
sustentabilidade ao respeito
se o futuro é, no pensamento hegemônico, o da plena vigência das instituições mercan- à "capacidade de suporte lo-
tis, dirigir as cidades para um futuro sustentável significa promover a produtividade ur- cal" é constranger o debate
a um quadro teórico muito
bana e fortalecer as vantagens competitivas. limitado, cf. Camagni, R.,
Etratégias argumentativas de ordem global serão, com freqüência, acionadas para “Pour Une Ville Durable”, in
Camagni, R., Gibelli, M. C.,
promover inovações na matriz técnica das cidades,6 seja com a introdução de tecnologias Développement Urbain Dura-
urbanas poupadoras de recursos, seja com a redistribuição espacial de populações e ativi- ble – Quatre Métropoles Eu-
ropéennes, Paris: DATAR/
dades: o que é bom para o planeta é considerado bom para a cidade. A convergência en- L’Aube, 1997, p.9.
tre sustentabilidade urbana local e sustentabilidade global é vista geralmente como um
6 “A argumentação ecológi-
simplificador político, posto que no plano local os responsáveis pela poluição e as autori- ca contribui para ligar a
ação mais imediata ao futu-
dade políticas são claramente identificáveis. ro de mais longo prazo de
Um contradiscurso opõe, no entanto, sustentabilidade global e sustentabilidade lo- todo o planeta. As mudan-
ças de escala operadas
cal urbana – o que é bom para o planeta não seria o melhor para a cidade. Por um lado, através do esquema das
as economias de escala de transporte, iluminação e calefação nas cidades concentradas re- conseqüências generaliza-
das não são apenas espa-
duzem o consumo per capita de energia, favorecendo as estratégias de sustentabilidade ciais mas também tempo-
global. Por outro, se a capacidade de regeneração dos ecossistemas é constante por unida- rais: toda ação engaja o
futuro, tanto o nosso como
de de extensão territorial, as cidades concentradas sofrem efeitos indesejáveis com a ele- o das gerações futuras. A
vação da densidade territorial da produção de rejeitos, compromentendo a sustentabili- argumentação ecológica
permite assim um movimen-
dade em nível local. Neste caso, a busca de ecoeficiência seria motivada por razões to constante de ida e vinda
entre o passado, o presente
atinentes ao próprio “urbano” e não por razões de ordem planetária. Em ambos estes ca- e o futuro”, in Lafaye, C.,
sos, no entanto, com convergência ou divergência entre sustentabilidade urbana e global, Thévenot, L., “Une Justifica-
tion Écologique? – Conflits
a ecoeficiência será legitimada como eixo das estratégias de ação, e o mercado será consi- dans l’Aménagement de la
derado seu melhor instrumento. Nature”, Revue Française de
Sociologie, XXXIV, p.504,
A idéia de insustentabilidade energética das cidades não é restrita às grandes me- 1993. Na mesma direção
trópoles com alta concentração demográfica, mas também estende-se à cidade “frag- Emalionoff afirma que “as
cidades sustentáveis cons-
mentada” e “desdensificada” da “sociedade imaterial": “a desdensificação dos homens e troem pontes e passagens
a fragmentação policêntrica das atividades”, afirma Beaucire, “são dispendiosas em re- que levam do local ao global
e nos convidam a compreen-
cursos materiais e produtoras de poluição e efeitos nocivos” (cf. Beaucire, “La Ville der esta nova arquitetura”,
in “Les Villes Durables,
Éclatée”, in Passet & Theys, s.d., p.191). Em acréscimo, “a cidade fragmentada e des- l’émergence de nouvelles
densificada é vista como geradora de consumo energético e de custos de reordenamen- temporalités”, Ecologie Poli-
tique, n.13, p.39, printemps
to de redes técnicas (água, eletricidade, telefonia) e de serviços públicos muito elevados” 1995.
(idem, p.192).
Mas o ajustamento das bases tecno-materiais da cidade pode fundar-se alternativa-
mente em modelos de metabolismo urbano, com uma representação ecossistêmica das ci-
dades, composta por movimentos interativos de circulação, troca e transformação de re-
cursos em trânsito. O discurso sobre a sustentabilidade das cidades organiza-se, neste
caso, pelo recurso à metáfora biológica da “resiliência”, que procura descrever a capacida-
de adaptativa dos “ecossistemas urbanos” para superarem a sua condição de vulnerabili-
dade ante a choques externos (Godard, 1996, p.33). Neste tipo de representação, a insus-

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D I S C U R S O S D A S U S T E N T A B I L I D A D E

tentabilidade expressaria a incapacidade de reprodução adaptativa das estruturas urbanas


diante de rupturas nas condições materiais requeridas para tal reprodução.
A idéia de metabolismo urbano aponta para um modelo de equilíbrio a ser obtido
pelo ajustamento apropriado dos fluxos e estoques de matéria e energia. As estratégias de
inscrição do desenvolvimento urbano nos quadros científicos de um saber objetivo sobre
fluxos e supostos equilíbrios tendem a materializar-se em um conjunto de normas técni-
cas. Consideradas, porém, as incertezas prevalecentes no saber sobre processos interativos
de tal forma complexos em sua espaço-temporalidade, sob cada conjunto de normas de
“equilíbrio” estarão implícitos elementos de valores, preferências e “convenções” que, le-
gitimados pela ciência, estarão lançando as bases políticas da coordenação de antecipações
e estabilização de cenários de ação (idem, p.32).
Processos de “reestruturação ecourbana” poder-se-ão inscrever assim nos mecanis-
mos de “cientificização da política”, pelos quais os experts da Ecologia Científica estendem
seu campo de ação à gestão dos ecossistemas e à produção dos “fundamentos racionais da
organização do território”. A cientificização do debate sobre o “equilíbrio ecológico” su-
posto tem por resultado a constituição da necessidade política de uma gestão erudita do
território, refletindo o fato de que novos modos institucionalizados de produção do saber
7 Cf. Fabiani, J. L., “Science
des Écosystèmes et Protec- são induzidos pela intensificação da relação entre as burocracias públicas e os representan-
tion de la Nature”, in Cado-
ret, A. (Ed.), Protection de
tes do saber ecológico.7
La Nature: Histoire et Idéolo- Certos autores recusar-se-ão, porém, a pensar a sustentabilidade urbana como pro-
gie, Paris: Ed. L’Harmattan,
1985, p.87-8.
cesso espacialmente circunscrito, que pressupõe a irrelevância dos fluxos materiais que li-
gam as cidades aos espaços não-urbanos. Considerando-se a cidade como consumidora de
8 Cf. Mitlin, D., Satterth-
waite, D., “Sustainable De- recursos naturais e de espaço para a deposição de rejeitos, bem como a complexidade dos
velopment and Cities”, in laços urbanos-rurais, afirmar-se-á que “o desenvolvimento urbano sustentável e o desen-
Pough, C. (Ed.), Sustainabili-
ty, the Environment and Ur- volvimento rural sustentável não podem ser separados”.8 Alguns chegarão mesmo a negar
banization, London: Earth- a possibilidade de conceber “cidades sustentáveis”, considerando irrealista a pretensão de
scan, 1996, p.41.
se restringir o raio de abrangência dos fluxos de matéria e energia requeridos pelo desen-
9 Cf. Pough, C., “Introduc-
tion”, in Pough, C. (Ed.), op.
volvimento urbano ao espaço circunscrito das cidades.9
cit., 1996, p.35.

10 “Nós vimos que o poder,


A CIDADE COMO ESPAÇO DA “QUALIDADE DE VIDA”
nestes tempos modernos,
provoca mais conflitos do
que os que controla, e sozi- Uma nova matriz técnica das cidades é também pensada por razões de “qualidade de
nho não pode salvar o meio vida” – componentes não mercantis da existência cotidiana e cidadã da população urba-
ambiente. É preciso que um
movimento ascético espon- na, notadamente no que se refere às implicações sanitárias das práticas urbanas. Modelos
tâneo se oponha ao desen- de ascetismo e pureza10 são evocados para questionar as bases técnicas do urbano – o ur-
volvimento econômico. De-
vemos encontrar uma es- bano crescentemente impregnaria os habitantes das cidades com substâncias nocivas e tó-
pécie de estrutura constitu-
cional que, sistematica-
xicas por sua artificialidade. As implicações sanitárias podem, alternativamente, ser asso-
mente, contraponha-se ao ciadas a representações coletivas da cidadania, em que as emissões líquidas e gasosas
desenvolvimento industrial,
reportando cada decisão à
resultantes das tecnologias urbanas são entendidas como imposição de consumo forçado
pureza do meio ambiente, de produtos invendáveis das atividades da produção mercantil ou do modo de consumo
comportamento que obtém
sua legitimidade de um en- das mercadorias, notadamente dos veículos automotores.
gajamento resolutamente as- Tal representação da cidadania urbana tende a espraiar-se para o conjunto das políticas
cético do povo”, cf. Douglas,
M., “A quelles conditions un urbanas, justificando estruturas que favorecem o desenvolvimento do diálogo e da negocia-
ascétisme environnemental- ção, bem como a realização de pactos de atribuição de sentido à duração das cidades, não só
iste peut-il réussir?”, in Bourg,
D. (Ed.), La Nature en Poli- em sua materialidade, mas como institucionalidade sociopolítica (Emelionoff, 1995, p.48-9).
tique ou l’enjeu philoso-
phique de l’ecologie, Paris:
Uma noção de sustentabilidade associada à categoria patrimônio refere-se não só à ma-
L’Harmattan, 1993, p.117-8. terialidade das cidades, mas a seu caráter e suas identidades, a valores e heranças construí-

84 R. B. ESTUDOS URBANOS E REGIONAIS Nº 1 / MAIO 1999


H E N R Y A C S E L R A D

dos ao longo do tempo. A perspectiva de fazer durar a existência simbólica de sítios cons-
truídos ou sítios naturais “significados”, eventualmente “naturalizados”, pode inscrever-se
tanto em estratégias de fortalecimento do sentimento de pertencimento dos habitantes a
suas cidades, como de promoção de uma imagem que marque a cidade por seu patrimô-
nio biofísico, estético ou cultural, em sentido amplo, de modo a atrair capitais na compe-
tição global (idem, p.46-7), realizando aquilo que alguns descrevem como um processo de
promoção da “economia da beleza em nome da beleza da economia” (Costa, 1997).
A noção de sutentabilidade urbana pode também articular as estratégias argumenta-
tivas da eficiência ecoenergética e da qualidade de vida na consideração da forma urbana co-
mo “fator determinante da sustentabilidade” (Breheny & Rookwood, 1996, p.151). A no-
ção de “cidade compacta” reuniria, na perspectiva de documentos da Comissão das
Comunidades Européias, por exemplo, os atributos de “alta densidade e uso misto, ten-
dendo a apresentar superior eficiência energética por reduzir as distâncias dos trajetos, ma-
ximizar a oferta de transporte público e prover qualidade de vida superior aos residentes”
(idem, p.155). A metáfora da cidade compacta teria como configuração formal tenden-
cialmente mais aceita a do modelo policêntrico em rede, com diversificação de funções dos
subcentros bem servidos em transportes públicos (Camagni & Gibelli, 1997, p.33). Sua
capacidade de conjugar a eficiência no uso dos recursos ambientais e a qualidade da vida
urbana não é porém consensual. Alguns argüirão, ao contrário, que eficiência energética e
qualidade de vida são atributos das cidades pouco densas e descentralizadas, por recorre-
rem a fontes locais de energia e de produção de alimentos em solos rurais disponíveis.11 11 Cf. Robertson, J., “Alter-
natives Futures for Cities”, in
Em ambos os casos, recorrer-se-á ao argumento de que a forma sustentável deverá Cadman, D., Payne, G. (Eds.),
mesclar, ainda que em escalas distintas, zonas de trabalho, moradia e lazer, reduzindo dis- The Living City: Towards a
Sustainable Future, apud
tâncias e “pedestrizando” as cidades, de modo a frear a mobilidade da energia, das pessoas Blowers, A. (Ed.), Planning
e bens. Eficiência ecoenergética e qualidade de vida resultariam, nesta perspectiva, da for a Sustainable Environ-
ment, Londres: Earthscan,
emergência de formas urbanas capazes de expressar a existência desejavelmente crescente 1996, p.155.
de cidades autosuficientes. O argumento da forma urbana articula-se assim com a idéia
da auto-suficiência urbana. No caso da sustentabilidade do desenvolvimento em geral, o
argumento da autosuficiência remete a uma crítica do livre mercado e da globalização; no
caso da autosuficiência urbana, trata-se de, em nome do combate ao efeito estufa e aos
processos entrópicos, orientar-se para maior autonomia energética e econômica das loca-
lidades.12 Uma recusa da globalização das cidades justificar-se-á assim, do ponto de vista 12 Os autores que rejeitam
a noção de “cidades susten-
das externalidades negativas e deseconomias energéticas implícitas, na intensificação dos táveis”, preferindo articular
fluxos, própria das chamadas “cidades globais”. as cidades no projeto mais
amplo de atribuição de sus-
tentabilidade ao desenvolvi-
A CIDADE COMO ESPAÇO DE LEGITIMAÇÃO DAS POLÍTICAS URBANAS mento, consideram, por sua
vez, “irrealista esperar que
as grandes cidades sejam
Sendo a materialidade das cidades politicamente construída, as modalidades de sua abastecidas com recursos
produzidos em seu entorno
reprodução são vistas também como dependentes das condições que legitimam seus pres- imediato”; cf. Pough, C.,
“Introduction”, in Pough, C.,
supostos políticos. A idéia de sustentabilidade é, assim, aplicada às condições de repro- op.cit., 1996, p.35.
dução da legitimidade das políticas urbanas. Fala-se da viabilidade política do crescimen-
to urbano, ou seja, das condições de construção política da base material das cidades. A
insustentabilidade exprime, assim, a incapacidade das políticas urbanas adaptarem a ofer-
ta de serviços urbanos à quantidade e qualidade das demandas sociais, provocando um
“desequilíbrio entre necessidades quotidianas da população e os meios de as satisfazer, en-
tre a demanda por serviços urbanos e os investimentos em redes e infra-estrutura” (Go-
dard, 1996, p.31).

