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Linguagem Fotográfica

Material Teórico
Análise da Imagem – Nível Morfológico

Responsável pelo Conteúdo:


Prof.ª Me. Rita Garcia Jimenez

Revisão Textual:
Prof.ª Me. Natalia Conti
Análise da Imagem – Nível Morfológico

• Introdução;
• Análise da Imagem – Nível Morfológico;
• Outras Informações;
• Anexo 1.

OBJETIVO DE APRENDIZADO
· Conhecer os elementos básicos para a leitura de uma imagem foto-
gráfica no nível morfológico.
· Identificar em fotografias os elementos que compõem o nível morfo-
lógico para análise de uma imagem.
· Realizar análise de imagem fotográfica a partir do uso de ficha espe-
cífica para o nível morfológico.
Orientações de estudo
Para que o conteúdo desta Disciplina seja bem
aproveitado e haja maior aplicabilidade na sua
formação acadêmica e atuação profissional, siga
algumas recomendações básicas:
Conserve seu
material e local de
estudos sempre
organizados.
Aproveite as
Procure manter indicações
contato com seus de Material
colegas e tutores Complementar.
para trocar ideias!
Determine um Isso amplia a
horário fixo aprendizagem.
para estudar.

Mantenha o foco!
Evite se distrair com
as redes sociais.

Seja original!
Nunca plagie
trabalhos.

Não se esqueça
de se alimentar
Assim: e de se manter
Organize seus estudos de maneira que passem a fazer parte hidratado.
da sua rotina. Por exemplo, você poderá determinar um dia e
horário fixos como seu “momento do estudo”;

Procure se alimentar e se hidratar quando for estudar; lembre-se de que uma


alimentação saudável pode proporcionar melhor aproveitamento do estudo;

No material de cada Unidade, há leituras indicadas e, entre elas, artigos científicos, livros, vídeos
e sites para aprofundar os conhecimentos adquiridos ao longo da Unidade. Além disso, você
também encontrará sugestões de conteúdo extra no item Material Complementar, que ampliarão
sua interpretação e auxiliarão no pleno entendimento dos temas abordados;

Após o contato com o conteúdo proposto, participe dos debates mediados em fóruns de discus-
são, pois irão auxiliar a verificar o quanto você absorveu de conhecimento, além de propiciar o
contato com seus colegas e tutores, o que se apresenta como rico espaço de troca de ideias e
de aprendizagem.
UNIDADE Análise da Imagem – Nível Morfológico

Fig. 1 – Henri Cartier-Bresson. Venda de ouro, 1948. Fotografia


Fonte: Hacking, 2012

Introdução
Você pode encontrar fotos em qualquer lugar. É simplesmente uma
questão de perceber as coisas e organizá-las. Você apenas tem de se
preocupar com o que está ao seu redor e envolver-se com a humanidade
e a comédia humana. Elliot Erwitt (1928-) (LOWE, 2017, p. 197)

A análise de uma fotografia a partir de seus elementos morfológicos – que


possuem natureza espacial e constituem a estrutura da imagem – auxilia na
identificação das diferentes relações do texto visual. Se prestarmos atenção em
uma foto, identificaremos pontos, linhas, texturas, cores, entre outros elementos.
O conjunto dos aspectos tratados no nível morfológico nos possibilita determinar
se a imagem que analisamos é figurativa/abstrata, simples/complexa, possui um
único significado/mais de um significado, etc. Apesar de o nível morfológico estar
centrado no exame dos elementos objetivos, não devemos perder de vista que o
seu estudo não pode estar isento de uma carga subjetiva na atividade analítica.

Análise da Imagem – Nível Morfológico


Descrição do motivo fotográfico
A análise propriamente dita da fotografia, conforme Felici (2004), deve ser
iniciada a partir de uma detalhada descrição do motivo fotográfico, ou seja, aquilo
que a fotografia representa em uma primeira leitura da imagem. Esta primeira

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informação auxilia o analista a identificar o grau de figuração ou de abstração da
fotografia, oferecendo condições para que o estudo da imagem se desenvolva.

