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Família Valentini – Livro 4

Mari Sales
1ª. Edição
Copyright © Mari Sales
Edição Digital: Criativa TI
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Esta é uma obra de ficção. Nomes, personagens, lugares e acontecimentos
descritos são produtos da imaginação da autora. Qualquer semelhança com
nomes, datas e acontecimentos reais é mera coincidência.
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Todos os direitos reservados.
São proibidos o armazenamento e/ou a reprodução de qualquer parte dessa
obra, através de quaisquer meios – tangível ou intangível – sem o
consentimento escrito da autora.
Criado no Brasil. A violação dos direitos autorais é crime estabelecido na lei
n°. 9.610/98 e punido pelo artigo 184 do Código Penal.
Dedicatória
Sinopse
Criado apenas para ser objeto de vingança contra um amor não
correspondido, Antonio seguia sua vida entorpecido pelos prazeres mundanos
e os estudos. Mal sabia ele que tudo isso fazia parte de um plano cruel e
perigoso.
Josi seguiu seus instintos e tirou Antonio do fogo cruzado mesmo
estando confusa quanto à atração que sente por um homem com a mesma
aparência do namorado de Paula. Ela não era impulsiva quando se tratava de
assuntos íntimos, mas, da mesma forma que ela mexeu com o mundo de
Tony, este abalou seus conceitos e ideologias.
Uma festa, confusão e um rapto nem um pouco premeditado dão
início à solução dos mistérios que envolvem o sumiço do irmão Valentini
bem como uma nova saga em busca da mãe, a única que poderá finalmente
esclarecer e dar um ponto final as dúvidas.
Prólogo

Antonio
Meu olhar se perdeu em meio a tantos corpos e sexualidade. Nascido
e criado dentro de um Clube de suingue, me sentia mais em casa nu
envolvido com tantas pessoas do que na minha própria casa.
Sorrio com ironia... que casa? Qual lugar poderia chamar de lar?
Meu apartamento no exterior? Um quarto no clube? Meu carro ou mesmo o
jatinho particular do meu pai?
Apesar de amar imensamente Alberto, o ressentimento estava
corroendo minhas veias. Pela segunda vez tentei visitar minha cidade natal e
pela enésima vez meu pai se impôs contra minha ida até lá, porque ele
mesmo não poderia me acompanhar.
Quantos anos ele achava que eu tinha?
Tão acostumado a me ver obedecer, nossas últimas conversas por
telefone foram apenas discussões e mais discussões. Além de gerenciar seus
negócios idôneos, também tomava conta dos vários clubes espalhados pelo
país. Já estive em todos, usei e abusei do meu corpo e dos outros em todos
eles, menos um, menos o da minha cidade natal.
Pensando na minha infância e adolescência, percebi que meu pai
conseguiu desconversar sobre o assunto e me fazer esquecer onde nasci de
forma discreta. Enquanto eu ficava curioso sobre minhas origens, ele mudava
de assunto e me entretinha com estudos e sexo.
A arte da sedução e interpretação da linguagem corporal me foi
apresentado muito antes de entrar na puberdade. O que, para mulheres, isso
poderia ser um ato de abuso, para mim foi apenas a introdução no mundo da
luxúria. Não me ressentia do passado, mas com certeza prolongaria minha
infância se me fosse permitido mudar o que já foi.
Dentro e fora do ambiente do clube, fazia mulheres se apaixonarem
em poucos minutos. Muitas delas se rendiam e caiam na minha cama, o
tempo de conquista era quase um desafio pessoal para mim, quanto antes,
mais poderoso me sentia.
Levava essa necessidade imediatista para o campo dos negócios.
Muitos diziam que lia mentes, fechava ótimos preços com fornecedores além
de sociedades apenas fazendo leitura corporal.
Sentia-me como rei em um mundo onde não existia reino. Apesar
dessa busca de querer mais e mais rápido, não saber quem era minha mãe e
sentir, dentro de mim, que não tinha um vínculo sanguíneo com meu pai, era
esmagador.
Ansiava por respostas e tinha certeza que encontraria nessa família:
Valentini.
Estava com meu pai, em um dos clubes, assistindo uma apresentação
de BDSM, que não me agradava tanto, mas a meu pai sim, quando a notícia
sobre o casamento de Benjamin Valentini o pegou de surpresa. Intercalando
entre assistir a cena a sua frente e olhar o celular, vi Alberto congelar e
emanar raiva ao ler essa matéria.
Então, esse sobrenome puxou na minha memória as várias vezes em
que vi meu pai lutando contra essa família, sempre gastando energia para se
vingar de alguém que o fez muito mal. Tão focado em estudar e alimentar
meu ego, não percebi que as perguntas estavam na minha cara e nunca me
permiti olhar mais a fundo.
Ou, talvez, só não estivesse preparado para as respostas que viriam
com os questionamentos.
Como sempre, não consegui descobrir o motivo de tanta raiva de
Alberto e viajei para longe dele em busca de acalmar minha mente além de
pensar no que fazer. Era momento de tirar essa história a limpo, estava
cansado de fugir e me esconder entre a putaria.
Iria completar trinta anos, tinha muitos bens e posses junto com meu
pai, porém, o que era meu de verdade? Quais dessas coisas era combustível
para me manter são?
Foi então que uma ligação decidiu o rumo da minha vida e agarrei
com unhas e dentes a oportunidade de saber mais sobre o que sempre se
mantinha às escuras.
Sentado em uma poltrona, assistindo pela parede espelhada a mulher
ser devorada por cinco homens, meu pau ganha vida com dificuldade, já que
estava tão acostumado com essas cenas. Quando me estimulei com a mão,
meu celular vibrou no meu bolso e tudo o que tinha conquistado de uma
ereção foi embora.
Coloco o aparelho no ouvido, sem olhar quem me ligava, um tanto
chateado.
— Antonio, preciso de você em casa — Alberto parecia bêbado
quando me cumprimentou pelo celular.
— Pai, você está bem?
Sua risada alta e um pouco histérica me fez respirar fundo com
preocupação.
— Estou ótimo, maravilhosamente bem. É momento de fechar um
ciclo, ter de volta o que sempre foi meu e você fará parte disso.
— Você não está falando nada com nada, pai. Farei parte do quê? —
Levantei da cadeira e fiquei de costas para o sexo grupal que acontecia. Esse
era o escritório principal do clube de suingue que mais frequentava.
— Estou na sua terra natal, garoto. — Franzi o cenho irritado por
ser chamado assim. Havia deixado de ser um garoto há muito tempo. — Meu
jatinho está te esperando no aeroporto. Venha direto para o clube, sem
desvios.
— Por que agora?
— Por que não? Ajude seu velho a ter paz e finalmente ter a
vingança que merece. Eles também foderam com sua vida, vai me ajudar a
fazê-los pagar!
Ele encerrou a ligação sem me permitir questionar o quê, como ou
quando. Todavia, respirei fundo e acenei em concordância, se precisava fazer
parte da loucura do meu pai por um momento, para saber o que realmente se
passava com ele e comigo, então, seria seu instrumento.
Capítulo 1

Josi
Não conseguia me controlar e essa brincadeira já tinha ido longe
demais. Levantei da minha cadeira depois de quase incentivar Arthur a se
afastar da minha amiga e segui para mais ao fundo do jardim, tentar refletir e
me centrar.
Como toda brincadeira tinha um fundo de verdade, achava o
namorado da Paula bonito, sentia uma conexão estranha com ele, mas nunca,
em hipótese alguma, faria algo a favor disso.
Olhei para o céu e tentei identificar algum sinal do cosmos para que
entendesse meu destino. Apesar de descontraída e brincalhona, dentro de
mim vivia uma dramática que nunca teve a oportunidade de sair para se
manifestar.
Não demorou muito para que escutasse passos na grama. Segui de
volta para a tenda da festa do casamento e percebi pessoas vestidas de preto
tentando se camuflar se movimentando de forma pausada.
O que seria isso?
— Rapaz, a festa acabou! — uma voz rouca e firme falou pouco
acima do som, logo em seguida escutei um alvoroço.
Corri para a pista de dança a tempo de ver três pessoas de preto
abaterem três homens de terno com apenas um tiro em cada.
Não pensei no perigo que essas pessoas armadas ofereciam ou se
eles eram amigos ou inimigos. Agi no calor da emoção quando peguei no
braço de um com a intenção de tirar satisfação.
— O que você pensa que está fazendo?
Não me pergunte como, mas quando a pessoa virou o rosto para mim
e olhei em seus olhos, sabia que era uma mulher. Fiquei chocada, soltei seu
braço, mas ela segurou o meu e me assustou.
— Me solta! — resmunguei e ela colocou o dedo na frente do rosto
em sinal de silêncio.
Na pista de dança estava Cadu protegendo Letícia com seu corpo.
Um homem mais velho tinha uma arma em mãos, apontada para baixo e o do
seu lado tinha um homem, também de terno e... sua fisionomia era conhecida.
De onde conhecia esse estranho?
— Eu deveria ter acabado com vocês, pestinhas, quando tive a
oportunidade! — o homem mais velho esbravejou.
— Você está doente, velho! Manteve nosso irmão longe por um
capricho? O que meus pais fizeram a você para chegar a esse ponto?
— Sua mãe é uma vadia que nunca assumiu o nosso relacionamento.
Ela me queria! — gritou a última frase e entregou a arma para o homem ao
seu lado. — Faça você mesmo, Antonio. Será prazeroso presenciar o fim dos
Valentini por suas mãos. Eles te abandonaram, fui o único a cuidar de você!
Agora entendia o motivo de conhecer esse homem, era o irmão
gêmeo de Arthur, Antonio.
O gêmeo perdido estava estagnado no lugar olhando para o outro
lado da tenda e sem dar bola para o velho ao seu lado ou o que dizia. Mas
quando a arma foi posta em sua mão, eu só podia tentar impedir uma
catástrofe.
— Não! — gritei, eles olharam para trás e me chocou a semelhança
do homem ao lado de Alberto. Céus, Antonio era gêmeo idêntico de Arthur.
O que esse louco queria fazendo com que irmãos se matassem?
Um tiro soou, uma gritaria se instaurou e as pessoas de preto, junto
com a mulher que havia me segurado tentaram combater os dois, se
movimentaram enquanto os seguranças se mantiveram abatidos e deitados no
chão.
— Um de vocês irá para o inferno hoje! — Alberto falou tomando a
arma do gêmeo perdido e mirando para Cadu, mas teve seu corpo derrubado
por um tiro. Na queda, a arma apontou para Antonio e foi nele que o tiro
acertou.
— Não! — Cadu gritou.
— Meu Deus, não! — gritei indo em direção a ele, que havia
ajoelhado no chão.
— Saia de cima de mim! Vocês irão morrer! — Alberto esperneou.
— Pai! — Antonio falou e tentou desviar de mim, mas foi acertado
por algo em seu ombro que o fez quase cair de costas no chão.
Olhei chocada para a origem do tiro, era a mulher de preto que
suspeitava estar do nosso lado, mas depois desse acerto em Antonio,
desconfiava ser o contrário. Não sabia se acudia ele ou tirava satisfação com
ela.
Fui conferir o ferimento e percebi que não era uma bala de verdade,
mas um dardo. Removi o que parecia ser uma agulha e fiquei preocupada que
Antonio havia fechado os olhos e parecia respirar com dificuldade.
— É o seguinte, nosso recurso está precário hoje, precisamos lidar
com Alberto e Antonio. O problema é que temos que escolher um.
— Quem é você? — Olhando para ela, procurei a mão dele e apertei.
— Pensei que iria ajudar os Valentini e não prejudicar um deles.
— Sou Rigel e estamos sim para ajudar os Valentini. Foi apenas um
calmante, porque precisamos deles vivos para interrogatório. A morte de
Franklin e Miguel precisam ser esclarecidas, porque há muito mais envolvido
do que um mistério de família.
O que fariam com Antonio para conseguir essa verdade? Quando
tudo aconteceu ele era apenas um bebê e como chamou aquele homem de pai,
provavelmente nem sabia que existia toda uma outra família à sua espera.
Senti um aperto na minha mão, olhei para baixo e pela minha visão
periférica vi a tal Rigel se levantar e se afastar. Precisava pensar rápido, não
poderia tratá-lo como suspeito quando ele era vítima.
As cartas foram colocadas na mesa na despedida de solteiro de Ray,
um grande engano ou uma grande mentira servia de sustentação para desunir
a família e era a minha vez de contribuir para que esse pilar podre fosse
destruído, mas da forma que eu achava correta.
— Vamos fugir! — falei para Antonio olhando em seus olhos
desconfiados e desfocados. — Ninguém vai te levar contra sua vontade.
Levante e corra quando eu falar três.
As chances de ser trolada era grande, de fazer a contagem e correr
sozinha, sem ninguém no em encalço era mais provável que o contrário, mas
não foi isso que aconteceu.
— Um, dois, três!
Mesmo com muita dificuldade e parecendo bêbado, ajudei-o a se
levantar e correr enquanto gritos de protesto seguiam atrás de nós. Com um
braço envolta de sua cintura e o braço dele envolto do meu pescoço,
formamos uma dupla bem desengonçada.
Circulei a tenda e mudei o rumo do fundo do jardim para a frente da
casa, onde havia pessoas saindo e alvoroçadas. Misturamo-nos no meio delas
até chegar na sala, onde o puxei até o escritório, peguei a primeira chave de
carro visível em cima da mesa e voltei para o fluxo de pessoas.
— Quem é você? — ele perguntou baixo e apenas sua voz fez meu
corpo inteiro se arrepiar.
— Alguém que parecia estar esperando esse momento para agir —
respondi misteriosa, mas para mim estava claro. O universo brincou comigo,
me fez sentir conectada por uma aparência masculina que nunca poderia tocar
e agora, com uma réplica, tinha a oportunidade de fazer diferente... ou
finalmente me decepcionar por completo.
Capítulo 2

Josi
Achar o carro foi fácil, acionei o alarme e o primeiro que piscou as
lanternas foi para onde segui. Antonio parecia cada vez mais fraco e seu peso
sobre meu corpo parecia aumentar a cada instante.
Coloquei-o no banco do passageiro, dei a volta no carro para sentar
no banco do motorista e suspirei ao constatar que esse era um carro
importado, esportivo e muito caro.
— Ben ou Cadu, me desculpem se fizer alguma barbeiragem — falei
comigo mesma quando coloquei o câmbio para a ré, arrumei o carro para sair
de frente, esperei algumas pessoas liberarem o caminho e segui para as ruas.
Olhei para o lado rapidamente apenas para perceber que esqueci de
por o cinto no homem. Parei em um sinal vermelho, inclinei meu corpo sobre
o dele e tentei controlar meu corpo de reagir ao seu cheiro afrodisíaco. O
perfume era uma mistura doce e amadeirado, parecia feito para o pecado.
Terminei de afivelar o cinto quando o carro atrás de mim começou a
buzinar porque o sinal havia ficado verde, coloquei meu próprio cinto e
comecei a pensar sobre o rumo que seguiria.
Peguei as avenidas, segui reto por muito tempo até encontrar a
estrada. Olhei para o lado e constatei que Antonio dormia com a cabeça
apoiada na janela, então, para me distrair, apertei um monte de botão no
volante até que o som fosse ligado.
30 Seconds To Mars soou nos alto-falantes e sorri admirada que um
dos Valentini tinha bom gosto. Tirei o celular do bolso estratégico do meu
vestido e suspirei aliviada por ter colocado meu cartão de crédito entre a
capinha e o aparelho.
— Bem, nem ficaremos sem combustível nem passaremos fome,
Tony! — falei para o dorminhoco ao meu lado e tentei identificar algum
lugar conhecido pelas placas na estrada. — Que maravilha, esqueci que não
estou na minha cidade.
Não tinha costume de falar sozinha, mas a situação estava tão louca
que novos hábitos começaram a surgir. Os apelidos já eram uma
característica minha, então, não estranhei tanto assim. Ben, Cadu, Ray lançou
o Tutu e eu o Tony... ou para combinar com o irmão gêmeo, Totô. Céus, que
apelido broxante, mas com certeza usaria para irritar ou zoar, ou seja, estava
tudo na mais perfeita normalidade.
Olhei para o painel no carro e sem desviar por muito tempo a
atenção da estrada, conferi o menu e achei um GPS.
— Quando crescer quero um carro desses para mim.
Dei dois tapinhas em cima do painel e fui procurar endereços
armazenados ou últimos locais. Fazenda Santa Rita era a última localização e
seguindo minha intuição, apertei o botão para traçar rota e fiz um cálculo
mental da quantidade de combustível com a ida e volta nesse lugar. O carro
era tão automatizado que o computador de bordo ajudou com as estatísticas
que precisava.
— Vamos precisar abastecer o possante.
Por um momento pensei em recuar, tentar um hotel ou até mesmo
um motel para nos esconder pela noite e resolver o que fazer durante o dia.
Quem me garantia que essa tal Fazenda Santa Rita era um local seguro para
estar?
Por uma dedução que não sabia se era certo ou errada, se um dos
irmãos foram até esse lugar no dia do casamento ou um dia antes, com
certeza era importante, certo?
Ah, minha cabeça iria fundir, não havia nada racional no que estava
fazendo, ainda mais para onde estava indo.
Parei no primeiro posto de combustível, enchi o tanque, comprei
duas garrafas de água na conveniência, amendoim e segui estrada. Não havia
nenhuma chamada no meu celular e só depois que estivesse em um local
seguro que entraria em contato com minhas amigas.
Meus pensamentos seguiram até a tal Rigel, mulher de nome
estranho que se portou tanto como aliada quanto como inimiga. Apesar de
nunca ter ouvido nenhum nome parecido com esse e já pensava em um
apelido para dar, já que eu era a louca dos apelidos, percebi que já escutei
falar em algum lugar sobre Rigel e não sabia onde.
— Em dois quilômetros, vire à direita — a voz feminina do GPS me
alertou que precisava mudar de direção e constatei no painel que estávamos
perto do nosso destino.
Olhei para o relógio e assustei por ter passado tanto tempo. Minha
mente voou tanto que as duas horas de viagem, depois do posto, passaram
voando.
Reduzi a velocidade, entrei no caminho à minha direita e senti o
peso das minhas decisões e atitudes nos meus ombros. Estava tensa, um
pouco amedrontada e prevendo que tudo isso daria merda.
Entrei numa estrada de terra, o carro chacoalhou mais que pandeiro
de pagodeiro e acordou meu acompanhante.
— Onde estamos indo? — ele falou baixo e tentou se endireitar no
banco, mas os olhos piscavam mais do que se mantinham aberto.
— Estou seguindo o GPS. — Estiquei o braço e apontei o ponto que
indicava a Fazenda. — Não conheço o lugar, só estou seguindo minha
intuição.
— Quem é você mesmo?
— Eu sou Josi. — Estendi minha mão para que ele apertasse, mas
fui ignorada. — Você poderia me cumprimentar e não deixar no vácuo.
— Você poderia me levar de volta àquela festa ou até meu pai?
O farol do carro iluminou a porteira e um grande letreiro em madeira
indicando o nome do lugar, Fazenda Santa Rita.
Parei o carro, soltei meu cinto e abri a porta.
— Onde você pensa que vai? — Segurou meu braço.
— Tentar abrir a porteira para seguirmos.
— Preciso voltar.
— Você sabia que tinha um irmão gêmeo?
Vi com dor no meu coração ele engolir a saliva e mudar seu
semblante para contrariado. Não tinha noção do que se passava na cabeça
dele, mas tinha certeza que nunca soube da sua família consanguínea.
— Como isso é possível? — falou baixo de forma sofrida.
— Você precisa ficar comigo e aprender algumas coisas sobre a vida
que lhe foi tirada. Vou te contar a minha versão e depois, quando você estiver
pronto, conhecerá a versão dos seus irmãos e poderá compartilhar a sua
própria.
Acho que foi demais para ele, pois me soltou, liberou o cinto e saiu
do carro caminhando para longe. Que maravilha, tudo estava indo de mal a
pior.
Capítulo 3

