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Sedução Perigosa

A WICKED PERSUASION

Catherine George

Um fogo que nunca se apagou...


Bastou um olhar do atraente James Crawford para a jovem herdeira
Harriet Wilde sentir o fogo arder em seu coração. Mas seu pai não o
considerava bom o suficiente, e a forçou a pôr um fim na relação. Dez anos
depois, James, agora presidente de um império multimilionário, volta para se
vingar da mulher que o desprezou. Ele quer que Harriet experimente cada
grama da humilhação que o fez sofrer no passado. Mas a única coisa que
consegue é reavivar as chamas que acreditava já ter apagado...

Digitalização: Vicky
Revisão: Bruna Cardoso

Querida leitora,
Em Sedução perigosa, a jovem herdeira Harriet Wilde sentiu o fogo arder
em seu coração ao se envolver com o atraente James Crawford, mas seu pai a
Jessica 199.1 – Sedução Perigosa – Catherine George

obrigou a terminar a relação. Dez anos depois, James construiu seu próprio
império e retorna para se vingar da mulher que o desprezou. Mas ele não
contava que seus sentimentos por ela ressurgissem com toda a força.
Em Coragem para beijar, Hunter Philips é o conquistador de Miami que
despertou o faro jornalístico de Carly Wolfe por ter inventado um aplicativo
inusitado, chamado O Detonador... Ela resolveu desafiá-lo em um programa de
TV, mas não imaginava que seria desarmada pelos olhos azuis de Hunter...
Agora, tudo o que ela precisa é de uma matéria de capa para retomar sua
profissão. Mas será Carly ousada o bastante para se envolver com Hunter em
troca disso?
Boa leitura!
Equipe Editorial Harlequin Books

Tradução: Celina Romeu

HARLEQUIN 2013

PUBLICADO SOB ACORDO COM HARLEQUIN ENTERPRISES II B.V./S.à.r.


Todos os direitos reservados. Proibidos a reprodução, o armazenamento ou a transmissão,
no todo ou em parte.
Todos os personagens desta obra são fictícios. Qualquer semelhança com pessoas vivas
ou mortas é mera coincidência.

Título original: A WICKED PERSUASION


Copyright © 2012 by Catherine George
Originalmente publicado em 2012 por Mills & Boon Modem Romance

Título original: DARE SHE KISS & TELL?


Copyright © 2012 by Aimee Carson
Originalmente publicado em 2012 por Mills & Boon Modern Romance

Projeto gráfico e arte-final de capa:


Núcleo i designers associados
Editoração eletrônica: EDITORIARTE
Impressão: RR DONNELLEY
www.rrdonnelley.com.br

Distribuição para bancas de jornal e revistas de todo o Brasil:


FC Comercial Distribuidora S.A.
Editora HR Ltda.
Rua Argentina, 171, 4° andar
São Cristóvão, Rio de Janeiro, RJ - 20921-380

Contato: virginia.rivera@harlequinbooks.com.br

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Jessica 199.1 – Sedução Perigosa – Catherine George

Capítulo Um

NADA HAVIA mudado nas ruas calçadas de pedra em torno do mercado


medieval daquela cidade desde o dia horrível em que partira, jurando nunca
mais voltar. Dez anos depois, os telhados altos e escarpados e as janelas de
pedra e vidro, típicos da arquitetura local, brilhavam ao sol enquanto ele
deixava o centro da cidade para seguir até a Broad Street, observando os
antigos e graciosos prédios. Entrou no banco, que era seu destino, e descobriu
que pelo menos uma coisa havia mudado.
Quando saía, ouviu uma voz atrás dele cumprimentando um caixa do
banco. Então parou o coração disparado. Virou-se lentamente e sentiu uma
onda de satisfação visceral, enquanto a mulher que caminhava em sua direção
ficava tão pálida que quase teve que estender a mão para firmá-la.
– James! – Engoliu em seco, tão claramente chocada que sua satisfação se
multiplicou enquanto mantinha a porta aberta para ela.
– Ora, oi! Como vai, Harriet? – O tom era afável.
– Muito bem. – Era uma mentira tão evidente que ele quase riu. – E você?
– Nunca me senti melhor. – Olhou o relógio. – Bom vê-la de novo, mas
tenho que correr… Adeus.
James Crawford desceu a rua sem olhar para trás, zangado porque o
encontro casual com Harriet Wilde o afetara demais. Estava tão diferente da
garota que uma vez adorara que quase não a reconheceu. A garota que o
expulsara de sua vida e mudara a dele para sempre.

HARRIET FICOU parada diante do banco, o olhar preso no homem que


descia a ladeira. Então deixou escapar o ar que segurava e se virou abalada
para seu carro. Por anos depois do penoso rompimento sonhara em ver James
Crawford de novo. O que resultara em noites de insônia e uma grande perda de
peso. Mas, com o tempo, deixara de imaginar que todo homem alto e moreno
que via ao longe era James. Não o vira ou soubera dele em dez anos.
E agora que o encontrara casualmente, o destino decidira que tinha que
ser depois de um dia de muito trabalho, quando certamente parecia ter
envelhecido demais. Sorriu amarga. Certamente James Crawford era marido e
pai há muito tempo. E a fisgada de dor que a percorreu ao pensar nisso foi à
última gota. Tivera tanta certeza de que não sentia mais nada por ele. Mas era
apenas natural sentir alguma coisa, pelo menos se perguntar o que estava
fazendo lá depois de tanto tempo.
Seu celular tocou enquanto virava o carro na alameda que levava ao
chalé, mas deixou que a mensagem do pai caísse no correio de voz. Depois
daquele encontro devastador com James, precisava de um pouco de paz antes
de enfrentar a noite que a esperava.
Quando Harriet se formara em contabilidade, rejeitara um convite
tentador de uma empresa com sede em Londres e aceitara um emprego em
uma firma local. Então deixara a família atônita ao anunciar que se mudaria de
forma permanente para o chalé nos terrenos da River House.

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Jessica 199.1 – Sedução Perigosa – Catherine George

– Por que diabos quer fazer isto? – exigiu saber Julia, a mais velha das três
irmãs Wilde. – É tão pequeno!
Era também independente e ficava a uma distância razoável da casa
principal. Assim teria privacidade e a oportunidade de cuidar da casa, como
prometera à mãe.
– Mas gosto dele – respondera Harriet – e sempre o usei como estúdio.
Agora posso viver num lugar só meu.
Aubrey Wilde rejeitara a ideia.
– Por que quer viver sozinha?
Porque seria infinitamente preferível a viver com ele na casa principal.
Julia, a filha brilhante, era editora de uma revista de moda em Londres e
raramente tinha tempo para visitar a River House. A mais bonita, mas menos
inteligente Sophie se envolvia apenas com a filha e o marido e a vida social em
Pennington.
– Se não concordar, pai, vou alugar um apartamento na cidade. – Harriet
se mostrara irredutível.
E como era a filha sempre comportada, a não ser um episódio lastimável
quando era adolescente que ele preferia esquecer, Aubrey Wilde aceitara com
relutância.
Seu consentimento aquela noite seria mais difícil. A boca de Harriet
endureceu enquanto se arrumava com seu vestido favorito, para lhe dar
coragem. Além disso, soltou os cabelos do coque apertado que usava no
trabalho e escovou-os. Apenas ela herdara a cabeleira abundante e cacheada
da mãe. Levou pouco tempo para se maquiar, calçou as sandálias de saltos
altos e, tão feliz como Daniel a caminho da toca dos leões, subiu a íngreme
alameda até a casa.
Harriet entrou pela porta dos fundos, a cozinha enorme e vazia tomada
por cheiros de dar água na boca. O som da conversa animada que vinha da
sala de estar lhe mostrou que as irmãs estavam tomando um coquetel com o
pai, sem pensar no jantar. Julia e Sophie esperavam que as refeições
aparecessem sem a ajuda delas e, como fazia regularmente, agradeceu
silenciosamente à modelo de perfeição que mantinha a River House em ordem.
Margaret Rogers passava três horas por dia na casa para deixá-la sempre
imaculada. Cozinhava e congelava refeições para Aubrey Wilde, que precisava
apenas aquecê-las no micro-ondas. Ele gostava de dizer que cuidava de si
mesmo, mas não dedicava nenhum esforço a casa. Desde que se aposentara
do banco, Aubrey Wilde passava grande parte do tempo jogando golfe, no bar
do clube ou participando de almoços e jantares.
Harriet verificou o cheiroso cozido quente no forno, depois levou o
primeiro prato para a sala de jantar. Julia, alta, bem vestida, exótica, entrou
enquanto Harriet colocava pratos individuais de salada na longa mesa que
arrumara na noite anterior.
– Aí está você. – Julia não estava de bom humor. – Papai tentou ligar.
Harriet beijou o ar perto do rosto pintado que Julia ofereceu.
– Saí tarde do escritório.
– Enquanto eu tive que vir de Londres e deixei de participar de uma
reunião muito importante.
Harriet ergueu uma sobrancelha cínica.
– E passou toda a viagem de trem no celular, atormentando seus
subordinados.
Julia nem tentou negar.

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– Então, qual é o grande mistério? Por que estamos todos reunidos hoje?
Não pode ser para rezar.
– Pode chegar a isso. Preciso do seu apoio esta noite.
– Isso é novidade. – Julia entrecerrou os olhos. – Não está envolvida com
alguém inadequado de novo, está?
Harriet apenas lhe lançou um olhar gelado e voltou para a cozinha.
– Vou dizer a papai que chegou. – A voz da irmã se ergueu. – Quer uma
bebida?
– Ainda não, obrigada.
Harriet sabia que a irmã, uma guru da moda, inspecionava seu traseiro no
vestido justo. Não que se importasse. Um pouco do peso que perdera quando
James partira tinha sido recuperado depois, mas ainda era mais magra do que
as duas irmãs. Afinou os lábios enquanto aquecia aspargos no vapor. Depois de
anos ausente, era a segunda vez naquele dia que James Crawford se intrometia
em sua vida. Era o “alguém inadequado” de seu passado.
Apenas um dos técnicos de uma firma de computadores fora descartado
como impossível para a filha da River House. E, para desespero de Harriet, sua
madrinha, que até então tinha sido sua aliada constante, concordara com
Aubrey Wilde pela primeira vez.
– Querida, você é jovem demais – dissera Miriam Cairns. – Está indo tão
bem na faculdade, não é hora de pensar seriamente em ninguém. Se esse
jovem é tão maravilhoso como diz, vai esperar você até se formar.
Mas James, que não queria esperar, persuadira Harriet a partilhar com ele
um apartamento perto da faculdade enquanto ela fazia o curso. Quando
Aubrey Wilde descobrira o plano, perdera a cabeça. Vermelho de fúria gritara
que ligaria para o dono da empresa de computadores, um companheiro de
golfe, e lhe pediria que despedisse o namorado dela. E se Harriet teimasse,
conseguiria uma ordem judicial para impedir que o homem se aproximasse
dela sob pena de prisão. Harriet argumentara com paixão e desespero e até
implorara. Mas o pai não cedera. No fim, Harriet desistira, temendo que, se
continuasse a desafiá-lo, Aubrey Wilde levaria a cabo sua ameaça de mandar
prendê-lo. Tinha sido obrigada a dizer a James que não seria possível viver com
ele enquanto estudava.
No começo, James rira, achando que estava brincando, mas, quando
percebera que falava a sério, fizera o possível para ela mudar de ideia; então
aceitara a derrota furioso.
– Então é isso? – A voz era pesada de emoção. – Vá embora, Crawford, e
nunca mais apareça?
– É claro que não – respondera infeliz, as lágrimas lhe descendo pelo
rosto. – As coisas serão diferentes depois que me formar…
– Acha mesmo que sou tão idiota a ponto de ficar por perto por tanto
tempo, Harriet? – O sorriso sarcástico a despedaçou. – Papai disse “não”, não
disse? E como uma boa filhinha, está desistindo sem lutar.
– Não tive escolha.
– Sempre há uma escolha! Mas é evidente que fez a sua, garotinha.
Assim, desapareça. Volte para o papai e cresça.
Harriet ligara para ele assim que chegara a casa e soluçara de desespero
quando descobrira que o telefone havia sido desligado e o e-mail, apagado.
James Crawford, o especialista em computador, cortara todos os meios de
comunicação com ele. Depois de uma noite de insônia, assim que amanhecera,
ela fora ao quarto que ele alugava e descobrira que já pagara tudo e partira. E
até aquele breve encontro, nunca mais o vira.
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Jessica 199.1 – Sedução Perigosa – Catherine George

O timer do forno apitou, arrancando Harriet do passado. Encheu o carrinho


e o empurrou para a sala de jantar, então se juntou aos outros para avisar que
o jantar estava servido.
– Já era hora – reclamou Sophie, se levantando. – Estou morrendo de fome.
– Mas, como sempre, nem mesmo lhe ocorreu oferecer ajuda. – A aspereza
na voz de Harriet foi tão diferente de sua atitude usual que os três a olharam,
assustados.
– Dia difícil? – Havia cautela na voz do pai.
Sophie ficou indignada.
– Também estive ocupada, quero que saiba. Annabel me deixa exausta.
– Mesmo? Pensei que a deixava exausta sua maravilhosa Pilar. – Harriet se
referia à empregada de Sophie e Julia riu.
– Pegou você, Sophie.
Aubrey Wilde, inquieto, olhou para Harriet.
– Alguma coisa errada?
– Não mais do que o de sempre. Vamos comer antes que a pobre Sophie
desmaie de fome.
Sophie abriu a boca para responder, mas viu o olhar duro do pai e se
sentou aborrecida, à mesa da sala de jantar, como os outros. Harriet ficou
contente com a taça de vinho que o pai lhe servira, mas o problema que teria
que enfrentar a fez perder o apetite. Para sua surpresa, Julia tirou os pratos
vazios de salada e mandou que Sophie distribuísse os pratos nos quais Harriet
servira o ensopado. Aubrey pareceu deliciado ao ver as filhas trabalhando
juntas.
– Então, por que nos chamou aqui, papai? – perguntou Sophie, assim que
voltaram à sala de estar.
– Foi ideia de Harriet.
Julia ergueu as sobrancelhas para a irmã.
– Por favor, não me diga que esqueci alguma data importante, Harriet.
– Não. – Harriet abriu sua pasta de couro.
– Oh, droga! – gemeu Sophie. – Não me diga que temos que assinar
papéis.
– Não. – Harriet colocou alguns documentos sobre a mesa de café. – Mas é
importante que você e Julia participem desta discussão.
O pai a olhou, zangado.
– Harriet, se isso é sobre a contabilidade, devia ter conversado comigo
primeiro!
– Se eu tivesse feito isso, sabe muito bem que teria descartado minhas
descobertas como se fosse uma tolice pessimista. – Não havia emoção na voz
de Harriet.
Sophie começou a protestar, mas Julia a fez se calar com um gesto de
mão.
– Esta é a contabilidade do ano financeiro, Harriet?
– Sim. Posso não ter conversado antes com papai, mas garanto a vocês
que tentei muitas vezes lhe dizer como estão às coisas antes de finalmente
convocar vocês.
Aubrey ruborizou.
– A garota está sempre me dizendo para economizar. Mas, maldição, tenho
uma vida muito simples, não posso cortar mais despesas.
Harriet atirou para matar.
– Venda a casa, pai.

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Jessica 199.1 – Sedução Perigosa – Catherine George

E pela primeira vez na vida, Julia e Sophie tiveram a mesma expressão


enquanto olhavam de Harriet para o pai em total horror.
– Vender a Silver House? – arquejou Sophie.
– É assim tão ruim? – perguntou Julia, ao mesmo tempo.
Harriet olhou para o pai, desafiadora. Ele finalmente admitiu que suas
finanças não fossem nada boas.
– Como outras pessoas honestas, perdi muito dinheiro no mercado de
ações. – Serviu-se de outra dose de conhaque.
– Qual é a situação, Harriet? – exigiu Julia.
– Como as coisas estão papai não tem dinheiro para continuar a viver
aqui. Precisa de outra fonte de renda. A manutenção desta casa exige muito
dinheiro.
– No tempo do seu avô, constavam na folha de pagamento dois criados,
um pedreiro e dois jardineiros. Agora, Ed Haines é contratado para a
manutenção apenas quando absolutamente necessário e o filho dele vem uma
vez por semana para cuidar do jardim. – Aubrey se mostrou desanimado.
– E você está ficando sem dinheiro até mesmo para isso. – A voz de Harriet
era firme.
Sophie virou-se para ela, zangada.
– Tem certeza do que está dizendo? Você é inexperiente, devia deixar a
contabilidade da casa para alguém mais velho da firma.
Aubrey Wilde olhou-a com desaprovação.
– Peça desculpas a Harriet imediatamente, Sophie!
– Desculpe, desculpe. – Sophie começou a chorar. – Mas não suporto o
pensamento de vender a River House.
– Como Harriet é uma contadora qualificada – Julia era sempre justa –,
seus números certamente estão corretos.
– Foram examinados por Rex Barlow, um dos sócios mais velhos, e ele
concordou comigo em tudo. – Harriet estava cansada de tudo aquilo. – Há
necessidade urgente de mais dinheiro ou papai não terá escolha. Precisará
vender.
– Não posso ajudar, ainda estou pagando a hipoteca do meu apartamento
e as prestações são muito altas.
– E não posso pedir dinheiro a Gervase! – Sophie pareceu alarmada. – Foi
horrível comigo sobre a última conta do cartão de crédito.
– Mesmo se alguma de vocês pudesse contribuir, seria apenas uma ajuda
temporária. No entanto – Harriet fez uma pausa e quase riu quando os três a
encararam com esperança –, se não consegue enfrentar a perspectiva de
vender, pai, pode haver outra forma de contornar o problema.
Ele se animou.
– Pensou em alguma coisa?
– Não pode pagar um aluguel mais alto pelo chalé? – Sophie se animou.
– Se não pode ser sensata, cale a boca, pelo amor de Deus! – Julia estava
realmente irritada. – Só para registrar, quanto você paga, Harriet?
Aubrey ficou ruborizado de novo, quando Harriet revelou o valor do
aluguel.
– Sei que é demais…
– Demais mesmo! – Julia ficou ainda mais indignada. – Ninguém pagaria
tanto para viver naquele lugar… Não que você não o tenha transformado numa
casinha encantadora, Harriet, e sei que foi a sua custa. Mas sabe que poderia
alugar um apartamento na cidade por esse valor.
– Então, por que fica aqui? – Sophie era sempre a criança mimada.
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Jessica 199.1 – Sedução Perigosa – Catherine George

– Porque preciso cuidar da River House e impedir que deixe de pertencer à


família. Quando me formei, ofereci meus serviços profissionais de graça ao
papai, o que significa que faço toda a contabilidade, cuido para que as contas
sejam pagas em dia e converso sempre com Ed Haines sobre a manutenção
básica da casa. Mas se alguma coisa não for feita logo, não haverá mais
dinheiro nem para isso. Terá que despedir Margaret Rogers, pai, fazer todo o
serviço doméstico e cuidar dos jardins. E vender o carro novo – acrescentou
impiedosa.
O pai ficou pálido.
– Então, o que sugere? – Havia uma humildade incomum na postura e na
voz.
– Charlotte Brewster, minha cliente, tem uma agência imobiliária e
trabalha com pessoas que alugam suas casas como cenários para filmes,
festas, fotos, comerciais e por aí vai.
– Está sugerindo que alugue minha casa para uma equipe de filmagem?
– Se eles acharem a casa adequada, sim.
Os olhos de Sophie brilharam.
– Oh, que excitante!
– Na verdade, é uma ideia brilhante. – Havia respeito na voz de Julia. –
Pode cobrar o que quiser por um dia de filmagem. E posso ajudar mandar meu
pessoal fazer fotos aqui, encontrar também outros interessados.
– Ótima ideia. – Harriet se virou para o pai. – Uma alternativa é você se
hospedar com Miriam e alugar a casa no verão.
– Deus me livre! Miriam e eu nos mataríamos em poucos dias.
– Então não tem escolha. Posso alugar um quarto enquanto a casa estiver
sendo usada e você se muda para o chalé, pai.
Julia acenou pensativa.
– Só os jardins valem uma fortuna em aluguel. Estilistas ficarão
entusiasmados com este lugar… Modelos fotografadas entre as trepadeiras de
glicínias na varanda ou no terraço do meu quarto.
Harriet olhou para o pai.
– Então, o que diz?
A boca do pai se contorceu.
– Você já decidiu por mim.
– Devemos votar? – perguntou Harriet.
– Desnecessário. Temos uma maioria de três a um. – Julia se mostrou
firme.
– Oh, está bem, vou tornar a decisão unânime, mas com uma condição.
Você fica no chalé quando estas pessoas invadirem a casa, Harriet. Encontrarei
um lugar na cidade. E agora, Sophie – o tom de voz mudou –, sugiro que ajude
Julia a tirar a mesa e a encher a máquina de lavar pratos. – Virou-se para
Harriet. – Acha mesmo que vai funcionar?
– Tem que funcionar, o telhado precisa de reparos urgentes. Já conversei
com Ed.
– Por que não comigo?
– Porque você se finge de cego para o que não quer ver!
Ele suspirou.
– Você mudou tanto, Harriet.
– Há muito tempo. Você apenas não percebeu.
– Percebo mais do que pensa, inclusive o motivo por que se recusa a viver
comigo.

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Harriet ficou calada e apenas a volta das irmãs rompeu o silêncio tenso.
Logo depois, Sophie pegou o carro para voltar para casa e Harriet se retirou
agradecida, para seu chalé, sem mencionar que já havia alguém interessado
em alugar a River House para um projeto. Pareceu-lhe melhor deixar o pai se
acostumar à ideia.
Mas em vez de se concentrar numa solução adequada para o problema
das finanças da River House, a mente de Harriet se voltou para o passado
depois que se deitou. Durante anos se treinara para esquecer que James
Crawford existia, mas encontrar com ele lhe despertara as lembranças daquele
verão idílico com tanta clareza que seria impossível dormir.
Aos 15 anos, Harriet pedira ao pai para ficar com o chalé, então vazio,
para estudar em paz. Em troca, prometera cuidar dele. Estava à escrivaninha
numa quente manhã de verão alguns anos mais tarde, quando o computador
parou de funcionar. Um telefonema frenético para uma empresa de
manutenção de computadores foi respondido rapidamente e brilhantes olhos
cor de avelã se iluminaram ao vê-la.
– Oi, sou da Combe Computers. – A voz grave lhe arrepiou a espinha.
Harriet sorriu tímida, e o levou à pequena sala de estar que transformara
em estúdio. Indicou o computador sobre a escrivaninha.
– Pode cuidar dele?
– Farei o melhor que puder senhorita Wilde.
– Harriet.
– James. – Sorriu. – James Crawford.
Ela se enroscou no assento da janela e o observou trabalhar,
impressionada com a habilidade com que ele abria a máquina.
– É a placa-mãe – anunciou logo depois, e abriu a pasta. – Vou instalar
uma nova. Não vai demorar.
Ele tinha razão. Cedo demais para Harriet, o computador funcionava de
novo e James Crawford se preparava para sair.
– Nem sei como lhe agradecer. – A voz era calorosa enquanto o levava à
porta. – Estava arrancando os cabelos antes de você chegar.
– Um crime, com cabelos tão lindos! – Sorriu para ela na pequena
varanda. – Estuda à noite também?
– De vez em quando.
– Que tal tirar uma folga e tomar uma bebida comigo esta noite?
– Está bem – aceitou imediatamente.
O sorriso dele lhe transformou o cérebro numa polpa.
– Gosto de uma mulher que sabe o que quer. Virei buscá-la às sete.
– Não, obrigada, encontro você. Onde?
A partir daquela primeira noite, num pequeno pub distante da cidade, o
que lhes proporcionava privacidade, descobriram uma ligação profunda. Sem
que ninguém soubesse, passaram cada momento possível na companhia um
do outro. Se alguém perguntasse aonde ia, Harriet mentia
desavergonhadamente. Dizia que ia ver Anne, uma amiga que se tornara sua
cúmplice voluntária.
Quando se aproximou o momento de Harriet voltar para o segundo ano na
universidade, a perspectiva de se separarem foi tão dolorosa que James teve a
ideia de dividir um apartamento com ela perto da faculdade pela duração do
curso.
– Posso trabalhar como autônomo e continuar a atender os chamados da
empresa – garantira. – Mas o mais importante de tudo é que poderemos ficar
juntos.
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Harriet concordara feliz, disposta a desafiar o pai para viver com o homem
que amava, mas, no fim, as ameaças de Audrey Wilde de arruinar a carreira e a
vida de James Crawford mataram seu plano de felicidade.

Capítulo Dois

HARRIET ACORDOU na manhã seguinte com olheiras e precisou se


maquiar cuidadosamente para enfrentar o dia. Para sua surpresa, Julia chegou
quando estava prestes a sair para o trabalho.
– Pensei que fosse dormir até tarde!
Julia acenou mal-humorada.
– Eu também, mas meu relógio biológico ainda está no tempo de Londres.
E queria falar com você antes de sair. Charlotte Brewster já tem alguém em
mente para alugar a River House? Conheço você, garota cautelosa, e sei que
não teria sido tão firme se não fosse assim.
– Tem razão. Ela marcou uma reunião do primeiro candidato comigo esta
manhã. Um homem que quer a casa para uma festa. – Olhou o relógio de
pulso. – Melhor sair logo. Telefono à noite para contar tudo.
– Então vou ser nobre e manter Sophie quieta. Suponho que sabe por que
é tão desagradável com você.
– Tem ciúmes do meu suposto relacionamento com papai.
– Ela não sabe de nada, não é? Então, por que fica?
– Pouco antes do… Do fim, prometi à mamãe que ajudaria o papai a cuidar
da River House.
Julia balançou a cabeça em desaprovação.
– Deixe-o cuidar de tudo sozinho. Também amo isto aqui, mas precisa mais
da vida do que de uma casa, Harriet! Mamãe seria a primeira a concordar
comigo.
– Tenho uma vida social normal – defendeu-se Harriet.
– Ah, mas alguma vez passa uma noite com os homens com quem sai?
Duvido que convide alguém para vir aqui!
– Pelo amor de Deus, Julia, é cedo demais para esse tipo de conversa… E
preciso sair.
Julia parou à porta.
– Siga meu conselho… Se entrar dinheiro com esse plano, separe uma
parte e o deposite numa conta comercial para a casa. Senão papai vai voltar a
jogar na bolsa e ficaremos de novo em apuros.
– É o que pretendo fazer – garantiu Harriet. – Quando lhe der a boa notícia,
posso dizer que tenho seu apoio?
– Com certeza. E boa sorte.
Harriet chegou ao prédio de escritórios na Broad Street pontualmente.
Cumprimentou Lydia, a antiga recepcionista, e se dirigiu para o pequeno
escritório que tinha apenas uma janela, mas que se debruçava sobre os jardins,
uma vista que compensava a falta de espaço. Enquanto olhava para fora, se

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Jessica 199.1 – Sedução Perigosa – Catherine George

preparando para seu pequeno ritual de paz antes de começar o trabalho, o


novo trainer entrou para perguntar se queria café.
– Agora não, obrigada, Simon. – Harriet sorriu para ele. – Traga durante
meu compromisso das 9h30. Diga a Lydia para avisá-lo no momento em que
ele chegar, assim o trará ao meu escritório com a devida pompa.
– Certo. Você está muito bem. Novo terninho?
– Novo para você. Agora, fora daqui e me deixe trabalhar.
Harriet trabalhou sem descanso por uma hora, tirou um breve intervalo e
estava de volta à escrivaninha, absorvida de novo com o trabalho, quando
Simon bateu e fez entrar o cliente.
– Seu compromisso das 9h30, senhorita Wilde – anunciou.
Harriet se levantou e, de repente, todo o ar desapareceu dos pulmões
quando James Crawford, elegante num terno escuro, entrou e dominou o
ambiente com a força de sua personalidade. Agora que tinha tempo de olhar
bem, podia ver que estava mais duro, mais velho e mais frio. Parecia-se muito
pouco com o homem por quem se apaixonara.
– Bom dia, Harriet. – Estendeu a mão. – Ontem não tive tempo de
mencionar que nos encontraríamos hoje oficialmente.
Ou ele queria lhe fazer uma péssima surpresa.
– Bom dia. – Harriet conseguiu esconder o choque e apertou a mão forte e
esguia. Ignorou o calor que o breve contato lhe causou e sorriu, educada. – Isto
é uma surpresa. Charlotte Brewster me disse que havia um possível cliente
para alugar a River House, mas se esqueceu de me dar um nome.
James se sentou diante da escrivaninha. Parecia tão relaxado que Harriet
quis bater nele.
– Ela não esqueceu, eu pedi para ficar anônimo.
– Por quê?
Os olhos dele brilharam zombeteiros.
– No caso de você se recusar a me receber.
– Por que eu faria uma coisa dessas? – Estava determinada a ser
agradável.
Simon entrou com uma bandeja de café.
– Chame se precisar de alguma coisa, senhorita Wilde.
– Obrigada, Simon.
Harriet serviu o café para os dois e se obrigou a tomar o dela lentamente.
– Aos negócios. – James descansou a xícara na bandeja. – Encontrei a
senhora Brewster numa festa, comentei com ela que gosto de manter meus
funcionários felizes e que estava à procura de um lugar diferente para fazer
uma festa para eles. Imagine minha surpresa quando ela sugeriu a River
House!
Podia imaginar.
– Que tipo de empresa é a sua?
– Fornecemos banda larga e linhas telefônicas para escritórios e lojas. –
Sorriu. – Melhorei muito desde a época em que fui chamado para consertar seu
computador. A história comum de passar dos trapos para a riqueza, de acordo
com a imprensa.
– Parabéns. Temo não ter lido nada a respeito. – Manteve o sorriso grudado
no rosto. – Então o que, exatamente, tem em mente em relação à River House?
– Além de humilhar Harriet Wilde ao alugar a casa dela.
Ele se recostou ainda irritantemente relaxado.
– Quero dar uma festa para celebrar a recente expansão do Live Wires
Group. Há pouco tempo comprei duas pequenas empresas que estavam com
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Jessica 199.1 – Sedução Perigosa – Catherine George

problemas. A festa é para dar boas-vindas aos novos funcionários, que se


juntarão aos meus e, ao mesmo tempo, recompensar os antigos por seus
esforços. Poderia usar um hotel, é claro, mas gostei da ideia de uma casa de
família como cenário. – Especialmente a casa dos Wilde.
– A River House não tem quartos para abrigar muitas pessoas à noite –
advertiu Harriet, a mente em tumulto sob o comportamento profissional.
– Não é minha intenção. O transporte será providenciado para a chegada e
a partida no mesmo dia. Lembro-me de um terraço que leva a um grande
gramado, assim uma marquise parece uma boa ideia, com bebidas no terraço
antes, se o clima for bom. Há instalações para um estacionamento?
– Há um padoque que usamos para o casamento da minha irmã. Seus
fornecedores de alimentos precisarão usar a cozinha? – Harriet começou a ter
dúvidas sobre a ideia de alugar a casa para qualquer um, especialmente para
James Crawford.
– A empresa que vou contratar leva a própria cozinha. E tudo será
instalado longe da casa. Não haverá invasão da sua privacidade.
– Não faz diferença para mim. Não vivo nela.
Os olhos entrecerraram.
– Mora na cidade?
– Não. Talvez se lembre do chalé na River House? Vivo lá há muito tempo.
É claro que se lembrava do chalé! Mas James fingiu tentar se lembrar.
– Compreendo.
Mas não compreendia. Aquela mulher tão controlada, de terninho e
cabelos num coque severo, era muito diferente da garota calorosa e amorosa
de quem se lembrava. Mas então, quando pressionada, aquela garota não se
importara com ele, não a ponto de desistir de seu estilo de vida na River
House. E por isso seria eternamente grato. A dor e a humilhação que ela lhe
infligira despertaram a ambição de fazer de sua vida um sucesso. Agora, James
Crawford era bom para qualquer um, inclusive para a filha de Aubrey Wilde. Foi
um choque saber que ela se mudara da River House, mas o pai ainda vivia lá e
isso bastava.
– Precisarei examinar a casa numa hora conveniente para você e seu pai,
é claro.
É claro. Harriet esperava por aquilo desde que ele lhe virara a vida de
cabeça para baixo.
– Estou hospedado aqui com minha irmã e ficarei alguns dias. Assim,
qualquer dia entre hoje e domingo será adequado para mim.
– Talvez possa ligar para você mais tarde, depois de conversar com meu
pai.
– Tudo bem. – James se levantou e lhe estendeu um cartão. – Poderá me
encontrar em qualquer destes números. Adeus, senhorita Wilde.
Saiu do escritório e desceu o corredor, sorrindo para a recepcionista ao se
despedir. Na rua, sob a luz brilhante do sol, respirou profundamente,
desfrutando da maravilhosa satisfação daquele momento. Levara muito tempo
e trabalhara muito para ter sucesso financeiro. George Lassiter, seu amigo e
antigo patrão, lhe contara num almoço recente que as finanças de Aubrey
Wilde estavam péssimas e os olhos de James brilharam frios. Deviam ter
chegado a uma crise séria se Wilde estava disposto a alugar a casa para o
homem que uma vez considerara inadequado para transpor seus sagrados
umbrais.