R. B. ESTUDOS URBANOS E REGIONAIS Nº 1 / MAIO 1999 85


D I S C U R S O S D A S U S T E N T A B I L I D A D E

Acredita-se que quando o crescimento urbano não é acompanhado por investimen-


tos em infra-estrutura, a oferta de serviços urbanos não acompanha o crescimento da de-
manda. A falta de investimentos na manutenção dos equipamentos urbanos virá, por sua
vez, acentuar o déficit na oferta de serviços, o que se rebaterá espacialmente sob a forma
de segmentação socioterritorial entre populações atendidas e não-atendidas por tais ser-
13 A articulação da susten- viços.13 Este processo exprime-se sob a forma de uma “queda da produtividade política
tabilidade urbana em princí-
pios de eqüidade pode si-
dos investimentos urbanos”, incrementando os graus de conflito e incerteza no processo
tuar-se em esferas locais ou de reprodução das estruturas urbanas. A base técnico-material da cidade é vista então co-
expandir-se para o plano in-
ternacional. “Em suma, o mo socialmente construída, no interior dos limites de elasticidade das técnicas e das von-
desenvolvimento urbano sus- tades políticas.
tentável liga-se à questão da
igualdade econômica e à da A insustentabilidade estaria, portanto, designando um processo de instabilização das
desigual divisão internacio- bases de legitimidade dos responsáveis pelas políticas urbanas, aos quais se pode reprovar,
nal do trabalho”; cf. Angotti,
T., “Latin American Urbani- por um lado, a incapacidade de imprimir eficiência na administração dos recursos públi-
zation and Planning – Inequa-
lity and Unsustainability in
cos ou, por outro, a indisposição para democratizar o acesso aos serviços urbanos.
North and South”, in Latin A erosão da legitimidade das políticas urbanas pode fundar-se, assim, na insuficien-
American Perspectives, issue
91, v.23, p.21, fall 1996.
te adesão à racionalidade econômica, causa suposta do desperdício da base de recursos ou,
alternativamente, na ausência de priorização de mecanismos distributivos do acesso a tais
serviço. O impacto material das políticas será, conseqüentemente, contestado, seja pelo
ângulo do desperdício de meios, seja pelo da concentração socioterritorial dos benefícios.
Mas a desigualdade social no acesso aos serviços urbanos é evocada para questionar
a legitimidade das políticas urbanas igualmente nas chamadas “cidades imateriais”, que es-
tariam aparentemente ao abrigo de pressões indesejáveis sobre os fluxos de matéria e ener-
gia. Os espaços desindustrializados e deslocalizados pelo capital, afirma Beaucire (s.d.,
p.196), também terminariam por ser esvaziados em sua “urbanidade”, fazendo que “a des-
qualificação social e a desqualificação ambiental progridam juntas, fazendo renascer o que
se acreditava definitivamente superado, a insalubridade física e uma forma de gueto eco-
nômico e cultural no seio das cidades que são, entretanto, penetradas por redes técnicas
com desempenho crescente”. Acredita-se que “a alocação social e espacial dos custos en-
gendrados pelas crises do desenvolvimento insustentável da cidade desdensificada será de
realização delicada, a questão do desenvolvimento sustentável urbano correndo o risco de
ser antes de tudo uma questão social” (idem, p.200).
A crise de legitimidade das políticas urbanas poderá ser atribuída também à incapa-
cidade de se fazer frente aos riscos tecnológicos e naturais. Na perspectiva da eqüidade, o
risco culturalmente construído apontará a desigualdade intertemporal no acesso aos servi-
ços urbanos, com a prevalência de riscos técnicos para as populações menos atendidas pe-
los benefícios dos investimentos públicos ou afetada pela imperícia técnica na desconside-
ração de especificidades do meio físico das cidades tais como declividades, acidentes
topográficos, sistemas naturais de drenagem, movimentações indevidas de terra, renovação
de solo superficial, formação de voçorocas, erosão e assoreamento (Silva, s.d., p.72-91).

CONCLUSÃO

Se para Isabelle Stengers o conceito traduz o poder do intelecto de atingir o ser das
coisas (Stengers & Schlanger, 1988, p.24-7), ele tem também o poder de objetivar repre-
sentações, fazendo valer como legítimos, no real concreto, os esquemas ordenadores e
classificatórios da construção intelectual. A enunciação conceitual é, portanto, também
produtora de ordenamento, divisão e classificação no interior do mundo social.

86 R. B. ESTUDOS URBANOS E REGIONAIS Nº 1 / MAIO 1999


H E N R Y A C S E L R A D

“As percepções do social”, lembra-nos Chartier, “não são discursos neutros”. Produ-
zem estratégias e práticas que tendem a impor uma autoridade à custa de outras, a legiti-
mar projetos reformadores ou a justificar, para os próprios indivíduos, as suas escolhas e
condutas (Chartier, 1990, p.17). Conseqüentemente, “os esquemas geradores das classi-
ficações e das percepções, próprios de cada grupo ou meio, são verdadeiras instituições so-
ciais que incorporam sob a forma de categorias mentais e de representações coletivas as
demarcações da própria organização social” (idem, p.18).
Associar a noção de “sustentabilidade” à idéia de que existe uma forma social durá-
vel de apropriação e uso do meio ambiente dada pela própria natureza das formações bio-
físicas significa ignorar a diversidade de formas sociais de duração dos elementos da base
material do desenvolvimento.
Colocar o debate sobre sustentabilidade fora dos marcos do determinismo ecológico
implica, portanto, afastar representações indiferenciadoras do espaço e do meio ambien-
te, requer que se questione a idéia de que o espaço e os recursos ambientais possam ter um
único modo sustentável de uso, inscrito na própria natureza do território. A perspectiva
não determinística, portanto, pressupõe que se diferencie socialmente a temporalidade dos
elementos da base material do desenvolvimento. Ou seja, que se reconheça que há várias
maneiras de as coisas durarem, sejam elas ecossistemas, recursos naturais ou cidades.14 14 “O que chamamos de
duração é o envelope de to-
As diferentes representações sobre o que seja a sustentabilidade urbana têm aponta- das as temporalidades pos-
do para a reprodução adaptativa das estruturas urbanas com foco alternativamente colo- síveis. Convém que o de-
senvolvimento seja durável
cado no reajustamento da base técnica das cidades, nos princípios que fundam a cidada- para que o homem ele mes-
nia das populações urbanas ou na redefinição das bases de legitimidade das políticas mo possa durar na diversi-
dade de suas culturas. A
urbanas (ver Quadro 1). A representação que privilegia a leitura da cidade como matriz cidade, enquanto lugar da
tecno-material propõe a recomposição das cidades com base em modelos de eficiência cidadania, é hoje o lugar
da enunciação da responsa-
ecoenergética ou de equilíbrio metabólico aplicados à materialidade do urbano. A redução biliade de cada um com res-
peito a todos”; cf. Micoud,
da durabilidade da cidade à sua dimensão estritamente material tende a descaracterizar a A., “L’Écologie Urbaine –
dimensão política do espaço urbano, desconsiderando a complexidade da trama social res- Nouvelles Scènes d’Énoncia-
tion”, in Écologie et Politique,
ponsável tanto pela reprodução como pela inovação na temporalidade histórica das cidades. Paris, n.7, p.42, été 1996.

Quadro 1 – Matrizes discursivas da sustentabilidade urbana


1 Representação tecno-material da cidade
1.1. Modelo da racionalidade ecoenergética
1.2. Modelo do equilíbrio metabólico

2 A cidade como espaço da “qualidade de vida”


2.1. Modelo da pureza
2.2. Modelo da cidadania
2.3. Modelo do patrimônio

3 A reconstituição da legitimidade das políticas urbanas


3.1. Modelo da eficiência
3.2. Modelo da eqüidade

As propostas de reprodução adaptativa das estruturas urbanas que têm como refe-
rência a noção de qualidade de vida, estruturam-se segundo o modelo da pureza, da ci-
dadania ou do patrimônio. A cidade é vista assim como espaço das externalidades negati-
vas cujo equacionamento se dará na temporalidade do processo de construção de direitos,

R. B. ESTUDOS URBANOS E REGIONAIS Nº 1 / MAIO 1999 87


D I S C U R S O S D A S U S T E N T A B I L I D A D E

sejam direitos ao que serão consideradas condições saudáveis de existência, sejam direitos
ao usufruto durável da existência simbólica de sítios urbanos. A palavra cidadania retor-
na assim a seu espaço de origem – a cidade –, sobrepondo-se ao sentido até aqui domi-
nante, referido ao Estado-Nação.
As propostas de reprodução adaptativa das estruturas urbanas, que têm por foco o
reajustamento das bases de legitimidade das políticas urbanas, procuram, por sua vez, re-
fundar o projeto urbano segundo o modelo da eficiência ou da eqüidade. Em ambos os
casos, estará em jogo a cidade como espaço de construção durável de pactos políticos ca-
pazes de reproduzir no tempo as condições de sua legitimidade. Ao promover uma arti-
culação “ambiental” do urbano, o discurso da sustentabilidade das cidades atualiza o em-
bate entre “tecnificação” e politização do espaço, incorporando, desta feita, ante a
consideração da temporalidade das práticas urbanas, o confronto entre representações tec-
Henri Acselrad é econo-
mista, doutor em Economia nicistas e politizadoras do tempo, no interior do qual podem conviver, ao mesmo tempo,
pela Universidade de Paris I
e professor do IPPUR/UFRJ.
projetos voltados à simples reprodução das estruturas existentes ou a estratégias que cul-
E-mail: acsel@ibm.net tivem na cidade o espaço por excelência da invenção de direitos e inovações sociais.

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A B S T R A C T The idea of sustainability recalls the logic of practice, where practical


effects viewed as desirable are made to happen, rather than the field of scientific knowledge,
where concepts are constructed to explain reality. When applied to urban space, the idea of sus-
tainability has generated different representations and perspectives for managing cities, from
the administration of risks and uncertainties to the increase of “resilience” – the adaptive ca-
pacity – of urban structures. What seems to organize analytically the discourse of “urban sus-
tainability” is its division into two fields: on the one hand privileging a technical representa-
tion of cities by combining the notion of urban sustainability with the “modes of management
of the flows of energy and materials associated with urban growth”; on the other hand defin-
ing the unsustainability of cities by the drop in productivity of urban investments, that is, by

R. B. ESTUDOS URBANOS E REGIONAIS Nº 1 / MAIO 1999 89


D I S C U R S O S D A S U S T E N T A B I L I D A D E

the “incapacity of the latter to keep up with the rate of growth of social demands”, which con-
sequently places urban space in jeopardy as a political territory.

K E Y W O R D S Sustainability; urban planning; environmental politics.

90 R. B. ESTUDOS URBANOS E REGIONAIS Nº 1 / MAIO 1999


O PARADIGMA DAS GLOBAL
CITIES NAS ESTRATÉGIAS DE
DESENVOLVIMENTO LOCAL
ROSE COMPANS

R E S U M O Este artigo trata das novas estratégias de desenvolvimento econômico para


as cidades no contexto da reestruturação produtiva. Ele enfoca o papel atribuído às cidades co-
mo centros de gestão dos fluxos de capitais, o qual permite uma articulação entre o local e o
global sem a intermediação das esferas regional e nacional. Primeiramente, apresenta as con-
tribuições teóricas no Terceiro Mundo que mais têm influenciado o debate urbano sobre a
emergência de uma economia de fluxos, cuja organização em rede impõe as cidades como nós
de conexão. Em seguida, analisa a construção paradigmática das global cities, com base na
generalização de alguns pressupostos teóricos e de tendências empiricamente observadas. Final-
mente, examina as estratégias que estão sendo difundidas por consultores internacionais e re-
lacionadas à vocação inexorável das cidades para o terciário avançado.* * Trabalho selecionado da
sessão temática 4 – “Urba-
no e regional: que novas ter-
PA L AV R A S - C H AV E Desenvolvimento local; gestão urbana; globalização; cidades mundiais. ritorialidades?”

INTRODUÇÃO

O debate sobre as estratégias de desenvolvimento local no quadro de reestruturação


da economia mundial tem sido marcado pela redefinição do papel das cidades face o pro-
cesso de descentralização produtiva e recentralização do controle sobre os fluxos de capi-
tais, mercadorias e informações, com a constituição de novas hierarquias urbanas e terri-
toriais. A emergência de uma nova economia de fluxos conferiria às cidades as funções de
comando e produção de serviços altamente especializados, requeridos para o monitora-
mento dos investimentos realizados no exterior pelas grandes corporações internacionais.
Um enorme esforço teórico vem sendo produzido a fim de identificar as caracterís-
ticas destas “cidades globais”, e o lugar que ocupam dentro desta nova ordem econômi-
ca mundial. Entretanto, algumas características e tendências identificadas por investiga-
ções científicas – que se utilizaram de pesquisas empíricas relativas a algumas das grandes
metrópoles americanas e européias – têm sido apropriadas como o futuro inexorável das
cidades, de uma forma geral, constituindo-se, assim, como um paradigma, um objetivo
a ser perseguido por todas as localidades que pretendam inserir-se nos fluxos econômi-
cos globais, fora dos quais não há esperança.
A disseminação deste paradigma estimula a competição interurbana e um mercado
de modelos de gestão, que são ofertados por consultores internacionais interessados em
divulgar experiências supostamente de sucesso, e demandados por administrações muni-
cipais interessadas em promover o desenvolvimento econômico local, pelo cumprimen-
to de uma agenda “estratégica” com a qual possam assegurar a inserção competitiva de
suas cidades.

R. B. ESTUDOS URBANOS E REGIONAIS Nº 1 / MAIO 1999 91


O P A R A D I G M A D A S G L O B A L C I T I E S

O objetivo do presente trabalho é o de rever os pressupostos constituintes deste pa-


radigma das global cities, buscando estabelecer mediações possíveis com a realidade dos
países “periféricos”, de maneira a conduzir uma reflexão crítica sobre a pertinência do dis-
curso único produzido a respeito das estratégias de desenvolvimento local, nele teorica-
mente referenciadas.
Para tanto, iniciaremos com uma exposição bastante sintética de algumas das prin-
cipais contribuições teóricas acerca do novo “protagonismo” das cidades no contexto da
globalização e de um novo ciclo de desenvolvimento impulsionado pelas novas tecnolo-
gias da informação que mais têm alimentado as discussões na América Latina sobre o fu-
turo das cidades. Procuraremos enfatizar as distintas abordagens e os aspectos nos quais
elas divergem, em particular quanto à especialização funcional das cidades que, como ve-
remos, varia de acordo com o acento colocado ora no aspecto determinante da oferta da
infra-estrutura de telecomunicações, ora na existência de um mercado de trabalho quali-
ficado e inovador ou, ainda, na existência de sistemas de controle herdados do período
anterior, como o são as principais bolsas de valores.
Em seguida, passaremos à análise da maneira pela qual estas abordagens se deslocam
do contexto histórico, particular e concreto da realidade dos países centrais no qual foram
formuladas para abranger o conjunto da economia e das sociedades. O duplo movimen-
to de generalização de tendências observadas – tanto na organização empresarial de deter-
minadas atividades econômicas, quanto na especialização financeira e de serviços avança-
dos de algumas metrópoles – é autorizado pela hipótese teórica da interdependência
cultural e econômica global, bem como pela suposta evidência empírica de sua manifes-
tação em sociedades asiáticas e latino-americanas.
Finalmente, na terceira parte deste ensaio enfocaremos as estratégias de desenvolvi-
mento local que, com base em uma construção paradigmática sobre o papel econômico
das cidades na globalização, visam antecipar as tendências anunciadas, oferecendo ao ca-
pital todas as condições materiais e imateriais para sua mobilidade e gestão, de forma a
estimular a localização dos centros de decisão empresarial no interior delas. A subordina-
ção reconhecida, e passivamente aceita, à lógica por vezes especulativa da mobilidade do
capital, e a negligência quanto às especificidades locais e nacionais e quanto ao caráter re-
gressivo dos investimentos públicos propostos são alguns dos aspectos mais surpreenden-
tes destas estratégias.