Josi
Suspirei e fui em direção a cerca, ir atrás de Antonio nesse momento
não resolveria muito se não conseguisse entrar nesse lugar.
Estragando minhas sandálias por causa da terra e pedras no chão, me
equilibrei e fiz uma pequena dança da vitória quando encontrei a porteira
presa apenas por uma corrente sem cadeado. Abri o portão de madeira e virei
em direção aonde o fujão seguiu.
— Antonio, volta aqui! — gritei a sua procura. — Morro de medo de
ser picada por uma cobra, não me faça andar no meio desse mato atrás de
você. Tony, onde você está? — Como não tive resposta, tentei apelar. —
Totô!
— Totô?
Gritei quando ele surgiu do nada na minha frente e quase caí para
trás, se não fosse ele me segurar pela cintura. Coloquei minhas mãos no seu
terno, fingi ajeitar a lapela, já que a intenção era sentir a firmeza dos seus
músculos e sorri.
— Gostou do apelido? Me inspirei na Ray, que apelidou seu gêmeo
de Tutu.
— Eu não tenho irmão gêmeo.
— Então Arthur era o quê seu? Clone? — Peguei no seu braço e
comecei o puxar até o carro. — Entre no carro, vou começar a te contar uma
história de arrepiar.
— Por que está fazendo isso?
— O destino? Minha intuição? — Movimentei minha mão para que
ele entrasse no carro. — Escutei uma mulher falar que precisava de você vivo
para um interrogatório. Eu assisti filmes demais para saber o que fazem para
extrair informações. Achei por certo te socorrer e permitir que compartilhe
informações porque quis e não porque estava sob o efeito de algum calmante,
tortura ou sei lá o quê!
Como ele não fez menção de entrar, dei a volta no carro e sentei no
banco do motorista tentando mostrar que ia seguir e precisava dele junto.
— O que você é da família Valentini? — Ele inclinou o corpo para
dentro do carro.
— Duas amigas... ou melhor, três amigas minhas estão envolvidas
afetivamente com os seus irmãos. Cada uma delas contribuiu de uma forma
para resolver o mistério que ronda Vivian e Franklin Valentini, então... —
Dei de ombros. — Eu me considero uma agregada nessa família, preciso
fazer minha parte.
Coloquei as mãos no volante e ele me encarou com raiva. Retribuí a
rispidez no olhar e estava pronta para fazer uma piada, mas Antonio foi mais
rápido:
— Entre com o carro, vou fechar a porteira e te acompanhar.
Ele fechou a porta e fiz o que precisava ser feito. Rapidamente
fechou a porteira atrás de nós e entrou no carro dispensando o cinto de
segurança.
— Obrigada por não relutar muito. Eu já não tenho muito argumento
para justificar estar aqui, imagine ter que...
— Você conhece Alberto?
— O idiota que quase matou meus amigos e que você chama de pai?
— Entortei a boca ao lembrar de tudo o que Letícia contou sobre a casa de
suingue. — Ele tem um clube de perversão!
Antonio não respondeu e olhou para o lado contrário a mim perdido
em seus pensamentos. Mordi a língua ao perceber que estava chamando o
homem que ele considerava pai, de idiota. Dessa forma nunca conseguiria sua
confiança ou teria credibilidade.
Uma casa grande, varanda em volta e zero iluminação apareceu em
nossa visão. Estacionei o carro e meu celular tocou ao mesmo tempo que
Antonio sai do automóvel.
— Alô? — Letícia era o nome que apareceu no meu visor antes de
atender.
— O que... você... viu? — A ligação estava horrível, conferi o sinal e
saí do carro em busca da melhor posição para falar com ela.
— Não estou te escutando! — falei alto e comecei a caminhar em
direção a entrada da fazenda.
— Eu... você... vida...
— Droga, vou tentar te mandar mensagem!
Encerrei a ligação, fiquei em um lugar onde a luz da lua era o
suficiente para me abrigar e abri o aplicativo de mensagem.
Thata>> Alguém teve notícias da Josi?
Alci>> Ray, se você leu isso, não se preocupe, está tudo sob
controle. Vá curtir a lua de mel.
Paula>> Cadu está com Letícia, eu estou com Arthur e Josi com
Antonio, tudo perfeitamente no controle.
Letícia>> Que sorte vocês têm da Ray acreditar em tudo isso que
estão falando. Não adianta suavizar, Josi raptou Antonio e ainda por
cima levou o carro do Cadu!
— Merda, o Ben seria mais suave na bronca — resmunguei
divertida. As mensagens eram de antes de parar o carro.
Alci>> Eu e Thata iremos voltar para nossa cidade amanhã,
seria bom alguém ir atrás da Josi. Letícia, por que não aciona aquela sua
amiga?
Letícia>> Porque ela está de mal de mim só porque me cobrou
doce de banana como forma de pagamento para os seus serviços e eu ri
da cara dela. Quem pede doce em troca de um serviço desses, pelo amor
de Deus!
Thata>> Você sempre sensível. Preferia que ela cobrasse em
reais?
Letícia>> Eu preferia que ela fosse menos dramática e me desse
um endereço para levar pessoalmente, mas enfim... esquece isso, vou
tentar ligar para Josi.
Paula>> Meninas, vamos nos ver amanhã antes de irem para o
aeroporto. Vou ficar com Arthur aqui na casa dos Valentini.
Thata>> Vamos nos ver sim, me sinto cada vez mais próxima de
vocês a cada loucura que acontece.
Alci>> E agora é a vez da Josi. Oremos para o anjo da guarda de
Antonio para não sofrer muito nas mãos dela.
Josi>> Estou aqui, li tudo e não achei graça nenhuma. Ele
poderia muito bem ser idiota como o Alberto, que ele chama de pai!
Letícia>> Não estava conseguindo te entender nada. Onde você
está? Por que fugiu com ele?
Thata>> Josi, você está bem? Que loucura...
Alci>> Ela finalmente encontrou um clone do Arthur! Vai poder
deixar a Paula em paz.
Josi>> Alci, você falando isso me dá medo do que vou falar pelos
próximos momentos!
Letícia>> Que eu vou ganhar na loteria.
Thata>> Você já ganhou, Cadu é o pacote completo, amiga! E
aquele olhar apaixonado quando vocês estavam dançando... até parecia o
casamento de vocês!
Alci>> Ah, eu fiquei mais encantada com Arthur se contendo
para não cumprir o desafio de comer peixe. Que romântico...
Paula>> Estou apaixonada de verdade gente!
Josi>> Vocês continuam aí, eu vou voltar para cá. Estou bem,
Antonio não parece muito maleável, mas vamos lidando aos poucos. Vou
contar tudo o que sei e depois volto com ele.
Alci>> Mais uma encaminhada com um irmão Valentini. Para
nós servirá apenas os primos da Ray, Thata.
Letícia>> Por que mesmo você o sequestrou?
Josi>> Uma tal de Rigel falou que precisava dos dois vivos para
interrogatório. Ele não é o vilão da história para ser tratado como
suspeito. Odeio injustiça.
Thata>> Na adrenalina do momento, acho que faria o mesmo.
Coitado do Antonio. Mande notícias e qualquer coisa grita.
Alci>> Amamos você, amiga.
Letícia>> Onde você está?
Josi>> Algum refúgio alheio. Prometo que se for acusada de
invasão de propriedade particular, colocarei vocês como testemunhas.
Alci>> Não te amo mais.
Thata>> Nem eu, #PartiuCasa.
Letícia>> Não faça nada que eu não faria.
Paula>> Não dê ouvidos a Letícia, meu Deus, que conselho é esse
amiga? Mantenha pulso firme, serenidade e quando tudo parecer
explodir, conte até dez e seja você, divertida em primeiro lugar sempre.
Capítulo 4

Josi
Bloqueei o celular, olhei para os lados e suspirei. Bem, vamos lá que
a noite estava apenas começando.
Caminhei para a área lateral da casa e as luzes do nada se acenderam
fazendo com que finalmente caísse de bunda no chão pelo susto e tropeço nas
minhas sandálias destruídas.
— Depois vou mandar a conta para esses Valentini. Parcelei em
cinco vezes essa sandália para ter que jogar fora depois da segunda usada. —
Ainda no chão, removi o calçado e levantei, percebendo que Antonio estava
me observando.
— A porta estava aberta.
— Vou pegar as águas que comprei e já volto.
Na ponta dos pés, andei na grama desconhecida até o carro, peguei o
que tinha comprado na conveniência e segui para a porta principal. O cheiro
de ambiente fechado, mofo e madeira me fez ter um ataque de espirro.
— Isso é um crime com meus pulmões alérgicos — resmunguei até
chegar na cozinha, colocar as coisas em cima da mesa de madeira e sentar no
banco. Espirrei várias vezes até precisar ir no banheiro para lavar o rosto e
meu nariz.
— Tem um banheiro na primeira porta a direita — ele falou da porta
da cozinha e apenas segui, sem dar uma segunda olhada.
Não reparei que havia removido a jaqueta do terno e a gravata, muito
menos que estava descalço como eu. Aprovei que tinha água para usar o
banheiro, lavar meu rosto e tentar limpar um pouco do meu pé. Mesmo que o
lugar estivesse com ar de fechado há muito tempo, havia toalhas e sabonetes
novos, tudo parecia limpo.
Ao invés de voltar para a cozinha, fui investigar os quartos. Todos
com roupa da camas limpas, toalhas e tapetes novos. Abri armários e gavetas
e não achei nada além de roupas de cama e banho.
Fiz isso em mais dois quartos até chegar no último, a suíte principal.
Segui para a cômoda e foi na última gaveta que encontrei dois cadernos e um
álbum de fotografias. Sentei no chão, peguei um deles e abri encontrando a
peça que faltava para o quebra-cabeças.
Essa fazenda era dos Valentini. Se o carro era de Cadu, então, ele
veio aqui esconder os diários antes da festa e aproveitou para limpar o local.
Bem, não ele limpar, mas mandar fazer. Duvidava que um ser com aquela
quantidade de dinheiro faria alguma coisa com as próprias mãos.
Será que ele pretendia vir aqui com Letícia depois da festa? Caso
positivo, acho que frustrei seus planos.
— O que é isso? Você entra numa propriedade particular sem
autorização e agora olha os seus objetos pessoais?
— Acho que você vai gostar de ver isso também. — Levantei o
álbum de fotografias e tive sua atenção para mim.
Peguei os três itens, levantei e segui para a cama. Ele fez o mesmo,
sentou ao meu lado e pegou um dos cadernos para ler.
— De acordo com minhas amigas, esse é o diário de Vivian
Valentini, sua mãe.
— Eu não tenho mãe — falou seco e continuou a ver as fotos, os
irmãos pequenos e bebês junto com seus pais.
— Acho que o exame de DNA não está descartado de ser feito,
apesar das aparência serem idênticas. Você é irmão gêmeo de Arthur, que é
irmão de Benjamin e Carlos Eduardo.
Ele continuou a folhear enquanto eu suspirava em derrota. Preferia
quando as pessoas discutiam comigo e não quando se mantinham em silêncio
e indecifráveis.
— Tudo começou com Benjamin, o irmão mais velho, que queria
unir a família e deixar toda a mágoa para trás. Só que com isso ele encontrou
os diários da mãe e também, uma certa foto comprometedora. — Tomei o
álbum da sua mão, fui até o final e encontrei a foto dos dois bebês iguais. —
Havia uma “lenda” na família de que Arthur tinha um irmão gêmeo, mas
nunca foi confirmado. Carlos Eduardo apareceu e foi até o clube mantido por
Alberto para tirar satisfações.
— Sim, eu vi quando ele e a garota de cabelos coloridos apareceram
na casa de suingue.
— Você estava lá? — perguntei intrigada. Ele viu o irmão do meio e
não reconheceu e... ele trabalhava numa casa de suingue?
— Sim.
— E não vai me falar mais nada? Você trabalha lá? O que faz?
— Continue sua história — falou seco, colocou o álbum de fotos de
lado e ficou olhando apenas para a foto dos bebês, Arthur e Antonio recém-
nascidos.
— Seus irmãos poderão explicar melhor.
— Não tenho irmão, não tenho mãe, pare de colocar na minha vida
pessoas que não conheço! — explodiu e se levantou para andar de um lado
para o outro. — Você fala sozinha, me trouxe até aqui a força...
— Eu te trouxe aqui sem o seu consentimento, mas a força? —
Levantei e fiz indicação do meu corpo para ele. — Não tenho porte muito
menos coordenação motora para tal coisa. Minha intenção foi te proteger!
— A família Valentini destruiu a vida do meu pai. Até alguns dias
atrás ele nunca tinha falado sobre isso, porque o assunto parecia ser muito
dolorido para ele.
— Machucava lembrar que exigiu de Vivian ter um dos seus filhos
para não contar para o mundo que você poderia ser sim filho biológico dele
com ela? — Coloquei as minhas mãos na cintura e o enfrentei quando ele
parou na minha frente irritado. — Vivian e Franklin Valentini frequentavam a
casa de suingue, Alberto e Miguel faziam um bem bolado com eles, nem
quero pensar em como. A questão é, no final dessa história, uma mãe foi
ferida porque queria proteger o ego do marido que estava impotente – no
sentido literal – enquanto outro queria se vingar, porque não tinha o amor da
mulher.
— Você está blefando. Que história fantasiosa é essa? — Ele jogou
os braços para o ar. — Percebi a semelhança com aquele outro cara e se
minha mãe biológica me escolheu para ser dado, ela não merece meu
respeito.
Vi vermelho quando disse isso. Minha mão coçou para não voar na
sua cara e em seus pré-conceitos. Não conhecia Vivian, não sabíamos onde
estava nem a sua versão dos fatos que não estivessem em seu depoimento na
polícia, mas tinha dentro de mim que ela fez sempre pensando no melhor de
todos.
Pensar com frieza que uma mãe deu um filho e por isso não merece
respeito me causa um nó no estômago e nem sabia explicar exatamente a
motivação disso. Sentia, no meu âmago, que era uma injustiça sem tamanho.
Comecei a respirar com dificuldade, meu coração acelerou e tudo o
que queria era enfrentar com unhas e dentes esse homem que não sabia nem
metade do que era o seu passado.
Mas as palavras da Paula vieram para mim e fiz como ela orientou,
nossa guru zen. Respirei fundo, contei até dez e pisquei meus olhos várias
vezes até conseguir sorrir e ele franzir a testa indignado.
— Eu vou tomar um pouco de água e comer amendoim.
Saí do quarto e segui para a cozinha me achando louca ao mesmo
tempo que forte. Consegui não explodir e isso era um avanço para alguém
impulsiva como eu.
Peguei a garrafa de água, o saco de amendoim e a rede que estava
dobrada em cima do encosto do sofá da sala. Segui para o lado da área da
casa, encontrei os ganchos de por rede e tentei não espirrar cinquenta vezes
quando inspirei o cheiro do tecido grosso em minhas mãos.
— Preciso me tratar ou minha rinite vai me matar — falei para o
relento antes de sentar sem nenhuma classe e sentir o vestido subir e expor
minhas coxas. Tomei um gole de água, abri o saco de amendoim e comecei a
comer olhando para a lua.
Poderia dormir, também poderia cantar alguma moda de viola e
entrar de vez nesse mundo selvagem, mas me balancei calmamente e esperei
que meu visitante me abordasse com algum pedido de desculpa ou
curiosidade sobre o que eu sabia.
Capítulo 5

Josi
— Pelo jeito fiquei no vácuo — falei conferindo o saco de
amendoim no fim. Olhei para o lado da casa e assustei quando vi o homem de
pé vestindo apenas a calça social me encarando com ferocidade. Uau, peito
nu, muitos músculos expostos. — Quando você iria anunciar sua presença?
— Preciso voltar para a cidade. — Seu olhar caiu para minhas
pernas.
— Você precisa colocar um pouco de roupa, apesar que não tenho
nada para reclamar com você assim. — Olhei para meu colo e percebi que
minhas pernas estavam quase expostas completamente.
Levantei, ajeitei o vestido e sorri sem graça.
— Não achei nada que pudesse limpar meu ferimento. Não estou a
fim de morrer por causa de uma infecção idiota.
Ele virou o corpo e mostrou a parte de trás do seu braço que estava
com um machucado relativamente grande. Caramba, como não vi isso?
Recolhi tudo o que estava comigo, andei até ele, peguei no seu braço
não machucado e fomos até o banheiro. Deixei no meio do caminho o que
estava na minha mão e fui vasculhar aquele banheiro. Poderia não ter um kit
de primeiros socorros, mas tinha sabonete e teria que servir para o momento.
Estendi o braço machucado e coloquei perto da água.
— O que está fazendo?
— Lavando. Sei que preciso te levar para um hospital, não tenho
noção do que uma bala de raspão pode causar no seu corpo, mas preciso que
você pelo menos escute toda a minha versão da história.
Joguei um pouco de água e vi o sangue escorrer. Espumei minha
mão e respirei fundo antes de começar a lavar o local. Diferente de mim, que
estava tensa e sentindo dor não sei porquê, ele continuava sério e firme.
— Não está doendo?
— Está.
— E não fez nenhuma careta — murmurei e olhei para os seus olhos
um momento. Ele estava muito próximo, seu cheiro começou a invadir meus
sentidos e comecei a sentir atração que não deveria.
Maldita conexão que senti com essa aparência. A situação confusa e
a adrenalina não colaboravam para que eu pudesse pensar de forma racional.
Voltei minha atenção a limpar o machucado até que fiquei satisfeita,
enxuguei seu braço na toalha de rosto e sentei em cima da pia de mármore
para ficar na mesma altura que ele. Sem soltar seu braço, respirei fundo e
comecei meu discurso antes que cometesse uma loucura igual Ray, Letícia e
Paula:
— Sua mãe amava seu pai e a família...
— Pare de me incluir em um lugar onde não faço parte! — sibilou
irritado.
— Não está óbvio seu parentesco? Para de relutar! — retruquei
zangada.
— Odeio a empatia, mas agora, só isso vai fazer você entender o que
estou falando. Cresci sem uma mãe, Alberto é minha única família e o clube
minha herança. Você só está...
Ele engoliu em seco e olhou para o espelho atrás de mim. Uau, se
isso não fosse uma lição de moral, não sabia o que era. Estava forçando a
barra, pedindo que engolisse uma história que iria contra tudo o que ele
viveu.
— Como é essa casa de suingue? — Ele voltou a olhar para mim
com o cenho franzido e tentei não corar com minha pergunta. A questão era,
iria extrair o máximo de informação da vida dele e tentar encaixar com a vida
que lhe foi tirada.
— Você quer saber como funciona um clube voltado para o sexo e
troca de casais? Nunca fodeu na vida?
— Nada além do normal — falei baixo e com vergonha, meus olhos
olhavam para todos os lados menos para ele. Soltei minha mão do seu braço e
pulei da pia. — Precisa pagar quanto para entrar?
Ele me colocou novamente em cima da pia e dessa vez, seu corpo
estava entre minhas pernas e meu vestido subiu até o meu quadril. Suas mãos
deslizaram pelas minhas pernas para cima e para baixo me deixando
assustada com a liberdade que achou que tinha e o quanto eu queria.
— O clube te dá liberdade sexual. Não há preconceito ou limitação
quando envolve o tesão e respeito — seu tom mudou, sua voz era sensual e
seu contato... nossa, precisava me controlar. — Não há nada de normal em
um clube de suingue. Apesar de não ter filtro nas coisas que fala, você parece
ser muito... careta.
Tentei não olhar para os seus olhos, ensaiei mentalmente empurrá-lo
e lhe dar um sermão de como não tocar em uma mulher sem consentimento,
mas estava curiosa, queria saber mais sobre esse tesão e respeito dentro da
putaria.
Apesar de namorar pouco e estar há um bom tempo solteira, quando
tinha um parceiro, gostava de ousar. Frustração era o meu nome do meio
quando se falava de sexo e vi com Antonio uma oportunidade de fazer
diferente. O que poderia acontecer de pior? Nós sermos obrigados a conviver
por causa das minhas amigas, uma vez por ano e olhe lá.
Ele encarou meu silêncio como consentimento, atreveu colocando
uma mão debaixo do meu vestido e circulando minha coxa, quase tocando
minha intimidade me fazendo suspirar e arrepiar.
— A antecipação é o ponto principal da relação sexual. Você poder
fazer tudo certo, tocar os pontos certos, mas se não começar da forma certa, o
sexo não te dará o prazer que deveria. — Ele inclinou para frente, colocou
sua boca perto do meu ouvido e inspirou profundamente me fazendo arrepiar
novamente. Sua mão continuava a tortura na minha perna. — Está sentindo
isso? — sussurrou.
— Aprendeu tudo isso numa casa de suingue? — preguntei com voz
trêmula e segurei o fôlego.
— Talvez... — falou, se afastou e saiu do banheiro me deixando com
o coração pulando do meu peito e meu ventre pulsando.
O que acabou de acontecer? Ele me excitou e depois me largou... ou
ele queria que eu o seguisse? Eu queria todo esse jogo?
Que loucura, cogitei me entregar para uma noite ardente apenas pela
sua sedução. Não sou assim, não me entrego tão facilmente.
— Se controle! — falei para mim mesma.
Antes que me arrependesse ou pensasse melhor no que deveria fazer,
pulei da pia e fui atrás do provocador.
Capítulo 6