Lembrando que figuração está relacionada à representação de seres, natureza


e objetos em suas formas reconhecíveis para aqueles que as olham, conforme
podemos observar na figura 2. Já a abstração busca expressar o mundo interior, o
mundo dos sentidos, bem como relações concretas usando como referência apenas
os recursos como a cor, as linhas, etc. (Fig. 3) (ARTE FIGURATIVA, 2018).

Fig. 2 – Gabriel Orozco. Gato na selva, 2002. Fotografia


Fonte: Hacking, 2012

Fig. 3 – Garry Fabian Miller. Saciando o olhar de vermelho & azul, 2008. Fotografia
Fonte: Hacking, 2012

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UNIDADE Análise da Imagem – Nível Morfológico

Ponto(s) de interesse
Do ponto de vista da composição da imagem, uma fotografia é formada por
grãos fotográficos, mais ou menos visíveis, no caso da fotografia fotoquímica
(analógica); ou por pixels (picture elements), no caso da fotografia digital. O ponto
é o elemento visual mais simples.

Como conceito morfológico, o ponto também pode estar relacionado com a


construção compositiva da imagem por meio da existência de centros de interesse
em uma fotografia ou de focos de atenção.

Os pontos podem coincidir ou não com os pontos de fuga quando se trata de


uma composição em perspectiva, ou da existência de um centro geométrico da
imagem (encontro das duas diagonais). Neste último caso, dependendo da posição
do ponto no espaço da representação, a composição pode ter um maior ou menor
dinamismo. Se o ponto coincide com os eixos diagonais da imagem (geralmente
quadrada ou retangular) encontraremos uma composição na qual o ponto contribui
para incrementar a tensão na imagem.
a) Ponto único ou simples – Chama a atenção para si por ser a única
concentração de detalhe em uma imagem praticamente vazia. A
mensagem transmitida pela imagem de apenas um ponto é a de
isolamento (Fig. 4).

Fig. 4 – Paul Stefan. Tate Modern Turbine Hall, s/d. Fotografia


Fonte: Lowe, 2010

b) Ponto central – De forma geral é quando o ponto coincide com o centro


geométrico da imagem (intersecção das duas diagonais), configurando
uma composição estática (Fig. 5).

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Fig. 5 – George Hoyningen-Huene. Mergulhadores, 1930. Fotografia
Fonte: Hacking, 2012

c) Dois ou mais pontos – Assim que um outro ponto (além do único) é


identificado em uma imagem, imediatamente se estabelece uma relação
entre eles, que passam a ser conectados por uma linha virtual, chamada
de linha óptica. A existência de dois ou mais pontos pode facilitar a
criação de vetores de direção de leitura da imagem, o que multiplica a
força dinâmica e tensional da composição (Fig. 6).

Fig. 6 – Tina Modotti. Parada dos trabalhadores, 1926


Fonte: Hacking, 2012

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UNIDADE Análise da Imagem – Nível Morfológico

Em termos de posicionamento, o ponto de interesse de uma imagem pode estar


localizado, conforme a regra dos terços (na unidade VI estudaremos com mais
detalhes esse tema), em uma das quatro linhas (duas horizontais e duas verticais)
e nas suas intersecções (Fig. 7). O ponto – ou pontos – de interesse pode estar
localizado em mais de um quadro. Identificamos os pontos como ponto superior
esquerdo, ponto superior direito; ponto inferior esquerdo e ponto inferior direito.

Fig. 7 – Localização das linhas e dos pontos de interesse (em vermelho) em


uma fotografia conforme a regra dos terços

Linha
A linha é definida como uma sucessão de pontos que, pela sua natureza,
transmite energia, sendo geradora de movimento. É um elemento plástico com
força suficiente para veicular as características estruturais (forma, proporção, etc.)
de qualquer objeto.