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Jessica 199.1 – Sedução Perigosa – Catherine George

ASSIM QUE ouviu a porta da rua se fechar, Harriet ligou para Charlotte
Brewster.
– James me pediu para manter o nome dele em sigilo para surpreendê-la –
informou Charlotte. – Você o conhece bem?
– Quando eu era estudante, ele foi ao chalé consertar meu computador.
Mas antes de deixar James Crawford examinar a River House, senhora
Brewster, preciso saber o quanto está disposto a pagar pelo privilégio.
Charlotte riu.
– Você falou igualzinho a Julia! Soube que ela é editora de uma dessas
revistas de moda de luxo. Ela se casou?
– Ainda não.
– E você também não… Embora não seja difícil adivinhar quem é o amor
de sua vida! – Harriet congelou. – É evidente que a River House significa tudo
para você. Mas aceite meu conselho: não desperdice seu amor numa pilha de
tijolos e argamassa. Um homem não é uma coisa ruim para se ter na vida,
sabe.
– Embora o assunto seja fascinante, Charlotte, vamos aos negócios.
Quanto o senhor Crawford pagará pelo aluguel da River House?

HARRIET VOLTOU para casa num humor muito diferente do da noite


anterior. Com apenas um detalhe que manteria em segredo, tinha boas notícias
para o pai. Quando chegou ao chalé, tinha até mesmo se recuperado do
choque de ter James Crawford como o primeiro inquilino da casa, e jantou
sozinha para celebrar. Quando foi a casa, o pai estava na cozinha esperando
por ela.
– Então? – Estava ansioso. – Julia me disse que encontraria a mulher
Brewster hoje. Tem boas notícias?
– Sim. Vamos tomar um café no estúdio e conversar.
– Já fiz café para você. – Foi uma surpresa; ele nunca fazia nada para
ninguém.
Depois de instalados no estúdio, Harriet lhe informou que a reunião fora
com o próprio cliente e lhe disse o quanto ele estava disposto a pagar pelo
aluguel da River House para dar uma festa para seus funcionários.
– Mas é agora que vou jogar água fria em seu entusiasmo, pai.
Ele estava pensando no aluguel exorbitante, tão maravilhado que
demorou a registrar o comentário dela.
– É? O que é?
– Para fazer com que isso funcione apenas parte do dinheiro será
depositado na sua conta pessoal. O resto irá para uma conta comercial e
apenas eu poderei movimentá-la para a manutenção da River House. Julia
concorda comigo.
Os olhos de Harriet prenderam os dele e Aubrey Wilde acenou, derrotado.
– O que você quiser. Mas é uma tristeza quando filhas não confiam no pai.
Não sem motivo, pensou Harriet.
– Charlotte Brewster me disse que há muitas outras possibilidades de
aluguel da River House, assim nosso plano tem tudo para dar certo. Com a
condição – enfatizou – de que a casa e os jardins sejam mantidos impecáveis
para atrair futuros clientes.
Aubrey sorriu triste.
– Qualquer coisa que quiser. Assinarei na linha pontilhada… Depois de ter
lido as letras minúsculas, é claro. Mas teria sido muito embaraçoso se ainda
estivesse trabalhando no banco.
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Jessica 199.1 – Sedução Perigosa – Catherine George

– Você sabe que faz todo sentido uma conta comercial. – Harriet observou-
o atentamente enquanto ele assinava os documentos. – E acabo de me
lembrar, o cliente quer ver a casa e os jardins o mais depressa possível. Quer
estar aqui quando ele vier?
Ele ergueu a cabeça, irritado.
– É claro que quero! Maldição, garota, é o meu lar! Apenas se certifique de
que estará aqui também.
– Como quiser. Não quero faltar ao trabalho, assim sugiro o sábado, e
pedirei que Will dedique tempo extra ao jardim antes. A previsão do tempo é
boa, felizmente.
Ele acenou, aborrecido.
– Então é sábado. Tenho um jogo de golfe marcado, mas vou cancelar.
– Bom. Vou pedir ao cliente para vir às dez.
– Quem é ele, por falar nisto?
– Presidente do Live Wires Group.
– Nunca ouvi falar. Mas deve ser um sucesso, se está preparado para
gastar tanto numa festa para os funcionários. E é melhor avisar à senhora
Rogers, Harriet.
– Não vai atrapalhá-la em nada. Margaret mantém toda a casa impecável
e a cozinha não será usada pelo pessoal que trará a alimentação.
– As pessoas vão se espalhar por toda a casa?
– Não dessa vez. Haverá uma marquise no gramado. Provavelmente
parecida com a que mandou erguer para o casamento de Sophie.
– Então não haverá muita interferência. E, se é tudo, preciso sair.
– Alegre-se, pai, é melhor do que vender a casa.
– Por Deus, tem razão – entusiasmou-se e lhe apertou a mão. – Você é uma
boa menina, Harriet.
Ela afastou a mão.
– Boa noite, pai.

HARRIET VOLTOU ao chalé e ficou parada junto à janela, observando o


carro novo do pai descer até a estrada. Deixou uma mensagem para Julia
informando como havia sido a reunião, então se controlou para ligar para
James.
– Aqui é Harriet… Harriet Wilde.
– Não esqueci seu nome. Então, quando vamos nos encontrar?
– Sábado está bem para você?
– Está ótimo para ver a casa, mas preciso falar com você antes, Harriet.
Ou devo continuar a chamá-la de senhorita Wilde?
– Você decide. Por que quer me ver?
– Há alguns pontos que gostaria de esclarecer antes de me encontrar com
seu pai.
Ele está cheio de dinheiro, lembrou Harriet a si mesma.
– Quando quer ir ao meu escritório?
– Quis dizer um encontro particular. Um jantar amanhã.
Harriet quase deixou o telefone cair.
– É absolutamente necessário?
– Imperativo. Mas não se preocupe – acrescentou sarcástico –, não a estou
convidando para um jantar à deux. Estou hospedado na casa da minha irmã,
Moira. O convite é dela.
– Que gentileza.
– Então você virá?
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Jessica 199.1 – Sedução Perigosa – Catherine George

Pense no dinheiro, repetiu a si mesma como um mantra silencioso.


– Onde é a casa de sua irmã?
– O marido dela comprou a Old Rectory no Wood End. Eu a pegarei às
7h30.
– Não… Obrigada. – Foi rápida na recusa. – Sei onde é.
Harriet se sentiu desconcertada. James dificilmente poderia pretender
aborrecê-la com o passado à mesa de jantar da irmã. Alugar a River House
certamente seria toda a vingança de que precisaria. Mas por uma fração de
segundo, no escritório, teve a impressão de que estava pronto a mudar de
ideia quando soubera que ela não morava mais na casa. Certamente teria
desistido naquele momento e não pediria à irmã para convidá-la para jantar.
Sabia que Moira Crawford ocupara a posição dos pais para James e o irmão
depois que eles morreram e fizera um bom trabalho, a julgar pelo afeto que
demonstrava quando falava sobre ela. Era uma surpresa saber que agora vivia
na cidade.
James mudara completamente, pensou deprimida. Não era mais o homem
encantador por quem se apaixonara. A voz que a deixava de joelhos moles era
dura e áspera, os cabelos, mais disciplinados, e o corpo magro ganhara
músculos. Suas roupas agora eram impecáveis, como era de se esperar de um
magnata. A maior diferença, porém, era na personalidade. Havia adorado seu
sorriso no passado, mas agora não havia mais sinais dele. A ambição
necessária para construir uma empresa de informática bem-sucedida
claramente não deixara lugar para o charme.
Harriet saiu do trabalho a tempo de se preparar para o duelo com o cliente
que uma vez fora seu namorado. Mas nunca seu amante. Sabendo que seria o
primeiro, ele aceitara seu pedido para esperar até se mudarem para um
apartamento e viverem juntos. O que, pensando bem, teria sido uma receita
para o fracasso. Com James partilhando sua cama, teria sido praticamente
impossível sair para as aulas. Mesmo assim, se ela tivesse sido o único alvo da
raiva do pai, teria teimado e o desafiado. A ameaça de mandar prender James
a derrotara.
Harriet deixou de lado os pensamentos sobre o passado enquanto lidava
com seus cabelos exuberantes, que não eram nem escuros como os de Julia
nem louros como os de Sophie, mas num tom intermediário. Quando presos no
coque que usava para o trabalho, ficavam escuros, mas agora, recém-lavados
e soltos nos ombros, eram brilhantes e mais claros e lhe transformavam a
aparência.
Mas era apenas uma questão de bom senso enfrentar James com a melhor
arma do seu arsenal. Entrou no justo vestido preto, colocou os brincos de ouro
com gotas de cristal e, ao abrir a porta para sair, viu o pai se aproximando.
– Ah – pareceu aborrecido –, você vai sair. A senhora Rogers deixou comida
demais e esperava que pudesse se juntar a mim para o jantar pelo menos
dessa vez.
– Desculpe pai. – Era apenas polida. – Vou jantar com amigos.
Era uma clara demonstração do frio relacionamento entre eles o fato de
Aubrey nem mesmo perguntar quem eram.
– Então deixamos para outra vez, Harriet. Divirta-se.

A OLD Rectory, no Wood End, era uma casa do século XVIII, quando as
famílias dos vigários geralmente eram grandes. Os olhos de Harriet
entrecerraram enquanto ela dirigia pelo caminho ladeado por árvores. Parecia

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Jessica 199.1 – Sedução Perigosa – Catherine George

ter um tamanho bom para uma festa. O coração perdeu uma batida quando viu
James surgir enquanto estacionava no círculo diante da porta principal.
Ele saiu para ajudá-la a descer do carro, parecendo mais com o jovem que
ela uma vez conhecera do que com o magnata bem-sucedido em que se
transformara. As roupas casuais lhe deram um momento de incerteza ao
pensar sobre o próprio vestido, até ver que o suéter era de cashmere e que o
jeans que vestia as pernas longas era evidentemente de grife.
– Boa noite, Harriet. – Os olhos estavam presos nos cabelos dela.
Harriet sorriu serena.
– Oi. – Olhou para a fachada enquanto o seguia até a porta. – Que casa
adorável!
Uma mulher se aproximava e ele se virou para ela.
– Minha irmã – informou James. – Moira, está é Harriet Wilde.
– Bem-vinda Harriet! – Moira sorriu, calorosa, enquanto pegava o pequeno
buquê de flores que a convidada lhe oferecia. – Que adorável obrigada! Vamos,
entre. Estamos todos aqui. Meu marido lhe dará uma bebida enquanto cuido
das flores.
Todos? Harriet seguiu a anfitriã por um corredor largo que levava a uma
estufa debruçada sobre o jardim dos fundos. Um homem grande e sorridente
se levantou, seguido por duas mulheres jovens, uma loura com curvas
opulentas e cabelos longos e lisos, a outra uma morena menos espetacular.
– Marcus Graveney – apresentou-se o anfitrião, apertando-lhe a mão. –
Estas são minhas irmãs de criação, Claudia e Lily.
– Oi – disse a loura e mal-humorada Claudia, sem entusiasmo.
Lily compensou sua frieza com um cumprimento caloroso. Marcus serviu
para Harriet a água tônica que ela escolheu e a levou para uma das
confortáveis poltronas de vime.
– James disse que você nasceu e mora aqui.
– Sim, sou contadora da Barlow & Greer.
Claudia fez uma pequena careta.
– Não é terrivelmente enfadonho?
– Seria para você. – O tom de James era indulgente.
– Um relacionamento mais próximo com números não lhe faria mal
nenhum, garota, enfadonho ou não – comentou o irmão.
– Gosta do seu trabalho? – perguntou delicadamente Lily.
– Sim. – Harriet dizia a verdade. – É um escritório muito ocupado e
conheço muitas pessoas interessantes.
– Foi gentil de a sua parte tirar algum tempo para vir aqui. – James se
sentou ao lado de Claudia.
– Janto muitas vezes com clientes como parte do trabalho – garantiu
Harriet.
– Mas não vai conversar sobre negócios no jantar, vai, James? – Claudia fez
beicinho.
– Não durante o jantar. – Passou um braço pela cintura dela. – Depois vou
lhe pedir o estúdio emprestado, Marcus. Harriet e eu poderemos conversar lá
sem entediar suas irmãs.
Moira Graveney era excelente cozinheira, e em outras circunstâncias
Harriet teria gostado da refeição e da conversa agradável, durante a qual
descobriu que Marcus havia recentemente se juntado a um escritório de
advocacia vizinho da firma dela na Broad Street. Mas com o braço de James
roçando o dela de vez em quando e as ondas de hostilidade provenientes de

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Jessica 199.1 – Sedução Perigosa – Catherine George

Claudia a atingindo, foi um alívio quando Moira finalmente sugeriu que fossem
para a estufa para tomar café.
– Harriet e eu tomaremos o nosso no estúdio, querida – disse James à
irmã.
– Obrigada por uma refeição deliciosa, senhora Graveney. – Harriet estava
surpreendida ao perceber uma expressão de simpatia nos olhos cor de avelã
de Moira.
– Por favor, me chame de Moira. Mas você não estava com muita fome,
estava?
– Fazendo dieta? – A voz de Claudia era doce, mas o sarcasmo também era
evidente.
– Não, apenas um pouco cansada.
– Ao contrário de algumas pessoas preguiçosas, Harriet trabalhou duro o
dia todo. – As palavras de Lily eram típicas de uma irmã. – E é você que está de
dieta… Mas não que esteja funcionando.
– Ora, garotas, vamos parar. – Marcus se virou para o cunhado. – E, você,
vá em frente, James. Mandarei café para vocês.
James levou Harriet para um escritório com painéis de madeira até a
metade da parede, um aposento muito masculino.
– Este é o refúgio de Marcus, onde no passado sermões eram escritos.
Quando decidiram comprar a casa, o estúdio foi à prioridade dele, e o de Moira,
o grande jardim, que nunca tivemos quando éramos jovens.
Harriet se sentou numa confortável poltrona de couro e foi diretamente ao
ponto.
– Então me trouxe aqui para me fazer um sermão, James?
Ele ergueu uma das mãos e foi até a porta para deixar Claudia entrar. Ela
carregava uma bandeja.
– Obrigado, querida.
Ela estendeu a mão e bateu os dedos de unhas longas e vermelhas no
rosto dele.
– Não demore.
Harriet sorriu em agradecimento quando James lhe entregou uma xícara
de café.
– Obrigada. Sobre o que quer conversar?
Ele se sentou atrás da escrivaninha, os olhos presos nos dela.
– Sem sermão, mas quero informações antes de encontrar seu pai… Pela
primeira vez, por falar nisto, embora ele tenha tentado fazer com que eu fosse
demitido da Combe Computers. Ele sabe com quem está fazendo negócios?
Harriet ergueu uma sobrancelha.
– Tentado?
– George Lassiter não me demitiu na ocasião, Harriet. Apenas me
transferiu para sua filial de Newcastle, o que me levou para longe de você,
como seu pai queria, mas me manteve na folha de pagamento da empresa.
George até mesmo me deu um aumento. Eu era muito bom no meu trabalho,
lembre-se. Ou esqueceu?
– Não. Não esqueci. – De nada. Olhou para ele com firmeza. – Não disse a
meu pai quem você é, apenas que é um cliente que vai pagar um bom dinheiro
pelo aluguel da River House para uma festa.
Olhou-a com expressão severa.
– Então, quando me apresentar, ele pode cancelar tudo!
– Não. Está tudo assinado e selado, não pode desistir.

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Jessica 199.1 – Sedução Perigosa – Catherine George

– Quando a senhora Brewster sugeriu a River House como um local para


minha festa, pensei estar sonhando. – O sorriso de James a fez se arrepiar. –
Era bom demais para deixar escapar.
– Para se vingar?
– O que mais? No entanto, você não vive mais na casa. O que diabos está
fazendo no chalé?
– Queria um lugar meu.
– Posso compreender, mas, se era esse seu objetivo, por que não viver na
cidade? Ou não suportou a ideia de ficar tão longe do papai? – Quando ela não
respondeu, observou-a, curioso. – Pensei que já estivesse casada.
– Pensei o mesmo sobre você.
– Depois da maneira como me dispensou, senhorita Wilde, desisti de
relacionamentos e me concentrei nas coisas realmente importantes da vida –
sucesso e dinheiro.
– Com resultados espetaculares. Dou-lhe os parabéns. – Levantou-se. – Se
é tudo, vou para casa agora e você pode voltar para Claudia.
Ele riu.
– Ela tem um ciúme dos diabos de você, Harriet.
A expressão dela ficou vazia.
– Mesmo? Por quê?
– Contei-lhe que tivemos um flerte muito tempo atrás.
– Um flerte? – Havia desagrado na expressão da voz.
Ele ergueu uma sobrancelha desdenhosa.
– Como mais descreveria uma coisa tão sem importância?
Ela abaixou os olhos.
– Nunca pensei dessa maneira.
– Estou surpreendido por ter até mesmo pensado!
– Está? – Olhou para o relógio de pulso. – Preciso mesmo partir. Está bem
para você às dez da manhã de sábado?
– Perfeito. – Abriu a porta.
Ela sentiu cheiro de sabonete ao passar por ele. E de alguma coisa mais,
que era tão familiar e tão unicamente James que se sentiu tonta.
– Ei, está se sentindo bem?
Ela forçou um sorriso.
– Café demais e trabalho demais.
– Está branca como um lençol. – A voz se tornou áspera. – Permita-me
levá-la para casa. Amanhã lhe mandarei o carro.
– Não! Por favor, estou bem. Apenas preciso ir para a cama. – E, se Deus
quiser, conseguir dormir.
James observou-a com atenção enquanto se dirigiam para a estufa.
– É evidente que trabalha demais. Nada de novo; sempre trabalhou,
mesmo quando adolescente.
Moira se levantou sorridente.
– Não demoraram.
– Missão cumprida. – Harriet sorriu. – Foi um prazer tão grande conhecê-la.
Obrigada de novo pelo jantar delicioso!
– Certamente não vai embora tão cedo! Nem tive a oportunidade de
conversar com você!
Marcus se aproximou.
– Parece que a firma exige muito de você, Harriet.
A expressão alegre de Claudia deixou claro que a considerava um
espantalho. Sorriu alegre.
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Jessica 199.1 – Sedução Perigosa – Catherine George

– É uma época de muito trabalho.


– Foi ótimo conhecê-la. Volte de novo, por favor. – Lily parecia sincera. –
Não conhecemos ninguém aqui.
– E provavelmente não conheceremos, num lugarejo como este – queixou-
se Claudia, com um olhar petulante para o irmão. – Tudo bem para vocês,
recém-casados, mas não é nada divertido para nós.
Marcus lançou-lhe um olhar zangado e passou um braço pelos ombros da
esposa.
– Como vocês, garotas de cidade, só nos visitam de vez em quando, não é
um problema.
Hora de partir, pensou Harriet. Já chega o que agüento da minha própria
família.
– Preciso mesmo ir. Obrigada de novo e boa noite.
– Vou levá-la até a porta.
Claudia se levantou depressa.
– Vou com você.
James negou com um gesto de cabeça.
– Preciso finalizar os arranjos com Harriet.
Ela se sentou e escondeu o rosto ruborizado de humilhação com os
cabelos louros.
– Por favor, volte a nos visitar logo – Moira disse em despedida.
– Mas certamente não quer voltar – comentou James, enquanto
acompanhava Harriet até o carro.
– Não, não quero. Gosto de sua irmã e do marido dela e também de Lily.
Mas Claudia claramente se ressente de mim por causa do “flerte” que você
mencionou. Porém, o motivo principal é você, James. É evidente que ainda tem
raiva de mim.
O rosto dele endureceu.
– Pode me culpar?
– Nem um pouco. – Harriet entrou no carro, ligou-o e abriu a janela. – Até
sábado.
– Até sábado. – Sorriu desdenhoso. – Estarei lá às dez. Estou ansioso para
conhecer seu pai.
Estremeceu com as palavras. Será que ele pretendia brigar com o pai
antes de cancelar a festa? A perspectiva a amedrontou. Agora sabia o motivo
do convite para jantar na Old Rectory. Quisera, talvez precisasse mostrar a ela
que agora tinha um ambiente familiar como o dela. E que era o objeto da
paixão da sexy Claudia.
Não precisava ter se incomodado. Harriet não duvidava que muitas
mulheres haviam se apaixonado por ele. Era muito atraente aos vinte e poucos
anos, mas agora, dez anos mais velho, era de tirar o fôlego.

Capítulo Três

19
Jessica 199.1 – Sedução Perigosa – Catherine George

AO SABER da novidade, Margaret Rogers, que conhecia bem a difícil


situação financeira da família Wilde, além de muitas outras coisas, se jogou
numa atividade frenética de limpeza e arrumação. Os móveis foram polidos e
brilhavam; o marido foi chamado para lavar as janelas por dentro e por fora. As
panelas de cobre acima da ilha no centro da cozinha estavam gloriosas, e
Aubrey Wilde decidiu comer fora até o sábado para manter a cozinha
impecável. Quando Harriet chegou a casa na noite de sexta-feira, Margaret a
levou para uma inspeção. A River House estava perfeita sob qualquer ponto de
vista, o hall e a sala de estar tomados pelo perfume dos arranjos de flores que
Margaret preparara.
– Tudo está maravilhoso. Trabalhou muito duro, Margaret. – Harriet se
sentiu profundamente grata.
Na varanda do quarto de Julia, pararam para observar os jardins, que
desciam até o rio que dava o nome a casa.
– Não sente falta de viver aqui, Harriet? – O tom de Margaret era gentil. –
Ainda me preocupa pensar em você sozinha naquele pequeno chalé.
– Gosto de lá.
– Mas certamente vai se casar um dia. Não pode dedicar sua vida a casa.
Sei que não me cabe dizer isso, mas não é natural que uma garota carregue
uma carga tão grande.
– Eu prometi.
– Eu sei. – Margaret sorriu triste. – Mesmo assim, sua mãe gostaria que
tivesse uma vida feliz. Não tenho a intenção de ofender.
– Eu sei. E obrigada por tudo, Margaret. Não sei como meu pai viveria sem
você.
– Não faço isso por ele, querida, eu também fiz uma promessa. E agora
preciso voltar para casa e fazer o jantar de John.
– Por favor, agradeça a ele por mim, ajudou muito. – E seria pago pelo
trabalho, mesmo que não quisesse.
O pai a fez parar quando saía.
– Como o magnata da internet quer uma marquise, vamos dar uma volta
pelo jardim.
As cercas vivas em torno dos gramados diante da casa estavam
começando a florescer. Harriet inspirou profundamente o perfume de grama
recém-cortada enquanto tentava ver os jardins com os olhos de um cliente.
– John fez um ótimo trabalho. Will disse que não teria conseguido sem ele.
– É um bom trabalhador. – Lançou um olhar enviesado para ela. – Precisa
receber o pagamento.
– É claro, agora que está aposentado precisa de dinheiro extra.
Passearam pelos quatro acres de jardim juntos, uma experiência nova
para os dois nos últimos anos. Quando voltaram, ele sugeriu que vissem a
casa, mas ela lhe disse que Margaret já a mostrara.
– Ela fez maravilhas, a casa parece perfeita.
– Mas não está. – O tom do pai era desanimado. – Só ficará se você voltar
a viver nela.
Ela balançou a cabeça.
– Não vai acontecer. Boa noite, pai.

NA MANHÃ seguinte, Harriet acordou com a sensação de uma nuvem


pesada sobre a cabeça e gemeu. No chuveiro, pensou, não pela primeira vez,
que a única tentação de voltar a viver na River House era a perspectiva de um
longo banho de banheira, que não tinha no chalé. Cuidou dos cabelos,
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Jessica 199.1 – Sedução Perigosa – Catherine George

amarrou-os num rabo de cavalo de cachos úmidos, vestiu uma camiseta


branca e jeans e tomou o desjejum. Não conseguia se livrar da sensação de
que James pretendia romper o contrato depois de inspecionar a River House.
Felizmente ainda não sabia que o pai uma vez ameaçara mandar prendê-lo.
Harriet caminhou para a casa pouco antes das dez e encontrou o pai
andando pelo terraço, muito arrumado e visivelmente tenso.
– Bom dia. – Ele sorriu cauteloso. – Você parece muito jovem e bonita hoje.
– Obrigada. Você também está com ótima aparência. – O pai sempre tivera
um bom guarda-roupa. – Felizmente a previsão do tempo foi correta. Os jardins
estão fabulosos ao sol. Will trabalhou muito mesmo. – Ficou tensa ao ouvir o
som do motor de um carro. – Nosso cliente chegou.
Harriet e o pai esperaram no alto da escadaria, ambos muito tensos.
Quando James saiu de um conversível negro, usando roupas parecidas com as
dela, ela viu o pai relaxar e desejou que pudesse fazer a mesma coisa.
– Parece um cara decente… Aquele carro é um Aston Martin. – A voz era
baixa, e Harriet ficou rígida de medo enquanto James subia a escada em
direção a eles.
– Bom dia. – O pai sorriu amigavelmente. – Bem-vindo à River House. Sou
Aubrey Wilde.
– James Crawford. – James sorriu de volta, o olhar fixo em Aubrey enquanto
apertavam as mãos. – Já conhecia sua filha, é claro. Bom dia, senhorita Wilde.
Ela se obrigou a sorrir.
– Bom dia. Não está um dia lindo? Devemos começar a visita pelos jardins
ou prefere ver a casa primeiro?
– Os jardins, por favor. Com sorte, o clima estará bom no dia da festa e
não teremos necessidade de invadir a casa.
– Não será uma invasão, Crawford – garantiu Aubrey. – Entre e conheça a
casa, Harriet o acompanhará. Então poderemos tomar um café antes de você
visitar os jardins.
Era evidente que o pai não fazia ideia de quem James era, mas também
era óbvio que aceitava bem alugar a River House para ele.
– Está bem assim para você? – perguntou ela a James.
– É claro. Será um prazer.
– Esplêndido. – Aubrey entrou na frente. – Vá à cozinha quando terminarem
e o café estará pronto.
– Se quiser vir por aqui, senhor Crawford. – Harriet o levou em direção à
sala de estar.
– Ele não tem ideia de quem sou, tem? – murmurou James, enquanto
entrava no salão ensolarado e mobiliado com algumas peças confortáveis e
modernas que faziam um contraste muito agradável com as pinturas e
antiguidades da família de Sarah Tolliver Wilde, a mãe dela.
– Quer que conte a ele?
– Não se causar problemas para você. – James observou o salão, o sorriso
triste. – Agora que vejo o lugar por dentro, entendo por que não conseguiu
abrir mão dele. Mas por que diabos vive no chalé?
– Motivos pessoais. Venha conhecer a sala de jantar. Papai insiste em
comer aqui quando não sai.
– Deus do céu! – James ficou atônito ao ver o grande salão e a mesa para
24 pessoas. – Você janta aqui com ele?
– Não.
Ele lhe observou o rosto virado para o outro lado.
– Você mudou Harriet.
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Jessica 199.1 – Sedução Perigosa – Catherine George

– Não é de surpreender, depois de tantos anos. Você me disse para


crescer, então cresci. Ao lado fica o estúdio de papai…
– Não precisamos ir lá.
– Então vamos subir.
– Não é necessário ver mais da casa. Vamos nos concentrar nos jardins.
– Como quiser. Vamos tomar o café antes.
Aubrey Wilde se mostrou muito amistoso quando chegaram à cozinha.
– Espero que não se importe em tomar o café aqui.
James observou as cadeiras estofadas em torno de uma grande mesa de
mogno num dos cantos, os armários de carvalho e as bancadas do outro e a
ilha com o fogão a gás e uma cobertura onde estavam penduradas panelas
brilhantes de cobre.
– Será um prazer. Gosta de cozinhar, senhor?
Aubrey riu, desconcertado.
– Não, lamento. Minha maravilhosa senhora Rogers é que cozinha. Está
com a família há anos.
Harriet serviu ao pai o café doce de que ele gostava, então olhou para
James educadamente.
– Como gosta do seu? – Sabia perfeitamente que James tomava o café
preto e sem açúcar. E o olhar dele lhe mostrou que estava consciente de que
ela sabia.
– Puro, por favor.
Os dois homens conversaram por alguns minutos, então James se
levantou.
– Se estiver pronto para a visita, senhor Wilde, estou com pouco tempo.
Aubrey também se levantou.
– É claro, é claro.
Harriet os imitou, decidida a não deixá-los juntos sozinhos.
– Se tiver um compromisso, pai, eu me encarrego de mostrar os jardins ao
senhor Crawford.
– Esplêndido. Você os conhece melhor do que eu. E não se esqueça do
padoque.
James agradeceu a ele, muito formal, então seguiu Harriet pela escadaria
em direção ao gramado principal. Ela suspirou, aliviada, quando ouviu o som
do motor do carro do pai. Parecia que James realmente manteria sua decisão
de alugar a River House para a festa. E o pai não fazia ideia de quem ele era
talvez porque apenas apagara sua rebeldia da mente. O pai era um
especialista em esquecer coisas desagradáveis.
Foi uma experiência estranha acompanhar James pelos extensos jardins
nos quais ele nunca pusera os pés. Durante o tempo que passaram juntos,
estivera tão decidida a manter seu relacionamento em segredo que sempre
fora ao encontro dele e nunca permitira que a levasse para casa. Sua visita ao
chalé para consertar seu computador havia sido o único momento em que
passara algum tempo na propriedade.
– É bem maior do que pensava – comentou James, enquanto cruzavam o
enorme gramado. – Não será problema instalar uma marquise aqui.
– Não. Meu pai saberia mais detalhes, mas…
– Mas você quis se livrar dele assim que foi possível, no caso de ele me
reconhecer e cancelar tudo. É assim tão importante para você, Harriet?
– Sim. – Ergueu o queixo, orgulhosa. – Precisamos de um telhado novo.
– E está disposta a receber meu dinheiro para pagar por ele.

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Jessica 199.1 – Sedução Perigosa – Catherine George

– Sim. – Não acrescentou mais nada e o acompanhou agora louca para que
ele partisse. Quando chegaram ao chalé, Harriet se virou para ele. – Já viu tudo
o que precisava?
– Não. Posso entrar?
– É claro. – O que mais poderia dizer? Abriu a porta e entrou à frente na
pequena sala de estar.
– Está muito diferente agora – comentou, olhando ao redor.
– Imprimi nele minha personalidade ao longo de anos.
– Anos? Há quanto tempo vive aqui?
– Eu o usava como estúdio quando era adolescente, se você se lembra,
mas desde que me formei o chalé se transformou no meu lar.
– Posso me sentar?
– É claro. Sente-se no sofá. – Harriet se enroscou no assento da janela.
– Você tinha uma escrivaninha aqui – observou James, depois de um longo
e desconfortável silêncio.
– Está no meu quarto agora. – Observou-o cautelosa. – Precisa de mais
alguma coisa?
– Sim, uma conversa. – James se recostou, irritantemente à vontade,
enquanto dominava a sala apenas sentado lá. – Quando me apresentei,
esperava ser expulso da propriedade. Foi um anticlímax descobrir que seu pai
não me conhece.
Harriet acenou.
– No passado, falei de você apenas uma vez, para dizer que moraríamos
juntos. E só me referi a você como James. – Franziu a testa. – Mas ele devia
saber o seu nome todo para conseguir que seu patrão o demitisse ou o
transferisse como acabou acontecendo.
– Ele apenas disse a George Lassiter para despedir o técnico que ousara
ter pretensões com a filha dele. George sabia quem havia vindo à River House
naquele dia, assim, talvez meu sobrenome nunca tenha sido revelado.
– Provavelmente tem razão. – Sorriu. – Mas estava bem tensa antes de
você chegar. – Por mais motivos do que ele sabia.
– Percebi. – James a observou pensativo. – Se não vive naquela casa
maravilhosa com seu pai, por que diabos continua aqui, Harriet? Não pode ser
lealdade filial porque até um estranho… O que não sou… Percebe que vocês
não são próximos.
– Adoro a casa.
– A casa onde se recusa a viver. Espera herdá-la um dia?
– Tenho duas irmãs – lembrou. – A propriedade será dividida entre nós. –
Levantou-se. – Quer uma bebida?
– Não, obrigado, preciso ir embora. – Levantou-se e a sala pareceu
encolher. – Foi bom vê-la de novo.
– Foi? Pensei que ainda guardava antigos ressentimentos.
– Não mais. Você era apenas uma menina quando rompemos e agora que
vi a River House compreendo por que não conseguiu deixá-la.
– Na verdade, não compreende. – Aproximou-se da porta.
– Então esclareça, por favor.
– Não há necessidade. Foi tudo há muito tempo. Você percorreu um longo
caminho desde então enquanto ainda estou aqui, onde nos conhecemos.
– E eu ainda quero saber o motivo. – Pela primeira vez desde o reencontro,
ele lhe deu aquele sorriso que uma vez a fizera se apaixonar tão
desesperadamente.
– Não é um grande mistério, mas não quero partilhá-lo.
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Jessica 199.1 – Sedução Perigosa – Catherine George

Com ninguém, muito menos com um homem poderoso e bem-sucedido


como James Crawford. A verdade era simples. O pai adorava viver na River
House, mas não gostava da responsabilidade de cuidar dela. Abriu mais a porta
quando James se aproximou e ficou ao lado dela. Encolheu-se quando ele
pegou uma mecha dos seus cabelos, puxou-a e deixou que o cacho se
enrolasse de novo.
– Sempre adorei fazer isso. Seus cabelos são a única coisa em você que
não mudou.
– Não é de surpreender. Era uma adolescente quando nos conhecemos,
James. Agora sou adulta e uma contadora. Uma profissão sem nenhum
charme… Como Claudia deixou claro.
Ele sorriu.
– Ela realmente a incomodou, não foi? – O sorriso desapareceu quando ela
se afastou dele.
– Antes de partir, James, me diga a verdade. Por que alugou a River
House?
– Sou um homem de negócios, Harriet. Encontrei Charlotte Brewster numa
festa, fiquei interessado na profissão dela e lhe disse o que queria. Ela sugeriu
sua casa como o local ideal e, por motivos óbvios, adorei a oportunidade. –
Olhou-a com desafio. – Mandarei convites para você e seu pai. Você irá? Ou se
esconderá durante a festa?
Alegre por ele não ter a intenção de cancelar tudo, ela sorriu.
– Obrigada pelo convite… Vou adorar participar.