Josi
— O que acabou de acontecer lá? — Cheguei no quarto apontando
para fora indignada. — Você não tinha o direito de me tocar.
— Não tive intenção de te desrespeitar, apenas mostrei o que você
gostaria de saber — falou enquanto voltava a se sentar na cama e pegar os
diários e álbuns de sua mãe. Seu semblante era de derrota. — Você me atrai e
a forma como está lidando com essa situação também está me excitando, só
não consigo me frear. — Levantou a cabeça e me encarou. — Se afaste
enquanto é tempo, porque a próxima vez que te tocar e você corresponder,
vou avançar o sinal e obedecer apenas às respostas do seu corpo.
Engoli em seco, suas intenções eram cruas e finalmente falou algo
além do que me responder ou repreender. Já havia amigas demais envolvidas
com essa família, imprudência demais nessa equação que não queria fazer
parte.
— Meu corpo pode estar pedindo algo, mas minha cabeça tem um
grande letreiro dizendo “não se renda”. — Segui para perto da cômoda, me
encostei nela e cruzei os braços. — Vamos resolver tudo de uma vez e
voltarmos para a mansão.
Ele desviou o olhar de mim e riu de deboche. O diário de sua mãe
foi folheado, algumas palavras foram lidas antes dele se acomodar melhor na
cama e se distrair fingindo que eu não existia.
— Vai ficar a madrugada inteira aí? — perguntou sem me olhar.
— Essa distância está ótima para nós.
Levantou uma sobrancelha, me encarou da cabeça aos pés e sorriu
de forma predatória.
— Qual o problema em fazer sexo com um estranho... — Franziu a
testa e aumentou mais ainda o seu sorriso. — Caramba, você sabe muito
sobre mim e não sei nada de você. Isso parece um cárcere privado.
Tive a decência de corar, mudar minha postura para relaxada e
suspirar. Parecia que os papéis estavam invertidos agora, ele era o piadista
que sabe de tudo e eu acuada pisando em solo desconhecido.
Dei alguns passos para frente, sentei de lado na cama e coloquei
minha mão na sua canela.
— Desculpe por tudo isso. Eu sou Josi Penha, tenho 25 anos,
trabalho no setor de Recursos Humanos da empresa do meu pai, não moro na
cidade, mas sou amiga da esposa do Benjamin. Os irmãos dele também se
relacionaram com minhas amigas e minha intenção, quando te tirei daquele
lugar, foi tentar te proteger de alguma forma. — Apertei a mão e senti o
tecido da sua calça me fazendo cócegas do tipo erógenas. Se não só ele era
completamente sexual, sua roupa também, ou era apenas minha cabeça que
só pensava besteiras ao invés de focar no que realmente importa, por isso,
rapidamente voltei minha mão para meu colo.
— Obrigado por tomar cuidado e não falar deles como se fosse algo
meu. — Acenei afirmativo com a cabeça, realmente fiz isso de propósito. —
Conte novamente sobre o que você sabe.
— Franklin Valentini teve um problema de ereção e achou por bem
levar sua esposa Vivian para um clube de suingue, para atender as
necessidades que ele não conseguia mais suprir. Isso aconteceu antes de
Arthur nascer, ou seja, Benjamin e Carlos Eduardo já existiam. Aos poucos, o
problema do patriarca foi se resolvendo e também, mantiveram dois parceiros
fixos nesse clube, Miguel e Alberto. Vivian engravidou, Franklin nunca
duvidou que foi um milagre e que o filho era dele, mas Alberto nutriu
sentimentos que Vivian não correspondia. E, parece que ela teve relações sem
preservativo com ele, porque há um indício de que sim, você e Arthur são
filhos de sangue dele.
Antonio estava atento a minha narrativa e fiquei aliviada por ele ter
me dado mais uma chance para contar o que sabia.
— Pode continuar.
Ajeitei-me em cima da cama, colocando minhas pernas para o lado e
me preparando para falar mais:
— Alberto queria Vivian, mas ela amava seu marido e sua família,
faria de tudo para preservar a união e por isso, quando o amante cobrou um
preço para não alardear Franklin sobre a paternidade, ela pagou. Existe um
bilhete secreto que não achei aqui, parece que houve coação de, ou pagava
por bem, ou por mal.
— Eu fui o pagamento — ele falou chateado.
— Penso que ela não te escolheu em específico. Sem muito cuidado,
é como se fechasse os olhos, virasse cinco vezes e apontasse para um de
vocês.
— Por que a defende?
— Porque dentro de mim sente a dor que ela sentiu! — Bati no meu
peito. — Só ela para contar o que realmente aconteceu nesse dia e na morte
de Miguel e Franklin, que ela presenciou.
— A polícia não investigou?
— Você nunca foi atrás para saber?
— Era fiel ao meu pai. Se ele não me queria perto dessa cidade sem
ele estar junto, queria dizer que aqui não tinha nada que eu devesse saber.
Mas... — Ele pareceu tentar ocultar sua confusão. Com certeza ele era fiel ao
pai, mas não agora. — Há mais alguma coisa que você sabe?
— A investigação foi feita pela polícia e todos os veículos de
comunicação acompanharam. Franklin matou o amante da esposa e depois se
matou. Porém, de tudo isso que conversamos, por que foi Alberto a te ter
como moeda de troca? Por que ele nunca foi acusado de ser amante também?
Seu olhar foi para o teto e resolvi deitar ao seu lado, mas apenas meu
tronco, minhas pernas deixei para o lado de fora da cama.
— Apesar do assunto estar esclarecido para a polícia, agora que
estamos investigando a fundo tudo isso, parece que há informação faltando.
Engraçado como Benjamin tinha prioridade de reunir os irmãos, mas nunca
falou da mãe. Para mim, a chave de tudo é ela.
— Onde ela está? — escutei sua voz perto de mim.
— Boa pergunta. É algo a se levantar quando voltarmos.
Provavelmente vou perder meu voo de volta para casa, o saldo do meu cartão
vai estourar por causa da passagem com valor absurdo que eu irei pagar. —
Comecei a divagar, encarando o teto e achando que ele fosse um ótimo
ouvinte. — Seria muita cara de pau pedir um reembolso? Afinal, fiz tudo em
prol da família. — Sorri divertida me sentido de volta à ativa. — Se eu
estragar alguma coisa naquele carro importado, vou deixar Letícia assumir a
responsabilidade.
— Eu preciso te foder.
Congelei no lugar quando vi que Antonio se levantou da cama e
parou entre as minhas pernas. Tentei levantar meu corpo, mas sua mão no
meu ombro me fez deitar novamente me deixando nervosa.
— Eu...
— Você terá a oportunidade de ter uma noite, de graça, com o
melhor pau da sua vida.
Revirei meus olhos, deixei com que meus pés subissem na sua perna
e quando encontrou seu quadril, dei uma cambalhota para trás e me mantive
longe. Imaginava que ele veria muito mais do que eu queria mostrar, porém,
nesse momento, só precisava de distância.
Não cairia nessa conversa, não me renderia a paixão tão fácil assim.
Capítulo 7

Josi
Seu olhar era surpreso quando saí da cama e ajeitei minha roupa no
corpo.
— Você poderia ser o Victor do Aranhas Moto Clube, eu só daria
para você depois de alguns dias conversando por mensagens, jantares e
cinema, diferente da Rachel. Quem sabe se você pular para o livro três,
aprenderia algumas maneiras com o Lorde. — Estiquei o braço e apontei para
ele com ferocidade. — Eu vou dormir na sala, você fica aqui e amanhã
vamos embora.
Andei distante dele até sair do quarto e sentar no sofá da sala. Meu
coração pulava pela boca e meus pulmões...
— Atchim! — Espirrei três vezes antes de sair desse antro de ácaros
e ir para a rede novamente. — Merda de alergia. Pelo jeito não vou dormir.
Fui novamente para a rede e lá fiquei me balançando por um tempo
até Antonio se aproximar, parar o movimento e sem pedir autorização, sentar
atrás de mim e me envolver com seu torso nu, muito cheiroso e muito
excitante.
— Hei! — Tentei sair do seu aperto, mas ele me envolveu com as
pernas também. — Eu não sou qualquer uma, me solta!
— Já que não vamos foder, podemos apenas ficar assim?
— E você é quem? O mocinho romântico que dirá que não fará nada
que eu não queira? — Tentei me livrar do seu aperto novamente e nada. — E
a parte do respeito? Eu não quero estar aqui...
— Nem eu, Josi. Um dia atrás, meu pai me ligou pedindo que
finalmente viesse a minha cidade natal para um acerto de contas. Algumas
horas atrás, ele falou que precisava que o acompanhasse em uma festa,
ondem finalmente se vingaria de quem o mais fez sofrer — ele começou a
falar, estava realmente desabafando e apenas parei de me movimentar para
escutar. — Cresci ouvindo sobre pessoas que o levaram até o fundo do poço,
que fui a única pessoa que não o abandonou até hoje. Apesar disso, ele fazia
questão de sempre me manter longe quando criança, estudei fora, me envolvi
com os negócios e voltei para a cidade sendo obrigado a me manter dentro
daquele clube por capricho dele. Meu pai... — vacilou — Alberto sempre
conseguiu que eu o obedecesse, ser fiel a ele era o que mais me manteve são,
porque passei muito tempo sentindo que algo estava errado na minha origem
e passei tempo demais entorpecendo esses sentimentos com sexo e trabalho.
Eu quero saber a verdade, só não sei se estou preparado para o que está por
vir.
Relaxei no seu colo e meu coração pareceu se partir um pouco com
sua declaração. Se era apenas para me convencer a levar para a cama ou
sendo ele mesmo, nunca saberia, até porque, estava mudando de ideia quanto
a não me render.
Céus, como eu era besta de me iludir só porque ele estava falando
coisas íntimas de sua vida!
— Apesar de nunca ter disto isso em voz alta alguma vez, sempre
quis ter um lugar que pudesse chamar de lar. Se me perguntar, não sei te falar
o que seria voltar para casa. Vivi de sexo e libertinagem por anos demais para
querer me aposentar e apenas... poder viver para mim e finalmente criar uma
raiz que não seja tão estranha quanto esse sentimento de não pertencer a lugar
nenhum.
— Eu não vou transar com você — resmunguei e me aconcheguei
em cima do seu peito. — Obrigada por compartilhar, pensei que você era um
idiota, insensível, que só pensava em putaria.
— Amanhã, talvez, eu volte a ser isso, porque é quem eu sou. Idiota
e que só pensa em putaria é parte de mim. — Ele também se acomodou e
afrouxou o aperto sobre mim. — Saber que tenho uma família ao custo do
sofrimento de alguém é um pouco perturbador. Se ela realmente é minha
mãe, porra, por que não lutou por mim? Ela queria preservar a união familiar,
isso queria dizer que eu não fazia parte?
— Há muito mais sobre sua separação de Arthur do que se pode
imaginar. Quem sou eu para contar a sua história? Sou apenas uma curiosa
seguindo a intuição, a pessoa que irá dizer melhor sobre o que aconteceu é
sua mãe e irmãos.
— E onde ela está?
— Que tal você começar pelos seus irmãos? — Ergui minha cabeça
para poder olhar em seus olhos. A luz do luar o transformava em um homem
tão atraente e sedutor. Sua fragilidade exposta trilhava um caminho no meu
coração que não queria que fizesse. — Amanhã estaremos de volta, você
conversa com eles, tenta falar com a tal Rigel para conversar com Alberto
também...
Ele estava hipnotizado me olhando e por isso, sua mão veio
despretensiosa para o meu rosto e tive que inclinar um pouco para cima para
que nossos lábios se unissem em um beijo casto e acolhedor.
Sem língua, apenas nossos lábios se reconhecendo. Foi mais erótico
do que imaginava, despertou meus prazeres mais do que deveria, mas não
conseguia me parar.
Uma mão desceu pelas minhas costas, parou na minha bunda e
apertou contra o seu corpo me fazendo sentir sua ereção e voltar a realidade
de tudo o que ele poderia fazer se não o interrompesse.
Mas eu queria continuar em seus braços...
Esfreguei nossos corpos apenas uma vez, voltei a me encaixar em
cima do seu torso e suspirei fechando os olhos e contando até 5.381.
— Você é virgem?
— Não, sou coerente.
Seu peito vibrou em uma risada sem som.
— Me sequestra, fala sozinha e está envolvida com a investigação de
um mistério de família que não é sua.
— Definição de coerência no meu dicionário. Agora durma.
Sua mão ficou nas minhas costas, alisando para cima e para baixo
enquanto sentia seus músculos com as minhas próprias. Não demorou muito
que esses movimentos nos fizessem dormir e se entregar ao cansaço. O que
não esperava era acordar com uma risada muito conhecida.
— Meu Deus, minha gêmea será minha cunhada! — Abri os olhos
para ver Letícia, Cadu, Paula e Arthur nos encarando. As meninas sorriam, os
homens pareciam confusos.
Saí de cima de Antonio e vi que ele também estava despertando.
Olhei para o céu e percebi que o sol já estava alto, ou seja, nós apagamos e
nem percebemos que a noite tinha sito trocado pelo dia.
— Você não é irmã gêmea dela — Arthur falou e bati na minha testa
por sua falta de senso de piada.
— É só o jeito que elas se tratam, amor — Paula envolveu seu braço
no dele e senti a química entre os dois ferver da mesma forma que senti a
minha com Antonio quando ele se pôs atrás de mim, muito próximo, muito...
duro.
— Preciso ir no banheiro — Antonio apertou minha cintura antes de
se afastar e me aproximei dos visitantes não esperados.
— Como vocês nos acharam?
— GPS. Achou que um carro desses não teria? — minha gêmea
respondeu divertida para mim.
— Você sequestrou meu irmão para quê? — Cadu perguntou
divertido ao ver meu constrangimento e tentativa de me ajeitar na frente
deles.
— Não pergunte o que você já sabe a resposta — Letícia respondeu
por mim e envolveu um braço em meus ombros. — Vou lá dentro com ela e
já volto.
— Eu também vou! — Paula falou, deixou um beijo na bochecha de
Arthur e nos acompanhou. Assim que entrei na casa espirrei e me amaldiçoei.
— Só quero saber como foi essa noite, Josi controlada — Letícia
estava se divertindo às minhas custas.
— Eu preciso de um banheiro, café e sair daqui de dentro antes que
eu morra por overdose de ácaros.
— Vamos abrir as janelas para arejar então. — Paula se afastou e
Letícia seguiu o caminho.
Quando dei um passo em direção ao banheiro, de dentro dele saiu
Antonio vestido com sua roupa de ontem e os sapatos. Ele me encarava com
advertência ao ajeitar sua camisa para dentro da calça e isso me confundiu.
— Fale com Cadu e Arthur enquanto as mulheres ficam aqui dentro.
— Letícia o dispensou, mas eu segurei seu braço quando ele passou por mim.
— Está tudo bem? — perguntei preocupada, afinal, eu o tirei da
festa com a intenção de protegê-lo.
— Obrigado, mas não preciso de ninguém para se preocupar.
Engoli em seco quando o vi sair e se afastar com seus irmãos pela
propriedade. Tinha certeza que não fiz nada de errado, ou melhor, que a noite
que tivemos não foi uma ilusão. Ele se abriu, nós encontramos um
denominador comum, mas parecia que havia inventado tudo na minha mente.
— Vá para o banheiro enquanto eu faço café!
Letícia me empurrou e fui de bom grado. Precisava de um momento
só para mim, para que pudesse me recompor do banho de água fria que levei
segundos atrás.
Capítulo 8

Antonio
— Você é muito igual ao Arthur.
Olhei para meu irmão gêmeo que encarava com o cenho franzido e
dei de ombros. Não havia mais como negar meu parentesco com essas
pessoas, só precisava que me cérebro funcionasse direito ao invés da minha
cabeça de baixo.
Ah, Josi. Ela conseguiu arrancar o pior de mim e isso não poderia
acontecer nunca mais. Ser resgatado? Não precisava de ninguém, muito
menos de uma mulher para fazer esse papel.
Quem esteve inerte até hoje era eu e sozinho encontraria as
respostas.
Andamos pela propriedade e não me importei com o sol escaldante
nos meus ombros cobertos pelo terno. A ferida no meu braço não parecia
doer, o que era um bom sinal e toda a minha vulnerabilidade de ontem foi
para dentro da privada, porque esse era eu, herdeiro de Alberto, um homem
frio e calculista.
— Você me escutou? — Carlos Eduardo, o que esteve no clube
alguns dias atrás parou na minha frente. Quem diria que meu pai estava
escondendo algo tão louco como isso? — O que você sabe sobre nós?
— O que você sabe sobre mim? — retruquei irritado. — Onde está
meu pai? Essa palhaçada precisa terminar agora.
— Alberto não é seu pai e muito menos de Arthur. Ele é um crápula
que manipulou nossa mãe e você!
— Ah é? — desafiei. — E onde está essa mãe que prefere abandonar
um filho ao invés de enfrentar o mundo?
— Não sei! — Ele deu um passo para trás, fez sinal com as mãos de
indiferença e sorriu com cinismo. — O que posso dizer é que podemos
trabalhar com o que temos em nossas mãos. Já colhemos o material genético
de Arthur, de Alberto e falta o seu. Se somos filhos da mesma mãe e/ou
também do mesmo pai, descobriremos em alguns dias.
— E então, somos irmãos. — Cruzei os braços a minha frente. — O
que isso muda na sua vida, além de ter que repartir a herança do seu pai tudo
novamente?
— Se você estiver precisando de alguma renda, minha empresa tem
espaço para você. Além de saudável, se puxou o intelecto da família, você
também é inteligente e pode trabalhar para conseguir seu próprio dinheiro.
Olhei para a pessoa que era exatamente igual a mim e percebi o
motivo para que Alberto não me deixasse vir à cidade como queria. Uma
família, uma casa para chamar de lar... tudo isso era uma salada de emoções
dentro do meu peito. Fui cego por tanto tempo, agora estava colhendo os
frutos disso.
Todas as ações do meu suposto pai pareciam claras para mim agora,
a blindagem e a reclusão, principalmente.
Carlos bateu no ombro de Arthur e sorriu.
— Como Benjamin não está aqui, eu precisarei fazer o seu papel. —
Olhou para mim com diversão. — Eu sou o mais velho e vocês me devem
obediência.
— Não há necessidade de ordens e obediência quando se pode
chegar em um senso comum. Não somo mais crianças, Carlos Eduardo. —
Percebo que Arthur não entendeu a brincadeira. Para piorar, ele parecia rígido
e desconfortável com o contato.
Ele tinha algum problema?
Comecei a encará-lo quando deu um passo à frente, estufando o
peito e me encarando no mesmo nível.
— Não sei explicar, mas sabia que você existia — ele falou
pausadamente e senti meu estômago embrulhar.
— Se vocês sabiam, por que não foram me procurar? — questionei
tentando controlar minha chateação. Ele sabia da minha existência, eu sabia
que não estava no lugar certo, tudo isso era muito louco.
— Porque você sempre foi uma lenda na nossa família, Antonio. Até
ontem à noite, só tínhamos suspeitas e nada concreto. Alberto foi um filho da
puta cruel com nossa família.
— Minha mãe poderia ter lutado.
— Ela poderia ter perdido os quatro filhos. — Foi a vez de Carlos
bater no meu ombro e apertar. — Se tem alguém que pode esclarecer tudo é
ela, a mãe que nos abandonou assim que a investigação da morte de nosso pai
foi concluída.
— Por que nunca foram atrás dela?
— Porque estava muito preocupado em esquecer o que perturbava
minha mente. — Arthur apontou para sua cabeça e hesitou antes de estender
a mão como cumprimento para mim. — Gostaria de não me afastar de vocês,
se me permitirem.
— Tudo com bom senso, irmão! — Carlos apertou o ombro do
irmão e se transformou no nosso elo de união. Respirei fundo. — É hora da
verdade vir à tona. As agentes da SAI já está arrancando tudo o que
precisamos de Alberto...
O momento de união se desfez comigo dando um passo para trás e
suspirando com desgosto. Enquanto não falasse com ele não conseguiria
odiá-lo, vê-lo como vilão. Ele era minha única família até algumas horas
atrás.
— O que essa tal de SAI vai fazer com ele? — questionei com raiva.
— SAI é uma empresa de investigação. Elas irão interrogar e
prometeram não envolver violência.
— Iriam fazer isso comigo. — Olhei para ele com acusação.
— Não deveria falar isso agora, até porque, vocês não irão acreditar,
mas há muito mais coisas obscuras que envolvem Alberto do que você
imagina. A operação realizada no casamento não foi um favor à minha
namorada, mas a conclusão de uma operação encomendada por outra pessoa.
— Quem?
— Ah, você acredita? Sabe no que seu “pai” está envolvido? —
Carlos zombou e tive vontade de acertar seu rosto com um soco. — Chega de
conversa, vamos voltar para a mansão e resolver tudo isso de uma vez por
todas.
— E Benjamin? — Arthur questionou quando começou a andar ao
lado de Carlos Eduardo, que seguia em direção à casa.
— Deixe que curta a lua de mel. Serão apenas sete dias longe, tempo
suficiente para nos entrosarmos como irmãos. Certo, Antonio?
Caminhei com eles alguns passos atrás e o encarei sem nenhuma
empatia.
— Minha vontade é de socar sua cara nesse exato momento.
Diferente do que imaginei, ele riu alto, deu um passo para trás e
envolveu eu e Arthur com seus braços. Ele parecia levar tudo na brincadeira.
— Vamos resgatar nossa infância na academia. Tenho certeza que
existe uma vaga cativa para nós na Cadena.
— Você leva alguma coisa a sério, Carlos?
— Você não viu nada ainda...
Apesar de irritado, algo dentro de mim se confortou com essa
disputa e falta de seriedade com o assunto. Não queria admitir, mas lá no
fundo sabia que era isso que estava procurando, finalmente me via no
caminho certo, com olhos abertos e na expectativa do que viria depois.
Capítulo 9

