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EDITORA
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Fon~:
• CEP 80420-010 • Curiribo • I'R • l'.rosil
(41) 2!06-4170
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Sumário
conseLho editorial • Dr. Ivo José Beth (presidente)
Dr~ Elena Godoy
O r. Nelson Luís Dias
O r. Neri dos Samos
Dr. UlfGregor Baranow

cditor-chefi • Lindsay Azambuja


editor-assistente • Ari~dne Nunes Wenger

capa • design: Luciano Brião

imagens: Toria e R~wpixel.com/Shutterstock


Apresentação, 9
projeto gráfico Raphael Bernadelli

adaptaçdo de projeto grd_/ico Sílvio Gabriel Spannenberg


Como aproveitar ao máximo este livro, 14

iconografia Regina Claudia Cruz Prestes


capítulo um Realismo, r8
diagramação • Andreia Rasmussen
I.I Introdução, 20

I. 2 Realismo clássico, 22

1.3 Neorrealismo: a teoria da política internacional de


Kenneth Waltz, z8
1.4 Variantes contemporâneas do realismo, 32

capítulo dois Liberalismo, 46


OaJm lrlt<:rnacu><tai> de Cntnlognçãn "" PL1blicação (CIP) ~
rã,.... 2.1 Introdução, 48
((~ma"' Hr.1"leira do Li no. SP. Brasil) -.:;:_/
• • 2.2 O liberalismo e a tese da paz democrática, )I

Salomón. Mônica 2.3 O novo liberalismo, 55


reori<~s e entoques da~ rebçóo intnnaôonaw uma intro-
J•ed1~ão. 2016
duç;io/Mónica Salomón. Curitiba: lmcrSabcrn, w16.
r-oi feito o dep6mo legal. 2.4 As redes uansgovernamentais na construção de uma
Bibliografia
I~BN 978·8S-W7l·q6-s
lnÍmmamm que ó de Íni<Ír' nova ordem mundial, 58
rcspons~bilidadc d.1 auwro a cmlSs<i.o
!. Rda<;óes internacion~i' I. Titlllo. de conc~iros

IÓ·OR9(,R CDD-1l7 Senhum• porte de>ta publicação poderá


capítulo três Insti rucionalismo, 66
ser reproduzida por qualquer meio
nu Ínrnoa sem a pré,· ia allrnrÍ<>~.;n da
• • 1-.d""" lnr~rs.,ber.,. J.I Introdução, 68
!ndic{s para catâlogo <i;tçnl:Ítiço: A violaçio dos doreoros .>urorais é crinte
1. G~'t.'lo púhlice1 ~~., esrobcleddo ou Lei n. 9.6!0/l'J9M e J.2 Transnacionalismo e interdependência complexa, 70
puniJ" pdn "'" IR4 do c,;digo Penal.

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I
3·3 Os regimes internacionais e o debate sobre a estabili- capítulo sete Enfoques de gênero, 156
dade hegemônica, 76
7.1 Introdução, 158
3·4 A pesquisa institucionalista na atualidade, 83
7.2 O gênero na agenda das Relações Internacionais, 159

capítulo quatro Construtivismo, 90 7·3 A incorporação da perspectiva de gênero na disciplina


das Relações Imernacionais, 164
4.1 Introdução, 92
7·4 A teoria política feminista, r68
4.2 A introdução do construtivismo na disciplina das
Relações Internacionais e seu lugar no embate entre 7·5 A pesquisa sobre gênero sob a ótica das teorias das
racionalismo e reflexivismo, 94 relações internacionais, 174

4·3 Variantes do consrrurivismo, 97


capítulo oito Teorias normativas, r84
capítulo cinco Pós-estruturalismo, 114 S. r Introdução, r86

).I Introdução, u6 8.2 A teoria da justiça de John Rawls, r88

5.2 A crítica pós-estruturalista: influências 8.3 O debate normativo nas relações internacionais, 190

e caracterização, rr8
Estudo de caso, 206
5·1. Procedimentos de análise, 121.
Para concluir ... , 209
5·4 O pós-estruturalismo na disciplina das Relações
Imernacionais, 125 Referências, 211

Respostas, 225
capitulo seis Pós-colonialismo, 136
Sobre a aurora, 229
6.1 Introdução, 138
6.2 Origem e influências, 140

6.3 A crítica pós-colonial: focos de interesse, 144

6.4 O pós-colonialismo na disciplina das Relações


Internacionais, 148
Construtivismo

Conteúdos do capítulo:
• O construtivismo na disciplina das Relações Internacionais
e seu papel mediador no debate entre enfoques racionalistas
e reflexivistas.
• Variantes do construtivismo: construtivismo "modernista"
e "modernista linguístico".
• Exemplos de pesquisa construtivista em Relações
Internacionais.

Após o estudo deste capítulo, você será capaz de:


1. identificar os principais elementos e dimensões da teoria
social construtivista;
2. compreender o papel do construtivismo no panorama teó-
rico das relações internacionais, especialmente, em relação
à fratura entre racionalismo e reRexivismo;
3· distinguir as duas principais variantes do enfoque constru-
tivista em relações internacionais e identificar suas princi-
,;)' pais características;
.ij' 4- reproduzir os elementos principais dos modelos construti-
vistas de difusão de normas internacionais.
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4.1 Introdução sociais fazem ou consrroem pessoas - nós mesmos - no tipo de
seres que somos. Ao mesmo rempo, nós fazemos o mundo como
O construtivisn1o, também chamado construtivismo social, é ele é, a partir da matéria-prima provida pela narureza, fazendo o
um enfoque teórico que começou a ser utilizado nas Relações que fazemos com cada um e dizendo o que dizemos a cada um"
Internacionais (RI), a partir do final da década de 1980, por auto- (Onuf, 2013, p. 4). Assim, para o construtivismo, "as pessoas fazem
res que pretendiam aplicar a essa área as ideias c interpretações a sociedade e a sociedade faz as pessoas" (Onuf, 2013, p. 4).
sobre a realidade social desenvolvidas no seio de outras disciplinas, Sem deixar de reconhecer a importância dos fatores materiais
entre elas a sociologia e a filosofia da linguagem. (recursos, meio ambiente, tecnologia, etc.) na configuração das
Nesse sentido, essa corrente teórica faz parte tanto da virada sociedades, o construtivismo outorga um papel fundamental às
sociológica como da virada linguística, tendências que atingiram ideias e ao conhecimenro. É precisamente esse interesse particular
as ciências sociais a partir da década de 1970 1 e, que, na década de nas "ideias e nos assuntos sociocognitivos em geral o que o torna
1980, chegaram às RI. reconhecível e o distingue dos demais enfoques considerados neste
Diferentemente dos enfoques considerados nos capítulos ante- manual.
riores, o construtivismo não pretende ser mais uma teoria das RI Como as ideias sobre a realidade social são criadas e contribuem
(como o realismo ou o institucionalismo), senão uma teoria social para desenvolver essa realidade e os modos pelos quais rais ideias
de amplo escopo que considera, entre outros, os fenômenos tipi- são disseminadas e modificadas: eis o foco e o selo distintivo do
camente estudados pelas RI. construtivismo.
Nas palavras de Nicholas Onuf, um dos principais responsáveis O objetivo principal dos autores que utilizam o enfoque cons-
pela introdução do construtivismo nas RI: "o construtivismo é trutivista como ferramenta de análise é, em primeiro lugar, mostrar
uma maneira de estudar relações sociais, qualquer tipo de relações que estruturas e fenômenos que habitualmente damos como ine-
sociais" (Onuf, 2013, p. 3, grifo nosso) 1 vitáveis, imutáveis, "naturalizados)), são, na verdade, construídos e,
Como o próprio nome indica, o foco do construtivismo se por isso, podem ser também desconstruídos e modificados.
insere na "construção da realidade social" (Searle, 1995), isto é, nos É importante sublinharmos que essa noção não é recente.
De fato, foi tal noção a que deu origem e fez avançar a sociologia 93
processos que dão origem às instituições e regras que regulam a
vida social. A família, o dinheiro, o Estado, a soberania e a guerra e as ciências sociais em geral. De acordo com esse entendimento,
são exemplos de instituições socialmente construídas a partir do as instituições das RI e as hierarquias de poder sobre as quais elas
consenso intersubjetivo dos agentes sociais, ou seja, das ideias com- estão fundadas são um produto da construção social e, como tais,
partilhadas pelos membros de uma sociedade. podem ser mudadas.
Por sua vez, esses agentes sociais existem (são construídos) em O segundo passo da análise construtivista é mostrar como as
função das regras e instituições sociais preexistentes. '"As relações instituições específicas foram criadas, e quais combinações de ideias
e recursos materiais foram utilizados, considerando as regras esra-
I Trata-se de tendências amplas, registradas nas ciências sociais em geral, manifestadas pela maior sen- belecidas- as quais o construtivismo também busca conhecer.
sibilidade às i nA.w!ncias dos fatores sociológicos, em um caso, e li nguisricos, em outro, na vida sociaL
2 Neste c;~pítulo. a; cit~çêJe~ de obru ou textos em língu~ estr~ngeir~ for~m tr~durid~s pela autor~.
A próxima seção deste capítulo considera a maneira pela qual Anthony Giddens (1986) desenvolve sua "teoria da estruturação"
o construtivismo chegou à disciplina das RI e o papel media- e trata da dupla condição - estruturante e estruturada - (pelos
dor que ele desempenha no debate entre enfoques racionalistas e agentes sociais) das práticas sociais.
refl.exivistas. Por sua vez, dentro da própria disciplina das RI, há três influên-
A seguir, distinguimos duas principais variantes do constru- cias destacáveis. Em primeiro lugar, a da escola inglesa e de toda
tivismo em RI: a modernista e a modernista linguística. Por fim, sua literatura vinculada à teorização sobre a sociedade internacional,
apresentam-se três exemplos de pesquisa construtivista em RI. suas regras e insriruiçóes, representada especialmente na obra 7he
Anarchical Society: a Study of Order in World Politics, de Hedley
Buli (:r977).
4.2 A introdução do construtivismo na Em segundo lugar, a da escola neofuncionalista da integração
94
europeia, representada entre outros por Ernst Haas (1958) e Leon
disciplina das Relações Internacionais
Lindberg (1970).
e seu lugar no embate entre racionalismo Em terceiro lugar, a da literatura proveniente da subárea de
e rejlexivismo análise de política externa sobre fatores sociocognitivos, literatura
na qual destaca a obra de Robert Jervis (1976).
A difusão das ideias construtivistas nas RI fez parte do amplo movi- Inicialmente, a incipiente produção consrrutivista em RI foi
mento de renovação por que passou essa área do conhecimento no recebida, da parte do establishment da disciplina, como apenas um
final dos anos 1980, coincidindo com o fim da Guerra Fria. Nesse enfoque alternativo e nada mais. Em uma célebre palestra proferida
momento, as influências de outras disciplinas e de debates das em 1988 na qualidade de presidente anual da lnternational Studies
ciências sociais e humanas se fizeram mais presentes do que até Association (Keohane, 1989), Robert Keohane agrupou todas as
então. A teoria crítica da escola de Frankfurt, o pós-estruturalismo novas correntes sob a denominação de enfoques reflexivistas e as
de Michel Foucault e Jacques Derrida e a teoria feminista, entre contrapôs às teorias racionalistas (nas quais ele incluiu o realismo,
outras abordagens, irromperam em um campo de estudos que, por o institucionalismo e o liberalismo).
muito tempo, tinha permanecido alheio a essas influências. Para Keohane (1989), a diferença fundamental entre os dois 95

