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unidade iII

brasil: representações
A PRESENÇA NEGRA NO BRASIL

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A PRESENÇA NEGRA NO BRASIL

Luiz Carlos dos Santos

Ao final dos estudos desta unidade, você deverá:


• Ser capaz de reconhecer nos exemplos apresentados no texto, a presença
negra no Brasil como uma das matrizes mais importantes na formação do
povo brasileiro.
• Identificar e descrever a diversidade e a importância do trabalho escravo
na história da arte brasileira.
• Ser capaz de reconhecer, a partir dos exemplos do texto, que a abolição da
escravidão, apesar da forte participação negra, não garantiu a integração
social do negro na nova estrutura econômica e política do país.
• Perceber e enumerar as diversas ações dos movimentos negros na luta
contra a exclusão social.
• Reconhecer e identificar as ações sociais no Brasil, que ainda obstruem ou
que poderiam fazer avançar a presença negra.

Muitos ainda têm dificuldades em saber quem é negro no Brasil, mesmo


quando se leva em consideração a classificação feita pelo IBGE, de que negro
é a associação estatística de pretos e pardos. Centenas de nomes ligados à cor A introdução do livro
da pele em registros estatísticos (do mesmo IBGE) só evidenciam que ser negro História geral da África-
vol. 1, publicação con-
no Brasil é, antes de tudo, uma posição política. junta da Ática/Unesco,
feita por J. Ki-Zerbo
A História oficial do Brasil destinou ao negro um espaço que começa e é um dos melhores
textos sobre essa nova
termina na escravidão. Já sobre a civilização negro-africana espalhou-se uma perspectiva histórica.
nuvem de esquecimento e exotismo, que o senso comum reproduz em suas Jan Vansina e Ham-
patê- Bá assinam dois
narrativas que situam as culturas africanas e indígenas como primitivas. capítulos importantes
sobre o valor da
Entretanto, a palavra falada, instrumento de comunicação privilegiado palavra falada nas
sociedades africanas.
entre os africanos escravizados ou não, e ao mesmo tempo, sopro divino de
humanidade, far-se-á presente com o seu som e sentido históricos, mostrando
que o retrato do saber não é o saber e que a história contada pode ser outra, se
o seu sujeito for o narrador.
A presença negra no Brasil vem sendo mostrada, em prosa e verso, desde os
primeiros anos da colonização portuguesa. Muitos historiadores indicam o ano
de 1532 como o marco de entrada dos primeiros negros que aqui chegaram na
condição de escravos. Entretanto, cabe ressaltar que a história do negro começa
muito antes no continente africano, onde uma civilização, organizada através
da palavra falada, vem construindo, dentro de uma rica diversidade cultural, a
sua história.
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A compreensão da história do Brasil nesses últimos 500 anos, não é
possível se não conhecermos de forma mais profunda a presença negra
na sua constituição. O modo de viver, pensar e trabalhar do brasileiro está
completamente impregnado da matriz africana. Desde a língua, passando pela
gestualidade e pela religiosidade, é muito difícil não identificar a mão e a alma
negras naquilo que denominamos cultura brasileira.
Quando você pensa na comida típica brasileira, o que vem à cabeça? A
música que todos nós brasileiros identificamos como nossa, seja cantarolando
ou mexendo o corpo, qual é? As nossas festas populares que pintam de várias
cores todas as regiões brasileiras estão encharcadas das diversas culturas
A publicação “Texto africanas, seqüestradas ainda no seu berço civilizatório e para cá trazidas.
para Discussão nº 807:
Desigualdade Racial Poderíamos listar dezenas de manifestações culturais com a marca negra
no Brasil:Evolução
das condições de no Brasil. No entanto, como explicar, 505 anos depois, a situação de exclusão
vida na década
de 90”, do IPEA, física da população negra, no país onde ela representa cerca de 45%?
assinada por Ricardo
Henriques, apresenta A história do Brasil vem sendo contada, como é comum nas sociedades
uma variedade de ocidentais, na perspectiva dos grupos sociais hegemônicos, ou seja, daqueles
tabelas sobre o
assunto. que detêm o poder político, geralmente conquistado pela força das armas e não
pela sofisticação das idéias. Por isso, o lugar do índio e do negro, embora sejam
Matriz civilizatória essenciais na formação social brasileira, parece ainda não ter sido encontrado
- é o nome dado à para a historiografia oficial, que optou pelo olhar eurocêntrico sobre as nossas
civilização que molda
e constitui, com matrizes civilizatórias.
a sua experiência
de mundo, um Por tudo isso, conhecer a história do negro no Brasil é reconhecer a
determinado povo.
necessidade de que ela seja recontada enxergando-o como sujeito e, portanto,
igual. Para tanto, devemos nos convidar a uma empreitada nova, no sentido
de abrir os nossos velhos livros de história e relê-los, buscando compreender
os significados de suas capas e títulos que, na maioria das vezes, apresentam
homens e mulheres em situação de trabalho escravo. Abolida a escravidão, a
imagem negra simplesmente some dos manuais de história e se fixa de forma
perversa no imaginário.

