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Semiótica

SANTAELLA, Lúcia. O que é semiótica. São Paulo: Ed. Brasiliense, 2012.


Linguagem  objeto central do campo de investigação da semiótica. Procura desvelar os elementos que
constituem a construção da linguagem.
Enquanto a linguística se preocupa com a linguagem verbal, a semiótica preocupa-se com qualquer linguagem.
A linguagem é uma produção realizada em um determinado contexto cultural (fenômeno da cultura).

Charles Peirce – semiótica – preocupação teórica se concentra nos processos de produção de sentido no
pensamento e, por fim, a formação do conhecimento. Filia-se à fenomenologia e ao pragmatismo (corrente
que considera que a o sentido dos fenômenos não deve ser atribuído a priori, mas a partir da observação de
seus efeitos práticos, ou seja, a partir da experiência.

Fenômeno como tudo aquilo que aparece à consciência. Estes são apreendidos por meio de signos.

Fenomenologia
Descrição e análise de toda e qualquer experiência (fenômeno);
Todo fenômeno da cultura é um fenômeno de comunicação: linguagem dos meios, produção de sentidos dos
processos;
Toda produção, expressão e realização humana é semiótica, já que produz sentido.

Para compreender esses processos de pensamento e significação, Peirce propõe uma arquitetura filosófica, na
qual a fenomenologia seria a base fundamental para qualquer ciência. Ela propõe a observação dos fenômenos
para, a partir dessa análise, formular categorias universais para descrevê-los e explicá-los. A semiótica seria
um dos três ramos fundamentados na base fenomenológica (ao lado da Ética e da Estética). Seu objetivo seria
compreender como o sentido é produzido no pensamento.

Os três elementos formais do pensamento (processo de produção de sentido)


 Primeiridade: corresponde ao acaso, originalidade irresponsável e livre, variação espontânea. O
fenômeno chega à consciência – sem ainda fazer qualquer relação com qualquer sentido. É quando os sentidos
apreendem as características primárias do fenômeno – cor, cheiro, etc, sem fazer outras inferências.
Sentimento imediato sem reflexão.
 Secundidade: corresponde à ação e reação dos fatos concretos, existentes e reais. É quando a
consciência vai buscar em suas referências algumas relações com o fenômeno que chegou, os sentidos que
podem ser relacionados a ele.
 Terceiridade: diz respeito à mediação ou processo, crescimento contínuo e devir sempre possível pela
aquisição de novos hábitos. Produção de um sentido sobre aquele fenômeno, um processo que é dependente
do contexto cultural onde ocorre. A separação desses processos é apenas esquemática, pois não é percebida
pela consciência.

Semiose – ação dos signos. As três etapas se configuram como básicas e universais para apreensão e tradução
dos fenômenos. Pensar é manipular os signos. Signo é qualquer coisa que representa alguma outra para
alguém.

Esses processos de pensamento, para Peirce, consistem na manipulação de signos. O signo, para ele, é qualquer
coisa que representa alguma outra coisa para alguém. Aqui há uma diferença para a semiologia de Sausurre:
o signo de Peirce expressa uma relação triádica: (1º) o signo, ou representamen – (aquilo que representa
alguma coisa; (2º) o objeto (aquilo a que se refere o signo); e (3º) o interpretante (aquilo que se pode dizer
sobre o signo, seu significado).
3º. Interpretante
É tudo que se poderá dizer
sobre o signo. Traduz o seu
significado.

1º. Signo (representamen) 2º. Objeto


É tudo o que está no lugar de É tudo a que se refere o signo.
alguma coisa

“Somos no mundo, estamos no mundo, mas nosso acesso sensível ao mundo é sempre como que vedado por
essa crosta sígnica que, embora nos forneça o meio de compreender, transformar, programar o mundo, ao
mesmo tempo usurpa de nós uma existência direta, imediata, palpável, corpo a corpo e sensual com o sensível
(p.81).

“Na estrutura indissoluvelmente triádica do signo (v.), o interpretante é aquele termo que se produz da
relação do signo com seu objeto (v.). A palavra interpretante não deve ser confundida com intérprete, nem
com interpretação (isto é, o processo de interpretar). Entende-se o interpretante como um conteúdo objetivo
que se depreende da referência que o signo faz a seu objeto e somente nesse sentido pode ser visto como
uma interpretação”. (PINTO: 1995, 29)

PINTO, Júlio. Semiótica e informação. Perspectiva em Ciência da Informação, v.1, n.1, p.87-92,
jan./jun.1996.

