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Capitulo 1 Aprender com o desastre 1 Se realmente formos apostar na inovagio, precisaremos antes de mais nada for- mar gente que tenha capacidade de inovar. Esse € talver 0 grande desafio. ‘Antigamente, falava-se em aprender certos contetidos. Depois, na geracio a que perengo, insistu-se que o fundamental nio era aprender modelos ou regras, mas aprender a aprender. Agora, penso que é hora de modificar esse lema, em porém 0 rejetar,e de apresentar a idéia de que também é preciso aprender a desaprender. 2 Isto exige introduzir uma idéia relevante tanto no plano ético quanto psicolégi- co, que é a de desastre. Fomos, todos, educados para pensar que aquilo que foge & norma, em especial quando fz softer e compartlha alguns tragos da catéstrofe, é excogao c é ruim. Sobre o desastre, emitimos entio um juizo miltiplo: é ou deve ser rato, é ou deve ser mau. Basta, aids, ver que, em vériaslinguas, a palavra acidente ern dois sentidos. Como conceito filoséfico, € 0 que se opée & esséncia ot ao cerne da definicao: dizemos entio que algo ¢ esenciabmente assim, ¢ $6 aci- dentalmente outra coisa. O acidente & 0 primo pobre do conceito. Ao mesmo tempo, na fala cotidiana, acidente ¢ 0 que estava imprevisto ¢ acon- tece, mas sempre com um sentido ou carga ruim. Ou seja, em nosso emprego 20° AUNIVERSIDADE E A VIDA ATUAL corrente e descontraido das palavras, da mesma forma que na filosofia, continua- mos a entender 0 acidente como © ndo-essencial, o que nao estava no cerne da definigao (ou da previsio) — mas, na fala leve e descompromissada, lhe agrega- ‘mos um sentido adicional, o de que esse imprevisto é mau, é nocivo. Ninguém afirma que teve um acidente de carro querendo dizer que o ganhou num sorteio, ou que passou pela grata e grits surpresa de encontri-lo lavado e polido ao sair do trabalho, Est4 entao subentendido que acidenteé algo que acontece, sem estar previsto, mas sempre numa direcio ruim: o imprevito é da ordem do negative. Uma estratégia possivel, com os dois sentidos de acidente, seria confronté-los dizer que um esti certo, outto errado: & 0 que fazem muitos, especialmente para afirmar que 0 senso comum degrada 0 conceito (e, nesse caso, acrescentam, dlss, até por marca profissional ~ porque alguns sio filésofos ou historiadores da filosofia -, a acepcio filoséfica seria a correta, enquanto a do senso comum néo passaria de uma sua degradagio ou diluigéo). Mas prefiro entender que os dois sentidos se esclarecem reciprocamente, um desenvolvendo o que esté no outro. E. nao ¢ isso mesmo? Em filosofia, acidente é o que nao pertence & definigio ou esséncia, E portanto 0 que acontece sem necessidade. Dai que possa ser (no uso corrente das palavras, a que chamamos “senso comum”, termo que nas linguas latinas é meio pejorative em inglés ¢ quase um elogio") 0 que acontece de 0 antopéoge Luc de Heasch, em seu Leo ioe vgn de Bataan de um mit ou lena oe rete Congo eno Bela, propa es forma de lear, pl qual as cham “variants” no se subor nam & busca de uma verso cl come, excelente — mae etiquecer,somamsc, muliplica fe 7p qu em ners pr cu nt de coctos gus de manscims. $4. a de ‘xemplo: podem considerar que a versio psfita € pimei (¢ nest aso valrizamosainauguraso, a inven, a ini fugue) ou a dima (af ecoheres, por explo, a dkima redo que © ane ‘de sun obra, a versio inal dela ra sa vida, a ima que revisou ¢& qual apis sua asin, seu prs imaruh, Nese imo cx, ia cao que se destacanio masa novidade, mato acabamest,o priors mento peti © que propomas aqui, nso segundo Lac de Heusch, € our proediment: a vaiantes fo so der Vie, mas enviquecimentos now aubrade cada uma deli esesio ou a fal, ms se soma as possi ates. So que queremas pena sis pesibidads endo apenas 0 que prevlece, ste cain é bom. “Nas lingas latins, © seo comm ext muito marae por sus depreciass flosicaP um cermo a0 qual ota do canhesimeno, dele pelo menos Deca, cafe uma paso subltera:éaquilo que critica, Basa ver quant obras de fsoiacomesam expondo o que diz 0 