JAMES SE afastou de carro, perdido em pensamentos. Seu motivo para


alugar a River House era simples. Era uma oportunidade de ouro de se vingar
dos Wilde pela forma como o haviam tratado tantos anos atrás. Sua intenção
original era depois que a festa terminasse garantir que Aubrey Wilde soubesse
quem lhe pagara tanto dinheiro pela casa e então desaparecer sem olhar para
trás. Mas encontrar Harriet de novo mudara tudo. Afetara-o muito vê-la toda
severa em sua persona de contadora, mas no momento em que a vira naquele
dia, de camiseta e jeans, os cabelos soltos e se parecendo tanto com a garota
que uma vez adorara, mudara de ideia. Com Moira vivendo ali, seria fácil
freqüentar o território de Harriet e ver como as coisas se desenvolviam.

Capítulo Quatro

NICK CORBETT era um morador relativamente recente da cidade. Desde


que substituíra Aubrey Wilde no banco, também adotara uma atitude
possessiva em relação à Harriet, que achava aquilo divertido e não se recusava
a se encontrar com ele ocasionalmente para um jantar. Seus cabelos louros e
brilhantes olhos azuis lhe davam uma enganadora aparência de juventude e,
junto com suas maneiras agradáveis e a condição de solteiro, logo se tornou
um grande favorito da sociedade.
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Jessica 199.1 – Sedução Perigosa – Catherine George

Harriet percebeu aquela noite, que, como de costume, era o objeto de


mais de um olhar invejoso enquanto ele a levava para o bar do Kings Head.
– Isso é bom – disse ele, depois que o garçom lhes levou as bebidas. –
Sempre me sinto tão relaxado em sua companhia, Harriet. O que não é de
surpreender. Herdei o emprego do seu pai, assim pode me considerar quase da
família.
– Um pouco de exagero. – Harriet riu.
– Você fica maravilhosamente diferente com os cabelos assim. – Debruçou-
se sobre ela. – Devia usá-lo solto com mais frequência.
– Não combina com minha figura de contadora.
Ele riu e se aproximou ainda mais para estudar o cardápio com ela.
– O que gostaria de comer?
– Praticamente qualquer coisa… Menos órgãos!
Ele riu alto e atraiu a atenção de muita gente.
– Concordo com você! E não olhe agora, mas há um sujeito no bar olhando
para nós. Seu amigo?
A alegria de Harriet desapareceu quando viu James no bar com Claudia.
Ele fez um aceno frio quando os olhos se encontraram e passou um braço em
torno da acompanhante para levá-la para uma mesa.
– Você o conhece?
– Sim.
A chegada do garçom distraiu Nick. Quando foram para o restaurante, ela
viu que toda a família Graveney jantava com James. Lily chamou a atenção de
Moira e Marcus e ambos acenaram sorrindo. Harriet acenou de volta e Claudia
se aproximou ainda mais de James, o sorriso frio.
– Apenas um conhecido? – murmurou Nick.
– Na verdade, ele é uma espécie de cliente. – Harriet se resignou e
explicou a conexão. O aluguel da River House para uma festa logo seria de
conhecimento geral.
– Então ele é James Crawford. – Nick estava impressionado. – Li muito
sobre ele recentemente… Uma bela história de sucesso. Mas por que está
usando sua casa para uma festa?
– Uma cliente minha sugeriu a ele como uma forma de dar uma festa
diferente.
– E seu pai concordou?
– Depois de muita persuasão. – Harriet sorriu. – E aqui está nosso jantar.
Pela terceira vez naquela semana Harriet não conseguiu desfrutar de uma
refeição que normalmente comeria com prazer. Era culpa de James, pensou
aborrecida, e então forçou um sorriso alegre quando os Graveney pararam à
sua mesa com James quando saíram. Harriet observou divertida enquanto Nick
flertava com Claudia e Lily, apertava as mãos do casal Graveney e, finalmente,
a de James Crawford, que só depois se virou para Harriet.
– Vou viajar amanhã, senhorita Wilde. Voltarei bem antes do grande dia.
Tem meus números de telefone, assim não hesite em ligar se tiver alguma
dúvida.
– É claro. – Harriet lhe dirigiu seu sorriso profissional, mas dedicou outro
mais caloroso a Moira. – Você vai à festa?
– Não a perderia por nada, Harriet.
– Estaremos todos lá – interrompeu Claudia, com um sorriso triunfante.
– Cavalos selvagens não manteriam você longe! – debochou Lily.
– Vamos, garotas – disse Marcus. – Bom ver você de novo, Harriet.
– Venha nos visitar de novo, por favor. – Moira sorria, calorosa.
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Jessica 199.1 – Sedução Perigosa – Catherine George

– Gentileza sua. E vou aceitar o convite um dia desses. – Harriet evitou o


olhar cínico de James.
Depois que saiu, Nick observou Harriet com interesse.
– Há quanto tempo conhece Crawford?
– Conheci-o pouco tempo anos atrás, quando era estudante.
– Aquela loura quente foi muito fria com você!
– Foi? Não percebi. – Harriet se levantou. – Obrigada pelo jantar, Nick. Se
me acompanhar até o carro, vou para casa.
Ele também se levantou aborrecido.
– Ainda é cedo, Harriet. Esperava que fosse para o meu apartamento para
um café.
– Esta noite, não. – Sorriu para ele enquanto a acompanhava até a porta. –
Obrigada de novo.
– Vamos repetir logo.
– É claro. Telefone para mim. Boa noite.
Harriet dirigiu para casa pensativa. Encontrar James lhe estragara a noite
e Nick percebera. Não que pretendesse ir ao apartamento dele. E ele parecera
estranho durante todo o encontro. Tinha sido uma péssima ideia deixar os
cabelos soltos. Suspirou quando se aproximou do chalé. Ela o cortaria se não
soubesse o que aconteceria. Tentara uma vez, quando se sentira muito
deprimida depois do rompimento com James. O resultado tinha sido um halo de
cachos desgovernados em torno do rosto, o que seria ainda mais ridículo
agora.

À MEDIDA que a data da festa se aproximava, Harriet percebeu


surpreendida, que o pai ficava cada vez mais entusiasmado pela perspectiva. E
quando Charlotte Brewster lhe entregou uma pequena lista de possíveis novos
inquilinos, ele ficou deliciado ao saber que um programa culinário de televisão
seria filmado em sua cozinha.
– Difícil acreditar – disse Harriet, num telefonema para Julia –, mas ele está
adorando.
– E você aceita que pessoas usem a cozinha de mamãe?
– Por que não? Ela adoraria se isso melhorasse nossas finanças.
– Tem razão. E, por falar nisto, o que Miriam acha da nova atividade?
– Ela ainda não voltou do cruzeiro.
Julia riu.
– Tenho certeza de que ficará furiosa. E, então, o que vai usar para a
festa?
– O vestido que usei da última vez que me viu.
– Não é um vestido de festa, Harriet. Pelo amor de Deus, compre alguma
coisa.
– Não tenho dinheiro.
Houve uma pausa.
– Presumo que foram necessários salários extras para cuidar da casa e dos
jardins. Foi você que pagou?
– Culpada, Julia. Preciso que esse evento seja um sucesso para atrair
novos inquilinos provisórios. E uma casa e jardins em perfeita ordem são parte
do acordo.
– Pensou em cobertura pela imprensa?
– Charlotte cuidou disso.

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Jessica 199.1 – Sedução Perigosa – Catherine George

Além da imprensa local, uma repórter de um jornal nacional estaria


presente, uma informação que dera tanto prazer a Aubrey Wilde que ele mal se
lembrava da oposição que fizera antes ao projeto.
Mais tarde, James ligou para avisar que os homens que montariam a
marquise chegariam cedo à manhã seguinte.
– Ótimo. Não estarei aqui, mas vou avisar a papai. Você virá com eles?
– Não, estou cheio de compromissos amanhã. Mas meu assistente cuidará
de tudo. Como está o jardim? Soube que choveu um pouco nos últimos dias.
– Apenas para dar mais vida às flores e ao gramado. Will Haines o cortou
de novo ontem.
– Quem é ele?
– Jardineiro. Vem uma vez por semana.
– Apenas uma vez?
– Vem fazendo trabalho extra ultimamente.
– Deve estar fazendo muitas horas extras para tornar o jardim tão lindo. –
James fez uma pausa. – Seu pai não gosta de jardinagem, acho.
– Não, prefere o golfe.
Era Harriet que dirigia o carrinho do cortador de grama nos fins de semana
para deixar para Will outros tipos mais especializados de trabalho.
– Não mude de ideia sobre participar da festa.
– Disse que estaria lá e estarei. Pelo menos para garantir que nada dê
errado.
– Contratei pessoal de segurança para cuidar disso, então apenas relaxe e
se divirta. Por falar nisso, devo mandar um convite para o amiguinho com
quem jantou semana passada? Esqueci o nome dele.
Harriet rolou os olhos.
– Não será necessário. Mais alguma coisa?
– No momento, não. Ligo depois.

HARRIET DESLIGOU e suspirou. Gostaria de não ter prometido ao pai que


participaria da festa. Talvez pudesse sair na hora do almoço no dia seguinte e
comprar um vestido novo. E então balançou a cabeça com firmeza. Não
gastaria dinheiro numa coisa tão desnecessária.
NA MANHÃ seguinte, Margaret ligou para Harriet no trabalho. Era uma
coisa tão rara que Harriet congelou, temendo o pior.
– O que está errado, Margaret?
– Nada, querida. Estou ligando apenas para lhe dizer que chegou um
pacote por correio especial, que foi entregue na casa quando não puderam
encontrá-la no chalé. Precisava ser assinado. Quer que mande John levá-lo para
você aí?
– Não precisa, não pedi nada, assim não deve ser urgente. Pode deixar o
pacote no chalé para mim quando for para casa?
– Claro. E o pessoal da marquise chegou. Seu pai está lá no gramado
dirigindo as atividades.
– Ele vai gostar.
– Espero que tudo corra bem amanhã, Harriet.
– Eu também. E não sei como agradecer todo o trabalho que você e John
tiveram para deixar tudo em ordem.
– Ficamos felizes de poder ajudar. E, você, desfrute a festa.
Harriet duvidava que conseguisse. Observar James como o anfitrião de
uma festa na River House seria horrível de muitas maneiras. O motivo para
convidá-la era muito evidente. Queria que Harriet Wilde e o pai dela
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Jessica 199.1 – Sedução Perigosa – Catherine George

testemunhassem seu sucesso no único lugar que tornaria a celebração um


triunfo duplo. Mas não conseguia se livrar do temor de que pretendesse usar a
ocasião para humilhar os Wilde de alguma forma.
Trabalhou até tarde de propósito, para ter certeza de que o pai tivesse
saído quando chegasse a casa. Não queria que ele lhe mostrasse a marquise.
Mas quando dobrou a esquina do caminho para o chalé, era James que
esperava por ela.
– Venha ver se está tudo de acordo com o que quer, agora que a marquise
foi instalada.
– Não deveria ser como você quer? Afinal, é sua festa e seu dinheiro…
– Mas é a sua casa. – Olhou para o relógio de pulso. – Chegou muito tarde,
Harriet.
– Havia coisas que precisei terminar antes de sair – mentiu.
– Parece cansada.
Harriet o fuzilou com os olhos.
– Gostaria que não ficasse repetindo isso. É claro que estou cansada.
Trabalho muito. E estou dez anos mais velha agora.
– Quando soltou seus cabelos, não pareceu… – Parou os olhos
entrecerrados. – O que eu disse para você me olhar assim?
– Há mais em mim do que apenas cabelos. – O tom era ríspido. – Agora,
vamos inspecionar aquela marquise para eu poder descansar.
– Não sonharia em atrapalhar seu descanso. Veja-a você mesma amanhã
de manhã. Boa noite.
Afastou-se em direção ao gramado, perguntando-se por que não
conseguia tirar aquela maldita mulher da cabeça, agora que a vira de novo.
Tivera tanta certeza de que ela nada mais significaria para ele depois de tanto
tempo. Seria apenas um erro que cometera no passado. Mas um olhar para ela
naquela primeira vez no banco e o tempo voltara atrás, quando tudo o que
quisera era partilhar a vida com Harriet Wilde. E agora se via procurando
oportunidades para vê-la de novo, exatamente como o idiota apaixonado que
fora. Assim que a festa terminasse, aquilo precisava acabar.
Odiando-se por ter se deixado dominar pelo mau humor, Harriet entrou no
chalé enquanto James se afastava, colocou a pasta sobre uma pequena mesa
e, com um suspiro, soltou os grampos dos cabelos, passou os dedos entre eles
e massageou o couro cabeludo, com sempre fazia assim que chegava a casa.
Uma tentadora torta a esperava na cozinha, cortesia de Margaret, uma
gentileza que levou lágrimas aos olhos de Harriet enquanto fazia café. Estava
mais cansada do que imaginara. Mas quando levou a caneca cheia à sala de
estar, as lágrimas secaram. O pacote misterioso a esperava sobre o sofá.
Excitada como uma criança, Harriet deixou a caneca sobre a mesa e abriu
o pacote. Era uma caixa bonita e, dentro dela, um bilhete de Julia:
Pode pensar em mim como uma das Irmãs Más, Cinderela, mas pelo
menos dessa vez sou a Fada-Madrinha. É um vestido que ganhei infelizmente
pequeno demais para mim. Compre sapatos sexies, use os cabelos soltos e vá
ao baile!

HARRIET TIROU o vestido e o estendeu com reverência nas costas do sofá.


Era apenas um fiapo, de gola alta e sem mangas, de cetim de seda vermelho.
Subiu a pequena escada até o quarto, tirou as roupas e o vestiu. Chegava aos
joelhos e lhe servia tão bem que poderia ter sido feito para ela. Observou,
deliciada, seu reflexo no espelho e então telefonou para Julia.
– Estava prestes a sair, Harriet. Recebeu o pacote?
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Jessica 199.1 – Sedução Perigosa – Catherine George

– Com certeza. Foi uma surpresa maravilhosa. O vestido é muito caro?


– Não para você, Cinderela. Considere um presente antecipado de
aniversário. Serviu?
– Perfeitamente.
– Então o considere minha contribuição para a causa maior. Erga a
bandeira “Wilde” com orgulho amanhã e divirta-se.
– Prometo. Obrigada, fico lhe devendo.
Harriet tirou o vestido com grande cuidado, então vestiu jeans e um suéter
e preparou uma salada para comer com a torta. Antes de conseguir começar a
comer, a campainha da porta tocou. Abriu-a e se viu diante da madrinha, que
passou por ela cheia de indignação.
– Que diabos está acontecendo, Harriet? Por que há uma marquise no
jardim? – Miriam Cairns não esperou respostas. – Se Aubrey vai dar uma festa,
por que não fui convidada?
– A festa não é de papai, Miriam. Gostou do seu cruzeiro? Quando voltou?
Posso lhe fazer um sanduíche? Vou começar a jantar.
– Cheguei ontem. Não quero comer nada, obrigada, mas adoraria uma
bebida. Tem um xerez decente?
– Desculpe, nem mesmo um indecente. Que tal um chá?
Miriam se sentou no sofá, a expressão preocupada.
– Chá está ótimo. Então coma seu jantar, parece cansada.
Harriet ligou a chaleira aborrecida. Estava realmente se aborrecendo de
ouvir as pessoas lhe dizerem que parecia cansada. Serviu o chá numa caneca e
o levou para a madrinha.
– Obrigada, querida. Agora, pelo amor de Deus, me conte o que está
acontecendo.
Harriet levou o jantar para o assento da janela e explicou enquanto comia.
E, por uma vez, Miriam ouviu até o fim sem interromper, a não ser por
exclamações de surpresa.
– Bem, bem. – Os olhos entrecerraram. – Então Aubrey finalmente foi
obrigado a aceitar a situação! Sabia que havia perdido muito no mercado de
ações, mas não que gastou tudo o que Sarah lhe deixou. Por que não me
contou antes? – Observou a afilhada com olhar belicoso. – Sarah sempre me
contava tudo. Gostaria que você confiasse em mim.
Harriet devolveu o olhar sem emoção.
– Tentei uma vez no passado, se você se lembra, e fui rejeitada.
– Deus do céu, menina, ainda está pensando nisso? Foi anos atrás. Se
conseguisse o que queria, hoje estaria vivendo numa casinha pobre,
cozinhando para o marido e os filhos, sempre sem dinheiro… – Miriam se
interrompeu de repente.
– Em vez disso, moro sozinha nesta casinha pobre, sem filhos, sem
marido, trabalho duro para me sustentar e ainda não tenho dinheiro. – Não
havia emoção na voz de Harriet. – Precisamos muito de dinheiro para consertar
o telhado, Miriam, assim usei truques para convencer papai a deixar alguém
pagar caro pelo aluguel da casa para essa festa. E se for um sucesso e atrair
publicidade, tenho a esperança de que outras pessoas façam a mesma coisa.
– E tudo porque prometeu a Sarah que cuidaria da casa da família dela,
quando ninguém mais faria isso. – Fungou desdenhosa. – Aubrey era apenas
um funcionário do banco quando ela o conheceu. Muito lindo, é claro. Vinha de
uma vida humilde e queria grandes coisas. Sarah foi à chave para um estilo de
vida novo e melhor, e ele garantiu que o conseguiria.
Aquilo era novidade.
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Jessica 199.1 – Sedução Perigosa – Catherine George

– O que quer dizer?


– Oh, vamos lá, querida. Por que acha que o pai dela permitiu que Sarah
se casasse com um ninguém como Aubrey? – Viu a compreensão surgir nos
olhos de Harriet. – Quando Sarah contou ao pai que estava grávida, ele não
teve escolha. Conseguiu que Aubrey fosse promovido, mas nunca aceitou bem
o casamento. Aubrey fez tudo o que podia para se integrar… Imitou o modo de
falar de Sarah e adotou o estilo de vestir do pai dela, mas Godfrey Tolliver não
se impressionou. Não que Aubrey se importasse depois que conseguiu morar
na River House. – Riu sem alegria. – Talvez compreenda agora por que
enlouqueceu quando anunciou que viveria com um garoto que consertava
computadores. Era a história se repetindo!
– Você também não gostou.
– Verdade. Realmente pensei que era melhor esperar…
– Infelizmente, meu homem não pensou assim.
– O que mostra que foi bom ter se livrado dele. Voltou a encontrá-lo?
– Sim, recentemente.
– Então, quem é ele? Nunca descobri. Você conseguiu escondê-lo muito
bem.
– Porque sabia o que aconteceria se você e papai descobrissem.
– Mas certamente tudo já acabou!
– Oh, definitivamente. Está fora do meu alcance agora. – Harriet sorriu
com doçura. – Hoje é o presidente do Live Wires Group e está pagando a papai
um bom dinheiro para alugar a River House para a festa de amanhã.
– Deus do céu, está falando sério? – Miriam pareceu abalada. – Aubrey
concordou com isso?
– Sim.
– Ele conheceu o homem?
– Sim. James veio aqui para conversar com ele sobre a festa, disse seu
nome e apertou a mão do papai. Mas tive muito cuidado para que papai nunca
soubesse o nome dele no passado. Para ele, James Crawford é apenas o
homem que está lhe pagando um bom dinheiro pelo privilégio de alugar o lar
da família Wilde. Papai até mesmo aceitou um convite para a festa.
Miriam balançou a cabeça, impressionada.
– Quando vai contar a ele?
– Não pretendo contar nada. Ele descobrirá por si mesmo. Não que isso
importe. Assinou um contrato e grande parte do dinheiro já está depositada
numa conta comercial que apenas eu posso movimentar para a manutenção
da River House. – A voz de Harriet denunciava sua grande satisfação. – Julia
apóia tudo completamente.
– Isso é novidade. Vocês nunca foram próximas.
– Julia mudou de atitude quando descobriu como a situação é
desesperadora. Até mesmo me mandou um vestido para usar na festa.
– Com a profissão dela, provavelmente não lhe custou um centavo.
– Mas ela pensou em mim e também não me custou um centavo.
Miriam se levantou.
– Acho que vou ao encontro de Aubrey agora e lhe perguntar no que
estava pensando ao deixar as coisas chegarem a esse ponto.
– Ele não está em casa e só chegará tarde.
– Como de costume! Então vou para casa e a deixarei dormir. Fique na
cama até tarde para estar bem para a noite. Não sei como concordou em
participar da festa.
– Tenho que ficar de olho nas coisas.
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Jessica 199.1 – Sedução Perigosa – Catherine George

– Ou ainda está atrás desse homem?


– Não, não estou. Mas mesmo se estivesse, é minha escolha, madrinha.
Não tenho mais 19 anos.
– Você não perdoa com facilidade.
– Como papai descobriu há muito tempo.

Capítulo Cinco

O PLANO de Harriet de acordar tarde na manhã seguinte foi frustrado pela


passagem constante de carros e caminhões sob sua janela com entregas para
a festa. Finalmente desistiu, se vestiu, leu o jornal enquanto tomava o
desjejum, depois foi para o terraço observar as operações e encontrou o pai
fazendo a mesma coisa.
– Bom dia, Harriet.
– Bom dia.
– Descobri que será um jantar formal, felizmente.
– O que mais esperava?
– Um amigo do clube me contou que, no casamento da filha, teve que
providenciar peixe e batatas fritas para o grupo mais jovem. Mas Crawford
parece civilizado demais para esse tipo de coisa.
Observaram as atividades enquanto o pessoal da alimentação instalava
uma cozinha móvel atrás das árvores. Então Harriet ficou tensa ao ouvir o som
conhecido do motor de um carro, que estacionou perto deles. James saiu,
seguido por Lily, que correu ao encontro de Harriet, sorridente e ansiosa.
– Espero que não se importe. Quando James disse que viria ver como as
coisas estavam, pedi que nos trouxesse. Bom dia sou Lily Graveney. – Estendeu
a mão a Aubrey. – Certamente você é o senhor Wilde, pai de Harriet. Como vai?
Aubrey sorriu e a cumprimentou com um aperto de mão.
– Prazer em conhecê-la. E quem é esta jovem adorável? – Claudia se
aproximava.
– Sou irmã de Lily.
– Bom ver vocês e você também, Crawford – acrescentou Aubrey, quando
James se juntou a eles.
– Obrigado, senhor. Desculpe a intrusão tão cedo, mas precisava ter
certeza de que tudo corria bem. E estas duas insistiram em vir comigo. – James
se virou para Harriet. – Bom dia. Espero que não tenha sido perturbada cedo
demais.
– Sem problemas. – A voz de Aubrey era jovial. – Harriet sempre se levanta
muito cedo.
– Mesmo aos sábados? – O desdém constante estava de novo na voz de
Claudia.
Harriet balançou a cabeça.
– Não, normalmente durmo até mais tarde nos fins de semana.
– Mas perturbei isso hoje. – James franziu a testa.
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Jessica 199.1 – Sedução Perigosa – Catherine George

– Ela pode dormir um pouco à tarde. – Não havia preocupação na voz de


Aubrey. – Agora, se me derem licença, tenho um compromisso no clube.
– Espero vê-lo à noite, senhor. – James se virou para Harriet. – Quer ir
conosco ver a marquise?
– Vou esperar para vê-la em toda a sua glória à noite.
– Como quiser. Venham, meninas.
Claudia passou uma mão possessiva pelo braço dele e partiram.
HARRIET ENTROU e trancou a River House. Sentiu-se de repente ansiosa
para sair dali, passar o dia na cidade até a confusão terminar. Voltou para casa
no final da tarde. Havia o som de música de piano vindo da marquise, luzes
penduradas nas árvores estavam acesas e um bar havia sido montado no
terraço. Ela sorriu. Se tinha mesmo que ir à festa, pretendia se divertir.

ENCAMINHOU-SE PARA o chalé, para se aprontar. Um pouco mais tarde, já


quase pronta, ouviu o som do piano, conversas e risadas dos convidados que
acabavam de chegar. Com o vestido que Julia lhe mandara, usou as pérolas da
mãe e os brincos de diamante, calçou as sandálias caras que comprara
naquele dia e desceu. Ao abrir a porta, encontrou o pai esperando por ela. Os
olhos dele umedeceram ao vê-la.
– Está tão parecida com sua mãe esta noite, Harriet. Parece uma pintura
neste vestido.
– Julia o mandou como um presente de aniversário.
– Mas não é seu aniversário.
– Não, faltam alguns meses.
– Compreendo. – Mas era evidente que não compreendia. – Então vamos
nos juntar à festa.
Entraram na casa para sair pela porta da frente. Era o modo de Aubrey
deixar claro quem era o proprietário. Não tinha importância para Harriet.
– A última vez que tomamos champanhe no terraço foi no casamento de
Sophie – observou Harriet.
O pai parou de andar.
– Sophie sabe sobre a festa?
– Não tenho ideia. Julia a está informando dos fatos.
– Se ela soubesse que haveria uma festa, já estaria aqui.
Quando o pai abriu a porta da frente e a segurou para Harriet passar
primeiro, ela parou cega por uma barragem de flashes de fotos.
– Deus do céu, não esperava isso – comentou, enquanto desciam os
degraus.
Mais fotógrafos surgiram quando James se aproximou para cumprimentá-
los. O olhar que lançou a Harriet fez o coração dela disparar.
– Está maravilhosa, senhorita Wilde. Boa noite, senhor. Venha conhecer
minha irmã e a família dela.
Os Graveney bebiam champanhe ao lado das garotas e de um jovem que
segurava a mão de Lily.
– Senhor Wilde, esta é minha irmã, Moira Graveney, e este é o marido
dela, Marcus – apresentou James. – Já conheceu as irmãs de Marcus e este é
Dominic Hall, namorado de Lily.
Moira, alta e elegante num vestido escuro de seda azul, deu os parabéns a
Aubrey Wilde por sua linda casa.
– Foi gentil de a sua parte deixar que James a use para sua festa.
– De maneira nenhuma, cara dama. Fiquei feliz com isso – garantiu,
enquanto lhe apertava a mão.
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Jessica 199.1 – Sedução Perigosa – Catherine George

Marcus cumprimentou Harriet, os olhos brilhando de apreciação.


– Posso dizer que está encantadora?
– Claro que pode. – Sorriu para ele radiante e se virou para as duas irmãs.
– Vocês também estão.
Lily riu.
– Você está muito mais linda Harriet.
Claudia deu de ombros.
– Não quisemos nos exibir.
Não? Com os saltos impossivelmente altos e um vestido negro sem alças
com a saia muito curta, Claudia parecia perigosa e exibida.
James se certificou de que todos tivessem bebidas, então pediu licença
para se misturar aos funcionários. Harriet o observou parar aqui e ali,
conversando com pessoas que evidentemente se sentiam à vontade na
companhia dele. Moira se aproximou.
– Nestas ocasiões, James sempre cuida para que as pessoas se divirtam.
– Ele dá festas com frequência?
– Geralmente, duas vezes ao ano. Esta é um extra.
Em mais de uma forma, pensou Harriet, e sentiu medo enquanto
observava o homem alto que jamais imaginara encontrar de novo, muito
menos que fosse o anfitrião de uma festa na casa dela.
– Quem é aquele jovem que acompanha sempre seu irmão?
– Seu assistente pessoal, David Walker. – Um garçom se aproximou com
bebidas e Moira recusou. – Você quer outra bebida, Harriet?
– Não, realmente não gosto de beber. Só vou ficar segurando meu copo.
– Vou fazer a mesma coisa. No meu casamento tomei apenas limonada.
– Está falando sobre seus hábitos de bebida, esposa? – Marcus havia se
aproximado delas.
– Concordo com Moira. – Harriet sorriu para ele. – Sou muito popular
quando saio com amigos, sou a única que pode levá-los para casa no fim da
noite.
– De vez em quando é difícil evitar o álcool. No casamento do meu irmão,
preferi fazer o brinde a criar um problema.
De repente, Harriet sentiu como se estivesse despencando num elevador
descontrolado.
– Verdade? – E tomou todo o champanhe da taça.
James era casado? Por que não lhe dissera? Mas, então, por que deveria?
E por que a esposa não estava lá naquela noite? E por que diabos estaria
envolvido com Claudia?
– Onde está a esposa dele agora? – Os dois Graveney a olharam,
perplexos.
– Na Austrália, querida. Moram em Sydney há dois anos – explicou Moira. –
O bebê é novinho demais para viajar, assim ainda não o conheço, infelizmente.
– Você o conhecerá logo. – Marcus sorriu para Harriet. – Prometi a minha
esposa uma viagem à Austrália no lugar da lua de mel que não pudemos ter.
Quando estiver bem instalado na Broad Street, começarei a cuidar de nossas
férias.
– Dan diz que o bebê é a cara dele, mas Kate jura que se parece com ela. –
Moira pegou uma foto da bolsa de noite. – Sei que é entediante mostrar fotos
de bebês, mas ele é tão lindo.
Os dedos de Harriet tremiam enquanto pegava a foto, que mostrava um
pai e uma mãe orgulhosos sorrindo para a pequena trouxa nos braços da mãe.
Dan pensou tonta. O irmão de James.
33
Jessica 199.1 – Sedução Perigosa – Catherine George

– É mesmo adorável.
E então David Walker chegou para anunciar que o jantar estava servido.
Aubrey Wilde apresentou o braço a Moira.
– Vamos senhora Graveney?
– Moira, por favor – disse.
James voltou para acompanhar o grupo pelo gramado ao som suave de
música de piano.
– Espere aqui por um momento – pediu David. – Vou entrar antes para
anunciar você.
– Inferno, não – recusou James. – Vamos entrar como todo mundo.
– Certo.
Mas David fez um sinal ao pianista. No momento em que James entrou,
houve um arpejo dramático para anunciá-lo e todos começaram a aplaudir.
– Seu irmão é muito popular. – Aubrey estava impressionado.
Moira acenou os olhos úmidos, e Harriet sentiu uma forte fisgada de ciúme
enquanto Claudia erguia olhos possessivos para James. Precisava se lembrar de
que não era mais nada para ela, casado ou não. Foi levada a uma cadeira entre
James e Marcus na posição de honra, com Moira entre o irmão e Aubrey Wilde.
Uma aborrecida Claudia se sentou em frente, perto de um jovem que James
apresentara a todos como Tom Bradfield, seu mágico em desenvolvimento de
softwares. A garota seria obrigada a conversar com ele, observou Harriet, e
esperou que fosse educada. Dominic Hall estava do outro lado dela, mas
absorvido demais em Lily para dar atenção a Claudia.
– Por favor, silêncio para ouvir o senhor James Crawford – anunciou David
Walker.
Harriet ficou tensa quando James se levantou diante de uma barragem de
flashes de fotos. O coração disparou enquanto se perguntava se seria aquele o
momento em que diria ao pai exatamente quem lhe pagara para ter a casa
aquela noite. Mas James apenas agradeceu aos funcionários antigos pela
eficiência e dedicação e deu as boas-vindas aos que haviam se juntado ao Live
Wires Group com a fusão das empresas onde trabalhavam antes. Previu um
belo futuro para todos e então, curvando-se para Harriet e Aubrey, ergueu o
copo num brinde a eles por permitirem que ele usasse sua linda casa para
tornar a ocasião duplamente especial.
James se sentou sob aplausos entusiasmados e Harriet, tonta de alívio,
pensou que podia relaxar e desfrutar da refeição. Conversou tranquilamente
com Marcus e então se virou para James, quando ele lhe perguntou se
aprovava a marquise.
– Com certeza. – Lançou-lhe um olhar direto. – Está feliz agora, James?
Tudo isso lhe dá a satisfação que queria?
– Não, seu pai ainda não sabe quem eu sou.
– Mas eu sei. – Sorriu e se virou de novo para Marcus.
Quando o jantar terminou, todos saíram para desfrutar o resto da noite, e
Harriet levou Moira e as duas garotas para um dos banheiros. A pedido de Lily
mostrou-lhe toda a casa enquanto os homens fumavam charutos nos jardins.
Quando todos voltaram à marquise, havia uma pequena banda pronta para
tocar pelo resto da noite.
– Gosta de dançar, Harriet? – perguntou Marcus, os olhos brilhantes.
– Quando surge uma oportunidade, sim. – E então se surpreendeu quando
a banda começou a tocar uma valsa. Conseguiu não rir da expressão de horror
no rosto de Claudia.

