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A sociedade em rede

http://estudosdecomunicacao.blogspot.com/2007/09/sociedade-em-rede.html

A era da informação: economia, sociedade e cultura - volume 1: A


sociedade em rede (Manuel Castells - 1999)

Prólogo: a Rede e o Ser

O capitalismo passa por um processo de profunda reestruturação, caracterizado por


maior flexibilidade de gerenciamento; descentralização das empresas e sua
organização em redes tanto internamente quanto em suas relações com outras
empresas; considerável fortalecimento do capital face o trabalho, com declínio
concomitante da influência dos movimentos de trabalhadores; individualização e
diversificação cada vez maior das relações de trabalho; incorporação maciça das
mulheres na força de trabalho remunerada, geralmente em condições
discriminatórias; intervenção estatal para desregular os mercados de forma seletiva e
desfazer o estado de bem-estar social com diferentes intensidades e orientações,
dependendo da natureza das forças e instituições políticas de cada sociedade;
aumento da concorrência econômica global em um contexto de progressiva
diferenciação dos cenários geográficos e culturais para a acumulação e gestão de
capital; integração global dos mercados financeiros.

Devido a essas tendências, houve também uma acentuação do desenvolvimento


desigual, desta vez não apenas entre o Norte e o Sul, mas entre todos os segmentos e
territórios dinâmicos das sociedades em todos os lugares e aqueles que correm o risco
de tornarem-se não pertinentes sob a perspectiva da lógica do sistema. Na verdade,
observamos a liberação paralela de forças produtivas consideráveis da revolução
informacional, e a consolidação de buracos negros de miséria.

Além disso, um novo sistema de comunicação que fala cada vez mais uma língua
universal digital tanto está promovendo a integração global da produção e
distribuição de palavras, sons e imagens de nossa cultura, como os personalizando ao
gosto das identidades e humores dos indivíduos. As redes interativas de computadores
estão crescendo exponencialmente, criando novas formas e canais de comunicação,
moldando a vida e, ao mesmo tempo, sendo moldadas por ela. Simultaneamente, as
atividades criminosas e as organizações ao estilo da máfia de todo o mundo também
se tornaram globais e informacionais.

As mudanças sociais são tão drásticas quanto os processo de transformação


tecnológica e econômica, indo desde a condição feminina até a consciência
ambiental. Os sistemas políticos estão mergulhados em uma crise estrutural de
legitimidade, periodicamente arrasados por escândalos, com dependência total de
cobertura da mídia e de liderança personalizada, e cada vez mais isolados dos
cidadãos. Os movimentos sociais tendem a ser fragmentados, locais, ou com objetivos
únicos, efêmeros. Nesse mundo de mudanças confusas e incontroladas as pessoas
tendem a reagruparem-se em torno de identidades primárias: religiosas, étnicas,
territoriais e nacionais.

Em um mundo de fluxos globais de riqueza, poder e imagens, a busca da identidade,


coletiva ou individual, atribuída ou construída torna-se a fonte básica de significado
social. É a principal e talvez única fonte de significado em um período histórico
caracterizado pela ampla desestruturação das organizações, deslegitimação das
instituições, enfraquecimento de importantes movimentos sociais e expressões culturais

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efêmeras. Cada vez mais, as pessoas organizam seu significado não em torno do que
fazem, mas com base no que elas são ou acreditam que são.

Enquanto isso, as redes globais de intercâmbios instrumentais conectam e


desconectam indivíduos, grupos, regiões e até países, de acordo com sua pertinência
na realização dos objetivos processados na rede, em um fluxo contínuo de decisões
estratégicas. Segue-se uma divisão fundamental entre o instrumentalismo universal
abstrato e as identidades particularistas historicamente enraizadas. Nossas sociedades
estão cada vez mais estruturadas em uma oposição bipolar entre a Rede e o Ser.

Tecnologia, sociedade e transformação histórica

O dilema do determinismo tecnológico é, provavelmente, um problema infundado,


dado que a tecnologia é a sociedade, e a sociedade não pode ser entendida ou
representada sem suas ferramentas tecnológicas.

Assim, quando na década de 1970 um novo paradigma tecnológico, organizado com


base na tecnologia da informação, veio a ser constituído, foi um segmento específico
da sociedade norte-americana, em interação com a economia global e a
geopolítica mundial, que concretizou um novo estilo de produção, comunicação,
gerenciamento e vida. E é provável que esta origem no contexto californiano dos
anos 70 tenha tido grandes conseqüências para as formas e a evolução das novas
tecnologias da informação.

Apesar do papel importante do financiamento militar nos primeiros estágios, o grande


progresso tecnológico que se deu a partir de então pode ser relacionado de certa
forma à cultura da liberdade, da inovação individual e iniciativa empreendedora
oriunda dos campi norte-americanos da década de 60. A ênfase nos dispositivos
personalizados, na interatividade, na formação de redes e na busca incansável de
novas descobertas tecnológicas, mesmo quando não faziam muito sentido comercial,
não combinava com a tradição cautelosa do mundo corporativo.

No entanto, logo que estas tecnologias se propagaram, foram apropriadas por


diferentes países, várias culturas, organizações diversas e diferentes objetivos,
explodindo em todos os tipos de aplicações e usos, mas guardando certas
características originais.

Algo que também deve ser guardado para o entendimento da relação entre
tecnologia e sociedade é que o papel do Estado, seja interrompendo ou promovendo
e liderando a inovação tecnológica é um fator decisivo no processo geral, à medida
que expressa e organiza as forças sociais dominantes em um espaço e uma época
determinados. A tecnologia expressa a habilidade de uma sociedade para
impulsionar seu domínio tecnológico por intermédio das instituições, e o processo
histórico em que esse desenvolvimento de forças produtivas ocorre assinala as
características da tecnologia e seus entrelaçamentos com as relações sociais.

E não é diferente na revolução tecnológica atual. Ela originou-se e difundiu-se, não


por acaso, em um período histórico da estruturação global do capitalismo, para o
qual foi uma ferramenta básica. Portanto, a nova sociedade emergente deste
processo de transformação é capitalista e também informacional, embora apresente
variação histórica considerável nos diferentes países.

Este livro estuda o surgimento de uma nova estrutura social, manifestada sob várias
formas conforme a diversidade de culturas e instituições em todo o planeta. Essa nova

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estrutura social está associada a um novo modo de desenvolvimento, o


informacionalismo, historicamente moldado pela reestruturação do modo capitalista
de produção no final do século XX.

Capitalismo e informacionalismo

Cada modo de desenvolvimento é definido pelo elemento fundamental à promoção


da produtividade no processo produtivo. No modo agrário consegue-se excedente
por incremento de mão-de-obra e recursos naturais; no modo industrial, a principal
fonte de produtividade reside na introdução de novas e baratas fontes de energia; no
modo informacional, a fonte de produtividade acha-se na tecnologia de geração de
conhecimentos, de processamento da informação e de comunicação de símbolos.
Conhecimento e informação são cruciais em todos os modos de produção, mas o
novo no informacionalismo é a ação de conhecimentos sobre os próprios
conhecimentos como a principal fonte de produtividade. E os modos de
desenvolvimento modelam toda a esfera de comportamento social, inclusive a
comunicação simbólica. Portanto, devemos esperar o surgimento de novas formas
históricas de interação, controle e transformação social.

A reestruturação capitalista foi o fator histórico mais decisivo para a formação do


paradigma da tecnologia da informação, porque a tecnologia possibilitou as reformas
que o novo capitalismo exigia.

Após o fim do sucesso do modelo keynesiano de crescimento, com as crises do


petróleo e inflação de 1974 e 1979, uma série de reformas, tanto no âmbito das
instituições como no do gerenciamento empresarial, visavam quatro objetivos
principais: aprofundar a lógica capitalista de busca de lucro nas relações
capital/trabalho; aumentar a produtividade do trabalho e do capital; globalizar a
produção, circulação e mercados, aproveitando as condições mais vantajosas para a
obtenção de lucros em todos os lugares; e direcionar o apoio estatal para ganhos de
produtividade e competitividade das economias nacionais, freqüentemente em
detrimento da proteção social e das normas de interesse público.