ECONOMIA DE FLUXOS, GEOGRAFIA DE REDES

Uma primeira abordagem do novo papel das cidades é aquela que acentua sua gêne-
se à emergência de um novo modelo de organização sociotécnica da produção com a in-
trodução das novas tecnologias da informação simultaneamente à restruturação do capi-
talismo, em particular no que concerne ao processo de internacionalização do capital que,
juntos, estariam conformando um novo “espaço de fluxos” em substituição ao “espaço dos
lugares”. O elemento central da produtividade no novo modo de desenvolvimento infor-
macional, que sucede ao industrial, baseia-se agora na qualidade do conhecimento e no
processamento da informação, convertida ao mesmo tempo em matéria-prima e produ-
to, e não mais nas fontes de energia e na qualidade do seu uso como no modelo anterior.
Este novo paradigma tecnológico é o ponto de partida da démarche de Castells em
The Informational City, cujas características organizacionais estariam redesenhando a geo-
grafia econômica mundial – entre elas, o aprofundamento da divisão histórica entre tra-

92 R. B. ESTUDOS URBANOS E REGIONAIS Nº 1 / MAIO 1999


R O S E C O M P A N S

balho manual e intelectual, com a crescente concentração de processos de geração de co-


nhecimento e tomada de decisões em organizações de alto nível, consideradas as únicas
indispensáveis, concomitantemente à precarização das relações salariais do trabalho de
execução de tarefas, dispersão espacial, subcontratação ou automação.
Analisando as estratégias de localização das indústrias de semicondutores e de infor-
mática americanas, ele observa que, enquanto muitas delas mantiveram suas sedes em seus
locais de origem, onde desenvolveram centros internos de investigação científica (IBM,
ATT-Bell e Motorola), outras buscaram a proximidade de complexos universitários impor-
tantes como Harvard, Stanford e Berkeley ou, como no caso específico da indústria de
software, a proximidade a determinados centros urbanos que ofereciam serviços financei-
ros e um “meio de informação” criativo, capaz de gerar novas idéias e novas técnicas pelo
intercâmbio e a interação de elementos concentrados espacialmente em uma rede própria
de relações sociais.
Em ambas, nota que os aspectos da acessibilidade e da qualidade de vida oferecidos
são igualmente cruciais para a escolha da localização das sedes empresariais e dos centros
de produção chaves. Esta localização corresponde a centros nodais de uma rede de teleco-
municações e transporte aéreo que permitem às empresas descentralizar atividades de fa-
bricação com vistas ao incremento de rentabilidade e expansão de mercados, mas também
atende às exigências sofisticadas de consumo do pessoal altamente qualificado, do qual
depende o desenvolvimento das indústrias baseadas na informação. Contrariamente ao
modelo industrial tradicional, verticalizado, em que os fatores de localização eram custo
de transporte e abundância de matéria-prima, a segmentação interna do processo produ-
tivo proporcionado pelas novas tecnologias da informação permite às novas indústrias
operarem em escala mundial por meio de redes telemáticas.
Esta dialética entre descentralização e necessidade de centralização, que fortalece ho-
je o papel econômico das grandes metrópoles, Castells identifica também no setor de ser-
viços à produção, sobretudo naqueles intensivos em informação, como bancos, seguros,
consultorias diversas, contabilidade, advocacia, agências comerciais, entre outros, que re-
presentavam 13,9% do emprego americano em 1985, dos quais 39% encontravam-se nas
24 maiores áreas metropolitanas. Os escritórios centrais das grandes empresas prestadoras
de serviços em escala nacional e internacional tendem a se concentrar nos distritos finan-
ceiros das grandes metrópoles, que dispõem de linhas de comunicação de larga distância
em fibra ótica e permitem o acesso aos satélites de telecomunicações por meio de estações
terrestres (teleportos) e que podem ser compartilhadas por várias empresas em redes lo-
cais ou edifícios inteligentes.
Além do acesso às redes de fibra ótica, em distritos financeiros como Manhattan cir-
culam “microfluxos de informação”, ou seja, intercâmbios ocasionais e informação não-
pública, que se traduzem em posições de competitividade privilegiada, domínio sobre as
estratégias dos concorrentes e tomadas de decisões mais apropriadas. Castells chega mes-
mo a afirmar que o fato de as empresas de valores superarem os bancos comerciais como
centros nevrálgicos do processo de acumulação demonstra que sua ênfase hoje repousa
menos nos desenvolvimentos internos das grandes empresas financeiras e mais no am-
biente de intercâmbios tecido em torno dos mercados financeiros, com seu núcleo na
bolsa de valores.
A contribuição de Saskia Sassen (1995;1996) neste debate será fundamental, porque
ela se utiliza de grande parte da démarche de Castells, mas a ultrapassa colocando de lado
um certo determinismo tecnológico aí presente, para acentuar o fenômeno da expansão

R. B. ESTUDOS URBANOS E REGIONAIS Nº 1 / MAIO 1999 93


O P A R A D I G M A D A S G L O B A L C I T I E S

da indústria financeira, decorrente da extraordinária mobilidade do capital induzida pela


dispersão geográfica do setor industrial, não apenas por deslocamentos massivos de plan-
tas industriais, mas, sobretudo, graças à transnacionalização da propriedade por intermé-
dio do investimento estrangeiro direto (IED) em ações, bem como por fusões, aquisições
e formação de joint ventures.
Esta mobilidade engendrou uma demanda das grandes sociedades dos países indus-
trializados por certos tipos de produção essenciais para assegurar a gestão e o controle des-
ta “rede mundial de sítios de produção”, do qual o desenvolvimento das telecomunica-
ções é apenas um entre muitos requisitos. Os serviços altamente especializados são os
novos inputs básicos para a gestão, tornada cada vez mais complexa, de uma rede de usi-
nas, escritórios e mercados financeiros secundários, e incluem a produção de um vasto
conjunto de novidades para estes setores. Por outro lado, a mudança ocorrida no perfil do
mercado financeiro no decorrer da década de 1980, com a participação crescente e proli-
feração de instituições como fundos de pensão, companhias de seguro e pequenas socie-
dades, renovando e ao mesmo tempo expandindo este mercado, igualmente irá deman-
dar e produzir novos serviços especializados.
Sassen identifica no fenômeno da “bolsificação” dos capitais, isto é, na transforma-
ção dos diferentes tipos de ativos e dívidas em instrumentos de mercado, o veículo desta
evolução e da expansão concomitante do volume global dos mercados financeiros. O cres-
cimento dos investimentos em ações foi inversamente proporcional ao declínio dos em-
préstimos bancários. O fator central desta transformação foi a emissão de títulos pelas
grandes sociedades, seguidas pelas de tamanho médio, que descobriram nesta uma forma
mais barata de obter recursos financeiros do que recorrendo aos bancos.
Além disso, a dispersão geográfica do setor industrial vai engendrar a internaciona-
lização do setor de serviços, num movimento de acompanhamento de abertura de filiais
no exterior, ainda que em uma escala muito mais reduzida. Isto porque, com a descen-
tralização da produção, as unidades fabris irão requerer o fornecimento de serviços espe-
cíficos nos quais a proximidade a elas próprias e aos mercados de consumo, e o domínio
da legislação nacional são imprescindíveis, como as atividades ligadas ao comércio exte-
rior, publicidade e marketing, contabilidade, consultorias jurídicas, manutenção de equi-
pamentos etc.
Os pontos nodais de todas estas redes complexas são em Sassen, como em Castells,
as grandes metrópoles, porém não somente pela infra-estrutura de telecomunicações de
que dispõem, e pelo “meio de inovação” e a qualidade de vida que oferecem às funções de
comando, concepção e gestão das grandes empresas multinacionais. Em Sassen, estes “sí-
tios de controle específicos”, aos quais denomina de “cidades globais”, são principalmen-
te praças financeiras e lugares de produção de serviços especializados que dão capacidade
de controle mundializado.
É o complexo de empresas prestadoras de serviços à produção, mais do que as sedes
sociais das grandes corporações multinacionais, que mais tira proveito das economias de
aglomeração proporcionadas pela localização metropolitana e mesmo dela tem necessida-
de, na medida em que funciona como um sistema de produção em que estão presentes
relações de interdependência que não podem prescindir da proximidade física. Sassen
lembra, como exemplo, que a produção de um instrumento financeiro requer hoje um tal
número de inputs – de contabilidade, publicidade, consultoria jurídica, econômica, relações
públicas, designers etc. – que tornar-se-ia praticamente impossível produzi-lo isoladamen-
te e fora do contexto urbano, ainda que se dispusesse de todos os recursos da telemática.

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R O S E C O M P A N S

Este novo caráter produtivo da comunicação e da cooperação social é o elemento


central da análise de Pierre Veltz (1996), que identifica a tendência à metropolização da
economia mundial, cuja dinâmica estaria conduzindo a uma organização territorial poli-
cêntrica sob a forma metafórica de um arquipélago. Ele radicaliza os argumentos de Cas-
tells e Sassen, porque não restringe o fenômeno da concentração urbana a determinados
setores – alta tecnologia, finanças e serviços –, generalizando-o para o conjunto das ativi-
dades econômicas inseridas na nova forma de concorrência pela diferenciação – e não
mais apenas por preços, como no período taylorista – em que a qualidade, variedade, ca-
pacidade de inovação e de reatividade ao mercado consumidor passam a ser os critérios
fundamentais da competitividade.
A incapacidade da organização taylorista rigidamente verticalizada de responder a es-
tes novos critérios de competitividade impulsionou as firmas a um movimento simultâ-
neo de segmentação e subcontratação de tarefas, com a redução do tamanho médio dos
estabelecimentos, e multilocalização, isto é, especializar as unidades e coordenar a rede lo-
gística. A multilocalização de unidades produtivas especializadas permite às firmas melhor
mobilizar competências específicas locais, reduzir os riscos ligados às flutuações do mer-
cado, amortizar custos ligados à pesquisa e desenvolvimento e à publicidade, por meio da
multiplicação de alianças e cooperações, bem como criar posições de negociações mais fa-
voráveis com fornecedores, clientes e/ou consumidores.
Por outro lado, esta nova forma de concorrência pela diferenciação da qual deriva es-
te novo modelo organizacional em rede, vai requerer determinados “potenciais extra-eco-
nômicos” que só a localização metropolitana pode oferecer: uma mão-de-obra muito mais
qualificada; uma capacidade coletiva de supremacia sobre sistemas técnicos frágeis e sofis-
ticados; o desenvolvimento de relações de confiança entre atores econômicos cada vez
mais interdependentes; além de “externalidades” do meio-ambiente físico.
As grandes cidades mundiais são formidáveis máquinas de acelerar fluxos, de ligar os
ritmos do consumo e dos modos de vida com os da produção e do capital, de limitar a in-
certeza garantindo às firmas possibilidades maiores de “externalização” dos riscos e também
de apropriação das “externalidades imateriais” – o conjunto de conhecimentos difusos, de
comportamentos e de disciplinas interiorizadas na vida social em geral; o nível técnico e
cultural dos trabalhadores; a circulação de conhecimentos informais e formais existentes
nas redes de relações socioprofissionais etc. –, e o acesso aos mercados mais flexíveis de
trabalho e de prestação de serviços. Para Veltz, a metropolização não é somente a forma
que envolve os grandes processos econômicos atualmente, mas a sua própria substância.
Nesta perspectiva é que ele sugere a hipótese de que, com a multiplicidade destes pó-
los de atividades metropolitanas especializadas, os fluxos e as interdependências em larga es-
cala de bens e serviços produzidos em outros pólos determinariam a intensificação das rela-
ções horizontais entre eles, em detrimento das relações verticais do tipo centro/periferia que
caracterizaram a organização territorial taylorista. Tal hipótese seria sustentada empiricamen-
te pelo aumento significativo de vôos entre Paris, Londres, Frankfurt, Bruxelas, Amsterdã,
Genebra, Milão e Turim, comparativamente a outras destinações, nos últimos anos, e pela
concentração de filiais de empresas multinacionais neste “anel central multipolar” europeu.
As conexões destas redes por meio dos sistemas de transporte de grande velocidade
e de telecomunicações, entretanto, estariam provocando “efeitos de túnel” por zonas atra-
vessadas e não conectadas, que desenham assim um território descontínuo e fraturado,
onde se observam afastamentos cada vez maiores, em todas as escalas, entre zonas integra-
das e zonas periféricas e abandonadas.

R. B. ESTUDOS URBANOS E REGIONAIS Nº 1 / MAIO 1999 95


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A teoria dos distritos industriais marshallianos também viria contribuir neste deba-
te, tendo como ponto de partida as pesquisas sobre o fenômeno da “Terceira Itália”, con-
siderado uma experiência bem-sucedida de “desenvolvimento local endógeno”, ou seja,
devido essencialmente à sua dinâmica interna, cujas características fundamentais pode-
riam ser também encontradas nas grandes metrópoles, como nos distritos de alta tecno-
logia – eletrônica e aeronáutica –, de confecção, de cinema e televisão, além do distrito
comercial e financeiro central, existentes na cidade de Los Angeles, como observa Allen
Scott (1992).
A hipótese do autor é que quanto maior for a divisão social do trabalho presente nu-
ma dada localidade, isto é, o fracionamento dos encadeamentos da atividade econômica
em algumas unidades especializadas independentes – a desintegração vertical da produ-
ção –, maior será a probabilidade de os produtores que operam em pequena escala, com
contatos muito mais freqüentes e variados com fornecedores, subcontratados e clientes,
de aí estabelecerem economias externas ligadas à proximidade espacial. E as grandes cida-
des são os lugares onde esta divisão social do trabalho é mais fortemente desenvolvida, fa-
cilitando a formação de distritos industriais.
Elas o são, em primeiro lugar, porque suas bases econômicas são constituídas por
uma miríade de funções especializadas interligadas por redes transacionais complexas. Em
segundo, porque certos setores industriais foram obrigados a fragmentar sua cadeia de
produção, uma vez submetidos a um mercado concorrencial pela diferenciação, num am-
biente de incerteza e flutuações econômicas constantes, conformando um sistema de uni-
dades reunidas por um denso tecido de relações intrafirmas. A metrópole é, assim, um pó-
lo de distritos industriais por excelência.
Todavia, este processo de desindustrialização/reindustrialização não foi uniforme
nem linear. Ele foi especialmente intenso para os sistemas produtivos nos quais as tarefas
complexas e variadas são mais acentuadas e em que os produtos atravessam numerosas
etapas de produção, mas não em outros. Isto explica por que, embora tenham sido cria-
dos 225.800 empregos industriais em Los Angeles na década de 1980 – enquanto Nova
York perdia 330.000, no mesmo período – ocorreu um declínio do emprego na chama-
da “indústria pesada” acompanhado de aumento do desemprego, pobreza, violência, tra-
balho informal, entre outras chagas sociais (Soja, 1993).
Como adverte Scott, os setores que mais bem se adaptaram à reconversão produtiva
flexível e que, por isso, provocaram um retorno à aglomeração e ao crescimento urbano,
foram aqueles baseados na habilidade e na qualidade da informação, e nos quais prevale-
ce a diferenciação dos produtos, como as indústrias artesanais do vestuário, a mobiliária,
joalheria, as indústrias de alta tecnologia, os serviços à produção e financeiros etc. Apesar
de Los Angeles apresentar todos estes setores, eles produzem espacialidades distintas no
interior da metrópole: o lugar central, comercial e financeiro, de onde se exerce a influên-
cia da cidade sobre a economia do Arco do Pacífico; os distritos industriais descentraliza-
dos, baseados na qualificação, como cinema, televisão e confecção; os tecnopólos fundados
na tecnologia aeroespacial e na eletrônica, que contornam a metrópole num anel periférico.
O que é surpreendente na contribuição de Scott é o caráter ainda tipicamente in-
dustrial que pode assumir o desenvolvimento urbano, negligenciado nas análises anterio-
res que pareciam sugerir uma especialização financeira e de serviços avançados das econo-
mias metropolitanas. Paradoxal e paradigmático, o crescimento urbano e econômico
recente da metrópole californiana aponta na direção de uma pluralidade de alternativas
possíveis para o desenvolvimento das cidades, para além de todos os determinismos.

