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RAIOS

Sistemas
Este artigo discute a base
não-convencionais científica e o desempenho
de sistemas de proteção
contra descargas ESE e dos
de proteção contra sistemas dissipativos, também
conhecidos como eliminadores
de raios. Com base em
descargas evidências experimentais, o
autor afirma que as hastes
ESE não são mais eficazes
atmosféricas que as convencionais hastes
Franklin, cujo desempenho já
foi validado em diversos
estudos, e que os sistemas
dissipativos não conseguem
eliminar descargas iminentes.
Vernon Cooray, da
Universidade Uppsala (Suécia)

s sistemas de proteção contra nais usam as hastes Franklin, cujo de- dente (ESE - early streamer emission)

O descargas atmosféricas exter-


nos podem ser divididos em
duas categorias: convencionais e não-
sempenho já foi validado em diversos
estudos realizados globalmente nas
últimas décadas. Já as hastes baseadas
e os sistemas dissipativos (dissipation
arrays) — algumas vezes chamados de
sistemas de transferência de carga
convencionais. Os sistemas convencio- na emissão antecipada do líder ascen- (CTS - charge transfer systems) —
pertencem à categoria dos sistemas
não-convencionais, e foram introduzi-
Skyscapers dos em várias normas de proteção con-
tra descargas atmosféricas sem terem
sido testados em campo por um perío-
do longo o suficiente para avaliar e
validar seu desempenho.
Neste artigo, são discutidos a base
científica e o desempenho desses siste-
mas não-convencionais. Com exceção
da seção “Hastes ESE e Franklin sob
condições naturais de campo”, que
descreve os resultados de um estudo
recente efetuado pelo autor, o artigo é
extraído de uma publicação elaborada
pelo mesmo em nome do grupo de tra-
balho 405 do Comitê de Estudos C4
do Cigré [1].