A linha pode desempenhar diversas funções plásticas como, por exemplo:


a) Constitui um elemento formal que permite separar os diferentes planos,
formas e objetos presentes numa determinada composição (a linha de
contorno, por exemplo, é o elemento que possibilita distinguir uma
figura de um fundo perceptivo.
b) É um elemento-chave para dotar de volume os sujeitos ou os objetos
dispostos no espaço bidimensional da representação visual.
c) Quando a linha coincide com os eixos diagonais, a sua capacidade
dinamizadora é mais evidente.

Por outro lado, as linhas horizontais, verticais ou diagonais podem dotar a imagem
de significados peculiares, dando conotações de materialismo, espiritualidade ou
de dinamismo. As linhas diagonais transmitem ideia de movimento e passam a
sensação de expectativa e tensão, como podemos observar em Transportadores
entrecruzados, fábrica da Ford, Detroit (1927), de Charles Sheeler (1883-1965)

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(Fig. 8). Essas linhas não precisam ser reais, uma vez que pontos organizados
diagonalmente podem fazer essa função. Sebastião Salgado faz isso com muita
competência em Guatemala (1978) (Fig. 9), onde uma linha diagonal imaginária
une as duas personagens da foto.

Também é importante destacar que uma das linhas mais importantes na


fotografia é a do horizonte. Ela dá uma sensação estável à imagem, pois está em
repouso e é inerte.

Fig. 8 – Charles Sheeler. Transportadores entrecruzados, fábrica da Ford, Detroit, 1927. Fotografia
Fonte: Hacking, 2012

Fig. 9 – Sebastião Salgado. Guatemala, 1978. Fotografia


Fonte: Fonte: Lowe, 2010

As linhas curvas numa composição costumam transmitir movimento e dinamismo.


Quando uma linha em forma de S aparece na imagem e vai diminuindo aos poucos
– como na imagem de um rio sinuoso – sugere uma progressão lenta e natural,

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UNIDADE Análise da Imagem – Nível Morfológico

proporcionando uma sensação de atemporalidade sem que a imagem pareça


estática (Fig. 10).

Fig. 10 – Ansel Adams. Tetons and Snake River, 1942. Fotografia


Fonte: Wikimedia Commons

Profundidade/planos
A percepção da profundidade ou de planos em uma imagem é resultado de dois
elementos: a sobreposição das figuras do enquadramento, o que permite distinguir
entre objetos e sujeitos, por exemplo, situados mais próximos ou mais longe do
ponto de observação (primeiro plano, segundo plano, etc.) e pela sua disposição a
partir de um determinado ângulo, definido pela perspectiva.

Em Portugal (1976), Josef Koudelka (1938-) (Fig. 11) mostra em primeiro


plano uma criança angelical e uma mulher com o rosto parcialmente coberto por
um véu, enquanto que, em segundo plano, aparece um homem sentado e, ao
fundo, a sombra do homem em uma parede. Neste caso, o fotógrafo deixa para o
espectador imaginar a narrativa da situação.

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Fig. 11 – Josef Koudelka. Portugal, 1976. Fotografia
Fonte: Lowe, 2010

Escala
A escala refere-se ao tamanho da figura na imagem, sendo a dimensão do
corpo humano no enquadramento o princípio organizador das diferentes opções
que podemos considerar. Caso não haja pessoas, o tamanho dos elementos em
uma imagem pode ser comparado a objetos presentes. Cuidado: frequentemente
fotógrafos levam, deliberadamente, o espectador a uma interpretação equivocada
dos tamanhos.

Um exemplo clássico é Sem título (Menphis) (1970), de William Eggleston (1939-)


(Fig. 12). O fotógrafo utilizava uma grande-angular para exagerar a perspectiva.

Fig. 12 – William Eggleston. Sem título (Menphis), 1970. Fotografia


Fonte: Lowe, 2017, p. 398-399.