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R O S E C O M P A N S

Com efeito, esta “pluralidade de mundos possíveis de produção” é sublinhada por


Salais & Storper (1993). Baseados na comparação entre sistemas produtivos verificados
na França, na Itália e nos EUA, os autores concluem que existem hoje quatro formas de
organização produtiva, distintas em razão de alguns condicionantes, como o tipo do pro-
duto, os esquemas de coordenação baseados em convenções próprias, e dos objetos que
manipula (máquinas e equipamentos, matérias-primas, regras escritas etc.). Estes “mun-
dos” seriam: a) o mundo da produção imaterial – aquele da inovação, das novas tecnolo-
gias, bem como da criação de novas necessidades e propriedades de uso; b) o mundo in-
terpessoal dos produtos especializados fabricados segundo competências e saberes
especializados próprios – aquele dos distritos industriais marshallianos; c) o mundo mer-
cadológico dos produtos estandardizados, mas dedicados a uma demanda particular –
aquele da produção em massa, cuja empresa foi restruturada e flexibilizada; d) e o mun-
do industrial – tal como nos é familiar – aquele da produção em massa estandardizada
que ainda persiste em diversos setores. A acumulação flexível não é preponderante por to-
da parte, como, de resto, o fordismo também não o fora.
Finalmente, uma última abordagem sobre o novo papel das grandes cidades pode ser
encontrada na reflexão de David Harvey (1994;1995) a respeito da emergência da pós-
modernidade como expressão cultural de um novo regime de acumulação, flexível, em
substituição ao regime de acumulação fordista. Sua démarche parte do pressuposto de que
um regime de acumulação não se apóia apenas em determinada organização sociotécnica
da produção, mas se traduz nos modos de vida social, aí compreendidas suas formas de
consumo. A aceleração dos ritmos da produção e da inovação, igualmente observada pe-
los outros autores, implica a aceleração dos ritmos do consumo, algo que requer como
contrapartida uma mudança no padrão do consumo. A difusão da cultura do efêmero e
do descartável, que envolve a manipulação do gosto e da opinião, e a construção de no-
vos sistemas de valores comportamentais e estilos de vida são condições necessárias, ain-
da que não suficientes, do regime de acumulação flexível, para as quais se destaca a im-
portância da indústria cultural e das mídias, essencialmente urbanas.
As cidades são o lugar privilegiado onde gostos, modos de vida e estilos são perma-
nentemente criados e recriados, onde a volatilidade da moda pode ser mobilizada e apro-
priada, e onde a cultura pode ser mercantilizada, assim como somente nelas se situam os
trabalhadores “imateriais” que são os produtores e/ou manipuladores destes novos siste-
mas de signos e imagens, dos quais necessitam agora mais do que nunca as firmas. Lon-
ge de ser uma observação marginal à problemática da organização territorial operada pe-
la reestruturação econômica, a capacidade de produção de imagens associadas a padrões
de consumo tornar-se-á, como veremos, um elemento diferencial na competição das ci-
dades pela atração das empresas, do qual resultarão estratégias de marketing e de embele-
zamento urbanos.

O PARADIGMA DAS GLOBAL CITIES

O que denominamos aqui de paradigma das global cities é a apropriação de algumas


idéias oriundas do debate da geografia econômica concernentes ao novo papel das cida-
des no quadro de reestruturação produtiva e da globalização, descoladas dos contextos nos
quais foram formuladas, e, assim, reproduzidas como leis positivas cuja validade dispen-
sa mediações e relativizações temporais e históricas, uma vez tendo sido comprovadas em-
piricamente. Tratam-se das tendências à especialização financeira e de serviços avançados

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O P A R A D I G M A D A S G L O B A L C I T I E S

nas cidades; do papel determinante das telecomunicações para a centralização das funções
de comando e controle sobre uma rede de fluxos econômicos em escala planetária; e da
ligação entre o local e o global sem a intermediação do regional ou do nacional.
A formulação de tais hipóteses, como vimos, apóia-se na fenomenologia das trans-
formações econômicas e urbanas observadas em algumas grandes cidades dos países que
são os maiores exportadores e captadores do investimento estrangeiro direto – Nova York,
Los Angeles, Londres, Paris e Tóquio –, o que, se não desqualifica absolutamente o enor-
me esforço teórico realizado para compreendê-las, sugere entretanto que a generalização
de sua capacidade explicativa deve ser objeto de uma reflexão mais aprofundada.
O conteúdo paradigmático destas hipóteses resulta da não-associação dos fenôme-
nos observados nestas cidades – mudanças profundas na estrutura do emprego, com o
crescimento extraordinário do setor de serviços em detrimento da indústria, seguido de
um boom econômico – às estruturas macroeconômicas tradicionais de divisão desigual do
poder e da riqueza no mundo, seja qual for o critério de análise espacial desta divisão his-
tórica: países desenvolvidos versus aqueles em via de desenvolvimento; hemisfério Norte
versus hemisfério Sul; centro versus periferia etc. Esta negligência fundamental, além de
proporcionar uma visão promissora sobre o futuro das cidades na era da globalização, su-
gere uma autodeterminação competitiva, na medida em que atribui a fatores endógenos
o desenvolvimento alcançado por estas cidades. Analisemos alguns de seus aspectos.

O DETERMINISMO TECNOLÓGICO

A expressão global cities foi cunhada por Saskia Sassen, em 1991, para designar os
pontos nodais dos fluxos financeiros a partir dos quais se produz um controle global dos
mercados financeiros secundários e sítios de produção dispersos, na medida em que o in-
vestimento estrangeiro direto ocorre hoje preferencialmente pelo mercado de ações e de
títulos. O lugar central ocupado pelas cidades de Nova York, Londres e Tóquio nesta re-
de de fluxos econômicos global é atribuída à concentração de importantes recursos e in-
1 Entre os indicadores com fra-estruturas “muito menos móveis do que se imagina”.1 Entre estes, ela destaca a capa-
os quais a autora trabalha
está a capitalização das bol-
cidade de comunicação/transmissão de dados mundializada que depende de uma
sas de valores. Em 1989, sofisticada infra-estrutura de telecomunicações e de transportes de alta velocidade, cujos
dos 10,1 trilhões de dólares
movimentados por todas as custo de construção e uso são bastante elevados, sem contar as despesas de atualizações
bolsas de valores no mun- permanentes das novas tecnologias, o que cria um obstáculo à entrada de outras cidades
do, as do Japão movimenta-
ram 4,1 trilhões (sendo a a esta restrita rede.
Bolsa de Tóquio a maior do No caso japonês, esta capacidade de controle mundial requereu pesados investimen-
mundo), as dos EUA, 3,0 tri-
lhões, e as do Reino Unido, tos na construção de um sistema novo de telecomunicações e do Teleporto City, na Baía
823 bilhões (Sassen, 1996,
p.249).
de Tóquio, formado por edifícios “inteligentes”, além de diversos projetos na área de
transportes, como o TGV ligando a capital às cidades de Osaka e Nagoya. Com efeito, já
em 1982, Tóquio apresentava fortes indicadores de concentração de serviços especializa-
dos ligados à informação: nada menos do que 84,7% das emissões de televisão, artigos
de jornal, cartas, chamadas telefônicas e outras transmissões de informações (Sassen,
1996, p.453).
No caso dos EUA, são somente as grandes metrópoles que dispõem das novas linhas
de comunicação em redes de fibra ótica, que seguiram as linhas ferroviárias, reforçando
os pontos nodais dos sistemas de comunicações americanos herdados do século passado.
Por outro lado, a concentração empresarial já existente nestes grandes centros é o elemen-
to que justifica o alto investimento em infra-estruturas de telecomunicações, que atrai ca-

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da vez mais novas empresas num movimento de causação circular, pois o custo destes no-
vos equipamentos será tanto mais barato quanto maior for a concentração empresarial
existente (Castells, 1995, p.218).
Além das comunicações de longa distância, novas instalações para organizações de
base regional também foram projetadas em vinte estados americanos, em teleportos que
permitem o acesso aos satélites de comunicações por estações terrestres em linhas de fibra
ótica, ao qual se articulam áreas e edifícios “inteligentes”. A realidade de uma “cidade ca-
beada” com uma diversidade de tecnologias de comunicação voltadas para as empresas
(como as oferecidas no distrito financeiro de Manhattan, que, nos seus poucos hectares,
concentra 60% dos empregos de Nova York), dá uma enorme versatilidade ao sistema e,
neste sentido, facilita a concentração das grandes empresas nestes centros nodais. A dis-
paridade em termos de acessibilidade e telecomunicações, em comparação com os EUA, é
o que leva Castells a encarar como residual a possibilidade da descentralização das fun-
ções de controle em direção ao Terceiro Mundo, em busca de salários mais baixos.2 2 O autor se apóia no fato
de que, em 1985, os em-
Entretanto, Castells e Sassen concordam que outras razões concorrem para a centra- pregos nas chamadas indús-
lização da operação dos fluxos financeiros em nível mundial, em Nova York, Londres e trias de informação ameri-
canas, fora dos EUA, não
Tóquio, embora ambos admitam o surgimento de centros financeiros de segundo nível. atingiam dez mil postos de
Entre estas razões encontram-se a existência de um mercado de trabalho altamente qua- trabalho (Castells, 1995,
p.240).
lificado e de um sistema de produção de inputs especializados e tecnologias financeiras
avançadas, de complexos organizativos que funcionam como base material do processa-
mento da informação e tomada de decisões sobre o fluxo do capital e, ainda, a constitui-
ção de um “meio de inovação tecnológica”. Castells adverte sobre o caráter de não-repro-
dutibilidade destes fatores de centralização, uma vez tendo sido formados em condições
históricas específicas e circunstâncias já inexistentes.

Têm requisitos de localização [os centros financeiros principais] que não podem se re-
duzir a uma boa infra-estrutura de telecomunicações. Embora o surgimento de Hong Kong
e de Singapura como centros financeiros de segundo nível atestem a possibilidade do surgi-
mento de novas localizações sobre a base de uma política deliberada de organizar um merca-
do em uma localização determinada, os centros financeiros de alto nível, dirigindo operações
a uma escala global, têm raízes históricas e geográficas, ligadas a seu papel nas economias na-
cionais e internacionais. (Castells, 1995, p.472)

A “política deliberada” que introduziu estas duas cidades asiáticas, citadas por Cas-
tells, na rede de centros financeiros mundiais, todavia, resultou menos da ação volunta-
rista dos governos nacionais ou locais do que das estratégias de descentralização produti-
va da indústria americana, em busca de novos mercados, apoio governamental e
mão-de-obra barata. Como sublinha Sassen, o sudeste asiático tornou-se, na década de
1980, o principal local de implantação para o investimento estrangeiro direto destinado
à indústria, e esta descentralização e deslocalização das fábricas, acompanhadas por escri-
tórios e unidades de prestação de serviços contribuíram para favorecer a criação de cen-
tros regionais secundários, “versões reduzidas e nacionais do que Nova York, Londres e
Tóquio asseguram em escala mundial” (Sassen, 1996, p.41).
Ora, se a construção de infra-estruturas de comunicação, de teleportos e edifícios
“inteligentes” junto aos quais se implantarão os centros financeiros – uma das principais
estratégias de desenvolvimento local erigidas sob o paradigma das global cities, como ve-
remos – é condição necessária, porém insuficiente, para a concentração das funções de co-

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O P A R A D I G M A D A S G L O B A L C I T I E S

mando dos fluxos econômicos globais, o mesmo se pode dizer com relação à oferta de ser-
viços avançados como consultorias jurídicas, informática, contabilidade, marketing, entre
outros, haja visto que tais serviços também se expandiram em escala internacional. Eles
podem ser fornecidos pelas filiais das grandes empresas em qualquer parte do planeta que
seja provida de sistemas de telecomunicações.
Da mesma forma que o custo elevado para a implantação das infra-estruturas de co-
municação é um argumento insustentável para se invocar a sua não-reprodutibilidade
(mesmo cidades do Terceiro Mundo, como o Rio de Janeiro, constroem hoje teleportos
com recursos próprios), o longo prazo de investimento em recursos humanos para criar
um mercado de trabalho qualificado ou um “meio” profissional inovador, capaz de pro-
duzir novidades financeiras ou inputs especializados, não justifica a extraordinária con-
centração da indústria financeira e da prestação de serviços à produção altamente especia-
lizados em um número tão limitado de cidades. Ou será que o Silicon Valley, no condado
de Santa Clara, e outras tantas experiências recentes de tecnopólos surgidos à margem de
grandes centros urbanos, não criaram em seu interior este “meio” inovador, atraindo vo-
lumosos investimentos em Pesquisa & Desenvolvimento (P&D)? Não, nem a tradição,
nem um saber técnico-profissional só existente nos grandes centros urbanos dos países
centrais podem explicar a inércia dos poderosos “microfluxos de informação” presentes
nestas cidades globais.
Sassen (1995), num artigo mais recente, se surpreende ao analisar como os níveis de
concentração da indústria financeira se mostram intocáveis, mesmo se a acirrada compe-
tição entre cidades e os progressos massivos nas telecomunicações permitiram uma hiper-
mobilidade das praças financeiras. Entre 1980 e 1991, em que pese os empréstimos ban-
cários internacionais terem sido multiplicados por cinco, Nova York, Londres e Tóquio
mantiveram-se responsáveis por cerca de 42% destes empréstimos. Esta concentração, se-
gundo Sassen, tem levado os países envolvidos na formação do mercado único e do siste-
ma financeiro europeu a considerar a necessidade, para torná-lo competitivo, de centrali-
zar também as funções financeiras e o capital em um número limitado de cidades, ao
invés de manter a estrutura atual, na qual cada país possui seu próprio centro financeiro.
Não podendo mais sustentar que apenas a qualidade intrínseca destes supercentros,
pela concentração da oferta de tecnologias financeiras mais avançadas, conduz, num mo-
vimento de causação circular, a esta extraordinária concentração da movimentação finan-
ceira nos mesmos centros, a autora conclui que os altos riscos envolvidos nestas operações,
dadas a volatilidade dos fluxos, as flutuações constantes das moedas, enfim, a incerteza
e a especulação que caracterizam este mercado de papéis, leva os investidores a preferi-
rem os mercados seguros dos países centrais.