O conceito de emissão
antecipada do líder
ascendente (ESE)
Os terminais ESE utilizados na prá-
tica são equipados com um dispositivo
de disparo da descarga para gerar o
líder ascendente, com o objetivo de
aumentar a probabilidade de início de
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um líder conectante a partir do terminal da região de proteção declarada dos giu os dispositivos ESE. No caso das
durante a aproximação de um líder des- dispositivos ESE. O mesmo estudo hastes Franklin, somente as de pontas
cendente [2]. De acordo com os propo- mostra que não foram observados da- não aguçadas foram atingidas pelas des-
nentes do ESE, a vantagem de tempo nos em estruturas equipadas com has- cargas — as de pontas aguçadas não fo-
obtida pelo início antecipado do líder tes Franklin instaladas de acordo com a ram atingidas. Essa experiência compro-
conectante a partir de um terminal ESE, norma de proteção internacional contra va, de forma conclusiva, que os termi-
quando comparado com uma haste raios para cobrir pontos vulneráveis, nais ESE não apresentam vantagens so-
Franklin normal, possibilita que o líder como bordas ou cantos da estrutura. No bre as hastes Franklin, e que a melhoria
conectante gerado trafegue a uma dis- entanto, quedas de raios têm sido obser- na área de proteção alegada não existe.
tância maior em comparação ao emiti- vadas nesses locais de estruturas nas Os adeptos do princípio ESE refe-
do por uma haste Franklin. Conseqüen- quais foram instaladas hastes Franklin rem-se, algumas vezes, a uma experiên-
temente, afirma-se que, sob circunstân- sem considerar tais pontos de intercep- cia realizada na França com descargas
cias similares, um terminal ESE terá tação de alto risco. atmosféricas provocadas [6], para am-
área maior de proteção do que uma Em outro estudo realizado no Novo parar sua argumentação em favor des-
haste Franklin de dimensões similares. México [5], pára-raios ESE foram ses terminais. Esse teste comparou a
No entanto, análises teóricas e experi- comparados com hastes Franklin sime- atuação de um terminal ESE com uma
mentais recentes mostram resultados tri-camente espaçadas, visando validar haste Franklin em relação à conexão
conflitantes com o desempenho decla- a zona de maior atração dos dispositi- com um líder descendente criado numa
rado dos dispositivos ESE [3]. vos ESE declarada por seus proponen- simulação de raios, cujo disparo foi
tes. Se, como alegado, as hastes ESE baseado na altitude. O líder de movi-
Evidência experimental conflitante dão início a um líder ascendente antes mento descendente atingiu o terminal
com o conceito ESE das hastes Franklin e têm maior zona de ESE, o que, de acordo com seus propo-
Estudos de caso realizados por atração, então elas seriam o ponto pre- nentes provaria a superioridade na
Hartono e outros [4], na Malásia, forne- ferencial de incidência dos raios. Con- atuação dos terminais ESE em relação
cem provas incontestáveis de que a des- tudo, de acordo com o que foi observado, às hastes Franklin. Contudo, é impor-
carga atmosférica bypassa os terminais todas as descargas atmosféricas incidi- tante observar que na experiência o ter-
ESE e atinge as estruturas bem dentro ram nas hastes Franklin e nenhuma atin- minal ESE estava localizado mais perto
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do lançador de foguetes do que o con- tempo Δt de um terminal ESE (isto é, o mento de Δt em relação a um terminal
vencional. A razão para conexão do intervalo de tempo entre o início dos convencional.
raio à haste ESE pode ser simplesmen- líderes pelas hastes ESE e Franklin) é Em primeiro lugar, vamos assumir
te devido à vantagem espacial que ele de aproximadamente 75 μs. Os propo- que existe uma vantagem de tempo nos
tinha em relação à haste convencional. nentes dos terminais ESE tomaram essa dispositivos ESE quando expostos a
Infelizmente, as posições das hastes não observação de laboratório e a estende- campos elétricos gerados por descargas
foram trocadas para validar a faixa mais ram para as condições naturais, alegan- atmosféricas. Na tecnologia ESE, essa
atrativa alegada do terminal ESE. Por- do que uma vantagem de 75 μs propi- vantagem de tempo foi convertida nu-
tanto, essa experiência não fornece ne- ciaria vantagem no comprimento igual ma vantagem de comprimento de cerca
nhuma evidência da superioridade pre- ao produto de vΔt, onde v é a velocida- de 50-75 metros em relação a uma haste
tendida dos terminais ESE em relação de do líder ascendente. Assumindo ve- convencional, assumindo velocidade do
aos convencionais. locidade do líder de 106 m/s, eles ale- líder de aproximadamente 106 m/s.
gam que um terminal ESE teria vanta- A maioria das velocidades dos líde-
Evidência teórica conflitante gem de comprimento de aproximada- res conectantes ascendentes reportada
com o conceito ESE mente 75 metros em relação a uma has- na literatura é obtida de descargas
Todo o conceito do ESE baseia-se te convencional. Portanto, todo o con- atmosféricas disparadas por foguetes
no fato de que o disparo de líderes as- ceito do dispositivo ESE é baseado em ou de raios iniciados de forma ascen-
cendentes (streamers) artificiais, a par- duas considerações: dente. Nesses casos, o líder conectante
tir da ponta de um terminal de captação • A emissão antecipada dos líderes dos ascendente move-se num campo elétrico
de raios estressado por um impulso de terminais ESE observada em laborató- de fundo mais ou menos estático criado
chaveamento (ou seja, uma haste ESE), rio ocorre também sob condições natu- por nuvens de tempestades. Essas velo-
pode fazer com que o terminal gere um rais. Em outras palavras, um terminal cidades dos líderes não são relevantes
líder antes de um terminal captor insta- ESE pode lançar um líder conectante para o estudo em consideração.
lado em circunstâncias idênticas, mas muito antes de uma haste convencional Yokoyama e outros [8] conseguiram
sem a ação dos streamers artificiais (ou sob condições naturais. medir as velocidades de líderes conec-
seja, uma haste Franklin) [7]. No labo- • A vantagem de tempo observada se tantes ascendentes iniciados a partir de
ratório, verificou-se que a vantagem de traduzirá em uma vantagem de compri- uma torre de 80 metros de altura, como
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resultado do campo elétrico que a velocidade média dos