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UNIDADE Análise da Imagem – Nível Morfológico

Planos/enquadramento
Plano é o distanciamento da câmara em relação ao objeto fotografado, levando-
se em conta a organização dos elementos internos do enquadramento. Deste
modo, é possível distinguirmos os seguintes tipos de planos: grande plano geral,
plano geral, plano médio, primeiro plano, e plano de detalhe. A terminologia é
utilizada também no campo da análise e da produção cinematográfica e de TV.

A utilização de cada um destes tipos de planos produz um significado específico,


dependendo do contexto visual. Geralmente, quanto mais próximo está o objeto
ou o sujeito fotografado daquele que o observa, maior é o grau de aproximação
emotiva ou intelectual do espectador perante o motivo da imagem. E, ao contrário,
quanto mais geral é a escala do motivo fotografado, maior costuma ser o seu
distanciamento.

Vamos conferir, a partir de conceitos de Feijó (2018), definições básicas sobre


alguns dos diversos tipos de planos:

Grande plano geral – O ambiente é o elemento principal e, o sujeito/


personagem, quando aparece, é um elemento dominado pela situação geográfica.
O quadro é preenchido pelo ambiente, deixando uma pequena parcela deste espaço
para o sujeito que também o dimensiona. Pode enfatizar a dominação do ambiente
sobre o homem ou, simbolicamente, a solidão (Fig. 13).

Plano geral – Tem grande valor descritivo, situa a ação e o homem no


ambiente em que ocorre a ação. O dramático advém do tipo de relação existente
entre o sujeito e o ambiente. O plano geral é necessário para localizar o espaço
da ação (Fig. 14).

Plano médio – É o enquadramento em que o sujeito preenche o quadro (os


pés sobre a linha inferior, a cabeça encostando na superior do quadro, até o
enquadramento cuja linha inferior corta o sujeito na cintura. “Como se vê, os planos
não são rigorosamente fixados por enquadres exatos. Eles permitem variações,
sendo definidos muito mais pelo equilíbrio entre os elementos do quadro, do que
por medidas formais exatas”, afirma Feijó (2018). Os planos médios são bastante
descritivos, diferem dos planos gerais que narram a situação geográfica, porque
descrevem a ação e o sujeito (Fig. 15).

Primeiro plano – Enquadra o sujeito dando destaque ao seu rosto. Sua função
principal é registrar a emoção da fisionomia. O primeiro plano isola o sujeito do
ambiente, portanto, orienta a atenção do espectador (Fig. 16).

Plano de detalhe – Registra uma parte do rosto do sujeito ou de um objeto.


Evidentemente, é um plano de grande impacto pela ampliação que dá a um detalhe.
“Pode chegar a criar formas quase abstratas”, lembra Feijó (2018) (Fig. 17).

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Confira alguns exemplos de fotografias segundo os planos.

Fig. 13 – Timothy O’Sullivan. Green River Buttes, 1872. Fotografia


Fonte: Lowe, 2017

Fig. 14 – Edward Burtynsky. Desmonte de navio nº 11, Chittagong, Bangladesh, 2000. Fotografia
Fonte: Hacking, 2012

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UNIDADE Análise da Imagem – Nível Morfológico

Fig. 15 – Alfred Eisenstaedt. Dia V-J em Times Square, 1945. Fotografia


Fonte: Hacking, 2012

Fig. 16 – Walker Evans. Mulher de arrendatário de terras do Alabama, 1936. Fotografia


Fonte: Hacking, 2012

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Fig. 17 – Jaromir Funke. Composição, 1923. Fotografia
Fonte: Hacking, 2012

Forma
Na determinação das formas presentes numa composição desempenham papel
decisivo o contraste de tons, a cor e a linha (em especial a linha de contorno que
permite a discriminação de figuras sobre o fundo) e a perspectiva e a sobreposição.
Quando o enquadramento apresenta uma grande complexidade de formas, afasta-
das das geometrias elementares, tende-se a perceber a imagem como carente de
organização interna. Em certos casos, a utilização de formas complexas pode apre-
sentar efeitos discursivos de interesse na sua significação. A filha dos dançarinos
(1933) (Fig. 18), de Manuel Álvarez Bravo (1902-2002), mostra, claramente, pelo
menos dois círculos (janela e chapéu), além do quadriculado dos azulejos na parede.

