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Motrivivência Ano XXIV, Nº 38, P. 262-269 Jun.

/2012

http://dx.doi.org/10.5007/2175-8042.2012v24n38p262

CORPOS, IDENTIDADE E FOTOGRAFIA NA


MODERNIDADE DIGITAL

Rodrigo Duarte Ferrari1


André Marsiglia Quaranta2
Antonio Luis Fermino3
Ângelo Luiz Brüggemann4

Resenha
[BASTOS, Larissa Grandi Vaitsman. Corpografias: entre o analógico e o digital. 2008.
Tese (Doutorado em Comunicação). Rio de Janeiro, Programa de Pós-Graduação
em Comunicação, Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Resumo

Mídia, fotografia, corpo e identidade feminina são os quatro eixos que a autora da tese
Corpografias: entre o analógico e o digital utiliza para refletir sobre o processo de
construção da identidade na pós-modernidade. Nesse contexto, realizamos uma resenha
sobre a tese com o objetivo de abrir um diálogo entre as contribuições desta produção
com o campo da mídia-educação física, assim como questionar a utilização do termo
pós-modernidade para caracterizar a sociedade e cultura contemporânea.

Palavras Chaves: Mídia, fotografia, corpo, identidade

1 Mestre em Educação Física (PPGEF/UFSC) e doutorando em Educação no PPGE/CED/UFSC.


Contato: rd.ferrari@gmail.com.
2 Mestre em Educação Física (PPGEF/UFSC), professor da rede pública estadual de Sergipe (SEED/SE). Contato:
andrequaranta@gmail.com.
3 Mestrando em Educação no PPGE/CED/UFSC. Contato: antonioluisf@gmail.com.
4 Acadêmico do curso de licenciatura em Educação Física/UFSC, bolsita PIBIC/CNPq/UFSC.
Contato: angelobruggemann@gmail.com.
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INTRODUÇÃO as novas forças que regem a construção da


identidade feminina pós-moderna e o novo
Em sua tese de doutorado, Bastos ideal de beleza no século XXI. A tese da
(2008) reflete sobre as consequências da autora está dividida em quatro capítulos,
transição tecnológica, do analógico para o em que ela apresenta suas reflexões para
digital, vinculadas às Tecnologias de Infor- argumentar a favor de sua hipótese. No
mação e Comunicação (TICs), na construção primeiro capítulo, a mídia é o foco de suas
de um novo ideal de beleza feminino que reflexões, em seguida a linguagem fotográ-
começa a se desenhar no início do século fica assume a centralidade das discussões.
XXI5. Segundo a autora, as imagens digita- No terceiro capítulo, o corpo se torna o
lizadas e veiculadas na mídia, sobretudo, foco de seu trabalho, e por fim, a autora
as com interesses mercadológicos asso- encerra suas argumentações refletindo sobre
ciados à indústria estética, são facilmente a identidade feminina.
manipuláveis por ferramentas como o pho- A tese de Bastos (2008) nos chamou
toshop6 e são responsáveis pela criação de a atenção pelo tema de suas reflexões na
padrões de beleza artificiais e inalcançáveis intersecção dos campos da comunicação e
para a maioria das mulheres. da educação física, pois as relações entre o
Por sua vez, esses padrões digitais corpo e a mídia despertam nossos interesses
se tornam desejos de consumo e atingem pedagógicos relativos a essa temática.
com eficácia as metas da indústria estética, Escolhemos a tese de Bastos (2008)
que vende desde produtos cosméticos até a partir de um estudo exploratório na forma
a necessidade das mulheres de se submete- de um levantamento das teses e disserta-
rem à intervenções cirúrgicas. Por exemplo, ções, publicadas e disponíveis para acesso
as populares próteses de mama de silicone. na internet, da área de comunicação que
Bastos (2008) também afirma que esse mo- poderiam dialogar com o campo da educa-
vimento é responsável pelo crescimento de ção física. Neste conjunto elegemos, a tese
distúrbios psicológicos, como a anorexia. Corpografias: entre o analógico e o digital
Fotografia, mídia e corpo são as três de Larissa Grandi Vaitsman Bastos (2008),
bases que sustentam a hipótese da tese de defendida na Universidade Federal do Rio
Bastos (2008), em que o fenômeno de des- de Janeiro, sob a orientação da Dra. Nízia
materialização7 do corpo provocado pelo Maria Souza Villaça como o trabalho que
digital e os processos de globalização8 são seria o objeto de nosso estudo. O críterio de