senso comm, para depois demolo. ean Franjois Revel ron exe uso do sens comm como um constrto que valida, pelo seu ricle, absurd ou insensate, a ensater ou seiedade de eu conti, ago que um fildsafo ek propor como id 'Na Europ continental, em faced 250 ou do pensamento, 0 senso comum & um menos. Em ings, Porim, © common sete uma acepo que ndo se exgts no conhecimento: € um mode comm, no APRENDER COM © DESASTRE 21 impreviste, Tudo 0 que sucede sem estar previsto na definigio conceicual remete ao mundo do acidente. Fica assim subentendido que 0 conceito implica uma previsio, e que o acidenre & 0 que foge & sua ordem. E assim ~ ainda procurando indagar o que esté por tris desse uso corrente das palavras -, poderi ser bom 0 que foge & previsibilidade? Um pressuposto que arravessa quase toda a hstria da flosofia€ que o imprevisto — ou 0 que est fora do conceito ~ encerra, em seu cerne, ameacas. Nao s6 porque ameace direta- mente o pr6ptio filosofar, ou pelo menos a sua redugéo a uma atividade concei- tual, a qual de certo modo procura duplicar © mundo, ao aprimorar sua ima- gem. Mais que isso: 0 imprevisto pe em xeque nossa propria percepcio do mundo, construida a0 longo dos tempos para esconjurar 0 caos e constituir-se como ordem. 3 Nao € fortuito que a palavra ordem tenha dois sentidos principais. Um é 0 de ordem interna ~ ¢ neste sentido contrasta com desordem. Outro é 0 da ordem que se dé a alguém (ordem exteriorizada ou externada, poderiamos dizer), 0 de mando ou mandamento, © primeito sentido € descritivo: mostra como as coisas so. Mas 0 problema é que elas do so como so. Ou sea, nés as percebemos des toando do que deveriam ser conceitualmente, fugindo, pelo imprevisto e pela desnecessidade, ao que necessariamente “seriam”. Em ouitras palavras, geralmente clas nao séo (por acidente, no mundo do dia-a-dia, no assim chamado “mundo real”) 0 que sio (por esséncia, definigio ou conceito). Elas no est como sto, O plano do acidente expressa ura confusfo que nio ha na ordem rebrica ou concei- tual. Por iso, precisamos p6r ordem no plano do acidente, isto & precisamos dar ordens, para que as coisas se ordenem. tuo de aici ioladamente, mas de razor (portant, de dca), detent de enender a a ‘9% Nio ext medido, como um menos ple rari, mas desempenha um papel sci e neste sentido € ‘um sas Um grupo que sente em comum tem mais fora que outro que se plveia na divewsiade: © sexo de comomonitas rm ings aver sea mais posi, Em suma, common sense € ua ao (um dos seatidos de ten) consul em comm, 0 asso ques commun é eo. datos dicate como a valorizaso ingles do senso comm frac contngi de una sce dd fea 20 sf gtermens, a paso que sa deoriaso na Exopa continental prvi ari, em darimeno da cas poltica Mas iso ttf para our lug 22 AUNIVERSIDADE EA VIDA ATUAL Grande parte do trabalho de pensar, ¢ de mandas, de conhecer ¢ agit (para tomarmos as duas grandes vertentes da filosofia, a teoria do conhecimento ¢ a da cio) assim opera mediante um certo corte entre a definigo ou 0 conceito, por um lado, ¢ 0 acidente, por outro, O interessante & que seja preciso mandar (dar crdens) para se chegar & ordem que, em principio, deveria exist. Seo acidente & assim (na filosofia) 0 que precisa ser reduzido, contido, exclu- entende-se que (na linguagem corrente) ele seja 0 que é ruim. Sem meias lavas, 0 senso comum brada o que a filosofia sussurra: aguilo que foge ao com- ceito é mau. O imprevisto nos ronda, como uma ameaga. E com isso oxclamos entre duas afirmag6es: nfo hi acidente, tudo se produz segundo a definicio ea previsio; e, quando as coisas assim nao se do, 0 mundo «esti em descompasso: urge reintroduzir a ordem. cr 4 Mas ser isso 0 que efetivamente vivemos, a0 menos em nosso tempo? Sera mesmo que a desordem é apenas eventual? E para isso que sugiro lidarmos com 2 idéia de desare. Cada ver. mais nossas vidas estio freqlentadas por cle. Cresce Co niimero de pessoas cujas relagies amorosas estaveis sio, a um certo momento, cdevastadas por uma separagio, que difunde softimento como tinta se