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Leviatã, ou Matéria, Forma e Poder de um Estado Eclesiástico e Civil

Leviathan, or Matter, Form and Power of a Commenwealth Ecclesiastical and Civil


São Paulo, SP – Editora Clarinet, 2002

Nome: Jode Clayton Fernandes

1. Dados da obra:

1.1 Sobre o Título

Descrito no livro de Jó, no Antigo Testamento, o Leviatã é uma criatura mitológica de


grande poder. Thomas Hobbes se utiliza da figura como como símbolo do governo
central, poderoso e autoritário, que propõe em sua obra.

1.2 Sobre o Autor

Nascido no condado de Wiltshire, em 1588, Thomas Hobbes foi desde cedo apresentado
a escolástica e o aristotelismo, correntes aos quais demonstrou pouco interesse. Anos
depois, tem contato com Francis Bacon, Padre Mersenne e o já envelhecido Galileu.
Essas influências guiam o pensamento de Hobbes para a vertente mecanicista e o levam
a tentar, em sua obra, aplicar o método empírico e desenvolver explicações universais
dentro das ciências sociais. Depois de anos em Paris, Hobbes retorna à Inglaterra em
1651, com o fim da Guerra Civil e publica sua obra mais famosa, “Leviatã”.

2. Tese central da obra

Em “Leviatã”, Hobbes procura explicar o Estado através de uma ótica contratualista. Para isto,
ele descreve o estado natural do homem como uma eterna guerra de todos contra todos e que,
através de um esforço racional, os indivíduos se unem e celebram um contrato no qual
renunciam de parte da própria liberdade para que o contexto de violência termine. O fruto da
renúncia de cada um dos homens é um grande órgão que assume a missão de assegurar proteção
e defesa para aqueles que compactuam com sua existência. Esse órgão é o Estado, soberano e
centralizador, que deverá representar o desejo comum de conservação dos indivíduos. Dentro
desse modelo, Hobbes descarta a ideia do poder do Estado como direito divino, uma vez que
esse poder é emana não de um ser superior, mas daqueles que se propuseram a realizar o pacto
social.
3. Conceitos apresentados na obra

