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UNIVERSIDADE DE PERNAMBUCO – UPE

CAMPUS GARANHUNS
CURSO DE LICENCIATURA EM LETRAS

OS GÊNEROS DIGITAIS NOS LIVROS DIDÁTICOS DE LÍNGUA


PORTUGUESA

MARIA ESTELA MARQUES DE OLIVEIRA

GARANHUNS – PE
2010
MARIA ESTELA MARQUES DE OLIVEIRA

OS GÊNEROS DIGITAIS NOS LIVROS DIDÁTICOS DE LÍNGUA


PORTUGUESA

Monografia apresentada ao Curso de


Licenciatura em Letras da Universidade
de Pernambuco – UPE/ Campus
Garanhuns, em cumprimento às
exigências para a conclusão do curso.

ORIENTADOR: Prof. Dr. Benedito Gomes


Bezerra

GARANHUNS – PE
2010
MARIA ESTELA MARQUES DE OLIVEIRA

OS GÊNEROS DIGITAIS NOS LIVROS DIDÁTICOS DE LÍNGUA


PORTUGUESA

Aprovada em: ______/ ______/ _________

BANCA EXAMINADORA

______________________________________
Prof. Orientador Dr. Benedito Gomes Bezerra

______________________________________
Prof (a) Examinador(a)
Ao meu pai, (in memoriam), pelo exemplo
de profissional competente, sei que
vibraria com esta conquista.
A minha mãe, por todo o amor e força
oferecida nas horas que mais preciso,
OFEREÇO.
“Todo mundo sempre sabe o que nós
sabemos, certo. Errado! O conhecimento
comum muda com o tempo, assim como
mudam os gêneros e as situações; o
conhecimento comum varia até de pessoa
para pessoa, ou até numa mesma pessoa
em situações e humores diferentes”.

(Charles Bazerman)
AGRADECIMENTOS

A Deus, porque estou aqui.


Ao Professor Dr. Benedito Gomes Bezerra, por ensinar a verdadeira lição:
a docência com excelência.
Aos meus amigos, pelas aventuras, risos, experiências e diversões.
A todos que direta ou indiretamente contribuíram para a realização desse
trabalho.
RESUMO

Este estudo analisa as abordagens e propostas didáticas envolvendo os gêneros


digitais em livros didáticos de língua portuguesa, com o objetivo de verificar como
tais gêneros estão sendo abordados nos livros didáticos, suas propostas didáticas e
pertinência de tais propostas. Através de uma pesquisa descritiva são analisadas
cinco coleções de livros didáticos que abordam algum gênero digital. Para a análise
das abordagens e propostas didáticas os seguintes critérios foram verificados:
tratamento das peculiaridades do gênero (linguagem, função e forma composicional)
e o incentivo para que o aluno interaja por meio do gênero trabalhado. A análise do
corpus revela que as abordagens e propostas didáticas, por vezes, lançam mão de
abordar e estudar os aspectos composicionais e linguísticos e por vezes estes não
se constituem em exemplos autênticos dos gêneros digitais, uma vez que são raras
as referências do gênero no seu suporte original e pouca orientação é dada para
que o aluno interaja por meio do gênero estudado. Há também propostas nas quais
os gêneros digitais são apenas pretextos para a abordagem de questões alheias à
sua natureza e seus efetivos usos. O ponto positivo é que boa parte das abordagens
e propostas didáticas demonstram a função social do gênero estudado. As
abordagens e propostas didáticas deveriam enfatizar mais assiduamente os gêneros
digitais e suas peculiaridades, pois tais gêneros são novos gêneros, dignos de uma
análise criteriosa e não deveriam ser estudados pela vaga interpretação das
abordagens originadas pelos livros didáticos, mas a partir de uma explanação social
e funcional, com uma análise ampla das suas peculiaridades e possibilidades
pedagógicas, pois o ensino de língua portuguesa deve visar a levar o aluno a ver-se
e constituir-se como sujeito a partir do contato e da exposição ao outro.

PALAVRAS-CHAVE: Gêneros digitais, análise de livros didáticos, ensino de língua


portuguesa.
SUMÁRIO

INTRODUÇÃO ................................................................................................. 8
CAPÍTULO 1: GÊNEROS TEXTUAIS: UM BREVE PANORAMA ................. 11
1.1 Gêneros emergentes na mídia virtual ............................................................. 13
1.2 A internet e o livro didático como suporte ....................................................... 14
1.3 Outras considerações ..................................................................................... 15
CAPÍTULO 2: INSERÇÃO DOS GÊNEROS DIGITAIS NOS LIVROS
DIDÁTICOS DE LÍNGUA PORTUGUESA ..................................................... 18
2.1 Da internet para o livro didático ...................................................................... 20
2.2 O livro didático na perspectiva dos gêneros digitais e dos PCN ..................... 21
CAPÍTULO 3: ANÁLISE DOS GÊNEROS DIGITAIS NOS LIVROS
DIDÁTICOS DE LÍNGUA PORTUGUESA ..................................................... 24
3.1 Análise dos livros didáticos de Língua Portuguesa ......................................... 24
3.2 Conclusão da análise dos livros didáticos de Língua Portuguesa sobre
o estudo dos gêneros digitais ......................................................................... 39
CONCLUSÃO ................................................................................................. 41
REFERÊNCIAS .............................................................................................. 44
ANEXOS
8