No que se refere à relação do signo com seus objetos, Peirce formulou três tipos de signos: o ícone, o índice
e o símbolo. O ícone apresenta uma relação de semelhança com o objeto: é, por exemplo, uma fotografia em
relação à pessoa fotografada. O índice tem uma relação de contiguidade: a fumaça indica que há fogo, a poça
aponta para a chuva. E o símbolo denota uma relação de convenção, estabelecida em uma cultura: a pomba
branca representa a paz, assim como as logos representam suas determinadas marcas. Nas relações triádicas,
podemos corresponder primeiridade-representamen-ícone; secundidade-objeto-índice; terceiridade-
interpretante- símbolo.

Relações triádicas
Qualidade Relação (reação) Representação (mediação)
Primeiridade Secundidade Terceiridade
Signo (representamen) Objeto (referente) Interpretante (significado / novo
signo)
Ícone (relação de semelhança Índice (relação de contiguidade Sìmbolo (relação com objeto
com o objeto) com o objeto) convencionada)

Ícone – relação de imitação


Índice – relação de proximidade/indício
Símbolo – relação convencionada
MOURA, Maria Aparecida. “Ciência da informação e semiótica: conexão de saberes”. In: Encontros Bibli:
Revista eletrônica de biblioteconomia e ciência da informação, Florianópolis, p. 1-17, dez. 2006. Disponível
em: <https://periodicos.ufsc.br/index.php/eb/article/view/1518-2924.2006v11nesp3p1/430>. Acesso em: 27
fev. 2018.

Informação como signo


Informação é compreendida como representações produzidas pela mente criadora dos homens a qual os auxilia
na sua relação expressiva com o mundo. A informação é um signo que se atualiza na interface com o sujeito.
Na perspectiva peirciana a informação envolve um processo de aquisição de conhecimento.

Nesse sentido, “todas as palavras, sentenças, livros e outros signos convencionais são símbolos. Falamos de
escrever ou pronunciar a palavra “homem”, mas isso é apenas uma réplica ou materialização da palavra que é
pronunciada ou escrita. A palavra, em si mesma, não tem existência, embora tenha ser real, consistindo em
que os existentes deverão se conformar a ela. É um tipo geral de sucessão de sons, ou representamens de sons,
que só se torna um signo pela circunstância de que um hábito ou lei adquirida levam as réplicas, a que essa
sucessão dá lugar, a serem interpretadas como significando homem. Tanto palavras quanto signos são regras
gerais, mas a palavra isolada determina as qualidades de suas próprias réplicas”.
(PEIRCE apud SANTAELLA, 2004, p. 135-136).

Ciência da informação - Sua principal função é produzir conhecimentos que contribuam para a solução de
problemas relacionados à organização de sistemas de informação especializados na incorporação,
sistematização, disseminação e recuperação da informação.

Semiótica - A tese central da Semiótica peirciana informa que todo o pensamento se dá em signos. Sendo
assim, os gestos, as idéias, as cognições e até o próprio homem são considerados entidades semióticas. Nesse
contexto, signo é entendido como alguma coisa que representa algo para alguém. Para o teórico, a tarefa
principal dos filósofos era criar uma doutrina capaz de, através de suas categorias, contribuir para a análise de
todas as experiências possíveis. Tendo como ponto de partida, sua insatisfação com as categorias aristotélicas,
consideradas mais linguísticas do que lógicas, Peirce dedicou-se a elaboração de um novo complexo
categorial. Esse esforço teórico objetivava estabelecer categorias de análise dos fenômenos que tivessem um
caráter mais universal.

A semiose é, pois, um produto resultante do processo natural do signo, ou seja, a geração ad infinitum dos
interpretantes. Tais interpretantes remetem, sempre, para frente o destino e a completude da cadeia sígnica,
apresentando um tipo de opacidade que não nos permite capturá-lo de modo definitivo.

A Ciência da Informação tem por objetivo compreender as relações humanas mediadas pela informação e os
desdobramentos dessa ação. Busca para tanto compreender, do ponto de vista do sujeito, os aspectos sociais e
técnicos envolvidos na ação de produzir, sistematizar, organizar, disseminar e recuperar informação. Tais
informações são sustentadas organicamente por ferramentas, objetos, processos e manifestações culturais,
sociais e organizacionais.
A Semiótica, por seu turno, refere-se a um ponto de vista a partir do qual é possível conduzir uma investigação.