34
Jessica 199.1 – Sedução Perigosa – Catherine George

– Esta noite estou oferecendo música para todas as idades. – A expressão


de James era falsamente inocente enquanto empurrava a cadeira para trás. –
Posso ter o prazer, senhorita Wilde?
Tão horrorizada como Claudia, Harriet sorriu para os outros num apelo
desesperado.
– Por favor, venham também.
A pista de dança era grande para uma marquise, mas pequena demais
para Harriet quando James a tomou nos braços e começou a dançar com uma
competência que ela não esperava. O coração dela disparou de novo.
– Onde aprendeu a valsar? – Estava abalada por se encontrar de novo nos
braços dele.
– Uma dama gentil de Newcastle me ensinou. E me ensinou outras coisas
também, de um tipo que não pode ser descrito numa pista de dança. – A voz
ficou mais baixa, a mão tão quente nas costas dela que Harriet teve medo de
que o cetim incendiasse. – Depois que rompemos, precisei de consolo e ela me
deu. E quanto a você?
– Aprendi na escola.
– Estou falando de consolo. Ou talvez não precisasse.
Ela o olhou com firmeza.
– É claro que precisei, mas não tive ninguém para me consolar.
Ele a apertou mais.
– Por que está tremendo Harriet?
– Nervos. Não gosto de ser o centro das atenções – mentiu grata quando
outras pessoas começaram a dançar.
– Você está muito sexy esta noite. – O tremor dela aumentou.
– Parecida com a garota que deixou para trás?
– Não. Era uma garota, Harriet, e sexo não era permitido, lembra-se? – Os
olhos mergulharam nos dela. – As coisas são diferentes agora que é mulher.
Harriet olhou, hipnotizada, dentro dos olhos dele, que brilhavam enquanto
dançavam esquecidos de tudo e conscientes apenas do contato sensual de
seus corpos que se moviam juntos. Ela voltou a Terra quando o ritmo mudou e
James praguejou baixinho.
– Inferno! O que quer que seja isto, não aprendi.
– É um Fox trote.
– Podemos apenas nos balançar ou você gostaria de se sentar?
– Sentar-me, por favor. – Havia tanto fervor na voz dela que James lhe
lançou um olhar marcante enquanto a acompanhava para a mesa agora vazia.
– Foi tão ruim assim dançar comigo, Harriet?
– É claro que não – mentiu serena. Ruim foi esconder a reação ao calor do
corpo dele tão próximo do dela.
– Seu pai ainda não sabe quem eu sou, é evidente. Vai lhe contar?
– Não, a menos que queira. Mas saberá algum dia. E prefiro que mate
outro mensageiro.
Ele franziu a testa sombrio.
– Pode ficar violento se lhe contar sobre mim?
– Estava falando metaforicamente. Ele jamais ergueu a mão para mim.
Mas foi tão difícil convencê-lo a alugar a casa esta noite que não quis correr o
risco antes.
– Por que esse negócio é tão importante?
– Precisamos do dinheiro – disse, ousada, então negou com um gesto de
cabeça quando James lhe ofereceu uma taça de champanhe. – Não, obrigada,
prefiro um copo de água gelada daquela jarra.
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Jessica 199.1 – Sedução Perigosa – Catherine George

James a observou enquanto enchia o copo para ela.


– No passado, presumi que sua família fosse muito rica.
– Tínhamos uma situação confortável, não grande riqueza, mas agora nem
mesmo isso. A situação financeira atual abalou os investimentos do meu pai. –
Sorriu triste. – Esta festa pode ter satisfeito sua necessidade de se vingar dos
Wilde, mas me deu o dinheiro para pagar por um novo telhado e tenho a
esperança de atrair outros clientes para alugar River House. Assim posso
melhorar a manutenção.
Ele franziu a testa.
– O dinheiro foi para você, e não para o seu pai?
Ela acenou.
– Os outros estão voltando e Claudia está me olhando com ódio. Melhor
dançar com ela.
– Naquele vestido? De jeito nenhum. Houve um incidente feio quando
Marcus a viu com ele. Ela se recusou a trocar, assim é graças a Moira que está
aqui.
– Como sua irmã lida com crises familiares?
– Maravilhosamente. Mas ela conhece as meninas desde que eram bebês.
Foi assistente de Marcus durante anos antes de se casarem. As irmãs dele
gostam dela, felizmente, e a mãe delas também. Louise nunca foi à proverbial
madrasta má para Marcus.
Harriet sorriu para as outras quando chegaram à mesa e então se
levantou quando David Walker a tirou para dançar. Ele a levou para a pista de
dança e, naquele momento, o conjunto começou a tocar um tango.
– Estive na Argentina este ano e me apaixonei pela dança – informou. –
Sabe dançar o tango, senhorita Wilde?
Estava prestes a dizer que não, mas então acenou de repente cansada do
papel da filha tranqüila da família.
– Por mais estranho que pareça, sei. Quando estudava na faculdade, entrei
para um clube de dança e meus ritmos prediletos eram os latino-americanos.
Espero me lembrar. Mas vá devagar com os passos mais complicados, por
favor.
Harriet descobriu que dançar o tango era parecido com andar de bicicleta,
não havia esquecido nada. David dançava muito bem, ela usava o vestido
perfeito e, para sua diversão, atraíram olhares de admiração de todos, menos
de dois. James os observava com toda a animação de uma estátua e Claudia,
previsivelmente, estava furiosa. Mas quando os outros dançarinos deixaram a
pista para olhar, Harriet parou.
– Não quero dar um espetáculo de cabaré. – Estava sem fôlego.
David lhe agradeceu e a levou de volta à mesa.
– Isto foi maravilhoso – exclamou Moira, e Harriet sorriu quando Marcus lhe
puxou uma cadeira.
– Não dançava tango desde que era estudante. Mas foi divertido.
– Não sabia que podia dançar assim. – Aubrey Wilde observou a filha com
admiração.
– Era membro de um clube de dança na faculdade. Até contadoras
precisam de um alívio de vez em quando.
Lily pareceu deliciada.
– Estão tocando um samba agora, Harriet. Sabe dançá-lo também?
– Sei, mas não vou.
– Posso sambar. – Claudia se levantou. – Vamos, James, dance comigo.
– De jeito nenhum. Só sei valsar.
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Jessica 199.1 – Sedução Perigosa – Catherine George

Tom se levantou.
– Então dance comigo, Claudia.
Por um horrível momento, Harriet pensou que a garota recusaria, mas
para seu alívio – e de todo mundo – Claudia sorriu, tomou a mão dele e os dois
se dirigiram para a pista de dança.
– Graças a Deus por isso – Marcus suspirou. – Se tem alguma consideração
por mim, James, dance com ela ou nos fará passar pelo inferno antes de voltar
para Londres amanhã.
Lily olhou para o irmão com desaprovação.
– Por que ele deveria? Esta é a festa de James e ele fará o que quiser.
James fez um sinal para David, que se aproximou, ouviu, acenou e saiu.
– Alguma coisa errada, James? – Moira não pareceu preocupada.
– Não, apenas mandei instruções para a banda tocar apenas para os
jovens a partir de agora.
– Você não é um Matusalém, James – protestou Moira.
– No que se refere a esse tipo de coisa, é assim que me sinto.
Então se recostou para observar enquanto a banda passava de um
moderno ritmo agitado para outro. A pequena pista de dança se encheu de
corpos que balançavam e rodavam enquanto Lily e Dominic se juntavam a
Claudia e Tom. De repente, Claudia se tornou o centro de um grupo, dançando
sem parceiros com um abandono que levou todos os jovens a rodeá-la,
enquanto ela jogava os longos cachos dourados para frente e para trás e, de
vez em quando, lançava um olhar triunfante a James para ver se ele a
observava.
Aubrey Wilde terminou a bebida e se levantou.
– Hora de dormir. – James se levantou também. – Obrigado por uma bela
festa, Crawford. – Virou-se para os Graveney: – Prazer em conhecê-los. Boa
noite. Você vem, Harriet?
– Não se preocupe, senhor, sua filha chegará em segurança ao chalé –
garantiu James. Fez um sinal para David, que acompanhou Aubrey da marquise
até a porta da casa, conversando. – O que acham de uma bebida, Harriet,
Moira?
Moira sorriu, desanimada.
– No momento, preferia um chá.
– Se quiser andar um pouco, posso lhe oferecer uma chávena no chalé.
– Pode tê-la aqui. – James fez sinal para um garçom. – Chá, Marcus?
– Não, caro amigo. Vou ficar com meu conhaque enquanto observo a
energia dos jovens.
Harriet gostou do chá, mas, de repente, ficou deprimida porque se sentiu
velha por estar ali, bebendo-o, em vez de dançar e pular. Ainda faltava um ano
para fazer 30 anos, lembrou-se com firmeza.
– Alguma coisa errada? – A voz de James era suave.
Ela sorriu.
– Apenas me senti de uma geração diferente daquele pessoal na pista de
dança.
– Você não parecia assim quando dançava aquele maldito tango.
– Você desaprovou?
– É claro que… – interromperam-se quando um grito alto veio da pista de
dança.
A música parou e James e Marcus correram, com David afastando os
dançarinos. Voltaram ao lado de Tom, que carregava uma Claudia histérica que
chorava e gemia, seguidos por Lily em prantos e Dominic lhe segurando a mão.
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Jessica 199.1 – Sedução Perigosa – Catherine George

Suado e respirando com dificuldade, Tom colocou sua carga com cuidado
numa cadeira ao lado de Moira, que agradeceu e se concentrou em Claudia.
– Foram estes saltos estúpidos – chorou Lily. – Ela torceu o tornozelo e… E
apenas caiu.
– Onde fica o hospital mais próximo? – Marcus estava pálido enquanto os
gemidos de Claudia aumentavam de tom.
– Do outro lado da cidade. Vou lhes mostrar. Seu carro está estacionado no
padoque? – perguntou Harriet.
James acenou e fez sinal a David.
– Encontre meu motorista.
Harriet balançou a cabeça.
– Conheço o caminho mais rápido e meu carro está diante do chalé. Vou
trazê-lo até a escada. Fique aqui e cuide de seus convidados, James.
Harriet ouviu James dando explicações no microfone enquanto corria com
Dominic, que insistira em acompanhá-la até o chalé.
– Vou apenas trocar de sapatos e então pego o carro.
– Foi culpa de Claudia! Parecia louca na pista de dança. Arruinou a festa de
James.
Era evidente que Dominic não era um dos admiradores de Claudia.
– A festa já estava mesmo chegando ao fim – ofegou Harriet, quando
chegaram ao chalé. – Estou bem, Dominic, volte para Lily.
– Vou esperar até você pegar o carro.
– Neste caso, entre nele.
Trocou as sandálias de salto por sapatos fechados e rasos, deu uma ré
rapidamente até o terraço e parou o carro diante da escadaria que levava ao
gramado.
– Abra a porta dos passageiros, Dominic, e diga a todos que estou pronta
para partir. Vou deixar o motor ligado.
James carregou uma chorosa Claudia até o carro e a instalou com cuidado
no banco de trás.
– Há um cobertor aí – informou Harriet. – Ela vai precisar.
– Obrigado. – Estava tenso enquanto se virava para ajudar a irmã a se
sentar ao lado de Claudia. Moira enrolou a garota no cobertor e lhe segurou a
mão. Marcus se sentou ao lado de Harriet.
– Logo ela será atendida, Marcus – tranquilizou Harriet.
Claudia deitou a cabeça no ombro de Moira e chorou com amargura.
– Estraguei… Tudo para… James.
– Não, não estragou – afirmou James. – A festa já estava acabando. Vou
segui-los assim que puder. – Virou-se para Harriet. – Obrigado.
– Fico feliz de poder ajudar. – E ela partiu, esperando que não houvesse
muita gente na sala de emergência do hospital.
Felizmente, havia pouca gente quando entrou depressa, explicou a
situação e pediu uma cadeira de rodas. Claudia foi atendida imediatamente,
levada para tirar raios X e depois encaminhada para uma sala de exames,
onde engessariam o calcanhar. Moira e Marcus sempre ao lado dela. Logo
depois, James chegou com Lily e Dominic. Harriet, tremendo de frio, ficou livre
para voltar para casa. Lily a abraçou, agradecida.
– Obrigada por tudo. Estava tonta como uma galinha com a cabeça
cortada e você foi tão tranqüila e competente.
– Foi apenas uma torcedura? – perguntou James.
– Não, está quebrado, lamento.

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Jessica 199.1 – Sedução Perigosa – Catherine George

– Inferno. Ela teimou em usar aqueles saltos. – Observou Harriet com


atenção. – Você está com frio, vista isto. – Tirou o paletó.
– Não é preciso, vou para casa.
– Maldição, mulher, vista, está tremendo! – Colocou o paletó sobre os
ombros dela.
– Vou acompanhá-la até o carro – ofereceu Dominic.
– Não, eu faço isso. – A voz de James era brusca.
Harriet ficou contente com o paletó ao sair no vento frio, mas o devolveu
assim que chegou ao carro.
O rosto de James era severo à luz fraca do estacionamento enquanto
abaixava o olhar para ela.
– A marquise será desmontada logo cedo, assim não poderá dormir até
mais tarde. Foi de grande ajuda esta noite, Harriet. Nenhum de nós poderia ter
organizado a viagem até o hospital com tanta rapidez.
– Não é problema para mim, moro aqui. Lamento que sua festa tenha
terminado assim, James. Com exceção desse incidente, foi um grande triunfo. –
Enfrentou-lhe o olhar. – Vamos lá, diga a verdade. A vingança foi doce?
– Não completamente.
– Quer dizer que ficou incompleta. Não se preocupe logo meu pai saberá
quem é você. Preciso ir – estremeceu. – Boa noite, James.
– Seus dentes estão batendo. Tome um banho quente de banheira e vá
para a cama e descanse.
– Se me disser que pareço cansada, ficarei violenta e você precisará ser
atendido na sala de emergência!
– Está linda e sabe disso. Tantos homens a rodearam. – A expressão se
tornou mais severa. – David ficou louco e suspeito que Dominic também. Mas
deixe-o em paz, por favor, ele pertence à Lily.
– Está falando sério? – Harriet olhou para ele com desgosto. – Não gosto de
bebês.
– Do que gosta? Disto?
Puxou-a para si e a beijou com uma violência a que ela reagiu com a
mesma força, desamparada, a boca se abrindo com a insistência da dele. Os
braços a prenderam e tudo lhe pareceu tão familiar e certo que amoleceu
contra o corpo rijo, o coração disparado. Quando finalmente recuperou o bom
senso e tentou se libertar, ele a soltou e deu um passo para trás, a respiração
difícil enquanto os olhos brilhantes prendiam os dela.
– Quer que peça desculpas?
Ela o encarou de volta, entrou no carro sem uma palavra e o deixou
observando-a enquanto se afastava.

Capítulo Seis

HARRIET SÓ se acalmou quando chegou em casa. Trancou a porta do


chalé, subiu, tirou as sandálias e pendurou o vestido com cuidado, espantada
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Jessica 199.1 – Sedução Perigosa – Catherine George

por ele estar imaculado depois da noite, principalmente daquele abraço e beijo
vulcânicos. Estremeceu e tomou um banho de chuveiro bem quente antes de
cair na cama.
Quando acordou na manhã seguinte, percebeu que tivera duas horas
extras de sono, afinal. A equipe encarregada de desmontar a marquise só
chegou ao meio da manhã. Harriet fez um café forte, tomou-o e, com
relutância, ligou para James para ter notícias de Claudia.
– Está dopada com analgésicos e, felizmente, dormindo. E você, como está
Harriet?
– Um pouco cansada, mas ótima.
– Estava saindo para ir à sua casa e garantir que o pessoal encarregado da
marquise deixe tudo em ordem. Ainda estão aí?
– Acabaram de chegar.
– Certo, estou indo.
Harriet cerrou os dentes e disse a si mesma para parar de agir como uma
idiota. James iria lá apenas para ter certeza de que não haveria danos pelos
quais teria que pagar. E precisava aproveitar para contar ao pai sobre o
acidente com Claudia. Encontrou-o no momento em que tirava o carro da
garagem.
– Estou atrasado, preciso partir.
– Preciso lhe contar uma coisa.
Embora o pai exclamasse adequadamente com o choque e a pena, estava
ansioso para sair. Dever cumprido, Harriet voltou ao chalé e, com um suspiro
de prazer, se enroscou no sofá com os jornais de domingo e uma caneca de
café. Pouco depois, ouviu o som do motor do Aston Martin subindo pela
alameda e respirou fundo para se acalmar enquanto abria a porta para James.
Parecia cansado e tinha olheiras; o sorriso era cauteloso quando lhe entregou
um buquê de flores.
– São de Moira e Marcus, para agradecer a noite de ontem. Disse a eles
que é o mesmo que levar carvões para uma carvoaria, mas insistiram, assim,
aqui estão.
– Foi um gesto adorável. Por favor, agradeça a eles por mim. Claudia ainda
está dormindo?
– Estava quando saí, felizmente. – Os lábios viraram para baixo. – Vamos
esperar que durma bastante para dar uma folga a Moira. Ponha estas flores na
água e venha comigo para verificar o jardim. Por favor – acrescentou, irritado,
quando ela não fez menção de obedecer.
Sorria enquanto cuidava das flores. Sempre tinha sido bom contrariar
James no passado. Ele tinha uma tendência a dar ordens, mas então não se
importara, estava apaixonada demais por ele.
– Bom – aprovou, quando ela trancou a porta ao saírem. – Precisa se
preocupar com sua segurança numa propriedade tão grande como esta. Não se
importa de viver tão longe da casa principal?
– Não. Para mim, essa é a maior vantagem.
James franziu a testa, o olhar abaixado para ela enquanto subiam o
caminho.
– Como já disse, você mudou muito, Harriet.
– Depois de tanto tempo, seria estranho se não tivesse mudado! Você
também mudou muito, James.
– Não nas maneiras que importam. – Ela ergueu uma sobrancelha, mas ele
mudou de assunto. – Devemos convidar seu pai para inspecionar o jardim?
– Ele saiu. Tem uma vida social agitada.
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Jessica 199.1 – Sedução Perigosa – Catherine George

Chegaram ao terraço e observaram o processo eficiente do desmonte da


marquise.
– Não vi nenhum veículo quando cheguei – observou James.
– Eles entraram pelo padoque. – Harriet se virou. – Vou deixar você
observando.
– Vai sair?
– Não. Tenho um encontro com um sofá e os jornais de domingo. – Lançou-
lhe aquele sorriso frio e polido que curiosamente o irritava tanto.
James acenou contido.
– Vou apenas repetir meu agradecimento pela sua ajuda na noite passada.
E, por falar nisso, gostou da festa?
– Mais do que esperava. Seu pessoal se divertiu muito, ficou claro. Foi uma
festa inesquecível. – Ruborizou diante do olhar dele.
– Inesquecível em mais de uma forma! – Suspirou profundamente. – Vou
levar Claudia de carro para Londres depois do almoço. Está se sentindo tão mal
que quer a mãe. Marcus precisa estar no tribunal cedo amanhã, assim me
ofereci para levar à inválida junto com Lily e Dominic. – Espreguiçou-se e
bocejou. – Amanhã volto para a pedreira do Live Wires. E você?
– Volto para minha pedreira particular. Agradeça a Moira e Marcus as flores
e diga a Claudia que lhe desejo uma recuperação rápida. Adeus, James.
– Ansiosa para se livrar de mim?
– De jeito nenhum. Presumi que estivesse com pressa de voltar para sua
família.
– Por falar em família, me conte se seu pai vai ficar bravo quando souber
sobre mim.
– O que você poderia fazer?
– Fornecer um ombro para você chorar?
– Aprendi a não precisar de um, mas obrigada pela gentileza.
Harriet se virou e começou a andar, pensando que ele ficaria para vigiar a
equipe que desmontava a marquise, mas ele a acompanhou até o chalé.
– Moira gosta de você, Harriet – disse abruptamente, enquanto ela abria a
porta. – Ainda não conhece ninguém aqui e, assim, quando a convidar para
voltar à Old Rectory, pode ir? Não voltarei aqui por algum tempo, se isso fizer
diferença.
– Fico feliz em visitar sua irmã a qualquer momento. Esteja você aqui ou
não. – Estendeu a mão. – Adeus, James.
Ele a apertou rapidamente.
– Faça disto um au revoir. Devo vir muitas vezes, agora que Moira vive
aqui.
Harriet o observou com curiosidade.
– Sabe, há uma coisa que nunca descobri tantos anos atrás, James. O que
o trouxe para esta parte do mundo?
– Trabalho. Eu me candidatei ao emprego que a Combe Computers
anunciou e o resto, como dizem, é história. Agora, preciso ir e deixar que você
recarregue suas baterias. – Sorriu. – A menos que queira ajuda para isso.
Os olhos dela entrecerraram. Estaria ele pensando em continuar de onde
parara na noite anterior?
Os olhos dele brilharam.
– Não se preocupe, não estava pedindo que partilhasse sua cama comigo
para uma tarde de prazer. – Não – acrescentou, aproximando-se – que a ideia
não seja atraente.
Ela deu um passo para trás.
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Jessica 199.1 – Sedução Perigosa – Catherine George

– Que lisonjeiro. – Deu-lhe o sorriso social que ele detestava e entrou no


chalé. Fechou a porta com um clique decisivo.
James ficou parado olhando para a porta fechada por um momento, então,
se afastou para conversar com a equipe que cuidava da marquise. Uma vez
satisfeito de que nada seria deixado para trás para estragar a perfeição dos
terrenos da River House, voltou para o carro. Uma coisa era evidente, percebeu
enquanto descia o triunfo da noite anterior não tinha sido suficiente para ele. A
valsa que haviam dançado tinha sido uma forma de purgatório para ele, e vê-la
dançar aquele tango sexy depois alimentou a chama. A senhorita Wilde estava
enganada se achava que tudo havia terminado. Além disso, pensou com
satisfação súbita, Aubrey Wilde ainda precisava descobrir quem fornecera o
dinheiro que aceitara com tanta ganância.

Capítulo Sete

HARRIET PASSOU o dia seguinte numa série de reuniões com clientes e


chegou a casa sem querer nada além de uma chuveirada, jantar e cama. Mas
encontrou uma mensagem do pai na secretária telefônica, exigindo a presença
dela na casa imediatamente. Suspirou. Hora do espetáculo!
Mas não correu. Lavou o rosto, renovou a maquiagem e prendeu os
cabelos num coque mais severo do que o normal. Com a armadura vestida,
marchou para a casa e encontrou o pai esperando-a na cozinha para atacar.
– Até que enfim chegou! – O rosto estava vermelho de raiva. – Suponho
que está feliz por ter me feito de idiota, Harriet! Teve a ousadia de me
persuadir a alugar minha casa para aquele homem sob falsos pretextos. Todos
aqueles anos atrás você se recusou a me dizer o nome do seu amante, mas
George Lassiter gostou demais de me revelar à verdade.
– Ele é James Crawford, exatamente como sempre foi. – O tom da resposta
foi tão diferente do da garota que esmagara dez anos antes que Aubrey Wilde
piscou e recuou cauteloso. – Ele não lhe deu um nome falso e é o presidente e
dono do Live Wires Group. E também o homem que mandaria prender apenas
por ousar gostar de sua filha.
– Gostar! – rosnou. – Queria se casar com você, assim aposto que fez
muito mais do que “gostar” de você.
– Não julgue os outros pelos seus padrões, pai. – A voz era ríspida.
– Que diabos quer dizer? – Desviou os olhos. – Se está se referindo à
senhora Fox, somos apenas bons amigos.
Senhora Fox? Quem seria?

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Jessica 199.1 – Sedução Perigosa – Catherine George

– Não estou interessada no seu relacionamento com a dama, quem quer


que seja. Estou falando sobre minha mãe.
Aubrey ficou vermelho.
– Suponho que Miriam vem enchendo seu ouvido de veneno…
– Com veneno ou com a verdade? Ela me contou exatamente por que sua
reação ao meu relacionamento com James foi tão forte. – Os olhos impiedosos
de Harriet seguraram os dele. – Estava tão determinado a se casar com a
senhorita Sarah Tolliver e levar uma boa vida aqui na River House que garantiu
que isso acontecesse na mais antiga das maneiras. Não é de admirar que
pensou que James estava atrás da mesma coisa comigo.
Os olhos de Aubrey Wilde se arregalaram, as veias do pescoço incharam e
as mãos se fecharam em punhos. Por um momento, pareceu prestes a ter um
derrame. Harriet o aconselhou a se sentar.
– Você não parece bem, pai.
– Se não estou bem, a culpa é sua. E de Miriam também, maldita seja a
mulher. Sarah lhe contou tudo sempre, mas Miriam jurou que nunca diria uma
palavra…
– Mas ela disse a verdade, não disse? Na opinião dela, você teria feito tudo
para se casar com mamãe e viver aqui na River House, e foi exatamente isso
que fez. Vovô foi obrigado a aceitá-lo, a usar sua influência para conseguir sua
promoção no banco.
– Eu a conquistei por meus próprios méritos! – gritou a cor forte de novo. –
Miriam é uma víbora, sempre foi. Frank Cairns foi um santo por suportá-la.
– Ele a amava – disse Harriet apenas. – Este é o motivo mais comum para
o casamento das pessoas. Eu também amava James…
– Você era jovem demais para saber o que queria.
Ela sorriu desdenhosa.
– Tinha 19 anos, a mesma idade de mamãe quando você se casou com
ela.
– Se amava tanto Crawford, por que não teve a coragem de fugir com ele?
– Porque você ameaçou mandar prendê-lo! Amava-o demais para arriscar
arruinar a vida dele.
– Eu não teria ido tão longe. – Desviou os olhos. – Conseguir que fosse
demitido foi suficiente, afastou-o de você.
– Na verdade, não foi demitido. O senhor Lassiter apenas o transferiu para
uma cidade no Norte, para uma filial da firma. James era bom demais no
trabalho e não queria perdê-lo, como ele provou além de qualquer dúvida.
– E eu pensava que George era meu amigo. – Aubrey olhou-a com
amargura. – Sem dúvida você e Crawford riram às minhas custas durante toda
a festa.
– De jeito nenhum. James não gosta de mim mais do que gosta de você.
Acha que o rejeitei porque não o considerava bom para a senhorita Harriet
Wilde de River House, mas esperou muito tempo até encontrar a forma perfeita
de se vingar.
Aubrey olhou para ela frustrado.
– Vou devolver o maldito dinheiro…
– Sabe muito bem que isso não é possível, pai. Você assinou um contrato.
Além disso, a maior parte do dinheiro já está na conta comercial e me recuso a
devolvê-lo. – Deu de ombros. – James pode tripudiar o quanto quiser desde que
eu consiga consertar o telhado.
Ele balançou a cabeça, agora deprimido.
– Você era uma criança tão obediente…
43
Jessica 199.1 – Sedução Perigosa – Catherine George

– Qualquer mudança de personalidade em mim foi causada por você. –


Nem mesmo amenizou o golpe.
Ele se encolheu.
– Se foi assim que se sentiu todos esses anos, por que diabos arranjou um
emprego aqui quando se formou? Certamente não foi para me agradar!
– Não, foi para agradar a mamãe. Prometi a ela que garantiria que você
cuidasse da casa.
– Quando fez isso?
– Quando ela estava morrendo.
– Não sabia.
– Você não estava por perto à maior parte do tempo.
– Não suportava vê-la enfraquecendo a cada dia. – Olhou-a através de
lágrimas súbitas e as enxugou com um lenço. – E você esqueceu bem depressa
a promessa quando quis fugir com Crawford!
– Não ia deixar o país! Era uma estudante, uma adolescente, pai, e na
ocasião você tinha estabilidade financeira. Acreditei que cuidaria da River
House porque era nosso lar.
Ele fungou.
– O lar de onde se afastou no minuto em que se formou. Depois que
impedi que arruinasse sua vida, não suportou viver sob o mesmo teto comigo.
Ela acenou.
– É verdade. E não impediu que arruinasse a minha vida. Apenas garantiu
que não a partilhasse com um homem que se tornou um sucesso tão
espetacular sem nenhuma ajuda.
– Como poderia saber naquela ocasião? Pensei que fosse apenas um
alpinista social que queria viver aqui na River House.
– Como você fez com mamãe – continuou impiedosa. – Mas, diferente de
você, James não estava interessado na River House. Queria apenas a mim. –
Virou-se para sair. – Por falar na casa, recebi hoje um e-mail de Charlotte
Brewster. Parece que tem alguém mais que quer fazer um evento aqui. Vai ao
meu escritório amanhã para conversarmos. Eu o manterei informado.
– Harriet!
Ela se virou.
– Sim?
– Crawford vai voltar aqui?
– Não. Agora que deu a festa, não tem nenhum motivo para voltar.
Aubrey suspirou.
– A vida nos prega algumas peças estranhas. Agora que o conheci, gosto
do homem e de sua família também. Só queria…
– Tarde demais, pai. James conseguiu sua vingança como queria e é o fim
da história.

HARRIET VOLTOU para o chalé se sentindo vazia. Pensara naquele


confronto por tanto tempo que era difícil acreditar que finalmente dissera tudo
o que a oprimia. Não que fizesse diferença. O pai continuaria a viver como
sempre, enquanto ela se sentia doente com a reação. Talvez fosse a hora de
mudar, arranjar um emprego em outro lugar e deixar o pai enfrentar suas
responsabilidades sozinho.

DORMIU MAL, mas estava pronta quando Charlotte Brewster chegou para
a reunião. Então disse a Harriet que recebera mais ofertas para alugar a River
House. Uma delas era de uma fábrica de camas de luxo. Queriam um quarto
44
Jessica 199.1 – Sedução Perigosa – Catherine George

romântico com grandes janelas. O de Julia, com a varanda, seria perfeito. Mas
eles gostariam de pintar as paredes com outra cor. Haveria problemas?
– De jeito nenhum. Há mais alguma coisa?
– Um grupo de rock quer fazer um vídeo para o lançamento de suas
músicas mais recentes. E um canal de televisão quer filmar cenas dos próximos
episódios de uma novela nos jardins e na casa.
O humor de Harriet melhorou consideravelmente. O grupo de rock era o
sucesso do momento e a novela tinha um alto índice de audiência.
– Casas como a sua – explicou Charlotte – sempre são procuradas para
eventos de relações públicas, lançamento de produtos, fotos comerciais e de
moda. Parece que você terá uma longa lista de clientes de forma regular.
– Julia disse que poderia ajudar na área de fotos de moda.
– Dê a ela o número do meu telefone e lhe diga para me ligar. Como foi a
festa? Você gostou?
– Sim, embora não tivesse esperado gostar. Fui para me certificar de que
tudo corresse bem, mas não precisava ter me preocupado. Foi uma ótima
festa, com muita classe.