Josi
— Agora conta tudo. Como foi a noite dos pombinhos? — Letícia
perguntou divertida quando sentei à mesa na frente dela e Paula, que se servia
de café.
— Tinha isso aqui? Deveria ter feito ontem — resmunguei
ignorando sua pergunta.
— Está apaixonada?
— Eu? — perguntei preocupada enquanto tomava meu café. — Para
com isso, Letícia.
— Você é minha gêmea, sei tudo sobre você e esses olhinhos são de
paixão. Sequestrou o bonitão para uma noite tórrida?
— Isso porque nem na mesma cidade moramos. Alci e Thata são
minhas conterrâneas, não você, Paula e Ray. — Revirei os olhos. — Eu o
tirei do meio do tiro cruzado. Ele é vítima e não suspeito.
— Capela falou que ele pode estar envolvido com uma coisa séria, a
mesma coisa que Alberto está sendo interrogado.
— Não foi isso que sua amiga disse, Lê. Não a deixe preocupada —
Paula interveio, estendeu o braço e apertou minha mão. — Alberto está sob
custódia da SAI não só pela família Valentini, mas também por outro cliente
delas.
— O que isso quer dizer? Antonio não tem nada com isso.
— Ou tem tudo. O que você conseguiu arrancar dele? — Letícia
perguntou afoita.
Lembrei do nosso momento na rede, ele se abrindo para mim, o
nosso beijo e hoje de manhã, ele sendo frio.
Antonio não havia me pedido segredo, mas qualquer um entenderia
sua atitude nas entrelinhas. Tive um pedaço dele e não deveria ser
compartilhado de forma displicente. Apesar da solução do mistério da família
e minhas amigas estarem em primeiro lugar, nunca deveria ser motivo para
trair a confiança de alguém.
— Contei a nossa versão dos fatos, o que lembrava das nossas
conversas e o que a avó da Ray falou. Ele está em choque ainda, cético
também.
— Não é fácil aceitar que sua origem é uma mentira de um dia para
o outro — Paula ponderou.
— Transou com ele?
— Agora que está namorando só pensa nisso? — perguntei chateada
e ela balançou a cabeça em afirmação, divertida, me fazendo sorrir e mudar
de expressão. Essa era a minha amiga, um poço de sinceridade sem filtro. —
Ele tentou, eu recusei. Não acho que devemos ser imprudentes quando um
assunto mais sério está envolvido.
— É por causa de assuntos sérios que nos transformamos em
impulsivas e como recompensa, temos a maior explosão de sentimentos do
mundo! — Paula falou baixo e corou. — Estou tão feliz que Arthur voltou
por mim.
— Não, foi por causa da aposta de comer peixe — apontei como
chacota, esse assunto não me parecia mais delicado como quando saí da mesa
no meio da festa de casamento da Ray.
— Tem certas atitudes que você precisa interpretar com sua intuição.
— Ela inclinou seu corpo para frente e colocou sua mão em cima do meu
coração. — Você não comentou isso para me magoar, suas batidas dizem que
você gosta de mim.
— Meu Deus, o lado zen da Paula encontrou um outro nível —
Letícia falou em choque enquanto eu e Paula trocávamos um olhar de
cumplicidade.
Mesmo depois dela tirar sua mão de mim, continuei encarando-a e
finalmente compreendi o que queria dizer, tanto do que estava vivendo com
Arthur e o quanto precisarei fazer para Antonio. Seguir o coração, mesmo
que palavras e atitudes poderiam me induzir a ser racional.
Era sério mesmo que estava comprando a briga para estar junto
desse irmão Valentini?
Tomei o resto do café e não disse mais nada, ainda brigando comigo
mesma sobre seguir minha intuição ou escutar a voz da razão.
— Terminaram aí? — Cadu se aproximou da mesa, tirou Letícia do
banco apenas para sentar em seu lugar e colocá-la em seu colo.
— Ainda estamos num momento exclusivo feminino, mas já que
você o invadiu... — ela respondeu irônica.
Paula se afastou para o lado e chamou Arthur com o olhar, que
sentou ao seu lado e segurou sua mão por cima da mesa. O olhar dele para ela
era de admiração, tão pouco tempo se relacionando e a ligação deles já estava
intensa.
— Essa xícara é minha! — resmunguei quando Antonio sentou ao
meu lado e se serviu café.
— Não tinha seu nome escrito.
Olhei para frente e vi quatro pares de olhos curiosos em cima de nós.
— Antes que pense besteira, eu não transei com ele.
— Ainda... — Antonio complementou e me deixou indignada.
— Presunçoso dos infernos. Deveria ter te deixado para os leões. —
Levantei e encarei todo mundo. — Vamos embora? Preciso de um banho.
— Eu preciso de um momento de paz. Querem conhecer a cachoeira
que tem aqui perto? — Cadu me ignorou e fuzilei minha amiga e seu
namorado.
— Você está com pressa para voltarmos e eu também. Quero falar
com Alberto.
— Eu vou ficar com Paula — Arthur interveio e implorei com os
olhos para a minha amiga zen.
— Você não quer seu carro de volta? — insisti com o irmão do
meio.
— Podemos conversar sobre você roubando meu carro em outro
momento, porque agora, vou curtir um momento a dois debaixo d’água.
— Gente, olha minha roupa! — Bati o pé no chão e Letícia saiu do
colo de Cadu deixando no canto de sua boca um beijo casto. — Eu tenho que
ir até o aeroporto voltar para casa.
— Você precisa se conectar com a natureza. Eu trouxe uma mala —
Letícia falou me puxando para fora da casa.
— Por quê?
— Cadu falou que vocês estavam na fazenda. Eu, por via das
dúvidas, vim prevenida.
— Está vendo que estou desconfortável, por que está fazendo isso
comigo? — Bufei com ela me ignorando. Se não daria bola para meus
problemas, iria atrás dos dela. — Como foi com os seus pais? — mudei de
assunto assim que ela abriu o carro e tirou uma pequena mochila de dentro.
— O de sempre, a pressão de sempre e os sermões de sempre. — Ela
envolveu um braço no meu e se apoiou para caminhar de volta. — Vamos
viver o momento, quando isso passar, sentiremos falta.
Chegamos perto da entrada da casa e decidi esclarecer esse assunto.
— Pode parar! — Segurei-a e afastei da porta da casa, seu tom era
preocupante. — O que está acontecendo, Lê? — perguntei baixo.
— Estou com medo, só isso. São bobagens. — Ela tentou se afastar,
mas eu mantive-a no meu agarre. — Nada para se preocupar, ainda.
— O que foi?
— Deixa para lá...
— Letícia! — rosnei.
— Estou com medo de estar grávida! — sussurrou e me fez congelar
no lugar.
— Como?
— Fazendo sexo sem proteção! — Bateu de leve na minha testa com
a palma da mão. — Apenas ontem me dei conta que os antibióticos que tomei
podem cortar o efeito do anticoncepcional e...
Mordi o lábio com preocupação e ela arregalou os olhos.
— Você não está sozinha! — Dei meu apoio, sermão não cabia a
mim.
— Cadu tem problema de confiança. Tenho medo que ele ache que
fiz isso de propósito e se eu pegar ranço, aí já viu. — Cruzou os braços na
frente.
— Já fez o teste?
— Não consigo um segundo sozinha para isso.
— Você precisa...
— Vamos mudar de assunto, por favor?
— Quer falar do quê? Do arrogante que declarou que vai transar
comigo? — zombei de mim mesma numa tentativa de arrancar um sorriso
dela, com sucesso.
— Só se vive uma vez, Josi.
— Eu sei, só tenho medo que estrague uma vida inteira por causa
dessa única vez.
Capítulo 10

Josi
Enquanto os quatro se divertiam na água, os homens com shorts de
banho e as mulheres com seus biquínis, eu e Antonio ficamos sentado à
margem do pequeno riacho que passava perto da propriedade. Na sombra, eu
estava com uma saída de banho da Letícia enquanto meu companheiro estava
ainda de terno e gravata.
— Nunca pensei que seria a excluída da turma, sentada em um canto
como se fosse vítima de bullying — reclamei de brincadeira.
— Podemos voltar. Já estou ficando irritado por ficar parado. — Ele
se levantou e estendeu a mão para mim. — Nós estamos de carro, eles
também.
— Hei, aonde vocês vão? — Letícia gritou chamando nossa atenção.
— Foder — Antonio responde e com a mão na minha, começou a
me arrastar para longe deles e suas risadas.
— Você precisa ficar falando toda hora sobre isso? É meio... chato.
— Te garanto que você mudará de opinião quando eu estiver com
você. — Ele olhou por cima do seu ombro com desejo.
— Agora você precisa de alguém para te salvar? — questionei
irônica e ressentida.
— Você não precisa me salvar. — Ele parou, se virou e me pegou no
colo.
— Hei, pare com isso!
— Você estava andando muito devagar, eu tenho pressa.
— De quê? Para, Antonio! — Tentei sair do seu colo quando vi a
propriedade aparecendo.
— Você vai ver.
Depois de alguns passos ele me ajeitou de frente a ele, me encostou
em uma árvore e devorou minha boca. Não houve educação ou sentimento
como no dia anterior, foi desesperado, carnal e sensual.
Suas mãos desceram para as minhas coxas e depois seguiram para
minha bunda, que foi apertada e sentida com força.
— Antonio...
— Sei que você pediu que eu parasse várias vezes, que te soltasse, só
não consigo! — Ele chupou meu pescoço, seus gemidos indicavam que ele
parecia com dor. — Caralho, me deixa ter você!
— É muito cedo, Antonio! — Peguei seu rosto nas minhas mãos, o
obriguei a me encarar e ver o que queria. Ele parou apenas um segundo antes
de devorar minha boca novamente e me fazer virar gelatina em suas mãos.
Para os beijos eu não tinha intenção de me controlar, mas para o
sexo sim. Era algo muito íntimo e precisava de confiança, coisa que não se
adquiria de forma instantânea. Intuição não contava, ainda mais quando ela
parecia estar sob influência da minha libido.
Ele me desencostou da árvore, segurou minha bunda com suas mãos
e foi andando comigo agarrada a ele.
— Onde vamos?
— Na rede, percebi que você se sente mais confiante nela.
— Eu não vou fazer nada com você além de beijar.
— Tudo bem, eu faço todo o trabalho.
A área da casa apareceu, ele ajeitou a rede para sentarmos e ficamos
de lado enquanto era beijada de todas as formas possíveis. O gosto de café
em nossos lábios foi o tempero mágico para que meu corpo conseguisse se
mover muito mais do que gostaria.
A saída de banho, que mais parecia um vestido, começou a subir no
meu corpo. Por debaixo vestia apenas calcinha e sutiã sem alça, me deixando
mais vulnerável do que gostaria.
— Eu te sequestrei...
— Você me tirou do fogo cruzado! — falou no meu ouvido e
mordeu minha orelha com malícia.
Os ganchos começaram a fazer barulho, nossos corpos tentaram se
modelar a curva da rede piorando ainda mais minha tentativa de afastá-lo.
Sua virilha estava na minha, seu corpo estava quente no meu e suas mãos não
paravam sossegadas na minha perna e bunda.
— Você é tarado por bunda!
— Só a sua. — Apertou e se esfregou em mim mordendo meu
ombro. — Porra, eu poderia te fazer gozar só fazendo isso.
Eu queria?
Não deveria!
— Está tudo tão errado. Não estou aqui para estar com você, mas
para te ajudar... — perdi a fala quando ele tomou minha boca novamente e
sem controle, se esfregou em mim o suficiente para que eu encontrasse o céu
e de lá demorasse a cair.
Não estava preparada para o clímax que me arrebatou, os tremores
que meu corpo deu não estavam programados para acontecer e tudo o que
senti, a explosão que foi entre nós dois, foi demais para mim.
Era uma garota de corpo e alma. Apesar de ter vinte e cinco anos,
reinava em mim o mundo divertido da brincadeira e zoação. Amava ler, tive
minha cota de namorados sem graças e beijos sem compromisso, mas nada se
comparava a estar com Antonio e isso começou com Arthur, com sua
aparência.
Precisava voltar para minha cidade, trabalhar no recursos humanos
na empresa dos meus pais e continuar sendo centrada, porém com atitudes
irreverentes.
Deixei que minha cabeça se escondesse na curva do seu pescoço e
quando tentou me encarar, me mantive ali, longe de qualquer julgamento ou
cobrança.
— O que foi Josi? — perguntou preocupado. — Não tive a intenção
de te desrespeitar. Eu só... — Ele se levantou da rede, me olhou retraída e
suspirou. — Sou idiota em querer forçar uma situação que você está
repetindo mais de uma vez que não quer. Anos envolvido com sexo me
trouxeram apenas conhecimento do corpo das pessoas e esquecer o que elas
realmente queriam. Vergonha e preconceito saem da nossa boca a todo
momento, mas não há nada de fingimento quando se fala de linguagem
corporal. Sei que você quer, o quanto apreciou, mas por algum motivo, você
se priva de aproveitar sem culpa.
Finalmente saí da minha posição e sentei na rede, encará-lo ainda
não era uma opção. Apesar de tudo, a situação não foi forçada e a luta que
existia era apenas comigo e minhas ideologias, estava tudo dentro de mim.
Não deveria deixá-lo sentir culpa sem razão, nós só não estávamos na mesma
sintonia.
— Você poderia ter parado, eu poderia ter insistido para que parasse,
no final, se gozei foi porque estava relaxada o suficiente para isso. —
Levantei e ajeitei minha roupa. — Me entregar dessa forma nunca fez parte
da minha vida, só não queria fazer o que repreendi minhas amigas de
fazerem. Ray casou antes de completar um mês de namoro, Letícia está
namorando Cadu de forma intensa por menos tempo ainda e Paula com
Arthur... — Suspirei. — Não queria pagar com a língua.
— Mesmo assim... — Pela minha visão periférica vi ele passar as
mãos pelo cabelo e me encarar com sofrimento. — Você está bem? Me
desculpa, realmente me perdoe.
Acenei com a cabeça e assustei quando sua mão encontrou minha
bochecha e fez meus olhos encontrarem os seus.
— Não há vergonha em ter e dar prazer com alguém que você
acabou de conhecer, muito menos de mudar de opinião ou pagar com a
língua. O que fizemos é só nosso e vou lembrar eternamente dos seus
gemidos e tremores debaixo de mim.
Ele beijou meus lábios e se afastou indo em direção ao carro que
viemos. Sentou no banco do motorista e partiu levando consigo meu lado
libertino que nunca achei que tivesse.
Capítulo 11

Josi
Tempo demais se passou enquanto pensava no que fazer da minha
vida depois do que fiz com aquele irmão Valentini.
— Filho da puta, ele levou meu carro? — Fingi não escutar a
reclamação de Cadu quando voltaram do banho de rio e perceberam que
faltava um automóvel.
— Será que agora poderemos voltar para a civilização?
Ainda estava chateada com Antonio e comigo mesma. Entrei na
parte de trás do carro SUV que eles tinham vindo, cruzei meus braços e bufei
quando lembrei que deixei meu celular por algum lugar dentro da casa.
— O que aconteceu Josi? — Letícia veio sondar quando saí do carro.
Cadu abriu a porta do motorista e ignorei sentir os dardos imaginários sendo
enviados em minha direção.
— Conversaremos depois. — O que era uma grande mentira, não
tinha intenção nenhuma de contar que gozei com um estranho, com roupas e
estava envergonhada de assumir que gostei.
Achei meu celular na suíte principal, guardei os cadernos aonde
estavam anteriormente e entrei na parte de trás da SUV novamente, onde
Paula e Arthur estavam.
Diferente de Letícia, minha amiga zen apenas segurou minha mão e
apertou enquanto me impedia de pensar mais sobre o assunto intimidade com
um estranho, paixão instantânea e amor à primeira vista.
Carlos Eduardo seguiu pela estrada de chão e o silêncio imperou até
Letícia resolver discutir a relação com plateia:
— Cadu, quando soube que eu valeria a pena? — perguntou ao seu
amado e senti Paula segurar o riso ao meu lado.
— Confio em você, quer maior demonstração do que isso? — Ele
estendeu a mão, segurou a dela e olhou de relance para nós no banco de trás.
— Poderemos discutir isso estando apenas nós.
— Além de querer saber nesse momento, preciso que a cabeça dura
da Josi entenda que quando é para ser, não importa tempo, mas as atitudes.
— Sério que você está fazendo Cadu passar por isso por minha
causa?
Escutei-o bufar e lembrei que o irmão do meio, ou melhor, o
segundo irmão da família Valentini não gostava desse apelido, apenas Letícia
tinha carta branca para dizê-lo.
— Arthur, você que parece um cara centrado e da razão, trocaria
Paula e tudo o que vocês viveram por dias trocando mensagens, namoro e
jantares? — Letícia virou o corpo e enfrentou o amado de Paula.
— Não — foi sucinto.
— Amiga, deixe Josi resolver seus próprios conflitos — Paula
intercedeu por mim quando apertei sua mão com força. — Quando ela pedir
ajuda, acolha.
— Só não consigo ficar calada quando vejo uma amiga deixando de
ser feliz por conta de bobeira. — Letícia me encarou e franzi a testa em
confusão. — O que tiver que ser, será. Seja em um dia, seja daqui um mês.
— Você está louca. Cunhado, dê um jeito na sua mulher. — Bati no
ombro do motorista e só então percebi do que o chamei. Numa tentativa de
brincar e tirar o foco de mim, fiz pior.
O olhar de vitória da minha amiga a fez voltar a sentar olhando para
frente e me esquecer. Paula apertou minha mão e agradeci que enquanto
existia uma amiga que queria socar, existia outra que queria abraçar.
Meu celular vibrou na minha mão. Conferi a bateria, que estava
quase acabando, desbloqueei e li a mensagem de um número estranho.
Anônimo>> Quando vai voltar para casa?
Josi>> Quem é você?
Anônimo>> Aquele que marcou sua vida com o melhor orgasmo.
Fiquei vermelha, tirei minha mão da Paula e conferi se todos
estavam atentos em si e não em mim. Caramba, era Antonio? Como ele sabia
meu número? Será que era ele mesmo?
Pensei rápido e respondi:
Josi>> Qual sua profissão? Ladrão de carros ou michê?
Anônimo>> Em suas fantasias, posso ser quem quiser. A
intensão é aproveitar ao máximo a experiência, os sentidos e a
imaginação. Gozar com o corpo e com a mente te fará viciar. Não há
problema no mundo que não se ofusque quando o prazer está envolvido.
Quanto ao carro do Carlos, deixarei em frente à mansão, não preciso
roubar, muito menos do dinheiro de ninguém.
Sim, era o gêmeo não mais perdido.
Antonio>> Antes de você ir embora, quero te ver.
Josi>> Para quê?
Antonio>> Foder. Venha, estou te enviando a localização.
Josi>> Arrogante. Como descobriu o meu número?
Antonio>> Hoje de manhã, antes de ir ao banheiro. Venha me
ver, sei que você quer, só tem medo do julgamento alheio. Ninguém
precisa saber. Aqui você poderá ser e fazer o que quiser. Ver e
experimentar o que sempre teve medo de assumir que gosta.
Senti meu corpo formigar e respirei fundo ao perceber que ele estava
jogando não só com minhas emoções, mas com minhas ideologias.
Josi>> Adeus.
Antonio>> Amanhã, quando você estiver na sua casa, sozinha e
dormindo, lembrará da oportunidade de se perder em um momento de
luxúria e irá se arrepender de não ter vivido.
Josi>> Pare de insistir. Seu suposto pai está preso para ser
interrogado e seus irmãos estão em busca de solucionar a morte do
patriarca da família. Não é momento de putaria.
Antonio>> Esqueça meu parentesco, minhas origens ou
qualquer outra coisa que você acha que te faz acreditar que me conhece.
Gozar existe para nos fazer mergulhar em um universo onde a satisfação
vem em primeiro lugar. Um estranho e uma noite intensa. Estou te
esperando.
Engoli em seco, ele enviou a localização, a informação que deveria
passar para a recepcionista e um horário da madrugada para estar lá.
— Está tudo bem? — Paula sussurrou para mim e bloqueei meu
celular exalando com força.
— Sim, tudo bem, só cansada e pensando na pequena fortuna que
gastarei com a passagem de volta para casa. — Traduzindo, estava ansiosa
pela proposta e pensando seriamente em me arriscar a ter uma noite sem
compromisso com um dos irmãos Valentini.
Se apenas eu souber, talvez não me cobrarei tanto assim em ter
responsabilidade ao me entregar a um homem.
Não haveria namoro como Cadu e Arthur, não teria casamento como
Ben, seria apenas sexo.
— Meu jato particular poderá te levar — Arthur se prontificou.
— Minha secretária poderá resolver isso em um piscar de olhos —
Cadu falou logo em seguida.
— Secretária eficiente é? — Letícia zombou. — Quero conhecer.
— Ela é bonita — Cadu provocou e agradeci aos anjos por desviar o
foco de mim.
— Meu chefe também.
— Ex-chefe, você trabalhará para mim!
— COM você. — Ela cutucou seu braço. — Pare de abusar, ainda
não aceitei essa merda.
— Não se preocupe, sei ser muito persuasivo. — Ele esticou o braço
e apertou a coxa de Letícia.
Sexo como persuasão. Apenas a promessa já me tinha em dúvida
sobre minhas próprias ideologias racionais, imagine se gostasse e me
rendesse como uma idiota apaixonada?
Capítulo 12

