You are on page 1of 242

Ross

Macdonald
O calafrio
Caminho policial
Título original: The Chill
Autor: Ross Macdonald
Traduzido do inglês por Daniel Gonçalves
Revisão: Seção de Revisão da Editorial Caminho
© 1963 by Margaret Millar Survivor's Trust
Direitos de tradução para Portugal reservados por Editorial Caminho.

Lisboa, 1985
Tiragem: 13 000 exemplares
Composição: Maria Esther
Gab. de Fotocomposição Impressão e acabamento: Resopal. Lda.
Data de impressão: Novembro de 1985
Depósito legal nº 10287/85
Para R. W. Lid
As personagens desta novela são, felizmente, todas imaginárias,
e foram inventadas sem qualquer referência a pessoas vivas ou mortas.
R. M.
1
capítulo

As pesadas cortinas de damasco vermelho nas janelas do tribunal estavam


mal fechadas contra o sol. Uma luz amarela filtrava-se de fora e ofuscava as
lâmpadas acesas no teto alto. A luz da rua realçava detalhes fortuitos na sala: o
bebedouro de vidro na parede apainelada em frente ao banco dos jurados, as
pontas vermelhas dos dedos da escrivã dançando sobre a máquina de
estenografar, os olhos experimentados da Sra. Perrine me olhando da mesa da
defesa.
Era quase meio-dia da segunda e última sessão do julgamento. Eu era a
última testemunha da defesa. O advogado dela tinha acabado de me interrogar. O
promotor me dispensou com um aceno e alguns jurados olharam para ele
franzindo as sobrancelhas, perplexos. O juiz disse que eu podia ir embora.
Do meu lugar no banco das testemunhas tinha notado o jovem sentado na
primeira fila de espectadores. Não era um frequentador habitual de julgamentos,
como as donas de casa e os aposentados que preenchem manhãs vazias com os
problemas dos outros. Esse tinha problemas próprios. Seu pensativo olhar azul
não se afastava do meu rosto e tive a desconfortável impressão de que ele estava
querendo partilhá-los comigo.
Ele se levantou de seu lugar quando eu me encaminhei para a saída e me
interceptou na porta.
— Podemos falar, Sr. Archer?
— Tudo bem.
O meirinho abriu a porta e fez um gesto impaciente: — Lá fora, senhores. O
tribunal ainda está em sessão.
Saímos para o corredor. O rapaz franziu o cenho para a porta que se fechava
automaticamente.
— Não gosto de ser empurrado.
— Eu dificilmente chamaria isso de empurrão. O que o preocupa, amigo?
Eu não devia ter feito essa pergunta. Devia ter ido rápido para o carro e
voltado a Los Angeles. Mas ele tinha aquele ar americano típico, e ainda por
cima aquela névoa de dor nos olhos.
— É que acabo de ser expulso do escritório do xerife. Essa agora completa a
lista de descortesias das autoridades locais, e não estou habituado a ser tratado
assim.
— Eles não fazem com intenção de ofender.
— Você tem muita experiência como detetive, não tem? Percebi isso ao ouvir
seu depoimento. A propósito, fez um belo trabalho para a Sra. Perrine. Tenho
certeza de que o júri vai absolvê-la.
— Veremos. Nunca aposte num júri. — Desconfiei do elogio, que
provavelmente significava que ele queria de mim alguma coisa mais substancial.
O julgamento em que eu testemunhara era o fim de um longo caso sem interesse
e eu planejava uma excursão de pesca a La Paz. — Era isso o que queria me
falar?
— Tenho muito para falar, se estiver disposto a ouvir. Tenho um problema
com minha mulher. Ela me deixou.
— Geralmente não me encarrego desses trabalhos de divórcio, se é nisso que
você está pensando.
— Divórcio? — Sem fazer um som, seu rosto simulou os trejeitos de uma
gargalhada surda. — Só estive casado um dia, menos de um dia. Todo mundo,
incluindo meu pai, insiste em me dizer que peça anulação. Mas não quero nem
anulação nem divórcio. Quero que ela volte.
— Onde está sua mulher neste momento?
— Não sei. — Acendeu um cigarro com mãos pouco firmes. — Dolly partiu
no meio da nossa lua de mel, um dia depois de casarmos. Deve ter acontecido
alguma coisa.
— Ou ela chegou à conclusão de que não queria estar casada, pelo menos
com você. Coisas assim acontecem todos os dias.
— É o que a polícia está cansada de repetir: coisas assim acontecem todos os
dias. Como se isso me desse algum conforto! Seja como for, eu sei que não se
trata disso. Dolly me amava e eu a amava... amo.
Ele disse isto muito intensamente, com toda a sua natureza atrás das
palavras. Eu não conhecia a natureza do rapaz, mas havia ali sensibilidade e
sentimento, mais sentimento do que ele era capaz de lidar.
— Ainda não me disse seu nome.
— Desculpe. Meu nome é Kincaid. Alex Kincaid.
— E o que faz na vida?
— Não tenho feito muito ultimamente, desde que Dolly... desde que essa
coisa aconteceu. Teoricamente trabalho para a Channel Oil Corporation. Meu pai
dirige o escritório deles em Los Angeles. É possível que tenha ouvido falar dele.
Frederick Kincaid?
Não tinha. O meirinho abriu a porta da sala de audiências e a manteve aberta.
O tribunal suspendia a sessão para almoço e os jurados desfilaram diante de nós.
Seus movimentos eram solenes, parte do ritual do julgamento. Alex Kincaid
olhava-os como se estivessem saindo para julgá-lo.
— Não se pode conversar aqui — disse o rapaz. — Deixe que lhe ofereça um
almoço.
— Almoço com você, mas cada um paga o seu. — Não queria ficar devendo
nada, pelo menos até ouvir a história que ele tinha para contar.

Havia um restaurante do outro lado da rua. A sala principal estava cheia de


fumaça e do barulho das conversas. As mesas cobertas com toalhas de xadrez
vermelho e branco estavam todas ocupadas, principalmente com gente do
tribunal, advogado, agentes do xerife e assistentes sociais. Embora Pacific Point
ficasse a cinquenta milhas do meu território habitual, reconheci uma dezena
deles. Alex e eu fomos para o bar e encontramos um par de bancos num canto
pouco iluminado. Ele pediu um scotch duplo com gelo. Eu pedi o mesmo. O
rapaz despejou o dele como se fosse remédio e tentou mandar vir outra dose
imediatamente.
— Vai muito depressa. Reduza a marcha.
— Está me dizendo o que devo fazer? — perguntou, numa voz clara e
desagradável.
— Só quero ouvir sua história. Quero que você possa contá-la.
— Acha que sou um beberrão ou algo assim?
— Acho que você é uma pilha de nervos. Jogue álcool numa pilha de nervos
e o resultado é uma pilha de encrencas. E já que lhe estou dando conselhos, bem
que podia se livrar dessa irritação que carrega nos ombros. Alguém pode querer
tirá-la e levar junto um pedaço seu.
Ele ficou um momento de cabeça baixa. O rosto tinha uma palidez quase
fluorescente e um ligeiro tremor sussurrante percorreu-o todo.
— Não estou bem, reconheço. Não sabia que essas coisas podiam acontecer
às pessoas.
— Já é hora de contar o que aconteceu. Por que não começa do princípio?
— Refere-se a quando ela deixou o hotel?
— Seja. Comece pelo hotel.
— Estávamos hospedados na Surf House — disse ele —, aqui mesmo em
Pacific Point. Meu dinheiro não dá para esses luxos, mas Dolly queria
experimentar hospedar-se ali... nunca esteve lá antes. Calculei que um fim de
semana de três dias não me arruinaria. Era o feriado do Labor Day. Eu já tinha
gasto meu período de férias e nos casamos no sábado para ter ao menos três dias
de lua de mel.
— Onde vocês se casaram?
— Em Long Beach, na presença de um juiz.
— Dá a impressão que foi um desses casamentos decididos sob o impulso do
momento.
— Acho que sim, de certo modo. Não nos conhecíamos há muito tempo.
Para falar com franqueza foi Dolly que quis casar logo. Não pense que eu não
estava ansioso também. Estava. Mas meus pais achavam que devíamos esperar
um pouco, até encontrar uma casa, etc. Eles queriam um casamento na igreja.
Mas Dolly queria se casar no civil.
— E os pais dela, o que diziam?
— Morreram. Ela não tem parentes vivos. — Virou a cabeça lentamente e
encontrou meus olhos. — Ou pelo menos foi o que ela disse.
— Você parece ter dúvidas a respeito.
— Não propriamente dúvidas. É só que ela ficou muito irritada quando
perguntei pelos pais. Eu queria naturalmente conhecê-los, mas ela interpretou
minha pergunta como intromissão. Por fim disse que toda a família dela morreu
num desastre de automóvel.
— Onde?
— Não sei onde. E já que falamos nisso, não sei muita coisa dela, exceto que
é uma mulher-maravilha — acrescentou num assomo de lealdade ligeiramente
aromatizado por uísque. — É bonita e inteligente e boa e eu sei que gosta de
mim. — Estava quase recitando, como se pudesse, convencendo-se do que dizia,
moldar por magia a realidade ao desejo.
— Como era o nome dela de solteira?
— Dolly McGee. O nome dela é realmente Dorothy. Ela trabalhava na
biblioteca da universidade e eu fazia um curso de Gestão de Emp...
— Neste verão?
— Exatamente. — Engoliu em seco e o seu pomo de adão palpitou
aflitivamente na garganta. — Só nos conhecemos por seis semanas, seis semanas
e meia, antes de casar. Mas nos vimos todos os dias dessas seis semanas e meia.
— E o que faziam quando estavam juntos?
— Não acho que isso importe.
— Pode importar. Estou tentando formar um quadro de seus hábitos
pessoais.
— Ela não tinha maus hábitos, se é isso que está pensando. Nunca me
deixava beber quando estávamos juntos. Não era também muito afeiçoada a
cafés ou a cinemas. Era... é uma garota muito séria. Passávamos a maior parte do
tempo falando... falando e conversando. Devemos ter coberto a maior parte da
West Los Angeles.
— E do que falavam?
— Do sentido da vida — disse ele, como se fosse uma coisa evidente. —
Tentávamos delinear um plano de vida, um conjunto de regras para nosso
casamento e nossos filhos. Para Dolly a coisa mais importante eram os filhos.
Queria educá-los para serem pessoas dignas. Ela achava que era mais importante
uma pessoa ser honesta do que ter segurança e bens terrenos e outras coisas
desse tipo. Não quero chateá-lo com essas coisas.
— Não está. Presumo que ela era completamente sincera?
— Nunca houve ninguém mais sincero. Palavra. Ela até queria que eu
deixasse o emprego e fosse acabar meu curso. Ela dizia que eu não precisaria
aceitar dinheiro da minha família. Dispunha-se a continuar a trabalhar para me
ajudar. Mas nós decidimos contra esse plano quando resolvemos casar.
— Não foi um casamento forçado.
O rapaz lançou-me um olhar duro.
— Não houve nada disso entre nós. Para se franco, nós nem sequer... quero
dizer, eu nem a toquei na noite do nosso casamento. A Surf House e Pacific
Point pareciam deixá-la com os nervos à flor da pele, embora tivesse sido ela
mesma a escolher isso aqui. Portanto, decidimos adiar o aspecto físico. Hoje em
dia muitos casais fazem isso.
— Qual a atitude da Dolly sobre sexo?
— Perfeita. Falávamos a esse respeito muito francamente. Se pensa que ela
me deixou por causa disso, está completamente equivocado. Ela era uma mulher
quente.
— Por que ela o deixou, Alex?
Os olhos dele se cobriram da névoa de dor, que quase nunca os deixara.
— Não consegui ainda formar uma ideia. Não foi nada entre mim e Dolly,
disso estou certo. O homem com a barba deve ter tido alguma coisa a ver com o
caso.
— Como ele aparece na pintura?
— Ele esteve no hotel naquela tarde... no dia em que ela foi embora. Eu
estava embaixo na praia nadando e depois fui tomar sol. Devo ter ficado fora do
quarto umas duas horas. Quando voltei ela partira, levando tudo o que lhe
pertencia. O empregado da recepção me disse que ela tinha recebido uma visita
antes de sair, um homem de barbicha grisalha que demorou no quarto cerca de
uma hora.
— Nenhum nome?
— Ele não disse.
— Ele e a mulher partiram juntos?
— O empregado da recepção disse que não. O homem saiu primeiro. Depois
Dolly tomou um táxi para a rodoviária, mas pelo que consegui descobrir não
comprou passagem. Também não comprou um passagem de trem ou de avião.
Não tem carro. Portanto, estou convencido de que ela ainda está aqui em Pacific
Point. Não podia ter ido a pé pela estrada.
— Pode ter ido de carona.
— Dolly não fazia isso.
— Onde morava antes de se casarem?
— Em Westwood, num apartamento mobiliado. Ela o deixou e transferimos
a máquina de escrever e as outras coisas dela para o meu apartamento no sábado
de manhã antes da cerimônia. Ainda está tudo lá e isso é uma das coisas que me
preocupam. Tenho passado tudo a pente fino procurando pistas, mas ela não
deixou nenhumas... absolutamente nada de pessoal.
— Acha que ela planejou se casar e deixá-lo?
— Não, não acho. Que interesse teria nisso?
— Ocorrem-me várias possibilidades. Você, por exemplo, tem seguro alto?
— Bem alto. Meu pai fez seguro logo que nasci. Mas ele continua
beneficiário.
— Sua família tem dinheiro?
— Nada de especial. Meu pai ganha bem, mas tem que trabalhar para isso.
Seja como for, o que está insinuando não tem fundamento. Dolly é
completamente honesta e nem sequer se importa com dinheiro.
— E com que ela se importa?
— Eu achava que se importava comigo — disse ele de cabeça baixa. — E
continuo a achar. Deve ter acontecido alguma coisa. Pode ter perdido o juízo.
— Ela é mentalmente instável?
Ele refletiu sobre a pergunta e sobre o que responder.
— Não me parece — disse por fim. — Ela tinha seus momentos de
neurastenia. Acho que quase todo mundo tem. Estava só falando em geral.
— Continue a falar em geral. Você não sabe o que pode ser importante. Fez
todo o possível para encontrá-la, presumo?
— Fiz tudo o que estava a meu alcance. Mas não posso fazer tudo sozinho,
sem nenhuma cooperação da polícia. Eles escrevem o que eu digo numas
folhinhas de papel e guardam tudo numa gaveta, lançando-me olhares
compadecidos. Acham que Dolly descobriu alguma coisa vergonhosa a meu
respeito na nossa noite de casamento.
— Pode haver alguma verdade nisso?
— Não! Somos loucos um pelo outro. Tentei dizer isso ao xerife esta manhã.
Ele me lançou um desses olhares irônicos de bom entendedor e disse que não
podia agir enquanto não houvesse alteração da ordem. Perguntei-lhe se o
desaparecimento de uma mulher não era uma indicação, e ele respondeu que
não. Ela era livre e maior e partiu por seus próprios meios e eu não tinha
juridicamente qualquer direito de obrigá-la a voltar. Aconselhou-me a pedir uma
anulação. Eu disse onde ele podia meter o conselho e ele mandou dois gorilas
me expulsarem do escritório. Descobri onde ficava o subpromotor no tribunal, e
o esperava para apresentar uma queixa quando vi você testemunhando.
— Nesse caso, ninguém o mandou vir falar comigo?
— Não, mas posso lhe dar informações. Meu pai...
— Já me falou de seu pai. Ele também acha que você deve pedir anulação.
Alex acenou com a cabeça, pesarosamente.
— Meu pai acha que estou perdendo tempo com uma garota que não merece.
— Pode ser que ele esteja certo.
— Está completamente errado. Dolly é a única garota que já amei e a única
que vou amar. Se você não quiser me ajudar, encontro alguém que queira!
Gostei da insistência.
— Minha tabela é alta — eu disse. — Cem dólares por dia e despesas.
— Tenho o suficiente para lhe pagar pelo menos uma semana. — Puxou a
carteira e bateu com ela no balcão do bar com tanta força que o bartender lhe
lançou um olhar desconfiado.
— Quer um adiantamento?
— Não há pressa — respondi. — Tem alguma foto de Dolly?
Tirou da carteira um recorte de jornal dobrado e me passou com certa
relutância, como se aquilo fosse mais valioso que dinheiro. Era a reprodução de
uma foto que tinha sido dobrada e desdobrada muitas vezes.
“Entre os felizes noivos que passam a lua de mel na Surf House”, dizia a
legenda, “estão o Sr. e a Sra. Alex Kincaid de Long Beach.” Alex e a noiva
sorriam para mim através da luz escura. Seu rosto era oval e adorável, de uma
certa maneira pessoal, com uma espécie de inteligência velada nos olhos e um
humor de gosto agridoce na boca.
— Quando isso foi tirado?
— Num sábado três semanas atrás, quando chegamos à Surf House. Fazem o
mesmo com todo mundo. Publicaram no jornal dominical e eu recortei. Ainda
bem que o fiz. É a única foto dela que tenho.
— Podia arranjar cópias.
— Onde?
— Com a pessoa que tirou.
— Nunca tinha pensado nisso. Vou falar com o fotógrafo do hotel. Quantas
cópias acha que devo pedir?
— Duas ou três dúzias. Nesse caso é melhor mais do que menos.
— Isso vai custar dinheiro.
— Eu sei. Eu também.
— Está tentando se livrar de um trabalho?
— Não preciso dele, um descanso me faria bem.
— Então vá para o inferno.
Arrancou dos meus dedos a folha fina. O papel rasgou no meio. Ficamos nos
encarando como inimigos, cada um segurando um pedaço dos felizes noivos.
Alex desatou a chorar.
2
capítulo

Concordei durante o almoço em ajudá-lo a encontrar a mulher. Isso e a torta


de frango o acalmaram. Já não se lembrava de quando tinha comido antes, e
devorou tudo.
Dirigimo-nos para a Surf House em carros separados. Ficava à beira-mar, no
lado elegante da cidade: um hotel estilo mexicano, cujos jardins espanhóis
desciam em largos degraus verdes até sua doca privativa. Iates e lanchas
balançavam nas boias de âncora. Mais ao largo, além do promontório em curva
que dava o nome a Pacific Point, velas brancas se inclinavam contra uma parede
baixa de neblina cinza.
O recepcionista em seu uniforme universitário foi muito cortês, mas não
estivera de serviço no domingo em que eu estava interessado. O recepcionista
desse dia era um substituto de verão, um estudante que voltara para sua
universidade no Leste. Quanto a ele, lamentava, mas nada sabia do visitante
barbudo da Sra. Kincaid ou da partida dessa hóspede.
— Eu gostaria de falar com o fotógrafo do hotel. Está aqui hoje?
— Creio que está para os lados da piscina.
Encontramos logo, um sujeito vivo que carregava uma pesada máquina
fotográfica como um albatroz pendurado no pescoço. No meio das roupas
coloridas da praia, seu terno escuro de trabalho o fazia parecer caixeiro-viajante.
Tirava fotos de uma mulher de meia-idade metida num biquíni muito longe de
lhe cair bem. O umbigo fitava a objetiva como uma órbita vazada.
Quando acabou seu hediondo trabalho, o fotógrafo se virou para Alex com
um sorriso: — Olá. Como tem passado sua mulher?
— Não a tenho visto ultimamente.
— Vocês não estavam aqui em lua de mel há umas duas semanas? Não tirei
foto de vocês?
Alex não respondeu. Olhava os banhistas deitados ao lado da piscina como
um fantasma lembrando como é estar vivo. Falei: — Gostaríamos de ter cópias
da foto que você fez. A Sra. Kincaid está na lista de pessoas desaparecidas e eu
sou detetive particular. Meu nome é Archer.
— Fargo. Simmy Fargo. — Deu-me um rápido aperto de mão e aquela
espécie de olhar que uma objetiva nos lança quando nos fixa para a posteridade.
— Em que sentido, na lista de pessoas desaparecidas?
— Não sabemos. Saiu daqui num táxi no dia 2 de setembro. O marido a está
procurando desde então.
— Isso é chato — disse Fargo. — Suponho que queira as cópias para fazer
circular. Quantas acha que serão necessárias?
— Três dúzias?
Ele assobiou e deu um tapa na testa curta e enrugada.
— Vou ter um fim de semana trabalhoso que praticamente já começou. Hoje
é sexta-feira. Posso consegui-las para segunda-feira. Mas calculo que queira para
ontem.
— Hoje já serve.
— Lamento. — Encolheu os ombros frouxamente, fazendo a máquina
saltitar no peito.
— Pode ser importante, Fargo. O que me diz de uma dúzia em duas horas?
— Eu gostaria de ajudar, mas tenho meu trabalho aqui. — Lentamente, quase
contra vontade, virou e olhou para Alex. — Eu lhe digo o que vou fazer. Vou
telefonar para minha mulher e vocês terão suas fotos. Simplesmente não me
passem a perna, como o outro cara fez.
— Que outro cara?
— Um grandalhão de barba. Encomendou uma cópia dessa foto e nunca veio
buscá-la. Posso entregar imediatamente essa cópia se quiserem.
Alex saiu do transe. Agarrou o braço de Fargo e o sacudiu.
— Nesse caso você o viu. Quem é ele?
— Pensei que vocês talvez o conhecessem. — Fargo libertou-se e recuou um
passo. — Para ser franco, pensei que eu mesmo o conhecia também. Era capaz
de jurar que tirei uma foto dele certa vez. Mas não consegui localizar a cara.
Vejo muitas.
— Ele deu um nome?
— Com certeza deu. Não aceito encomendas sem um nome. Vou ver se
consigo encontrá-lo para vocês, okay?

Nós o seguimos ao hotel através de um labirinto de corredores até seu


pequeno e atravancado cubículo sem janelas. Telefonou para a mulher, depois
remexeu numa pilha de papéis na escrivaninha e pescou de lá um envelope de
fotógrafo. Dentro, entre duas folhas de papelão canelado, estava uma fotografia
lustrosa dos recém-casados. Na frente do envelope Fargo tinha escrito: “Chuck
Begley, Wine Cellar.”
— Agora me lembro — disse o fotógrafo. — Ele contou que trabalhava na
Wine Cellar. É uma loja de bebidas não longe daqui. Quando Begley não veio
buscar a foto telefonei para lá. Responderam que Begley já tinha ido embora. —
Fargo olhou de mim para Alex. — O nome de Begley lhes diz alguma coisa?
Respondemos ambos que não.
— Pode descrevê-lo, Sr. Fargo?
— Posso descrever a parte que ele não tinha coberta de algas, quero dizer de
barba. Cabelo grisalho, como a barba, e muito espesso e ondulado. Sobrancelhas
grisalhas, olhos cinza, nariz reto médio, que estava descascando por causa do
sol. Não é mal apessoado para um homem já idoso, exceto os dentes, que não
são bons. E dá a impressão de que levou uma ou duas surras noutros tempos.
Pessoalmente não gostaria de ter que encará-lo. É um homem grande e parece
muito duro.
— Grande a que ponto?
— Três ou quatro polegadas mais alto do que eu. Isso lhe dá um metro e
oitenta e dois ou oitenta e três. Vestia camisa de manga curta e reparei nos
músculos dos braços.
— Como é a maneira de falar dele?
— Nada de especial. Não tem sotaque de Harvard, mas também não fala
errado.
— Ele deu alguma razão para seu interesse pela foto?
— Disse que tinha um interesse sentimental. Viu-a no jornal e lhe recordava
alguém. Lembro-me de ter pensado que ele devia ter corrido para cá. O jornal
com a foto saiu no domingo de manhã e ele apareceu por volta do meio-dia.
— Ele deve ter ido procurar sua mulher logo em seguida — eu disse a Alex.
E a Fargo: — Por que o jornal usou essa imagem em especial?
— Escolheram da pilha que enviei. Eles usam minhas fotos muitas vezes, na
verdade eu faço alguns trabalhos para eles. Por que publicaram esta em vez de
outra qualquer, isso eu não sei. — Ergueu a foto à luz fluorescente, depois me
entregou. — Está boa e o casal Kincaid forma um bonito par.
— Muito obrigado — disse Alex sardonicamente.
— Eu estava fazendo um elogio, rapaz.
— Claro que estava.
Recebi a foto de Fargo e empurrei Alex para fora da sala antes que ela
começasse a ficar pequena demais para ele. A preocupação sombria continuava a
inundá-lo e virava raiva quando transbordava. Não era só preocupação pela
mulher de um dia, era também angústia por ele mesmo. Parecia não saber se já
era homem ou não. Não podia censurá-lo por seus sentimentos, mas eles o
tornavam um empecilho para a espécie de trabalho que eu fazia. Quando cheguei
à Wine Cellar, na área de um motel alguns quarteirões para o interior, deixei-o lá
fora em seu pequeno carro esporte vermelho.

A loja de bebidas estava agradavelmente fresca. Eu era o único freguês


potencial e o homem atrás do balcão saiu para me saudar.
— Em que posso servi-lo, sir?
Vestia um colete xadrez e tinha a voz ligeiramente embotada, olhos líquidos
e a tez carregada de um homem que passa o dia inteiro e parte da noite bebendo.
— Gostaria de falar com Chuck Begley.
Ele pareceu vagamente penalizado e sua voz adquiriu uma nota de pesar.
— Tive que demitir o Chuck — disse. — Eu o mandava fazer uma entrega e
às vezes chegava quando devia, outras não.
— Há quanto tempo o demitiu?
— Há umas duas semanas. Só trabalhou para mim duas semanas. Ele não foi
feito para esta espécie de trabalho. Eu disse mais de uma vez que estava abaixo
de sua capacidade. Chuck Begley é um sujeito bem inteligente quando está
disposto, você sabe.
— Não sei.
— Pensei que fosse amigo dele.
Mostrei-lhe meu cartão.
— Begley fugiu? — perguntou, soprando uma baforada de peppermint na
minha cara.
— Pode ser. Por quê?
— Quando ele me apareceu da primeira vez estranhei, um homem como ele
aceitando emprego meio período. Por que o procura?
— Não sei ainda. Pode me dar o endereço dele?
— Acho que posso. — Coçou o nariz esponjoso, observando-me por cima
dos dedos. — Não diga a Begley que eu contei. Não quero que ele venha aqui
tirar satisfações.
— Fique tranquilo.
— Ele passa muito tempo na casa de uma cliente. Pode-se dizer que é um
hóspede grátis. Eu por nada deste mundo quero arranjar complicações para a
mulher. Mas — raciocinou —, se procuram Begley, estou fazendo até um favor
ajudando a que o peguem. Não é?
— Acho que é. Onde ela mora?
— Na Shearwater Beach, número 17. O nome dela é Madge Gerhardi. Pegue
a autoestrada sul e verá Shearwater aparecer umas duas milhas adiante.
Simplesmente não diga que fui eu que o mandei. Okay?
— Okay.
Deixei-o com suas garrafas.
3
capítulo

Estacionamos no alto da rua de acesso e persuadi Alex a ficar no carro, fora


de vista. Shearwater Beach era uma espécie de bairro de lata caro, onde se
erguiam em fila dúzias de moradias. O reflexo furta-cor do mar resplandecia nos
estreitos intervalos entre elas. Além de seus telhados pontiagudos, lá longe no
mar, uma andorinha do mar descrevia círculos com suas asas cintilantes,
procurando peixe.
O número 17 pedia pintura e se apoiava em pilastras como um homem em
muletas. Bati na porta cinza de tinta descascada. Lentamente, como corpos sendo
arrastados, passos se aproximaram do outro lado da porta. O homem de barba a
abriu.
Tinha uns cinquenta anos, vestia camiseta preta sem mangas, de onde a
cabeça se projetava como uma pedra exposta às intempéries. A luz do sol
arrancava reflexos de seus olhos. Os dedos com que ele segurava a porta tinham
as unhas roídas até o sabugo. Ele me surpreendeu olhando e fechou o punho.
— Procuro uma moça que desapareceu, Sr. Begley. — Eu tinha decidido pela
abordagem direta. — É possível que lhe tenha acontecido algum acidente e, se
aconteceu, você pode ter sido uma das últimas pessoas a vê-la viva.
O homem esfregou o rosto com os nós dos dedos. O rosto conservava
vestígios de antigas encrencas, algumas feitas a mão: manchas ligeiramente
acolchoadas em torno dos olhos, uma fina cicatriz na têmpora dividida como
uma régua em miniatura pelas marcas dos pontos. Antigas encrencas e promessa
de encrencas futuras.
— Você deve ser louco. Não conheço nenhuma moça.
— Conhece a mim — disse uma mulher atrás dele.
Ela apareceu junto ao ombro do homem e se apoiou nele, esperando que
alguém secundasse o elogio que fizera a si mesma. Tinha mais ou menos a idade
de Begley, talvez fosse até mais velha. O corpo dela era muito assertivo de short
e tomara-que-caia preso por um laço no pescoço. Frisado por frequentes tinturas
e descolorações, o cabelo se erguia na cabeça como o dos espantalhos. Sob a
sombra carregada, os olhos eram cor de genebra.
— Lamento, deve estar enganado — disse ela num tom educado da costa
leste, que imediatamente desapareceu. — Juro por tudo quanto é sagrado que
Chuck não tem nada que ver com nenhuma moça. Tem estado muito ocupado
cuidando aqui da velhinha. — Passou um braço branco pelo pescoço dele. —
Não é verdade, meu amor?
Begley estava parado entre mim e a mulher. Mostrei a foto acetinada dos
noivos.
— Conhece essa garota, não conhece? O nome dela, o nome de casada, é
Dolly Kincaid.
— Nunca ouvi falar.
— Testemunhas dizem o contrário. Dizem que você foi procurá-la na Surf
House há três semanas. Você viu esta foto dela no jornal e encomendou uma
cópia ao fotógrafo da Surf House.
A mulher apertou o braço no pescoço dele, mais como um parceiro de luta
greco-romana do que como amante.
— Quem é ela, Chuck?
— Não faço a menor ideia — resmungou entredentes. — Vai começar tudo
de novo.
— O que vai começar de novo?
Ela estava me roubando as deixas. — Se não se importa, podia fazer o favor
de me deixar falar com o Sr. Begley a sós?
— Ele não tem segredos para mim. — Ela olhou para o homem
orgulhosamente, com uma ligeira pontinha de ansiedade em seu orgulho. — Não
é verdade, meu amor?
— Podia parar de me chamar de “meu amor”? Só cinco minutos? Por favor?
Ela recuou, pronta para chorar, fazendo com a boca vermelha um beicinho
lúgubre de palhaço.
— Por favor, entre — pediu ele. — Deixe-me falar com o homem.
— Estou na minha casa. Tenho o direito de saber o que acontece na minha
casa.
— Claro que tem, Madge. Mas eu tenho direitos de morador, pelo menos.
Entre e tome um café.
— Está metido em alguma encrenca?
— Não. Claro que não. — Mas havia resignação na sua voz. — Agora, trate
de ser uma boa menina e me deixe por um momento.
As últimas palavras dele pareceram apaziguá-la. Virando-se lentamente,
desapareceu no fundo do corredor. Begley fechou a porta e encostou nela.
— Agora você pode contar a verdade — eu disse.
— Tudo bem, fui vê-la no hotel. Foi um impulso estúpido. Mas isso não faz
de mim um assassino.
— Ninguém sugeriu isso, só você.
— Pensei em lhe poupar o trabalho. — Abriu os braços como que para ser
crucificado ali mesmo. — Você é da polícia local, presumo.
— Trabalho para ela — eu disse, esperando que a resposta pegasse. — Meu
nome é Archer. Você ainda não explicou por que foi visitar a Sra. Kincaid. Até
que ponto a conhece?
— Não a conheço em absoluto. — Deixou cair enfaticamente os braços
abertos. As áreas reveladoras em torno da boca estavam ocultas pela barba e eu
não podia saber o que ele fazia com elas. Seus olhos cinzentos eram
inexpressivos. — Pensei que a conhecia, mas estava enganado.
— O que quer dizer com isso?
— Pensei que pudesse ser minha filha. Parecia muito na foto, mas nem tanto
em carne e osso. O engano da minha parte era natural. Não vejo minha filha há
muito tempo.
— Como se chama sua filha?
Ele hesitou.
— Mary. Mary Begley. Não nos vemos há mais de dez anos. Estive fora do
país, do outro lado do mundo.
Fez isso parecer tão remoto quanto o lado oculto da lua.
— Sua filha era muito nova quando você partiu?
— Sim. Dez ou onze anos.
— E você devia gostar muito dela — observei — para encomendar uma foto
só porque a garota fotografada se parecia com ela.
— Gostava muito dela.
— Então por que não foi buscar a foto?
Ele entrou num longo silêncio. Tomei consciência de algo especial no
homem, a tranquila qualidade intocável de um animal que envelhece.
— Temia que Madge ficasse com ciúme — disse ele. — Acontece que vivo
com Madge.
Desconfiei que ele usava aquela declaração supérflua para contar uma
mentira. Mas podia ter vindo de uma fonte mais profunda. Alguns homens
passam a vida procurando formas de se castigar por nascer, e Begley tinha
alguns sinais disso. Ele disse: — O que acha que aconteceu com a Sra. Kincaid?
— A pergunta foi fria e formal, negando qualquer interesse na resposta.
— Eu esperava que você tivesse alguma ideia... Ela desapareceu há umas
três semanas. A coisa não me agrada. É claro que garotas estão sempre
desaparecendo, mas não na lua de mel... não quando amam os maridos.
— Ela amava o marido?
— Ele acha que sim. Como ela estava quando a viu? Estava deprimida?
— Acho que não. Ficou surpresa em me ver.
— Por que já não o via há muito tempo?
Ele me lançou um sorriso desagradável.
— Não perca tempo tentando me pegar. Já lhe disse que ela não era minha
filha. Ela nunca tinha me visto desde que o mundo é mundo.
— Então do que conversaram?
— Não conversamos. — Fez uma pausa. — Talvez eu tenha feito algumas
perguntas.
— Por exemplo?
— Quem era o pai dela. Quem era a mãe. De onde tinha vindo. Disse que
tinha vindo de Los Angeles. O nome dela de solteira era Dolly qualquer coisa...
esqueci o sobrenome. Os pais tinham morrido. Foi mais ou menos isso.
— Demorou um tempão para obter essas informações dela.
— Só fiquei lá uns cinco ou dez minutos, talvez quinze.
— O recepcionista disse uma hora.
— Errou.
— Ou talvez você tenha errado, Sr. Begley. O tempo às vezes passa muito
depressa.
Ele se agarrou a essa desculpa duvidosa.
— Talvez eu tenha ficado mais tempo do que me pareceu. Agora me lembro
que ela queria que eu ficasse e conhecesse o marido. — Seus olhos continuavam
firmes, mas tinha agora um ligeiro brilho de mentira. — Como ele nunca mais
chegava, saí.
— Você sugeriu que voltassem a se ver?
— Não. Ela não estava especialmente interessada na minha história.
— Então contou sua história?
— Falei da minha filha, claro, como falei com você.
— Não compreendo. Você diz que esteve fora do país dez anos. Onde?
— Na Nova Caledônia, principalmente. Trabalhei lá numa mina de crômio.
Foi fechada na primavera passada e nos mandaram para casa.
— E agora procura sua filha?
— Gostaria sem dúvida de encontrá-la.
— Para que ela fosse dama de honra em seu casamento? — Queria ver como
ele aguentava uma espetadela de agulha. Aguentou sem uma palavra.
— E sua mulher?
— Morreu. — Seus olhos já não estavam calmos. — Escute, precisamos
remexer nisso? Já é ruim o bastante perder as pessoas que amamos, ainda por
cima vem desenterrar tudo e me jogar na cara.
Não tinha certeza se sua autocompaixão era falsa: em certa medida sempre é.
— Foi muito ruim ter perdido sua família — eu disse. — Mas o que pode
esperar uma pessoa que deixa o país por dez anos?
— Não foi por vontade minha. Como se sentiria se fosse levado de mãos
amarradas e não pudesse voltar?
— É essa a sua história? Não parece muito convincente.
— Minha história é ainda é pior, mas não vamos entrar nisso. Seja como for
você não me acreditaria. Nunca me acreditaram.
— Pode me testar.
— Levaria o dia inteiro. Você deve ter coisa melhor para fazer do que
conversar comigo.
— Diga uma.
— Disse que uma jovem desapareceu. Trate de encontrá-la.
— Eu esperava que você pudesse me ajudar. E ainda espero, Sr. Begley.
Ele baixou os olhos para os pés. Calçava sandálias.
— Eu já lhe disse tudo o que sabia dela. Para começar não devia ter ido
àquele hotel. Tudo bem, cometi um erro. Não se pode enforcar um homem por
um pequeno erro de julgamento.
— Falou uma vez de assassinato e falou uma vez de enforcar. Pergunto a
mim mesmo por quê...
— É só modo de falar. — Mas a confiança dele escorria pelos buracos que
minha agulha tinha aberto. Ele disse, erguendo um pouco a voz: — Acha que a
assassinei?
— Não. Não acho isso. Aconteceu alguma coisa entre vocês ou alguma coisa
foi dita que pode explicar por que ela partiu tão subitamente. Não quer tentar
lembrar o que foi?
Lentamente, talvez involuntariamente, ele ergueu a cabeça e olhou para o
sol. Debaixo da barba espetada, o pescoço era pálido e enrugado. Parecia usar
aquela espécie de máscara dos antigos atores gregos, escondendo-se
completamente aos meus olhos.
— Não. Não se disse nada desse tipo.
— Houve alguma discussão entre vocês?
— Não.
— Por que ela o deixou ir ao quarto dela?
— Suponho que se interessou pela minha história. Falei com ela pelo
telefone interno do hotel, disse que ela se parecia com minha filha. Foi apenas
um impulso impensado. Logo que a vi percebi que não era.
— Combinou de encontrá-la novamente?
— Não. Embora me agradasse a ideia.
— Esperou-a fora do hotel ou combinaram se encontrar na rodoviária?
— Nada disso. Do que você está tentando me acusar? O que você quer?
— Apenas a verdade. E não estou convencido de tê-la ouvido de sua boca.
Ele teve um súbito acesso de fúria.
— Vá para o raio que... — Começou a se arrepender da explosão antes de
chegar ao fim e engoliu o resto das palavras.
Mas me virou as costas e entrou em casa batendo a porta. Esperei um pouco,
depois desisti. Voltei ao carro pela rua arenosa.
A mulher loura, Madge Gerhardi, estava sentada ao lado de Alex no Porsche
vermelho. Ele ergueu para mim os olhos brilhantes.
— A Sra. Gerhardi a viu. Viu Dolly.
— Com Begley?
— Não, não estava com ele. — Ela abriu a porta e se espremeu para sair do
carro. — Foi na oficina para carros estrangeiros. Tenho um MG L, levei-o lá
para lubrificação. A garota estava com uma velhota. Partiram juntas num velho
Rolls marrom. A garota é que dirigia.
— Tem certeza de que era ela? — Mostrei-lhe de novo a foto. Ela acenou
enfaticamente.
— Tenho certeza, a não ser que haja uma gêmea. Reparei nela por ser muito
bonita.
— Sabe quem era a mulher idosa?
— Não, mas o homem da garagem deve saber. — Deu-nos o endereço e
começou a se afastar. — É melhor ir andando para casa.
Escapei pela praia e Chuck deve estar pensando onde me meti.
4
capítulo

Um mecânico deitado de costas num carrinho rolou para sair de baixo de um


Jaguar duas portas. Quando se levantou, vi que era um gordinho moreno com um
“Mario” bordado no macacão. Acenou entusiasmado quando falei do Rolls e da
velhota.
— É a Sra. Bradshaw. Cuido dele desde que ela comprou o Rolls há doze
anos. Anda tão bem agora como no primeiro dia. — Olhou as mãos oleosas com
certa satisfação, como um cirurgião recordando intervenções bem-sucedidas. —
As garotas que ela contrata como motoristas não sabem cuidar de um bom carro.
— Conhece a garota que tem dirigido o carro ultimamente?
— Não sei o nome dela. A Sra. Bradshaw muda de motorista com
frequência. Em geral são garotas que estudam na faculdade. O filho dela é o
diretor lá e não deixa a velhota dirigir. Tem reumatismo e creio que já sofreu um
acidente.
Cortei as complicadas explicações de Mario e mostrei a foto.
— É esta garota?
— Sim. Ela esteve aqui com a Sra. Bradshaw há poucos dias. É a nova.
Como eu disse, a Sra. Bradshaw está sempre mudando. É muito mandona e essas
universitárias não gostam muito de ordens. Pessoalmente sempre me dei bem
com a Sra. Bradshaw...
— Onde é que ela mora?
Alex fez a pergunta em tom ansioso e Mario acabou ligeiramente
contaminado.
— O que você quer com ela?
— Não é nela que estou interessado. A garota é minha mulher.
— Você e ela não se entendem?
— Não sei. Tenho que falar com ela.
Mario ergueu os olhos para o alto teto de zinco ondulado da garagem.
— Minha mulher se divorciou de mim há dois anos. Desde então tenho
engordado. Um homem não tem a mesma motivação.
— Onde mora a Sra. Bradshaw? — perguntei.
— Foothill Drive, não muito longe daqui. Peguem a primeira transversal à
direita que vai dar lá. Podem ver o número da casa na lista telefônica, ali na
escrivaninha. Está em nome do filho dela, Roy Bradshaw.
Agradeci a ele. Mario deitou no carrinho rolante e deslizou para baixo do
Jaguar. A lista estava sob o telefone na desmantelada escrivaninha encostada a
um canto. Encontrei o nome: “Roy Bradshaw, 311 Foothill Drive.”
— Podíamos telefonar daqui — disse Alex.
— É sempre melhor ir pessoalmente.

A despeito dos armazéns e das indústrias do entorno, Pacific Point tinha


preservado a identidade. Foothill Drive era debruada de árvores e conservava
uma caraterística poeirenta imutável. Famílias com velhas raízes ainda moravam
atrás de paredes que haviam resistido a terremotos ou de sebes vivas que
sobreviveram a gerações de jardineiros.
A majestosa sebe de ciprestes do 311 ocultava a casa completamente da rua.
Entrei pelo portão de ferro, que estava aberto, levando Alex atrás de mim.
Passamos por um pequeno pavilhão branco de porta e persianas verdes,
dobramos uma curva na entrada de carros e avistamos a casa branca estilo
colonial.
Uma mulher com um grande chapéu de palha amarrado debaixo do queixo
estava ajoelhada e desaparecia até os ombros no meio das flores em frente à
casa. Empunhava nas mãos enluvadas uma tesoura de podar, cujo estalido
começamos logo a ouvir.
Ela ficou em pé com dificuldade e dirigiu-se para nós, entalando madeixas
de cabelo grisalho debaixo do chapéu. Não passava de uma mulher velha de
tênis sujos, mas o corpo dela, indefinido num vestido azul solto, ostentava uma
pesada majestade, como se recordasse que tinha sido outrora forte ou talvez
bonito. A arquitetura de sua face desmoronara sob o peso da carne e dos anos.
Mas seus olhos negros se conservavam vigilantes como os de um bicho
inesperadamente vivo em meio a ruínas.
— Sra. Bradshaw? — perguntou Alex ansiosamente.
— Sou a Sra. Bradshaw. O que desejam? Estou muito ocupada, como podem
ver. — Fez um floreio com a tesoura. — Nunca confio em ninguém para podar
minhas rosas. E mesmo assim elas morrem, coitadinhas. — Havia pesar na sua
voz.
— A mim parecem muito bonitas — eu disse em tom animador. — Eu e o Sr.
Kincaid lamentamos incomodá-la. Mas ele parece ter perdido o rastro da mulher,
temos razão para crer que ela está trabalhando aqui.
— Para mim? As únicas pessoas que emprego é meu casal espanhol. Meu
filho — acrescentou com um laivo de orgulho — me obriga a limitar as
despesas.
— Não tem uma motorista?
Ela sorriu.
— Tinha esquecido completamente dela. Trabalha apenas meio período.
Como se chama ela? Molly? Dolly? Nunca consigo lembrar o nome das garotas.
— Dolly — eu disse, e mostrei a foto. — É esta?
Ela descalçou uma luva para pegar a foto.
Tinha a mão deformada pela artrite.
— Creio que sim. Mas ela nunca me disse que era casada. Nunca a teria
contratado se soubesse, traz sempre complicações. E eu gosto de dar meus
passeios de carro em horas certas.
Alex interrompeu sua loquacidade.
— Onde ela está agora?
— Nem imagino. Ela já acabou o horário dela para mim. Pode ter ido a pé
para a escola ou pode estar na portaria. Eu deixo as garotas usarem o pavilhão.
Às vezes elas abusam desse privilégio, mas até hoje esta não o fez. — Lançou a
Alex uma olhada severa. — Espero que não vá começar, agora que você
apareceu.
— Não creio que ela continue...
Cortei-lhe a palavra.
— Vá ver se ela está no prédio. — Virei-me para a Sra. Bradshaw: — Há
quanto tempo está com ela?
— Há duas semanas. O semestre começou há duas semanas.
— Ela está matriculada?
— Sim. Contrato lá minhas garotas, exceto quando preciso de uma
empregada permanente, como quando meu filho esteve no estrangeiro no verão
passado. Espero não perder Dolly. É mais inteligente do que a maioria. Mas se
ela for embora creio que haverá sempre outras. Quando você chegar a minha
idade descobrirá que os jovens deixam os velhos...
Virou-se para as rosas que resplandeciam vermelhas e amarelas ao sol.
Parecia procurar alguma maneira de rematar a frase. Não lhe ocorreu nenhuma e
eu perguntei: — Que nome ela usa? E o sobrenome?
— Lamento, não me lembro. Trato-as sempre pelo nome próprio. Meu filho
pode saber.
— Ele está aqui?
— Roy está na faculdade. É o diretor.
— Fica longe?
— Pode ver de onde está.
A mão artrítica envolveu meu cotovelo e me fez virar suavemente. Através
de uma abertura nas árvores avistei a cúpula de metal de um pequeno
observatório. A velhota falou no meu ouvido, em tom alcoviteiro: — O que
aconteceu entre seu jovem amigo e a mulher?
— Vieram passar aqui a lua de mel e ela o deixou. Ele está tentando
descobrir por quê.
— Que comportamento estranho... — disse ela. — Eu nunca teria feito uma
coisa dessas na minha lua de mel. Tinha respeito pelo meu marido. Mas as
garotas hoje são diferentes, não são? Lealdade e respeito não significam nada
para elas. Você é casado?
— Fui.
— Estou vendo. É pai do rapaz?
— Não. Meu nome é Archer. Sou detetive particular.
— Ah, sim? Que ideia faz de tudo isso? — Apontou vagamente com a
tesoura de podar na direção do pavilhão.
— Por enquanto nada. Ela pode tê-lo deixado por uma birra infantil. Ou pode
ter tido razões ocultas mais profundas. Tudo o que posso fazer é perguntar. A
propósito, Sra. Bradshaw, ouviu falar de um homem chamado Begley?
— Begley?
— É um sujeito grande de barba grisalha curta. Visitou a garota na Surf
House no dia em que ela deixou o marido. Há uma certa possibilidade de que ele
seja o pai de Dolly.
Ela umedeceu os lábios vincados com a ponta arroxeada da língua.
— A garota não me falou dele. Não costumo encorajar as garotas a fazerem
confidências. Talvez devesse.
— Qual tem sido ultimamente o estado de espírito de Dolly?
— É difícil dizer. É sempre igual. Tranquila. Virada para si mesma.
Alex apareceu na curva do caminho, aproximando-se rapidamente. Seu rosto
brilhava.
— É ela sem dúvida. Encontrei as coisas dela no armário.
— Você não estava autorizado a entrar lá — disse a Sra. Bradshaw.
— A casa é dela, não é?
— Acontece que é minha.
— Mas ela tem o direito de usá-la, não tem?
— Ela tem. Você não.
Uma briga com a patroa de Dolly era a última coisa que podia interessar a
Alex. Entrei no meio deles e o fiz dar meia volta, livrando-o de encrenca pela
segunda vez.
— Desapareça — eu disse, colocando-o no carro. — Está se intrometendo no
meu trabalho.
— Mas tenho que vê-la.
— Verá. Vá ao Mariner's Rest Motel e arranje instalações para nós dois.
Fique na rua que vai dar na Surf House...
— Eu sei onde é. Mas e Dolly?
— Vou à faculdade falar com ela. Trago-a de volta comigo, se ela quiser.
— Mas por que não posso ir? — perguntou, como um menino mimado.
— Porque eu não quero que vá. Dolly tem uma vida separada que só a ela
pertence. Você pode não gostar, mas não tem o direito de pular dentro e acabar
com ela. Encontro-o no motel.
Alex arrancou rápida e furiosamente, derrapando as rodas. A Sra. Bradshaw
tinha voltado a suas rosas. Pedi a ela muito cortesmente para examinar as coisas
de Dolly. Ela disse que isso precisaria ser autorizado pela própria Dolly.
5
capítulo

O campus era um oásis de verde-vivo entre as encostas marrons de setembro.


A maior parte dos prédios era recente e muito moderna, tudo ornamentado com
paredes de concreto perfurado e vegetação semitropical. Um rapaz descalço
sentado embaixo de uma palmeira na beira do caminho desviou-se por um
momento da leitura de seu Salinger1 para me mostrar onde ficava a
administração.
Estacionei nos fundos do prédio, em meio a calhambeques dispersos com
adesivos da faculdade. Um Thunderbird novo em folha preto destacava-se entre
eles. Era final da tarde de sexta-feira e começava o prolongado fim de semana
escolar. O cubículo envidraçado de informações na entrada do pavilhão estava
vazio. Os corredores, praticamente desertos.
Encontrei o escritório do diretor sem muita dificuldade. A antessala
apainelada era mobiliada com módulos nórdicos cambiáveis e uma secretária
loura, sentada diante da máquina de escrever, guardava a porta interna. Tinha o
rosto pálido e magro, olhos azuis cansados, que haviam trabalhado tempo
demais sob luzes fluorescentes, e uma voz desconfiada:
— Em que posso servi-lo?
— Gostaria de falar com o diretor.
— Lamento, o Dr. Bradshaw está muito ocupado. Talvez eu possa fazer
alguma coisa...
— Talvez. Estou tentando entrar em contato com uma aluna. O nome dela é
Dolly McGee, ou Dolly Kincaid.
— Qual deles? — perguntou, com um ligeiro arquejo de irritação.
— O nome de solteira é McGee, o nome de casada é Kincaid. Não sei qual
deles ela usa.
— É da família? — inquiriu ela delicadamente.
— Não, não sou pai dela. Mas tenho boas razões para querer vê-la.
Ela olhou para mim como se eu fosse agente confesso do tráfico de carne
branca.
— É nossa norma não dar informações sobre alunos a não ser aos pais.
— E aos maridos?
— É o marido?
— Represento o marido. Acho melhor me deixar falar com o diretor.
— Não posso fazer isso — tornou ela em tom definitivo. — O Dr. Bradshaw
está em reunião com os diretores de departamento. Que assunto deseja tratar
com Miss McGee?
— É particular.
— Ah, sim!
Tínhamos chegado a um beco sem saída. Eu acrescentei na esperança de
fazê-la sorrir: — É nossa norma não dar informações.
Ela pareceu ofendida e voltou para sua máquina de escrever. Eu fiquei e
esperei. Vozes se erguiam e baixavam atrás da porta interna. “Orçamento” era a
palavra que eu surpreendia com mais frequência. Passado um instante, a
secretária disse: — Acho que pode tentar a Dra. Sutherland, se ela estiver. A Dra.
Sutherland é a diretora da seção feminina. O escritório dela fica no outro lado do
corredor.

A porta dela estava aberta. A mulher era daquele tipo impecável, que as faz
parecer velhas aos vinte anos e novas aos quarenta. Usava o cabelo penteado
num rolo atrás do pescoço. Sua única concessão à beleza era um fino traço de
batom acentuando a boca reta. Apesar disso era uma mulher bonita. O rosto era
finamente cinzelado. A frente da blusa enfunava sobre a escrivaninha como uma
vela ao sabor do vento.
— Entre — disse ela, com uma severidade a que eu começava a me habituar.
— O que está esperando?
Seus belos olhos me mantinham hipnotizado. Olhar para eles era como olhar
para o núcleo maravilhoso de um iceberg, olhos feitos de gelo verde onde
fulgurava uma luz fria.
— Sente-se — disse ela. — Qual é seu problema?
Disse-lhe quem era e o que me levava ali.
— Mas não temos aqui nenhuma Dolly McGee ou Dolly Kincaid.
— Nesse caso deve estar usando outro nome. Sei que estuda aqui. E é
motorista da mãe do diretor Bradshaw.
Mostrei-lhe a foto.
— Mas essa é Dorothy Smith. Por que teria se matriculado com nome falso?
— É isso que o marido desejaria saber.
— O marido é esse que está com ela na foto?
— É.
— Parece um rapaz bem decente.
— Aparentemente ela não pensa assim.
— É muito estranho. — os olhos dela tinham deixado de me fitar e senti-me
fraudado. — Por outro lado, não vejo como ela podia ter se matriculado sob
nome falso, a não ser que trouxesse credenciais falsas. — Levantou-se
abruptamente. — É só um minuto, Sr. Archer.
Dirigiu-se à sala ao lado, onde os arquivos metálicos se alinhavam como
caixões em pé, e voltou com uma pasta que abriu na escrivaninha. Não havia
muita coisa lá dentro.
— Estou vendo — disse ela mais ou menos para si mesma. — Ela foi
admitida provisoriamente. Há aqui uma nota indicando que a transferência dela
está a caminho.
— Até quando vale a admissão provisória?
— Até o fim de setembro. — Ela consultou o calendário em cima da
escrivaninha. — Isso lhe dá nove dias para apresentar a transferência. Mas muito
antes disso ela terá que nos dar uma explicação. Não somos tolerantes para esse
tipo de fraude. E eu que tinha a impressão de que ela era uma garota decente! —
Sua boca descaiu nos cantos.
— Conhece-a pessoalmente, Dra. Sutherland?
— Faço questão de conhecer todas as garotas que entram. Até me dei ao
trabalho de ser útil a miss ou mrs. Smith-Kincaid. De fato até lhe arranjei um
emprego de meio período na biblioteca.
— E o trabalho de motorista para a Sra. Bradshaw?
Ela acenou que sim.
— Ouvi dizer que havia uma vaga e a recomendei. — Olhou para o relógio.
— Ela deve estar lá agora.
— Não está. Acabo de vir da casa da Sra. Bradshaw. E a propósito, seu
diretor tem uma bela casa. Eu achava que o salário dos professores era muito
baixo.
— E é. Dr. Bradshaw provém de antiga família muito abastada. Qual foi a
reação da mãe dele a tudo isso? — Fez um gesto impaciente, que de certo modo
me incluía.
— Deu impressão de aceitar bem. É uma velhota muito inteligente.
— Ainda bem que é essa a sua impressão — disse ela, como se já tivesse
tido outro tipo de experiência com a Sra. Bradshaw. — Bem, acho que é melhor
eu ir ver se a Sra. Smith-Kincaid está na biblioteca.
— Eu podia ir lá perguntar.
— Acho que não. Prefiro falar primeiro com ela e descobrir o que se passa
naquela cabecinha.
— Eu não queria causar complicações à moça.
— Claro que não, e não causou. A complicação está e estava lá. Você se
limitou a descobri-la. Estou agradecida por isso.
— Poderia sua gratidão — perguntei cuidadosamente — tomar a forma de
me deixar ser eu o primeiro a falar com ela?
— Receio que não.
— Eu tenho uma grande experiência de conseguir que as pessoas me contem
coisas.
Foi a pior coisa que eu podia ter dito. A boca da diretora voltou a descer nos
cantos. O busto transformou-se de promessa em ameaça.
— Eu também tenho experiência, uma experiência de muitos anos, e sou
uma conselheira diplomada. Se quiser ter a bondade de esperar lá fora, vou
tentar me comunicar por telefone com ela na biblioteca. — Lançou-me uma
última flecha quando eu saía: — E por favor, não tente interceptá-la quando ela
vier para cá.
— Isso nunca me passaria pela cabeça, Miss Sutherland.
— Doutora Sutherland, se não se importa.
Saí e fui ler os boletins no painel junto do cubículo de informações. As belas
perspectivas de atividades estudantis, danças e convívios e clubes de poesia e
cafés onde só se falava francês serviram apenas para me entristecer. Em parte
porque eu não levara até o fim meu curso universitário, em parte porque acabava
de comprometer o de Dolly.
Uma garota com óculos de tartaruga e um rapaz de blusão universitário
entraram lentamente vindos da rua e se encostaram na parede. Ela explicava
alguma coisa sobre Aquiles e a tartaruga. Aquiles perseguia a tartaruga, ao que
parecia, mas, segundo Zenão, jamais a alcançaria. O espaço entre eles era
divisível num número infinito de partes; portanto Aquiles levaria um período
infinito de tempo para percorrê-las. Nessa altura a tartaruga já estaria em outro
ponto qualquer.
— Isso eu entendo — disse o rapaz, acenando com a cabeça.
— Mas não é assim — gritou a garota. — A infinita divisibilidade do espaço
é meramente teórica. Não afeta o movimento real através do espaço.
— Aí não entendo, Heidi.
— Claro que entende. Imagine-se no campo de futebol. Está na área e uma
tartaruga começa a fugir de você a partir do meio do campo.
Deixei de ouvir. Dolly vinha subindo os degraus lá fora para a porta de vidro,
uma garota de cabelos pretos com saia xadrez e casaco de lã. Apoiou-se na porta
por um momento antes de abri-la. Parecia ter caído desde a foto de Fargo. A pele
perdera o viço, o cabelo não tinha sido recentemente escovado. Seu olhar incerto
passou por mim sem me fixar.
Parou bruscamente antes de alcançar o escritório da Dra. Sutherland.
Virando-se num movimento súbito, voltou para a porta da frente. Tornou a parar,
entre mim e os dois filósofos, e ficou ponderando algo. Impressionou-me sua
beleza ligeiramente carrancuda, os olhos escuros e velados pelos pensamentos.
Tornou a dar meia volta e se arrastou pelo corredor ao encontro de seu destino.
A porta do escritório se fechou atrás dela. Fiquei passeando lentamente
diante da porta e ouvi lá dentro o murmúrio das vozes femininas, mas nada de
inteligível. Do escritório do Dr. Bradshaw, do outro lado do vestíbulo, os
diretores de departamento emergiram em massa. A despeito de seus óculos, suas
testas altas e suas costas curvadas de mestre, pareciam colegiais saindo de uma
aula para o recreio.
Uma mulher de cabelo cortado curto à navalha entrou no pavilhão e atraiu
todos os olhares. O cabelo platinado brilhava contra o bronzeado profundo da
face. Ela se reuniu a um homem parado sozinho na porta do escritório do diretor.
Ele parecia menos interessado nela que ela nele. O homem era bonito, com
um rosto um tanto meigo e melancólico, do tipo que excita paixão maternal nas
mulheres. Embora o cabelo castanho ondulado começasse a ficar grisalho nas
têmporas, ele parecia antes um universitário que vinte anos depois da formatura
ergueu os olhos de cima dos livros e descobriu que era um homem de meia-
idade.
A Dra. Sutherland abriu a porta do escritório e fez um sinal para ele.
— Pode conceder um minuto, Dr. Bradshaw? Surgiu um problema sério. —
Estava pálida e carrancuda como um algoz relutante.
Ele se desculpou. Os dois diretores se fecharam com Dolly. A mulher de
cabelo cortado curto franziu o cenho para a porta fechada. Depois lançou-me um
olhar avaliador, como se procurasse um substituto. Tinha uma boca promissora,
boas pernas e um ar impaciente de predadora. Suas roupas tinham classe.
— Procura alguém? — perguntou.
— Apenas esperando.
— Quem, Lefty ou Godot? Tem diferença.
— Lefty Godot. O pitcher.
— The pitcher in the rye?2
— Em matéria de uísque ele prefere bourbon.
— Eu também — disse ela. — Parece ser anti-intelectual, senhor...
— Archer. Não passei no teste?
— Depende de quem faz a classificação.
— Tenho pensado às vezes em voltar para a universidade. Faz a coisa
parecer atraente, e também me sinto muito deslocado quando meus amigos falam
de Jack Kerouac, Eugene Burdick e outros grandes escritores que eu não consigo
entender. Sério, se eu resolvesse voltar para a universidade, recomendaria essa
escola?
Ela me lançou outro de seus olhares avaliadores.
— Não para você, Sr. Archer. Creio que se sentiria mais à vontade numa das
grandes universidades urbanas, como Berkeley ou Chicago. Eu mesma estive em
Chicago. Essa escola é um contraste completo.
— Sob que aspecto?
— Sob inúmeros aspectos. Para começar, o nível de sofisticação aqui é muito
baixo. Foi tempos atrás uma escola muito restrita e a atmosfera moral ainda se
pauta pelos espartilhos vitorianos. — Como que para demonstrar que não se
pautava por tais espartilhos, coçou a pélvis. — Me contaram que quando Dylan
Thomas veio aqui... mas talvez seja melhor não falar nisso. De mortuis nil nisi
bonum.
— Ensina latim?
— Não, sei pouco latim e ainda menos grego. Tento ensinar línguas
modernas. Bom, meu nome é Helen Haggerty. Como eu ia dizendo, não
recomendo francamente Pacific Point. Os padrões estão melhorando ano a ano,
mas ainda há muito macaco. Daqui você pode ver alguns.
Lançou um olhar sardônico para a entrada, onde cinco ou seis colegas dela
faziam a autópsia de sua conferência com o diretor.
— Aquele com quem estava falando era o Dr. Bradshaw, não era?
— Sim. É com ele que você quer falar?
— Entre outros.
— Não se sinta intimidado pela aparência pouco acolhedora. É um belo
professor, o único aqui com doutorado em Harvard, e pode aconselhá-lo
incomparavelmente melhor do que eu. Mas diga francamente, está falando sério
quando diz que quer voltar à universidade? Ou está me gozando?
— Talvez esteja gozando um pouquinho.
— Podia me gozar mais eficazmente com uma bebida. Estou querendo uma
bebida, de preferência um bourbon.
— É uma bela proposta. — E muito súbita, pensei. — Combinemos para
mais tarde, sim? Neste momento preciso esperar Lefty Godot.
Ela pareceu mais desapontada do que tinha o direito de ficar. Mas nos
separamos em termos razoavelmente bons e mutuamente desconfiados.
A porta fatal em que eu estava de olho se abriu finalmente. Dolly saiu de
costas, agradecendo aos dois diretores efusivamente e praticamente em
reverências. Mas eu vi quando ela se virou e se dirigiu para a entrada que seu
rosto estava muito pálido e crispado.
Fui atrás dela me sentindo ridículo. A situação lembrava o caso de uma
garota do ginásio que eu costumava seguir. Nunca juntei coragem suficiente para
lhe pedir o privilégio de carregar seus livros. Mas comecei a identificar Dolly
com essa garota inacessível, de cujo nome já nem sequer me lembrava.
Ela apertou o passo na alameda que dividia o campus e começou a subir os
degraus da biblioteca. Coloquei-me ao lado dela.
— Sra. Kincaid?
Ela parou como se eu lhe tivesse dado um tiro. Peguei o braço dela
instintivamente. Ela sacudiu minha mão e abriu a boca como que para gritar por
socorro. Nenhum som saiu de lá. Os outros alunos em volta, passando na larga
alameda ou tagarelando nos degraus, não prestaram atenção ao grito silencioso.
— Preciso muito lhe falar, Sra. Kincaid.
Ela puxou o cabelo para trás, tão violentamente que um olho repuxou,
dando-lhe um ar euro-asiático.
— Quem é você?
— Um amigo de seu marido. Fez Alex passar três semanas muito ruins.
— Devo ter feito — disse ela, como se aquilo acabasse de lhe ocorrer.
— Também deve ter passado três semanas muito ruins se sente amor por
Alex. Sente?
— Sinto o quê? — Parecia ligeiramente desorientada.
— Amor por Alex.
— Não sei. Ainda não tive tempo de pensar nisso. Não quero discutir isso
com você nem com ninguém. É realmente um amigo de Alex?
— Acho que posso me considerar. Ele não compreende o que você está
fazendo. Está muito triste.
— Sem dúvida é culpa minha. Espalhar a ruína é a minha especialidade.
— Mas não tem que ser. Por que não acaba com isso, seja lá o que for que
esteja fazendo, para dar a seu marido outra oportunidade? Ele está esperando
aqui na cidade.
— Ele pode esperar até o dia do juízo final, não pretendo voltar para ele.
A voz jovem era surpreendentemente firme, quase dura. Havia em seus olhos
algo de que eu não gostei. Eram olhos dilatados, secos e fixos, olhos que haviam
esquecido como chorar.
— Alex magoou você em alguma coisa?
— Ele nem seria capaz de magoar uma mosca. Você sabe disso, se é
realmente amigo dele. É um rapaz doce e inofensivo, e eu não quero magoá-lo.
— Ela acrescentou com consciente drama: — Diga-lhe para festejar por ter
escapado a tempo.
— E essa a única mensagem que tem para seu marido?
— Ele não é realmente meu marido. Diga a ele para pedir anulação. Diga que
não estou ainda pronta para sossegar. Diga que decidi terminar meu curso.
Ela fez aquilo soar como uma viagem solitária à lua, só de ida.