INTRODUÇÃO

Todas as manifestações verbais, só são possíveis por meio de algum


gênero, pois toda vez que desejamos produzir alguma ação linguística, recorremos a
algum gênero e estes nos remetem respectivamente as inúmeras formas de
expressões textuais, que são incorporados a partir das necessidades discursivas
diárias dos usuários da língua. São vistos respectivamente como atividades
empíricas de realização da língua (MARCUSCHI, 2002) ou como o trato da língua
em seu cotidiano das mais diversas formas (MARCUSCHI, 2008).
Desta forma os gêneros digitais, foram criados e reinventados no
propósito de acompanhar e suprir as necessidades da comunicação humana
contemporânea, atendendo as perspectivas linguístico-discursivas e mudanças
sócio comunicativas atuais, mediadas pelo uso constante das novas tecnologias.
São gêneros dotados de especificidades linguísticas e composicionais,
constituídas a partir das características próprias da esfera da comunicação a que
pertencem, o meio virtual.
Promovem uma ruptura com a noção tradicional, fundando novas
maneiras de ler e escrever, utilizando interfaces novas como o teclado e o monitor,
que nos fazem repensar quanto ao uso da linguagem, em particular da escrita, pois
esta é dotada de elementos nada convencionais, com abundância de siglas,
abreviações e uma ortografia um tanto bizarra que denotam a informalidade e a falta
de atenção quanto às regras ortográficas, além dos recursos multissemióticos como
sons e imagens, que nos introduzem a manifestações linguísticas pouco
convencionais dotadas de muita interatividade e dinamicidade, que possibilitam uma
maneira diferente de se lidar com a escrita e as suas normas gráficas.
Devido a tais peculiaridades os educadores, por vezes, se sentem
inseguros em utilizar os gêneros digitais como ferramenta pedagógica e assim
acarreta uma certa desvalorização de tais gêneros nos contextos educacionais.
E os livros didáticos não contribuem para diminuir a esta desvalorização,
pois há nas suas abordagens e propostas didáticas, pouca exploração a cerca dos
gêneros digitais. E estes por serem descritos como um importante suporte
pedagógico deveriam ampliar as suas abordagens sobre os gêneros digitais,
9

demonstrando-os através de uma visão construtiva e funcional, captando as suas


múltiplas linguagens e peculiaridades estruturais.
Assim, sabendo-se que as práticas atuais de ensino da língua é feita a
partir das análises da diversidade de gêneros que circundam na sociedade, surgiu a
necessidade de se fazer esse estudo no propósito de se verificar como nas suas
mínimas transcrições, os livros didáticos vem efetivamente abordando e
promovendo o estudo das peculiaridades próprias dos gêneros digitais, no tocante a
sua natureza funcional, composicional e linguística, bem como à pertinência das
respectivas propostas didáticas e se as sequências didáticas procuram retratar
fielmente a forma como esses gêneros ocorrem no meio digital.
Diante de tais propósitos Araújo & Biasi-Rodrigues (apud REIS, 2009,
p.100) nos relatam que: “A escola precisa construir a sua história absorvendo novos
conhecimentos e novas tecnologias e, valendo-se deles, promover um ensino-
aprendizagem contextualizado”. Desta forma as instituições escolares, os
professores e os livros didáticos se encontram diante do desafio premente de
reavaliar suas práticas de ensino- aprendizagem, a fim de se adaptar e atender as
novas tendências de gêneros que emergem do mundo virtual, utilizando-os como
ferramenta de ensino, visando a um ensino mais crítico e contextualizado com a
realidade dos discentes, pois diante desses gêneros emergentes, é imprescindível
que o aluno esteja preparado para a sua leitura e compreensão e que seja
efetivamente situado nas inovações linguístico- discursivas, atuando no seu meio.
Assim, no primeiro capítulo procurou-se demonstrar uma noção geral de
gêneros textuais, ressaltando-se as suas características principais, bem como
algumas concepções a respeito do surgimento dos gêneros digitais com a noção de
transmutação e de suporte de gêneros e algumas considerações a respeito das
características principais dos gêneros digitais.
No segundo capítulo, tem-se a inserção dos gêneros digitais nos livros
didáticos de Língua Portuguesa, ressaltando-se os elementos possíveis de serem
transpostos, o papel do professor e do livro didático diante dessa inserção e se
nesta transposição há a preocupação de demonstrar ao aluno o uso autêntico do
gênero e como poderia se dar essa inserção, segundo as perspectivas de ensino
língua portuguesa proclamadas pelos Parâmetros Curriculares Nacionais.
Finalizando, no terceiro capítulo, é realizada uma análise de alguns
gêneros digitais, a fim de se verificar como estão se dando as abordagens de tais
10

gêneros nos livros didáticos e o estudo dos seus aspectos essenciais, avaliando- se
as abordagens e propostas didáticas e mostrando-se que este gênero ainda não é
trabalhado satisfatoriamente com todas as suas potencialidades.
11

CAPÍTULO I
GÊNEROS TEXTUAIS: UM BREVE PANORAMA

O estudo dos gêneros iniciou-se por Platão no século XX. Naquela época
a denominação de gênero se restringia apenas aos gêneros literários e suas
subclassificações. Posteriormente Aristóteles conservou os gêneros literários e
ampliou a teoria dos gêneros com a arte retórica. Conforme nos relata Marcuschi
(2008, p.147):

É com Aristóteles que surge uma teoria mais sistemática sobre os gêneros
do discurso, da retórica. Aristóteles diz que há três elementos compondo o
discurso: aquele que fala; aquilo sobre o que se fala e aquele a quem se
fala.