Josi
O celular tocou, porém não foi o despertador e sim alerta de
mensagem. Sorri como uma boba, há um mês estou trocando mensagens com
Antonio, há um mês estou me rendendo mais e mais às suas palavras e
confissões de fim de noite, há um mês estou ansiando pelas mensagens
diárias com humor e duplo sentido, há um mês saí da cidade das minhas
amigas e estou longe de corpo, mas não mente e alma, dele.
Nós tivemos um momento depois do casamento de Benjamin e
Rayanne. Apesar de evitar pensar em todos os acontecimentos, aquele
momento em que ele me colocou em cima da pia do banheiro e me seduziu
pela primeira vez é o que mais me marcou, tanto pela intensidade quanto por
constatar que sim, me apaixonei de forma instantânea, só não me permiti
aproveitar naquele dia.
Demorou para que se conseguisse material genético de Antonio,
tanto pela teimosia quanto por ele ser um poço de arrogância. O laudo sairia
hoje e confessava que o resultado não me incomodava, uma vez que suas
origens não mudariam quem ele era agora.
Gostava dele, tinha-o em alta estima e sentia que ele fazia o mesmo.
Só não pensava muito se ele se mantinha fiel a mim como eu fazia por ele,
uma vez que nunca discutimos esse assunto, só aconteceu.
Quando voltaram de lua de mel, Ben e Ray se mudaram para um
apartamento na mesma cidade que Cadu e Letícia. Essa última, mudou para
ficar com seu amado pop star das redes sociais sem contar aos próprios pais.
Paula e Arthur estão morando na mansão onde foi o casamento, a casa dos
Valentini. Como tudo isso estava funcionando e quão louco poderia ser,
morar com alguém com menos de seis meses de convivência?
Apesar de repensar alguns conceitos, não via mais com olhos de
julgamento o que elas fizeram e os amores de pouco tempo que cultivaram.
Estão felizes, enviavam mensagens e fotos do dia-a-dia provando que tempo
é importante, mas não primordial para um final feliz.
Deitada na minha cama, em pleno final de semana, virei meu corpo
para esticar o braço e pegar o celular no criado mudo. Ontem havia saído com
Alci e Thata para comermos petiscos e tomarmos uma cerveja. Depois de
tudo o que aconteceu, nossos encontros pessoalmente aumentaram, nossa
ligação fraterna se solidificou.
Apenas para me torturar, fui olhar as mensagens do grupo Joaninhas
Literárias primeiro.
Alci>> Thata, por que me deixou beber tanto? Estou com uma
ressaca daquelas, ainda bem que terei hoje para me recompor, preciso
estar bem para atender meus pacientes amanhã.
Ray>> Bom dia meninas. Ganhei um tablet novo do Ben e passei
a noite em claro lendo. Tem uma luz especial, tão bom quanto o e-reader
que eu tinha.
Letícia>> Oi, gente. Então seu homem mais o meu foram o no
mesmo lugar e compraram a mesma coisa. Já vou reclamar que não
gosto de receber presente igual.
Ray>> Acho que foram juntos mesmo, porque Ben saiu no meio
da tarde para fazer isso.
Paula>> Oi meninas. Decidiu trabalhar com Ben, Ray? E você,
Letícia, parou de implicar com a secretária do Cadu?
Thata>> Tablet, briga, secretária... meu Deus, preciso de um
remédio que cure a ressaca.
Josi>> Mantenha-se bêbada, ou como fiz no meu caso, beba
muita água junto com a cerveja. Vocês são muito principiantes.
Josi>> Também quero saber, Paula, sobre Ray e Letícia.
Letícia>> Conheci o noivo, marido ou sei lá o quê, da secretária,
mas ela não me engana. Meu santo não bateu. Fora isso está ótimo,
trabalhar numa empresa como a do Cadu é quase um sonho. Além de ter
liberdade, posso fazer meu horário.
Ray>> Não gostei de trabalhar com Ben, ficar no escritório é
muito chato. Fiquei de fazer entrevista semana que vem em uma das
filiais da emissora dos Valentini, vamos ver se vai dar certo.
Alci>> Não era hoje que saia o resultado do DNA dos gêmeos?
Paula>> Arthur já está com o resultado em mãos desde ontem
de manhã e está me dando um pouco de trabalho, porque não quer abrir
sem os irmãos juntos. Depois conversamos.
Sentei na cama e suspirei triste. Tenho certeza que Antonio também
não está facilitando nada. Ele exigiu saber como encontraria SAI e Alberto,
mas as agentes secretas sumiram do mapa. Capela, amiga da Letícia, enviou
uma última mensagem dois dias depois do casamento da Ray avisando que
procedimentos internos importantes estariam acontecendo e que assim que
pudessem entrariam em contato.
Ou seja, quase um mês no vácuo.
Vou para minha dose diária de felicidade ao abrir as mensagens do
gêmeo do mal.
Antonio>> Oi Jojo. Mande nudes para alegrar meu dia, porque
começou uma merda.
Antonio>> Você adora me fazer esperar, estou contabilizando
todo esse tempo para te torturar quando te ver.
Abri o aplicativo de câmera, ergui e fiz uma selfie com meu pijama
bem-comportado e cara amassada.
Josi>> Totô, esse é o máximo de nudez que conseguirá hoje,
além do meu bafo de cerveja que ainda está na minha boca mesmo eu
tendo escovado os dentes.
Os apelidos fluíram naturalmente e a intimidade também.
Antonio>> Esse apelido é broxante.
Josi>> Enquanto você estiver longe, melhor continuar dessa
forma mesmo. Outra coisa, acabei de falar com Paula, você poderia dar
um desconto para Arthur e concluir de uma vez essa parte de exame de
DNA.
Antonio>> Você sabe o quanto quero que essa família se foda.
Enquanto não falar com Alberto, não facilitarei a vida de ninguém.
Josi>> Teimoso. Sabe que não somos nós nem eles que estão
escondendo Alberto. Use seus contatos, oh grande poderoso rei da orgia,
e encontre Stars Auditoria e Investigação.
Antonio>> Eu as encontrei ontem, mas as filhas da puta são
profissionais e não vão facilitar para mim. Tem uma merda fodida por
trás disso tudo.
Josi>> Como se não bastasse o desaparecimento de Vivian
Valentini. Alguma novidade nesse ponto?
Antonio>> Ainda sinto seu gosto em mim. Quero te ver, Jojo.
Revirei os olhos e larguei o celular de lado antes de sair da cama e
seguir para o banho. Se tinha uma coisa que me irritava e precisava de um
momento era ele não responder uma pergunta minha e ficar com esse jogo de
querer me ver, me ter e me sentir.
O nosso encontro secreto já tinha sido o suficiente, minhas
lembranças desse homem era mais do que necessárias para que não
procurasse mais ninguém na minha vida. Fantasiava com ele, gostava dele,
mas... fugia.
Era um caso perdido de paixonite aguda enrustida.
Capítulo 13

Josi
Como sempre ele não insistia. Tomei café da manhã com meus pais,
fui para a sala de televisão e voltei a olhar o celular. A última mensagem
ainda estava lá, esperando que fosse respondida.
Josi>> Quais seus planos para a tarde, Tony? Acho que vou
assistir algumas séries.
Meu celular começou a apitar por receber várias mensagens que não
eram de Antonio. Deixei para vê-las depois, mas meu coração acelerou pela
intuição do que poderia estar por vir.
Antonio>> Arthur acabou de ligar. Preciso de você aqui, estou
indo te buscar.
Josi>> O quê? Está louco? Meu pai me proibiu de faltar ao
serviço em pelo menos seis meses. A empresa é da família, mas tenho
responsabilidades!
Saí da conversa e percebi que Ray, Paula e Letícia enviaram
mensagens diretamente para mim no privado. Todas com o mesmo conteúdo:
o exame de DNA será revelado apenas em reunião de família, que eu fui
condição para que Antonio participasse. Tinham novas pistas sobre onde a
mãe estava também.
Caramba, será que estamos a um passo da solução de tudo?
Suspirei e deixei o celular de lado um momento para relembrar
minha trajetória até aqui. Minha amizade com Antonio havia ganhado outras
proporções, mas enquanto eu mantivesse virtual, tudo estava confortável e
seguro. Mas... revê-lo? Confessava que me soltei com ele pelas mensagens,
porque não me imaginava ter uma segunda dose de sua sedução
pessoalmente.
Meu coração acelerou, minhas mãos começaram a suar e uma buzina
do lado de fora de casa me teve pulando para ficar de pé assustada.
Porra, já era ele?
Peguei o celular, fui até a janela e vi que era apenas o trânsito de
frente de casa. Bem situada, morava em uma avenida movimentada, tinha
boas condições financeiras, mas evitava esbanjar, até porque, tudo era dos
meus pais.
Voltei a conversa perigosa.
Josi>> Você não precisa de ninguém para te salvar. Você nem
precisa de armadura para essa reunião de família, eles são os seus
irmãos, poxa vida! Eles te querem bem.
Brincava muito, além de cutucar certas feridas, como essa. Era
rancorosa, sempre aproveitava a oportunidade para jogar suas próprias
palavras na cara, ainda mais quando ele reagia me falando obscenidades, do
tipo que faziam meu ventre se contrair.
Ele amava provocação, eu fazia questão de deixá-lo louco.
Demorou para responder, por isso enviei outra mensagem:
Josi>> Tony, o gato comeu sua língua? Não, foi a faca que cortou
seu dedo e não te permite digitar. Mande áudio, eu também tenho
ouvidos.
Antonio>> Faça uma mala, chegarei até o final da tarde.
Josi>> Eu não vou!
Minhas mãos começaram a tremer. Ele estava vindo para mim, me
colocou em uma posição de barganha, como se fosse alguém importante na
sua vida. Ele era na minha, um amigo virtual e tudo mais, mas... Vê-lo
novamente tornaria tudo real, meu melhor erro e pior acerto.
Antonio>> Não tenha medo de mim, eu te conheço e você me
conhece. Esqueça essas merdas que colocou na cabeça depois do nosso
último encontro. Você foi a única pessoa que pensou em mim e está do
meu lado desde aquele dia. A família Valentini está vinculada a mim por
sangue, mas você está comigo por causa de um laço mais forte. Deixei
que tivesse seu tempo, que aceitasse o que somos, Jojo. O tempo acabou.
Vou te buscar e você sabe do que sou capaz, o que farei quando
estivermos sozinhos.
Antonio>> Entrando na estrada e desligando o celular.
Engoli em seco e respirei com dificuldade. As lembranças que
afundei na minha mente retornaram como água de uma pia entupida. O
orgasmo na rede, minha vergonha por me entregar tão cedo a alguém, sua
proposta para vê-lo na casa de suingue, nosso encontro...
— Filha? Está tudo bem? — a voz da minha mãe quase me faz
desmaiar de susto. Virei meu rosto em sua direção e seu olhar se arregalou ao
me ver. — Por que está chorando?
Coloquei a mão no olho, limpei a lágrima que escorreu sem que
percebesse e sorri amarelo.
— O livro é foda, mãe — achei uma desculpa na hora, levantei o
celular e fiz uma careta. — Vou lavar o rosto, nem tinha visto que estava
chorando lendo essa coisa.
— Só você para chorar lendo um livro — minha mãe zombou, mas
vi em seu olhar preocupação. Eu fingia que a enganava, ela fingia que me
enganava, ou seja, não precisava de muito para revelar o que realmente estava
acontecendo.
Segui para meu banheiro, tentei me recompor e pensar no que falar
para meus pais. Apesar da minha idade e da liberdade que tinha, prometi ao
meu pai não faltar ao serviço. Trabalhava no recursos humanos, era
estressante, exigia muito de mim e quase não tirava férias.
Fui para a cozinha e lá estava minha mãe preparando o almoço
cantarolando alguma música de sua época de juventude. Papai costumava
pedalar de manhã e eu... apenas descansava a mente para o começo da rotina.
— Mãe, quanto tempo você demorou para namorar com o pai?
— Dois dias? — respondeu divertida olhando por cima do ombro. O
bom da minha mãe era que nunca perguntava o motivo das minhas
inquisições, deixava que eu falasse naturalmente. — Casar foram seis meses.
— Porque estava grávida de mim.
— E porque nos amávamos, Josi — ela respondeu enfática. — Seu
pai não casou comigo por obrigação, nem eu com ele.
— Mas seus pais obrigaram.
— Ainda sim, a decisão foi nossa. — Ela estendeu a colher de
bambu na minha direção. Estava fazendo estrogonofe. — Veja se está bom de
sal.
Fiz o que ela pediu, ainda estava contrariada e perdida sobre o que
queria fazer.
— Se eu disser que tenho um namorado virtual que virá hoje em
casa, será que papai vai surtar? — questionei olhando para todos os lugares
menos para minha mãe, que desligou o forno e ficou olhando para mim.
— Você o conheceu na sua última viagem, certo?
Olhei para ela e não vi julgamento em seus olhos. O peso nos
ombros sumiu de forma instantânea.
— Apesar de não acreditar em amor à primeira vista, eu o conheci
nessa última viagem, estamos conversando desde então e agora ele diz
precisar de mim. Eu não queria viajar.
— Não faça nada que não queria.
— Não quero deixar papai na mão por ter que viajar — reformulei.
Ela abriu um sorriso, suspirou e desligou a chama da panela de
arroz.
— Peça suas férias e vá, Josi. Está esperando qual oportunidade para
aproveitar que você é filha do dono e curtir a vida?
— Mas...
— Use camisinha. — Ela se aproximou de mim, beijou minha testa e
foi para a geladeira.
— Mãe! — Ela só pensava nisso? Bem, ultimamente, eu também...
— Não que eu me importe de ser avó agora. Só acho melhor
investigar a saúde dele antes de... você sabe.
— Tenho vinte e cinco anos. Acho que sei dessas coisas. — Olhei
para todos os lados porque senti meu rosto esquentar de vergonha. Esse não
era o tipo de assunto que gostava de falar com meus pais.
— Quando ele vem? Quer sair para jantar, ou...
— Chega hoje, ele está com pressa, vai ter uma reunião de família...
é um rolo enorme.
— Cheguei! — Meu pai entrou na cozinha suado e distribuiu beijos
em mim e na minha mãe. — Quem tem um rolo enorme?
— O namorado da nossa filha. Cancele o jantar no Paulo, vamos
conhecer nosso genro.
Apertei meus lábios para não desatar a rir quando meu pai congelou
e olhou de mim para minha mãe. Fez uma careta, tomou um grande copo de
água e bufou.
— Espero que ele saiba desviar de balas, porque é isso que ele
precisará se fizer alguma merda — falou e seguiu para seu quarto. Minha mãe
piscou um olho para mim e a ajudei a colocar a mesa para almoçarmos em
paz... e com muita ansiedade para o fim do dia.
Capítulo 14

Josi
Estava oficialmente de férias, mesmo que seja pleno domingo. O
maior receio do meu pai em me liberar era com a questão de confiança, ele
confiava apenas em mim, mas não me impediu de gozar de um merecido
descanso.
Mal comi, não consegui me prender em nenhuma série da televisão e
quando meu celular tocou e a imagem de Antonio apareceu no visor, quase
vomitei de ansiedade.
Minha mãe e pai tinham saído à tarde e não tinham voltado, por isso,
peguei o celular, abri a porta da frente de casa e encarei o carro estacionado
do outro lado da avenida. Mesmo que não conhecia, sabia que era ele.
— Oi.
— Cheguei. — Ele saiu do carro e mesmo a distância senti seus
olhos em mim. — Oi.
Apertei o botão do portão eletrônico e enquanto o ele seguia para o
lado, Tony atravessou a avenida e veio em minha direção. Apesar de serem
idênticos e eu ter admirado muito as poucas imagens que tinha de Arthur,
Antonio era mais descontraído, sensual e se possível, misterioso. Enquanto
Arthur tendia para a intensidade da sua personalidade, Antonio salientava na
sua arrogância.
Diretos, misteriosos e...
— Fez boa viagem?
Ele me respondeu com um beijo na boca cheio de fúria e saudade.
Uma mão enredou no meu cabelo enquanto a outra envolveu minha cintura e
me fez colar no seu corpo. Retribuí o beijo da mesma forma, abracei seu
pescoço e apertei o botão para fechar do portão.
Fui empurrada para escorar na parede do lado de fora da casa, a cada
movimento de cabeça, para que nossas bocas pudessem se explorar mais e
mais, ele investia com seu corpo no meu e eu, pegava fogo.
— Onde é seu quarto?
— O quê?
Ele devorou meu pescoço e colocou suas mãos nos meus seios,
apertou e me fez ofegar.
— Preciso estar dentro de você. Trabalho numa casa de suingue, tem
noção do quanto vejo e o quanto não posso fazer?
— Não te obriguei a nada — respondi feliz e ousada. Empurrei seu
corpo para nos afastar, segui para a sala e fui novamente arrebatada por esse
homem.
O beijo com fervor fazia meus lábios doerem tamanha era a pressão.
Suas mãos pareciam trêmulas ao encostar no meu corpo, mas nem um pouco
tímidas ao apertar todos os lugares.
— Porra, mulher. Me diz que estamos sozinhos, me diz...
O barulho do portão sendo aberto foi um ótimo balde de água fria
para nos afastar. Ele colocou sua testa no meu ombro, respirou com
dificuldade em alguns momentos e riu de alguma piada que não foi dita em
voz alta.
— Estávamos, agora não mais — falei nervosa.
— Você mora com seus pais.
— Eu falei que você era meu namorado.
— Você falou de mim, que sou seu namorado.
— Não precisa os conhecer. Eu já fiz minha mala, podemos...
— Chegamos filha! — minha mãe anunciou e arregalou os olhos ao
ver Antonio se ajeitar atrás de mim. Senti seu quadril encostar na minha
lombar e entendi seu movimento. Ele precisava se controlar e eu, teria que
cobri-lo.
— Mãe, pai, esse é Antonio. — Estiquei minha mão apresentando-
os. — Tony, esses são dona Marisa e seu João Antônio.
— Um xará. Muito prazer — meu pai falou e deu um passo para
frente para cumprimentar. Ele saiu de trás de mim, foi educado e voltou ao
meu lado.
— O dele não tem acento, pai, o seu tem — brinquei.
— O nome dele está errado então. — Piscou um olho para mim e foi
para a cozinha.
— Trouxe bolo. Quer lanchar primeiro ou jantar?
A mão de Antonio apertou a minha. Engoli em seco e tentei
interpretar o que ele queria.
O que eu queria, pelo amor de Deus?
— Quando você pretende pegar estrada? — perguntei encarando um
Antonio muito tenso.
— Se possível agora.
— Não, vocês não precisam pegar estrada à noite. Vou preparar a
cama de visita para você descansar. Saiam cedinho, mas não façam a loucura
de seguir de madrugada — minha mãe falou e seguiu para os quartos.
— Preciso de você — sussurrou no meu ouvido.
— Amanhã — rebati no mesmo tom e o levei para fora de casa. Não
estava acreditando no tanto que estava confortável em me entregar a ele.
Achei que apenas por mensagens me sentiria assim, mas ao vivo estava sendo
melhor ainda. — Trouxe alguma muda de roupa? Vá buscar.
— Não planejei dormir, estou há sete horas na estrada penando em
tudo o que farei com você e não gostaria de ter plateia, principalmente seus
pais.
— Minha mãe está certa, não vale a pena sair de madrugada, Tony.
— Jojo — falou segurando meu rosto com as mãos. — Eu. Preciso.
Te. Foder.
Apesar do nosso tom baixo, morria de medo de que meus pais
escutassem, por isso pensei rápido, deixei um beijo em seus lábios e o levei
de volta para dentro.
— O quarto está pronto, filha. Mostre a ele enquanto preparo um
lanche. Tem uma toalha em cima da cama se quiser tomar banho.
Levei-o para o quarto que serviu de palco para nossa preliminar.
Com a porta aberta, mas escondidos para que ninguém visse se passasse,
deixei que a paixão falasse mais alto, toquei em todo o seu corpo assim que
ele fez com o meu. Apenas isso.
Quando sentamos à mesa para comer, meus pais o conheceram e eu
percebi que não o conhecia por completo, na verdade, o fiz naquele
momento. Ele era estudioso, inteligente e tinha espírito de liderança, o que
meu pai elogiou muito. Omitiu os clubes e expôs os negócios da família
como uma rede de lojas de departamentos.
Focada nas brincadeiras, na família Valentini e no dia a dia, nunca
perguntei sobre o seu passado.
Quando foi momento de dormir, despedi com um selinho nos lábios.
Depois que tomei banho e deitei na minha cama, mal escutei o barulho da
porta se abrir, mas senti seu corpo entrar debaixo da coberta e colar nas
minhas costas. Ambos vestidos e exalando desejos.
— Diga que sim — ele implorou sussurrando no meu ouvido.
Caramba, estaria fazendo sexo debaixo do mesmo teto em que meus
pais estavam?
— Você fez todos os exames que te pedi?
— Sim, Jojo, estou limpo, falei que nunca fodi sem camisinha.
Tenho os exames no celular se quiser ver.
— Você teve outra mulher?
— Depois daquele dia, a única mulher que existe para mim é você.
Senti sua mão mexer no meu short de pijama e minha respiração
começou a acelerar.
— Não foi isso que eu quis dizer...
Ele chupou meu pescoço, depois expos meu ombro e o chupou
também. Uma de suas mãos foi para meu sexo, estimulá-lo enquanto a outra
estava trabalhando em retirar minha parte de baixo.
— Não fodi ninguém depois que conheci você. Vi suruba, gozei
assistindo apresentações no clube, mas não toquei em ninguém. Só tinha você
em minha mente, olhava meu celular e por vezes queria te escutar apenas
para me saciar. — Ele abaixou meu short e senti seu membro encostar na
minha pele. — Pelo amor de Deus, só me...
— Sim.
Ele se movimentou debaixo da coberta, escutei o barulho do pacote
de preservativo se romper e novamente senti seu membro, agora encapado,
tocar minha bunda.
Sem me avisar, penetrou minha intimidade em um impulso só.
Tampei minha boca quando ela abiu involuntariamente. Minha garganta
segurou os gritos e gemidos que queriam sair e ritmado, ele me apertou e
sussurrou palavras inteligíveis, mas que chegaram ao meu coração como se
fossem juras de amor.
Apesar do ritmo, ele se movimentou devagar, nos torturou e me fez
encontrar o clímax junto com ele. Vestidos e escondidos, parecíamos
adolescentes em plena descoberta do prazer.
Não precisamos fazer pele com pele para sentir seus fluídos
jorrarem. Nossa conexão foi além das barreiras, o desespero e a paixão foram
o tempero ideal para finalmente assumir para mim mesma que estava
apaixonada.
Será que algum dia o medo de engravidar me permitira transar sem
camisinha?
Lembrei de Letícia e sua suspeita, soltei um bufo de riso ao pensar
em nós duas grávidas, nossos filhos sendo amigos como nós somos.
Caramba, estava pensando nisso a essa altura? Só poderia estar
louca.
— Porra... eu acho que amo você — falou sonolento, me apertou,
bocejou e se rendeu ao sono.
Oh, porra, sim, em todos os sentidos da palavra.
Capítulo 15