A VIDA pareceu bem monótona depois da festa. Harriet não viu mais o pai,
que a evitava com cautela. James ligou duas vezes, mas ela estava ausente e
ele não ligou de novo. Saiu para jantar com amigos uma noite e foi a um
concerto no fim de semana com Nick Corbett, e nas duas ocasiões passou o
tempo respondendo a perguntas sobre a festa.
Na saída do concerto, viu Moira Graveney.
– Oi, como vai? Gostou do concerto? Lembra-se de Nick Corbett?
– É claro, nos conhecemos no Kings Head. Boa noite, senhor Corbett.
Harriet, que bom ver você! – Moira sorriu, os olhos tão parecidos com os de
James, brilhantes de alegria. – Gostei muito da música. Adoro Mozart, mas
Marcus não, assim vim sozinha.
– Como está Claudia?
– Está se recuperando devagar. Seu problema é o tédio.
– Claudia quebrou o tornozelo na festa – esclareceu Harriet, olhando para
Nick.
– Que falta de sorte! – Então viu alguém. – Senhoras, com licença por um
momento… Um amigo me chama.
– Estou tão contente de ver você, Harriet. Ia telefonar amanhã e convidá-la
para almoçar no domingo.
– Aceito com prazer.
– Venha por volta do meio-dia. Se o clima continuar bom, almoçaremos no
jardim. – Moira acenou quando alguém entrou no vestíbulo. – Ah, meu
motorista chegou.
Harriet sorriu quando viu James Crawford se aproximando delas.
– Você é muito pontual, James – elogiou a irmã.
– E eu ousaria deixar minha irmã esperando? Além disso, não tive escolha;
Marcus passou a última meia hora me lembrando das horas. – Virou-se para
Harriet. – E como vai você?
– Melhor depois de uma dose de Mozart. – E se virou quando Nick voltou. –
Você se lembra de Nick Corbett?
James acenou frio.
– É claro. Também gosta de Mozart?
– Não realmente. Vim para acompanhar Harriet.

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Jessica 199.1 – Sedução Perigosa – Catherine George

– Hora de ir para casa. – Para surpresa de Harriet, Moira se debruçou e lhe


beijou o rosto. – Não se esqueça. Domingo, ao meio-dia.
– Estarei lá – garantiu Harriet.
– Bom ver vocês de novo. – James segurou o braço de Moira para levá-la
para fora.
– Para um homem ocupado, ele passa muito tempo por aqui – comentou
Nick, enquanto saíam também.
– A irmã se mudou para cá recentemente. Gosta demais de Moira.
– Talvez goste demais de você também. – Nick a olhou de lado.
– Não pode estar mais enganado.
– Bom saber. Que tal uma bebida no Kings Head antes de voltar para casa?
Harriet aceitou, voltou mais tarde para casa e encontrou uma mensagem
de James na secretária eletrônica.
– Dizem que a terceira vez é a da sorte, mas pelo visto é mentira. Tentarei
de novo. Ou você pode me ligar.
Sem chance. James poderia ter a impressão errada de que ela tentaria
acender de novo alguma coisa entre eles. Talvez estivesse no almoço na casa
de Moira no domingo. Não que se importasse se estivesse ou não. Apenas
desfrutaria de um bom almoço com os Graveney. Certamente seria melhor do
que limpar a casa e fazer jardinagem, sua tarefa normal aos domingos.

Capítulo Oito

NO SÁBADO seguinte, Harriet estava fazendo as tarefas que deixava para


os domingos, quando foi surpreendida por um raro telefonema de Sophie.
– Harriet… Oh, graças a Deus está em casa. Pode me fazer um favor
enorme? Por favor, por favor, diga que sim ou eu…
– Ei! Alguma coisa errada com Annabel?
– Sim… Não… Quero dizer…
– Respire fundo e se acalme. O que está errado?
– Gervase acabou de sair para levar Pilar ao aeroporto. Fomos convidados
para um almoço ao ar livre amanhã e Pilar teve que voltar às pressas para a
Espanha por causa de uma crise familiar. Tão sem consideração, poderia ter
esperado até segunda-feira. Haverá muitas pessoas importantes para os
negócios de Gervase na festa e ele terá que ir, mas as crianças não foram
convidadas e não há ninguém para cuidar de Annabel… E… E… – Sophie
começou a chorar meio histérica.
– Sophie! Pelo amor de Deus, controle-se! – Harriet suspirou. Adeus ao
almoço com os Graveney. – Está bem, eu irei, desde que garanta que sairá da
festa em tempo de eu voltar à noite. Preciso estar no trabalho bem cedo na
segunda-feira, lembre-se.
– Sinceramente, Harriet, só consegue pensar no trabalho? – Sophie parou
e se controlou depressa. – Desculpe, desculpe. Estou tão transtornada que não
consigo pensar direito. Você virá esta noite?
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Jessica 199.1 – Sedução Perigosa – Catherine George

E dormir no quarto de Annabel para que a criança não perturbasse o sono


da mãe durante a noite, agora que Pilar não estava lá?
– Não, não posso, sinto muito.
– Certamente pode adiar qualquer coisa que tenha combinado para esta
noite – soluçou Sophie. – Por favor, Harriet.
– Escute Sophie, tenho um convite para almoçar amanhã. Estou disposta a
cancelar para ajudá-la, mas não vou viajar esta noite. Irei amanhã de manhã.
– Oh, está bem. Mas chegue cedo, precisamos estar na festa ao meio-dia.
Era absurdo, pensou Harriet, se sentir tão desapontada. Então ligou para
Moira para desmarcar. Moira se mostrou aborrecida, mas garantiu que
compreendia.
– Moira, já que não posso ir amanhã, que tal você almoçar comigo na
cidade um dia desses?
– Adoraria. Quando?
Combinaram uma data e Harriet se sentiu um pouco melhor depois que
desligou. Inquieta demais para ficar sentada na casa agora imaculada numa
tarde quente de sábado, decidiu cuidar do jardim. Passou protetor solar,
prendeu os cabelos no furo traseiro de um boné de beisebol, então se sentou
no carrinho de cortar grama.
Estava suando, o short e a camiseta sem mangas sujos, os cabelos
molhados agarrados na nuca e na testa quando terminou com o gramado
principal. Esvaziou o compartimento da grama cortada num monte de
composto para adubo e voltou para levar a máquina de volta à garagem. E o
coração disparou ao ver James encostado ao carro, o rosto uma máscara de
desaprovação quando passou por ele no carrinho.
– Não posso parar – gritou –, preciso guardar isto.
Frustrada com a baixa velocidade da máquina e terrivelmente consciente
de sua aparência enquanto ele andava atrás dela, Harriet se dirigiu para a
garagem. Quando finalmente parou, desceu, tirou as luvas e James se
aproximou.
– Por que, em nome de Deus, está se escravizando assim? – A voz era
ríspida. – Aquele jardineiro não pode cortar a grama?
Ela tirou um lenço de papel do bolso e enxugou o rosto.
– É claro que pode, mas de vez em quando faço isso para deixá-lo livre
para fazer outras coisas. Veio passar o fim de semana?
– Por que cancelou o almoço de amanhã? – Ignorou a pergunta dela. –
Estava com medo de se encontrar comigo?
– É claro que não. – Irritou-se. – Escute, não posso ficar aqui, preciso de um
banho.
– Posso esperar. Tentar falar com você pelo telefone é uma frustração
maldita e decidi ter um contato pessoal depois que Moira me disse que havia
cancelado o almoço. Diga a verdade, senhorita Wilde. Há mesmo uma crise
familiar? Ou simplesmente não consegue conversar comigo educadamente
durante um almoço?
Harriet não respondeu; marchou pelo caminho de carros até o chalé,
furiosa por ele a ter surpreendido suja e suada e provavelmente com um cheiro
muito pouco agradável.
– Quer entrar? – Tirou os sapatos na varanda.
– Disse que esperaria. Mas, se prefere que não entre, posso ficar no carro.
– Não seja ridículo! – Entrou na frente e subiu correndo a escada.

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Jessica 199.1 – Sedução Perigosa – Catherine George

Quando Harriet voltou à sala de estar, sua visita inesperada estava


esparramada no sofá assistindo a um jogo de críquete na televisão. James se
levantou quando ela chegou.
– Espero que não se importe, este foi o último do dia.
– De jeito nenhum.
– Está se sentindo melhor agora, Harriet?
Ela acenou e os olhos dele entrecerraram enquanto ele lhe observava o
vestido amarelo de algodão.
– Você tinha um vestido parecido, antigamente.
Vestira-o na primeira vez que saíram juntos.
– Sério? Não me lembro.
– Não?
James olhou para ela de uma forma que Harriet preferiu ignorar.
– Estou com sede, preciso de uma bebida. Quer? Sem cerveja ou vinho,
mas posso lhe oferecer água mineral, suco de laranja, chá, café…
– Qualquer coisa… – interrompeu-se. – O que for mais fácil.
Quando Harriet voltou com dois copos de água mineral, James estava em
pé à janela, a testa franzida.
– Todas estas árvores e flores nos jardins, no entanto, tudo o que pode ver
daqui é um pedaço do gramado e um loureiro.
– Tenho uma boa vista dos jardins da janela do meu quarto – defendeu-se,
e lhe entregou um dos copos.
Ele se virou a expressão hostil.
– Eu não saberia. Quartos nunca fizeram parte do nosso relacionamento. E
você nunca me deixou voltar aqui depois daquele primeiro dia, quando vim
consertar seu computador. – A voz profunda se tornou áspera. – Como um
idiota, permiti que me tratasse como um segredinho sujo durante todo o verão
porque pensei que tudo seria diferente quando morássemos juntos. Mas isso
nunca aconteceu.
– Não, não aconteceu – concordou com a voz gelada.
– E por que diabos não pode comprar uma garrafa de vinho? – A irritação
de James era cada vez maior. – Você deve ter um bom salário e vive aqui sem
pagar aluguel…
– Na verdade, não vivo. Pago aluguel ao meu pai. E este lugar é pequeno
demais para receber amigos, assim, ter vinho ou qualquer outra coisa para
convidados não é necessário…
Interrompeu-se quando o celular tocou e pediu licença para atender
Sophie.
– Graças a Deus a encontrei. Harriet seja boazinha, por favor! Adie seu
encontro e venha esta noite. Annabel está tão ansiosa para encontrá-la e seria
muito mais conveniente…
– Para você, talvez, mas não para mim. Diga a Annabel que estarei aí pela
manhã.
– Oh, está bem! – Havia grande irritação na voz de Sophie. – Apenas
garanta que chegará a tempo.
– Estarei aí amanhã.
Harriet fechou o telefone com força.
– Desculpe, era minha irmã.
– A jornalista ou a linda mimada?
– A segunda. Sophie ainda é linda, ainda é mimada, mas agora está
casada.
– Quem é Annabel?
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Jessica 199.1 – Sedução Perigosa – Catherine George

– Minha sobrinha. A empregada de Sophie teve que viajar de repente para


a Espanha hoje. Os pais de Annabel foram convidados para um evento social
muito importante amanhã, assim vou cuidar dela. – Harriet sorriu enquanto se
sentava no assento da janela. – E é por isso que cancelei o almoço na Old
Rectory, James Crawford. Moira vai almoçar comigo durante a semana.
Os olhos frios ficaram calorosos quando ele sorriu de volta.
– Ela me contou. Está ansiosa pelo encontro.
– Eu também. Ela me disse que Claudia está melhorando, mas muito
entediada. Você a viu recentemente?
– Fui lá alguns dias atrás. Estava em Londres para um jantar e fui vê-la no
dia seguinte. – Sorriu um pouco triste. – Lily e Dominic estavam lá, mais
algumas amigas e um envergonhado Tom Bradfield. Minha presença deixou
todo mundo tão constrangido que não me demorei. De acordo com Lily, Tom
visita Claudia com regularidade desde o acidente.
Os olhos de Harriet brilharam.
– Desbancando você, James?
– Parece que sim, felizmente.
– Não devia informar Claudia disso? Ela tem uma enorme paixão por você,
James.
– Teve, talvez. Mas não mais. De qualquer maneira, meus sentimentos em
relação a ela… E a Lily… Sempre foram fraternais.
– Oh, vamos lá. Não foi muito fraternal aquela noite na Old Rectory!
James ruborizou.
– Tive motivos para me arrepender depois, quando Moira me deu uma
bronca.
O olhar de Harriet para ele foi firme.
– Eu soube, assim que cheguei à Old Rectory, por que estava lá. Poderia
ter lhe dado todas as informações pelo telefone, mas você queria que o visse
junto à família, com uma criatura linda como Claudia ofegando por você.
Ele se encolheu.
– Parece realmente imaturo quando dito assim, mas não posso negar.
Aquele dia no seu escritório pareceu tão remota e altiva que agarrei a
oportunidade de lhe mostrar o quanto me afastei daquele técnico de
computador que não servia para a senhorita Harriet Wilde da River House.
– Nunca pensei em você desse modo.
– Mas seu pai pensou.
– Sim, pensou. Mas apenas porque nunca o conheceu…
– Não por culpa minha.
– Eu sei. – Desviou o olhar. – Queria mantê-lo só para mim, para que nada
estragasse o que tínhamos juntos.
– Mas quando lhe contou que pretendíamos morar juntos, ele não gostou.
Ela acenou.
– Papai ficou totalmente contra.
Ele sorriu sardônico.
– Seu pai dificilmente a prenderia no sótão e a manteria a pão e água,
Harriet. Podia ter saído de casa se realmente quisesse. Foi um problema de
dinheiro? Não conseguiria fazer a faculdade sem o apoio dele?
Teve vontade de tomar o caminho mais fácil e dizer que sim. Mas não
conseguiu.
– Tinha um fundo para a faculdade deixado por minha mãe.
Os olhos de James escureceram.

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Jessica 199.1 – Sedução Perigosa – Catherine George

– Então, por que diabos não partiu comigo? – exigiu a voz mais áspera. –
Tinha medo de que eu quisesse partilhar do fundo?
– Não, James. – A voz agora estava cansada. – Foi por isso que veio aqui
hoje, para desenterrar uma história antiga?
– Não. Acredite ou não, pensei que pudesse estar doente. – A boca
retorceu. – Em vez disso, encontrei-a cortando grama naquela maldita máquina
com todo esse calor. E amanhã vai cuidar o dia todo da filha de sua irmã.
Quantos anos têm?
– Três.
– Você sempre larga tudo para cuidar dela?
– Apenas quando há uma crise. Embora a ideia de Sophie sobre crise seja
diferente da minha. Sempre foi a rainha do drama.
– Vocês não se dão bem?
– Ela tem ciúme de mim porque sou eu que vivo em casa com papai.
– E, no entanto, é você que ela chama numa crise.
– Vivo a apenas uma hora de carro de distância e Julia mora em Londres. –
De repente, Harriet sorriu. – Não que Sophie teria sorte com Julia. Ela não é
exatamente do tipo que cuida de crianças.
– E você é.
– Sim. Um dia na companhia de Annabel é um prazer, não um trabalho.
– Na verdade, tive outro motivo para invadir sua torre de marfim.
Ela ergueu as sobrancelhas.
– Não é uma torre, James!
– Mas tem o mesmo objetivo. É onde você se esconde do mundo.
– Não me escondo.
– Então, se um homem quiser levá-la para a cama, é sempre na casa dele,
não na sua?
– Mais ou menos. E quanto a você? Não perguntei onde mora.
– Comprei uma casa perto de Cheltenham há dois anos. Estou reformando-
a devagar. O lugar é tombado, assim preciso ter cuidado. – Franziu a testa. –
Seu pai já sabe quem eu sou?
– Com certeza. O senhor Lassiter teve muito prazer em lhe contar. –
Harriet tomou o resto da água. – Papai ficou tão furioso que temi que tivesse
um derrame. Gritou e xingou por muito tempo, mas no final a tempestade
passou. – Sorriu triste. – A parte realmente irônica foi que ele gostou de você e
de sua família. De alguma forma, acho que isso foi o pior quando descobriu
quem você é.
James a observou com simpatia.
– Um relacionamento tenso com seu pai deve ser difícil. Meus pais
morreram relativamente jovens, mas Dan e eu tivemos sorte porque tínhamos
Moira.
– Muita sorte mesmo. – Harriet suspirou. – Lamento muito perder o almoço
com ela amanhã. Vou pensar em você com inveja enquanto comer fatias de
peixe.
– Só então? – Havia uma nova intensidade no olhar dele.
– Na verdade, não. Vou pensar em você cada vez que assinar um cheque
para os homens que estão consertando o telhado!
– Vi os andaimes quando estacionei o carro. Quando eles terminam?
– Semana que vem. E quero que terminem logo porque minha irmã está
organizando fotos de moda aqui para a revista dela e depois um canal de
televisão quer fazer algumas cenas internas e externas para uma novela. –

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Jessica 199.1 – Sedução Perigosa – Catherine George

Harriet sorriu feliz. – Você começou a rodar a bola com a festa, assim sua
vingança ricocheteou, James. Deu à River House mais tempo de vida.
James deixou o copo sobre a mesa e a puxou para seus braços.
– Nunca pensa em mais nada além desta maldita casa?
Beijou-lhe a boca que ela abrira para protestar, os braços a esmagando
com tanta força que ela não conseguiu respirar. O beijo era pura punição. Ela
perdeu o controle, mordeu-lhe a língua e James praguejou e a soltou.
Cega, Harriet correu para a cozinha e cortou um pedaço de toalha de
papel. Limpou a boca, então levou uma tira para James.
– Aqui. – A voz era gelada. – Você está sangrando.
Ele pressionou o papel na ponta da língua, observando-a com rancor.
– Tudo o que precisava fazer era dizer “não”.
– Diria se pudesse. Por que tudo isso de novo, James? Não conseguiu sua
vingança ao usar a casa?
– Pelo amor de Deus, pare de falar sobre a casa. A casa onde não vive que
não vai herdar e, no entanto, passa a vida se escravizando para manter.
Quando vai viver a vida, Harriet? – Os olhos tinham um brilho quase feroz. –
Isso é tudo o que temos e é curto. Inferno, de que adianta? – Respirou fundo e
suas maneiras de repente se tornaram formais. – Peço desculpas.
– Aceitas. – Virou-se e se dirigiu para a porta. – Não peço desculpas por
mordê-lo.
– Você desenvolveu tendências violentas com a maturidade – observou
enquanto passava por ela. – É assim com todos os seus homens?
– Nunca houve motivo. Eles me tratam com respeito.
Os olhos dele brilharam maliciosos.
– Que tédio! Adeus, Harriet.
Cheia demais de emoções para confiar na voz, fechou a porta sem uma
palavra, então gritou quando a porta se abriu de repente e James entrou,
tomou-a nos braços e a beijou de novo, mas, dessa vez, com a antiga magia
persuasiva que ela jamais encontrara em outro homem. Contra sua vontade,
Harriet sentiu cada nervo respondendo ao toque dele até que, subitamente,
estava livre.
– Este é o meu verdadeiro pedido de desculpas. – A voz estava rouca
enquanto ele a deixava imobilizada e saía. Virou-se. – Apenas para registro, se
desmarcou o almoço com Moira para me evitar, não precisava ter se
incomodado. Não estarei lá.
Harriet encarou a porta que ele havia fechado e se deixou cair no sofá,
sentindo como se toda a energia a tivesse abandonado. Lágrimas lhe
encheram os olhos e desceram sobre o rosto ruborizado. Maldito James
Crawford e seus beijos! Agora que estava de volta à sua vida, a resignação que
lhe custara tanto seria difícil de manter.

Capítulo Nove
51
Jessica 199.1 – Sedução Perigosa – Catherine George

AS COISAS começaram mal na manhã seguinte. O carro de Harriet se


recusou a pegar, o pai estava fora, a oficina mecânica que usava estava
fechada no domingo e foi obrigada a fazer uma corrida muito cara de táxi até a
grande e moderna casa dos Barclay em Pennington. Quando chegou, teve uma
recepção mista: amigável de Gervase, impaciente de Sophie e sem sinal de
Annabel, que geralmente se jogava nos braços da tia no momento em que
Harriet passava pela porta.
– Você chegou muito tarde – reclamou Sophie. – Já passa de onze e meia!
– O carro não pegou e tive que chamar um táxi. Onde está Annabel?
– Dormindo. Está com um leve resfriado.
– Mais do que isso, está com febre. – Gervase observou a esposa, inquieto.
– Não tenho certeza se você deve deixá-la, querida.
Sophie enrijeceu.
– Perder o almoço? Por quê? É apenas um resfriado e Harriet é mais do que
capaz de cuidar dela. É boa com Annabel. – Virou-se para a irmã. – Não se
importa se eu for não é?
– Não. – Secretamente, Harriet estava impressionada por Sophie querer
deixar Annabel quando a menina não estava bem. – Vão para muito longe?
– Não, apenas alguns minutos de caminhada. Poderemos voltar logo se
precisar de nós. – Gervase lhe beijou o rosto. – Obrigado por nos ajudar,
Harriet.
Sophie pareceu arrependida.
– Sim, é verdade. Embora tivesse medo de que não chegasse a tempo.
– Nesse caso, teríamos chegado tarde, o que está muito na moda. Vamos
reembolsá-la pelo táxi, Harriet.
Gervase Barclay, alto, corpulento e muito bem vestido, 20 anos mais velho
do que a esposa, parecia exatamente o que era um homem de negócios rico e
feliz consigo mesmo.
E então Sophie decidiu que o vestido que usava não era adequado e
decidiu trocá-lo. Subiu rapidamente a escada.
– Veja como está Annabel! – gritou Gervase, então sorriu para Harriet. –
Sophie ficou arrasada quando Pilar precisou partir de repente. A mãe dela
adoeceu e Sophie se sente perdida sem ela. Estaremos de volta às quatro
horas, mas, se houver qualquer coisa, ligue para meu celular.
Então ouviram o choro que vinha do andar superior.
– Vocês podem ir, cuidarei de Annabel.
Harriet subiu e foi para o quarto da criança, onde encontrou Sophie, já
com outro vestido, tentando acalmar a filha. A menina estendeu os braços para
a tia.
– Quero descer – soluçou.
– Então vamos descer. – Harriet a pegou no colo e ficou alarmada com o
calor do pequeno corpo. – Vamos primeiro lavar seu rosto e então nos enroscar
no sofá. Diga adeus para a mamãe. – Fez um movimento com a mão para
Sophie, que mostrou um vidro na mesinha de cabeceira.
– Dê-lhe uma colher depois do almoço. Deixei muitas coisas prontas na
geladeira, mas se ela não quiser lhe dê uma fruta. – Virou-se para a filha. – Seja
boazinha com sua tia, querida. – Beijou a cabeça da menina e saiu depressa.
52
Jessica 199.1 – Sedução Perigosa – Catherine George

Harriet pegou uma camisola e levou a criança infeliz para o banheiro.


Lavou-lhe o rosto quente, as mãos e lhe vestiu a camisola limpa.
– Pronto, vai se sentir melhor agora.
– Pilar vai voltar titia?
– É claro que sim.
Harriet sinceramente esperava que fosse verdade. Pilar era a grande
referência da vida da sobrinha. Sophie adorava a filha, mas não gostava do
trabalho de cuidar dela.
Harriet calçou os chinelinhos que Annabel queria e desceu com ela para a
cozinha. Sentou-a na cadeira especial, verificou a geladeira e viu uma salada
muito tentadora, claramente destinada à babá, além de outros pratos para o
almoço da criança.
– O que você quer docinho? Massa? Ovos mexidos?
– Uma banana, por favor. – A menina estava muito rouca.
Harriet cortou a banana e a levou para a mesa com um copinho de
iogurte.
– Consegue comer sozinha ou quer que a ajude?
– Quero que me ajude. Posso sentar no seu colo? A cadeira está me
machucando.
– É claro. Mas que tal levar uma bandeja para a saleta de televisão? Assim
pode ver um de seus DVDs enquanto come.
Annabel se entusiasmou.
– Mas no seu colo.
Conseguiu que a menina comesse a metade do almoço e, quando lhe deu
água, ela estava pronta para dormir de novo.
– Vamos tomar o remédio primeiro, depois pode dormir.
– Aqui com você!
– Pode apostar.
Depois de lhe dar o remédio, Harriet se acomodou no sofá com a menina
no colo e se sentiu aliviada quando o corpinho relaxou contra o dela. E sorriu
quando ela fez o pedido inevitável.
– História, titia. – A rouquidão havia piorado e Harriet se preocupou ainda
mais. Aquilo não era apenas um resfriado.
– Era uma vez… – começou a contar a história predileta da menina, sobre
três garotinhas que viviam numa casa enorme à margem de um rio.
A menina logo adormeceu. No entanto, foi o único interlúdio tranqüilo da
tarde. Quando Sophie não voltou as quatro, Harriet decidiu ligar para o celular
de Gervase, mas, antes que pudesse pegar o telefone, Annabel vomitou e ela
levou algum tempo limpando a menina, vestindo-lhe uma camisola limpa e
convencendo-a a tomar um pouco de água.
– Vamos pedir a papai e mamãe que voltem para casa, está bem?
– Quero que você fique aqui, titia.
– Depois que mamãe e papai voltarem, veremos, docinho.
Quando Harriet falou com Gervase, ele se mostrou arrependido.
– Deus, sinto muito, Harriet. Devíamos ter partido há muito tempo. Vou
procurar Sophie. É uma boa caminhada, mas chegaremos logo aí.
Ao pensar nos saltos altos de Sophie, Harriet não acreditou, mas, para sua
surpresa, chegaram logo depois. Sophie correu para a filha e gritou quando
sentiu a febre no rosto de Annabel.
– No que estava pensando? – acusou. – Por que diabos não ligou antes?

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Jessica 199.1 – Sedução Perigosa – Catherine George

– Quando não chegaram às quatro horas, como prometeram, demorei um


pouco porque Annabel vomitou de novo e precisei limpá-la e tranqüilizá-la.
Precisa chamar um médico agora.
Gervase pegou o celular.
– Vou chamar.
Sophie tentou pegar Annabel, mas ela se agarrou a Harriet.
– Quero titia!
– Bem, isso não é nada engraçado… – E então correu, a mão sobre a boca,
para o banheiro, onde vomitou.
Harriet se sentou de novo no sofá com Annabel. Gervase agradeceu a
alguém, fechou o telefone e passou a mão pelos cabelos, olhando a filha infeliz.
– O médico estará aqui assim que puder. Não devíamos tê-la deixado, está
com febre muito alta.
– Sophie disse que era importante que você fosse.
– Consegui fazer alguns contatos úteis, é claro. Mas, inferno, nada tem
mais importância do que Annabel. Não a teria deixado com mais ninguém além
de você, Harriet, incluindo Pilar.
– Obrigada. Mas como voltou com tanta rapidez?
– Conseguimos uma carona com um dos convidados… O que me lembra,
deixei-o sozinho na sala de estar. – Ergueu o olhar quando Sophie voltou muito
pálida. – Sente-se melhor?
– A lagosta deve ter me feito mal.
– Você bebeu demais, assim como eu! Foi inacreditavelmente
irresponsável da nossa parte, quando nossa filha está doente.
– Sabia que ficaria bem com Harriet – defendeu-se Sophie.
Seguiu-se uma discussão e, de repente, Sophie começou a chorar,
soluçando alto, o que assustou Annabel e a fez chorar também.
– Não chore querida – tranquilizou Harriet. – Mamãe está com dor de
cabeça e precisa fazer um chá. – Olhou deliberadamente para Sophie. – E eu
também gostaria de tomar.
As lágrimas de Sophie secaram diante do olhar severo do marido.
– Certo. – A voz estava rouca quando acariciou a cabeça da filha ao sair. –
Mamãe vai lhe trazer um suco.
– Talvez possa servir também uma bebida para o nosso bom samaritano.
– Pode pegar Annabel, Gervase? – Harriet sorriu. – Preciso ir ao banheiro.
– Oh, Deus, sim. – Tirou o paletó e pegou a menina do colo de Harriet. –
Pronto, pronto, queridinha, a titia não vai demorar.
Quando Harriet passou pela sala de estar de volta do banheiro, Sophie
chegou à porta e a chamou.
– Venha conhecer James Crawford, que gentilmente nos deu uma carona
da festa. James, esta é minha irmã, Harriet Wilde… Mas vocês já se conhecem.
– Deu sua risada social, então se virou quando a campainha da porta tocou. –
Deve ser o médico. Com licença.
James, elegante num terno leve de verão, olhou para Harriet em silêncio
por um momento.
– É evidente que minha presença agora é inconveniente. Preciso partir.
Mas quando você ligou para sua irmã, havia tanto pânico em sua voz que me
ofereci para trazê-los.
– Foi muito gentil de sua parte.
Gervase entrou depressa.
– Desculpe interromper, Crawford, mas o médico precisa que Harriet lhe
dê algumas informações.
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Jessica 199.1 – Sedução Perigosa – Catherine George

Quando Harriet chegou à saleta, Annabel tentou se livrar dos braços da


mãe e estendeu as mãozinhas para ela.
– Não gosto do homem, titia – soluçou.
O médico sorriu.
– Parece que perdi meu jeito com crianças. Sei que cuidou de Annabel esta
tarde, senhorita Wilde. O que lhe deu?
Sophie entregou a filha a Harriet.
– Eu lhe disse exatamente quando lhe dar o remédio. Espero que não
tenha esquecido.
Harriet lhe lançou um olhar furioso.
– É claro que não esqueci.
Harriet contou ao médico como cuidara de Annabel. Então Gervase
chegou, parecendo velho e cansado.
– O que há de errado com ela, doutor?
– Um vírus forte está atacando no momento e sua filha tem todos os
sintomas. Temo que não haja muito a fazer, a não ser lhe dar bastante líquido e
mantê-la em repouso enquanto a natureza age. – Pegou a maleta. – Preciso
sair. Entre em contato amanhã se precisar de ajuda.
Sophie acompanhou o médico até a porta e voltou depressa, um olhar
esperançoso em Harriet.
– Pode ficar mais um pouco?
– Só até Annabel estar no berço. Acha que posso tomar uma chávena de
chá agora, Sophie?
– Oh, céus, sim, é claro. Vou buscar.
– Tem certeza, Harriet? – Gervase pareceu preocupado. – Você vai
trabalhar amanhã.
Harriet olhou para o rostinho adormecido, vermelho e febril, que
repousava sobre seus seios.
– Ficarei até ela se acomodar. Odeio a palavra “vírus”.
Sophie voltou, reclamando por Harriet não ter comido a salada que
preparara para ela com tanto cuidado. Harriet não respondeu.
– Dê aqui minha filha. – Gervase estendeu os braços. – Ficarei com ela
para você tomar seu chá. Sophie vá buscar alguma coisa para sua irmã comer.
– Um pouco daquela salada seria bom, mas não se preocupe em trazer
aqui, posso comer na cozinha.
– Annabel só quer você, é melhor ficar aqui. – Sophie se afastou o corpo
rígido.
– Sophie está sofrendo de culpa – suspirou Gervase.
E deve mesmo, pensou Harriet. Tomou o chá e sorriu.
– Deus, precisava disso. Agora me dê aqui Annabel, precisa voltar para sua
visita.
Gervase entregou a menina sonolenta.
Sophie voltou com uma bandeja e a colocou ao lado de Harriet, que
agradeceu.
– Vou ver se Crawford quer outra bebida. – Gervase saiu depressa.
– Sei o que está pensando, Harriet, mas Gervase fez alguns contatos
importantes na festa. – Sophie estava defensiva. – E, por falar em festas, por
que não fomos convidados para a da River House?
Harriet deu de ombros.
– Os convites foram feitos por James Crawford, não tive nada com isso.
Papai queria ir e eu fui apenas para garantir que nada acontecesse a casa e
aos jardins. E agora tenho o dinheiro para consertar o telhado.
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Jessica 199.1 – Sedução Perigosa – Catherine George

– Isso significa que papai não terá que vender a casa?