gerado por líderes descenden- líderes conectantes é uma ou
tes. Em quatro exemplos ana- duas ordens de magnitude
lisados no estudo, eles desco- menor do que a de 106 m/s
briram que as velocidades dos assumida pelos proponentes
líderes ascendentes, imedia- do ESE. Se os valores das
tamente antes da conexão velocidades médias dos líde-
com os líderes descendentes, res observados experimental-
foram de 1,3 x 106 m/s, 1,4 x mente forem usados na con-
106 m/s, 2,9 x 106 m/s e 0,5 x versão da vantagem de tem-
106 m/s. Essas velocidades po em distância, a vantagem
são similares à usada por do comprimento resultante
fabricantes de ESEs nos cál- não teria utilidade em muitas
culos da distância de atração. Fig. 1 – Distância entre a ponta do líder descendente e a situações práticas.
No entanto, não é correto uti- haste ESE no momento da conexão entre o líder conectante Em segundo lugar, esse
lizá-las na análise dos termi- e o líder escalonado descendente (salto final), em função procedimento de conversão
do impulso de tensão aplicado à haste ESE. Os cálculos são
nais ESE porque, para calcu- fornecidos para três correntes esperadas para a descarga da vantagem de tempo em
lar o comprimento do líder de retorno vantagem de comprimento
conectante considerando a não é correto porque a vanta-
vantagem de tempo, é necessária a ve- que os emitidos por estruturas baixas gem de comprimento eventual depende
locidade média do líder conectante. A durante a interceptação do raio. Os lí- da relação das velocidades de ambos os
velocidade média dos líderes conectan- deres mais longos têm maior tempo líderes: ascendente e descendente. Se
tes medida por Yokoyama e outros [8] para termalização de seu canal, o que isso for levado em conta, a vantagem de
variou de 0,8 x 105 m/s a 2,7 x 105 m/s, os torna mais rápidos do que os líderes comprimento assumida será menor do
ou seja, uma ordem de magnitude abai- conectantes curtos. que o valor calculado pela multiplica-
xo da utilizada pelos fabricantes de Os estudos efetuados por Becerra e ção de Δt pela velocidade média do
ESEs. Além disso, os líderes conectan- Cooray [9] mostram que a velocidade líder conectante.
tes fotografados no estudo foram origi- dos líderes ascendentes, imediatamente Em terceiro lugar, de acordo com os
nados de uma estrutura de 80 metros após seu início, está próxima de 104 m/s, proponentes do ESE, o início antecipa-
de altura. Em geral, os líderes conec- podendo aumentar à medida que o com- do de um líder conectante a partir de
tantes emitidos a partir de estruturas primento do líder atinge valores próxi- um dispositivo ESE ocorre em um
altas são relativamente mais longos do mos de 105 m/s. Isso mostra novamente campo elétrico menor do que o neces-

Fig. 2 – Campo elétrico no nível do solo produzido por um Fig. 3 – Amplitude dos pulsos de tensão que é necessário
líder escalonado descendente à medida que ele se move na aplicar na ponta de uma haste captora para simular as
direção do solo. A linha contínua detalha o campo elétrico mudanças no campo elétrico causadas pelo processo de
correspondente a um líder que se move em degraus de 20 segmentação do líder escalonado: (a) comprimento do
metros de comprimento e a linha tracejada corresponde a degrau de 50 metros; e (b) comprimento do degrau de 20
um líder de movimento uniforme. A corrente esperada da metros. A corrente esperada da descarga de retorno
descarga de retorno associada ao líder escalonado é 30 kA associada ao líder escalonado é 30 kA