[A concentração] é também, em parte, conseqüência de conjunturas macroeconômicas


diversas, especialmente os riscos elevados corridos nos novos mercados, simultâneos à facili-
dade com a qual o dinheiro pode ser deslocado, como o mostra a verdadeira fuga dos merca-
dos ditos emergentes após a desvalorização do peso mexicano, em dezembro de 1994, e a cri-
se financeira que a partir dela se seguiu para os investidores estrangeiros. (Sassen, 1995, p.45)

Por outro lado, ela argumenta que esta “segurança” dos investidores passa, ainda, pe-
las funções regulatórias do Estado nacional, que permanece como o “garantidor último”
dos direitos do capital mundializado, do respeito aos contratos firmados e dos direitos li-
gados à propriedade. Esta capacidade regulatória do Estado nacional neste domínio não

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pode ser reproduzida por outros arranjos institucionais privados, já que ele se baseia em
última instância no poder militar. As evidências empíricas desta reflexão já haviam sido
trabalhadas por Sassen em The Global City (cuja primeira edição, em inglês, data de
1991), em que, ao desenhar a nova geografia da hierarquia urbana mundial, observa que,
ao lado da extrema concentração da captação de investimentos nos países do OCDE – que
absorveram 94,3% destes, em 1989 –, verifica-se o crescimento de transações de curto
prazo, altamente especulativas, em direção a mercados financeiros secundários como Sin-
gapura, Hong Kong e São Paulo, além de outros centros menos importantes (Sassen,
1996, p.128)
Ou seja, o capital não é assim tão transnacional e despatriado quanto possa parecer,
e a articulação entre o local e o global – o núcleo duro do paradigma que sugere a não-
pertinência do espaço, Estado e economia nacionais para o desenvolvimento econômico
das cidades, bastando para tanto estratégias endógenas de atratividade e inserção nas re-
des dos fluxos econômicos globais – não corresponde à lógica do investimento estrangei-
ro que segue obedecendo as antigas relações entre centro e periferia. A crise dos mercados
financeiros asiáticos, em 1997, assim como a crise mexicana de 1994 e a débacle que re-
presentou para a economia dos países do Terceiro Mundo, como o Brasil, a fuga massiva
de capitais que se seguiu a ela ilustram bem a fragilidade das proposições otimistas dos
novos “vendedores da esperança”, que serão objeto da seção seguinte, baseadas numa ar-
ticulação do local com o global, sem que esteja fortemente ancorada no desenvolvimen-
to da economia regional e nacional.

O LOCAL E O GLOBAL

Borja & Castells consideram que é na articulação entre o local e o global que se en-
contra, em última instância, “a fonte dos novos processos de transformação urbana, e,
portanto, os pontos de incidência de políticas urbanas, locais e globais, capazes de inver-
ter o processo de deterioração da qualidade de vida nas cidades” (1998, p.35). Tal oti-
mismo reside na constatação empírica de que os novos processos produtivos “estrategi-
camente dominantes”, os serviços avançados e a indústria de alta tecnologia, são aqueles
que apresentam o maior dinamismo econômico, com o mais rápido crescimento no em-
prego e na proporção do PIB da maioria dos países, e são, como vimos na primeira par-
te deste trabalho, essencialmente urbanos. Eles seguem um modelo hierárquico de
concentração metropolitana, constituindo uma rede policêntrica com três níveis de hie-
rarquia urbana:
a) as funções mais importantes em termos de qualificação, poder e capital, como as fi-
nanças internacionais, consultorias e serviços às empresas no âmbito internacional, se
concentram nas principais áreas metropolitanas do mundo, ou seja, em Nova York,
Londres e Tóquio;
b) as funções de segundo nível, mas também ligadas à gestão global, e alguns segmentos
de mercados específicos – como o de opções de futuro – , concentradas em grandes ci-
dades mundiais, como é o caso de Chicago, Los Angeles, São Francisco, Hong Kong,
Singapura, Osaka, Frankfurt, Paris, Zurique, Amsterdã e Milão;
c) as funções destinadas à incorporação de novos mercados, na medida em que a rede de
interações em que se baseia a economia global se estende, fazendo emergir “centros re-
gionais”, como as cidades de Madri, Barcelona, São Paulo, Buenos Aires, México, Tai-
pei e Moscou.

R. B. ESTUDOS URBANOS E REGIONAIS Nº 1 / MAIO 1999 101


O P A R A D I G M A D A S G L O B A L C I T I E S

Embora reconheçam que todos os indicadores assinalam um aumento da concentra-


ção das funções de controle em algumas poucas metrópoles, estes autores acreditam que
nada pode assegurar a permanência desta hierarquia urbana, exatamente porque ela está
sujeita a uma competição feroz em setores bastante voláteis como finanças, informática
ou incorporação imobiliária. A competição entre as cidades deveria refletir a competição
das empresas, que, na busca de incrementos de produtividade, procurariam se situar na-
quelas localidades que mais oferecessem condições materiais, sociais e institucionais para
tanto. Que vençam as melhores!
Borja & Castells, no entanto, advertem que existem ainda obstáculos para esta con-
corrência perfeita. Trata-se da concentração locacional da informação, elemento central
da competitividade empresarial neste setor, atribuída aos altos níveis de incerteza induzi-
dos pelas mudanças tecnológicas, pela desqualificação do mercado de trabalho, pela des-
regulação e pela globalização do mercado, mas também às consideráveis inversões imobi-
liárias das grandes empresas nos ditos centros direcionais da economia mundial, que se
desvalorizariam em caso de uma relocalização massiva. Contudo, a possibilidade de alte-
ração nos níveis da hierarquia urbana não deve ser descartada na medida em que uma re-
gulação futura dos mercados internacionais, que reduza a incerteza sobre as regras do jo-
go econômico e sobre seus jogadores, poderá ocasionar uma menor concentração da
indústria da informação, com o deslocamento de unidades de produção e de distribuição
em direção aos níveis inferiores da hierarquia urbana.
Não obstante, diversos centros regionais de gestão de serviços têm emergido nos
EUA, na Europa e na Ásia, bem como uma rede dispersa e articulada nas periferias das re-
giões metropolitanas. Em geral, “a maior parte destas atividades de serviços descentraliza-
das em direção à periferia são compostas por trabalhos de oficina rotineiros destinados ao
processamento massivo e automatizado da informação, e empregam pessoal feminino in-
suficientemente remunerado” (Borja & Castells, 1998, p.42). Em outras palavras, na pior
das hipóteses, a integração das nossas cidades a esta “rede interdependente e hierarquiza-
da de complexos produtores de serviços a partir dos fluxos de informação telecomunica-
dos” (idem) poderá contribuir com a renda familiar das camadas pobres, ainda que pela
exploração do trabalho das mulheres.
Em que pese o “futuro” modesto reservado à periferia nesta dinâmica competitiva,
esta admite, na visão dos autores, maiores perspectivas de autonomia local e de alteração
das posições hierárquicas, ao contrário da geografia rígida do período anterior. O novo
sistema pode realizar mais eficaz e eqüitativamente do que no passado, devido ao fortale-
cimento da sociedade local e de suas instituições políticas – fatores endógenos –, a articu-
lação entre sociedade e economia, entre tecnologia e cultura. Isso porque o “global” e o
“local” são agora complementares, “criadores conjuntos de sinergia social e econômica,
como o foram na alvorada da economia mundial nos séculos XIV a XVI, momento em que
as cidades-Estado se constituíram em centros de inovação e de comércio em escala mun-
dial” (idem, 1998, p.14). E, convencidos da capacidade de autodeterminação da socieda-
de local que souber desenvolver uma boa estratégia de inserção nos fluxos econômicos
globais, concluem:

A cidade global não é Nova York, Londres ou Tóquio, ainda que sejam os centros dire-
cionais mais importantes do sistema. A cidade global é uma rede de nós urbanos de distinto
nível e com distintas funções que se estende por todo o planeta e que funciona como centro
nervoso da nova economia, em um sistema interativo de geometria variável ao qual devem

102 R. B. ESTUDOS URBANOS E REGIONAIS Nº 1 / MAIO 1999


R O S E C O M P A N S

constantemente adaptar-se de forma flexível empresas e cidades. O sistema urbano global é


uma rede, não uma pirâmide. E a relação mutante concernente a esta rede determina, em
boa medida, a sorte de cidades e cidadãos. (Idem, 1998, p.43)

Um contraponto à tese da autodeterminação do local na sua articulação com o glo-


bal pode ser encontrado na obra de Pierre Veltz. Ele compartilha com Borja & Castells a
análise de que o espaço econômico dos anos 90 desenha redes técnicas e financeiras poli-
cêntricas que ignoram cada vez mais as fronteiras nacionais, colocando em xeque a própria
idéia de “economia nacional”, e em que, de certa maneira, “o Terceiro Mundo não existe
mais”.3 Mas sua démarche aponta, num movimento oposto ao daqueles autores, para a cris- 3 Na medida em que consi-
dera que as disparidades
talização das posições hierárquicas históricas conquistadas pelo “clube dos países ricos”. econômicas agora se dão
Analisando dados sobre os investimentos estrangeiros diretos na década de 1990, em função da integração ou
não a estas redes, podendo
Veltz observa como eles têm se direcionado preferencialmente para as zonas mais desen- ser encontradas tanto entre
volvidas ou para a Ásia, em detrimento da participação dos demais países, que sofreu uma os chamados “países em
desenvolvimento”, quanto
redução constante e brutal desde o início da década de 1980, mantendo-se, em sua gran- nos países mais ricos, entre
de maioria, praticamente excluídos do IED. Mas o aspecto mais revelador desta análise é zonas integradas à econo-
mia mundial e suas “perife-
que a maior parte destes investimentos esteve ligada a fusões e aquisições, e se concentram rias internas” abandonadas
(Veltz, 1996, p.85-8).
nos setores de serviços – cerca de 50% do IED francês e 70%, do japonês – e não no se-
tor industrial. Ou seja, a repartição desigual dos recursos está relacionada à nova modali-
dade da divisão internacional do trabalho.
Se as unidades de produção se expandem sobre vastos territórios, em busca de mão-
de-obra barata, os centros de P&D restam altamente localizados. O progresso técnico e a
inovação tecnológica, fontes da competitividade atual, resultam de núcleos de competên-
cias autocumulativos e têm sua criação e difusão confinada ao pequeno círculo dos países
desenvolvidos, “imbricados em processos históricos e geográficos específicos de gênese e
de acumulação” (Veltz, 1996, p.98).
Veltz argumenta de maneira convincente que, se de um lado os imperativos de fle-
xibilidade conduzem o conjunto das firmas internacionais a preferir relações fluidas e re-
versíveis com os territórios de implantação das unidades produtivas descentralizadas, por
outro, no plano do poder e da cultura, os “pertencimentos” nacionais permanecem mui-
to fortes. A imagem da firma cosmopolita e sem pátria é pouco realista, da mesma forma
que “conceber a globalização como a extensão universal de um capitalismo homogêneo é
um absurdo. Os tecidos socioinstitucionais que existem nos grandes países do ‘centro’ são
poderosos demais para se diluírem em uma tal abstração” (idem, 1996, p.137).
Sim, as grandes firmas do mundo atual continuam sendo americanas, inglesas, japo-
nesas, no máximo binacionais (como a Shell), e isso por várias razões. Em primeiro lugar,
porque os principais acionistas são sempre nacionais, possuindo lógicas e interesses distin-
tos próprios de cada país. Em segundo, porque a maioria dos dirigentes destas empresas pos-
suem a mesma origem nacional que a empresa, o que é um critério de escolha comumente
utilizado, como mostra uma enquete sobre a gestão das multinacionais francesas. Em ter-
ceiro, porque, mesmo nas empresas mais internacionalizadas, a regra é a de que o território
de origem continue a captar as atividades mais estratégicas. As despesas americanas com P&D
no estrangeiro representam menos de 10% do total gasto nesta atividade, e a mesma baixa
percentagem de investimento exterior em P&D se verifica no caso da França e no do Japão.
Veltz lembra ainda que a estrutura socioinstitucional nacional desempenha um pa-
pel decisivo na retenção destes gastos no território de origem, seja pelas necessárias rela-
ções que as empresas mantêm com os bancos ou com o Estado, ou seja mesmo por con-

R. B. ESTUDOS URBANOS E REGIONAIS Nº 1 / MAIO 1999 103


O P A R A D I G M A D A S G L O B A L C I T I E S

ta de estruturas familiares, como no caso das empresas italianas e nipônicas. Às funções


tradicionais normativas do Estado, sobretudo na regulação da concorrência entre firmas
e da moeda, juntam-se aquelas que visam fortalecer as grandes firmas e, ao mesmo tem-
po, protegê-las das turbulências do mercado internacional, oferecendo-lhes vantagens es-
truturais, como exemplificam a política de grandes projetos francesa ou o orçamento de
defesa americano.
Desta perspectiva, as chances das cidades do Terceiro Mundo integrarem-se aos flu-
xos econômicos globais por intermédio da atração dos setores “estrategicamente domi-
nantes”, de uma outra forma que não seja o tradicional fornecimento de mão-de-obra mal
remunerada e precária para a execução de tarefas repetitivas – que, de resto, mais se asse-
melham à produção industrial do que ao “terciário avançado” – parecem sensivelmente
reduzidas. E aqui tocamos no terceiro e último aspecto constituidor do paradigma das
global cities que gostaríamos de abordar antes de passarmos à análise das estratégias de de-
senvolvimento local, que lhe darão uma verdadeira instrumentalidade. Trata-se das inter-
pretações sobre o crescimento do setor de serviços dissociado da produção industrial, que
segue sendo a base material da riqueza das nações, dando origem à hipótese da especiali-
zação das cidades na “economia de serviços”.