– É um começo. Julia vai mandar uma equipe para fotos de moda e
Charlotte Brewster tem outros clientes à espera. Assim, por enquanto, a
perspectiva é um pouco melhor.
– Oh, graças a Deus! Papai está satisfeito?
– Com certeza. Isso parece delicioso, Sophie, mas prefiro deitar Annabel
antes de comer.
– Está bem. Suba e me encontrarei com você depois de ter uma palavra
com James Crawford. – Sophie lançou um olhar especulativo à irmã. – Você
nunca disse que já o conhecia.
– Foi a tanto tempo que esqueci. – Harriet saiu com a menina adormecida.
– Cuidado para não acordar Annabel quando subir preciso ir para casa…
Mas Sophie já estava saindo para o corredor. Harriet subiu, deitou a
criança, que gemeu e a acariciou até ela ficar tranqüila e voltar a dormir
profundamente. Então desceu para a sala de estar e encontrou Sophie
tentando extrair informações de James sobre a festa. Enrubesceu quando
Harriet chegou.
– Annabel está dormindo? – Havia uma expressão de culpa no olhar de
Sophie.
– Sim, mas cuidado quando for ao quarto dela.
– Teremos cuidado. – Gervase tomou a mão da esposa. – Com licença um
momento, Crawford.
Quando ficaram sozinhos, James levou Harriet até o sofá.
– Sente-se, pelo amor de Deus, parece exausta.
O que significava que ela estava horrível.
– Foi um dia difícil. A pobrezinha da Annabel está muito mal.
James se sentou ao lado dela.
– Não é da minha conta, é claro, mas se a criança estava tão doente, por
que sua irmã a deixou?
Boa pergunta.
– Sophie sabia que Annabel ficaria bem comigo.
Ele não pareceu convencido.
– Não vi seu carro diante da casa.
– Não consegui fazer o motor funcionar – bocejou –, assim peguei um táxi.
– Então vou levá-la para casa. Ou vai passar a noite aqui?
– Não posso. Tenho um compromisso com um cliente logo cedo. Escute
James, é muita gentileza sua, mas não posso permitir que faça uma viagem tão
longa e depois volte.
– Não precisa se preocupar tenho uma cama pronta na Old Rectory. –
James se levantou quando Gervase voltou à sala. – Como está sua garotinha?
– Dormindo, felizmente. Harriet pode subir por um momento? Sophie quer
falar com você.
– É claro. – Harriet sorriu para James. – Bem, se já tiver ido antes de eu
voltar, então... Adeus.
– Não estou com pressa.
Os olhos astutos de Gervase passaram de um para o outro.
– Já que está dirigindo, Crawford, que tal um café?

SOPHIE ESPERAVA Harriet no corredor diante da porta do quarto de


Annabel.
– Por favor, passe a noite aqui, Harriet. Vou precisar de ajuda com Annabel
e você é tão boa com ela.
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Jessica 199.1 – Sedução Perigosa – Catherine George

– Desculpe, mas preciso voltar. Tenho uma reunião com um cliente logo
cedo.
– Seu trabalho é mais importante do que ajudar a cuidar da sua sobrinha?
– Sophie fazia drama, como sempre.
– Uma simples festa foi mais importante para você do que ficar em casa
com sua filha. Sophie adoro Annabel, mas ganho a vida com meu emprego.
Preciso voltar para casa.
– Oh, está bem, mas terá sorte se conseguir um táxi numa tarde de
domingo! – Sophie estava tão petulante como sempre. E não percebeu que sua
atitude fez Harriet tomar uma decisão.
– James Crawford gentilmente se ofereceu para me levar.
– Nesse caso, é melhor que vá. – Sophie tocou a mão de Harriet. – Muito
obrigada por cuidar de Annabel.
– Ligo amanhã para saber como ela está.
Harriet desceu com Sophie e sorriu para James.
– Desculpe por fazê-lo esperar. Vou pegar minhas coisas.
Imediatamente James se despediu de Sophie e de Gervase, desejou
melhoras para a garotinha e pegou as coisas de Harriet.
– O que a fez mudar de ideia? – perguntou, assim que saíram de carro.
– Sophie queria que eu passasse a noite.
– Ir comigo foi o menor de dois males?
– Não, de jeito nenhum. Estou muito grata a você, James.
– Você me surpreendeu ao dizer que estava pronta para partir.
– Não pareceu surpreso.
– Aprendi a esconder meus sentimentos nos últimos anos.
– Eu também. – Havia amargura na voz dela.
– Descobri naquele dia em que entrei no seu escritório. Deve ter ficado
abalada ao descobrir que eu era o homem que queria alugar sua casa, mas
nem piscou.
– Não foi à pior parte do acordo – garantiu-a. – Quando se levantou para
falar na festa, por um momento horrível pensei que ia contar ao mundo que
alugou a River House para humilhar minha família.
Ele lançou um olhar apavorado para ela.
– Deus do céu! Certamente me conhece melhor do que isso, Harriet!
– O homem que uma vez conheci não se parecia em nada com o James em
que você se tornou.
– É evidente, se pensou que eu fosse capaz de sujeitá-la a uma
humilhação pública. E, mesmo se fosse apenas um idiota arruinaria a própria
festa antes que começasse. Posso ser muitas coisas, mas não sou idiota. Pelo
menos, não mais. – O tom de voz fez o estômago de Harriet dar um nó. – Para a
sua informação, senhorita Wilde, o bem-estar dos meus funcionários é muito
mais importante para mim do que idéias tolas sobre vingança.
O resto da viagem foi feito num silêncio tão tenso que Harriet poderia ter
chorado de alegria quando James entrou no caminho de carros para o chalé.
– Muito obrigada por me trazer para casa. – Saiu do carro antes que ele
pudesse ajudá-la.
– De nada. – A voz era distante quando lhe entregou a bolsa. – Espero que
sua sobrinha fique logo boa.
– Eu também.
A mão de Harriet tremia enquanto abria a porta. Incapaz de olhar para ele,
que sabia que estava frio e hostil, ela resmungou um “adeus” e teria entrado,
mas James lhe segurou a mão.
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Jessica 199.1 – Sedução Perigosa – Catherine George

– Harriet. Não vamos nos separar assim. – Puxou-a para si e ela se


aconchegou ao corpo dele fraca. – Por favor, prometa que vai diretamente para
a cama. Parece prestes a desmaiar.
– Estou. – Sorriu para ele. – Obrigada por me trazer em casa.
– Sempre que quiser. Durma bem.
Quando o som do motor do carro de James desapareceu, ela sentiu uma
fome súbita e se lembrou de que não comera nada o dia todo. Fez chá com
torradas, comeu e se deitou. E dormiu profundamente a noite toda. Teve
dificuldade em se levantar na manhã seguinte. A cabeça doía quando ligou
para a oficina e pediu que levassem um carro e pegassem o dela. Então ligou
para saber sobre Annabel enquanto esperava que um mecânico chegasse e
soube que o médico tinha sido chamado de novo naquela manhã.
– Contratei uma enfermeira – contou Gervase. – O médico garante que é
apenas um vírus, mas de madrugada tive medo de ser alguma coisa muito pior.
Sophie ficou histérica.
Harriet rolou os olhos. Ninguém precisava lhe dizer aquilo.
– Sinto-me culpada por não ter ficado, mas tenho reuniões…
– Pelo amor de Deus, Harriet, não se sinta culpada – interrompeu. – Você
tem um emprego. Posso pagar uma enfermeira para cuidar de Annabel.
– Diga a ela que a amo. E a Sophie, também. Vai trabalhar hoje?
– Preciso, mas só depois que a enfermeira chegar. Então volto para casa e
trabalho aqui até Annabel ficar bem.

HARRIET SENTIU dor de cabeça durante todo o dia e, mais tarde, quando
foi para casa, havia se transformado numa enxaqueca. Desesperada por uma
cama ficou arrasada quando encontrou Miriam Cairns esperando por ela.
– Trabalhando até tarde de novo? Você está horrível. – A madrinha a
beijou. – Não atendeu meu telefonema ontem. – Harriet explicou o motivo e
ofereceu chá. – Sente-se, vou fazer. E coma um sanduíche.
– Não estou com fome, quero só chá. – Harriet sorriu enquanto soltava os
cabelos. – Obrigada, Miriam.
Miriam voltou com uma bandeja com o chá, pequenos sanduíches e
bolinhos com manteiga e Harriet sorriu.
– Está me mimando!
– Já era hora de alguém fazer isso. – A voz de Miriam era áspera com a
tentativa de esconder a preocupação.
Harriet se sentiu emocionada.
– Ia ligar para você ontem à noite, mas cheguei muito tarde. O que me
lembra… Preciso saber de Annabel antes de comer.
– Ligue depois, garota.
– Não, vou fazer isso agora.
Gervase informou que Sophie estava deitada e que não houvera
mudanças no quadro de Annabel, mas, pelo menos, não estava pior. E,
felizmente, gostara da excelente enfermeira pediátrica, o que dera um pouco
de descanso aos pais. Depois de uma troca de gentilezas, Harriet desligou.
– Sophie não pôde atender? – O tom de Miriam foi ácido.
– Estava descansando. E Annabel gosta da enfermeira que contrataram.
Miriam rosnou.
– Não tive filhos, assim não sei, mas me lembro de que sua mãe sempre
cuidou de vocês três quando tinham essas doenças infantis. Sophie poderia
bem cuidar de uma criança.
– Mamãe tinha a ajuda de Margaret – lembrou Harriet.
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Jessica 199.1 – Sedução Perigosa – Catherine George

– Sim, e era maravilhosa. Mas era Sarah que cuidava de vocês e se


levantava durante a noite quando choravam!
– Verdade. – Harriet suspirou. – Até pensei em tirar uma licença para…
– Não para cuidar de Annabel! – Miriam soava incrédula. – Deixe que
Sophie tome conta da própria filha. Melhor, encontre alguém adequado e tenha
um filho seu. – Os olhos brilharam. – Soube que tem visto muito o homem que
substituiu seu pai no banco.
– Mesmo? Nick Corbett é apenas uma companhia agradável para sair de
vez em quando.
– Melhor do que nada, suponho. – Miriam se levantou. – Fique aí, posso sair
sozinha. Então, Aubrey descobriu para quem alugou a River House?
– Com certeza. Tivemos uma briga brava.
Um brilho beligerante iluminou os olhos de Miriam.
– Se ele aborrecê-la, me conte que lido com ele.
Harriet balançou a cabeça.
– Preciso lhe dar notícias sobre Annabel, ele adora a menina.
– Ela é adorável – admitiu Miriam. – O que é um milagre, com uma mãe
como Sophie. Agora termine seu chá e vá para a cama, querida.
– Certamente. Obrigada pela visita. É bom ser mimada, poderia me
acostumar.
Miriam riu e surpreendeu Harriet com um beijo de boa noite.
NO FINAL, HARRIET não conseguiu comer. Tomou analgésicos, bebeu o
chá, ligou para o pai e deixou uma mensagem sobre a neta. E então, o dever
cumprido, se esticou no sofá. Dentro de alguns minutos se levantaria e tiraria a
roupa…
Acordou assustada com o som de batidas fortes na porta da frente.
Arrastou-se para fora do sofá, à cabeça estalando de dor. Abriu a porta e
encontrou James, de terno e furioso, os olhos brilhantes. Ela conseguiu
resmungar um cumprimento e então a escuridão a engoliu. Quando abriu os
olhos, estava de volta ao sofá e James gritava para que ela acordasse.
– Por favor – a voz era muito fraca –, pare de gritar… Estou com uma
terrível dor de cabeça.
– Entre outras coisas. – A voz abaixou, mas ficou mais severa. – Você está
queimando. O que diabos faço agora? Não posso deixá-la aqui assim. Você
deve ter sido contaminada pelo vírus da sua sobrinha.
– É claro que não, é cedo demais para saber. – Sentou-se cuidadosamente.
– Estou apenas cansada. – Ergueu os olhos para ele, curiosa. – O que está
fazendo aqui?
– Vou passar a noite na casa de Moira e pensei em ver como você estava.
Preciso conversar com você. – Assomou sobre ela, desaprovador, enquanto
observava a bandeja ao lado do sofá. – Se essa imitação de refeição foi o seu
jantar, não comeu nada.
– Ia comer, mas dormi. – Tentou se manter digna. – Gostaria de um
bolinho?
– Não, não gostaria. – A voz era cada vez mais irritada. – Quero levá-la
para o seu quarto e garantir que esteja segura na cama antes de partir… – A
boca se mexeu num arremedo de sorriso. – Não se preocupe, não estou
sugerindo me deitar com você.
– Não achei que estivesse. – Havia um pouco de irritação no tom fraco.
Levantou-se, obrigando as pernas a se firmarem. – Sou perfeitamente capaz de
me deitar sozinha.
– Ainda está usando as roupas de trabalho. Fazendo mais horas extras?
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Jessica 199.1 – Sedução Perigosa – Catherine George

– Cheguei tarde a casa e encontrei minha madrinha me esperando, assim


não tive a oportunidade de me trocar. Ela me fez o lanche sobre o qual você foi
tão rude e me disse para ir para a cama. O que estava prestes a fazer quando
você chegou. Satisfeito?
– Não, não estou. Você estava muito mal, mulher. Se não tivesse batido…
– Martelado!
– As luzes estavam acesas, assim quis me certificar de que estava bem. E
não está.
– Agora estou. Sobre o que queria conversar?
– Destino.
– Definição.
– Puxa, que palavras grandes você usa, vovó! – Sorriu e, de repente, a
tensão diminuiu, e Harriet conseguiu respirar bem pela primeira vez desde que
ele chegara. – Para começar, foi o destino que me levou a Charlotte Brewster
quando procurava um lugar diferente para a festa dos meus funcionários.
Imagine o que senti quando soube que você é a contadora da senhora
Brewster e, melhor ainda, que a River House poderia ser alugada. – James se
sentou no braço do sofá, o olhar nela.
– Sem dúvida ficou eufórico. – O tom agora era seco.
– Foi como se o Natal tivesse chegado antes da hora! Tive um pequeno
desapontamento quando fui ao banco e descobri que seu pai não era mais o
gerente. Mas quando a vi e soube que você ainda estava por aqui e
provavelmente ainda vivendo em casa com o papai, percebi que podia matar
dois coelhos com uma pedrada só ao alugar sua casa. – James sorriu amargo. –
Apenas, não foi nada disso.
– Por que os coelhos se beneficiaram da publicidade de sua festa?
– E por que, se a vingança é um prato que se come frio, estou tendo uma
dificuldade maldita para engolir?
Harriet sentiu que ele falava a verdade. E também o calor que emanava
do corpo dele, seu cheiro… Os feromônios poderosos que, de repente, foram
demais para ela. Com um pedido rápido de desculpas, levantou-se, correu para
a pia da cozinha e vomitou.
Uma mão passou por ela, abriu a torneira de água fria e estendeu um
pano de prato úmido. Harriet o agarrou e o comprimiu contra o rosto quente e
suado.
– Nêmeses – resmungou dentro dela, e sentiu o corpo de James endurecer
atrás dela.
– Está delirando? – Virou-a para ele.
Harriet tirou o pano do rosto, afastou mechas úmidas de cabelos do rosto
com grande dignidade, agradeceu-lhe e vacilou quando tentou endireitar o
corpo. Garantiu a James que estava bem agora. Ele lhe observou o rosto pálido,
então a tomou nos braços e a levou para a escada.
– O que está fazendo?
– Levando-a para a cama. – A voz saiu entre dentes cerrados, então viu
uma porta aberta. – Este é o seu quarto?
Harriet ficou tonta quando ele a deitou e se viu cercada por um nevoeiro
cinzento.
– James… – Havia um súbito e desesperado apelo em sua voz.
– Estou aqui.
Ele tirou os cabelos do rosto dela, então lhe desabotoou o paletó e o
puxou pelos braços sem forças. Ela não protestou quando lhe removeu a saia;
ele sentiu como se estivesse despindo uma boneca sem vida. Ela o deixou
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Jessica 199.1 – Sedução Perigosa – Catherine George

fazer o que queria e não havia nada de sexual no processo. A ternura que
sentira pela adolescente Harriet não havia desaparecido, apenas estivera
adormecida e despertou completamente enquanto a deixava vestida apenas
com o lingerie e a cobria. Ficou tenso quando os braços dela se estenderam e
os olhos se abriram e se fixaram, maravilhados, no rosto dele.
– James?
– Vá dormir. – A voz ficou rouca e todos os músculos enrijeceram quando
ela lhe puxou o rosto e o beijou.
– Suponho que estou sonhando de novo. – Os braços caíram sem forças.
Abalado, James ficou olhando para ela. Se estava delirante, talvez tivesse
pegado o vírus da sobrinha. Ou talvez apenas precisasse de um bom descanso.
Praguejou silenciosamente quando alguém bateu à porta do chalé. Se fosse
seu amigo banqueiro, se livraria dele antes que acordasse Harriet. James
desceu a escada em silêncio, correu para a porta e a abriu pouco antes de
Aubrey Wilde bater de novo.

Capítulo Dez

OS DOIS homens se entreolharam com uma antipatia recíproca que


nenhum dos dois se esforçou para esconder. Para James, aquele era o homem
que destruíra seu relacionamento com a única mulher que amara. Para Aubrey,
o homem alto e dominador que o observava com tanta hostilidade era o ladrão
que lhe roubara alguma coisa que jamais valorizara antes até o amor de
Harriet lhe ser negado.
Aubrey não se deu ao trabalho de cumprimentar.
– Preciso falar em particular com minha filha.
– Harriet está de cama, doente. – A voz de James era inexpressiva. –
Preciso ir, assim depende de você garantir que ela fique em segurança.
Aubrey olhou, indignado, enquanto James andava para o carro e partia.
Depois de uma leve hesitação, entrou e fechou a porta. Ouviu movimentos no
andar superior, a água correndo no banheiro, e tossiu para anunciar sua
presença.
– James? – chamou Harriet, rouca, enquanto vestia o roupão.
– Não, sou eu.
Então estivera sonhando. Desceu cuidadosamente a escada. Se apenas
sua cabeça parasse de martelar...
– Recebeu meu recado? – Os olhos estavam entrecerrados.
– Sim. Alguma coisa errada com Annabel?
Ela acenou com cuidado.
– Está com algum tipo de vírus, pobrezinha.
Ele lhe lançou um olhar preocupado.
– Você não parece nada bem, deve voltar para a cama.
Por uma vez Harriet concordou completamente com o pai.
– Desci apenas para pegar água, vou voltar para a cama e ficar lá.
A boca do pai afinou.
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Jessica 199.1 – Sedução Perigosa – Catherine George

– Crawford abriu sua porta para mim. O que estava fazendo aqui?
Harriet engoliu. Então não imaginara coisas.
– Veio saber como Annabel está. Foi ao mesmo almoço a que Sophie e
Gervase compareceram e me deu uma carona da casa de Sophie. Tive que ir
de táxi, meu carro não pegou.
– Compreendo. Deve tirar uma folga amanhã. Vou pedir que Margaret
venha ver você pela manhã. Agora vá dormir. Boa noite.
Harriet trancou a porta depois que ele saiu, pegou duas garrafas de água
tônica na geladeira e subiu. Gemeu de alívio quando finalmente se deitou. A
noite foi longa e desconfortável. Acordava assustada quando cochilava, sentia-
se quente e depois gelada, todo o corpo doía. Estava desesperada para dormir,
mas a dor de cabeça não deixava. Na madrugada, tomou mais analgésicos,
ergueu os travesseiros na cabeceira da cama e apenas ficou deitada olhando o
céu clarear. Quando o escritório abriu, ela ligou para dizer que estava com
enxaqueca e não trabalharia. Lydia prometeu avisar aos sócios.
Pouco depois, Margaret chegou com uma bandeja com o desjejum e
aconselhou Harriet a comer antes de tomar mais analgésicos.
– Obrigada, Margaret. Desculpe por aumentar sua carga de trabalho. –
Estava inquieta e sonolenta.
– Bobagem. Quer um ovo quente com o chá?
Harriet estremeceu.
– Não, apenas chá com torradas.
– Precisa de mais alguma coisa?
– Não, obrigada.
Margaret saiu do quarto e Harriet ligou para Sophie e perguntou sobre
Annabel. Soube que a menina estava melhorando depressa, mas a irmã tinha
certeza de que tinha pegado o mesmo vírus.
– Por favor, tire um dia de folga e venha para cá, Harriet. Gervase precisa
trabalhar e estou me sentindo muito mal.
– A enfermeira ainda está aí?
– Sim, mas cuida apenas de Annabel. Preciso de alguém que cuide de
mim!
– Sinto muito, Sophie. Estou de cama com uma enxaqueca. Eu me sinto
muito mal também.
– O quê? Mas você nunca fica doente!
Harriet ergueu os olhos quando Margaret voltou.
– Sophie – sussurrou, e Margaret imediatamente pegou o telefone.
– É Margaret Rogers. Sua irmã não está bem e não pode conversar Sophie.
Quando melhorar, ela lhe telefonará. – Ouviu por algum tempo, então rolou os
olhos para Harriet. – Que pena. Espero que melhore logo. – Desligou e entregou
o celular a Harriet.
– Obrigada, Margaret. Sophie queria que eu fosse cuidar dela.
O olhar de Margaret mostrou-lhe claramente o que pensava da ideia.
– Vou fazer mais chá.
Harriet deixou uma mensagem no telefone da Old Rectory para adiar o
almoço com Moira, então se entregou ao sono que seu corpo exigia. Quando
acordou e viu Margaret entrar na ponta dos pés, era começo da tarde.
– Seu pai está aqui e quer ver você, Harriet. Está disposta?
Harriet piscou como uma corujinha.
– Preciso de alguns minutos para me aprontar.
Quando voltou a se deitar na cama que Margaret arrumara, Aubrey bateu
à porta, mas não entrou.
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Jessica 199.1 – Sedução Perigosa – Catherine George

– Como está, Harriet?


– A dor melhorou um pouco, mas uma enxaqueca sempre me deixa fraca.
– É evidente que você tem trabalhado demais. Precisa de férias.
Ela franziu a testa quando a campainha da porta tocou.
– Vou ver quem é. Margaret saiu para fazer compras.
Voltou um pouco depois com uma enorme cesta de flores.
– Trouxe apenas para você ver, mas vou levá-las para baixo para o
perfume não lhe fazer mal.
Harriet observou o enorme buquê e sorriu quando leu a mensagem no
cartão.
Carvão para uma carvoaria de novo. Fique boa logo. J.
– São de James – disse ao pai.
O queixo dele endureceu.
– Compreendo. Vou levá-las para baixo e deixá-la em paz. Margaret não
vai demorar. Precisa de alguma coisa?
– Não, obrigada, estou com sono de novo.
– Liguei para a garagem, seu carro está pronto e alguém o trará esta
tarde.

NO DIA seguinte, Harriet tomou um banho de chuveiro, se vestiu e se


deitou no sofá. Tentou ler, mas se sentiu tão entediada que adorou quando
Moira Graveney apareceu.
– Se não quiser uma visita, vou embora, Harriet.
– Não, fique por favor.
Moira se sentou na ponta do sofá e observou Harriet.
– Está se sentindo melhor? Mesmo? Não parece muito bem.
– Enxaquecas fazem isso comigo, mas amanhã estarei ótima.
– Alguém está cuidando de você?
– Margaret Rogers, a mulher maravilha que cuida da River House. E
preciso estar bem logo porque Julia vai trazer a equipe dela para tirar fotos
para a revista.
Moira riu.
– Parece divertido. – Viu as flores sobre a mesa?
– Alguém foi muito extravagante. O senhor Corbett?
– Não, seu irmão. Vamos tomar um café. – Harriet se levantou.
– Posso fazê-lo – ofereceu Moira, mas Harriet balançou a cabeça.
– Preciso retomar minha vida normal.
Foi para a cozinha e logo depois voltou com o café e um prato de biscoitos
de amêndoas.
– Margaret fez estes biscoitos.
– Diga a ela que, se algum dia quiser trocar de emprego, há um esperando
por ela na Old Rectory. Isto está divino. – Moira deixou a xícara na bandeja. – E,
agora, vamos falar sobre o motivo da minha visita. Naturalmente, queria saber
como você está, mas também tenho uma proposta.
– Parece excitante!
– Marcus tem uma cabana numa pequena praia particular em
Pembrokeshire. Você precisa de férias, então, por que não tira uns dias de folga
e vai para lá? Seria bom apenas ficar deitada ao sol e jantar no pub local. O
que diz?
Harriet ficou tentada.
– Parece que não consigo recusar.

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Jessica 199.1 – Sedução Perigosa – Catherine George

– Então não recuse. Acho que vai gostar. Leve alguns alimentos básicos,
mas há uma boa mercearia na aldeia. – Moira sorriu. – E a cabana estará
imaculada porque a senhora Pugh, que cuida dela para nós, acredita que
limpeza é igual à santidade, nessa ordem. Então, o que diz? – Tirou uma chave
da bolsa e balançou-a diante dos olhos de Harriet.
Por que não fazer uma coisa impulsiva por uma vez? Harriet sorriu
contente.
– Digo “sim”, senhora Graveney, e lhe agradeço. – Pensou um pouco. – Vou
para lá amanhã, se estiver bem para você.
– Totalmente. E agora me conte como está sua sobrinha.
– Muito melhor. E mais feliz agora, que soube que Pilar a garota espanhola
que cuida dela, vai voltar logo. Uma felicidade também para minha irmã. Ela
achou que tinha pegado o vírus, mas, quando soube que Pilar estaria de volta,
ficou logo boa.
– James me disse que conheceu sua irmã num almoço, enquanto você
estava cuidando da filha dela, e que depois a trouxe para casa porque você
parecia exausta.
– Foi muito gentil da parte dele.
– Ele disse que ela não se parece nem um pouco com você.
– Não. Ela é a bonita, Julia é a brilhante e eu…
– É a que trabalha muito e em quem todos se apóiam, segundo disse seu
pai na festa. – Moira sorriu. – Mas isso foi difícil de engolir quando você dançou
tango!
Harriet também sorriu.
– De vez em quando fico um pouco louca, como todo mundo. E vou ficar
agora, pegar sua chave e fugir para Gales!
– Este é o espírito.
Harriet ficou calada e pensou… Como pensara tantas vezes… Naquele
episódio onírico em seu quarto. Teria mesmo beijado James ou apenas quisera?
De qualquer maneira, não queria vê-lo.
– Pode me fazer um favor? Transmitir a James meu agradecimento pelas
flores? Diga-lhe que gostei muito.
Depois que Moira saiu, a recuperação de Harriet foi rápida ao pensar em
alguns dias distante da River House que, por mais que amasse, parecia uma
pedra sobre seus ombros. Seu humor melhorou ainda mais quando o pai
chegou com um pacote com um livro policial e o DVD de um filme que há muito
queria ver. Era um presente de Nick.
– Que gentileza a dele!
– Comentei com ele que você não estava bem, quando estive no banco
essa manhã. À tarde, ele me pediu para passar lá e pegar isto. Está com
aparência melhor, Harriet.
Ela lhe contou sobre a viagem que faria e se surpreendeu com a total
aprovação do pai.
– Esplêndida ideia… Vai lhe fazer muito bem. Espero que o clima esteja
bom. Você precisa estar em boa forma para as fotos de moda de Julia, assim,
descanse o quanto puder.
– Já tem um lugar onde ficar durante as fotos?
– Oh, sim, sem problema. – Não deu detalhes e ela não perguntou.
Harriet ficou pensativa depois que ele partiu. Ficara surpreendida ao saber
que o pai pensava nela com aprovação e a considerava a mais confiável das
irmãs. Os momentos de loucura sobre os quais falara com Moira tinham sido

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Jessica 199.1 – Sedução Perigosa – Catherine George

poucos, mas alguns resultaram em mudanças radicais em sua vida. O primeiro


tinha sido seu plano de sair de casa com James Crawford.
Quando o pai a impedira, sua decisão de morar sozinha no chalé pusera
um ponto final no carinho entre eles. No entanto, ultimamente, depois que se
livrara da raiva por ter sido enganado sobre James e a festa, Aubrey Wilde se
mostrara mais conciliador do que nunca, o que lhe despertou suspeitas. Se
imaginava que voltaria a viver com ele na River House, estava muito
enganado.

Capítulo Onze

MOIRA GRAVENEY ligou para o irmão bem tarde naquela mesma noite.
– Algum problema, querida?
– Temo que sim, mas ainda não sei exatamente qual é. Marcus precisou ir
urgentemente para Londres por causa de uma crise familiar. Vai me ligar mais
tarde, quando souber o que está errado.
– Com Claudia, como sempre?
– Não, dessa vez é com Lily. Marcus não sabe detalhes. A mãe dela apenas
ligou e pediu ajuda imediata da família, e isso é tão raro que ele foi logo.
– Tente não se preocupar, e me informe quando tiver mais notícias.
– Ligo amanhã. E, antes que me esqueça, fui ver Harriet.
– Como ela está?
– Melhor. Ainda um pouco frágil, mas a enxaqueca passou. Pediu que lhe
transmitisse os agradecimentos pelas flores.
A boca de James afinou. Por que ela não ligara?
– Ouviu o que eu disse?
– Harriet mandou agradecer as flores.
– Não, o que disse depois. Sugeri que ela tirasse uma folga e lhe dei a
chave da cabana. Vai para lá amanhã, passar o fim de semana.
– É uma surpresa. Pensei que, se Harriet tirasse uma folga no trabalho que
adora, seria para cuidar da sobrinha.
– Há uma enfermeira fazendo isso. Mas, lendo nas entrelinhas, percebi que
é Harriet que cuida de todos os problemas da família Wilde.
– E, no entanto, vai agora fazer o que quer. É impressionante.
– Não seja cínico, James. Não sei o que aconteceu entre vocês, mas gosto
muito de Harriet.
Não é a única, pensou com amargura enquanto desligava o celular.
Embora “gostar” não fosse a palavra certa. O que quer que sentira por Harriet
Wilde ainda estava vivo, embora ela tivesse lhe partido o coração quando
rompera com ele. Mas, logo, ele descobriria exatamente como se vingar.