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sário para o início de um líder por uma haste são criados por meio de campo
haste convencional. No entanto, para elétrico de fundo do líder escalonado,
propagação bem-sucedida de um líder para gerar faíscas num gap ou numa
conectante, é necessário um determina- série de gaps conectada entre a parte
do campo elétrico de fundo. Se este não superior da haste ESE e a terra. Di-
for suficientemente grande, o líder ini- ferentes mecanismos podem ser utiliza-
ciado pode ser abortado. Os proponen- dos para gerar pulsos de tensão. O
tes do ESE não consideram os requisi- resultado final da aplicação desses pul-
tos para propagação de um líder e tam- sos de tensão é fazer pulsar o campo
pouco a possibilidade de que os líderes elétrico na ponta da haste ESE. Em
iniciados possam ser abortados se os outras palavras, a base da tecnologia
requisitos do campo elétrico de fundo ESE é a criação de um campo elétrico
não forem atendidos. pulsante na ponta da haste captora.
Agora, vamos voltar à primeira con- Sabe-se que o líder escalonado des-
sideração. Recentemente, Becerra e cendente transporta carga negativa para
Cooray [10] construíram um modelo a terra de forma segmentada. Os traba-
que incorpora a física do processo de lhos de pesquisa de Krider e outros [11]
conexão para simular a conexão dos e Cooray e Lundquist [12] mostram que
raios às estruturas, o que permitiu re- a maior parte da carga depositada no ca-
presentar o início e o desenvolvimento nal do líder é transportada de modo
de líderes positivos sob a influência de escalonado. Em um recente estudo,
campos elétricos variando no tempo, Cooray e outros [13] estimaram de que
utilizados em laboratório, bem como forma varia a distribuição espacial da
campos elétricos variando no tempo carga depositada no canal do líder esca-
gerados no nível do solo pela descida lonado à medida que este segue em dire-
dos líderes escalonados (stepped lea- ção ao solo. Neste artigo, essa distribui-
ders). Os resultados mostram que real- ção de carga é utilizada para calcular o
mente é possível obter vantagem de campo elétrico no nível do solo à medi-
tempo no laboratório, mas essa vanta- da que o líder se aproxima da terra. A
gem não está presente quando as hastes figura 2 (pág. 84) mostra o campo elétri-
são expostas aos campos elétricos de co calculado no nível do solo, assumindo
fundo dos líderes. Conforme mostrado que a carga do líder escalonado é trans-
na figura 1 (pág. 84), para alterar signi- portada para o solo em degraus de 20
ficativamente a distância de atração, as metros de comprimento. Para efeito de
hastes ESE têm de ser fornecidas com comparação, o campo elétrico no nível
geradores robustos, com capacidade da do solo, calculado para um líder descen-
ordem de megavolt. dente de propagação suave, é indicado
por uma linha tracejada na ilustração.
Hastes ESE e Franklin Observa-se que a magnitude do campo
sob condições naturais de campo total é tão grande que é difícil notar as
A única diferença da tecnologia rápidas mudanças no campo elétrico
ESE em relação à haste Franklin é que, produzido pelos degraus individuais.
na primeira, o circuito incorporado ao Como as hastes são expostas a esse
condutor permite a aplicação de pulsos campo elétrico de fundo do líder esca-
de tensão na ponta da haste. Com base lonado, o campo elétrico na ponta da
nas experiências de laboratório, alega- haste, melhorado pela geometria, tam-
se que a pulsação artificial da haste bém vai acompanhar a variação tempo-
ESE provoca aumento da distância de ral do campo do líder escalonado. Por-
atração em comparação com a haste tanto, o campo elétrico na ponta de um
Franklin [7]. Conforme mencionado an- condutor de descargas atmosféricas, ex-
teriormente, o trabalho de Becerra e posto ao campo elétrico de um líder
Cooray [10] mostra que esse procedi- escalonado descendente, também au-
mento não promove o aumento dos líde- mentará em degraus mínimos de forma
res conectantes sob condições naturais. sincronizada com o campo elétrico de
Por um instante, vamos desconside- fundo. Em outras palavras, o comporta-
rar os resultados de Becerra e Cooray mento do campo elétrico na ponta de
[10]. Em vários dispositivos ESE, os uma haste captora exposta ao campo do
pulsos de tensão aplicados na ponta da líder escalonado é idêntico ao de um

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condutor de descargas cujo potencial da