5 Esse estudo foi realizado como tarefa didática da disciplina Seminário de Aprofundamento em Pesquisa em
Educação Física, Mídia e Tecnologias, desenvolvida no 3º trimestre/2011 no Programa de Pós-Graduação em
Educação Física (PPGEF) da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), pelos professores Dr. Giovani De
Lorenzi Pires e Fernando Gonçalves Bitencourt.
6 Software que possui como característica a edição de imagens.
7 Bastos (2008) não define o significado dessa palavra no contexto de sua pesquisa, porém interpretamos que a
autora se refere à característica dos objetos digitais, formados por bits de informação e que precisam de algum
aparelho eletrônico para se materializar. Por exemplo, a fotografia analógica é a representação de uma imagem
que é inscrita no filme fotográfico, por outro lado, a fotografia digital é uma representação de uma imagem em
bits de informação.
8 Bastos (2008) também não define a que se refere com a palavra globalização, porém interpretamos que ela
seja ao processo de globalização da economia, nesse caso, fazemos essa leitura a partir das descrições do
sociólogo Castells (2010).
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escolha foi nosso interesse em dialogar com conteúdos impressos que a mídia se tornou
a temática da tese, sobertudo, a relação entre um dos elementos centrais da organização
o corpo, as TICs e a opção teórica da autora. social e cultural moderna. Nesse caso, o
Após a realização de um estudo de- papel se tornou o primeiro meio capaz de
talhado sobre a tese de Bastos (2008), foca- fazer com que a informação circulasse nas
lizamos nossas reflexões na opção da autora sociedades europeias do século XV. No
em utilizar o conceito pós-modernidade século XX, o processo de circulação da
para representar o contexto social e cultural informação atingiu outros patamares, com
de sua pesquisa. Dessa forma, nosso foco as invenções do rádio, cinema e televisão.
de investigação é abrir um diálogo com a Segundo Bastos (2008), esses meios de
tese de Bastos (2008) e refletir sobre a mí- comunicação estão associados com o pa-
dia, a linguagem fotográfica e a identidade radigma analógico e ainda fazem parte da
feminidade em meio as tensões e limites da modernidade.
noção de ruptura pós-moderna. Antes da internet, a informação
No resumo da tese, Bastos (2008) era produzida e veiculada exclusivamente
anuncia objetivamente essa escolha: “A por profissionais e organizações especiali-
escrita do corpo na pós-modernidade e sua zadas nessa tarefa, enquanto a recepção era
desmaterialização no trânsito entre os para- destinada aos cidadãos consumidores. Essa
digmas analógicos e digitais, integrados pelos lógica funciona para as mídias impressas,
processos de globalização, compõem a hipó- radiofonicas e audiovisuais. Entretanto, com
tese desenvolvida neste trabalho” (BASTOS, a consolidação da internet, essa lógica per-
2008 – grifo dos autores desta resenha). Com deu a nitidez dos contornos que definiam as
isso, questionamos se é possível identificar fronteiras que separavam os comunicadores
na tese de Bastos (2008) os aspectos que dos receptores. Na internet qualquer cida-
objetivam um ruptura entre a modernidade e dão com acesso à internet é um receptor e
a pós-modernidade em meio a essa transição um comunicador global em potencial:
do analógico para o digital? Com base nesse
questionamento, objetivamos refletir sobre a O sistema de comunicação, portanto,
não se situa na tradição mecanicista do
fotografia, a mídia e o corpo a partir de uma
séc. XIX (um emissor que remete uma
leitura mídia-educativa9 da tese de Bastos mensagem a um destinatário) e talvez
(2008) direcionada para o campo reflexivo nem na tradição cibernética (na qual –
e prático da educação física. através do feedback ou retroatividade
– o sistema se torna complexo e circu-
lar). O texto visual deve ser visto como
MÍDIA, FOTOGRAFIA, CORPO E IDENTI- resultado de um contexto inquieto que
DADE FEMININA envolve sempre esses três participan-
tes, cada qual com seus papéis duplos
Desde a revolução de Gutenberg de observados e observadores: autor,
informante e espectador são atores do
com a invensão da prensa móvel para
processo comunicativo (CANEVACCI
reproduzir em larga escala livros e outros citado por BASTOS, 2008).