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UNIDADE Análise da Imagem – Nível Morfológico

Fig. 18 – Manuel Álvarez Bravo. A filha dos dançarinos, 1933. Fotografia


Fonte: MoMa, 2004

Textura
Na fotografia, a textura tem qualidades ópticas, uma vez que podemos perceber
as qualidades das matérias nos elementos que compõem a imagem. É um elemento
visual que caracteriza materialmente as superfícies dos objetos ou dos sujeitos foto-
grafados. A representação visual da textura pode gerar uma resposta emocional bas-
tante forte, por meio de associação ou da memória. A textura é um elemento-chave
para a construção de superfícies e de planos. Trata-se de um elemento importante
na criação de profundidade na imagem onde a iluminação tem um papel essencial.

Vik Muniz (1961-) produz suas obras criando composições com objetos e
materiais, que possuem cores, texturas e formas para depois fotografá-las. Em
Valentina, a mais veloz (1996), o artista fotografou a criança, ampliou a imagem
e a utilizou como base para criar a obra feita com açúcar. Seu trabalho final é a
fotografia desse processo finalizado (Fig. 19). A imagem, então, é construída pela
textura do açúcar.

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Fig. 19 – Vik Muniz. Valentina, a mais veloz, 1996. Fotografia
Fonte: Lago, 2009

Nitidez da imagem
Sem dúvida, a nitidez e a opacidade de uma imagem são recursos expressivos
dotados de uma dimensão objetiva que, por vezes, pode representar uma variedade
notável de significações, especialmente quando combinadas com outros recursos.
O controle da focagem é uma técnica que permite destacar uma figura sobre o
fundo da imagem.

A falta de nitidez da imagem pode representar uma ideia de dinamismo ou


de temporalidade da fotografia e, muitas vezes, colocar em cheque a verdade da
representação (Fig. 20).

Fig. 20 – Roni Horn. Você é o clima (detalhe), 1994-1996. Fotografia


Fonte: Hacking, 2012

A técnica também pode dotar a fotografia de um tratamento pictorialista,


frequente nas primeiras décadas após a criação da fotografia. Os fotógrafos-artistas
pretendiam atribuir à fotografia um nível artístico (Fig. 21).

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UNIDADE Análise da Imagem – Nível Morfológico

Explor
Um exemplo de artista-fotógrafo é o francês Edgar Degas (1834-1917), conhecido por
ser um dos pintores mais importantes do século XIX e um dos principais representantes
do movimento impressionista. Mas, ao contrário de muitos de seus contemporâneos,
que renegaram a fotografia, ele era um amante dela, durante vários anos, e tornou-se
sua grande paixão. Uma boa prova disso são algumas das composições de várias de suas
obras mais importantes, que parecem típicas da imagem fotográfica, com enquadramento
nervoso e menos frontal e preciso do que as referências pictóricas tradicionais. No final do
século XIX e início do século XX, Degas usou a câmera com mais entusiasmo, deixando como
legado um bom número de retratos, autorretratos e fotografias encenadas, feitos na maior
parte com luzes fracas, lâmpadas e velas, à noite.