A inovação tecnológica e a transformação organizacional com enfoque na


flexibilidade e adaptabilidade foram cruciais para garantir a velocidade e a eficiência
da reestruturação. Portanto, o informacionalismo está totalmente ligado à expansão e
ao rejuvenescimento do capitalismo.

O Ser na sociedade informacional

Os primeiros passos históricos das sociedades informacionais parecem caracterizá-las


pela preeminência da identidade como seu princípio organizacional. Mas afirmação
de identidade não significa necessariamente incapacidade de relacionar-se com
outras ou abarcar toda a sociedade sob esta identidade, como aspiram os
fundamentalismos.

Para Alain Touraine, numa sociedade pós-industrial em que os serviços culturais


substituíram os bens materiais no cerne da produção, é a defesa da personalidade e
da cultura do sujeito contra a lógica dos aparatos e mercados que substitui a idéia da
luta de classes.

É significativo que fundamentalismos de todos os tipos tenham se difundido por todo o


mundo no momento em que as redes globais de riqueza e poder conectam pontos
nodais e valorizam indivíduos em todo o planeta, embora desconectem e excluam

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grandes segmentos das sociedades, regiões e até países inteiros. Parece haver uma
lógica de excluir os agentes da exclusão: o processo de desconexão torna-se
recíproco após a recusa, pelos excluídos, da lógica unilateral de dominação estrutural
e exclusão social.

1) A Revolução da Tecnologia da Informação

Que revolução?

No final do século XX estamos vivendo um intervalo cuja característica é a


transformação de nossa "cultura material" pelos mecanismos de um novo paradigma
tecnológico que se organiza em torno da tecnologia da informação. O processo atual
de transformação tecnológica expande-se exponencialmente em razão de sua
capacidade de criar uma interface entre campos tecnológicos mediante uma
linguagem digital comum na qual a informação é gerada, armazenada, recuperada,
processada e transmitida. Vivemos em um mundo que se tornou digital. Esse é um
evento histórico da mesma importância da revolução industrial do século XVIII,
induzindo um padrão de descontinuidade nas bases materiais da economia,
sociedade e cultura. Diferentemente de qualquer outra revolução, o cerne da
transformação que estamos vivendo na revolução atual refere-se às tecnologias da
informação, processamento e comunicação.

O que caracteriza a atual revolução tecnológica não é a centralidade de


conhecimentos e informação, mas a aplicação desses conhecimentos e dessa
informação para geração de conhecimentos e de dispositivos e de
processamento/comunicação da informação, em um ciclo de realimentação
cumulativo entre a inovação e seu uso. Os usos das novas tecnologias de
telecomunicações nas duas ultimas décadas passaram por três estágios distintos: a
automação de tarefas, as experiências de usos e a reconfiguração das aplicações.
Nos dois primeiros estágios, o progresso da inovação tecnológica baseou-se em
aprender usando.

No terceiro estágio, os usuários aprenderam a tecnologia fazendo, o que acabou


resultando na reconfiguração das redes e na descoberta de novas aplicações. O
ciclo de realimentação entre a introdução de uma nova tecnologia, seus usos e seus
desenvolvimentos em novos domínios torna-se muito mais rápido ao novo paradigma
tecnológico. Conseqüentemente, a difusão da tecnologia amplifica seu poder de
forma infinita, "à medida que os usuários apropriam-se dela e a redefinem". Dessa
forma, os usuários podem assumir o controle da tecnologia como no caso da Internet.
Pela primeira vez na história, a mente humana é uma força direta de produção, não
apenas um elemento decisivo no sistema produtivo.

As novas tecnologias da informação difundiram-se pelo globo com a velocidade da


luz em menos de duas décadas, entre meados dos anos 70 e 90, por meio de uma
lógica que é a característica dessa revolução tecnológica: a aplicação imediata no
próprio desenvolvimento da tecnologia gerada, conectando o mundo através da
tecnologia da informação. Na verdade, há grandes áreas do mundo e consideráveis
segmentos da população que estão desconectados do novo sistema tecnológico. As
áreas desconectadas são cultural e espacialmente descontínuas.

A seqüência histórica da Revolução da Tecnologia da Informação

A breve, porém intensa, história da revolução da tecnologia da informação foi


contada tantas vezes nos últimos anos que é desnecessário relatá-la completamente.
Todavia, é útil para análise nos lembrarmos dos principais eixos da transformação

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tecnológica em geração/ processamento/ transmissão da informação, colocando-os


na seqüência que se deslocou rumo à formação de um novo paradigma
sociotécnico.

Macromudanças da microengenharia: eletrônica e informação

Foi durante a Segunda Guerra Mundial e no período seguinte que se deram as


principais descobertas tecnológicas em eletrônica, o primeiro computador
programável e o transistor, fonte da microeletrônica, o verdadeiro cerne da revolução
da tecnologia da informação no século XX. Porém, defendo que só na década de 70
as novas tecnologias da informação difundiram-se amplamente, acelerando seu
desenvolvimento sinérgico e convergindo em um novo paradigma.

O divisor tecnológico dos anos 70

Esse sistema tecnológico, em que estamos totalmente imersos nos anos 90, surgiu nos
anos 70. As descobertas básicas nas tecnologias da informação têm algo de essencial
em comum: embora baseadas principalmente nos conhecimentos já existentes e
desenvolvidas como uma extensão das tecnologias mais importantes, essas
tecnologias representaram um salto qualitativo na difusão maciça da tecnologia em
aplicações comerciais e civis, devido a sua acessibilidade e custo cada vez menor,
com qualidade cada vez maior. Podemos dizer que a Revolução da Tecnologia da
Informação propriamente dita nasceu na década de 70, principalmente se nela
incluirmos o surgimento e a difusão paralela da engenharia genética mais ou menos
nas mesmas datas e locais.

Tecnologias da vida

No inicio da década de 70, a combinação genética e a recombinação do DNA, base


tecnológica da engenharia genética, possibilitaram a aplicação de conhecimentos
cumulativos. Daí para frente, houve uma corrida para a abertura de empresas
comerciais. Dificuldades cientificas, problemas técnicos e obstáculos legais, oriundos
de justificadas preocupações éticas e de segurança, retardaram a louvada revolução
biotecnológica durante a década de 80.

Um considerável valor em investimentos de capital de risco foi perdido e algumas das


empresas mais inovadoras foram absorvidas por gigantes farmacêuticos. Porém, no
final da década de 80 e durante os anos 90, um grande impulso científico e uma nova
geração de cientistas ousados e empreendedores revitalizaram a biotecnologia com
um enfoque decisivo em engenharia genética, a tecnologia da vida verdadeiramente
revolucionária nesse campo. Devido à sua especificidade científica e social, a difusão
da engenharia genética progrediu de forma mais lenta que a eletrônica entre as
décadas de 70 e 90.

Mas, nos anos 90, mercados mais abertos e maiores recursos educacionais e de
pesquisas em todo o mundo estão acelerando a revolução biotecnológica. Todas as
indicações apontam para uma explosão de aplicações na virada do milênio, que
desencadeará um debate fundamental na fronteira, atualmente obscura, entre a
natureza e a sociedade.

O contexto social e a dinâmica da transformação tecnológica

Os caminhos seguidos pela indústria, economia e tecnologia são, apesar de


relacionados, lentos e de interação descompassada. A emergência de um novo
sistema tecnológico na década de 70 deve ser atribuída à dinâmica autônoma da

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descoberta e difusão tecnológica, inclusive aos efeitos sinérgicos entre todas as várias
principais tecnologias. O forte impulso tecnológico dos anos 60 promovido pelo setor
militar preparou a tecnologia norte-americana para o grande avanço.