Josi
— Chegamos Jojo — Antonio falou de forma suave com a intenção
de me acordar.
Depois do que nos aconteceu de noite, não dormi de nervoso e de
emoção. Ele se declarou para mim, será que teria coragem de fazer o mesmo?
Fui me limpar, observei-o relaxado na minha cama e só me dei conta
que já era o horário combinado de acordar quando o celular despertou. Ele foi
para o quarto, se ajeitou, dei adeus para os meus pais que continuaram na
cama e seguimos viagem. Dois segundos depois, apaguei no carro e acordava
de tempos em tempos quando ele parava para abastecer ou em uma
conveniência.
Ajeitei-me no banco, olhei para o portão que se abria e reparei que
era a mansão dos Valentini.
— Não vou ficar com você?
— Aqui você terá comida, segurança e suas amigas — falou sério e
enquanto ele manobrava para estacionar, percebi que estava distante.
— Tony, quero ficar com você.
Ele sorriu, mas logo parou quando desligou o carro.
— Você e seus apelidos. Amo tudo o que sai da sua boca.
Ele abriu a porta do carro, mas segurei seu braço para que não saísse.
— Quero ficar com VOCÊ, Antonio. Vai ficar aqui?
— Depois conversamos — respondeu seco, saiu do carro e pegou
minha mala no porta malas.
Suspirei chateada, porque além de estar acontecendo alguma coisa
que não estava sabendo, já que ele queria me afastar, não o confrontei sobre
nossa noite na casa dos meus pais e sua revelação. Ou será que nem deveria?
Caramba, lá foi eu entrar para a estatística das namoradas
apaixonadas dos Valentini.
— Gêmea! — Letícia saiu da porta da casa e veio correndo em
minha direção para um abraço forte. Apesar de sermos amigas e fazia tempo
que não nos falávamos pessoalmente, seu aperto em mim foi um pouco...
suspeito.
— Oi amiga, está tudo bem?
— Depois preciso falar com você e a Paula. Mas não agora, vamos
lá para a sala de reuniões.
Puxada por sua mão, olhei para o lado para ver Antonio caminhando
com minha bolsa. Ele acenou afirmativo, como se estivesse tudo bem eu
seguir com ela e ele ficar para depois.
Cadê o desespero de me ter, me beijar e me tocar? Onde estava
aquele entusiasmo para estar ao meu lado quando saiu do carro no dia
anterior?
Entrei no escritório e cumprimentei Paula e Ray, que estavam
abraçadas aos seus respectivos homens. Quando Letícia foi para o lado de
Cadu e segui para o lado de Antonio, pensei que ele fosse me abraçar, mas se
manteve rígido e fechado.
O que fazer, o que fazer?
— Aqui está — Arthur colocou um envelope em cima da mesa e
antes de Antonio dar um passo à frente, segurei na sua mão. Ele falou e
demonstrou ontem que me queria ao seu lado literalmente porque eu estava
do seu lado desde o início metaforicamente.
Quase sorri de alívio quando ele apertou minha mão, trouxe para a
boca e estendeu o outro braço para pegar o envelope.
— Muito suspense — Ray falou rindo e Ben beijou sua cabeça numa
tentativa de controlar sua ansiedade.
— Eu não cumprimentei os homens. Oi família — falei, tomei o
papel da mão de Antonio e soltei sua mão para abrir o veredicto. Escutei um
coro masculino de “oi” e removi três papéis dobrados de dentro sem nem ver
o que tinha. Entreguei ao meu companheiro e voltei a segurar sua mão.
— Compatível com vocês em quase 100%. Somos irmãos de pai e
mãe. — Ele jogou o papel na mesa e Arthur pegou o papel com a mão
trêmula.
Isso era bom, certo?
— Você vai lá? — Cadu perguntou em tom sombrio.
— Aonde? — Olhei para ele.
— Ver Alberto. Capela entrou em contato hoje de manhã e liberou a
visita a ele antes de o entregarem para a polícia. Assim que trocar de cárcere,
um escândalo envolvendo prostituição e trabalho escravo será reportado —
Letícia respondeu por ele e meus olhos não saíram de Antonio, que tinha a
mandíbula rígida e olhar para a parede.
— Tony? — falei baixo.
— Achei que seria Totô, para combinar com Tutu. Esses apelidos
deveriam pegar, são fofos — Ray tentou descontrair, mas suspirou no final ao
perceber que ninguém riu, o clima estava muito tenso e parecia que todos
sabiam de algo menos eu. — Termina de contar, Letícia.
— Um empresário de renome, que não sabemos quem é, investigava
o desaparecimento da irmã em um dos clubes que Alberto era dono. A SAI
conseguiu extrair o paradeiro dessa mulher, mas era tarde demais, ela não
estava mais viva.
— Aconteceu no clube de suingue? — Coloquei-me na frente de
Antonio e segurei seu rosto com minhas mãos. Finalmente ele me encarou e
havia revolta e arrependimento em seus olhos.
— Alberto tem mais de dez prostíbulos clandestinos. A casa de
suingue é o local mais limpo de todos, se é que você me entende — Letícia
continua, se aproxima de mim e toca meu ombro ao ver que não estava tendo
resposta de Antonio. — Acabou a primeira etapa desse mistério. Os irmãos
estão juntos, são filhos dos mesmos pais. Está na hora de resgatar a mãe e
finalmente colocar um ponto final nesse assunto.
Não tinha acabado, não para o homem que finalmente resolvi
entregar meu coração. Não era momento, muito menos local para o que
pretendia fazer, mas tinha que arriscar, porque senão ele faria a mesma coisa
que fez comigo naquela fazenda, depois de dormirmos juntos na rede.
Minhas emoções estavam à flor da pele, a impulsividade, que já
tinha de sobra, evoluiu para níveis astronômicos. Ele iria fugir e não o
deixaria fazer novamente, não quando eu mesma decidi parar de fazer o
mesmo.
— Você não tem culpa.
— Eu preciso ir — respondeu tirando minhas mãos de seu rosto e
apertando meus dedos antes de soltá-los.
— Por que me trouxe aqui então, se iria me jogar de lado no
primeiro embate? — Empurrei seu peito e ele deu um passo para trás. — Por
que me iludiu dizendo que precisava de mim para estar ao seu lado? —
Empurrei-o novamente. — Por que disse que me amava?
— Quer se envolver com alguém que tem o nome sujo pela
prostituição e assassinato? — Ele deu um passo a frente e me encarou feroz.
— Posso ter sangue Valentini, mas estou manchado pela vida de Alberto
Mendes. Te levaria para casa no momento que Carlos me ligou sobre isso,
mas fui egoísta o suficiente para te ter até os últimos minutos que poderia.
— Você fala como se soubesse de toda essa atrocidade desde
sempre. Para quem vivia fora estudando e se dedicando a não estar junto de
um pai que não o criou, está carregando uma culpa que não é sua.
— Quem irá acreditar que soube apenas hoje dessa merda, se é meu
nome que está nos contratos sociais dessas empresas?
Engoli em seco, porque sabia demais sobre administração e
auditorias para entender seu raciocínio e me doer por ele, por não poder
apoiá-lo.
Quando deixei meus ombros caírem em derrota, ele se aproximou,
beijou meus lábios com suavidade e murmurou um agradecimento em cima
deles.
— Não me deixe de fora, porque eu também te amo.
— Sua família não merece estar envolvida com alguém tão baixo
quanto Alberto. — Ele levantou a cabeça e olhou para os irmãos. — Cuidem
dela.
Dei um passo para trás e três pares de braços me envolveram quando
lágrimas escorreram pela minha face. Antonio foi embora e me fez amar e
odiar na mesma intensidade.
— No final vai dar tudo certo — Paula falou com confiança e Ray
riu de nervoso, arrancando risos com choro de nós.
— Eu estou com fome — Letícia falou baixo.
— Dona Judite! — Ray gritou e saímos do escritório numa tentativa
vã de mudar o clima tenso que ficou.
Eles presenciaram tudo e sabiam, como eu também, por mais que
queira me enganar. Antonio poderia ter seu nome e sua imagem jogada no
lixo por conta de Alberto Mendes e tentava nos proteger para não nos afetar.
Capítulo 16

Antonio
Uma localização afastada da cidade foi o suficiente para que pudesse
organizar meus pensamentos. Desistir do que estava sentindo por Josi não era
uma alternativa, mas obrigação, tudo por causa de quem um dia considerei
como pai, minha única família.
Não era atoa que me sentia sem um lar, sem um vínculo com ele, por
mais que insistia em ser fiel. Filho da puta, ele me enganou todo esse tempo!
As agentes secretas entraram em contato comigo logo que saí da
mansão da família e tentei não pensar muito em como elas pareciam saber de
tudo e sobre tudo.
A propriedade onde Alberto está preso é discreta, tem portões baixos
e uma casa simples. Era tudo muito estranho, mas quando vi uma mulher toda
em preto se aproximar quando estacionei o carro na entrada, sabia que estava
no lugar certo.
— Sou Riguel, prazer em conhecê-lo.
— Onde ele está? — Cumprimentei-a com um aperto de mão e
seguimos para dentro da casa onde nada refletia o que estava do lado interno.
Enquanto lá fora é simples e arcaico, dentro existia tecnologia.
Paredes brancas, monitores e dispositivos eletrônicos enfeitavam uma parede.
Riguel digitou um código no teclado, uma porta se abriu e degraus em
direção ao chão apareceram.
Caminhamos em silêncio, seguimos para um corredor, depois mais
degraus até que paramos na última porta do corredor. Uau, estava tudo
subterrâneo.
— Ele está preso na cadeira. Podemos controlá-lo de te atacar
fisicamente, mas não verbalmente. Pedimos que mantenha a integridade
física do homem, por mais que ele mereça uns bons safanões.
Ela abiu a porta e entrei não reconhecendo mais o homem que um
dia cheguei a admirar. Aquele que me mostrou o mundo, me teve cativo em
sua vida e me introduziu no antro de perdição sexual.
Sentei na cadeira à sua frente, respirei fundo e tentei fazer o que ela
tinha me pedido, que era, não agredir.
— Por quê?
— Vai acreditar em tudo o que elas falam, filho? — falou com raiva
e olhou para a parede com espelho falso, sabia que estavam lá assistindo.
— Não sou seu filho.
— Sim, você é. A puta da sua mãe fodeu comigo!
— Exame de DNA não mente. — Bati na mesa de metal. — Por que
você fez tudo isso?
— Estão querendo te manipular. Me tire daqui, precisamos de um
lugar...
— Eu não vou te tirar daqui. Você cavou sua própria cova e quer me
levar com você! Eu não vou admitir!
— Você é meu filho e tem que acreditar em mim! — gritou
desesperado e levantei da cadeira me sentindo enjaulado. O peso das
consequências das ações dele caindo sobre mim.
— Acreditar que você não criou empresas fantasmas com meu nome
para disfarçar os prostíbulos clandestinos? — Parei e o encarei com ódio,
esse não era e nunca deveria ter sido uma figura paterna para mim. —
Acreditar que não me tirou a força da minha mãe quando bebê?
— Ela te deu porque quis. Se assumisse nosso relacionamento nada
disso iria acontecer.
— Romance? — Ri de desgosto. — Você quer que eu acredite que
algum dia você gostou de alguém que não seu próprio ego?
— No dia que você ter alguém que te deu tudo e de um dia para
outro roubar seu poder, pisar no seu ego e te enxotar como se fosse um
leproso, então conversaremos.
— Não quero mais papo com você. Seu lixo!
— Não adianta me ofender, porque tudo isso é parte de você
também, Antonio Mendes. Você nunca foi e nunca será um Valentini.
Patético, submisso e pervertido, te doutrinei o suficiente para ser guiado pelo
seu pau e não pela sua mente. — Minha respiração acelerou e minha raiva
também. Toda a minha infância e passado retornou à tona e tudo parecia ter
sentido agora. Filho da puta. — Não consegue olhar para uma mulher sem
pensar em sexo, eu sei o que é isso, porque fui eu quem te introduzi a esse
mundo.
— Para! — gritei e me aproximei dele. — Cala sua boca.
— Sente tesão em assistir surubas, não consegue foder se não for no
meio da putaria!
Soquei o rosto dele uma, duas, três vezes, até que dois pares de
braços me envolveram e me puxaram para longe. Estava com raiva, cego e
decepcionado comigo mesmo. Quando era mais novo, achava toda essa
perversão um presente, hoje, nada disso tinha sentido, ainda mais que sabia
que fui um meio de vingança.
Ele queria se vingar de Vivian Valentini.
— Não vale a pena, Antonio — uma voz feminina suave tentou me
acalmar.
Vi sangue escorrer pela boca de Alberto e o olho arroxear. Ele
começou a rir como um lunático e sem oferecer resistência, saí da sala sendo
guiado pela mulher que estava ao meu lado.
Riguel era seu nome, a mesma que falou com Josi na festa. Pensar na
mulher que serviu como meu apoio nesses últimos dias me fazia querer
sangrar Alberto novamente. Diferente de como ele me moldou, não pensava
em misturá-la nesse mundo, pelo contrário, a queria o mais longe possível.
Cheia de pudores, de razões e também, com um pedaço do meu
coração. Um sopro de vento fresco em meu deserto sem água, gostava muito
de Josi para levá-la ao buraco como Alberto fez comigo.
Esse ciclo vicioso e perigoso ia acabar em mim.
Entrei em uma sala com sofás confortáveis. Uma mulher de jaleco
branco estava sentada com um pote de pipocas no colo.
— Vou falar com Canopus, ele não pode vender, mas precisa pagar.
Que porra de nomes elas tinham!
— Ela não está em um bom humor — a mulher ao meu lado falou,
colocou pipoca na boca e bateu ao seu lado. — Sente aqui, ela vai demorar lá.
— Se não der com ela, falo com Sirius. Tem que ter uma alternativa
para foder com Alberto e Tony não ir junto?
— Como é que é? — Arregalei meus olhos e sentei no sofá. —
Como você...
— Nós sabemos de tudo, temos ouvido em tudo, ou melhor, Capela
tem. — A mulher do sofá estendeu a mão. — Sou Alfa Centauri ou apenas
AC.
Cumprimentei-a e depois olhei para a porta sendo fechada. Passei as
mãos no cabelo em frustação e suspirei.
— Você é uma boa pessoa?
— Que tipo de pergunta é essa? — Virei para ela, que deu de
ombros.
— Capela, Tony é uma boa pessoa? — ela olhou para o alto e
perguntou. Sorriu e acenou em concordância. — Que lindo, você já se
declarou para Josi.
Senti como se estivesse sendo violado mais uma vez. Levantei e saí
daquela sala mesmo com os gritos de protesto dela. Cruzei com Riguel
quando cheguei perto das escadas e uma mulher alta, negra e de olhar
imponente me parou com um braço estendido.
— Temos uma solução para acabar com Alberto sem que respingue
em você, mas não é imediata, muito menos limpa.
— Sirius... — Riguel chamou baixo, mas ignorei sua apreensão.
— A família Valentini vai sofrer?
— Não.
— Suas esposas, namoradas, amigas... elas vão sofrer?
— Apenas você poderá sofrer, campeão. Está preparado para voltar
ao círculo familiar de onde nem deveria ter saído?
— Pode apostar que sim.
Capítulo 17

Josi
Enquanto uma parte da família estava no hospital onde Ray fazia
voluntariado, eu e Letícia decidimos aproveitar a piscina uma vez que o sol
estava propício para um bom bronzeado.
Quando a reunião terminou depois de termos certeza que os gêmeos
eram sim irmãos de pai e mãe dos Valentini, Antonio sumiu e Letícia não me
falou o que queria de mim com tanta urgência. Apesar de saber que precisaria
pressionar, estava muito submersa nos meus próprios conflitos.
Dois dias se passaram e não tive notícias dele. Dois dias, depois de
um mês trocando mensagens diariamente, sem o seu bom dia ou boa noite.
Ele estava me torturando e ninguém parecia querer me ajudar a ir atrás dele.
— Para de pensar nele. Dê um tempo. — Letícia mergulhou ao meu
redor e puxou minhas pernas para que eu ficasse submersa na água também.
— Se você me passasse o contato da tal Capela eu conseguiria saber,
pelo menos, se ele está bem — falei controlando minha chateação. Ninguém
o conhecia como eu. — E você, vai me enrolar até quando para dizer o que
queria?
— Não estou preparada. — Ela se afastou para a borda da piscina e
apoiou seus braços nela. Seu olhar estava no jardim, local onde foi a
cerimônia de casamento da Ray.
— A festa foi bonita, né? — Fiquei ao seu lado e me posicionei
igual. — Nunca pensei que Ray fosse a primeira a casar.
— Ninguém imaginava que surgiria uma família Valentini para unir
mais ainda a gente. Apesar de não me importar com a velocidade, estou
pensando seriamente em pedir uma desaceleração dos acontecimentos,
porque não estou preparada.
— Com o quê? Para de mistério, Lê!
— Se minha menstruação não descer semana que vem, vou fazer um
exame de farmácia. Mas estou tão apavorada. — Suspirou enquanto segurei a
respiração. — Normalmente sou confiante, mas só de pensar em falar com
Cadu que posso estar grávida, mesmo dizendo a ele que tomava remédio...
— Nada é 100%. — Abracei-a de lado. — Vai dar tudo certo. Me
preocupo mais com seus pais do que com seu namorado.
— Nossa, tem eles... — Ela gemeu alto e voltou a nadar.
Era fato, apesar de estarmos encaminhadas, cada uma de nós ainda
lutava contra alguma coisa. Onde estava Paula e seus sábios conselhos?
O problema de tudo acontecer muito rápido era que fases estavam
sendo puladas e o futuro poderia cobrar um preço alto. Porém, agora que
estávamos aqui, que meu coração estava apertado por não ter notícias de
Antonio, eu só queria jogar minha racionalidade para o alto e invadir um de
seus puteiros.
Oh meu Deus, era isso!
— Gêmea! — chamei atenção de Letícia, que voltou para perto de
mim. — Que dia era quando você foi lá no clube de suingue do Alberto?
— Não.
— É perfeito, Lê! Eu vou lá, vejo se está tudo bem, coloco um pouco
de juízo na cabeça dele e volto para casa. Vim aqui para dar apoio a ele. Se
quer ficar com essa palhaçada, vou voltar para casa.
— Não.
— Quando foi, Lê?
Ela parou por um momento, provavelmente fazer algum cálculo
mental sobre o que perguntei.
— Tem evento toda quarta-feira à noite. É perigoso, Josi.
— Era perigoso quando Alberto estava à frente. É Antonio, eu
preciso saber que está bem.
— E se ele não quiser ser visto? Dê um tempo a ele!
— Como você está dando para si mesma? — Levantei uma
sobrancelha e ela fez uma careta. — Pare de se torturar, vamos fazer o exame
de sangue diretamente e acabar com isso.
— Não quero.
— Do que tem medo? — Abracei-a e ela fez o mesmo.
— Se eu falar que estou grávida e ele hesitar ou duvidar de mim,
acabou. — Ela se afastou. — Não vou mais sofrer por conta do problema de
confiança que ele ainda não superou.
Respirei fundo e ponderei suas palavras. Entendia, não aceitava,
porém, esse era o seu problema o qual não queria resolver. Já o meu, queria
solução e conseguiria hoje.
— Enquanto você cozinha em banho maria, quero assar em micro-
ondas. Vou lá no clube atrás dele.
— Vou ver com Capela se posso te emprestar o botão de pânico.
Saímos da piscina e começamos a nos enxugar quando Cadu
apareceu em seu terno de cor clara, óculos escuros, sorriso fácil e olhos
apenas para a sua amada. Só Letícia que não via que esse homem era todo
dela.
— Josi quer ir na casa de suingue de Alberto. — Cadu a abraçou e
finalmente olhou para mim, que fiz uma careta ao ver seu semblante
repreendedor.
— O que sua amiga gosta de fazer não deveria ser de nosso
interesse. — Ele beijou seu pescoço depois sua testa. — É perigoso.
— Até parece que vou lá para participar de alguma suruba. Antonio
não me responde nem me atende desde a saída dele daqui da mansão. Quero
ir lá para o encontrar e saber se está bem.
— Ele está bem — afirmou e abraçou sua mulher.
— Como você sabe? Por que ele não me responde? — Cadu ia abrir
a boca para falar, mas continuei antes que o fizesse: — Ele pediu que viesse
aqui para apoiá-lo. O fato dele ter me dispensado antes de falar com Alberto
foi apenas medo. Eu o conheço, ele não sabe se expressar como deve, mas a
partir de hoje, quando eu o ver, ele terá que aprender.
— Agora entendo o porquê vocês se chamam de gêmeas — Cadu
sorriu e beijou mais uma vez a testa de Letícia antes de puxá-la para dentro
de casa.
— Hoje é dia de evento no clube — falei atrás deles.
— Sim e você não irá sozinha. Quando se envolve um irmão, todos
estarão no meio.
— Você vai comigo? — perguntei assustada assim que entramos na
casa.
— Eu vou com Letícia e com você. Só não prometo que ele não vá
ser um idiota, porque ele foi criado por um.
Engoli em seco e acenei afirmativo, mesmo que eles não vissem já
que estavam subindo às escadas e eu fiquei para trás.
— Vou pegar um vestido para cada uma na minha tia. Quer ir junto?
— Letícia perguntou do alto da escada.
— Tudo bem, vou me arrumar. — Subi as escadas e fui até o quarto
onde estava hospedada.
Tirei a roupa, parei na frente do espelho e falei comigo mesma:
— Chega de dúvida. Ou esse homem acorda para a vida ou eu vou
embora e ele nunca mais verá minha cara.
Capítulo 18