Fig. 21 – Edgar Degas. Bailarina ajustando a alça de seu vestido, c.1895-1896


Fonte: Hacking, 2012

Iluminação
A luz é, sem dúvida, o elemento morfológico mais importante no estudo da
imagem. Aliás, a imagem é construída pela luz. Não é em vão que a etimologia
de fotografia é “escrita da luz”. A percepção de formas, texturas ou cores só é
possível pela sua existência. A utilização da luz pode ter uma infinidade de usos e
de significações, com diversos valores: expressivo, simbólico, metafórico, etc. A
iluminação, ou a luz, de uma forma genérica, é fundamental para podermos definir
a morfologia do texto visual e, consequentemente, para definir estilos fotográficos
como o expressionismo, o realismo, o pictorialismo, etc. Existem três tipos de
fontes de luz: natural, artificial e ambiente:
a) Iluminação natural – O sol, claro, é a principal fonte de iluminação
natural, mas, também temos a iluminação da lua, das estrelas, de raios
e auroras boreais.

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b) Iluminação artificial – É conseguida por meio do uso de flashes ou de
iluminação contínua. Está em todos os lugares: lâmpadas, postes de luz,
faróis dos carros, refletores, holofotes, lanternas, etc.
c) Iluminação ambiente – É tudo aquilo que faz parte do local, seja por
meio de fontes naturais ou artificiais. A menos que a fotografia seja feita
em um estúdio, a luz ambiente sempre estará presente.

A iluminação na fotografia pode ser, basicamente, dura ou suave/difusa. A


Iluminação dura apresenta um forte contraste de luzes, com presença de tons
brancos e negros intensos. Incide diretamente sobre o objeto fotografado, causando
uma sombra bem marcada e nítida. Passa a ideia de mistério, força, de que há algo
escondido nas sombras como vemos em Fotograma sem título nº 22 (1978) (Fig.
22), de Cindy Sherman (1954-).

Fig. 22 – Cindy Sherman. Fotograma sem título nº 22, 1978. Fotografia


Fonte: MoMa, 1978

Já a iluminação suave, ou difusa, não apresenta fortes contrastes de tons, gera


sombras sem contornos nítidos e não é possível dizer exatamente em que ponto
essa sombra começa ou termina. Passa a impressão de delicadeza, fragilidade e
calma. Em um dia nublado, a luz do sol se comporta dessa forma. Eve Arnold
(1912-2012), em Malcom X durante sua visita a empresas de propriedade de
muçulmanos negros (1962) (Fig. 23), apresenta uma iluminação suave, em preto
e cinzas, praticamente sem sombras.

Em relação à direção da luz, temos iluminação a partir de cima, a partir de


baixo, iluminação lateral, contraluz, frontal, etc.

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UNIDADE Análise da Imagem – Nível Morfológico

Fig. 23 – Eve Arnold. Malcom X durante sua visita a empresas de propriedade de muçulmanos negros, 1962.
Fotografia
Fonte: Lowe, 2010, p. 124.

Contraste
Este item não pode ser dissociado de iluminação ou dos conceitos de tonalidade e
cor, com os quais está relacionado estreitamente. O contraste do motivo fotográfico
corresponde à diferença de níveis de iluminação refletida entre as sombras e as
luzes. Trata-se de um conceito que pode ser aplicado indistintamente à fotografia
em preto e branco ou em cores. Uma gama tonal ampla de cinzas, nas fotografias
em preto e branco, por exemplo, é uma opção discursiva que nos aproxima ao
realismo da representação. Ao contrário, um forte contraste da imagem pode
expressar a ideia de conflito.

Em relação à fotografia em cores, verificamos que as cores complementares


apresentam um contraste maior nas combinações azul-amarelo, vermelho-ciano e
verde-magenta. O contaste na cor também pode proporcionar um amplo leque de
significações e pode ser útil para determinar o estilo fotográfico da imagem, como
ocorre em muitas fotografias de Pete Turner (1934-2017) e a sua afinidade estética
com a pop art, como movimento artístico (Fig. 24).