Além dos autores clássicos da sociologia, como Émile Durkheim grupos de teorias consistia em que, enquanto as teorias raciona-
c Max Weber, ou da filosofia da linguagem, como Ludwig listas possibilitavam julgar objetivamente os comportamentos, os
Wittgensrein oujohn Searle, duas obras importantes da sociologia novos enfoques reflexivisras se mostravam céticos quanto a essa
do conhecimento têm sido especialmente influentes no pensamento possibilidade.
construtivista em RI. O autor ainda sublinhou três características comuns aos novos
Uma é lhe Social Construction of Reality (A construção social da enfoques: a desconfiança em relação aos modelos científicos para o
realidade), de Peter Berger e Thomas Luckmann (1966), uma obra estudo da política mundial; uma metodologia baseada na interpreta-
essencial na subdisciplina da Sociologia do Conhecimento. Outra ção histórica e textual; a ênfase nos efeitos da reflexão humana sobre
é The Construction of Society (A constituição da sociedade), em que a natureza das instituições e sobre o caráter da política mundial.
Keohane (1989) salientou também que, apesar de seu interesse, um dos três enfoques principais das RI, junto com o realismo e o
os enfoques reflexivistas tinham um papel marginal nas RI. Na opi- liberalismo (Walt, 1998).
nião do aumr, eles continuariam sendo marginais enquanto não A partir dessa evoluçáo, o lugar do construtivismo na cartogra-
conseguissem desenvolver programas de pesquisa empírica subs- fia das teorias das RI mudou. Atualmente, ele é considerado uma
tanciais capazes de contribuir para a tarefa de esclarecer as questões "ponte" ou "meio-termo'' entre racionalismo e reflexivismo, que
centrais da política mundial. foi precisamente o lugar que os principais autores construtivistas,
Nos anos sucessivos, a ruptura entre racionalismo e reflexivismo começando por Alexander Wendt, reivindicaram para esse enfoque.
foi considerada por muiros a principal fratura teórica na disciplina Combinando uma especial sensibilidade em relaçáo à consrru-
das RI, paralela ao debate neo-neo. çáo social da realidade e do conhecimento (que compartilha com
Apesar de o construtivismo ser identificado como reflexivista e os enfoques dissidentes) à aceitaçáo dos padrões e métodos das
96
de ter sido inicialmente julgado, junto com os demais "reflexivis- ciências sociais (que compartilha com os enfoques tradicionais),
mos", como carente de um programa de pesquisa sólido e dotado o construtivismo conseguiu ganhar adeptos muito mais rapida-
de credenciais científicas duvidosas, a maior parte dos autores auto- mente do que o resto enfoques teóricos náo tradicionais.
denominados construtivistas logo desafiou essa imagem.
Grande parte deles manifestou com clareza sua adesáo aos
padrões das ciências sociais. Foi o caso de Alexander Wendt (1992; 4.3 Variantes do construtivismo
1999), Marrha Finnemore e Kathryn Sikkink (1998). Aliás, aque-
les que adotaram enfoques mais interpretativos, como Nicholas Dada a identificaçáo inicial do construtivismo com outras correntes
Onuf (1989) e Friedrich Kratochwil (1989), desenvolvem uma pes- alternativas das RI, como o pós-modernismo/pós-estruturalismo,
quisa em conformidade com os critérios da racionalidade moderna, algumas vezes, a denominaçáo construtivismo é utilizada como
em oposiçáo aos enfoques autoconsiderados dissidentes, como o um sinônimo de rejlexivismo e inclui rodas aquelas correntes que
pós-estruturalismo. compartilham o foco na construçáo da realidade social.
Nas palavras do renomado autor construtivista Emanuel Adler Nesta obra, o chamado construtivismo radical, ou pós-
97
(2013, p. II4): "com exceçáo de sua ala radical pós-moderna, o -estruturalismo, está apresentado em outro capítulo seguinte. Neste
construtivistno não desafia a ciência, o racionalismo c a moderni- ponto do texto, portanto, consideraremos as duas variantes do
dade; simplesmente compatibiliza a ciência com o entendimento construtivismo compatíveis com as ciências sociais, as quais alguns
consrrurivista da realidade social". estudiosos chamam de modernistas, graças à adesáo ao programa
Além disso, a popularidade que o consrrutivismo alcançou, racionalista da modernidade e do conhecimento científico.
tanto na academia estadunidense como na mundial, materializou- Segundo Adler (2013), podemos chamar esses dois grandes
-se em um espetacular aumento de sua produçáo intelectual e do ramos do construtivismo de modernismo e modernismo linguístico.
número de pesquisadores aderentes em poucos anos, até o ponto Como o nome indica, os modernistas linguísticos como Nicholas
que, em menos de uma década, o construtivismo já era considerado Onuf e Friedrich Krarochwil estáo especialmente interessados no
papel da linguagem na construção da realidade social. Para esses A anarquia internacional como construção social:
autores, compreender a realidade social equivale a "mostrar os pro- Alexander Wendt
cessos pelos quais os fatos sociais são constituídos pela linguagem e
A proposta construtivista-modernista de Wendt foi detalhada-
por suas regras" (Adler, 2013, p. n6). Esse é um projeto muito pró-
mente exposta pelo autor pela primeira vez no seu influente artigo
ximo ao de filósofos da linguagem, como John Searle (1995. 2010).
"Anarchy is what States Make of it: the Social Construction of
No entanto, grande parte dos autores construtivistas, entre eles
Power Politics", originalmente de 1992, mas posteriormente desen-
Alexander Wendt, Emanuel Adler, Manha Finnemore, Kathryn
volvido na obra Social7heory oflnternational Politics (Wendt, 1999).
Sikkink, Peter Katzenstein ou Jeffrey Checkel, podem ser conside-
Em anos anteriores, Wendt havia feito uma importante contribui-
rados consrrutivistas modernistas. Eles abordam a construção da
ção ao debate sobre a relação e o papel de estrutura e agentes nas
realidade social (com foco na construção de identidades e difusão
RI e nas ciências sociais em geral (Wendt, 1987).
de normas) partindo de um ponto de vista mais sociológico do
Nesse texto, Wendt apresentou com muita clareza seu projeto
que linguísrico, prestando atenção tanto às relações de causalidade
construtivista e esclareceu como pretendia inseri-lo nos dois debates
que explicam os fenômenos como à constituição de tais relações
teóricos que, naquele momento, tinham lugar nas RI. Um desses
(Wendt, 1998).
debates era o já trabalhado debate neo-neo, entre neorrealistas e
A seguir, examinaremos três exemplos de produção consrruri-
neoliberais institucionalistas.
vista em RI. Os dois primeiros pertencem à variante modernista
Outro debate (ou fratura) ocorreu entre dos posicionamentos
dessa corrente.
que Keohane havia catalogado como racionalistas e reflexivistas.
O artigo "Anarchy is what States Make of it: the Social
Wendt apresentou o construtivismo como uma perspectiva capaz,
Construction of Power Politics", de Wendt (1992), é um dos tex-
por um lado, de contribuir para o debate neo-neo, reforçando os
tos mais representativos do construrivismo modernista, pois ilustra
argumentos da parte liberal, e, por outro, de aproximar os posi-
muita bem o que significa, para os construtivistas, a construção
cionamentos reflexivistas aos racionalistas (Wendt, 1992, p. 394).
social de realidade internacional.
Segundo Wendt (!992), o debate neo-neo tratava, fundamen-
O segundo exemplo de produção construtivista refere-se aos
talmente, da medida em que a ação estatal está condicionada pela
modelos sobre difusão de normas internacionais propostos, por um
"estrutura" (anarquia e distribuição de poder) ou pelo "processo"
lado, por hnnemore e Sikkink (1998), e, por outro, por Thomas
(interação e aprendizado) e instituições. O que possibilita o diálogo
Risse e Kathryn Sikkink. Trata-se de um dos temas mais populares
é a base comum de ambos os enfoques: o compromisso racionalista
na pesquisa construtivista.
de ambas partes e, sobretudo, o uso que ambos fazem de modelos
Por fim, como exemplo de modernismo linguístico, expormos
econômicos e da teoria da escolha racional.
a proposta de análise de Nicholas Onuf, fundamentada na teoria
Porém, de acordo com o autor, os enfoques racionalistas negli-
dos atos de fala, de John Searle.
genciavam bastante as identidades e os interesses dos participan-
tes, que eram tratados como fatores fixos e externos à interação.
Segundo Wendt (1992), as teorias racionalistas colocavam o foco consequências possíveis. O estudioso argumenta que um deles
apenas no comportamento dos atores e nos resultados de suas ações. poderia ser um sistema de segurança cooperativa, em que os Estados
Para Wendt (1992), os argumentos neoliberais (institucionalistas), perceberiam a segurança de cada um como a responsabilidade de
segundo os quais os processos e as instituições podem conduzir todos (segurança coletiva).
a um comportamento cooperativo, apesar da anarquia, poderiam Entre esse extremo e o da autoajuda, caberiam também possibi-
ser reforçados por uma teoria sistemática que explicasse a trans- lidades intermediárias, como um sistema de segurança individua-
formação das identidades e dos interesses dos atores por parte de lista, no qual os Estados se comportariam de maneira egoísta, mas
regimes e instituições. preocupados com os ganhos absolutos em vez dos ganhos relativos.
Essa teoria sistemática estaria baseada nos enfoques reflexivistas Wendt (1992) argumentou que essas diferentes instituições ou
existentes, que, entre outros itens, refletem sobre como as práticas estruturas não surgiriam da anarquia. Elas seriam consequência
100
de conhecimento constituem aos indivíduos. Desse modo, o debate de outros processos e, fundamentalmente, da interação recíproca
racionalista poderia ser enriquecido graças a essa mediação cons- entre os atores. As identidades e os interesses dos atores não são
trutivista, com elementos fornecidos pelos enfoques reflexivistas. preexistentes à interação. Pelo contrário, eles se desenvolvem a
Para ilustrar as vantagens de uma teoria sistemática capaz de partir dessa interação.
explicar a formação de identidades e interesses dos atores, assim Entretanto, uma vez criadas, as instituições sofrem um processo
como do papel das instituições nas dinâmicas de cooperação e de reificação, ou naturalização. Elas são tratadas como separadas
conflito no sistema internacional, Wendt (!992) analisou o conceito das práticas que as produzem e mantêm. Como as estruturas con-
de anarquia e suas implicações. figuram as identidades e os interesses dos atores, uma mudança
Conforme a teoria neorr~alista, a anarquia leva, necessariamente, de dinâmica (como passar da autoajuda a um sistema cooperativo)
ao conflito, dentro de uma concepção de segurança baseada na não é simples.
necessidade da autoajuda. Wendt sugeriu questionar e problema- No entanto, por meio de longos processos de interação, os ato-
tizar esse vínculo: a autoajuda não seria, segundo ele, uma caracte- res poderiam redefinir suas identidades e interesses e passar de um
rística constitutiva da anarquia, senão uma instituição, isto é, "um sistema de autoajuda a um de cooperação. Isso é o que aconteceu,
ror
conjunto ou uma estrutura relativamente estável de identidades e conforme Wendt (1992), com o sistema de segurança coletiva na
interesses" (Wendt, 1992, p. 399). Europa ocidental. Nas quatro décadas de cooperação transcorridas
Tais estruturas podem estar codificadas através de regras e nor- entre 1950 e 1990, teria sido criada uma identidade europeia coletiva
mas formais, mas "são entidades fundamentalmente cognitivas que não existia anteriormente.
que não existem separadamente das ideias dos atores sobre como Wendt (1992) concluiu o artigo com a recomendação de se focar
funciona o mundo" (Wendt, 1992, p. 399). O processo de institu- mais na tarefa de estabelecer relações causais e empíricas e menos
cionalização consiste, portanto, na internalização de novas iden- em questões epistemológicas e ontológicas. Muitos autores cons-
tidades e interesses. trutivistas acataram essa sugestão, o que, certamente, teve efeitos
A autoajuda não é, segundo Wendt (!992), o único resultado muito positivos para o conhecimento das RI.
possível da anarquia, como acreditam os neorrealistas. Há outras
Modelos de difusão de normas internacionais Ao mesmo tempo, é fundamental o envolvimento dos agentes
para que as normas consigam ser aceitas como tais e passem a
O estudo de como as ideias surgem, propagam-se e se modificam regular as instituições e a sociedade internacional como um todo.
é sem dúvida um dos focos principais da pesquisa construtivista. O fundamento é social, não individual: uma norma é o consenso
No artigo "lnternational Norm Dynamics and Political Change", intersubjetivo (visão compartilhada) sobre a conduta adequada de
as autoras Manha Finnemore e Kathryn Sikkink (1998) elaboraram
determinado agente.
um modelo construtivista de internalização e difusão de um tipo O modelo de ciclo de vida das normas (Finnemore; Sikkink,
específico de ideias, considerando as normas e maneiras a partir 1998) estaria constituído por três estágios: o de emergência da
das quais elas surgem, multiplicam-se e se alteram - o chamado norma, o de difusão da norma (norm cascade) e o de internaliza-
modelo de ciclo de vida da norma. ção da norma. A cada estágio do ciclo, corresponderiam atores,
!02 Já o modelo espiral das normas (referente a normas de direitos motivações e mecanismos de influência distintos.
humanos), apresentado por Thomas Risse e Kathryn Sikkink na A fase inicial do modelo (emergência da norma) descreve a
introdução da obra lhe Power of Human Rights (1999), que coor- decisão de um grupo de ativistas, articulados transnacionalmente
denaram conjuntamente, é uma extensão do modelo. Ambos estão em ONGs, organizações governamentais ou movimentos sociais e
entre as propostas construtivistas sobre normas mais citadas e mais com motivações altruístas, de promover internacionalmente uma
utilizadas na pesquisa empírica. norma ou conjunto de normas, isto é, fazer com que ele seja ado-
Na pesquisa consrrutivista, costuma-se utilizar uma defini- tado pela maior quantidade possível de governos nacionais. Nesse
ção de norma bastante consensual nas ciências sociais: "padrão estágio, o mecanismo predominante é a persuasão, considerando
de comportamento apropriado para atores com uma determinada que os atores responsáveis pela difusão da norma náo gozam de
identidade" (Finnemorc; Sikkink, r998, p. 891). Por sua vez, a insti- muito poder na política internacional.
tuição seria um conjunto inter-relacionado de normas (por exemplo, Em dado momento, produz-se um efeito cascata, que marca
escravidão ou soberania). É a sociedade que julga quais comporta- o segundo estágio de difusão da norma: um número conside-
nlentos sáo apropriados, isto é, quais são as normas vigentes nessa rado significativo de governos nacionais decide adotar a norma e,
sociedade; em outras palavras, elas envolvem uma "avaliação moral IOJ
então, começam a respaldar os esforços de promoção dos ativistas.
compartilhada" (Finnemore; Sikkink, r998, p. 892). No entanto, as motivações desses atores não são necessariamente
Essa concepção das normas pressupõe a consti tuiçáo mútua altruístas: podem estar mais relacionadas a tentativas de se legitimar
de agentes e normas/instituições internacionais. Por um lado, as como governantes e a conseguir uma boa reputação. O importante
normas constituem (definem) a identidade dos atores. Assim, por é que essas motivações (supostamente estratégicas) podem contri-
exemplo, para que a identidade de um Estado como "bom cidadão buir para que tais governos endossem voluntariamente a norma,
global" seja reconhecida pelos demais, ele deve cumprir certas nor- sem serem obrigados a isso por uma autoridade superior. Nesse
mas, como prestar ajuda humanitária, respeitar os direitos humanos estágio, os mecanismos predominantes para continuar difundindo
ou contribuir nas missões de paz, por exemplo. a norma são os de socialização/emulação.
O terceiro estágio é o de internalização, quando as prescrições são incentivados não tanto pelas suas convicções na validade das
da norma se tornam costumeiras e começam a ser respeitadas de normas, mas sim pelos possíveis benefícios que obteriam ao cumpri-
maneira automática pelos governos nacionais. O cumprimento -las. Dito de outro modo, tais atores podem ajustar seus compor-
da norma passa a fazer parte da identidade dos agentes (governos tamentos àqueles prescritos pelas normas, na tentativa de auferir
nacionais), de maneira que agir segundo determinada identidade benefícios, sem, necessariamente, aceitar a validade destas.
representa agir em conformidade com as normas que a constituem. O segundo tipo de processo de socialização relaciona-se a discur-
Nesse estágio, as burocracias e os profissionais do direito (que preci- sos argumentativos e, por isso, envolve vários processos discursivos,
sam adaptar a legislação e práticas internas à norma internacional) entre eles, persuasão, argumentação, difamação ou conscientização.
têm papel protagonista. A validade e a relevância das normas são, em alguns casos, aceitas
Algumas condições auxiliam para que uma norma se torne pelos atores em suas práticas discursivas, de modo que as dispu-
104
mais influente. Entre elas, Finnemore e Sikkink (1998) citam a tas gravitam em torno de questões de escopo e aplicabilidade; em
maior necessidade de se legitimar alguns governos, o poder dos outros, os discursos desafiam a própria reivindicação de validade
Estados pron1otores das normas) as características intrínsecas das da norma, desafio que tem como base questões de justificação ou
i normas (formulação clara e conteúdo), a relação da nova norma de identidade.
com a estrutura normativa existente e o contexto ou momento Por fim, o terceiro tipo de processo de socialização, que Risse
histórico mundiais. e Sikkink chamam de institucionalizaçáo e habituaçáo, consiste
Por sua vez, o modelo espiral de Risse e Sikkink (1999) com- na despersonalização da obediência às normas, que acontece pela
plementao anterior. Ele se refere unicamente ao segundo estágio independência das crenças individuais sobre sua validade (Risse;
do ciclo de vida das normas. (estágio de socialização), e a intenção Sikkink, 1999, p. 17).
dos autores é aplicá-lo à pesquisa empírica sobre normas de direitos
humanos. Assim, as diferenças entre esses tipos diriam respeito à O modernismo linguístico: Nicholas Onuf
lógica subjacente de ação e interação social.
Nicholas Onuf (1989) é o responsável pela primeira grande obra
Segundo Risse e Sikkink (1999, p. n), "a socialização em nor-
construtivista publicada no âmbito das RI: World of our Making: 105
mas internacionais é o processo crucial através do qual um Estado
:;i· Rufes and Rufe in Social Theory and lnternational Relations, com a
se torna membro da sociedade internacional", a qual tem como
qual o autor deu início a um projeto que iria muito além do mero
objetivo conseguir que "os atores internalizem as nonnas, de modo
estudo das RI.
que a pressão externa não mais seja necessária para assegurar a
Como os demais autores construtivistas, Onuf sustém que o
ohediência" (Risse; Sikkink, 1999, p. n).
construtivismo não é uma teoria das RI, no sentido em que "não
O modelo de Risse e Sikkink identifica três tipos de processo de
oferece explicações gerais sobre o que as pessoas fazem, por que
socialização que conduzem à mudança normativa no âmbiro dos
as sociedades diferem e como o mundo muda" (Onuf, 2013, p. 3).
direitos humanos. Em primeiro lugar, os processos de adaptação
Porém, o construtivismo proporciona, sim, elementos para teorizar
e barganha estratégica. Nesses processos, o motor da mudança é o
sobre esses e outros assuntos sociais, incluindo as RI.
cálculo instrumental, isto é, os atores em processo de socialização

I
-;I

Como os construtivistas em geral, todos eles influenciados pela enuncia (ato ilocutório). Por sua vez, os atos ilocutórios compreen-
teoria da estruturação do sociólogo Anthony Giddens (1986), Onuf dem várias subcategorias.
parte do pressuposto da mútua constituição de estruturas e agentes: Os aros ilocutórios assertivos ("A terra é redonda", "Maria está
as pessoas fazem a sociedade e a sociedade faz as pessoas. sentada") consistem em proposições que podem ser verdadeiras ou
O processo de mútua constituição entre práticas sociais (estru- falsas; os diretivos ("Vá embora!") referem-se a ordens; os compro-
turas) e agentes tem regras: as regras sociais determinam quais são missivas ("Venho logo", "Prometo fazer a comida") estabelecem,
os agentes que participam em cada uma das práticas e também as como o próprio nome sugere, compromissos; os expressivos ("Adoro
diferentes opções de ação dos agentes. As regras sociais incluem as queijo!") exprimem sentimentos ou emoções; e os declarativos
normas jurídicas, mas são uma categoria bem mais ampla. ("Declaro aberta esta sessão") criam ou modificam um estado de
Na proposta de Onuf (1989), as regras sociais estão baseadas nas coisas.
106
funções da linguagem. É por isso que sua variante do construti- Tais atos serão válidos, obviamente, sempre que forem pronun-
vismo é chamada de modernismo linguístico. ciados em um contexto institucional que autorize o emissor a tais
Os linguísticas e filósofos da linguagem têm feito diferentes pronunciamentos: para que a frase "Declaro guerra" realmente se
classificações das funções da linguagem como instrumento de torne um ato, ela deve ser proferida por uma autoridade competente
comunicação. Uma das mais simples e mais utilizadas é a de Karl para tomar essa decisão.
Bühler (1934), que distinguiu funções de representação, expressão Na proposta de Onuf (2013), as regras sociais tomam a forma dos
e apelação. aros de fala e correspondem a três das cinco subcategorias de atos de
Cada uma dessas funções confere ênfase particular em um dos fala ilocutórios de Searle: regras assertivas (que incluem também as
três polos da comunicação: o emissor ou falante; o ouvinte; o objeto declarativas da teoria dos atos de fala), diretivas e compromissivas.
ou tópico da comunicação. Assim, a função de representação (refe- As regras assertivas podem abranger princípios (como o prin-
rencial/representativa) consiste em transmitir um conteúdo, uma cípio da soberania, por exemplo) a simples instruções. As regras
informação. A função expressiva (emotiva), em expressar sentimen- diretivas ou imperativas proporcionam informação sobre as conse-
tos ou emoções experimentados pelo próprio ouvinte. Já a função quências da desobediência, e as regras compromissivas estabelecem
107
apelativa (imperativa) refere-se a provocar um efeito no ouvinte. direitos e obrigações.
Por sua vez, a teoria dos atos de fala, desenvolvida pelo filósofo Ao analisar as instituições internacionais, Onuf (2013) questiona
]oh n Searle (1969) a partir dos trabalhos anteriores de John Austin qual é o tipo de regra predominante. Assim, por exemplo, nos tra-
(1962), estabelece que, ao falar, e sempre que esse ato de fala seja pro- tados prevalecem as regras compromissivas, enquanto nas esferas
duzido em determinado contexto-, o emissor ou locutor está, de de influência, as principais regras subjacentes são as diretivas, que
faro, realizando certos tipos de atos: afirmando, comprometendo- ordenam e estabelecem hierarquias.
-se, ordenando etc. Tais regras instruem Estados fracos dentro da esfera a atuarem
Assim, por exemplo, ao pronunciar a frase "Prometo voltar cedo", segundo os desejos dos Estados mais fortes. Por sua vez, o equilíbrio
o indivíduo nao está só falando (ato locutório); ele também está de poder é, para Onuf. uma instituição simples, na qual prevalecem
realizando uma ação, nesse caso, comprometendo-se com o que regras assertivas ou de instrução, no sentido de que elas informam
às potências "o que esperar quando escolhem os aliados ou vão à Síntese
guerra" (Onuf, 2013, p. 14).
O mesmo acontece com a anarquia internacional- que expressa Em poucos anos, o construtivismo se tornou uma das principais
um estado de coisas no qual nenhum Estado governa os demais- correntes teóricas entre as presentes nas RI. Com sua ênfase nas
ou, ainda, com a hegemonia cultural. Assim, os diferentes tipos de ideias e na construção social, essa corrente teórica ocupou um
regras (rufes) estão vinculados às diferentes maneiras de governar espaço que as versóes neo-neo do realismo e do liberalismo (foca-
(rufe) a sociedade internacional. das na economia e na escolha racional) tinham deixado em branco.
A sociedade internacional é controlada indiretamente. Essa é, sem dúvida, uma das explicaçóes desse rápido sucesso.
Supostamente, ela é governada através de consequências não inten- A ourra, complementar, refere-se ao indiscutível rigor acadê-
cionais da anarquia. No entanto, Onuf adverte: "se as consequên- mico de sua produção. Com efeito, e contrariamente à maioria
roS
cias não intencionais parecem governar, isso é porque alguns agen- de novos enfoques que se desenvolveram na disciplina após a
tes querem que pareçam [não intencionais] (Onuf, 2013, p. 7), isto Guerra Fria (excluindo apenas a corrente radical e próxima ao pós-
é, porque esse controle indireto favorece seus interesses. -estruturalismo), os autores construtivistas adoraram os métodos
De fato, desde o momento em que as consequências não inten- e padróes da investigação social contemporânea, o que facilitou
cionais da anarquia passam a ser percebidas pelos atores e aceitas a divulgação de suas ideias e a replicação de suas pesquisas e de
(explícita ou implicitamente) como condiçóes de controle (rufe), a seus resultados.
anarquia deixa de ser anarquia propriamente dita: Apesar da admitida inclinação liberal de alguns dos autores
construtivistas mais destacados, o construtivismo em si mesmo
se a anarquia é uma condição de controle (conditíon of rule) não se afasta de qualquer ideologia. Isso porque, fundamentalmente,
vinculada às intençóes de nenhum agente, então as relações interna- ele não é, nem pretende ser, uma teoria substantiva da realidade
cionais não são uma anarquia. Precisamos outro termo que indique internacional, no sentido conservador do realismo ou otimista do
a forma de controle na qual os agentes tencionam ser controlados
liberalismo.
pelas aparentes consequências não intencionais do exercício dos De fato, a mensagem construtivista é que da interaçáo entre
seus direitos. (Onuf, 2013, p. 20)
estruturas e agentes podem surgir realidades muito diversas. Assim 109
Onuf sugere usar o termo heteronomia em vez de anarquia, mas como "a anarquia é o que os Estados fazem dela", todas as insti-
a escolha do termo é muito menos importante do que a constatação ruiçóes sociais evoluem de várias maneiras possíveis, a partir da
de que a anarquia internacional é uma instituição regrada (ideia inreraçáo continuada de agentes e estruturas, para além de qualquer
condizente com a afirmação de muitos outros autores, incluindo lógica determinista.
os neorrealistas) e que supóe um modo indireto de exercer o poder
sobre o sistema por alguns Estados. A original análise de Onuf,
em última instância, serve de auxílio para desvendar a estrutura
profunda dos mecanismos de poder na sociedade internacional.
Quanto à proposta modernista linguistica de Onuf, além de seu World of
Para saber mais
Our Making (1989), é muito recomendável a coletânea (Onuf, 2013) com
Além do artigo de 1992, a obra que melhor expõe a proposta de construti-
trabalhos escritos ao longo de várias décadas:
vismo modernista de A!exander Wendt é sua Social Theory of lnternotionol
Polittcs: ONUF, N. WorldofOur Making: Rules and Rule in Social Theory and
Internacional Relations. Columbia: University of South Carolina
WENDT, A. Anarchy is whar Srares Make ofir: rhe Social Construction
Press, 1989.
of Power Politics. lnternational Organization, v. 46, n. 2, p. 391-
-425, 1992. _ _. Construcrivism: a User's Manual. In: ONUF, N. Making Sense,
Making Worlds: Construcrivism in Social Theory and Internacional
Social Theory oflnternational Politics. Cambridge: Cambridge
Relarions. London: Roudedge, 2013. p. 3-20.
University Press, I999·
O artigo de Finnemore e Sikkink (1998) e o livro editado por Risse, Ropp
e Sikkink (1999) desenvolvem as respectivas propostas de difusão de
normas internacionais:
Questões para revisão
FINNEMORE, M.; SIKKINK, K. Internacional Norm Oynamics and
1. De que maneira o foco construtivista nas identidades e
Political Change. lnternational Organization, v. 52, n. 4, p. 887-
interesses dos autores contradiz as ideias neorrealistas sobre
-918, 1998.
as consequências da anarquia?
RISSE, T.: ROPP, S. C.; SIKKINK, K. The Power ofHuman Rights:
2. Quais são os estágios do ciclo de vida das normas (Finnemore
Internacional Norms and Domestic Change. Cambridge: Cambridge
e Sikkink)?
University Prcss, 1999.