O Negro no Brasil Colônia


A colonização do Brasil foi uma obra política dos portugueses que levou
até as últimas conseqüências a exploração do trabalho escravo, realizado por
índios e, essencialmente, por negros, trazidos de várias regiões do continente
africano e, portanto, donos de uma considerável diversidade cultural.
As histórias do Brasil colônia não se resumem, no entanto, às articulações
políticas da coroa portuguesa, sempre preocupada em tirar o máximo proveito
das terras recém achadas e das gentes que escravizou para realizar o seu
objetivo. Por isso mesmo, é importante ressaltar que a aparente passividade
dos escravizados não foi verdadeira. Foram muitas as formas de resistência à
escravidão. Elas começavam ainda em terras africanas, tornavam-se dramáticas
durante a travessia do Atlântico e no continente americano tomavam as mais
diversas formas. A mais conhecida entre nós foram os quilombos, forma de
organização já conhecida pelos negros no continente africano.
As narrativas da historiografia oficial apresentam um processo de
colonização cujos conflitos se limitam aos desarranjos entre os portugueses,
148 dando pouco ou nenhum destaque à resistência negra ao trabalho escravo,
levando-nos a entender que a escravidão foi bem aceita/assimilada pelos
africanos. As fugas de escravos e a posterior formação de quilombos foram
constantes desde os primórdios da colonização, ganhando maior destaque no
século XVII, com o Quilombo de Palmares.
Os quilombos eram espaços para onde os escravos que não aceitavam a
sua condição, fugiam e lutavam contra a escravidão. Os quilombos também
eram chamados de mocambos e abrigavam também índios e brancos pobres.
Pela maneira como se contrapunham à escravidão, eles foram vistos como uma
proposta alternativa de sociedade. O quilombo de Palmares, durante quase
um século de existência, alcançou uma pujança, que obrigou a administração
portuguesa a ter de negociar com ele. Fatos como esse mostram a importância
que esse instrumento de luta negra conquistou entre nós.
Seria interessante acrescentar que, além de Palmares, existiram centenas
de outros quilombos espalhados pelo Brasil. Tal constatação foi feita em
levantamentos realizados em 1997 e 2003. Nessas pesquisas foram mapeados,
primeiramente, cerca de 840 comunidades remanescentes de antigos quilombos,
511 delas só na região nordeste. Posteriormente, os levantamentos registraram
2.228 ocorrências, segundo o professor Rafael Sanzio Araújo dos Anjos, principal
responsável pelas pesquisas. Esses números mostram que a passividade negra
diante da escravidão é apenas fruto de uma história mal contada. A maior
confirmação disso é a presença histórica de Zumbi dos Palmares comandando
aquele que foi considerado o maior quilombo brasileiro, e que resistiu durante
quase cem anos aos ataques portugueses, formando pelo menos três gerações
de africanos livres.
Se as formas de luta coletiva contra a escravidão se deram por todo canto
do Brasil seja sob o nome de quilombos, mocambos ou ainda pelas irmandades
religiosas que organizavam compras de africanos escravizados para libertá-los;
o banzo parece ter sido uma alternativa individual usada pelos escravos para
uma fuga definitiva do cativeiro, por meio do suicídio. A escravidão resultou,de
uma forma ou de outra, na exclusão social dos negros, ainda hoje observada
nas periferias e favelas dos grandes centros urbanos do país.
Sabemos também, que o negro participou ativamente nas lutas internas da
colônia que objetivavam acabar com o arrocho político administrativo imposto
pela metrópole portuguesa ao longo de toda a colonização. Alguns negros até
mesmo ajudaram na expulsão de inimigos dos portugueses do nosso território,
como foi o caso de Henrique Dias, negro e cabo de guerra que teve importante
participação na expulsão dos holandeses do nordeste do Brasil, . Dias, que
também atuou como capitão do mato, é um exemplo da ambigüidade de
postura presente naquele momento da história da colônia.

1. Religiosidade e Sincretismo
Ao resultado do casamento das religiões de origem africana com o
catolicismo damos o nome de sincretismo, forma de sobrevivência religiosa Roger Bastide, As
Religiões Africanas no
que os negros encontraram para manter, durante todo o período escravista, os Brasil, 2ª edição, Livraria
Pioneira Editora,1985,
seus deuses escondidos por trás dos santos católicos. p.30.
Em As Religiões africanas no Brasil, Roger Bastide escreve que “os negros
introduzidos no Brasil pertenciam a civilizações diferentes e provinham das mais
variadas regiões da África. Porém, suas religiões, quaisquer que fossem, estavam
ligadas a certas formas de família ou organização clânica, a meios biogeográficos 149
especiais, florestas tropicais ou savana, a estruturas aldeãs e comunitárias”. No
entanto, ao chegar ao Brasil, submetidos a uma organização social baseada no
trabalho escravo e patriarcal, e impedidos de praticarem suas crenças, os negros
tiveram que reinventá-las adequando-as à sua nova realidade.
O candomblé, a umbanda, a macumba e a quimbanda são religiões afro-
brasileiras que, de maneiras diferentes, são marcadas por uma forte relação com
a natureza. Essas religiões ou incorporam grupos sociais às suas representações
religiosas, ou funcionam como uma reinterpretação da visão católica do mundo
que se expressa através da incorporação.
O candomblé, derivado dos povos iorubás, se organiza dentro de um
terreiro; seu centro religioso é liderado por sacerdotisas, chamadas de mães
de santo ,ou por sacerdotes chamados de pais de santo. Os filhos de santo
adoram um panteão de orixás, de acordo com um ciclo anual, semelhante à
liturgia da igreja católica. Cada orixá do candomblé representa um elemento da
natureza e possui uma cor e uma comida preferida. Oxum, a deusa da beleza,
veste amarelo, e Iemanjá, a rainha do mar, veste azul e branco.
A umbanda, que se desenvolveu no Brasil a partir de 1920, apresenta
elementos das religiões africanas, dos ritos e das crenças indígenas, do
espiritismo e do cristianismo. É praticada nas áreas urbanas das regiões sul e
sudeste.
O papel da mulher nas religiões afro-brasileiras é fundamental e majoritário.
Algumas sacerdotisas como Mãe Menininha do Gantoais, Mãe Stela e Mãe Hilda
são muito respeitadas, além de conhecidas, em boa parte do país.