A primeira Revolução em Tecnologia da Informação concentrou-se nos Estados


Unidos, e até certo ponto, na Califórnia nos anos 70, baseando-se nos progressos
alcançados nas duas décadas anteriores e sob a influência de vários fatores
institucionais, econômicos e culturais. Mas não se originou de qualquer necessidade
preestabelecida. Foi mais o resultado de indução tecnológica que de determinação
pessoal. Até certo ponto, a disponibilidade de novas tecnologias constituídas como
um sistema na década de 70 foi uma base fundamental para o processo de
reestruturação socioeconômica dos anos 80. E a utilização dessas tecnologias na
década de 80 condicionou, em grande parte, seus usos e trajetórias na década de 90.

O surgimento da sociedade em rede não pode ser entendido sem a interação entre
essas duas tendências relativamente autônomas: o desenvolvimento de novas
tecnologias da informação e a tentativa da antiga sociedade de reaparelhar-se com
o uso do poder da tecnologia para servir à tecnologia do poder. Sem necessidade de
render-se ao relativismo histórico, pode-se dizer que a Revolução da Tecnologia da
Informação dependeu cultural, histórica e espacialmente de um conjunto de
circunstâncias muito específicas cujas características determinaram sua futura
evolução.

Modelos, atores e locais da Revolução da Tecnologia da Informação

Se a primeira Revolução Industrial foi britânica, a primeira Revolução da Tecnologia da


Informação foi norte-americana, com tendência californiana. Nos dois casos, cientistas
e industriais de outros países tiveram um papel muito importante tanto na descoberta
como na difusão das novas tecnologias. A França e a Alemanha foram fontes
importantes de talentos e aplicações da Revolução Industrial. As descobertas
científicas originadas na Inglaterra, França, Alemanha e Itália constituíram a base das
novas tecnologias de eletrônica e biologia, a capacidade das empresas japonesas foi
decisiva para a melhoria do processo de fabricação com base em eletrônica e para
a penetração das tecnologias da informação na vida cotidiana mundial.

O setor como um todo evoluiu rumo a interpenetração, alianças estratégicas e


formação de redes entre empresas de diferentes países. As empresas, instituições e
inovadores norte-americanos não só participaram do início da revolução da década
de 70 como também continuaram a representar um papel de liderança na sua
expansão, posição que provavelmente se sustentara ao entrarmos no século XXI. Mas,
sem dúvida, testemunharemos uma presença cada vez maior de empresas japonesas,
chinesas, indianas e coreanas, assim como contribuições significativas da Europa em
biotecnologia e telecomunicações.

O desenvolvimento da Revolução da Tecnologia da Informação contribuiu para a


formação dos meios de inovação onde as descobertas e as aplicações interagiam e
eram testadas em um repetido processo de tentativa e erro: aprendia-se fazendo.
Esses ambientes exigiam (e na década de 90 ainda exigem, apesar da atuação on-
line) concentração espacial de centros de pesquisa, instituições de educação
superior, empresas de tecnologia avançada, uma rede auxiliar de fornecedores,
provendo bens e serviços e redes de empresas com capital de risco para financiar
novos empreendimentos.

Uma vez que um meio esteja consolidado, como o Vale do Silício na década de 70,
ele tende a gerar sua própria dinâmica e atrair conhecimentos, investimentos e
talentos de todas as partes do mundo. Será que esse padrão social, cultural e espacial

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de inovação pode ser estendido para o mundo inteiro? Nossas conclusões confirmam
o papel decisivo desempenhado pelos meios de inovação no desenvolvimento da
Revolução da Tecnologia da Informação: concentração de conhecimentos
científicos/tecnológicos, instituições, empresas e mão de obra qualificada são as forjas
da inovação da Era da Informação.

Porém, esses meios não precisam reproduzir o padrão cultural, espacial, institucional e
espacial do Vale do Silício ou de outros centros norte-americanos de inovação
tecnológica, como o sul da Califórnia, Boston, Seattle ou Austin. Foi o Estado, e não o
empreendedor de inovações em garagens, que iniciou a Revolução da Tecnologia
da Informação tanto nos EUA como em todo o mundo. Mas, sem esses empresários
inovadores que deram inicio ao Vale do Silício ou aos clones de PCs em Taiwan, a
Revolução da Tecnologia da Informação teria adquirido características muito
diferentes e é improvável que tivesse evoluído para a forma de dispositivos
tecnológicos flexíveis e descentralizados que estão se difundindo por todas as esferas
da atividade humana.

Na realidade, é mediante essa interface entre os programas de macropesquisa e


grandes mercados desenvolvidos pelos governos, por um lado, e a inovação
descentralizada estimulada por uma cultura de criatividade tecnológica e por
modelos de sucesso pessoais rápidos, por outro, que as novas tecnologias da
informação prosperam. No processo, essas tecnologias agruparam-se em torno de
redes de empresas, organizações e instituições para formar um novo paradigma
sociotécnico.

O paradigma da tecnologia da informação

* A primeira característica do novo paradigma é que a informação é sua matéria-


prima: são tecnologias para agir sobre a informação, não apenas informação para
agir sobre a tecnologia, como foi o caso das revoluções tecnológicas anteriores.

* O segundo aspecto refere-se à penetrabilidade dos efeitos das novas tecnologias.


Como a informação é uma parte integral de toda atividade humana, todos os
processos de nossa existência individual e coletiva são diretamente moldados
(embora, com certeza, não determinados) pelo novo meio tecnológico.

* A terceira característica refere-se à lógica de redes em qualquer sistema ou conjunto


de relações, usando essas novas tecnologias da informação.

* Em quarto lugar, referente aos sistemas de redes, mas sendo um aspecto claramente
distinto, o paradigma da tecnologia da informação é baseado na flexibilidade. Não
apenas os processos são reversíveis, mas organizações e instituições podem ser
modificadas, e até mesmo fundamentalmente alterada, pela reorganização de seus
componentes.

* Uma quinta característica dessa revolução tecnológica é a crescente convergência


de tecnologias específicas para um sistema altamente integrado, no qual trajetórias
tecnológicas antigas ficam literalmente impossíveis de se distinguir em separado. A
dimensão social da Revolução da Tecnologia da Informação parece destinada a
cumprir a lei sobre a relação entre a tecnologia e a sociedade proposta de algum
tempo atrás por Melvin Kranzberg: "A primeira lei de Kranzberg diz: A tecnologia não é
nem boa, nem ruim, e também não é neutra." É uma força que provavelmente está,
mais do que nunca, sob o atual paradigma tecnológico que penetra no âmago da
vida e da mente. Mas seu verdadeiro uso na esfera da adição social consciente e

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complexa matriz de interação entre as forças tecnológicas liberadas por nossa


espécie e a espécie em si são questões mais de investigação que de destino.

2) A nova economia: informacionalismo, globalização, funcionamento em rede

Introdução
Uma nova economia, informacional e global, surgiu nas duas últimas décadas. É
informacional, porque a produtividade e a competitividade de unidades ou agentes
nessa economia dependem basicamente da sua capacidade de gerar, processar e
aplicar de forma eficiente a informação baseada em conhecimentos. É global porque
as principais atividades produtivas estão organizadas em escala global, diretamente
ou mediante uma rede de conexões entre agentes econômicos.É informacional e
global porque a produtividade é gerada e a concorrência é feita em uma rede global
de interação.

Produtividade, competitividade e a economia informal

O enigma da produtividade

Foi por meio do aumento da produção por unidade de insumo no tempo que a raça
humana conseguiu comandar as forças da Natureza. Os caminhos específicos do
aumento da produtividade definem a estrutura e a dinâmica de um determinado
sistema econômico.