Um livro publicado mais recentemente por Sikkink, TheJustice Cascade, 3. Segundo Wendt, não é possível passar de um sistema de

usa o modelo de espiral para explicar a internalização de normas de autoajuda a um sistema de cooperação.
III
direitos humanos em vários países: a. Verdadeiro
SIKKINK, K. The Justice Cascade: how Human Rights Prosecurions b. Falso
Are Changing World Policies. New York: WW. Norron & Company, 4. Para Risse e Sikkink, um Estado se torna membro da so-
2011. ciedade internacional através da socialização em normas
internacionais.
a. Verdadeiro
b. Falso
5. O modernismo linguístico de Onuf está fundamentado na
teoria dos atos de fala do filósofo John Searle.
a. Verdadeiro
b. Falso

Questões para reflexão


1. Na sua opinião, quais são as principais vantagens e desvan-
tagens da proposta construtivista de elaborar uma teoria
112 social - e não uma teoria das relações internacionais pro-
priamente dita?
2. Muitos construtivistas (a começar por Alexander Wendt)
consideram que o construtivismo é mais próximo do li-
beralismo que do realismo. Você concorda com isso? Seria
possível, conforme suas convicções, estudar a agenda realista
a partir de uma lente construtivista? Justifique sua resposta.

3. A guerra poderia também ser considerada uma instituição


socialmente construída? Justifique sua resposta.

4. Procure exemplos de normas internacionais e tente compro-


var se a maneira pela qual foram difundidas corresponde
aos modelos apresentados neste capítulo.

5. Busque exemplos de instituições internacionais e procure


estabelecer quais são as regras, segundo a tipologia de Onuf,
que prevalecem na constituição delas.
Pós-
-estruturalismo

Conteúdos do capítulo:
• A crítica pós-estruturalista no seu contexto intelectual.
• Procedimentos/técnicas de análise empregados na análise
pós-estruturalista: desconstrução e genealogia.
• A crítica pós-estruturalista nas relaçóes internacionais.

Após o estudo deste capítulo, você será capaz de:


r. compreender a proposta da crítica pós-estruturalista e iden-
tificar suas principais influências;
2. compreender o posicionamento pós-estruturalista dentro do

panorama teórico das relações internacionais;


3· identificar os principais aspectos da produção pós-
-estruturalista em relações internacionais.
s.1 Introdução a promover os interesses dos mais poderosos. De fato, para os
pós-estruturalistas, a teoria é prática (Campbell, 2010), desde que
O pós-estruturalismo é uma corrente intelectual ampla e muito influencie na maneira de agir dos atores sociais e políticos.
heterogênea, presente em diversas disciplinas, especialmente das Na disciplina das RI, a publicação das primeiras obras pós-
ciências humanas (Literatura, Estudos Culturais, Antropologia, -estruturalistas, no final da década 1980 e no início dos anos de
Estética, Filosofia etc.), fortemente inspirada na obra de filósofos 1990, representou um autêntico choque, inclusive, para os padrões
e críticos culturais franceses, especialmente Michel Foucault e das RI, considerada já então uma disciplina dividida (Holsti, 1985).
Jacques Derrida. Nesse momento, quando o debate acadêmico estava focado nas
Não é possível falar de uma teoria pós-estruturalista propria- discussões entre neorrealismo e neoliberalismo (o debate neo-neo,
mente dita. Os autores relacionados a essa corrente não desenvol- já considerado nesta obra), foi difícil digerir a irrupção dos pós-
veram, nem pretendem desenvolver, nenhuma proposta explicativa -estruturalistas (acompanhados de perto pelo feminismo e, poste-
ou normativa sobre as relações internacionais (RI) ou a realidade riormente, pelo pós-colonialismo), com suas ideias, métodos e até
social em geral. maneiras de se exprimir alheias às tradições e práticas das ciências
Na definição de David Campbell, um dos principais autores sociais.
pós-estruturalistas em RI, o pós-estruturalismo é um "posiciona- Mais de um quarto de século depois, é possível perceber que essa
mento ou espírito crítico que explora certas maneiras que fazem situação tem mudado. Embora a influência dos pós-estruturalistas
possível ser, atuar ou conhecer" (Campbell, 2010, p. 223)1. nas RI seja inquestionavelmente limitada em comparação com
Em grande medida, o pós-estruturalismo pode ser caracteri- outras escolas e tendências, nos mais de 25 anos transcorridos desde
zado como uma antitcoria. Por um lado, em virtude da oposição à essas primeiras publicações, um nicho pós-estruturalista foi se
própria atividade de teorizar. Para a maioria dos pós-estruturalistas, consolidando.
as teorias (na terminologia pós-estruturalista, metanarrativas ou A presença de artigos identificáveis como pós-estruturalistas
metarrelatos) não são mais que construções ideológicas que é pre- é bastante forte nas principais publicações periódicas da área.
ciso questionar. Nas palavras Jean-François Lyotard, de um dos Além disso, há uma regular produção de livros de orientação ou
influência pós-estruturalista, e os autores dessa corrente estão II7
gurus do movimento, o pós-modernismo (conceito que inclui o
pós-estruturalismo) pode ser definido como "incredulidade em presentes nas principais associações profissionais da área (entre
relação aos metarrelatos" (Lyotard, 1993, p. 3). elas, a Internacional Studies Association, nos Estados Unidos, e a
Por outro lado, na disciplina das Relações Internacionais, o British Internacional Studies Association, no Reino Unido) e seus
principal alvo da crítica pós-estruturalista tem sido as teorias rela- congressos. Embora decididamente fora do mainstream, o pós-
cionadas à área. Os pós-estruturalistas consideram a disciplina e -estruturalismo consolidou seu próprio espaço institucional e inte-
suas teorias as responsáveis por representar o mundo de maneira lectual dentro da disciplina das RI.
No restante deste capítulo, considera-se, em primeiro lugar,
l Neste capítulo, as citaçóes de obras ou textos em língua esrrangeira foram traduzidas pela autora. a crítica pós-estruturalista no seu contexto intelectual. A seguir,
A cxccç<iD fica por conta da citação de Foucault, páginas adiame, em que se apresenta a infOrmação
traduráo da edJ(d(l bmsileim. faz-se referência a dois procedimentos ou técnicas de análise
habitualmente empregados na análise pós-estruturalista: a descons- Embora o termo pós-modernismo tenha aparecido no título de
trução e a genealogia. Por fim, trata-se da crítica pós-estruturalista uma das primeiras obras publicadas pelos pós-estruturalistas na
nas RI, revisando seus principais atores e os temas abordados. disciplina de RF, em geral, essa expressão é mais utilizada pelos
derrarores e menos pelos próprios autores, que preferem adotar o
termo pós-estruturalismo. Respeitando essa preferência, nesta obra,
s.2 A crítica pós-estruturalista: influências optou-se também por esse mesmo termo.
A heterogeneidade de obras e autores identificados como pós-
e caracterização
-estruturalistas desafia qualquer definição, mas algumas caracterís-
ticas são comuns a rodos eles (ou quase todos). O anticientificismo
A principal influência dos pós-estruturalistas vem de um conjunto
radical e a ênfase na linguagem (com precedência ontológica sobre
de autores franceses, todos eles expoentes da chamada filosofia
os demais componentes da vida social) estão entre as mais evidentes.
continental (em oposição à filosofia analítica): Jacques Derrida,
Muito presente nas ciências humanas em geral, o anticientifi-
Michel Foucault, Jean-François Lyotard, Julia Kristeva, Roland
cismo é, em última análise, uma manifestação da chamada "dupla
Banhes, entre outros.
cultura" (Snow, 1959; Bricmont; Sokal, 2001), a confrontação entre
Na década de 1960, os autores eirados começaram a ser deno-
as humanidades e ciências detectada há mais de um século por
minados pós-estruturalistas devido aos posicionamentos críticos que
Charles Percy Snow, com as ciências sociais ocupando uma pouco
assumiram (em maneiras e graus muito diferentes) em relação ao
confortável posição intermediária.
estruturalistno, até então dominante em várias áreas das ciências
Infelizmente, mais do que argumentos sólidos, as razões alega-
humanas, entre elas a literatura, a linguística, a antropologia e a
das pelos pós-estruturalistas para rejeitar a ciência e o positivismo
psicanálise.
demonstram apenas uma generalizada ignorância quanto aos deba-
Cabe assinalarmos que eles não formaram um movimento
tes epistemológicos sérios.
coeso, tampouco definiram a si mesmos utilizando rótulos comuns.
Em relação à segunda característica mencionada anteriormente-
A expressão pós-estruturalistas não foi imposta por eles próprios.
a ênfase na linguagem -, os pós-estruturalistas estão vinculados
Alguns, como Foucault, rejeitaram esse e quaisquer outros rótulos. II9
à chamada virada linguística nas áreas de filosofia e humanidades,
Por sua vez, o termo pós-modernismo, usado de maneira rela-
tendência materializada em um interesse crescente pelo papel da
tivamente intercambiável com pós-estruturalismo para designar o
linguagem (e de outras práticas discursivas) na estruturação da
mesmo conjunto de pensadores, tem um alcance mais amplo e se
realidade.
refere à crítica da herança da modernidade e do Iluminismo, uma
Entretanto, e diferentemente dos filósofos analíticos (e também
constante na obra dos autores dessa corrente.
dos autores construtivistas considerados no capítulo anterior), inte-
A ruptura com a modernidade (mais especificamente, com o
ressados no papel da linguagem na constituição da realidade social
projeto político da modernidade) supóe uma rejeição em bloco
sem deixar de pressupor a existência de uma realidade material
ao racionalismo, à ciência e à possibilidade de um conhecimento
objetivo, entre outras coisas. 2 A saber: lnternationaillntatextual Relatiom: Postmodern Readings ofWorid Politin, editada por
James Der Derian e Michael J. Shapiro, em 1989.
independente (Searle, 1995, 2010), os pós-estruturalistas e a filoso- produtos de uma evolução histórica quando elas são construídas,
fia continental na qual se inspiram não estabelecem uma distin- contingentes e arbitrárias, muitas vezes, fruto do acaso e das cor-
ção clara entre realidade material e realidade social e se mostram relações de poder em um determinado momento.
céticos quanto à própria existência de um mundo independente A rica e influente obra de Michel Foucault (impossível de ser
do observador. resumida em poucas linhas) proporciona múltiplos exemplos dessas
Para eles, é a própria linguagem (ou os diferentes discursos nos construções. Seus estudos sobre as práticas carcerárias (Foucault,
quais ela se apresenta) que cria ou constitui a realidade e os objetos 1975), hospitalares (Foucault, 1963) e de outras instituições dis-
e sujeitos sociais. Nesse sentido, os pós-estruturalistas podem ser ciplinares, apoiados em múltiplas fomes documentais, mostram
caracterizados como defensores de um posicionamento epistemo- que a produção de sujeitos e categorias como doente, criminoso ou
lógico relativista. anormal, ao longo da história, foi extremamente arbitrária e sujeita
Com base na precedência ontológica que dão à linguagem, os a mudanças abruptas.
autores ligados a essa perspectiva identificam o mundo como um É preciso esclarecer que a maneira como Foucault aborda o
grande texto (ou conjunto de textos interconecrados) (Derrida, poder (extremamente influente entre os pós-estruturalistas em geral
1967). Logo, a função de um estudioso seria a de analisar esse texto, e, também, entre os pós-estruturalistas da área de RI) é bastante
bem como os discursos ou práticas discursivas que implica. diferente das abordagens habituais em ciências sociais ou em RI.
Isso demanda a possibilidade, se não de conhecer, de minima- Para Foucault, o poder não é um recurso em posse de um ou
mente se aproximar do mundo para "ilustrar como os processos outro ator, seja uma classe dominante ou o Estado. Ele circula
textuais e sociais estão intri nsecamcnte conectados e descrever, em em todo o corpo social como uma cadeia e é exercido como uma
contextos específicos, as implicações para a maneira na qual pen- organização em rede, na qual todos estão presos.
samos e atuamos no mundo contemporâneo)), conforme George O poder está disperso em rodas as práticas sociais (Foucault,
(1994, p. 91), autor pós-estruturalista que atua na área das RI. 1980). Diante disso, o interesse de Foucault concentra-se na inves-
"' Podemos se concluir, então, que o objetivo dos pós-estrutura- tigação das múltiplas maneiras pelas quais o poder é exercido.
listas é desmascarar premissas, pressuposições e vieses subjacentes O pensador realiza essa atividade por meio da análise das práticas
!21
a qualquer discurso. Porém, é importante esclarecermos que, para sociais, sobretudo daquelas consideradas disciplinares (da escola,
esses pensadores, o conceito de discurso vai muito além de um do hospital, do quartel etc., bem como as próprias disciplinas das
texto ou de uma construção linguística, pois inclui qualquer sis- ciências humanas), nas quais as relações de poder (ou micropoder)
tema simbólico e as práticas sociais a ele vinculadas. se manifestam.
As teorias pretensamente utilizadas para explicar o que se A estreita relação (interdependente) entre poder e conhecimento
entende por realidade são tratadas como mais um tipo de dis- é também um elemento importante na obra de Foucault, e faz parte
curso entre vários outros. A análise do discurso, especialmente da visão do mundo pós-estruturalista. "O poder produz saber [...]
do discurso dominante, auxilia a detectar as relações de poder e a não há relação de poder sem constituição correlata de um campo
mostrar como essas relações ajudam a criar categorias (dentre elas, de saber, nem saber que não suponha e não constitua ao mesmo
a do próprio sujeito) tidas con1o "naturais)! e necessárias e como