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Fig. 24 – Pete Turner. Push, 1970. Fotografia
Fonte: Turner, 1970

Tonalidade / P/B-Cor
A cor é um elemento morfológico que possui uma natureza objetiva por meio do
tom/tonalidade ou matiz, da saturação (intensidade da cor) e do brilho (luminosidade).
A cor oferece uma variedade de significações graças às suas propriedades. Ela
contribui para criar o espaço plástico da representação, ou seja, de acordo com
o modo de emprego da cor, veremos uma representação plana (Fig. 25) ou uma
representação com profundidade espacial, podendo contribuir para a definição de
diferentes planos (Fig. 26).

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UNIDADE Análise da Imagem – Nível Morfológico

Fig. 25 – Sandy Skoglund. A vingança dos peixinhos dourados, 1981


Fonte: Hacking, 2012

Fig. 26 – Zhang Huan. Para elevar o nível da água numa lagoa de peixes, 1997. Fotografia
Fonte: Hacking, 2012

A cor também possui qualidades térmicas. As cores quentes (entre o verde


e o amarelo) produzem uma sensação de aproximação ao espectador e as
cores frias (entre o verde e o azul) produzem uma sensação de afastamento do
espectador, favorecendo a aparição de processos de distanciamento relativamente
à representação.

Também observamos que a cor pode qualificar temporalmente uma


representação. Os trabalhos em sépia estão associados à antiguidade, já que é a
dominante cromática de fotos antigas, devido às particularidades dos processos

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químicos empregados (esse processo também tem sido utilizado ao longo do tempo,
inclusive no mundo digital).

Já a utilização do preto e branco é uma opção carregada de significações. Seu


uso dá à fotografia uma forte expressividade. Isso explica a razão de que inúmeros
fotógrafos contemporâneos continuem usando essa técnica fotográfica, como, por
exemplo, Sebastião Salgado (Fig. 27).

Fig. 27 – Sebastião Salgado. Dinka cattle camp of Amak, 2006


Fonte: Sundaram Tagore Gallery, 2006

Outras Informações
Nesta seção, podem ser acrescentadas informações que não estão contempladas
na ficha e que contribuem para a análise fotográfica da imagem como dicas de
livros, filmes, documentários, exposições, etc.

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UNIDADE Análise da Imagem – Nível Morfológico

Anexo 1
Ficha para Análise
Fotográfica – Nível Morfológico
A ficha 2 (a ficha 1, apresentada na Unidade IV, se refere ao nível técnico)
contempla elementos do nível morfológico apresentados nesta unidade, tendo
como base Felici (2004). A adaptação busca facilitar a análise fotográfica por meio
da identificação de elementos constantes nas imagens a serem avaliadas.

Análise fotográfica – Nível morfológico


FOTOGRAFIA

Ficha 2 – Nível morfológico


ELEMENTO SIM/NÃO INFORMAÇÕES
Descrição do motivo fotográfico
Ponto(s) de interesse
Ponto único ou simples.
Ponto central.
Dois ou mais pontos.
Linha(s)

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Profundidade/Planos
Primeiro plano
Segundo plano
Terceiro plano
Escala
Planos/enquadramento
Grande plano geral
Plano geral
Plano médio
Primeiro plano
Plano de detalhe
Forma
Textura
Nitidez da imagem
Iluminação
Iluminação natural
Iluminação artificial
Iluminação ambiente
Contraste
Tonalidade / P/B - Cor
Outras informações
Comentários
Análise realizada por:
Fonte: adaptado de Felici (2004)

Análise Fotográfica – Nível Morfológico – Exemplo


FOTOGRAFIA

Fig. a1 – Kevin Carter. Sudão, 1993. Fotografia


Fonte: Hacking, 2012

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UNIDADE Análise da Imagem – Nível Morfológico