AS CIDADES COMO LUGARES DE PRODUÇÃO PÓS-INDUSTRIAL

4 Dentre os dados que os


Existe um consenso de que a grande maioria das atividades econômicas de todos os
autores utilizam para tal afir- países não são globais, permanecendo regionais e nacionais. Todavia, numerosos estudos
mativa estão os de que os
empregos no setor de servi- apontam para a tendência irreversível à internacionalização das grandes empresas, face o
ços representavam, em 1987, processo de reestruturação produtiva com a desintegração da rígida organização industrial
71% dos empregos nos
EUA, contrastando com a taylorista, verticalizada e concentrada, em processos flexíveis em unidades multilocaliza-
queda brutal dos empregos das articuladas por redes telemáticas, processo este facilitado pelas novas tecnologias da
industriais (Castells, 1995,
p.193); de que nos anos 80 informação. Uma das principais conseqüências desta reestruturação produtiva seria o flo-
o IED concentrou-se nos se-
tores de alta tecnologia e
rescimento de uma multiplicidade de empresas de serviços à produção, haja visto que a
nos serviços, e na primeira flexibilidade do sistema, as novas formas de concorrência e a complexidade da gestão de
metade do decênio 50%
dele era destinado aos ser-
unidades produtivas multilocalizadas assim o requerem.
viços, dos quais 2/3 para De fato, todas as estatísticas realizadas nas economias dos países centrais evidenciam
atividades ligadas a finanças
e ao comércio (Sassen, o maior dinamismo do setor de serviços à produção em relação aos demais, pois é o que
1996, p.77-8); e de que os apresenta maiores taxas de crescimento no emprego e na participação do PIB destes paí-
fluxos financeiros equi-
valeram, no último decênio, ses, bem como na participação no total do investimento estrangeiro direto realizado.4 Co-
a quarenta vezes o volume mo a matéria-prima processada neste setor é basicamente a informação, elemento agora
de recursos movimentado
pelas trocas comerciais central da produtividade, gestão e competitividade empresarial na economia globalizada,
(Veltz, 1996, p.91).
o modelo espacial dos serviços à produção apresenta uma forte concentração nos grandes
5 Castells assinala que as centros urbanos, pela conjugação de uma série de fatores (expostos na primeira seção
“indústrias intensivas em in-
formação” – bancos, trans-
deste trabalho), infra-estruturas apropriadas, mercado de trabalho qualificado etc.5
portes aéreos, escritórios Algumas cidades dos países líderes deste processo de internacionalização teriam as-
centrais de todos os seto-
res, agências comerciais, sistido a uma rápida mudança no perfil do emprego, decorrente do dinamismo do setor
seguros, financeiras, educa- de serviços nelas presente, sendo Nova York o exemplo mais paradigmático desta reestru-
ção privada, advocacia, en-
genharia etc. – correspon- turação econômica. De acordo com Castells (1995, p.297), entre 1977 e 1987, 70% dos
diam a 13,9% dos em- novos empregos criados nesta cidade foram no setor de “serviços avançados” – em torno
pregos nos EUA, em 1985,
e, desta percentagem, 39% de 342.000 –, enquanto 539.000 empregos industriais foram perdidos.
estavam concentrados nas
24 áreas metropolitanas
Mas até que ponto esta mudança no perfil do emprego não representa apenas um
(Castells, 1995, p.218). deslocamento de atividades técnicas e de gestão antes desenvolvidas no interior das indús-

104 R. B. ESTUDOS URBANOS E REGIONAIS Nº 1 / MAIO 1999


R O S E C O M P A N S

trias, tratando-se apenas de uma questão de nomenclatura, e, desta forma, não represen-
tando um maior dinamismo da economia nova-iorquina que pudesse transformá-la em
modelo de desenvolvimento econômico local a ser perseguido por outras localidades no
mundo? Até que ponto esta expansão do emprego no setor de serviços não expressa uma
particularidade da cidade de Nova York, a liderança de sua bolsa de valores no sistema fi-
nanceiro internacional e o fato de os EUA serem os maiores investidores e captadores do
IED, condições absolutamente inexistentes em outras partes do mundo?
Segundo Sassen (1996, p.209), a tendência a um mercado de trabalho urbano do-
minado pelos serviços é uma realidade que se apresenta tanto em Nova York, como em
Londres e Tóquio, embora a proporção dos serviços ditos “avançados” seja relativamente
baixa em relação ao conjunto. Somados todos os serviços à produção – nem todos carac-
terizados pelo processamento de informação –, em 1987, eles correspondiam a 37,7% dos
empregos de Nova York e a 32,8% dos de Londres. Considerando apenas bancos, finan-
ças e seguros, os serviços mais internacionalizados, eles representavam apenas 4,2% do to-
tal de empregos de Tóquio, 10,2% dos de Londres e 13,9% em Nova York.
Outro dado interessante é que os centros financeiros destas cidades vêm gradativa-
mente reduzindo sua participação no total de empregos urbanos. Manhattan, que deti-
nha 40,6% dos empregos da região metropolitana de Nova York em 1956, decresceu sua
participação no emprego desta região para 29,1% em 1975, caindo mais ainda em 1985,
quando contribuía com apenas 27,2%. Sassen (1996, p.213) interpreta estes dados como
indicadores de uma redistribuição do emprego, com a descentralização de algumas ativi-
dades, especialização e concentração do emprego em finanças e negócios em Manhattan.
Duas observações nos parecem relevantes com base nestes dados. Primeiro, que, em-
bora os serviços avançados sejam responsáveis por maiores taxas de crescimento do em-
prego, no cômputo geral do emprego urbano eles contribuem com uma parcela reduzida.
A maior parte da mão-de-obra local é empregada nas atividades rotineiras ligadas aos ser-
viços à produção, nos serviços pessoais e sociais, nas atividades tradicionais da indústria e
do comércio, administração pública ou na economia informal, que apresenta igualmente
taxas de crescimento extraordinárias em cidades como Los Angeles e Nova York, represen-
tando a outra face da cidade global.6 6 Segundo Castells, uma
proporção crescente de mi-
Em segundo lugar, estas taxas elevadas de crescimento do emprego nos serviços liga- grantes e de minorias étni-
dos ao processamento da informação está sendo verificada naquelas cidades que já eram cas não encontra emprego
adequado na cidade de No-
centros financeiros e de serviços importantes nos seus respectivos países, há pelo menos va York; 49,5% da força de
algumas décadas. Em Nova York, o distrito financeiro de Manhattan já detinha 40% do trabalho nova-iorquina, em
1987, era composta por mi-
emprego urbano, em 1956! Paris, como mostra Veltz (1996, cap.I), beneficiando-se da norias étnicas, que são as
descentralização da indústria francesa em direção a outras regiões do país, iniciada na dé- mesmas que apresentavam
as maiores taxas de evasão
cada de 1950, passou desde então a concentrar e a se especializar nas atividades de gestão, escolar e estavam expostas
à qualidade decrescente do
finanças e demais serviços. A construção do distrito financeiro parisiense – La Défense –, sistema escolar público;
com efeito, data de 1958, ou seja, no auge dos Trinta Gloriosos anos do fordismo! os migrantes, sobretudo os
clandestinos, são o exército
Ou seja, em que pese o crescimento da demanda por serviços técnicos e de gestão, que alimenta o crescimento
resultante da dispersão geográfica das unidades produtivas e da expansão dos setores fi- da economia informal, que
vai desde pequenas indús-
nanceiro e industrial dos países líderes do investimento estrangeiro direto mundial, ter trias domésticas não-regula-
proporcionado um aumento do emprego urbano ligado à prestação de serviços naquelas mentadas a táxis piratas e
trabalhadores externos de
cidades que se constituem como seus centros de comando e controle, esta já era uma ten- fábrica, que somavam cerca
dência histórica. O que surge como novidade então parece ser a queda dos empregos in- de 20% da mão-de-obra da
indústria têxtil. A cidade glo-
dustriais urbanos, o que deve ser igualmente relativizado, devido à subcontratação de ta- bal é a cidade dual (Castells,
1995, cap.V).
refas antes desempenhadas no interior das fábricas.

R. B. ESTUDOS URBANOS E REGIONAIS Nº 1 / MAIO 1999 105


O P A R A D I G M A D A S G L O B A L C I T I E S

Estas divisões estatísticas tradicionais entre os setores primário, secundário e terciário


são hoje completamente anacrônicas. A estrutura da organização produtiva é atualmente
constituída por arquiteturas logísticas que integram operações de produção e distribuição
de bens e serviços complexos, como aquelas que associam mercadoria, crédito ao consu-
midor e assistência técnica. A concepção de uma empresa como um lugar que produz um
bem material ou um serviço específico se tornou ultrapassada (idem, 1996, p.152).
Da mesma maneira que não é possível pensar no desenvolvimento dos serviços avan-
çados sem a obrigatória articulação destes com a produção material de bens, imaginar que
os primeiros possam florescer nas cidades sem uma profunda interação com o tecido eco-
nômico produtivo regional e nacional seria um despropósito que não encontra correspon-
dência na construção histórica concreta, nem das sociedades dos países capitalistas cen-
trais, nem daquelas onde o capitalismo se desenvolveu mais tardiamente, como as dos
continentes asiático e australiano. Nestes últimos, como assinala Sassen, a concentração
de serviços nas grandes cidades foi igualmente possível graças ao desenvolvimento da eco-
nomia regional e nacional:

O caso de Sidney ilustra a interação de uma economia em larga escala, a de um conti-


nente, e as pressões à concentração espacial. … Os eventos dos anos 80 – aumento da inter-
nacionalização da economia australiana, forte crescimento do investimento estrangeiro, níti-
do deslocamento em direção às atividades financeira e imobiliária e aos serviços às empresas
– contribuíram para uma forte concentração das atividades e dos atores econômicos em Sid-
ney. (1995, p.44)

Por outro lado, a idéia de que não existem alternativas para as cidades fora do desen-
volvimento das atividades de serviços articulados às redes dos fluxos econômicos globais
é fortemente influenciada por pesquisas empíricas sobre o modelo de localização espacial
7 Borja & Castells argumen- da indústria de alta tecnologia e de informática, e das atividades financeiras,7 mas este
tam que o padrão de locali-
zação verificado nas indús-
modelo de forma nenhuma corresponde ao conjunto dos distintos “mundos da produ-
trias de tecnologias de in- ção” existentes, pois nem todos têm a inovação tecnológica como incremento essencial de
formação é extensivo a todo
o conjunto da estrutura in- produtividade (Salais & Storper,1993; Veltz,1996).
dustrial, na medida em que Isto porque as grandes empresas produtivas inscrevem-se diferentemente nos proces-
a microeletrônica se difunde
na maquinaria e nos proces- sos de internacionalização, face suas funções estratégicas do ponto de vista da competi-
sos de produção de todos ção, o que repercute em relações espaciais distintas. Nos setores onde as funções estraté-
os ramos industriais (Borja
& Castells, 1998, p.43). gicas são o marketing, a inovação comercial, a pesquisa ligada ao consumo, ou a produção
propriamente dita – como nos setores alimentar, farmacêutico e automobilístico –, a pro-
ximidade aos mercados é ainda fundamental para superar políticas protecionistas, domi-
nar as regras nacionais, captar e influenciar os gostos, tradições e hábitos de consumo ou
simplesmente reduzir custos. Até que ponto podemos falar em globalização nestes seto-
res? (Veltz, 1996, p.127).
Não obstante as distintas articulações, de base regional e nacional, que estes setores
estabelecem com as cidades, as inúmeras implantações industriais que se multiplicam em
áreas urbanas e metropolitanas – sobretudo aquelas dos setores de moda, audiovisual, da
microinformática e gráfico – atestam a pluralidade de formas de desenvolvimento eco-
nômico local que não podem se reduzir à vocação tal como proposta pelo paradigma das
global cities.

106 R. B. ESTUDOS URBANOS E REGIONAIS Nº 1 / MAIO 1999


R O S E C O M P A N S

AS ESTRATÉGIAS DE DESENVOLVIMENTO LOCAL

As estratégias de desenvolvimento local que são oriundas do paradigma das global


cities têm como pressuposto que fatores endógenos poderão favorecê-lo, desde que se sai-
bam interpretar as dinâmicas econômicas dominantes e as possibilidades de nichos de
mercado que possam ser exploradas para a inserção competitiva da cidade nas redes dos
fluxos dos capitais internacionais. Entre os fatores endógenos responsáveis pela atrativida-
de destes fluxos de capitais, encontram-se transformações, tanto políticas e institucionais
quanto físicas, que sejam capazes de fornecer as condições para melhor “vender a cidade”
no contexto de uma competição interurbana impulsionada pela globalização.
Numa postura mais politicamente pragmática que teórica, os autores que elaboram
esta concepção de estratégia sustentam-na empiricamente com a enumeração de exemplos
de experiências bem-sucedidas de localidades que conseguiram se inscrever na rede de flu-
xos econômicos globais mediante uma autodeterminação dos atores políticos locais. Co-
mo revelam Borja & Castells :

As cidades asiáticas demonstraram que no mundo da economia global a velocidade da


informação sobre os mercados internacionais e a adaptação aos mesmos, a flexibilidade das
estruturas produtivas e comerciais e a capacidade de inserir-se nas redes determinam o êxito
ou o fracasso, muito mais que as posições adquiridas no passado, o capital acumulado, as ri-
quezas naturais ou a situação geográfica. O segredo reside na velocidade de inovar do tecido
de pequenas e médias empresas articuladas com grandes empresas em rede, no que diz res-
peito ao exterior, e com o poder político, em relação ao interior. (1998, p.141)

Adaptar-se aos mercados internacionais é a única alternativa possível para o desen-


volvimento econômico das cidades na visão destes autores, na medida em que têm a con-
vicção de que “na sociedade da informação, o global condiciona o local e os fluxos eletrô-
nicos estruturam a economia a partir de relações entre unidades espacialmente distantes”
(idem,1998, p.12). Para tanto, os principais atores políticos e econômicos locais deverão
elaborar uma estratégia de antecipação aos novos requerimentos da economia global e da
competitividade internacional, promovendo transformações na infra-estrutura urbana, na
qualidade de vida e na formação de recursos urbanos, aliada a uma estratégia de marke-
ting urbano que promova a cidade no exterior.
Esta visão da subordinação do local ao global é compartilhada por Ascher (1995,
cap.VI), para quem as grandes metrópoles são sistemas complexos determinados em par-
te por fenômenos externos que os responsáveis públicos não podem dominar. Este novo
contexto impõe uma mudança radical na concepção da política urbana, substituindo-se a
idéia da intervenção – essência do urbanismo moderno – pelas de atração, acompanha-
mento e negociação, que se traduzem num novo modelo de gestão urbana ao qual o au-
tor denomina de “empresariamento urbano estratégico”.
A recorrência a expressões características dos métodos de gestão de empresas não é ca-
sual. A absorção destes métodos na elaboração de planos estratégicos de cidades (instru-
mentos de legitimação privilegiados nos processos de reestruturação econômica e urbana de
algumas cidades como Barcelona, Amsterdã, Lyon, Lisboa, Rio de Janeiro, Bogotá, entre
outras) supõe que as grandes cidades têm hoje muitos traços em comum com as grandes
empresas: dependem dos mesmos fatores econômicos, enfrentam a concorrência interna-
cional e gerenciam serviços, atividades produtivas e recursos humanos (idem,1995, p.213).