Josi
Assim que entro na recepção do clube de suingue de Antonio,
lembranças de um mês atrás apareceram na minha mente como se fosse há
um dia apenas.
O convite indiscreto me teve remoendo por horas depois que
voltamos da fazenda dos Valentini, Arthur me disponibilizou seu avião
particular para me levar até minha cidade no horário que eu quisesse, porém,
antes de ir ao aeroporto, vim aqui.
Lutei batalhas internas eternas quando cheguei na recepção e
informei o que me foi orientado. Não estava elegante como a recepcionista,
muito menos como os convidados que vi ao longe no salão. Entrei por uma
porta, segui por um corredor e então, Antonio me recebeu em sua sala que
mais parecia de um executivo sério e não de um pervertido.
— Sabia que viria — ele disse presunçoso de sua cadeira atrás de
uma mesa com tampo de vidro.
— Vim pela curiosidade e não para foder com você — respondi com
rispidez, porque estava não só brava com ele, mas comigo mesma.
Ele se levantou e como um predador, me cercou, avaliou e só no
final tocou meus cabelos com delicadeza e sedução. Fechei meus olhos e
deixei que minha respiração fizesse com que meu peito subisse e descesse
sem disfarçar.
— Quando temos uma mulher indecisa e amarrada a conceitos,
como você está, nós apenas... observamos — sussurrou no meu ouvido.
— Gostaria de me tornar sua amiga, Antonio — falei trêmula e abri
os olhos para recobrar minha confiança. Ele estava na minha frente, sua mão
ainda estava com alguns fios de cabelo meus e seus olhos estavam na minha
boca.
— Não tenho amigos, Josi. Você já deveria saber.
— Não funciono como a maioria. Posso ter seguido meus instintos
quando te tirei do casamento, mas meu dia a dia é controlado. Eu não sou
impulsiva a toda hora.
— Nunca quis deixar isso de lado? — perguntou com malícia, agora
sua mão encostou no meu pescoço e meu corpo inteiro se arrepiou. — Nunca
quis sentir várias e várias vezes seu corpo estremecer de prazer debaixo de
um homem que sabe o que está fazendo?
— Sobre isso... — Engoli em seco e nossos olhares se conectaram.
— Eu gostei, você não forçou, mas me sentiria mais confortável se nos
conhecêssemos melhor primeiro.
Ele virou as costas e foi em direção a uma parede coberta por uma
cortina. Puxou uma corda e o que estava atrás se revelou, uma janela de
vidro, onde se podia ver um quarto com luz vermelha, uma cama e uma
poltrona.
— Você quer de mim algo que não posso te dar, Josi. Se tudo o que
você me disse for verdade, se tudo o que passei na minha vida foi mentira,
posso te garantir, nunca serei material para um relacionamento, muito menos
para uma amizade — seu tom era duro e ressentido.
Tentei imaginar o que ele poderia estar passando. Se toda a minha
vida fosse uma mentira, ou melhor, fosse manipulado apenas para que a
vingança de alguém fosse concretizada... O que estaria sentindo agora?
Ele pegou uma cadeira, posicionou na frente da parede de vidro e se
acomodou de forma relaxada. Desabotoou sua calça e sem vergonha
nenhuma, mexeu no seu membro quando três pessoas entraram no quarto.
Imediatamente saí do campo de visão, a última coisa que queria era ser
reconhecida por alguém, ou ver a intimidade de outro casal. Eu só não fui
feita para isso, apesar de ler esse tipo de conteúdo.
Sabia diferenciar ficção da realidade e a minha não tinha nada a ver
com troca de casais e compartilhamento.
— Ninguém pode nos ver. Foi por aqui que aprendi tudo o que sei
sobre sexo.
Engoli em seco, o medo de perguntar mais sobre esse assunto e
descobrir que Alberto transformou Antonio em uma máquina de sexo desde a
adolescência me causava rebuliço no estômago.
Caminhei até ficar atrás dele, coloquei minhas mãos em seus ombros
e observei por alguns minutos as duas mulheres seduzindo o homem. Eles
ainda estavam vestidos e tudo parecia acontecer muito lentamente.
— Em menos de cinco minutos eles começarão a se despir. Se não
quiser que eu avance o sinal, saia agora.
Era agora ou nunca. Ele me colocou contra a parede, iria me render
ou fazer com que ele se rendesse a mim. Seu mundo era completamente
diferente do meu, porém, tinha uma vantagem que era o meu lado divertido.
Nada com que uma brincadeira não mudasse o clima e retornasse a
paz nesse ambiente tão infectado de pecado.
— Não precisa ser assim, Totô — falei em tom de brincadeira,
apertei seus ombros e fui até a corda da cortina fechando-a.
Virei para encará-lo, seu olhar era de luxúria, sua mão continuava na
sua virilha e minha garganta ficou seca. Só poderia estar louca, porque queria
mostrar a esse homem que nem tudo precisava resumir ao sexo.
— Apesar desse apelido ser broxante, continuo duro só de te ver na
minha frente.
— Ah, querido, não se gabe tanto. Se você soubesse tanto de
sedução, entenderia que aquilo ali — apontei para a parede à minhas cotas —
é fake. Enquanto um homem pode ser considerado um micro-ondas, aperta o
botão e plim, está quente, a mulher é uma churrasqueira, do tipo que pegou
chuva e o fogo não se mantém enquanto não o estimular.
Sorri quando ele me olhou em choque. Suas mãos fecharam sua
calça e seu cenho franziu em confusão.
— Isso é um convite para acender seu fogo, Jojo? — perguntou
sério, mas por ter inventado um apelido para mim, me fez sorrir e entender
que ele tinha entrado na brincadeira.
Diferente do dele, Jojo era muito fofo.
Ele se levantou e manteve distância.
— Esse é um convite para você experimentar gozar de outra forma.
— Pisquei um olho, tirei o celular do bolso da minha calça e fui me afastando
dele. Seu olhar me acompanhava e o sorriso estava contido em seus lábios.
Ele não conhecia minhas armas e não estava preocupada com sua
reação ao que estava por vir.
Capítulo 19

Josi
Peguei a música mais brega que me veio a cabeça, aumentei o som
do celular e deixei a introdução de suspense preencher o ambiente.
“Vai, violino, mostra o seu poder...”
Ele franziu a testa, eu sorri abertamente e quando as primeiras
palavras da música soaram, larguei meu celular e corri para longe de Antonio,
que com um sorriso aberto, tentou me pegar.
— Meu Deus, que música horrível! É isso que você escuta? —
perguntou com desespero divertido quando fiquei atrás da mesa e ele na
frente.
— As que comandam vão no trá... — cantei e fiz um passinho
quando ele amaçou vir para um lado e fui para o outro. — Um clássico
nacional.
— A última coisa que vou fazer escutando essa música é gozar, Jojo.
Ele investiu de um lado, eu fui no outro e ficamos em um pega-pega
infantil. A intensão não era transformar o momento em sexual ou romântico,
Antonio precisava entender que nem tudo precisava estar envolvido nesse
mundo.
Sabia que ele não estava dando seu melhor, por isso ri e gritei
enquanto ele se continha e não me pegava. Rir e brincar com coisas sem
graça era uma forma de construir uma amizade e de ser feliz.
Quando a música brega acabou e Dark Horse, da Katy Perry soou,
parei e comecei a dançar zombeteira como os egípcios. Ele finalmente me
pegou, me abraçou e riu como se fosse a coisa mais engraçada do mundo.
Ridícula, sim, mas engraçada...
Acompanhei seu riso, abracei o irmão gêmeo que precisava de tanto
amor quanto o de Paula e inspirei seu cheiro. Céus, o cara cheirava bem.
— Você é louca. Deveria me afastar.
— Eu te salvei, estou esperando até agora meu pagamento!
Então ele me beijou, com suavidade e carinho, completamente
diferente do que fizemos até o momento. Na rede foi sensual, encostada
contra a árvore foi carnal e agora... tinha tudo para ter muito amor, se eu não
fosse tão cética que não existia amor à primeira vista. Esse sentimento
precisava ser construído em bases fortes.
Ele sentou em um dos sofás comigo ainda beijando meus lábios. Fui
para o seu colo, minhas pernas ao seu lado e ficamos assim por muito e muito
tempo. Era como se estivéssemos em um namoro no colégio, contido, mas
ainda assim apaixonado.
— Caralho, quando você vai embora? — ele falou com dor e uniu
nossas testas. Seu coração parecia que ia pular do peito tal qual o meu.
— Assim que eu pisar fora daqui.
— Vamos ser amigos então? — Ele me afastou e meus olhos só
enxergaram carinho nos dele. Minha tentativa de fazê-lo sintonizar a mesma
frequência foi mais do que bem-sucedida.
Engoli em seco, a intensidade do que o fiz sentir por mim estava me
desconcertando. Saí de seu colo e ajeitei minha roupa que nem precisava.
— Vamos. Você tem meu telefone, pode me ligar ou enviar
mensagem quando quiser. — Sorri para disfarçar a ansiedade que se instalou
no meu peito. Queria beijá-lo mais uma vez, mas não seria prudente, não
deveria, não...
— Eu te acompanho até a saída.
Ele se levantou, pegou meu celular que tocava uma música que não
conhecia e me entregou. Dei alguns passos em direção a porta e sua mão
encontrou a minha em um aperto reconfortante.
Seguimos em silêncio até a recepção e com um beijo no dorso da
minha mão, nos despedimos. Ele queria me dar uma experiência inesquecível
e talvez o feitiço virou contra o feiticeiro.
Voltei para casa, nunca comentei sobre o que aconteceu e tentava
não lembrar, porque... sim, foi o momento que percebi que estava mais do
que apaixonada por ele, mas por não o conhecer a fundo, não saber o quanto
ele estava disposto a mudar, recuei.
Depois de dias trocando mensagens, percebi que nada mais era do
que uma preliminar. Eu dei um pouco do meu veneno, a diversão e o riso
fácil e ele me deu um pouco da sua paixão e luxúria.
— Está tudo bem? — Letícia sussurrou no meu ouvido e finalmente
voltei à minha realidade atual.
Enquanto ela trajava um vestido vermelho longo e decote, estava
com um vestido curto e verde, um tanto recatado para o local, mas era o que
mais me encantou na loja da tia da Letícia.
— Não está, mas estará. Vamos — respondi determinada. Conhecia
muito bem Antonio para saber que ele poderia jogar comigo, tentar me
afastar, mas o pressionaria e encerraria esse assunto.
Entramos no salão, Cadu tinha cada uma de nós enlaçada em um
braço para que ninguém pudesse se aproximar. Olhei para os lados em busca
dele, porém, não vi nenhum rosto conhecido. Lembrei que o vi em uma sala
particular um mês atrás e apertei a mão do meu cunhado para parar.
— Talvez ele esteja em seu escritório.
— Já esteve aqui antes? — o casal falou junto e tentei não corar de
vergonha.
— Depois explico. Vamos tentar falar com a recepcionista.
— Ah, não, de novo não — Letícia resmungou baixo e tentei olhar
na direção que ela estava focada.
Em uma mesa afastada, redonda e com um banco inteiriço atrás,
estava uma mulher linda sentada em cima da mesa se insinuando para
alguém. Quando ela se movimentou e deixou a pessoa aparecer, vi roxo ao
constatar que era Antonio.
Ele não estava me traindo, pelo amor de Deus que não fosse isso,
porque cabeças iriam rolar, LITERALMENTE!
Capítulo 20

Josi
— Filho da puta! — rosnei. — Se esfregando em uma vadia
enquanto eu estava sofrendo de preocupação por ele.
— Eu deveria ter acabado com a raça dessa mulher quando tive a
chance — Letícia falou e vi quando Antonio pegou no braço da mulher e a
fez sair da mesa com rispidez. Voltou a sentar e bebeu um grande gole do
líquido em seu copo.
— Você sabe quem é ela? — perguntei para Letícia e Cadu
endureceu quando a mulher agachou e engatinhou até as pernas do meu
homem.
— Essa é a ex-noiva do Ben, que pegou Cadu e agora está querendo
o seu Tony. — Letícia se afastou do abraço do seu homem e eu também. Ela
o olhou com advertência e depois olhou para mim. — Sério, gêmea. Se você
não fizer algo, eu vou fazer.
— Você não vai fazer nada, Letícia. Esqueceu o que passamos da
última vez que estivemos aqui? — Cadu falou chateado e deixei os dois
discutindo enquanto caminhei em direção ao meu homem.
Não pretendia dar um show, muito menos partir para a agressão,
ainda mais quando o olhar de Antonio encontrou o meu e lá só encontrei dor
e arrependimento.
— Porra, Laila, eu não sou o meu pai! Me deixe em paz! —
esbravejou e empurrou a mulher no chão como se fosse uma prostituta barata.
Ele se levantou e assim que me aproximei, ele suspirou aliviado.
— Preciso de você, Josi! — falou injuriado e fui empurrada para
trás, quase me fazendo cair no chão.
— Você vai dar moral para outra puta e não para mim? Vamos
acabar de uma vez com aquela família e recuperar o que é do seu pai por
direito.
Ela o abraçou e vi a última gota de controle esvair de Antonio. Antes
que ele batesse em uma mulher e fosse julgado de forma errada, peguei de
qualquer jeito nos cabelos falsos daquela mulher e a joguei para longe.
— Sai de perto do meu homem! — gritei e chamei atenção de várias
pessoas ao nosso redor.
— Josi! — Escutei Letícia me chamar, mas estava cega com o que
tinha escutado.
— Vai cuidar da sua própria vida! — Ela se levantou e tentou vir
para cima de mim, mas desviei com facilidade uma vez que ela parecia
bêbada.
— Josi, já chamei os seguranças — Antonio falou atrás de mim, mas
não dei bola.
— Quer dar o golpe do baú, queridinha? — zombou e investiu em
mim, fazendo nós duas cair.
— O único golpe — desviei de seus tapas e arranhões — que vai ter
aqui é o meu na sua cara!
E assim eu fiz, depois de alguns arranhões no braço, consegui fechar
minha mão e acertar seu nariz. Doeu, mas estava mais do que satisfeita
quando ela caiu para o lado chorando.
— Vá embora daqui e nunca mais se atreva a tocar em alguém da
família Valenini! — falei com raiva ao me levantar. Antonio segurou meu
braço e não o olhei, porque ainda bufava de raiva.
— Você vai pagar por isso, sua vagabunda! — falou entre o choro.
Os seguranças apareceram, levantaram-na e se afastaram.
— Deveria ter batido mais, gêmea — Letícia se aproximou e me
abraçou. — Antonio, por que essa mulher estava aqui?
— Vamos para o meu escritório, já chamamos atenção demais — ele
falou e seguiu na nossa frente enquanto Cadu nos conduziu.
Sim, qual o motivo da ex-noiva de Benjamin estar aqui?
O escritório que entramos era o mesmo que tinha vindo da outra vez.
Sentei no sofá junto de Letícia e Antonio trouxe uma caixa branca de dentro
do banheiro e puxou a mesa de centro para sentar à minha frente.
— Ontem estive com Laila para fazer o acerto de contas — ele falou
pegando meu braço e verificando os arranhões feitos pelas unhas de Laila. O
seu olhar ainda não tinha encontrado o meu e, apesar do cheiro forte de álcool
que emanava do seu corpo, ele parecia muito bem firme. — Estou desfazendo
todos os negócios do meu pai e ela era um deles.
— Um negócio? — Letícia perguntou e se aproximou mais de Cadu,
que estava ao seu lado muito quieto por sinal.
— Além de amante do Alberto, ela recebia uma mesada
mensalmente. Não averiguei desde quando nem o motivo, queria apenas me
livrar de mais uma depravação dele, a mulher tinha idade para ser sua filha.
Chiei quando ele encostou um algodão com alguma solução no meu
machucado. Ele assoprou e só então me encarou.
— Me perdoe.
— Continue — sussurrei e desviei o olhar. A nossa conversa teria
que ser feita sem plateia, depois.
— Ela me falou que não adiantava se livrar dela, uma vez que
existiam muitas pessoas ligadas a Alberto para roubar o patrimônio dos
Valentini. Foi aí que percebi que meu pai... Alberto construiu todo o seu
patrimônio focado em encontrar Vivian.
— Minha mãe? Ele sabe onde ela está? — Cadu perguntou seco e
virei meu rosto para encará-lo.
— Não há sinal de Vivian Valentini desde um ano depois da morte
de Frank. Ela fugiu...
— Ou ela precisou fugir. — Peguei no rosto de Antonio e o fiz me
olhar. — Pare de julgar antes de saber da história toda.
Ele pegou minha mão, beijou sua palma e continuou com os
cuidados enquanto falava:
— Fiz um acordo com a SAI, até o final do mês que vem precisarei
liquidar todo o patrimônio de Alberto sem levantar suspeitas. A parte ilícita já
está mais do que dizimada, o dinheiro está acabando e...
— Que acordo foi esse? Você vai ser preso por causa de Alberto? —
perguntei nervosa.
— Não há garantia de nada. Estou fazendo minha parte, a agente da
SAI, Sirius, fará a dela e se tudo der certo, esse pesadelo vai acabar em
algumas semanas — a derrota em seu tom de voz era assustadora.
Será que eu daria conta de me manter firme com tanta bagagem do
passado e agora, do presente?
Capítulo 21

Josi
Ele terminou de me cuidar, se levantou e sentou na cadeira atrás da
sua mesa.
— Você é um Valentini, Antonio. Se tiver queimar o patrimônio
podre de Alberto, faça. Vamos acabar de uma vez com esse pesadelo. —
Cadu se levantou e parou em frente a sua mesa. — Você é meu irmão.
— Eu sou parte desse patrimônio podre, Carlos. — Antonio o olhou
com um sorriso triste. — Me iludi pensando que poderia fazer parte dessa
família, mas não posso, não há espaço para alguém tão ruim quanto eu.
Bufei e ri com zombaria. Levantei, caminhei até a mesa e bati na
tampa de vidro que ela era feita. O olhar dos homens era surpreso para mim.
Estava cansada de lutar com alguém que desistia a cada descoberta podre do
seu passado.
— Vai deixar o passado te moldar ou vai criar uma nova história
baseada no presente? — Encarei-o com raiva. — Vim aqui pessoalmente,
porque você me trouxe até essa cidade para ser seu apoio. O que você fez no
primeiro acontecimento assustador que apareceu na sua frente? Me jogou de
lado depois de dizer que me amava! — Joguei meus braços para o ar. —
Você me ama, eu te amo e vamos ficar nesse vai e vem? — Apontei o dedo
para o meu coração. — Só tem uma chance comigo, Antonio. Quer um
tempo? Fale! Está passando por um momento difícil e quer ficar sozinho?
FALE! — A raiva foi tão grande que quase desviei da mesa e estrangulei seu
pescoço. — Fale, porra! Não me deixe no escuro.
— Querem um momento sozinhos? — Cadu perguntou um pouco
divertido.
Eu e Antonio não abrimos a boca uma vez que nosso duelo era no
olhar. Estava desesperado e eu, a ponto de explodir e mandá-lo se foder.
— Vamos procurar um quarto da perdição para nós enquanto eles se
mantêm na sala da tortura, amor — Letícia falou divertida e escutei a porta
do escritório bater indicando que eles saíram.
Comecei a respirar com dificuldade, meu coração parecia que ia sair
pela boca e quando achei que finalmente nosso duelo tinha terminado, ele
desviou o olhar com um sorriso contido nos lábios, tirou o celular do bolso e
procurou alguma coisa nele.
O quê?
— Para de mexer nessa coisa e vamos resolver nossa situação!
Quando ele deixou o celular em cima da mesa e o som do violino,
daquela música brega soou, ele se levantou e me surpreendeu com um sorriso
aliviado.
— Estou tão acostumado a não dar satisfação a ninguém... —
começou a falar com calma, pegou minhas mãos e guiou até o sofá.
— Você esteve dando satisfação para mim há um mês!
— Estou mexendo com muita coisa podre, Josi — falou ao se sentar
e me colocar no colo. A música que ele escolheu como trilha sonora me
deixou indignada e um tanto... divertida.
— Por que me trouxe aqui se não ia me deixar ficar ao seu lado?
— Quando planejei sua vinda, pensei que ficaríamos transando a
semana inteira depois daquele resultado de DNA. — Passou as mãos nas
minhas costas e suspirou. — Preciso encerrar com isso, não quero te envolver
no caminho.
— E agora? — Segurei seu rosto. — Você quer me proteger, mas
esquece que também preciso de você. Me fez apaixonar, querer te cuidar e
então...
— E então, me desculpe, Josi. — Beijou meus lábios com suavidade
e me fez suspirar em contentamento. — Desculpe por ser egoísta demais e
não ter coragem de te afastar. Esse deveria ser o momento que finalmente
encerraria o assunto, mas não posso.
— Por que me afastar? — A música brega parou e comecei a rir. —
Ainda bem que acabou. Quando coloquei esse trá-trá-trá há um mês atrás, era
para descontrair.
— Foi o melhor momento da minha vida. — Ele me abraçou e me
colocou deitada de costas no sofá. — Não há certeza que a SAI conseguirá
livrar meu nome da podridão de Alberto. Posso ser acusado de escravidão e
tráfico de pessoas, tudo isso virá a público e minha imagem associada a você
pode trazer desgosto a sua família.
— Você sabia das coisas que Alberto fazia? — Ele se encaixou entre
as minhas pernas.
— Estive mais fora do que perto. Essa é a primeira vez que fico mais
de dois dias nessa cidade.
Envolvi meus braços em seu pescoço e sorri. O caminho era
perigoso, mas nada era impossível quando se falava da família que era dona
da cidade.
— Ainda bem que Benjamin é dono de uma emissora. Nada melhor
do que rebater uma notícia de escândalo com outra desmentindo. Você
poderia participar de um programa de casos de família.
— O assunto é sério, Jojo — falou em tom rouco e se movimento em
cima de mim me fazendo sentir toda a sua dureza.
— Tony, nunca falei tão sério em minha vida! — Enlacei seu quadril
com minhas pernas e o vestido subiu até o meu quadril. — Nunca mais me
deixe no vácuo, se afaste ou me deixe no escuro. Se estamos juntos nessa,
estamos na saúde ou na doença, na legalidade ou bandidagem.
— Isso é você me pedindo em casamento? — Ele escondeu seu rosto
no meu pescoço e começou a me beijar.
— Isso sou eu te colocando na linha, Antonio Valentini. É a última
vez que venho te resgatar.
Ele se ergueu para que nossos olhares se encontrassem e vi o brilho
de lágrimas não derramadas. Se ele chorasse, com certeza o pediria em
casamento.
— Gostei como soou, Jojo. Antonio Valentini.
Céus, dessa vez foram meus olhos que brilharam.
— Você ganhou de volta sua família, Tony. Acolha com amor e
respeito.
Como na nossa primeira vez, ele foi cauteloso ao me beijar. Apesar
da necessidade de estar dentro de mim ser externada por suas mãos
desesperadas em minhas pernas e corpo, ele se manteve no controle.
Tirou minha calcinha, me fez encontrar as estrelas quando sua boca
encontrou meu ponto de prazer e tirou toda a sua roupa para que pudesse vê-
lo. Sem palavravas, acompanhei-o removendo minha roupa enquanto ele
colocava uma camisinha, voltamos na posição anterior e ele me amou, lento e
profundo.
— Casa comigo, Jojo — disse ofegante enquanto entrava e saia de
mim.
Ri alto, fiz com que meu quadril se encontrasse com o dele e
aproveitei ao máximo nossos corpos nus se esfregando.
— O pedido certo era quer namorar comigo. — Gemi quando ele
meteu fundo em mim.
— Não quero a porra de um namoro quando sei que te quero para a
vida inteira.
— Diga isso quando eu estiver de TPM.
Ele me fez levantar e sentar em seu colo. Escarranchada, fixei meu
olhar no dele e me movimentei ora calma, ora com pressa. Suas mãos
apertaram meus seios e minhas unhas afundaram em seus ombros.
— Mulher difícil, casa comigo.
— Homem apressado, esquece isso e goza comigo.
Ele abraçou minha cintura, eu beijei sua boca e abracei seu pescoço.
Nossos quadris buscaram o atrito, o momento e o vai e vem necessário para
que juntos encontrássemos o que tanto ansiávamos, ou melhor, eu, porque
Antonio parecia que não ia mudar o disco tão cedo.
— Casa comigo, Josi Penha.
Capítulo 22