2. As manifestações literárias e a construção do imaginário


Luiz Roncari, Literatura
brasileiro sobre o negro
Brasileira: Dos
primeiros cronistas aos Durante quase duzentos anos, o Brasil colônia falou uma “língua geral”, ou
últimos românticos. seja, a modalidade expressiva da massa de sua população era uma mistura das
São Paulo.:Editora da
Universidade de São línguas indígenas, do português e de línguas africanas. Alguns portugueses,
Paulo,1 995. –(Didática; 2 geralmente filhos de senhores de escravo, iam estudar na metrópole e de lá
traziam as novidades literárias, com as quais procuravam mostrar como era a
Jacob Gorender, Brasil sociedade da época.
em Preto e Branco:
O passado escravista Nesse tempo, a forma de expressão mais valorizada era a poesia, declamada
que não passou;Coord.
Lourenço Dantas Mota nos salões ou em praça pública, de acordo com a sua natureza. A praça e o
– São Paulo:Editora) púlpito, conforme assinala Luiz Roncari, em seu livro Literatura Brasileira,
são os espaços privilegiados para a poesia (satírica, lírica e religiosa) e para os
sermões, cujos conteúdos estavam sempre afinados com os acontecimentos
cotidianos dos respectivos grupos sociais e que refletiam também as expectativas
dominantes.
Numa sociedade escravocrata, a literatura, na maioria das vezes, evidenciou
e formulou os elementos iniciais do que viria a ser a prática preconceituosa e
racista que, ainda hoje, crassa entre nós, seja na forma de piadas ou ditados
populares; e que a religião cristalizou pelas crenças populares, ou por meio de
sermões, como fez Vieira, pregando aos negros em um engenho na Bahia.
Segundo afirma Jacob Gorender, em seu livro Brasil em preto e branco,
o padre jesuíta deu a mais alta qualificação humana aos negros, comparando
150 os sofrimentos deles aos de Jesus. Porém logo em seguida, disse-lhes que a
migração forçada da África ao Brasil decorria de um desígnio da Providência
Divina, que dessa maneira, os conduzia pelo caminho da salvação de suas
almas. Somente assim os negros se livrariam das crenças pagãs e far-se-iam
cristãos, acrescentou.
A carta de Caminha descrevia ao rei de Portugal como eram a terra
descoberta e sua gente, o encontro entre portugueses e nativos, no século XVI. Os
jesuítas se empenhavam em defender os índios, fosse livrando-os da escravidão,
fosse procurando dominar-lhes a língua para submetê-los ,no campo da cultura,
elaborando uma gramática tupi, como fez Anchieta; os poemas satíricos de
Gregório de Matos e muitos dos atribuídos a ele expressaram máximas que
até hoje povoam o imaginário do senso comum racista brasileiro, reforçando
estereótipos com relação aos negros e mulatos, já no século XVII. A literatura
dessa época tinha, na palavra falada, a sua fonte de expressão primeira e, por
isso mesmo, ganhava os contornos dados pelo seu usuário, como podemos
observar na poesia abaixo:

À negra Margarida, que acariciava um mulato


Carina, que acariciais
Aquele senhor José
Ontem tanga de guiné
Hoje Senhor de Cascais:
Vós, e outras catingas mais,
Outros cães, e outras cadelas
Amais tanto as parentelas,
Que imagina o vosso amor,
Que em chamando ao cão Senhor
Lhe dourais suas mazelas.
Longe vá o mau agouro;
Tirai-vos desse furor
Que o negro não toma cor,
E menos tomará ouro:
Quem nasceu de negro couro,
Sempre a pintura o respeita
Tanto, que nunca o enfeita
De outra cor, pois fora aborto,
É como quem nasceu torto,
Que tarde ou nunca endireita.
A nem um cão chamais tal,
Senhor ao cão? Isso não:
Que o senhor é perfeição,
E o cão perro neutral:
Do dilúvio universal
A esta parte, que é
Desde o tempo de Noé,
Gerou Cão filhou maldito
Negros de Guiné, e Egito,
Que os brancos gerou Jafé.
Gerou o maldito Cão
Não só negros negregados,
Mas como amaldiçoados 151
Sujeitos à escravidão
Ficou todo o canzarrão
Sujeito a ser nosso servo
Por maldito, e por protervo;
E o forro, que inchar se quer,
Clóvis Moura. Brasil: Não pode deixar de ser
As Raízes do Protesto
Negro. São Paulo:Global De nossos cativos nervo.
Editora, 1983. p 34. (.......................................)
(RONCARI,L.Literatura Brasileira. SÃO PAULO: Edusp, 2002.)

2.1 O trabalho negro, fazendo arte e construindo o Brasil


A idéia que temos de trabalho escravo está associada à agricultura como
a única forma de uso das mãos em uma atividade produtiva. Junto com essa
idéia, vem o desprezo por esse tipo de trabalho, como se fosse uma atividade
menor. Por isso, cabe assinalar que foi o trabalho escravo a base fundante da
sociedade brasileira, responsável também por um modo de pensar, o que
significa dizer que as relações sociais foram impregnadas pelo modo como a
sociedade produzia seus bens, no caso, por meio do trabalho escravo.

152
Tal situação fez com que os negros escravizados criassem um sistema de
estratificação, em que eles se distribuíam de acordo com as especificidades de
seu trabalho que, precariamente, foi esquematizado assim por Clóvis Moura:

1. Na agropecuária;
2. Em atividades extrativas (congonha, borracha, algodão, fumo);
A - Escravos do 3. Na agroindústria dos engenhos de açúcar e suas atividades
eito e de ativi- auxiliares;
dades extrativas 4. Nos trabalhos das fazendas café e algodão diretamente ligados à
produção agrícola;
5. Escravos na pecuária.

B - Escravos na
mineração
1. Escravos ourives;
2. Escravos ferreiros;
3. Escravos mestres de oficinas;
4. Escravos pedreiros;
C - O Escravo 5. Escravos taverneiros;
doméstico 6. Escravos carpinteiros;
7. Escravos barbeiros;
8. Escravos calafates;
9. Escravas parteiras;
10. Escravos correios;
11. Escravos carregadores em geral.

D - O Escravo do 1. Escravos trabalhadores nas minas de ouro;


eito e das ativi- 2. Escravos extratores de diamantes.
dades afins
1. Escravos carregadores de liteiras;
E - Escravos 2. Escravos caçadores;
domésticos nas 3. Mucamas;
cidades ou nas 4. Escravas amas-de-leite;
5. Escravas cozinheiras;
casas - grandes 6. Escravos cocheiros.

1. Escravos barbeiros;
2. Escravos ”médicos”;
F - Escravos de 3. Escravos vendedores ambulantes;
ganho nas cidades 4. Escravos carregadores de piano, pipas e outros objetos;
5. Escravos músicos;
6. Escravas prostitutas de ganho;
7. Escravos mendigos de ganho.