“Parece-nos que ao enfatizar o caráter processual da informação, a CI poderia migrar o foco de atenção das
ferramentas e suportes para os processos de significação empreendidos pelos sujeitos cognoscentes juntos aos
sistemas informacionais concretos. Tais alterações poderiam resgatar a centralidade humana nos processos de
significação e consolidar de forma mais efetiva e orgânica o diálogo entre a Semiótica e a Ciência da
Informação em torno do fenômeno informacional. Esse movimento permitiria à Ciência da informação ir além
da arbitragem das relações informacionais na sociedade contemporânea” (p.15)
BARROS, Camila Monteiro de; CAFÉ, Lígia Maria Arruda. Estudos da Semiótica na Ciência da Informação:
relatos de interdisciplinaridades. Perspectivas em Ciência da Informação, [S.l.], v. 17, n. 3, p. 18-33, ago.
2012. ISSN 19815344. Disponível em:
<http://portaldeperiodicos.eci.ufmg.br/index.php/pci/article/view/1501>. Acesso em: 27 fev. 2018.

Semiótica e Ciência da Informação (CI) apresentam linhas interdisciplinares de estudo, uma vez que a primeira
explora os processos de significação com específica propriedade e a segunda tem, nos processos de
significação, um importante aspecto que impacta no dimensionamento e tratamento do seu objeto de estudo.

Pierce – todas as ideias e, inclusive, o homem são fenômenos semióticos, ou seja, todos os fenômenos no
mundo estão permeados de signos.

O homem compreende o mundo por meio de uma representação que, por sua vez, é reconhecida por outra
representação, que Peirce denomina como interpretante da primeira, e, assim, ad infinitum. Peirce (1995)
afirma que um signo ou representamen é algo que, sob certo aspecto, representa algo para alguém. Ou seja,
para que algo seja um signo, é necessário que represente alguma outra coisa - seu objeto -, o signo dirige-se a
alguém e cria na mente dessa pessoa outro signo equivalente, o interpretante. Assim, o signo existe em uma
relação triádica entre objeto, signo e interpretante. Ao reconhecimento do interpretante, relaciona-se outro
signo, em um entendimento de significação que está sempre em expansão, em que o significado de um
pensamento ou signo é reconhecido por outro pensamento ou signo, em um processo de semiose infinita ou
autogeração. Dessa forma, a primeiridade, é um quase-signo, pois, ainda, não foi articuladamente pensado,
representado.

As relações que Peirce (1995) estabelece i) conforme o signo em si mesmo, ii) do signo conforme a relação
com seu objeto e iii) do signo conforme a relação com a representação do interpretante, considerando-se os
conceitos de primeiridade, secundidade e terceiridade, resultaram nas três tricotomias do signo e nas dez
classes de signos que, segundo o autor, podem sofrer ainda infinitas divisões.

As noções de signo 1º., 2º. e 3º. dizem respeito às categorias de primeiridade, secundidade e terceiridade.
Assim, o símbolo, por exemplo, é um signo de segunda tricotomia, que participa da categoria da terceiridade.
Cada tricotomia confere aos tipos de signo características que instituem a forma como se estabelecem as
relações no sistema sígnico, especialmente em relação ao objeto. Dessa forma, os signos que estão para a
primeiridade se relacionam ao seu objeto por meio das suas qualidades, da expressão de meras possibilidades
(PEIRCE, 1972) ou no nível de raciocínio (rema), no máximo, uma hipótese (SANTAELLA, 1993). Os signos
que estão para a secundidade têm uma relação existente, concreta, com seu objeto. Já os signos que estão para
a terceiridade, têm em si mesmos um comparecimento de lei. Assim, o argumento, tipo de maior complexidade
de significação, “é um Signo que se entende representar seu Objeto em seu caráter de Signo” (PEIRCE, 1972),
o argumento é um signo genuíno.

Umberto Eco
Umberto Eco (1991), em seu “Tratado geral de Semiótica”, propõe, partindo de uma crítica à Semiótica de
Peirce, conceitos diferenciados que integram, de forma mais específica, o problema dos referentes nos
processos semióticos. Na tricotomia peirceana de símbolo (arbitrariamente relacionado com seu objeto), ícone
(semelhante ao seu objeto) e índice (fisicamente relacionado com seu objeto), por exemplo, Eco (1991, p. 3)
atenta para o fato de que essas classificações são demasiadamente genéricas e “ocultam uma série de funções
sígnicas passíveis de segmentação”. Ou seja, para o autor, é necessário sim formular uma Semiótica geral,
mas que forneça uma definição apropriada a cada tipo de função sígnica e não apenas aos signos de forma
genérica.