9 O conceito de Mídia-Educação (BELLONI, 2001; FANTIN, 2006), utilizando elementos dos campos da educação
e da comunicação, tem por objetivo a formação do sujeito crítico diante das linguagens midiáticas.
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Bastos (2008) continua e reflete pela autora como parte de uma realidade
sobre essas relações de comunicação com totalmente reificada, onde a crítica e a au-
o auxílio de Baudrillard, que estabelece re- tonomia dos sujeitos não são mais possíveis:
lações entre a sedução, as imagens digitais e “Independente da exibição consentida,
o consumo no mundo globalizado. A autora vemo-nos sujeitos a um sistema cada vez
cita o papel da fotografia na publicidade mais aperfeiçoado de controle, no qual
para atingir os interesses mercadológicos diversos tipos de dispositivos de vigilância
e da fotografia no jornalismo como meio nos acompanham e revelam a cada minuto”
para legitimar os discursos sobre a verdade (BASTOS, p. 48, 2008).
objetiva das informações. Para a autora, a fotografia é um dos
É nesse contexto que a autora situa aspectos centrais desse sistema social de
a relação entre o desejo e a linguagem fo- controle e ela ainda afirma que a formação
tográfica como aspectos centrais no jogo de da identidade do sujeito pós-moderno está
criação e definição de novas indentidades ligada com a linguagem fotografica, princi-
na pós-modernidade. Além da linguagem fo- palmente, na transição do analógico e para
tográfica, Bastos (2008) afirma que a moda e o digital. No âmbito da fotografia digital,
suas constantes mutações também exercem afirma Bastos (2008) que as possibilidades
forte influência nesses processos vinculados produtivas e a circulação das imagens são
à identidade do sujeito pós-moderno: características pós-modernas.
A transição para o paradigma digital
Para Hall (2003:12-3), classificar e defi- gerou blocos distintos, os que aceitam e
nir o sujeito pós-moderno é tarefa com-
os que não concordam com as inovações
plexa. Diferente do sujeito iluminista,
“centrado, unificado, dotado das capa- tecnológicas na produção das fotografias.
cidades de razão, de consciência e de Levando em consideração que a fotografia
ação, cujo centro consistia num núcleo é uma linguagem, de acordo com Bastos
interior”,(HALL:2003:10) ou do sujeito
(2008, p. 75), “a manipulação e o manejo
sociológico, cujo núcleo interior não
era autônomo e auto-suficiente, mas era do processo permanecem, em essência,
formado na relação “com outras pessoas sem significativas mudanças”. O que está
importantes para ele”, (HALL:2003:11) em voga é entender que houve modifica-
o atual se classifica exatamente pela não
ções - além das físicas como extinção dos
permanência e pela extrema flexibilida-
de, tornando-se mais “provisório, vari- filmes - da seguinte ordem:
ável e problemático” (HALL:2003:12)
(BASTOS, p. 33, 2008) Elas aconteceram e abalaram de manei-
ra significativa a produção fotográfica,
principalmente no que diz respeito ao
Em meio a essa fragmentação da
princípio de captação da imagem, à éti-
identidade do sujeito moderno e da busca ca profissional, à relação com o tempo
ou reflexões sobre novas possibilidades de e ao fluxo das imagens, além da preo-
multiplas identidades pós-modernas, Bastos cupação com os métodos de armazena-
mento, que devem garantir que, dentro
(2008) interpreta o papel da internet no
de algumas décadas, ainda poderemos
início do século XXI com uma imagem do contar com uma memória iconográfi-
próprio fim da modernidade. A internet e ca preservada tanto em nível pessoal
a linguagem fotográfica são interpretados quanto público (BASTOS, 2008, p. 75).
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A questão que Bastos (2008) mais corporais, nas formas de sonhar e de de-
específica nesta transição para o paradigma sejar que propõem (SANTAELLA 2004,
citado por BASTOS, 2008, p. 108).
digital, reside nas possibilidades manipula-
tivas das imagens, o que é refletido a partir
Relacionado a esse corpo pós-
do momento em que a fidedignidade e
-moderno convertido em imagens, Bastos
correspondência dos fatos como realmente
(2008), reflete sobre a construção da
aconteceram fica comprometida, porém a
identidade feminina e utiliza o conceito de
autora não despreza que esta possibilidade
identidade volátil proposta por Hall (2002).
não estivesse presente na perspectiva ana-
Com este conceito de identidade
lógica. Essa condição é potencializada com
a autora compreende a identidade das
o crescimento da internet, que gera uma
mulheres como algo em transformação
nova dinâmica de produção, veiculação e
constante, porém, à procura da manutenção
compartilhamento de imagens fotograficas.
do “jovem”. Esta procura se dá pela necessi-
A autora entende que na pós mo-
dade das mulheres serem percebidas e não
dernidade “a relação entre o sujeito e seu
somente se perceberem, fazendo com que
próprio corpo – assim como o corpo do
seus corpos se tornem a sua identidade na
outro” (BASTOS, 2008, p. 103) não é mais
procura de um reconhecimento.
decisiva que em outros tempos. Pois há
Para Hall (2000,p.13), “a identidade
uma desmaterialização dos corpos, a partir
plenamente unificada, completa, segura
do momento em que se tornam virtuais,
e coerente é uma fantasia”. Pois estamos
enfatizando que na sociedade atual o corpo
inseridos em um universo de significações
é a principal atração. Corpo este que foi
e representações culturais na qual se multi-
pasteurizado por uma indústria estética,
plicam e somos confortados por identidades
que padronizou um ideal de corpo para
que nos cabem em determinados momen-
as mulheres.
tos. Porém, contraditoriamente as mulheres,
Na atualidade, para Bastos (2008),
salvo algumas exceções, estão em busca do
o corpo passou a ser um identificador/
mesmo padrão.
formador de determinados grupos sociais,
A autora apresenta o livro de 30
que se juntam pela forma de seus shape,
anos da Playboy que demonstra esta procura
“deslocando-nos do eixo das relações
da igualdade dos corpos com o passar dos
humanas na concepção mais tradicional,
anos, lá nos anos 70 era perceptível as di-
concentrando-nos, de certa forma, no que
ferença entre os corpos das mulheres, cada
se vê, no que se apresenta, e não no que
um com sua identidade, e que nos tempos
realmente nos foi determinado” (p. 105).
atuais só se muda a pessoa pois os corpos
Isto induz os sujeitos a buscarem um corpo
são todos semelhantes sem uma identidade
perfeito, os mesmos corpos que são divul-
destacável (p.141).
gados e construídos pela mídia:
Estes corpos sem identidade ou
São, de fato, as representações nas mídias com identidade global podem ser pensados
e publicidade que têm o mais profundo como uma sociedade consumista que se
efeito sobre as experiências do corpo. São sente na necessidade de “ter” algo novo
elas que nos levam a imaginar, a diagra- e não “ser” o novo. Tendo em vista que o
mar, a fantasiar determinadas existências
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mercado da moda que é o grande influen- justifique o uso da expressão pós-moderno.