espalha na ‘gua do mar. Aumenta o contingente daqueles que perdem o emprego a que se dedicaram anos a fio e, pior ainda, perdem a chance de conseguir novo emprego se no mudarem por completo seu perfil de trabalho. Basta assim notar que, no amor ¢ na profissio, ou seja, naquelas duas esferas da vida dita privada que para quase todas as pessoas agregam a maior parte do sentido de suas vidas, cresce © risco de acidentes. Estes, pois, de excegao se convertem, nao digo talvez em regra, mas em probabilidade cada vex maior. Evidentemente, isso exige repensar o que eu dizia: pois um risco aumentado € ainda um acidente, isto é, algo que foge a esséncia, & previsio? Mas, por outro lado, algo que suspeitamos va ocorrer, mas no sabemos se aconteceri, nem quando ou de que modo, poderé deixar de ser acidente para assumir 0 perfil do previsivel? Entre essas duas quest6es se move a vida de nossos dias: forte a chance do desastre amoroso e profissional; ¢ imprevisivel se ele vai ocorrer, em que data, e de que forma se reves, Portanto, nao hi como prevé-lo no modo tuadicional de previsio, que consiste em detectar um problema e perceber ~ a partir do conceito, do cere da coisa — como impedi-lo. 4 APRENDER COM © DESASTRE 23 Contrastemos esse modo mais convencional de pensar a ago, de planejé-la ou de prevé-la, que vem desde os primérdios da modernidade, ¢ outro, tlvez ‘mais novo, certamente menos usual. Ajudaré, como faremos varias veres neste livro, pensar mediante um exemplo: se numa regito hé 4gua empocada, sei que ¢ elevada a probabilidade de oorre- rem algumas doengas, ¢ tratarei de sanear as éguas. E dbvio que estamos lidando com um pensamento probabilistico (nem todos os que moram ali desenvolverso ‘malitia, assim como nem todos os fumantes contaitio cincer ~ duas doengas que, além do mais, podem atingir quem mora em lugar mais saudével ou quem jamais tragou um cigarro). Fsse tipo de probabilidade parece uma versio razoa- velmente atenuiada da relagio I6gica de causa ¢ efeito (para esta, em nosso exem- pio, da agua estagnada ou do tabaco se inferiria tal ou qual doenga), e por iso mesmo sua necessidade néo € direta, mas indireta: a agua ruim ndo causa a ddoenga, mas tem seu papel na formagio de um cangpo de fatores que, estes sim, cstimulam, favorecem, potencializam (sem porém jamais criar, prodwzir plena- mente) 0 quadro indesejvel ‘Uma relagao simples de causa e efeito teria por ideal que, da causa, decorresse 6 feito, Mas quero argumentar que, quando pensamos com base na probabil- dade, nio nos limitamos a atenuar essa telagio (dard certo em 70 ou 80% dos «casos, em vez de 100), porém modificamos o préprio quadro mediante © qual la funciona: lidamos com o fator indiretamente preponderante, mas sem ter a cortez de que cle agiré. Trata-sc assim de um pensamento probabilistico, mas do qual se deve dizer que a probabilidade nao é apenas um enfiaguecimento da relagéo de causilidade mecinica que acima exptinhamos, e sim outra coisa. Outra coisa, porque agora ndo nos propomos ~ sequer enquanto ideal ~ a atuar diretamente sobre a causa a fim de alterar 0 resultado. Todo um tipo de agio social foi pensadlo com base nesse modelo: abordar a causa, para gerar um resultado, Ou seja: pensauvese 0 problema de forma nova, mas na hora de agirse perdia a novidade. © pensamento probabilistico - que nao podia fornecer uma certeza do resultado, mas iso no por ser um pensamento fraco, inferior, sim por pressupor uma idéia de campo de atwacdo~ era levado a justificar uma tcoria ou dourrina da ago que pretendia resultados concretos, quase imediatos. Assim, s¢0 pensamento era inovador, a aco era concebida de forma mecanicista, basea- da numa teoria da causalidade mecinica, simples. ‘Tomando outro exemplo: quando se afirma que as privatizagbes saneario as finangas do Estado, é esse erro de légica, esse modo de pensar antiquado, que se cemprega— como se em matéria humana fosse possvel, pattindo da cause “priva- tizagio”, concluir © que quer que seja. E o mesmo valeria para qualquer outro