HARRIET ESTAVA pronta para sair na manhã seguinte, quando o pai, para
sua surpresa chegou para ajudá-la a colocar as coisas no carro, levando uma
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Jessica 199.1 – Sedução Perigosa – Catherine George

caixa de suprimentos que Margaret havia preparado. Ele hesitou quando ela
entrou no carro, então lhe deu uma palmadinha na mão.
– Volte com um pouco de cor no rosto. Está levando remédios para o caso
de a enxaqueca voltar?
Harriet lhe garantiu que sim e partiu, se sentindo como uma garota saindo
de férias da escola quando lhe acenou um adeus. O dia foi frio e nublado
durante boa parte do percurso, mas, depois que deixou a autopista em
Carmarthen, o sol apareceu tão brilhante que precisou colocar os óculos de sol.
O Oeste de Gales lhe dava calorosas boas-vindas.
Depois de passar pela cidade de Haverfordwest, Harriet seguiu em direção
ao sol e finalmente virou numa estrada estreita e sinuosa que finalmente a
levou a uma pequena casa quadrada de dois pavimentos construída numa
saliência do rochedo, com uma trilha íngreme que levava ao pequeno trecho de
praia particular abaixo. Entrou de ré no pequeno estacionamento ao lado da
casa, saiu do carro e, a mão protegendo os olhos, olhou com prazer o
panorama. Destrancou a porta na pequena varanda e, depois de verificar
rapidamente a cozinha pequena, levou tudo do carro e guardou
escrupulosamente o alimento antes de descer para a praia para explorar.
Sem fôlego depois da descida, inspirou profundamente, deliciada com a
visão dos raios do sol refletidos nas ondas, que se quebravam na areia de
pedra em formato decrescente. Caminhou pela curta extensão da praia, deixou
que a água fria lhe molhasse os pés e então o estômago roncou. Lembrou-se
de que não havia comido nada o dia todo.
Voltou para a cabana e visitou o resto da casa antes de preparar o almoço.
Havia uma pequena sala de estar com confortáveis sofás e poltronas de
almofadas estampadas que combinavam bem com a antiga e sólida cabana. E
vira, no quarto de hóspedes, uma convidativa cama de ferro e uma grande
janela, com vista para a praia.
Depois de desfazer a pequena maleta e as sacolas, voltou para a cozinha,
ansiosa por uma refeição pela primeira vez em séculos. Fez uma salada para
comer com o presunto assado que Margaret havia preparado e comeu a uma
pequena mesa junto à janela da sala de estar. Ao som de um concerto no rádio
e com a vista da praia, pela primeira vez em muito, muito tempo, Harriet
começou a se sentir relaxada.
Deixou uma mensagem no telefone do pai, dizendo que havia chegado
bem, então voltou para a praia, para desfrutar a luz do sol. Mais tarde, depois
de uma chuveirada e uma troca de roupas, pensou em sair para jantar no pub
que Moira havia recomendado, mas já estava sentindo o cansaço da viagem e
preferiu passar um fim de tarde preguiçoso diante da televisão.
Harriet dormiu muito bem. Acordou cedo ao som dos gritos agudos das
gaivotas e correu para a janela para verificar como estava o clima. Ficou
deliciada ao descobrir que o dia estava ensolarado. Depois do desjejum,
telefonou para ter notícias de Annabel, soube que a menina estava muito
melhor e então ligou para Moira.
– Cheguei bem, o sol está brilhando e a cabana é encantadora, Moira. Não
sei como lhe agradecer me deixar ficar aqui.
– Não precisa agradecer. Vá para o sol e se divirta. É bom saber que pelo
menos uma pessoa está feliz.
Haveria alguma coisa errada com James?
– Você parece deprimida, Moira.
– Estou. Marcus teve que ir a Londres para ajudar num problema familiar e
voltou com uma Lily muito infeliz.
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Jessica 199.1 – Sedução Perigosa – Catherine George

– Oh, pobre Lily. Não quero ser indiscreta, mas sabe o que está errado?
– Ela não diz. Marcus está preocupado, o pobre querido. Fica indiferente
com os dramas de Claudia, mas as lágrimas de Lily o deixam abalado. Pelo que
percebo, tem relação com Dominic, assim podemos apenas lhe dar apoio e
simpatia até ela nos dizer o que podemos fazer para ajudar. Mas chega de
lamentações. Quero que você tenha férias maravilhosas.
– Terei. Ligarei quando voltar.
Harriet colocou o telefone para carregar e então se dirigiu até a aldeia
para fazer compras antes de seu programa de sol, areia e mar. Quando voltou,
o sol estava forte. Vestiu um biquíni, passou o protetor solar e levou uma
sacola para a praia.
A fome e o respeito pela força do sol levaram Harriet de volta a casa
depois de um curto banho de sol. Depois do almoço, lembrou-se de que estava
lá para descansar e se deitou na cama, os travesseiros altos diante da janela
aberta. Então deixou uma mensagem no celular de Julia, no caso de a irmã
precisar falar com ela sobre a sessão de fotos. Dever cumprido, Harriet deixou
o telefone sobre a mesinha de cabeceira e desceu de novo para a praia. Depois
de alguns minutos, cansou-se do banho de sol e resolveu nadar.
Atravessou as ondas pequenas a pé até poder mergulhar e atravessou a
praia nadando. Na volta, uma correnteza a puxou para baixo; voltou à tona
tossindo, engoliu muita água e desejou ter ficado junto à praia. Então gritou
quando um braço duro lhe abraçou o peito e uma mão impiedosa lhe ergueu o
queixo, enquanto seu salvador começava a puxá-la para a terra.
– Quieta! Fique imóvel, pelo amor de Deus – rosnou uma voz furiosa e sem
fôlego enquanto ela batia as pernas. – Está fora de perigo, então relaxe e deixe
que eu faça meu trabalho.
Quando seu ofegante salvador finalmente ficou em pé no raso, Harriet se
levantou e recuou, olhando furiosa para ele sem nenhuma gratidão.
– O que diabos você está fazendo aqui, James Crawford? – Ofegou, a
respiração difícil.
"Boa pergunta", pensou ele. "Comportando-se como um maldito idiota,
pelo visto."
– Estava desfrutando de um exercício pacífico na água até você chegar.
Com a respiração difícil, James passou uma das mãos pelos cabelos
molhados.
– Pacífico! – Segurou-lhe os ombros e sacudiu-a de leve. – Pensei que
estava se afogando, mulher. Há uma correnteza forte aqui. Pensei que havia
arrastado você.
– Não sou idiota, não iria tão longe! O único perigo foi de sofrer um ataque
cardíaco quando me agarrou!
Harriet correu pela areia, tossindo água enquanto se debruçava para
pegar a toalha.
James observou-a com raiva enquanto pegava o suéter e os sapatos que
tirara. Seu jeans molhado destacava cada linha muscular das pernas e, depois
de um olhar, Harriet enterrou o rosto quente na toalha.
– É estupidez nadar aqui sozinha.
Harriet cerrou os dentes, a raiva crescendo. Respirou devagar e
profundamente e tirou a toalha do rosto para olhar para ele.
– É melhor vir à cabana para se secar. – Calçou as sandálias e subiu para a
casa, deixando que James a seguisse, praguejando enquanto as pedras lhe
feriam os pés descalços. Antes de entrar, James tirou uma maleta do carro
enquanto ela destrancava a porta.
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Jessica 199.1 – Sedução Perigosa – Catherine George

– Não se preocupe, apenas quero roupas secas. – Sorriu com sarcasmo ao


olhar que ela lhe lançou. – Tenho uma reserva no hotel do Point.
– Veio passar férias aqui? – Harriet não conseguia acreditar. Pegou duas
toalhas do rack junto a pia, entregou-lhe uma e usou a outra para tentar,
inutilmente, enxugar a massa de cabelos cheios de sal. – Não que isso importe.
Não vou ficar muito tempo. Tenho certeza de que conseguiremos ficar longe
um do outro até eu partir.
– Esta é uma recepção fria para um homem que dirigiu por toda a
Inglaterra e o País de Gales para salvá-la de um afogamento.
– Não estava me afogando. – A voz saía entre os dentes cerrados. – Moira
sabe que está aqui?
– Disse a ela que talvez a visitasse enquanto estou na região. Mas se tem
objeções à minha presença, vou partir.
– Não tenho objeções, James. Já comeu?
– Não, vim aqui antes de ir ao hotel. O que foi uma coisa muito boa. Perdi
anos de vida quando a vi se debatendo no mar.
– Não estava me debatendo. – A voz era perigosamente calma. – E agora
nós dois precisamos nos secar…
– Você primeiro. – A decisão foi imediata. – Tome um banho quente de
chuveiro. Depois eu tomo e então vamos sair para jantar.
– “Sim” para o banho, “não” para o jantar. – E então se afastou para a
escada, deixando-o com a testa franzida e a acompanhando com o olhar.
Harriet tomou um banho quente e rápido, vestiu o roupão e foi até o topo
da escada.
– Todo seu – gritou, e se fechou no quarto para lidar com a cabeleira.
Quando finalmente saiu, vestida com jeans e uma camiseta branca, os
cachos úmidos amarrados no alto da cabeça, o banheiro estava vazio.
Fortalecendo-se para um novo confronto, desceu até a sala de estar.
James observou-a em silêncio por um momento. Vestida daquele jeito,
sem nenhuma maquiagem, parecia-se tanto com a garota por quem fora tão
louco que teve um impulso súbito de lhe arrancar as roupas. Com os dentes.
Inspirou com força e mostrou as próprias roupas.
– Um par de jarras.
Harriet se obrigou a sorrir. O homem dirigira por muito tempo. Seu ato de
salvar a vida dela tinha sido aborrecido e desnecessário, mas permanecia o
fato de que mergulhara diretamente no mar para socorrê-la.
– Tenho vinho, se quiser uma bebida, ou posso lhe oferecer um chá.
Preciso de alguma coisa para me esquentar.
– Não é de surpreender. O mar pode parecer lindo ao sol, mas é realmente
gelado quando se entra nele. Um chá será bom, Harriet. Então eu a levarei
para jantar. – Passou os olhos por ela. – Parece que você precisa de uma boa
refeição.
– Não quero sair.
O sorriso dele desapareceu.
– Você quer dizer, comigo.
– Quero dizer que estou cansada depois de todo o drama. – Estava
impaciente e seu tom matou a luxúria que James sentia.
– Não se preocupe com o chá, vou embora procurar um lugar para jantar.
– Quis dizer que posso fazer o jantar para nós aqui… Se você quiser.
– Você disse que está cansada.

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Jessica 199.1 – Sedução Perigosa – Catherine George

– Não cansada demais a ponto de não conseguir cozinhar alguma coisa


simples. Agüente só 20 minutinhos e terei uma refeição pronta. – Afinal, ele
dirigira por muito tempo.
– Então aceito, mas me dê alguma coisa para fazer.
Era estranho e muito íntimo trabalharem juntos na pequena cozinha, a
tensão crescente entre eles. Finalmente a refeição ficou pronta e se sentaram à
pequena mesa na sala de estar, diante da janela. Inquieta, Harriet resolveu
abordar assuntos neutros.
– Como estão as coisas no Live Wires?
– Cada vez melhores, agora que as novas empresas foram incorporadas. –
James observou o prato diante dele. – Isto parece delicioso e o cheiro é de
matar.
Um silêncio carregado se seguiu enquanto desfrutavam da comida simples
e saborosa. James terminou primeiro, empurrou o prato vazio e se recostou
para observar Harriet terminar.
– Jamais contei a Moira.
Ela ergueu os olhos, assustada.
– Contou a ela o quê, exatamente? Ela sabe que nos conhecemos no
passado.
– Mas não que foi você que matou minhas ilusões juvenis. – Ela mal
conseguia respirar. – Não que eu seja ingrato, ao contrário. Sua rejeição me
tornou ambicioso, decidido a fazer da minha vida um sucesso.
Harriet parou de comer e colocou o prato meio cheio sobre o dele, vazio.
– Gostaria de morangos para a sobremesa? – A voz era firme.
Ele balançou a cabeça, sarcástico.
– Abro meu coração e tudo o que tem a dizer é me perguntar se quero
morangos?
– Não posso reescrever o passado, James. É evidente que alugar a River
House não foi uma vingança suficiente para essa sua alma rancorosa. –
Entrecerrou os olhos. – Veio até aqui apenas para me fazer mais recriminações?
Ele se levantou e assomou sobre ela, furioso.
– Não. Vim aqui para desfrutar da sua companhia num terreno neutro para
podermos conversar como duas pessoas civilizadas. Mas é claro que fui um
maldito idiota. De novo.
Harriet levou os pratos para a cozinha. Abriu a torneira da pia e fechou a
porta, para que ele não a ouvisse vomitar de novo. Conseguira se segurar
enquanto ele gritava com ela, mas agora a náusea a vencia e ela se debruçou
sobre a pia, impotente quando tudo terminou. De repente, a porta se abriu;
James encheu um copo de água e a levou à boca de Harriet.
– Obrigada – conseguiu dizer, e bebeu a água.
Ele lhe tomou o copo, fechou a torneira e a levou para a sala de estar.
Deixou outro copo cheio na mesinha ao lado do sofá e a fez se sentar.
– Você se recuperou completamente da enxaqueca?
– Sim.
– Sofre delas com frequência?
– Não, mas quando tenho uma é tão ruim que mal sei o que estou fazendo.
– Percebi.
– O que quer dizer com isso?
– Seu costumeiro controle de aço desapareceu naquela noite. De outro
modo, jamais teria permitido que a pusesse na cama. E se tiver outra
enxaqueca aqui, sozinha?
Harriet tomou um gole de água.
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Jessica 199.1 – Sedução Perigosa – Catherine George

– Não terei. A última foi causada por uma combinação incomum de


circunstâncias. Tive uma tarde difícil com Annabel, não consegui comer o dia
todo…
– E teve um choque infernal quando apareci na casa da sua irmã.
– Não diria isso.
– Pode negar que minha presença aumentou seu estresse?
– Não. Embora tenha ficado grata pela carona para casa. Então, no dia
seguinte, tive reuniões difíceis com clientes e precisei dirigir por muito tempo
num carro estranho. – Harriet olhou para ele diretamente. – Mas chega dos
meus problemas. Diga a verdade, James, por que está aqui?
O brilho dos olhos dele a deixou muito inquieta.
– Pareceu uma oportunidade boa demais para perder. Pensei que, se
ficássemos sozinhos por algum tempo, você finalmente me contaria a verdade.
– Os lábios afinaram. – Durante anos, pensei que não ligava mais a mínima
sobre tudo isso. Então a encontrei de novo e descobri que era fundamental
descobrir o que transformou uma garota calorosa e amorosa numa profissional
fria e cautelosa.
Ela o observou em silêncio por um momento, então deu de ombros.
– A vida me mudou James, assim como transformou você num homem tão
diferente do homem amoroso e despreocupado que costumava ser. Então,
podemos apenas nos dar por satisfeitos? Lamento a forma como tudo acabou
entre nós tantos anos atrás, mas não posso continuar a pedir desculpas, James.
É hora de continuar a vida. – Fez uma pausa e, quando ele não respondeu, deu
de ombros, derrotada. – Se sente que viajou toda essa distância por nada,
lamento que esteja desapontado, mas agora sugiro que vá para o seu hotel e
me deixe dormir.
James continuou a observá-la num silêncio enervante, então balançou a
cabeça.
– Não quero deixá-la sozinha, Harriet. Vá para a cama, ficarei aqui no sofá.
– Não seja ridículo. Não conseguiremos dormir.
– Provavelmente não, mas pelo menos estarei aqui se precisar de mim.
– Por que precisaria de você? Estou muito bem. – Fechou os olhos,
frustrada. – James. Por favor. Apenas vá.
– Se é isso que quer, irei, mas não agora. Precisamos conversar. Vou fazer
chá para você.
– Oh, está bem – resignou-se. – Mas é melhor que eu faça o chá.
– Não precisa, sei onde as coisas estão. Marcus deixa a cabana a minha
disposição para vir quando precisar me afastar de tudo, o que não acontece
muito ultimamente. Quando não estou mergulhado no trabalho, fiscalizo a
reforma da minha casa. Não vou me demorar.
Harriet se recostou e tentou relaxar, mas era difícil com James tão perto.
Não era isso que pretendia para suas férias. Quisera apenas descansar e se
fortalecer para enfrentar a vida nos próximos meses. De uma coisa agora tinha
certeza. Assim que as finanças da River House estivessem de novo bem, o pai
podia ficar com a total responsabilidade pela casa. Julia tinha razão. A mãe
delas não desejaria que devotasse toda a vida a um monte de tijolos.
James voltou com uma bandeja e a colocou ao lado dela.
– Você gostava do chá bem forte com algumas gotas de leite. – Entregou-
lhe uma caneca.
– Ainda gosto. Obrigada. – Harriet sorriu secretamente comovida por ele se
lembrar.

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Jessica 199.1 – Sedução Perigosa – Catherine George

– Preferi café para ficar acordado durante a viagem até o hotel. –


Observou-a em silêncio por um momento. – De jeans e com os cabelos assim,
parece muito jovem, Harriet.
– Tenho 29 anos, não sou Matusalém!
Ele riu.
– Sei exatamente quantos anos tem. E sabia que não foi apenas altruísmo
que me levou à casa de sua irmã no domingo?
– Não foi?
– É verdade que ofereci uma carona para sua irmã e o marido dela quando
estavam aflitos para voltar para a filha doente. Mas estive conversando com
ela durante o almoço e ela foi muito aberta sobre detalhes pessoais. Soube que
era sua irmã e que você estava cuidando da filha dela. – Segurou-lhe o olhar. –
Aceitei logo quando me ofereceram uma bebida ao chegarmos. Mas você
estava ocupada demais com a sobrinha para me dar atenção. Ela está melhor?
– Sim, está. – Observou-o, perplexa. – Está dizendo que levou Sophie e
Gervase para casa apenas para me ver?
– Eu os levaria de qualquer maneira, mas meu motivo principal foi à
perspectiva de ver você. É tão difícil de acreditar?
– Sim. Pensei que sentia apenas hostilidade por mim.
– Antigamente, sim. Mas não vou fingir que passei todos esses anos
pensando em formas de me vingar de você ou até mesmo pensando em você o
tempo todo.
Harriet sentiu uma fisgada forte de dor. É claro que ele deixara de pensar
nela. Ela também deixara de pensar nele a cada minuto do dia. Pelo menos em
alguns dias.
– Na verdade – continuou James –, até Marcus comprar a Old Rectory,
estive ocupado demais transformando o Live Wires num sucesso e não tive
tempo para pensar no passado ou lamentá-lo.
– Deve ter sentido que foi seu dia de sorte, quando soube que a River
House podia ser alugada!
– Com certeza foi à cura perfeita para a dor que guardei por tantos anos.
O sorriso dele a fez se sentir furiosa.
– Então agora está satisfeito. Mas não é só você, James, eu também fiquei
feliz.
James a olhou em silêncio por tanto tempo que Harriet começou a se
sentir tensa até ele falar de novo.
– Então me diga a verdade… Sobre o que realmente aconteceu há tantos
anos. – Ela se assustou. – Num minuto estava feliz sobre alugar um
apartamento para viver comigo, no seguinte eu estava sendo transferido do
meu emprego e você me dispensava. Fiquei tão furioso que apenas mais tarde
percebi que estava tão infeliz como eu naquele dia. Diga-me o que aconteceu,
Harriet. Seu pai não aprovou nossa decisão, não é?
– Não, não aprovou.
– E você não teve coragem de desafiá-lo.
– Não, não tive.
– Seu pai foi muito hostil comigo depois que descobriu quem eu sou.
– Não é de surpreender! Ficou furioso quando George Lassiter lhe deu a
alegre notícia. Papai presumiu que você e eu estávamos rindo dele na festa até
eu lhe dizer que você me odiava. E odeia.
– Harriet, o que estou sentindo agora não tem relação alguma com ódio. –
Aproximou-se mais dela. – Você me deve.
Ela se afastou.
71
Jessica 199.1 – Sedução Perigosa – Catherine George

– Pelo quê, exatamente?


– Salvei sua vida essa tarde. – A expressão nos olhos dele fez os sinos de
alarme de Harriet baterem.
– Mas minha vida não estava em perigo. – Levantou-se, mas ele lhe pegou
a mão e a puxou para o seu colo.
– É a intenção que conta, assim mereço pelo menos um beijo.
A voz rouca a transformou em geléia, exatamente como quando era uma
adolescente. Perguntou-se se ele podia ouvir seu coração batendo. Fez uma
expressão de mártir ao erguer o rosto para o dele.
– Oh, está bem.
A risada de James fez os sinos de alarme tocar mais alto enquanto a
puxava para mais perto.
– Parece que está fazendo o sacrifício supremo. A ideia de me beijar é tão
repugnante, Harriet?
– Não…
E arquejou quando a boca de James desceu sobre a dela num beijo que a
abalou até a ponta dos pés. Os braços dele a apertaram numa posse à qual ela
se rendeu, desamparada, os lábios se abrindo para a língua carinhosa
enquanto ele fazia amor com ela de uma forma que a fazia chorar de felicidade
tantos anos atrás. E agora acontecia de novo. Apenas o toque dos lábios dele a
deixava em fogo, mas, quando os dedos urgentes começaram a lhe abrir os
botões da camisa, Harriet o empurrou.
– Mais vingança? – Tentou se levantar, mas ele manteve os braços em
torno dela, segurando-a com força até ela desistir de lutar e ficou imóvel contra
o corpo dele.
– Vou levá-la para a cama.
Seu tom a impediu de discutir. Não que quisesse. Deitar-se com James
pelo menos resolveria muitos de seus problemas. Parou de pensar enquanto
ele a beijava com um calor que bloqueou tudo o mais, a não ser a alegria de
estar abraçada com ele, sentir o coração bater contra o dela.
– Quero isto muito mais do que quero vingança. – As palavras suaves
foram ditas contra a boca de Harriet.
– Vamos para a cama, então.
– Esperei por dez longos anos para ouvir você dizer isso. – Ergueu-a nos
braços e se dirigiu para a escada. – Da próxima vez, você anda, esta noite
quero meu momento de Rhett Butler.
– Maravilhoso.
Harriet lhe deu um sorriso em que havia um convite tão explícito que ele a
beijou ferozmente enquanto lhe tirava o jeans e a camisa, então a deitou na
cama, tirou as próprias roupas e se deitou ao lado dela. Os olhos se moveram
sobre o corpo dela numa lenta e ardente avaliação; a mão substituiu os olhos e
passou sobre o sutiã e a calcinha de renda.
– São lindos. Tire.
– Você quer que saiam, tire você.
James seguiu suas ordens com entusiasmo.
– Finalmente – suspirou, quando ficaram pele a pele. – Nunca ousei despir
você no passado porque estava tão determinada a esperar até vivermos juntos
antes de partilharmos uma cama. E eu a quis desde a primeira vez em que a
vi.
– Não vamos falar do passado. Isto é agora, James. Faça amor comigo.
– Farei – sussurrou.

72
Jessica 199.1 – Sedução Perigosa – Catherine George

Então lhe tomou a boca por um longo tempo antes de começar a beijar
cada centímetro dela. Ela estremecia e gemia de prazer, surpresa e felicidade.
Finalmente ele se deitou sobre ela, dentro dela e a levou para uma subida
louca em direção a um orgasmo que o fez pulsar primeiro. E se manteve dentro
dela até que Harriet o seguisse para o fundo do precipício.
Harriet, que esperava que ele se afastasse se sentiu arrebatada quando
ele permaneceu dentro dela e a abraçou com força, como se não suportasse
ficar longe dela. Então, para sua total surpresa, sentiu-o enrijecer de novo
dentro dela enquanto virava sua boca para a dele e a beijava e fazia amor com
ela de novo, lentamente na segunda vez, com tanta ternura que ela chorou
quando tudo acabou. Ele lhe lambeu as lágrimas e afastou os cachos dos
cabelos de sua testa.
– Está chorando de alegria porque sou tão bom nisso? – Parecia
convencido, e Harriet riu enquanto ele rolava para o lado e a levava junto,
apertada contra seu peito.
– Tanta arrogância! – Ergueu a cabeça para olhar para ele. – E o hotel?
– Menti, não tenho uma reserva.
– E se eu tivesse mandado você embora?
– O plano A era bater à sua porta até você desistir. O plano B, menos
satisfatório, dormir no carro. – James passou os dedos pelos cachos selvagens.
– Mas você não me mandou embora. Por quê?
– Porque estava com medo de ficar aqui sozinha.
– É claro que estava. – Aninhou-lhe a cabeça no ombro. – Agora vamos
dormir.

HARRIET SÓ acordou pela manhã. Virou a cabeça, cautelosa, e encontrou


olhos brilhantes a observando.
– Oi. – A voz de James era muito suave.
– Bom dia. – Harriet sorriu e tentou se sentar, mas um braço forte a
impediu.
– Ainda não.
Puxou-a para mais perto, a fome do beijo acendendo-a de novo enquanto
se uniam numa quente e terrena alegria de acordar para fazer amor. Depois
ficaram calados nos braços um do outro por algum tempo, contentes e
tranqüilos. Então ele lhe ergueu o rosto.
– Agora que está em meu poder, é hora de confessar, Harriet. Diga-me a
verdade. Sei que seu pai desaprovava, mas a garota que conheci queria
demais ficar comigo para permitir que isso a impedisse. Então, fale me conte o
que aconteceu para fazê-la mudar de ideia anos atrás.
Ela se sentou, o sorriso amargo.
– Oh, compreendo, esse foi seu plano C, James Crawford! – Bateu a mão
na cama desarrumada. – Literalmente uma persuasão direta para extrair de
mim a verdade. – Pulou da cama e se enrolou no roupão, completamente
humilhada por ter sido tão idiota a ponto de pensar que ele queria mesmo
fazer amor com ela, enquanto todo o tempo tinha sido apenas uma forma de
encontrar a última peça do quebra-cabeça.
James se levantou, vestiu o jeans e se aproximou uma expressão nos olhos
que ela detestou.
– Apenas para esclarecimento, Harriet, não houve necessidade de
persuasão. Houve?
Com o rosto ruborizado, ela correu para o banheiro e trancou a porta.
Escovou os dentes e lavou o rosto com tanta violência que ficou ainda mais
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Jessica 199.1 – Sedução Perigosa – Catherine George

vermelho. Demorou-se o máximo que pôde, então, saiu, passou por James e
voltou ao quarto para se vestir e descer para a cozinha. Quando James se
juntou a ela, não lhe deu oportunidade de falar.
– Gostaria que fosse embora agora, por favor.
Ele balançou a cabeça, os olhos duros.
– Não antes de você me dizer a verdade.
Por um momento, Harriet ficou tentada. Não se importava mais, não ligava
se causasse problemas entre James Crawford e seu pai. Que idiota tinha sido.
Fazer amor com James tinha sido o arrebatamento que sempre soubera que
seria, mas para ele tinha sido apenas uma forma mais eficaz de persuasão.
– Você usou seu considerável talento sexual apenas para isso? – Não havia
emoção na voz. – Ou me levar finalmente para a cama foi o último toque de
seu plano de vingança?
Os olhos de James brilharam com frio desagrado.
– Não, não foi. E, se é assim que sua mente funciona agora, não importa
nem um pouco por que me dispensou antes… Apenas me sinto grato por ter
feito isso. – Foi até a porta, saiu e a fechou com suavidade. Uma atitude bem
mais expressiva do que batê-la.

APENAS O orgulho fez Harriet ficar na cabana até a segunda-feira. Pelo


menos o clima continuou bom. Conseguiu tomar sol, mas não teve coragem de
nadar. Comeu bem e caminhou todos os dias. O exercício lhe deu energia e
ficou contente consigo mesma. Não era uma donzela prestes a cair em
profunda melancolia por causa de um homem. Já sofrera assim pelo mesmo
homem. Mas antes se desesperara porque fora obrigada a magoar James.
Dessa vez, era ela a ferida e, Deus, como doía!
O telefone a impediu de sentir solidão. Moira ligou para contar que
Dominic tinha ido ver Lily. Aubrey Wilde e Miriam ligaram para saber quando
voltaria, e Julia, para lhe lembrar da sessão de fotos. Charlotte Brewster
confirmou as datas para a sessão de filmagem da novela de televisão e do
programa de culinária. Também disse que os fabricantes de camas queriam
pintar o quarto com varanda na cor que usavam sempre. Como Charlotte
negociara um aluguel mais alto, Harriet concordou. Falou com Lydia e avisou
que voltaria na terça-feira, depois ligou para Sophie para ter notícias de
Annabel e soube que a irmã e a sobrinha estavam felizes porque Pilar chegaria
no dia seguinte. De James recebeu apenas o silêncio.
No dia anterior à viagem, Harriet limpou toda a cabana e recebeu uma
ligação de Moira para contar que Lily tinha voltado para Londres com Dominic.
– Descobriu o que havia de errado?
– A pobrezinha pensou que estivesse grávida, mas foi um falso alarme.
Agora Dominic a pediu em casamento e já estava com o anel, assim tudo está
bem quando termina bem. Graças a Deus só tive irmãos! – Hesitou. – Por falar
nisso, James ficou bravo comigo apenas porque lhe perguntei como você
estava na cabana. Vocês brigaram?
– Deus do céu, não! – mentiu Harriet, então mudou de assunto e
perguntou a Moira quando poderiam se encontrar para o almoço combinado.
Harriet acordou cedo na manhã de segunda-feira. Chovia e ela achou que
combinava com seu humor. Depois de levar a mala e as bolsas para o carro,
trancou a casa com cuidado e se sentou atrás do volante. Virou a chave e nada
aconteceu. Com um gemido de frustração, tentou de novo até que finalmente
desistiu, praguejou contra o mecânico que devia ter consertado o carro e ligou
para a oficina da aldeia. Para sua enorme gratidão, logo chegou uma picape
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Jessica 199.1 – Sedução Perigosa – Catherine George

com um jovem alegre que abriu o capô e diagnosticou o problema. Levaria dois
dias para consertar.
– Pode me dar uma carona até a estação? Preciso voltar hoje e vou pegar
um trem. No fim de semana virei buscar meu carro.
Ele lhe deu as informações sobre os horários de trem e a levou à estação.
Harriet esperava o trem na plataforma na estação de Haverfordwest, quando
Moira ligou.
– Desculpe pelo abuso, Harriet, mas, já que ainda não saiu, pode trazer o
romance de Michael Connelly que Marcus deixou aí? – Quando Harriet explicou
por que não podia Moira se mostrou solidária e insistiu em pegar Harriet em
Shrewsbury.
– Não, de jeito nenhum. Eu pego um táxi!
– Vai ser uma corrida cara e é um passeio agradável. Agora que toda a
excitação terminou, meu tempo é só meu e estarei lá esperando por você.
Mas para a consternação de Harriet, foi James, num terno formal, que a
encontrou.
– Minha irmã pede desculpas, mas houve uma emergência com o
encanamento na Old Rectory e Marcus está no tribunal. – Pegou a bagagem
dela.
– Moira não devia ter pedido a você que viesse me buscar. Disse a ela que
pegaria um táxi.
– Tinha negócios na região. – A voz era fria. – Não foi um problema.
Talvez não para ele, mas uma viagem de carro sozinha com James
Crawford no momento era a última coisa que Harriet queria.
– Foi gentileza sua. – A voz saía entre dentes cerrados enquanto ele
guardava a bagagem dela.
– De jeito nenhum. – Lançou-lhe um olhar enquanto jogava o paletó no
banco de trás. – Como você está?
– Muito bem, obrigada.
– Nadou de novo?
– Não.
– Muito sensata.
O silêncio caiu entre eles. Embora não gostasse de velocidade, Harriet
queria que ele corresse para acabar logo com a situação.
– Soube o que houve com Lily? – perguntou James finalmente.
– Sim.
– Ocorreu-me que poderia haver uma preocupação semelhante para você,
depois da nossa noite juntos.
O estômago de Harriet apertou.
– Não haverá. – E esperou ardentemente que estivesse certa. Sua breve
experiência com pílulas anticoncepcionais na faculdade tinha sido tão
desagradável que nunca mais as tomara.
– Bom. – Estava igualmente tenso.
Harriet ficou em silêncio o resto da viagem, que pareceu levar horas até
James entrar no caminho para o chalé.
– Obrigada. – Sorriu com frieza enquanto ele tirava sua bagagem do carro.
– Deve estar com pressa, então não o convidarei para entrar.
– Não seja idiota. – A voz era impaciente. – Tenho tempo de levar sua
bagagem para dentro.
Com o rosto inexpressivo, Harriet entrou, com James bem atrás dela.
– Obrigada de novo. – Virou-se para ele, em pé com a bagagem.
– Vou levar isto para cima…
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Jessica 199.1 – Sedução Perigosa – Catherine George

– Não. Prefiro desfazer a mala aqui, perto da máquina de lavar.


– Nesse caso, vou indo.
– Adeus e, mais uma vez, obrigada.
Ele abaixou o olhar para ela.
– Antes de ir, quero deixar uma coisa bem clara. Sempre cumpro meu
dever. Se descobrir que espera um filho meu, farei o que é certo.
– Quanta nobreza! Mas mesmo se alguma coisa tão improvável acontecer,
não precisa fazer a coisa certa.
– Porque continuo a não ser socialmente aceitável para a senhorita Wilde
da River House?
E então alguma coisa estalou em Harriet.
– Oh, pelo amor de Deus, James Crawford, pare de pensar nisso. Quis dizer
que, se algum dia me casar, não será com alguém obrigado a “fazer a coisa
certa”.
– Quem falou em casamento? – rosnou. Então saiu, entrou no carro e
partiu.

Capítulo Doze

FURIOSA COM James, Harriet decidiu não avisar logo ao pai que havia
chegado. E uma verificação na cozinha lhe mostrou que Margaret havia
deixado a geladeira cheia e pão na cesta. Então se sentou junto à bancada e
chorou até sentir dor no peito. Em seguida lavou o rosto, pegou a mala e as
sacolas e jogou quase tudo na máquina de lavar roupa. A camisola que James
lhe tirara foi para a lata de lixo.
Depois tomou um banho, se vestiu, fez maquiagem e verificou a garagem.
Viu o carro do pai e se dirigiu para a casa pela porta dos fundos. Quando
chamou, o pai apareceu na cozinha.
– Harriet! Você está com ótima aparência. As férias lhe fizeram bem.
– Sim, muito bem. Pensei em avisá-lo da minha chegada antes de comer.
– Ótimo, ótimo. Venha à sala de estar, há alguém lá que quero que
conheça.
Ao entrar, sorriu para a mulher que se levantava do sofá. Era alta, esguia
e atlética, os cabelos louros platinados muito bem cortados emoldurando um
rosto bonito e bronzeado.
– Harriet, quero lhe apresentar Madeleine Fox.
– Como vai? – Estendeu a mão.
Madeleine a apertou.
– É bom conhecê-la. Aubrey me contou muita coisa sobre você.
Grande surpresa para Harriet.
– Você mora aqui?

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Jessica 199.1 – Sedução Perigosa – Catherine George

– Mudei-me há alguns meses para a mansão Fossedyke Court. Ainda estou


me sentindo uma intrusa na cidade, mas Aubrey tem sido muito gentil e me
deixa à vontade no clube de golfe.
– Ela joga muito bem – disse Aubrey a Harriet, orgulhoso.
– Brincadeira dele. Você tem uma linda casa.
– Sim, é adorável, mas é uma grande responsabilidade.
– A minha também. Mas a herdei, assim, tenho que cuidar dela. Meus
filhos gostariam que morasse em um lugar mais moderno, mas ambos
trabalham em Londres, então vivo sozinha.
Então não havia um senhor Fox.
– Quando Julia virá, Harriet?
– Domingo. A sessão de fotos será na segunda-feira. Já arranjou um lugar
para ficar?
– Madeleine me convidou para ficar na casa dela. – Ruborizou de leve. –
Mas pensei em fazermos um jantar no domingo. Julia estará aqui, já convidei
Sophie e Margaret concordou em cozinhar.
– Então está combinado. Preciso ir, levanto muito cedo amanhã.
– Prazer em conhecê-la, Harriet. Até domingo.
Então a senhora Fox almoçaria com a família.
Harriet voltou para o chalé pensativa. O pai era viúvo havia muito tempo e
nunca levara uma mulher para a River House. Madeleine Fox era a primeira.
Aquilo significaria que o pai queria que ela se mudasse para a casa dele? Se
fosse verdade, então seria o fim de sua estadia no chalé.
No dia seguinte, Nick Corbett ligou para seu escritório.
– Só para saber se você estava de volta. Sente-se melhor agora?
– Sim, obrigada. Alguns dias no litoral me fizeram muito bem.
– Vamos jantar esta noite?
– Está bem, Nick.
– Vamos fazer alguma coisa diferente. Deixe o carro no estacionamento do
escritório e eu a pego aí. Sete e meia?
– Certo.
Harriet voltou ao trabalho se sentindo bem. Nick era uma companhia
alegre e ela precisava de alegria. Para destacar seu recente e leve bronzeado,
usou calça branca de linho, um suéter de seda cor de caramelo e deixou os
cabelos soltos. Quando estacionou, encontrou Nick já esperando por ela.
– Você está linda. Devia usar seus cabelos soltos sempre.
– Não, meus clientes jamais me levariam a sério. Onde vamos jantar?
– Era tarde demais para uma reserva, assim pedi que mandassem o jantar
para o meu apartamento.
Era um convite que até então Harriet recusara. Mas aquela noite a
alternativa seria voltar para o chalé e ficar sozinha, então sorriu e aceitou.
O apartamento de Nick tinha teto alto e grandes janelas debruçadas sobre
o centro da cidade antiga. Levou-a logo para a sala de estar.
– O que quer beber?
– Vou dirigir assim uma bebida sem álcool, por favor.
Nick ficou claramente desapontado, mas logo se recuperou e retomou a
conversa alegre e leve. Enquanto ela tomava água mineral, ele se serviu do
vinho caro. Quando terminaram, ele recusou seu oferecimento para ajudar a
tirar a mesa e voltou à sala de estar com uma bandeja com o café.
– Então, os boatos são verdadeiros?
– Boatos?