1. Escravos dos cantos (de ganho);


2. Escravos soldados;
GG - Outros tipos 3. Escravos do Estado;
de escravos 4. Escravos de conventos e igrejas;
5. Escravos reprodutores.
153
A especialização do trabalho escravo apresentada acima, embora
servisse ao conjunto da sociedade, não era suficiente para se pensar em uma
mobilidade social dos negros que não fosse aquela permitida no interior da
própria escravidão. Entretanto, demonstra o quanto foi fundamental a presença
e o trabalho negro na formação brasileira, muito embora se tente, nos dias de
hoje, associar, de maneira racista, o trabalho do negro com tarefas mal feitas, ou
ainda, associar o próprio negro com o estereótipo de preguiçoso e vagabundo,
ou seja, uma raça que não gosta de trabalhar, embora o tenha feito por quase
400 anos.
É importante destacar que o grande contingente de trabalhadores negros
durante a escravidão estava nas plantações de cana-de-açúcar, algodão e café e
que, com os seus pares da cidade, formava a parcela escrava que continuamente
se rebelar contra a escravidão, atitude pouco comum aos escravos que circulavam
pela casa-grande, mais propensos a aceitarem a ideologia dominante.
Se tal divisão do trabalho nos faz pensar por que, tendo o domínio das
atividades laboriosas da sociedade, o negro não se emancipa, a resposta está no
violento controle exercido pelas autoridades metropolitanas e, posteriormente,
pelo estado escravista, que não se limitava a comandar pequenas expedições
chefiadas por capitães do mato em busca de negros fugidos e aquilombados.
Existia também um eficiente mecanismo de repressão que, através de
esquema oficial e extra-oficial de aprisionamento e devolução de escravos,
procurava garantir a “paz” nas senzalas.

2.2 Um Brasil Independente e Escravocrata


O comércio de africanos e o trabalho desempenhado por eles foram
fundamentais para a acumulação de capital na Europa. Sabe-se hoje, que
os comerciantes de escravos tinham um lucro fabuloso que, somado às
transformações econômicas e sociais pelas quais passaram países como
Inglaterra e França, possibilitaram o surgimento de uma nova classe social,
a burguesia. Esta nova classe surgiu para revolucionar as relações sociais
de produção, apoiada nos ideais de Liberdade, Igualdade e Fraternidade.
Metrópoles escravocratas, outrora comerciantes de escravos africanos, iriam, a
partir de agora, repensar as suas atividades econômicas, contextualizando-as
em um processo revolucionário.
Os mazombos, filhos de portugueses nascidos no Brasil, quando retornavam
de seus estudos na Europa, procuravam adequar as teorias revolucionárias à
situação da colônia que, com a descoberta de ouro nas Minas Gerais, passou a
ser violentamente controlada por Portugal, fiel à filosofia de que a quantidade
de ouro e prata é que determinava a riqueza de um país.
Os movimentos emancipatórios que floresceram na segunda metade do
século XVIII no Brasil, apesar das idéias “amalucadas”, inspiradas na revolução
francesa, não incluíam a escravidão. Eram os portugueses de segunda
categoria, querendo igualdade com os de primeira, os reinóis. Entretanto,
em 1798, em Salvador, foi deflagrada a revolução dos alfaiates, inspirada nos
ideais da revolução francesa e haitiana, que pretendia proclamar a república e
abolir a escravidão. Seus integrantes eram majoritariamente negros e tinham
na liderança os alfaiates João de Deus e Manuel Faustino dos Santos que,
154 juntamente com Lucas Dantas e Luiz Gonzaga das Virgens, foram esquartejados
em praça pública quando o movimento foi desmantelado.
Se a escravidão já caracterizava o início de uma política expansionista
européia em nome de Deus e da economia, as transformações burguesas desse
período obrigariam a metrópole portuguesa a tomar decisões que mudariam a
sua relação política com o Brasil e que desaguariam na sua independência.
Para o negro, tais mudanças foram pouco significativas, uma vez que a
sua condição de vida permaneceu basicamente a mesma, ainda que o Império
fosse pressionado pela conjuntura internacional e pelas pressões internas
desencadeadas por uma militância negra, mestiça e de brancos simpáticos à
causa da liberdade, combatendo a escravidão nas fazendas, nos tribunais e nas
letras, como foram os casos de Luiz Gama, André Rebouças, José do Patrocínio,
entre outros.
A chegada do século XIX trouxe não só a família real para o Brasil e a
Independência formal do país, mas também o romantismo e, com ele, o
surgimento de uma imprensa e a formação precária de um público leitor.
Isso trouxe um estímulo maior para quem escreve e para a expansão do
conhecimento, instigando assim a formação de uma identidade nacional, ainda
que centrada na Europa. É neste contexto que a literatura brasileira se constitui,
idealizada nas características do novo estilo e, ao mesmo tempo, produzindo
poetas, como Castro Alves e Cruz e Souza, profundamente ligados às questões
da liberdade negra.
Também nessa época surgiram nomes como Gonçalves Dias e Machado de
Assis, escritores pardos (conforme a nomenclatura atual do IBGE). O primeiro,
em seus escritos, se ocupou de forjar a identidade indígena, e o segundo,
considerado o maior escritor brasileiro, produziu na sua sofisticada obra, uma fina
ironia sobre a situação negra, tendo escrito apenas uma poesia, “Sabrina”, sobre
uma escrava que se apaixona e é enganada por um sinhozinho, e feito pouco
menos de dez crônicas (Bons Dias), abordando o contexto pré abolicionista e
pós, ressaltando as poucas ou quase nenhuma mudança na vida daqueles que
deveriam se beneficiar com o fim da escravidão.
Um nome a ser destacado nesse período é o de Luiz Gama, um dos primeiros
a elogiar a mulher negra em suas poesias e também a assumir a sua identidade
negra e proclamá-la em prosa e verso, comportamento raro de se encontrar. Em
“Quem sou eu”, Gama satiriza a sociedade brasileira da época:
“(........................................)
Eu bem sei que sou qual Grilo,
De maçante e mau estilo;
E que os homens poderosos
D`esta arenga receosos
Hão de chamar-me – tarelo,
Bode, negro, Mongibelo;
Porém eu que não me abalo,
Vou tangendo o meu badalo
Com repique impertinente,
Pondo a trote muita gente.
Se negro sou, ou sou bode,
Pouco importa. O que isto pode?
Bodes há de toda a casta,
Pois que a espécie é muito vasta... 155
Há cinzentos, há rajados,
Baios, pampas e malhados,
Bodes negros, bodes brancos,
E, sejamos todos francos,
Uns plebeus, e outros nobres,
Bodes sábios, importantes,
E também alguns tratantes...
(.............................................)
Para que tanto capricho?
Haja paz, ha alegria,
Folgue e brinque a bodaria;
Cesse, pois, matinada,
Porque tudo é bodarrada!”