Voltei ao pavilhão da administração. O pavimento da alameda imitando lajes


era liso e suave, mas eu tinha a sensação de estar enterrado até os joelhos num
terreno esburacado. A porta da Dra. Sutherland estava fechada e, quando bati,
seu “entre” foi demorado e um tanto abafado.
O Dr. Bradshaw ainda estava com ela, parecendo mais do que nunca um
universitário sobre quem tivesse caído uma ligeira geada durante a noite.
Ela estava afogueada, e seus olhos estavam de um verde-esmeralda brilhante.
— Este é o Sr. Archer, Brad, o detetive de que lhe falei.
Ele me deu um aperto de mão ferozmente competitivo.
— É um prazer conhecê-lo. Embora — disse, com uma tentativa de sorriso
— seja um prazer empanado pelas circunstâncias. Lamento muito a necessidade
de ter vindo aqui a nosso campus.
— A espécie de trabalho que eu faço tem que ser feito — eu disse
defensivamente. — A Sra. Kincaid fugiu do marido e ele tem o direito a uma
explicação. Ela lhes deu alguma?
A Dra. Sutherland fez uma cara severa: — Ela não volta para ele. Descobriu
na noite de casamento alguma coisa de tão terrível que...
Bradshaw ergueu a mão.
— Um momento, Laura. Os fatos que ela lhe confiou são de natureza
confidencial. Não queremos certamente que este amigo volte para o marido com
eles. A pobre garota já está com muito medo sem isso.
— Com medo do marido? Acho isso difícil de acreditar — eu disse.
— Ela não abriu o coração com você — disse Laura Sutherland
acaloradamente. — Por que acha que a pobre garota usou um nome falso?
Estava com um medo terrível de que ele a localizasse aqui.
— Está sendo melodramática, sabe... — O tom de Bradshaw era indulgente.
— O rapaz não pode ser assim tão ruim.
— Você não a ouviu, Brad. Ela contou coisas de mulher para mulher que eu
não lhe contei nem tenciono contar.
— Talvez estivesse mentindo — eu disse.
— Tenho absoluta certeza que não! Sei conhecer a verdade quando a ouço. E
meu conselho é que volte para esse marido dela, seja lá ele o que for, e diga-lhe
que não conseguiu encontrá-la. Ela ficará mais segura e mais feliz se fizer isso.
— Ela parece estar bem segura. Feliz não está com certeza. Falei com ela lá
fora por um minuto.
Bradshaw inclinou a cabeça na minha direção: — E que ela disse?
— Nada de sensacional. Não fez acusação alguma contra Kincaid. De fato
acusou a si própria do que aconteceu. Diz que quer continuar a estudar.
— Ótimo.
— Vão deixá-la ficar?
Bradshaw acenou com a cabeça.
— Decidimos fazer vista grossa a sua pequena fraudezinha. Somos a favor
de dar aos jovens uma certa margem de manobra, desde que não violem os
direitos dos outros. Ela pode ficar por agora e continuar a usar o pseudônimo se
quiser. — Acrescentou com seco humor acadêmico. — “Uma rosa sob um nome
diferente”, sabe.
— Ela vai providenciar para que suas certidões de habilitação nos sejam
enviadas imediatamente — disse a Dra. Sutherland. — Ao que parece tem dois
anos de preparatório e um semestre na universidade.
— O que ela pretende estudar aqui?
— Está se especializando em psicologia. Segundo a professora Haggerty ela
tem queda para isso.
— Como é que a professora Haggerty sabe?
— É a conselheira acadêmica de Dolly. Ao que parece Dolly está
profundamente interessada em psicologia criminal e patológica.
Por alguma razão pensei na cara barbuda de Chuck Begley e em seus olhos
opacos como os de uma estátua.
— Quando falaram com Dolly ela disse alguma coisa de um homem
chamado Begley?
— Begley? — Olharam um para o outro e depois para mim. — Quem —
perguntou ela — é Begley?
— É possível que seja o pai dela. Seja como for, ele tem algo a ver com o
abandono do marido. E eu não acreditaria muito em perversões asiáticas de Alex
ou seja lá qual for a acusação. Ele é um cara limpo e a respeita.
— Tem direito a suas opiniões — disse Laura Sutherland, como se eu não
tivesse. — Mas, por favor, não proceda precipitadamente. Dolly é uma garota
muito sensível e aconteceu algo que a abalou profundamente. Fará um bom
serviço a ambos se os mantiver separados.
— Concordo — disse Bradshaw solenemente.
— O mal é que estou sendo pago para reuni-los. Mas vou pensar no caso e
discutir com Alex.

________________
1 J. D. Salinger (1919-2010), autor americano de O Apanhador no Campo de
Centeio (1951), romance de grande sucesso. (N. do T.)
2 Neste diálogo, praticamente intraduzível, há uma série de trocadilhos com
títulos de obras literárias. Esperando Godot é uma peça de Beckett; The pitcher
in the rye: pitcher é jogador de basebol e rye é um uísque de centeio) — alusão
ao romance de Salinger, que de fato se intitula The Catcher in the Rye (sendo
catcher o jogador que recebe a bola. Traduzindo para linguagem corrente, parece
que, à pergunta da professora, o detetive responde que está esperando o diretor,
não sendo muito compreensível a réplica, visto que estar in the rye pode
significar “andar bebendo”, o que, como se vê pelo seguimento da história, não
corresponde aos hábitos da personagem; Lefty, como apelido comum, significa
canhoto (principalmente o jogador de basebol que joga com a mão esquerda),
esquerdista. (N. do T.)
6
capítulo

No estacionamento a professora Helen Haggerty estava sentada ao volante


do novo Thunderbird preto conversível. Tinha baixado a capota e estacionara o
carro ao lado do meu, como que para fazer contraste. O sol do fim da tarde,
escorregando pelas encostas das colinas, brilhava em seu cabelo, nos olhos e nos
dentes.
— Olá outra vez — disse ela.
— Está me esperando?
— Só se você for canhoto.
— Sou ambidestro1
— Deve ser. Há pouco me driblou.
— Eu fiz isso?
— Já sei quem você é. — Deu um tapa num jornal dobrado ao lado dela no
banco de couro. O título visível anunciava: “Sra. Perrine. Absolvida.” Helen
Haggerty acrescentou: — Um caso muito excitante. O jornal diz que você
conseguiu libertá-la. Mas não é muito claro como o fez.
— Evidentemente contei a verdade e o júri acreditou. Na hora em que o furto
foi cometido aqui em Pacific Point eu tinha a Sra. Perrine sob rigorosa vigilância
em Oakland.
— Por quê? Outro furto?
— Não seria leal responder.
Ela deu um sorriso de simulado pesar, que combinava maravilhosamente
com as linhas de seu rosto.
— Todos os fatos interessantes são confidenciais. Mas acontece que sou
mestra em questões de segurança. Na verdade, meu pai é policial. Portanto, entre
e conte-me tudo sobre a Sra. Perrine.
— Não posso fazer isso.
— Tenho uma ideia melhor — disse ela, com seu vivo sorriso perverso. —
Por que não vem a minha casa tomar um drinque?
— Lamento. Tenho trabalho a fazer.
— Trabalho de detetive?
— Digamos que sim.
— Vamos lá... — Com um movimento sutil seu corpo juntou-se ao convite.
— Trabalhar sem folgar torna as pessoas chatas. Você não quer ser um chato e
não quer fazer com que eu me sinta rejeitada. Além disso, temos coisas para
falar.
— O caso Perrine está encerrado. Nada pode me interessar menos.
— Eu estava pensando no caso Dorothy Smith. Não é por isso que você está
no campus?
— Quem disse?
— Rádio-corredor. As universidades têm a melhor rádio-corredor, só
igualadas pelas penitenciárias.
— Está familiarizada com penitenciárias?
— Não intimamente. Mas não estava brincando quando disse que meu pai
era policial. — Uma expressão atormentada perpassou seu rosto. Cobriu-a com
outro sorriso. — Temos coisas em comum. Por que não vem comigo?
— Tudo bem. Sigo você. Assim poupo o trabalho de me trazer de volta.
— Maravilhoso.
Ela dirigia tão depressa quanto agia, com um nervosismo brusco e um
completo desrespeito pelas regras de trânsito. Felizmente o campus estava quase
deserto. Diminuídos pelas colinas e pelas próprias sombras alongadas, os prédios
pareciam parte do cenário de um estúdio fechado para a noite.
Ela morava em Foothill Drive numa casa da encosta feita de alumínio, vidro
e aço negro esmaltado. O telhado mais próximo flutuava entre carvalhos anões
um quarto de milha além. Uma pessoa em pé na sala junto à lareira podia ver as
montanhas azuis subindo de um lado e o oceano cinzento desaparecendo do
outro. A neblina da orla marítima começava a invadir a terra.
— Gosta do meu ninho?
— Muito.
— Não é realmente meu, infelizmente. No momento é apenas alugado,
embora eu tenha esperança. Sente-se. O que quer beber? Vou tomar gim-tônica.
— Serve perfeitamente.
O chão de tijolo polido estava quase despido de móveis. Perambulei pela
sala, parando diante de uma parede de vidro olhando para fora. Um pombo bravo
jazia no chão com o pescoço quebrado. Sua vaga imagem de asas abertas
recortada na poeira mostrava o lugar onde ele se chocara em voo contra o vidro.
Sentei-me numa cadeira de vime. Helen Haggerty trouxe as bebidas e instalou-se
numa cadeira de lona, onde o sol lhe iluminava de novo os cabelos e brilhava em
suas pernas de um bronzeado polido.
— A verdade é que por enquanto estou apenas acampada — disse. — Não
mandei buscar meus móveis porque não sei se quero realmente tornar a vê-los.
Posso deixá-los no depósito e recomeçar tudo de novo, e a história que vá para o
diabo. Acha isso uma boa ideia, Lefty Lew das bolas de efeito?
— Pode me chamar do que quiser, não me importo. Tenho que conhecer sua
história.
— Ah, nunca. — Olhou-me severamente por um minuto, depois provou a
bebida. — Pode me chamar de Helen.
— Tudo bem, Helen.
— Diz isso de uma maneira tão cerimoniosa. Não sou uma pessoa
cerimoniosa e você também não. Por que ser cerimoniosos um com o outro?
— Você mora numa casa de vidro, para começar — eu disse, sorrindo. —
Presumo que não a tenha há muito tempo.
— Um mês. Menos de um mês. Parece mais. Você é o primeiro homem
realmente interessante que encontrei desde que cheguei.
Driblei a cantada:
— Onde morava antes?
— Aqui e ali. Ali e aqui. Nós, professores, somos autênticos nômades. Mas
não me agrada. Gostaria de me fixar. Estou ficando velha.
— Não se nota.
— Está sendo lisonjeiro. Velha para uma mulher, quero dizer. Os homens
nunca envelhecem.
Agora que ela me tinha onde aparentemente me queria, não fazia tanta
pressão, mas continuava trabalhando. Desejei que ela acabasse com aquilo
porque gostava dela. Terminei minha bebida. Ela trouxe um segundo gim com
toda a rapidez e eficiência de uma empregada servindo coquetéis. Eu não
conseguia me libertar da desagradável sensação de que estávamos ambos ali para
tirar informações um do outro.
Com a segunda bebida, ela me deixou olhar embaixo do vestido. Tinha a pele
macia e bronzeada pelo que me foi possível ver. Colocara-se na cadeira com um
quadril levantado para permitir que eu admirasse a curva. O sol, na sua
conflagração final antes de desaparecer no poente, tomou posse da sala.
— Quer que feche as cortinas? — perguntou ela.
— Não se incomode. Vai escurecer logo. Você ia falar de Dolly Kincaid,
aliás Dolly Smith.
— Ia?
— Foi você que trouxe o assunto à baila. Parece que é a conselheira
acadêmica da garota.
— E é por isso que está interessado em mim, n’est-ce pas? — Seu tom era
zombeteiro.
— Já estava interessado antes de saber de sua conexão com Dolly.
— Verdade?
— Verdade. A prova é que estou aqui.
— Você está aqui porque eu o encantei com as palavras mágicas Dolly
Smith. Seja como for, o que ela está fazendo na universidade? — Parecia quase
ciumenta.
— Eu esperava que você soubesse a resposta.
— Você não sabe?
— Dolly conta histórias contraditórias, provavelmente derivadas da ficção
romântica...
— Não acho — disse ela. — É realmente romântica... uma dessas garotas
idealistas que estão sempre um passo ou dois adiante da mente inconsciente. Sou
obrigada a saber, eu mesma fui assim. Mas acho também que ela tem algum
problema real... um problema terrível.
— Qual foi a história dela para você?
— Não foi nenhuma história. Foi a feia verdade. Chegaremos lá se você for
um bom menino. — Agitou-se como uma odalisca na luz moribunda e recruzou
as pernas elegantes. — Até que ponto é corajoso, Sr. Lew?
— Homens não falam de como são corajosos.
— Você está cheio de máximas de caderno — disse ela com certa malícia. —
Quero uma resposta séria.
— Pode sempre me testar.
— Lá isso posso. Tenho um serviço... olhe, preciso de um homem.
— Isso é um convite, uma proposta de trabalho ou está pensando em outra
pessoa qualquer?
— Você é o homem que eu tenho em mente. O que acharia se eu lhe dissesse
que corro o risco de ser assassinada neste fim de semana?
— Aconselharia a passar o fim de semana fora.
Ela se debruçou de lado para mim. Os seios mal balançaram.
— Aceita trabalhar para mim?
— Neste momento estou ocupado.
— Se se se refere ao jovem Alex Kincaid posso pagar mais do que ele. Para
não mencionar os bônus.
— Essa faculdade tem mesmo uma boa rádio-corredor. Ou é Dolly sua fonte
de informação?
— Ela é uma das fontes. Eu podia contar coisas dessa garota que deixariam
seu cabelo ondulado.
— Continue. Sempre quis um cabelo ondulado.
— E por que continuaria? Você não oferece nada em troca. Nem sequer me
leva a sério. A propósito, não estou acostumada com rejeição.
— Não é nada pessoal. É que sou do tipo fleumático. Além disso, você não
precisa de mim. Há estradas em três direções, México, o deserto ou Los Angeles,
e você tem um carro muito rápido.
— Estou nervosa demais para uma viagem longa.
— Com medo?
Ela fez que sim.
— Mas está com uma cara boa.
— Uma cara boa é tudo o que tenho.
A cara parecia fechada e escura, talvez porque o sol tinha sumido da sala. Só
o cabelo parecia conservar a luz. Além das curvas de seu corpo, eu podia ver as
montanhas escurecendo.
— Quem quer matar você, Helen?
— Não sei precisamente. Mas tenho sido ameaçada.
— Como?
— Por telefone. Não reconheço a voz. Não sei dizer se é homem, mulher ou
algo entre ambos.
Vi-a estremecer.
— Por que alguém a ameaçaria?
— Não sei — disse ela, sem encontrar meus olhos.
— Os professores são ameaçados de vez em quando. Em geral, não é nada
sério. Discutiu com algum tarado local?
— Nem sequer conheço gente daqui, fora da faculdade, claro.
— Pode ser haver um psicopata nas suas classes.
Ela meneou a cabeça.
— Não é nada disso. É sério.
— Como sabe?
— Tenho meu jeito de saber.
— Tem algo a ver com Dolly Kincaid?
— Talvez. Não sei ao certo. A situação é muito complicada.
— Fale da situação complicada.
— Vem de muito longe — disse ela —, vem dos tempos de Bridgeton.
— Bridgeton?
— A cidade onde nasci e me criei. A cidade onde aconteceu tudo. Fugi, mas
uma pessoa não pode fugir da paisagem de seus sonhos. Meus pesadelos ainda se
situam nas ruas de Bridgeton. Aquela voz ao telefone ameaçando me matar era
Bridgeton vindo a mim. Era a voz de Bridgeton falando do passado.
Ela tinha perdido a consciência de si mesma, colhida num pesadelo
acordado, mas a descrição soava falsa. Eu continuava sem saber se devia levá-la
a sério.
— Tem certeza de que não está fantasiando por causa dos telefonemas?
— Não estou inventando nada — disse ela. — Bridgeton vai ser minha
morte. A verdade é que sempre soube que seria.
— As cidades não matam pessoas.
— Você não conhece essa cidade soberba onde nasci. É um autêntico recorde
nesse aspecto.
— Onde fica?
— Illinois, sul de Chicago.
— Você disse que aconteceu tudo lá. O que quer dizer com isso?
— Tudo o que teve importância... estava tudo acabado antes mesmo de eu
saber que tinha começado. Mas não quero falar disso.
— Não sei como ajudar, a não ser que você fale.
— Não acredito que você tenha intenção de me ajudar. Está simplesmente
tentando extrair informações.
Era verdade. Eu não tinha por Helen o interesse que ela queria que alguém
tivesse por ela. Não confiava inteiramente nela. Seu corpo bonito parecia conter
duas pessoas que se alternavam, uma sensível e franca, outra dura e evasiva.
Ela foi até o painel de vidro que dava para as montanhas, que agora eram cor
tornado cor de alfazema e ameixa, azuis-escuros noturnos nas fissuras e nos
picos. Todo o anoitecer, montanhas, céu e cidade estavam inundados de azul.
— Die blaue Stunde — disse ela, mais ou menos a si mesma. — Eu
costumava adorar esta hora. Agora me dá arrepios mortais.
Levantei e fiquei atrás dela.
— Brinca de meter medo em si mesma.
— Sabe tudo a meu respeito.
— Sei que é uma mulher inteligente. Proceda como tal. Se o lugar a deprime
deixe-o, ou fique e tome precauções. Peça proteção policial.
— Você esbanja soluções brilhantes que o não envolvam. Pedi proteção
ontem depois de receber o telefonema com ameaças. O xerife mandou um
policial. O homem disse que esses telefonemas eram comuns, em geral de
adolescentes.
— Pode ter sido um adolescente?
— Não acho. Mas o policial disse que eles às vezes disfarçam a voz. Disse
que não me preocupasse.
— Então não se preocupe.
— Não consigo. Tenho medo, Lew. Fique comigo?
Ela se virou, encostando-se no meu peito, movendo o corpo tentadoramente
contra o meu. Meu único sentimento real era compaixão. Ela tentava me usar,
usando a si mesma para me usar.
— Tenho que ir andando — eu disse. — Avisei-a desde o início que tinha um
compromisso anterior. Mas volto para saber como você está.
— Muito obrigada!
Afastou-se de mim com tanta violência que foi bater como uma ave na
parede de vidro.

________________
1 Há aqui um duplo sentido que se perde na tradução. Ser ambidextrous
(ambidestro) significa também, em língua inglesa, “jogar com um pau de dois
bicos”. {N. do T.)
7
capítulo

Desci a colina no meio do crepúsculo que se adensava na direção do


Mariner's Rest Motel, repetindo a mim mesmo em vários tons de voz que tinha
procedido corretamente. O mal é que no cenário de onde acabava de sair nada
havia de correto — apenas pecados de ação ou omissão.
Um recepcionista de boné de marujo com galão dourado e cara de quem
nunca tinha posto os pés num convés disse que Alex Kincaid reservara lugares e
voltara a sair. Fui à Surf House jantar. A frente iluminada do grande hotel
lembrou-me de Fargo e de todas as fotos agora inúteis que eu lhe encomendara.
Ele estava na câmara escura anexa a seu pequeno escritório. Quando saiu usava
óculos escuros retangulares contra a luz. Não podia ver seus olhos, mas a boca
era hostil. Pegou um volumoso envelope na escrivaninha e me jogou.
— Achei que você tinha urgência nessas fotos.
— Tinha. As coisas se resolveram. Ela apareceu.
— Portanto já não quer as cópias? Minha mulher trabalhou metade da tarde
como uma escrava para aprontá-las.
— Fico com elas. Kincaid vai querê-las, embora já não me sirvam. Quanto?
— Vinte e cinco dólares incluindo imposto. Rigorosamente, $24.96.
Dei-lhe duas notas de dez e uma de cinco e sua boca foi adoçando
gradualmente.
— Eles vão ficar outra vez?
— Ainda não sei.
— Onde foi que a encontrou?
— Está matriculada na universidade daqui. É motorista de uma velhota
chamada Bradshaw.
— A do Rolls?
— Sim, conhece?
— Não diria tanto. Ela e o filho costumam vir almoçar aqui aos domingos.
Ela é original. Tirei uma vez uma foto deles sem avisar, na esperança de que
encomendassem cópias. Ela ameaçou quebrar minha máquina com a bengala.
Quase disse à maluca que a tromba dela bastava para quebrá-la.
— Mas não disse?
— Não posso me permitir essas alegrias. — Abriu as mãos manchadas de
produtos químicos. — A velha é uma instituição local e podia fazer com que me
demitissem.
— Deve ser rica.
— Não é apenas isso. O filho é muito influente nos meios culturais. Parece
ser simpático, apesar do sotaque afetado de Harvard. Ele até acalmou a velha
quando ela quis espatifar minha Leica. Difícil entender um bonitão na casa dos
quarenta ainda preso às fraldas da mãe.
— Acontece nas melhores famílias.
— Sim, especialmente nas melhores. Tenho visto um monte deles esperando
o dinheiro da mamãe, e quando finalmente herdam é tarde demais. Pelo menos
Bradshaw teve a iniciativa de fazer uma carreira. — Fargo olhou o relógio. — E
por falar em carreira, já estou com doze horas de trabalho e ainda tenho que
passar mais duas revelando. Até a próxima.
Saí para a sala de jantar do hotel. Fargo veio correndo atrás de mim no
corredor. Os óculos escuros retangulares emprestavam a seu rosto uma calma de
robô que combinava estranhamente com seus movimentos de pernas e braços.
— Tinha esquecido de perguntar. Conseguiu saber alguma coisa do tal
Begley?
— Tive uma conversa com ele. Não me disse muita coisa. Ele mora com uma
mulher em Shearwater Beach.
— Quem é a felizarda? — perguntou Fargo.
— O nome é Madge Gerhardi. Conhece?
— Não, mas acho que sei quem ele é. Se pudesse dar uma olhada...
— Então vamos lá agora.
— Não posso. Mas conto quem desconfio que esteja embaixo daquele
matagal todo, se você prometer não citar meu nome. Existe a chamada
semelhança acidental e a última coisa que desejo é ser processado por
difamação.
— Prometo não citar seu nome.
— Bem, não o faça. — Respirou fundo como um mergulhador se preparando
para o mergulho. — Acho que é um cara chamado Thomas McGee, que
assassinou a mulher em Indian Springs há uns dez anos. Tirei uma foto dele
quando era estagiário de jornal, mas nunca a publicaram. Não dão publicidade a
esses casos do Valley.
— Tem certeza de que ele matou a mulher?
— Sim, foi um caso simples. Não tenho tempo agora para os detalhes que, de
resto, são bem confusos depois de tantos anos. Mas todos achavam que ele seria
condenado por homicídio em primeiro grau. Gil Stevens convenceu o júri a
aceitar segundo grau, o que explica ele ter sido solto tão depressa.
Lembrando-me da história de Begley sobre seus dez anos no outro lado do
mundo, no outro lado da lua, pensei que não foi assim tão depressa.
O nevoeiro era denso em Shearwater Beach. Devia ser maré cheia: eu ouvia
a ressaca rugindo embaixo das casas e fazendo um ruído de sucção em torno das
estacas. O cheiro de iodo pairava no ar fresco.
Madge Gerhardi abriu a porta e olhou para mim vagamente. A pintura nas
pálpebras não conseguia ocultar o fato de que estavam inchadas.
— Você é o detetive, não é?
— Sim. Posso entrar?
— Entre, se quiser. Não vai adiantar nada. Ele foi embora.
Eu já tinha calculado isso pelo seu ar abandonado. Segui-a pelo corredor
abafado até a sala, que era alta, de vigas no teto. Aranhas tinham estado muito
ocupadas nos ângulos das vigas, cobertas de teias e esfumadas como se o
nevoeiro se infiltrado. Os móveis eram desconjuntados. Copos e garrafas vazias
e meio vazias estavam nas mesas e no chão, sugerindo uma farra que durara dias
e podia entrar em erupção de novo se eu não tomasse cuidado.
A mulher afastou com um chute uma garrafa no caminho e se deixou cair no
sofá.
— Ele foi embora por sua culpa — queixou-se ela. — Começou a fazer a
mala logo que você saiu daqui.
Sentei-me numa cadeira diante dela.
— Begley disse para onde ia?
— A mim, não. Só disse que não devia esperá-lo, estava indo de vez. Por que
veio assustá-lo? Chuck nunca fez mal a ninguém.
— Ele se assusta com muita facilidade.
— Chuck é sensível. Teve grandes problemas tempos atrás. Disse muitas
vezes que tudo o que queria era um cantinho sossegado onde pudesse escrever
sobre suas experiências.
— As experiências dele em Nova Caledônia?
Ela disse com surpreendente franqueza: — Não acho que Chuck tenha posto
os pés em Nova Caledônia. Essa história da mina de crômio ele tirou de um
velho número da National Geographic. Estou convencida de que ele nunca saiu
dos Estados Unidos.
— Onde ele esteve?
— Na penitenciária — tornou ela. — Você sabe, ou não viria atrás dele.
Acho que é uma indecência sem nome, um homem paga sua dívida com a
sociedade e prova que é capaz de se reabilitar...
Ela citava Begley, era a indignação de Begley que ela exprimia, mas era
incapaz de manter a indignação nem de levar a citação até o fim. Lançou um
olhar vagamente alarmado na devastação da sala, como se começasse a suspeitar
que a reabilitação talvez não fosse tão completa assim.
— Ele contou por que foi preso, Sra. Gerhardi?
— Não explicitamente. Ele leu uma noite uma passagem do livro que está
escrevendo. A personagem lembrava a cilada que montaram para que pagasse
por um crime que não cometera. Perguntei se a personagem era inspirada nele.
Chuck não respondeu e mergulhou num de seus silêncios carregados.
Ela mergulhou também num silêncio próprio, pessoal. Eu sentia o chão
tremer embaixo dos pés. O mar encapelava entre as estacas como as forças
jovialmente indiferentes da dissolução. A mulher perguntou: — Chuck esteve
preso por assassinato?
— Soube esta noite que ele assassinou a mulher há dez anos. Ainda não
confirmei a informação. Pode confirmar?
Ela fez que não com a cabeça. Seu rosto se alongara como que pelo próprio
peso, como massa de farinha mole.
— Deve ter sido um erro.
— Espero que sim. Contaram também que o verdadeiro nome dele é Thomas
McGee. Ele usou alguma vez esse nome?
— Não.
— Isso se relaciona a outro fato — eu disse, pensando em voz alta. — A
garota que ele foi visitar na Surf House tinha o mesmo nome antes de se casar.
Ele disse que a garota se parecia com a filha. Acho que é a filha dele. Ele falou
da garota?
— Nunca.
— Trouxe-a aqui alguma vez?
— Não. Se a garota é filha dele, ele nunca a traria aqui. — Pôs em pé a
garrafa que tinha derrubado.
— Por quanto tempo Begley, ou McGee, morou aqui?
— Umas duas semanas no máximo. Íamos nos casar. Uma pessoa fica muito
só aqui sem um homem.
— Imagino.
A simpatia na minha voz incutiu-lhe um pouco de vida: — Eles nunca ficam
muito tempo comigo. Tento tornar as coisas agradáveis, mas não ficam. Devia
ter ficado com meu primeiro marido. — Os seus olhos estavam muito longe,
num passado distante. — Ele me tratava como rainha, mas eu era jovem e
desmiolada. Cometi o erro de deixá-lo.
Ouvíamos a água embaixo da casa.
— Acha que Chuck foi embora com essa garota que você diz ser filha dele?
— Não acho — eu disse. — Como foi que ele partiu? De carro?
— Ele não me deixou levá-lo. Disse que ia subir a estrada e pegar o ônibus
de Los Angeles. Para na curva se alguém fizer sinal. Vi-o subir a estrada com a
maleta e desaparecer de vista. — Parecia simultaneamente pesarosa e aliviada.
— A que horas foi isso?
— Eram umas três horas...
— Ele tinha algum dinheiro?
— Devia ter o da passagem. Não podia ter muito. Eu dava algum, mas ele só
aceitava o estritamente necessário e tinha sempre que ser a título de empréstimo.
Que ele prometia pagar quando seu livro saísse. Mas não me importo se ele
nunca pagar. Era muito bom tê-lo aqui.
— Verdade?
— Verdade. Chuck é um homem inteligente. Não importa o que ele tenha
feito na vida. Um homem pode mudar para melhor. Ele nunca me causou um
único aborrecimento. — Fez uma nova incursão nos domínios da franqueza. —
Eu é que o aborrecia. Tenho uma tendência para beber. Ele só bebia comigo para
fazer companhia. Não queria que eu bebesse sozinha. — Piscou os olhos
avermelhados pela genebra. — Quer tomar alguma coisa?
— Não, obrigado, vou andando. — Levantei-me e fiquei parado diante dela.
— Tem certeza de que ele não lhe disse para onde ia?
— Los Angeles, é tudo que sei. Ele prometeu dar notícia, mas não espero
receber. Acabou.
— Se ele escrever ou telefonar pode me informar?
Ela fez que sim. Dei-lhe meu cartão e disse onde estava hospedado. Quando
saí, o nevoeiro vindo do mar já chegava à estrada.
8
capítulo

Parei de novo no motel no caminho para a casa dos Bradshaw. O


recepcionista disse que Alex ainda não voltara. Não fiquei surpreso quando
encontrei seu Porsche vermelho estacionado embaixo da sebe dos Bradshaw.
A lua subia por trás das árvores. Deixei meus pensamentos subirem com ela,
imaginando que Alex se reunira à noiva e estavam aconchegados no pavilhão da
portaria resolvendo calmamente seus problemas. O som do choro gritado da
garota apagou essa imagem esperançosa. A voz dela era alta e terrível, quase
desumana. O ritmo compulsivo subia e baixava como o ulular de uma gata
ferida.
A porta do pavilhão estava entreaberta. Luz derramava-se pelas arestas como
se expulsa pela pressão do barulho lá de dentro. Abri-a com um empurrão.
— Saia daqui — disse Alex.
Eles estavam num sofá-cama na pequena sala de estar. Ele tinha os braços
em torno da garota, mas a cena não era doméstica. Ela parecia resistir, tentar se
libertar do abraço. Parecia antes uma cena de enfermaria psiquiátrica com
pacientes violentos.
Ela tinha a blusa rasgada, e um seio estava quase nu. Virou a cabeça
despenteada e pude ver seu rosto. Estava cinza e aturdido e mal mudou de
expressão quando me gritou: — Saia!
— Acho melhor ficar aqui — disse a ambos.
Fechei a porta e atravessei o quarto. O ritmo do choro gritado de Dolly
baixava. Aquilo nem era realmente choro. Ela tinha os olhos secos e fixos.
Ocultou-os no corpo do marido.
A face dele era de um branco brilhante.
— O que aconteceu, Alex?
— Realmente não sei. Eu a esperava quando ela chegou poucos minutos
atrás. Não consegui que me dissesse nada. Está terrivelmente transtornada com
alguma coisa.
— É estado de choque — eu disse, pensando que ele mesmo não estava
longe disso. — Terá visto algum acidente?
— Foi algo assim.
Sua voz perdeu-se num murmúrio. Os olhos dele estavam virados para
dentro, reunindo forças para lidar com este novo problema.
— Ela está ferida, Alex?
— Acho que não. Ela vinha correndo pela estrada, depois tentou fugir
correndo de novo. Cansou de lutar comigo quando tentei detê-la.
Para demonstrar suas proezas de lutadora, Dolly livrou as mãos e começou a
bater no peito do marido. Sangue deixou pequenas manchas vermelhas na
camisa.
— Deixe-me ir — suplicava ela. — Quero morrer. Mereço morrer.
— Ela está sangrando, Alex.
Ele meneou a cabeça.
— É sangue de outra pessoa. Uma amiga dela foi morta.
— E por minha culpa — disse ela numa voz sem modulação. Ele agarrou os
pulsos dela. Vi a decisão viril em seu rosto.
— Silêncio, Dolly. Não diga bobagem.
— Bobagem? Ela está numa poça de sangue e eu a pus assim.
— De quem ela está falando? — perguntei a Alex.
— De alguém chamado Helen. Não sei quem é.
Eu sabia.
A garota começou a falar no seu ciciar monótono, tão rápida e
imprecisamente que eu mal podia seguir. Ela era um diabo, o pai dela também, e
o pai de Helen, e estavam ligadas pelo vínculo do crime, o que as tornava irmãs
de sangue, e ela traíra a irmã de sangue e causara sua morte.
— O que você fez com Helen?
— Devia ter ficado longe dela. Pessoas morrem quando me aproximo.
— Isso é uma conversa maluca — disse Alex ternamente. — Você nunca fez
mal a ninguém.
— O que você sabe de mim?
— Tudo o que preciso saber. Amo você.
— Não diga isso. Só faz com que sinta vontade de me matar. — Nos braços
do marido, olhou para as mãos ensanguentadas e chorou mais algumas de suas
terríveis lágrimas secas. — Sou uma criminosa.
Alex ergueu para mim os olhos azuis.
— Consegue entender alguma coisa?
— Não muito.
— Você não pode acreditar que ela matou realmente essa tal Helen, não?
Falávamos diante de Dolly como se ela fosse surda ou estivesse louca, e a
garota aceitava a situação.
— Nem sequer sabemos se alguém foi morto — eu disse. — Sua mulher
carrega um sentimento de culpa, mas a culpa pode ser de outra pessoa. Descobri
coisas do passado dela, ou acho que descobri. — Sentei-me no velho sofá
marrom ao lado deles e perguntei a Dolly: — Como é o nome de seu pai?
Ela não pareceu ouvir.
— Thomas McGee?
Ela acenou abruptamente, como se lhe tivessem dado uma pancada por trás.
— Monstro mentiroso. Fez de mim um monstro.
— Como ele fez isso?
A pergunta desencadeou outra frase sem pontuação.
— Ele deu um tiro nela — disse, o queixo no ombro — e a deixou caída no
meio do sangue, mas eu contei a tia Alice e à polícia, e o tribunal tomou conta
dele. Agora ele faz a mesma coisa.
— Com Helen?
— Sim, e eu sou responsável. Foi culpa minha.
Ela parecia sentir um prazer macabro em sua culpa. O olhar cinza e cansado,
seu choro sem lágrimas, seu falar ofegante sem pausa e os silêncios eram sinal
de de crise emocional explosiva. Sob o melodrama da autoacusação eu tinha
noção de algo valioso e frágil em perigo de quebrar permanentemente.
— É melhor não fazer mais perguntas — eu disse. — Duvido a essa altura
ela possa distinguir entre verdadeiro e falso.
— Não posso? — disse ela malignamente. — Tudo o que lembro é verdade e
posso me lembrar de tudo desde o início, as brigas e as pancadas e depois o tiro e
ela banhada em sangue.
— Cale-se, Dolly — atalhei —, ou mude o disco. Precisa de um médico.
Conhece algum aqui na cidade?
— Não. Não preciso de um médico. Chame a polícia. Quero fazer uma
confissão.
Ela brincava conosco e com a própria mente em perigosas acrobacias à beira
do abismo da realidade, desafiando a longa queda nebulosa.
— Quer confessar que é um monstro — eu disse.
Não adiantou. Ela respondeu como quem reconhece um fato natural: — Sou
um monstro.
O pior de tudo é que aquilo acontecia fisicamente diante de meus olhos. As
pressões caóticas dentro dela estavam alterando o formato de sua boca e de seu
queixo. Eu dificilmente teria reconhecido a garota com quem falara antes na
escada da biblioteca.
Virei-me para Alex:
— Conhece algum médico aqui?
Ele fez que não. O cabelo curto estava eriçado como se a eletricidade viva o
atravessasse pelo contato com a mulher. Não a largava.
— Posso telefonar para meu pai em Long Beach.
— Isso pode ser uma boa ideia mais tarde.
— Não podemos levá-la para o hospital?
— Não sem um médico particular para protegê-la.
— Protegê-la de quê?
— Da polícia ou da enfermaria de doentes mentais. Não a queremos em
interrogatório oficial nenhum antes de verificar o que houve com Helen.
A garota choramingou: — Não quero ir para a enfermaria de doentes
mentais. Eu tinha um médico aqui na cidade há muitos anos. — Estava
consciente o bastante para ter medo, e assustada outro tanto para cooperar.
— Como se chama?
— Dr. Godwin. Dr. James Godwin. É psiquiatra. Eu vinha vê-lo quando era
pequena.
— Tem telefone aqui no pavilhão?
— A Sra. Bradshaw me deixa usar o telefone dela.
Deixei-os e subi o caminho para a casa. Agora o cheiro do nevoeiro já
chegava até ali. Rolava das montanhas, afogando a lua, e ao mesmo tempo subia
do mar.
O grande casarão branco estava silencioso, mas havia luz atrás de algumas
janelas. Toquei a campainha. Um carrilhão soou, abafado pela espessura da
pesada porta. Abriu-o uma grande negra envolta num vestido de algodão
estampado. Era toscamente bonita, apesar das cicatrizes de acne no rosto. Antes
de eu ter tempo de falar, declarou que o Dr. Bradshaw estava fora e que a Sra.
Bradshaw se preparava para dormir.
— Só quero usar o telefone. Sou amigo da jovem que mora no pavilhão.
Ela me olhou desconfiada. Perguntei a mim mesmo se o contágio com Dolly
não teria dado um ar paranoico.
— É importante — eu disse. — Ela precisa de um médico.
— Está doente?
— Bem doente.
— Não devia tê-la deixado sozinha.
— Não está sozinha. O marido está com ela.
— Mas ela não é casada.
— Não vamos discutir isso. Posso ou não chamar um médico?
Ela recuou relutantemente e levou-me a um escritório forrado de livros, onde
uma lâmpada estava acesa, como uma lamparina, em cima de uma mesinha.
Indicou-me o telefone e assumiu postura vigilante junto à porta.
— Importa-se se eu falar sozinho? Pode me revistar na saída.
Ela fungou e se afastou. Pensei ligar para a casa de Helen, mas ela não estava
na lista. O Dr. James Godwin felizmente estava. Disquei. A voz que respondeu
era tão calma e neutra que não percebi se era homem ou mulher.
— Posso falar com o Dr. Godwin?
— Sou o Dr. Godwin. — Parecia cansado de sua identidade.
— Meu nome é Lew Archer. Acabo de estar com uma moça que disse ter
sido sua paciente. Em solteira se chamava Dolly ou Dorothy McGee. Não está
nada bem.
— Dolly? Não a vejo há uns dez ou onze anos. O que ela tem?
— Acho que será melhor vê-la. Está histérica, para não dizer mais, falando
incoerentemente em assassinatos.
Ele resmungou. Com meu ouvido livre ouvi a Sra. Bradshaw perguntar
roucamente do alto da escada: — O que está acontecendo aí embaixo, Maria?
— Diz que a garota Dolly está doente.
— Quem diz?
— Não sei. Um homem.
— Por que não me disse que ela estava doente?
— Acabo de dizer.
O Dr. Godwin falava numa vozinha sem vida, que soava como o fantasma
sussurrante do passado: — Não me surpreende que essas coisas tenham vindo à
superfície. Houve uma morte violenta na família quando ela era criança e Dolly
foi brutalmente atingida. Estava na pré-puberdade, e já vulnerável.
Tentei interromper o jargão médico.
— O pai matou a mãe, não é?
— Sim. — A palavra foi como um suspiro. — A pobre criança encontrou o
corpo. Então a fizeram testemunhar no tribunal. Nossa lei permite essas
barbaridades... — Interrompeu-se e perguntou num tom nitidamente diferente:
— De onde está falando?
— Da casa de Roy Bradshaw. Dolly está no pavilhão com o marido. Fica em
Foothill Drive...
— Eu sei onde fica. De fato acabo de chegar de um jantar com o Dr.
Bradshaw. Tenho que fazer outra visita e depois vou imediatamente para aí.
Desliguei e por um momento deixei-me ficar sentado imóvel nas almofadas
de couro da cadeira giratória de Bradshaw. As paredes cheias de livros em volta,
cheios de passado, formavam uma espécie de isolamento contra o mundo e seus
desastres. Levantei-me de má vontade.
A Sra. Bradshaw esperava no vestíbulo. Maria havia desaparecido. A velha
respirava audivelmente, como se toda aquela excitação afetasse seu coração.
Apertava a frente do roupão rosa nos seios moles que arfavam.
— O que houve com a garota?
— Está com uma crise de nervos.
— Teve alguma briga com o marido. Ele é um exaltado, não posso censurá-la
por isso.
— É algo um pouco mais profundo. Acabo de chamar o Dr. Godwin, o
psiquiatra. Ele já tratou dele tempos atrás.
— Quer dizer que a garota é... — Bateu na têmpora sulcada de veias com a
articulação de um dedo inchado.
Um carro parou diante da casa e eu não tive que responder à pergunta. Rod
Bradshaw entrou pela porta da frente. O nevoeiro tinha baixado o cabelo
ondulado e sua expressão era aberta. Fechou-se quando nos viu parados na
escada.
— Está chegando tarde — disse a Sra. Bradshaw em tom acusador. — Sai
para se divertir e jantar e me deixa aqui sozinha para cuidar de tudo. Afinal,
onde esteve?
— No banquete dos alunos. Não pode ter esquecido. Sabe como esses
banquetes se arrastam e receio ter dado também minha contribuição para a
insipidez geral. — Hesitou, tomando consciência da presença em cena de algo
mais sério que o sentimento possessivo da velha. — O que houve, mãe?
— Este homem diz que a garota que está no pavilhão perdeu o juízo. Por que
me mandar uma garota dessas, uma doente mental?
— Eu não a mandei.
— Quem mandou?
Tentei me intrometer naquela doidice, mas nenhum deles me escutou.
Estavam empenhados no seu joguinho de pingue-pongue emocional, que
provavelmente durava desde os tempos em que Rod Bradshaw não passava de
um garoto.
— Laura Sutherland ou Helen Haggerty — ele dizia. — A professora
Haggerty é a conselheira da garota e provavelmente foi ela.
— Quero que diga a qualquer uma delas que tenha sido para ter mais cuidado
da próxima vez. Você não se preocupa com minha segurança pessoal...
— Preocupo-me com sua segurança pessoal. Preocupo-me até demais com
sua segurança pessoal. — A voz dele estava esticada ao máximo entre a raiva e a
submissão. — Não fazia ideia de que houvesse problema com a garota.
— Provavelmente não há — eu disse. — Ela sofreu um choque. Acabo de
chamar um médico para vê-la, o Dr. Godwin.
Bradshaw virou-se lentamente para mim. O rosto dele estava estranhamente
mole e vazio, como de alguém com sono.
— Conheço o Dr. Godwin — disse ele. — Que espécie de choque ela sofreu?
— A coisa não é muito clara. Gostaria de lhe falar em particular.
A Sra. Bradshaw anunciou numa voz trêmula: — Esta casa é minha, moço.
Dirigia-se a mim, mas o recado era também para Bradshaw, fazendo estalar o
chicote financeiro diante dele. Ele sentiu a ferroada: — Também moro aqui.
Tenho meus deveres com você e tento cumpri-los satisfatoriamente. Tenho
também meus deveres com os alunos.
— Você e seus preciosos alunos. — Os seus olhos negros e vivos fitavam-no
zombeteiros. — Tudo bem. Podem falar em particular. Vou lá para fora.
Começou realmente a andar para a porta da frente, aconchegando o roupão
em torno do corpo enrugado como se tivesse sido posta na rua em plena
tempestade de neve. Bradshaw foi atrás dela. Houve um puxa-para-cá-puxa-
para-lá e palavrinhas ternas e um beijo final de boa noite de que desviei os olhos,
antes que ela subisse pesadamente a escada amparada por ele.
— Não deve julgar minha mãe com excessiva severidade — disse ele,
quando desceu. — Está envelhecendo e fica mais difícil se ajustar às crises. Ela
tem realmente um coração generoso, como eu tenho bons motivos para saber.
Não discuti com ele. Ele a conhecia melhor do que eu.
— Bem, Sr. Archer, vamos até o escritório?
— Pouparíamos tempo se falássemos pelo caminho.
— Pelo caminho?
— Quero que me leve à casa de Helen Haggerty, se sabe onde fica. Não
tenho certeza de poder encontrá-la no escuro.
— Mas por quê? Com certeza não está levando minha mãe a sério. Ela falava
simplesmente para ouvir a própria voz.
— Eu sei. Mas Dolly também falou. Disse que Helen Haggerty está morta. E
como prova tem as mãos sujas de sangue. Acho melhor ir lá ver de onde veio
esse sangue.
Ele engoliu em seco.
— Sim. Claro. Não fica longe daqui. De fato são apenas alguns minutos pela
pista para cavaleiros. Mas à noite chegamos mais depressa de carro.
Fomos no carro dele. Pedi que parasse no pavilhão e fui dar uma olhada.
Dolly estava deitada no divã com o rosto virado para a parede. Alex a cobrira
com um cobertor. Estava postado junto à cama com as mãos caídas.
— O Dr. Godwin não demora — eu disse, em voz baixa. — Conserve-a aqui
até eu voltar, sim?
Ele fez que sim, embora parecesse nem dar por mim. Seu olhar ainda estava
virado para dentro, perscrutando profundezas que ele nem sequer começara a
imaginar até esta noite.
9
capítulo

Bradshaw me fez apertar o cinto de segurança antes de partirmos em seu


carro compacto. Entre a casa dele e a de Helen eu disse o achei necessário ele
saber do desabafo de Dolly. Sua reação foi compreensiva. Por sugestão minha,
ele deixou o carro junto à caixa de correio na entrada da alameda que conduzia à
casa de Helen. Quando descemos ouvi uma sirene de nevoeiro gemendo no mar
lá embaixo.
Outro carro, um conversível escuro cuja forma eu mal conseguia ver através
do ar que engrossava, estava estacionado um pouco adiante. Devia tê-lo
revistado. Mas meu sentimento de culpa me impelia, ansioso para ver se Helen
estava viva.
A casa dela era uma desmaiada mancha de luz entre as árvores.
Começamos a subir o caminho de saibro em curva. Uma coruja passou baixo
sobre nossas cabeças, como um pedaço de nevoeiro em voo. Foi pousar na treva
acinzentada, piou chamando o macho, e obteve resposta. As duas aves pareciam
zombar de nós com suas tristes vozes distantes de sereia.
Ouvi pisadas adiante. Eram passos que se aproximavam no saibro. Toquei a
manga de Bradshaw e ele ficou imóvel. Um homem surgiu na nossa frente.
Usava sobretudo e chapéu de abas baixadas. Não podia ver bem seu rosto.
— Olá.
Ele não respondeu. Devia ser jovem e decidido. Correu direto para nós, me
empurrando com o ombro e jogando Bradshaw nas moitas. Tentei detê-lo, mas o
impulso da descida permitiu que escapasse. Persegui o barulho dos pés dele na
rua e cheguei a tempo de vê-lo entrar no conversível. O motor rugiu e as luzes se
acenderam enquanto eu corria para o carro. Antes de ele arrancar e desaparecer
tive um vislumbre de uma placa de Nevada e de seus quatro primeiros
caracteres. Regressei ao carro de Bradshaw e escrevi-os no meu bloco de notas:
FT37.
Tornei a subir a alameda. Bradshaw tinha alcançado a casa. Estava sentado
na soleira da porta com uma expressão agoniada. Luz jorrava sobre ele pela
porta aberta e projetava sua sombra curvada intermitentemente nas lajes.
— Ela está morta, Sr. Archer.
Olhei para dentro. Helen jazia de lado atrás da porta. O sangue tinha corrido
de um buraco de bala redondo na testa, formando uma poça nos tijolos.
Começava a coagular nas bordas, como geada num charco escuro. Toquei sua
pobre face. Estava ficando fria. Pelo meu relógio eram nove e dezessete.
Entre a porta e a poça de sangue encontrei a tênue marca marrom de uma
mão ainda pegajosa ao tato. Tinha mais ou menos o tamanho da mão de Dolly.
Ela pode ter caído acidentalmente, mas o pensamento de que fazia tudo para ser
julgada por assassinato perfurava minha mente. O que não significava
necessariamente que fosse inocente.
Bradshaw se apoiava como um adolescente no umbral da porta.
— Pobre Helen. Que coisa infame. Acha que o cara que nos atacou...?
— Eu diria que ela está morta há pelo menos duas horas. Claro que ele pode
ter voltado para sumir com vestígios ou recuperar a arma. Agiu de uma forma
que o torna suspeito.
— Sem dúvida.
— Helen Haggerty já mencionou Nevada?
Ele pareceu surpreso.
— Creio que não. Por quê?
— O carro em que nosso amigo escapou tem placa de Nevada.
— Ah, bem, suponho que devemos chamar a polícia.
— Eles não gostariam se o não fizéssemos.
— Encarrega-se disso? Estou muito abalado.
— É melhor ser você, Bradshaw. Ela trabalhava na sua faculdade e pode
reduzir o escândalo a um mínimo.
— Escândalo? Nem tinha pensado nisso.
Ele se obrigou a passar pelo corpo e foi até o telefone no outro lado da sala.
Percorri os outros cômodos rapidamente. Um dos quartos estava quase vazio,
com uma cadeira de cozinha e uma mesa simples que servia para ela trabalhar.
Folhas de exercício com conjugação de verbos irregulares franceses estavam na
mesa. Pilhas de livros, gramáticas e dicionários franceses e alemães, antologias
de poesia e prosa estavam arrumadas em torno. Abri um dos livros na folha de
rosto. Tinha carimbado em tinta roxa Professora Helen Haggerty, Maple Park
College, Maple Park, Illinois.
O outro quarto tinha elegância algo espalhafatosa, com móveis novos, estilo
rústico francês, tapetes de lã fofa no chão de laje, pesadas cortinas artesanais na
janela enorme. O guarda-roupa continha uma fileira de vestidos e saias com
etiquetas Magnin e Bullocks, e embaixo uma fila de sapatos combinando. A
cômoda estava cheia de camisolas e outras peças íntimas, mas nada realmente
íntimo. Nada de cartas, nada de fotos.
O banheiro era atapetado, com uma banheira triangular. O armário era
repleto de cremes, cosméticos e comprimidos para dormir, receitados por um tal
Dr. Otto Schrenk e fornecidos pela Tompson's Drug Store em Bridgeton, Illinois,
em 17 de junho deste ano.
Despejei a lixeira no tapete. Embaixo de papéis de seda amarrotados,
encontrei uma carta posta no correio de Bridgeton, Illinois, uma semana antes e
dirigida a Helen Haggerty. A única folha que continha estava simplesmente
assinada “Mãe” e não indicava o endereço da remetente.

Querida Helen,
Foi muita amabilidade me enviar um postal da ensolarada
Califórnia, que continua a ser o meu estado favorito da União,
embora já tenha saído de lá há muitos anos. Seu pai está sempre
prometendo me levar nas férias, mas aparece sempre uma coisa ou
outra que o faz adiar. Pelo menos ele está um pouco melhor da tensão
arterial e isso já é muito bom. Sinto-me feliz por você estar bem.
Gostaria que reconsiderasse o divórcio, mas suponho que isso já é
coisa feita e arrumada. É pena que você e Bert não tenham se
entendido. Mas acho que a galinha da vizinha é sempre melhor que a
minha.
Seu pai continua furioso, naturalmente. Nem me deixa falar de
você. Ele nunca a perdoou por ter saído de casa, e acho que nunca se
perdoou também, porque quando um não quer dois não brigam. Seja
como for, é filha dele e não devia ter falado com ele daquela maneira.
Não estou acusando você. Continuo esperando uma reconciliação
antes que ele morra. Ele não está ficando mais novo, e eu também
não, Helen. Você é uma garota inteligente, muito instruída, e se
quisesse podia escrever-lhe uma carta que o faria sentir as coisas de
maneira diferente. Você é sua única filha, afinal de contas, e nunca
retirou a acusação que lhe fez de ser um policial desonesto. Isso é uma
coisa difícil de engolir para qualquer policial e ele ainda remói isso
depois de vinte anos.
Por favor, escreva.
Mãe

Devolvi a carta ao cesto, juntamente com os outros papéis. Depois lavei as


mãos e voltei para a sala. Bradshaw estava sentado na cadeira de lona,
rigidamente formal mesmo quando sozinho. Perguntei a mim mesmo se esta
seria sua primeira experiência com a morte. Estava muito longe de ser a minha,
mas me afetava com particular dureza. Eu podia tê-la evitado.
O nevoeiro lá fora ficava mais denso. Movia-se contra a parede de vidro da
casa e dava a estranha impressão de que o mundo desaparecera, e que eu e
Bradshaw flutuávamos juntos no espaço, gemini improváveis numa cápsula
espacial com a mulher morta.
— O que disse à polícia?
— Falei com o xerife pessoalmente. Ele não demora. Disse apenas o mínimo
necessário. Não sabia se devia falar da Sra. Kincaid.
— Temos que explicar nossa descoberta do corpo. Mas não precisa repetir
nada do que ela disse. É puro ouvir-dizer tanto pelo que lhe diz respeito.
— Considera-a suspeita neste caso?
— Ainda não tenho opinião. Veremos o que o Dr. Godwin diz sobre seu
estado mental. Espero que esse Godwin seja bom na sua especialidade.
— É o melhor que temos na cidade. Curiosamente, estive com ele esta noite
na mesa de honra do jantar dos alunos, até que o chamaram.
— Ele disse que o viu no jantar.
— Sim. Jim Godwin e eu somos velhos amigos. — Parecia se apoiar nessa
ideia.
Olhei em volta procurando alguma coisa para me sentar, mas só havia a
cadeira de lona. Agachei-me nos calcanhares. Uma das coisas que me intrigavam
na casa era a combinação de esbanjamento e pura pobreza, como se duas
mulheres diferentes se revesassem na decoração. Uma princesa e uma indigente.
Assinalei isso a Bradshaw e ele meneou a cabeça: — Isso me impressionou
também quando estive aqui uma noite dessas. Parece que ela gastava o dinheiro
em coisas não essenciais.
— De onde vinha o dinheiro dela?
— Ela deu a entender que tinha renda própria. A verdade é que a maneira de
vestir dela não era compatível com o salário de assistente.
— Conhecia bem a professora Haggerty?
— Nem tanto. Escoltei-a a uma ou duas festas do colégio, bem como ao
concerto eleitoral de outono. Descobrimos uma paixão comum por Hindemith.
— Ergueu as pontas dos dedos juntas. — Ela é... era uma mulher muito
apresentável. Mas eu não era íntimo dela, sob nenhum aspecto. Ela não
encorajava a intimidade.
Arqueei as sobrancelhas. Bradshaw corou ligeiramente.
— Não me refiro a intimidade sexual, céus. Ela não era de resto meu tipo. O
que eu quis dizer é que ela não falava muito de si mesma.
— De onde ela veio?
— De uma faculdadezinha qualquer do Middle West, Maple Park, creio. Ela
já tinha saído de lá e vindo para cá quando a admitimos. Foi uma nomeação de
emergência, imposta pela trombose do Dr. Farrand. Felizmente pudemos contar
com Helen. Nem imagino o que nosso Departamento de Línguas Modernas vai
fazer agora, com o semestre já começado.
Parecia ligeiramente ressentido com o absenteísmo da morta. Embora fosse
natural que pensasse na faculdade e seus problemas, não gostei daquilo. Disse
com a intenção deliberada de assustá-lo: — Vão provavelmente ter problemas
piores do que encontrar um professor substituto.
— O que quer dizer?
— Ela não era uma professora qualquer. Passei algum tempo com ela à tarde.
Ela contou entre outras coisas que a vida dela tinha sido ameaçada.
— Que horror — disse ele, como se a ameaça fosse de certo modo pior que o
fato. — Quem diabos...?
— Ela não fazia ideia, nem eu faço. Pensei que talvez pudesse saber. Ela
tinha inimigos no colégio?
— Não me ocorre nenhum. Compreenda, eu de modo algum conhecia bem
Helen.
— Eu tive que conhecê-la bem, num curso intensivo. Fiquei com a ideia de
que era uma mulher com muita experiência, nem toda adquirida nos seminários
universitários e nos chás de professores. Informou-se dos antecedentes dela antes
de contratá-la?
— Não muito detalhadamente. Foi uma nomeação de emergência, como eu
disse, e em todo caso não era minha responsabilidade. O diretor do
Departamento de Línguas Estrangeiras, Dr. Geisman, ficou favoravelmente
impressionado com as credenciais dela e fez a nomeação.
Bradshaw parecia ter se soltado delicadamente do anzol. Anotei o nome de
Geisman no meu caderno.
— Os antecedentes deviam estar incluídos nas credenciais — eu disse. —
Parece que ela foi casada e se divorciou recentemente. Quero também descobrir
mais sobre a relação com Dolly. Parece que eram muito íntimas.
— Não está sugerindo uma ligação lésbica, está? Tivemos... — Decidiu não
concluir a frase.
— Não estou sugerindo nada. Estou procurando informação. Como a
professora Haggerty se tornou conselheira de Dolly?
— Da maneira habitual, suponho.
— E qual é a maneira habitual?
— Varia. A Sra. Kincaid era do último ano e normalmente permitimos que
escolham seus próprios conselheiros, desde que tenha tempo livre na agenda.
— Então provavelmente Dolly escolheu a professora Haggerty e começou
ela mesma a amizade?
— Pode ser. Claro que pode ter sido puro acaso.
Como se tivéssemos recebido sinal de uma frequência comum, viramos e
olhamos o corpo de Helen Haggerty. Parecia pequeno e solitário na sala. Nosso
voo com ele já durava muito tempo. Olhei meu relógio. Eram nove e trinta e um,
quatorze minutos desde nossa chegada. O tempo parecia ter reduzido a marcha,
dividindo-se em inúmeras frações, como o espaço de Zenão ou as horas de
marijuana.
Com um esforço visível, Bradshaw desviou os olhos do corpo. Seu momento
de comunicação com ele tinha custado a perda do que lhe restava do ar pueril.
Inclinou-se para mim com profundos vincos de perplexidade irradiando dos
olhos e da boca: — Não entendo o que a Sra. Kincaid lhe disse. Acha que ela
realmente confessou este... este crime?
— Um policial ou um promotor público poderia achar que sim. Felizmente
nenhum estava presente. Já ouvi um monte de confissões, algumas verdadeiras,
outras falsas. A dela era falsa, na minha opinião.
— E o sangue?
— Ela pode ter escorregado e caído nele.
— Então acha que não devemos mencionar nada disso ao xerife?
— Se não se importar de fazer essa concessão...
O rosto mostrava que se importava, mas depois de alguma hesitação, disse:
— Isso fica entre nós, pelo menos por ora. Afinal de contas era aluna nossa,
embora há pouco tempo.
Bradshaw não notou o uso do pretérito imperfeito, mas eu notei, e isso me
deprimiu. Acho que ficamos ambos aliviados com o ruído do carro do xerife
subindo a ladeira. Vinha com um laboratório portátil. Em poucos minutos um
homem de impressões digitais, um legista e um fotógrafo tinham se apoderado
da sala e mudado seu caráter. Era agora impessoal e incolor como qualquer cena
de crime. De maneira curiosa os homens de uniforme estavam, por assim dizer,
assassinando-a uma segunda e definitiva vez, anulando a auréola um tanto
berrante de Helen, convertendo-a em carne de laboratório e provas para tribunal.
Meus nervos em carne viva pularam quando as lâmpadas relampejaram num
canto.
O xerife Herman Crane era um homem troncudo de terno marrom. A única
sugestão de uniforme nele era um chapéu de abas um tanto largas com uma fita
de couro trançado. A voz dele tinha tom administrativo e o jeitão de político
pairava entre a ameaça e a lisonja. Tratou Bradshaw com ruidosa deferência,
como se Bradshaw fosse uma planta sensitiva de valor indeterminado, mas de
alguma importância.
Ele me tratou como a polícia sempre me trata, com suspeita profissional.
Suspeitavam que cometesse o delito de ter ideias próprias. Consegui convencer o
xerife Crane a mandar uma patrulha atrás do conversível com placa de Nevada.
Ele se queixou de falta de pessoal no departamento e não achava que nessa altura
do jogo fosse indicado estabelecer barreiras de estrada. Nessa altura do jogo
decidi mentalmente não cooperar plenamente com ele.
O xerife e eu nos sentamos no sofá e na cadeira de lona respectivamente, e
conversamos enquanto um delegado que sabia estenografia tomava notas.
Contei-lhe que Dolly Kincaid, mulher de um cliente, tinha descoberto o corpo da
professora Haggerty, sua conselheira acadêmica, e que me comunicara a
descoberta. Ela sofreu enorme choque e estava sendo assistida por um médico.
Antes que o xerife Crane tivesse tempo de me pressionar por mais detalhes,
dei a ele um relato textual, ou tão próximo do textual quanto possível, da minha
conversa com Helen sobre a ameaça de morte. Mencionei que ela tinha dado
queixa do fato ao escritório dele e ele pareceu tomar isso como crítica: —
Estamos com falta de pessoal, como já disse. Não consigo manter os homens
mais experientes. Los Angeles atrai todos eles com altos salários que não
podemos pagar e mil promessas. — Sendo de Los Angeles, como ele sabia, eu
inferia que a culpa era minha. — Se eu pusesse um homem de guarda em todas
as casas que recebem telefonemas de ameaça não me restaria ninguém para o
resto.
— Isso eu compreendo.
— Muito me agrada saber disso. Uma coisa que não compreendo... como foi
que essa conversa com a defunta começou?
— A professora Haggerty me abordou e pediu que a acompanhasse até aqui.
— Que horas eram?
— Não olhei o relógio. Pouco antes do pôr-do-sol. Fiquei aqui por uma hora.
— O que ela tinha em mente?
— Queria que eu ficasse para protegê-la. Lamento não tê-lo feito.
O simples fato de ter a chance de dizer isso fez com que me sentisse melhor.
— Quer dizer que ela queria contratá-lo como guarda-costas?
— Era essa a ideia.
Não valia a pena entrar agora na complicada troca de palavras entre mim e
Helen, que não tinha dado em nada.
— Como ela sabia que você era guarda-costas profissional?
— Não sou, exatamente. Ela sabia que sou investigador particular porque leu
meu nome no jornal.
— Claro — disse ele. — Você testemunhou no caso Perrine de manhã.
Talvez deva lhe dar os parabéns por livrar a Perrine.
— Não se incomode.
— Não, não creio que o faça. A safada da Perrine era culpada, você e eu
sabemos disso muito bem.
— O júri não achou — eu disse brandamente.
— Os júris podem ser enganados e as testemunhas compradas. De repente
você anda muito ativo em nossos círculos criminais locais, Sr. Archer. — As
palavras tinham o peso implícito de uma ameaça. Ele jogou uma pesada mão
descuidada na direção do corpo. — Essa mulher aqui, esta professora Haggerty,
tem certeza de que não era amiga sua?
— Ficamos amigos de certo modo.
— Em uma hora?
— Pode acontecer. E tivemos uma conversa prévia na faculdade.
— E antes de hoje? Tiveram outras conversas prévias?
— Não, hoje foi a primeira vez.
Bradshaw, que pairava em torno de nós em várias poses ansiosas, ergueu a
voz:
— Para lhe poupar tempo, xerife, posso afiançar que isso é verdade.
O xerife Crane agradeceu e se virou de novo para mim: — Portanto foi uma
pura relação de negócios entre você e ela?
— Poderia ter sido se eu estivesse interessado.
— Não estava interessado. Por quê?
— Tinha outros negócios.
— Que outros negócios?
— A Sra. Kincaid tinha deixado o marido. Ele me encarregou de encontrá-la.
— Ouvi algo sobre isso de manhã. Descobriu por que ela o deixou?
— Não. Meu trabalho era localizá-la. Foi o que fiz.
— Onde?
Ergui os olhos para Bradshaw. Ele acenou relutantemente que sim.
— Ela é aluna da faculdade.
— E agora diz que está sendo assistida por um médico? Que médico?
— O Dr. Godwin.
— O psiquiatra, hein? — O xerife descruzou as pesadas pernas e inclinou-se
para mim confidencialmente. — Para que ela precisa de um psiquiatra? Está
maluca?
— Estava histérica. Parecia indicado chamar um psiquiatra.
— Onde está ela agora?
Olhei de novo para Bradshaw.
— Está na minha casa — disse ele. — Minha mãe a empregava como
motorista.
O xerife se levantou, fazendo um movimento de remador com os braços.
— Vamos lá falar com ela.
— Receio que isso não seja possível — disse Bradshaw.
— Quem diz?
— Eu digo, e acho que o médico vai concordar.
— Naturalmente Godwin diz o que seus pacientes lhe pagam para dizer. Já
tive aborrecimentos com ele.
— Eu sei que tem. — Bradshaw empalidecera, mas conservava a voz sob
rígido controle. — Não é médico, xerife, e duvido que compreenda o código
moral do Dr. Godwin.
Crane ficou vermelho ao insulto. Não lhe ocorreu resposta alguma.
Bradshaw continuou: — Duvido muito seriamente que a Sra. Kincaid possa ou
deva ser interrogada a essa altura. O que adiantaria? Se tivesse algo a esconder
não correria para o primeiro detetive que lhe aparecesse para dar a terrível
notícia. Tenho certeza de que não queremos impôr à garota um castigo cruel e
excepcional só por ter cumprido seu dever de cidadã.
— Que quer dizer com castigo cruel e excepcional? Não estou planejando
aplicar-lhe o terceiro grau.
— Espero que não esteja planejando se aproximar da garota esta noite. Isso
seria um castigo cruel e excepcional na minha opinião, xerife, e creio que ela
representa a opinião das pessoas esclarecidas deste distrito.
Crane abriu a boca para protestar, compreendeu talvez a inutilidade de tentar
levar a melhor sobre Bradshaw e tornou a fechá-la. Bradshaw e eu saímos sem
escolta. Quando já não podiam nos ouvir da casa, eu disse: — Belo trabalho
baixando a proa do xerife.
— Sempre detestei esse saco de vento fanfarrão. Por sorte ele é vulnerável. A
votação dele baixou perigosamente na última eleição. Muita gente neste distrito,
incluindo eu e o Dr. Godwin, gostaríamos de ver a execução da lei confiada a
gente mais esclarecida e eficaz. E talvez ainda consigamos.