R. B. ESTUDOS URBANOS E REGIONAIS Nº 1 / MAIO 1999 107


O P A R A D I G M A D A S G L O B A L C I T I E S

A noção de cidade-empresa é ainda justificada pela idéia de que, no marco da eco-


nomia global, o futuro das cidades dependerá da competitividade das empresas nelas ins-
taladas, competitividade esta que, por sua vez, tem nos recursos territoriais específicos as
suas condições fundamentais, tais como: infra-estruturas de suporte às atividades econô-
micas; conexão a redes internacionais; formação profissional; qualidade dos serviços pú-
blicos etc. (Forn, 1993, p.3).
A lógica simbiótica da cidade-empresa é ambivalente à da cidade-mercadoria, que
deve promover sua imagem no exterior com vistas a exercer a atração de investidores, e ao
mesmo tempo facilitar suas “exportações” de bens, serviços e profissionais. Ambas atri-
buem aos governos locais uma espécie de papel de capitalista coletivo, na medida em que
“a mercadotecnia da cidade, vender a cidade, converteu-se, portanto, em uma das funções
básicas dos governos locais e em um dos principais campos de negociação público-priva-
da” (Borja & Forn, 1996, p.33).
Vejamos agora com mais detalhe o que consistem estas estratégias de venda.

A PASSAGEM DO MODELO ESPACIAL INDUSTRIAL PARA O DO TERCIÁRIO AVANÇADO

Os modelos do urbanismo, desde o século XIX, sempre foram influenciados pelas ne-
cessidades econômicas e pelas exigências sociopolíticas do período a que correspondiam,
embora estes modelos não tenham se realizado plenamente nas cidades, pela pesada inér-
cia do ambiente já construído. No período fordista, iniciado no pós-guerra, o planeja-
mento e a reconstrução das cidades européias expressava a divisão social do trabalho – por
meio do zoneamento residencial e dos grandes conjuntos habitacionais que acolhiam os
trabalhadores e as camadas médias – , a maximização das economias de escala – com a or-
ganização “científica” do território e da distribuição da infra-estrutura urbana –, bem co-
mo os avanços tecnológicos nos transportes e nas comunicações.
No período atual, com a dispersão geográfica da produção e a concentração das fun-
ções de comando, inovação e gestão nas cidades, os novos imperativos do urbanismo pas-
saram a ser:
a) a construção de redes de comunicação em fibra ótica – que permitem uma maior qua-
lidade e segurança na transmissão de dados – fornecidas em instalações apropriadas pa-
ra escritórios e sedes de empresa, que são os chamados “edifícios inteligentes”;
b) a criação de distritos financeiros nas estações terrestres de telecomunicações (telepor-
tos), que propiciem economias de aglomeração e externalidades positivas para este setor;
c) a modernização e/ou construção das infra-estruturas de transporte de alta velocidade,
como aeroportos e TGVs, para assegurar a mobilidade e a acessibilidade física;
d) a provisão residencial – permanente e transitória – destinada às novas camadas profis-
8 Ascher qualifica estas no- sionais médias e aos quadros executivos das empresas,8 como hotéis e residências de lu-
vas camadas sociais como
aquelas “estratégicas”, “qua-
xo, condomínios fechados ou novos loteamentos que ofereçam qualidade de vida, em
lificadas e não-precariza- áreas dotadas de equipamentos comerciais, culturais, esportivos e de lazer.
das”, para as quais a abun-
dante oferta residencial e as O urbanismo do período pós-fordista também expressa a divisão social do trabalho
intervenções urbanas des- – não mais predominantemente industrial, mas do terciário avançado –, na segregação re-
tinadas aos bairros onde se
concentram deve conside- sidencial da nova classe emergente, na “gentrificação” das áreas centrais renovadas, e no
rar um certo conteúdo sim- abandono das classes populares, quando as preocupações com a provisão habitacional des-
bólico, elas devem “marcar
a imagem” do novo status tinada a elas deixa de constar dos documentos do urbanismo, assim como das priorida-
social adquirido (Ascher,
1995, p.233).
des de investimentos públicos, agora voltadas para intervenções pontuais e fragmentadas
nas zonas “integradas” do tecido urbano.

108 R. B. ESTUDOS URBANOS E REGIONAIS Nº 1 / MAIO 1999


R O S E C O M P A N S

Um aspecto interessante deste novo modelo é que ele pretende ser indutor de um
processo de desenvolvimento econômico, ao invés de ser determinado por ele, como no
modelo anterior. A estratégia da antecipação, uma arma essencial na guerra da competi-
ção interurbana, baseia-se na observação e tentativa de reprodução de experiências bem-
sucedidas em outras partes do mundo, contribuindo para minimizar os riscos de uma má
aplicação dos recursos públicos. A difusão de experiências torna-se, assim, a principal ta-
refa e um mercado de trabalho espetacular que se abre aos consultores internacionais, os
novos vendedores do futuro e da esperança.

… tão logo uma região do mundo se articula à economia global, dinamizando sua economia
e sociedade locais, o requisito indispensável é a constituição de um núcleo urbano de gestão
de serviços avançados organizados, invariavelmente, em torno de um aeroporto internacio-
nal; um sistema de telecomunicações por satélite; hotéis de luxo, com segurança adequada;
serviços de secretariado em inglês; empresas financeiras e de consultoria com conhecimento
da região; oficinas de governos regionais e locais capazes de proporcionar informação e infra-
estrutura de apoio às inversões internacionais; um mercado de trabalho local com pessoal
qualificado em serviços avançados e infra-estrutura tecnológica. (Borja & Castells, 1998, p.37)

O que mais surpreende na difusão destas experiências é a atribuição ao voluntarismo


e à ousadia dos responsáveis políticos, o sucesso pela articulação à economia global. Exem-
plos como o de Birmingham – “que mediante um plano estratégico … renovou seu cen-
tro urbano e se converteu na cidade inglesa mais dinâmica” – ou os de Amsterdã e Lyon –
que por meio de seus planos estratégicos “se adiantaram à crise e promoveram mudanças
na infra-estrutura e na imagem para adequar-se aos novos requerimentos da economia glo-
bal e da competitividade internacional” – são reproduzidos à exaustão, na tentativa de con-
vencer os governos locais interessados que a saída da crise econômica na qual se encontram
suas cidades depende apenas da tomada de consciência do agravamento da crise com a glo-
balização; da concertação dos atores urbanos e geração de uma liderança política local pa-
ra a elaboração de um bom plano estratégico; e da vontade conjunta para implementar as
transformações físicas, econômicas e sociais que se façam necessárias (idem, 1998, p.146).

O MARKETING URBANO

Seguindo a mesma lógica do marketing empresarial, a estratégia da promoção das ci-


dades no exterior apóia-se na existência de um bom produto que possa ser ofertado aos
investidores estrangeiros e que atenda suas exigências sofisticadas. Este produto é um pro-
duto complexo que se constitui não só de infra-estruturas materiais e serviços urbanos,
mas também de competências e qualidades sociais específicas. Se, por um lado, as infra-
estruturas materiais tendem a se banalizar pela concorrência, as competências dos traba-
lhadores e os valores culturais e sociais são inerentes ao lugar, podendo, por esta razão, se
traduzir em vantagens comparativas para as empresas que neste lugar se estabelecerem.
A construção de uma “marca” para a cidade consiste então no diagnóstico das po-
tencialidades econômicas e sociais, face uma avaliação da demanda das empresas ou seto-
res-alvo, seguido da definição dos aspectos positivos e negativos que deverão ser ressalta-
dos ou modificados na divulgação da imagem da cidade. Invariavelmente, a imagem que
se tenta construir é a de uma cidade empreendedora, socialmente integrada, que oferece
qualidade de vida e um “clima” favorável aos negócios.

R. B. ESTUDOS URBANOS E REGIONAIS Nº 1 / MAIO 1999 109


O P A R A D I G M A D A S G L O B A L C I T I E S

Além das formas tradicionais de city marketing – campanhas publicitárias, eventos


culturais e esportivos etc. – a promoção da cidade deve incluir a realização de feiras e ex-
posições, a ordenação e promoção de áreas comerciais, a recuperação de centros históri-
cos e áreas portuárias, melhorias das infra-estruturas de acessibilidade e comunicações,
bem como reserva de áreas para implantação de novos negócios (Borja & Forn, 1996,
p.34). Entretanto, a realização de grandes eventos internacionais – como os Jogos Olím-
picos, Fórum Global, congressos, etc. – podem também converter-se num poderoso me-
canismo de captação de recursos e investimentos que permitam impulsionar um proces-
so de transformação urbana e de dinamização econômica, como atestam as experiências
de Barcelona e Lisboa (Borja & Castells, 1998, p.145).
Com efeito, segundo Harvey, a mobilização do espetáculo – desde eventos “midiá-
ticos” e esportivos, construção de shoppings, até a renovação de centros históricos – é um
dos traços mais característicos do urbanismo pós-moderno americano utilizado, ao mes-
mo tempo, como instrumento e como símbolo de unificação política, que comporta um
sentido do efêmero, da publicidade, do prazer compartilhado.

O prefeito Schaefer e a aliança de classes urbanas que o sustenta em Baltimore têm uti-
lizado conscientemente o espetáculo da praça do Porto desta maneira, enquanto símbolo da
suposta unidade de uma cidade dividida em classes e racialmente segregada. As atividades es-
portivas profissionais e os eventos como os Jogos Olímpicos de Los Angeles têm preenchido
uma função similar numa sociedade urbana muito mais segregada. (Harvey, 1995, p.132)

A construção deste “capital simbólico” sublinhado por Harvey, todavia, não se des-
tina apenas à atração dos investidores, mas também a fomentar a adesão do conjunto dos
segmentos sociais presentes na cidade às transformações econômicas e urbanas necessá-
rias, uma vez que elas significarão prioridades de investimentos em detrimento de outros,
talvez socialmente mais urgentes ou relevantes. A estimulação do “patriotismo cívico” dos
moradores da cidade, da noção de “pertencimento”, vontade de participação e confiança
no futuro da cidade, é, neste sentido, um papel importante atribuído aos governos locais,
cuja política de promoção interna

… deve apoiar-se nas obras e serviços visíveis, tanto os que têm um caráter monumental e
simbólico, como os dirigidos a melhorar a qualidade dos espaços públicos e o bem-estar das
pessoas. (Borja & Castells, 1998, p.154)

Entre estas obras visíveis, destaca-se a renovação urbana de centros históricos e áreas
portuárias degradadas, implementadas em numerosas localidades como Londres, Balti-
more, Barcelona, Buenos Aires, entre outras. Estas operações imobiliárias constituem uma
excepcional oportunidade de captura de investimentos externos e internos, já que a signi-
ficativa valorização que lhe é decorrente exerce forte atração sobre grandes empresas in-
corporadoras e capitais especulativos. Concomitantemente, elas viabilizam a dotação de
infra-estruturas culturais, de lazer e de negócios – anfiteatros, marinas, centros de conven-
ções, novas áreas de escritórios etc. –, igualmente interessantes do ponto de vista do mar-
keting urbano, além de criar um imaginário de progresso e de recuperação econômica, se-
ja ela real ou fictícia, que contribui para o consentimento dos moradores.

110 R. B. ESTUDOS URBANOS E REGIONAIS Nº 1 / MAIO 1999


R O S E C O M P A N S

CONCLUSÃO

As novas estratégias de desenvolvimento local que vêm sendo difundidas nos países
do Terceiro Mundo têm como pressuposto que a nova geografia do espaço financeiro e
industrial mundial redefiniu o papel das cidades como lugares de comando e de gestão
sobre os fluxos de capitais, mercadorias e informações. Embora tenham já surgido pela
necessidade do controle militar, político-administrativo e econômico sobre os territórios,
as cidades perderam seu poder e autonomia com o advento dos Estados nacionais, e esta-
riam agora recuperando parte deles ao protagonizar as condições gerais da produtividade
do sistema global.
Dentre estas condições gerais encontram-se infra-estruturas materiais e recursos so-
ciais específicos ao tratamento da informação, elemento essencial para o gerenciamento
do sistema produtivo organizado em redes de unidades multilocalizadas. Este modelo de
organização produtiva que combina descentralização, decomposição de processos, e re-
centralização de funções de controle, observado por Castells, sobretudo, na indústria de
alta tecnologia e de informática americanas, seria extensivo ao conjunto da estrutura in-
dustrial, na medida em que a microeletrônica se desenvolve na maquinaria e nos proces-
sos de produção de todos os ramos industriais.
Mesmo que a automação e a decomposição do processo de produção seja, de fato,
uma tendência verificada em todos os setores industriais, talvez ela não engendre os mes-
mos processos espaciais para o conjunto destes setores, pois, como sugere Veltz, e também
Salais & Storper, outros fatores, como tipo de concorrência a que estejam submetidos,
função estratégica, tipo de produto e até mesmo a participação do Estado na economia –
como no caso francês –, podem intervir na lógica da organização e, conseqüentemente,
na localização empresarial de cada um deles diferentemente.
Este é o primeiro elemento paradigmático do pressuposto teórico que sustenta as no-
vas estratégias de desenvolvimento local. Evidentemente, nos faltam elementos de análi-
se para avaliar a validade de uma tal hipótese, nem tivemos aqui esta pretensão. Todavia,
os exemplos, que se multiplicam, de implantações industriais, sejam grandes empresas
verticalizadas ou distritos de pequenas e médias empresas, mas que reúnem numa mesma
localização todas as etapas do processo de produção, tanto no Brasil – como no caso da
Renault, em Curitiba, e da Volkswagem, em Rezende –, quanto em outras partes do mun-
do – como no caso dos distritos industriais da Terceira Itália, de Los Angeles, das regiões
de Toulouse e Grenoble, entre outros –, nos permite questionar o caráter premonitório e
incontestável desta argumentação.
O segundo elemento paradigmático, decorrente da aceitação do primeiro, é a voca-
ção específica das cidades para o terciário avançado, isto é, para as atividades intensivas
em processamento da informação que dão capacidade de controle globalizado sobre a re-
de de unidades produtivas descentralizadas e sobre o fluxo de capitais. Ele sugere que,
com a redução dos custos dos transportes e os avanços tecnológicos nas comunicações, as
economias de aglomeração que conduziram as indústrias aos centros urbanos no passado
teriam sido eliminadas para este setor, continuando válidas apenas para o setor de servi-
ços. Os exemplos utilizados anteriormente também se aplicam no questionamento deste
segundo argumento.
Que as cidades apresentam forte potencialidade para o desenvolvimento de ativida-
des ligadas aos serviços, isto é inegável. Mas uma cidade pode ser muitas coisas. Suas fun-
ções políticas, administrativas, comerciais, financeiras gestionárias ou mesmo industriais,