(GAMA,L; FERREIRA,L (org.).Primeiras Trovas Burlescas e outros poemas. SÃO


PAULO: Martins Fontes, 2000.)

Atribui-se a ele também a seguinte afirmação: “Todo escravo que mata o


seu senhor, está agindo em legítima defesa”. É interessante notar que o pai de
Gama, um senhor de escravos, o dá como pagamento de dívida, a um outro
senhor. Sua mãe, a africana livre Luiza Mahin foi um dos nomes mais importantes
da revolta malê, ocorrida, em 1835, na Bahia.
Luiz Gama foi um dos mais brilhantes militantes da causa negra no século
XIX, defendeu e ganhou a liberdade de mais de mil negros. Gama faleceu em
1882, com 52 anos de idade. Seu enterro foi um dos acontecimentos mais
importantes da cidade de São Paulo, e foi acompanhado por cerca de 3 mil
pessoas, das 40 mil que habitavam a São Paulo da época, entre elas estavam
figuras ilustres como advogados, jornalistas e magistrados. Os jornais noticiaram
o acontecimento durante semanas.
Um pouco antes de tudo isso, em 1835, aconteceu na Bahia o levante dos
malês, que tinha por objetivo a tomada do poder pelos negros muçulmanos.
No entanto, presume-se que a delação de um dos integrantes precipitou
os acontecimentos. Nei Lopes, em sua Enciclopédia Brasileira da Diáspora
Africana,diz:
”Na madrugada de 25 de janeiro de 1835, dia de Nossa Senhora da Guia,
um grupo de escravos muçulmanos traçava os últimos planos de uma rebelião
que eclodiria ao amanhecer. A ocasião era propícia, pois, com o grosso da
população voltada para as celebrações católicas, a cidade estaria vulnerável.
E o momento tornava-se ainda mais oportuno porque, para os muçulmanos,
estava-se no fim do mês do Ramadã, o mês sagrado islâmico, e próximo à festa
do Lailat-al-Qadr, a “Noite do Poder”, que o encerra”.
Foram dezenas de mortos. A repressão oficial, de olho no que acontecera
no Haiti, puniu os participantes com a pena de morte, degredo e açoitamento,
dispersando definitivamente o Islã Negro, do Brasil.

3. Da abolição aos nossos dias. A liberdade que exclui


É comum ouvir-se dos militantes dos movimentos negros frases como: “A
princesa Isabel assinou a lei Áurea, mas se esqueceu de assinar a carteira de
156
trabalho”. A ironia presente nesta afirmação, juntamente com o seu conteúdo
explícito, é a mais cruel das realidades pós-abolição. Se ainda nos lembramos
da variedade de trabalho exercida pelos negros durante a escravidão, podemos
nos perguntar por que então a mão de obra negra será preterida em função
do trabalho dos imigrantes que aportaram no país, no momento em que uma
massa escrava foi liberta, mas não integrada à nova realidade econômica.
Fatores conjunturais externos como excesso de mão de obra na Europa e
fatores internos fizeram o estado brasileiro estimular a entrada de trabalhadores
europeus, portanto brancos em sua maioria, enquanto os ex-escravos eram
abandonados à sua própria sorte. Mesmo se considerarmos esses fatores, fica
muito difícil não enxergamos nessa medida uma atitude política deliberada para
embranquecer o país e assim fugir dos estigmas formulados pela ciência da
época, cujas teorias como a eugenia, a idéia de pureza da raça, e a antropometria
apontavam a inferioridade negra e sua habilidade para apenas exercer trabalhos
físicos, braçais. Elas eram justificativas para, mais uma vez, saquear as riquezas
do continente africano.
Há notícias de que, na década de 1920, um grupo de agricultores
estadunidenses comprou um pedaço de terra na Amazônia brasileira, mas
quando o governo brasileiro soube que eram negros, os impediu de entrar no
país e devolveu o dinheiro da compra. Entretanto, para os imigrantes europeus
as terras eram doadas e a sua entrada, no país, estimulada.
Em 1890, a composição da população brasileira era constituída de 56% de
negros (41,4% pardos e 14,6% pretos), os brancos eram 44% da população. Em
1940, a população brasileira era composta de 63,5% de brancos, 21,2% de pardos,
14,6% de pretos (totalizando 35,8% negros) e 0,7% de amarelos, segundo dados
apresentados pelo IPEA. A interpretação desses números confirma o estímulo
dado à imigração européia.
É a esse comportamento, complementado por alguns outros, que chamamos
de política de embranquecimento da população brasileira. A liberdade advinda
com a abolição, além de excluir, possibilitava a agora república tornar seu sonho
eurocêntrico realidade, empurrando para as periferias dos grandes centros a
massa negra desempregada.
Junto com essa política, um outro processo deu início ao branqueamento
das personalidades nacionais, cuja descendência negra era evidente, clareando
fotos e ilustrações de personagens mestiços e mulatos que, com o tempo e
algum esforço editorial, passaram a ser brancos: Machado de Assis é um bom
exemplo.
Quando nada disso resolvia, a alternativa era tornar alguns negros ilustres
pessoas invisíveis, dinâmica que até hoje caracteriza os meios de comunicação,
os espaços acadêmicos e algumas atividades profissionais.