I
tempo relações de poder" (Foucault, 2010, p. 30, tradução da edi- ao lraque, em 2003, por Jean-Bethke Elshtain (2003), reconhecida
ção brasileira). autora feminista/pós-estruturalista.
A verdade ou, na linguagem de Foucault, "os regimes de ver-
dade", é produto dessa relação entre poder e conhecimento: o que
coma ou não em cada momento histórico e em cada sociedade s.J Procedimentos de análise
como verdade depende das relações de poder existentes.
Outro aspecto importante das abordagens pós-estruturalistas é Os autores pós-estruturalistas não mostram grande preocupação
sua (controversa) dimensão ética. Os autores dessa corrente costu- pelo respeito a qualquer regra metodológica. Tanto é que os proce-
mam enfatizar suas preocupações ético~normativas, em contraste dimentos por meio das quais eles analisam os discursos e as fomes
122
com as teorias que se declaram neutras em relação aos valores: às quais recorrem são enormemente variados e ecléticos.
"O grande propósito da análise estrutural é ético e político. Enfatiza Muitas análises são bem mais próximas da crítica literária, esté-
como as coisas têm sido produzidas ao longo do tempo procurando tica ou cinematográfica do que da análise social, distinção que, de
desnaturalizar representações convencionais, de modo a argumen- qualquer maneira, um pós-estruturalista não aceitaria como válida.
tar que poderiam ter sido diferentes" (Campbell, 2010, p. 233). Romances, filmes, obras de arte, séries televisivas, diários íntimos
Um exemplo é a obra lnside-Outside: lnternational Relations as ou regras esportivas, objetos que à primeira vista têm pouca cone-
Political Theory, de Rob Walker (1993), que critica a marcada distin- xão com a política internacional, aparecem frequentemente nas
ção entre política interna/internacional na disciplina e as teorias das análises pós-estruturalistas, seja para ilustrar o contexto cultural
RI e suas repercussões éticas (segundo o autor, a ética só ocorreria no qual as práticas propriamente políticas são desenvolvidas, seja
"dentro" do Estado, enquanto muitos consideram aceitável tratar como metáfora dessas práticas.
os "de fora" segundo padrões menos exigentes). A linguagem densa, por vezes impenetrável, carregada de metá-
Porém, nem Walker, tampouco os demais autores pós- foras e de outras figuras retóricas, bem como o excesso de citações
-estruturalistas, tem contribuído para a construção de teorias eruditas (para os padrões da ciência social), são também caracte-
normativas (consideradas no último capítulo deste manual). Rob rísticas muito frequentes nos textos pós-estruturalistas. Elas con-
123
Walker ainda justifica o caráter pouco construtivo de sua crítica tradizem as recomendações metodológicas da pesquisa social (que
afirmando que ela "não é um repositório de princípios à espera de valorizam a clareza e a precisão) e causam estranheza ao leitor
aplicação, senão uma prática histórica em curso" (Walker, 1993, familiarizado com as ciências sociais, mas fazem parte da tradição
P· )I). acadêmica dos estudos literários e de outros ramos das ciências
De fato, os pós-estruturalistas divergem consideravelmente entre humanas.
eles sobre o que consideram ético ou amiético. Contrariamente Embora não haja uma padronização de procedimentos nem uma
ao que muitos poderiatn supor, não é incomum encontrar pós- metodologia em sentido próprio, dois procedimentos são muito
-estruturalistas defendendo posicionamentos políticos claramente populares entre os pós-estruturalistas e têm sido replicados por
conservadores. Um exemplo disso é a defesa da invasão dos EUA vários autores em RI. Um deles é a desconstrução, procedimento
idealizado por Jacques Derrida. O outro é a chamada análise genea- sentimentos, a moralidade). Segundo um estudioso do pensamento
lógica, que Michel Foucault adaptou do filósofo Friedrich Nietzsche. de Foucault, "o objetivo da análise genealógica é mostrar que um
A desconstrução é uma técnica por meio da qual Jacques sistema dado de pensamento [... ] foi o resultado de evoluções con-
Derrida (1967) analisou o pensamento de autores como Platão, tingentes da história, não o resultado de tendências racionalmente
Renê Descartes, Friedrich Hegel, Friedrich Nietzsche, Sigmund inevitáveis" (Gutting, 2014).
Freud, Edmund Husserl, Martin Heidegger e Jean-Paul Sanre,
entre outros.
Esse recurso consiste, basicamente, em problematizar os signi- s.4 O pós-estruturalismo na disciplina
ficados que o autor analisado atribui a seu texto, propondo leituras
alternativas (dupla leitura). Para isso, são identificadas as oposições
das Relações Internacionais
binárias explícitas ou implícitas nos textos analisados. O pomo
A produção autoqualificada de pós-estruturalista (ou pós-moderna)
de partida é que, ao menos na tradição ocidental, logocêntrica, o
na disciplina das RI começou a ser publicada na segunda metade
pensamento é organizado através de pares de conceitos opostos:
da década de 1980. Portanto, quase duas décadas após sua chegada
masculino/feminino, fone/fraco etc., nos quais um dos termos
a outras áreas das ciências humanas e sociais.
tem conotações positivas, e o outro, negativas.
A obra On Diplomacy: a Genealogy of Western Estrangement,
A desconstrução evidencia esse sistema de significados, que
de ]ames Der Derian (r987), foi declaradamente a primeira pós-
poderia passar desapercebido a um leitor ingênuo. De qualquer
-estruturalista na disciplina. A ela seguiram-se One World/Many
forma, Derrida (1987) deixa bem claro que a desconstrução não é
Worlds: Struggles for a ]ust World Peace, de Rob Walker (1988) e
un1 n1étodo. Tanto ele mesmo como seus epígonos fazem um uso
International!Intertextual Relations: Postmodern Readings ofWorld
muito livre desse procedimento.
Politics, editada por ]ames Der Derian e Michael Shapiro (1989).
Por sua vez, análise genealógica é o nome que Foucault deu a
Junto com David Campbell, Richard Ashley e Jim George, esse
sua própria maneira de proceder, especialmente a partir da obra
conjunto de autores tornou-se o núcleo central do cânone pós-
Surveiller et punir (Vigiar e punir), também bastante heterodoxa
i: em relação aos procedimentos tradicionais da história das idcias.
-estruturalista em RI. 125
A publicação, em 1990, de um número extraordinário da
O autor (1976) ainda recorreu ao mesmo método em outras
prestigiosa revista lnternational Studies Quarterly (publicada
publicações posteriores, como Histoire de la sexualité (História da
pela International Studies Association), apresentando o pós-
sexualidade).
-estruturalismo nas RI e incluindo várias contribuições, foi o marco
A análise genealógica passou a complementar a analise arqueo- simbólico da chegada dos pós-estruturalistas à disciplina.
lógica, baseada na análise das práticas discursivas e utilizada nas O exemplar, editado por Richard Ashley e Rob Walker, contém
obras anteriores. Com o método genealógico, Foucault tentou um texto introdutório que pode ser considerado uma espécie de
revelar a historicidade de qualidades e propriedades que aparente- manifesto ou de declaração programática. Vale a pena sua leitura:
mente careciam de história (como a própria fisiologia do corpo, os
[A proposta pós-estrutura hra supõe] a celebração da diferença, não O realismo, especialmente na versão neorrealista de Kenneth
da identidade; o questionamento e a transgressão dos limites, não Waltz, tem sido a metanarrativa tomada como alvo favorito dos
a asserção de limites e marcos; uma disposição a questionar como pós-estruturalistas. Isso não é surpreendente, dado o papel focal
o significado e a ordem são impostos, não a busca de uma fonte de e estruturante das obras realistas no debate contemporâneo da
significado c ordem já estabelecida; a incansável e meticulosa análise teoria das RI.
da maneira pela qual o poder opera na vida global moderna, não a Um exemplo é o capítulo de Richard Ashley (1989) na obra
nostalgia por uma figura soberana (trate-se já do homem, de Deus, editada por Der Derian e Shapiro (1989). Nesse capítulo, o autor
da nação, do Estado, do paradigma ou do programa de pesquisa) que faz uma desconstrução/comparação das obras Man, State and War
prometa nos livrar do poder; a luta pela liberdade, não um desejo (O homem, o Estado e a guerra) e Theory of lnternational Politics,
religioso de produzir algum domicílio territorial ou uma maneira ambas de Kenneth Waltz (2004; 2002).
de ser evidente que os homens de fé inocente possam chamar de Segundo Ashley (1989), a obra Man, State and War começa
lar. (Ashley; Walker, 1990, p. 264-265) ressaltando a oposição hierárquica homem/guerra, pela qual o pri-
Nesse trecho, ficam evidentes vários elementos característicos da meiro termo seria privilegiado em relação ao segundo. Conforme
literatura pós-estruturalista: a postura desafiadora a toda autoridade Ashley, o homem é apresentado por Waltz como uma identidade
(seja social, política ou científica); o característico tom rebelde; o racional prioritária,. enquanto o domínio da anarquia e a guerra
foco na análise do poder, entendido a partir da concepção foucaul- representam apenas a ausência de identidade racional, como domí-
tiana; e a rejeição a qualquer fundamento/pressuposto analítico ou nio resistente de diferença que precisa ser controlado pela figura
ético, a partir do qual se realiza a análise ou a crítica. soberana do homem. Pelo contrário, em Theory of lnternational
Nos primeiros anos que seguiram à aparição do pós- Politics, a historicidade da guerra é privilegiada sobre a identidade
-estruturalismo nas RI, houve certa concentração de obras dessa do homem.
corrente na crítica metateórica, isto é, na crítica e desconstruçáo Essa inversão de hierarquias de uma obra para outra tem, na
de teorias e conceitos referentes às teorias convencionais. interpretação de Ashley (1989), diversas implicaçóes. Em relação à
Como já indicado, para os pós-estruturalistas, as teorias não são guerra, a inversão da hierarquia logocêntrica leva a uma conclusão
127
consideradas explicaçóes, senão parte dos fenômenos que precisam sobre a inescapável historicidade de paradigmas do ser humano.
ser explicados. Nas palavras de Walker (1988, p. 6): "as teorias das Para Ashley (1989, p. 299), privilegiar a guerra sobre o homem
relações internacionais são mais interessantes como aspectos da equivale a reprimir os fundamentos de uma narrativa universal
política mundial contemporânea que necessita ser explicada que de liberdade e progresso. Também Der Derian é autor de uma
como explicaçóes da política mundial contemporânea". reinterpretação genealógiea-semiológica-dromológica do realismo.
O objetivo da obra de outro proeminente autor pós-estruturalista, Ele explica nestes termos a proposta:
Richard Ashley, pode ser resumido como "explorar a cumplicidade A genealogia questiona as origens imaculadas, as identidades essen-
da teoria internacional com os problemas que afirma tentar resolver" ciais e as estruturas profundas do realismo, revelando os inícios
(Griffiths; Roach; Solomon, 2009, p. 254). metafóricos e míticos de um realismo uniforme, produzindo, ao
mesmo tempo, através da interpretação, vários realismos que nunca Para Der Derian (1987), a diplomacia é um conjunto de
"figuram" na história oficial das relações internacionais. [... ]A semio- práticas e lutas de poder materializadas em um discurso
logia é necessária, no sentido de que o estudo do realismo é um dominante, construído para mediar as relações com o outro.
sintoma de uma condição mais geral de modernidade tardia, na A diplomacia é precisamente isso: a "mediação de indiví-
qual uma velha ordem está morrendo e uma nova não está ainda duos, grupos ou entidades estranhados" (Der Derian, 1987,
constituída. [... ] Na tentativa, senão de fato, a semiologia é uma p. 42), ou "a mediação do estranhamento pelo poder sim-
investigação metafísica, pragmática da durabilidade do realismo em bólico e pelas constrições sociais" (Der Derian, 1987). Com
um arcaico sistema de signos, no qual as palavras espelham objetos base no método genealógico, o autor identifica diferentes
e a teoria é independente da realidade que representa. A semiologia paradigmas discursivos correspondentes a fases históricas
proporciona um método para estudar a mistura interdependente da prática diplomática: mirodiplomacia, prorodiplomacia,
128
de poder, significado e moralidade que constituem o realismo[ ... ]. antidiplomacia, neodiplomacia e tecnodiplomacia.
(Der Derian, 1996, p. 278-279)
• Política externa: A crítica pós-estruturalista tem feito uma
Outros trabalhos dessa primeira época reinterpretavam, em reinterpretação do conceito de política externa. Segundo ela,
termos desconstrutivistas ou genealógicos, autores clássicos da teo- a política externa deveria incluir rodas as práticas discursivas
ria política ou social. Assim, Garst (!989) tentou demonstrar que de produção de significado que contribuem para definir a
Tucídides (citado na Seção 1.2 deste manual) é menos neorrealista identidade de um Estado, produzindo dicotomias que dife-
do que os neorrealistas contemporâneos afirmam. renciam os membros da nação e os que lhe são estranhos:
Um exercício semelhante foi levado a cabo por Rob Walker em "rodas as relações de 'outredade', de práticas de diferenciação
relação a Nicolau Maquiavel. Além do filósofo citado, Sigmund ou de modos de exclusão que constituem seus respectivos
Freud, Giambattista Vico, Karl Marx, Max Weber e Friedrich objetos como 'estranhos"' (Campbell, 1990, p. 271).
Nietszche têm sido interpretados à moda pós-estruturalista
Na obra Writing Security: United States Foreign Policy and
(Elshtain, 1989; Alker, 1990; Der Derian, 1993).
the Politics of Identity, Campbell (r992) ilustra as maneiras
Com o passar dos tempos, a literatura pós-estruturalista foi
pelas quais o discurso- nesse caso, sobre segurança- pode 129
se concentrando menos no debate metateórico e ampliando
contribuir para a formação tanto do Estado como do indi-
mais o escopo de temas tratados. Há exemplos de produção pós-
víduo. O autor distingue entre "política externa" como eco-
-estruturalista em todas as áreas cobertas pela disciplina. Eis alguns
nomia discursiva que rodeia as identidades e política externa,
deles:
definida como entendimento convencional sobre as práticas
• Diplomacia: A obra On Diplomacy: a Genealogy ofWestern externas dos Estados.
Estrangement, de Der Derian (1987), já mencionada neste
Segundo Campbell (1992), as representações da "política
manual, trata de um tema recorrente na literatura pós-
externa" operam como condições de existência para a polí-
-estruturalista: a criação do sujeito, que frequentemente
rica externa. O autor indica também como a política externa
acontece a partir da "invenção do outro" (Baudrillard, 1990).
dos EUA reflete a dinâmica interna da "política externa": práticas intervencionistas e corretivas, respectivamente, do
a contínua luta por definir a identidade americana. Concerto da Europa, da administração de Woodrow Wilson
• Soberania: Essencial em qualquer discussão de RI, esse con- e das administrações de Ronald Reagan e George Bush
ceito está presente em diversas análises pós-estruturalistas. (Weber, 1995> p. 32-33).
Tanto a obra A Genealogy of Sovereignty, de Jens Bartelson
(1995), como Simulating Sovereignty, de Cynthia Weber (1995),
abordam esse termo partindo de uma perspectiva genealó- Síntese
gica inspirada por Foucault e explorando o vínculo entre A crítica pós-estruturalista irrompeu no campo acadêmico das RI
poder e conhecimento.
no período coincidente com o final da Guerra Fria, provocando
A pergunta de partida de Bartelson é como os discursos uma reação generalizada de desconcerto e perplexidade. Com o
políticos da soberania e sobre ela têm organizado a reali- passar dos anos, tornou-se uma perspectiva mais inserida no amplo
dade política e o conhecimento das pessoas. Para o pensa- leque de teorias contemporâneas das RI. Embora minoritária, ela
dor citado, "a soberania c o conhecimento implicam um ao tem seu próprio nicho dentro de cursos e publicações da disciplina.
outro logicamente e produzem um ao outro historicamente" É especialmente difícil avaliar em conjunto a heterogênea pro-
(Bartelson, 1995, p. 5). dução pós-estruturalista. Em qualquer caso, seria um grande erro
Ele mostra, de maneira semelhante como fez Foucault (1966) fazê-lo usando os critérios normalmente utilizados para as ciências
em Les mots et les choses: une archéologie des sciences humaines sociais, isto é, em função da clareza, da precisão conceitual ou da
em relação às ciências humanas, que o conceito de sobe- replicabilidade dos resultados.
rania nos períodos do Renascimento, na Idade Clássica A produção pós-estruturalista está formada basicamente por
(que Foucaulr situa entre os séculos XVII e XVIII) e na ensaios cultural-filosóficos, com méritos e contribuições mais indi-
Modernidade experimentou fortes descontinuidades. viduais do que produto da acumulação do conhecimento cole-
tivo. Muitos deles, sem dúvida, iluminam (por vezes, com grande
A obra de Cynthia Wcber, por sua vez, tenta responder à
agudeza e originalidade) aspectos negligenciados dos fenômenos IJI
seguinte questão: "como o significado da soberania foi fixado
internacionais (incluindo as maneiras convencionais de explicá-los)
ou estabilizado historicamente através das práticas de teó-
à luz de teorizações mais tradicionais.
ricos das RI e das práticas de intervenção política" (Weber,
A mútua incompreensão entre os pós-estruturalistas e a aca-
1995· p. 3)?
demia orientada às ciências sociais dentro da área das RI, por um
Weber (1995) encontra também paralelo entre as modalida- lado, e a política universitária e a luta pelo espaço e pelos recursos
des disciplinares de castigo, descritas por Foucault Ü975) institucionais, por outro (muito menos que divergências acadêmicas
(a marca da tortura na Era Clássica, o signo de um crime propriamente ditas), parecem ser as causas principais dos acirrados
específico na Modernidade, o rastro da reforma ou da reden- embates entre "dissidentes" e "tradicionalistas".
ção em todo o corpo social na era contemporânea), e as
Em relação a isso, aconselha-se prestar menos atenção a esse 4. Os autores pós-estruturalistas em Rl tem contribuído con-
tipo de intercâmbio, e mais à contribuição efetiva de cada enfoque sideravelmente à elaboração de teorias normativas.
para compreender melhor os fenômenos e problemas das RI. a. Verdadeiro
b. Falso
Para saber mais
Como produções representativas do pós~estruturalismo em RI, 5. A crítica pós-estruturalista não tem sido aplicada até o mo-
recomenda-se a leitura de On Dip!omacy, de James Der Derian, da coletâ-
mento para a análise dos fenômenos habitualmente estu-
nea tnternationoljlntertextuaf Relations, editada por Der Derian e Shapiro, dados pelas Rl.
I
a. Verdadeiro
e também de A Genea/agy af Savereignty, de Jens Bartelson:
i b. Falso
DER DERIAN, J. On Diplomacy: a Genealogy ofWestern Estrangement.
Oxford: Basil Blackwell, 1987.
I
DER DERIAN, ].; SHAPIRO, M. (Ed.). Internationalllntertextual 1 Questões para reflexão
Relations: Postmodern Readings of World Politics. Lexingwn: í'
I. Ashley (1989) afirma que todas as teorias tradicionais das Rl
Lexingron Books, 1989.