Nesse sentido, Eco (1991) propõe que a Semiótica possui dois domínios: uma “Teoria dos códigos” e uma
“Teoria da produção sígnica”. Sendo que a teoria dos códigos dá embasamento ao desenvolvimento de uma
semiótica da significação, ou seja, só há sistema de significação e, portanto, códigos, se existir uma convenção
social que possibilite a geração da função sígnica (ECO, 1991). Eco (1991) esclarece: a fumaça funciona como
signo para fogo desde que exista uma convenção social precedente que associe a fumaça ao fogo, mas se o
fogo e a fumaça forem percebidos no mesmo momento, a fumaça já não funciona como signo do fogo. Nesse
sentido, o autor aponta que nem toda inferência é um ato semiósico, conforme Peirce afirmava, mas “existem
inferências que devem ser reconhecidas como atos semiósicos” (ECO, 1991, p. 12). São os tipos de função
sígnica que podem atribuir valor de função semiósica a determinados fenômenos, definindo, por sua vez, o
signo.

Semiótica na CI: organização e representação do conhecimento e da informação


Organização da informação – processo de modelagem do conhecimento que visa a construção de
representações do conhecimento, que se concretizam em sistemas de organização do conhecimento e
linguagens documentárias.
Organização da informação – processo que e desenvolvem a descrição física e de conteúdo de documentos,
gerando produtos de referência bibliográfica, índices e resumos, que são representações das informações.

A representação do conhecimento e da informação resulta em produtos que se relacionam com objetos, no


sentido peirceano. Ou seja, representar significa reapresentar algo, apresentar a coisa por meio de alguma
entidade de representação, essa abordagem se aproxima do conceito de signo (MONTEIRO; CARELLI;
PICKLER, 2006). Observamos discussões sobre os conceitos de informação e conhecimento, algumas vezes
relacionando o conceito a algum dos tipos de signo de Peirce. Para Moreira (2006), a informação é um índice,
pois mantém uma relação referencial com o conhecimento. Em uma perspectiva próxima, Monteiro (2006)
afirma que a representação da informação é indicial, sendo que “um sumário, um descritor, um catálogo, uma
referência expressam essa relação, seja física ou referencial” (MONTEIRO, 2006, p. 51). Na citação de
Monteiro (2006) é possível perceber uma retomada do conceito de RI.
 MOREIRA, S. O ícone e a possibilidade de informação. Encontros Bibli, Florianópolis, 2° número
esp., 2º sem. 2006.
 MONTEIRO, S.D. Semiótica Peirceana e a questão da informação e do conhecimento. Encontros
Bibli, Florianópolis, 2° número esp., 2º sem. 2006.

Autoras:
Ainda que provindas de bases teórico-metodológicas diferentes, nem sempre a Semiótica e a Linguística se
mostram divergentes. O que vale ressaltar é que a Semiótica pode aprofundar o conhecimento da CI nas
informações visuais e, especialmente, musicais, em que os fundamentos teóricos são menos sólidos e
pouquíssimos consolidados e, mais ainda, onde não há uma ciência com a especificidade da Linguística, por
exemplo, para sua análise no âmbito da significação.

No que concerne à Semiótica da imagem ou matriz visual, como sistema semiótico de comunicação, ela se
encontra em desenvolvimento mais sólido, pois os sistemas visuais são mais fortemente institucionalizados
(ECO, 1991) em âmbito social, especialmente por meio da área publicitária. Esses estudos preconizam
subsídios para a análise dos elementos da imagem na veiculação da informação, que podem e são aplicados
na análise da informação imagética, desde a perspectiva da análise documentária da CI (AUGUSTÍN
LACRUZ, 2006).

Já a Semiótica musical é um tema que está em desenvolvimento na área da Música (MARTINEZ, 1993;
SANTAELLA, 2009), e, ao que parece, em um olhar inicial, está intimamente relacionada com os conceitos
fundamentais da musicologia. Apontamos, portanto, para esse que consideramos um promissor percurso de
pesquisa na CI: a semiótica da música na exploração e aplicação de conceitos que fundamentem os princípios
de significação da música tanto em nível emocional, corporal como intelectual (MORAES, 1983),
perpassando ouvintes, intérpretes e compositores especialistas e leigos. Conceitos esses que podem formar um
patamar inicial de propulsão do desenvolvimento da pesquisa em informação musical na CI.