4. Os negros escrevem durante e depois da escravidão: do amor à


liberdade, construindo a identidade
É sempre bom reafirmar, conforme nos ensina Eni P. Orlandi, que “Ler é
saber que o sentido pode ser outro”. E é o resgatar desse sentido, muitas vezes
falado e tantas outras escrito, que procuramos fazer. Se até a primeira metade
do século XVIII, falava-se na colônia uma mistura de tupi, português, banto e
iorubá (conhecida como língua geral), a descoberta do ouro e a necessidade de 157
controle total da colônia fizeram com que Portugal tornasse obrigatório o uso
da língua portuguesa em todo o território brasileiro, principalmente na região
das Minas Gerais.
Os que escreviam na colônia representavam o poder europeu e, por
conseguinte, estavam distantes dos interesses dos negros escravizados,
e muito próximos da visão que associa uma sociedade não letrada a uma
sociedade sem história e portanto, propensa a ter a sua história reescrita pelos
colonizadores. Por outro lado, como os diversos povos africanos, aqueles que
para cá foram trazidos tinham tradições orais que informavam e garantiam as
práticas culturais que até hoje povoam o imaginário popular brasileiro de norte
a sul, com histórias sobre o saci pererê nas fazendas, os maracatus, as folias de
reis e os bois bumbás.
A partir da segunda metade do século XVIII, alguns mulatos, timidamente,
começam a expressar por escrito, a sua presença no meio social: Caldas Barbosa
é um deles. Cruz e Souza, Machado de Assis e muitos outros que seguiram o
caminho das letras, levaram algum tempo para expressar com tranqüilidade e
orgulho o ser negro no Brasil, posição, aliás, bastante corajosa, que começou a
aparecer com Luiz Gama, Lima Barreto, Lino Guedes, Solano Trindade, Abdias do
Nascimento e Oswaldo de Camargo, já na transição e ao longo do século vinte,
contagiando uma nova geração de poetas e escritores, dos quais Edimilson,
Cuti, Ele Semóg, Elisa Lucinda, Conceição Evaristo, Lepê Correia e muito outros já
expressam, sem nenhuma dúvida, o ser negro no Brasil por meio da literatura.
Já as formas estéticas negras, por se relacionarem a uma forma de
comunicação predominantemente oral, só podem ser percebidas em toda a
sua plenitude e riqueza próprias, se inseridas no contexto e nas relações de
comunicação para quais foram produzidas e criadas, conforme afirmam Helena
Teodora, José Jorge e Beatriz Nascimento, no livro Negro e Cultura no Brasil.
Ainda, segundo os autores, a participação do negro nas artes brasileiras pode
ser vista de dois ângulos, aquela feita por negros em bases de criação branca,
européia e hegemônica, e a feita por negros tendo como base a criação negro-
africana. Mestre Didi e Rubens Valentim, entre outros nomes, são figuras
importantes em nossas artes plásticas e refletem tais tendências.
Artistas como Picasso, Braque, Cezzane, Calder e tantos outros foram
fortemente influenciados pela arte negra e nela se inspiraram para criar
movimentos artísticos que caracterizaram as vanguardas européias, tais como
o Cubismo, o Fovismo, o Dadaísmo e o Expressionismo, que no início do século
XX, revolucionaram a arte e a cultura ocidental, quebrando tabus e impondo
novas formas de expressão artística. E, como sempre acontece nesses casos,
muitos artistas brasileiros entraram em contato com a arte negra via Europa.

4.1 O lugar do negro: a favela, a escola de samba e o futebol?


Desde os primeiros quilombos, formados pelas levas de africanos que aqui
chegaram na condição de escravos, até os mais recentes movimentos em que
lutam pela posse da terra dos seus descendentes, os negros não pararam de
lutar e resistir contra a escravidão e as mazelas por ela deixada. De um jeito
ou de outro, as organizações negras, como as irmandades, foram espaços de
preservação e sociabilidade para esses grupos.
Com a abolição, uma nova realidade se apresentou ao negro, que passou,
158 então, a procurar formas mais efetivas de organização que não só preservassem
o grupo, mas também o representassem nas suas reivindicações e lhe dessem
maior visibilidade social. A imprensa negra começou a sua atividade na década
de 1920, dando notícias sociais sobre a comunidade. Nomes de jornais como
Menelik, Alfinete e Clarim da Alvorada fazem parte da história do negro no
Brasil.
Outra organização importante foi a Frente Negra Brasileira. Fundada
em 1931, possuía uma rígida organização de funcionamento, e cerca de 400
membros que andavam uniformizados e gozavam de um certo prestígio junto
às autoridades e à população em geral, pois acreditava-se que todos os seus
componentes eram pessoas de bem. Inicialmente estruturada em São Paulo,
a Frente Negra teve vários núcleos em outros estados ,como: Rio de Janeiro,
Pernambuco, Bahia e Rio Grande do Sul. Como ideologia, sustentava que a
educação era o caminho para a vitória dos negros. Em 1937, com o Estado
Novo, a Frente Negra foi desagregada.
Em 1944, Abdias Nascimento fundou o Teatro Experimental do Negro (TEN)
a fim de inserir, no teatro brasileiro, o elemento negro como tema, intérprete ou
criador. O Teatro Experimental do Negro, sob a direção de Abdias Nascimento,
teve a sua estréia no Municipal do Rio de Janeiro, em 08 de maio de 1945,
com a peça “O imperador Jones”, de O´Neill. Entre os anos de 1950/1960, o
TEN produziu muitos espetáculos sobre a temática negra, na maioria das vezes
desenvolvida por ele. Grandes nomes da dramaturgia negra brasileira como
Ruth de Souza e Milton Gonçalves, por exemplo, surgem no TEN.
Em 1954, surge a Associação Cultural do Negro (ACN), que reuniu nomes
como Solano Trindade, Abdias do Nascimento e Fernando Góis. Apesar de
ter uma proposta de aglutinar vários segmentos culturais do país, tinha
também a preocupação de construir uma ideologia para o negro brasileiro.
Alguns intelectuais brancos como Florestan Fernandes, Sérgio Milliet e Carlos
Burlemarqui participaram de conferências, congregando inicialmente negros
de vários status. Em função de suas lutas ideológicas, a ACN perdeu sua unidade
política, sua sede e seus principais nomes, ficando reduzida a uma entidade
filantrópica e assistencial, agora com sede no bairro da Casa Verde, em São
Paulo, após ter sido despejada da sua antiga sede na rua 13 de maio.
As escolas de samba também foram e são consideradas importantes
centros que congregam negros, proporcionando a eles um espaço de
sociabilidade e interação cultural. Foram originalmente reprimidas pelo
estado e, posteriormente, promovidas à agremiação fundamental da folia de
carnaval. Geralmente eram originárias de times de futebol, atividade esportiva
anteriormente impedida aos negros.
Dos anos 1960 aos anos 1970, fatos como a luta dos negros norte-americanos
pelos direitos civis, as guerras de libertação dos países africanos colonizados e o
fechamento político da sociedade brasileira imposto pela ditadura militar, a partir
do golpe de 1964, espalharam a militância negra organizada pelos movimentos
sociais de resistência e luta contra a ditadura. Nas brechas políticas que surgiam,
aqui e ali, eram formadas organizações culturais, como a Sinba (Sociedade de
Intercâmbio Brasil-África), no Rio de Janeiro, no início da década de 1970. Jornais
como o Árvore das Palavras circulam em São Paulo e Rio, o Jornal Versus abre
um espaço para os negros; o Movimento Negro Unificado (MNU) se consolida
como entidade negra nacional e, depois de muita discussão, é criado o Dia da
Consciência Negra, dia 20 de novembro, data da morte de Zumbi dos Palmares,
herói negro transformado em referência nacional para as organizações negras 159
espalhadas pelo país. Antes e durante tudo isso, as manifestações culturais e
religiosas acimentavam, a seu modo, o que viria ser um dos alicérceres mais
consistentes da brasilidade, a partir da matriz africana.
Com o centenário da abolição, em 1988, o Brasil já possuía um amplo
leque de organizações sociais preocupadas com a luta da população negra. Na
USP, um grupo de funcionários e professores da universidade fundou o Núcleo
de Consciência Negra, que empreendeu uma luta por cotas na universidade e
reparações para o povo negro, isto nos anos de 1993/94. As mulheres negras
também já estavam organizadas no Geledés, São Paulo; no Rio, o IPCN –
Institutos de Pesquisa das Culturas Negras, desenvolve suas atividades e no
Espírito Santo, o Cecun - Centro de Estudos da Cultura Negra, atua da mesma
maneira ; Essas são algumas das organizações negras que continuam na luta
contra o racismo e buscando uma melhoria da qualidade de vida dos negros
brasileiros. Na Bahia, a cooperativa Steve Biko empreende mais uma frente de
luta negra por acesso à educação. Por todo país surgiram jovens e vigorosos
movimentos negros sejam ligados à música ou a outras manifestações culturais
sempre entendidas na sua dimensão política, como o hip hop, por exemplo.
Um pouco antes de tudo isso, sambistas como Paulinho da Viola, Candeia
e Martinho da Vila, desencantados com o rumo que as escolas de samba
começaram a tomar, criaram a escola de samba Quilombos, que tinha como
objetivo resistir à onda de descaracterização imposta às agremiações populares.
O soul invade e contagia os bailes negros dos subúrbios cariocas na década de
1970, através de um movimento popular chamado pelos meios de comunicação
de Black Rio, mas o samba continua resistindo.