Nada tinha mudado visivelmente no pavilhão. Dolly continuava deitada no


divã com o rosto para a parede. Bradshaw e eu hesitamos na porta. De cabeça
baixa, Alex atravessou o quarto e veio falar conosco.
— O Dr. Godwin foi lá em cima na casa dar um telefonema. Ele acha que ela
devia ficar internada por uns tempos.
Dolly falou em tom monótono: — Sei o que está dizendo. Pode
perfeitamente falar em voz alta. Quer se livrar de mim.
— Caladinha, amor. — Era uma expressão corajosa.
A garota recaiu no silêncio. Não tinha feito o mínimo movimento. Alex nos
puxou para fora, conservando a porta aberta para poder vigiá-la. Disse em voz
baixa: — Dr. Godwin não quer correr risco de suicídio.
— É assim tão ruim, hein? — eu disse.
— Acho que não. E no fundo o Dr. Godwin também acha que não. Ele diz
que é simplesmente uma precaução razoável. Sugeri que podia passar a noite
acordado tomando conta dela, mas ele acha que é arriscado demais eu tentar
fazer isso sozinho.
— Não deve mesmo — disse Bradshaw. — Precisa guardar alguma coisa
para amanhã.
— Sim. Amanhã. — Alex deu um chute no raspador de solas ao lado da
porta. — É melhor telefonar para meu pai. Amanhã é sábado, ele vai poder vir.
Passos vindos da casa se aproximaram. Um homem alto num casaco de
crocodilo emergiu do nevoeiro, a cabeça calva brilhando à luz da entrada.
Saudou Bradshaw calorosamente: — Viva, Roy. Gostei do seu discurso, do
pedaço que ouvi. Você ainda vai nos elevar à categoria de Atenas do Oeste.
Infelizmente uma paciente me obrigou a sair no meio. Ela queria saber se não
havia perigo em ver sozinha um filme de Tennessee Williams. Ela queria
realmente que eu fosse com ela para protegê-la de maus pensamentos. — Virou-
se para mim. — Sr. Archer? Sou o Dr. Godwin.
Apertamos as mãos. Lançou-me um olhar de prolongada intensidade como
se planejasse me pintar de memória. Godwin tinha um rosto pesado, forte, com
olhos cheios de luz que escureciam como lâmpadas que se apagavam. Possuía
autoridade, mas tinha o cuidado de evitar usá-la.
— Ainda bem que me chamou. Miss McGee... a Sra. Kincaid precisava de
algo que a acalmasse. — Deu uma olhada através da porta. — Espero que esteja
se sentindo melhor agora.
— Está muito mais tranquila — disse Alex. — Não acha que ela podia ficar
aqui comigo?
Godwin fez cara de compaixão. Sua boca era muito flexível, como a de um
ator.
— Não seria prudente, Sr. Kincaid. Mandei reservar um leito numa clínica
que uso. Não queremos correr risco com a vida dela.
— Mas por que ela ia querer se matar?
— Muita coisa na cabeça, pobre garota. Presto sempre atenção nas ameaças
de suicídio, até nas mais leves insinuações.
— Conseguiu descobrir o que ela tem na cabeça? — perguntou Bradshaw.
— Ela não quis falar muito. Está muito cansada. Podemos esperar até
amanhã.
— Espero que sim — disse Bradshaw. — O xerife quer interrogá-la sobre o
assassinato. Fiz o possível para dissuadi-lo.
A face móvel de Godwin ficou grave: — Então houve realmente um
assassinato? Outro assassinato?
— Uma de nossas professoras, Helen Haggerty, foi morta esta noite com um
tiro na casa dela. Ao que parece a Sra. Kincaid tropeçou no corpo.
— A má sorte a persegue. — Godwin ergueu os olhos para o céu baixo. —
Às vezes até penso que os deuses viram as costas para certas pessoas.
Pedi que explicasse o que acabava de dizer. Ele meneou a cabeça: — Estou
cansado demais para lhe contar a odisseia sangrenta dos McGee. Parte já se
apagou da minha memória, misericordiosamente. Por que não pede ao tribunal
que lhe dê os detalhes?
— Não seria uma boa ideia, dadas as circunstâncias.
— Não seria, seria? Mas vê como estou exausto. Depois de deixar minha
paciente em segurança, só me restará energia suficiente para chegar em casa e
cair na cama.
— Ainda precisamos falar, doutor.
— Sobre o quê?
Eu não queria falar na frente de Alex, mas falei, sem desviar os olhos dele:
— Da possibilidade de ela ter cometido este segundo assassinato ou, digamos
antes, da possibilidade de ela ser acusada de cometê-lo. Ela parece até querer
que isso aconteça.
Alex saiu em defesa da mulher: — Ela estava transtornada temporariamente,
e você não pode usar o que ela disse...
Godwin pôs a mão no ombro dele: — Tenha calma, Sr. Kincaid. Não
podemos resolver nada neste momento. Estamos todos precisando de uma noite
de sono... especialmente sua mulher. Quero que nos acompanhe à clínica para o
caso de eu precisar de ajuda com ela no caminho. Você — disse-me — pode nos
seguir em seu carro e trazê-lo de volta. De resto vai querer saber onde fica a
clínica, porque o espero lá amanhã às oito, depois de ter tido tempo de falar com
a Sra. Kincaid. Combinado?
— Amanhã às oito.
Virou-se para Bradshaw.
— Roy, no seu caso eu iria ver como a Sra. Bradshaw está se sentindo. Dei-
lhe um sedativo, mas ela está alarmada. Acha, ou finge achar, que está rodeada
de maníacos assassinos. Você pode convencê-la do contrário melhor do que eu.
Godwin parecia um homem inteligente e prudente. Sua autoridade se
impunha. Todos três fizemos o que ele disse.
E Dolly também. Escorada entre mim e Alex saiu do pavilhão e dirigiu-se
para o carro do médico. Não se debateu nem produziu qualquer som, mas andava
como que a caminho da câmara de execução.
10
capítulo

Uma hora mais tarde eu estava sentado numa das camas gêmeas do meu
quarto no motel. Não havia mais nada que eu pudesse fazer no momento, exceto
possivelmente provocar complicações se fosse procurar informações com as
autoridades locais. Mas minha mente não cessava de projetar na parede filmes
rápidos de ações que eu podia desempenhar. Perseguir e pôr a mão em Begley-
McGee. Capturar o homem de Nevada.
Desliguei as imagens violentas com um esforço de vontade e me obriguei a
pensar em Zenão, que dissera que Aquiles nunca poderia atravessar o espaço
entre ele e a tartaruga. Era um pensamento calmante, se nos metêssemos na pele
da tartaruga, ou talvez até mesmo na de Aquiles.
Eu tinha uma garrafinha de uísque na mala. Estava pegando quando me
lembrei de Arnie Walters, um colega de Reno que tinha dividido mais de uma
garrafinha comigo. Fiz uma ligação interurbana para seu escritório, no quarto da
frente do apartamento dele. Arnie estava em casa.
— Agência de Detetives Walters — disse ele, numa relutante voz sonolenta.
— É Lew Archer.
— Ah, ótimo! Eu não queria realmente ir para a cama. Estava só passando
meu pijama.
— Ironia1 não é o seu forte, portanto deixa disso. Tudo o que quero é um
pequeno serviço que pagarei em espécie na próxima oportunidade. Está
gravando?
Ouvi o pequeno estalido da máquina e falei da morte de Helen.
— Duas horas depois do tiro, o homem em quem estou interessado saiu do
local do crime e sumiu num conversível preto ou azul-escuro. Parecia um Ford
último tipo com placa de Nevada. Acho que peguei os quatro primeiros
caracteres...
— Acha?
— Tem neblina aqui e estava escuro. Os quatro primeiros caracteres são
provavelmente FT37. O cara é jovem e atlético, um metro e noventa, de
sobretudo escuro e chapéu de feltro mole de abas. Não consegui ver a cara.
— Há quanto tempo não vai ao oculista?
— Você consegue melhor que isso, Arnie. Tente.
— Ouvi dizer que hoje em dia idosos podem fazer exame gratuito de
glaucoma.
Arnie era mais velho do que eu, mas não gostava que o lembrassem disso.
— Que bicho te mordeu? Brigou com a mulher?
— Nada disso — disse ele animosamente. — Ela está me esperando na
cama.
— Dê um beijo na Phyllis por mim.
— Dou o meu mesmo. No caso de que eu descobra alguma coisa, o que
parece improvável dada a informação fragmentada, onde o encontro?
— Estou no Mariner's Rest Motel em Pacific Point. Mas é melhor telefonar
para meu serviço de recados em Hollywood.
Ele disse que telefonaria. Quando estava desligando, ouvi uma ligeira batida
na porta. Era Alex. Tinha enfiado a calça por cima do pijama.
— Ouvi sua voz.
— Estava telefonando.
— Não quis interromper.
— Já tinha acabado de falar. Entre e tome uma bebida.
Entrou no quarto cautelosamente como se receasse uma armadilha. Nas
últimas horas seus movimentos haviam ficado muito reticentes. Os pés descalços
não produziam som no tapete.
O armário do banheiro tinha dois copos embrulhados em papel.
Desembrulhei-os e os enchi. Sentamos nas camas gêmeas, bebendo a nada em
particular. Olhávamos um para o outro como imagens de espelho separadas por
uma invisível parede de vidro.
Eu estava consciente das diferenças entre nós, particularmente da juventude
e falta de experiência de Alex. Ele estava naquela idade em que tudo ofende.
— Eu estava pensando em telefonar para o meu pai — disse ele. — Agora
não sei se devo.
Houve outro silêncio.
— Ele não vai dizer “eu bem que avisei” em termos tão claros. Mas vai ser a
ideia geral. Os idiotas correm para onde os anjos temem pôr o pé, e toda essa
cantiga.
— Acho que também faz sentido se inverter os termos. Os anjos correm para
onde os idiotas temem pôr o pé. Não que eu conheça algum anjo.
Ele pegou a mensagem.
— Acha que sou um idiota?
— Você tem se comportado muito bem.
— Obrigado — disse ele formalmente. — Embora isso de fato não seja
verdade.
— Mas é. Sua posição não era assim tão fácil.
O uísque e os primórdios do calor humano haviam dissolvido a parede de
vidro entre nós.
— O pior de tudo — disse ele — foi quando a deixei há pouco na clínica.
Senti como se estivesse... sabe, relegando-a ao esquecimento. O lugar tem algo
de dantesco, com pessoas gritando e gemendo. Dolly é muito sensível. Não
imagino como ela vai suportar aquilo.
— Pode suportar melhor que outras coisas, como andar por aí no estado dela.
— Acha que ela é louca, não acha?
— O que eu acho não importa. Amanhã teremos uma opinião abalizada. Não
há dúvida de que ela está temporariamente transtornada. Mas já vi gente em pior
estado voltar ao normal.
— Então acha que ela vai ficar bem?
Ele se agarrava ao que eu dizia como num trapézio voador e lançou-se na
esperança. Que não me pareceu que devesse ser encorajada: — Estou mais
preocupado com a situação legal do que com a psiquiátrica.
— Você não pode realmente acreditar que Dolly matou essa amiga dela...
Helen? Eu sei que ela disse, mas não é possível. Sabe, conheço a Dolly. Não é
absolutamente nada agressiva. É até dessas pessoas que defendem o direito
absoluto à vida. Não gosta sequer de matar uma aranha.
— É possível, Alex, e isso foi tudo o que eu disse. Quis que Godwin tivesse
conhecimento da possibilidade desde o início. Ele está em posição de poder
fazer muito por sua mulher.
— Minha mulher... — disse Alex, com uma espécie de admiração.
— Ela é legalmente sua mulher. Mas ninguém vai achar que você tenha
muitos deveres para com ela. Você tem uma boa justificativa, se quiser
aproveitar.
O uísque chacoalhou no copo dele. Creio que precisou se dominar para não
jogar na minha cara.
— Não vou abandoná-la — disse ele. — Se acha que devo, pode ir para o
inferno.
Eu não tinha gostado inteiramente dele até agora.
— Alguém tinha que mencionar essa saída. A maioria aproveitaria.
— Não sou a maioria.
— É o que concluo.
— Meu pai vai provavelmente me chamar de idiota, mas não me importo,
mesmo que ela seja culpada de homicídio. Eu fico.
— Isso vai custar dinheiro.
— Você quer mais dinheiro, não é?
— Eu posso esperar. E Godwin também. Pensava no futuro. Há uma forte
possibilidade de que você precise de um advogado amanhã.
— Para quê? — Ele era bom rapaz, mas um tanto lento de raciocínio.
— A julgar por esta noite, seu principal problema vai ser evitar que Dolly se
meta em encrenca dando com a língua nos dentes. Isso significa conservá-la fora
das mãos das autoridades, num lugar onde possam olhar adequadamente por ela.
Um bom advogado pode ajudar nisso. Mas advogados não costumam esperar seu
dinheiro nos casos criminais.
— Você realmente acha que ela corre esse perigo... de risco de natureza
judicial? Ou está só tentando me amedrontar?
— Falei com o xerife local esta noite, e não gostei do brilho nos olhos
quando falamos de Dolly. O xerife Crane não é burro. Sabe que eu escondi
coisas dele. Vai cair em cima da garota quando descobrir as ligações familiares.
— Ligações familiares?
— O fato de que o pai dela assassinou a mãe. — Era cruel jogar aquilo em
cima dele. Mesmo assim era melhor ouvir de mim do que da voz triste que fala
do travesseiro todo amassado às três da manhã. — Ao que parece ele foi julgado
e condenado. O xerife Crane provavelmente reuniu as provas para a promotoria.
— É quase como a história se repetindo. — Havia algo perto do pavor na voz
de Alex. — Você não disse que esse Chuck Begley, o homem da barba, é de fato
o pai dela?
— Parece.
— Foi ele que começou tudo — disse Alex, a si mesmo e a mim. — Foi
depois que ele apareceu no domingo que ela me deixou. O que acha que
aconteceu entre eles, para levá-la a isso?
— Não sei, Alex. Talvez ele a censurasse por testemunhar contra ele. Seja
como for, ele fez voltar o passado. Ela não conseguiu aguentar ao mesmo tempo
o drama antigo e o casamento recente, e o deixou.
— Continuo sem compreender — disse ele. — Como Dolly pode ter um pai
assim?
— Não estudo genética, mas sei que a maioria dos assassinos não
profissionais não é criminosa. Vou descobrir mais sobre Begley-McGee e do
crime. Suponho que seja supérfluo perguntar se Dolly já falo disso...
— Ela nunca se referiu aos pais, a não ser para dizer que morreram. Agora
entendo por quê. Não a censuro por mentir... — Interrompeu a frase e emendou:
— Quero dizer, por não me contar certas coisas.
— Esta noite ela compensou regiamente.
— Sim. Foi uma noite tremenda. — Acenou várias vezes a cabeça como se
ainda estivesse absorvendo as repercussões. — Fale-me com franqueza, Sr.
Archer. Acredita nas coisas que ela disse, de ser responsável pela morte da
mulher? E pela morte da mãe dela?
— Nem me lembro da metade do que ela disse.
— Isso não é resposta.
— Talvez tenhamos respostas melhores amanhã. É um mundo complexo. A
mente humana é a coisa mais complexa que existe.
— Não me conforta muito.
— Não é meu trabalho.
Fez uma careta a isso e ao resto do uísque que bebeu, depois levantou
lentamente: — Bem, você precisa dormir e eu preciso telefonar. Obrigado pela
bebida. — Virou-se, com a mão na maçaneta. — E obrigado pela conversa.
— Sempre às ordens. Vai telefonar para seu pai?
— Não. Decidi que não.
Senti-me vagamente recompensado. Eu era velho o bastante para ser pai dele
e, não tendo filhos, talvez isso tivesse alguma coisa a ver com o meu sentimento.
— Para quem vai telefonar, ou é assunto particular?
— Dolly me pediu para procurar uma tia dela, chamada Alice. Acho que
venho adiando. Não sei o que dizer à tia. Nem sequer sabia antes desta noite que
existia uma tia Alice.
— Lembro que ela a mencionou. Quando Dolly pediu para você ligar?
— Na clínica. Ela quer que a tia venha vê-la. Não sei se é uma boa ideia...
— Isso depende da tia. Ela mora aqui na cidade?
— No Vale, em Indian Springs. Dolly diz que ela está na lista. Miss Alice
Jenks.
— Vamos experimentar.
Encontrei o nome dela e o número na lista, fiz a ligação e passei o fone Alex.
— O que vou vou dizer?
— Você sabe o que dizer. Quero falar com ela quando acabar.
Uma voz áspera saiu do fone: — Sim? Quem fala?
— Sou Alex Kincaid. É Miss Jenks?... Não nos conhecemos, Miss Jenks,
mas me casei com sua sobrinha há poucas semanas... Sua sobrinha, Dolly
McGee. Casamos há poucas semanas e ela adoeceu mais ou menos gravemente...
Não, é principalmente emocional. Ela está com os nervos abalados e deseja vê-
la. Está na Clínica Whitmore, aqui em Pacific Point. Dr. Godwin é o médico.
Fez nova pausa. Tinha suor na testa. A voz do outro lado da linha falou
algum tempo.
— Ela diz que não pode vir amanhã — disse ele a mim; e para o fone: —
Acha possível no domingo?... Sim, excelente. Pode me achar no Mariner's Rest
Motel ou... Alex Kincaid. Estou ansioso para conhecê-la.
— Deixe-me falar com ela — eu disse.
— Um minuto só, Miss Jenks. O Sr. Archer, que está aqui comigo, quer lhe
falar.
Passou-me o fone.
— Boa noite, Miss Jenks.
— Boa noite, Sr. Archer. E quem, posso perguntar, quer falar comigo à uma
da manhã?
Não era uma pergunta trivial. A mulher parecia ansiosa e irritada, mas
mantinha os sentimentos sob razoável controle.
— Sou detetive particular. Lamento ter interrompido seu sono, mas temos
mais do que uma simples doença de nervos. Uma mulher foi assassinada aqui.
Ela arfou mas não fez nenhum comentário.
— Sua sobrinha é testemunha material do crime. Pode ser que esteja mais
comprometida do que isso e vai precisar de apoio. Pelo que sei é a única família
que ela tem, excetuando o pai...
— Pode deixá-lo de fora. Ele não conta. Nunca contou, a não ser de forma
negativa. — A voz dela era inexpressiva e dura. — Quem morreu?
— Uma amiga e conselheira de sua sobrinha, a professora Helen Haggerty.
— Nunca ouvi falar dessa mulher — disse ela, com uma combinação de
impaciência e alívio.
— Vai ouvir muito se estiver de interessada em sua sobrinha. Sente-se ligada
a ela?
— Sentia, antes de ela começar a se afastar de mim. Eu a criei depois da
morte da mãe. — Sua voz ficou de novo inexpressiva: — Tom McGee tem
alguma coisa que ver com este novo crime?
— Pode ter. Está na cidade, ou estava.
— Eu sabia! — gritou ela, com sombrio triunfo. — Nunca deviam ter
soltado esse homem. Deviam tê-lo mandado para a câmara de gás pelo que ele
fez a minha pobre irmã.
A súbita emoção a sufocou. Esperei que ela continuasse. Como não o fez,
falei: — Estou ansioso para discutir os detalhes do caso, mas não por telefone.
Seria realmente uma grande ajuda se pudesse vir aqui amanhã.
— É impossível. Não adianta insistir. Tenho um encontro terrivelmente
importante amanhã à tarde. Várias autoridades estaduais vêm de Sacramento e a
coisa provavelmente vai se prolongar pela noite.
— E de manhã?
— Tenho de preparar as coisas para eles de manhã. Estamos mudando para
um novo programa de assistência social distrital com o Estado. — A histeria
latente zumbiu na sua voz, a histeria de uma solteirona de meia-idade que tem de
fazer uma mudança. — Se descuidar desse projeto posso perder o emprego.
— Não queremos isso, Miss Jenks. Qual a distância daí a Pacific Point?
— Setenta milhas, mas já disse que não posso ir.
— Eu posso. Concede-me uma hora de manhã, digamos, por volta das onze?
Ela hesitou.
— Sim, se é importante. Levanto uma hora antes para tratar da minha
papelada. Estarei em casa às onze. Tem meu endereço? É bem na saída da rua
principal de Indian Springs.
Agradeci, livrei-me de Alex e fui para a cama, marcando meu despertador
mental para as seis e meia.

________________
1 Trocadilho intraduzível com irony (ironia) e iron (ferro de passar).
11
capítulo

Alex ainda dormia quando eu já estava pronto para sair na manhã seguinte.
Deixei-o dormir, em parte por razões egoístas e em parte porque o sono era mais
clemente para ele do que provavelmente seria a vigília.
O nevoeiro era espesso lá fora. A massa aquosa cobria Pacific Point,
transformando-a numa espécie de periferia do mar. Saí do motel para um mundo
cinza sem perspectiva, entrei abruptamente numa rampa de acesso, desci para a
autoestrada, onde os faróis flutuavam em pares como peixes no mar alto, e
cheguei a uma parada de caminhões do lado leste sem noção real de que
atravessara a cidade.
Estava cansado de falar com pessoas cuja profissão era falar. Era um consolo
sentar no balcão de um restaurante de trabalhadores que só falavam quando
queriam algo ou para mexer com a garçonete. Eu brinquei um pouco com ela
também. Chamava-se Stella e era tão eficiente que ameaçava substituir a
automação. Ela disse com um sorriso cintilante que era esse o objetivo dela na
vida.
Meu destino ficava perto da autoestrada, numa rua repleta de novos prédios
de apartamentos. As cores pastel desbotadas e as escassas palmeiras
transplantadas pareciam sujas e desoladas no meio do nevoeiro.
A clínica era de estuque bege, de um só andar, ocupando a maior parte de um
terreno estreito e comprido. Toquei a campainha às oito em ponto. O Dr. Godwin
devia estar esperando atrás da porta. Abriu-a ele mesmo.
— É pontual, Sr. Archer.
Seus olhos variáveis tinham tomado a cor fria da manhã. Quando se virou
para fechar a porta, os ombros estavam curvados. Usava jaleco branco.
Estávamos numa pequena recepção. Sentei-me numa poltrona gasta virada para
uma TV. Dali ouvia as vozes claras das enfermeiras começando o dia.
— Esta clínica é sua, doutor?
— Sou sócio. A maior parte dos pacientes é minha. Acabo de fazer alguns
eletrochoques. — Alisou a frente do jaleco. — Eu me acharia menos parecido
com um feiticeiro se soubesse por que choque elétrico faz gente deprimida se
sentir melhor. Boa parte da nossa ciência, ou arte, está ainda na fase empírica.
Mas as pessoas melhoram — disse com uma careta, súbita demais para afetar
seus olhos vigilantes.
— Dolly melhorou?
— Sim, acho que está um pouco melhor. Não temos cura da noite para o dia,
naturalmente. Quero vigiá-la ao menos uma semana. Aqui.
— Ela está em condições de ser interrogada?
— Não quero que você a interrogue, nem pessoa alguma remotamente
relacionada com o... mundo do crime e castigo. — Como que para afastar a
maldição da recusa, deixou-se cair molemente na poltrona ao lado da minha,
pediu-me um cigarro e deixou que eu o acendesse.
— Por que não?
— Não gosto da lei nesse estado primitivo atual, com armadilhas que a
pessoa doente se traia e depois ser tratada no tribunal como sadia. Venho lutando
contra essa situação há muito tempo. — Apoiou a pesada cabeça calva nas costas
da cadeira e soprou a fumaça para o teto.
— Sugere que Dolly corre perigo do ponto de vista legal.
— Falo no geral.
— Que se aplica especificamente a Dolly. Não precisamos de jogos, doutor.
Estamos do mesmo lado. Não presumo que a garota seja culpada. Mas acho que
ela possui informações que podem me ajudar a esclarecer um crime.
— Mas e se ela for culpada? — disse ele, atento à minha reação.
— Nesse caso estou disposto a cooperar com você para obter uma redução
das acusações, para encontrar circunstâncias atenuantes, para apresentar um caso
suscetível de tratamento clemente num tribunal. Lembre-se de que estou
trabalhando para o marido dela. Ela é culpada?
— Não sei.
— Falou com ela esta manhã?
— Foi principalmente ela que falou. Não faço muitas perguntas. Espero e
escuto. No fim fico sabendo mais desta maneira. — Lançou-me uma olhadela
significativa como se eu devesse começar a aplicar esse método.
Esperei e escutei. Não aconteceu nada. Uma mulher gorda de longos cabelos
pretos, apareceu na porta interior. Estendeu os braços para o médico.
Ele ergueu a mão como um rei cansado: — Bom dia, Nell.
Ela deu um sorriso angustiado e retirou-se suavemente, como uma
sonâmbula que caminha de costas. Os braços estendidos foi a última coisa que vi
dela.
— Seria muito útil se me contasse o que Dolly tinha a dizer de manhã.
— E possivelmente perigoso. — Godwin esmagou o cigarro no cinzeiro de
cerâmica azul. — Há afinal de contas uma diferença entre nós. O que uma
paciente me diz é segredo profissional. Você não tem proteção profissional. Se se
recusasse a falar no tribunal pode ser mandado para a prisão por desacato. Eu
também, nos termos da lei, mas não é provável.
— Não seria a primeira vez para mim. E a polícia não me arranca o que eu
não queira contar. Isso é uma garantia.
— Tudo bem. — Godwin acenou com a cabeça. — Estou preocupado com
Dolly e tentarei explicar por que sem recorrer ao jargão profissional. Você pode
juntar as peças do quebra-cabeça objetivo, enquanto vou reconstruindo o
subjetivo.
— Disse que não usaria jargão profissional.
— Desculpe. Primeiro vem a história da garota. A mãe dela, Constance
McGee, trouxe-a aqui a conselho da irmã Alice, que conheço ligeiramente,
quando Dolly tinha dez anos. Não era uma criança feliz. De fato corria um certo
risco de se tornar realmente introvertida, e com bons motivos para isso. Há
sempre bons motivos. O pai dela, McGee, era um homem irresponsável e
violento, incapaz de lidar com os deveres da paternidade. Era inconstante com a
filha, estragava-a com mimos e a castigava, estava constantemente brigando com
a mulher e por fim a abandonou, ou foi abandonado, pouco importa. Eu teria
preferido tratá-lo em vez de tratar Dolly, visto ser ele a principal fonte de
perturbações na família. Mas ele era inacessível.
— Conseguiu vê-lo alguma vez?
— Ele nem sequer quis vir para uma entrevista — disse Godwin, com pesar.
— Se eu tivesse falado, talvez pudesse ter evitado um crime. Ou talvez não. Pelo
que ouvi dizer, ele era um homem gravemente inadaptado, que necessitava de
ajuda, mas nunca a teve. Pode compreender minha amargura com a falta de
coordenação entre a psiquiatria e o direito. Pessoas como esse McGee andam por
aí à solta, sem qualquer ação preventiva, até que cometem um crime. Depois
evidentemente são mandados para a prisão por dez ou vinte anos. Não para um
hospital. Para uma prisão.
— McGee já foi solto. Está aqui na cidade. Já sabia?
— Dolly contou. É uma das muitas severas pressões sobre ela. Pode
compreender como uma garota sensível, criada numa atmosfera de violência e
instabilidade, se tornaria presa de sentimentos de ansiedade e culpa. O pior
sentimento de culpa surge quando uma criança é forçada, por puro instinto de
conservação, a se virar contra os pais. Uma psicóloga com quem trabalhei
ajudou Dolly a exprimir os sentimentos em argila, jogos de bonecas e coisas
assim. Não havia muito o que eu pudesse fazer, as crianças não têm equipamento
mental para ser analisado. Mas tentei assumir o papel do pai calmo e paciente,
dar alguma estabilidade que faltava na sua vida jovem. E ela estava indo muito
bem até o desastre.
— Refere-se ao crime?
Ele acenou com a cabeça pesarosamente.
— McGee se encheu uma noite de autocompaixão furiosa, foi à casa da tia
em Indian Springs e meteu uma bala no coração de Constance. Dolly estava
sozinha em casa com a mãe. Ouviu o tiro e viu McGee fugindo. Depois
descobriu o corpo.
sua cabeça continuou balançando lentamente como um pesado sino
silencioso.
— Qual foi a reação dela nessa hora? — perguntei.
— Não sei. Uma das dificuldades peculiares da minha profissão é ter que
desempenhar uma função pública com meios privados. Não posso ir lá fora
pegar pacientes no laço. Dolly nunca mais voltou. Já não tinha a mãe para trazê-
la do Vale, e Miss Jenks, a tia, é muito ocupada.
— Mas não disse que foi Alice Jenks quem sugeriu que Dolly se tratasse?
— Disse. E ela pagou o tratamento. Talvez com todas as complicações que
surgiram na família ela concluísse que não podia continuar com essa despesa.
Seja como for só voltei a ver Dolly na noite passada, com uma única exceção.
Fui ao tribunal no dia em que ela testemunhou contra McGee. Enfrentei o juiz no
escritório dele e disse-lhe que isso não devia ser permitido. Mas ela era uma
testemunha essencial, eles tinham obtido o consentimento da tia e a puseram no
banco de testemunhas. Ela agiu como um automatozinho pálido, perdida num
mundo de adultos hostis.
O grande corpo dele tremia de indignação. Meteu as mãos nos bolsos
procurando um cigarro. Dei-lhe um e acendi, e acendi outro para mim.
— O que ela disse no tribunal?
— Foi tudo muito rápido e muito simples. Suspeito de que tinha sido
ensaiada. Ela ouviu o tiro e olhou pela janela do quarto e viu o pai fugindo com a
arma na mão. Outra pergunta foi se McGee tinha feito ameaças a Constance.
Tinha. E foi tudo.
— Tem certeza?
— Sim. Não é mera recordação. Tomei notas e dei uma olhada esta manhã.
— Por quê?
— É parte da história de Dolly, uma parte crucial. — Soprou a fumaça e
olhou para mim através dela, longa e cautelosamente.
— Ela conta agora uma história diferente? — perguntei.
A face de Godwin era atravessada por um complexo de paixões. Ele era um
homem de sentimentos e Dolly era a sua menina dileta perdida por muitos anos.
— Ela conta uma história absurda — acabou ele por desabafar. — Não só
não posso acreditar nela como não posso acreditar que ela acredita nela. A garota
não está assim tão doente.
Fez uma pausa, puxando uma profunda baforada, tentando se controlar.
Esperei e escutei. Desta vez ele continuou: — Ela pretende agora que não viu
McGee naquela noite e que ele não teve nada a ver com o crime. Ela diz que
mentiu porque vários adultos quiseram que ela mentisse.
— Por que ela contaria isso agora?
— Não pretendo compreendê-la. Depois de um intervalo de dez anos,
qualquer relação que tivéssemos se perdeu. E ela não me perdoou o que
considera minha traição: não ter conseguido cuidar dela depois do desastre. Mas
o que eu podia fazer? Não podia ir a Indian Springs e sequestrá-la da casa da tia.
— Importa-se com seus pacientes, doutor.
— Sim, eu me importo. Isso me cansa. — Esmagou a ponta do cigarro no
cinzeiro, que parecia artesanal. — A propósito, foi Nell que fez este cinzeiro.
Nada mal para uma primeira tentativa.
Murmurei qualquer coisa concordando. Acima do clamor dos pratos, uma
voz alucinada ergueu-se queixosa nos fundos da clínica.
— Essa história dela — eu disse — pode não ser assim tão absurda, combina
com a visita de McGee no segundo dia da lua de mel de Dolly, atingindo-a tão
fortemente que a deixou transtornada.
— É perspicaz, Sr. Archer. Foi precisamente isso o que aconteceu. Ele
pregou um longo sermão nela sobre sua inocência. Não deve esquecer que ela
amava o pai, embora de forma ambivalente. Ele conseguiu convencê-la de que a
memória dela estava enganada, que ele era inocente e ela culpada. As memórias
da infância são fortemente influenciadas pela emoção.
— Quer dizer que ela era culpada de perjúrio?
— De homicídio. — Inclinou-se para mim. — Dolly contou que ela mesma
matou a mãe.
— Com uma pistola?
— Com a língua. Essa é a parte absurda. Ela afirma que matou a mãe e a
amiga Helen, e que ainda por cima enviou o pai para a prisão, tudo com sua
língua venenosa.
— Ela explicou o que quer dizer com isso?
— Ainda não. É uma expressão de culpa que pode estar apenas
superficialmente relacionada às mortes.
— Quer dizer que ela está usando os assassinatos para descarregar a culpa
que sente de outra coisa?
— Mais ou menos. É um mecanismo comum. Sei com certeza que ela não
matou a mãe e que no essencial não mentiu sobre o pai. Tenho certeza de que
McGee era culpado.
— Os tribunais podem se enganar, mesmo em casos capitais.
Ele disse com uma espécie de surda arrogância: — Sei muito mais desse
caso do que tudo o que veio à tona no tribunal.
— Pela Dolly?
— Por várias fontes.
— Agradeceria muito que partilhasse comigo.
Os olhos dele ficaram velados.
— Não posso. Tenho que respeitar as confidências de meus pacientes. Mas
pode aceitar a minha palavra de que McGee matou a mulher.
— Então de que Dolly se sente tão culpada?
— Tenho certeza de que isso se descobrirá com o tempo. Provavelmente tem
relação com o ressentimento dela contra os pais. É natural que ela tenha querido
castigá-los pelo fracasso de seu casamento. Ela pode muito bem ter imaginado a
morte da mãe e a prisão do pai antes de se tornarem realidade. Quando os sonhos
vingativos da pobre criança se concretizaram, como não se sentir culpada? No
fim de semana McGee fez reaparecerem os velhos sentimentos, e depois esse
horrível acidente de ontem... — Faltaram as palavras e abriu as mãos.
— O tiro que matou Helen Haggerty não foi acidente, doutor. Para começar,
a arma desapareceu.
— Compreendo. Estava me referindo à descoberta do corpo por Dolly, que
foi certamente acidental.
— Isso eu não sei. Ela se acusa também desse crime. Não sei como explicar
isso com ressentimento infantil.
— Não estava tentando. — Havia irritação na sua voz. Eram os galões
profissionais que agora exibia para mim. — Nem há necessidade de você
compreender a situação psíquica. Você se prende aos fatos objetivos e eu trato
dos subjetivos. — Adoçou tudo com um pouquinho de filosofia: — Objetivo e
subjetivo, o mundo exterior e o interior, correspondem naturalmente. Mas às
vezes temos que seguir as linhas paralelas até quase o infinito antes que se
toquem.
— Fiquemos então nos fatos objetivos. Dolly disse que matou Helen
Haggerty com sua língua venenosa. Foi tudo o que ela disse?
— Há mais, muito mais, de uma natureza muito confusa. Dolly parece sentir
que a amizade com Miss Haggerty foi de algum modo responsável pela morte
dela.
— As duas eram amigas?
— Eu diria que sim, apesar de diferença de vinte anos entre elas. Dolly
confiava nela, contava-lhe tudo, e Miss Haggerty retribuía. Aparentemente tinha
graves problemas emocionais envolvendo o próprio pai, e não resistiu a
estabelecer o paralelo com Dolly. Trocaram confidências sobre o passado. Não
era uma situação saudável — concluiu ele secamente.
— Ela sabe alguma coisa do pai da Helen?
— Dolly parece pensar que era um policial corrupto envolvido num
assassinato, mas isso pode ser pura fantasia... uma espécie de imagem secundária
do próprio pai.
— Não é. O pai de Helen era policial e ela o considerava corrupto.
— Como diabos sabe disso?
— Li uma carta da mãe dela. Gostaria de falar com os pais dela.
— E por que não fala?
— Eles moram em Bridgeton, Illinois.
Era um grande salto, mas não tão grande quanto o que minha mente dava
para uma possibilidade em branco. Eu tinha tratado de casos que abriam fissuras
no terreno firme do presente, cavando as camadas do passado. Talvez o
assassinato de Helen estivesse relacionado a um obscuro assassinato em Illinois
há mais de vinte anos, antes de Dolly ter nascido. Era um pensamento hipotético
e não o mencionei ao Dr. Godwin.
— Lamento não poder ajudá-lo mais — ele dizia. — Agora tenho que ir, já
estou atrasado para minhas visitas.
O som de um motor destacou-se do tráfego da rua e parou lentamente.
Ouviu-se a porta de um carro abrir e fechar. Passos de homens na calçada.
Movendo-se com notável rapidez para um homem tão grande, Godwin abriu a
porta antes. Eu não podia ver quem eram os visitantes, mas não eram bem-
vindos. Godwin tornou-se rígido de hostilidade.
— Bom dia, xerife — disse o médico.
Crane respondeu no popular: — Está fazendo um dia dos diabos e você bem
sabe. Setembro tem fama de ser nosso melhor mês, mas a droga da neblina está
tão espessa que até engoliu o aeroporto.
— Não veio aqui para discutir o tempo.
— Tem razão, não vim. Ouvi dizer que tem aqui uma foragida da justiça.
— Onde ouviu isso?
— Tenho meus informantes.
— É melhor demiti-los, xerife. Estão lhe dando informações falsas.
— Alguém está, doutor. Nega que a Sra. Dolly Kincaid, McGee de solteira,
esteja nesta casa?
Godwin hesitou. Sua pesada queixada pesou ainda mais.
— Está.
— Há menos de um minuto disse que não estava. Qual é a ideia, doutor?
— Qual é a sua, xerife? A Sra. Kincaid não é foragida da justiça. Está aqui
por doença.
— Gostaria de saber o que a deixou doente. Não suporta ver sangue?
Os lábios de Godwin se encresparam. Parecia prestes a cuspir no outro. Eu
não podia ver o xerife de onde estava e nem tentei. Era melhor ficar invisível.
— Não é só o tempo que torna um dia horrível, doc. Tivemos ontem à noite
um crime horrível na cidade. Acho que não deve ser novidade para você.
Provavelmente a Sra. Kincaid lhe falou disso.
— Você a está acusando? — perguntou Godwin.
— Não diria tanto. Pelo menos, por ora.
— Então dê a volta.
— Não pode falar comigo assim.
Godwin ficou imóvel, mas a respiração mexia seu corpo como se tivesse um
motor funcionando dentro dele.
— Acusou-me na presença de testemunhas de dar asilo a uma foragida da
justiça. Posso processá-lo por calúnia e palavra que o farei se não parar de me
assediar e a meus pacientes.
— Não disse com essa intenção. — A voz de Crane era muito menos
confiante. — Seja como for, tenho o direito de interrogar uma testemunha.
— Em outra ocasião não digo que não tenha. Agora a Sra. Kincaid está sob o
efeito de sedativos fortes. Não posso permitir que seja interrogada pelo menos
durante uma semana.
— Uma semana?
— Pode ser mais. Aconselho-o fortemente a não insistir nesse ponto. Estou
disposto a comparecer perante um juiz e certificar que um interrogatório policial
agora pode pôr em perigo sua saúde e talvez sua vida.
— Não acredito nisso.
— Não me interessa no que acredita.
Godwin bateu a porta e apoiou-se nela, arquejando como um corredor. Um
par de enfermeiras uniformizadas de branco, que tinham espreitado através da
porta interior, tentaram ver se eram necessárias ali. Ele fez sinal para que
saíssem.
Eu disse com não fingida admiração: Defendeu-a com unhas e dentes.
— Eles já fizeram muito mal a ela quando era criança. Não vão completar a
obra se depender de mim.
— Como souberam que ela está aqui?
— Não faço a mínima ideia. Em geral posso confiar no pessoal para manter a
boca fechada. — Lançou-me uma olhada indagadora. — Falou nisso com
alguém?
— A ninguém da polícia. Alex contou a Alice Jenks que Dolly estava aqui.
— Talvez não devesse. Miss Jenks trabalhou para o distrito muito tempo, ela
e Crane são velhos conhecidos.
— Ela não seria capaz de trair a própria sobrinha, seria?
— Sei lá o que ela seria capaz de fazer. — Godwin arrancou o jaleco e jogou
na cadeira onde eu estivera sentado. — Bem, agora quer me dar o prazer de sair?
Agitou as chaves como um carcereiro.
12
capítulo

Na estrada do desfiladeiro saí para o sol. A neblina lá embaixo era como um


mar de água esbranquiçada invadindo as enseadas das montanhas. Do alto do
desfiladeiro, parei por um momento, outras montanhas eram visíveis no
horizonte. O vasto vale estava cheio de luz. Gado pastava entre os carvalhos nas
vertentes. Um bando de codornas atravessou a estrada em marcha diante do meu
carro como emplumados soldadinhos bêbados. Tudo cheirava a feno recém-
cortado, e eu tinha a impressão de ter caído no meio de uma cena pastoral onde
nada tinha mudado muito numa centena de anos.
A cidade de Indian Springs não dissipava completamente essa impressão,
embora tivesse seus postos de gasolina, seus drive-ins que serviam
hambúrgueres e tacos. Conservava um pouco da velha atmosfera do antigo Oeste
e mais do que um pouco da antiga pobreza crestada do Oeste. Mulheres
prematuramente envelhecidas vigiavam os filhos morenos nas portas das casas
de adobe que esfarelavam. A maior parte dos vagabundos na rua principal tinha
cara índia sob os chapéus de abas largas. Bandeiras anunciando antigos rodeos
pendiam molemente sobre suas cabeças.
Alice Jenks vivia numa das melhores casas do que parecia ser a melhor rua.
Era uma casa branca desmontável, de dois andares, com profundas varandas
embaixo e em cima, erguida a grande distância da rua, atrás de um fofo gramado
verde. Pisei na grama e me apoiei numa aroeira, abanando-me com o chapéu.
Estava cinco minutos adiantado.
Uma mulher algo imponente, de vestido azul, apareceu na varanda. Olhou-
me como se eu pudesse ser um ladrão me introduzindo sorrateiramente na casa
dela às onze da manhã. Ela desceu a escada e o caminho ao meu encontro. O sol
cintilava em seus óculos, dando a seus olhos uma aparência de holofotes.
Quando chegou perto de mim, não era tão alarmante. Os olhos castanhos
atrás dos óculos estavam cansados e ansiosos. Tinha fios cinzentos no cabelo. A
boca era inesperadamente generosa e até mole, mas estava apertada como uma
coisa viva entre as linhas duras que lhe desciam da base do nariz. O vestido azul
engomado, que se enfunava como a chapa de aço de uma armadura no peito
monolítico, era de corte antiquado e dava-lhe um ar desleixado. O sol do vale
tinha enrugado e endurecido a pele.
— É o Sr. Archer?
— Sim. Como tem passado, Miss Jenks?
— Vou vivendo. — Seu aperto de mão era masculino. — Venha para a
varanda, podemos falar ali.
Os movimentos, como a voz, eram tão abruptos que sugeriam nervos. Nervos
sob firme controle, possivelmente a vida toda. Indicou-me um sofá suspenso de
lona e sentou-se numa cadeira de junco virada para mim, de costas para a rua.
Três rapazes mexicanos numa desconjuntada bicicleta passaram precariamente
equilibrados como artistas da corda bamba.
— Não imagino o que possa querer de mim, Sr. Archer. Minha sobrinha
parece estar numa grande complicação. Falei com um amigo do tribunal de
manhã...
— O xerife?
— Sim. Ele parece ter a impressão de que Dolly anda se escondendo dele.
— Disse ao xerife Crane onde ela estava?
— Sim. Não devia?
— Ele foi logo para a clínica interrogá-la. O Dr. Godwin não permitiu.
— Dr. Godwin é um grande especialista em se intrometer nas coisas. Eu
pessoalmente não acho que as pessoas que se metem em complicações devam
ser mimadas e envolvidas em algodão, e o que acho para os outros vale para
minha família. Fomos sempre uma família cumpridora da lei e se Dolly esconde
alguma coisa deve pôr para fora. Minha opinião é que a verdade deve ser dita,
doa a quem doer.
Foi um autêntico discurso. Ela parecia renovar sua velha contenda com o Dr.
Godwin sobre a questão do testemunho de Dolly no julgamento.
— Às vezes isso pode doer muito, principalmente quando atinge pessoas que
ama.
Ela me olhou intensamente, a boca sensitiva comprimida, como se eu a
tivesse acusado de fraqueza.
— Pessoas que eu amo?
Eu dispunha apenas de uma hora e não tinha qualquer intuição segura de
como chegar até ela.
— Estou presumindo que ame Dolly.
— Não a tenho visto ultimamente, parece que ela se virou contra mim, mas
sempre gostei muito dela. Isso não significa — e os sulcos profundos vincaram-
se nos cantos da boca — que eu seja indulgente para alguma falta da parte dela.
Tenho uma posição pública...
— Qual é precisamente sua posição?
— Sou uma funcionária superior da assistência social do distrito nesta área
— anunciou ela. Depois olhou ansiosamente para trás, para a rua deserta, como
se uma força armada estivesse a caminho para lhe tirar o lugar.
— A assistência começa em casa.
— Está me ensinando como conduzir minha vida privada? — Não esperou
pela resposta. — Não precisa. Quem acha que tomou conta da criança quando o
casamento da minha irmã se desfez? Eu, naturalmente. Dei a ambas um lar, e
depois de minha irmã ser assassinada criei minha sobrinha como se fosse minha
própria filha. Dei-lhe a melhor comida e as melhores roupas, a melhor educação.
Quando ela quis sua independência, também dei. Dei-lhe o dinheiro para estudar
em Los Angeles. O que mais podia fazer por ela?
— Podia dar-lhe neste momento o benefício da dúvida. Não sei o que o
xerife lhe disse, mas tenho certeza de que exagerou.
A face dela endureceu.
— O xerife Crane não comete erros.
Eu tive de novo a sensação de duplicação, de falar em dois níveis. Na
superfície falávamos da ligação de Dolly com a morte de Helen Haggerty, mas
por baixo, embora McGee não tivesse sido mencionado, discutíamos a questão
da culpa de McGee.
— Todo policial comete erros. E até possível que a senhora e o xerife Crane
e o juiz e os doze jurados e todos os outros tenham se enganado sobre Thomas
McGee e condenado um homem inocente.
Ela riu na minha cara, mas não descomedidamente.
— Isso é ridículo, não conhece Tom McGee. Ele era capaz de tudo. Pergunte
a quem quiser nesta cidade. Costumava se embebedar e vir aqui bater nela. Mais
de uma vez tive que impedi-lo de entrar apontando uma arma para ele, a menina
agarrada nas minhas pernas. Mais de uma vez, depois de Constance deixá-lo,
esmurrava a porta e dizia que a arrastaria daqui pelos cabelos. Mas eu não
deixaria. — Meneou a cabeça veementemente e uma madeixa de cabelo grisalho
caiu como arame torcido no rosto.
— O que ele queria da mulher?
— Queria domínio. Queria tê-la embaixo da mão. Mas não tinha direito a
ela. Nós, Jenks, somos a mais antiga família da cidade. Os McGee, do outro lado
do rio, são a escória da terra, a maioria deles vive hoje da assistência. Ele era um
dos piores, mas minha irmã não foi capaz de ver isso quando ele começou a
cortejá-la com sua farda branca da marinha. Casou com ele apesar das amargas
objeções de nosso pai. Ele deu a ela doze anos de inferno na terra e no fim a
matou. Não me venha dizer que era inocente. Não o conhece.
Um gaio empoleirado na aroeira ouviu sua voz dura e obsessiva e ergueu sua
própria voz, contestando-a. Eu perguntei em contraponto: — Por que ele matou
sua irmã?
— Por pura maldade diabólica. Decidiu destruir o que não podia ter. Simples
assim. Não é verdade que havia outro homem. Ela foi fiel a ele até a morte.
Minha irmã se manteve pura.
— Quem disse que havia outro homem?
Ela olhou para mim. As cores afogueadas deixaram seu rosto. Parecia perder
a confiança que a raiva justiceira lhe tinha dado.
— Havia rumores — disse ela, numa voz cansada. — Rumores malvados,
imundos. Sempre há quando o casal se dá mal. Pode ter sido o próprio McGee a
iniciá-los. Eu sei que o advogado dele nunca deixou de insistir na ideia de outro
homem. E eu tinha que estar ali sentada ouvindo-o destruir a reputação da minha
irmã, depois de o assassino já ter destruído a vida dela. Mas o juiz Gahagan
tornou claro nas suas instruções ao júri que aquilo não passava de uma história
que ele inventara, sem base factual.
— Quem era o advogado de McGee?
— Uma velha raposa, Gil Stevens. As pessoas só o procuram quando são
culpadas e ele leva tudo o que têm para salvá-las.
— Mas ele não salvou McGee.
— Praticamente salvou. Dez anos é uma pena leve para assassinato em
primeiro grau. Ele devia ter sido executado.
A mulher era implacável. Com mão firme colocou no lugar a madeixa solta.
O cabelo branqueando estava penteado artificialmente em pequenas ondas
regulares, todas iguais, como o mar nas antigas gravuras de cobre. Sua posição
implacável podia provinha ou da certeza justiceira ou de culpado receio de estar
enganada. Hesitei em contar o que Dolly tinha dito, que mentira para condenar o
pai. Mas ia contar antes de sair.
— Estou interessado nos detalhes do crime. Seria muito doloroso lembrar?
— Posso suportar muita dor. O que quer saber?
— Simplesmente como aconteceu?
— Eu não estava aqui, fui a uma reunião das Filhas Nativas. Era presidente
do grupo local nesse ano. – E a lembrança ajudou-a a recuperar a compostura.
— Mesmo assim tenho certeza de que ninguém deve saber melhor o que se
passou.
— Sim, sem dúvida. exceto Tom McGee — lembrou-me ela.
— E Dolly.
— Sim, e Dolly. A menina estava em casa com Constance, já moravam aqui
havia alguns meses. Passava das nove e ela já tinha ido para a cama. Constance
estava no andar de baixo costurando. Minha irmã era uma bela costureira e fazia
a maior parte das roupas da filha. Estava fazendo um vestido para ela. Ficou todo
sujo de sangue. Foi exibido como prova no julgamento.
Miss Jenks parecia não poder esquecer o julgamento. Os olhos ficavam
vagos, parecia ver como que um ritual continuamente repetido no tribunal de sua
mente.
— Como foi o tiro?
— Foi muito simples. Ele se apresentou na porta da frente. Convenceu-a a
abrir.
— É estranho que ele tivesse conseguido isso, depois das experiências ruins
que sua irmã tinha com ele.
Ela afastou minha objeção com um movimento horizontal da mão.
— Quando queria podia convencer um pássaro a descer de uma árvore. Seja
como for discutiram. Suponho que ele queria que ela voltasse, como sempre, e
ela recusou. Dolly ouviu as vozes deles se erguerem coléricas.
— Onde ela estava?
— Lá em cima no quarto da frente, que dividia com a mãe. — Miss Jenks
apontou o teto da varanda. — A discussão acordou a menina e depois ela ouviu o
tiro. Foi à janela e viu-o fugindo com a arma fumegando na mão. Desceu a
escada e encontrou a mãe banhada em sangue.
— Ainda estava viva?
— Estava morta. Morreu instantaneamente, com o coração atravessado por
uma bala.
— Qual foi a arma usada?
— O xerife achou ser uma arma de calibre médio. Nunca a encontraram.
McGee provavelmente jogou-a no mar. Estava em Pacific Point quando o
detiveram no dia seguinte.
— Baseados no que Dolly tinha dito?
— Ela era a única testemunha, pobre menina.
Parecia haver entre nós o acordo tácito de que Dolly existia apenas no
passado. Talvez porque ambos estivéssemos evitando o problema da atual
situação de Dolly, um pouco da tensão entre nós evaporara. Aproveitei essa
vantagem para perguntar a Miss Jenks se podia dar uma olhada na casa.
— Não vejo para quê.
— Deu-me uma descrição muito clara do crime. Eu gostaria de tentar
relacioná-la ao cenário físico.
Ela disse dubitativamente:
— Não tenho de muito mais tempo e, francamente, não sei se posso aguentar
muito mais disso. Minha irmã era muito querida.
— Eu sei.
— O que está tentando provar?
— Nada. Quero apenas compreender o que aconteceu. É meu trabalho.
Um trabalho e seus imperativos queriam dizer qualquer coisa para ela.
Levantou-se, abriu a porta da frente e apontou para o local onde o corpo da irmã
caíra. Claro que não havia vestígio do crime no tapete trançado do vestíbulo.
Nenhum vestígio em parte alguma, exceto a mancha vermelha invisível na mente
de Dolly, e possivelmente na da tia.
Impressionou-me o fato de que a mãe de Dolly e sua amiga Helen tenham
sido ambas alvejadas na porta da frente das casas por uma arma do mesmo
calibre, empunhada possivelmente pela mesma pessoa. Não mencionei isso a
Miss Jenks. Só serviria para provocar outra explosão contra o cunhado McGee.
— Quer tomar uma xícara de chá? — perguntou ela inesperadamente.
— Não, muito obrigado.
— Ou café? Uso solúvel. Não demora nada.
— Aceito. É muito amável.
Ela me deixou na sala de estar. Era dividida por portas deslizantes da sala de
jantar e mobiliada com velhos móveis escuros e severos que evocavam uma
saleta do século XIX. Nas paredes havia máximas em vez de quadros e uma
delas me fez recordar com súbita saudade a casa da minha avó em Martinez.
Dizia: “Ele é o Ouvinte Silencioso de Todas as Conversas.” Minha avó tinha
bordado a mesma máxima e a pendurara em seu quarto. Falava sempre muito
baixinho.
Um piano ocupava um canto da sala. Tentei abri-lo mas a tampa do teclado
estava fechada à chave. Uma foto de duas mulheres e uma criança ocupava o
lugar de honra em cima do piano. Uma das mulheres era Miss Jenks, mais nova
mas tão forte e dominadora como agora. A outra mulher era ainda mais nova e
muito mais bonita. Vestia-se com a sofisticação ingênua de uma beldade de
cidadezinha provinciana. A criança no meio delas, dando as mãos a ambas, era
Dolly com cerca de dez anos.
Miss Jenks veio através das portas deslizantes com uma xícara de café.
— Somos nós três. — Como se duas mulheres e uma menina formassem
uma família completa. — E esse piano era da minha irmã. Ela o tocava
lindamente. Eu nunca fui capaz de dominá-lo.
Limpou os óculos. Não percebi se estavam embaciados pela emoção ou pelo
vapor do café. Enquanto o tomávamos, ela relatou alguns triunfos da
adolescência de Constance. Ela tinha tido um prêmio de piano, outro de canto.
Tinha muito boas notas no ginásio, especialmente em francês, e estava decidida a
ir para a universidade, como Alice tinha ido antes dela, quando esse maldito
malandro do Tom McGee...
Deixei a maior parte do café e fui para a entrada. Tinha o cheiro de mofo das
casas velhas. Surpreendi um vislumbre da minha imagem no espelho embaciado
ao lado do cabide para chapéus, feito com uma armação de veado. Eu parecia um
fantasma do presente, assombrando um momento sangrento do passado. A
própria mulher atrás de mim tinha uma qualidade insubstancial, como se o seu
grande corpo fosse a casca ou a concha de onde o ser essencial tinha partido. Dei
comigo associando a ela o cheiro de mofo.
Uma escada com uma passadeira de oleado se abria no fundo da sala. Dirigi-
me para lá, dizendo: — Importa-se que eu dê uma olhado quarto que Dolly
ocupava?
Ela deixou que meu impulso a arrastasse para a escada, que começou a subir.
— Agora é o meu quarto.
— Não vou desarrumar nada.
As persianas estavam fechadas e ela acendeu a lâmpada do teto para eu ver.
Tinha um quebra-luz rosa que enchia o quarto de um tom rosado. O chão era
coberto por uma fofa tapeçaria rosa. Uma colcha decorativa rosa cobria a cama
de casal. O complicado toucador com espelho de três faces tinha babados de
seda rosa, e o mesmo acontecia com a cadeira acolchoada na frente.
Um canapé acolchoado estava colocado junto à janela com uma revista
aberta ao lado. Miss Jenks pegou a revista e enrolou-a na mão de modo a
esconder a capa. Mas eu não tive dificuldade em reconhecer um número de Os
Romances da Vida.
Atravessei o quarto, afundado até os tornozelos no espesso tapete rosa de sua
predileção e abri a persiana da janela. Podia ver dali a larga varanda rasa do
primeiro andar e, através da balaustrada, a aroeira e meu carro estacionado na
rua. Os três rapazes mexicanos passavam por ele na sua bicicleta, um
empoleirado no guidom, outro no selim, outro no porta-bagagem, seguidos por
um cachorro ruivo.
— Eles não têm o direito de andar de bicicleta daquela maneira — disse
Miss Jenks perto do meu ombro. — Estou decidida a fazer queixa deles. E
aquele cachorro não devia andar solto por aí.
— Ele não está fazendo mal a ninguém.
— Talvez não, mas tivemos um caso de hidrofobia há dois anos.
— Estou mais interessado no que aconteceu há dez anos. Que altura tinha
sua sobrinha nessa época?
— Era bem alta para a idade. Cerca de um metro e quarenta. Por quê?
Ajustei minha altura ficando de joelhos. Dessa posição podia ver os galhos
rendilhados da aroeira e através deles o meu carro, porém nada mais perto. Um
homem que saísse da casa dificilmente seria visto antes de pelo menos uns
quatorze metros além da aroeira. Uma arma que levasse na mão não poderia ser
vista antes de chegar à rua. Era uma experiência feita com pouco rigor e
contingente, mas o resultado sublinhou a pergunta na minha mente.
Levantei-me.
— Estava escuro nessa noite?
Ela sabia a que noite eu me referia.
— Sim. Estava escuro.
— Não vejo postes de luz na rua.
— Não. Não temos. É uma cidade pobre, Sr. Archer.
— Havia luar?
— Não. Não acho que houvesse. Mas minha sobrinha tem uma vista
excelente. É capaz de distinguir as marcas de uma ave...
— À noite?
— Há sempre alguma luz. De resto conhecia o próprio pai. — Miss Jenks
emendou-se. — Conheceu o próprio pai.
— Ela disse isso?
— Sim. Fui a primeira a quem ela contou.
— Pediu que detalhasse o que viu?
— Claro que não. Ela estava completamente abatida, como é natural. Não
queria sujeitá-la a esse choque.
— Mas não se importou de sujeitá-la ao choque de testemunhar essas coisas
no tribunal.
— Era necessário, necessário para a acusação. E não lhe fez mal algum.
— O Dr. Godwin acha que isso fez muito mal a ela e que o choque que ela
sofreu então é parcialmente responsável pelo colapso de Dolly.
— O Dr. Godwin tem suas ideias e eu tenho as minhas. Se quer a minha
opinião, ele é um homem perigoso, um conflituoso. Não tem respeito pela
autoridade e eu não tenho respeito por um homem desses.
— Antes respeitava. Mandou sua sobrinha e ele para tratamento.
— Hoje sei mais dele do que sabia então.
— Importa-se de me dizer por que ela precisava de tratamento?
— Não me importo. — Ela ainda tentava preservar uma superfície amigável,
embora ambos tivéssemos consciência do desentendimento que fervia por baixo.
— Dolly não ia bem na escola. Não se sentia bem nem era popular. O que era
natural, com os pais que tinha... quero dizer, o pai dela, tornando a casa um
inferno.
“Isto não é o sertão — disse ela, como se suspeitasse que talvez fosse — e
pensei que o mínimo que eu podia fazer era providenciar ajuda. Até gente que
vive da assistência social são aconselhadas em questões de família quando
necessitam. Portanto, persuadi minha irmã a levá-la ao Dr. Godwin em Pacific
Point. Ele era o melhor que tínhamos nessa época. Constance a levava de carro
todo sábado de manhã, por cerca de um ano. Tenho que ser justa com Godwin, a
criança melhorou muito. E Constance também. Estava mais alegre, feliz e segura
de si.
— Ela também fazia tratamento?
— Acho que um pouco, e claro que lhe fazia bem ir à cidade todo sábado.
Queria até se mudar para lá, mas não tinha dinheiro para isso. Mas deixou
McGee e veio morar comigo. Isso melhorou os nervos dela. E ele não não
tolerava vê-la recuperar a dignidade. Matou-a como um cão raivoso.
Decorridos dez anos a mente dela ainda zumbia como uma mosca em torno
do momento sangrento.
— Por que não continuou com o tratamento de Dolly? Provavelmente ela
precisava dele mais do que nunca, depois do que aconteceu.
— Não era possível. Eu trabalho sábado de manhã. Aproveito para fazer meu
trabalho burocrático. — Calou-se, confusa e sem saber o que dizer, como
acontece com as pessoas honestas embaraçadas pela própria desonestidade.
— Teve também a desavença com Godwin por causa do testemunho de sua
sobrinha no tribunal.
— Não me envergonho disso, diga ele o que disser. Não lhe fez mal falar do
pai. Provavelmente até fez bem. Ela tinha que expulsar aquilo do sistema de
qualquer maneira.
— Contudo, não expulsou. Ainda está lá. Como ainda está no seu, Miss
Jenks. Só que agora ela alterou a história.
— Alterou a história?
— Ela agora diz que não viu o pai na noite do crime. Nega que ele tenha
alguma coisa a ver com isso.
— Quem lhe contou isso?
— Godwin. Acabava de falar com ela. Ela contou que mentiu no tribunal
para fazer a vontade aos adultos. — Senti-me tentado a dizer mais, mas lembrei
a tempo de que ela certamente ia contar ao amigo xerife.
Ela olhava para mim como se eu tivesse discutido uma crença básica de sua
vida.
— Ele está deformando o que a Dolly disse, tenho certeza. Está se servindo
dela para provar que tem razão. quando não tem.
— Duvido disso, Miss Jenks. O próprio Godwin não acredita na nova
história de sua sobrinha.
— Está vendo! Ela ou está louca ou está mentindo! Não se esqueça de que
ela tem sangue do McGee! — Ficou aterrorizada com sua explosão. Desviou os
olhos, lançando uma olhada ao quarto cor-de-rosa como se ele pudesse de algum
modo atestar a inocência virginal de suas intenções. — Eu não queria realmente
dizer isso — disse ela. — Amo minha sobrinha. Simplesmente... é mais duro do
que eu pensava remexer todo esse passado.
— Lamento, e tenho certeza de que ama sua sobrinha. Sentindo por ela o que
sentia, e sente, não podia ter metido na cabeça dela uma história falsa para contar
no tribunal.
— Quem disse que o fiz?
— Ninguém. Estou dizendo que não podia. Não é o tipo de mulher capaz de
corromper a mente de uma garota de doze anos.
— Não — disse ela. — Não tenho nada a ver com a acusação de Dolly
contra o pai. Ela veio me contar na noite em que aconteceu, meia hora depois de
ter acontecido. Nunca pus em dúvida o que ela disse. Tinha o timbre da verdade.
Mas ela não tinha. Eu não pensava que ela estivesse exatamente mentindo.
Era mais provável que estivesse suprimindo alguma coisa. Falava
cautelosamente e em voz baixa para que a máxima da sala de estar não a ouvisse.
E evitava encontrar meus olhos.
Um rubor embaçado subia lentamente do pescoço forte para a face.
Observei: — Duvido que fosse fisicamente possível ela ter identificado alguém,
mesmo o próprio pai, a esta distância e numa noite escura... para não falar de tê-
lo visto com uma arma fumegante na mão.
— Mas a polícia aceitou. O xerife Crane e o promotor distrital acreditaram
nela.
— Os policiais e os promotores costumam aceitar de bom grado os fatos ou
pseudofatos que se ajustem a seus casos.
— Mas Tom McGee era culpado. Era culpado.
— Pode muito bem ter sido.
— Então por que tenta me convencer de que não era? — O rubor de
vergonha estava passando pela habitual conversão em rubor de raiva. — Não
quero ouvi-lo mais.
— Faria bem em ouvir. O que pode perder com isso? Estou tentando reabrir
esse velho caso porque está relacionado, através de Dolly, com o caso Haggerty.
— Acredita que ela matou Miss Haggerty? — perguntou a tia.
— Não. Acredita nisso?
— O xerife Crane parece considerá-la a principal suspeita.
— Ele disse isso mesmo, Miss Jenks?
— Foi como se o dissesse. Sondou-me sobre o que eu sentiria se ele a
levasse para ser interrogada.
— E qual foi sua reação?
— Nem sei. Estava tão transtornada. Já não vejo Dolly há algum tempo. Ela
se casou sem me dizer nada. Foi sempre boa garota, mas pode ter mudado.
Tive a impressão de que Miss Jenks dava voz ao mais profundo sentimento
de si mesma: Foi sempre boa garota, mas pode ter mudado.
— Por que não telefona a Crane e lhe diz para parar? Sua sobrinha precisa
ser tratada com cuidado.
— Não a julga culpada deste crime?
— Já lhe disse que não. Diga-lhe que pare se não quiser perder a próxima
eleição.
— Não posso fazer isso. Ele é meu superior no trabalho do distrito. — Mas
ela estava pensando no que eu disse. — E por falar disso, concedi-lhe todo o
tempo possível. Já deve passar do meio-dia.
Eu estava preparado para partir. Tinha sido uma hora muito longa. Ela desceu
a escada atrás de mim e me acompanhou à varanda. Tive a impressão quando
nos despedimos de que ela queria dizer algo mais. O rosto tinha uma expressão
de expectativa. Mas não disse nada.
13
capítulo