R. B. ESTUDOS URBANOS E REGIONAIS Nº 1 / MAIO 1999 111


O P A R A D I G M A D A S G L O B A L C I T I E S

dependeram sempre de sua inscrição no território, isto é, no tecido econômico e social


compreendido num dado limite político-administrativo, seja ele a região, o continente ou
a nação. É a noção de território que está sendo agora colocada em xeque. As cidades pas-
sam a ser determinadas pela posição que ocupam na rede de fluxos econômicos globais,
desterritorializados, fluxos virtuais. As cidades são os nós de conexão desta rede e, por es-
ta razão mantêm relações privilegiadas com outras localidades a elas conectadas, e não
mais com seu hinterland ou com o espaço regional ou nacional.
Este é o terceiro elemento paradigmático. A articulação do local com o global. A es-
fera nacional deixa de ser um nível de análise pertinente, porque os fluxos econômicos
com a integração dos mercados ignoram as fronteiras político-administrativas do Estado-
nação. As últimas funções reguladoras que restariam aos Estados nacionais estariam sen-
do aniquiladas com a constituição dos blocos econômicos, a unificação de moedas e o po-
der militar supranacional da ONU, entre outras medidas de sua superação. E, na ausência
das capacidades reguladoras do Estado-nação, as localidades não teriam outra alternativa a
não ser subordinar-se às exigências de mobilidade e competitividade dos capitais globais.
O debate sobre a importância do Estado no quadro de globalização econômica é
central para a compreensão a respeito dos impactos que desta incidirão sobre as cidades e
a esfera local de decisão. Contudo, consideramos que as mudanças no âmbito institucio-
nal e político que garantirão a estabilidade e a continuidade do novo regime de acumula-
ção ainda estão em curso, sendo desta maneira ainda cedo para analisar a consecução das
tendências antecipadas pela hipótese da articulação do local e do global sem a interme-
diação da escala nacional de regulação econômica.
O que nos parece seu aspecto mais problemático, no entanto, é a aceitação da su-
bordinação aos interesses econômicos do capital global como uma fatalidade, fatalidade
esta que conduz a comportamentos oportunistas, egoístas e competitivos, e a localismos
exacerbados por parte dos governos e representantes políticos locais. A própria idéia de
um desenvolvimento que se encerra nos limites administrativos de uma cidade ignoran-
do sua periferia marginalizada e excluída, é, em si, uma idéia liberal e conservadora.
A competição interurbana é estimulada pela sensação de crise mas também pela ação
dos consultores internacionais que atribuem o suposto “sucesso” de determinadas locali-
dades ao seu voluntarismo e ousadia e, claro, ao cumprimento da agenda “estratégica” de
transformações exigidas para a inserção econômica da cidade nos fluxos globais. Nenhuma
palavra sobre conjunturas macroeconômicas que levaram o capital a investir em tal ou qual
localidade. Tudo depende da mobilização de vontades coletivas e outros fatores endógenos.
Todas as estratégias de atração de empresas e investimentos, orientadas a responder
antecipadamente aos requisitos de produtividade e competitividade das firmas, que ex-
pusémos na terceira parte do presente trabalho, são socialmente segregadoras. Elas se tra-
duzem em inversões volumosas de recursos públicos em grandes obras de infra-estrutura,
melhorias dos espaços públicos, provisão de equipamentos urbanos e operações imobiliá-
rias destinadas apenas a certos tipos de usuários, aos executivos das grandes empresas e as
novas camadas profissionais “estratégicas” do terciário avançado.
O alto custo social desta priorização de gastos orçamentários por administrações lo-
cais que viram suas atribuições e responsabilidades acrescidas com o desengajamento dos
Estados nacionais e das políticas sociais compensatórias e com a crise econômica, sobre-
tudo nos países do Terceiro Mundo, onde existem déficits sociais há décadas acumula-
dos, é compensado pelo dinamismo econômico resultante da inserção aos fluxos econô-
micos globais?

112 R. B. ESTUDOS URBANOS E REGIONAIS Nº 1 / MAIO 1999


R O S E C O M P A N S

Em primeiro lugar, é preciso considerar se os critérios de escolha da localização, ou


da relocalização das empresas que atuam no setor financeiro e de serviços à produção são
sensíveis às vantagens comparativas oferecidas pelo marketing das cidades competidoras.
A extrema concentração das funções de comando financeiro, controle, gestão e concep-
ção de processos e produtos nas grandes cidades dos países centrais, sublinhada por todos
os autores, indica o alcance limitado destas estratégias. Fatores como segurança, relações
privilegiadas com instituições públicas ou privadas locais, nacionalismos e maior qualifi-
cação do mercado de trabalho, contribuem pesadamente para esta inércia das firmas em
seus países de origem. Por outro lado, a abertura de filiais no exterior só é motivada, nes-
tes setores, pela expansão da demanda das grandes empresas por prestação localizada de
serviços de nível internacional ou pela expansão do IED, que dinamiza um determinado
mercado financeiro secundário.
Em segundo, mesmo nas “cidades globais” que são os centros financeiros da econo-
mia global, como Los Angeles e Nova York, o processo de dualização social é acelerado.
O distanciamento crescente entre integrados e excluídos nestas cidades, a explosão da vio-
Rose Compans é arquite-
lência e da economia informal, a “precarização” das relações de trabalho, a delinquência ta, doutoranda no IPPUR/
juvenil e o aumento do número de dependentes de drogas são alguns aspectos que têm UFRJ, e trabalha no Instituto
Municipal de Urbanismo Pe-
levado diversos autores a considerar que as sociedades centrais vivem hoje um processo de reira Passos (Prefeitura da
cidade do Rio de Janeiro).
“terceiromundização”. Qual futuro poderá este modelo de progresso, segregador e exclu- E-mail:
dente, reservar às nossas cidades e aos nossos povos? compans@unisys.com.br.

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A B S T R A C T This article discusses the new development economic strategies for cities
in the productive restructuration context. It focuses the role of the great cities like management
centers of the capital fluxes which allows an articulation between the local and the global
spaces without the mediation of the regional and national spheres. At first it introduces some
theoretical contributions about the emergence of an flux economy, which net organization for-
mat requires that the cities turn themselves connection points, as a strong influence in Third
World urban debate. Afterwards it analyses the paradigmathical arrangement of the "global
cities" with the support of general concepts and empirical dates. At last but not least, the pa-
per also argues the supposed natural vocation of the cities nowadays for the advanced Tertiary,
as show the several strategies diffused and recommended by international experts.

K E Y W O R D S Local development; urban management; globalization; global cities.

114 R. B. ESTUDOS URBANOS E REGIONAIS Nº 1 / MAIO 1999


L Ú C I A M . M . B Ó G U S E S U Z A N A P. T A S C H N E R

Ainda no que se refere à distribuição espacial das categorias ocupacionais na região


metropolitana de São Paulo, esse primeiro recorte analítico permite apontar para a dis-
persão dos trabalhadores de nível médio (trabalhadores não-manuais e do comércio e ser-
viços), por todos os vetores da metrópole, com alguma predominância no vetor Centro,
onde se concentram a elite dirigente e os profissionais de nível superior.
Em relação às características domiciliares, foram apuradas variáveis relativas à con-
dição de ocupação das casas, assim como algumas informações sobre saneamento.
Sobre a propriedade domiciliar, 66,92% das moradias da região metropolitana são
próprias (58,32% totalmente próprias e 8,60% apenas com a construção própria). Em
1980 52,65% das moradias metropolitanas eram próprias. Em 1980, as categorias de
apuração dividiam-se em próprias totalmente quitadas (42,32%) e em processo de aqui-
sição (10,33%). Em 1991 tem-se definidas a propriedade total e a propriedade apenas da
construção, podendo o lote ser cedido, alugado ou invadido. O aluguel e a cessão de ter-
ras para fins domiciliares são eventos pouco freqüentes. A maior probabilidade seria de
que as unidades onde apenas a construção é própria sejam casas construídas em terrenos
invadidos, ou seja, domicílios favelados. Pelo Censo de 1991, o número de casas favela-
das na RMSP era de 203.833, em 1.021 favelas (Anuário Estatístico de 1992). Pelos dados
censitários relativos aos domicílios, há 362.233 moradias com apenas a construção pró-
pria, portanto uma diferença de 158,4 mil domicílios.
Há fortes indícios de que as favelas recenseadas estejam subdimensionadas. O IBGE
computa, na sua publicação sobre favelas, apenas as unidades em assentamentos com mais
de cinqüenta casas. Não se pode afirmar, entretanto, que o número de domicílios favela-
dos metropolitanos seja exatamente 362 mil em 1991 – número de unidades com apenas
a construção própria, o que daria 8,6% da moradias metropolitanas em favelas. É prová-
vel que muitos domicílios favelados tenham sido computados como totalmente próprios.
Pelo menos, os dados relativos ao município da capital, sobre o qual existe um cadastro
de favelas mais detalhado, indica esta possibilidade. Em 1993, dados da Sehab-SP regis-
travam, para o município da capital, 378.683 casas faveladas. Os dados censitários de
1991, observando-se a categoria “apenas a construção própria”, fornecem 178.744 casas.
As informações sobre favelas do IBGE em 1991 fornecem o total de 135 mil moradias em
favelas para capital. Tem-se, assim, três estatísticas distintas, com o número indicado pe-
lo cadastro de favelas Sehab-SP/Fipe bastante superior aos dois indicados pelo Censo.
A análise comparativa das condições de ocupação das moradias metropolitanas mos-
tra uma diminuição da proporção de casas alugadas entre 1980 (37,57%) e 1991
(22,78%). O percentual de moradias cedidas manteve-se mais estável (8,40% em 1980 e
9,72% em 1991). A década foi marcada por crises econômicas e mudanças na legislação
do inquilinato. Este aumento de 14 pontos percentuais nos domicílios próprios (de
52,65% em 1980 para 66,82% em 1991) não deve significar melhores condições finan-
ceiras, expressas por propriedade da moradia. O financiamento para compra de casas foi
pequeno na década, em 1986 o BNH faliu, e desde 1984 funcionava de forma precária. A
grande probabilidade é de que este aumento do percentual de casas próprias deva-se ao
aumento do número de casas autoconstruídas e em favelas. A relação inversa entre renda
e propriedade domiciliar, rara nos países desenvolvidos e freqüente no Brasil, é verificada
na observação do percentual de aluguel por vetor da RMSP: no vetor Centro, onde se tem
a maior renda e a maior concentração da elite dirigente mais pequena burguesia mais pro-
fissionais de nível superior, está uma das maiores porcentagens de casas alugadas
(32,03%). O vetor Sudeste, que compreende o Grande ABC, com a segunda maior con-

R. B. ESTUDOS URBANOS E REGIONAIS Nº 1 / MAIO 1999 167


R E S E N H A

O MUNDO DO TRABALHO monização/negação do Estado, enfim, a política darwi-


BRASILEIRO EM nista orientada pelos ditames neoliberais hegemônicos,
PERSPECTIVA HISTÓRICA sublinhando-se aí a exegese da flexibilização das relações
Jorge L. Alves Natal e César A. Miranda Guedes contratuais trabalhistas e todo o seu séquito de desregu-
Departamento de Economia da Universidade Federal lamentação do mercado de trabalho. De outra maneira:
de Uberlândia: Revista Economia-Ensaios, v.10, n.2, se a crise econômica de meados dos anos 70 iniciou a
p.143-69, jul. 1996. derrubada dos anteriores níveis de emprego e ampliou
a informalização das relações de trabalho, não se pode
Pesquisas sobre a história da formação social brasi- negar que foi a partir do final dos anos 80 e, marcada-
leira, notadamente na sua feição mais estritamente eco- mente, a partir de 1994, que o próprio poder público fi-
nômica, apontam que ao longo de quase um século, liou-se a uma espécie de novo modelo de (anti)desenvol-
mais especificamente, do último quartel do século pas- vimento que não só liquida postos de trabalho como
sado até meados da década de 1970, no âmbito da gêne- “alimenta” o crescimento da informalização das relações
se, desenvolvimento e consolidação do seu padrão nacio- de trabalho, ao valorizar a terceirização, a liquidação de
nal de desenvolvimento,1 grosso modo, não só aumentou antigos direitos trabalhistas etc.
o emprego como a formalização das relações de trabalho. Não fora o bastante: ao pretender varrer para bai-
Na realidade, aquele padrão, que poderia ser sintetizado xo do tapete a página getulista no que ela tinha exata-
pelo conceito marxiano de industrialização, contribuiu mente de mais progressista, o atual projeto/estratégia
ainda para que o próprio mercado nacional2 se consoli- também opera, ao lado de tantas outras determinações,
dasse. Pari passu, por obra da estratégia geopolítica, es- para a destruição crescente de um dos pilares do merca-
pecialmente aquela formada no âmbito castrense, mas do e da integração nacionais. Explicando melhor: à des-
também pelo próprio processo de constituição do mer- construção do anterior “mundo do trabalho” brasileiro
cado nacional, estabeleceu-se outro cimento importante corresponde, pelo menos em algum grau, a desconstru-
para a formação da nação brasileira: a chamada integra- ção do próprio sonho de um território nacional integra-
ção do território nacional. Esse conjunto de discussões, do. Lá se vai, ao final do século XX, a noção que os bra-
salvo melhor juízo, nunca sublinhou o papel decisivo do sileiros do final do século passado haviam fincado em
“mundo do trabalho” na construção do mencionado ci- seus corações e mentes.
mento. Melhor dizendo: o aumento do emprego, pelo Porém, mais do que lamentar, é preciso sustar o
crescimento econômico quase sustentado ao longo de projeto social daqueles que não aprenderam por forma-
cem anos e, sobretudo, a generalização também crescen- ção intelectual, prática política e experiência vivencial a
te da formalização das relações de trabalho, a partir dos pensar que um país não pode ser resumido à integração
“capitalismos” regionalmente mais avançados, operaram competitiva sem fragmentar-se, até mesmo no plano so-
de modo extraordinário para que a noção de território, cioespacial (e, desta perspectiva, a chamada crise federa-
que já habitava os corações e as mentes dos brasileiros do tiva é uma das manifestações ou qualificação da crise do
final do século XIX, se consolidasse entre nós. E, como é próprio Estado brasileiro).
amplamente conhecido, para tal foi também decisiva a O artigo em pauta, tendo os delineamentos acima
participação ativa do Estado. como pano de fundo e utilizando dados recentes, exa-
De meados dos anos 70 até o final dos anos 80, ad- mina e defende uma reorientação das discussões acerca
veio a crise econômica, ou, como preferem outros, o es- do mundo do trabalho, ressaltando a importância do as-
gotamento do antigo padrão de desenvolvimento. As- pecto territorial, até porque este, ao contrário do que
sim, depois de um longo período expansivo, finalmente pensam equivocadamente alguns, não constitui mero
veio o desemprego, e, com ele, uma nítida inflexão na pano de fundo para as análises de economistas e de in-
trajetória de formalização das relações de trabalho. Con- telectuais de outras áreas disciplinares.
tudo, não havia ainda se instalado no país a práxis da de-
Jorge Luiz Alves Natal é doutor em Economia e professor do IPPUR/
1 Cf. J. M. Cardoso de Mello, O capitalismo tardio. S. Paulo: Brasiliense, 1981. UFRJ; César Augusto Miranda Guedes é doutor em Economia e pro-
2 Cf. W. Cano, Desequilíbrios regionais e concentração industrial no fessor do Departamento de Economia da Universidade Federal Rural
Brasil: 1930-1970. São Paulo: Global/Unicamp, 1985. do Rio de Janeiro.

190 R. B. ESTUDOS URBANOS E REGIONAIS Nº 1 / MAIO 1999