4.2 – O Brasil e o Negro


Apesar da força dos nossos poetas cantores, dos nossos artistas, da presença
negra no futebol e na literatura e de termos também o maior geógrafo do mundo,
Milton Santos, a invisibilidade da população negra continua, hoje menor, mas
continua. Não a invisibilidade no sentido real da palavra, mas aquela pusilânime
e cínica, que só os faz visíveis em datas e situações oportunas ,como: 13 de maio,
20 de novembro, carnaval e campeonato mundial de futebol, agora também
nas competições de ginástica olímpica, com a atleta Daiane dos Santos.
Algumas caras negras começam a aparecer em peças publicitárias e
outdoors dos grandes centros urbanos como Rio de Janeiro, São Paulo, Salvador
e Belo Horizonte. Os meios de comunicação, timidamente, ampliam o número
de atrizes e atores negros nos seus elencos, embora mantenham a tradição das
novelas de época em que sinhazinhas boas defendem os negros de senhores
de escravos malvados.
Alguns jornais noticiam que já existe uma classe média negra com renda até
R$ 30.000,00. As cotas, apesar da resistência dos antigos aliados da causa negra,
já são uma realidade em diversas universidades públicas e o embranquecimento,
tão caro a negros e brancos, parece não passar de falácia, já que, segundo o
IBGE, no Brasil, 88% dos casamentos se dão entre pessoas da mesma raça, ou
seja, branco se casa com branca, negro se casa com negra e pardo se casa com
parda. Apenas 12% da população brasileira realiza uniões interétnicas.
Então, qual é a cara do brasileiro? Se quisermos responder a essa pergunta,
160 observando os meios de comunicação de massa, nos surpreenderemos com o
resultado. As imagens que povoam os outdoors das principais capitais, as capas
de revistas nas bancas de jornais e os elencos da dramaturgia nacional (TV,
cinema e teatro) são espetacularmente brancas, precisamente loiras, o novo
ícone produzido a partir da mulata e da sua imagem erotizada.
As peças publicitárias têm, muitas vezes, a competência de destruir em
alguns minutos, conceitos que levam anos para se afirmar. Recentemente, uma
marca de maionese produziu um filme onde uma tribo de negros canibais
capturava um branco e era convencida por este a comer alface com maionese,
fechando o comercial com a afirmação: “Com maionese Hellmmans até canibal
vira vegetariano”. Em casos como esse, os críticos, para quem as cotas são
medidas racistas e inconstitucionais, silenciam.
As palavras, piadas e posturas racistas no Brasil, são geralmente encaradas
como brincadeira, logo que denunciadas como preconceituosas, até porque
todo brasileiro, nessa situação, tem amigos pretos, e “se não se puder contar
nem piadas, aí a coisa vai mal”, dizem eles. Apesar de o racismo ser, legalmente,
crime inafiançável no Brasil desde 1989, uma das maiores dificuldades é flagrar
o racista, uma vez que aqui ninguém é racista, mas todo mundo conhece um
racista; logo...
Outra saída apontada em tais situações é aquela que procura desqualificar
o ocorrido, garantindo que o negro também é racista ou ainda que o racismo
não é só contra os negros, mas também contra as mulheres, os homossexuais,
os deficientes, os japoneses etc. Por tudo isso, enquadrar alguém por crime
racial, no Brasil, é quase impossível.
É na música e no futebol que normalmente encontramos a presença negra
de forma mais destacada, muito embora tal evidência não signifique ausência
de preconceito racial. Muito pelo contrário, as manifestações de ondas racistas
estão ficando cada vez mais comuns nas torcidas, bem como em campo no
Brasil e na Europa, conforme têm noticiado os jornais e revistas, regularmente.
Dois desses incidentes se deram com o jogador Grafite, do São Paulo,
e com um jogador argentino que, nesse caso, foi preso dentro de campo e
permaneceu um dia encarcerado. No Rio Grande do Sul, em 2006, um jogador
foi suspenso por ter xingado um atleta negro do time adversário de “macaco”.
Em outros casos, no entanto, jogadores negros foram chamados de “macacos”
e apesar do testemunho de um ato discriminatório por milhões de brasileiros,
os agressores pagaram a fiança e seguiram seu destino racista, descumprindo a
Lei Caó, que torna o crime de racismo inafiançável.
Outros incidentes se deram em gramados europeus, quando torcedores
começaram não só a chamar jogadores negros e mestiços de macacos, como
também a jogar bananas dentro do campo, além de levar faixas ofensivas
para as arquibancadas. Tudo isso aconteceu entre o final de 2005 e início de
2006. A Nike aproveitou o acontecido e lançou uma campanha de marketing.
Comercializou uma faixa/pulseira contra o racismo, novidade que não foi muito
a frente.
O Negro no Brasil tem um longo caminho na conquista da chamada
cidadania, aliás, pouco conhecida pela maioria da população. Tal situação,
muitas vezes, sugere que a questão do negro e da discriminação que ele sofre
é de natureza social e não racial. Muita folha de papel já foi usada na tentativa
de convencer uma parcela significativa da população negra brasileira de
que o preconceito racial acaba quando se conquista a igualdade social e/ou 161
econômica, já que, segundo alguns, o problema racial, entre nós, não existe; é
apenas fruto das diferenças de classe.