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Jessica 199.1 – Sedução Perigosa – Catherine George

– Ouvi dizer que seu pai vai se casar de novo. – Os olhos brilharam
enquanto se sentava ao lado dela no sofá caro. – Ele tem saído muito com a
elegante Madeleine Fox. Então, os boatos são verdadeiros?
– Tenho certeza de que logo saberá se são. – Seu prazer com a noite, que
era apenas mediano, desapareceu imediatamente.
– Se eles se casarem, vão viver naquela fabulosa mansão dela. E você
ficará sozinha, Harriet. – Aproximou-se mais. – Mas não precisa. Ficarei
deliciado em lhe fazer companhia na River House.
Ela o olhou perplexa.
– O que quer dizer?
Ele sorriu ansioso.
– Temos nos visto muito ultimamente, assim pensei que podíamos nos
casar logo. Você é a escolha perfeita, Harriet…
– Por quê?
O sorriso de Nick desapareceu.
– O que quer dizer?
– O que me torna a esposa perfeita, Nick?
– Você é inteligente, atraente e nós nos damos bem. – Tomou-a nos
braços. – E aposto que seremos dinamite na cama. – As mãos invasoras eram
quentes e úmidas através do suéter de seda enquanto a beijava, mas, quando
a língua lhe penetrou a boca, Harriet forçou uma tosse e se afastou.
– Desculpe. – Fingiu uma rouquidão. – Pode me dar um copo de água, por
favor?
Nick foi rapidamente à cozinha e voltou com um copo cheio. Harriet
bebeu, então sorriu.
– Peço desculpas.
– Sem problemas.
Estava evidentemente aborrecido e ela também, percebeu deprimida.
Depois de James, não poderia beijar outro homem.
– Sinto muito mesmo, Nick. Ainda não estou cem por cento. – Levou uma
das mãos à cabeça para enfatizar um possível começo de enxaqueca. – Acho
melhor ir para casa e me deitar.
– Esperava que partilhasse minha cama esta noite. – Deu-lhe um dos seus
sorrisos mais atraentes.
– Sim, percebi. Lamento Nick.
– Podia pelo menos me dizer que pensará no meu pedido antes de sair!
Harriet o observou com firmeza.
– Diga uma coisa antes, Nick. Se minha casa fosse um apartamento na
cidade e não a River House você sentiria o mesmo entusiasmo por mim?
Ele ruborizou, zangado.
– Isso não é uma coisa muito agradável de dizer, Harriet.
– Não respondeu à minha pergunta, assim vamos colocá-la de outra
maneira. Você substituiu meu pai no banco. Então, quando ouviu os boatos
sobre a possibilidade de ele se casar, pensou em substituí-lo também na River
House. E a única forma de fazer isso é se casando comigo.
O encanto estudado de Nick desapareceu.
– E por que diabos não? – Agora estava arrogante. – Não é mau negócio se
casar comigo, Harriet. Muitas mulheres daqui diriam “sim” num segundo.
– Então se case com uma delas – aconselhou e pegou a bolsa. – E minha
resposta é “não”. Mas obrigada por me pedir… E pelo jantar. Boa noite.
A caminho de casa, Harriet pensou em perguntar ao pai se havia verdade
nos boatos, mas decidiu não fazê-lo. Já estava muito perturbada. Se
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Jessica 199.1 – Sedução Perigosa – Catherine George

conhecesse as ambições de Nick, teria recusado o convite para jantar. Sua


autoestima sofrera muitos golpes ultimamente. Era evidente agora que Nick
apenas a convidara para sair nos últimos meses com a intenção de viver na
River House.

NÃO TIVERA mais notícias de James. Moira lhe dissera apenas que estava
ocupado demais com a expansão do Live Wires Group e não tinha tempo de
visitar a Old Rectory.

O ALMOÇO de domingo correu bem, principalmente porque Harriet avisara


às irmãs sobre a convidada do pai. Julia apenas mostrou uma curiosidade
divertida e, como Gervase também estava no almoço, controlou os acessos de
ciúme de Sophie. A refeição, servida por Margaret, estava excelente, e a
conversa foi fácil e amena, dominada pelas explicações de Julia sobre a sessão
de fotos de moda. Sophie ficou fascinada e Madeleine Fox também. E como a
dama também se interessou pelas notícias sobre Annabel, feliz em casa com
Pilar, Sophie degelou completamente, principalmente quando soube que
Madeleine era a dona de Fossedyke Court.
Assim que Aubrey saiu para levar Madeleine para casa, Sophie atacou
Harriet.
– Há quanto tempo isso está acontecendo?
– Não sei, acabei de conhecer a senhora Fox.
Julia sorriu.
– Acho que papai está apaixonado.
– Apaixonado? – Sophie pareceu horrorizada. – Não, ele não pode estar!
– Oh, não seja tola, Sophie! – Julia bocejou. – Alguém quer chá?
– Nós temos que voltar para casa, Sophie, não queremos deixar Pilar
exausta – advertiu Gervase.
– Não, não podemos, mas me mantenha informada sobre o que está
acontecendo entre papai e a senhora Fox, Harriet.
Harriet passou algumas horas divertidas com a irmã depois que Sophie
partiu, mesmo quando precisou satisfazer a curiosidade de Julia sobre o
primeiro evento realizado na River House.
– E então, Cinderela, o vestido fez sucesso?
Harriet riu.
– Com certeza. Mas eu nunca o escolheria para mim.
– Como se eu não soubesse. Agora mais detalhes sobre a festa, por favor.
Quem alugou a casa?
– James Crawford, dono do Live Wires Group, o inadequado objeto de
minha paixão adolescente. – Harriet riu quando o queixo da irmã caiu. – E estou
ouvindo o carro de papai. Melhor ir para casa. A que horas seu pessoal chega
amanhã?
– As oito e trabalhará até as seis. Meu quarto ficará à disposição das
modelos. Margaret aceitou muito entusiasmada quando perguntei se gostaria
de preparar os alimentos durante a sessão de fotos.
– Ideia brilhante, Julia.
Aubrey entrou e Julia sorriu para ele.
– Voltou cedo.
– Pensei em lhe fazer companhia e deixar que Harriet se deite cedo para
estar bem amanhã de manhã para o trabalho. Mas acho que trabalha demais.

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Jessica 199.1 – Sedução Perigosa – Catherine George

E ERA uma boa coisa, pensou Harriet sombriamente enquanto se


preparava para se deitar. Tinha menos tempo para se preocupar com James. E,
como se tivesse sido chamado ao palco, ele ligou.
– Como você está?
– Melhor, obrigada.
– Não estou falando da enxaqueca!
– Estou muito bem em todos os sentidos.
– Não vou ser pai, afinal?
– Não de um filho meu.
Houve um silêncio.
– É a verdade, Harriet?
– Sim. – Mas estava tensa e com os dedos cruzados.
– Se estivesse aí, eu saberia. Você nunca foi uma boa mentirosa.
– E por que diabos eu mentiria sobre uma coisa destas?
– É evidente!
– Não para mim.
– Se estivesse grávida de um filho meu, seu pai me obrigaria a me casar
com você, agora que meu dinheiro me tornou aceitável. Pelo menos, aceitável
para ele, se não para…
Gentilmente, o dedo de Harriet apertou o botão de desligar. Conseguiu
deixar o celular sobre a mesa com suavidade, em vez de atirá-lo para o outro
lado do quarto, como gostaria.
Os dias seguintes foram tão ocupados no trabalho que não houve tempo
para pensar em seus problemas pessoais. E não precisou fiscalizar os
acontecimentos na casa porque Julia estava lá quando um número enorme de
pessoas chegou para a sessão de fotos. Tudo correu bem e, quando acabou,
Charlotte lhe entregou um cheque. Julia voltou para Londres e Aubrey esperou
que Margaret arrumasse tudo antes de voltar.
– Espero que não tenha ficado exausta com tanto trabalho, Margaret –
comentou Harriet.
– Céus, não. Foi divertido e todo mundo gostou da minha comida. John
também adorou trabalhar. Está entediado com a aposentadoria e acha ótimo
me ajudar.
– Poderia lhe pagar um salário, se ele quiser continuar.
– Ele vai gostar demais. Pode cortar o gramado e poupá-la do trabalho nos
fins de semana. Eu me preocupo com você, Harriet.
– Por quê?
– Alguém precisa fazer isso. Vai ficar cansada demais depois de ir a Gales
de trem para pegar seu carro.
– Não tenho escolha.

Capítulo Treze

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Jessica 199.1 – Sedução Perigosa – Catherine George

QUANDO UMA equipe de televisão estava prestes a tomar posse da River


House para filmar algumas cenas de uma novela popular, Harriet convidou
Sophie para assistir. Com um grito de alegria, Sophie informou que estaria lá
na manhã seguinte, depois de levar Annabel para o jardim de infância.
– Pilar poderá apanhá-la no fim da aula… É maravilhoso tê-la de volta,
Harriet.
– Espero que esteja lhe pagando bem.
– Gervase lhe deu um enorme aumento de salário e comprou uma
televisão nova para seu quarto. E não é só porque é boa com Annabel, nós
realmente gostamos dela.
Aubrey se hospedou de novo no Fossedyke Court e Harriet precisou tirar
mais uma licença do trabalho para observar tudo. Dois quartos foram
destinados aos atores e atrizes. Uma cozinha ambulante foi instalada para
fornecer alimentos. Completamente fascinada pelas câmeras, luzes e cabos
por toda parte no andar térreo, Harriet tentou ficar fora do caminho enquanto
observava artistas famosos trabalhando. Ficou impressionada com o número
enorme de técnicos necessários para filmar as cenas.
Sophie chegou muito arrumada e excitada ao ver tanta atividade.
– Estão pagando bem? – sussurrou para Harriet, que acenou.
– Com certeza. A conta bancária da River House ficará em excelentes
condições. E poderemos pagar a Margaret o extra que merece para fazer a
limpeza depois.
– Fabuloso! Podemos ver a filmagem de uma cena?
Para aproveitar o bom tempo, as cenas externas no jardim foram filmadas
primeiro. As irmãs assistiram, maravilhadas, e Sophie se sentiu lisonjeada
quando foram convidadas para almoçar com a equipe.
– Você tem uma casa maravilhosa, senhorita Wilde. Sou Ashley Wade, o
diretor.
– Minha irmã, Sophie Barclay – apresentou Harriet, e Sophie sorriu.
– É tudo tão fascinante! Por quanto tempo ficarão aqui?
– Se o clima nos permitir fazer todas as cenas externas hoje, com sorte,
terminaremos até sexta-feira. – Sorriu para Harriet. – Ficará feliz de ter a casa
para você no fim de semana.
– Não contou a ele que não vive aqui? – Estavam a caminho do chalé
quando as filmagens terminaram.
– Ele não precisa saber.
– É um homem muito atraente.
– É?
– Oh, Harriet! Você é impossível. E por falar em homens atraentes,
convidei alguns amigos para jantar no sábado e insisto que vá também. Não
diga que não, vai se sentir entediada quando todo esse pessoal for embora.
Prometo que vai gostar das pessoas que convidei.
Sophie tinha razão. Depois que a equipe de televisão partiu, o silêncio e a
quietude eram tão grandes que Harriet ficou contente de ter uma noite fora da
River House.
O clima estava quente e Harriet decidiu fazer compras para o jantar de
Sophie. Cuidou-se pelo resto da tarde. Deixaria Sophie orgulhosa aquela noite.
O vestido de linho num tom rosado de creme era bem modesto na frente, mas
com um enorme decote nas costas e mais curto do que geralmente usava.
Tinha custado muito caro, mas serviria para o casamento de Lily no verão.
– Meu Deus, Harriet, você é um colírio para olhos cansados – exclamou
Gervase, quando abriu a porta para ela. – Onde está seu carro?
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– Estacionei na rua para sair com facilidade. – Sorriu quando a irmã


apareceu num vestido de seda num tom verde jade que provavelmente custara
o dobro do dela. – Oi, Sophie.
A irmã sorriu e a beijou com aprovação.
– Um vestido novo! Adorei!
Harriet abriu os braços quando uma figurinha de pijama desceu correndo a
escada, com a morena e linda Pilar bem atrás.
– Titia, estou melhor. E veja, veja! Pilar voltou.
Harriet tomou Annabel nos braços e a beijou.
– Está mesmo e ela voltou mesmo. Oi, Pilar.
– Hola, señora. – A garota sorriu e estendeu os braços para Annabel. –
Venha, vou levá-la para a cama.
– Vou subir e ler uma história para você assim que o último convidado
chegar – prometeu Sophie.
– Farei isso – apressou-se Harriet, enquanto jogava beijos para a sobrinha
sorridente que Pilar levava para cima.
Seguiu Gervase e Sophie para se juntar aos convidados no grande jardim
nos fundos da casa e aceitou uma bebida enquanto cumprimentava e conhecia
os outros.
– Sou Philip Mountford – apresentou-se um dos convidados. – Quem é
você, o que faz e, se vive aqui, por que não a conheci antes?
Harriet sorriu, educada. O homem era bonito, sabia muito bem disso e não
fazia nem um pouco o tipo dela.
– Sou Harriet Wilde, irmã de sua anfitriã, sou contadora e não moro em
Pennington.
– Harriet – Gervase se aproximou com mais bebida –, deixe-me encher seu
copo.
– Não, obrigada, já tomei minha cota. Longa viagem para casa lembre-se.
– Passe a noite dessa vez! Annabel vai adorar.
Por uma vez, ao pensar no chalé e na River House vazios, Harriet se sentiu
tentada.
– É melhor não. Papai vai ficar fora durante o fim de semana.
Os olhos de Philip Mountford brilharam.
– Onde você mora?
– À uma hora de carro daqui – explicou Gervase e lhe tomou a mão. – Com
licença, Mountford, parece que nosso último convidado chegou.
Sophie sorria abertamente enquanto levava seu acompanhante ao jardim.
– Apresento você aos outros mais tarde, James. Já conhece Harriet, assim o
deixarei em suas mãos capazes.
– Boa noite, Crawford. – Gervase se aproximou afável. – Vinho ou cerveja?
A elegância morena e esguia de James era um contraste impressionante
com a boa aparência convencional de Philip Mountford. O coração de Harriet
disparou enquanto ele cumprimentava o anfitrião, pedia uma cerveja e então
se virava para ela.
– Está linda esta noite, senhorita Wilde. Mandaram que lhe desse uma
mensagem. Annabel está pronta para ouvir uma história.
Sophie tentou impedir.
– Vou ler para ela, Harriet. Fique aqui e converse com James.
– Eu prometi. Vejo você depois, James. – Saiu sem pressa e esperou que a
visão de suas costas valesse o dinheiro que pagara pelo vestido.
Leu a história para a sobrinha, despediu-se com um beijo e saiu.
James esperava por ela ao pé da escadaria.
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Jessica 199.1 – Sedução Perigosa – Catherine George

– Recebi ordens para escoltá-la até a sala de jantar, no caso de você ter
esquecido o caminho.
Harriet sorriu enquanto atravessavam o largo corredor.
– Não sabia que estaria aqui esta noite.
Ele ergueu uma sobrancelha sardônica.
– Evidente. Ou não teria vindo.
– Errado. Precisava de companhia hoje e a River House está muito vazia.
– Embora não viva lá?
– Aí estão vocês – interrompeu Sophie, com um gesto para chamá-los. –
Venham se sentar. – Abaixou a voz para falar com Harriet: – Coloquei-a entre
James e Philip. Divirta-se, é uma ordem.
O vinho era abundante, a comida, maravilhosa e, como todos se
conheciam, a conversa foi agradável e tranqüila. Harriet descobriu que estava
se divertindo mais do que esperava. O prazer doce-amargo de se sentar ao
lado de James foi estragado apenas pela proximidade de Philip Mountford, que
lhe exigia atenção quase o tempo todo.
– Devo lhe dar um soco no olho? – sussurrou James num dado momento, e
sorriu quando ela engoliu uma risada.
– Se tudo mais fracassar, vou lhe pisar o pé com o salto do sapato. – Então
ergueu a voz. – Este caranguejo está delicioso.
– Você também – sussurrou James.
Harriet ruborizou. Então percebeu que Sophie falava com ela.
– Estava contando a todos sobre a filmagem na River House, Harriet.
E, de repente, Harriet se encontrou no centro da atenção de todos. As
perguntas vinham de todas as direções enquanto ela e Sophie descreviam a
experiência. Depois de algum tempo, olhou para a irmã perturbada.
– Desculpem… devemos estar entediando todos vocês.
Sophie sorriu.
– É claro que não estamos. Foi fascinante. Quem é o próximo da lista,
Harriet?
– A filmagem de um programa de culinária para a televisão.
– Seu lucro deve ser fabuloso. – Philip falava de uma maneira tão animada
que era como se o lucro fosse dele.
Gervase lhe lançou um olhar frio.
– Um pouco pessoal demais, Mountford.
Philip deu de ombros.
– Sem intenção de ofender. Se tivesse a oportunidade de aumentar minha
renda, uma equipe de filmagem poderia alugar minha casa quando quisesse.
– Mas você vive numa monstruosidade moderna – disse um dos
convidados. – Quem iria querer filmar lá?
– Se for o tipo certo de casa moderna, alguém poderia querer – informou
Harriet, então se virou para James. – Como está sua irmã?
Quando todos foram tomar o café no jardim, James tomou com firmeza o
braço de Harriet.
– É agora que deixo evidente para aquele idiota que você não está
disponível.
Cumpriu a palavra e ficou perto de Harriet o resto da noite, o que não
escapou a Sophie.
– Não posso culpar o homem por tentar, você está simplesmente
maravilhosa – disse James.
– Ora, obrigada, gentil senhor.
Ele se aproximou.
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– Somos amigos de novo?


– É claro. – Suspirou. – Mas apesar da noite adorável, preciso voltar para
casa.
– Vou acompanhá-la no meu carro.
– Será uma viagem muito longa de volta.
– Já fiz isso antes, lembra-se?
– É muito gentil da sua parte, mas não sonharia em lhe dar tanto trabalho.
Ficarei bem sozinha!
– É claro que sim. – A voz se tornou áspera e, para seu desapontamento,
virou-se para falar com outra pessoa.
E então a festa acabou para Harriet. Alegando a longa viagem para casa,
despediu-se.
Para surpresa de Harriet, Sophie a abraçou.
– Estou contente por você ter vindo. Nós, garotas Wilde, devemos ficar
unidas.
Harriet foi surpreendida por uma inesperada tempestade de verão, com
raios, trovões e chuva forte, o que a obrigou a dirigir muito devagar. Quando
finalmente chegou aos terrenos da casa, sentiu-se grata pelas luzes de
segurança. O vento passava com força entre as árvores enquanto corria do
carro para a varanda do chalé. Tentava abrir a porta quando enrijeceu o
coração na boca ao som de passos.
– Harriet?
Ela suspirou ao ver o pai com um enorme guarda-chuva.
– Deus, você me apavorou! Pensei que estava na casa da senhora Fox.
– Estava, mas pedi a Sophie que me avisasse quando você partisse. – O
rosto de Aubrey estava tenso à luz fraca. – Posso entrar?
– Vamos sair da chuva. – Assim que entraram, virou-se para ele. – Alguma
coisa errada?
– Sei que é tarde, mas preciso conversar com você. Vou direto ao ponto.
Vim lhe pedir a bênção, Harriet.
– A bênção?
– Madeleine e eu vamos nos casar.
– Parabéns! – Harriet conseguiu sorrir. – Quais são seus planos?
– Vamos viver na casa de Madeleine e finalmente poderá ter a River House
só para você, agora que encontrou uma forma de sustentá-la.
Harriet balançou a cabeça, deprimida.
– Lamento, mas não é factível. Enquanto o pessoal da filmagem estava
aqui, usei minhas férias para vigiar as coisas, mas não posso continuar a fazer
isso se quiser manter meu emprego. Nem posso depender de aluguéis futuros
sem um trabalho. – De repente, tudo pareceu demais. – Só há uma coisa a
fazer. Julia e Sophie não vão gostar, mas você precisa vender a casa, papai.
Para surpresa dela, ele pareceu aliviado.
– Esperava que dissesse isso. Sua mãe ficaria transtornada se soubesse
que dedica sua vida à River House. Precisa de um marido e filhos e uma casa
menos trabalhosa, Harriet.
A expressão nos olhos dela endureceu.
– Se está lembrado, uma vez você matou minhas esperanças de ter tudo
isso!
– Crawford não é o único homem no mundo, Harriet. E, na ocasião, pensei
que fosse apenas uma coisa de adolescente que acabaria naturalmente. –
Suspirou. – Mas o que morreu foi seu relacionamento comigo e lamento muito.
Você ainda gosta dele?
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Infelizmente, sim.
– Não pensei nele durante anos, até que apareceu para alugar a casa.
– Então, por que diabos não encontrou outra pessoa? Poderia ter qualquer
homem que quisesse Harriet. Nick Corbett, por exemplo. Mas dedicou toda a
sua energia ao trabalho e a casa.
Ela olhou diretamente nos olhos dele.
– Na verdade, acabei de decidir que é hora de você assumir a
responsabilidade pela River House. Mas se vai se casar e se mudar para a
mansão da senhora Fox, é melhor vender a casa. – Sorriu com tristeza. – Se
puder, tente encontrar um comprador que queira a casa como é. Odiaria se
fosse transformada em apartamentos.
– Já tomei as primeiras providências. Pedi a Hugh Ames, da Combe
Estates, para avaliar a casa.
– Andou ocupado. Posso perguntar qual foi à avaliação?
O valor lhe tirou o fôlego.
– Otimista demais, com a atual situação do mercado imobiliário.
– Hugh já me ligou para dizer que um comprador aceitou pagar o que pedi.
– Deus do céu! – Olhou para ele impressionada. – Quem você conhece que
tem tanto dinheiro?
– Não brigue comigo, mas o comprador é James Crawford. – Aubrey ergueu
uma das mãos. – Ainda não aceitei a oferta, não gosto da ideia tanto quanto
você. Se não quiser, recusarei.
Harriet se sentiu tonta e se sentou.
– Então ele finalmente conseguiu se vingar de nós dois.
– Parece que sim. O que é muito injusto com você. Afinal, fui eu que
estraguei tudo. Juro que não mandaria prendê-lo, Harriet. Foi uma ameaça
vazia, queria apenas afastá-lo de você.
– Acreditei em cada palavra que disse na ocasião e é por isso que nunca o
perdoei. – A voz era profundamente triste. – Não que isso importe agora, James
pode rir por último. Venda para ele, papai, vou odiar saber que alguém que não
é da família vive na River House, ele ou qualquer outro. Peça a Hugh Ames
para achar um apartamento para mim na cidade. Ficarei até a filmagem do
programa culinário e então me mudarei.
Aubrey se levantou e, pela primeira vez em anos, abraçou Harriet.
– Se pudesse voltar no tempo, faria as coisas de modo muito diferente. –
Ergueu o rosto dela para o dele. – Mas precisa acreditar numa coisa. Foi sua
mãe que amei no momento em que a vi pela primeira vez e não tinha relação
nenhuma com a casa. Para ela, era um legado sagrado, mas para mim sempre
foi uma carga. Provavelmente isso a afastará de mim para sempre, mas a
verdade, Harriet, é que ficarei feliz de me livrar dela.
– A Fossedyke Court não é menor!
– Mas Madeleine e eu viveremos na Dower House. Seremos apenas
caseiros da casa principal até que um dos filhos dela se case.
POR DUAS semanas, Harriet viveu num estado constante de tensão,
esperando um telefonema triunfante de James que nunca foi dado. A filmagem
do programa de culinária foi muito trabalhosa, mas o pai se ofereceu para
cuidar das coisas e ela não precisou tirar folga do trabalho. Agora a River
House estava imaculada e tranqüila.
Harriet não recebeu mais notícias do pai sobre a venda da casa e, para
seu desespero, descobriu que não estava grávida. Sentiu-se vazia e
desconsolada. No sábado, não conseguiu se levantar e limpar o chalé, como
sempre fazia, ou ir à cidade para ver apartamentos.
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Jessica 199.1 – Sedução Perigosa – Catherine George

Passava do meio-dia quando tomou um banho de chuveiro, se vestiu e


deixou os cabelos soltos para secarem como quisessem. Desceu no momento
em que um carro parou diante da porta. Ignorou as batidas fortes. Talvez, se
ficasse quieta, ele fosse embora.
– Harriet! – gritou uma voz familiar. – Sei que está aí. Abra.
Ela empurrou o cabelo úmido do rosto e abriu a porta. James, tão
elegantemente casual que a fez se sentir dez vezes pior, observou-a,
preocupado.
– O que está errado?
– Errado? – repetiu com sarcasmo. – O que poderia estar errado? Por favor,
entre. Logo isto será seu mesmo... – Virou-se e marchou até o assento da
janela. – Por favor, sente-se…
Antes de conseguir chegar lá, ele a tomou nos braços e sentou-se no sofá
com ela no colo.
– Pare de lutar – ordenou. – Apenas fique quieta e ouça.
– Não quero ouvir! Já sei de tudo o que precisava saber. – A voz falhou.
– Solte-me…
– Não, vai ficar onde está até eu dizer tudo o que quero.
– Como se já não tivesse feito isso. – Fungou deselegante. – Está feliz
agora? Alugar minha casa para uma festa foi apenas o começo. Para tornar a
vingança completa, precisou comprá-la e me despejar!
As lágrimas que segurara por tanto tempo subitamente se soltaram, e ela
soluçou como uma criança perdida contra o peito de James. Ele a abraçou com
força e a deixou chorar, uma das mãos lhe alisando os cabelos até ela
conseguir sossegar.
– Você deixou de fora aquela coisa da neve.
– Que neve?
– A heroína trágica sempre é despejada na neve.
Harriet mordeu o lábio para controlar uma risada histérica.
– Pode ser engraçado para você, James Crawford, mas é muito sério para
mim.
– Para mim também, pode ter certeza!
Ela inspirou com força, trêmula.
– Então, senhor Crawford. Como descobriu que a casa estava à venda?
– Meu cunhado joga tênis de vez em quando com Hugh Ames e sempre
vence. Quando Ames ganhou de Marcus pela primeira vez, bebeu demais para
comemorar e deixou escapar a notícia de que tinha em mãos a venda do
século porque seu pai ia se casar e se mudar da River House. Moira me deu a
notícia depressa. – Os olhos prenderam os dela. – Aceitei pagar o preço pedido.
Quero que você more na sua casa, não que se mude Harriet Sarah Wilde. Vou
passá-la para o seu nome, dá-la de presente a você para que volte ao lugar a
que pertence.
Harriet o encarou atônita.
– Por que faria isso?
– Porque posso. – Então sorriu. – E odiaria pensar em você na neve sem
um teto.
– Não acredito em você, James.
– Mas é verdade. Quando terminamos de negociar, seu pai me pediu
alguns minutos em particular. Foi uma agonia para ele dizer as palavras, mas
me contou uma história muito interessante. Que você me dispensou porque ele
ameaçou mandar me prender se você não obedecesse a ele.
– Papai lhe contou! – Harriet estava impressionada.
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Jessica 199.1 – Sedução Perigosa – Catherine George

James acenou.
– Assim, agora sei por que você partiu meu coração. – Ergueu uma das
mãos. – Não pareça tão cética, é a verdade.
– Partiu meu coração também. – Começou a chorar de novo contra o peito
dele até que James lhe ergueu o queixo e observou seu rosto inchado.
– Pare com isso, Harriet. Está me matando. Queria fazê-la feliz, não
miserável.
– Não estou grávida – deixou escapar de repente.
– Eu sei você me disse.
– Menti. Na ocasião, pensei que estava, mas há alguns dias descobri que
não estou.
Os olhos dele brilharam com um calor exultante enquanto abaixava a
cabeça para beijá-la. E, de repente, não havia nada por que chorar, apenas a
maravilha da boca de James na dela e o calor das mãos acariciantes em seu
corpo. Só muito tempo depois ele ergueu a cabeça.
– Podemos cuidar disso em breve. Mas primeiro quero esclarecer alguns
pontos sobre a casa. Vou dá-la a você com grande alegria, mas há uma
condição. Tem que se casar comigo.
Olhou dentro dos olhos dele.
– Então agora está falando em casamento, é?
– Sim. – Sorriu, desconcertado. – Desculpe pela grosseria daquele dia, mas
sou apenas humano, Harriet.
Ela ergueu o queixo.
– Talvez deva mencionar que Nick Corbett já me pediu.
James enrijeceu.
– Ele quer se casar com você?
– Quer se casar com a senhorita Wilde e viver na River House.
– Ele pode esquecer! – Beijou-a até ela pedir piedade e então mergulhou a
mão nos cabelos dela para manter-lhe o rosto virado para o dele. – Vamos
deixar uma coisa bem clara, Harriet. Meus motivos são diferentes dos de
Corbett. Quero me casar com você simplesmente porque a amo. Sempre amei,
sempre amarei. No que me diz respeito, pode vender a casa e compraremos
outra ou viveremos na que tenho. – Beijou-a de novo. – O importante é
finalmente vivermos juntos, o lugar é irrelevante.
O coração dela disparou.
– Mas antes de tomarmos uma decisão, ainda há uma coisa que preciso
saber. E dessa vez não usarei o sexo para descobrir a verdade.
– Que desapontamento!
– Mais tarde – prometeu rouco. – Conte-me por que saiu da River House e
veio viver aqui no chalé.
– Não conseguia perdoar meu pai por ameaçar arruinar sua vida e
conseguir estragar a minha. Mas prometi a minha mãe, quando estava
morrendo, que cuidaria da River House, assim só me afastei até o chalé.
– E você manteve a promessa por todos esses anos?
– Sim.
– E eu é que fui acusado de ser vingativo! – Roçou-lhe o rosto com o dele.
– Vou tomar muito cuidado para nunca irritar você. – Beijou-a de novo. – Mas
apesar da promessa feita à sua mãe, quando sugeri que vivêssemos juntos,
você pareceu feliz em se mudar da casa.
– Estava. Na ocasião, as finanças de papai estavam em bom estado e a
ajuda de uma adolescente não era necessária. Não que tivesse pensado a

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respeito. Por você, estava disposta a esquecer tudo, até minha promessa a
minha mãe.
James a apertou com força.
– Então, durante todos esses anos, você tem feito penitência.
– Em parte.
– É hora de parar, Harriet. Então, qual é a sua resposta?
– Qual é a pergunta?
– Vai se casar comigo, mulher?
– Já que é tão persuasivo, como posso dizer “não”?
De repente, Harriet bocejou.
– Está cansada, minha querida? – Ela acenou comovida pela palavra
carinhosa que nunca ouvira dele. – Então precisa se deitar. – James se levantou
com ela no colo.
– Você deveria se deitar também.
Ele sorriu e se transformou no James que conhecera.
– Se quer dizer com você, concordo plenamente! – Parou ao ouvir um carro
chegando. – É seu pai?
Ela acenou e James a colocou de pé, então a beijou.
– Nesse caso, antes da parte boa, vamos até a casa. Preciso pedir a ele a
mão da filha em casamento. Não precisamos da permissão dele, mas, como
um gesto para a futura harmonia familiar, vamos ser magnânimos e pedir sua
bênção.

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