O nevoeiro tinha diminuído um pouco no litoral, mas continuava a não se ver


o sol, apenas um clarão branco sem fonte visível que feria os olhos. O
recepcionista no Mariner's Rest disse-me que Alex tinha saído com um homem
idoso num Chrysler novo. Seu carro esporte vermelho continuava no
estacionamento do motel e ele não deixara as chaves do quarto.
Comprei um sanduíche num drive-in no fim da rua e comi no quarto. Depois
fiz duas ligações frustrantes. O telefonista do tribunal disse que não havia a
mínima chance de conseguir uma cópia do julgamento: todas as seções estavam
fechadas para o fim de semana. Liguei para o escritório de Gil Stevens, o
advogado que tinha defendido sem sucesso Tom McGee. Seu serviço de recados
disse que estava em Balboa. Não, eu não podia me comunicar com ele lá. Tinha
saído por dois dias em seu iate.
Decidi tentar Jerry Marks, o jovem advogado que tinha defendido a Sra.
Perrine. Seu escritório ficava num novo centro comercial não longe da região do
motel. Jerry era solteiro e ambicioso e podia muito bem estar trabalhando,
mesmo numa tarde de sábado.
A porta estava aberta e eu entrei para a sala de espera mobiliada com madeira
de bordo e chita. O cubículo da secretária atrás da meia parede de vidro à
esquerda estava vazio por ser fim de semana, mas achei Jerry Marks em seu
escritório.
— Como vai, Jerry?
— Vou bem.
Ele me olhou cautelosamente por cima do livro que estava lendo, um tomo
enorme intitulado Regras da Prova. Não era muito experimentado em ações
criminais, mas era competente e honesto. A cara de camponês da Europa Central
era aquecida e iluminada por olhos castanhos inteligentes.
— Como vai a Sra. Perrine?
— Não a vi desde que a soltaram, e não espero voltar a vê-la. Raramente sou
procurado por ex-clientes. Cheiro a tribunal.
— Acontece o mesmo comigo. Você está livre?
— Estou e vou continuar. Prometi a mim mesmo um fim de semana de
estudo, haja assassinato ou não.
— Sabe do assassinato Haggerty, então.
— Naturalmente, toda a cidade fala dele.
— O que você ouviu?
— Nada de especial. Alguém no tribunal disse a minha secretária que essa
professora foi morta a tiro por uma aluna da faculdade. Esqueci o nome dela.
— Dolly Kincaid. O marido dela é meu cliente. Ela está numa clínica aos
cuidado de um médico.
— Psicótica?
— Depende da sua definição de psicótico. É uma situação complexa, Jerry.
Duvido que seja legalmente insana nos termos da Lei McNaghten. Por outro
lado, duvido muito que dado o tiro.
— Está tentando me interessar no caso — disse ele, desconfiado.
— Não estou tentando nada. De fato vim aqui pedir uma informação. Qual
sua opinião sobre Gil Stevens?
— É o velho mestre local. Contrate-o.
— Está fora da cidade. Falando sério, é um bom advogado?
— Stevens é o mais bem sucedido advogado criminal do distrito. Tem que
ser bom. Conhece a lei e conhece júris. Recorre a cenas forenses antiquadas que
eu mesmo não usaria. É um autêntico ator, carregado de emoção. Mas dá certo.
Não consigo me lembrar de algum caso importante que ele tenha perdido.
— Eu consigo. Há dez anos ele defendeu Tom McGee, acusado de atirar na
mulher e condenado.
— Isso foi antes do meu tempo.
— Dolly Kincaid é filha desse McGee. E foi também a principal testemunha
de acusação no julgamento do pai.
Jerry assobiou.
— Já vejo o que quer dizer com situação complexa. — Depois de uma pausa,
perguntou: — Quem é o médico dela?
— Godwin.
Jerry estendeu para fora os lábios grossos.
— Eu teria cuidado com ele.
— O que quer dizer?
— Tenho certeza de que é um bom psiquiatra, mas talvez não tanto no
departamento forense. É um homem muito inteligente e não se importa de
mostrar o que vale, de fato às vezes até procede como um gênio. O que deixa
uma pessoa de pé atrás, especialmente se essa pessoa se chama Gahagan e é
conselheiro do Supremo Tribunal. Portanto, no seu caso, eu o usaria com
moderação.
— Não posso controlar o uso que fazem dele.
— Não, mas pode prevenir o advogado dela...
— Seria muito mais simples se você fosse o advogado dela. Ainda não falei
com o marido dela, mas creio que ele concordaria com a minha recomendação. E
por sinal, a família dele não está propriamente na miséria.
— Não era em dinheiro que eu estava pensando — disse Jerry friamente. —
Prometi a mim mesmo passar este fim de semana com meus livros.
— Helen Haggerty devia ter escolhido outro fim de semana para levar um
tiro.
Saiu mais duro do que eu pretendia. meu fracasso em ajudar Helen estava me
remoendo. Jerry me olhou zombeteiramente.
— Tem interesse pessoal no caso?
— Parece.
— Okay, okay — disse ele. — O que você quer que eu faça?
— Por ora só quero que fique de prontidão.
— Vou estar aqui a tarde toda. Depois disso, meu serviço de recados pode
me encontrar.

Agradeci e voltei para o motel. O quarto de Alex ao lado do meu continuava


vazio. No meu serviço de recados em Hollywood, Arnie Walters tinha deixado
seu número e liguei para Reno.
Arnie tinha saído, mas sua mulher e sócia recebeu a ligação. Sua exuberante
feminilidade saltou pelos fios: — Nunca o vi, Lew. Só ouço sua voz ao telefone.
Pelo que sei, você não existe, apenas fez um certo número de gravações que
alguém toca de vez em quando para eu ouvir.
— Como explica eu responder? Como agora.
— Eletrônica. Explico tudo o que não entendo pela eletrônica. Poupa-me
uma infinidade de complicações. Quando vou vê-lo afinal?
— Neste fim de semana, se Arnie já conseguiu identificar o motorista do
conversível.
— Não conseguiu precisamente, mas sabe quem é a dona do carro. Uma tal
Sra. Sally Burke e mora aqui mesmo em Reno. Ela afirma que o carro foi
roubado há dois dias. Mas Arnie não acredita nela.
— Por que não?
— Ele é muito intuitivo. Além disso, ela não comunicou o alegado roubo.
Ainda por cima tem namorados de vários tipos. Arnie está atrás deles.
— Ótimo.
— Presumo que seja importante — disse Phyllis.
— É um caso de duplo assassinato, talvez triplo. Minha cliente é uma jovem
com problemas emocionais. Vai provavelmente ser detida hoje ou amanhã por
uma coisa que quase certamente não fez.
— Você parece muito intenso.
— Este caso mexeu com meus nervos. Por outro lado, não sei em que pé
estou.
— Nunca o ouvi admitir isso antes, Lew. Seja como for, eu estava pensando
antes de você telefonar que talvez pudesse travar relações com a Sra. Sally
Burke. Acha boa ideia?
— Excelente ideia. — Phyllis era uma ex-detetive da Agência Pinkerton que
parecia ex-corista. — Lembre-se de que a Sra. Burke e seus amiguinhos podem
ser altamente perigosos. É possível que tenham matado uma mulher na noite
passada.
— Não esta mulher aqui. Tenho muito o que viver. — Referia-se a Arnie.
Trocamos mais alguns gracejos no decorrer dos quais ouvi gente entrando no
quarto de Alex, ao lado do meu. Depois de me despedir de Phyllis, cheguei à
parede para escutar. A voz de Alex e de um outro homem começavam uma
discussão, e eu não precisava de microfone de contato para saber o que
discutiam. O outro homem queria que Alex desse as costas àquilo tudo e voltasse
para casa.
Bati na porta.
— Deixe-me falar com eles — disse o homem, como se esperasse a polícia.
Saiu do quarto um homem mais ou menos da minha idade, bonito, ficando
grisalho, rosto magro, olhos claros estreitos, queixo voluntarioso. Tinha nele a
marca da organização, como um escudo invisível sob o terno cinza clássico.
Havia nele também uma certa espécie de desespero. Nem sequer perguntou
quem eu era antes de dizer: — Sou Frederick Kincaid e você não tem o direito
de chatear meu filho. Ele não tem nada a ver com essa garota e com seus crimes.
Ela se casou com ele sob falsa identidade. O casamento não durou vinte e quatro
horas...
Alex saiu do quarto e puxou o braço do pai. Tinha uma expressão muito
infeliz de embaraço no rosto.
— É melhor vir para dentro, pai. Este é o Sr. Archer...
— Archer, hein? Parece que você envolveu meu filho nesta coisa...
— Pelo contrário, ele me contratou.
— E eu o demito. — A voz dele soou como se já tivesse desempenhado esta
função muitas vezes.
— Vamos falar sobre isso.
Os três nos acotovelamos na porta. Kincaid pai não queria que eu entrasse.
Estava bem perto de acabar em pancadaria, um prestes a agredir pelo menos um
dos outros.
Abri caminho à força para dentro do quarto e me sentei numa cadeira, de
costas para a porta.
— O que aconteceu, Alex?
— O pai ouviu falar de mim no rádio. Telefonou para o xerife e descobriu
onde eu estava. O xerife nos chamou agora mesmo. Encontraram a arma do
crime.
— Onde?
Alex demorou a responder, como se as palavras em sua boca tornassem tudo
mais real se as pronunciasse. O pai respondeu por ele: — Onde ela a tinha
escondido, embaixo do colchão da cama na cabana que em que morava...
— Não é uma cabana — disse Alex. — É um pavilhão.
— Não me contradiga, Alex.
— Viram a arma? — perguntei.
— Vimos. O xerife queria que Alex identificasse a arma, o que naturalmente
ele não podia fazer. Nem sequer sabia que ela tinha uma arma.
— Que espécie de arma era?
— Um revólver Smith and Wesson, calibre .38, coronha de nogueira. Velho,
mas em bom estado. Ela o comprou provavelmente numa loja de penhores.
— É a teoria da polícia?
— O xerife mencionou essa possibilidade.
— Como ele sabe que o revólver é dela?
— Foi encontrado embaixo do colchão, não é? — Kincaid falava como um
promotor apresentando um caso, usando-o para meter o filho na linha. — Quem
mais podia ter posto lá?
— Praticamente qualquer um. O pavilhão ficou aberto a noite toda, não
ficou, Alex?
— Estava quando eu fui lá.
— Deixe que eu fale — disse o pai. — Tenho mais experiência nessas coisas.
— Não tem tirado muito proveito disso. Seu filho é testemunha e eu estou
tentando chegar aos fatos.
Ele ficou em pé diante de mim com as mãos na cintura, vibrando: — Meu
filho não tem absolutamente nada a ver com este caso.
— Não se iluda. Ele se casou com a garota.
— O casamento é irrelevante... um impulso pueril que não durou sequer um
dia. Vou tratar de anulá-lo. Nem chegou a ser consumado, segundo ele me
contou.
— Não pode anulá-lo.
— Não me diga o que posso fazer.
— Acho que mesmo assim direi. Tudo o que pode fazer é anular a si mesmo
e a seu filho. Há mais num casamento que a consumação sexual e tecnicismos
jurídicos. O casamento é real porque é real para Alex.
— Ele quer acabar com isso agora.
— Não acredito.
— Não é verdade, Alex, que quer voltar para casa, para seus pais? A mãe
está terrivelmente preocupada. Começou a sentir de novo aquelas palpitações no
coração. — Kincaid jogava tudo, exceto a pia da cozinha.
Alex olhava dele para mim.
— Não sei. Só quero fazer o certo.
Kincaid começou a dizer algo, provavelmente relacionado à pia da cozinha,
mas eu falei mais alto que ele: — Então responda uma ou duas perguntas, Alex.
Dolly segurava alguma arma quando chegou correndo ao pavilhão na noite
passada?
— Não vi nenhuma.
— Provavelmente estava escondida nas roupas — disse Kincaid.
— Cale a boca, Kincaid —, eu disse calmamente da minha cadeira. — Não
me oponho ao fato de você ser um bastardo sem coração. Você obviamente não
pode evitar. Mas me oponho a sua tentativa de transformar Alex em um. Deixe-o
escolher, pelo menos.
Kincaid engasgou algumas vezes e se afastou de mim. Alex disse sem olhar
para nenhum de nós: — Não fale com meu pai dessa maneira, Sr. Archer.
— Tudo bem. Ela usava um casaquinho curto de lã, saia e blusa. Mais
alguma coisa?
— Não.
— Alguma bolsa?
— Acho que não.
— Pense.
— Não.
— Portanto não podia ter um .38 escondido. Viu-a esconder uma arma
embaixo do colchão?
— Não.
— E ficou com ela desde o momento em que ela voltou até a hora em que
partiu para a clínica?
— Sim. Fiquei com ela o tempo todo.
— Então está bem claro que não é a arma de Dolly, ou pelo menos que não
foi ela que a escondeu no colchão. Tem alguma ideia de quem possa ter sido?
— Não.
— Você disse que era a arma do crime. Como eles estabeleceram isso? Ainda
não tiveram tempo para testes balísticos.
Kincaid falou do canto em que curtia seu mau humor: — O calibre combina
com a ferida e uma bala foi disparada recentemente. Salta aos olhos que é a arma
que ela usou.
— Acredita nisso, Alex?
— Não sei.
— Eles a interrogaram?
— Pretendem. O xerife disse que vão esperar a balística, na segunda-feira.
Isso me daria algum tempo, se podia acreditar em Alex. As pressões da noite
e da manhã, a juntarem-se às incertezas das últimas três semanas, tinham-no
deixado atordoado. Até dava a impressão de cambalear.
— Acho que devíamos todos esperar — eu disse — antes de tomar uma
decisão sobre sua mulher. Mesmo que seja culpada, o que tenho muito fortes
motivos para duvidar, você deve a ela a ajuda e o apoio que puder dar.
— Ele não deve nada — disse Kincaid. — Absolutamente nada. Ela se casou
com ele fraudulentamente. Só contou mentiras.
Conservei minha voz e meu gênio baixos, para contrastar.
— Ela continua precisando de assistência médica e de um advogado. Tenho
um bom advogado local pronto para entrar na dança, mas não posso contratá-lo
eu mesmo.
— Está tomando um monte de iniciativas, não?
— Alguém tem que assumir a responsabilidade. Tem um monte dela solto
por aí neste momento. Vocês não podem evitá-la se escondendo num buraco e se
trancando lá dentro. A garota está em apuros e, quer gostem quer não, ela é da
família.
Alex parecia escutar, mas eu não sabia se ouvia. O pai sacudiu a estreita
cabeça grisalha: — Ela não é da minha família e vou lhe dizer uma coisa, para
seu governo. Ela não vai arrastar meu filho para o mundo do crime. Nem ela
nem você. — Virou-se para Alex. — Quanto já pagou a este sujeito?
— Uns duzentos dólares.
Kincaid falou para mim: — Já foi amplamente pago, exorbitantemente pago.
Ouviu que o demiti. Isso aqui é um quarto particular e se persistir em ficar à
força chamo a gerência. Se não conseguirem lidar com você, chamo a polícia.
Alex olhou para mim e ergueu as mãos, não muito alto, num movimento
impotente. O pai pôs um braço nos ombros dele: — Estou fazendo apenas o que
é melhor para você, filho. Seu lugar não é com essa gente. Vamos para casa e
animamos mamãe. Afinal de contas, não vai querer ser a causa da morte dele.
Aquilo saiu suavemente, e foi o argumento decisivo. Alex não voltou a olhar
para mim. Eu voltei para meu quarto e telefonei para Jerry Marks dizendo que eu
tinha perdido um cliente e ele também. Jerry pareceu desapontado.
14
capítulo

Alex e o pai deixaram o quarto e foram embora. Não saí para vê-los partir,
mas ouvi o som dos carros deles, que o nevoeiro não demorou a abafar. Sentei-
me e deixei meus nervos se acalmarem, repreendendo-me por não ter sabido
lidar melhor com eles. Kincaid era um homem assustado, prezava sua situação
profissional e social da mesma maneira que as gerações anteriores prezavam
suas almas.
Subi a Foothill, para a casa de Bradshaw. O diretor era provavelmente outro
medricas, mas tinha dinheiro, e mostrara uma certa simpatia por Dolly, muito
além de seu interesse oficial no caso. Eu não queria continuar por conta própria.
Precisava de um patrono, principalmente de um que tivesse certa influência
local. Alice Jenks correspondia a este requisito, mas eu não a queria como
cliente.
Um policial montava guarda no pavilhão. Não me deixou entrar para dar
uma olhada, mas não se opôs a que eu subisse até a casa. Foi Maria, a
empregada espanhola, que abriu a porta.
— O Dr. Bradshaw está?
— Não senhor.
— Onde posso encontrá-lo?
Ela encolheu os ombros.
— Não sei. Acho ter ouvido a Sra. Bradshaw dizer que foi passar o fim de
semana fora.
— É estranho. Gostaria de falar com a Sra. Bradshaw.
— Vou ver se ela pode recebê-lo.
Entrei sem ser convidado e sentei-me numa cadeira dourada no vestíbulo
enquanto Maria ia ao andar de cima. Pouco depois voltou e disse que a Sra.
Bradshaw não demoraria a descer.
Esperei pelo menos meia hora antes de ela descer mancando. Ela tinha
penteado com esmero a cabeça grisalha, pintado o rosto e posto um vestido com
rendas no pescoço enrugado fechado com um broche de brilhantes. Perguntei a
mim mesmo, quando ela me fez o brinde hesitante de sua mão, se tudo aquilo era
em meu benefício.
A velha senhora parecia satisfeita por me ver.
— Como tem passado, senhor... é Archer, não é? Estava ansiosa para que
alguém aparecesse. Essa neblina deixa a gente muito isolada, e agora sem minha
motorista... — Ela pareceu ouvir a nota queixosa em sua voz e eliminou-a
instantaneamente. — Como está a garota? — perguntou com vivacidade.
— Estão cuidando dela. O Dr. Godwin acha que está melhor do que ontem.
— Ótimo. Gostará de saber — disse ela, com um brilho irônico nos olhos —
que eu estou também um pouco melhor do que ontem. Meu filho me informou
de manhã que fiz um de meus melhores shows, como ele chama. Francamente,
estava irritada. A noite não é o meu melhor.
— Foi uma noite dura para todos.
— E eu sou uma velha egoísta. Não é o que está pensando?
— As pessoas não mudam muito ao envelhecer.
— Isso tem todos os sinais de um insulto. — Mas estava sorrindo, quase
flertando comigo. — Insinua que fui sempre assim.
— Isso deve saber melhor do que eu.
Ela soltou uma risada. Não era um som alegre, mas tinha humor. — Você é
um rapaz atrevido, e inteligente. Eu gosto de homens novos inteligentes. Venha
para a saleta e eu mando servir uma bebida.
— Muito obrigado, mas não posso demorar...
— Então sento aqui. — Deixou-se cair com cautela na cadeira dourada. —
Minhas qualidades morais talvez não tenham mudado para pior. Minhas aptidões
físicas... essas pioraram sem dúvida. A neblina é muito ruim para a minha artrite.
— Acrescentou, com um gesto cuidadoso da cabeça: — Mas não devo me
queixar. Prometi a meu filho, como penitência pela noite passada, que passaria
um dia inteiro sem emitir uma única queixa.
— Como tem se saído?
— Não muito bem — disse ela, com um estranho sorriso enrugado. — É
como quando se joga paciência, sempre se faz alguma trapaça. Você não?
— Não jogo paciência.
— Não perde grande coisa, mas ajuda a passar os dias. Bem, não quero
afastá-lo do que tem a fazer.
— O que tenho a fazer é falar com o Dr. Bradshaw. Sabe onde posso
encontrá-lo?
— Roy partiu esta manhã de avião para Reno.
— Para Reno?
— Não foi jogar, posso garantir. Ele não tem a mínima parcela do instinto do
jogador. De fato, às vezes até penso que ele é excessivamente prudente. Roy é
em certa medida um filhinho da mamãe, não acha? — Ela me olhou com uma
ironia complexa, sem se sentir embaraçada com a condição dele nem com sua
cumplicidade nela.
— Fico um tanto surpreso por ele ter saído daqui no meio desse caso de
assassinato.
— Também fiquei, mas não consegui demovê-lo. Ele não está exatamente
fugindo dele. Há uma conferência de diretores de pequenas faculdades na
Universidade de Nevada. Foi marcada há meses e Roy será um dos principais
oradores. Ele achava seu dever comparecer. Mas eu via muito bem que ele
estava ansioso para ir. Ele gosta de aparecer em público, sabe, teve sempre algo
de ator, mas não se pode dizer que adore as responsabilidades correspondentes.
Eu estava divertido e intrigado e um tanto espantado com seu realismo. Ela
mesma parecia achar engraçado. Conversar era melhor que paciência.
A Sra. Bradshaw levantou-se rangendo e se apoiou no meu braço.
— É melhor irmos para a saleta. Aqui tem uma corrente de ar. Simpatizo
com você, meu rapaz.
Eu não sabia se aquilo era uma bênção ou uma maldição. Ela sorriu na minha
cara como se pudesse ler ali minhas dúvidas.
— Não tenha medo, não vou comer você. — Pôs a ênfase na palavra final,
como se já tivesse comido o filho no café.
Fomos para a saleta e sentamos frente a frente em poltronas de couro de
espaldar alto. Ela chamou Maria para que me servisse um uísque com soda.
Depois recostou-se e seus olhos percorreram as estantes. As lombadas de livros
pareciam lembrar a importância de Bradshaw.
— Não me compreenda mal. Amo meu filho profundamente e me orgulho
dele. Orgulho-me de sua aparência física e de seu cérebro. Ele se formou summa
cum laude em Harvard e depois doutorou-se com as mais altas classificações.
Um dia desses será reitor de uma das principais universidades ou presidente de
uma grande fundação.
— Ele é ambicioso, ou é a senhora?
— Eu costumava ser por ele. À medida que Roy foi se tornando mais
ambicioso eu fui me tornando menos. Há na vida coisas melhores que subir uma
escada sem fim. Ainda não perdi completamente a esperança de que ele se case.
— Lançou-me uma olhada viva. — Ele gosta de mulheres, sabe.
— Sem dúvida que gosta.
— De fato eu começava a me persuadir de que ele estava interessado em
Miss Haggerty. Nunca o tinha visto tão atencioso com outra mulher. — Ela
deixou cair o que acabava de dizer, fazendo-o adquirir um tom de interrogação.
— Ele mencionou que saiu com ela várias vezes. Mas disse também que não
eram íntimos sob nenhum aspecto. A reação dele à morte dela confirma isso.
— Qual foi a reação dele à morte dela?
Eu tinha puxado muitas vezes pela língua aos outros e era perfeitamente
capaz de perceber quando faziam o mesmo comigo.
— Referia-me à reação dele em geral. Não teria ido a Reno esta manhã, com
ou sem conferência de diretores, se gostasse realmente de Helen Haggerty.
Ficaria em Pacific Point tentando descobrir quem a matou.
— Ele parece muito deprimido com o que aconteceu.
— Eu vim procurar a ajuda dele. Ele pareceu genuinamente preocupado com
Dolly Kincaid.
— Está. Estamos ambos. De fato, Roy me pediu no café que fizesse todo o
possível pela garota. Mas o que posso fazer? — Mostrou as mãos enrugadas,
exibindo sua impotência.
Maria entrou com meu uísque, me entregou o copo sem cerimônia e
perguntou à patroa se queria mais alguma coisa. Não queria. Tomei um golinho
da bebida, cogitando se a Sra. Bradshaw seria uma cliente com quem eu pudesse
lidar, no caso de se tornar minha cliente. Ela tinha dinheiro, sem dúvida. Os
brilhantes na garganta chegariam para pagar meus serviços por vários anos.
— A senhora podia me contratar.
— Contratá-lo?
— Se quer realmente fazer alguma coisa por Dolly, além de ficar aí sentada
brincando com a ideia. Acha que podemos nos entender?
— Eu já me entendia com homens quando você ainda estava no berço, Sr.
Archer. Está insinuando que não sou capaz de me entender com as pessoas?
— Eu é que pareço não ser capaz disso. Alex Kincaid acaba de me demitir
com vigoroso apoio do pai. Não querem saber de Dolly nem de seus problemas,
agora que batata está assando.
Os olhos dela fulgiram.
— Eu saquei logo o rapaz. É um maricas.
— Não tenho recursos para prosseguir sozinho. Seja como for não é bom
sistema. Preciso de alguém que me apoie, de preferência alguém com influência
local e... vou ser franco... com um substancial saldo bancário.
— Quanto custaria isso?
— Depende do tempo que o caso leve e das possíveis ramificações que
surgirem. Cobro cem dólares por dia e despesas. Tenho também uma equipe de
detetives em Reno trabalhando numa pista que pode ser importante.
— Uma pista e Reno?
— Foi originada aqui, na noite passada.
Contei-lhe a história do homem do conversível, propriedade da Sra. Sally
Burke, mulher de muitos namorados. Ela se inclinou para a frente na cadeira
com crescente interesse: — Por que a polícia não está trabalhando nessa pista?
— Talvez esteja. Se está, não sei. Eles parecem aferrados à ideia de que
Dolly é culpada — tudo mais é irrelevante. É mais simples dessa maneira.
— Você não aceita essa ideia?
— Não.
— Apesar da arma encontrada na cama da garota?
— Então já sabe disso.
— O xerife Crane me mostrou de manhã. Queria saber se eu a reconhecia.
Claro que não. Abomino a simples vista de armas. Nunca permiti a Roy ter uma.
— E não faz a mínima ideia de quem era essa arma?
— Não, mas o xerife parecia considerar como certo que era de Dolly e que
isso a liga ao crime.
— Não temos razão alguma para achar que era dela. E se era, o último lugar
onde ela a colocaria era seu próprio colchão. O marido nega que ela o tivesse
feito e ficou com ela desde que voltou ao pavilhão. E há ainda o fato de não
haver prova definitiva de se tratar da arma do crime.
— Verdade?
— Verdade. É preciso fazer testes de balística, que estão marcados para
segunda-feira. Se a sorte não me abandonar, posso lançar mais luz sobre o caso
antes disso.
— Tem alguma teoria definida, Sr. Archer?
— Tenho uma ideia de que as ramificações deste caso se estendem a uma
época muito anterior ao nascimento de Dolly. Não foi Dolly quem ameaçou a
vida de Miss Haggerty. Ela teria reconhecido a voz, eram amigas íntimas. Penso
que Dolly foi à casa dela simplesmente se aconselhar sobre voltar para o marido.
Tropeçou no corpo e ficou em pânico. Ainda está em pânico.
— Por quê?
— Não estou ainda em condições de explicar. Quero conhecer mais do
passado dela. Quero também aprofundar o passado de Miss Haggerty.
— Isso pode ser interessante — disse ela, como se estivesse considerando ir
ver um filme. — Quanto isso tudo me custaria?
— Farei o mais barato que puder. Mas pode chegar a dois ou três, até quatro
mil.
— É uma penitência bem cara.
— Penitência?
— Por todo o meu egoísmo, passado, presente e futuro. Vou pensar no caso,
Sr. Archer.
— De quanto tempo precisa para pensar?
— Telefone-me à noite. Roy deve telefonar lá pela hora do jantar, ele
telefona toda noite quando está fora, e eu só posso dar uma resposta depois de
discutir o assunto com ele. Vivemos com um orçamento mais apertado do que
imagina — disse ela seriamente, ao mesmo tempo em que apalpava os brilhantes
no pescoço.
15
capítulo

Dirigi sob as árvores gotejantes até a casa de Helen Haggerty. Dois policiais
diante da porta da frente não me deixaram entrar nem fazer perguntas. O dia
estava decididamente ando errado.
Desviei para o campus e entrei no prédio administrativo. Ia com a vaga ideia
de falar com Laura Sutherland, a diretora feminina, mas o escritório dela estava
fechado. Estaria tudo deserto se não fosse um homem de cabelos brancos em
jeans que varria o corredor. Ele parecia ser o Tempo personificado e tive um
pesadelo momentâneo ao pensar que ele varria os últimos vestígios de Helen.
Numa espécie de reflexo defensivo, puxei meu bloco e vi o nome do diretor
do Departamento de Línguas Modernas. Era o Dr. Geisman. O velho da vassoura
sabia onde ficava o escritório dele: — É no Humanidades, bem lá no fim. —
Apontou. — Mas não deve estar lá num sábado à tarde.
O velho estava enganado. Encontrei Geisman na secretaria do departamento,
no primeiro andar do prédio de Humanidades, sentado com um fone numa mão e
um lápis na outra. Eu o tinha visto sair da reunião com Bradshaw na tarde
anterior, um homem pesado de meia-idade, óculos grossos que dissimulavam
imperfeitamente os olhinhos ansiosos.
— Um momento — disse-me; e para o telefone: — Lamento não poder fazer
nada, Sra. Bass. Compreendo que tenha suas responsabilidades de família e que
a remuneração não seja grande para uma leitora especializada.
Parecia estrangeiro, embora não tivesse sotaque. A voz era desnaturada,
como se o inglês fosse apenas uma outra língua que ele tinha aprendido.
— Sou Dr. Geisman — disse ele, desligando e riscando um nome numa lista
à sua frente. — É o Dr. Falla?
— Não. Meu nome é Archer.
— Quais são suas habilitações? Tem algum curso superior?
— Sou formado na escola da vida.
Ele não correspondeu ao meu sorriso.
— Um membro da minha faculdade morreu, como deve saber, e eu tive que
desistir do meu sábado para encontrar um substituto. Se espera que eu tome seu
pedido a sério...
— Não estou pedindo nada, Dr. Geisman, exceto possivelmente uma
pequena informação. Sou detetive particular investigando a morte da professora
Haggerty, e estou interessado em saber como ela veio parar aqui.
— Não tenho tempo para falar de tudo isso. Há aulas que têm de ser dadas na
segunda-feira. Se esse Dr. Falla não aparecer ou se mostrar impossível, não sei o
que fazer. — Olhou para o relógio de pulso. — Devo estar no Aeroporto de Los
Angeles às seis e meia.
— Pode dispor de cinco minutos, todo mundo pode.
— Tudo bem. Cinco minutos. — Bateu com a ponta do dedo no cristal do
relógio. — Quer saber como Miss Haggerty veio parar aqui? Tudo que sei é que
um dia apareceu na minha seção e pediu um posto. Tinha ouvido falar do ataque
de coração do professor Farrand. Esta é nossa segunda emergência em um mês.
— Quem lhe contou sobre o ataque de coração?
— Não sei. Talvez a Dra. Sutherland. Era a indicação para referências locais.
Mas todo mundo sabia, saiu no jornal.
— Ela já morava aqui antes de pedir o emprego?
— Creio que sim. Sim, morava. Disse que já tinha casa. Gostava da terra e
queria ficar. Estava muito empenhada em conseguir o emprego. Para falar
francamente, eu tinha algumas dúvidas a respeito dela. Licenciada em Chicago,
mas não tinha todas as qualificações. A escola onde ensinou, Maple Park, não é
credenciada em nosso nível. Mas a Dra. Sutherland disse que ela precisava do
lugar e eu a admiti, infelizmente.
— Fiquei com a impressão de que ela tinha renda própria.
Geisman apertou os lábios e meneou a cabeça: — Senhoras com renda
própria não aceitam quatro classes de francês e alemão, mais as funções de
orientação pedagógica, por um salário abaixo de cinco mil dólares. Talvez ela se
referisse à pensão de alimentos. Ela contou que estava com dificuldade para
receber a pensão. — Seus óculos cintilaram quando ele olhou para cima. —
Sabia que ela tinha se divorciado recentemente?
— Ouvi falar. Sabe onde está o ex-marido?
— Não. Nunca tive grandes conversas com ela. Suspeita dele?
— Não tenho motivo para isso. Mas quando uma mulher é assassinada,
procura-se normalmente o homem com motivo para matá-la. A polícia local tem
outras ideias.
— Não concorda com eles?
— Mantenho o espírito aberto.
— Entendo. Dizem que uma aluna nossa está sob suspeita.
— Foi o que ouvi. Conhece a garota?
— Não. Ela não estava matriculada em nenhum curso do nosso
departamento, felizmente.
— Por que “felizmente”?
— Ela é uma psiconeurótica, pelo que me disseram. — Os olhos míopes
pareciam vulneráveis como ostras abertas sob as grossas lentes dos óculos. — Se
a administração empregasse métodos próprios de seleção, não teríamos alunos
assim no compus, pondo em perigo nossas vidas. Mas somos muito atrasados
aqui em certos aspectos. — Tornou a bater no cristal do relógio. — Já teve seus
cinco minutos.
— Só mais uma pergunta. Já esteve em contato com a família de Helen
Haggerty?
— Sim, telefonei para a mãe dela de manhã. O diretor Bradshaw me pediu
para cumprir esse dever, embora a bem dizer eu ache que isso cabia a ele. A mãe,
Sra. Hoffman, chega hoje de avião e vou esperá-la ao aeroporto de Los Angeles.
— Às seis e meia?
Ele acenou que sim, desanimado.
— Parece não haver mais ninguém disponível. Dois diretores estão fora da
cidade...
— A Dra. Sutherland também?
— A Dra. Sutherland também. Foram embora e descarregaram tudo em cima
de mim. — Seus óculos embaciaram de autocompaixão e ele os tirou para
limpar. — Com essa neblina eu não enxergo muito bem para dirigir. Minha vista
está tão ruim que sem óculos não posso distinguir entre você e o próprio bom
Deus.
— A diferença não é grande.
Ele tornou a pôr os óculos, percebeu que era uma gracinha e soltou uma
risadinha que parecia um latido.
— Em que avião chega a Sra. Hoffman?
— Num voo da United, de Chicago. Prometi esperá-la no balcão da United.
— Deixe que eu vou.
— Está falando sério?
— Seria uma oportunidade de falar com ela. Onde quer que a leve depois?
— Reservei um quarto para ela no Pacific Hotel. Posso encontrar vocês lá;
digamos, às oito.
— Ótimo.
Geisman se levantou, deu a volta na mesa e veio apertar minha mão
calorosamente. Quando eu estava saindo do prédio, um homenzinho idoso de
chapéu preto e capa esverdeada deslizou do nevoeiro. Tinha bigode preto que
parecia tingido, olhos negros de tuberculoso, rubor azulado nas faces cavadas.
— Dr. Falla?
Ele acenou que sim. Conservei a porta aberta para ele passar. Ele tirou o
chapéu num gesto largo e fez uma reverência.
— Merci beaucoup.
Seus sapatos de sola de borracha não produziam mais som que uma aranha.
Tive outro dos meus momentinhos de pesadelo. Era o doutor Morte.
16
capítulo

Foi uma lenta condução ao longo da costa mas, antes de eu chegar ao


aeroporto, a neblina levantou, deixando uma delicada penumbra no ar.
Estacionei no prédio da United. Eram exatamente seis e vinte e cinco, de acordo
com o talão que me entregou a garota do estacionamento. Atravessei a rua para o
enorme edifício iluminado e encontrei o carrossel de bagagens assediado por
passageiros.
Uma mulher que parecia uma versão ressequida e mais velha de Helen estava
parada na orla da multidão, segurando uma maleta. Usava vestido preto sob um
casaco preto com gola de pele barata e luvas pretas. Só o vistoso cabelo ruivo
destoava. Tinha os olhos inchados e parecia aturdida, como se parte de sua
mente tivesse ficado em Illinois.
— Sra. Hoffman?
— Sim. Sou a Sra. Earl Hoffman.
— Meu nome é Archer. O diretor do departamento de sua filha, Dr. Geisman,
pediu-me para vir esperá-la.
— Foi grande amabilidade dele — disse, com um pobre sorriso vago. — E
grande amabilidade sua.
Peguei a maleta, que era pequena e leve.
— Deseja comer ou beber alguma coisa? Há aqui um restaurante muito bom.
— Oh, não, obrigada. Jantei no avião. Bolo de carne. Foi um voo muito
interessante. Eu nunca tinha voado antes num jato. Não senti o mínimo medo.
Ela parecia ausente. Relanceou o olhar pelas luzes brilhantes e as pessoas em
volta. Os músculos da face estavam se retesando como se ela se preparasse para
voltar a chorar. Segurei o braço magro dela e me apressei a tirá-la dali. Demos a
volta no estacionamento e entramos na autoestrada.
— Isso ainda não existia da última vez em que estive aqui. Ainda bem que
decidiu vir me buscar. Eu me perderia — disse ela numa voz perdida.
— Há quanto tempo não vinha aqui?
— Há uns vinte anos. Foi quando Hoffman estava na Marina, ele era da
Guarda Costeira. Colocaram-no em San Diego e Helen já tinha fug..., já tinha
saído de casa e eu pensei que bem podia aproveitar a oportunidade de viajar.
Moramos em San Diego durante mais de um ano e foi muito agradável. — Eu a
ouvia respirar forte como se lutasse para vir à superfície do presente. Perguntou
com cuidado: — Pacific Point fica perto de San Diego, não fica?
— Cerca de cinquenta milhas.
— Ah, sim? — Depois de uma nova pausa, perguntou: — É da faculdade?
— Acontece que sou detetive.
— Que interessante! Meu marido é detetive também. Está na corporação de
Bridgeton há trinta e quatro anos. Deve se aposentar no ano que vem. Tínhamos
pensado em vir para a Califórnia, mas isso tudo vai fazê-lo provavelmente
mudar de ideia. Ele finge não se importar, mas se importa. Tanto quanto eu. — A
voz dela flutuava acima dos ruídos da estrada como um espírito desencarnado
falando consigo mesmo.
— Foi pena ele não ter podido vir hoje.
— Podia ter vindo, se quisesse. Podia ter pedido uma licença. Acho que ele
estava com medo de não conseguir enfrentar. E há ainda a pressão arterial dele a
considerar. — Voltou a hesitar. — Está investigando a morte da minha filha?
— Sim.
— O Dr. Geisman disse ao telefone que tinham um suspeito, uma jovem. O
que levaria uma aluna a matar uma professora? É a primeira vez que ouço falar
de uma coisa assim.
— Não creio que tenha sido ela, Sra. Hoffman.
— Mas o Dr. Geisman disse-me que era praticamente um caso resolvido. —
A dor em sua voz havia se tornado uma espécie de justiça vingadora.
— Pode ser que seja. — Eu não queria discutir com uma testemunha
potencialmente valiosa. — Estou investigando outros ângulos, e talvez possa me
ajudar.
— Como?
— A vida de sua filha foi ameaçada. Ela me contou pouco antes de ser
assassinada. Alguém telefonou para ela. Não reconheceu a voz, mas disse uma
coisa estranha, que soava como a voz de Bridgeton.
— Bridgeton? É onde moramos.
— Eu sei, Sra. Hoffman. Helen disse que era Bridgeton que vinha atrás dela.
Tem ideia do que ela queria dizer?
— Ela sempre odiou Bridgeton. Desde o colégio culpava Bridgeton de tudo
o que acontecia de errado na vida dela. Estava impaciente para sair de Bridgeton.
— Achava que ela tinha fugido de casa.
— Eu não colocaria a coisa nesses termos —, ela disse. — Desapareceu por
um verão e foi para trabalhar. Tinha um emprego num jornal de Chicago. Depois
entrou para a universidade e me informou onde estava. Foi apenas o pai... —
Cortou bruscamente esta frase. — Eu costumava ajudá-la com o dinheiro da casa
até que fomos para a Marinha.
— Qual o problema entre ela e o pai?
— Era com o trabalho de meu marido. Pelo menos foi essa a causa da
batalha final.
— Quando Helen o chamou de policial desonesto?
Ela se virou no banco para me olhar.
— Helen contou isso, hein? Você é... você era namorado dela ou algo assim?
— Éramos amigos. — Descobri que podia dizer aquilo com certa convicção.
Passamos uma única hora irritada juntos, mas a morte dela acendera uma luz que
me feria os olhos.
Ela se aproximou mais para estudar meu rosto.
— O que mais ela contou?
— Que a briga com o pai foi por causa de um assassinato.
— Isso é mentira. Não quero dizer que Helen mentisse, mas estava
enganada. A morte de Deloney foi pura e simplesmente um acidente. Se Helen
achava saber mais do que o pai, estava mortalmente errada.
“Mortalmente errada” eram palavras pesadas para lançar sobre um cadáver.
A mão enluvada de preto voou para a boca. Continuou quieta algum tempo,
encolhida num silêncio assustado, uma cigarra magra e seca que tinha perdido
seu cricri.
— Fale-me desse caso Deloney, Sra. Hoffman.
— Não vejo que interesse possa ter. Nunca falo dos casos de meu marido.
Ele não gosta.
— Mas ele não está aqui.
— De certo modo está. Vivemos juntos há tanto tempo... Além disso é tudo
história do passado.
— A história está sempre relacionada ao presente. Esse caso pode ter algo a
ver com a morte de Helen.
— Como pode? Foi há vinte anos, mais ainda, e na época nem causou
sensação. Se impressionou Helen foi só porque aconteceu no nosso prédio. O Sr.
Deloney estava limpando uma arma que disparou e o matou, e a história se reduz
a isso.
— Tem certeza?
— Hoffman diz que sim, e Hoffman não mente.
Aquilo soava como uma benzedura que ela já tivesse usado antes. — O que
fez Helen pensar que ele mentia?
— Imaginação pura e simples. Ela disse que falou com uma testemunha que
viu alguém atirar no Sr. Deloney, mas eu disse que ela tinha sonhado isso. Não
apareceu nenhuma testemunha e Hoffman disse que não podia haver nenhuma
testemunha. O Sr. Deloney estava sozinho no apartamento quando aquilo
aconteceu. Tentava limpar uma arma carregada que disparou, atingindo-o na
cara. Helen deve ter sonhado com a outra pessoa. Ela tinha uma quedinha pelo
Sr. Deloney. Ele era um homem bonito e você sabe como são as garotas.
— Que idade ela tinha?
— Dezenove anos. Foi nesse verão que ela saiu de casa.
A noite fechara completamente. Ao longe, para a direita, as luzes de Long
Beach, onde eu tinha gasto minha própria juventude irrequieta, refletiam-se
como chamas moribundas na cerração.
— Quem era o Sr. Deloney?
— Luke Deloney — disse ela. — Empreiteiro muito próspero em Bridgeton
e em todo o estado. Era dono do nosso prédio e de outros na cidade. Ainda
pertencem à Sra. Deloney. Hoje valem bem mais do que naquele tempo, mas
mesmo na época ele era quase milionário.
— Deloney deixou viúva?
— Sim, mas não vá tirar conclusões precipitadas. Ela estava a milhas de
distância, na casa deles, quando aquilo aconteceu. Claro que houve falatório na
cidade, mas ela era tão inocente quanto um recém-nascido. Era de uma família
muito boa. Uma das famosas irmãs Osborne de Bridgeton.
— Famosas por quê?
— O pai delas foi senador dos Estados Unidos. Lembro-me de quando eu
estava no primário, antes da Primeira Guerra Mundial, e eles costumavam caçar
com cães e casacas vermelhas. Mas foram sempre muito democráticos.
— Melhor para eles. — Trouxe-a de novo ao caso Deloney. — Diz que
Deloney morreu com um tiro no prédio em que vocês moravam?
— Sim. Morávamos no térreo. Pagávamos muito pouco porque recebíamos
os aluguéis para o Sr. Deloney. Ele usava o apartamento da cobertura como uma
espécie de escritório particular e lugar para oferecer festas a visitas etc. Homens
importantes do estado eram amigos dele. Nós costumávamos vê-los entrar e sair
— disse ela, como se aquilo tivesse sido um privilégio.
— E ele se matou com um tiro nessa cobertura?
— Foi a arma que o matou — corrigiu ela. — Foi um acidente.
— Que espécie de homem era Deloney?
— Acho que era o a que se costuma chamar de self-made man. Veio do
mesmo bairro que eu e Hoffman viemos, por isso nos encarregou dos aluguéis, o
nos ajudou durante a Depressão. A Depressão não perturbou Luke Deloney. Ele
tinha pedido emprestado o dinheiro para iniciar seu negócio de empreitadas e
subiu depressa por sua própria iniciativa, e se casou com a filha mais velha do
senador Osborne. Ninguém sabe até onde ele podia chegar. Tinha apenas
quarenta anos quando morreu.
— Helen se interessava por ele?
— Nada sério, eu não quis dizer isso. Duvido que tenham chegado a trocar
duas palavras. Mas sabe como as garotas sonham com homens mais velhos. Ele
era o homem mais bem sucedido da terra e Helen foi sempre muito ambiciosa. É
curioso, ela acusava o pai de ser um fracassado, o que nem é. Mas quando
finalmente ela decidiu se casar, foi nem mais nem menos do que com Bert
Haggerty, o maior fracassado que jamais existiu.
Ela estava falando muito mais à vontade, mas sua loquacidade tendia à
dispersão em todas as direções. Era natural. A morte da filha lançara uma carga
de profundidade em sua vida. — Presumindo que haja alguma ligação — eu
disse — entre a morte de Helen e o tiro que matou Deloney... tem alguma noção
do que pode ser?
— Não, ela devia estar imaginando coisas. Teve sempre uma grande
tendência a isso.
— Mas ela disse que conhecia uma testemunha que tinha visto Deloney ser
alvejado por alguém?
— Era besteira.
— Por quê?
— Quer dizer, por que ela dizia essas coisas ao pai? Para irritá-lo. Os
problemas entre os dois começaram na primeira vez em que Hoffman levantou a
mão para ela. Se começassem a discutir ela soltava os cachorros.
— Ela disse o nome da testemunha?
— Como poderia? Não existia tal pessoa. O pai a desafiou a dizer o nome.
Ela admitiu que não podia, que estava falando por falar.
— Ela admitiu isso?
— Teve que fazê-lo. Hoffman obrigou-a a isso. Mas nunca retirou as
palavras ofensivas que lhe disse.
— É possível que a testemunha fosse a própria Helen?
— Isso é um absurdo e você sabe. Como ela podia ser testemunha de uma
coisa que nunca aconteceu? — Mas havia uma aresta estrídula na sua certeza.
— Deloney morreu, lembre-se. E ela também. Isso tende a confirmar o que
ela contou aos amigos antes de morrer.
— Sobre Bridgeton, quer dizer?
— Sim.
Ela voltou ao silêncio. Depois dos bairros portuários entramos na área de
neblina. Eu receava bater num poste e reduzi. A Sra. Hoffman olhava
constantemente para trás como se sentisse Bridgeton em seu encalço.
— Espero que Hoffman não esteja bebendo — disse ela após um tempo. —
Não faz bem nenhum à pressão arterial dele. Nunca perdoarei a mim mesma se
lhe acontecer alguma coisa.
— Um dos dois teria que vir aqui.
— Acho que sim. O que vale é que Bert está com ele e seja Bert o que for
pelo menos bêbado não é.
— O ex-marido de Helen está com o pai dela?
— Sim. Ele veio de Maple Park esta manhã e levou-me de carro ao
aeroporto. Bert é bom rapaz. Eu não devia chamá-lo de rapaz, um homem
adulto, na casa dos quarenta, mas ele parece sempre mais novo do que é.
— Ele ensina em Maple Park.
— Sim, mas nunca chegou a se formar. Trabalha nisso há anos. Ensina
jornalismo e inglês e ajuda a publicar o jornal da escola. Antes era jornalista e
foi assim que Helen o encontrou.
— Quando ela tinha dezenove anos?
— Tem boa memória. Você e Hoffman se entenderiam. O forte de Hoffman é
a memória. Houve uma época, antes de a cidade se expandir durante a guerra,
em que ele conhecia todos os prédios de Bridgeton. Todas as fábricas, todos os
armazéns, todas as residências. Aponte um prédio qualquer em qualquer rua e
ele lhe dirá quem o construiu e quem é o dono. Podia dizer quem morava lá,
quem tinha morado antes e quantos filhos e o salário e tudo mais que se quisesse
saber das pessoas. Não estou exagerando, pode perguntar a qualquer policial do
tempo dele. Previam um grande futuro para ele, mas nunca passou de tenente.
Perguntei a mim mesmo por que o grande futuro não se concretizara. Ela me
deu uma espécie de resposta, que eu suspeitei ser mais lenda que fato: — Helen
herdou a memória do pai. Eram mais parecidos do que gostavam de reconhecer.
E eram loucos um pelo outro, apesar de tudo. Ele ficou com o coração
despedaçado quando Helen saiu de casa e nunca escreveu. Ele nunca perguntava
pela filha, mas não parava de pensar. Nunca voltou a ser o mesmo homem.
— Ela se casou imediatamente com Bert Haggerty?
— Não, ela o fez esperar uns cinco ou seis anos. Ele passou parte desse
tempo fora no serviço militar. Bert saiu-se bem na guerra, muitos homens se
saíam melhor na guerra do que antes ou depois, e ficou muito confiante por uns
tempos. Ia escrever um livro, lançar seu próprio jornal, levá-la para passar na
Europa na lua de mel. Eles foram à Europa, com passagens do Exército. Dei
parte do dinheiro para a viagem. Mas os planos de Bert ficaram por aí. Nunca
conseguiu assentar em nada e quando finalmente o fez era tarde. Na primavera
passada acabaram por se separar. Não gostei disso, mas não podia censurar
muito a Helen. Ela ganhou sempre mais do que ele desde que se casaram. E uma
coisa posso dizer a favor da Helen, ela teve sempre classe.
— Concordo.
— Mas devia ter ficado com Bert. Quem sabe? Talvez isso não tivesse
acontecido. Às vezes penso que um homem qualquer é melhor do que nenhum.
Mais tarde, quando entrávamos em Pacific Point, ela disse: — Por que Helen
não se casou com um homem estável? É curioso. Ela tinha cabeça, beleza e
classe, mas nunca conseguiu atrair um homem estável.
Eu sentia os olhos dela no meu perfil, tentando traçar o mapa do continente
perdido da vida de sua filha.
17
capítulo

O Pacific Hotel ficava numa esquina bem acima do equador que dividia a rua
principal num setor próspero e outro nem tanto. O vestíbulo estava quase vazio
nessa noite de sábado. Quatro velhos jogavam bridge à luz de um abajur de pé.
Dr. Geisman era o único ser humano visível, se assim se podia considerar.
Levantou-se de uma poltrona velha de plástico verde e apertou
cerimoniosamente a mão da Sra. Hoffman.
— Vejo que chegou a salvo. Como está?
— Bem, muito obrigada.
— O inesperado falecimento de sua filha foi para nós um grande choque.
— Para mim também.
— De fato passei o dia inteiro a tentar encontrar um substituto. Ainda não
consegui. Esta é a pior hora do ano para recrutar pessoal docente.
— Que desagradável!
Deixei-os tentando insuflar vida naquele diálogo natimorto e fui ao bar tomar
algo. Só havia uma cliente lá, contando as mágoas ao lúgubre e gordo bartender.
O cabelo dela era tingido de preto, com um brilho esverdeado como o de certos
patos.
Reconheci a mulher — poderia identificar a Sra. Perrine a mil metros — e
comecei a sair do bar. Ela se virou e me viu.
— Não esperava vê-lo aqui. — Fez um grande gesto que ia derrubando o
copo vazio na frente dela e disse ao bartender: — Este é meu amigo Sr. Archer.
Sirva uma bebida a meu amigo.
— O que deseja tomar?
— Bourbon. Eu pago. O que está bebendo?
— Planter's Punch1 — disse ela — e obrigada pelo “senhora”. De fato,
obrigada por tudo. Estou festejando, festejei o dia inteiro.
Eu desejaria que ela não tivesse. A fachada granítica que ela mantivera no
julgamento sofrera forte erosão e deixava transparente a ruína de sua vida.
Embora eu não conhecesse todos os segredos da Sra. Perrine, sabia da ficha que
ela tinha na polícia de vinte cidades. Inocente do crime que a levara a
julgamento, era uma ladra que tinha operado nas duas costas, de Acapulco a
Seattle e de Montreal a Key West O bartender se afastou mancando para
preparar as bebidas. Eu me sentei no banco ao lado dela.
— Devia ter escolhido outra cidade para festejar.
— Eu sei. Esta cidade é um cemitério. Eu me sentia o único habitante vivo
até você entrar aqui.
— Não foi isso que eu quis dizer, Sra. Perrine.
— Caramba, me chame de Bridget, você foi legal comigo, ganhou esse
direito.
— Okay, Bridget. A polícia não gostou de sua absolvição, nem era de se
esperar que gostasse. Vão partir pra cima de você no mínimo deslize.
— Eu não saí da linha. O dinheiro que estou gastando é muito meu.
— Estou pensando no que você pode fazer se continuar a festejar. Não pode
cometer uma infração de trânsito sequer nesta cidade.
Ela considerou o problema, o rosto se contraindo no esforço da mente.
— Você deve ter razão nesse ponto. Estive pensando em partir para Las
Vegas de manhã. Tenho um amigo em Las Vegas.
O bartender trouxe as bebidas. A Sra. Perrine provou a dela, fazendo uma
careta, como se de súbito tivesse deixado de gostar daquilo. Seu olhar encontrou
o espelho atrás do bar.
— Meu Deus — disse —, aquilo sou eu? Estou com uma cara de
desenterrada.
— Tome um banho e durma um pouco.
— Não é assim tão fácil dormir. À noite sinto-me sozinha. — Olhou-me
mais ou menos automaticamente.
Ela não era meu tipo de mulher. Acabei meu uísque e coloquei dois dólares
no balcão.
— Boa noite, Bridget. Pegue leve. Preciso fazer uma ligação.
— Claro. Até a vista.
O bartender mancou na direção dela quando saí. A Sra. Hoffman e o Dr.
Geisman já não estavam na entrada. Encontrei as cabines telefônicas num
corredor sem saída atrás da recepção e liguei para a casa de Bradshaw.
Antes que o telefone tocasse a segunda vez a voz da velhota surgiu trêmula
através da linha.
— Roy? É você, Roy?
— É Archer.
— Eu esperava que fosse Roy. Ele telefona sempre a esta hora. Acha que
teria acontecido alguma coisa a ele?
— Não. Acho que não.
— Leu o jornal?
— Não.
— Saiu uma notícia dizendo que Laura Sutherland foi à conferência de Reno
com ele. Roy não me contou isso. Acha que ele está interessado em Laura?
— Não faço a mínima ideia.
— Ela é uma jovem encantadora, não acha?
Desconfiei que ela tomou um pouco de vinho no jantar para falar assim.
— Não tenho opinião a respeito, Sra. Bradshaw. Telefonei para saber se está
disposta a levar adiante o que lhe propus na conversa desta tarde.
— Receio não ser possível, pelo menos sem o consentimento de Roy. É ele
que administra o dinheiro da família, sabe. Agora vou pedir que desligue. Estou
esperando ligação de Roy, de um momento para o outro.