ponta varia de forma intermitente pela
aplicação de pulsos de tensão. O inter-
valo de tempo entre esses pulsos é for-
necido pelo intervalo entre os degraus
do líder, que fica na faixa de 10 até
cerca de 50 μs. Isso é exatamente o que
os fabricantes dos dispositivos ESE ten-
tam criar artificialmente.
Façamos a conversão da natureza
pulsante do campo elétrico na ponta do
captor exposto ao campo elétrico de
fundo de um líder escalonado em um
impulso de tensão equivalente. Isso
pode ser efetuado por meio da isolação
entre a haste e a terra, colocando-a al-
guns milímetros acima do solo e calcu-
lando a amplitude dos pulsos de tensão
necessários para criar degraus do
campo elétrico idênticos aos produzi-
dos na ponta do captor pelo líder esca-
lonado. Os resultados obtidos para um
captor a 10 metros de altura e gap para
terra de 5 milímetros estão detalhados
na figura 3 (pág. 84), para um líder es-
calonado associado a uma corrente es-
perada da descarga de retorno de 30 kA.
O eixo vertical fornece a amplitude do
pulso de tensão equivalente, e o eixo
horizontal representa a altura da ponta
do líder escalonado acima do solo. Os
resultados são mostrados para compri-
mentos do degrau de 50 metros (curva
a) e 20 metros (curva b).
A amplitude dos pulsos de tensão
equivalentes aumenta à medida que o
líder escalonado se aproxima do solo.
Os pulsos de tensão equivalentes têm
amplitudes na faixa de kV quando o
líder escalonado está cerca de 1 quilô-
metro acima do solo, aumentando para
mais de 10 kV quando ele está cerca de
200 metros acima do solo. Conforme
mencionado anteriormente, em várias
hastes ESE os pulsos de tensão são ge-
rados passivamente isolando-se a ponta
da haste da terra. Quando a haste é ex-
posta ao campo elétrico de fundo criado
pelo líder escalonado, o gap (ou gaps)
dispara intermitentemente, gerando pul-
sos de tensão, os quais podem ter am-
plitudes da ordem de kV.
Essa análise indica que o campo elé-
trico na ponta de uma haste exposta ao
campo de um líder escalonado pulsa
naturalmente. Qualquer pára-raios ins-
talado no campo vai se comportar como
se tivesse um mecanismo incorporado

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para gerar pulsos de tensão rente com capacidade de neu-