3.1 Do Homem

 Estado de natureza: Para fundamentar o seu modelo de Estado como Hobbes resultado
da consciência e vontade dos indivíduos, Hobbes explana sobre o estado de natureza
da humanidade, situação que segundo ele - devido à potencial igualdade entre os
indivíduos e discórdia que entre eles se estabelece, seja por competição, desconfiança
ou busca pela glória - pode ser resumida como uma eterna guerra de todos contra todos.
Para Hobbes, a condição natural é animalesca, brutal, um contexto em que não há espaço
para noções de bem e mal, de justo ou injusto. Outra consequência desse estado natural
é a ausência da ideia de propriedade, uma vez que uma coisa só pertencerá a um homem
pelo tempo em que ele puder conservá-la e nada garante que outro venha e tome. Hobbes
finaliza dizendo que é a racionalidade do homem que o leva a buscar normas de paz
(que conseguintemente ele explicará como sendo leis da natureza), pensamento que
reiterado levará os indivíduos a chegar em um acordo.
 Leis naturais: O estado natural é também um estado de liberdade. Onde não lei ou
acordo, todo homem possui a faculdade da maneira que lhe aprouver, sendo cada um
guiado pela própria razão. Nesse estado, por cada um ser livre inclusive para intentar
contra à vida ou o patrimônio dos outros, não há segurança ou garantia.
o 1° Lei Natural: Para Hobbes, a razão leva, em certo momento, o homem a
compreender que deve se esforçar pela paz, zelando pela própria conservação.
Caso não consiga estabelecer esse estado de não violência, o racional é que o
homem use de todos seus artifícios para se defender. A este princípio de
autodefesa e busca pela paz, Hobbes dá o nome de lei fundamental da
natureza.
o 2° Lei Natural: Desse princípio se estende um segundo, que aponta para a ideia
do contrato social. Para Hobbes, ao se deparar com a oportunidade, o homem
deve renunciar parte da sua liberdade, para que, junto aos outros, possam se
dispor para a paz. É ressaltado que essa renúncia precisa ser coletiva para que a
condição natural de guerra seja desfeita, se apenas uma parte dos homens o
fizessem, essa atitude seria equivalente a dispor-se como presa para os outros.
Essa renúncia deve ser mútua para que todos sejam igualmente beneficiados com
o estado de paz. Hobbes conceitua essa transferência mútua de direitos como
sendo o que se chama de contrato.
 Coerção: O autor faz questão de ressaltar a maneira como os pactos são estabelecidos
para que possuam validade e possam cumpridos e longevos. Além de especificar os
sinais expressos de um contrato e fazer restrições quanto à sua aplicação (como a Deus
ou a animais), Hobbes aponta diretamente para o elemento coercitivo como forma de
garantir a sustentação do pacto. O poder para coagir aqueles que violam o contrato é
o que elimina o temor entre os que o celebraram de que as palavras não sejam cumpridas.
o 3° Lei Natural: A necessidade do cumprimento mútuo do contrato e
consequentemente de um elemento de coerção que elimine o medo do
rompimento do pacto configuram, segundo Hobbes, a terceira lei da natureza.
A instituição de um poder capaz de isso realizar é que concede validade aos
contratos. Emanam dessa instituição as ideias de propriedade e de justiça, que
se baseiam em um comportamento razoável, que ande em conformidade com a
própria vontade e com as regras do contrato.
o 4° Lei Natural: O comportamento racional e a busca pela paz também guiam a
quarta lei natural. Trata-se do esforço por parte de um receptor de um benefício
de que o doador não venha a arrepender-se de sua boa vontade. Isto como forma
de conservar a benevolência e a confiança e evitar a condição de guerra. O
desrespeito a essa quarta lei se pode chamar de ingratidão.
o 5° Lei Natural: Também é pressuposta uma atitude em favor da convivência
entre os homens, no ímpeto de que não haja entre os indivíduos aspereza ou
obstinação. Essa é uma quinta lei natural, a promoção da sociabilidade, da
complacência.
o 6° Lei Natural: Há também como instrumento de garantia de paz, o perdão às
ofensas alheias, a sexta lei natural.
o 7° Lei Natural: No caso de correção, as atitudes também se devem ser
comedidas, para que não seja causado nenhum dano sem razão, o que induz à
guerra. Atentar contra essa sétima lei natural é agir com crueldade.
o 8° Lei Natural: Na busca pelo estado pacífico, também devem ser evitadas as
ofensas e injúrias entre os homens, o que configura a oitava lei natural.
o 9° Lei Natural: Pelo contrário, os homens devem despir-se do orgulho para que
reconheçam a igualdade entre si, a nona lei natural.
 Outras Leis Naturais: Segundo a razão e pelo intento de manter-se no estado de
conservação deve-se prezar pela supressão da arrogância, a equidade, uso igualitária dos
bens comuns, distribuição dos bens que não podem ser divididos dada por sorteio, salvo-
conduto para os mediadores, submissão à arbitragem em contraponto ao juizado da
própria causa ou de outras em que possui parcialidade e no valor igual entre os
testemunhos. São estas leis, para Hobbes, a verdadeira filosofia moral e base da
vida em sociedade.