ciador desta identidade, é constantemente A pós-modernidade anunciaria o fim da
atualizado e consumido sem nenhuma modernidade e a inauguração de uma nova
reflexão crítica quanto ao assunto de iden- sociedade e uma nova cultura.
tidade cultural. Apesar de não estar explicito em
Na quarta parte do seu trabalho, um sua tese, Bastos (2008) se refere à pós-
tópico apresenta as questões de identidade, modernidade com enfase no contexto social
sendo oferecido ao leitor um recorte históri- da economia, do qual faz parte a mídia, e
co sobre a evolução das revistas femininas exercendo seu poder via os artifícios da
que influenciam muito em como as mulhe- publicidade. Segundo Rouanet (1987), o
res devem se comportar, se vestir e estar sistema econômico capitalista é uma das
fisicamente. “As revistas femininas são, da esferas sociais que definem a modernida-
mesma forma, palco para a exibição daquilo de10 em torno da organização racional dos
que se constata como eco e consequência processos de produção, da existência de
dos padrões midiáticos percebidos em nossa um força de trabalho livre, no cálculo con-
sociedade de consumo e do espetáculo” tábil e na utilização de técnicas científicas
(Bastos, 2008, p.149). para aumentar a produtividade. Em outras
palavras, essa descrição representa o que
CONSIDERAÇÕES FINAIS se identificou como sociedades ocidentais
industrializadas e apesar de algumas vai-
Em síntese, Bastos (2008) argumenta riantes, os adeptos da pós-modernidade
que na transição paradigmática do analógi- argumentam a favor da existência de modi-
co para o digital, a fotografia digital de cor- ficações nessa estrutura que caracteriza uma
pos, cuja imagens são facilmente manipulá- ruptura. É dessa perspectiva que surge as de-
veis, se destaca como linguagem jornalística nominações de sociedades pós-industriais e
e publicitária que influencia a construção globalizadas.
da identidade feminina no sécuo XXI. Esse O fato é que não há dúvida de que
processo ocorre com a padronização e o capitalismo se transformou, mas também
veiculação de um ideal de beleza corporal não há dúvida que essas modificações não
feminino pelos meios de comunicação, são suficientes para descaracterizar ou
com destaque para a internet, um meio com substituir por outras relações as caracterís-
características diferentes de produção e con- ticas do capitalismo descritas por Rouanet
sumo de informações. Até esse momento, (1987). Para o autor o equivoco dos teóricos
concordamos com as reflexões críticas da da pós-modernidade é confundir as trans-
autora, contudo, não identificamos em seu formações tecnológicas com o âmbito das
trabalho uma argumentação consistente que relações sociais. Definitivamente, a internet