Se houver uma nova economia informacional, deveremos identificar as fontes de


produtividade que distinguem essa economia. O aumento da produção por hora de
trabalho não era resultado de adição de mão-de-obra e apenas ligeiramente de
adição de capital, mas vinha de outra fonte, expressa como um residual estatístico em
sua equação da função de produção. Economistas, sociólogos e historiadores
econômicos não hesitaram em interpretar o "residual" como sendo correspondente a
transformações tecnológicas. Nas elaborações mais precisas, "ciência e tecnologia"
eram compreendidas em sentido amplo: a tecnologia voltada para o gerenciamento
foi considerada tão importante quanto o gerenciamento da tecnologia.

Afirmar que a produtividade gera crescimento econômico e que ela é uma função da
transformação tecnológica equivale a dizer que as características da sociedade são
os fatores cruciais subjacentes ao crescimento econômico, por seu impacto na
inovação tecnológica. A produtividade baseada em conhecimentos é específica da
economia informacional? Demonstrou-se o papel fundamental desempenhado pela
tecnologia no crescimento da economia, via aumento da produtividade, durante
toda a história e especialmente na era industrial. A hipótese do papel decisivo da
tecnologia como fonte da produtividade nas economias avançadas também parece
conseguir abranger a maior parte da experiência passada de crescimento
econômico, permeando diferentes tradições intelectuais em teoria econômica.

Houve uma proporção significativa da desaceleração da produtividade, que é


resultado da crescente inadequação de estatísticas econômicas ao captarem os
movimentos da nova economia informacional, exatamente devido ao amplo escopo
de suas transformações sob o impacto da tecnologia da informação e das mudanças
organizacionais conexas. Pode ser que a produtividade não esteja desaparecendo, e
sim aumentando por vias parcialmente obscuras em círculos em expansão.

A tecnologia e o gerenciamento da tecnologia poderiam estar se difundindo a partir


da produção da tecnologia da informação, telecomunicações e serviços financeiros,
alcançando em grande parte a atividade industrial e depois os serviços empresariais.

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Mas o quadro ainda é confuso, pois no momento os dados são insuficientes para
estabelecer uma tendência. Estes podem servir de base para a compreensão da
economia informacional, mas não conseguem informar a história real.

Informacionalismo e capitalismo, produtividade e lucratividade

A longo prazo, a produtividade é a fonte da riqueza das nações.E a tecnologia é o


principal fator que induz à produtividade. Mas esta não é um objeto em si. E o
investimento em tecnologia também não é feito por causa da inovação tecnológica.
Empresas e nações são os verdadeiros agentes do crescimento econômico.
Comportam-se em um determinado contexto histórico, conforme as regras de um
sistema econômico. Assim, as empresas estão motivadas não pela produtividade, e
sim pela lucratividade. E as instituições políticas estarão voltadas para a maximização
da competitividade de suas economias. A lucratividade e a competitividade são os
verdadeiros determinantes da inovação tecnológica e do crescimento da
produtividade.

O processo de globalização realimenta o crescimento da produtividade, visto que as


empresas melhoram seu desempenho quando encaram maior concorrência mundial.
A via que conecta a tecnologia da informação, as mudanças organizacionais e o
crescimento da produtividade passa pela concorrência global. Foi desse modo que a
busca da lucratividade pelas empresas e a mobilização das nações a favor da
competitividade induziram arranjos variáveis na nova equação histórica entre a
tecnologia e a produtividade. No processo, foi criada e moldada uma nova
economia global que pode ser considerada o traço mais típico e importante do
capitalismo informacional.

A repolitização do capitalismo informacional

Os interesses políticos específicos do Estado ficam diretamente ligados ao destino da


concorrência econômica das empresas. A nova forma de intervenção estatal na
economia une a competitividade, a produtividade e a tecnologia. A política e a
produtividade ficam interligadas, tornando-se instrumentos fundamentais para a
competitividade.

Por causa da interdependência e abertura da economia internacional, os Estados


devem empenhar-se em promover o desenvolvimento de estratégias em nome de seu
empresariado. A economia informacional global é uma economia muito politizada, e
a grande concorrência de mercado em escala global ocorre sob condições de
comércio administrado. A nova economia, baseada em reestruturação sócio-
econômica e revolução tecnológica será moldada, até certo ponto, de acordo com
os processos políticos desenvolvidos no e pelo Estado.

A economia global: gênese, estrutura e dinâmica

Uma economia global é uma economia com capacidade de funcionar como uma
unidade em tempo real, em escala planetária. No final do século XX a economia
mundial conseguiu tornar-se verdadeiramente global com base na nova infra-
estrutura, propiciada pelas tecnologias da informação e comunicação. Essa
globalidade envolve os principais processos e elementos do sistema econômico.

As novas tecnologias permitem que o capital seja transportado de um lado para o


outro entre economias em curtíssimo prazo, de forma que o capital está
interconectado em todo o mundo. Os fluxos de capital tornam-se globais, e ao mesmo
tempo, cada vez mais autônomos vis-à-vis o desempenho real das economias. A mais

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importante transformação subjacente ao surgimento da economia global diz respeito


ao gerenciamento da produção e distribuição e ao próprio processo produtivo.

O que é fundamental nessa estrutura industrial é que ela está disseminada pelos
territórios em todo o globo e sua geometria muda constantemente no todo e em
cada unidade individual. O mais importante elemento para uma estratégia
administrativa bem sucedida é posicionar a empresa na rede, de modo a ganhar
vantagem competitiva para sua posição relativa.

A mais nova divisão internacional do trabalho

A economia global resultante da produção e concorrência com base informacional


caracteriza-se por sua interdependência, assimetria, regionalização, crescente
diversificação dentro de cada região, inclusão seletiva, segmentação excludente e,
em conseqüência de todos esses fatores, por uma geometria extraordinariamente
variável que tende a desintegrar a geografia econômica e histórica.

A arquitetura e a geometria da economia informacional/global

A estrutura dessa economia caracteriza-se pela combinação de uma estrutura


permanente e uma geometria variável. A arquitetura da economia global apresenta
um mundo assimétrico interdependente, organizado em trono de três regiões
econômicas principais (Europa, América do Norte e região do Pacífico asiático) e
cada vez mais polarizado ao longo de um eixo de oposição entre as áreas prósperas
produtivas e ricas em informação e as áreas empobrecidas, sem valor econômico, e
atingidas pela exclusão social. A interligação dos processos econômicos entre as três
regiões torna seu destino praticamente inseparável. A mais nova divisão internacional
do trabalho está disposta em quatro posições diferentes na economia
informacional/global: produtores de alto valor com base no trabalho informacional;
produtores de grande volume baseado no trabalho de mais baixo custo; produtores
de matérias-primas que se baseiam em recursos naturais; e os produtores redundantes,
reduzidos ao trabalho desvalorizado.

A questão crucial é que essas posições diferentes não coincidem com países. São
organizadas em redes e fluxos, utilizando a infra-estrutura tecnológica da economia
informacional. A posição da divisão internacional do trabalho depende das
características de sua mão-de-obra e de sua inserção na economia global. A mais
nova divisão internacional do trabalho está organizada com base em trabalho e
tecnologia, mas é implementada e modificada por governos e empreendedores.

3) A empresa em rede: a cultura, as instituições, e as organizações de economia


informal

A economia informal é caracterizada por cultura e instituições específicas, onde tal


cultura necessária para o desenvolvimento e constituição de um sistema econômico é
realizada nas lógicas organizacionais, de acordo com o conceito de Nicole Biggart:
"...por lógicas organizacionais, refiro-me a um princípio legitimador elaborado em uma
série de práticas sociais derivativas. Em outras palavras, lógicas organizacionais são as
bases ideacionais para as relações das autoridades institucionalizadas."Minha tese
então parte do princípio que a economia informacional surge do desenvolvimento de
uma lógica organizacional e da atual transformação tecnológica.