BARTELSON.]. A Genealogy ofSovereignty. Cambridge: Cambridge


Universiry Press, 1995·
! têm responsabilidade em relação aos problemas que supos-
tamente pretendem resolver. Em que medida você concorda
com essa afirmação para cada uma das teorias analisadas?

2. Escolha um tema substantivo das Rl (guerra, paz, desen-


volvimento, diplomacia etc.) e recorra à literatura pós-
Questões para revisão -estruturalista sobre esse tema para analisar o que é dito
sobre ele. Em que medida essa literatura é útil para ajudá-lo
I. Identifique algumas das influências dos filósofos Jacques a avançar no seu conhecimento? Essa literatura dialoga, de
Derrida e Michel Foucault na crítica pós-estruturalista em IJJ
alguma maneira, com a produção mais convencional exis-
Rl. tente sobre o tema que você escolheu? Justifique sua resposta.
2. Os métodos e as fontes utilizadas pelos autores pós- 3. Em que medida a preocupação ética da crítica pós-
-estruturalistas não são válidos da perspectiva das ciências -estruturalista é compatível com a negativa pós-estruturalista
sociais. Por quê? de construir uma teoria normativa?
3. A desconstrução começa pela identificação de "oposiçóes
binárias" nos textos analisados.
a. Verdadeiro
b. Falso
Pós-colonialismo

Conteúdos do capítulo:
• Origem e influências do pós-colonialismo.
• Principais temas/focos da produçáo pós-colonial.
• Análise da produçáo pós-colonial dirigida à comunidade
acadêmica das Relações Internacionais.

Após o estudo deste capítulo, você será capaz de:


I. compreender a proposta da crítica pós-colonialisra e iden-
tificar suas principais influências.
2. entender o posicionamento pós-colonialista dentro do pano-
rama teórico das relações internacionais;
3· identificar os principais aspectos da produçáo pós-colonialista
em relações internacionais.

I -
Terceiro Mundo e dos discursos das "minorias" dentro das divisóes
6.7 Introdução
geopolíticas de Leste e Oeste, None e Sul. (Bhabha, 1990, p. 239,
tradução da edição brasileira)'
Das teorias e enfoques tratados neste manual, o pós-colonialismo
é o mais atual e, também, o que mais recentemente fez sua entrada O prefixo pós- do pós-colonialismo se refere à persistência de
na disciplina das Relações Internacionais (RI). Como o pós- relações de desigualdade que vão além dos processos de descolo-
-estruturalismo, ele é um enfoque crítico e interdisciplinar que nização e que continuam vigentes, com múltiplas consequências
nasceu vinculado às áreas de humanidades na década de 1980. culturais, sociais e econômicas. "[O argumento principal do pós-
As primeiras obras baseadas no enfoque pós-colonial e produzidas -colonialismo] é que as nações dos três continentes não ocidentais
(Ásia, África e América Latina) estão, em grande medida, em uma
por membros da comunidade acadêmica das RI dirigidas a essa
comunidade acadêmica datam da década de 2000. situação de subordinação e desigualdade econômica em relação à
O pós-colonialismo é, ao mesmo tempo, um subproduto do pós- Europa e à América do Norte" (Young, 2003, p. 4).
-estruturalismo e uma reação à apatia política (no sentido de falta de Parece óbvio que o pós-colonialismo é um conceito muito seme-
compromisso com reivindicações específicas) que muitos atribuem lhante ao neo-colonialismo e também à dependência, os conceitos
básicos por meio dos quais a ciência social latino-americana trata
aos pós-estruturalistas. Por um lado, os autores pós-colonialistas
as relações entre centro-periferia. A abordagem pós-colonialista,
bebem das mesmas fontes que os pós-estruturalistas. Foucault,
porém, tem pouco a ver com o tipo de análise que se faz com base
Derrida e as demais principais influências do pós-estruturalismo
são referências compartilhadas por ambos os enfoques, bem como nas teorias marxistas da dependência ou do sistema-mundo, embora
ela possa, em cercas ocasiões, servir de input à crítica pós-colonial.
a ênfase na representação como reflexo do vínculo entre poder e
conhecimento. De maneira semelhante ao pós-estruturalismo, o pós-
-colonialismo não é, nem pretende ser, uma teoria (embora, no
Por outro lado, e diferentemente do pós-estruturalismo, o pós-
marco dos estudos pós-coloniais, frequentemente se faça referên-
-colonialismo, produto da resistência dos povos colonizados ao
cia à teoria pós-colonial). Ele é um enfoque crítico e interpretativo
colonialismo e ao neocolonialismo, tem um objetivo político claro:
sobre diferentes dimensões das relações de poder, com foco na
a saber, a defesa do subalterno, do indivíduo considerado inferior
em função de suas características étnicas, seu gênero ou sua classe identidade, etnicidade e raça.
social. É interessante destacarmos que grande parte dos autores pós-
-coloniais são acadêmicos originários de países subdesenvolvidos
Esses subalternos dos quais o pós-colonialismo se ocupa são,
que atuam em universidades estadunidenses (em departamentos
fundamentalmente, os habitantes das amigas colônias europeias e
das áreas de humanidades, especialmente Estudos Literários e
os membros das minorias discriminadas das metrópoles ocidentais:
Culturais).
A crítica pós-colonial é testemunha das forças desiguais e irregulares
de representação cultural envolvidas na competição pela autoridade
polúica e social dentro da ordem do mundo moderno. As perspec- 1 Neste capítulo, as citações de obras ou textos em língua estrangeira foram traduzidos pela autora.
A exceção fica por coma desta citação, de Bhabha, em que se apresenta a informação traduçáo da
tivas pós-coloniais emergem do testemunho colonial dos países do ediráo br~~últira.
Muitos deles sofreram na própria pele a discriminação étnica É inegável que uma influência importante dos amores pós-
ou cul(ural e, através de sua crítica, visam incidir diretamente na -coloniais diz respeito aos mesmos referentes do pós-estruturalismo
política. Ao potencializar a tomada de consciência dos dominados (Foucault, Derrida, Lyotard, entre outros). De fato, não são pou-
e oprimidos, o pós-colonialismo é, em si mesmo, uma forma de cos os autores pós-colonialistas que também se identificam com o
dissidência efetiva (Chowdhry; Nair, 2002). pós-estruturalismo, replicam seus procedimentos (desconstrução,
O restante do capítulo está organizado em três seçóes. Na pri- genealogia) e citam abundantemente (embora muitas vezes critica-
meira, apresentamos a origem e as influências dessa corrente, com mente) os autores e ideias pós-estruturalistas. Além disso, muitos
uma breve menção ao decolonialismo, a variante latino-americana deles costumam compartilhar a desconfiança pós-estruturalista
da crítica pós-colonial. Na segunda, enumeramos os principais (e das humanidades em geral) em relação às ciências sociais e à
temas ou focos da produção pós-colonial. Na terceira, fazemos ciência como um todo.
uma análise da incipiente produçao pós-colonial dirigida à comu- Outra influência importante foi a do filósofo marxista italiano
nidade acadêmica das R I. Antonio Gramsci. O conceito de subalterno, um dos mais presen-
tes no léxico pós-colonial, foi, de fato, cunhado por Gramsci para
descrever as classes dominadas na situação de hegemonia (Gramsci,
6.2 Origem e influências 1999). O conceito foi adotado pela crítica pós-colonial a partir da
intermediação do chamado Grupo de Estudos Subalternos, uma
A crítica pós-colonial surgiu nas décadas de 1970 e 1980 nos depar- equipe de historiadores que atuou na Índia a partir da década de
tamentos de Literatura das universidades da Commonwea!th, mais 1970.
concretamente dentro daqueles dedicados ao estudo das literaturas Liderado por Ranajit Guha, esse grupo empreendeu uma aná-
das antigas colônias britânicas, em geral de língua inglesa. lise crítica da historiografia indiana mais tradicional (de origem
Ainda hoje, os estudos pós-coloniais se desenvolvem, sobretudo, ocidental e, também, nacionalista), propondo leituras alternativas
nos departamentos ou programas de Estudos Culturais, Estudos da história. No primeiro exemplar da revista acadêmica Subaltern
Étnicos e Estudos Regionais, também predominantemente em uni- Studies, veículo das ideias do grupo, Guha se referiu à subalter-
141
versidades a nglófonas, com destaque para as situadas nos Estados nidade como "o atributo geral de subordinação na sociedade da
Unidos, na Austrália, na Nova Zelândia e no Canadá. Ásia do Sul, expressado em termos de classe, casta, idade, gênero,
Também a Índia contribuiu com alguns dos mais destacados emprego, ofício ou em qualquer outra forma" (Guha, 1982, p. VII).
intelectuais pós-coloniais, entre eles, Homi Bhabha e Gayatri O trabalho do grupo é uma terceira influência importante da atual
Chakravorty Spivak. O confinamento da crítica pós-colonial em crítica pós-colonial.
uns poucos departamentos de humanidades, que alguns lamen- Uma quarta fonte de inspiraçao do pós-colonialismo foram os
tam (Grovogui, 20ro, p. 239), não impede que o pós-colonialismo intelectuais que protagonizaram as lutas anticoloniais contra os
tenha conseguido se expandir a várias outras áreas, entre elas a impérios britânico e francês, entre eles, os franco-martinicanos
antropologia, a geografia ou as RI. Frantz Fanon (1968) - autor da célebre alegação anticolonial

I
Os condenados da terra- e Aimé Césaire, o runisiano Albert Memmi, O artigo "Can the Subaltern Speak" (Spivak, 1988) é conside-
o guinéu-bissauense Amilcar Cabral e o indiano Mahatma Gandhi. rado um manifesto crítico do movimento. Em que medida, inter-
Todos eles foram ativistas e intelectuais que denunciaram as roga Spivak, os intelectuais ocidentais, ou inclusive ela mesma, têm
múltiplas formas de violência da opressão colonial e seu impacto
legitimidade para dar voz ao menos privilegiados?
nas culturas, identidades e formas de resistência dos colonizados. Essa pergunta define as principais preocupações da perspectiva
Muitos também participaram ativamente nos esforços de articula- pós-colonial. A importância da presença e influência feminista
ção política do Terceiro Mundo, iniciados junto ao próprio processo nessa corrente é patente na recorrente inclusão do gênero (junto
de descolonização e materializados no Movimento dos Países Não com a raça e a classe social) entre os marcadores de subalternidade
Alinhados, no Grupo dos 77 ou oas reivindicações sobre uma nova contra os quais o pós-colonialismo luta.
ordem econômica internacional.
Ao mesmo tempo, o tipo de feminismo praticado pelas femi-
Mas a influência individual mais significativa no pensamento nistas associadas à crítica pós-colonial se rebela contra o papel
pós-colonial é com toda certeza a do acadêmico e crítico literário hegemônico que as feministas ocidentais exercem no movimento e
palestino Edward Said (1935-2003), considerado membro principal se mostra cético quanto à pertinência de um movimento universal.
da "santíssima trindade" do pós-colonialismo, formada por ele e A crítica pós-colonial tem relação bastante problemática com
os autores indianos Gayatri Spivak e Homi Bhabha (Young, 1995, o marxismo. Se, por um lado, reconhece o importantíssimo papel
p. 63).
dessa corrente filosófica tanto na luta anticolonial como na reflexão
A obra Orientalism (1978), baseada na maneira foucaultiana de sobre o colonialismo e na resistência contra ele, por outro, uma
entender a relação entre conhecimento e poder, é, sem dúvida, o parte relativamente importante dos autores pós-coloniais se sente
texto fundacional do movimento. Nela, Said historiou muito con- pouco identificada com a política e a análise marxistas.
vincentemente as maneiras p~las quais a academia ocidental (espe- De fato, alguns atribuem a popularidade da obra de Edward
cialmente a academia presente nas capitais dos impérios britânico Said nos Estados Unidos a seu claro posicionamento antimarxista
e francês) construiu, ao longo de séculos, uma representação do (Schwarz; Ray, 2000, p. 12). Os autores pós-colonialistas que incor-
Oriente estereotipada, simplificadora e conivente com os interes- poram a herança marxista o fazem flexibilizando-a e adaptando-a
ses políticos das potências imperiais ocidentais. Orientalism serviu 143
às condições locais, sobretudo desenvolvendo a partir dela uma
como modelo a inúmeras outras obras que analisaram os discursos análise cultural ausente ou pouco difundida no marxismo ortodoxo.
coloniais ou neocoloniais.
Segundo Young (2001, p. 7): "A crítica pós-colonial se distingue
Também é importante consignar a presença, dentro do movi- do marxismo europeu ortodoxo combinando sua crítica às condi-
mento pós-colonial, de autoras também identificadas com o movi- ções materiais objetivas com uma análise detalhada de seus efeitos
mento feminista. O caso mais relevante é o da já mencionada subjetivos". Há, porém, exemplos de frutífera interaçáo acadêmica
acadêmica indiana radicada nos Estados Unidos, Gayatri Spivak, entre críticos pós-coloniais e estudiosos da teoria da dependência
tradutora de Derrida e divulgadora nos Estados Unidos da obra ou da análise do sistema-mundo (Quijano; Wallerstein, 1992).
do Grupo de Estudos Subalternos. Cabe mencionarmos, por fim, a existência de uma variante
da crítica pós-colonial referida, especificamente, à experiência da

I
América Larina: a chamada crítica deco!onia!. O principal autor como no nível de acontecimentos globais mais gerais considerados
decolonial é o acadêmico argentino radicado nos Estados Unidos, consequências do império" (Quayson, 2000, p. 93-94). Entre os
Walter Mignolo.
temas discutidos, estão "escravidão, migração, supressão, resistên-
A obra La idea de América Latina: !a herida colonial y !a opción cia, diferença, raça, gênero, lugar e as respostas aos discursos da
decofonia! (Mignolo, 2007) contém o argumento mais desenvolvido Europa imperial na história, filosofia, antropologia e linguística"
da proposta. Os autores decoloniais justificam a adoção de uma {Quayson, zooo, p. 94).
perspectiva própria, diferenciada da pós-colonial, alegando que a A pluralidade metodológica da crítica pós-colonial é comparável
experiência de colonização e descolonizaçáo da América Latina foi à das produções pós-estruturalistas ou feministas. O vocabulário
muito diferente do que ocorreu com África ou com Ásia. conceitual e as ferramentas metodológicas provêm de uma ampla
144 De fato, a colonização e descolonização de América Latina pelos gama de disciplinas e agendas teóricas, incluindo antropologia,
espanhóis e portugueses foi muito anterior aos imperialismos bri- teoria feminista, história, geografia humana, marxismo, filosofia,
tânico e francês, que alcançaram auge no século XIX. Além disso, pós-estruturalismo, psicanálise e sociologia {Young, 2001, p. 67).
a relação posterior à descolonização dos países latino-americanos Apesar dessa heterogeneidade e pluralidade teórico-metodológica,
com Estados Unidos também é muito específica da região. a crítica pós-colonial tem desenvolvido uma série de recursos
A proposta de Mignolo consiste, ao mesmo tempo, em se afastar conceituais e de focos de interesse comum à maioria dos autores.
em ir além do pós-colonialismo (Mignolo, 2000, p. 452), dado o A seguir, são apresentados alguns deles:
problemático que resulta a tentativa de aplicá-lo à América Larina,
• Cultura e representa~ão cultural: A crítica pós-colonial ques-
colonizada e "inventada" pelos europeus muito antes da "invenção
tiona e desafia as representações culturais do colonialismo,
do Oriente" (Mignolo, 2011, p. 5).
das instituições que herdaram a autoridade colonial e, em
Contudo, c dado que a crítica pós-colonial é tão heterogênea
geral, de rodo saber que tente estabelecer ou manter hierar-
e abrangente, é difícil perceber características realmente diferen-
quias de dominação que, invariavelmente, colocam a cultura
ciadoras entre o pós-colonial e o decolonial para além do foco
branca e europeia em um nível superior.
regional deste último.
Particularmente, o pós-colonialismo "questiona a validez das 145
ideias e lugares comuns que figuram em posições de autori-
dade no discurso acadêmico e público como 'conhecimento
6.3 A crítica pós-colonial- focos de interesse de expertos' sobre a antiga expansão colonial" (Grovogui,
2010, p. 242-243).
A crítica pós colonial é muito eclética e variada, o que torna difícil
Como bem mostrou Said (1978) quando se referiu aos his-
tanto sua definição quanto a identificação de seus temas princi-
toriadores, etnógrafos e literatos que construíram a falsa e
pais. Segundo a definição operacional de Quayson, ela consiste
estereotipada imagem do Oriente, boa parte dessas repre-
no "estudo engajado da experiência colonial c de seus efeitos pas-
sentações culturais carece de rigor científico. Porém, ainda
sado.< e presentes, tanto no nível local das ex-sociedades coloniais

I
atualmente elas são parte importante das hierarquias de A própria colonização contribuiu consideravelmente para a
dominação.
criação de identidades cultural e racialmente híbridas. Em
Assim, por exemplo, o pressuposto eurocêntrico, frequente- boa medida, o hibridismo representa o fracasso do poder
mente internalizado, de que a cultura europeia é inerente- colonial para se impor totalmente. Ao mesmo tempo, ele
mente superior, faz parte de um neocolonialismo cultural pode ser usado como instrumento de resistência e subversão
muito resistente. A análise crítica das representações cul- contra a opressão colonial ou neocolonial.
turais (mostrando como elas foram construídas, em quais • Valorização do pessoal e subjetivo: Essa é uma característica
contextos e em função de quais interesses) é uma das impor- da crítica pós-colonial compartilhada com a teoria feminista.
tantes tarefas da crítica pós-colonial.
A pesquisa pós-colonial presta muita atenção aos aspectos
• Valorização e atenção à experiência política e cultural da pessoais e subjetivos, especialmente, às experiências pessoais
periferia marginalizada: A crítica pós-colonial visa não só das vítimas do colonialismo e neocolonialismo.
acabar de descolonizar as amigas colônias, mas também Na crítica pós-colonial, os limites entre pessoal e político
incidir sobre o próprio Ocidente. Desenvolvendo tradições ou entre público e privado são difusos. Partindo da ideia de
intelectuais e culturais desenvolvidas fora do Ocidente, seria Foucault de que o poder opera através de microprocessos,
possível contrabalançar os efeitos da hegemonia política e as práticas cotidianas podem receber tanta ou mais atenção
cultural ocidental.
que fenômenos macro, como guerras ou outros eventos em
É recorrente, na produção pós-colonial, a ideia de que é grande escala.
necessário "provincializar a Europa" (Chakrabarty, 2007) • Resistência: A crítica pós-colonial tem um forte compro-
para acabar com a ideia de que o ponto de vista do homem misso com o marginalizado e objetivos emancipatórios cla-
branco deve ser sempre a norma.
ros: dar voz e visibilidade para esses grupos marginalizados.
• Identidades fluidas, construídas, híbridas: A crítica pós- Entretanto, o objetivo emancipatório último não é tomar o
-colonial enfatiza que a construção de hierarquias globais de poder, mas mudar as mentes e ajudar a acabar com a herança
dominação é feita a partir da construção social de diferenças ideológica do colonialismo, tanto nos países colonizados 147
raciais, bem como de gênero e de classe. O poder opera na como nas antigas potências colonizadoras.
interseção entre essas três categorias.
Os autores pós-coloniais veem com simpatia movimen-
O poder colonial, em particular, reconfigurou profunda- tos sociais autóctones de grupos fragilizados e explorados.
mente as identidades e subjetividades, estabelecendo opo- O Movimento Zapatista, no México, e o Movimento dos
sições essencializadas e binárias entre colonizado/coloniza- Trabalhadores Rurais Sem Terra, no Brasil, são frequente-
dor, negro/branco etc. A crítica pós-colonial questiona essas mente citados como materializações da proposta de resis-
identidades essencializadas e celebra as identidades híbridas. tência pós-colonial.