Ela mesma desligou. Eu parecia estar perdendo o jeito com as velhinhas. Fui
ao toilete, olhei minha cara no espelho acima da fileira de pias. Alguém tinha
escrito a lápis na parede “Contribua para a profilaxia mental ou talvez eu o
mate.”
Um pequeno jornaleiro mulato entrou no toilete e me surpreendeu sorrindo
para minha imagem. Fingi estar examinando os dentes. Ele parecia uns dez anos
mais velho e se comportava como adulto em miniatura.
— Leia as últimas do crime — sugeriu. Comprei dele um jornal local. O
título da matéria era: “Professora assassinada a tiro”, com o subtítulo: “Estudante
misteriosa ainda não foi interrogada”. De fato o repórter julgava e condenava
Dolly. Ela tinha se “matriculado fraudulentamente usando um falso nome”. Sua
amizade com Helen era descrita como “estranha ligação”. O Smith and Wesson
encontrado em sua cama era “a arma do crime”. Ela tinha “um segredo tenebroso
no passado” — o crime de McGee — e “evitava ser interrogada pela polícia”.
Não era mencionado nenhum outro possível suspeito. O homem de Reno não
aparecia na história.
Em vez de fazer algo construtivo, rasguei o jornal em pedaços e joguei na
lixeira. Depois voltei para as cabines telefônicas. O serviço de recados do Dr.
Godwin quis saber se era uma emergência.
— Sim. Sobre um paciente do Dr. Godwin.
— O paciente é o senhor?
— Sim — menti, com a esperança de que isto significasse que eu precisava
de ajuda.
A telefonista disse em voz mais afável: — Na última vez que o doutor falou
conosco estava em casa. Ela deu o número do médico, mas eu não o usei. Queria
falar com Godwin cara a cara. Vi seu endereço na lista telefônica e atravessei a
cidade a caminho da casa dele.
Era uma entre várias casas grandes na orla da meseta de onde normalmente
se avistava o porto e a cidade. Esta noite estava isolada pelo nevoeiro.
Atrás da fachada de pedra do Arizona um tenor e um soprano cantavam um
dueto dilacerante de La Bohème.
A porta foi aberta por uma bonita mulher num casaco de brocado vermelho e
aquele sorriso semiprofissional que as mulheres dos médicos adquirem. Pareceu
reconhecer meu nome.
— Lamento, Sr. Archer. Meu marido estava aqui até poucos minutos atrás.
Estávamos de fato ouvindo um pouco de música para variar. Depois um rapaz
telefonou, marido de uma paciente dele, e ele concordou em encontrá-lo na
clínica.
— Não foi Alex Kincaid, foi?
— Creio que foi, Sr. Archer. — Deu um passo para fora, uma figura muito
brilhante e feminina em seu casaco vermelho. — Meu marido falou de você.
Fiquei com a impressão de que trabalha nesse caso em que ele está empenhado.
— Sim.
A mão dela tocou meu braço.
— Estou preocupada com meu marido. Ele leva esse assunto a sério demais.
Parece pensar que se desinteressou da garota quando ela foi sua paciente tempos
atrás e isso o torna responsável por tudo o que aconteceu. — Seus bonitos olhos
alongados se voltaram para mim, pedindo que a tranquilizasse.
— Ele não é responsável — eu disse.
— Pode lhe dizer isso? Ele não me dá ouvidos. Dá ouvidos a poucas pessoas.
Mas parece ter certo respeito por você, Sr. Archer.
— É mútuo. Contudo, duvido que ele queira ouvir minha opinião. Ele é um
homem muito intenso e temperamental que se zanga com facilidade.
— A quem o diz — tornou ela. — Suponho que não tenho o direito de lhe
pedir que fale com ele. Mas a maneira como ele gasta a vida com os pacientes...
— A mão dela se afastou do seio com um gesto expressivo.
— Ele parece se dar muito bem com isso.
— Eu não. — Fez uma careta. — Mulher de médico tem que tratar de si
mesma, não é?
— Mas está com um excelente aspecto — eu disse. — E, a propósito, tem
um lindo casaco.
— Obrigada. Jim me trouxe de Paris no verão passado.
Deixei-a sorrindo menos profissionalmente e fui para a clínica. O Porsche
vermelho de Alex estava estacionado na frente ao grande prédio de estuque sem
ornatos. Senti o coração pulsar nas orelhas. Talvez as coisas ainda pudessem se
encaixar.
Uma enfermeira auxiliar hispano-americana de uniforme azul e branco
destrancou a porta e me deixou na sala da frente esperando o Dr. Godwin. Nell e
alguns outros pacientes de roupão estavam vendo na televisão um drama sobre
dois advogados, pai e filho. Não prestaram atenção em mim. Era apenas um
detetive da vida real, desempregado no momento. Mas não, esperava, por muito
tempo.
Sentei-me numa cadeira vazia. O drama era bem dirigido e bem
representado, mas eu não podia concentrar a atenção nele. Comecei a observar as
quatro pessoas ali. Nell, a sonâmbula, os cabelos nas costas como mágoas
emaranhadas, segurava nas mãos em concha o cinzeiro azul de cerâmica que ela
mesma fizera. Um jovem com barba não aparada e olhos rebeldes parecia um
contestador de consciência a tudo. Um homem de cabelos ralos, que tremia de
excitação, continuou a tremer durante o comercial. Uma velha de face
translúcida, através da qual sua vida ardia como uma vela derretendo. Se
recuasse um pouco quase podia imaginar que eram três gerações de uma família,
avó, pais e filho, em casa, sábado à noite.
O Dr. Godwin apareceu na porta e me chamou com o dedo. Segui-o pelo
corredor, o cheiro de hospital se adensando, até um pequeno escritório
atravancado. Ele acendeu um abajur em cima da escrivaninha e sentou-se atrás
dela. Ocupei a outra cadeira.
— Alex Kincaid está com a mulher?
— Sim. Telefonou para minha casa e parecia muito ansioso em vê-la, embora
não tenha dado sinal de vida durante todo o dia. Queria falar comigo também.
— Ele disse alguma coisa sobre abandoná-la?
— Não.
— Espero que tenha mudado de ideia.
Contei a Godwin meu encontro com Kincaid sênior e a partida de Alex com
o pai.
— Você não pode censurá-lo por vacilar um momento. É jovem e está sob
grande tensão. — Os olhos variáveis de Godwin brilharam. — A coisa
importante, para ele e para Dolly, é que ele decidiu voltar.
— Como ela está?
— Mais calma, acho. Ela não quis falar esta noite, pelo menos comigo.
— Posso tentar que fale comigo?
— Não.
— Quase lamento tê-lo metido nesse caso, doutor.
— Já me disseram a mesma coisa outras vezes e com menos delicadeza —
disse ele, com um sorriso teimoso. — Mas, já que estou metido, continuarei a
fazer o que me parecer melhor.
— Tenho certeza de que fará. Viu o jornal da tarde?
— Vi.
— Dolly sabe o que se passa lá fora? Sobre a arma, por exemplo?
— Não.
— Não acha que ela deva ser informada?
Godwin abriu as mãos na mesa arranhada.
— Tento simplificar os problemas, não aumentá-los. Ela estava sob tamanha
pressão ontem à noite, tanto do passado quanto do presente, que ficou à beira de
um colapso nervoso. Não queremos que isso aconteça.
— Pode protegê-la de ser interrogada pela polícia?
— Não indefinidamente. A melhor proteção possível seria uma solução do
caso, absolvendo-a.
— Estou trabalhando nisso. Falei com a tia Alice esta manhã e dei uma
olhada na cena do caso McGee. Fiquei convencido de que mesmo no caso de
McGee ter assassinado a mulher, o que duvido, Dolly não podia tê-lo
identificado quando saiu de casa. Em outras palavras, o testemunho que ela
prestou no tribunal foi forjado.
— Alice Jenks o convenceu disso?
— Foi o cenário físico que me convenceu. Miss Jenks fez o possível para me
convencer do contrário, de que McGee foi o criminoso. Não me surpreenderia
nada que ela tivesse sido a principal força motriz do caso contra ele.
— Ele foi o criminoso.
— Já me disse isso. Eu desejaria que me contasse as razões para se
convencer disso.
— Lamento não ser possível. A coisa se relaciona às confidências de uma
paciente.
— Constance McGee?
— A Sra. McGee não era formalmente uma paciente. Mas não se pode tratar
uma criança sem tratar os pais.
— E ela fez confidências.
— Naturalmente, até certo ponto. A maior parte do tempo falávamos de seus
problemas familiares. — Godwin ia medindo as palavras cuidadosamente. Sua
expressão era cortês. Sob a lâmpada, a cabeça calva brilhava como uma cúpula
metálica ao luar.
— A irmã dela, Alice, cometeu um deslize interessante. Disse que não havia
outro homem na vida de Constance. Eu não perguntei. A informação foi
espontânea.
— Interessante.
— Também achei. Constance estava apaixonada por outro homem na época
em que foi assassinada?
Ele confirmou com um aceno quase imperceptível.
— Quem era ele?
— Não vou falar. Ele sofreu o bastante. — Uma sombra desse sofrimento
passou por seu próprio rosto. — Se lhe disse tanto foi porque queria fazê-lo
compreender que McGee tinha motivo e foi certamente o assassino.
— Eu acho que houve um plano para comprometê-lo, do mesmo modo que
existe agora um plano para comprometer Dolly.
— Concordamos no último ponto. Por que não ficamos por aí?
— Porque houve três crimes e estão todos relacionados. Estão relacionados
subjetivamente, como o senhor diria, na mente de Dolly. Eu creio que estão
objetivamente relacionados, também. Podem ter sido todos cometidos pela
mesma pessoa.
Godwin não me perguntou quem. Ainda bem. Eu estava falando sem provas
e não suspeitava de ninguém em particular.
— A que terceiro crime se referiu há pouco?
— À morte de Luke Deloney, de quem nunca tinha ouvido falar até esta
noite. Fui esperar a mãe de Helen Haggerty no aeroporto de Los Angeles e tive
uma conversa com ela na vinda para cá. Segundo ela, Deloney se matou por
acidente quando limpava uma arma. Mas Helen afirmava que ele foi assassinado
e que conhecia uma testemunha. A testemunha pode ter sido ela mesma. Seja
como for, ela discutiu com o pai, que, parece, era o detetive encarregado do caso,
e fugiu de casa. Tudo isso aconteceu há mais de vinte anos.
— E acha seriamente que está ligado com o caso atual?
— Helen achava. A morte dela torna-a autoridade no assunto.
— E o que propõe fazer a respeito?
— Gostaria de voar esta noite para Illinois e falar com o pai de Helen. Mas
não posso fazer isso a minha própria custa.
— Podia telefonar.
— Podia. Meu instinto diz que isso causaria mais mal que bem. Ele pode ser
um osso duro de roer.
Godwin disse, depois de pensar um minuto: — Eu posso considerar a
possibilidade de financiá-lo.
— É um homem generoso.
— Curioso — corrigiu. — Lembre-se de que tenho vivido com este caso há
mais de dez anos. Daria muito para vê-lo solucionado.
— Deixe-me falar primeiro com Alex e perguntar se está disposto a entrar
com mais dinheiro.
Godwin inclinou a cabeça e continuou a acenar afirmativamente com ela
quando se levantou. Não estava acenando para mim. Era mais uma inclinação
geral e habitual, como se sentisse o peso das estrelas e estivesse pedindo
permissão para transferir parte do peso para ombros humanos.
— Eu vou tirá-lo de lá. Já ficou muito tempo.
Godwin desapareceu no corredor. Poucos minutos depois, Alex apareceu
sozinho. Caminhava como um homem num túnel subterrâneo, mas sua expressão
tinha uma serenidade que eu tinha visto nele.
Parou na entrada da porta.
— O Dr. Godwin disse que estava aqui.
— Estou surpreso por vê-lo.
Uma expressão de dor e embaraço palpitou na metade superior do rosto dele.
Afastou-a impacientemente com os dedos. Depois entrou no escritório, fechando
a porta e encostando-se nela.
— Hoje fiz papel de idiota, me acovardei e tentei me safar.
— É preciso coragem para reconhecer.
— Não doure a pílula — disse ele vivamente. — Fui realmente infame. É
estranho, quando meu pai está preocupado tem um efeito estranho em mim. É
uma espécie de vibração por simpatia: ele perde a cabeça, eu perco a cabeça.
Não que eu esteja censurando ele.
— Eu estou.
— Por favor, não. Não tem esse direito. — Franziu as sobrancelhas. — A
companhia fala em adquirir computadores para fazer a maior parte do trabalho
no escritório. Meu pai receia não conseguir se adaptar, e eu calculo que isso o
faz ter medo de tudo.
— Vejo que esteve pensando muito.
— Precisava. Você me deu o impulso quando disse aquilo de eu estar me
anulando. Senti exatamente isso quando ia para casa com meu pai: como se
tivesse deixado de ser homem. — Separou-se do encosto da porta e se balançou
nos pés, os braços oscilando levemente ao lado do corpo. — É realmente
espantoso, sabe? Uma pessoa pode realmente tomar uma decisão dentro de si
mesma. Pode decidir ser uma coisa ou outra.
O único problema era ter que tomar uma decisão a cada hora na hora certa.
Mas ele teria que descobrir isso por si mesmo.
— Como está sua mulher? — perguntei.
— Pareceu realmente contente em me ver. Falou com ela?
— O Dr. Godwin não me deixou.
— Também não queria me deixar, até eu prometer que não faria pergunta
nenhuma. Não fiz, mas o assunto do revólver veio à baila. Ela ouviu duas
enfermeiras falando sobre o que um jornal qualquer dizia...
— Foi o jornal daqui. O que ela disse sobre a arma?
— Não é dela. Alguém deve ter posto embaixo do colchão. Pediu que a
descrevesse e ela disse que parecia o revólver da tia Alice. A tia costumava
guardá-lo à noite na mesa de cabeceira. Dolly era meio fascinada por ele quando
era pequena. — Respirou fundo. — Parece que ela viu a tia ameaçar o pai com
ele. Eu não queria deixá-la falar nessa história toda, mas não pude impedi-la.
Depois voltou a ficar calma.
— Pelo menos deixou de se acusar da morte de Helen Haggerty?
— Nada disso. Continua a dizer que foi culpa dela. Foi tudo culpa dela.
— Em que sentido?
— Ela não se explicou. Eu não quis.
— Quer dizer que o Dr. Godwin não queria que você perguntasse.
— Exatamente. Ele a está controlando. Acho que ele sabe mais dela do que
eu jamais saberei.
— Presumo que vocês vão em frente com o casamento — eu disse.
— Temos que ir. Compreendi isso hoje. Uma pessoa não pode deixar a outra
quando surge uma complicação assim. Acho que Dolly também compreendeu.
Não me repeliu nem nada.
— Do que mais falaram?
— Nada de importante. Dos outros pacientes, principalmente. Há uma
velhota com um quadril quebrado que não quer ficar na cama. Dolly fica mais ou
menos tomando conta dela. — Isso parecia importante para ele. — É sinal de
que não deve estar ela mesma muito doente. — Havia aqui uma pergunta
implícita.
— Isso é uma coisa que você tem que perguntar ao doutor.
— Ele é discreto. Quer fazer testes psicológicos amanhã. Eu disse que fosse
em frente.
— E quer que eu vá em frente também?
— Certamente. Esperava que você considerasse isso óbvio. Quero que faça
todo o possível para resolver esse caso. Assino um contrato com você...
— Isso não é necessário. Mas vai custar dinheiro.
— Quanto?
— Uns dois mil, talvez mais.
Falei do caso de Reno em que Arnie e Phyllis Walters estavam trabalhando e
da situação de Bridgeton, que eu queria aprofundar. Aconselhei-o também que
fosse falar com Jerry Marks sem perda de tempo na manhã seguinte.
— O Dr. Marks me receberia num domingo?
— Sim. Eu pedi que o atendesse. Claro que você vai ter que lhe dar um
adiantamento.
— Eu tenho alguns títulos — disse ele pensativamente — e posso pedir um
empréstimo sobre minha apólice de seguro. E posso vender o carro. Já está pago
e me ofereceram dez mil por ele. Andava cheio desse papo de carro esportivo e
todo aquele jazz. É coisa de criança.
18
capítulo

A campainha da entrada tocou. Alguém trotou diante da porta do escritório


para atender. Estava ficando tarde para visitas e eu segui a auxiliar pelo corredor.
Os quatro pacientes continuavam a olhar para a televisão como se aquilo fosse
uma janela para o mundo exterior.
Quem quer que tivesse tocado a campainha agora esmurrava a porta, um
tanto violentamente.
— Um momento — disse a auxiliar através da porta. Enfiou a chave na
fechadura e abriu-a parcialmente. — Quem é?
Era Alice Jenks. Tentou entrar empurrando a porta, mas a auxiliar a travava
com o sapato branco.
— Procuro minha sobrinha Dolly McGee.
— Não temos nenhuma paciente com esse nome.
— Ela agora diz que se chama Dolly Kincaid.
— Não posso deixá-la entrar para ver seja lá quem for sem autorização do
médico.
— Godwin está?
— Acho que sim.
— Vá buscá-lo — disse Miss Jenks peremptoriamente.
O temperamento latino da garota flamejou.
— Não recebo ordens suas — disse, num sussurro sibilante. — E baixe a
voz. Temos pessoas que precisam descansar.
— Chame o Dr. Godwin.
— Não se preocupe. Pretendo fazê-lo. Mas tem que esperar lá fora.
— Será um prazer.
Meti-me entre elas antes que a enfermeira fechasse a porta e disse a Miss
Jenks: — Podemos falar um minuto?
Ela me fitou através dos óculos embaciados.
— Com que então você está aqui também.
— Estou aqui também.
Dei um passo para baixo da luz de fora e ouvi a porta fechar atrás de mim. O
ar estava muito frio depois da atmosfera de estufa da clínica. Miss Jenks usava
casaco grosso com gola de pele que lhe dava uma figura maciça no escuro.
Gotinhas de água cintilavam nas peles e no cabelo grisalho.
— O que deseja com Dolly?
— Não tem nada com isso. Ela é do meu sangue, não do seu.
— Dolly tem um marido. Eu o represento.
— Pode representá-lo em outro lugar qualquer. Não estou interessada em
você ou no marido dela.
— Mas subitamente se interessa pela Dolly. Esse interesse tem alguma coisa
a ver com a história que saiu no jornal?
— Pode ser que tenha e pode ser que não. — Na linguagem dela, aquilo
significava sim. Acrescentou defensivamente: — Interessei-me pela Dolly desde
que ela nasceu. Sei o que é bom para ela, mais do que um monte de estranhos.
— O Dr. Godwin não é um estranho.
— Não. Antes fosse.
— Espero que não esteja pensando em tirá-la daqui.
— Talvez esteja, talvez não. — Pescou umas folhas de Kleenex da carteira e
usou-as para limpar os óculos. Pude ver um jornal muito dobrado dentro da
bolsa.
— Miss Jenks, leu a descrição do revólver que foi encontrado na cama de
Dolly?
Ela tornou a colocar rapidamente os óculos, como que para encobrir a
expressão assustada em seus olhos.
— Naturalmente que li.
— Não a fez pensar em nada?
— Sim. Fez-me pensar no revólver que eu tinha, portanto vim à cidade para
ir ao tribunal dar uma olhada. Parece realmente ser o meu.
— Então admite isso?
— E por que não? Não o via há mais de dez anos.
— Pode provar?
— Claro que posso provar. Foi roubado da minha casa antes de Constance
levar o tiro. O xerife Crane tinha nessa época a teoria de que devia ser a arma
que McGee usou contra ela. Ainda acha o mesmo. McGee podia ter se
apoderado dela com toda facilidade. Sabia onde estava no meu quarto.
— Não me falou disso tudo de manhã.
— Não me ocorreu. Era apenas uma teoria, de resto. Você estava interessado
em fatos.
— Estou interessado em ambas as coisas, Miss Jenks. Qual é a teoria da
polícia agora? Que McGee matou Miss Haggerty e tenta comprometer a filha?
— Ele seria capaz disso. Um homem que fez o que ele fez à mulher... — A
voz ficou inaudível na garganta.
— E eles querem usar a filha para pregar McGee na cruz?
Ela não respondeu. Luzes se acenderam lá dentro, houve sons de movimento
que culminaram com Godwin abrindo a porta. Agitou as chaves na nossa
direção, sorrindo ferozmente.
— Entre, Miss Jenks.
Ela subiu batendo violentamente os pés nos degraus de cimento. Godwin
tinha tirado todo mundo da sala da frente, exceto Alex, sentado numa cadeira
contra a parede. Eu me postei discretamente no canto ao lado da TV desligada.
Ela o olhou, quase tão alta em seus saltos quanto ele, quase tão corpulenta
em seu casaco, quase tão teimosa em seu orgulho.
— Não aprovo o que está fazendo, Dr. Godwin.
— O que estou fazendo? — Sentara-se no braço de uma poltrona e cruzara as
pernas.
— Sabe a que me refiro. Minha sobrinha. Mantê-la aqui engaiolada em
desafio às autoridades.
— Não há desafio algum. Tento cumprir meu dever, o xerife tenta cumprir o
dele. Às vezes entramos em conflito. Não significa necessariamente que o xerife
Crane tenha razão e eu não tenha.
— Para mim significa.
— Não me surpreende. Já discordamos antes, em circunstâncias semelhantes.
Você e seu amigo xerife levaram a melhor daquela vez, infelizmente para sua
sobrinha.
— Não fez mal algum testemunhar. A verdade é a verdade.
— E o trauma é o trauma. Fez-lhe um mal incalculável, e ela ainda sofre as
consequências.
— Eu gostaria de ver isso com meus próprios olhos.
— Para apresentar depois um relatório completo ao xerife?
— Os bons cidadãos cooperam com a lei — disse ela sentenciosamente. —
Mas não vim por causa do xerife. Vim aqui para ajudar minha sobrinha.
— Como tenciona ajudá-la?
— Vou levá-la para casa comigo.
Godwin se levantou, fazendo que não com a cabeça.
— Não pode impedir. Tenho sido sua tutora desde que a mãe morreu. Tenho
a lei do meu lado.
— Acho que não — tornou friamente Godwin. — Dolly é maior e está aqui
de livre vontade.
— Quero perguntar isso diretamente.
— Não vai perguntar nada.
A mulher deu um passo para ele e avançou a cabeça.
— Você se acha um deus de lata, não acha, dirigindo do alto os assuntos da
minha família? Eu digo que você não tem o direito de mantê-la aqui sob coação,
fazendo com todos pareçamos perversos. Tenho uma posição a defender neste
distrito. Passei o dia com algumas das pessoas mais importantes de Sacramento.
— Receio não conseguir acompanhar seu raciocínio. Mas mantenha a voz
baixa, por favor. — Godwin falava naquele tom lento, cansado e monótono que
eu ouvira ao falar com ele pelo telefone da primeira vez, vinte e quatro horas
antes. — E deixe-me reafirmar que sua sobrinha está aqui de livre vontade.
— É verdade. — Alex adiantou-se para a linha de fogo verbal. — Não creio
que nos conheçamos. Sou Alex Kincaid, marido de Dolly.
Ela não fez caso da mão dele.
— Acho importante para ela ficar aqui — continuou o rapaz. — Tenho
confiança no doutor e minha mulher também.
— Então lamento. Ele também me ludibriou até eu descobrir o que se
passava em seu consultório.
Alex olhou interrogativamente para Godwin. O doutor virou as mãos para
fora como se checasse se chovia. Disse a Miss Jenks: — Fez sociologia, creio.
— E o que tem isso?
— De uma mulher com preparo e experiência eu esperaria uma atitude mais
profissional quanto à prática da psiquiatria.
— Não estou falando da prática da psiquiatria. Estou falando de outras
coisas.
— Que outras coisas?
— Não vou sujar minha língua com elas. Mas, por favor, não pense que eu
não conhecia minha irmã e não sabia o que acontecia na vida dela. Tenho me
lembrado de certas coisas... a maneira como ela se arrumava e se pintava nas
manhãs de sábado antes de vir à cidade. E queria se mudar para cá, para estar
mais perto.
— Mais perto de mim?
— Ela me contou.
O rosto de Godwin estava lívido, como se toda a cor tivesse sido absorvida
pelo negrume de seus olhos.
— Você é uma mulher estúpida, Miss Jenks, e já estou farto de ouvi-la.
Agora peço que se retire.
— Não saio daqui até ver minha sobrinha. Quero saber o que está fazendo
com ela.
— Não lhe faria nenhum bem. Nesse estado de espírito não faria bem a
ninguém. — Passou por ela, foi até a porta, abriu e ficou segurando. — Boa
noite.
Ela não se moveu nem olhou para ele. Ficou no mesmo lugar de cabeça
baixa, um pouco aturdida pela raiva que a atravessara como uma tempestade.
— Quer que mande que a ponham para fora à força?
— Atreva-se. Acabaria no tribunal.
Mas uma espécie de vergonha começara a invadir seu rosto. A boca
estremecia como um animalzinho magoado. Tinha dito mais do que pretendia.
Quando a segurei pelo braço e disse “Venha, Miss Jenks”, ela me deixou
levá-la para fora. Godwin fechou a porta atrás dela.
— Não tenho paciência para aturar gente idiota — disse ele.
— Mesmo assim tenha um pouco de paciência comigo, sim?
— Tentarei, Archer. — Respirou fundo e suspirou: — Você quer saber se há
alguma verdade na insinuação dela.
— Está me facilitando as coisas.
— Por que não? Gosto da verdade. Minha vida toda tem sido uma busca da
verdade.
— Tudo bem, Constance McGee o amava?
— Suponho que sim, de certo modo. Pacientes tradicionalmente se
apaixonam pelos médicos, particularmente na minha especialidade. No caso dela
não persistiu.
— Isso pode parecer uma pergunta idiota, mas o senhor a amava?
— E vou lhe dar uma resposta idiota, Sr. Archer. Claro que a amava. Amava-
a da maneira que um médico, se presta para alguma coisa, ama seus pacientes. É
um amor mais maternal que erótico. — Pousou as grandes mãos abertas no peito
e falou dali: — Eu queria ajudá-la. Não consegui.
Aquilo me deixou calado.
— E agora, senhores, se me dão licença, tenho ronda hospitalar amanhã
cedo. — Agitou as chaves.
Alex me perguntou na rua:
— Acredita nele?
— Até que tenha prova de que está mentindo. Ele não conta tudo o que sabe,
mas as pessoas raramente o fazem e médicos ainda menos. Acredito mais na
palavra dele do que na de Alice Jenks.
Ele começou a entrar em seu carro, depois se virou de novo para mim,
apontando a clínica. A fachada retangular sem enfeites emergia no nevoeiro
como a parte visível de uma fortaleza subterrânea.
— Acha que ela está segura aqui, Sr. Archer?
— Mais segura do que se estivesse aqui fora, ou na cadeia, ou numa
enfermaria-prisão com um psiquiatra da polícia fazendo perguntas.
— Ou na casa da tia?
— Ou na casa da tia. Miss Jenks é uma dessas mulheres justiceiras que não
deixam a mão esquerda saber o que a direita faz. É um autêntico tigre.
Os olhos de Alex continuavam na fachada da clínica.
Lá muito no fundo da casa a velha voz alucinada que eu tinha ouvido de
manhã voltou a se erguer. Depois extinguiu-se como o grito de uma ave marinha
voando para longe, interrompida pelo vento.
— Gostaria de poder ficar com Dolly para protegê-la — disse Alex.
Era bom rapaz.
Abordei a questão do dinheiro. Ele me entregou a maior parte do que tinha
na carteira. Usei-o para comprar uma passagem de ida e volta para Chicago, e
peguei um voo tardio do Aeroporto Internacional.
19
capítulo

Saí da estrada com pedágio que contornava Bridgeton e dirigi o carro


alugado pelos quarteirões residenciais nos arredores da cidade. Avistava já os
maciços de torres do bairro comercial e, para a esquerda, atravessando toda a
zona sul, as fábricas. Era domingo de manhã e apenas uma das chaminés jorrava
fumaça no profundo céu azul.
Parei para reabastecer e procurei o endereço de Earl Hoffman na lista
telefônica. Quando perguntei ao frentista o caminho para Cherry Street, onde
Hoffman morava, ele apontou na direção geral das fábricas.
Era uma rua burguesa de prédios sólidos de dois andares, que tinha sido
atacada mas não destruída pelo mal que se expande do centro das cidades. A
casa de Hoffman era de pedra branca enegrecida como as outras, mas a entrada
tinha sido pintada em tempos remotos. Um velho coupé Chevrolet estava parado
na frente da casa.
A campainha não funcionava. Bati na porta dupla. Um velho com mais nariz
do que queixo abriu a porta interna e olhou para mim através da rede com ar
triste.
— Sr. Haggerty?
— Sim.
Disse-lhe meu nome e profissão e de onde vinha.
— Estive com sua mulher, com sua ex-mulher, pouco antes de ela ser morta.
— Que coisa horrível.
Deixou-se ficar absorto na entrada da porta, esquecendo-se de me convidar
para entrar. Tinha um ar desgrenhado e sonolento, como se tivesse passado a
maior parte da noite acordado. Embora não fosse grisalho, pelos brancos
brilhavam na barba de um dia. Os olhos pequenos tinham aquela espécie de
incandescência que acompanha o sofrimento consciente.
— Posso entrar, Sr. Haggerty?
— Não sei se é uma boa ideia. Earl está muito abalado.
— Eu achava que ele e a filha estavam de relações cortadas há muito tempo.
— Estavam. Isso ainda torna as coisas mais difíceis para ele, creio. Quando
estamos mal com alguém que amamos, esperamos sempre no fundo de nossas
mentes que um dia haja uma reconciliação. Mas agora nunca mais haverá nada.
Ele falava pelo sogro e também por si mesmo. As mãos vazias moviam-se,
sem sentido, ao lado do corpo. Os dedos da mão direita tinham manchas
amarelo-escuras de nicotina.
— Lamento — eu disse — que o Sr. Hoffman se não sinta bem. Receio ter
de qualquer maneira de falar com ele. Não vim da Califórnia só pelo passeio.
— Não, claro que não. O que precisa discutir com ele?
— O assassinato da filha. Ele talvez possa me ajudar a entender.
— Eu achei que já estava resolvido.
— Não está.
— A tal estudante foi inocentada?
— Vai ser — eu disse, de forma deliberadamente vaga. — Posso explicar
tudo isso mais tarde. No momento estou muito ansioso por falar com Hoffman.
— Se insiste... Só espero que consiga arrancar dele alguma coisa que faça
sentido.
Entendi o que ele quis dizer quando me levou até a “caverna de Earl”, como
Haggerty a chamava. Os móveis eram uma escrivaninha com tampa de correr
fechada, uma poltrona e um divã. Através de uma névoa de vapores de uísque e
cigarro avistei um velho corpulento de pijama laranja estendido no divã, a
cabeça escorada por travesseiros. Uma forte lâmpada de leitura brilhava sobre
em seu rosto estupidificado. Os olhos pareciam desfocados, mas empunhava
uma revista de capa laranja, que quase combinava com o pijama. A parede acima
dele estava decorada com rifles, espingardas de caça, pistolas e revólveres.
— Quando recordo a perda de todos os meus anos defuntos — disse ele,
com voz rouca.
Os velhos policiais não falavam assim, e Earl Hoffman não parecia exceção à
regra. Seu corpo era maciço e podia ter pertencido a um jogador profissional de
rúgbi ou a um lutador. O nariz tinha sido quebrado há tempos. A cabeça era
coberta de cabelos grisalhos curtos e a boca como ferro encurvado.
— É uma bela poesia, Bert — disse a boca de ferro.
— Acho que sim.
— Quem é seu amigo, Bert?
— O Sr. Archer, da Califórnia.
— Califórnia, hein? Foi lá que deram cabo da minha pobre Helen.
Soltou um soluço, ou um arroto. Depois cambaleou para a beira do divã,
deixando os pés descalços caírem pesadamente no chão.
— Conhece... conhecia minha filha Helen?
— Conhecia.
— Curioso. — Levantou-se cambaleante e agarrou minhas mãos, me usando
para se apoiar. — Helen era uma garota formidável. Estava agora mesmo relendo
um de seus poemas. Ela o escreveu quando era apenas uma adolescente e estava
no ginásio. Vou mostrar.
Fez uma busca muito complicada na publicação laranja, que estava à vista de
todos no chão onde ele a deixara cair. Chamava-se Bridgeton Blazer e tinha todo
o ar de produção escolar.
Pegou-a do chão e a estendeu.
— Não se preocupe com isso, Earl. De resto não foi Helen que escreveu.
— Não escreveu? Claro que escreveu. Tem as iniciais dela. — Folheou as
páginas da revista. — Está vendo?
— Mas ela apenas traduziu um poema de Verlaine.
— Nunca ouvi falar dele. — Hoffman se virou para mim, metendo a revista
na minha mão. — Aqui tem, leia. Veja como a pobre Helen era uma garota
notavelmente dotada.
Li:

Quando os violinos
Dos ventos de outono
Começam a suspirar
Meu coração se dilacera
Com a sua desolada
Monotonia.
E quando a hora
Soa no campanário
Eu choro
Porque recordo
A perda de todos
Os meus anos defuntos.
E então eu vou
Com os ventos que sopram
E me levam
Para cá e para lá
Como a folha murcha e mirrada
De uma árvore.

H.H.

Hoffman me olhou com um olho desfocado.


— Não é uma bela poesia, Sr. Arthur?
— Muito.
— Quem me dera ser capaz de compreendê-la. Conseguiu?
— Acho que sim.
— Então fique com ela. Fique com ela em memória da minha pobre Helen.
— Não posso fazer isso.
— Claro que pode. Fique com ela. — Arrancou a revista das minhas mãos,
enrolou-a e enfiou-a no bolso do meu casaco, lançando-me uma baforada de
uísque na cara.
— Fique com ela — murmurou Haggerty junto a meu ombro. — Senão ele
se ofende.
— Ouviu-o. Senão eu me ofendo.
Hoffman lançou-me um sorriso incerto. Fechou o punho esquerdo,
examinou-lhe os defeitos, depois usou-o para esmurrar-se no peito. Foi até a
escrivaninha e abriu a tampa. Havia garrafas e um único copo sujo lá dentro.
Encheu meio copo de bourbon e bebeu a maior parte de um trago. O genro disse
alguma coisa em surdina, mas não tentou detê-lo.
A forte dose de álcool fez brotar suor da face de Hoffman, como se a tivesse
espremido. Pareceu fazer passar um pouco a bebedeira. Os olhos focaram em
mim.
— Toma uma bebida?
— Obrigado. Mas a minha com água e gelo, por favor. — Eu não bebo
normalmente de manhã, mas esta era uma circunstância anormal.
— Vá buscar um pouco de gelo e um copo, Bert. O Sr. Arthur quer uma
bebida. Se é fino demais fino para beber comigo, o Sr. Arthur não é.
— O nome dele é Archer.
— Traga dois copos — disse ele, com seu sorriso idiota. — O Sr. Archer
também quer uma bebida. Sente-se — disse-me. — Tire o peso de cima dos pés.
Fale-me da minha pobre Helen.
Sentamos no divã. Informei-o rapidamente das circunstâncias do crime,
incluindo a ameaça que o precedeu, e o sentimento de Helen de que Bridgeton
queria pegá-la.
— O que ela queria dizer com isso? — As linhas do sorriso ainda estavam no
rosto como riscos de palhaço, mas o sorriso transformara-se num ricto.
— Fiz uma longa caminhada para ver se pode me ajudar a responder a essa
pergunta.
— Eu? Por que eu? Nunca soube o que ia na cabeça dela, ela nunca me
deixava saber. Era inteligente demais para mim. — Seu estado de espírito
oscilou para uma grande autocompaixão de bêbado. — Cansei de suar e
trabalhar para lhe pagar uma instrução que eu nunca tive, mas ela não concedia a
mínima atenção ao pobre pai.
— Fiquei com a ideia de que tiveram uma grande briga e ela saiu de casa.
— Ela contou isso, hein?
Acenei que sim. Eu tinha decidido deixar a Sra. Hoffman fora do assunto.
Ele era o tipo de homem que não admitiria que a mulher se antecipasse a ele no
que fosse.
— Ela contou que me chamou de trapaceiro e nazista, quando tudo o que eu
estava fazendo era cumprir meu imperioso dever? Você é policial, sabe o que um
homem sente quando nossa própria família se volta contra nós. — Lançou-me
uma olhada de lado. — Você é policial, não é?
— Fui.
— E o que faz agora?
— Investigação particular.
— Para quem?
— Para um homem chamado Kincaid, o senhor não conhece. Conheci
superficialmente sua filha e tenho um interesse pessoal em descobrir quem a
matou. Acho que a resposta pode estar aqui em Bridgeton.
— Não vejo como. Ela nunca mais tornou a pôr os pés nesta cidade durante
vinte anos, até a primavera passada. Só veio em casa para dizer à mãe que estava
se divorciando. Dele. — Fez um gesto para os fundos da casa, onde se ouvia
gelo sendo quebrado.
— Conversaram?
— Só a vi uma vez. Ela disse olá-como-vai e foi tudo. Contou à mãe que
tinha acabado com Bert e a mãe não conseguiu dissuadi-la. Bert ainda a seguiu a
Reno para tentar convencê-la a voltar para casa, mas não serviu de nada. Ele não
é homem o bastante para aguentar uma mulher.
Hoffman acabou sua bebida e pôs o copo no chão. Ficou dobrado por um
minuto e eu receei que fosse vomitar ou desmaiar ali mesmo. Mas voltou à
posição normal e murmurou algo sobre querer me ajudar.
— Ótimo. Quem era Luke Deloney?
— Um amigo meu. Um cara muito importante na cidade antes da guerra. Ela
também falou dele, hein?
— Podia contar mais, tenente. Ouvi dizer que tinha uma memória de
elefante.
— Helen disse isso?
— Disse. — A mentira não me custou nada, nem sequer um sobressalto de
consciência.
— Pelo menos ela tinha um certo respeito pelo pai, hein?
— Muito.
Ele respirou com enorme alívio. Aquilo ia passar, como tudo passa quando
um homem começa a beber a sério para esquecer. Mas no momento estava feliz.
Acreditava que a filha tinha cedido um ponto na amarga contenda que os
separara na vida.
— Luke nasceu em 1903, na Spring Street — disse ele, com grande cuidado
—, nº 2.100, na saída da zona sul... a dois quarteirões de onde eu morava em
criança. Conheci-o no ginásio. Era desses caras que poupam o dinheiro do
ônibus para comprar um presente para um colega. Ele realmente fazia isso. O
diretor costumava levá-lo a todas as salas de aula para exibir sua aritmética
mental. Ele tinha realmente uma boa cabeça em cima dos ombros, isso tenho que
conceder. Fazia dois anos em um. Prometia triunfar na vida.
“O velho Deloney fabricava cimento e o cimento passou a ser usado na
construção depois da Grande Guerra. Luke comprou um misturador com o
dinheiro que tinha poupado e meteu-se sozinho no negócio. Ganhou muito
dinheiro na década de 20. No auge tinha mais de quinhentos homens trabalhando
para ele em todo o estado. Nem mesmo a Depressão afetou seu estilo de vida.
Era ao mesmo tempo fabricante, distribuidor e construtor. A única coisa que
funcionava nesses tempos eram as obras públicas e assim ele se lançou pra valer
nos contratos federais e estaduais. Casou com a filha do senador Osborne, e isso
também não lhe fez mal nenhum.
— Ouvi dizer que a Sra. Deloney ainda está viva.
— Claro que está. Mora na casa que o senador construiu em 1901 na
Glenview Avenue, na zona norte. Número... 13, acho. — Ele estava fazendo um
grande esforço para não deixar ficar mal sua reputação enciclopédica.
Tomei mentalmente nota do endereço. Precedido de um tilintar, Bert
Haggerty entrou no quarto com gelo, água e copos numa bandeja. Arranjei
espaço na escrivaninha e ele pousou a bandeja, que tinha originalmente
pertencido à Pousada de Bridgeton.
— Podia ter demorado menos — disse Hoffman rudemente. Haggerty se
encrespou. Seus olhos pareceram mais próximos do nariz.
— Não fale assim comigo, Earl. Não sou seu empregado.
— Se não gosta sabe o que pode fazer.
— Sei que você está bêbado, mas há um limite...
— Quem está bêbado? Eu não estou bêbado.
— Há vinte e quatro horas que não para de beber.
— E o que tem isso? Um homem tem o direito de afogar as mágoas. Mas
meu cérebro funciona perfeitamente. Pergunte aqui ao Sr. Arthur, ao Sr. Archer.
Haggerty soltou uma risadinha divertida, em falsete. Foi um som muito
estranho e eu tentei cobri-lo com um largo elogio: — O tenente está me
contando coisas do passado. Ele tem uma memória de elefante.
Mas Hoffman já não estava feliz. Levantou-se pesadamente e avançou para
Haggerty e para mim. Fitava o genro com um olho e tinha o outro apontado para
mim. Eu me sentia numa jaula com um urso doente e seu tratador.
— Qual é a graça? Acha que meu desgosto tem graça, é isso? Ela não estaria
morta se tivesse sido homem para mantê-la em casa. Por que não a trouxe de
Reno?
— Você não pode me culpar de tudo — disse Haggerty, um tanto exaltado.
— Eu me dava melhor com ela do que você. Se ela não tivesse aquela fixação no
pai...
— Não venha com isso, seu intelectual de merda. Impotente. Intelectual
impotente. Não pense que é o único que sabe usar palavras caras. E para de me
chamar de Earl. Não é da minha família. E nunca teria sido se dependesse de
mim. Nem sequer somos parentes e se mete na minha casa para espionar o que
eu faço. Você é o que, uma velha?
Haggerty estava sem fala. Olhou para mim sem saber o que fazer.
— Eu quebro esse seu pescoço — disse o sogro.
Meti-me entre os dois.
— Nada de violência, tenente. Não ficaria bem em sua folha.
— Esse maricas me acusou. Disse que eu estava bêbado. Obrigue-o a pedir
desculpas.
Virei-me para Haggerty, piscando um olho.
— O tenente Hoffman está sóbrio, Bert. É bem capaz de aguentar o que
bebe. Agora é melhor você sair daqui antes que aconteça alguma coisa.
Ele não queria outra coisa. Acompanhei-o ao vestíbulo.
— Já é a terceira ou quarta vez — disse ele em voz baixa. — Não era minha
intenção provocá-lo.
— Deixe-o esfriar um pouco. Fico com ele. Depois gostaria de falar com
você.
— Espero lá fora no carro.
Regressei à caverna do urso. Hoffman estava sentado no divã com a cabeça
apoiada nas mãos.
— Foi tudo para o inferno enquanto o diabo esfrega um olho — disse ele. —
Esse maldito Bert Haggerty mexe com meus nervos. Não sei o que ele acha que
tem para vigiar aqui. — A disposição dele tinha mudado. — Seja como for, você
não me virou as costas. Pegue uma bebida para você.
Preparei uma com pouco uísque e muita água e levei-a comigo para o divã.
Mas não ofereci nenhuma a Hoffman. No vinho está a verdade, mas no uísque,
da maneira como Hoffman o despejava, está um exército de ratos imaginários
subindo pelas nossas pernas.
— Estava falando de Luke Deloney e de como prosperou na vida.
Ele me deu uma olhada.
— Não entendo por que se interessa tanto pelo Deloney. Morreu há vinte e
dois anos. Vinte e dois anos e três meses. Matou-se acidentalmente com um tiro,
mas calculo que já sabe disso, hein? — Uma compreensão difícil brilhou
momentaneamente em seus olhos.
Falei para a compreensão difícil: — Houve alguma coisa entre Helen e
Deloney?
— Não. Ela não estava interessada nele. Tinha uma paixonite pelo George, o
rapaz do elevador. Eu tinha obrigação de saber, foi ela que me convenceu a lhe
dar o emprego. Eu era uma espécie de administrador dos Apartamentos Deloney
nessa época. Eu e Luke Deloney éramos assim.
Tentou cruzar o dedo grande sobre o indicador. Escorregava constantemente.
Por fim completou a manobra com o auxílio da outra mão. Tinha os dedos
grandes e manchados, como linguiças antes da panela.
— Luke Deloney era mulherengo — disse indulgentemente —, mas não se
metia com as filhas dos amigos. Seja como for, nunca teve predileção por
brotinhos. A mulher do Luke devia ser dez anos mais velha que ele. Seja como
for, nunca tocaria na minha filha. Ele sabia que eu o mataria.
— E matou?
— Isso é uma pergunta porca, cavalheiro. Se não simpatizasse com você
quebraria seus dentes.
— Não quis ofender.
— Eu não tinha nada contra Luke Deloney. Tratou-me sempre com muita
decência. Seja como for, eu já lhe disse que foi ele que se matou com um tiro.
— Suicídio?
— Nada disso. Por que se suicidaria? Tinha tudo, dinheiro e mulheres e uma
cabana de caça no Wisconsin. Ele me levou lá pessoalmente mais de uma vez. O
tiro foi um acidente. Foi assim que ficou no processo e assim vai continuar.
— E como foi que isso aconteceu, tenente?
— Ele estava limpando uma .32 automática. Tinha licença de porte de arma,
fui eu mesmo que o ajudei a conseguir, porque costumava andar com grandes
somas de dinheiro. Ele tirou o carregador mas esqueceu da bala na câmara. A
arma disparou e o tiro acertou seu rosto.
— Onde?
— Entrou pelo olho direito.
— O que eu estava perguntando era onde ocorreu o acidente...
— Num dos quartos do apartamento. Ele reservava a cobertura no edifício
Deloney para seu uso particular. Mais de uma vez fui lá tomar umas doses de
Green River de antes da guerra, rapaz. — Deu-me uma palmada no joelho e
reparou no copo intacto que eu conservava na mão. — Beba isso logo.
Despejei metade do copo. Não era Green River de antes da guerra.
— Deloney tinha bebido na hora do tiro?
— Sim, acho que sim. Ele conhecia armas. Não teria cometido esse erro se
estivesse sóbrio.
— Havia alguém com ele no apartamento?
— Não.
— Tem certeza?
— Tenho certeza. Fui o encarregado da investigação.
— Alguém partilhava o apartamento com ele?
— Não numa base permanente, posso afirmar. Luke Deloney andava com
várias mulheres. Investiguei-as a fundo, mas nenhuma estava a menos de uma
milha do local quando aconteceu.
— Que tipo de mulheres?
— De tudo, de prostitutas profissionais até uma respeitável senhora casada
aqui da cidade. Os nomes delas não apareceram então nos autos e não vão
aparecer agora.
Havia um rosnado em sua voz. Não insisti no assunto. Não que tivesse
precisamente medo de Hoffman. Eu era pelo menos quinze anos mais novo e
tinha um baixo conteúdo de álcool. Mas se ele se atirasse em mim, eu talvez
tivesse que feri-lo a sério.
— E a Sra. Deloney? — perguntei.
— A Sra. Deloney o quê?
— Onde estava quando tudo isso aconteceu?
— Em casa, lá para Glenview. Eles estavam como que separados. Ela não era
adepta do divórcio.
— As pessoas que não são adeptas do divórcio às vezes são adeptas do
homicídio.
Hoffman moveu os ombros beligerantemente: — Você está tentando dizer
que eu abafei um crime?
— Não estou tentando nada, tenente.
— É melhor que não esteja. Lembre-se de que sou policial, antes de tudo,
antes de mais nada e sempre um policial. — Ergueu o punho e rodou-o diante
dos olhos como um objeto hipnótico. — Fui um bom policial a vida toda. Na
minha juventude era o melhor policial que esta cidade jamais viu. Tenho que
beber a isso. — Ergueu o copo. — Acompanha-me?
Eu disse que sim. Estávamos caminhando obscuramente para uma colisão. O
álcool pode atenuar ou apressar o momento. Acabei minha bebida e estendi-lhe o
copo. Ele o encheu até a borda de uísque puro. Depois encheu o dele. Sentou-se
e olhou para dentro do líquido dourado como se fosse um poço em que a sua
vida tivesse se afogado.
— Virando — disse ele.
— Calma, tenente. Não se quer matar. — Enquanto eu dizia isso, ocorreu-me
que talvez fosse precisamente o que ele queria.
— Quem é você, outro maricas? Virando.
Despejou o copo dele e foi percorrido por um arrepio. Eu conservei o meu na
mão. Ele reparou nisso pouco depois.
— Você não bebeu sua bebida. O que está tentando, me pregar uma peça?
Está insultando minha hoch... a minha hochpi...? hochpita...? — Os lábios
estavam dormentes demais para formar a palavra.
— Não tinha intenção alguma de insultar.. Não vim aqui para beber, tenente.
Estou seriamente interessado em descobrir quem matou sua filha. Supondo que
Deloney foi assassinado...
— Não foi.
— Supondo que foi, a mesma pessoa poderia ter assassinado Helen. Em vista
de tudo o que ouvi, dela e de outras pessoas, acho que seja provável. Não acha?
Eu tentava manter a mente dele sob controle: a parte da pieguice sentimental
alcoólica, a parte da violência alcoólica e a parte da compreensão difícil oculta.
— Deloney foi um acidente — disse ele clara e teimosamente.
— Helen não achava. Afirmava que ele tinha sido assassinado e conhecia
uma testemunha do crime.
— Ela estava mentindo, tentando me deixar mal. Tudo o que ela sempre quis
foi deixar mal o pai.
Sua voz se erguera. Ouvíamos seus ecos ali sentados. Hoffman deixou cair o
copo, que bateu no chão, e fechou o punho, que parecia ser seu principal
instrumento de expressão. Preparei-me para segurá-lo, mas ele não o dirigiu para
mim.
Pesada e repetidamente, Hoffman esmurrou a própria cara, os olhos, o rosto,
a boca, embaixo do queixo. Os socos deixavam marcas vermelhas em sua carne
cor de tijolo. O lábio inferior sangrou.
Hoffman disse através do sangue: — Dei uma surra na minha pobre filhinha.
Expulsei-a de casa. Ela nunca mais voltou.
Lágrimas cor do álcool puro destilado ou de remorso rolaram de seus olhos
inchados pela cara maltratada. Ele caiu de lado no divã. Não estava morto. Seu
coração batia fortemente. Estendi seu corpo — as pernas eram pesadas como
sacos de areia — e coloquei um travesseiro sob a cabeça. Com olhos cegos, que
fitavam diretamente a luz, ele começou a ressonar.
Baixei a tampa da escrivaninha. Girei a chave, trancando as bebidas, depois
apaguei a luz e saí, levando a chave comigo.
20
capítulo

Bert Haggerty estava sentado no coupé Chevrolet com expressão


desanimada. Sentei-me ao lado dele e dei-lhe a chave.
— O que é isso?
— A chave da bebida. É melhor guardá-la. Hoffman já teve o bastante.
— Ele o pôs para fora?
— Não. Perdeu os sentidos enquanto esmurrava a cara. Com muita força.
Haggerty voltou seu longo nariz nervoso para mim.
— Por que Earl faria uma coisa dessas?
— Deu a impressão de que se castigava por ter batido na filha muito tempo
atrás.
— Helen me contou. Earl foi brutal antes de ela sair de casa. É uma coisa
que eu não consigo perdoar.
— Nem ele consegue. Helen contou por que eles brigaram?
— Vagamente. Algo sobre um crime aqui em Bridgeton. Helen acreditava,
ou fingia acreditar, que o pai tinha deixado o assassino impune deliberadamente.
— Por que diz que ela fingia acreditar?
— Minha querida esposa defunta — disse ele, estremecendo — tinha um
grande instinto para o drama, especialmente quando era mais nova.
— Conheceu-a antes de ela sair de Bridgeton?
— Alguns meses antes. Foi em Chicago, numa festa no Hyde Park. Depois
que ela saiu de casa, ajudei-a a conseguir emprego como repórter estagiária. Eu
trabalhava para o City News Bureau. Mas como ia dizendo, Helen teve sempre
esse instinto dramático e, quando na vida não acontecia nada para alimentá-lo,
ela fazia com que acontecesse ou fingia que tinha acontecido. Sua personagem
favorita era Mata Hari — disse ele, com uma risadinha que era quase um soluço.
— Portanto acha que ela inventou esse assassinato?
— Acho que pensei isso na época, certamente não levei a sério. Agora não
tenho opinião. Isso interessa?
— Pode interessar muito. Helen falou de Luke Deloney?
— Quem?
— Luke Deloney, o homem que foi morto. Era dono do prédio em que eles
moravam e ocupava a cobertura.
Haggerty acendeu um cigarro antes de responder. Suas primeiras palavras
saíram envolvidas em baforadas de fumaça.
— Não me lembro do nome. Se ela me falou dele, não deve ter me causado
muita impressão.
— A mãe dela parece achar que Helen tinha uma queda por Deloney.
— A Sra. Hoffman é uma excelente mulher e eu gosto dela como se fosse
minha mãe, mas ela às vezes tem ideias disparatadas.
— Como sabe que a ideia é assim tão disparatada? Helen amava você nessa
época?
Ele puxou uma profunda baforada, como um bebê não desmamado chupando
a mamadeira vazia. O cigarro ardeu até os dedos amarelos. Jogou na rua com um
gesto impaciente.
— Ela nunca me amou. Eu fui útil uns tempos. Mais tarde, em certo sentido,
a última oportunidade. O seguidor fiel. A última chance de abastecer antes do
deserto.
— Que deserto?
— O deserto do amor. O deserto do desamor. Mas não acho que deva
continuar a desfiar a longa e triste história do meu casamento. Não foi um
casamento feliz, para nenhum de nós. Eu a amava, tanto quanto posso amar, mas
ela não me amava. Proust diz que é sempre assim. Vou ensinar Proust no
próximo ano letivo se conseguir arranjar o ânimo necessário para continuar a dar
aula.
— Quem Helen amava?
— Isso depende do ano. Do mês. — Não se mexeu, mas estava se ferindo,
agredindo a si mesmo com palavras amargas.
— Logo no início, antes de deixar Bridgeton.
— Não sei se você chamaria de amor, mas ela estava profundamente
envolvida com um colega do ginásio. Era platônico, da espécie que os jovens
inteligentes têm, ou costumavam ter. Liam alto um para o outro suas próprias
obras ou as obras alheias. Segundo Helen, nunca foram para a cama. Tenho
quase certeza de que ela era virgem quando a conheci.
— Como se chamava ele?
— Creio que não me lembro. É um caso nítido de repressão freudiana.
— Pode descrevê-lo?
— Nunca o encontrei. É uma figura puramente lendária na minha vida. Mas
obviamente não é o esquivo assassino que você procura. Helen ficaria muito
feliz se ele tivesse escapado impune. — Tinha fugido da dor da memória e usava
um tom quase irreverente, como se falasse de personagens de uma peça. — E
por falar em assassinatos, como parece que estamos, conte como morreu minha
ex-mulher. Ela agora é completamente ex, foi praticamente excisada, não foi?
Entrei nesse triste despropósito e contei-lhe a história com algum detalhe,
incluindo o do homem de Reno que fugiu no nevoeiro e minhas tentativas para
identificá-lo.
— Earl contou que você foi a Reno no verão passado para falar com sua
mulher. Encontrou lá algum conhecido dela?
— Se encontrei. Helen fez comigo um joguinho, envolvendo duas pessoas. A
finalidade dela era afastar qualquer possibilidade de uma conversa íntima
comigo. Seja como for, na única noite que passamos juntos ela insistiu em
formar dois pares com essa mulher chamada Sally qualquer coisa e seu alegado
irmão.
— Sally Burke?
— Creio que esse era o nome dela. O pior foi que Helen arranjou a coisa de
tal maneira que eu acabei como par da tal Burke. Ela não era feia, mas não
tínhamos nada em comum, e era com Helen que eu queria falar. Mas ela passou
a noite inteira dançando com o irmão. Desconfio sempre dos homens que
dançam bem.
— Fale mais desse irmão. Pode ser o homem que procuramos.
— Bem, ele deu a impressão de ser um cara sem princípios. Mas isso pode
ser uma projeção da inveja. Ele era mais novo do que eu, mais saudável e mais
bonito. Helen parecia fascinada com a conversa dele, que achei completamente
fútil, toda ela sobre carros, cavalos e probabilidades no jogo. Como uma mulher
instruída como Helen se interessou por aquele homem... — Cansou da frase e
deixou-a cair.
— Eles eram amantes?
— Como posso saber? Ela não me fazia confidências.
— Mas você conhece sua mulher, sem dúvida.
Haggerty acendeu outro cigarro e fumou até a metade.
— Eu diria que não eram amantes. Eram simplesmente parceiros. Claro que
ela o usava para me agredir.
— Por quê?
— Por ser marido dela. Por ter sido o marido dela. Helen e eu nos separamos
brigados. Eu tentei ainda salvar o casamento em Reno, mas ela não estava nem
remotamente interessada.
— O que quebrou seu casamento?
— Ele já tinha uma fratura grave desde o início. — Olhou além de mim, para
a casa onde Earl Hoffman jazia inconsciente sob o peso do passado. — E piorou.
Foi culpa de ambos. Eu não conseguia parar de censurá-la e ela não conseguia
deixar de... de fazer o que fazia.
Fiquei esperando de ouvido atento. Os sinos das igrejas repicavam, em
diferentes partes da cidade.
— Ela era vagabunda — disse Haggerty. — Vagabunda de campus. Eu a
iniciei nisso quando ela era uma menina de dezenove anos, nos bosques de Hyde
Park. Depois ela continuou sem mim. No fim até recebia dinheiro.
— De quem?
— De homens com dinheiro, naturalmente. Minha mulher era uma criatura
corrupta, Sr. Archer. Tive minha responsabilidade em torná-la o que ela era,
portanto não tenho o direito de julgá-la. — Os olhos dele estavam brilhantes com
a dor que ia e vinha nele como a verdade.
Senti pena do homem. Isso não me impediu de perguntar: — Onde estava na
sexta-feira à noite?
— Em casa, no Maple Park, no nosso... no meu apartamento, corrigindo
redações.
— Pode provar?
— Tenho as redações corrigidas para provar. Recebi na sexta-feira e corrigi
tudo na mesma noite. Espero que não esteja imaginando que fiz alguma coisa
fantástica como voar para a Califórnia e voltar.
— Quando uma mulher é assassinada, pergunta-se ao marido em conflito
onde estava. É o corolário do cherchez la femme.
— Bem, já teve minha resposta. Verifique, se quiser. Mas poupará tempo e
trabalho se simplesmente acreditar em mim. Fui completamente franco com
você... excessivamente franco.
— Apreciei isso.
— Mas depois deu a volta e me acusou...
— Uma pergunta não é uma acusação, Sr. Haggerty.
— Mas subentendia — disse ele, num tom ofendido e ligeiramente
repreensivo. — Eu achava que o homem de Reno era seu suspeito.
— É um deles.
— E eu sou o outro?
— Deixemos isso, está bem?
— Foi você que começou.
— E agora estou deixando cair. Voltando ao homem de Reno, consegue se
lembrar do nome dele?
— Fomos apresentados, naturalmente, mas não me lembro do sobrenome. A
irmã o chamava de Jud. Não tenho certeza se era nome de batismo ou apelido.
— Por que se referiu a ele como alegado irmão da Sra. Burke?
— Eles não me deram a impressão de serem irmãos. Agiam mais como...
bem... como amigos íntimos fazendo o jogo da Helen. Interceptei, por exemplo,
algumas trocas de olhares entendidos.
— Pode descrever o homem?
— Tentarei. Minha memória visual não é lá grande coisa. Sou estritamente
do tipo verbal.
Mas, sob as minhas repetidas perguntas, ele levantou uma imagem do
homem: idade em torno dos trinta e dois ou trinta e três, altura mais ou menos
um metro e oitenta, uns oitenta quilos; musculoso e ativo, de boa aparência mas
sem classe, cabelo preto rareando, olhos castanhos, sem cicatrizes. Vestia um
terno leve de seda ou imitação de seda e sapatos pretos estilo italiano de biqueira
pontuda. Haggerty percebeu que o tal Jud trabalhava em algo indeterminado
num dos clubes de jogo da região Reno-Tahoe.
Era hora de ir a Reno. Olhei o relógio: quase onze horas; e lembrei que
ganharia tempo voando para oeste. Ainda podia ter uma conversa com a viúva de
Luke Deloney, se ela estivesse visível, e chegar a Reno em hora razoável.
Entrei na casa com Haggerty, telefonei para o Aeroporto O'Hare e fiz uma
reserva para um voo no fim da tarde. Depois telefonei à Sra. Deloney. Estava em
casa e aceitava me receber.
Bert Haggerty se ofereceu para me levar à casa dela. Eu disse que era melhor
ficar com o sogro. O ressonar de Hoffman se ouvia em toda a casa como
lamentações abafadas, mas ele podia acordar de um momento para o outro e
armar confusão.
21
capítulo

