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FINE, Gail. Descartes and Ancient Skepticism: Reheated Cabbage? In: The Philosophical Review. v. 109, n.

2, Abr. 2000. p. 195-234.

Seção 1: apresentação do problema

 Teses de comentadores contemporâneos que apontam a existência de diferenças significativas entre os


ceticismos antigo e moderno:
 O escopo do ceticismo antigo é consideravelmente menos radical do que aquele do ceticismo moderno:
ao contrário dos modernos, os antigos não questionam se eles possuem corpos ou se existe um mundo
exterior onde se encontram os tipos de objetos que normalmente consideramos existir, por exemplo, eles
não suspendem o juízo quanto a se o mel existe, mas somente quanto a se ele é doce ou não (o que o
autor chama de ceticismo de propriedades).
 Céticos antigos rejeitam a crença enquanto os modernos rejeitam apenas o conhecimento.
 Uma explicação para esse escopo supostamente modesto do ceticismo antigo seria a sua preocupação
prática dado que este seria um modo de vida que conduziria o cético antigo a uma vida melhor; já o
ceticismo moderno, por ser uma questão estritamente metodológica, permite ao cético moderno agir
mesmo em face do ceticismo radical.
 Observação do autor: Apesar de Descartes ser considerado o primeiro articulador dessa versão nova e
moderna de ceticismo, pouco se discutiu a própria visão de Descartes sobre a relação entre essa versão e
o ceticismo antigo.
 Objetivo do artigo: preencher essa lacuna nos estudos sobre ceticismo antigo e moderno
 Observações adicionais: ao considerar o ceticismo antigo, maior atenção será dada ao Livro I dos
Esboços do Pirronismo, de Sexto Empírico; Descartes não era um cético e julgava ter sido o primeiro a
encontrar a “cura” para o ceticismo.

Seção 2: contato de Descartes com o ceticismo antigo

 Descartes nunca discute o ceticismo antigo de forma detalhada, nem dá indicações claras sobre quais
obras ele leu ou não, no entanto, o autor acredita que é razoável admitir que Descartes tinha familiaridade
com as ideias presentes na obra de Sexto, mesmo que fosse por intermédio de seus contemporâneos.
 Mesmo que não conheçamos as fontes de seu conhecimento do ceticismo antigo, podemos ver o que ele
pensa sobre o assunto em determinadas passagens de suas obras.

Seção 3: evidências textuais de que Descartes equipara os escopos do ceticismo antigo e moderno

 Em determinadas passagens, Descartes nega que o ceticismo apresentado em sua obra é mais radical que
o ceticismo antigo, entretanto, isso não deve ser considerado decisivo, pois Descartes pode não ter
percebido o caráter inovador de sua obra ou estava deliberadamente esquivando-se de uma acusação de
heresia.
 As passagens indicam que Descartes avalia que o ceticismo antigo ultrapassa os limites do ceticismo de
propriedades; ao duvidar de que ele tinha um corpo e da existência do mundo exterior, o ceticismo de
Descartes também ultrapassa os limites do ceticismo de propriedades; o autor sustenta que estas
constatações reforçam sua sugestão de que Descartes pensava que os céticos antigos também duvidavam
destas coisas.

Seção 4: a rejeição da crença no ceticismo antigo

 O autor acredita que é claro que os céticos antigos rejeitam não apenas o conhecimento, mas também a
crença, mas que não é claro se os céticos sustentam uma visão do tipo “nenhuma crença” ou uma visão
“alguma crença”, isto é, se eles rejeitam todas as crenças ou apenas algumas crenças.
 Ele sustenta que os céticos possuem crenças sobre como as coisas aparecem para eles, mas suspendem
o juízo sobre se tais aparências são verdadeiras: as aparências sobre as quais eles têm crenças são
não-doxásticas.
Seção 5: resposta ao argumento da apraxia

 O próprio Descartes utiliza esse argumento para criticar os céticos antigos enquanto alega que sua
admissão temporária do ceticismo na Primeira Meditação não o faz agir de maneira descuidada, pois
restringe suas dúvidas ao âmbito da busca da verdade e não as estende para o âmbito da ação.
 Esse isolamento do ceticismo em relação ao âmbito da ação consiste, na interpretação do autor, numa
rejeição tanto do conhecimento quanto da crença: Descartes apoia-se naquilo que parece ser verdadeiro
para agir, mas não afirma que as aparências são verdadeiras, ou seja, tais aparências são não-doxásticas.
 O autor utiliza a distinção terminológica entre crença e aceitação para sustentar sua interpretação.

Seção 6: discussão sobre o critério de ação de Sexto e a moral provisória de Descartes

 Sexto distingue critérios de verdade e critérios de ação: os céticos suspendem o juízo quanto a existência
de critérios de verdade, mas apoia-se “naquilo que aparece” como o seu critério de ação.
 O autor entende que esse critério de ação consiste em aceitar e agir com base nas aparências
não-doxástica sem, no entanto, tomar os conteúdos dessas aparências como verdadeiros.
 O autor conclui, contrariamente ao posicionamento de Descartes, que existe mais uma similaridade entre
o ceticismo dos pirrônicos e o ceticismo moderno: ambos respondem ao argumento da apraxia dizendo
que eles aceitam as aparências não-doxásticas.
 Além disso, o autor começa a apontar mais algumas similaridades entre as respostas de Sexto e Descartes
ao argumento da apraxia: ambos distinguem os âmbitos teórico (critério de verdade/busca da verdade) e
prático (critério de ação/questões de ação); ambos os códigos de conduta de conduta contêm quatro
elementos (observações cotidianas/máximas) que são aceitos a fim de evitar a inatividade.

Seções 7 e 8: respostas a algumas objeções

 1. a posição de Descartes parece envolver crenças de primeira ordem; 2. Sexto chega ao modo de vida de
forma passiva enquanto a moral provisória é estabelecida de forma ativa; 3. Descartes não rejeita a crença
de forma genuína e por isso pode agir; 4. os céticos antigos nunca duvidavam de que tinham um corpo
para agir ou que existia um mundo onde agir, pois sua preocupação principal era prática (os antigos
tentavam viver o ceticismo que, para Descartes, era uma questão estritamente metodológica).

Seção 9: conclusão

 Teses defendidas pelo autor:


 A visão de Descartes sobre como o ceticismo apresentado em sua obra deve ser comparado ao ceticismo
antigo é diferente de uma visão moderna que é atualmente bastante difundida, pois:
 A visão de Descartes é que tanto os céticos antigos quanto os modernos rejeitam a crença.
 A visão de Descartes é que o ceticismo presente em sua obra não é mais radical do que o ceticismo
antigo e que ambos vão além do ceticismo de propriedades.
 Embora Descartes e os comentadores contemporâneos concordem que sua resposta ao argumento da
apraxia é bastante diferente da resposta de Sexto, o autor acredita que esta interpretação está errada,
pois essas respostas, mesmo contendo, de fato, algumas diferenças, são mais similares do que
geralmente se pensa.
 Apesar desta má compreensão da resposta de Sexto ao argumento da apraxia, em vários outros pontos
importantes Descartes está mais próximo da melhor interpretação do que essa visão familiar corrente.