I
6.4 O pós-colonialismo na disciplina das política de poder e na segurança naturaliza hierarquias de
Relações Internacionais raça, gênero e classe e reproduz o status quo.
Por sua vez, os discursos liberais e neoliberais instiruciona-
Embora a crítica pós-colonial seja muito mais praticada nos depar- listas costumam aparecer como "racionalizações de hege-
tamentos de Estudos Literários e Culturais do que nos de RI, essa monia disfarçadas de humanismo universal" (Grovogui,
corrente teórica foi paulatinamente abrindo caminho nessa disci- 2010, p. 244). Além de eurocêntricos, os enfoques liberais
plina, fato que, no entanto, não causa nenhuma surpresa. contribuem para o aprofundamento das hierarquias entre
Isso porque, sem dúvidas, o foco da crítica pós-colonial (as hie- Ocidente e o resto do mundo, quando definem o Ocidente
rarquias criadas ou aprofundadas pelo imperialismo, pelo colonia- em termos éticos e progressistas (Barkawi; Laffey, 2006,
lismo e pelo neocolonialismo, ou o colonialismo como mecanismo P· 340).
organizador crucial do sis tema de Estados contemporâneos) é um Também o construtivismo tem sido criticado pelo caráter
assumo de grande interesse e relevância no estudo das RI, embora eurocêntrico, dentre outras razões, por ter prestado mais
tenha sido bastante negligenciado pelo mainstream da disciplina atenção à descolonização e ao ativismo transnacional contra
(Chowdhry; Nair, 2002). as potências coloniais ou neocoloniais do que ao colonia-
Epstein (2014) explica o que significa teorizar a política inter- lismo, racionalizando e legitimando, assim, a mission civili-
nacional partindo de uma perspectiva pós-colonial. Não se trata,· satrice imperialista (Epstein, 2014).
segundo a autora, de um corpo de pensamento unificado, nem Zarakol (2014) critica, especificamente, os modelos constru-
de um novo "ismo", mas sim de uma perspectiva situada que dá tivistas de difusão de normas, os quais ignoram as maneiras
ênfase a experiências específi"cas subjetivas c concretas. por meio das quais as normas foram impostas aos povos
Da mesma maneira que acontece com a produção pós- colonizados pelos colonizadores (a sociedade internacio-
-colonialista como um todo, as obras dirigidas à comunidade aca- nal moderna foi construída a partir de uma dinâmica de
dêmica das RI são bastante heterogêneas, mas com alguns focos estigmatização) e descrevem erroneamente, segundo a autora,
comuns. Estão apresentadas algumas dessas especificidades a seguir: os mecanismos de cumprimento e de rejeição de normas por 149
o Contestação às teorias tradicionais das RI: As teorias das parte das sociedades colonizadas.
RI são um dos objetos da crítica pós-colonial na disciplina. o Interpretação de práticas e discursos das RI: A leme da
Tanto o realismo como o liberalismo e o institucionalismo crítica pós-colonial é cada vez mais usada para interpretar,
são denunciados pelo seu discurso eurocêntrico e por sua criticamente e a partir dos interesses emancipatórios dos
cumplicidade com a hegemonia do Ocidente sobre o resto autores pós-colonialistas, todo o leque de práticas e discur-
do mundo.
sos presentes nas RI.
O realismo é eurocêntrico porque só presta atenção às Na obra coletiva editada por Chowdhry e Nair (2002), um
grandes potências como agentes e protagonistas da história dos focos reside nas diferentes maneiras pelas quais o dis-
(Barkawi; Laffey, 2006, p. 340). Além disso, seu foco na curso ocidental (em direitos humanos, questões de gênero,

I
segurança, comércio, capitalismo global e imigração) tem pela economia política internacional, mas tem sido cada
sido construído e representado, bem como no significado vez mais abordado pela literatura (feminista) pós-colonial.
dessas construções para a política internacional. (Agathangelou, 2004; Pettman, 2010; Sullivan, 2010).
Aplicando a interpretação pós-colonial ao discurso liberal O trabalho infantil, por sua vez, que costuma ser trabalhado
sobre direitos humanos, por exemplo, é possível questionar a partir da ótica dos direitos humanos (culpando os países
seus silêncios e omissões (começando pela própria cumpli- nos quais ele acontece), é abordado, desde a perspectiva
cidade ocidental quanto à negligência aos direitos humanos) pós-colonial, como um aspecto a mais do capitalismo glo-
e, sobretudo, "repensar as relações entre classe, raça e gênero, bal contemporâneo, que privilegia sobretudo o Ocidente
situar o poder e a representação cultural e mostrar como os (Chowdhry; Nair, 2002).
abusos aos direitos humanos estão relacionados por condi- Na obra Savage Economics, Naeem Inayatullah e David
ções tanto atuais como históricas" (Nair, 2002, p. 26o), o que Blaney (2oro) fazem uma interpretação cultural (pós-
tampouco supõe cair no relativismo cultural (Nair, 2002).
-colonial) dos clássicos da economia política, desde Adam
O terrorismo é outra prática que, como argumentam os auto- Smith até Karl Marx, argumentando que a economia polí-
res pós-coloniais, seria mais bem compreendida por meio tica é um efeito do desejo ocidental de se diferenciar dos
da lente da crítica pós-colonial. Barkawi e Laffey (2006) bárbaros e selvagens.
criticam o caráter eurocêntrico dos estudos de segurança
Além de reivindicar os valores e modos de vida das culturas
contemporâneos, que costumam representar erroneamente
supostamente selvagens, os autores insistem que a própria
tanto o papel do Sul Global como o do Ocidente, nas rela-
noção de pobreza é um conceito construído pelo próprio
ções de segurança e ignoram a mútua constituição de ambos
capitalismo. Os mesmos autores, em uma obra anterior
os lados do mundo ao longo da história.
(Inayatullah; Blaney, 2004) problematizam o conceito de
De acordo com esses autores, a compreensão equivocada e concorrência, essencial para o desenvolvimento da econo-
eurocêntrica dificulta, inclusive, o entendimento de fatos e mia política internacional (e da economia em geral), como
fenômenos (dentre eles, o terrorismo) e as análises empíricas. prática cultural falsamente apresentada como fato social. 151
Além disso, a perspectiva dos estudos de segurança está sis-
tematicamente colocada do lado dos governantes, dos impe-
rialistas e dos poderosos, manifestando pouca compreensão Síntese
sobre a situação dos colonizados ou pós-colonizados e a
legitimidade de sua resistência. Com grande afinidade e um tronco em comum com o pós-
-estruturalismo, o pós-colonialismo se distingue pelo compromisso
• Economia política internacional: A crítica pós-colonial aborda
com os grupos desfavorecidos, especialmente com as vítimas do
a economia globalizada nas suas interseções com o gênero
colonialismo, neocolonialismo ou de qualquer situação semelhante.
e a raça. O papel das trabalhadoras domésticas e sexuais
Trata-se de uma temática totalmente compatível com a agenda
migrantes é um tema tradicionalmente pouco reconhecido das RI, mas que é negligenciada pelo mainstream acadêmico

I
estadunidense. Não é de surpreender que grande parte da produ- 3. O pós-colonialismo é uma "perspectiva situadà', que prio-
ção pós-colonial seja de autores da periferia (com uma porcentagem rizao escudo de experiências subjetivas concretas.
destacável de autores provenientes da Índia) que atuam no centro a, Verdadeiro
da disciplina (especialmente, em universidades dos Estados Unidos).
b. Falso
No Brasil e na América Latina em geral, a crítica pós-colonial
(incluída a versão decolonial) tem potencial para complementar a 4. A problemática das vítimas do colonialismo não é abordada
rica tradição de pensamento social latino-americano que reflete pela crítica pós-colonial.
sobre a dependência e a relação tradicionalmente desigual, produto a. Verdadeiro
da herança colonial, dessa região com os centros de poder global b. Falso
152 (Bernal-Meza, 2005). Por enquanto, porém, a presença dessa pers-
pectiva nas ementas dos cursos de RI é muito pequena. 5. O caráter eurocêntrico das teorias tradicionais das RI é
enfatizado pela crítica pós-colonial.
Para saber mais a. Verdadeiro
A coletânea editada por Chowdhry e Nair (2002) é bastante representa- b. Falso
tiva da produção pós-colonialista em RI:

CHOWDHRY, G.: NAIR, S. (Ed.). Power, Postcolonialism and


lnternational Relations: Reading Race, Gender and Class. London:
Questóes para reflexão
Rourledge, 2002.
I. Nos Estados Unidos, problemas como desigualdade, falta
Para uma interpretação da economia política internacional em chave de desenvolvimento e pobreza costumam ser negligenciados
pós-colonial, recomendamos a leitura da obra de lnayatullah e Blaney nos cursos de relações internacionais. E no Brasil, como você
(2010): enxerga essa situação? Em quais disciplinas esses assuntos
são tratados? Você considera que a abordagem pós-colonial
INAYATULLAH, N.; BLANEY, O. SavageEconomics: Wealrh, Poverry,
é útil e/ou necessária no contexto brasileiro?
and rhe Temporal Walls of Capitalism. London: Rourledge, 2om. 153
2. Em sua opinião, a abordagem pós-colonial tem maior po-
tencial que a pós-estruturalista para dialogar com as ciências
sociais? Por quê?
Questóes para revisão
3. Em que medida o (modesto) sucesso que a crítica pós-
I. Descreva as principais semelhanças e diferenças entre pós- -colonial atingiu entre os estudiosos autóctones das RI po-
-estruturalismo e pós-colonialismo. deria ser considerado mais um indicador da colonização
culrural de América Latina (especificamente do Brasil)?
2. Quais são os focos de interesse da crítica pós-colonial?

I
Enfoques
de gênero

Conteúdos do capítulo:
• Diferentes fenômenos das relações internacionais analisados
sob a perspectiva do gênero.
• lncorporaçáo da perspectiva de gênero à disciplina das
Relações Internacionais.
• Diferentes variantes da teoria política feminista.
• A pesquisa de gênero nas Relações Internacionais: abordagens
pós-positivistas e positivistas.

Após o estudo deste capítulo, você será capaz de:


r. entender que a leme de gênero pode ser aplicada provei-
tosamente à análise de qualquer fenômeno das relações
internacionais;
2. situar os enfoques de gênero no panorama geral das teorias
das relações internacionais;
3· identificar as variantes da teoria política feminista;
4- relacionar a produçáo de gênero da disciplina com as prin-
cipais perspectivas teóricas das Relações Internacionais.

I
7.7 Introdução
ela que continua sendo, em rodo o planeta - embora em graus
e maneiras diferentes -, o principal objeto de discriminação por
As diferentes perspectivas que tratam do gênero nas relações inter- motivos de gênero.
nacionais (RI) não constituem, per se, uma teoria das RI, mas sim Para abordar os diferentes enfoques de gênero, este capítulo
um conjunto de enfoques diversos que têm um objeto de estudo inclui outras quatro seções. A seguir, argumenta-se que os diferentes
em comum (as relações de gênero e suas dinâmicas de funciona- fenômenos que constituem a agenda das RI se tornam mais inte-
mento) bem como, quase sempre, um objetivo político-normativo ressantes e complexos quando a lente de gênero é aplicada à análise.
comum: o de avançar para a emancipação da mulher, libertando-a Em seguida, trata-se da (tardia) incorporação da perspectiva de
da opressão patriarcal.
gênero à disciplina de RI.
I 58
Esse é, precisamente, o objetivo do movimento feminista e Na sequência, aborda-se as diferentes variantes da teoria política
também o da teoria política feminista: propor um conjunto de feminista. Por fim, considera-se a produção que trata do gênero a
ferramentas teórico-conceituais que embase e justifique o movi- partir do instrumental teórico da própria disciplina, distinguindo
mento. A estreita conexão entre os objetivos práticos do movimento entre abordagens pós-positivistas e positivistas.
feminista e a teoria política feminista explica o faro de que, muito
frequentemente, os diferentes enfoques que abordam o gênero -
tanto nas RI como em outras áreas -sejam reunidos sob o rótulo
de feminismos. 1.2 O gênero na agenda das Relações
Entretanto, essa não é a escolha adotada neste manual. Apesar Internacionais
da semelhança de objetivos, parece importante distinguir entre a
análise das desigualdades de gênero (e sua interação com as diferen- Para muitos, não é nada evidente a conexão entre os estudos de
tes dinâmicas das RI) e as metas políticas do movimento feminista. gênero e a disciplina das RI. De fato, o interesse pelos assuntos
Embora elas geralmente coincidam, não é sempre o caso. Além de gênero se manifestou mais tarde se em comparação a outras
de ser um conceito politicamente menos marcado que o de femi- ciências sociais, como antropologia, sociologia ou ciência política.
nisino, gênero também abrange mais aspectos; inclui, também, a Todavia, como será indicado a seguir, por meio de exemplos, ,
59
análise dos papéis de gênero assumidos pelos homens (análise das a análise de praticamente todos os fenômenos estudados pelas RI
masculinidades), assim como de questões que afetam grupos que se torna mais rica e interessante se eles são abordados através da
pouco se enquadram na divisão convencional entre os gêneros - lente de gênero.
questões cada vez mais presentes nas agendas acadêmicas.
É por essa razão que, nos últimos anos, surgiu a tendência de Segurança internacional
transformar os departamentos e programas de Estudos Feministas/ Não se pode negar que a segurança (guerra, paz, conflitos, pós-
de mulheres em departamentos ou programas de Estudos de Gênero. -conflitos) é uma das áreas centrais das RI. A própria disciplina
Isso não impede que o foco continue colocado na mulher, pois é se organizou como tal a partir da preocupação normativa com a
guerra, e seu desenvolvimento posterior, atrelado à Guerra Fria,

IL
manteve o foco na segurança. Atualmente, a guerra, o terrorismo As mulheres são também as principais vítimas da violência
e a guerra ao terror estão no centro das preocupações de estadistas sexual em conflitos armados, no que se revela uma estratégia de
e analistas.
guerra utilizada sistematicamente em muitos dos conflitos pós-
Em que contribui a aplicação de uma perspectiva de gênero à -Guerra Fria (Gerecke, 2010). Em contrapartida, nas negociações
análise da segurança internacional? De fato, mais do que pode- de paz e nos processos de reconstrução pós-conflito, elas costu-
ria parecer em um primeiro momento. Para começar, homens e mam assumir papéis secundários (Puechguirbal, 2010). Além de
mulheres desempenham papéis diferentes nos conflitos armados, afetar negativamente esses processos de reconstrução, a exclusão
nas negociações de paz e nas fases de reconstrução pós-conflito das mulheres é obviamente discriminatória.
(Sjobcrg; Via, 2010).
A partir das reivindicações feministas, o Conselho de Segurança
r6o A análise dessas diferenças e das complexidades que as envol- da Organização das Nações Unidas (ONU) aprovou, no ano 2000,
vem (nem sempre esses papéis diferentes coincidem em diferentes a Resolução n. 1.325 1, de 31 de outubro de 2000, a primeira do
regiões e conflitos), bem como de suas causas e consequências, não conjunto de resoluções relacionadas à agenda de Mulheres, Paz e
só enriquece a análise, mas também revela as recomendações sobre Segurança. As resoluções estabelecem medidas contra a discrimina-
como Estados, agências internacionais e outros atores deveriam ção e violência que sofrem as mulheres em situação de conflito, rei-
ajustar suas políticas.
vindicando, ao mesmo tempo, uma maior participação da mulher
A guerra em si mesma representa uma instituição fortemente nos processos de paz e a reconstrução pós-conflito.
masculinizada e que interage com o patriarcado (a dominação
masculina sobre a mulher), de maneira que as duas instituições se Economia política internacional
reforçam mutuamente (Goldstein, 2001). Isso é visível em todas as
fases relacionadas à etapa de preparação para uma guerra. A economia política internacional, que estuda as relações entre
Os exércitos e o serviço militar obrigatório são territórios majo- Estados e mercados/dinheiro e poder, é uma subárea cada vez
ritariamente masculinos. O treinamento dos militares é misógino: mais forte nas RI. Inicialmente ignorada pelo mainstream realista
o processo para se tornar um soldado inclui a repressão a qualquer norte-americano concentrado na problemática da segurança, veio,
atitude branda ou afetiva rotulada como feminina, para que o desde a década de 1970, consolidando-se como um sólido campo 161

postulante consiga se comportar de acordo com o estereótipo do acadêmico.