A Glenview Avenue serpenteava pelo lado norte da zona norte, numa região
de propriedades tão vasta que quase merecia ser distrito. Árvores debruavam o
caminho e as copas às vezes se juntavam. A cor que se filtrava através das folhas
na muda sobre os grandes gramados tinha a cor do dólar.
Entrei pelo portão entre colunas do 103 e logo avistei uma imponente
mansão de velhos tijolos vermelhos. A entrada de carros levava a uma porte-
cochère com colunas de tijolo à direita. Eu mal tinha saído do carro quando uma
empregada negra de uniforme abriu a porta.
— Sr. Archer?
— Sim.
— A Sra. Deloney o espera na sala do térreo.
Ela estava sentada junto de uma janela que dava para um campo onde o
sumagre vermelho fulgia entre cores menos brilhantes. O cabelo dela era branco
e cortado curto. O vestido de seda azul parecia um Lily Daché. A face era uma
massa de rugas, mas os ossos mantinham a finura. Era bela no sentido em que
um objeto de arte antiga pode ser belo, sem se olhar o estado dos materiais. A
mente devia estar profundamente mergulhada no passado, porque não nos notou
até a empregada falar.
— O Sr. Archer está aqui, Sra. Deloney.
Ela se ergueu com facilidade de jovem, pousando o livro que tinha na mão.
Deu-me a mão e um prolongado olhar. Seus olhos eram da mesma cor do vestido
de seda azul, frescos e inteligentes.
— Então fez toda essa viagem da Califórnia até aqui para me ver. Deve estar
desapontado.
— Pelo contrário.
— Não precisa me elogiar. Quando eu tinha vinte anos era como todo
mundo. Agora que já passei dos setenta pareço eu mesma. É libertador. Mas
sente-se. Essa cadeira é a mais confortável. Meu pai, o senador Osborne, não
queria outra.
Indicava-me uma cadeira de braços de couro vermelho polido e escurecido
pelo uso. A cadeira em que ela se sentou em frente à minha era de balanço com
almofadas muito usadas. Os demais móveis da sala eram igualmente velhos e
despretensiosos e perguntei a mim mesmo se ela não usaria este lugar para
conservar o passado.
— Chegou de viagem — lembrou. — Deseja comer ou beber alguma coisa?
— Não, obrigado.
Ela despediu a empregada.
— Receio que vá ficar duplamente desapontado. Posso acrescentar pouco à
versão oficial do suicídio de meu marido. Eu e Luke não nos víamos há tempos
quando aconteceu.
— Já acrescentou alguma coisa — eu disse. — Segundo a versão oficial foi
acidente.
— De fato. Quase esqueci. Acharam melhor omitir o suicídio para o público.
— Quem achou melhor?
— Eu, entre outras pessoas. Dada a posição de meu falecido marido no
estado, o suicídio teria repercussões financeiras e políticas. Para não falar de ser
um ato condenável que nos deixaria mal.
— Algumas pessoas podem achar mais condenável alterar os fatos da morte
de um homem.
— Algumas podem — disse ela, com expressão de grande grande dame. —
Poucas o diriam na minha presença. O fato não foi alterado, apenas a versão.
Tenho que viver com o fato do suicídio de meu marido.
— Tem absoluta certeza de que é um fato?
— Absoluta.
— Estive agora mesmo falando com o homem que investigou o caso, o
tenente Hoffman. Ele diz que seu marido se matou por acidente quando limpava
uma pistola automática.
— Foi a versão em que concordamos. O tenente Hoffman naturalmente não a
altera. Não entendo o interesse em mudá-la após tantos anos.
— A não ser que Deloney tenha sido assassinado. Nesse caso haveria um
certo interesse.
— Sem dúvida, mas ele não foi assassinado. — Seus olhos procuraram os
meus, e não tinham mudado, exceto que talvez estivessem um pouco mais duros.
— Ouvi boatos de que foi, na Califórnia.
— Quem espalhou esses boatos?
— A filha do tenente Hoffman, Helen. Ela afirmava que conhecia uma
testemunha do crime. A testemunha podia ser ela mesma.
A insegurança dela virou raiva fria.
— Ela não tem o direito de dizer essas mentiras. Farei com que a calem.
— Já calaram — tornei eu. — Alguém a calou na noite de sexta, com um
tiro. Por isso estou aqui.
— Ah, bem! Em que local da Califórnia a mataram?
— Em Pacific Point. Fica na costa ao sul de Los Angeles.
Os olhos dela estremeceram, mas muito ligeiramente.
— Receio nunca ter ouvido falar desse lugar. Tenho pena da garota,
naturalmente, embora nunca a tivesse conhecido. Mas posso garantir que a morte
dela nada tem a ver com Luke. Está batendo na porta errada, Sr. Archer.
— É o que pergunto a mim mesmo.
— Não vale a pena continuar perguntando. Meu marido me escreveu um
bilhete antes de se suicidar, o que torna tudo muito claro. Foi o detetive Hoffman
que o trouxe. Ninguém soube de sua existência, exceto ele e seus superiores.
Não pretendia lhe contar isso.
— Por quê?
— Porque é desagradável. Ele culpava a mim e a minha família pelo que ia
fazer. Estava em apuros financeiros, tinha especulado com ações e outras coisas,
seu negócio estava comprometido. Recusamos ajuda por razões pessoais e
práticas. O suicídio foi uma tentativa de nos fazer mal. Conseguiu, embora
tenhamos alterado os fatos, como diz. — Tocou o peito chato. — Fiquei muito
magoada, que era aliás o que ele pretendia.
— O senador Osborne ainda vivia nessa época?
— Vejo que não conhece nossa história — censurou-me ela. — Meu pai
morreu em 14 de dezembro de 1936, três anos e meio antes de meu marido se
matar. Pelo menos meu pai foi poupado dessa humilhação.
— Falou em família, há pouco.
— Referia-me a minha irmã Tish e a meu falecido tio Scott, curador da nossa
herança. Ele e eu recusamos ajuda a Luke. A decisão foi essencialmente minha.
Nosso casamento tinha acabado.
— Por quê?
— O de sempre, creio. Não vou falar disso. — Levantou-se e foi à janela,
onde ficou aprumada como um soldado olhando para fora. — Muitas coisas
acabaram para mim em 1940. Meu casamento, depois a vida de meu marido e
depois a de minha irmã. Tish morreu no verão desse ano e chorei o outono todo.
E agora estamos de novo no outono — disse ela, com um suspiro. —
Costumávamos sair a cavalo juntas no outono. Ensinei-a a montar quando tinha
cinco anos e eu dez. Isso foi antes do começo do século.
Sua mente divagava por tempos mais remotos e menos dolorosos. Eu disse:
— Desculpe insistir nesse ponto, Sra. Deloney, mas tenho que perguntar se esse
bilhete anunciando o suicídio ainda existe.
Ela se virou, tentando apagar as marcas da dor na face. As marcas
persistiram.
— Claro que não. Queimei-o. Quanto ao conteúdo terá que acreditar na
minha palavra.
— Não é tanto a sua palavra que me preocupa. Tem absoluta certeza de que
foi seu marido que o escreveu?
— Sim. Eu não me enganaria quanto a letra dele.
— Uma falsificação bem feita pode enganar quase todo mundo.
— Isso é absurdo. Fala como num melodrama.
— Acontecem melodramas todos os dias, Sra. Deloney.
— Mas quem falsificaria um bilhete de suicídio?
— Já foi feito, por outros assassinos.
Ela jogou a cabeça para trás e me olhou ao longo do nariz delicadamente
aquilino. Parecia uma ave, mesmo no som da voz: — Meu marido não foi
assassinado.
— Acho que está dando valor demais a um simples bilhete que pode ter sido
falsificado.
— Não foi falsificado. Sei disso pelo conteúdo. O bilhete se referia a
assuntos íntimos que só eu e Luke conhecíamos.
— Por exemplo?
— Não tenho a intenção de lhe contar, nem a ninguém. Além disso, Luke
vinha falando em se matar por meses, quando bebia.
— Disse que não via seu marido há meses.
— Sim, mas recebia informações de amigos.
— Hoffman era um deles?
— Não. Eu não o considerava um amigo.
— E contudo ele abafou o suicídio de seu marido. O alegado suicídio de seu
marido.
— Recebeu ordens. Não tinha outro remédio.
— Quem deu a ordem?
— Presumivelmente o chefe de polícia. Era meu amigo e amigo de Luke.
— E isso tornou natural para ele falsificar os autos?
— Isso se faz todos os dias — disse ela —, em todas as cidades do país.
Poupe-me de suas lições de moral, Sr. Archer. O comissário Robertson morreu
há muito tempo. O próprio caso está morto.
— Talvez esteja para você. Mas continua pesando na mente de Hoffman. O
assassinato da filha o ressuscitou.
— Lamento por ambos. Mas não posso alterar o passado para acomodá-lo a
alguma teoria que você possa ter. O que está tentando provar, Sr. Archer?
— Nada de específico. Tento descobrir o que a mulher morta estava
pensando quando disse que Bridgeton ia pegá-la.
— Estava pensando sem dúvida em algo muito particular e pessoal. Isso é
frequente nas mulheres. Mas, como eu disse, não conheci Helen Hoffman.
— Ela andava com seu marido?
— Não. Não andava. E por favor, não me pergunte como posso ter certeza.
Já vasculhamos muito o túmulo de Luke, não acha? Não há nada escondido a
não ser um miserável suicídio. Eu ajudei de certo modo a enterrá-lo.
— Ao cortar-lhe o dinheiro?
— Exato. Não achou que eu estava confessando ter dado um tiro nele...
— Não — eu disse. — Gostaria de tê-lo feito?
O rosto dela se enrugou num sorriso quase selvagem.
— Tudo bem, dei um tiro nele. O que vai fazer agora?
— Nada. Não acredito nisso.
— E por que eu confessaria se não fosse verdade?
Ela estava naquele jogo infantil fantástico a que as mulheres velhas às vezes
gostam de voltar.
— Talvez quisesse matar seu marido. Não duvido de que queria. Mas se o
tivesse realmente feito não estaria falando.
— Por que não? Você não pode fazer nada. Tenho amigos demais na cidade,
oficiais e não oficiais. Que até ficariam muito irritados se você insistisse em
remexer nessa velha porcaria.
— Devo considerar isso uma ameaça?
— Não, Sr. Archer — disse ela, com um sorriso tenso. — Não tenho nada
contra você, exceto que é um fanático em seu ofício, ou devo antes dizer
profissão? Importa realmente saber como as pessoas morreram? Estão mortas,
como todos estaremos, mais cedo ou mais tarde. Alguns de nós mais cedo. E
sinto que já lhe concedi tempo suficiente do que me resta sobre a terra.
Tocou a sineta chamando a empregada.
22
capítulo

Eu ainda tinha tempo para uma nova tentativa com Earl Hoffman. Voltei a
sua casa, dirigindo pelas ruas desertas de sábado. As questões que a Sra.
Deloney levantara, ou que não respondera, agarravam-se à minha mente como
anzóis que arrastam linhas quebradas pelo passado.
Eu estava quase certo que Deloney não se matara por acidente ou
deliberadamente. Eu tinha quase certeza de que alguma outra pessoa o fizera, e a
Sra. Deloney sabia. Quanto ao bilhete de suicídio, podia ter sido falsificado,
podia ter sido inventado, podia ter sido mal interpretado ou mal lembrado.
Hoffman devia provavelmente saber qual hipótese era verdadeira.
Quando dobrei a esquina para a Cherry Street, vi um homem caminhando no
quarteirão seguinte. Vestia terno azul e andava com a pesada energia de velho
policial, só que de vez em quando cambaleava e precisava parar. Quando me
aproximei vi que era Hoffman. As bainhas do pijama espreitavam embaixo das
calças azuis.
Deixei-o seguir na minha frente, através de bairros mais miseráveis à medida
que seguíamos para o sul. Entramos num bairro negro. Homens e mulheres nas
calçadas se afastavam de Hoffman. Ele procurava encrenca.
Mas não se saía lá muito bem. Tropeçou e caiu de quatro. Algumas crianças
saíram atrás dele, saltitando e zoando, até que ele se virou de braços levantados.
Depois continuou seu caminho.
Deixamos o bairro negro e entramos num bairro de velhos prédios de três
andares convertidos em pensões e escritórios. Alguns prédios residenciais mais
novos erguiam-se entre os outros e foi para um deles que Hoffman se dirigiu.
Tinha seis andares, aspecto ligeiramente caído, com persianas quebradas e
amareladas nas janelas, marcas de água. Hoffman entrou pela porta com a
inscrição Apartamentos Deloney, 1928. Estacionei e entrei atrás de Hoffman.
Ele tinha evidentemente tomado o elevador para cima. A embaciada seta de
latão em cima da porta do elevador girou até o sete e parou. Desisti de esperar —
Hoffman tinha provavelmente deixado a porta mal fechada — e descobri a
escada de incêndio. Estava ofegante quando alcancei a porta de metal que dava
para o terraço.
Entreabri a porta. Fora alguns pombos que arrulhavam no telhado vizinho,
tudo lá fora parecia calmo. Alguns arbustos em vasos e um biombo verde,
formando ângulo reto com a parede da cobertura, tinham convertido esse canto
do telhado numa espécie de solário.
Um homem e uma mulher tomavam banho de sol ali. Ela estava deitada de
bruços num colchão de ar com o sutiã do biquíni aberto. Era loura e muito bem
feitinha. Ele estava sentado numa cadeira dobrável com uma garrafa de coca-
cola na mesa ao lado. Era forte e moreno, com grossos pelos pretos cobrindo o
peito e os ombros. Usava anel de diamante no mindinho da mão esquerda e tinha
um ligeiro sotaque grego.
— Então acha que o negócio de restaurantes é ordinário? Quando diz isso
está cuspindo no prato em que comeu. Foi esse negócio pôs pele de marta em
seus ombros.
— Não foi isso que eu disse. O que eu disse foi que seguro é um negócio
fino e limpo para um homem.
— E restaurantes são sujos? Não meus restaurantes. Têm até raios
ultravioletas nas latrinas...
— Não diga indecência — pediu ela.
— Latrina não é uma palavra indecente.
— Na minha família é.
— Já estou cheio de ouvir falar da sua família. Já estou cheio de ouvir falar
no inútil do seu irmão Theo.
— Inútil? — Sentou-se mostrando um lampejo de seio antes de amarrar as
alças. — Theo fez o Círculo Mágico do Milhão de Dólares no ano passado.
— Quem comprou a apólice que o pôs lá? Eu! E para começar, quem foi que
o pôs na agência de seguros? Eu.
— Meu Deus. — A face dela era uma bela máscara inexpressiva. Não mudou
quando disse: — Quem está andando pela casa? Mandei Rosie embora depois do
café.
— Talvez tenha voltado.
— Não parece ser Rosie. Parece ser um homem.
— Talvez seja o Theo que veio me vender a apólice do Círculo Mágico deste
ano.
— Não tem graça nenhuma.
— Até acho que tem...
Riu para provar. Parou de rir quando Earl Hoffman saiu de trás do biombo de
acrílico. Sob a luz do sol apareciam todas as marcas da cara. A calça do pijama
caía nos sapatos.
O homem moreno saiu de sua cadeira e sacudiu as mãos para Hoffman.
— Fora. Isso aqui é um terraço privativo.
— Não posso — disse Hoffman circunspectamente. — Informaram que há
um cadáver aqui. Onde está?
— Lá embaixo no porão.. — O homem piscou o olho para a mulher.
— Porão? Disseram que estava na cobertura. — A boca ferida de Hoffman
abria e fechava mecanicamente, como se um fantoche e um ventríloquo fizesse o
passado falar através dela.
— Vocês moveram o corpo, hein? É contra a lei mudar um cadáver.
— Você é que vai se mudar daqui. — O homem virou-se para a mulher que
se cobria com um roupão de veludo. — Vá telefonar para você sabe quem.
— Eu sou o você-sabe-quem — disse Hoffman. — E a mulher fica. Tenho
que lhe fazer umas perguntas. Como se chama?
— Não é da sua conta.
— Tudo é da minha conta. — Hoffman girou um braço num movimento
circular e ia perdendo o equilíbrio. — Sou um detetive investigando um
assassinato.
— Mostre seu distintivo, detetive.
O homem estendeu a mão mas não se mexeu na direção de Hoffman.
Nenhum deles se mexeu. A mulher estava de joelhos, com sua bonita cara
medrosa erguida obliquamente para Hoffman.
Ele remexeu nos bolsos, tirou de lá uma moeda de meio dólar, olhou para ela
com expressão frustrada, e jogou-a rodopiando por cima do parapeito. Ouvi-a
indistintamente tilintar no chão, seis andares abaixo.
— Devo ter deixado em casa — disse ele suavemente.
A mulher tomou fôlego e se precipitou para o apartamento. Mexendo-se
desajeitada e rapidamente, Hoffman pegou-a pela cintura. Ela não se debateu,
ficou hirta e lívida no círculo de seu braço.
— Não tão depressa, boneca. Tenho que fazer primeiro algumas perguntas.
Você é a garota que tem dormido com Deloney?
Ela disse ao homem:
— Vai permitir que ele me fale assim? Diga-lhe que tire as mãos de mim.
— Largue minha mulher — disse o homem, sem convicção.
— Então ela que se sente e coopere.
— Sente-se e coopere — disse o homem.
— Está louco? Ele fede a bebida. Está completamente bêbado.
— Eu sei.
— Então faça alguma coisa.
— Estou fazendo, não o contrario.
Hoffman sorriu-lhe como um funcionário público habituado a suportar
críticas injustas. A boca e a mente feridas tornavam o sorriso grotesco. A mulher
tentou se libertar dele. Ele a apertou mais, com a barriga roçando-a de lado.
— Você parece um pouco com minha filha Helen. Conhece minha filha
Helen?
A mulher sacudiu a cabeça freneticamente. O cabelo esvoaçou.
— Ela diz que há uma testemunha do crime. Onde você estava quando isso
aconteceu, boneca?
— Eu nem sequer sei do que você está falando.
— Claro que sabe. Luke Deloney. Alguém meteu uma bala no olho dele e
tentou fazer a coisa parecer suicídio.
— Lembro de Deloney — disse o homem. — Servi-o uma ou duas vezes na
churrasqueira do meu pai. Ele morreu antes da guerra.
— Antes da guerra?
— Foi o que eu disse. Onde tem andado nos últimos vinte anos, detetive?
Hoffman não sabia. Olhou em volta os telhados da cidade como se estivesse
numa terra desconhecida. A mulher gritou: — Largue-me, seu gordo.
Ele pareceu ouvi-la de muito longe.
— Fale com mais respeito com seu pai.
— Se você fosse meu pai eu me mataria.
— Não continue a me faltar com o respeito. Já não admito mais falta de
respeito. Ouviu?
— Sim, ouvi. Você é um velho louco e vai tirar suas patas sujas de cima de
mim.
Seus dedos curvados arranharam o rosto deixando lá três riscos brilhantes
paralelos. Ele deu-lhe uma bofetada. Ela caiu sentada no chão. O homem
empunhou a garrafa de coca-cola. O líquido escorreu pelo braço dele quando ele
a ergueu, avançando sobre Hoffman.
Hoffman levou as mãos às costas e tirou um revólver do cinto. Atirou acima
da cabeça do homem. Os pombos ergueram voo do telhado vizinho, girando em
grandes espirais. O homem deixou cair a garrafa e parou com as mãos para cima.
A mulher, que choramingava, silenciou.
Hoffman lançou um olhar feroz ao céu brilhante. Os pombos sumiam à
distância. Depois olhou para o revólver na mão. Com os olhos focados nesse
mesmo objeto, avancei para a luz.
— Precisa de ajuda com essas testemunhas, Earl?
— Não, eu me viro com elas. Está tudo sob controle. — Enviesou os olhos
para mim. — Esqueci seu nome de novo. É Arthur, não é?
— Archer. — Caminhei para ele, empurrando minha sombra através da
superfície desnivelada. — Você vai conseguir uma grande publicidade, Earl.
Resolvendo sozinho o caso da morte de Deloney.
— Sim, claro. — Os olhos dele estavam profundamente perturbados. Ele
sabia que eu estava dizendo bobagens, como sabia que cometera bobagens, mas
nem a si mesmo podia confessar. — Eles esconderam o corpo no porão.
— Isso significa que provavelmente teremos que cavar.
— Estão todos loucos? — disse o homem entre os braços erguidos.
— Calado, você — eu disse. — É melhor ir chamar reforços, Earl. Eu fico
com a pistola guardando essa turma.
Ele hesitou por um momento que me pareceu uma eternidade. Depois me
entregou o revólver e entrou no apartamento, batendo pesadamente com o ombro
no umbral.
— Quem é você? — perguntou o homem.
— Sou o guardião dele. Sosseguem.
— Ele fugiu do manicômio?
— Ainda não.
Os olhos do homem eram como morangos enterrados na massa. Ajudou a
mulher a levantar, arrumando desajeitadamente o roupão. De súbito ela caiu nos
braços dele chorando e ele afagava as costas delas com a mão do diamante e
dizia alguma coisa carinhosa em grego.
Pela porta aberta eu ouvia Hoffman falando ao telefone.
— Seis homens com pás e uma britadeira. O corpo dela está sob o chão de
cimento do porão. Quero-os aqui em dez minutos ou alguém se vai ferrar!
Bateu com o fone, mas continuou a falar. A voz subia e descia como uma
ventania, levantando fragmentos dispersos do passado e soprando-os juntos num
redemoinho.
— Ele nunca tocou na garota. Não faria isso com a filha de um amigo. Ela
era uma garota decente, uma filhinha do papai. Lembro-me de que quando ela
era bebê e eu dava banho nela. Era macia como uma coelhinha. Eu a segurava
pelos braços, ela de chamava de pa. — Sua voz quebrou. — O que aconteceu?
Ficou um momento calado. Depois gritou. Vi-o cair no chão com um baque
que sacudiu o apartamento todo. Entrei. Ele estava sentado com as costas no
fogão, tentando tirar a calça. Fez sinal para que eu saísse.
— Afaste-se de mim. Estou cheio de aranhas.
— Não vejo nenhuma aranha.
— Estão embaixo das minhas roupas. Viúvas negras. O assassino está
tentando me matar com aranhas.
— Quem é o assassino, Earl?
O rosto se mexeu.
— Nunca descobri. Veio ordem de cima para arquivar o caso. O que pode um
homem...? — Outro grito saiu-lhe da garganta. — Meu Deus, centenas delas
rastejam em cima de mim.
Começou a rasgar as roupas. Estavam reduzidas a farrapos laranja e azul
quando a polícia chegou, e seu velho corpo de lutador contorcia-se nu sobre o
linóleo.
Os dois policiais conheciam Earl Hoffman. Eu nem sequer tive que dar
explicações.
23
capítulo

O sol vermelho afundou abruptamente quando o avião baixou e entrou na


sombra das montanhas. Eu tinha telegrafado para a Agência Walters e Phyllis me
esperava no aeroporto.
Ela apertou minha mão e me ofereceu o rosto para um beijo. Tinha uma pele
deliciosa, um pouquinho bronzeada, e uns olhos opacos sorridentes cor de mel.
— Você está com um ar cansado, Lew. Mas ao menos existe.
— Não me diga. Fico ainda mais cansado. Você está com um aspecto
maravilhoso.
— Vai ficando mais difícil à medida que envelheço. Em compensação, outras
coisas ficam mais fáceis. — Ela não disse que coisas. Fomos para o carro dela
no súbito anoitecer. — Bem, o que estava fazendo em Illinois? Pensei que
estivesse num caso em Pacific Point.
— É nos dois lugares. Descobri um velho assassinato cometido em Illinois
antes da guerra que parece estreitamente ligado ao atual. Nem me pergunte
como. Levaria a noite toda explicando e temos coisas mais importantes para
fazer.
— Bem, você pelo menos tem. Um compromisso para jantar às oito e meia
com a Sra. Sally Burke. Você é um velho amigo meu de Los Angeles, profissão
não especificada. A partir daqui é com você.
— Como foi que conseguiu isso?
— Não foi difícil. Sally adora jantares grátis e homens não comprometidos.
Quer voltar a se casar.
— Mas como conseguiu travar relações com ela?
— Encontrei-a por acaso no bar onde ela costuma ir e bebemos juntas na
noite passada. Bem, uma de nós se embebedou. Ela falou um tanto do irmão
Judson, que pode ser o homem que você procura.
— É ele. Onde o cara mora?
— Na South Shore. Lugar difícil para encontrar pessoas. Arnie está lá agora
procurando.
— Leve-me à irmã.
— Você parece um cordeiro pedindo para ser levado ao matadouro. Para ser
sincera, ela é uma garota bem decente — disse Phyllis, deixando falar a
solidariedade feminina. — Não é inteligente, mas tem bom coração. Adora o
irmão.
— Lucrécia Borgia também adorava o irmão dela.
Phyllis bateu com a porta do carro. Fomos para Reno, uma cidade onde
nunca me aconteceu nada de bom, mas eu nunca perco a esperança.

A Sra. Sally Burke morava perto, na Riley Street, no último andar de um


velho prédio de dois andares. Phyllis deixou-me na frente do 829, tendo me
arrancado a promessa de voltar para passar a noite com ela e Arnie. A Sra. Burke
esperava no hall do segundo andar com a parafernália completa: vestido preto,
pele de raposa, pérolas e anéis, saltos de quatro polegadas. O cabelo era uma
mistura de castanho e louro, como para exprimir a complexidade de sua
personalidade. Os olhos castanhos me avaliaram quando cheguei a seu nível,
como os antigos fazendeiros olhavam um escravo forte no leilão.
Ela cheirava bem, pelo menos, e tinha um sorriso agradável, amigavelmente
impaciente. Trocamos saudações e nomes. Ela quis que eu a chamasse
imediatamente de Sally.
— Lamento não poder convidá-lo a entrar, a casa está numa desordem
completa. Aos domingos nunca consigo fazer nada. Lembra a velha canção
Gloomy Sunday? É assim desde meu divórcio. Phyllis disse que você era
divorciado.
— Phyllis disse a verdade.
— Para um homem é diferente — disse ela, com uma pontinha de
ressentimento. — Mas vejo que precisa de uma mulher que olhe por você.
Ela era uma trabalhadora das mais rápidas e menos eficientes que eu jamais
encontrara. Meu coração caiu no pé. Ela olhava as botas e as roupas com que eu
tinha dormido no avião. Por outro lado, eu era forte. Tinha subido a escada sem
ajuda.
— Onde vamos comer? — disse ela. — O Riverside é bom.
Era bom e caro. Depois de duas bebidas, deixei de me preocupar com o
dinheiro de Alex que estava gastando. Comecei a ficar fascinado de certo modo
pela conversa de Sally Burke. O ex-marido. a se acreditar nela, era uma
combinação de Drácula, Hitler e Uriah Heep1. Ganhava pelo menos vinte e cinco
mil dólares por ano como agente de vendas no noroeste, mas por mais de uma
vez ela teve que penhorar o salário dele para receber sua mísera pensão mensal
de seiscentos dólares. Estava tendo muita dificuldade em sobreviver,
especialmente agora que seu irmãozinho tinha perdido o emprego no clube.
Mandei vir outra bebida e manifestei moderada simpatia.
— Jud é um bom rapaz — disse ela, como se alguém tivesse dito o contrário.
— Jogava futebol na Washington State como atacante. Muita gente em Spokane
pensava que ele seria chamado para a seleção nacional se jogasse num colégio
melhor. Mas nunca teve o reconhecimento devido. Nunca. Perdeu o lugar de
treinador por mera política, pura e simples. As acusações eram um monte de
tolices, ele próprio me disse.
— Que acusações?
— Nada. Um monte de tolices, palavra. — Ela acabou o quarto martini e me
olhou com astúcia simplória. — Não creio que tenha me dito em que trabalha,
Lew...
— Não creio que tenha... Dirijo uma pequena agência em Hollywood.
— Que engraçado! Jud sempre quis representar. Nunca representou até
agora, mas tem boa aparência. Jud esteve em Hollywood na semana passada.
— Procurando emprego como ator?
— Qualquer coisa — disse ela. — Ele quer trabalhar, mas o mal é que não
tem habilidade para nada, quer dizer, depois de perder a licença de treinador e
em seguida o estúdio de dança... Acha que pode conseguir alguma coisa para ele
em Hollywood?
— Tenho o maior empenho em falar com ele — disse sem mentir. Ela estava
embriagada e esperançosa e meu interesse pelo irmão não a surpreendeu.
— Isso pode ser arranjado — disse ela. — De fato ele está no meu
apartamento neste exato momento. Posso telefonar e pedir que venha aqui.
— Vamos jantar primeiro.
— Não me importo de pagar o jantar do Jud. — Compreendeu que tinha
cometido um erro tático e deu ré imediatamente. — Mas acho que três é
demais...
Ela falou tanto do irmão no jantar que era quase como tê-lo ali. Recitou as
suas velhas marcas no futebol. Contou, com uma espécie de entusiasmo por
procuração, as proezas dele com as damas. Falou das ideias que Jud estava
sempre chocando. A que mais me agradou foi um plano para uma versão
condensada da Bíblia com as passagens pornográficas expurgadas para leitura
em família.
Sally não aguentava bebida. Estava completamente bêbada quando acabou
de jantar. Queria que fôssemos buscar o mano e depois fazer o tour das boites,
mas eu não me sentia inclinado. Levei-a para casa. No táxi dormiu no meu
ombro. Isso não me contrariou.
Acordei-a em Riley Street e levei-a escada acima. Ela parecia muito liberal e
com disposições bem dissolutas, as raposas escorregando a toda hora. Eu me
sentia como se tivesse passado o fim de semana todo cuidando de bêbados.
Um homem em mangas de camisa e calça que lhe moldava as pernas abriu a
porta do apartamento. Com Sally apoiada em mim, colhi uma rápida impressão
dele: homem de meias qualidades que vivia num meio mundo: era meio bonito,
meio extraviado, meio corrupto, meio inteligente, meio perigoso. Os sapatos
italianos estavam gastos nas biqueiras.
— Precisa de ajuda? — perguntou-me.
— Não seja ridículo — disse Sally. — Estou perfeitamente bem. Sr. Archer,
apresento-lhe meu irmão Jud, Judson Foley.
— Olá — disse ele. — Não devia tê-la deixado beber. Ela não aguenta
álcool. Deixe, eu cuido dela.
Com entediada perícia passou o braço dela por cima do ombro, prendeu-a
pela cintura, levou-a através da sala da frente para um quarto iluminado, deitou-a
sobre a cama estilo Hollywood e apagou a luz.
Pareceu desagradavelmente surpreso por me encontrar na sala.
— Boa noite, Sr. Archer, ou lá como é que se chama. Hora de fechar.
— Não é muito hospitaleiro.
— Não. Minha irmã é que é a hospitaleira aqui. — Lançou um olhar
carrancudo em torno da salinha, para os cinzeiros transbordando, os copos sujos,
os jornais espalhados. — Nunca o vi antes, nunca voltarei a vê-lo. Por que seria
hospitaleiro?
— Tem certeza de que nunca me viu antes? Pense bem.
Seus olhos castanhos estudaram minha cara, depois o corpo. Coçou
nervosamente a frente do cabelo ralo. Meneou a cabeça.
— Se já o vi antes devia estar bêbado. Sally trouxe-o aqui quando eu estava
bêbado?
— Não. Você estava bêbado na sexta-feira à noite?
— Vejamos, que noite foi essa? Acho que estava fora da cidade. Sim. Só
voltei no sábado de manhã. — Ele tentava falar num tom indiferente e parecer
despreocupado. — Deve estar me confundindo com outro cara.
— Não acho, Jud. Trombei com você, ou você trombou comigo, por volta
das nove da noite da sexta-feira em Pacific Point.
O pânico brilhou em seu rosto como o clarão de um relâmpago.
— Quem é você?
— Corri atrás de você no caminho da casa de Helen Haggerty, lembra? Você
era rápido para mim. Levei dois dias para alcançá-lo.
Ele respirava como se tivesse acabado a corrida neste momento preciso.
— Você é da polícia?
— Sou detetive particular.
Jud sentou-se numa cadeira estilo dinamarquês, agarrando os frágeis braços
com tanta força que pensei que fosse quebrá-los. Deu uma fungada que parecia
um soluço.
— É ideia do Bradshaw, não é?
Não respondi. Puxei uma cadeira e sentei.
— Bradshaw disse que estava satisfeito com minha história. Agora põe você
nos meus calcanhares. — Os olhos dele se estreitaram. — Suponho que andou
puxando a língua da minha irmã a meu respeito.
— Ela não precisa de muito estímulo para falar de você.
Torcendo-se na cadeira, Jud lançou um olhar malévolo na direção do quarto.
— Seria melhor que ela fechasse a boca sobre meus assuntos.
— Não a censure pelo que você mesmo fez.
— Mas o diabo é que eu não fiz nada. Disse isso a Bradshaw e ele acreditou,
ou pelo menos disse que acreditava.
— Você está falando de Roy Bradshaw?
— De quem mais? Ele me reconheceu naquela noite, ou pensou que tinha
reconhecido. Eu nem vi com quem me choquei no escuro. Só queria sair dali.
— Por quê?
Ele ergueu os ombros pesados e conservou-os assim, com a cabeça metida
entre eles.
— Não queria aborrecimento com a polícia.
— O que estava fazendo na casa de Helen?
— Ela me chamou. Fui lá de bom samaritano. Ela telefonou para o motel em
Santa Mônica e praticamente suplicou que fosse lá passar a noite. Estava om
medo e queria companhia.
— A que horas ela telefonou?
— Lá pelas sete e meia. Eu tinha ido comer alguma coisa e acabava de
voltar. — Deixou cair os ombros. — Escute, você sabe isso tudo, Bradshaw
contou, não contou? O que está tentando fazer, quer me pegar em algum erro?
— É uma ideia. Que espécie de erro tem você em mente?
Ele sacudiu a cabeça e continuou a sacudir enquanto falava.
— Não tenho nada especial em mente. Quero dizer, não posso cometer erros.
— Já cometeu um muito grande, quando fugiu.
— Eu sei. Entrei em pânico. — Sacudiu um pouco mais a cabeça.
— Ela estava ali com uma bala no crânio e eu me arriscava naturalmente a
levar a culpa no lugar do cara que tinha feito aquilo. Ouvi vocês se aproximando
e me acovardei. Você tem que me acreditar.
Eles sempre diziam isso.
— Por que acreditaria?
— Porque digo a verdade. Sou inocente como uma criancinha.
— Tem inocência demais aí.
— Não falo em geral. Refiro-me a este caso em particular. Cansei de me
esforçar em dar um jeito na Helen. Não faz sentido que eu tivesse ido lá para
acabar com ela. Eu gostava dessa garota. Eu e ela tínhamos muita coisa em
comum.
Eu não sabia se era um elogio para qualquer dos dois. Bert Haggerty tinha
descrito a ex-mulher como corrupta. O homem sentado diante de mim era uma
personagem duvidosa. Atrás da máscara de boa aparência, parecia em ruínas
como se tivesse descido penosamente alguns degraus na escala social. A despeito
disso, eu acreditava em parte na história dele. Jamais acreditaria completamente.
— O que você e Helen tinham em comum?
Ele me lançou de baixo para cima um rápido olhar penetrante. Não era uma
linha de interrogatório normal. Pensou na resposta a dar.
— Esportes. Dança. Diversão e jogos. Nós nos divertimos um pouco,
palavra. Quase morri quando a encontrei na outra noite.
— Como a conheceu?
— Você sabe tudo isso — tornou ele, impacientemente. — Está trabalhando
para Bradshaw, não está?
— Ponha a coisa assim: eu e Bradshaw estamos do mesmo lado. — Eu
queria saber por que Bradshaw ocupava um espaço tão grande na mente de
Foley, mas outras perguntas tinham prioridade. — Portanto, por que não me faz
a vontade e me conta como conheceu Helen?
— É muito simples. — Espetou o polegar para baixo como um imperador
decadente decretando mortes. — Ela alugou o apartamento do térreo quando
veio passar aqui seis semanas de verão. Ela e minha irmã ficaram amigas e eu
acabei entrando no grupo. Costumávamos sair os três juntos.
— No carro da Sally?
— Eu tinha nessa época meu próprio carro... um Galaxie 500 de 1962 —
disse ele fervorosamente. — Isso foi em agosto, antes de eu perder o emprego e
não poder continuar pagando as prestações.
— Como perdeu o emprego?
— Isso não lhe interessa. Não tem nada a ver com Helen Haggerty,
absolutamente nada.
A insistência me fez desconfiar.
— Em que você estava trabalhando?
— Eu já disse que isso não interessa.
— Posso descobrir com facilidade onde você trabalhava. É preferível ser
você a contar.
Ele disse com os olhos baixos: — Estava na bilheteira do Solitaire em
Stateline. Acho que cometi um erro.
Ficou olhando as mãos fortes e quadradas que se mexiam desajeitadamente.
— E procurava trabalho em Los Angeles?
— Correto. — Parecia aliviado por eu não insistir na história do emprego
perdido. — Não consegui nada, mas preciso sair daqui.
— Por quê?
Ele coçou o cabelo.
— Não posso continuar vivendo à custa da minha irmã. Mendigar chateia.
Vou voltar a Los Angeles para ver se aparece alguma coisa.
— Voltemos à primeira vez em que foi lá. Disse que Helen telefonou para
seu motel na sexta à noite. Como ela sabia que você estava lá?
— Eu já tinha telefonado para ela no início da semana.
— Para quê?
— O normal. Quero dizer, pensei que pudéssemos nos ver e nos divertir um
pouco. — Ele falava constantemente em se divertir um pouco, mas tinha o
aspecto de quem não sabia o que era isso há anos. — Helen já tinha um
compromisso para a quarta à noite. Para resumir, tinha um encontro com
Bradshaw. Iam a um concerto qualquer. Ela prometeu telefonar outra hora. O que
fez. Na sexta à noite.
— O que ela disse ao telefone?
— Que tinham ameaçado matá-la e estava com medo. Eu nunca a tinha
ouvido falar assim. Ela disse que, tirando eu, não tinha ninguém a quem recorrer.
E eu cheguei lá tarde demais. — Parecia haver sofrimento em suas palavras, mas
até esse sofrimento era ambíguo, como se se sentisse fraudado pela morte de
Helen.
— Helen e Bradshaw eram íntimos?
Ele respondeu cautelosamente: — Eu não diria tanto. Acho que se
encontraram por acaso no verão passado, da mesma maneira que aconteceu
comigo. Seja como for, ele estava ocupado na sexta. Tinha que preparar um
discurso para um jantar de gala qualquer. Pelo menos foi o que ele me disse hoje
de manhã.
— Ele não mentiu. Bradshaw e Helen se conheceram aqui em Reno?
— Onde mais, senão aqui?
— Eu achava que Bradshaw tinha passado o verão na Europa.
— Pois se enganou. Ele passou aqui o mês de agosto inteiro, pelo menos.
— O que ele estava fazendo aqui?
— Ele disse uma vez que pesquisava algo para a Universidade de Nevada.
Não me disse o quê. Eu mal o conhecia. Encontrei-o por acaso duas ou três
vezes com Helen e foi tudo. Não tornei a vê-lo até hoje.
— E você diz que ele o reconheceu na sexta e veio aqui interrogá-lo?
— É a pura verdade. Ele veio aqui hoje de manhã, me encheu de perguntas.
Ele acreditou que eu não a matei. Não vejo por que você não acredita.
— Quero falar primeiro com Bradshaw antes de decidir. Sabe onde ele está
agora?
— Ele disse que ficaria na Pousada Lakeview, na North Shore. Não sei se
ainda está lá.
Levantei e abri a porta.
— Acho que vou lá ver.
Sugeri a Jud que ficasse onde estava porque uma segunda fuga causaria má
impressão. Ele acenou que sim. Estava ainda acenando quando um impulso
inverso se apoderou dele e veio para cima de mim. O ombro pesado dele acertou
minhas costelas e me jogou contra a quina da porta.
Ele me deu um soco na cara. Desviei a cabeça. O punho foi direto na parede
e ele uivou de dor. Tornou a me atingir, agora no baixo-ventre. Comecei a
escorregar porta abaixo. Deu-me uma joelhada no queixo.
Isso me impeliu a me levantar. Ele arremeteu de novo contra mim, cabeça
baixa, eu dei um passo para o lado e apliquei-lhe uma cutilada na nuca quando
ele passava. Ele atravessou rapidamente a porta e o hall aos ziguezagues,
mergulhou de cabeça escada abaixo. No fim da escada ficou estendido sem se
mexer.
Mas já recuperava os sentidos quando a polícia chegou. Segui para a
delegacia a fim de garantir que o manteriam preso. Ainda não fazia cinco
minutos que estava lá quando Arnie apareceu. Teve uma conversa com os
policiais. Detiveram Foley por agressão com agravantes e prometeram não largá-
lo.

________________
1 Personagem fictício em David Copperfield, romance de Charles Dickens,

notável pela humildade, obsequiosidade e falta de sinceridade. Seu nome virou


sinônimo de bajulação.
24
capítulo

Arnie me levou à Pousada Lakeview, um casarão em estilo gótico


californiano que devia datar dos primeiros anos do século. Gerações de
veranistas tinham passado pelo vestíbulo e feito desaparecer com seus passos
pesados qualquer encanto antigo que ela tivesse. Parecia um lugar improvável
para Roy Bradshaw se hospedar.
Mas Bradshaw estava hospedado lá, disse o idoso recepcionista da noite.
Tirou um relógio do bolso do colete e consultou-o.
— Mas começa ficar tarde. Eles já devem estar dormindo.
— Eles?
— Ele e a mulher. Posso ir lá em cima chamá-lo, se quiser. Nunca colocamos
telefones nos quartos.
— Eu vou lá. Sou amigo do Dr. Bradshaw.
— Não sabia que ele era doutor.
— Doutor em filosofia — eu disse. — Qual é o número do quarto?
— Trinta e um, último andar. — O velhote parecia aliviado por não ter que
subir.
Deixei Arnie com ele e subi ao terceiro andar. Havia luz na bandeira da porta
do 31 e eu ouvia o murmúrio indistinto de vozes. Bati. Fez-se um silêncio,
seguido por um ruído de chinelos.
Roy Bradshaw falou através da porta: — Quem é?
— Archer.
Ele hesitou. Um dorminhoco no quarto do outro lado do corredor, perturbado
talvez pelas nossas vozes, começou a ressonar. Bradshaw perguntou: — O que
está fazendo aqui?
— Tenho que falar com você.
— Isso não pode esperar até amanhã? — A sua voz ficou impaciente e tinha
esquecido temporariamente o sotaque de Harvard.
— Não, não posso. Preciso de seu conselho sobre o que fazer com Judson
Foley.
— Tudo bem. Vou me vestir.
Esperei no corredor mal iluminado. Pairava um cheiro ligeiramente azedo
que as casas velhas parecem absorver das pessoas, o cheiro da vida transitória. O
homem que ressonava emitia terríveis gemidos entre os roncos. Uma mulher
disse-lhe para se virar e ele se calou.
Ouvi uma rápida troca de palavras no quarto de Bradshaw. A voz da mulher
parecia querer alguma coisa, que a voz de Bradshaw negava. Achei que
reconhecia a voz da mulher, mas não podia ter certeza.
Tive certeza quando Bradshaw finalmente abriu a porta. Ele tentou se
esgueirar sem me deixar ver lá dentro, mas colhi um vislumbre de Laura
Sutherland. Ela estava sentada ereta na cama desfeita. Tinha o cabelo caído nos
ombros e estava rosada e linda.
Bradshaw fechou a porta bruscamente.
— Agora já sabe.
Tinha vestido calça e camiseta preta de gola alta que o fazia parecer mais do
que nunca um estudante universitário. A despeito da tensão que havia nele,
parecia perfeitamente feliz.
— Eu não sei o que sei — eu disse.
— Não é uma ligação ilícita, acredite. Laura e eu nos casamos, estamos
casados há algum tempo. Por ora mantemos o casamento secreto. E quero lhe
pedir que mantenha o segredo.
Não lhe disse se manteria ou não.
— Por que todo esse segredo?
— Temos nossas razões. Para começar, segundo os regulamentos da
faculdade, Laura teria que renunciar. Ela vai fazer isso, claro, mas não já. E
depois há minha mãe. Não sei como lhe dar a notícia.
— Pode simplesmente informá-la. Ela sobrevive.
— É muito fácil dizer, mas é impossível.
A coisa que o tornava impossível, pensei, era o dinheiro da mãe. Ter dinheiro
e expectativas de herdar mais eram hábitos difíceis de quebrar para um homem
perto da meia-idade. Mas senti uma oculta simpatia por Bradshaw. Havia nele
mais vida do que eu suspeitara.
Descemos a escada e atravessamos o vestíbulo, onde Arnie jogava gin
rummy com o recepcionista da noite. O bar era uma caverna sombria com chifres
de veado nas paredes em vez de estalactites e clientes em vez de estalagmites.
Um dos clientes, um local de boné e jaqueta de couro muito bêbado, quis nos
oferecer uma bebida. O bartender disse que era hora de ele ir para casa.
Surpreendentemente, ele foi, e a maioria partiu atrás dele.
Sentamos no bar. Bradshaw pediu um bourbon duplo e insistiu em mandar
vir outro para mim, embora eu não precisasse. Havia uma certa agressividade em
sua insistência. Ele não me perdoava por penetrar em seu segredo e arrancá-lo do
leito da esposa.
— Bem — disse —, o que há com Judson Foley?
— Ele disse que o reconheceu na sexta à noite.
— Eu tive uma intuição de que era ele. — Bradshaw recuperara seu sotaque
e o usava como uma espécie de máscara vocal.
— Por que não disse? Pouparia muita andança e despesa.
Ele me olhou solenemente por cima de sua bebida.
— Eu precisava ter certeza e estava longe disso. Não podia acusar um
homem e lançar a polícia atrás dele enquanto não tivesse certeza.
— Portanto veio aqui para ter certeza?
— Surgiu a oportunidade. Há momentos na vida de um homem em que tudo
parece se conjugar, já notou isso? — Um momentâneo lampejo de alegria
atravessou sua gravidade. — Eu e Laura tínhamos planejado há algum tempo vir
passar um fim de semana aqui sem ninguém saber e a conferência nos deu essa
oportunidade. Foley era uma questão secundária, embora naturalmente muito
importante. Fui procurá-lo esta manhã e interroguei-o detalhadamente. Parece
completamente inocente.
— Inocente de quê?
— Do assassinato de Helen. Foley foi à casa dela dar proteção, mas ela já
estava além de qualquer proteção quando ele chegou. Ele ficou com medo e
fugiu.
— Do que ele tinha medo?
— De uma falsa acusação, de um plano para incriminá-lo, segundo disse. Ele
tinha problemas com a polícia. Alguma coisa relacionada a trapaças no futebol.
— Como sabe disso?
— Ele contou. Eu tenho — disse ele, com uma risadinha vaidosa — uma
certa habilidade para inspirar confiança nesses... ahn... marginais. O homem foi
completamente franco comigo e na minha ponderada opinião não teve nada a ver
com o assassinato de Helen.
— Tem provavelmente razão. Eu gostaria de saber mais alguma coisa sobre
ele.
— Sei muito pouco sobre ele. Era amigo de Helen. Vi-o uma ou duas vezes
com ela.
— Em Reno?
— Sim. Passei uma parte do verão em Nevada. É outro fato a meu respeito
que não divulgo. — Acrescentou vagamente: — Um homem tem sem dúvida
direito a sua vida privada.
— Quer dizer que esteve aqui com Laura?
Ele baixou os olhos.
— Ela passou comigo uma parte do tempo. Ainda não tínhamos resolvido
casar. Era uma decisão grave. Significava o fim da carreira de Laura e o fim da
minha... vida com a mãe — concluiu, de modo pouco convincente.
— Posso compreender suas razões. Mesmo assim eu preferia que tivesse me
contado que encontrara Foley e Helen aqui em Reno o mês passado.
— Devia tê-lo feito. Peço desculpas. Uma pessoa adquire o hábito do
segredo. — Acrescentou numa voz diferente, apaixonada: — Estou
profundamente apaixonado por Laura. Temo tudo o que possa perturbar nosso
idílio. — Suas palavras eram formais e antiquadas, mas o sentimento por trás
delas parecia real.
— Qual era a relação entre Foley e Helen?
— Eram amigos, nada mais, acho. Francamente, surpreendeu-me um pouco
que ela andasse com uma companhia dessas. Mas o rapaz era mais novo do que
ela e suponho que era esse o atrativo. Escoltas apresentáveis são uma raridade
em Reno, sabe. Passei um mau pedaço repelindo assaltos de várias fêmeas
predadoras.
— Isso inclui Helen?
— Acho que sim. — Através da melancolia pensei poder discernir um ligeiro
rubor em sua face. — Claro que ela não sabia do meu... do meu caso com Laura.
Era secreto para todos.
— É por isso que não queria que Foley fosse chamado para ser interrogado?
— Eu não disse isso.
— Estou perguntando.
— Suponho que em parte é isso. — Houve um longo silêncio. — Mas se
acha que é necessário, não discuto. Eu e Laura não temos realmente nada a
esconder.
O empregado do bar disse:
— Acabem as bebidas, senhores. Hora de fechar.
Acabamos nossas bebidas. No vestíbulo, Bradshaw deu-me um rápido e
nervoso aperto de mão, murmurando algo sobre voltar para perto da mulher.
Subiu os degraus de dois em dois, na ponta dos pés.
Esperei que Arnie acabasse sua partida de gin. Uma das coisas que o
tornavam detetive de primeira classe era sua aptidão para se misturar com quase
toda espécie de gente, para se aninhar em quase todas as situações e para
estimular uma conversa. Ele e o recepcionista da noite trocaram um aperto de
mão quando saímos do hotel.
— A mulher com quem seu amigo se hospedou — disse ele no carro — é
uma bonita morena, com um lindo corpo e fala como um livro aberto.
— É a mulher dele.
— Não tinha me contado que Bradshaw era casado — disse ele, com certa
irritação.
— Acabo de saber. O casamento é sub rosa1. O pobre diabo tem uma mãe
dominadora atrás dele. Na frente dele. A velha senhora tem dinheiro e acho que
ele receia ser deserdado.
— Era melhor ser franco com ela e correr o risco.
— Foi o que eu lhe disse.

Arnie ligou o carro e, enquanto seguíamos para sudoeste pela margem do


lago, contou uma longa história de uma cliente que ele tinha atendido para a
Pinkerton em San Francisco antes da guerra. Era uma viúva de uns sessenta anos
cheia de dinheiro que morava em Hillsborough com o filho, homem na casa dos
trinta. O filho estava sempre em casa à meia-noite, mas raramente antes, e a mãe
queria saber onde ele passava as noites. Apurou que ele estava casado há cinco
anos com uma ex-empregada que ele mantinha, com os três filhinhos do casal,
numa espelunca da zona sul de San Francisco.
Arnie parecia achar que a história acabava ali.
— E o que foi que aconteceu? — perguntei.
— A velhota ficou encantada com os netos e aceitou a nora por amor a eles.
E passaram a viver todos felizes com o dinheiro dela.
— É pena que Bradshaw não seja casado há tempo suficiente para ter filhos.
Seguimos em silêncio. A estrada se afastava da praia e seguia entre um túnel
de árvores que a encerravam como uma doce noite verde coagulada. Eu
continuava a pensar em Bradshaw e na sua insuspeitada masculinidade.
— Gostaria que descobrisse algumas coisas sobre Bradshaw, Arnie.
— Será que o caso do casamento o tornou suspeito?
— Não para mim. Pelo menos, por enquanto. Mas ele escondeu que
encontrou Helen Haggerty em Reno no verão. Quero saber exatamente o que ele
fazia aqui em agosto. Ele contou a Judson Foley que fazia pesquisa na
Universidade de Nevada, mas isso não parece provável.
— Por que não?
— Ele fez doutorado em Harvard e normalmente faria suas pesquisas lá ou
em Berkeley ou Stanford. Quero que apure também umas coisas sobre Foley.
Descubra se puder por que foi demitido do Solitaire Club.
— Isso não deve ser muito difícil. O cara que dirige a segurança deles é um
velho amigo meu. — Olhou o relógio à luz do painel de instrumentos. —
Podíamos ir lá agora, mas provavelmente não trabalha num domingo à noite.
— Amanhã dá tempo.
Phyllis nos esperava com comida e bebidas. Ficamos sentados na cozinha até
muito tarde, embriagando-nos moderadamente com cerveja, memórias comuns e
cansaço. A conversa acabou por completar o círculo e voltar a Helen Haggerty e
a sua morte. Às três da manhã eu lia em voz alta seu poema traduzido no
Bridgeton Blazer sobre os violinos e os ventos do outono.
— É terrivelmente triste — disse Phyllis. — Ela deve ter sido uma garota
formidável, embora isso seja apenas uma tradução.
— Foi precisamente esse o termo que o pai usou para qualificá-la.
Formidável. Ele é formidável também, à sua maneira.
Eu tentei falar do velho policial e empedernido bêbado de coração
despedaçado, que tinha procriado Helen. Subitamente passava das três e meia e
Phyllis dormia com a cabeça nos braços como uma dália despenteada entre as
garrafas da mesa. Arnie começou a retirar as garrafas, cuidadosamente, para não
acordá-la.
Sozinho no quarto de hóspedes tive uma dessas intuições que ocorrem
quando uma pessoa está cansada demais e emocionalmente agitada. Convenci-
me de que Hoffman me dera a revista por alguma razão. Havia na revista alguma
coisa que ele queria que eu visse.
Sentei de cueca na beira da cama cheirando a roupa limpa e li a pequena
revista até ficar vesgo. Fiquei sabendo muitas coisas sobre atividades estudantis
no City College de Bridgeton vinte e dois anos antes, mas nada de aparente
importância para meu caso.
Mas encontrei outro poema de que gostei. Era assinado com as iniciais G. R.
B. e dizia assim:

Se a luz fosse escura


e o escuro fosse luz,
A lua um buraco negro
No clarão da noite

A asa de um corvo
Branca como metal.
Então tu, meu amor,
Serias mais negra que o pecado.
Li alto o poema no café. Phyllis disse que invejava a mulher que o inspirou.
Arnie se queixou dos ovos mexidos pouco fofos. Era mais velho que Phyllis e se
melindrava facilmente.
Depois do café decidimos deixar Judson Foley quieto por enquanto. Se Dolly
Kincaid fosse detida e acusada, Foley daria uma bela testemunha-surpresa para a
defesa. Arnie me levou de carro ao aeroporto, e peguei um voo da Pacific para
Los Angeles.
Comprei um jornal no Aeroporto Internacional de L.A. e encontrei uma
breve notícia do caso Haggerty numa página interna do Southland News. Dizia
que Thomas McGee, o assassino solto de San Quentin no início do ano, era
procurado para interrogatório. Dolly Kincaid não era mencionada.