A respeito disso podemos citar a trajetória do industrialismo para o informacionalismo


na reestruturação econômica dos anos 80, causada pela crise de lucratividade do
processo de acumulação de capital da década de 70.

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Como principais pontos dessa reestruturação:

o divisão na organização da produção e dos mercados na economia global;


o as transformações organizacionais interagiram com a difusão da tecnologia de
informação, mesmo sendo independentes uma da outra; o essas transformações
organizacionais visavam lidar com a incerteza causada pelas velozes mudanças no
ambiente econômico, institucional, tecnológico da empresa;
o introdução do modelo de "produção enxuta", visando economizar mão-de-obra,
eliminar tarefas e suprimir camadas administrativas, mediante automação.

Muitas foram as transformações organizacionais, cada uma seguindo uma certa


tendência que ao todo deram impulso para a reestruturação do capitalismo vigente
nos anos 70. Uma das principais tendências da evolução organizacional foi a
passagem da produção em massa; norteada pela integração vertical, seguida da
divisão social e técnica de trabalho; para a produção flexível, a qual se adequava
melhor a imprevisível demanda do mercado, qualitativa ou quantitativa, ou ainda as
transformações tecnológicas e as diversificações dos mercados. Portanto essa
flexibilidade na produção traz consigo a idéia de adequação ao mercado
(flexibilidade do produto) e transformação tecnológica (flexibilidade do processo).

Como segunda tendência a ser estudada, temos o vigente aumento do poder


econômico das pequenas e médias empresas, bem compatíveis com o processo de
produção flexível. Mesmo estando ainda sob o controle tecnológico e financeiro das
grandes empresas estão dando essas últimas o dinamismo necessário na nova
conjuntura econômica global. A terceira tendência diz respeito aos novos métodos de
gerenciamento empresarial, o "toyotismo", adaptado à economia global e à
produção flexível.

Suas bases são:

o sistema de fornecimento "Kan-Kan" (just in time), no qual os estoques são eliminados


ou reduzidos substancialmente no exato momento da solicitação e com
características especificas do comprador; o controle de qualidade total ao longo do
processo produtivo; o envolvimento dos trabalhadores no processo produtivo;
o mão-de-obra multifuncional, sem especialização em uma única função; o prêmios
por trabalho e poucos símbolos de status na vida da empresa.

Dessa forma, caracterizamos o "toyotismo" como um sistema de gerenciamento que


mais reduz as incertezas do que estimula a adaptalidadde, um "pós-fordismo" baseado
nos "5 zeros" (zero defeitos de peças, zero danos nas máquinas, estoque zero, danos
zero e burocracia zero). Citaremos também a formação de redes entre pequenas
empresas com gerenciamento das grandes empresas e as alianças entre empresas de
grande porte em relação à parte do mercado. Sendo essas duas tendências resultado
da interação entre as mudanças organizacionais e a tecnologia da informação
(digitalização das telecomunicações, transmissão em banda larga e melhoria nos
computadores em rede), uma mistura que gerou a "empresa em rede", que processa
e gera informações para melhor adaptação para o mercado mundial.

Sabendo que a organização econômica baseia-se na cultura, história e nas


instituições; a economia fundada na "empresa em rede" encaixa-se como "uma luva"
nos moldes asiáticos, a ponto de distinguirmos três tipos de rede no leste asiático:
o a rede japonesa: grandes empresas que são donas umas das outras, onde as
empresas principais são dirigidas por administradores; o a rede coreana baseada nas
"zaibatsus" japonesas, onde as empresas são controladas por uma holding financiada
por bancos e companhias trading governamentais, pertencentes a uma pessoa ou

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família; o a rede chinesa: empresas familiares, rede de empresas de diversos setores


onde o lema é "família cresce, empresa cresce".

A diferença básica entre esses modelos de empresas em rede está fundamentalmente


no papel do Estado na economia. Por exemplo: no Japão o Estado foi responsável
pelo início da industrialização (zaibatsus de origem feudal) e hoje dá um suporte a
essa indústria através da facilitação de empréstimos bancários, política de apoio fiscal
e acordos internacionais, sendo o Japão o grande influenciador de Coréia e Taiwan;
já na China o Estado sempre teve um papel inconstante, onde ora requisitava a
indústria ora impelia a ela rigorosos impostos, dando pouco incentivos às indústrias e
fazendo essas últimas voltarem-se para as famílias, apesar de muitos progressos atuais
serem devidos a planos econômicos governamentais.

Mas até que ponto as empresas em rede modificaram a economia global, e as


multinacionais? A resposta é simples, hoje as multinacionais fugiram do seu antigo
modelo vertical, e apresentam-se ou como a principal dentre outras empresas em
rede, ou formam alianças de cooperação entre elas, o que mesmo assim não mais lhe
dão o título de centro da economia global, pois o mercado voltou a ser imprevisível
movido por estratégias e descobertas redirecionadas por redes globais de
informação.

Portanto, podemos definir que o atual estágio do capitalismo é definido por alterações
causadas pelo informacionalismo, surgido a partir das mesmas necessidades que
norteiam até hoje a vida do capitalismo: espírito empresarial de acumulação, e o
constante apelo ao consumismo, e tudo isso acompanhado pela evolução
tecnológica, seja nas telecomunicações ou nos softwares; concorrência global de
mercado, grau de intervenção estatal; características das 3 últimas que regem o
coração da atual economia mundial, "empresa em rede".

4) A transformação do trabalho e do mercado de trabalho: trabalhadores ativos na


rede, desempregados e trabalhadores com jornada flexível

A evolução histórica da estrutura ocupacional e do emprego nos países capitalistas


avançados: o G7 de 1920 a 2005

Para o autor, em qualquer processo de transição histórica, uma das expressões de


mudança é a transformação da estrutura ocupacional, ou seja, a transformação das
categorias ocupacionais e do emprego. O próprio pós-industrialismo detecta o
aparecimento de uma nova estrutura social a partir da mudança de produtos para
serviços, pelo surgimento de profissões administrativas e especializadas, pelo fim do
emprego rural e industrial e pelo aumento do conteúdo de informação no trabalho
das economias mais avançadas. Porém, o problema é que essas formulações trazem
uma espécie de lei natural das economias e sociedades que devem seguir um único
caminho na trajetória da modernidade lideradas pela sociedade norte-americana.

O autor traz uma abordagem diferente, já que ele enxerga uma variação histórica de
modelos de mercado de trabalho segundo as instituições, a cultura e os ambientes
políticos específicos de cada país. Para isto, ele examinou a evolução do mercado de
trabalho dos paises do G-7 entre 1920 e 1990. Todos eles estão num estagio avançado
de transição para a sociedade informacional, e logo podem ser vistos com o
surgimento de novos modelos de mercado de trabalho; ao mesmo tempo possuem
cultura e sistemas institucionais muito diferentes, o que nos permite, segundo o autor,
verificar a dita variação histórica. A partir desta análise, o autor conduz a sua pesquisa
no sentido de mostrar que outras sociedades em outros níveis de desenvolvimento não
necessariamente teriam que seguir a trajetória dos países do G-7.

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O pós-industrialismo, a economia de serviços e a sociedade informacional

O autor analisa e faz ressalvas a três afirmações da teoria clássica do pós-


industrialismo: (a) A fonte de produtividade reside na geração de conhecimento
mediante o processamento de informação. (b) A atividade econômica mudaria de
produção de bens para prestação de serviços. Quanto mais avançada a economia,
mais seu mercado de trabalho e sua produção seriam concentrados em serviços. (c)
A nova economia aumentaria sobremaneira a importância de profissões com grande
conteúdo de informação: administrativas, especializadas e técnicas. Para o autor, a
distinção entre as economias dentro do processo histórico deve ser vista não como a
distinção entre uma economia industrial e uma pós-industrial, mas entre duas formas
de produção industrial, rural e de serviços baseadas em conhecimentos.