homem (o típico "macho"). Quem não se adéqua é punido e repri- A divisão sexual do trabalho, que se cruza com a divisão inter-
mido, inclusive pelos pares. nacional do trabalho, é uma dimensão crucial para entender as
Já na guerra, homens e mulheres costumam assumir papéis dinâmicas da economia internacional globalizada e para atuar
diferentes (Cockburn, 2010). Os combatentes são majoritariamente sobre elas. Graças ao trabalho das autoras feministas, o conjunto
homens) e as vítimas cíveis (as ''novas guerras" respeitam muito de processos e atividades que fazem parte da economia reprodutiva
pouco as diferenças entre combatentes e não combatentes) são (conceito que complementao de economia produtiva) é reconhecido
predominantemente mulheres.
1 A Resoluçáo n. 1.325 do Conselho de Segurança das Nações Unidas pode ser acessada no segui me
/ink: <http:!/www.igualdade.gov.pt/images/storics/Area_lmernacionaiiONU/resolucao%201J25%lO
ponugues.pdf>. Acesso em: 19 nov. 1or6.
e levado em conta nas análises econômicas e, cada vez mais, nas
contribuem para equilibrar as balanças comerciais nacionais do
políticas públicas nacionais (Peterson, 2003).
país que envia as imigrantes.
Atividades que fazem parte da chamada economia informal Países como Filipinas são altamente dependentes desses envios
(como o cuidado de pessoas ou a agricultura de subsistência), fre- de dinheiro. Mais uma vez, essa emigração feminina reforça as
quentemente pouco ou não remuneradas, são desempenhadas prin- estruturas patriarcais: nos países mais desenvolvidos nos quais essas
cipalmente por mulheres, dentro e fora do lar (Elias; Fetguson, mulheres desempenham suas funções, elas substituem o trabalho
20IO).
de mulheres que provavelmente entrarão na economia formal des-
O lar também é uma unidade econômica, e as atividades eco- sas nações, além de contribuírem para que os homens desses lares
nômicas da mulher (desde o cuidado com a família até a comple-
continuem pouco envolvidos nas tarefas domésticas, mantendo as
162 mentação da renda familiar, por meio de atividades de diversas
relações de dominação patriarcais.
naturezas) servem como complemento ao salário formal do homem
da família, muitas vezes insuficiente para o sustento da unidade
Política externa
familiar - mas, ainda assim, muito mais valorizado socialmente
que o trabalho não remunerado da mulher. A subárea da política externa, que analisa as RI dos governos nacio-
Muito provavelmente, o trabalho desse homem estará inserido nais, constituiu-se, desde a década de 1950, como um campo relati-
em uma cadeia de produção transnacional cujo extremo é uma vamente autônomo, embora em contínua interação com a grande
I empresa multinacional do Norte. Sem o trabalho não reconhecido área das RI. Ela se ocupa de objetivos, processos decisórios e ações
~' nem valorizado da mulher, o lucro da empresa não seria o mesmo. efetivamente realizadas por esses governos.
I A análise sob a lente de gênero ajuda a compreender melhor e
Esse exemplo mostra como o patriarcado reforça e é reforçado pelo
atual modelo capitalista de organização econômica. Com poucas a fazer recomendações políticas mais bem fundamentadas. A pes-
exceções (Smith; Wallerstein; Evers, 1984), a conexão entre a divisão quisa empírica vem comprovando que algumas ações de política
do trabalho no lar e a economia mundial não tem sido explorada externa têm efeitos diferentes em homens e mulheres. É o caso
pela economia não feminista. das sanções econômicas, que muitas vezes acabam afetando muito
Também as migrações internacionais estão fortemente marcadas mais as populações do que a estabilidade dos governos. Devido ao 163
pelos padrões de gênero, com consequências importantes para a eco- fato de que a mulher é uma categoria já fragilizada pelas estruturas
nomia política internacional. Um exemplo são os fluxos de mulheres do patriarcado, os efeitos das sanções econômicas internacionais
de países em desenvolvimento que vão trabalhar como domésticas na saúde, na alimentação e na educação das mulheres são muito
(o trabalho tipicamente reservado à mulher) em países desenvolvidos mais nocivos que na população masculina (Drury; Peksen, 2014).
ou com maior grau de desenvolvimento (Pettman, zoro). As políticas de cooperação para o desenvolvimento também
Do ponto de vista da economia política internacional, é inte- têm efeitos diferenciados em homens e mulheres (Momsen, 2004).
ressante observar como os montantes que essas emigrantes (fra- A constatação desse fato pela pesquisa feminista (Boserup, 1970),
gilizadas, superexploradas) enviam a suas famílias a partir de sua contribuiu para mudanças importantes na maneira de elaborar
participação na economia informal reprodutiva do país receptor políticas tanto nas agências nacionais como nas internacionais.
~

Atualmente, a perspectiva de gênero (gender mainstreaming) é apli-


Além de certa "inércia institucional" (que tornava as revistas e
cada regularmente pelas agências internacionais de desenvolvi-
universidades da área pouco receptivas a novos remas) e da pouca
mento (como o Banco Mundial ou o Programa das Nações Unidas permeabilidade da disciplina a conceitos desenvolvidos em outras
para o Desenvolvimento- PNUD), bem como por muitas agências
ciências sociais, Halliday (!988) argumentou que a maneira conven-
nacionais.
cional pela qual o objeto de estudo das RI foi definido, priorizando
A própria definição de uma política externa tem influências de a high politics (assuntos de diplomacia e segurança militar) e os
gênero. Sociedades onde as relações de gênero são mais igualitárias fenômenos macro, em geral, contribuiu para que se negligenciasse
desenvolvem políticas externas mais respeitosas com as normas
a low politics (assuntos considerados de menor relevância na agenda
globais e com os direitos humanos (Brysk; Mehra, 2014). Também
de política externa) e os fenômenos micro nos quais as relações de
164 parece haver uma relação causal entre a participação de mulheres
gênero ocorrem.
nas estruturas de decisão responsáveis pela política externa e os
Segundo essa concepção, as RI sequer seriam afetadas pelas
resultados dessa política (Bashevkin, 2014).
li diferenças de gênero. Em parte, conforme Halliday (!988) assinalou,
Esses são só alguns exemplos entre muitos. Eles apontam a
I necessidade e relevância de considerar a dimensão de gênero na
os estudos feministas compartilhavam essa responsabilidade com
l
j
análise de diferentes fenômenos (efeitos das políticas de ajuste
sua tradicional desatenção aos fenômenos globais.
Mas a situação estava começando a mudar. Segundo Murphy
I estrutural ditadas pelas instituições internacionais, negociações (1996), o fato que definitivamente marcou a entrada dos estudos
de paz, entre outros). Progressivamente, esse entendimento está se
de gênero nas relações internacionais 2 foi a publicação, em 1988,
consolidando nas RI.
I de um número extraordinário da revista Millennium intitulado
r Women in International Relations, que contou com artigos de vários
i, autores, entre eles, Fred Halliday.
1:
7.3 A incorporação da perspectiva de gênero Aproximadamente na mesma época, as obras de Jean Berhke
li na disciplina das Relações Internacionais Elshtain (1987), Cynrhia Enloe (!989), e, pouco depois, de]. Ann
Tickner (1992) e de Christine Sylvester (!994) ampliaram a literatura
165
A disciplina das RI levou mais tempo que outras para abordar as que conectava gênero e RI.
questões de gênero, embora, à luz dos exemplos apresentados no Paralelamente, as associações de estudos internacionais (a esta-
irem anterior, essa informação possa parecer surpreendente. dunidense International Studies Association e a britânica British
Fred Halliday (1988), um dos primeiros autores reconhecidos por Internacional Studies Association) criaram seções específicas
reivindicar a consideração da dimensão de gênero, enumerou uma sobre gênero. Logo, as temáticas referentes ao assunto começa-
série de razões pelas quais, no final da década de 1980, as mulheres ram a ser discutidas com regularidade nos congressos anuais dessas
estavam "ocultas" nas RI, enquanto em outras disciplinas (História, associações.
Sociologia, Ciência Política, Economia, Antropologia etc.) as ques-
2 De fato, a panir da década de 1970 alguns trabalhos coneccando a agenda de pesquisa feminista
tões de gênero eram tratadas com normalidade. e as RI tinham sido publicados. Mas era uma produção muito reduzida. Segundo Murphy (1998),
o primeiro artigo sobre gênero publicado em uma revista maimtream da área Uournal of Conjlict
Remfution) foi o de Berenice Carroll (1972) "Peacc Research: rhe Cult of Power".
Ao longo do último quarto de século, os estudos sobre gênero feminista com as teorias das RI. A teoria política feminista (com
nas RI têm avançado consideravelmente em relação a três parâme- roda sua complexidade e heterogeneidade) forneceu o marco
tros diferentes (Murphy, 1996): analítico-conceitual às auroras que introduziram as temáticas de
• fazer visível a participação das mulheres na política interna- gênero na disciplina.
cional (individualmente ou em grupos, em papéis formais- Na teoria política feminista da década de 1990, as humanidades
diplomatas e ativistas- ou não tradicionais- prostitutas ou tinham ganhado espaço em relação às ciências sociais, e os enfo-
esposas de agentes formais); ques pós-modernistas/pós-estruturalistas/pós-colonialistas tinham
• ajudar a reconhecer o gênero, isto é, os efeitos da desigual- se tornado dominantes em várias disciplinas. Disso resultou que os
dade de gênero nas instituições e práticas internacionais, enfoques de gênero ou feministas em RI fizeram, majoritariamente,
bem como os efeitos da desigualdade de gênero das próprias parte da onda de enfoques alternativos, mas marginais, conhecidos
políticas das instituições; como pós-positivistas ou reflexivistas.
• contribuir para reconfigurar as RI, possibilitando uma maior De maneira semelhante ao que acontece com o pós-modernismo/
interação com outras ciências sociais, o que resultaria na pós-estruturalismo nas RI, a rejeição às ciências sociais, bem como
importação de novas ideias e métodos. à linguagem e aos métodos que elas utilizam, dificulta o diálogo e
a integração com a academia em geral. A marginalização dos enfo-
Entretanto, apesar do incontestável avanço dos estudos de
gênero na disciplina - indicado pela presença do tema nos princi- ques de gênero, sobretudo da considerável quantidade de auroras
pais veículos, em manuais, cursos, associações profissionais etc. -,
enquadráveis como feministas pós-modernas, é, em medida signi-
a avaliação que fazem as próprias auroras (em geral as que tratam ficativa, uma auromarginalização.
desses assuntos são mulheres) sobre o lugar que o gênero ocupa na Contudo, a proporção de produçáo sobre temáticas de gênero
disciplina não costuma ser triunfalista. que se enquadram nos parâmetros das ciências sociais vem pro-

Na grande área das RI, a preocupação com o gênero continua gressivamente aumentando. Há notórios avanços nesse sentido,
em rodas as áreas das RI: polirica externa, segurança, economia
sendo marginal. Segundo algumas opiniões, a pesquisa feminista
teria cido n1ais sucesso com as instituições internacionais que dentro política internacional, entre outras.
167
da própria disciplina (True, 2008). O aumento do número de pesquisas rigorosas, replicáveis e
compartilháveis (características essenciais das ciências sociais e
É também notória a dificuldade para normalizar a inclusão de
da ciência em geral) sobre gênero e RI é uma realidade que talvez
temáticas de gênero nos programas e materiais didáticos de cur-
fique um pouco obscurecida nos relatos que, nos capítulos sobre
rículos gerais (não nas específicas sobre gênero) sobre segurança,
gênero/feminismo de muitos manuais ou handbooks de RI, adotam
política externa ou introdução às RI. As causas dessa marginali-
um tom pejorativo, ao se referirem à pesquisa positivista baseada
zação podem sem várias, e muito provavelmente algumas das já
mencionadas continuam sendo relevantes. em variáveis (Tickner, 2001; Steans, 2013).
De fato, a produção "anticientífica" tende a monopolizar a nar-
Porém, há uma causa que convém ser destacada: a dificuldade
rativa que mapeia a produção de gênero nas RI (diferentemente
de integrar o background teórico-metodológico da teoria política
do que acontece na ciência política). De todo modo, há aumento
da pesquisa relacionada ao gênero vinculada a enfoques teóricos
A partir de valores centrais liberais, como liberdade, digni-
não alternativos, o que, certamente, diz respeito a um indicador de
dade, igualdade, autonomia e individualidade, o feminismo liberal
progressiva integração dos estudos de gênero na disciplina como
um todo. denunciou a injustiça da discriminação contra a mulher e reivin-
dicou políticas que procuraram reverter essa situação e atingir a
igualdade de direitos com os homens nas distintas esferas da ati-
vidade humana. Algumas autoras contemporâneas do campo da
7.4 A teoria política ftminista filosofia política, como Susan Moller Okin ou Manha Nussbaum,
consideram a si mesmas liberais. Também a ativista Betty Friedan
Os enfoques de gênero chegaram às RI veiculados por uma série de costuma ser enquadrada nessa categoria.
enfoques teóricos relacionados à prática do movimento feminista, Nos capítulos sobre gênero/feminismo nos manuais de RI. o
os quais compõem a teoria política feminista (ou, simplesmente, rótulo de feminismo liberal é usado de maneira um pouco dife-
teoria feminista). Convém resenhá-los nesta obra, já que foram- rente, como uma etiqueta que designa toda a pesquisa sobre gênero
e continuam sendo - muito influentes na maneira pela qual os identificada nesses manuais como positivista.
estudos de gênero são concebidos dentro das Rl. Tickner e Sjoberg (2010, p. 199) 3, por exemplo, afirmam:
Há diversas maneiras possíveis de classificar e apresentar os
feminismo liberal chama a atenção sobre o posicionamento subordi-
enfoques da teoria política feminista (Jaggar; Rothenberg, 1993).
nado das mulheres na política global, mas permanece comprometido
Aqui, simplesmente, serão destacadas cinco categorias que costu-
' com a pesquisa das causas de esta subordinação dentro de um marco
'
1 mam ser mencionadas nas obras que apresentam a teoria política
feminista à luz das RI. positivista. O feminismo liberal desafia o conteúdo, mas não os
! supostos convencionais das Relações Internacionais convencionais.

I Feminismo liberal

Na teoria política feminista, o rótulo de feminismo liberal costuma


E mais adiante se afirma que "as feministas liberais também
usam o gênero como variável explicativa na análise da política
externa" (Tickner; Sjoberg, 2010, p. 199), mencionando pesquisas
ser usado para se referir à obra das precursoras (c alguns precur-
de Mary Caprioli e Mark Boyer (2001). 169
sores) do feminismo, como Olympe de Gouges (Déc!aration des
Todavia, equiparar liberalismo ao uso de métodos das ciências
droits de la .femme et de la citoyenne, de 1791), Mary Wollstonecraft
sociais não é correto. O liberalismo é um posicionamento político
(A vindication of the Rights of Women, de 1792) ou ]ames Stuarr
que embasa algumas correntes teóricas tanto na ciência política
Mill (lhe Subjection ofWomen, de 1869).
como nas RI, mas não designa um posicionamento epistemológico
Esse rótulo também é utilizado em relação às ideias que emba-
nem metodológico em particular.
saram a chamada primeira onda do movimento feminista, no final
Tampouco está claro que os autores mencionados (e outros que
do Século XIX e inícios do XX e os objetivos dessa corrente- basi-
usam o gênero com metodologias semelhantes) se identifiquem
camente, reivindicar direitos políticos a favor das mulheres, como
o voto feminino e mudanças nas legislações discriminatórias. 3 Neste capírulo, as dtaçiks de obras ou textos em língua estrangeira foram traduzidas pela aurora,
exceto quando houver indicaçâo em contdrio.
L

como liberais. Também é preciso destacarmos que, com uma preo-


é mais usual. Com antecedentes em Hegel, Marx, Engels ou Lukács,
cupante frequência, a pesquisa de gênero enquadrada nas ciências o feminismo de ponto de vista defende a ideia de que a prática
sociais é apresentada sistematicamente como inadequada e super- científica reflete o posicionamenw dominante dos homens na vida
ficial nos principais textos da disciplina, embora sem argumentos
social.
ou com argumentos muito superficiais.
O conhecimento derivado dela, pois, é "parcial e perverso"
Segundo Tickner e Sjoberg (2010, p. 199), por exemplo, "muitas (Harding, 1986, p. 24), em oposição ao conhecimento derivado
pós-positivistas- feministas em RI- têm um posicionamento crí- do ponto de vista das mulheres, cuja posição de subjugação lhes
tico sobre o feminismo liberal. Elas têm problemas com a medição confere uma perspectiva que permite desenvolver um ponto de vista
da desigualdade de gênero usando indicadores estatísticos". Porém, mais adequado, tanto moral como científico, para a interpretação
não explicam que problemas seriam esses.
e explicação da natureza e a vida social. Trata-se, assim, de um
conhecimento situado que se beneficia da particular experiência
Feminismo marxista/socialista
da mulher ou de grupos específicos de mulheres.
Em boa medida, as teorias feministas marxistas e socialistas foram
construídas como uma crítica à teoria feminista liberal. Segundo as Feminismo radical
primeiras, a opressão das mulheres não é o resultado da ignorância A teoria feminista radical tem uma história bem mais curta que as
ou das atuações intencionadas de indivíduos, senão um produto do feminismo liberal ou marxista/socialista. Seu surgimento, na
das estruturas políticas, sociais e econômicas do capitalismo e, em década de 1960, está vinculado aos movimentos em prol dos direi-
particular, do sistema de classes.
tos humanos nos Estados Unidos e à chamada segunda onda do
A desigualdade socioeconômica está estreitamente vinculada ftminismo, que defendeu o conhecido slogan "o pessoal é político".
à desigualdade sexual. A libertação da mulher, incluindo o com- O feminismo radical é responsável pela difusão do conceito de
partilhamento de responsabilidades com o homem nas instituições gênero como forma de distinguir entre as características biológicas
políticas e econômicas, não supõe apenas a remoção dos obstáculos que diferenciam homens e mulheres (sexo) e os papéis socialmente
legais, mas também uma luta mais abrangente contra o sistema de construídos e diferenciados de homens e mulheres (gênero). Para 171
opressão capitalista (Reed, 1970).
as feministas radicais, a opressão das mulheres não pode ser erra-
Enquanto as teorias marxistas dáo mais relevância ao sistema dicada reformando as leis, tampouco compartilhando responsabi-
capitalista de classes como fator de opressão, as socialistas insistem lidades (como preconizado pelo feminismo liberal) ou instituições
na combinação entre capitalismo e patriarcado (dominação dos políticas e econômicas (como preconizado pelas socialistas e mar-
homens sobre as mulheres) como fatores principais. xistas). Só pode ser erradicada a partir de uma construção radical
A influência dos feminismos marxista e socialista na produção da sexualidade.
sobre gênero em RI é bastante difusa e indireta. Todavia, a pers- A crítica radical considera que tanto o feminismo liberal como o
pectiva metodológica do "feminismo de ponto de vista" (standpoint marxista partem de um modelo de libertação da mulher fundamen-
ftminism), desenvolvida dentro do feminismo marxista/socialista, tado em valores masculinos e patriarcais, como o individualismo