________________
1 Latim. Significa secreto. (N. do T.)
25
capítulo

Por volta do meio-dia entrei no escritório de Jerry Marks. A secretária dele


disse que a segunda-feira era o dia da semana para registro de julgamentos no
foro criminal e Jerry tinha passado a manhã no tribunal. Devia provavelmente
estar almoçando perto do palácio de justiça. Sim, o Sr. Kincaid estivera em
contato com o Sr. Marks no domingo e garantira seu patrocínio.
Encontrei-os juntos no restaurante onde Alex e eu tínhamos almoçado no dia
em que tudo aquilo começou. Alex deu-me lugar a seu lado no reservado virado
para a rua. Havia muita afluência de clientes e já se formara uma pequena fila do
lado de dentro da porta da rua.
— Estou muito satisfeito por terem se entendido — eu disse.
Alex produziu um dos seus raros sorrisos.
— Eu também. O Sr. Marks tem sido admirável.
Jerry agitou a mão rejeitando o elogio.
— A verdade é que ainda não pude fazer nada. Tinha outro caso para
despachar esta manhã. Fiz uma tentativa de sondar Gil Stevens, mas ele disse
que era melhor eu consultar a ata do julgamento, o que farei esta tarde. A Sra.
Kincaid — disse ele, com um olhar de soslaio para Alex — foi tão pouco
comunicativa quanto o Stevens.
— Falou com Dolly?
O advogado baixou a voz.
— Tentei ontem. Temos que saber em que ponto estamos antes que a polícia
a encontre.
— Isso vai acontecer.
Jerry olhou em volta para a multidão de gente do tribunal e baixou ainda
mais a voz.
— Segundo o jornal da caserna, eles planejam ir adiante hoje depois dos
testes de balística. Mas algo os detém. O xerife e os peritos que ele trouxe ainda
estão lá embaixo na galeria de tiro do tribunal.
— A bala pode estar fragmentada. Isso acontece em feridas da cabeça. Ou
podem ter virado sua principal atenção para outro suspeito. Li no jornal que eles
andam procurando Thomas McGee.
— Sim, desde ontem. A essas horas ele provavelmente já atravessou a
fronteira do México.
— Considera-o o principal suspeito, Jerry?
— Quero ler a tal ata do julgamento antes de formar uma opinião. E você?
Era uma pergunta difícil. Uma diversão lateral me poupou da resposta. Duas
senhoras idosas, uma vestida de luto e outra em elegante casado verde,
espreitavam pela porta de vidro. Viram a fila dos que esperavam mesa e foram
embora. A de preto era a Sra. Hoffman, mãe de Helen. A outra era a viúva de
Luke Deloney.
Desculpei-me e saí atrás delas. Tinham atravessado a rua no meio do
quarteirão, movendo-se através da luz e da sombra sob as iúcas gigantes que
margeavam os terrenos do tribunal. Embora parecessem manter uma incessante
conversa, caminhavam juntas como estranhas, de passo trocado e sem
afinidades. A Sra. Deloney era muito mais velha, mas tinha passo de amazona. A
Sra. Hoffman ia arrastando os pés cansados.
Mantive-me do outro lado da rua e segui-as de longe. Meu coração batia
mais acelerado. A chegada da Sra. Deloney à Califórnia confirmava minha
crença de que o assassinato do marido dela e o de Helen estavam relacionados, e
ela sabia.
Elas percorreram dois quarteirões da rua principal e entraram no primeiro
restaurante à vista, uma ratoeira para turistas, com mesas vazias visíveis através
das vitrines. Do outro lado da rua ficava uma tabacaria. Comprei um maço de
cigarros, fumei três ou quatro e acabei por comprar um livro sobre filosofia
grega antiga. Havia um capítulo sobre Zenão que li em pé. As velhotas nunca
mais acabavam de almoçar.
— Archer nunca vai conseguir pegar as velhinhas — eu disse.
O homem atrás do balcão apurou o ouvido.
— O que foi que disse?
— Pensava em voz alta.
— É um país livre. Gosto de falar comigo mesmo quando estou sozinho.
Aqui na loja não ficaria bem. — Sorriu e seus dentes de ouro fulgiram como
uma joalheria.
As velhotas saíram do restaurante e se separaram. A Sra. Hoffman tomou
mancando o rumo sul, para seu hotel. A Sra. Deloney partiu na direção oposta,
movendo-se rapidamente agora que não era embaraçada pela companheira. De
longe uma pessoa podia confundi-la com uma mulher nova que tivesse
inexplicavelmente tingido o cabelo de branco.
Ela saiu da rua principal e a meio quarteirão do tribunal desapareceu num
moderno edifício de concreto e vidro. “Stevens e Ogilvy — Advogados”, dizia a
placa de cobre ao lado da entrada. Caminhei até a esquina, sentei-me num banco
da parada de ônibus e abri meu novo livro sobre Heráclito. Todas as coisas fluem
como um rio, dizia ele; nada é permanente. Parmênides, por outro lado,
acreditava que as coisas nunca mudavam, que as mudanças eram apenas
aparentes. Senti-me atraído pelas duas teorias.
Um táxi parou em frente ao escritório de Stevens e Ogilvy. A Sra. Deloney
saiu e o táxi a levou. Tomei nota da placa antes de entrar no prédio.
Era um grande escritório, e trabalho não faltava. Ouvia-se o bater das
máquinas de escrever numa série de cubículos além da sala de espera. Um
advogado muito jovem em terno de flanela ensinava uma mulher de meia-idade,
sentada na cadeira da frente, a datilografar um memorando para ele. Os olhos
cinza-aço da mulher cruzaram com os meus e trocamos um sorriso.
— Eu já datilografava memorandos quando ele ainda engatinhava — disse
ela. — Em que posso ser útil.
— Preciso ver o Sr. Gil Stevens. Meu nome é Archer.
Ela olhou para a agenda, depois para o relógio.
— O Sr. Stevens sai para almoçar em dez minutos. E hoje não volta ao
escritório. Lamento.
— É sobre um caso de homicídio.
— Ah! Eu talvez consiga fazê-lo entrar por cinco minutos se isso lhe servir
de alguma coisa.
— Talvez sirva.
Ela falou com Stevens pelo telefone e fez-me sinal para me dirigir a um
escritório que ficava no fim do corredor. Era grande e suntuoso. Stevens estava
sentado numa cadeira de couro atrás de uma escrivaninha de mogno, flanqueado
por um mostrador de cristal com troféus náuticos. Tinha uma face leonina, com
uma grande boca mole imperiosa, testa alta por baixo dos cabelos branco-
amarelados apartados como duas asas caídas, olhos de um azul claro que tinham
visto tudo pelo menos uma vez e esperavam vigilantes pela segunda
oportunidade. Vestia um terno de tecido escocês e uma gravata vistosa.
— Feche a porta, Sr. Archer, e sente-se. — Instalei-me num sofá de couro e
comecei a explicar o que me levava ali. A sua voz grossa me interrompeu. —
Tenho poucos minutos. Sei quem é e creio saber o que tem em mente. Quer
discutir comigo o caso McGee.
Joguei uma indireta:
— E o caso Deloney.
As sobrancelhas dele se ergueram, forçando a carne acima a múltiplos
franzidos. Às vezes temos que ceder informação para tentar obter outra
informação. Contei o que havia acontecido a Luke Deloney.
Ele se inclinou para a frente na cadeira.
— Diz que isso está de certo modo relacionado ao assassinato de Helen
Haggerty?
— Tem que ser. Helen Haggerty morava no prédio da cobertura de Deloney.
Ela dizia que conhecia uma testemunha do assassinato de Deloney.
— Estranho que ela não tenha mencionado isso. — Não estava falando
comigo. Falava para si mesmo da Sra. Deloney. Depois lembrou-se de que eu
estava ali. — Por que veio me falar disso?
— Pensei que estivesse interessado, visto que a Sra. Deloney é sua cliente.
— Acha que é?
— Presumi que era.
— Tem o direito de presumir o que quiser. Suponho que a seguiu até aqui.
— Aconteceu vê-la quando vinha para cá. Mas há dois dias que queria vê-lo.
— Por quê?
— Defendeu Tom McGee. A morte da mulher dele foi o segundo de uma
série de crimes que começou com Deloney e acabou em Helen Haggerty. Agora
tentam jogar a morte da Haggerty para cima de McGee ou da filha ou de ambos.
Acredito que McGee seja inocente e que sempre foi.
— Doze pessoas pensaram o contrário.
— E por que, Sr. Stevens?
— Não tenho prazer algum em discutir erros passados.
— Este pode ser muito relevante para o presente. A filha de McGee admite
que mentiu no banco de testemunhas. Diz que com sua mentira jogou o pai na
prisão.
— Agora ela diz isso? Muito tarde. Eu a desmentiria no contrainterrogatório,
mas McGee não deixou. Cometi o erro de respeitar seu desejo.
— Que motivo haveria trás dele?
— Quem sabe? Amor paternal, talvez, ou o sentimento de que a criança já
tinha sido obrigada a sofrer muito. Dez anos de prisão é um preço alto para pagar
por delicadezas de sentimento.
— Está convencido então da inocência de McGee?
— Oh, sim. A confissão da filha afasta qualquer dúvida possível. — Stevens
extraiu um charuto com manchas esverdeadas de um tubo de vidro, cortou-lhe a
ponta e acendeu-o. — Segundo entendo, isto é um parecer altamente
confidencial.
— Pelo contrário, gostaria de vê-lo publicado. Podia ajudar a fazer McGee
aparecer. Ele está em fuga, como provavelmente sabe.
Stevens não confirmou nem desmentiu. Estava sentado como uma montanha
atrás de uma nuvem de fumaça azul.
— Eu gostaria de lhe fazer algumas perguntas.
— Sobre o quê?
— Do outro homem, para começar... o homem com quem Constance McGee
estava. Fiquei com a impressão de que ele desempenhou um certo papel em sua
defesa.
— Era a minha alternativa hipotética. — A face de Stevens enrugou-se num
sorriso pesaroso. — Mas o juiz não o deixava entrar, exceto nas minhas
alegações, a não ser que eu pusesse McGee no banco de testemunhas. O que não
parecia aconselhável. Esse outro homem era uma faca de dois gumes. Um
motivo para McGee, e um suspeito alternativo. Cometi o erro de pleitear uma
absolvição pura e simples.
— Não entendi bem.
— Não importa. É apenas história. — Acenou com a mão e a fumaça se
agitou em torno como estratos de tempo na memória de um velho.
— Quem era o outro homem?
— Ora, Sr. Archer, com certeza não acha que pode entrar aqui e me fazer
esvaziar o saco todo. Estou na profissão há quarenta anos.
— Por que aceitou defender McGee?
— Tom fazia alguns trabalhos nos meus barcos. Gostava muito dele.
— Não está interessado em inocentá-lo?
— Não à custa de outro inocente.
— Sabe quem é o outro homem?
— Sei quem é, se Tom falou a verdade. — Enquanto continuava solidamente
sentado em sua cadeira, ia se afastando de mim como um mágico através de
espelhos que se dissolviam. — Não divulgo segredos que me confiam, sir,
sepulto-os. Por isso me são confiados.
— Seria infernal se eles mandassem Tom de novo para San Quentin pelo
resto da vida ou se o metessem na câmara de gás.
— Sem dúvida seria. Mas suspeito que está tentando me aliciar mais para sua
própria causa do que para a de Tom.
— Poderia certamente nos ser útil.
— Quem são esses “nós”?
— A filha de McGee, Dolly, o marido dela, Alex Kincaid, Jerry Marks e eu
mesmo.
— E qual é esta causa?
— A solução de três crimes.
— Faz isso parecer muito simples e claro — disse ele. — A vida nunca é. A
vida deixa sempre pontas soltas e às vezes o melhor é deixá-las desfiando.
— É isso que a Sra. Deloney quer?
— Eu não estava falando em nome da Sra. Deloney. Não acho que ela queira
isso.
Cuspiu uma partícula de tabaco.
— Ela veio procurá-lo para pedir informações sobre o caso McGee?
— Sem comentários.
— Isso provavelmente quer dizer sim. É mais uma indicação de que o caso
McGee e a morte de Deloney estão ligados.
— Não vamos discutir isso — disse ele secamente. — Quanto à sua sugestão
para juntarmos forças, Jerry Marks teve a mesma ideia esta manhã. Como eu
disse, vou pensar nisso. Entretanto, quero que você e Jerry pensem numa coisa.
Tom McGee e a filha podem estar em lados contrários neste caso. Estavam sem
dúvida há dez anos.
— Ela era uma criança manipulada por adultos nessa época.
— Eu sei. — Ergueu-se, parecendo enorme em seu terno leve de lã escocesa.
— Foi muito interessante falar com você, mas já estou atrasado para um almoço.
— Apontou-me a porta com o charuto. — Vamos andando.
26
capítulo

Desci a rua principal rumo ao Pacific Hotel e perguntei pela Sra. Hoffman.
Ela acabava precisamente de partir sem deixar endereço. O mensageiro que
levou a mala dela disse que ela entrara num táxi com outra senhora de idade que
vestia casaco verde. Dei-lhe cinco dólares, o nome do meu motel e prometi
outros cinco dólares se descobrisse para onde elas tinham ido.
Passava das duas horas e meu instinto dizia que este dia era crucial. Eu me
sentia à margem do que estava acontecendo nas salas privativas do tribunal, na
galeria de tiro e no laboratório de testes balísticos, do lado de fora da porta
trancada da clínica. O tempo ia passando, deslizando por mim como o rio de
Heráclito, enquanto eu investigava as perambulações de senhoras idosas.
Voltei às cabines telefônicas atrás do vestíbulo do hotel e telefonei para o
consultório de Godwin. O médico estava com um paciente e só poderia atender
às dez para as três. Tentei Jerry Marks. A secretária respondeu que ele
continuava fora.
Liguei a cobrar para a Agência Walters em Reno. Arnie atendeu: — Bem na
hora certa, Lew. Acabo de saber o que queria do sujeito.
— Qual deles? Bradshaw ou Foley?
— Ambos, de certo modo. Queria saber por que Foley perdeu o emprego no
Solitaire Club. A resposta é que ele usava sua posição no caixa para descobrir
quanto valia Bradshaw.
— Como ele fazia isso?
— Sabe como os clubes investigam clientes quando eles abrem uma conta.
Indagam no banco onde têm conta, obtêm um número aproximado do saldo
bancário e fixam um limite para seu crédito de acordo com isso. “Três baixo”
significa saldo bancário de três algarismos menores e o limite pode ser de uns
duzentos dólares. “Quatro alto” podem ser uns sete ou oito mil dólares e “cinco
baixo” talvez vinte ou trinta mil. O que é por acaso a média de Bradshaw.
— Ele joga?
— Não. Aí é que está. Ele nunca abriu conta no Solitaire ou em qualquer
outro local que eu saiba, mas Foley mesmo assim pediu informação bancária. O
clube descobriu, mandou investigar Foley e o expulsou sem perda de tempo.
— Isso cheira a possível chantagem, Arnie.
— Mais do que possível — disse ele. — Foley admite ter uma certa ficha
nessa especialidade.
— O que mais ele admite?
— Mais nada, por enquanto. Afirma que obteve a informação de uma amiga.
— Helen Haggerty?
— Foley não diz. Está calado na esperança de conseguir um acordo.
— Vá em frente e faça um acordo com ele. Ele ficou mais machucado do que
eu. Estou disposto a retirar as acusações.
— Talvez não seja necessário, Lew.
— Faça um acordo com ele. Presumindo que houve chantagem, como
presumimos, a questão é saber o que torna Bradshaw vulnerável.
— Pode ser o divórcio — disse Arnie melifluamente. — Estava interessado
no que Bradshaw andava fazendo em Reno entre meados de julho e fins de
agosto. A resposta está nos registros do tribunal. Estabelecia residência para se
divorciar de uma mulher chamada Leticia O. Macready.
— Leticia o quê?
— Macready. — Soletrou o nome. — Não consegui mais informações sobre
a mulher. Segundo o advogado que tratou do divórcio, Bradshaw não sabia onde
ela mora. Sua última residência conhecida era em Boston. A notificação judicial
da ação foi devolvida com o carimbo “Já não mora neste endereço”.
— Bradshaw continua em Tahoe?
— Ele e a nova esposa partiram de manhã. Voltaram para Pacific Point. Isso
deixa o bebê em seus braços.
— Bebê não é propriamente o termo que convém a Bradshaw. Gostaria de
saber se a mãe sabe do primeiro casamento.
— Pode perguntar a ela.
Decidi tentar falar primeiro com Bradshaw. Fui buscar o carro no
estacionamento do tribunal e dirigi-me à faculdade. Os alunos na alameda e nos
corredores, particularmente as garotas, tinham expressões deprimidas. A ameaça
de morte e julgamento tinha invadido o campus. Eu me senti um pouco como
seu representante.
A secretária loura na antessala do diretor parecia tensa, como se só sua força
de vontade a mantivesse, e toda a instituição, em pé.
— O Dr. Bradshaw não está.
— Ainda não voltou do fim de semana?
— Claro que voltou. — Acrescentou num tom defensivo: — O Dr. Bradshaw
esteve aqui de manhã por mais de uma hora.
— Onde está agora?
— Não sei. Calculo que foi para casa.
— Parece que está preocupada com ele.
A resposta foi uma rajada de metralhadora de sua máquina de escrever. Fui
para o escritório de Laura Sutherland. A secretária disse que ela não viria hoje.
Tinha telefonado no meio da manhã dizendo que receava ter voltado com algum
problema. Fiz votos para que não fosse nada grave, como morte e julgamento.

Regressei a Foothill e fui para a casa de Bradshaw. O vento rumorejava nas


árvores. O nevoeiro dissipara-se completamente e o céu do início da tarde era de
um azul brilhante que fazia doer os olhos. As montanhas que se erguiam para ele
eram nítidas em todos os seus mais escarpados e atapetados detalhes.
Eu tinha mais consciência do que o normal dessas coisas, mas me sentia
separado delas. Devia ter uma certa simpatia por Roy Bradshaw e sua nova
esposa e receava ser ferido nessa simpatia. Passei pelo portão dele sem ver e tive
que dar a volta no primeiro cruzamento e retroceder para a casa de Bradshaw.
Fiquei de certo modo aliviado quando Maria, a criada sul-americana, me disse
que Bradshaw não estava.
A Sra. Bradshaw chamou da escada numa voz penetrante e quebrada: — É o
Sr. Archer? Quero falar com você.
Ela desceu a escada num robe acolchoado e chinelo de pano. O fim de
semana a tinha envelhecido. Parecia muito velha e macilenta.
— Meu filho não aparece em casa há três dias — queixou-se ela — e não
telefonou uma só vez. O que acha que lhe terá acontecido?
— Gostaria de discutir isso em particular.
Maria, que tinha escutado tudo, afastou-se com um gingar ofendido. A Sra.
Bradshaw levou-me para uma pequena sala de estar abrindo para um pátio ao
lado da casa. Seus móveis antigos e de estilos diferentes lembravam um pouco
os da sala da Sra. Deloney. Era dominada por um quadro a óleo em cima da
lareira, um retrato de corpo inteiro, quase de tamanho natural, de um belo
cavalheiro com grandes bigodes brancos e fraque. Seus olhos negros me
seguiram através da sala até a cadeira que a Sra. Bradshaw me indicou. Ela
sentou numa cadeira de balanço estofada, os pés pousados numa pequena
almofada bordada.
— Tenho sido uma velha egoísta — disse ela inesperadamente. — Pensei e
decidi afinal pagar suas despesas. Não gosto do que estão fazendo àquela garota.
— Provavelmente sabe mais disso do que eu.
— Provavelmente. Tenho alguns bons amigos nesta cidade. — Não
especificou quais.
— Agradeço a oferta — eu disse —, mas as minhas despesas estão sendo
cobertas. O marido de Dolly voltou.
— Realmente? Fico tão satisfeita. — Tentou se animar com essa ideia, mas
não conseguiu. — Estou muito preocupada com Roy.
— Eu também, Sra. Bradshaw. — Decidi contar o que sabia ou parte disso.
Ela tinha fatalmente que saber em breve do casamento, dos casamentos dele. —
Não tem que se preocupar com sua segurança física. Vi-o ontem à noite em Reno
e estava com boa saúde. E hoje já passou pela faculdade.
— Então a secretária dele mentiu. Não sei o que estão tentando fazer comigo
ou o que meu filho anda preparando. O que ele realmente estava fazendo em
Reno?
— Foi assistir a uma conferência, como ele disse. E também investigar um
suspeito da morte de Helen Haggerty.
— Ele devia gostar muito dela, afinal, para se dar a tanto incômodo.
— Ele tinha uma ligação com Miss Haggerty. Mas não acho que fosse uma
ligação amorosa.
— O que era então?
— Financeira. Ele dava dinheiro a ela e até conseguiu um lugar para ela na
faculdade, por intermédio de Laura Sutherland. Para pôr tudo em pratos limpos,
essa Haggerty fazia chantagem com seu filho. Ela talvez tenha dado a isso um
nome diferente. Mas se serviu de um vigarista, de quem se tornou amiga em
Reno, para se informar do saldo bancário de seu filho. Foi ele que Roy foi
procurar em Reno.
A Sra. Bradshaw não teve um ataque de nervos como eu receara que
acontecesse. Disse em tom grave: — Isso são fatos, Sr. Archer, ou está dando
largas a sua imaginação?
— Oxalá estivesse. Não estou.
— Mas como Roy pode ser objeto de chantagem? Ele leva uma vida
impecável, uma vida de dedicação. Sou mãe dele. Saberia se houvesse alguma
coisa.
— Isso é possível. Mas os padrões variam com as pessoas. Um administrador
em ascensão de uma faculdade precisa ser imaculado. Um casamento infeliz, por
exemplo, prejudicaria as probabilidades de que fosse reitor de uma universidade.
— Um casamento infeliz? Mas Roy nunca foi casado.
— Lamento, foi sim — eu disse. — O nome de Leticia Macready significa
alguma coisa?
— Não.
Ela estava mentindo. O nome arrastou uma rede de linhas através de seu
rosto, reduziu seus olhos a negros pontos brilhantes e a boca a uma bolsa com
um cordão atravessado. Ela conhecia o nome e o odiava, pensei; talvez ela até
tivesse medo de Leticia Macready.
— O nome tem que significar algo, Sra. Bradshaw. Essa Macready era sua
nora.
— Deve estar louco. Meu filho nunca foi casado.
Ela falou com tanta força e convicção que, por um momento, duvidei. Não
era provável que Arnie tivesse cometido um erro — raramente acontecia —, mas
era possível que houvesse dois Roy Bradshaw. Não, Arnie tinha falado com o
advogado de Bradshaw em Reno e devia ter feito uma identificação positiva.
— Uma pessoa precisa estar casada para se divorciar — eu disse. — Roy foi
a Reno se divorciar há poucas semanas. Esteve em Nevada estabelecendo
residência de meados de julho até fins de agosto.
— Agora eu sei que você é louco. Ele esteve na Europa esse tempo todo e
posso provar. — Ergueu-se sobre as pernas que rangiam relutantes, e dirigiu-se a
uma escrivaninha do século XVIII encostada a uma parede. Voltou com um
maço de cartas e postais nas mãos que tremiam. — Ele me enviou isto. Pode ver
com seus próprios olhos que ele esteve na Europa.
Olhei para os postais. Eram cerca de quinze, em ordem: a Torre de Londres
(com carimbo de Londres de 18 de julho), a Bodleian Library (Oxford, 21 de
julho), a Catedral de York (York, 25 de julho), a The Giant’s Causeway
(Londonderry, 3 de agosto), o Abbey Theatre (Dublin, 6 de agosto), o Land’s
End (St. Ives, 8 de agosto)1, o Arco do Triunfo (Paris, 12 de agosto) e assim por
diante, através da Suíça, da Itália e da Alemanha. Li o postal de Munique (uma
vista aos Jardins Ingleses, com carimbo de 25 de agosto):

Querida mamãe,
Ontem visitei o ninho de águia de Hitler em Berchtesgaden — um
belo cenário tornado sinistro pelas suas associações — e hoje, à guisa
de contraste, tomei um ônibus para Oberammergau. onde representam
o Auto da Paixão. Fiquei impressionado com a simplicidade quase
bíblica dos aldeãos. Todo este campo bávaro está recheado com as
mais espantosas igrejinhas. Como eu gostaria que pudesses vê-las
comigo. Lamento saber que sua companheira de verão está ficando
difícil. Bem, o verão não demora a acabar e darei as costas com gosto
aos esplendores da Europa para regressar a casa.
Com todo o meu amor.
Roy

Virei-me para a Sra. Bradshaw: — É a letra de seu filho?


— Sim. É inconfundível. Sei que ele escreveu esses postais e as cartas
também.
Brandiu várias cartas debaixo do meu nariz. Olhei para os carimbos:
Londres, 19 de julho; Dublin, 7 de agosto; Gênova, 15 de agosto; Roma, 20 de
agosto; Berlim, 27 de agosto; Amsterdam, 30 de agosto. Comecei a ler a última
(“Querida mamãe: é só um bilhete apressado que pode chegar depois de mim,
para dizer que adorei sua carta sobre os melros...”), mas a Sra. Bradshaw
arrancou-a da minha mão.
— Por favor, não leia as cartas. Meu filho e eu somos muito chegados e ele
não gostaria que eu mostrasse a correspondência dele a um estranho. — Juntou
todas as cartas e postais e fechou-as à chave na escrivaninha. — Creio que
provei minha afirmação de que Roy não podia estar em Nevada quando disse
que estava.
Apesar da segurança, sua sua voz tinha um tom interrogativo.
— Escreve cartas quando ele está fora? — perguntei.
— Escrevia. Quer dizer, ditava para Miss Qualquer-Coisa, exceto uma vez
ou duas em que a artrite me permitiu escrever. Eu tinha uma dama de companhia
no verão, Miss Wadley, era esse o nome dela. Uma dessas jovens completamente
egoístas...
Atalhei:
— Escreveu a ele uma carta sobre melros?
— Sim. Tivemos uma invasão de melros no mês passado. Era mais uma
historieta fantasista do que uma carta, a propósito de um empadão de melros.
— Para onde remeteu a carta?
— Para onde? Acho que para Roma, para o American Express de Roma. Roy
deixou um itinerário antes de partir.
— Ele teria estado em Roma no dia 20 de agosto. A carta dos melros foi
respondida de Amsterdam em 30 de agosto.
— Tem uma memória espantosa. Sr. Archer, mas não consigo entender o que
quer dizer.
— Só isso: há um lapso de pelo menos dez dias entre a recepção e a resposta
dessa carta... tempo suficiente para um cúmplice recolhê-la em Roma, enviá-la
via aérea para Roy em Reno, receber a resposta dele por via aérea e recambiá-la
para cá.
— Não acredito. — Mas estava quase acreditando. — Por que ele se daria a
tanto trabalho para enganar a mãe?
— Porque tinha vergonha do que estava realmente fazendo, divorciando-se
dessa Macready em Reno. E não queria que ninguém soubesse. Ele já tinha
estado na Europa antes?
— Evidentemente. Eu o levei lá pouco depois da guerra, quando ele estava
se formando em Harvard.
— E visitaram esses mesmos lugares?
— Sim. Visitamos. Não a Alemanha, mas a maioria dos outros.
— Então não teria sido difícil para ele falsificar as cartas. Quanto aos
postais, o cúmplice deve ter comprado na Europa e enviou pelo correio.
— Desagrada-me seu uso da palavra “cúmplice” em conexão com meu filho.
Não há, afinal de contas, nada de criminoso em toda essa... essa fraude. É uma
questão puramente pessoal.
— Espero que sim, Sra. Bradshaw.
Ela devia saber o que eu queria dizer. Pela sua face perpassaram os
movimentos do ato de deglutir o sofrimento. Virou-me as costas e dirigiu-se para
a janela. Vários melros de olhos brancos saltitavam nos ladrilhos do pátio. Não
me parece que ela os visse. Com um gesto brusco passava constantemente uma
das mãos pelos cabelos até deixá-los espetados como ninhos. Quando por fim se
virou, tinha os olhos semicerrados e a face parecia atormentada pela luz.
— Peço que guarde segredo de tudo isso, Sr. Archer.
Roy Bradshaw tinha usado na véspera linguagem muito semelhante sobre
seu casamento com Laura.
— Posso tentar — eu disse.
— Por favor, faça-o. Seria trágico se a carreira de Roy fosse arruinada por
uma leviandade juvenil. Afinal, foi só isso, sabe... uma leviandade juvenil. Isso
nunca teria acontecido se o pai dele estivesse vivo para lhe dar uma orientação
paternal. — Fez um gesto na direção do retrato em cima do fogão.
— Quando diz “isso” refere-se a essa Macready. Conhece-a?
— Conheço.
Como se esta confissão a tivesse deixado exausta, ela caiu na cadeira de
balanço, a cabeça apoiada no alto espaldar almofadado. A garganta flácida
parecia muito vulnerável.
— Miss Macready veio me procurar uma vez — disse ela. — Foi antes de
sairmos de Boston, durante a guerra. Queria dinheiro.
— Dinheiro de chantagem?
— Vinha a dar nisso. Pediu para financiar seu divórcio em Nevada. Ela tinha
seduzido Roy em Scollay Square e levou-o a se casar com ela. Estava numa
posição que permitia arruinar o futuro dele. Dei-lhe dois mil dólares. Ao que
parece gastou-os em proveito e nunca tratou do divórcio. — Suspirou. — Pobre
Roy.
— Ele sabia disso?
— Nunca contei. Achava que tendo dado dinheiro a ela a ameaça estaria
afastada. Eu queria tudo acabado e esquecido, sem recriminações entre mim e
meu filho. Ao que parece ela tem continuado a obcecá-lo esses anos todos.
— A obcecá-lo carnalmente?
— Quem sabe? Eu achava conhecer meu filho e todos os detalhes de sua
vida. Afinal vejo que não é assim.
— Que espécie de mulher é ela?
— Só a vi uma vez, quando ela veio a minha casa em Belmont. Fiquei com
uma impressão extremamente desagradável. Afirmava ser atriz desempregada,
mas se vestia e falava como integrante de uma profissão mais antiga. — Sua voz
se tornou áspera de ironia. — Suponho que tenha que admitir que essa ruiva era
bonita, de uma maneira ordinária. Mas não convinha de modo algum a Roy e,
naturalmente, ela sabia. Ele era um rapazola inocente, que mal acabava de
completar vinte anos. Ela era obviamente uma mulher experimentada.
— Que idade tinha?
— Era muito mais velha que Roy, tinha trinta anos pelo menos.
— Deve estar fazendo cinquenta anos.
— Pelo menos — disse ela.
— Viu-a alguma vez na Califórnia?
Ela meneou a cabeça com tanta força que a face balançou flácida.
— E Roy?
— Ele nunca me falou dela. Temos vivido juntos na presunção de que essa
Macready nunca existiu. E rogo-lhe que nunca diga a ele o que lhe contei. Isso
destruiria a confiança entre nós.
— Podem estar em causa considerações mais importantes.
— O que pode ser mais importante?
— A pele de seu filho.
Ela ficou sentada com os tornozelos cruzados, mais estupidificada que
impassível. Seu vasto corpo assexuado fazia-a parecer um Buda em ruínas. Disse
numa voz abafada: — Com certeza não pode suspeitar que meu filho tenha
cometido um assassinato.
Murmurei algo vago e calmante. Os olhos do homem do retrato seguiram-me
até a porta quando saí. Estava satisfeito pelo pai já não estar vivo, considerando
o que eu talvez tivesse de fazer com Roy.
________________
1 A Biblioteca Bodleiana é a principal biblioteca de pesquisa de Oxford; a
Calçada dos Gigantes é um promontório de 40.000 colunas basálticas na Irlanda
do Norte que, segundo a lenda, seriam os restos de uma ponte entre a Escócia e a
Irlanda; o Fim da Terra é uma península no sudoeste da Cornualha. (N. do T.)
27
capítulo

Eu não comia nada desde o café e no meu caminho para a cidade parei num
drive-in. Enquanto esperava o sanduíche, fiz outra ligação para Arnie Walters de
uma cabine externa.
Arnie tinha feito seu acordo com Judson Foley. Helen Haggerty pedira a ele
para se informar da situação financeira de Bradshaw. Foley não podia ou não
queria jurar que ela tivesse em mente fazer chantagem. Mas, pouco depois de ele
ter vendido a informação, ela se tornou subitamente rica pelos padrões de Foley.
— Quanto ela pagou a Foley?
— Cinquenta dólares, diz ele. Agora se sente ludibriado.
— Sempre — disse eu. — Ela contou a Foley o que sabia de Bradshaw capaz
de prejudicá-lo?
— Não. Teve aparentemente o maior cuidado em não fazer isso. Mas há um
tico de prova negativa: ela não mencionou a Foley que Bradshaw tinha sido
casado, ou que estava cuidando do divórcio. O que provavelmente significa que
essa informação valia dinheiro para ela.
— Provavelmente significa.
— Outro fato veio à tona, Lew. Essa Haggerty conhecia Bradshaw muitos
anos antes de eles se encontrarem em Reno.
— Onde e como?
— Foley diz que não sabe e eu acredito nele. Ofereci-lhe dinheiro por
qualquer informação que se revelasse verdadeira. Ele ficou desolado por não
poder fazer negócio comigo.

Encontrei Jerry Marks na biblioteca jurídica no segundo andar do tribunal.


Vários volumes encadernados estavam empilhados na mesa em frente a ele.
Tinha poeira nas mãos e uma mancha no nariz.
— Encontrou alguma coisa, Jerry?
— Cheguei a uma conclusão. O caso contra McGee era frágil. Baseava-se
essencialmente em dois fatos: maus tratos anteriores à mulher e o testemunho da
garotinha que alguns juízes teriam posto para fora do tribunal. Tenho me
concentrado no testemunho dela porque vou ter a chance de interrogá-la sob
efeito de pentotal.
— Quando?
— Hoje às oito, na clínica. O Dr. Godwin não está livre antes dessa hora.
— Estarei lá.
— Isso me agradaria, se fosse possível persuadir Godwin. Consegui a muito
custo ser convidado, e sou o advogado dela.
— Tenho a impressão de que Godwin procura descobrir algo. Há um
trabalho que preciso terminar até as oito. O trabalho é a bem dizer meu, mas
estamos na sua cidade e você pode fazê-lo mais depressa. Descubra se o álibi de
Roy Bradshaw para o assassinato de Helen Haggerty foi confirmado.
Jerry se aprumou na cadeira e usou o indicador para sujar um pouco mais o
nariz.
— E como vou conseguir isso?
— Bradshaw discursou num banquete de alunos na sexta-feira à noite. Quero
saber se ele se ausentou nos outros discursos ou se saiu a tempo de matá-la. Você
tem direito de conhecer todos os fatos que os homens do xerife e o patologista
tenham sobre a hora da morte.
— Farei tudo o que puder — disse ele, empurrando a cadeira para trás.
— Outra coisa, Jerry. Já saiu o resultado da balística?
— Consta que os testes continuam. Mas não se diz por quê. Você acha que
estão falsificando alguma coisa?
— Não, não acho. Os peritos não embarcam em falsificações.

Deixei-o reunindo suas notas e desci para o Pacific Hotel. O mensageiro


tinha achado o taxista da Sra. Deloney e me contou, em troca de mais cinco
dólares, que as duas velhotas tinham se instalado na Surf House. Comprei uma
camisa dessas que não precisam ser passadas, alguma roupa de baixo e meias e
voltei ao motel para tomar banho e mudar de roupa. Precisava disso antes de
enfrentar de novo a Sra. Deloney.
Quando eu estava saindo do chuveiro, alguém bateu na porta, com
pancadinhas leves como se a porta fosse frágil.
— Quem é?
— Madge Gerhardi. Deixe-me entrar.
— Assim que me vestir.
A coisa demorou um certo tempo. Tive que tirar os alfinetes da camisa nova,
e minhas mãos tremiam.
— Por favor, deixe-me entrar — disse a mulher. — Não quero ser vista.
Enfiei a calça e fui para a porta descalço. Ela passou na minha frente de
rompante como se trouxesse atrás dela um furacão. O vento despenteara seu
vistoso cabelo louro. Prendeu minhas mãos entre as suas, pegajosas.
— A polícia está vigiando minha casa. Não sei se me seguiram. Vim pela
praia.
— Sente-se — eu disse, puxando uma cadeira para ela. — Tenho certeza de
que a polícia não veio atrás de você. Eles procuram seu amigo Begley-McGee.
— Não lhe dê esse nome. Parece que está zombando dele. — Era uma
confissão de amor.
— Que nome quer que eu dê?
— Continuo a tratá-lo de Chuck. Um homem tem o direito de mudar de
nome, depois do que eles lhe fizeram e do que estão fazendo. Seja como for, é
um escritor e os escritores usam pseudônimos.
— Tudo bem, vou chamá-lo de Chuck. Mas não veio aqui discutir nomes.
Ela passou os dedos pela boca, empurrando o lábio inferior carnudo de um
lado para o outro. Não usava batom nem outra pintura qualquer e isso a fazia
parecer mais nova e inocente.
— Teve notícias de Chuck? — perguntei.
Ela fez que não quase imperceptivelmente, como se um movimento amplo
demais o pusesse em perigo.
— Onde ele está, Madge?
— Num lugar seguro. Só lhe digo onde se prometer não contar à polícia.
— Prometo.
Seus olhos claros se animaram.
— Ele quer falar com você.
— Ele disse do que se trata?
— Não falei diretamente com ele. Um amigo dele me telefonou do porto
transmitindo o recado.
— Concluo que nesse caso ele esteja nas imediações do porto.
Ela fez mais um dos seus acenos quase imperceptíveis.
— Já me contou uma parte — eu disse. — Pode muito bem me contar o
resto. Queria muito ver Chuck.
— E não vai levar a polícia até ele?
— Não, se puder evitar. Onde ele está, Madge?
Ela contraiu o rosto e deu o mergulho: — Está no iate do Sr. Stevens, o
Revenant.
— Como ele conseguiu subir a bordo?
— Não sei bem. Ele sabia que o Sr. Stevens tinha ido com o iate a Balboa
passar o fim de semana. Acho que ele foi lá e se entregou ao Sr. Stevens.

Deixei Madge no meu quarto. Ela não queria voltar a sair sozinha nem ser
vista lá fora comigo. Entrei pela avenida marginal que levava ao porto. Enquanto
alguns rebocadores e atuneiros se encontravam ao largo, a maior parte dos
barcos amarrados aos varadouros ou ancorados dentro do comprido braço do
cais era de iates e lanchas de alto-mar dos marinheiros de fim de semana.
Numa segunda-feira poucos estavam no mar, mas avistei algumas velas
brancas no horizonte. Rumavam para terra, como sonhos de regresso a casa.
Um homem no posto de vigia envidraçado do capitão do porto apontou-me o
iate de Stevens. Embora estivesse amarrado ao fundo do varadouro exterior era
fácil de localizar devido ao seu mastro muito alto. Dirigi-me para ele ao longo da
doca flutuante.
O Revenant era comprido e elegante, com uma câmara baixa e aerodinâmica
e uma ponte própria de um barco de corrida. As madeiras envernizadas eram
lisas e claras, os cobres brilhavam. O casco arfava ligeiramente na água
represada como um animal tremendo, ansioso por correr.
Entrei a bordo e bati na escotilha. Não recebi resposta, mas ela abriu quando
a puxei. Desci a pequena escada, passei por um posto de rádio de ondas curtas,
pela cozinha que cheirava a café requentado e entrei num camarote. O sol
entrava por uma vigia e se movia com o balanço como uma alma luminosa e
viva. Falei nessa direção: — McGee?
Produziu-se um movimento num beliche. Um rosto apareceu na altura dos
meus olhos. Uma cara apropriada para o tripulante de um barco chamado
Revenant1. McGee tinha raspado a barba e a parte inferior do rosto dele, agora a
descoberto, era de uma palidez fantasmagórica. Parecia mais velho e mais magro
e muito menos seguro de si.
— Veio sozinho?
— Claro que vim sozinho.
— Isso significa que você também não acha que eu seja culpado. — Estava
reduzido a essa pequenina esperança momentânea.
— Quem mais não acha?
— O Sr. Stevens.
— Isso foi ideia dele? — perguntei, com um gesto que nos abrangia.
— Ele não disse que eu não devia falar com você.
— Tudo bem, McGee, qual sua ideia?
Ele ficou imóvel me observando. Sua boca era percorrida por crispações
nervosas e nos olhos havia uma espécie de vivacidade suplicante.
— Não sei por onde começar. Há dez anos que vivo dos meus pensamentos...
há tanto tempo que até custo a crer que foi real. Sei o que me aconteceu mas não
sei por quê. Dez anos de penitenciária sem possibilidade de liberdade
condicional porque nunca quis admitir culpa. Como poderia? Fui falsamente
acusado. E agora se preparam para fazer tudo de novo.
Agarrou com força a borda de mogno envernizado do beliche.
— Não posso voltar para San Quentin, amigo. Cumpri dez anos e foi duro.
Não há pena mais dura do que a que se cumpre pelo erro de outra pessoa.
Caramba, como os dias se arrastavam. Não havia muito trabalho em que ocupar
o espírito e metade do tempo passava na cela pensando no que me aconteceu.
E concluiu:
— Eu me mato antes de mr mandarem de novo para lá.
Falava a sério e eu falei a sério também quando lhe disse em resposta: —
Isso não acontecerá, McGee. É uma promessa.
— Só desejava poder acreditar nisso. Perde-se o hábito de acreditar nos
outros. As pessoas não acreditam em nós, nós não acreditamos nelas.
— Quem matou sua mulher?
— Não sei.
— Quem acha que a matou?
— Prefiro não dizer.
— Você já sofreu muito e correu um grande risco para me fazer vir aqui e
depois falar que prefere não dizer. Voltemos ao princípio, McGee. Por que sua
mulher o deixou?
— Fui eu que a deixei. Estávamos separados há meses quando ela foi morta.
Eu nem sequer estava em Indian Springs nessa noite. Estava aqui em Point.
— Por que a deixou?
— Porque ela me pediu. Não nos entendíamos. Nunca mais nos entendemos
depois de eu voltar do serviço militar. Constance e a garota passaram os anos da
guerra na casa da irmã dela, e depois disso ela não conseguiu se adaptar a mim.
Admito que nessa época fui por uns tempos um cara bravio. Mas foi minha
cunhada Alice que provocou nosso desentendimento.
— Por quê?
— Ela achava que o casamento tinha sido um erro. Acho que queria ter
Constance só para ela. Eu me atravessei no caminho.
— Havia mais alguém que atravessado no caminho?
— Não, se Alice pudesse impedir.
Exprimi a minha pergunta mais explicitamente: — Havia outro homem na
vida de Constance?
— Sim. Havia. — Parecia envergonhado, como se a infidelidade tivesse sido
dele. — Pensei muito nisso durante esses anos todos e não vejo que interesse
possa haver em reabrir o caso. O rapaz não teve nada a ver com a morte dela,
tenho certeza disso. Ele a adorava. Nunca lhe faria nenhum mal.
— Como é que você sabe?
— Falei com ele sobre ela pouco antes da morte de Constance. A garota
contou o que se passava entre a mãe e esse rapaz.
— Refere-se a sua filha Dolly?
— Exatamente. Constance costumava encontrar o rapaz aos os sábados,
quando trazia Dolly para ser vista pelo médico. Num dos dias que a garota
passava comigo (de fato, o último em que estivemos juntos), ela falou desses
encontros. Ela tinha apenas uns onze ou doze anos e não compreendia todo o
significado, mas sabia que se passava alguma coisa suspeita.
“Todos os sábados à tarde Constance e o tal rapaz costumavam deixá-la num
cinema que levava dois longa-metragem e iam sozinhos a algum lugar,
provavelmente a um motel. Constance pedia à garota que a acobertasse e ela o
fez. O rapaz até lhe deu dinheiro para dizer à tia Alice que Constance ia com ela
ao cinema. Achei aquilo indecente. — McGee tentou reacender sua velha raiva,
mas tinha sofrido demais, e pensado demais. Sua cabeça pendeu como uma lua
fria acima da borda do beliche.
— Você podia dizer também o nome dele — eu disse. — Era Godwin?
— Nada disso. Era Roy Bradshaw. Ele dava aulas no ginásio. —
Acrescentou, com uma espécie de pesaroso orgulho: — Ele agora é diretor de
faculdade aqui.
Não seria por muito tempo, pensei; o céu de Bradshaw estava negro, e os
corvos preparavam-se para pousar.
— Bradshaw era um dos pacientes do Dr. Godwin — dizia McGee. — Foi lá
que Constance o encontrou, na sala de espera do Dr. Godwin. Penso que o
doutor de certo modo encorajou tudo entre eles.
— O que o faz pensar isso?
— O próprio Bradshaw contou que o doutor tinha dito que isso era bom para
o equilíbrio emocional de ambos. É engraçado, eu fui à casa de Bradshaw para
obrigá-lo a largar Constance nem que tivesse que dar uma surra nele. Mas
quando ele acabou de falar quase tinha me convencido de que ele e Constance
estavam certos e eu errado. Ainda hoje não sei quem estava certo e quem estava
errado. Sei que nunca dei a Constance verdadeira felicidade depois do primeiro
ano do nosso casamento. Talvez Bradshaw desse.
— Foi por isso que não o citou no julgamento?
— Foi uma das razões. De qualquer maneira, de que serviria remexer nessa
roupa suja? Só para me deixar pior. — Fez uma pausa. Um tom mais profundo
elevou-se de um estrato mais profundo da sua natureza: — Além disso, eu a
amava. Eu amava a Connie. Era a única maneira que tinha de provar que a
amava.
— Você sabia que Bradshaw era casado com outra mulher?
— Quando?
— Nos últimos vinte anos. Divorciou-se dela há poucas semanas.
McGee pareceu chocado. Tinha vivido de ilusões muito tempo e eu
ameaçava o que o sustentava. Recuou no beliche, desaparecendo quase da minha
vista.
— O nome dela era Leticia Macready... Leticia Macready Bradshaw. Ouviu
falar dela alguma vez?
— Não. Mas como podia ser casado? Ele morava com a mãe.
— Há muitas espécies de casamento — eu disse. — É possível que ele tenha
ficado sem ver a mulher durante anos, e também é possível que não. Ele pode tê-
la mantido aqui na cidade, sem que a mãe ou os amigos soubesse. Suspeito que
era este o caso, a julgar pelo trabalho que teve para ocultar o divórcio.
McGee disse numa voz confusa e trêmula: — Não vejo o que isso pode ter a
ver comigo.
— Pode ter a ver muito. Se essa Macready estava na cidade há dez anos, ela
tinha um motivo para matar sua mulher... um motivo tão forte quanto o seu.
Ele não queria pensar nessa mulher. Estava habituado demais a só pensar em
si mesmo.
— Eu não tinha motivo. Não seria capaz de tocar nela nem com um dedo.
— Mas tocou, uma vez ou duas.
Ele ficou calado. Tudo o que podia ver dele era o cabelo grisalho ondulado,
como uma cabeleira empoada, e os grandes olhos esquivos tentando ser francos.
— Bati nela umas duas vezes, confesso. Depois disso sofri os tormentos do
inferno. Você tem que compreender, eu costumava ser malvado quando ficava
bêbado. Foi por isso que a Connie me mandou embora, e não a censuro. Não a
censuro por nada. A culpa foi minha. — Aspirou uma grande golfada de ar, que
depois exalou lentamente.
Ofereci-lhe um cigarro que ele recusou. Acendi um para mim. A mancha
trêmula de sol estava subindo. Não demoraria a anoitecer.
— Então Bradshaw era casado — disse McGee. Tinha tido tempo de
absorver a informação. — E ele me disse que queria se casar com a Connie.
— Talvez quisesse. Isso reforçaria o motivo da mulher.
— Acha sinceramente que foi ela?
— Ela é uma suspeita principal. E Bradshaw também. Deve ter sido suspeito
para sua filha igualmente. Ela se matriculou na faculdade e aceitou um emprego
na casa dele para vigiá-lo. Foi ideia sua, McGee?
Ele meneou a cabeça.
— Não compreendo o papel dela em tudo isso — eu disse. — Mas ela
também não ajudou muito a explicar.
— Eu sei — disse ele. — Dolly disse muita mentira, desde o início. Quando
uma criança pequena mente, não se dá à mentira a mesma interpretação que
quando se trata de um adulto.
— É um homem indulgente — eu disse.
— Oh não, não sou. Fui procurá-la com cólera no coração naquele domingo
em que vi o retrato dela no jornal com o marido. Que direito ela tinha a um
casamento feliz, depois do que fez comigo? Era isso o que estava no meu
pensamento.
— E disse o que estava em seu pensamento?
— Claro que disse. Mas minha cólera não durou. Ela lembrava muito a mãe.
Era como voltar atrás vinte anos, aos tempos felizes quando nos casamos.
Passamos um ano realmente muito bom quando eu estava na marinha e Connie
ficou grávida da Dolly.
Sua mente continuou a se afastar das atuais preocupações. Eu não podia
censurá-lo por isso, mas o fiz voltar a elas: — Você fez sua filha passar um mau
pedaço naquele domingo, não fez?
— No início fiz, não nego. Perguntei por que tinha mentido no tribunal. Era
uma pergunta legítima, não era?
— Acho que sim. Qual foi a reação dela?
— Ficou histérica e disse que não tinha mentido, que tinha me visto com a
pistola e tudo e me ouviu discutir com a mãe. O que era falso, e eu lhe disse. Eu
nem sequer estava em Indian Springs naquela noite. Isso a esfriou bruscamente.
— E depois?
— Perguntei por que tinha mentido. — Lambeu os lábios e disse numa voz
abafada: — Perguntei se não tinha sido ela mesma que atirou na mãe, talvez por
acidente, considerando o fato de que Alice deixava o revólver por ali ao alcance
de qualquer um. Era uma pergunta terrível, mas tinha que ser feita. Ficou na
minha mente muito tempo.
— Desde o julgamento?
— Sim. E antes disso.
— Por isso não deixou Stevens contrainterrogá-la?
— Sim. Eu devia tê-lo deixado ir adiante. Acabei fazendo isso eu mesmo dez
anos mais tarde.
— Qual foi o resultado?
— Mais histeria. Ria e chorava ao mesmo tempo. Nunca senti tanta pena de
ninguém. Ela estava branca como um sudário e as lágrimas saltavam dos olhos
dela e corriam pelo rosto. Aquelas lágrimas pareciam tão puras...
— E o que ela disse?
— Disse que não atirou, naturalmente.
— E podia ter atirado? Sabia usar uma arma?
— Mais ou menos. Eu tinha dado umas aulas a ela, e Alice também. Não é
preciso muito treino para puxar um gatilho, especialmente por acidente.
— Continua achando que podia ter acontecido dessa maneira?
— Não sei. Era principalmente por isso que eu queria falar com você.
Estas palavras pareceram libertá-lo de um obscuro constrangimento. Saltou
do beliche superior e ficou em pé diante de mim na estreita passagem. Vestia
camisa de gola alta de marinheiro, calça azul de brim justa nas pernas e calçava
sapatos de lona com sola de borracha.
— Está em posição de falar com ela — disse ele. — Eu não estou. O Sr.
Stevens não quer. Mas você pode ir lá e perguntar o que aconteceu.
— É possível que ela não saiba.
— Compreendo. Ela ficou muito confusa naquele domingo. Só Deus sabe
que eu não queria isso. Limitei-me a fazer perguntas. Mas ela não parecia saber a
diferença entre o que aconteceu e o que ela disse no tribunal.
— A história que ela contou no tribunal... ela admitiu definitivamente que a
tinha inventado?
— Ela inventou com grande ajuda de Alice. Posso imaginar como as coisas
se passaram. “Foi isso que aconteceu, não foi?”, teria dito Alice. “Viu seu pai
com a pistola, não viu?” E em pouco tempo a garota tinha sua história pronta
para ser contada.
— Acha Alice capaz de organizar as coisas deliberadamente para
comprometê-lo?
— Não nesses termos. Para ela eu era culpado. Tudo o que ela estava
fazendo era garantir que eu seria punido pelo crime. Provavelmente meteu na
cabeça da garota o que ela devia dizer, sem pensar sequer que estava forjando
provas. Minha querida cunhada sempre tentou me destruir.
— Tentou destruir Connie também?
— Connie? Ela adorava a Connie. Alice era mais mãe que irmã dela. Havia
uma diferença de quatorze anos entre as duas.
— Você disse que Alice "queria Connie só para ela. Os sentimentos dela
teriam mudado se ela descobrisse o caso com Bradshaw?
— Não até esse ponto. Além disso, quem contaria?
— Sua filha podia ter contado. Se ela contou a você, provavelmente também
contou à tia.
McGee acenou com a cabeça.
— Você realmente não deixa escapar nada.
— Tem que ser. Este realmente é um caso profundo e ainda não vi a ponta.
Sabe se Alice morou em Boston?
— Acho que morou sempre aqui. É filha nativa. Eu também sou filho nativo
mas nunca me deram uma medalha por isso.
— Até as Filhas Nativas vão para Boston algumas vezes. Alice trabalhou no
teatro ou se casou com um homem chamado Macready ou pintou o cabelo de
ruivo?
— Nada dessas coisas se ajusta à Alice.
Lembrei do seu fantástico quarto cor-de-rosa e fiquei na dúvida.
— O se se ajusta mais... — ia dizer McGee, e depois se calou. Conservou o
silêncio por um momento numa espécie de contemplação interior. — Afinal vou
aceitar o cigarro que me ofereceu há pouco.
Dei-lhe um cigarro e acendi.
— O que você ia dizer?
— Nada. Estava pensando em voz alta.
— E em quem estava pensando?
— Em ninguém que conheça. Esqueça isso, okay?
— Vamos, McGee. Eu achava que você estava sendo franco comigo.
— Continuo a ter direito aos meus pensamentos. Foi o que me manteve vivo
na prisão.
— Você agora está fora da prisão. Não quer continuar fora?
— Não se outra pessoa tiver que ir para lá.
— Você é um trouxa — eu disse. — Quem está protegendo desta vez?
— Ninguém.
— Madge Gerhardi?
— Você deve estar maluco.
Não consegui arrancar mais nada dele. O longo e lento peso da prisão obriga
os homens a adquirir formas inusitadas. McGee tinha se tornado uma espécie de
santo torto.

________________
1 A palavra revenant é francesa e significa uma pessoa que retornou,
supostamente dos mortos; fantasma. (N. do T.)
28
capítulo

Ele estava prestes a levar outra volta do parafuso. Quando saí para a ponte vi
três homens que se aproximavam pela doca flutuante. Seus corpos, suas cabeças
cobertas se recortavam negras como ferro contra o poente.
Um deles me mostrou um distintivo de delegado e uma arma, que continuou
a me apontar enquanto os outros desciam. Ouvi McGee soltar um grito. Depois
vi-o emergir da cabine com algemas azuis nos pulsos e uma arma azul nas
costas. O único olhar que me lançou vinha carregado de medo e aversão.
Não me algemaram, mas me obrigaram a seguir para o tribunal com McGee
no compartimento gradeado do carro da polícia. Tentei falar com ele. Não
respondeu, nem sequer olhou para mim. Estava convencido de que eu o tinha
entregado... e talvez o tivesse, sem intenção.
Fiquei sentado com um guarda à vista do lado de fora da sala de
interrogatório enquanto o interrogavam em tons que subiam e desciam e
argumentavam e gritavam e ameaçavam e prometiam e recuavam e adulavam. O
xerife Crane apareceu, ar cansado mas importante. Parou diante de mim, com a
barriga ovante.
— Seu amigo está num grande problema.
— Ele passou os últimos dez anos num grande problema. Você deve saber,
visto que ajudou a cozinhá-lo.
As veias nas bochechas dele se acenderam como redinhas infravermelhas.
Inclinou-se para mim, cuspindo as palavras que cheiravam a martini: — Eu
podia metê-lo na cadeia pelo acaba de dizer. Você sabe para onde o seu amigo
vai? Desta vez vai diretinho para a câmara de gás.
— Não seria o primeiro inocente a morrer lá.
— Inocente? McGee é um maníaco homicida e temos provas disso. Meus
peritos trabalharam o dia inteiro para consegui-las. A bala no cadáver da
Haggerty veio da mesma arma que disparou a bala encontrada no corpo da
mulher de McGee... a mesma arma que ele roubou de Alice Jenks em Indian
Springs.
Com a minha provocação eu tinha conseguido levar o xerife a cometer uma
indiscrição. Tentei de novo.
— Você não tem nenhuma prova de que ele a roubou. Você não tem
nenhuma prova de que ele a tenha disparado em qualquer dos crimes. Onde ele
guardou a arma nos últimos dez anos?
— Guardou-a em qualquer lugar, talvez no barco de Stevens. Ou talvez um
cúmplice tenha guardado para ele.
— Depois escondeu-a na cama da filha para comprometê-la?
— De um homem como ele não se pode esperar outra coisa.
— Besteira!
— Você não me fale assim! — Ameaçou-me com a bala de canhão da
barriga.
— Não fale assim com o xerife — disse o guarda.
— Não conheço nenhuma lei contra o uso da palavra “besteira”. E, por falar
nisso, não estava infringindo nenhum artigo do código californiano quando fui
ao iate falar com McGee. Estou cooperando com um advogado local nesta
investigação e tenho o direito de obter minha informação onde puder e de manter
sigilo.
— Como sabia que ele estava lá?
— Obtive uma indicação.
— De Stevens?
— Não foi de Stevens. Você e eu podíamos trocar informações, xerife. Como
sabia que ele estava ali?
— Não faço acordos com suspeitos.
— Sou suspeito de quê? Do uso ilegal da palavra “besteira”?
— Não é assim tão engraçado. Você foi encontrado com McGee. Tenho o
direito de detê-lo.
— E eu tenho o direito de chamar um advogado. Tente ignorar meus direitos
e verá o que lhe acontece. Tenho amigos em Sacramento.
Entre eles não se incluía o promotor de justiça ou qualquer pessoa próxima a
ele, mas gostei do som da frase. O xerife Crane não gostou. Era meio político e
como a maioria dos de sua laia era inseguro. Depois de um momento de reflexão
disse: — Pode fazer sua ligação.
O xerife foi para a sala de interrogatório — surpreendi um vislumbre de
McGee curvado, rosto cinza sob a luz — e juntou sua voz à difícil harmonia lá
de dentro. Meu guarda me levou a um pequeno quarto anexo e me deixou
sozinho com um telefone. Liguei para Jerry Marks. Ele estava prestes a sair para
o encontro com o Dr. Godwin e Dolly, mas disse que viria imediatamente ao
tribunal e que traria Gil Stevens com ele, se pudesse encontrá-lo.
Chegaram juntos em menos de quinze minutos. Stevens disparou para mim
um olhar encoberto e complexo que parecia significar que oficialmente não nos
conhecíamos. Eu suspeitava que o velho advogado tinha aconselhado McGee a
falar comigo, e provavelmente preparara a entrevista. Na minha posição podia
usar os fatos relativos a McGee em termos que não lhe eram permitidos.
Com brandas ameaças de recorrer ao habeas corpus, Jerry me soltou. Stevens
ficou lá com o xerife e um promotor. Ia precisar de tempo para soltar o cliente.
Uma lua que parecia um fruto caído levantava-se acima dos telhados. Era
enorme e ligeiramente esborrachada.
— Linda — disse Jerry no estacionamento.
— Para mim parece uma laranja podre.
— A feiura está nos olhos de quem vê. Aprendi isso no colo de minha mãe e
em outras espeluncas plebeias, como dizia um conhecido estadista. — Jerry
sempre se sentia bem quando tentava algo que tinha aprendido na faculdade e
dava certo. Foi rapidamente para o carro, com passos vivos, e pôs o motor para
funcionar.
— Já estamos atrasados para nosso encontro com Godwin.
— Teve tempo de verificar o álibi de Bradshaw?
— Tive. Parece inexpugnável. — Deu-me os detalhes enquanto
atravessávamos a cidade. — Pela perda de temperatura, pela velocidade de
coagulação do sangue etc., o legista situa a hora da morte de Miss Haggerty não
depois das oito e meia. Das sete até umas nove e meia, o Dr. Bradshaw ficou
sentado ou em pé falando diante de mais de cem testemunhas. Falei com três
delas, três alunos apanhados mais ou menos ao acaso, e todos concordaram que
ele não deixou a mesa nesse período. O que o deixa fora.
— Aparentemente deixa.
— Você parece desapontado, Lew.
— Em parte estou desapontado e em parte aliviado. Não desgosto do
Bradshaw. Mas estava quase certo de que era o nosso homem.
Nos minutos que restaram até chegarmos à clínica contei-lhe resumidamente
o que soube de McGee e do xerife. Jerry assobiou, mas não fez comentários.
O Dr. Godwin abriu-nos a porta. Vestia jaleco branco imaculado e tinha uma
expressão ofendida.
— Está atrasado, Sr. Marks. Eu ia cancelar tudo.
— Tivemos uma pequena emergência. Thomas McGee foi preso esta noite
por volta das sete horas. O Sr. Archer estava com ele e foi detido também.
Godwin virou-se para mim:
— Você estava com McGee?
— Ele queria falar comigo. Estou ansioso para comparar a história dele com
a da filha.
— Lamento, você não foi... er... cooptado para esta sessão — disse Godwin,
com certo embaraço. — Como já tinha assinalado, não tem imunidade
profissional.
— Tenho que agir sob instruções do Sr. Marks. É o caso aqui.
— O Sr. Archer está certo — disse Jerry.
Godwin nos levou relutantemente para dentro. Éramos estranhos, intrusos
em seu reino de sombras. Eu tinha perdido parte da minha confiança em seu
benevolente despotismo, mas por ora guardava isso para mim.
Na sala de exames, Dolly nos esperava. Estava sentada numa mesa
almofadada, em roupa hospitalar sem mangas. Alex estava em pé diante dela,
segurando-lhe as mãos. Seus olhos famintos e cheios de adoração não se
desviavam da face dela, como se ela fosse a sacerdotisa ou a deusa de um
estranho culto de um só devoto. O cabelo dela estava bem penteado e brilhante.
A face composta. Só os olhos mostravam nervosismo e concentração. Passaram
por mim sem dar sinal de reconhecimento.
Godwin tocou o ombro dela.
— Está pronta, Dolly?
— Acho que sim.
Ela se deitou de costas. Alex segurava sua mão.
— Pode ficar se quiser, Sr. Kincaid. Mas seria ser mais fácil se não ficasse.
— Para mim não — disse a garota. — Sinto-me mais segura quando ele está
comigo. Quero que Alex saiba tudo de... tudo.
— Sim. Quero ficar.
Godwin encheu uma agulha hipodérmica, inseriu-a no braço de Dolly e
fixou-a com adesivo à pele branca. Disse-lhe para contar de cem para trás. Aos
noventa e seis a tensão abandonou o corpo dela e uma luz interior abandonou seu
rosto. Voltou a fluir numa forma difusa quando o médico falou: — Está me
ouvindo, Dolly?
— Estou — murmurou ela.
— Fale mais alto. Não a ouço bem.
— Estou ouvindo — repetiu ela. A voz era vagamente indistinta.
— Quem sou eu?
— Dr. Godwin.
— Lembra-se de que quando era pequena vinha me visitar no meu
consultório?
— Lembro.
— Quem costumava trazê-la?
— A mamãe. Ela me trazia no carro da tia Alice.
— Onde você morava nessa época?
— Em Indian Springs, na casa da tia Alice.
— E a mamãe morava lá também?
— A mamãe morava lá também.
Estava afogueada e falando como uma criança embriagada. O doutor virou-
se para Jerry Marks fazendo com a mão o gesto de entrega da paciente. Os olhos
negros de Jerry estavam pesarosos.
— Lembra-se de uma certa noite — perguntou — em que a sua mamãe foi
morta?
— Lembro-me. Quem é você?
— Sou Jerry Marks, seu advogado. Pode falar à vontade comigo.
— Pode falar à vontade — disse Alex.
A garota olhou sonolentamente para Jerry: — O que quer que eu lhe diga?
— Apenas a verdade. Não interessa o que eu quero ou o que outra pessoa
qualquer possa querer. Diga apenas o que lembra.
— Tentarei.
— Ouviu o tiro?
— Ouvi. — Contraiu a face como se ouvisse outra vez. — Estou... o barulho
do tiro me assustou.
— Viu alguém?
— Não desci logo a escada. Estava com medo.
— Viu alguém pela janela?
— Não. Ouvi um carro se afastando. Antes disso ouvia-a correr.
— Ouviu quem correr? — disse Jerry.
— Pensei que era a tia Alice, quando ela estava falando com a mamãe na
porta. Mas não podia ser a tia Alice. Ela nunca daria um tiro na mamãe. Além
disso a arma tinha sumido lá de casa.
— Como sabe?
— Ela me acusou de ter tirado do quarto dela. Até me bateu com uma escova
do cabelo por ter roubado.
— Quando foi que ela bateu em você?
— No domingo à noite, quando voltou da igreja. mamãe disse que ela não
tinha o direito de me bater. E a tia Alice perguntou a mamãe se ela tinha tirado a
arma.
— Foi ela?
— Ela não disse... pelo menos na minha presença. Me mandaram para a
cama.
— Foi você que tirou a arma?
— Não. Nunca toquei nela. Tinha medo de mexer nela.
— Por quê?
— Tinha medo da tia Alice.
Estava rosada e suando. Tentou se erguer nos cotovelos. O doutor a ajudou a
se deitar de novo e fez um ajuste na agulha. A garota voltou a descontrair e Jerry
perguntou: — Era a tia Alice que estava na porta falando com sua mamãe?
— No início pensei que fosse. Parecia ela. Tinha uma voz alta de meter
medo. Mas não podia ter sido a tia Alice.
— Por que não?
— Porque não era possível.
Virou a cabeça numa atitude de quem está escutando. Uma madeixa de
cabelos caiu nos olhos semicerrados. Alex afastou-a com suavidade. Ela disse:
— A mulher na porta disse que tinha que ser verdade o que diziam da mamãe e
do Sr. Bradshaw. Disse que soube pelo papai e que o papai soube por mim. E
então ela deu um tiro na minha mamãe e fugiu.
Um grande silêncio caiu no quarto, e só se ouvia a pesada respiração da
garota. Uma lágrima tão lenta quanto uma gota de mel soltou-se de um olho
dela. Escorreu para a têmpora. Alex enxugou com um lenço. Jerry inclinou-se
sobre ela do outro lado da mesa.
— Por que disse que foi seu pai?
— Porque a tia Alice queria. Ela não disse isso claramente, mas eu entendi.
E eu tinha muito medo que ela pensasse que fui eu. Ela me bateu por ter tirado a
arma, e eu não tirei. Eu disse que tinha sido o papai. Ela me obrigou a repetir
isso vezes sem conta.
Desta vez as lágrimas não ficaram em uma só. Lágrimas da garota que ela
fora, amedrontada e mentindo, e lágrimas da mulher em que estava
dolorosamente se tornando. Alex enxugava suas lágrimas e parecia ele mesmo
prestes a chorar.
— Por que — perguntei — você disse que matou sua mãe?
— Quem é você?
— Sou Lew Archer, amigo de Alex.
— É um amigo — confirmou Alex.
Ela soergueu a cabeça e deixou-a cair de novo.
— Esqueci o que perguntou.
— Por que disse que tinha matado sua mãe?
— Porque foi tudo minha culpa. Eu contei ao papai sobre ela e o Sr.
Bradshaw, e foi isso que originou tudo.
— Como sabe?
— A mulher na porta disse. Ela veio matar a mamãe por causa do que o
papai lhe contou.
— Sabe quem ela era?
— Não.
— Era sua tia Alice?
— Não.
— Era sua conhecida?
— Não.
— Sua mãe a conhecia?
— Não sei. Talvez conhecesse.
— Sua mãe falava como se a conhecesse?
— Tratou-a pelo nome.
— Que nome?
— Tish. Chamou-a de Tish. Mas posso garantir que a mamãe não gostava
dela. E tinha medo dela, também.
— Por que nunca contou isso a ninguém?
— Porque foi tudo por minha culpa.
— Não foi — disse Alex. — Era apenas uma criança. Não era responsável
pelo que os adultos faziam.
Godwin levou o indicador aos lábios para fazê-lo se calar. Dolly rolava a
cabeça de um lado para o outro: — Foi tudo minha culpa.
— Isto já durou demais — murmurou Godwin para Jerry. — Ela fez
progressos. Quero ter chance de consolidá-los.
— Mas nem sequer chegamos ao caso Haggerty.
— Então abreviem. — Godwin dirigiu-se à garota: — Dolly, está disposta a
falar no que aconteceu na sexta-feira à noite?
— Não de encontrar... — Contraiu a face até desaparecerem seus olhos.
— Não precisamos entrar nesses detalhes — disse Jerry. — Mas o que você
estava fazendo lá?
— Queria falar com Helen. Muitas vezes eu subia a colina para falar com
ela. Éramos amigas.
— E como foi que se tornaram amigas?
— Consegui conquistar as boas graças dela — respondeu ela, com estranha
sinceridade. — A princípio pensei que ela podia ser a mulher... a mulher que
matou minha mãe. Corria o boato no campus de que ela tinha um caso com o
diretor Bradshaw.
— E você se introduziu no campus para descobrir essa mulher?
— Sim. Mas não tinha sido Helen. Descobri que ela era nova na cidade e ela
mesma me disse que não havia nada entre ela e Bradshaw. Eu não tinha o direito
de arrastá-la para isso.
— E como foi que a arrastou para isso?
— Contei tudo sobre minha mãe e Bradshaw e da mulher na porta. Helen foi
morta porque sabia demais.
— Isso é possível — eu disse —, mas não foi por você que ela ficou
sabendo.
— Foi sim! Eu contei tudo.
Godwin puxou-me pela manga.
— Não discuta com ela. Ela está se recompondo depressa, mas sua mente
ainda trabalha abaixo do nível da consciência.
— Helen fez perguntas? — eu disse para a garota.
— Sim. Fez perguntas.
— Portanto não lhe impôs sua história...
— Não. Ela queria saber.
— O que ela queria saber?
— Tudo sobre o Dr. Bradshaw e minha mãe.
— Ela disse por quê?
— Ela queria me ajudar na minha cruzada. Lancei-me numa espécie de
cruzada depois de ter falado com o papai no hotel. Uma cruzada infantil. — Sua
risadinha virou um soluço antes de sair da garganta. — A única coisa que
consegui foi provocar a morte da minha boa amiga Helen. E quando encontrei o
corpo dela...
Seus olhos se arregalaram. Depois a vos escancarou. Retesou-se toda como
se imitasse a rigidez da morte. Ficou assim uns quinze ou vinte segundos.
— Foi como encontrar a mamãe outra vez — disse ela numa vozinha, e
acordou completamente. — Foi tudo bem?
— Tudo bem — disse Alex.
Ajudou-a a sentar. Ela se apoiou nele, os cabelos cobrindo o ombro do rapaz.
Minutos depois, sempre apoiada nele, atravessou o corredor a caminho do
quarto. Caminhavam como marido e mulher.
Godwin fechou a porta.
— Espero, senhores, que tenham conseguido o que desejavam — disse ele,
com certa antipatia.
— Ela falou muito livremente — disse Jerry. A experiência o tinha deixado
exausto.
— Não por acaso. Venho preparando isso há três dias. O pentotal, como já
tinha dito antes, não é garantia de verdade. Se o paciente está decidido a mentir,
a droga não pode impedir.
— Está insinuando que ela não disse a verdade?
— Não. Creio que disse, o que ela conhece da verdade. Meu problema agora
é alargar sua consciência e torná-la plenamente consciente. E agora se me dão
licença...
— Um minuto — atalhei. — Pode me dar um minuto, doutor? Gastei três
dias e um monte de dinheiro de Kincaid para descobrir fatos que você já sabia.
— Ah, sim? — disse ele friamente.
— Sim. Podia ter me poupado muito trabalho contando o caso de Bradshaw
com Constance McGee.
— Receio não ser meu dever poupar trabalho a detetives. Há neste caso uma
questão ética que provavelmente não compreende. O Sr. Marks compreenderia.
— Não vejo aonde quer chegar — disse Jerry, mas se meteu entre nós como
se receasse um conflito. Tocou meu ombro. — Vamos embora, Lew, deixemos o
doutor, que deve ter mais o que fazer. Ele cooperou muito, e você sabe.
— Com quem? Com Bradshaw?
— Meu primeiro dever é com meus pacientes — disse Godwin,
empalidecendo.
— Mesmo quando assassinam pessoas?
— Mesmo nesse caso. Mas eu conheço Bradshaw intimamente e posso lhe
assegurar que é incapaz de matar seja quem for. E com certeza não matou
Constance McGee. Amava-a apaixonadamente.
— A paixão pode dar para os dois lados.
— Ele não a matou.
— Há dois dias afirmou que tinha sido McGee. Pode estar enganado, doutor.
— Eu sei, mas não sobre Roy Bradshaw. Este homem tem vivido uma
existência trágica.
— Conte-me isso.
— Ele é que deve contar. Não sou policial, Sr. Archer. Sou médico.
— E a mulher de quem ele se divorciou recentemente, Tish ou Leticia?
Conhece-a?
Ele olhou para mim sem falar. Havia em seus olhos uma expressão triste, de
quem conhecia.
— Tem que perguntar a Roy quem é ela — disse finalmente.
29
capítulo