que regulam o campo elétri- tralizar a carga do líder é
co na sua ponta. Graças à 5000. Ao afirmar tal capaci-
natureza pulsante dos cam- dade, eles assumiram que a
pos do líder escalonado, tan- corrente gerada por um arran-
to as hastes Franklin quanto jo multipontas é igual à cor-
as ESE funcionarão de for- rente gerada por uma única
ma idêntica quando expostas ponta multiplicada pelo núme-
aos campos elétricos dos ro de pontas.
líderes escalonados descen- Cooray e Zitnik [14] inves-
dentes. Na verdade, não há tigaram de que forma as cor-
necessidade de injetar artifi- rentes corona produzidas por
cialmente pulsos de tensão um arranjo de agulhas ou pon-
na ponta de um pára-raios, tas aguçadas variam em fun-
porque a própria natureza Fig. 4 – Corrente corona em função do campo elétrico de ção do número de agulhas do
gera tais pulsos sem qual- fundo a partir dos conjuntos de agulhas. O diagrama mostra arranjo. A configuração expe-
o número de agulhas no conjunto
quer intervenção humana. rimental consiste de um cente-
A principal reivindicação lhador de placas paralelas, com
da tecnologia ESE é que a aplicação medições nem esclarecem se isso se perfil de eletrodos de Rogowski, afasta-
dos pulsos de tensão na ponta do pára- refere à corrente máxima ou média. das de 0,3 m e com diâmetro de 1 m. O
raios aumenta o respectivo raio de atra- Mesmo que seja verdade, isso ainda eletrodo inferior foi preparado de forma
ção. Neste artigo, foram fornecidas evi- não é suficientemente forte para neutra- que um conjunto de agulhas pudesse ser
dências científicas de que a aplicação lizar a carga da nuvem de tempestade. nele fixado. As agulhas utilizadas no
de pulsos de tensão na ponta do pára- Além disso, a mobilidade dos íons experimento eram pontiagudas, com 2 cm
raios não aumenta seu raio de atração pequenos ao nível do solo é de cerca de de comprimento e 1 mm de diâmetro, e
sob condições naturais. De acordo com (1-3) x 10-4 m2 v-1 s-1, e, nos campos foram arranjadas nos cantos de quadra-
a análise, mesmo que alguém duvide elétricos de fundo de 10 a 50 kV/m, a dos adjacentes de 2 x 2 cm. Uma tensão
dessa evidência, deve considerar que velocidade de deslizamento pode alcan- constante foi aplicada ao gap dos ele-
ambas as hastes Franklin e ESE têm a çar 1 a 15 m/s. Mesmo que o arranjo trodos, e a corrente corona gerada pelas
mesma eficiência na interceptação de possa gerar carga em quantidades sufi- agulhas foi medida como função do
descargas atmosféricas. cientes, no instante da regeneração da campo elétrico de fundo e do número
carga na nuvem, que é de aproximada- de agulhas do conjunto, por meio de um
O conceito dos sistemas mente 10 segundos, a carga espacial microamperímetro. O limite inferior de
dissipativos e evidências pode mover-se apenas o equivalente a corrente corona medido na experiência
científicas contra seu uma distância aproximada de 10 a 150 foi de aproximadamente 1 μA. Os
princípio de operação metros. Dessa forma, a carga espacial resultados obtidos estão mostrados na
A idéia original dos sistemas dissi- não terá capacidade de alcançar a figura 4. Observe primeiro que a cor-
pativos ou eliminadores de raios consis- nuvem em tempo de evitar a ocorrência rente corona aumenta com o aumento
te em utilizar a carga espacial gerada do raio. Para enfrentar esse desafio e do campo elétrico e, num determinado
por um ou vários arranjos aterrados de atenuar a oposição dos pesquisadores campo elétrico, aumenta com o aumen-
pontas aguçadas para dissipar a carga de descargas atmosféricas, os propo- to do número de agulhas. No entanto,
das nuvens de tempestades, evitando nentes dos eliminadores de raios aceita- para um determinado campo elétrico, a
assim que os raios atinjam a estrutura a ram que tais arranjos não têm capacida- corrente corona não aumenta linearmen-
ser protegida. Os proponentes deste de de neutralizar a carga da nuvem. Por te com o número de agulhas, e é isto que
sistema afirmam que a carga espacial outro lado, sugeriram que a função do a experiência demonstra claramente.
gerada pelo arranjo descarrega a nuvem sistema dissipativo é neutralizar a carga Recentemente, os proponentes dos
silenciosamente. Cientistas demonstra- dos líderes escalonados descendentes. sistemas dissipativos afirmaram que os
ram, de forma conclusiva, que isto não A carga de um líder escalonado pode arranjos operam pela supressão do iní-
é verdade, pois, em primeiro lugar, uma ser de aproximadamente 5 coulombs, e cio dos líderes ascendentes, efetuando a
nuvem de tempestade gera carga a uma o sistema de dissipação tem de gerar blindagem do topo da estrutura por
taxa aproximada de um coulomb por essa carga em cerca de 10 segundos. meio da carga espacial. Esta alegação
segundo e a taxa de produção dos siste- Para mostrar a eficácia do arranjo na foi baseada no estudo de Aleksandrov e
mas dissipativos não é grande o sufi- neutralização do líder escalonado, os outros [15], que mostra que a redistri-
ciente para competir com esse processo proponentes dos sistemas dissipativos buição do campo elétrico devida à carga
de carregamento. As correntes máxi- afirmaram que um arranjo de dissipa- espacial liberada pelas descargas coro-
mas dos arranjos, conforme declarado ção de 10 pontas pode produzir cerca na no topo de um objeto alto impede o
por seus proponentes, estão na faixa de de 1 μA. Dessa forma, o número de início e desenvolvimento de um líder
500 μA. Contudo, não dão detalhes das pontas necessárias para gerar uma cor- ascendente a partir de um objeto num