Em outras palavras o conhecimento sempre foi e será imprescindível na evolução das


economias; o que acontece é que o seu uso em diferentes épocas gera diferentes
processos econômicos. Já a segunda afirmação (b), o autor rebate com o fato de
que muitos serviços dependem de conexão direta com a indústria e também com a
importância da atividade industrial no PNB dos países ricos. Além disso, para ele o
conceito de serviços é ambíguo, se não errôneo, já que este conceito abarca tudo o
que não é agricultura, mineração, construção, empresas de serviços público ou
indústria. E muitos processos cruciais da era da informação não permitem a distinção
entre "bens" e "serviços agregados", como por exemplo softwares, agropecuária com
base em biotecnologia dentre outros. O terceiro prognóstico pós-industrialista requer,
segundo o livro, alguma restrição, na medida em que simultâneo a esta tendência há
também o crescimento das profissões em serviços mais simples e menos qualificados,
profissões que teriam um crescimento mais lento, mas contínuo.

Para Manuel Castells, é preciso se fazer um exame mais aprofundado no conteúdo


real destas classificações antes de caracterizar o nosso futuro como uma república da
elite instruída. No entanto, o argumento mais importante contra esta versão simplista
do pós-industrialismo é a crítica à suposição de que as três características examinadas
se unem na evolução histórica e que essa evolução leva a um modelo único da
sociedade informacional. É preciso separar o que pertence à estrutura da sociedade
informacional daquilo que é especifico à trajetória histórica de determinado país.
Trabalhando nesta direção, o autor compila diversos dados do setor de serviços dos
países ricos na tentativa de diferenciá-los.

A transformação na estrutura do emprego - 1920-70 e 1970-90

De 1920-70 e 1970-90 podemos ter uma distinção analítica entre os dois períodos.
Durante o primeiro período, as sociedades em exame tornaram-se pós-rurais,
enquanto no segundo período elas tornaram-se pós-industriais. Ou seja, houve queda
do emprego rural no primeiro caso e queda do emprego industrial no segundo. Em
seguida o autor faz uma análise na evolução histórica do setor de serviços nesses
paises do G-7, essencial apra entendermos todo este processo. Serviços relacionados
à produção: são considerados estratégicos dentro da nova economia, fornecem
informação e suporte para o aumento da produção, portanto, sua expansão deverá
seguir de mãos dadas com o aumento da sofisticação e produtividade da economia.
E de fato nos dois períodos (1920-70 e 1970-90), observamos uma expansão
significativa do emprego nestas atividades em todos os países considerados. Serviços
sociais: além de caracterizar as sociedades pós-industriais, representam entre 1/5 e 1/4
do total de empregos dos países do G-7. Mas a sua expansão está mais relacionada
ao impacto dos movimentos sociais do que ao advento do pós-industrialismo,
principalmente nos anos 60.

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No geral, podemos dizer que, embora o alto nível de expansão do emprego em


serviços sociais seja uma característica de todas as sociedades avançadas, o ritmo
dessa expansão parece depender mais diretamente da relação entre o Estado e a
sociedade do que do estágio de desenvolvimento da economia. Serviços de
distribuição: combinam transportes e comunicações - atividades relacionadas de
todas as economias avançadas - com o comércio no atacado e a varejo, atividades
supostamente típicas do setor de serviços das sociedades menos industrializadas.
Igualmente aos serviços sociais, os serviços de distribuição representam entre 1/5 e 1/4
do total de empregos. Serviços pessoais: ao enfocar os empregos ligados a "bares,
restaurantes e similares", encontramos uma expansão significativa desses postos de
trabalho nos últimos vinte anos.

A principal observação a ser feita sobre o mercado de trabalho do setor de serviços


pessoais é que esses empregos não estão desaparecendo nas economias avançadas.
Portanto, é possível afirmar que as mudanças da estrutura social/econômica dizem
respeito mais ao tipo de serviços e ao tipo de emprego do que às atividades em si. Em
resumo, para Manuel Castells, o que acontece com o pós-industrialismo é uma
diversidade cada vez maior de atividades que torna obsoletas as categorias de
emprego.

Mas não parece que grande produtividade, estabilidade social e competitividade


internacional estejam diretamente associadas ao mais alto nível de emprego em
serviços ou processamento de informação. Desse modo, quando as sociedades
decretam o fim do emprego industrial ao invés da modernização das indústrias, não é
porque necessariamente são mais avançadas, mas porque seguem políticas e
estratégias específicas baseadas em seu pano de fundo cultural, social e político.

A nova estrutura ocupacional

O autor ressalta alguns pontos importantes da nova estrutura ocupacional dentre eles
a diversidade do emprego, dentro deste fator uma ressalva importante é a variação
da proporção da mão-de-obra semi-qualificada no setor de serviços, principalmente
nos EUA, Canadá e na Alemanha, bem menor no Japão, França e Itália, países que
de certa forma preservam mais as atividades tradicionais como a rural e comerciais.
Isso se deve ao fato do modelo norte-americano caminhar para o informacionalismo
mediante a substituição das antigas profissões pelas novas. O modelo japonês
também caminha para o informacionalismo, mas segue uma rota diferente: aumenta
o número de novas profissões, mas as antigas são redefinidas; já os países europeus
seguem um misto das duas tendências.

Por falar em tendência, uma aponta para o aumento do peso relativo das profissões
mais claramente informacionais (administradores, profissionais especializados e
técnicos), bem como das profissões ligadas a serviços de escritório em geral (inclusive
funcionários administrativos e de vendas). Tendo primeiro falado da diversidade,
Manuel Castells também aponta uma outra tendência que é a maior presença de
conteúdo informacional na estrutura ocupacional das sociedades avançadas, apesar
de seus sistemas culturais/sociais.

Dessa forma, o perfil profissional das sociedades informacionais, de acordo com sua
emergência histórica, será muito mais diverso que o imaginado pela visão
seminaturalista das teorias pós-industrialistas, direcionadas por um etnocentrismo norte-
americano que não representa toda a experiência dos Estados Unidos.

O amadurecimento da sociedade informacional: projeções de emprego para o seculo


XXI
O autor analisou os EUA e o Japão em termos de suas projeções de emprego e para

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os EUA a estrutura futura do mercado de trabalho combina intimamente com o


projeto original da sociedade informacional: o o emprego rural está sendo eliminado
pouco a pouco; o o emprego industrial continuará a declinar, embora em ritmo mais
lento, sendo reduzido aos elementos principais da categoria de artíficies e
trabalhadores do setor de engenharia.

A maior parte do impacto da produção industrial sobre o emprego será transferida


aos serviços voltados para a indústria: o os serviços relacionados à produção, bem
como a saúde e educação lideram o crescimento do emprego em termos
percentuais, também se tornando cada vez mais importantes em termos de números
absolutos; o os empregos dos setores varejista e de serviços continuam a engrossar as
fileiras de atividades de baixa qualificação na nova economia.

Já no caso do Japão, projeta-se um aumento impressionante no setor de serviços,


revelando o crescente papel das atividades que fazem uso intensivo de informação
na economia japonesa. Os dados também parecem indicar o aumento crescente da
profissionalização dos trabalhadores de nível médio e a especialização das tarefas
relativas ao processamento da informação e a geração de conhecimentos.

Pelas projeções, as categorias de operadores e artífices declinarão, mas ainda


representarão mais de 1/4 da força de trabalho em 2005. Dessa forma, nas projeções
do mercado de trabalho nos EUA e no Japão parecem continuar as tendências
observadas para o período de 1970-90. São nitidamente duas diferentes estruturas
ocupacionais e do emprego correspondestes a duas sociedades que podem ser
igualmente rotuladas de informacionais, mas com crescimentos bem distintos na
produtividade, competitividade econômica e coesão social.