A caminho do tribunal onde ia interrogar McGee, Jerry me deixou no porto,


onde ia pegar meu carro. A lua estava agora mais alta e tinha recuperado a forma
e a cor. Sua luz convertia os iates amarrados numa flotilha fantasmagórica de
holandeses voadores.
Voltei ao motel para falar com Madge Gerhardi. Ela tinha evaporado com o
resto do uísque que havia ficado na minha garrafa. Sentei-me na beira da cama e
tentei seu número, mas não obtive resposta.
Liguei para a casa de Bradshaw. A velha Sr. Bradshaw parecia estar de
plantão permanente ao telefone. Atendeu ao primeiro toque e perguntou em voz
trêmula: — Quem é, por favor?
— É só Archer. Roy ainda não chegou?
— Não, e estou preocupada com ele, profundamente preocupada. Não o vejo
nem tenho notícias dele desde sábado de manhã. Tenho ligado para os amigos
dele...
— Eu não faria isso, Sra. Bradshaw.
— Tenho que fazer alguma coisa.
— Há ocasiões em que é melhor não fazer nada. Fique sossegada e espere.
— Não posso. Está querendo dizer que aconteceu alguma coisa de
terrivelmente ruim, não está?
— Acho que não o ignora.
— Relacionado a essa horrível mulher... essa Macready?
— Sim. Temos que descobrir onde ela está. Estou perfeitamente certo de que
seu filho pode me contar, mas ele se tornou inacessível. Tem certeza de que
nunca mais viu essa mulher desde Boston?
— Estou absolutamente certa. Vi-a apenas uma vez, quando veio pedir
dinheiro.
— Pode descrevê-la?
— Creio que já o fiz.
— Com mais detalhes, por favor. É muito importante.
Ela fez uma pausa para pensar. Eu a ouvia respirar através da linha, uma
vaga rouquidão rítmica.
— Bem, ela era um mulherão, mais alta que eu, ruiva. Usava o cabelo curto.
Tinha uma bonita figura, um tanto exuberante, e boas feições também... uma
espécie de beleza descarada. E tinha olhos verdes, olhos verdes tenebrosos de
que eu não gostei. Usava muita pintura, mais apropriada para o palco do que
para a rua, e se vestia espalhafatosamente.
— O que ela vestia?
— Isso pouco interesse pode ter, vinte anos depois. Mas usava um casaco de
pele falsa de leopardo pelo que me lembro, e embaixo disso alguma coisa
listrada. Meias transparentes. Saltos ridiculamente altos. Muitas joias de fantasia.
— Como ela falava?
— Como uma mulher da rua. Como uma mulher gananciosa, devassa. — A
indignação moral da sua voz pouco me surpreendeu. Ela quase tinha perdido
Roy por causa dessa mulher, e ainda podia perdê-lo.
— Se tornasse a vê-la poderia reconhecê-la, com roupas diferentes, com o
cabelo talvez de cor diferente?
— Acho que sim, se tivesse uma chance de examiná-la.
— Terá, quando a encontrarmos.
Eu estava pensando que a cor dos olhos de uma mulher era mais difícil de
mudar que a cor do cabelo. A única mulher de olhos verdes relacionada ao caso
era Laura Sutherland. Ela tinha uma boa figura e bonitas feições, mas nada que
se parecesse à descrição da tal Macready. Mesmo assim ela podia ter mudado.
Eu tinha visto outras mulheres mudarem a ponto de ficarem irreconhecíveis num
abrir e fechar de olhos.
— Conhece Laura Sutherland, Sra. Bradshaw?
— Conheço-a superficialmente.
— Ela se parece com essa Macready?
— Por que pergunta isso? — disse ela, começando a elevar a voz. —
Suspeita de Laura?
— Eu não iria tão longe. Mas não respondeu...
— Ela não pode de modo algum ser a mesma mulher. É de um tipo
inteiramente diferente.
— E quanto às caraterísticas básicas?
— Suponho que haja uma certa semelhança — disse ela dubitativamente. —
Roy sempre se sentiu atraído por mulheres obviamente mamudas.
E obviamente com jeito de mãe, pensei.
— Tenho que fazer outra pergunta, de caráter mais pessoal.
— Sim? — Ela parecia se contrair para receber o golpe.
— Suponho que saiba que Roy foi paciente do Dr. Godwin.
— Paciente do Dr. Godwin? Não acredito. Ele não faria isso sem eu saber. —
A despeito de todo o conhecimento da natureza do filho, ela parecia conhecer
muito pouco sobre ele.
— O Dr. Godwin diz que sim, e ao que parece há alguns anos.
— Deve haver um engano. Roy não tem nenhum problema psicológico. —
Produziu-se um vibrante silêncio. — Ou tem?
— Eu ia perguntar, lamento ter levantado a questão. Tenha calma, Sra.
Bradshaw.
— Como, com meu garoto em perigo?
Ela queria me manter ao telefone esguichando palavras de consolo em seus
velhos ouvidos assustados, mas eu dei boa noite e desliguei. Uma suspeita tinha
sido eliminada: Madge Gerhardi. A descrição não batia nem de longe com ela.
Laura Sutherland continuava no rol.
Não fazia sentido, evidentemente, que Bradshaw tivesse se divorciado para
voltar a se casar com ela imediatamente. Mas eu só tinha a palavra de Bradshaw
sobre seu recente casamento. E começava a descobrir gradualmente que a
palavra de Bradshaw esticava como elástico e arrebentava com a mesma
facilidade. Procurei o endereço de Laura — ela morava em College Heights — e
estava copiando no meu caderno quando o telefone tocou.
Era Jerry Marks. McGee negava ter contado a Tish ou outra pessoa qualquer
o que havia entre Bradshaw e a mulher. Só tinha falado com Bradshaw.
— O próprio Bradshaw pode ter contado à mulher — eu disse. — Ou ela
surpreendeu a conversa de McGee.
— É possível, mas pouco provável. McGee diz que a conversa foi na casa de
Bradshaw.
— Ele pode ter levado a mulher lá na ausência da mãe.
— Você acha que ela mora por essas bandas?
— No sul da Califórnia, pelo menos. Creio que Bradshaw tem levado uma
vida intermitente com ela e que ela é responsável pela morte da mulher de
McGee e de Helen Haggerty. Acabo de obter uma descrição melhorada dessa
Macready pela boca da mãe de Bradshaw. É melhor passá-la à polícia. Tem onde
escrever?
— Sim. Estou sentado na mesa do xerife.
Repeti a descrição de Leticia Macready, mas não disse nada sobre Laura
Sutherland. Queria falar com ela pessoalmente.
College Heights era um bairro isolado que se erguia em terrenos em frente ao
campus, no lado mais distante da cidade. Era uma miscelânea de repúblicas de
estuantes e prédios entremeados de lotes vazios com letreiros de “À VENDA”. Um
rapaz com uma guitarra na porta de uma república cantava que esta terra
pertence a você e a mim.
Laura vivia num dos melhores apartamentos, um apartamento-jardim em
torno de um pátio com piscina, onde um homem em mangas de camisa que se
dava tapas para matar mosquitos indicou-me a porta de Laura e disse com certa
complacência que era o dono do complexo.
— Tem alguém com ela?
— Não creio. Ela teve visita, mas ele já saiu.
— Quem era?
O homem me olhou.
— Isso só diz respeito a ela.
— Calculo que tenha sido o Dr. Bradshaw, da faculdade.
— Se sabia, por que perguntou?
Encaminhei-me para o fundo do pátio e bati na porta de Laura. Ela abriu,
mantendo a corrente. Tinha perdido grande parte da beleza rosada. Vestia saia e
blusa escuros como se estivesse de luto.
— O que quer? É tarde.
— Tarde demais para uma conversa, Sra. Bradshaw?
— Não sou a Sra. Bradshaw — disse ela, sem muita convicção. — Não sou
casada.
— Ontem à noite Roy disse que era. Qual dos dois está mentindo?
— Por favor, meu senhorio está ali. — Soltou a corrente e recuou, saindo da
luz que se alargava. — Entre, se tem que ser.
Fechou a porta depois de eu entrar e tornou a pôr a corrente. Eu olhava mais
para ela do que para o quarto, mas dava a impressão de um lugar decorado com
gosto, onde lâmpadas protegidas por quebra-luzes ardiam calmamente sobre
superfícies de madeira e cerâmica. Eu procurava nela vestígios de um passado
completamente diferente do presente. Não eram visíveis, nem linhas cruéis nem
sinais de devassidão. Mas não havia sossego de espírito dentro dela. Observava-
me como se eu fosse um assaltante.
— Do que está com medo?
— Não estou com medo — disse ela numa voz aterrada. Tentava controlá-lo
com a mão na garganta. — Estou chateada por entrar fazer observações pessoais.
— Convidou-me a entrar, mais ou menos.
— Só porque estava sendo indiscreto.
— Tratei-a pelo nome de casada. Qual sua objeção a isso?
— Não faço objeção — disse ela, com um sorriso descorado. — Sinto-me
orgulhosa disso. Mas meu marido e eu mantemos segredo.
— Um segredo de Leticia Macready?
Ela não mostrou reação ao nome. Eu já tinha afastado a ideia de que fosse
ela. Por mais conservados que o corpo e a pele pudessem estar, era claramente
nova demais. Quando Bradshaw se casou com Leticia, Laura seria quanto muito
adolescente.
— Leticia o quê? — perguntou ela.
— Leticia Macready. Também conhecida por Tish.
— Não faço ideia de quem seja.
— Posso explicar se realmente quer saber. Posso me sentar?
— Por favor — disse, sem muito calor. Eu era o mensageiro das más
notícias, uma espécie que antigamente costumavam matar.
Sentei-me num banco fofo de couro, com as costas contra a parede. Ela ficou
em pé.
— Ama Roy Bradshaw, não é?
— Não teria me casado com ele se não amasse.
— Quando foi precisamente que se casou com ele?
— Sábado passado fez duas semanas, 10 de setembro. — Uma leve
coloração voltou ao rosto dela ao lembrar desse dia. — Ele tinha acabado de
voltar da viagem à Europa. E então decidimos de súbito ir a Reno.
— Já tinha estado lá com ele no início do verão?
Ela franziu a testa com ar confuso e fez que não com a cabeça.
— De quem foi a ideia de ir a Reno?
— Do Roy, claro, mas eu queria. Já queria há algum tempo — acrescentou,
num assomo de franqueza.
— O que atrasou o casamento?
— Não atrasou exatamente. Adiamos por várias razões. A Sra. Bradshaw é
uma mãe muito possessiva e Roy não tem nada de seu, além do que ganha como
professor. Isso pode parecer mercenário...
Calou-se, embaraçada, e tentou pensar numa maneira melhor de dizer aquilo.
— Que idade tem a mãe dele?
— Deve andar pelos sessenta. Por quê?
— É uma mulher vigorosa a despeito dos achaques. Ainda pode durar muito.
Os olhos dela fulgiram com um pouco de seu velho fogo de iceberg.
— Não estamos esperando que ela morra, se é o que está pensando. Estamos
simplesmente esperando o momento psicológico certo. Roy espera persuadi-la a
ser razoável e a me aceitar. Até lá... — Interrompeu-se e olhou para mim com
desconfiança. — Mas nada disso lhe diz respeito. Tinha prometido falar dessa
Macready, quem quer que ela seja. Tish Macready? O nome parece fictício.
— Asseguro que a mulher não é. Seu marido se divorciou dela em Reno
pouco antes de se casar com você.
Ela se sentou muito subitamente, como se as pernas tivessem perdido a força.
— Não acredito. Roy nunca foi casado.
— Foi. Até a mãe o admitiu, depois de alguma resistência. Foi um casamento
infeliz, que aconteceu quando ele era estudante de Harvard. Mas esperou até este
verão para acabar com ele. Passou parte de julho e o mês todo de agosto
estabelecendo residência em Nevada.
— Agora sei que está enganado. Roy ficou todo esse período na Europa.
— Suponho que tenha cartas e postais para provar...
— Sim — disse ela, com um sorriso aliviado.
Foi a outro quarto e voltou com um punhado de correspondência amarrada
com uma fita vermelha. Percorri os postais os arrumei em ordem cronológica:
Torre de Londres (com carimbo de Londres de 18 de julho), Bodleian Library
(Oxford, 21 de julho), e assim sucessivamente até a vista dos Jardins Ingleses
(Munique, 25 de agosto). Bradshaw escreveu nas costas deste último postal:

Querida Laura
Ontem visitei o ninho de águia de Hitler em Berchtesgaden — um
belo cenário tornado sinistro pelas suas associações — e hoje, à guisa
de contraste, tomei um ônibus para Oberammergau, onde representam
o Auto da Paixão. Fiquei impressionado pela simplicidade quase
bíblica dos aldeãos. Todo este campo bávaro está semeado com as
mais espantosas igrejinhas. Como eu gostaria que pudesses vê-las
comigo! Lamento saber que acabou de passar um verão solitário.
Bem, o verão não demora a acabar e eu voltarei as costas com gosto
aos esplendores da Europa para regressar a casa.
Com todo o meu amor.
Roy

Reli a incrível mensagem. Era quase palavra por palavra o mesmo que a Sra.
Bradshaw me mostrara. Tentei me colocar no lugar de Bradshaw, para
compreender seu motivo. Mas não podia imaginar que irremediável divisão na
natureza de um homem, que cansada simulação ou objetivo o levaria a enviar
idênticos postais mentirosos à mãe e à noiva.
— O que há agora? — disse Laura.
— Meramente tudo.
Devolvi-lhe os postais. Ela passou a mão neles carinhosamente.
— Não me diga que não foi Roy que os escreveu. É a letra e o estilo dele.
— Ele escreveu do Reno — eu disse — e enviou-os a um amigo na Europa
para serem postados no correio.
— Tem certeza?
— Gostaria de não ter. Ocorre-lhe algum amigo que possa ter ajudado?
Ela mordiscou o lábio inferior.
— O Dr. Godwin passou o verão na Europa. Ele e Roy são muito amigos. De
fato, Roy foi paciente dele por muito tempo.
— De que se tratava com o Dr. Godwin?
— Não discutimos esse assunto, palavra, mas acho que tinha relação com sua
excessiva... sua excessiva dependência da mãe. — Um lento rubor irritado subiu
pelo pescoço dela até o rosto. — Mas por que dois homens adultos fariam uma
brincadeira tão idiota?
— Não está claro. Talvez entrem nisso as ambições profissionais de seu
marido. Ele obviamente não queria que ninguém soubesse de seu detestável
casamento anterior, ou de seu divórcio, e fez um grande esforço para manter
tudo escondido. Ele mandou à mãe postais europeus iguais a esses. É possível
que tenha mandado uma terceira série a Leticia.
— Quem é ela? Onde ela está?
— Acho que está aqui na cidade, ou esteve até sexta-feira. Muito
provavelmente tem vivido aqui nos últimos dez anos. Surpreende-me que seu
marido nunca tenha contado, nem mesmo a uma pessoa tão próxima.
Ela continuava em pé diante de mim, e eu a encarei. Ela fez que não com a
cabeça.
— Ou talvez não seja assim tão surpreendente. Ele é muito hábil em enganar
as pessoas, vivendo em vários níveis, talvez enganando a si mesmo em certa
medida. Os filhinhos da mamãe ficam assim às vezes. Precisam de suas
valvulazinhas de escape.
Os seios de Laura arfaram.
— Ele não é um filhinho da mamãe. Pode ter tido problema quando era mais
novo, mas agora é um homem viril, e eu sei que me ama. Deve haver uma razão
para tudo isso. — Olhou para os postais e as cartas que tinha na mão.
— Tenho certeza de que há. Suspeito que a razão esteja ligada a nossos dois
assassinatos. Tish Macready é a principal suspeita de ambos.
— Dois assassinatos?
— De fato são três, espaçados num período de vinte e três anos: Helen
Haggerty na sexta-feira à noite, Constance McGee há dez anos, Luke Deloney
em Illinois antes da guerra.
— Deloney?
— Luke Deloney. Não sabe quem ele é, mas acho que Tish Macready deve
saber.
— Esse Deloney tem relação com a Sra. Deloney que está hospedada na Surf
House?
— Ela viúva dele. Conhece-a?
— Pessoalmente não. Mas Roy falou com ela ao telefone pouco antes de sair.
— O que ele disse?
— Simplesmente que ia vê-la. Perguntei quem era, mas ele estava com
pressa demais para explicar.
Levantei-me.
— Se me desculpar vou ver se consigo pegá-lo no hotel. Passei o dia todo
tentando achá-lo.
— Ele estava aqui comigo. — Sorriu ligeiramente, involuntariamente, mas
os olhos estavam confusos. — Por favor, não diga a ele o que eu contei. Não lhe
diga que contei seja lá o que for.
— Tentarei, mas tudo pode vir à tona.
Dirigi-me para a porta e tentei abri-la. A corrente retardou minha saída.
— Espere — disse ela atrás de mim. — Lembrei-me de uma coisa... de uma
coisa que ele escreveu num livro de poesia que me emprestou.
— E o que ele escreveu?
— O nome dela.
Laura correu para o quarto. Bateu com o quadril no umbral e os postais
caíram de sua mão. Ela não parou para pegá-los.
Voltou com um livro aberto e o enfiou na minha mão, meio às cegas. Era
uma antologia de Yeats aberta no poema “Entre colegiais”. Os quatro primeiros
versos da quarta estrofe tinham sido sublinhados a lápis e Bradshaw escrevera na
margem uma simples palavra: “Tish”.
Li os versos:

A sua imagem presente flutua na minha mente


Teria sido moldada por um artista do Quattrocento1
De faces cavadas como se bebesse o vento
E se alimentasse com uma papa de sombras?

Eu não estava certo do que significava e disse a ela.


— Significa que Roy ainda a ama — respondeu Laura amargamente. —
Yeats escrevia sobre Maud Gonne, a mulher que ele amou a vida inteira. É até
possível que Roy tenha me emprestado o livro para me fazer saber da existência
de Tish. Ele é muito sutil.
— Provavelmente ele escreveu o nome dela há muito tempo e esqueceu. Se
ainda a amasse não se divorciaria dela para se casar com você. Tenho que avisá-
la, porém, de que seu casamento talvez não seja legítimo.
— Não seja legítimo? — Ela era uma mulher convencional e a possibilidade
a assustou. — Mas nós fomos casados em Reno por um juiz.
— O divórcio de Tish — disse eu — é provavelmente nulo. Ela não foi
notificada da ação. Isso significa nos termos da lei da Califórnia que ele ainda
continua casado com ela, se a mulher quiser.
Sacudindo a cabeça, Laura tirou o livro da minha mão e o jogou com certa
violência numa cadeira. Uma folha de papel escapou de entre as folhas. Peguei-a
do chão.
Era outro poema, na letra de Bradshaw:

A LAURA

Se a luz fosse escura


e o escuro fosse luz,
A lua um buraco negro
No clarão da noite

A asa de um corvo
Branca como metal.
Então tu, meu amor,
Serias mais negra que o pecado.

No café da manhã eu tinha lido o mesmo poema em voz alta para Arnie e
Phyllis. Tinha sido impresso uns vinte anos antes no Blazer de Bridgeton, com as
iniciais G. R. B. A teoria dos conjuntos funcionou em mim e Bridgeton e Pacific
Point se combinaram num tonitruante intercâmbio de tempo. G. R. B. George
Roy Bradshaw.
— Quando ele escreveu esse poema para você, Laura?
— Na primavera passada, quando me emprestou o Yeats.
Deixei-a relendo para si mesma, tentando recapturar a primavera.

________________
1 Estilo da arte italiana do século XV. (N. do T.)
30
capítulo

Quando passei pelo vestíbulo da Surf House, avistei a mãe de Helen sentada
sozinha num canto afastado. Estava profundamente mergulhada em pensamentos
e só levantou os olhos quando me ouviu falar: — Fica em pé até muito tarde,
Sra. Hoffman.
— Não tenho outro remédio — disse ela, num tom ressentido. — Vou dividir
um apartamento com a Sra. Deloney e isso foi inteiramente ideia dela. Mas ela
me botou para fora para receber seu amigo em particular.
— Refere-se a Roy Bradshaw?
— Isso é como ele se chama agora. Conheci George Bradshaw quando ele
aceitava de bom grado um prato de comida quente e servi-lhe mais de um na
minha própria cozinha.
Puxei uma cadeira para perto dela.
— Tudo isso acaba numa interessante coincidência.
— Também acho que sim. Mas não querem que eu fale disso.
— Quem não quer?
— A Sra. Deloney.
— Ela agora lhe dá ordens?
— Não, mas foi simpático da parte dela me tirar daquele quarto ordinário do
Pacific Hotel e... — Fez uma pausa, considerando a situação.
— E a larga aqui no vestíbulo?
— E apenas temporário.
— A vida é assim. A senhora e seu marido vão continuar recebendo ordens
dos Deloney enquanto forem vivos? Não ganham nada com isso, a não ser o
privilégio de serem tratados como empregados.
— Ninguém trata Earl assim — disse ela defensivamente. — Não meta Earl
nisso.
— Teve notícias dele?
— Não tive e estou preocupada. Tentei telefonar duas noites seguidas, mas
ninguém respondeu. Receio que esteja bebendo.
— Está no hospital — eu disse.
— Está doente?
— Ficou de tanto tomar uísque.
— Como sabe?
— Eu o levei ao hospital. Estive em Bridgeton ontem de manhã. Seu marido
falou comigo, e acabou sendo muito franco no fim. Admitiu que Luke Deloney
tinha sido assassinado, mas recebeu ordens de cima para deixar passar por
acidente.
Os olhos dela percorreram o vestíbulo, tímidos e envergonhados. Não havia
ninguém à vista, a não ser o recepcionista da noite e um casal que não parecia
casado alugando um quarto. Mas a Sra. Hoffman estava nervosa como um grilo
em chão liso.
— Poderia me contar também o que sabe — eu disse. — Deixe que lhe
ofereça uma xícara de café.
— Ficaria sem pregar olho a noite toda.
— Então uma xícara de chocolate.
— Chocolate está bem.
Fomos para a sala de jantar. Músicos da orquestra tomavam no balcão e se
queixavam do pouco que ganhavam. Sentamos num compartimento, eu virado
para a para de vidro, de modo a poder ver Bradshaw se ele atravessasse o
vestíbulo para a saída.
— Como conheceu Bradshaw, Sra. Hoffman?
— Helen o levou lá em casa do City College. Acho que ela andou
interessada nele por algum tempo, mas eu via muito bem que ele não estava
interessado nela. Eram mais amigos do que outra coisa. Tinham interesses em
comum.
— Como poesia?
— Como poesia e teatro. Helen dizia que ele era muito talentoso para a
idade, mas tinha muita dificuldade para se manter no colégio. Arranjamos um
emprego meio período para ele no elevador do prédio. Só pagavam cinco dólares
por semana, mas ele estava muito feliz com eles. Era magro como um pau e
pobre como Jó, quando o conhecemos. Dizia que era de uma família rica de
Boston e fugira em seu segundo ano em Harvard para ser independente. Eu
realmente nunca acreditei... achava que talvez ele tivesse vergonha da família e
bancasse o importante... mas parece que era verdade. Disseram que a mãe dele
tem muito dinheiro.
— Sim. Eu a conheço.
— Por que ele fugiria de tanto dinheiro? Passei a vida tentando que algum
colasse nos meus dedos...
— Dinheiro em geral tem suas complicações.
Não entrei em explicações. A garçonete trouxe o chocolate da Sra. Hoffman
e meu café. Quando ela se retirou para trás do balcão, eu disse: — Conheceu
uma mulher chamada Macready? Leticia O. Macready?
A mão da senhora Hoffman se atrapalhou ao segurar a xícara e derramou um
pouco no pires. Percebi que o cabelo dela era pintado de um tom ruivo
impossível e que ela podia ter sido outrora uma mulher bonita, com boa figura e
gosto por roupas berrantes. Mas ela não podia ser Tish Macready. Era casada
com Earl Hoffman há mais de quarenta anos.
Ela colocou um guardanapo de papel embaixo da xícara para absorver o
líquido derramado.
— Conhecia de cumprimentar.
— Em Bridgeton?
— Não devo falar de Leticia. A Sra. Deloney...
— Sua filha está numa gaveta refrigerada do necrotério e tudo o que me dá é
a Sra. Deloney.
Ela inclinou a cabeça sobre a mesa brilhante de fórmica.
— Tenho medo dela — disse —, do que ela pode fazer com Earl.
— Tenha medo antes do que ela já lhe fez. Ela e seus amigos políticos
fizeram com que ele selasse o caso Deloney, e isso ficou infeccionando dentro
dele desde então.
— Eu sei. Foi a primeira vez que Earl abafou um caso deliberadamente.
— Admite?
— Acho que tenho que admitir. Earl nunca disse explicitamente, mas eu
sabia, e Helen sabia. Foi por isso que ela nos deixou.
E foi talvez por isso que ela não conseguiu no fim se manter íntegra.
— Earl tinha grande respeito por Luke Deloney — ia dizendo a mulher —,
embora Luke tivesse suas fraquezas humanas. Ele ajudou a todos, por assim
dizer. A morte dele causou um grande desgosto ao Earl e foi a partir daí que ele
começou a beber pra valer. Estou preocupada com Earl. — Estendeu a mão
através da mesa e tocou a minha com as pontas dos dedos secos. — Acha que ele
escapa?
— Não, se continuar a beber. Deve sobreviver a esta crise. Tenho certeza de
que estão fazendo tudo por ele. Mas não pela Helen.
— Pela Helen? Mas o que alguém pode fazer pela Helen?
— Pode fazer alguma coisa por ela contando a verdade. A morte dela merece
uma explicação pelo menos.
— Mas eu não sei quem a matou. Se soubesse gritaria do alto dos telhados.
Achei que a polícia estava atrás desse McGee que matou a mulher.
— McGee foi inocentado. Tish Macready matou a mulher dele, e
provavelmente também matou sua filha.
Ela sacudiu a cabeça solenemente.
— Está enganado. Não é possível. Tish Macready, Tish Osborne em solteira,
morreu muito antes de todas essas tragédias. Admito que houve boatos sobre ela
na época da morte de Luke Deloney, mas depois ela teve sua própria tragédia,
coitadinha.
— Disse “Tish Osborne em solteira”?
— Exatamente. Ela era uma das filhas do senador Osborne... irmã da Sra.
Deloney. Falei delas na outra noite quando vínhamos do aeroporto, como elas
costumavam montar juntas. — Sorriu levemente, nostalgicamente, como se
tivesse captado um vislumbre dos casacos vermelhos da juventude.
— Quais eram os boatos sobre ela, Sra. Hoffman?
— Que andava com Luke Deloney antes da morte dele. Diziam que ela tinha
dado um tiro nele, mas eu nunca acreditei nisso.
— Ela era amante de Luke Deloney?
— Ela costumava passar tempos no apartamento dele, isso não era segredo
para ninguém. Era uma espécie de dona de casa oficiosa de Luke, depois que ele
se separou da Sra. Deloney. Nunca dei muita importância a isso. Ela já era
divorciada de Val Macready. E, afinal de contas, era cunhada de Luke, acho que
tinha o direito de estar no apartamento dele.
— Ela tinha cabelos ruivos?
— Mais para castanho-avermelhados, eu diria. Tinha lindos cabelos. — A
Sra. Hoffman afagou distraidamente seus caracóis tingidos. — Tish Osborne era
uma mulher cheia de vida. Tive pena quando soube da morte dela.
— O que aconteceu?
— Não sei exatamente. Ela morreu na Europa quando os nazistas invadiram
a França. A Sra. Deloney ainda não se conformou. Ainda hoje me falou da morte
da irmã.
Uma coisa, que parecia uma aranha de patas úmidas, subiu pela minha nuca
até meu cabelo curto e o eriçou. O fantasma de Tish ou de uma mulher (ou
homem?) usando o nome dela tinha batido na porta da casa de Indian Springs há
dez anos, mais de dez anos depois de os alemães invadirem a França.
— Tem certeza de que ela morreu, Sra. Hoffman?
Ela fez que sim com a cabeça.
— Os jornais falaram muito disso, até os jornais de Chicago. Tish Osborne
era a beldade de Bridgeton em seu tempo. Ainda me lembro, no início da década
de 20, como as festas dela eram famosas. O homem com quem ela se casou, Val
Macready, tinha dinheiro do negócio de carnes, com a mãe.
— Ele ainda vive?
— Na última vez que ouvi falar dele tinha se casado com uma inglesa
durante a guerra e vivia na Inglaterra. Não era de Bridgeton e eu nunca cheguei
realmente a vê-lo. Eu me limitava a ler as colunas sociais e os obituários.
Tomou uns golinhos do chocolate. Seu olhar, sua postura ensimesmada,
pareciam me dizer que ela tinha sobrevivido. A filha Helen tinha sido mais
inteligente, Tish Osborne tinha sido mais rica, mas ela é que sobreviveu. Haveria
de sobreviver a Earl também e provavelmente transformaria em relicário a saleta
onde ele guardava a escrivaninha das bebidas.
Bem, eu tinha apanhado uma das velhinhas. A outra seria mais difícil.
— Por que a Sra. Deloney tomou o avião para cá?
— Acho que foi apenas um capricho de mulher rica. Disse que queria me
ajudar nesta hora de infortúnio.
— Alguma vez se deram intimamente?
— Eu mal a conhecia. Earl conhece melhor.
— Helen se dava com ela?
— Não. Se alguma vez se encontraram é novidade para mim.
— A Sra. Deloney veio de longe para ajudar uma pessoa que lhe era quase
estranha. Ela deu alguma ajuda especial, além de mudá-la para este hotel?
— Paga meu almoço e jantar. Eu não queria que ela pagasse, mas ela insistiu.
— O que devia fazer em troca do quarto e da comida grátis?
— Nada.
— Ela não pediu que não falasse da irmã, de Tish?
— Isso ela pediu. Eu não devia falar nada sobre ela ter andado com Luke
Deloney, nem dos boatos de quando ele morreu. Ela é muito sensível com a
reputação da irmã.
— Anormalmente sensível, se Tish está morta há mais de vinte anos. Com
quem não devia falar dessas coisas?
— Com ninguém, especialmente você.
Ela afogou seu risinho nervoso nos restos do chocolate.
31
capítulo

Saí para o pátio do hotel. A lua alta flutuava serenamente no céu e nos
tanques ornamentais do jardim espanhol. Havia uma luz amarela atrás das
persianas do apartamento da Sra. Deloney e o som de vozes baixas demais para
poderem ser ouvidas de fora.
Bati na porta.
— O que é — perguntou ela.
— Serviço. — Serviço de detetive.
— Não pedi nada.
Mas abri a porta. Passei diante dela e me encostei na parede. Bradshaw
estava sentado num sofá inglês diante da lareira na parede oposta. Um fogo lento
ardia na grade e reverberava nas guarnições de cobre.
— Olá — disse ele.
— Olá, George.
Ele pulou.
— Saia daqui — disse a Sra. Deloney. Parecia ter olhos perfeitamente
redondos numa face branca perfeitamente quadrada, toda osso e vontade. — Vou
chamar o detetive do hotel.
— Vá em frente, se quer que a sujeira se espalhe.
Ela fechou a porta.
— Podíamos contar a ele — disse Bradshaw. — Temos que contar a alguém.
A negativa da cabeça dela foi tão violenta que a fez perder o equilíbrio. Ela
recuou alguns passos e reagrupou as forças, olhando de mim para Bradshaw
como se fôssemos inimigos dela.
— Proíbo-o terminantemente — disse a ele. — Não há nada para contar.
— Mas vai se tornar público de qualquer maneira. Seria melhor se fôssemos
nós a contar.
— Não vai se tornar público coisa nenhuma. Por que se tornaria?
— Em parte — eu disse — porque cometeu o erro de vir aqui. Não é sua
cidade, Sra. Deloney. Aqui não pode abafar as coisas como em Bridgeton.
Ela virou as costas eretas para mim.
— Não ouça o que ele diz, George.
— Meu nome é Roy.
— Roy — corrigiu ela. — Este homem tentou arrancar informações de mim
ontem em Bridgeton, mas não sabe absolutamente nada. Tudo o que temos a
fazer é ficar quietos.
— E o que ganhamos com isso?
— Paz.
— Já tive minha dose dessa espécie de paz — disse ele. — Tenho vivido nela
todos esses anos. Você fica longe, não faz ideia do que tenho passado.
Encostou a cabeça no sofá e ergueu os olhos para o teto.
— E vai passar por coisas ainda piores — disse ela rudemente — se começar
agora a cometer inconfidências.
— Pelo menos será diferente.
— Idiota sem fibra. Mas não vou deixar que arruíne o que me resta de vida.
Se o fizer nunca mais verá dinheiro meu.
— Até isso posso dispensar.
Mas ele estava tendo o cuidado de não dizer nada que eu queria saber. Usava
uma máscara há tanto tempo que ela estava colada em seu rosto e controlava
suas palavras e possivelmente seus hábitos de pensamento. Até a velha de costas
representava para mim como se eu fosse um espectador.
— Essa discussão é acadêmica em mais de um sentido — eu disse. — O
corpo não está mais enterrado. Eu sei que sua irmã Leticia matou seu marido,
Sra. Deloney. Sei que ela se casou mais tarde com Bradshaw em Boston. Tenho a
confirmação da mãe dele...
— Da mãe dele?
Bradshaw aprumou-se no sofá.
— Afinal de contas ainda tenho mãe. — E acrescentou em sua voz
cuidadosamente cultivada com os olhos cheios de intenção postos na mulher: —
Ainda moro com ela e ela precisa ser considerada nisso tudo.
— Leva uma vida muito complicada — disse a Sra. Deloney.
— Tenho uma natureza muito complicada.
— Tudo bem, Sr. Complexidade, a bola é sua. Corra com ela. — Dirigiu-se
para um pequeno sofá num canto neutro da sala e se sentou.
— Eu achava que a bola era minha — eu disse —, mas pode ficar com ela,
Bradshaw. Pode começar por onde tudo começou, com a morte de Deloney. Você
era a testemunha de Helen, não era?
Ele acenou que sim.
— Eu não devia ter contado a Helen uma coisa tão grave. Mas estava
profundamente perturbado e ela era a única pessoa amiga que eu tinha no
mundo.
— Exceto Leticia.
— Sim, exceto Leticia.
— Qual foi sua parte no assassinato?
— Estava simplesmente presente. E não foi um assassinato, propriamente
dito. Deloney foi morto em legítima defesa, virtualmente por acidente.
— Isso é o que você diz.
— É verdade. Ele nos surpreendeu na cama do apartamento dele.
— Você e Leticia tinham o hábito de ir para a cama um com o outro?
— Era a primeira vez. Eu tinha escrito um poema para ela que a revista da
faculdade publicou e o mostrei no elevador. Eu tinha passado a primavera toda
observando-a, admirando-a. Ela era muito mais velha do que eu, mas era
fascinante. Foi a primeira mulher que tive, nunca tinha estado com outra. —
Falava dela ainda com uma espécie de temor reverencial.
— O que aconteceu no quarto do apartamento do terraço, Bradshaw?
— Ele nos surpreendeu, como eu disse. Tirou uma arma da cômoda e me
bateu com a coronha. Tish tentou detê-lo. Ele bateu com a arma na cara dela. Ela
agarrou a arma, que disparou e o matou.
Bradshaw tocou a pálpebra do olho direito e acenou com a cabeça na direção
da Sra. Deloney. Ela nos observava de seu canto, com uma espécie de
distanciamento que os anos lhe davam.
— A Sra. Deloney abafou o caso, ou fez que o abafassem. Você não pode
censurá-la muito, dadas as circunstâncias. Ou nos censurar. Fomos para Boston,
onde Tish passou meses entrando e saindo do hospital para refazer o rosto.
Depois nos casamos. Eu a amava apesar da discrepância de idade. Suponho que
meu sentimento por minha mãe me predispôs a amar Tish.
Sua inteligência encapuzada flamejou nos olhos dele tão viva que era meio
louca. A boca estava torta.
— Fomos passar a lua de mel na Europa. Minha mãe lançou detetives
franceses atrás de nós. Tive que deixar Tish em Paris e vir aqui fazer as pazes
com mamãe e começar meu segundo ano em Harvard. A guerra arrebentou na
Europa nesse mesmo mês. Nunca mais voltei a ver Tish. Ela ficou doente e
morreu antes de eu saber o que se passava.
— Não acredito. Não houve tempo para tudo isso.
— Aconteceu muito rápido, como em todas as tragédias.
— Não a sua, que já se arrasta há vinte e dois anos.
— Não — disse a Sra. Deloney. — Ele diz a verdade e posso provar.
Dirigiu-se a outro quarto do apartamento e voltou com um documento muito
vincado, que me entregou. Era um acte de décès1 emitido em Bordeaux, com
data de 16 de julho de 1940. Atestava em francês que Leticia Osborne Macready,
de 45 anos, tinha morrido de pneumonia.
Devolvi o documento à Sra. Deloney.
— Anda sempre com isso aonde quer que vá?
— Trouxe por acaso.
— Por quê?
Não lhe ocorreu uma resposta.
— Eu digo por quê. Porque sua irmã está vivíssima e teme que ela seja
punida por seus crimes.
— Minha irmã não cometeu crime algum. A morte de meu marido foi um
homicídio justificável ou um acidente. O chefe de polícia concorda, ou nunca
teria arquivado o caso.
— É possível. Mas Constance McGee e Helen Haggerty não foram mortas
por acidente.
— Minha irmã morreu muito antes dessas duas mulheres.
— Suas próprias ações desmentem o que acaba de dizer e significam mais do
que esse falso atestado. Por exemplo, visitou hoje Gil Stevens e tentou fazê-lo
falar do caso McGee.
— Então ele violou o sigilo profissional?
— Não houve qualquer violação. Não é cliente de Stevens. Ele continua a
representar McGee.
— Ele não me disse.
— Por que diria? Isso aqui não é sua cidade.
Ela se virou em confusão para Bradshaw.
Ele meneou a cabeça.
Atravessei a sala e me postei diante dele: — Se Tish estivesse enterrada na
França, por que você teria todo aquele trabalho para se divorciar dela?
— Então já sabe do divórcio. Você é danado para desenterrar fatos, não é?
Parece até um indian digger2. Começo a perguntar a mim mesmo se há alguma
coisa que ainda não saiba da minha vida privada.
Ele continuava sentado, erguendo para mim os olhos brilhantes e cautelosos.
Eu me deixei entusiasmar um pouco pelo colapso das defesas dele e disse: —
Sua vida privada, ou suas vidas privadas, dão um livro. Você tem mantido duas
casas, dividido seu tempo entre sua mãe e sua mulher?
— Suponho ser óbvio que tenho — disse ele, com voz inexpressiva.
— Tish mora aqui na cidade?
— Morava na área de Los Angeles. Não vou contar onde e posso garantir
que nunca encontrará o lugar. De resto não há interesse nisso, visto que já não
está aqui.
— Onde foi que ela morreu desta vez?
— Ela não morreu. A certidão de óbito francesa é falsa, como você
presumiu. Mas ela está fora de seu alcance. Coloquei-a num avião para o Rio de
Janeiro no sábado, e neste momento está lá.
— Não tinha me contado isso! — disse a Sra. Deloney.
— Não pretendia contar a ninguém, mas o Sr. Archer precisava compreender
que não há interesse algum em levar isso adiante. Minha mulher... minha ex-
mulher é velha e doente, fora do alcance da extradição. Providenciei para que
fosse submetida a tratamento médico, tratamento psiquiátrico, numa cidade sul-
americana, cujo nome não direi.
— Está admitindo que ela matou Helen Haggerty?
— Sim. Ela confessou quando fui vê-la em Los Angeles no sábado de manhã
cedo. Matou Helen e escondeu a arma no pavilhão. Procurei Foley em Reno
principalmente para descobrir se ele tinha testemunhado alguma coisa. Não o
queria me chantageando...
— Eu achava que ele já estava chantageando.
— Era Helen — disse ele. — Ela descobriu meu divórcio iminente em Reno
e concluiu um certo número de coisas, incluindo que a Tish estava viva. Dei-lhe
um bom dinheiro e consegui para ela o emprego aqui, para proteger Tish.
— E a si mesmo.
— E a mim mesmo. Tenho que proteger minha reputação, embora não
tivesse feito nada de ilegal.
— Não. Você é muito bom em conseguir que outras pessoas façam o trabalho
sujo para você. Trouxe Helen para cá como uma espécie de isca, não foi?
— Receio não estar compreendendo. — Mas se mexeu nervosamente.
— Saiu com Helen várias vezes e fez constar que era sua prometida. Não era,
claro. Você já estava casado com Laura e odiava Helen, com bons motivos, de
resto.
— Isso não é verdade. Ficamos amigos, apesar das exigências dela. Ela era
uma amiga de longa data, afinal de contas, e eu não podia deixar de compreender
seu sentimento de que o mundo lhe devia alguma coisa.
— Eu sei o que ela recebeu... uma bala na cabeça. A mesma coisa que
Constance McGee. A mesma coisa que Laura teria recebido se você não tivesse
ajeitado as coisas para oferecer Helen como vítima substituta de Tish.
— Receio que esteja se tornando complicado demais.
— Para uma natureza complicada como a sua?
Ele olhou em volta do quarto como se se sentisse aprisionado nele ou no
labirinto da própria natureza.
— Você nunca vai poder provar qualquer cumplicidade minha na morte de
Helen. Foi um terrível choque para mim. A confissão de Leticia foi outro
choque.
— Por quê? Você devia saber que ela tinha matado Constance McGee.
— Só soube no sábado. Confesso que tinha suspeitas. Tish foi sempre
selvagemente ciumenta. Vivi com essa terrível possibilidade durante dez anos,
esperando e fazendo votos para que minhas suspeitas fossem infundadas...
— Por que não perguntou?
— Suponho que não tive coragem. As coisas já eram bem difíceis entre nós.
Seria como admitir meu amor por Connie. — Ouviu suas próprias palavras e
ficou calado um momento, os olhos baixos, sondando o abismo em si mesmo. —
Eu a amava realmente, sabe. A morte dela quase me destruiu.
— Mas sobreviveu para voltar a amar.
— Acontece — disse ele. — Não sou dessa espécie de homem que pode
viver sem amar. Eu até amei Tish enquanto foi possível. Mas ela ficou velha e
doente.
A Sra. Deloney fez um som de quem cospe. Ele disse:
— Eu queria uma esposa que pudesse me dar filhos.
— Que Deus proteja qualquer filho seu, você provavelmente o abandonaria.
Quebrou todas as promessas que fez a minha irmã.
— Todo mundo quebra promessas. Eu não pretendia me apaixonar pela
Connie. Simplesmente aconteceu. Encontrei-a na sala de espera de um médico
por acaso. Mas não virei as costas a sua irmã. Nunca. Fiz mais por ela do que
tudo o que ela fez por mim.
A Sra. Deloney riu dele com toda a arrogância de uma aristocrata de segunda
geração.
— Minha irmã tirou você da sarjeta. Quem era você... o moço do elevador?
— Eu era estudante universitário, e trabalhava num elevador por minha
escolha.
— Muito provável...
Bradshaw inclinou-se para ela e fixou-a com seus olhos brilhantes.
— Eu tinha recursos de família a que podia recorrer se quisesse.
— Ah sim, sua preciosa mãe.
— Tenha cuidado de como fala da minha mãe.
Havia uma intenção em suas palavras, uma certa ameaça fria que a silenciou.
Foi um dos vários momentos em que senti que os dois estavam num jogo
complexo como o xadrez, uma partida de força num tabuleiro oculto. Eu devia
ter tentado obrigá-los a desmascarar o jogo. Mas estava tirando meu caso a
limpo e enquanto Bradshaw estivesse disposto a falar não me importaria com
questões aparentemente secundárias.
— Não entendo a história da arma — eu disse. — A polícia estabeleceu que
Connie McGee e Helen foram mortas com a mesma arma... um revólver que
pertencia originariamente à irmã de Connie, Alice. Como Tish se apoderou dela?
— Não sei, realmente.
— Deve ter alguma ideia. Alice Jenks deu a ela?
— Pode muito bem ter dado.
— Isso é uma besteira, Bradshaw, e você sabe. O revólver foi roubado da
casa de Alice. Quem o roubou?
Ele ergueu os dedos para o ar com as pontas unidas e admirou a simetria.
— Estou disposto a contar se a Sra. Deloney sair da sala.
— E por que eu sairia? — disse ela de seu canto. — Tudo o que minha irmã
suportou viver eu posso suportar ouvir.
— Não estou tentando poupar sua sensibilidade — disse ele. — Estou
tentando poupar a minha.
Ela hesitou. Aquilo virou um teste de vontades. Bradshaw levantou e abriu a
porta interna. Através dela eu podia ver, além do vestíbulo, um quarto decorado
com luxo monótono. Na mesa de cabeceira havia um telefone de marfim e numa
moldura de couro a foto de um cavalheiro de bigode que me pareceu vagamente
familiar.
A Sra. Deloney dirigiu-se para o quarto como um soldado recalcitrante
cumprindo uma ordem. Bradshaw fechou a porta vivamente atrás dela.
— Começo a odiar as mulheres velhas — disse ele.
— Ia falar da arma.
— Ia, não ia? — Voltou para o sofá. — Não é uma história bonita. Nenhuma
delas é. Estou contando tudo na esperança de que fique completamente
satisfeito.
— E não ponha as autoridades no caso?
— Não vê que não há vantagem alguma em pôr? O único efeito seria encher
a cidade de falatório, arruinar a reputação da faculdade, que me custou tanto
trabalho para levantar, e arruinar mais de uma vida.
— Especialmente a sua e a de Laura?
— Especialmente a minha e a de Laura. Só Deus sabe o quanto ela me
esperou. E até eu mereço algo mais do que tenho tido. Vivi minha vida de adulto
inteira com as consequências de uma ligação em que me envolvi quando garoto.
— Era disso que Godwin o tratava?
— Eu precisava de algum apoio. Não foi fácil lidar com Tish. Ela me
deixava meio louco às vezes com sua violência animal e suas exigências. — Os
olhos dele transformaram a afirmação numa interrogação e numa súplica.
— Não posso fazer promessa alguma — eu disse. — Primeiro precisamos da
história toda e depois pensaremos no passo seguinte. Como foi que Tish
conseguiu o revólver de Alice?
— Connie tirou-o do quarto da irmã e me deu. Tínhamos uma certa ideia
louca de usá-lo para cortar o nó górdio.
— Quer dizer matar Tish com ele?
— Era pura fantasia — disse ele —, folie à deux. Connie e eu nunca a
teríamos levado adiante, por mais desesperados que estivéssemos. Você não
imagina o tormento que passei dividido entre duas mulheres, duas amantes, uma
velha e insaciável, a outra nova e apaixonada. Jim Godwin me advertiu, eu corria
risco de morte espiritual.
— E para isso assassinato é, como se sabe, cura infalível.
— Eu nunca o teria feito. Não podia. Jim até me fez compreender isso. Não
sou um homem violento.
Mas havia violência nele agora, fazendo pressão contra os medos
convencionais que pressionavam sua natureza e o mantinham quieto, quase
formal, diante de meus olhos. Eu sentia seu ódio assassino contra mim. Eu o
estava obrigando a desvendar todos os seus segredos.
— O que aconteceu à arma que Connie roubou para você?
— Guardei no que achava ser um lugar seguro, mas Tish deve tê-la
encontrado.
— Na sua casa?
— Na casa da minha mãe. Às vezes a levava lá quando a mãe estava ausente.
— Tish estava lá no dia em que McGee foi procurá-lo?
— Sim. — Os olhos dele encontraram os meus. — Estou espantado que
saiba desse dia. É muito minucioso. Foi o dia em que tudo se precipitou. Tish
deve ter descoberto a arma numa gaveta do meu escritório, onde eu a escondera.
Antes disso ela deve ter ouvido McGee se queixar do meu interesse pela mulher
dele. Ela tirou a arma e virou-a contra Constance. Suponho que houve nisso uma
certa justiça poética.
Bradshaw falava como se se referisse a um acontecimento com outra pessoa
qualquer, à morte de uma personagem histórica ou de ficção. Já não se importava
com o significado de sua própria vida. Talvez fosse isso que Godwin queria dizer
com morte espiritual.
— Continua a afirmar que não sabia que Tish a matara até ela confessar no
sábado passado?
— Suponho que não permiti a mim mesmo compreender. Pelo que eu sabia,
a arma tinha simplesmente desaparecido. McGee podia muito bem tê-la tirado do
meu escritório quando esteve em minha casa. O caso das autoridades contra ele
parecia muito forte.
— Armaram para ele e você sabe. McGee e a filha são minha principal
preocupação. Não ficarei satisfeito enquanto não forem completamente
inocentados.
— Mas isso se pode conseguir com certeza sem obrigar Leticia a voltar do
Brasil.
— Eu só tenho sua palavra de que ela está no Brasil — eu disse. — Até a
Sra. Deloney ficou surpresa quando ouviu isso.
— Santo Deus, não acredita em mim? Eu abri literalmente meu coração.
— Você não o teria feito se não tivesse um motivo. Você é um mentiroso,
Bradshaw, um daqueles artistas que usam fatos e sentimentos reais para tornar
suas histórias mais plausíveis. Mas há uma implausibilidade básica nesta. Se
Tish estivesse em segurança no Brasil isso seria a última coisa que você teria me
contado. Eu acho que ela se esconde aqui na Califórnia.
— Está completamente enganado.
Seus olhos procuraram os meus, francos e sinceros como só podem ser os de
um ator. O cricri de um telefone atrás da porta do quarto interrompeu nossa luta
de olhares. Bradshaw encaminhou-se para o som. Eu estava em pé e fui mais
rápido, empurrando-o com o ombro contra a porta, levantando o telefone da
mesa de cabeceira antes que tocasse a terceira vez.
— Alô?
— É você, amor? — Era a voz de Laura. — Roy, estou apavorada. Ela sabe
de nós. Telefonou para cá agora mesmo e disse que está a caminho.
— Mantenha a porta trancada. E é melhor chamar a polícia.
— ... você não é Roy, é?
Roy estava atrás de mim. Virei-me a tempo de ver o relampejar do metal e o
atiçador que ele empunhava descer sobre minha cabeça.

________________
1 Atestado de óbito. (N. do T.)
2 Índio que desenterra raízes para se alimentar (N. do T.)
32
capítulo

A Sra. Deloney me batia na cara com uma toalha úmida. Disse-lhe que não
era preciso. A primeira coisa que vi quando me levantei foi a foto na moldura de
couro ao lado do telefone. Aos meus olhos embaciados pareceu ser a imagem do
bonito velho de olhos negros, cujo retrato pendia sobre a lareira da sala de estar
da Sra. Bradshaw.
— O que a senhora faz com uma foto do pai de Bradshaw?
— Acontece que é a foto do meu pai, o senador Osborne.
Eu disse: — Então a Sra. Bradshaw é uma artista também.
A Sra. Deloney olhava para mim como se meus miolos tivessem ficado
moles com a pancada do atiçador. Mas a pancada foi de lado e eu não devia ter
ficado sem sentidos mais do que alguns segundos. Bradshaw saía do
estacionamento do hotel quando eu cheguei lá.
Seu veloz carro deu as costas ao oceano e começou a subir a colina. Eu o
segui até Foothill Drive e alcancei-o muito antes de ele chegar em casa. Ele me
facilitou as coisas freando subitamente. O carro derrapou lateralmente e parou
atravessado na estrada com um estremecimento.
Não era a mim que ele tentava deter. Outro carro descia a ladeira na nossa
direção. Eu via os faróis se aproximando entre as árvores como calmos e grandes
olhos dementes, a silhueta de Bradshaw em seu feixe luminoso. Parecia estar se
debatendo com o cinto de segurança. Reconheci o Rolls da Sra. Bradshaw um
momento antes de que, os freios chiando, batesse no carro menor.
Saí da pista, liguei a seta vermelha e corri colina acima para o lugar da
batida. Meus passos soavam alto no silêncio que se seguiu ao choque. O focinho
achatado do Rolls estava profundamente afundado na lateral do carro de
Bradshaw. Ele pendia no banco do motorista. Tinha o rosto coberto de sangue,
que corria da testa, do nariz e dos cantos da boca.
Abri a porta intacta e desafivelei o cinto de segurança. Ele tombou inerte nos
meus braços. Estendi-o na estrada. As linhas quebradas de sangue em seu rosto
pareciam fendas numa máscara, através das quais se via o tecido vivo. Estava
morto. Jazia sem pulso e sem respiração sob as sombras cor de ferro dos galhos
das árvores.
A velha Sra. Bradshaw tinha descido de seu alto banco protegido. Parecia
ilesa. Lembro-me de ter pensado nesse instante que ela era uma força da
natureza que nada poderia matar.
— É Roy, não é? Ele está bem?
— Num certo sentido está. Queria se livrar dele e conseguiu.
— O que quer dizer?
— Receio que o tenha matado também.
— Mas eu não queria lhe fazer mal nenhum. Eu seria incapaz de fazer mal ao
meu menino, ao filho do meu ventre.
Sua voz embargou de angústia maternal. Eu creio que ela quase acreditava
ser mãe dele, tendo representado esse papel por tanto tempo. A realidade se
tornara indistinta como a paisagem iluminada pela lua.
Ela se jogou sobre o homem morto, estreitando-o, como se seu velho corpo
pudesse de algum modo restituir-lhe a vida e reacender seu amor por ela.
Arrulhava meiguices no ouvido dele, chamando-o de menino mau e fingido por
querer assustá-la.
Sacudia-o:
— Acorde! É a mamãe.
Como ela já tinha dito, a noite não era a sua melhor hora. Mas ela tinha uma
duplicidade comparável à de Roy, e havia um elemento de representação teatral
no seu delírio.
— Deixe-o em paz — eu disse. — E acabe com essa coisa de mãe. A
situação já é bem feia sem isso.
Ela se virou lentamente e me lançou um estranho olhar furtivo.
— Essa coisa de mãe?
— Roy Bradshaw não era seu filho. Vocês dois representavam muito bem o
papel... Godwin provavelmente diria que ele correspondia a suas necessidades
neuróticas, mas acabou.
Ela se ergueu num assomo de raiva que a trouxe para perto de mim. Senti seu
cheiro de alfazema e sua força.
— Eu sou a mãe dele. Tenho a certidão de nascimento.
— Aposto que tem. Sua irmã me mostrou seu atestado de óbito, o que prova
que você morreu na França em 1940. Com seu dinheiro, podem provar com
documentos tudo o que quiserem. Mas não podem mudar os fatos apenas
mudando-os no papel. Roy se casou com você em Boston depois que você matou
Deloney. Mais tarde se apaixonou por Constance McGee. Você a matou. Roy
viveu com você outros dez anos, se isso pode ser chamado de vida, apavorado
com a ideia de que você voltaria a matar se ele tornasse a amar outra mulher.
Mas finalmente ousou, com Laura Sutherland. Conseguiu convencê-la de que
estava interessado em Helen Haggerty. Por isso você subiu a pista de cavaleiros
na sexta-feira à noite e deu-lhe um tiro. Estes são os fatos que você não pode
mudar.
O silêncio se instalou entre nós, tênue e ermo como uma qualidade do luar.
A mulher disse: — Eu estava apenas protegendo meus direitos. Roy me
devia pelo menos fidelidade. Dei-lhe dinheiro e categoria. Mandei-o para
Harvard. Fiz com que seus sonhos se realizassem.
Olhamos ambos para o homem sem sonhos que jazia na estrada.
— Está pronta para descer à cidade comigo e fazer uma declaração formal de
como protegeu seus direitos ao longo dos anos? O pobre McGee ainda está na
prisão pagando seus crimes.
Ela se aprumou: — Não permito que use essa linguagem comigo. Não sou
uma criminosa.
— Você ia à casa de Laura Sutherland, não ia? O que pretendia fazer, sua
velha?
Ela cobriu a parte inferior do rosto com a mão. Pensei que se sentia mal ou
estava dominada pela vergonha. Mas ela disse: — Não deve me chamar disso.
Não sou velha. Não olhe para meu rosto, olhe para meus olhos.
Era verdade, de certo modo. Não podia ver os olhos dela claramente, mas
sabia que eram brilhantes e negros e cheios de energia. Ela ainda era ávida de
vida, como a Leticia imaginária, a misteriosa projeção dela mesma na pele de
leopardo de imitação que usara para se esconder.
Transferiu a mão para o queixo forte e disse: — Posso lhe dar muito
dinheiro.
— Roy aceitou seu dinheiro. Veja o que lhe aconteceu.
Ela se virou abruptamente e dirigiu-se para o Rolls. Calculei o que ia na
mente dela: outra morte, outra sombra para seu alimento habitual; e consegui
abrir a porta antes dela. A bolsa de couro preto estava no chão, onde caíra com a
batida. Lá dentro encontrei o novo revólver que ela pretendia usar na nova
mulher de Roy.
— Dê-me isso.
Ela falou com a autoridade da filha de um senador e com a mais terrível
autoridade de uma pessoa que tinha matado duas mulheres e dois homens.
— Acabaram as armas para você — eu disse.
Acabou tudo, Leticia.