Josi
Fui surpreendida com um corpo muito grande e pesado me cobrindo.
Depois do meu momento com Antonio no clube, ele pediu que fosse com
Cadu e Letícia para casa e que no outro dia estaria lá para me ver.
O idiota não falou horário, então, fiquei esperando o dia inteiro
assistindo seriado com Letícia e me despedindo de Ray, que voltou com Ben
para sua cidade. Fazia pouco tempo que tinha me deitado para dormir e o
meu namorado sem noção finalmente resolveu aparecer.
— Que horas são? — perguntei com voz rouca de sono. Ele tentou
me beijar, empurrei-o de cima e procurei meu celular. — Se for mais de meia
noite, esqueça que eu existo, Antonio Valentini. Você falou que iria me ver
hoje, ou seja, você tinha até meia noite desse dia para isso!
Não consegui alcançar meu celular, porque ele me fez deitar e cobriu
meu corpo com o seu.
— Na sua cidade ainda são onze e meia! — Beijou minha testa e
suspirou quando rosnei. Ele queria ganhar alguma coisa com o fuso horário.
— Estamos no final da linha, Jojo.
— Final da linha da minha paciência só se for.
— SAI entrou em contato comigo, Vivian Valentini está sendo
rastreada e a última localização foi na sua cidade. — Ele tirou o lençol que
me cobria e beijou meu pescoço. — Vamos voltar e acabar de vez com todo
esse mistério.
— Sério? — Forcei seu corpo a sair de cima do meu e montei o dele.
— Você vai se mudar para pertinho de mim?
— Se quero me casar com você, sim, essa é a intenção.
Fiz uma careta, saí da cama e fui em direção a porta.
— Onde você vai, mulher?
— Acordar Letícia e Paula, precisamos contar isso aos seus irmãos.
— Deixe para amanhã... espera! — escutei ele gritar, mas já estava
batendo à porta de Arthur e Paula.
— Paula, Arthur, acordem, reunião de emergência! — falei e segui
para outra. Antonio me enlaçou pela cintura e antes que pudesse bater, Paula
colocou a cabeça para fora.
— O que está acontecendo?
— Novidades sobre o mistério da família Valentini. — Remexi nos
braços de Tony, estiquei meu corpo e bati na porta da Letícia. — Gêmea,
acorda!
— Pelo jeito é urgente, nos dê alguns minutos — Paula pediu e
Letícia apareceu com a cara amassada.
— Você não consegue controlar sua mulher não?
— Depois você me xinga, Lê! Estamos te esperando lá na sala.
Ainda de pijama, puxei Antonio pelas escadas e fui até a cozinha
fazer um pouco de café.
— Como estão as coisas com patrimônio podre?
— Tenho muito o que fazer, mas tudo está sob controle. — Suspirou
com alívio. — A cada empresa que fecho, cada indenização que pago a
funcionários bons e corruptos, é um peso que sai das minhas costas.
— Está tudo bem por aqui? — dona Judite apareceu na cozinha com
um robe por cima de seu pijama. Ela arregalou os olhos quando olhou para
Antonio e então, Arthur apareceu. — Meu Deus...
Ela ainda não tinha visto nem ninguém havia contado os últimos
acontecimentos. Bem, nada melhor do que a madrugada para ser feito isso.
— Esse é Antonio, o irmão gêmeo desaparecido — falei para uma
senhora que precisou pegar um copo de água para beber e se acalmar.
Vi Arthur olhar para o irmão, esse estendeu a mão e os dois se
cumprimentaram antes de sentarem à mesa e Paula vir ao meu lado tentar
acudir dona Judite.
— Então era verdade...
— Que Vivian teve gêmeos? Sim. Que ela deu um deles? Só ela para
dizer — falei e levei as xícaras com café para a mesa. Cadu e Letícia
apareceram e se sentaram também.
— Falei que era melhor contar para ela antes de ver com os próprios
olhos — minha gêmea falou e pegou a xícara que Antonio iria pegar. — Eu
preciso mais do que você.
— Como o destino dessa família poderia ser diferente...
— Esqueça o passado. O que aconteceu, precisava acontecer para
que chegássemos aqui. — Paula apertou o ombro da mulher e sorriu para
todos com carinho. — Desembucha, Josi.
Fiz uma indicação para meu homem, que tossiu e falou:
— O último rastro de Vivian Valentini...
— Nossa mãe — corrigiu Arthur.
Vi Antonio engolir em seco, concordar com a cabeça e continuar:
— O último rastro de nossa mãe foi há cinco anos na cidade onde
Josi mora.
— Meu detetive particular era uma porcaria mesmo. — Cadu
resmungou. — Como soube disso?
— Por conta do que estou fazendo para liquidar o patrimônio de
Alberto, já que ele está muito bem preso, encontramos uma pista e ela nos
levou a essa conclusão. Ao que parece, ele matinha contato com ela. Basta
saber se eram cúmplices...
— Ele a ameaçava — dona Judite soltou e se levantou. — Jurei pela
minha vida que nunca falaria isso, mas ao ver Antonio... — Ela precisou de
um momento para se recompor. — Alberto estando preso e esse milagre na
minha frente é tudo o que precisava para finalmente falar.
— A avó de Ray guardava um segredo, agora você? — falei em tom
falso de briga.
Os homens que estavam à mesa tencionaram em seus lugares. Paula
foi para perto do seu homem e eu, precisava me controlar para não chacoalhar
a mulher ao meu lado.
Até quando mais segredos seriam revelados antes do mistério final
ser desvendado?
Capítulo 23

Josi
— Estava na cozinha quando escutei Alberto e Vivian discutindo.
Frank estava trabalhando, as crianças estavam na escola e... — Ela fechou os
olhos e suspirou. — Ele queria que ela convencesse Frank a entregar a
sociedade de algumas empresas e que ela se separasse dele. Ela chorou muito
naquele dia, relutou muito e quando fui acudi-la, pediu que prometesse que
nunca falaria nada, para ninguém, sobre o que aconteceu, porque as crianças
estavam em perigo, inclusive a que ela carregava em seu ventre. Não sabia
que estava grávida, muito menos de gêmeos. Esse período foi uma confusão,
só pensava em proteger as crianças... — ela olhou para Cadu e Arhur —
vocês.
— Por que não disse a polícia? — Antonio perguntou chateado. —
Eu li todos os relatórios e depoimentos sobre a morte de Frank e Miguel.
— Como poderia não cumprir com a promessa que fiz para Vivian?
Quando vocês foram morar com seus avós e a mãe de vocês se despediu de
mim, mas me mantendo à frente da casa, eu queria finalmente falar, mas não
poderia, não quando todos pareciam tão machucados.
— Você acha que nossa mãe sumiu por medo de Alberto? — Cadu
perguntou e tomou um gole de seu café, mais calmo.
— Ela com certeza o fez. E não era para preservar a própria vida,
mas a de vocês.
— Nós nunca fomos ameaçados enquanto crescíamos — Arthur
falou.
— Mas se afastaram, colocaram a família em último lugar — Paula
falou e beijou o rosto do seu amado. — Deixe as perguntas para sua mãe.
Dona Judite também foi vítima.
— Alberto realmente está preso? — A senhora que cuidou da família
por anos olhou para Antonio. — Por onde você esteve?
— Sim, dona Judite. Aquele lixo teve a coragem de roubar Antonio,
criá-lo como filho e quase nos matar — Letícia falou e apontou para Cadu. —
Que a SAI se livre deve, porque eu, com certeza, faria se estivesse nessa
agência.
— Você não vai virar uma agente, Letícia! É perigoso. — Cadu
falou bravo.
— Eu rio do perigo. Ha-ha...
Um barulho nos assustou e por instinto envolvi a mão de Judite na
minha. Antonio se levantou, tirou uma arma de trás de sua calça e arregalei
meus olhos ao perceber que ele estava comigo, na cama, armado.
Uma mulher vestida de preto apareceu com um enorme sorriso e
confiança.
— Oi, gente, desculpe por isso, mas como estão todos reunidos e
abrindo os corações, resolvi aparecer e roubar um pouco de café. — Antonio
ainda apontava a arma para ela, por isso o olhou confusa. — Esqueceu de
mim? Rigel, a estrela mais bonita!
Antonio guardou a arma e a agente se aproximou de mim com o ar
divertido.
— Faz um café para mim?
— Por que você está aqui?
— Ainda ressentida porque queria interrogar seu boy? — Ela revirou
os olhos. — Chega desse monte de pergunta, estou de vigia por hoje e tudo
parece muito monótono.
Tentei não fazer mais uma pergunta, então, virei para fazer mais um
café na máquina de cápsula e olhei por cima do ombro para ver todos
olhando para a mulher que surgiu do nada falar algo.
Entreguei a xícara, ela tomou um gole e sorriu para todos, como se
fosse a coisa mais normal do mundo.
— Pronto, agora posso falar. Estamos com uma estrela na cidade
onde foi o último rastro deixado por Vivian Valentini. Se vocês puderem
ficar um tempo por aqui e deixar nós trabalharmos...
— Eu e Josi estamos voltando amanhã para lá — Antonio bradou.
— Sim, nós vamos voltar para lá! — Estufei o peito e enfrentei a
agente.
— Até parece que seria fácil, Capela — ela falou com o dedo no
ouvido. — Desculpa, gente, mas a intrometida está falando um monte de
coisa no meu ouvido.
— Mande um beijo para ela! — Letícia brincou.
— Ela quer o doce de banana, aspirante a pó de estrela — Rigel
terminou seu café, devolveu a xícara para mim e saiu.
— Querem um pouco de torta? — dona Judite ofereceu.
— Eu não vou dormir mais mesmo — Paula falou.
— Eu vou ser agente secreta! — cantarolou Letícia para Cadu, que
fez uma careta.
Antonio se aproximou de mim, me encurralou entre seu corpo e o
balcão e me encarou.
— Estamos juntos nessa?
— Só se você largar essa arma quando estiver comigo.
Ele beijou meu pescoço e sussurrou:
— De um jeito ou de outro estarei armado, para te proteger ou para
te foder.
Fiquei vermelha, escondi meu rosto em seu peito e suspirei.
— Contanto que você não me exclua, estará tudo bem.
— Então, casa comigo?
— Oh meu Deus, vocês vão se casar? — dona Judite falou alto
demais e a cozinha virou uma bagunça de conversa e felicitações.
Olhei para ele com raiva enquanto seu sorriso só aumentava. Ele
tinha sorte que o mistério da sua família acabaria dando lugar para essa
agitação sem precedentes de um casamento que não iria celebrar tão cedo.
Vivian Valentini poderia estar na minha cidade, só não imaginava o
tamanho da coincidência que estava para nos atingir.
Capítulo 24

Antonio
Depois da noite de revelações, alvoroço por entre as mulheres por
conta do meu pedido de casamento, colocar minha bela e zangada mulher
para dormir fazendo-a gozar por três vezes, saí dos seus braços e vim ter um
tempo sozinho para aceitar que aqui era minha casa também.
Porra, eu me sentia bem aqui e arriscava dizer que sim, era meu lar.
Se o quarto que Josi dormia não tivesse dono, agora teria, seria nosso.
— Estão indo embora amanhã? — Arthur se aproximou e sentou na
cadeira ao lado da minha, perto da piscina.
Virei meu rosto em sua direção e estranhei o quanto nossa
fisionomia eram iguais. Era como se olhasse para o espelho no dia que eu me
arrumasse melhor. A diferença visual entre nós era isso, ele era muito
alinhado e eu, bagunçado.
— Sim, quero falar com os pais da Josi e convencer sua cabeça
teimosa a morar comigo, já que não quer se casar. — Ri no final, porque ela
não sabia, mas tentaria convencê-la todos os dias.
— E se ela for confundida com alguém envolvido com os crimes de
Alberto? Enquanto não chegar no fim, não é prudente considerar que ela está
protegida.
— Você está certo, ainda há risco. — Engoli em seco e olhei para o
jardim bem cuidado a minha frente. — Só não consigo me impedir de seguir
em frente. Essa mulher mudou minha vida.
— Paula também mudou a minha. Ela... — Respirou fundo e o
encarei em busca de saber mais dele. Apesar de estranhos, nossa conexão
parecia intacta. — Ela é muito desastrada.
Ri alto e bati nas costas dele, que tentou não sorrir, mas fez, tamanho
foi meu divertimento. O cara parecia ter algum bloqueio quanto às emoções,
mas sentia que tudo isso era normal, era parte dele.
— Ela costuma tropeçar pelo menos uma vez por dia, fico louco com
os roxos que aparecem pelo seu corpo. Não posso impedir que se fira.
— E nunca conseguirá, ainda mais quando elas se juntam e querem
algo. Veja a minha mulher, quero dar um mundo a ela, mas Josi não quer.
— Você não pode dar o mundo, ainda mais que está perdendo
dinheiro. — Ele se levantou e olhou para os lados. — Eu... estou feliz que
você esteja aqui com a gente.
— E cadê o sorriso para mostrar a verdade de suas palavras? —
brinquei, me levantei e fiz um gesto para abraçá-lo, mas ele recuou.
— Sou diferente, tenho...
— Diferente e estranho, prazer, estranho e diferente. — Estendi
minha mão como se estivéssemos nos cumprimentando. — Você é meu
irmão e estou imensamente agradecido por terem envolvido uma divertida e
rabugenta mulher para me encontrarem.
— Elas se envolvem sozinha, já falei para a Paula que é perigoso. —
Ele apertou minha mão e percebi que era o máximo que conseguiria de
aproximação no momento. — Mas quando ela sorri para mim e coloca a mão
no meu coração...
— Você só pergunta o quê, quando, onde e faz, não é mesmo? —
Bati no seu braço, olhei para a casa a suspirei. — Vou ficar com o aquele
quarto.
— Era o meu, já que estou no quarto de Ben e ele, na suíte principal.
Logicamente, quando vem para cá. Eu vou onde Paula precisar de mim.
— Obrigado — falei com voz embagada ao perceber que teria uma
chance de resgatar uma parte de mim estando naquele quarto. — Preparado
para encontrar nossa mãe? — Cada vez mais falar isso não parecia tão
estranho.
— Não. — Deu um passo em direção a casa. — Eu... eu vou voltar
para Paula.
— Faça isso e quando precisar conversar, me ligue.
Ele caminhou para dentro, parou, voltou e me encarou como se fosse
difícil dizer:
— Me... me ligue se precisar conversar.
Sorri e acenei em concordância. Deixei que ele entrasse primeiro
para que fizesse sozinho meu trajeto até o quarto onde Josi estava, o quarto
antigo de Arthur, meu quarto agora.
Abri a porta e o encarei com outros olhos. Josi se movimentou na
cama, removi minha roupa rapidamente e me acomodei ao seu corpo. Inspirei
e senti meu coração bater mais forte ao perceber que finalmente encontrei o
que estava buscando. Sentir-me em casa, um lar.
— Onde você foi? — perguntou sonolenta.
— Fui tentar parar de pensar em te foder, mas não adianta, preciso
estar dentro de você a cada hora do dia — falei cutucando seu quadril com
meu membro ereto. Se algum dia cheguei a ter um problema para me
estimular, misturar amor e tesão resolveram. — Casa comigo.
— Gozar primeiro, pergunta indecente depois — falou beijando
meus lábios e sabia, que enquanto estivesse com ela, enfrentaria qualquer
assunto mal resolvido do passado.
Estava preparado para enfrentar minha mãe.
Sobre a Autora
Mari Sales é mãe, esposa e escritora em tempo integral, analista de
sistema quando requisitada e leitora assídua durante as noites e madrugadas.
Nos intervalos entre suas vocações, procura controlar a mente para não se
atropelar em todas as ideias que tem. Entusiasta das obras nacionais de
romance contemporâneo, contribuiu com esse universo literário através do
blog Resenhas Nacionais e entrou no universo das publicações independentes
em janeiro de 2017 com Superando com Amor, e desde então, não tem planos
para parar tão cedo.
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Sinopse: O presidente do Selvagem Moto Clube está gravemente doente e
um sucessor precisará ser escolhido antes que John morra. O vice-presidente
deveria ser o herdeiro legítimo, mas seu mal caráter e negócios ilícitos fazem
com que essa vaga seja disputada.
John nunca quis que sua família se envolvesse com seu Moto Clube, mas sua
filha Valentine entra na disputa pela presidência e nada mudará sua decisão.
No meio dessa disputa entre o comando do Selvagem, Doc é o único homem
que ela poderá confiar para lutar pelo Moto Clube e quem sabe pelo seu
coração, que há muito foi judiado por outro motociclista.
Entre a brutalidade e o preconceito, Doc e Valentine encontrarão muito mais
do que resistência nos membros do Moto Clube, mas intrigas e traição.
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Sinopse: Ter um relacionamento afetivo nunca foi preferência na vida de
Rachel Collins. Seu trabalho e seu irmão eram as únicas prioridades, até que
seu caminho cruza com o de Victor Aranha em um tribunal, em lados
opostos. O homem de postura arrogante e confiante, presidente de um Moto
Clube, abalou os planos da advogada.
Tempos depois, os dois se encontram informalmente e a chama adormecida
se acende. Prudente e competente, Rachel acaba em conflito de interesses ao
ser convidada por Victor, para uma noite sem compromisso. O lado pessoal
dos dois estava pronto para colocar em risco tudo o que construíram.
Ela seguia as leis. Ele as quebrava.
Victor precisa de assessoria jurídica, e claro que convoca a atrevida Rachel
Collins. Tentada pelo desafio, acaba envolvida em muito mais do que suas
teias, mas no lado obscuro do Aranhas Moto Clube.
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Sinopse: Ser o presidente do Piratas Moto Clube nunca tinha passado pela
cabeça de Richard Collins, um homem respeitado e de valores tradicionais.
Ele assumiu o posto de chefe de família muito cedo e isso trouxe sequelas
para sua confiança. Apesar disso, ninguém sabia que debaixo daquela postura
firme e cheia de argumentos morava um homem assombrado pelas suas
limitações.
Nina está envolvida em todos os assuntos dos seus amigos, principalmente
quando Richard, seu Lorde da vida, está em causa. Quando ele precisa de
proteção extra, além do que já tem por causa de JFreeman, ela não só se
voluntaria, mas decide investir, finalmente, na sua atração pelo homem que é
o verdadeiro príncipe de terno e gravata.
Apesar de serem de mundos diferentes e com convicções completamente
opostas, as circunstâncias colocarão à prova tudo o que acreditam, inclusive
seus próprios medos.
As aparências trazem julgamentos precipitados e as histórias de família mal
contadas também. Existem muito mais segredos pirateados do que ocultos
nessa história.