3.2 Do Estado

 Necessidade do Estado como regente do contrato de paz: Desse pretexto de tantas


leis surge, entretanto, um dilema. Por mais que sejam fruto do desejo racional de cada
homem, esse conjunto de valores (enunciados por Hobbes como justiça, equidade,
modéstia, entre outros) é contrário as paixões naturais do indivíduo. Pelo contrário, no
seu estado natural o homem tende ao orgulho, parcialidade e vingança. Para haver
ordem e consequente cumprimento das leis naturais listadas é necessário mais do que a
palavra. É preciso uma força superior àquela que cada integrante do pacto possui.
o A associação humana sem o Estado: Hobbes sustenta a necessidade dessa
força maior por indicar numa mera união de indivíduos gerará, através do
envolvimento entre os homens e a competição que se fará entre eles uma
inevitável discórdia e guerra. Apenas através da espada, símbolo do poder
coercitivo em favor do cumprimento do contrato, que se pode instituir um estado
de paz.
o Em relação a sociedades de outras criaturas vivas: Nisso se diferencia os
homens de outras criaturas vivas, como formigas e abelhas, que vivem em
sociedade. Há na realidade humana um estado natural de competição, uma busca
obstinada pelo bem individual, o julgamento das atitudes alheias, a distorção das
opiniões, a imposição do próprio saber e a artificialidade do contrato social. Não
se pode, mediante a tantos diferenciais, julgar que como esses animais, pode o
homem viver em um estado de paz sem sujeição. Há, portanto, a necessidade
de um governo civil. É necessário conferir a um homem ou a uma assembleia a
responsabilidade e a autoridade de praticar o necessário para garantir a paz e a
segurança comum. Aos homens cabe submeter-se às decisões da autoridade
constituída. Quando cada indivíduo cede e transfere parte de sua liberdade
a esse personagem, forma-se um poder central, soberano, absoluto: um
enorme Leviatã, o Estado.
 Necessidade da aprovação do soberano: Da instituição do Estado emana não só os
poderes do indivíduo ou grupo de indivíduos que são firmados como soberanos, como
também a necessidade de uma autorização unânime dos atos dessa autoridade por
parte de todos aqueles que debaixo dela estão, independentemente da posição pessoal
de cada um.
 Colaboração para a manutenção do contrato: Hobbes toma por necessário delinear
que cabe aos submetidos não renunciar abruptamente à autoridade instituída nem
arbitrariamente transferir esse poder para outra figura. Cabe, portanto, em um primeiro
momento o reconhecimento da figura instituída como soberano. São responsabilidades
por parte do tornado soberano a fidelidade aos seus súditos e o zelo pela
manutenção do contrato. Aos súditos é imposto que não só consintam na escolha do
soberano (tanto os que votaram a favor quanto os contrários), como também entendam
por próprias as ações da figura instituída. Nesse contexto, nada pode considerado
injúria ou injustiça, pois ninguém pode acusar a si próprio de injúria. Por esse pretexto,
o soberano também se vê livre tanto de atentados contra a vida ou mesmo de outro tipo
de punição.
 Deveres do soberano: Para a manutenção do estado instituído, torna-se incumbência
do soberano ser juiz do que deve ser feito para a instauração da paz e da segurança e
também, antecipadamente, das ações que previnam discórdia e hostilidade. Também
fica à encargo do poder central a prescrição das regras sobre as faculdades e
propriedades dos homens, a autoridade judicial, o direito de fazer guerra com outras
nações, a escolha dos conselheiros, o direito de recompensar com honrarias e riquezas
e, por último, ao julgamento das leis de honra e a ordenamento da posição e da dignidade
que cabe a cada indivíduo.
 Espécies de governo: Hobbes apresenta as diferentes formas de governo como:
monarquia, aristocracia e democracia, ressaltando que tirania e oligarquia não são em si
outras espécies de governo, mas sim de denotações negativas das formas já citadas. O
autor disserta sobre as diferenças entre essas formas de governo em vários pontos.
1. Primeiramente, aponta a passionalidade que pode afetar as decisões no caso de
uma monarquia, uma vez que o portador do poder é também uma pessoa natural,
sujeita a promover o bem pessoal ao invés do público.
2. Uma segunda observação atenta para a possibilidade de o monarca ouvir
conselhos de quem lhe aprouver, enquanto na aristocracia e na democracia, as
opiniões de pessoas versadas são muitas vezes negligenciadas em favor dos
indivíduos que já estão credenciados a opinar desde o início.
3. É também um apontamento a inconstância que se pode instaurar em um governo
aristocrático, uma vez que uma decisão instaurada por alguns pode ser derrubada
posteriormente por outros, ao passo que na monarquia a decisão pertence a
apenas uma pessoa.
4. Essa discórdia que pode ser instituída entre os membros de uma assembleia é
alvo da quarta observação, pois para Hobbes isso pode, seja por inveja ou por
interesse, causar até mesmo uma guerra civil.
5. A quinta questão trata da interferência do governante sobre seus súditos, que
podem querer adula-lo no intuito de serem favorecidos, manobra que é
dificultada na aristocracia.
6. Outro ponto relacionado à monarquia é a questão de sucessão, que pode levar o
poder à uma pessoa que seja pela idade ou por outro empecilho, seja incapaz de
assumir a responsabilidade e julgar com equidade. Em casos como esse, a