5) A cultura da virtualidade real: a integração da comunicação eletrônica, o fim da


audiência de massa e o surgimento de redes interativas

Uma transformação tecnológica de dimensões históricas similares à invenção do


alfabeto na Grécia está ocorrendo: a integração de vários modos de comunicação
em uma rede interativa. Ou, em outras palavras, a formação de um hipertexto e uma
metalinguagem que, pela primeira vez na história, integra no mesmo sistema as
modalidades escrita, oral e audiovisual da comunicação humana. O espírito humano
reúne suas dimensões em uma nova interação entre os dois lados do cérebro,
máquinas e contextos sociais. Apesar de toda a ideologia da ficção e da publicidade
em torno da chamada infovia, não podemos subestimar sua importância.

A integração potencial de texto, imagens e sons no mesmo sistema – interagindo a


partir de pontos múltiplos, no tempo escolhido, em uma rede global, em condições de
acesso aberto e de preço acessível – muda de forma fundamental o caráter da
comunicação. E a comunicação, decididamente, molda a cultura. Como a cultura é
mediada e determinada pela comunicação, as próprias culturas, isto é, nossos
sistemas de crenças e códigos historicamente produzidos estão sendo transformados
de maneira fundamental pelo novo sistema tecnológico.

Da galáxia de Gutenberg à galáxia de McLuhan: o surgimento da cultura dos meios de


comunicação de massa

A difusão da TV nas três décadas após a Segunda Guerra Mundial (em épocas
diferentes e com intensidade variável dependendo da região), criou uma nova
galáxia de comunicação. Não que os outros meios de comunicação
desaparecessem, mas foram reestruturados e reorganizados, adaptando-se.

O conceito de cultura de massa, originado da sociedade de massa, foi uma

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expressão direta do sistema de mídia resultante do controle da nova tecnologia de


comunicação. Uma mensagem similar era enviada ao mesmo tempo de alguns
emissores centralizados para uma audiência de milhões de receptores. Desse modo,
em geral o conteúdo e formato das mensagens eram personalizados para o
denominador comum mais baixo. A audiência era considerada homogênea ou
passível de ser homogeneizada.

Mas o que a TV trouxe de novidade não foi tanto seu poder centralizador e potencial
como instrumento de dominação, já que o rádio, por exemplo, já tinha sido usado
para isso. O que a TV representou, antes de tudo, foi o fim da galáxia de Gutenberg,
ou seja, de um sistema de comunicação essencialmente dominado pela mente
tipográfica e pela ordem do alfabeto fonético.

Assim como McLuhan, o estudioso de comunicação Neil Postman também acha que
a televisão representa uma ruptura histórica com o espírito tipográfico: “Possivelmente,
a tipografia tem a tendência mais forte para a elucidação: capacidade sofisticada
de pensar de maneira conceitual, dedutiva e seqüencial; alta valorização da razão e
ordem; aversão à contradição; grande capacidade de desligamento e objetividade;
e tolerância à reação atrasada. O entretenimento é a supra-ideologia de todo o
discurso. Não importa o que seja representado nem seu ponto de vista, a presunção
abrangente é a de que a TV está lá para nossa diversão e prazer”.

Os estudiosos concordam em pontos básicos sobre a TV: tornou-se o epicentro cultural


de nossas sociedades, e a modalidade de comunicação da televisão é um meio
fundamentalmente novo, caracterizado pela sua sedução, estimulação sensorial da
realidade, e fácil comunicabilidade, na linha do modelo do menor esforço
psicológico.

Entretanto, sabe-se que a audiência da mídia de massa não é uma desamparada


perante a todo-poderosa, e os estudos têm relativizado seu poder, e limitado os efeitos
inclusive da publicidade, incluindo outras variáveis na recepção, e superando as
teorias apocalípticas de Marcuse a Habermas, que viam as pessoas como
receptáculos passivos de manipulação ideológica. Mas enfatizar a autonomia da
mente humana e dos sistemas culturais individuais não implica que os meios de
comunicação sejam instituições neutras, ou que os efeitos da mídia sejam desprezíveis.

A mídia audiovisual, em nossa cultura, continua sendo o material básico dos processos
de comunicação, e a maior parte dos nossos estímulos simbólicos vêm dela. E é por
isso que anunciantes e políticos não prescindem de aparecer através da TV. Em uma
sociedade organizada em torno da grande mídia, a existência de mensagens fora da
mídia fica restrita a redes interpessoais, portanto desaparece do inconsciente coletivo.

É um sistema de feedbacks: a mídia é a expressão de nossa cultura e nossa cultura


funciona principalmente por intermédio de materiais propiciados pela mídia, mesmo
que de comunicação de massa passasse a ser mais segmentada conforme a
tecnologia e as empresas permitiram iniciativas de identificação com o público.

A diversificação das mensagens e expressões da mídia não implica perda de controle


da televisão pelas principais empresas e governos. A tendência oposta tem sido
verificada, com formação de megagrupos e alianças para conseguir fatias de um
mercado em transformação. A televisão se tornou mais comercializada do que nunca
e cada vez mais oligopolista no âmbito global. Mas nem por isso estamos vivendo
numa “aldeia global”: estamos em domicílios sob medida, globalmente produzidos e
localmente distribuídos.

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A galáxia de McLuhan tem uma lógica unidirecional que não permite um real
feedback da audiência: é um mundo de mão única, e não de interação. Ela não
expressa a cultura da informação. Só após a recepção se misturar à emissão e poder
conversar entre si, com a galáxia da Internet, isso começou a mudar.

A constelação da Internet

Apesar de a Internet tender a se difundir cada vez mais por todos os países, não deixa
de ser importante que quem teve acesso primeiro, porque os consumidores aqui
também são produtores, fornecem conteúdo e dão forma à teia. Assim, o momento
de chegada tão desigual das sociedades à Internet terá conseqüências duradouras
no futuro padrão da comunicação e da cultura mundiais.

A Internet se parece mais com uma feira do que com os monótonos shopping centers.
Parte considerável das comunicações que lá acontecem é espontânea, não-
organizada e diversificada em finalidade e adesão. Quanto maior a diversidade de
mensagens e de participantes, mais alta será a massa crítica da rede e mais alto valor.
A coexistência pacífica de vários interesses e culturas na Rede tomou a forma da
World Wide Web, uma rede flexível formada por redes dentro da Rede.

Apesar da tecnologia militar utilizada na criação da Internet em seus primórdios, a


origem universitária da Rede sempre foi decisiva para o desenvolvimento e difusão da
CMC: o processo de difusão começou em todo o mundo nas universidades, lugares
propícios inovações sociais que serão levadas à sociedade em geral.

O processo de formação e difusão da Internet moldou de forma definitiva a estrutura


do novo veículo de comunicação. A arquitetura da rede é e continuará sendo aberta
sob o ponto de vista tecnológico, possibilitando amplo acesso público e limitando
seriamente as restrições governamentais ou comerciais, embora a desigualdade social
se manifeste de maneira poderosa no domínio eletrônico. A abertura do sistema
resulta de seu propósito inicial, do processo inovador constante e da livre
acessibilidade imposta pelos primeiros hackers de computador. O esforço constante e
multifacetado para melhorar a comunicabilidade da rede constitui um notável
exemplo de como a produtividade de cooperação tecnológica através da rede
acabou por aperfeiçoá-la.

O que permanece das origens contraculturais da rede é a informalidade e a


capacidade auto-reguladora de comunicação, a idéia de que muitos contribuem
para muitos, mas cada um tem a sua própria voz e espera uma resposta
individualizada.

As redes de CMC cada vez mais refletirão interesses comerciais à medida que
estenderem a lógica controladora das maiores organizações públicas e privadas para
toda a esfera da comunicação. Mas, diferentemente da mídia de massa da galáxia
de McLuhan, elas têm propriedades de interatividade e individualização tecnológica
e culturalmente embutidas. Essas potencialidades se transformam em novos padrões
de comunicação, e trazem atributos culturais próprios.