Ficha 2 – Nível Morfológico


ELEMENTO SIM/NÃO INFORMAÇÕES
Imagem figurativa. Mostra uma criança acocorada, abalada pela inanição, um
Descrição do motivo fotográfico abutre a espreitá-la e, ao fundo, casas de palha de uma aldeia. A foto foi tirada
no Sul do Sudão (África).
Ponto(s) de interesse
Ponto único ou simples Dois pontos de interesse: a criança e
Ponto central o abutre
Dois ou mais pontos
As imagens da criança e do abutre
Linha(s)
criam uma linha diagonal
Profundidade/Planos
Três planos: a criança, em primeiro
Primeiro plano
plano, o abutre, em segundo plano, e
Segundo plano
as casas e a vegetação ao fundo
Terceiro plano
A criança, em primeiro plano, a deixa
bem maior que o abutre, quando, na
Escala realidade, eles devem ter tamanhos
semelhantes nas posições em que se
encontram.
Planos/enquadramento
Grande plano geral
Plano geral
Plano geral
Plano médio
Primeiro plano
Plano de detalhe
Forma O corpo da criança forma uma elipse
A cena mostra um campo árido com
Textura habitações primitivas de palha. Uma
terra completamente seca.
Foco na criança e no abutre; fundo
Nitidez da imagem
desfocado
Iluminação
Iluminação natural Natural, durante o dia. Oferece a
Iluminação artificial sensação de seca.
Iluminação ambiente
Contraste
Baixo contraste
Alto / baixo
Poucas cores, praticamente somente
Tonalidade / P/B - Cor
tons marrons e verdes
Outras informações Kevin Carter recebeu o prêmio Pulitzer de fotografia, de 1994, por Sudão.
Comentários
Análise realizada por: Rita Jimenez
Fonte: ficha adaptada de Felici (2004)

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Explor
Com base na ficha 2 – Análise fotográfica – Nível morfológico, apresentada nesta unidade,
analise a fotografia Silêncio rebelde (1994) (Fig. 29), de Shirin Neshat (1960-). Dicas: confira
uma palestra da artista em https://goo.gl/JrUsz7 e também o livro Mestres da Fotografia, de
Peter Lowe (Gustavo Gili, 2017, p. 473-474).

Fig. a2 – Shirin Neshat. Silêncio rebelde, 1994. Fotografia


Fonte: Hacking, 2012

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UNIDADE Análise da Imagem – Nível Morfológico

Material Complementar
Indicações para saber mais sobre os assuntos abordados nesta Unidade:

  Sites
Manual de iluminação fotográfica
Instituto Politécnico de Tomar (Portugal). Manual de iluminação fotográfica.
https://goo.gl/LzHMRf

 Livros
Vik Muniz obra completa – 1987-2009
LAGO, Pedro Corrêa do (org.). Vik Muniz obra completa – 1987-2009. Rio de
Janeiro: Capivara, 2009. O volume, de 710 páginas, traz a obra completa de Vik
Muniz nos primeiros 22 anos de sua carreira, de 1987 a 2009. Neste catálogo, o
leitor encontrará quase 1.200 obras, que representam mais de 1.600 imagens, muitas
reproduzidas em página inteira, permitindo um contato com os materiais usados por
Vik, tão importantes no impacto de seus trabalhos.
Diante da dor dos outros
SONTAG, Susan. Diante da dor dos outros. São Paulo: Companhia das Letras, 2003.

 Filmes
The Bang Bang Club
The Bang Bang Club (Repórteres de guerra). Direção: Steven Silver. Drama/guerra,
Canadá/África do Sul, 2011. Sinopse: Um grupo de repórteres fotográficos, entre
eles Kevin Carter, tem a difícil tarefa de cobrir as primeiras eleições na África do
Sul após o Apartheid. Além de riscos físicos, esses jovens passam a acompanhar os
problemas africanos como fome, miséria e descaso.

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Referências
ARTE Figurativa. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasilei-
ras. São Paulo: Itaú Cultural, 2018. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucul-
tural.org.br/termo100/arte-figurativa>. Acesso em: 26 de mar. 2018. Verbete da
Enciclopédia.

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