10 Rouanet (1987) escreve no artigo A verdade e a ilusão do pós-moderno os limites das tentativas teóricas de
definir uma ruptura entre a modernidade e a pós-modernidade. O autor desenvolve seus argumentos com base
na definição webweriana de modernidade social (estado e economia) e cultural (saber, moral e arte). Porém,
nessa resenha vamos nos concentrar apenas na discussão econômica, por ela se destacar na tese de Bastos
(2008) e por uma questão de delimitação de nossas reflexões.
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é uma revolução tecnológica dos meios de contemporanea descrita e analisada por


comunicação, contudo, essa revolução ain- Bastos (2008) é a mesma do início do século
da não desencadeou mudanças profundas XX. Os argumentos da autora não superam
que caracterizem novas relações sociais e nem diferem do conteúdo do capítulo
hegemônicas: A Indústria Cultural: o Esclarecimento
como Mistificação das Massas (ADORNO;
Assim como não foi a máquina a va- HORKHEIMER, 1985) que foi publicado
por que iniciou o capitalismo, mas
um novo tipo de relações sociais, não
em 1947. Inclusive, pelo que entendemos,
será o computador de quinta geração a autora radicaliza os efeitos da lógica da
que vai acabar com o capitalismo, e indústria cultural e valoriza ainda mais a in-
sim uma mudança nas relações sociais tegração das subjetividades à esse modelo,
(ROUANET, 1987, p. 259).
a despeito das possibilidades de resistência