J
concorrencial, no caso do liberalismo, ou a ênfase na economia As autoras vinculadas ao feminismo pós-moderno também rejei-
produtiva (negligenciando a reprodutiva), no caso do marxismo. tam a existência de algum tipo de experiência feminina ou de um
As feministas radicais, partidárias do chamado "feminismo da ponto de vista feminino a partir do qual seja possível construir uma
diferença", promovem uma contracultura feminista que valoriza teoria do mundo social e político. O próprio conceito de mulher é
papéis e valores femininos (MacKinnon, 1989). O feminismo radi- problemático (Alcoff, 1988), assim como a própria distinção entre
cal propõe também uma análise focada na mulher e, a nível prático, sexo e gênero (Buder, 1999, p. ro-n).
advoga por uma separação entre mulheres e homens- sobretudo, A compreensão das diferenças sexuais seria também socialmente
no âmbito das organizações políticas - para avançar no objetivo construída. Nesse sentido, o sexo seria um efeito do gênero, não
da liberação feminina.
sua base (Longino, 1990; Kinsella, 2003).
Frequentemente, também as autoras radicais adotam uma Como os enfoques pós-modernistas/pós-estruturalistas em geral,
metodologia de feminismo de ponto de vista. Germaine Greer, o feminismo pós-moderno tem interesse especial na maneira como
Shulamith Firestone, Eva Figes e Mary Daly são conhecidas auto- discursos e práticas dominantes na teoria e na prática das RI são
ras radicais.
construídos. Especificamente, a produção feminista pós-moderna
denuncia a maneira pela qual a ideologia patriarcal e a dominação
Feminismo pós-moderno
masculina permeiam os diferentes modos de representação.
A crescente importância dos enfoques pós-modernos na teoria polí-
tica feminista faz parte de um processo pelo qual ela se foi afas- Feminismo pós-colonial
tando das ciências sociais e se aproximando das ciências humanas Como mencionado no capítulo anterior, sobre pós-colonialismo,
(Barrett, 1992). Como faz o pós-modernismo em geral, o feminismo o gênero é um dos focos da crítica pós-colonial, que explora as
que adota uma perspectiva pós-moderna questiona a validez do interseções entre gênero, raça e classe. O feminismo pós-colonial
projeto iluminista.
(também conhecido como feminismo multicultural) parte da mesma
Isso, por sua vez, também leva ao questionamento de grande crítica que os autores pós-coloniais dirigem ao domínio continuado
parte dos valores e das crenças relacionadas às demais escolas da do mundo ocidental e às antigas potências coloniais sobre o resto , 73
~
teoria feminista. Tanto que os autores pós-modernos rejeitam a do mundo, prolongado para além do período colonial propria-
existência de uma verdadeira história da condição humana, pois mente dito.
não se identificam com os projetos emancipadores universais (como, Esse domínio se manifesta, dentre outras maneiras, pelos modos
por exemplo, a emancipação dos trabalhadores ou das mulheres). de representação dos grupos dominados pelos grupos dominan-
Da mesma forma, ao se opor a todas as categorizações (opres- tes. As mulheres são um desses grupos dominados. Porém, elas
soras por definição), o feminismo pós-moderno rejeita a ideia de devem ser reconhecidas e representadas náo só como mulheres,
que possa existir um ponto de vista feminino e criticam a visão mas também como pertencentes a uma determinada raça e classe
essencialista da mulher (enfoques liberais e radicais). social, com experiências e identidades diferentes em comparação
com outras mulheres.
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O principal alvo do feminismo pós-colonial é o feminismo das abordagens consideradas pós-positivistas ou reflexivistas no
ocidental, construído a partir de princípios pretensamente univer- tratamento dos assuntos de gênero na disciplina.
sais. Segundo os autores pós-coloniais, ele reflete, basicamente, as Nos últimos 15 anos, porém, a pesquisa positivista (isto é, a
experiências de um grupo muito reduzido de mulheres (ocidentais, que se enquadra dentro dos requisitos exigidos pela pesquisa em
brancas, educadas e de classe média) (Mohanty, 1988). ciências sociais) vem aumentando significativamente. É possível,
O objetivo da crítica feminista pós-colonial é reconhecer a hete- também, detectar um frutífero, embora incipiente, intercâmbio
rogeneidade das diferentes experiências que o discurso hegemônico de ideias entre ambos grupos de autores.
apresenta como comuns e universais e, sobretudo, dar voz às mino-
rias sem privilégios. O discurso do feminismo ocidental é um dos Abordagens pós-positivistas
considerados hegemônicos.
As obras pioneiras que introduziram o gênero na disciplina das RI
Porém, o escopo da crítica feminista pós-colonial é muito mais
(Elshtain, 1987; Enloe, 1989; Tickner, 1992) se situavam todas no
amplo. As interseçóes entre gênero/classe/raça permitem repensar
campo pós-positivista. Em maior ou menor medida, rodas elas
e redefinir conceitos básicos em diferentes disciplinas (economia
continham manifestaçóes contrárias à ciência social convencional
produtiva/reprodutiva ou hegemonia, entre outros) para compreen-
der a subordinação feminina. e utilizavam ferramentas conceituais relativamente alternativas.
Algumas utilizavam a análise do discurso embasada na crí-
tica pós-moderna/pós-estruturalista, especialmente, nas obras de
Derrida e Foucault, bem como por outras relacionadas aos enfo-
7.5 A pesquisa sobre gênero sob a ótica ques do chamado ftminismo de ponto de vista. Assim, por exem-
das teorias das relações internacionais plo, ao partir do método da desconstrução, Jean Bethke Elshtain
(1987), na obra Women and War, identificou a oposição "guerreiro
Como assinala True, a pesquisa e a teorização sobre gênero em RI justo" versus "alma formosa" em diferentes textos sobre guerra e
se caracterizam, principalmente, peJa clara orientação normativa paz, mostrando como os estereótipos masculinos e femininos são
e prática, no sentido de que há um interesse bem explícito em construídos e transmitidos. 175
''construir conscientemente teorias a partir da prática e guiar as Já na obra Feminist 1heory and International Relations in a
práticas políticas com enfoques normativos plurais" (True, 2008, Postmodern Era, Christine Sylvester (1994), por sua vez, defendeu
p. 408-409). um feminismo pós-moderno (em oposição ao pós-modernismo
Afora esse elemento comum, as abordagens teóricas dentro da feminista) como uma abordagem que, utilizando ferramentas con-
disciplina, com relação às questóes de gênero, são muito diversas ceituais do pós-modernismo/pôs-estruturalismo, mantém forte
e heterogêneas. Como mencionado, a influência dos enfoques pre- compromisso com os ideais políticos do movimento feminista.
dominantes na teoria política feminista se traduziu na prevalência A pesquisadora aplicou o feminismo pós-moderno na análise de
diferentes situaçóes, dentre elas, protestos de mulheres britânicas

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acampadas em Greenham Common, no início da década de 1980, de como os pomos de vista de homens e mulheres diferem. ]á no
contra os mísseis nucleares dos EUA. limite entre a pesquisa pós-positivista e a positivista, Elisabeth
Seguindo a mesma tendência, podemos destacar a obra coletiva Prügl (1999) utilizou um enfoque construtivista-linguístico para
Feminism/Postmodernism!Development, editada por Marianne H. mostrar a maneira pela qual as ideias sobre gênero são constituídas
Marchand e Jane L. Parpart (1995), em que um grupo de autores na política internacional por meio da análise do discurso do direito
explorou a relevância de "uma versão mais politizaria e acessível internacional na legislação do trabalho doméstico.
do pensamento feminista pós-moderno para os problemas que Entre as obras facadas no gênero que utilizam abordagens pós-
enfrentam a maior parte das mulheres do Sul e muitas do Norte, -coloniais, cabe citar Worlding Women, de Jan Jindy Pettman (1996),
especialmente mulheres de cor" (Marchand; Parpart, 1995, p. r). que explora uma ampla agenda relacionando mulheres a diferentes
Charlotte Hooper (2001), por sua vez, revelou o instrumental temáticas das RI. Nessa obra, a autora dedica um capítulo à refle-
pós-estruturalista da análise do discurso do periódico lhe Economist, xáo sobre mulheres, colonização e racismo.
mostrando a ideologia patriarcal subjacente aos textos e assuntos Uma obra mais recente de Anna Agathangelou e Lily Ling
trabalhados nesse periódico (Hooper, 2001). (2009), Transforming World Politics: from Empire to Multiple Worlds,
Outra pioneira da introdução do gênero nas RI, Cynthia EnJoe vincula a subordinação de gênero à de raça e cultura e reivindica
(1989), utilizou o enfoque do ponto de vista em sua obra Bananas, a resoluçáo das situações de subordinação a partir do contexto
Beaches and Bases para mostrar como, em diferentes práticas e cultural no qual elas acontecem.
assuntos tradicionalmente estudados na disciplina, as diferenças de
gênero são mais relevantes do que se costuma reconhecer. As espo- Abordagens positivistas
sas de diplomatas, as prostitutas cujos clientes são os militares das
A publicaçáo de War and Gender: how Gender Shapes the War
bases dos EUA no estrangeiro e as mulheres dos operários das
multi nacionais agroalimenrarcs dos EUA no Caribe desempenham,
System and Vice Versa, de Joshua Goldstein (2001) - uma monu-
mental obra que discute e organiza abundantes informações sobre
todas elas, papéis que contribuem muito para a sustentação das
diferentes dimensões (históricas, sociais, biológicas etc.) das dife-
diferentes práticas internacionais (e, ao mesmo tempo, para a pre-
rentes conexões entre gênero e guerra -, representou o início da 177
' servação das desigualdades de gênero). Por isso, tais papéis sociais
' precisam ser reconhecidos e estudados. onda positivista de publicações sobre gênero em RI (Reiter, 2014).
Atualmente, há uma prolífica produção acadêmica relacionada
Além disso,]. Ann Tickner (1992), cuja principal contribuição
a essa temática na disciplina. Tal produçáo está enquadrada nos
foi apresentar, em uma única obra, as diferentes áreas da disciplina
parâmetros da ciência social, utilizando métodos qualitativos, quan-
das RI (como segurança, economia política e governança) através de
titativos ou mistos. Parte dela está claramente vinculada a teorias
uma lente de gênero, tem aplicado uma perspectiva de feminismo
do ponto de vista para a análise do pensamento realista, liberal e de RI bem definidas.
Assim, por exemplo, Keck e Sikkink (1998) utilizaram o enfoque
marxista e dos valores patriarcais subjacentes a eles.
construtivista na análise do movimento feminista internacional e
A releitura feminista dos seis princípios do realismo político de
sua campanha contra a violência contra a mulher. Já Beth Simmons
Morgenrhau (Tickner, 1988) é também uma ilustração (irônica)
(2009) se serviu do enfoque institucionalista para explorar os efeitos
de tratados internacionais sobre a mulher na educação feminina.
Síntese
Outra parte da produção, em particular a que estuda os vínculos A constatação de que o gênero é uma dimensão relevante e neces-
entre gênero e conllitividade internacional, tem uma filiação teórica sária para uma compreensão profunda de qualquer dos fenôme-
menos definida, com predomínio de autores que trabalham dentro nos estudados habitualmente pelas RI é cada vez mais aceita na
da subárea de análise de política externa. Mary Caprioli e Valerie disciplina.
Hudson (Caprioli, 2000; 2005; Caprioli; Boyer, 2001; Hudson er Ao utilizar uma lente de gênero para analisar os conflitos, as
ai., 2012; Hudson, 2009) têm desenvolvido uma ampla agenda de negociações de paz, as relações econômicas internacionais ou as
pesquisa que procura estabelecer as relações de causa-efeito entre políticas das agências internacionais que promovem o desenvol-
178 diferentes dimensões da desigualdade de gênero e a conllitividade vimento, a compreensão de tais fenômenos fica mais rica, e as
internacional, com alguns resultados muito interessantes. políticas desenhadas para abordá-los se tornam mais eficientes e,
Segundo as descobertas de Hudson et ai. (2012), a desigualdade também, mais justas.
de gênero tem uma vinculação causal com a conllirividade interna- Do encontro entre a teoria política feminista e os diferentes
cional mais robusta do que outros fatores que até agora pareciam enfoques teóricos das RI surgiu uma grande variedade de aproxima-
rer mais peso, como o grau de desenvolvimento ou de democracia ções e maneiras de abordar os fenômenos das disciplinas partindo
de uma sociedade. Também a relação entre a igualdade de gênero de um olhar sensível ao gênero.
e a implementação de uma política internacional mais sensível Embora, inicialmente, grande parte da produção sobre gênero
aos direitos humanos tem sido objeto de pesquisa (Brysk; Mehta, nas RI se enquadrava dentro das perspectivas pós-positivistas, nos
2014), bem como as especificidades de gênero na opinião pública últimos anos isso rem mudado. Já existe um importante acervo de
em política externa (Eichenberg, 2003, Nincic; Nincic, 2002). pesquisa desenvolvido sobre gênero em RI dentro dos parâmetros
É importante destacarmos não ser raro que as hipóteses da da ciência social, no que se revela um claro indicador da normali-
pesquisa positivista surjam da literatura pós-positivista, bem como zação dos estudos de gênero dentro da disciplina.
que autores pós-positivistas reafirmem seus argumentos com des-
cobertas positivistas. A complementariedade entre um e outro .·
Para.sabetmai$:7!:'';
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179

corpo de pesquisa é maior do que poderia parecer à primeira vista, Bananas, Beaches and Bases (Enloe, 1989), uma das primeiras obras a

embora, por vezes, as batalhas metateóricas exagerem as diferen- aplicar a teoria feminista às RI, continua sendo de enorme interesse

ças. À medida que as discussões merateóricas forem substituídas para quem procurar aprofundar seus estudos em teoria feminista apli-

por pesquisas substantivas, os limites entre um e outro grupo de cada às RI:


autores se tornarão mais difusos. ENLOE, C. Bananas, Beaches and Bases: Making Feminist Sense of
lnternational Politics. Los Angeles: University of California Press,

1989.

I
~·~

5. fu pesquisas "positivistas" e "pós-positivistas" sobre gênero


A coletânea editada por Laura Shepherd (2010) aborda um grande
número de temáticas, com grande rigor:
nas RI dialogam cada vez mais entre si.
a. Verdadeiro
SHEPHERD, L. (Ed.). Gender Matters in Global Politics: a Feminisr
Introduc[ion to International Relations. New York: Rourledge, 2010.
b. Falso

Para as discussões de gênero na economia política interi1acional,


recomenda-se a leitura de Peterson (2003):
Questões para reflexão
PETERSON, V: S. A Criticai Rewriting ofGiobal Political Economy.
1. Em que medida o objetivo da teoria política feminista (liber-
London: Routledge, 2003.
tação da mulher) pode dificultar a compreensão de alguns
aspectos da problemática de gênero, por exemplo, a violên-
cia dirigida especificamente ao homem em determinadas
Questões para revisão situações?
2. Você concorda com o argumento, defendido por algumas au-
I. Indique alguns exemplos que mostrem que considerar qual-
roras feministas, de que a agenda Mulheres, Paz e Segurança,
quer fenômeno das R1 sob a lente de gênero contribui para
da ONU, ao enfatizar o papel de vítima da mulher nos
a compreensão desse fenômeno.
conflitos, contribui para a discriminação em função do
2. Por que razões a disciplina das R1 demorou mais do que gênero? Justifique.
outras para incorporar a dimensão de gênero?
3. A política externa sueca tem sido descrita como feminis-
3. O feminismo radical está associado à chamada primeira onda ta pela ministra de Relações Exteriores da Suécia, Margot
do fiminismo (finais do século XIX e início so século XX). Wallstriim. O que é, em sua opinião, uma política externa
a. Verdadeiro feminista?
r8r
b. Falso 4. Quais teorias ou enfoques críticos das RI permitem estudar
4. O feminismo pós-moderno questiona c problcmatiza o con- melhor as questões de gênero? Por quê?
ceito de '~mulher''. 5. Em que medida seria possível incluir a variável gênero nas
a. Verdadeiro teorias realistas contemporâneas?
b. Falso

II