A sociedade interativa

Estão emergindo on-line novas formas de sociabilidade e novas formas de vida


urbana, adaptadas ao nosso novo meio ambiente tecnológico.Na definição de
Howard Rheingold, comunidade virtual é uma rede eletrônica autodefinida de
comunicações interativas e organizadas ao redor de interesses ou fins em comum,
embora às vezes a comunicação se torne a própria meta. Ainda não está claro porém

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o grau de sociabilidade que ocorre nessas redes eletrônica nem quais as


conseqüências culturais desta inovação.

Críticos sociais condenam a desumanização das relações sociais que nos trouxeram os
computadores, pois a vida on-line parece ser uma maneira fácil de fugir da vida real.
Domenique Wolton convocou os intelectuais a resistirem à ideologia dominadora e
tecnocrata contida na Internet. Além disso, pesquisas indicam que sob certas
condições, o uso da Internet aumenta as chances de solidão, sensação de alienação,
ou mesmo depressão.

Por outro lado, numa pesquisa empírica, Wellman e Gulia demonstram que, assim
como nas redes físicas pessoais, a maioria dos vínculos das comunidades virtuais são
especializados e diversificados. Os usuários da Internet ingressam em grupos ou redes
com base em interesses comuns, e valores, e já que têm interesses multidimensionais,
também os terão em suas afiliações on-line. Não obstante, muitas redes que
começam como instrumentais e especializadas acabam oferecendo apoio pessoal,
material e afetivo.

Uma distinção fundamental na análise da sociabilidade é entre os laços fracos e os


laços fortes. A Rede é especialmente apropriada para a geração de laços fracos
múltiplos, úteis no fornecimento de informações e na abertura de novas oportunidades
de baixo custo. Laços fracos com desconhecidos, num modelo igualitário, no qual as
características sociais são menos influentes na estruturação ou mesmo no bloqueio da
comunicação.

Os estudos também indicaram que não há uma constante sobre enfraquecimento ou


fortalecimento de vínculos sociais por meio da Internet - tanto um como o outro
podem ocorrer. As comunidades virtuais são reais, porém não físicas, e seguem outros
modelos, mas também capazes de gerar de gerar reciprocidade e apoio.

Analisando os usos, deve-se enfatizar que a esmagadora proporção das atividades de


CMC ocorre no trabalho ou em situações a ele relacionadas. A política também é
uma crescente área de utilização, como propaganda, com possibilidades de
interação e até participação eletrônica dos cidadãos na democracia local ou
organização de movimentos como o de Seattle.

As pessoas moldam a tecnologia para adaptá-la às suas necessidades. O modo de


comunicação eletrônica multipessoal representado pela CMC tem sido usado de
formas diferentes para diferentes finalidades. O denominador comum da CMC é que
ela não substitui outros meios de comunicação nem cria novas redes, mas reforça os
padrões sociais preexistentes.

Como o acesso à CMC é cultural, educacional e economicamente restritivo, seu


impacto cultural mais importante poderia ser o reforço potencial das redes sociais
culturalmente dominantes, bem como o aumento de seu cosmopolitismo e
globalização, apesar de sua utilidade para movimentos sociais.

A grande fusão: a multimídia como ambiente simbólico

O controle empresarial dos primeiros estágios de desenvolvimento dos sistemas de


multimídia terá conseqüências duradouras sobre as características da nova cultura
eletrônica. Apesar de toda a ideologia do potencial das novas tecnologias em
educação, saúde e cultura, a estratégia dominante visa o desenvolvimento de um
enorme sistema eletrônico de entretenimento, considerado o investimento mais seguro
e rentável. Embora algumas indicações questionem o fato de que as pessoas queiram

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apenas videogames sádicos, eventos esportivos e musicais - o padrão de demanda


seria mais complexo.

Mas a característica mais importante da multimídia é que ela capta em seu domínio a
maioria das expressões culturais em toda sua diversidade. Seu advento é o
equivalente ao fim da separação e até da distinção entre mídia audiovisual e
impressa, cultura popular e erudita, entretenimento e informação, educação e
persuasão.

7) O limiar do eterno: tempo intemporal

O tempo passou no contexto histórico, desde um simples marcador de datas


comemorativas ou simbolizador de tipos no horóscopo babilônico, para o principal
motivador da alta produtividade, já que cada segundo perdido pode custar milhões
no mercado global.

É comum observarmos hoje que programas cada vez mais sofisticados comandam as
tomadas de decisões econômicas, sendo alinhadas com fusos horários diferentes para
possibilitarem em tempo real, seja qual for a parte do mundo, o ganho da empresa.
Nesse contexto é que a "empresa em rede" vivencia o tempo não como uma maneira
cronológica de produção em massa, mas sim como algo a ser processado e utilizado
como termômetro de suas inovações. Exemplos: o ajuste das empresas às novas
necessidades do mercado em um curto intervalo de tempo; a contratação de
profissionais cada vez mais flexíveis, ou seja, capazes de direcionar bem suas horas de
trabalho, e ainda a diminuição no tempo de serviço dos funcionários, bem como a
contratação de mais mão-de-obra para distribuição das horas de produção diária.

O aspecto do ritmo biológico ou ciclo biológico foi quebrado pela "sociedade em


rede", que desde já muda a fisionomia do meio em que vive, seja fazendo mudar o
tempo de serviço, criando uma nova camada da terceira idade contendo velhos não
só cronologicamente, mas pessoas ditas impossibilitadas de se flexibilizarem em
relação ao mercado, transformando a reprodução como algo possível em qualquer
idade, mediante as modernas técnicas de fertilização, ou ainda pelo grande avanço
da medicina, tentando colocar a morte como algo controlável e distante, uma luta
baseada na prevenção e na esperança.

Sobre as guerras, conforme os aparatos bélicos foram evoluindo com armas nucleares
e demais meios de destruição em massa, mais difícil se tornou o confronto armado
entre as nações desenvolvidas, que passaram a ver as guerras do seguinte ponto de
vista: menor número possível de mortos, utilização somente de um exército profissional,
um conflito rápido, longe dos olhos da mídia e com o menor gasto possível. Para a
sociedade informacional que visa o lucro, as guerras há muito deixaram de ser
lucrativas, a não ser quando as potências exploram conflitos menores, dentro de
nações menos desenvolvidas, funcionando agora como fornecedores, sem perdas
humanas e com muitos ganhos financeiros.

Portanto, desde as transações de capitais realizadas em segundos, indeterminado


ciclo de vida, busca da eternidade pela negação à morte até guerras instantâneas,
são todos fatos que acabam por caracterizar a "sociedade em rede" como a
responsável pela mistura do tempo, através da simultaneidade de fatos e a
intemporalidade da informação.

Conclusão: A sociedade em rede

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Como tendência histórica, as funções e os processos dominantes na era da


informação estão cada vez mais organizados em torno de redes. Redes constituem a
nova morfologia social de nossa sociedade e a difusão da lógica de redes modifica
de forma substancial a operação e os resultados dos processos produtivos e de
experiência, poder e cultura. Tudo isso porque elas são estruturas abertas capazes de
expandir de forma ilimitada, integrando novos nós desde que consigam comunicar-se
dentro da rede, ou seja, desde que compartilhem os mesmos códigos de
comunicação (por exemplo, valores ou objetos de desempenho).

Nesse contexto é que a rede é um instrumento apropriado para a economia


capitalista voltada para a inovação, globalização e concentração descentralizada;
para o trabalho, trabalhadores e empresas voltadas para a flexibilidade e
adaptalidade; para uma cultura de descontrução e reconstrução contínuas; para
uma política destinada ao processamento instantâneo de novos valores e humores
públicos; e para uma organização social que vise à suplantação do espaço e
invalidação do tempo.

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