FIQUE DE OLHO
Esta unidade, que se ocupa da Presença Negra no Brasil, apresenta um
quadro geral da matriz africana e de sua contribuição e luta na formação da
brasilidade, destacando cinco pontos que transitam do negro no Brasil Colônia
até o negro no Brasil atual:
• Os quilombos, o banzo, a religiosidade e o sincretismo, as manifestações
literárias e a construção do imaginário brasileiro sobre o negro são os
destaques do primeiro tópico: O Negro no Brasil colônia;
• O trabalho do negro, em toda a sua dimensão social, e a sua produção
artística, cantando, esculpindo e construindo o Brasil é o tema do segundo
tópico da unidade, que mostra um Brasil cuja linguagem é a fala de todos,
uma língua geral, possivelmente, a origem do português brasileiro;
• O terceiro tópico destaca Um Brasil Independente e Escravocrata.
A Liberdade que exclui. Aqui se procura enfatizar as contradições e
ambigüidades experimentadas no interior de uma sociedade em mudança.
Os negros que escrevem durante a escravidão: do amor à liberdade,
construindo a identidade, como é o caso de Luiz Gama e muitos outros.
• Os Movimentos Negros após a Abolição. As lutas de resistência e pela
inclusão formam o quarto item desta unidade; nele se dá uma idéia geral
sobre a Frente Negra Brasileira, a Associação Cultural do Negro, O Teatro
Experimental do Negro, a Sociedade de Intercâmbio Brasil África, O IPCN,
o MNU, o CECUN e a atualidade dos quilombos urbanos.
• E, por fim, O Brasil e o Negro que aborda a presença negra na atualidade,
enfocando temas como organização, formas modernas de naturalização
do racismo através dos meios de comunicação, tais como novelas, peças
publicitárias, músicas e espetáculos de futebol, onde os jogadores negros
são xingados de “macacos” ora pelos torcedores, ora pelos adversários, em
campos do Brasil e da Europa. A recente inclusão de cotas na agenda de
discussão sobre políticas afirmativas tem servido para medir até aonde
pode chegar a democracia racial brasileira.
Esta unidade não pretende esgotar o tema e sim apresentar pistas
para uma caminhada histórica que apenas se inicia, rumo ao conhecimento
sobre a presença negra no Brasil. A distribuição do tema em itens visa
facilitar a compreensão e pode, por isso mesmo ser reforçada, com leituras
complementares, sugeridas ao longo ou ao final da unidade.
A pesquisa em sites e filmes ajudam a compor, através da imagem e do
som, o contexto histórico, mas não substituem a bibliográfica. Visitas a Museus
ajudam; em alguns estados como São Paulo, Bahia e Rio de Janeiro, por exemplo,
existem exposições que ajudam a entender melhor a presença negra no país. A
literatura e a música também.
Entretanto, o texto que compõe esta unidade deve provocar no leitor a
necessidade de buscar a complementação das informações aqui transmitidas,
162 até porque, as pesquisas históricas sobre o tema estão em curso e, portanto,
muitas novidades já estão por aí.
Mapas e dados estatísticos ajudam na visualização geral dos objetivos que
se quer alcançar. Análises de Textos vinculados à peças publicitárias, telenovelas,
filmes e histórias em quadrinhos são ferramentas indispensáveis para se pensar
as relações sociais e raciais nos dias que correm e vão ajudar na compreensão
do texto escrito.
Por tudo isso, espera-se que a unidade, além de sugerir rumos e provocar
caminhadas, ajude a entender e ampliar a presença negra no Brasil e a identificar
estratégias metodológicas capazes de eliminar posturas pedagógicas que
camuflam preconceitos e cristalizam desigualdades. Que a diversidade seja um
valor social e não um problema.

163
referências
Saiba mais lendo os seguintes livros, vendo os filmes sugeridos ou
acessando os sites indicados:
Livros
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SCHMIDT, A. A marcha – romance da abolição. São Paulo: Brasiliense,
1981.
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ARAUJO, K. Áfricas no Brasil. São Paulo: Scipione, 2003.
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Paulo: Global/Ação Educativa, 2004.

Filmes
• Cidade dos Homens, episódio: Uólace e João Vítor
• A Hora Show
• Faça a coisa certa
• Carolina de Jesus
• Revelações
• Hotel Ruanda
• Abril Sangrento
• Filhas do Vento

Documentários:
• Notícias de uma guerra particular. Em VHS.
• Vista a minha pele. Em VHS.
• Isso Aquilo e Aquilo Outro. Em DVD.
• Preto no Branco. Em VHS .
165
• Curta os Gaúchos: O dia em que Dorival encarou a guarda. Em VHS.
• Olhos Azuis. Em VHS.
• O Fio da Memória. Em VHS.
• O Povo Brasileiro. Em DVD.
• Do outro lado da sua casa. Em VHS.
• A Negação do Brasil. Em VHS.
• Rompendo o Silêncio.Em VHS.

Sites
• www.portalafro.com.br/teatro.html
• www.itaucultural.org.br/aplicexternas/enciclopedia teatro
• www.cultura.gov.br/noticias/noticiasdominc
• www.museuafrobrasil.com.br

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