passagem do poder para outro representante significa um momento de
instabilidade e inconveniência que pode levar a insubordinação dos súditos.
 Sucessão do soberano: Hobbes também discorre sobre as formas de sucessão do
representante da soberania. Apesar de citar o sistema de hereditariedade e na eleição, o
autor indica como melhor forma de sucessão a indicação expressa do governante,
evitando atmosfera de indecisão, incompatibilidade e, como ele indica, a possibilidade
de o governo dissolver-se.
 Estado adquirido: Em relação ao Estado adquirido, isto é, aquele domínio conquistado
pela força, Hobbes faz questão de ressaltar algumas diferenças.
o Domínio paterno: O domínio paterno é aquele que se dá pela geração, é o
domínio que um pai tem sobre seu filho. Se baseia, em última análise, na dívida
de vida que o filho tem por ter sido sustentado pelos progenitores. Em casos
específicos, em que haja disputa entre o casal pelo domínio dos filhos, deve se
atentar ao contrato já firmado, se houver. Caso não haja, deve-se investigar qual
é a relação de submissão entre ambos.
o Domínio despótico: Um outro tipo de domínio é o que advém de uma aquisição
despótica, quando o vencido se rende ao vencedor e a ele, por vontade própria,
se submete. Cabe também ao vencedor decidir se compactuará com a sujeição.
Hobbes explana também sobre a relação entre escravos e senhores que, segundo
ele, não existe um domínio desse gênero, pois o escravo não age por dever, mas
por temor de um castigo. Já o servo de um domínio despótico possui um pacto
de obediência.
 O poder absoluto: Hobbes compila trechos bíblicos que endossam a ideia de um poder
absoluto por parte do soberano para com seus súditos.
 Conceito de liberdade: Liberdade conceituada como ausência de impedimentos às
faculdades humanas e de oposições externas as suas ações. Mesmo sujeitos a sanções
impostas pela estrutura de soberania, os súditos não deixam de possuir comedida
liberdade.
o Medo e Necessidade: Para Hobbes, mesmo alguém que paga a dívida pelo
temor de ser preso é livre, pois apesar das consequências, no momento
específico, ele possui a liberdade de não realizar o pagamento. Mesmo tendo
seus comportamentos potencialmente condicionados pelo medo ou necessidade,
os indivíduos permanecem livres.
o Na ausência de leis específicas: Também é expressa a liberdade dos indivíduos
dentro do Estado pela sua faculdade de agir de todas as formas que não estão
repreendidas no código de leis.
o Direitos inalienáveis: Se destaca também as liberdades que nem mesmo podem
ser transferidas através de contratos. Para Hobbes, a autodefesa é um exemplo
de direito que não está sujeito à pactos. Sendo assim, mesmo que o soberano
ordene que alguém se fira ou se mate, o indivíduo é livre para desobedecer.
o Na renúncia do soberano: A obrigação dos súditos está sujeita ao período em
que o poder que desse contrato emana vigora. Se um soberano renuncia ou se
não possuir herdeiros, já não há mais soberania, nem tampouco sujeição.
 A nutrição de um Estado: É dada pela matéria animal, vegetal e mineral posta à
disposição do poder, bem como do labor necessário para colhê-la. Divide-se quanto à
origem, podendo ser nativa ou estrangeira.
 A distribuição dos materiais: A fim de evitar a guerra perpétua pelo domínio dos
materiais, fica à encargo do Estado a atribuição da porção de cada homem. Através
dessa distribuição se institui a liberdade de gozar de um bem, daí a noção de
propriedade, inexistente no estado natural humano.
 Propriedade como direito de excluir o uso alheio: A noção de propriedade de maneira
nenhuma significa o fim da influência do soberano sobre o bem, mas garante ao
indivíduo o direito de manter o bem fora do alcance todos os outros súditos.
 Distribuição como forma de garantir a paz: A divisão desses materiais não deve ser
realizada de maneira contrária a vontade de todos os súditos. Pelo contrário, deve ser
uma expressão de discernimento e consciência, para garantir a paz e a segurança entre
os indivíduos. De outra maneira, será considerada nula.
 Poderes econômicos: Compete ao Estado também definir a método pelo qual os súditos
realizarão os contratos no âmbito econômico, seja compra, venda, arrendamento.
Também é responsabilidade do soberano administrar a moeda que vigora dentro do
território.

4. Conclusões

Em “Leviatã”, Thomas Hobbes inaugura novos caminhos para a Filosofia Política e apresenta
conceitos que ficaram entalhados nas raízes do Estado Moderno. Explanada superficialmente
durante a Antiguidade Clássica, a teoria contratualista ganha nessa obra forma e conteúdo
suficientes para ser reiterada no Segundo tratado sobre o governo civil (1682) de John Locke e
O Contrato Social (1712), de Rousseau, tornando-se um marco no pensamento moderno.

É também grande mérito de Hobbes a análise antropológica por trás de sua teoria do estado de
natureza humano. Ao aplicar a filosofia mecanicista e procurar por respostas universais, Hobbes
condensa em “Leviatã” explicações aprofundadas sobre as motivações e instintos humanos,
bem como o pensamento racional como ferramenta criadora do estado social. Outro resultado
da busca de Hobbes por respostas universais é a lista de leis naturais, que além de descrever a
linha lógica por trás dos contratos sociais, também se mostra como uma eficiente análise dos
elementos comuns a todos os Estados.

“Leviatã” é, sem dúvida, um divisor de águas no estudo da origem, das funções e do


funcionamento do Estado.