frente aos interesses mercadológicos da
Apesar desses limites na identifica-
indústria cultural.
ção de uma ruptura definitiva no sistema
econômico capitalista, destacamos que o O corpo que se desmaterializa e se
mesmo se transformou ao ponto de se tor- transforma em imagem digital manipulada é
nar uma complexa rede global de negócios apenas uma variação dos efeitos cinemato-
multinacionais. Isso gera consequencias gráficos hollywoodianos e a criação artificial
que são muito bem observadas e analisadas de suas musas, sempre exploradas pelos inte-
por Bastos (2008), pois a globalização exer- resses publicitários. Para os consumidores só
ce uma força que tende à padronização de restam duas opções: “participar ou omitir-se”
um ideal de beleza do corpo feminino, que (ADORNO; HORKHEIMER, 1985, p. 122):
se torna ainda mais mercadoria a ser con-
sumida, tanto pelas mulheres como pelos O efeito, o truque, cada desempenho
isolado e repitível foram sempre cúm-
homens. Soma-se a esse contexto, a trans-
plices da exibição de mercadorias para
formação relacional dos individuos com as fins publicitários, atualmente todo
fronteiras nacionais e o enfraquecimento close de uma atriz de cinema serve de
da identidade nacional. Porém, nesse caso publicidade de seu nome, todo proces-
estamos no máxímo descrevendo a inten- so tornou-se um plug de sua melodia.
sificação da crítica realizada por Adorno e Tanto técnica como economicamente,
a publicidade e a indústria cultural se
Horkheimer sobre a própria modernidade confundem (ADORNO; HORKHEI-
a partir do conceito de indústria cultural: MER, 1985, p. 135).

Sua ideologia é o negócio. A verdade


Para finalizar, citamos as ideias de
em tudo isso é que o poder da indústria
cultural provém de sua identificação Habermas (1990), que afirma não haver
com a necessidade produzida, não da nada mais moderno do que criticar e apon-
simples oposição a ela, mesmo que tar os limtes da modernidade e isso não
se tratasse de uma oposição entre a
significa identificar uma ruptura social e
onipotência e impotência (ADORNO;
HORKHEIMER, 1985, p. 113). cultural, mesmo que haja um desejo implí-
cito de ruptura no sentido da possibilidade
A necessidade produzida pela mídia de superação das críticas anunciadas. O
com a ajuda da linguagem fotográfica digital autor completa afirmando que a própria
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modernidade nasceu como crítica sobre ela REFERÊNCIAS


mesma, a partir da obra de Hegel (1770 –
1830), que identificou na filosofia kantiana ADORNO, Theodor W.; HORKHEIMER,
um marco de ruptura entre a idade média Max. Dialética do esclarecimento:
e a modernidade. Pelo que argumentamos fragmentos filosóficos. Rio de Janeiro:
até aqui, não basta adotar o prefixo “pós” e J. Zahar, 1985.
criticar a modernidade para que haja uma BASTOS, Larissa Grandi Vaitsman.
Corpografias: entre o analógico e o
ruptura social e cultural concreta. Portanto,
digital. 2008. Tese (Doutorado em
concluimos que a utilização da expressão
Comunicação). Rio de Janeiro, Programa
pós-modernidade não apresenta fundamen-
de Pós-Graduação em Comunicação,
tos que justifiquem a sua utilização na tese Universidade Federal do Rio de Janeiro.
apresentada, apesar de concordarmos com CASTELLS, Manuel. A sociedade em rede.
grande parte do conjunto das críticas que a São Paulo (SP): Paz e Terra, 2010.
autora sistematizou em sua pesquisa, tam- FANTIN, Monica. Mídia-Educação: conceitos,
bém reconhecendo a importância de uma experiências, diálogos Brasil-Itália.
discussão como essa para o aprofundamen- Florianópolis: Cidade Futura, 2006.
to das reflexões sobre a mídia no campo da HABERMAS, Jurgen. O discurso filosófico da
Educação Física. modernidade. Lisboa: Dom Quixote, 1990.
ROUANET, Sergio Paulo. As razoes do
iluminismo. São Paulo: Companhia das
Letras, 1987.

BODIES, IDENTITY AND PHOTOGRAPHY IN THE MODERNITY DIGITAL

Abstract

Media, photography, body and female identity are the four areas that the author of
the thesis Corpografias: between analog and digital uses to reflect on the process of
identity construction in post-modernity. In this context, we conducted a review of the
thesis in order to open a dialogue between production of the contributions to the field of
media-education, as well as questioning the use of the term postmodern to characterize
contemporary society and culture.

Keywords: Media; photography; body, identity

Recebido em: abril/2012


Aprovado em: agosto/2012