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campo elétrico de nuvens de tempesta- danos causados pela queda dos raios,
des. É importante reconhecer, contudo, mesmo que não evite seu impacto. Em
que a carga corona emitida pelo termi- segundo lugar, se o arranjo for conecta-
nal não vai blindar as laterais do termi- do a um mastro alto, devido à própria
nal ou da torre. Dessa forma, à medida geometria o número de descargas ini-
que o líder escalonado aproxima-se do ciadas de forma ascendente pode dimi-
arranjo de dissipação, um líder conec- nuir. Isso ocorre quando o campo elétri-
tante pode ser emitido pelas laterais do co de fundo, necessário para gerar os
terminal, que não estão blindadas pela líderes ascendentes a partir de uma
carga espacial. Mas a questão principal determinada torre, aumenta com o au-
é se a carga espacial das agulhas pode mento do raio da ponta. A conexão de
contrabalançar o aumento do campo um sistema dissipativo no topo do mas-
elétrico causado pelo líder descendente. tro vai aumentar o raio efetivo do mas-
Cálculos efetuados em [14] mostram tro e, portanto, exigir maior campo elé-
que uma torre sem a carga espacial pro- trico de fundo para o lançamento de um
duzida pelas agulhas vai lançar um líder líder de movimento ascendente. Isso
conectante antes de uma torre de geo- pode reduzir o número de descargas ini-
metria similar, mas com carga espacial ciadas de forma ascendente a partir da
no seu topo. No entanto, o campo con- torre. Contudo, conforme observado
trolado da carga espacial não está muito por Mousa [17], essas descargas ascen-
defasado do campo que estaria presente dentes são de interesse no caso de tor-
na ausência da carga espacial. Por res de alturas maiores do que 100 me-
exemplo, a diferença entre a altura da tros e nenhum benefício pode ser obti-
ponta do líder escalonado e o topo da do apenas para esses casos.
torre, quando o campo elétrico no topo
da torre é grande o suficiente para lan- Conclusões
çar um líder conectante, na presença e Tanto a teoria quanto as evidências
na ausência de carga espacial, não é de experimentais apresentadas neste arti-
mais que dois metros. Logo, a redução go demonstram que o princípio ESE
na distância de atração causada pela não funciona sob condições naturais de
carga espacial não é maior do que campo e que não há justificativa, no
alguns metros. momento, para assumir que as hastes
Além dos pontos discutidos, existem ESE tenham melhor desempenho do
vários casos bem documentados em que as hastes Franklin. A marca distin-
que foram observadas descargas atmos- tiva da tecnologia ESE é a aplicação de
féricas atingindo sistemas dissipativos. pulsos de tensão na ponta da haste,
O melhor procedimento para conduzir assumindo que seu efeito vai ampliar o
um estudo desse tipo consiste em com- raio de atração do condutor do raio. A
parar duas estruturas similares, uma análise aqui apresentada mostra que
com um CTS e outra sem. Vários estu- qualquer haste, quando exposta ao
dos sobre esse assunto [16] mostram campo elétrico produzido por um líder
que os sistemas CTS foram atingidos escalonado (stepped leader), atuará
por raios, bem como a estrutura de con- exatamente como uma haste ESE, pois
trole. Ou seja, não foi observada nenhu- o campo elétrico pulsante do líder esca-
ma redução na freqüência da queda de lonado simula a ação dos pulsos de ten-
raios nas estruturas. são utilizados nas hastes ESE. Estima-
Os proponentes dos sistemas de dis- se que o efeito de degrau (step) decor-
sipação afirmam ainda, baseando-se em rente da variação do campo elétrico
observações casuais dos usuários, que causada pelo processo de segmentação
há redução nos casos de danos causa- do líder escalonado sobre um pára-raios
dos por raios após a instalação desses é equivalente a uma fonte injetando
arranjos. No entanto, isso não significa pulsos de tensão de dezenas de kV, ou
necessariamente que os sistemas dissi- mais, no captor, em intervalos de 10 a
pativos evitaram a queda dos raios. Em 50 μs. Isso demonstra que a física do
primeiro lugar, como o sistema é bem processo de conexão da descarga at-
aterrado, ele fornece um caminho pre- mosférica de uma haste Franklin é
ferencial para a corrente de descarga idêntica à de uma ESE e, portanto, a
para a terra. Isso, por si só, reduz os eficiência de conexão de uma haste

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Franklin é idêntica à de uma ESE de


geometria e comprimento similares. Os
resultados apresentados neste artigo
também demonstram que os sistemas
dissipativos não podem dissipar uma
descarga iminente, seja para a estrutura
protegida, seja para o próprio terminal.

Referências
[1] Cooray, V.: Non conventional lightning protection systems
(a paper prepared on behalf of the Cigre working group
405 of study commit tee C4), in press, Electra, 2011.
[2] R. J. Van Brunt; T. L. Nelson; K. L. Stricklet t: Early streamer
emission lightning protection systems: An over view. IEEE
Electrical Insulation Magazine, Vol. 16, nº 1, pp. 5-24,
2000.
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Reconhecimentos: Este trabalho de pesquisa


foi patrocinado pelo “Swedish Research
Council” (#2009-2697).

Trabalho apresentado na ICLP 2010 -


International Conference on Lightning
Protection, realizada em setembro de 2010, em
Cagliari, Itália.

DEZEMBRO, 2011 EM 91