Atualmente a noção de gênero se concentra nas perspectivas discursivas


de modo geral, tornando-se cada vez mais multidisciplinar, pois engloba uma análise
do texto e do discurso que busca uma visão da sociedade e do efetivo uso da língua.
Como ressalta Swales (apud MARCUSCHI, 2008, p.147): “Hoje, gênero é facilmente
usado para referir uma categoria distintiva de discurso de qualquer tipo, falado ou
escrito”. Bhatia (2009, p.160): complementa: “A própria natureza da estruturação dos
gêneros é multidisciplinar. A teoria dos gêneros leva a análise do discurso da
descrição para a explanação da língua”.
Os gêneros são nossa forma de comunicação, de ação social, pois
estabilizam primordialmente a estrutura comunicativa da sociedade, denotando as
modalidades discursivas que constituem as formas de dizer que circulam no meio
social. Conforme ressalta Miller (apud MARCUSCHI, 2008, p.149): “Os gêneros são
uma forma de ação social. Eles são um artefato cultural importante como parte
integrante da estrutura comunicativa da nossa sociedade”.
Para Marcuschi (2002, p.34): “Os gêneros textuais fundam-se em critérios
sócio-comunicativos e discursivos”. Desta forma os gêneros textuais podem ser
considerados a efetiva materialização da linguagem oral e escrita, denotando as
várias práticas sociais que permeiam a sociedade com tipos específicos de textos
que apresentam funções sócio comunicativas definidas.
Tais gêneros não podem ser caracterizados e reconhecidos apenas pela
12

sua composição de texto, forma e conteúdo, mas principalmente pela sua função
sócio-comunicativa na sociedade, pois a distinção entre um gênero e outro não é
predominantemente linguística nem estrutural, mas funcional. Conforme ressalta
Marcuschi (2008, p. 150): “Os gêneros têm uma forma e uma função, bem como um
estilo e um conteúdo, mas sua determinação se dá basicamente pela função e não
pela forma”.
Os gêneros textuais estabilizam as atividades linguísticas denotando um
conjunto de propósitos comunicativos que formam a sua lógica e são incorporados
nas necessidades discursivas dos usuários da língua. Como afirma Swales (2009, p.
224):
Um gênero compreende uma classe de eventos comunicativos,cujos
menbros compartilham um conjunto de propósitos comunicativos. Esses
propósitos são reconhecidos pelos membros experientes da comunidade
discursiva e dessa forma constituem o fundamento lógico do gênero.

Dependendo das diversidades linguísticas presentes numa sociedade,


serão diversos os gêneros textuais presentes nela e estes legitimarão as práticas
comunicativas inseridas em tal contexto e vivência atual. Como afirma Bakhtin (apud
MARCUSCHI, 2008, p. 161): ‘‘Os gêneros textuais são nossa forma de inserção,
ação e controle social do dia a dia”. BRONCKART (apud MARCUSCHI, 2008, p.154)
constata: “A apropriação dos gêneros é um mecanismo fundamental de socialização,
de inserção prática nas atividades comunicativas humanas”.
O conhecimento de um determinado gênero textual ajuda na leitura e
interpretação de uma forma específica de linguagem utilizada em determinado
contexto e situação discursiva em particular. Conforme nos afirma Miller (apud
MARCUSCHI, 2008, p. 154): “Quando dominamos um gênero textual, não
dominamos uma forma linguística e sim uma forma de realizar linguisticamente
objetivos específicos em situações sociais particulares”.
Como os gêneros textuais acompanham o ritmo comunicativo da
sociedade, estes são formas verbais relativamente estáveis e maleáveis, pois estão
sujeitos às constantes modificações discursivas ocorridas nas práticas sociais.
Conforme ressalta Marcuschi (2002, p.19):

Os gêneros não são instrumentos estanques e enrijecedores da ação


criativa. Caracterizam-se como eventos textuais altamente maleáveis,
dinâmicos e plásticos. Surgem emparelhados a necessidades e atividades
socioculturais, bem como na relação com inovações tecnológicas.
13

Desta forma, para Marcuschi (2002) os gêneros textuais surgem, situam-


se e integram-se funcionalmente de acordo com as culturas em que se
desenvolvem.

1.1. Gêneros emergentes na mídia virtual

O avanço da tecnologia permitiu o surgimento de novos gêneros, os


digitais, que surgem a partir da necessidade comunicativa do homem e da
intencionalidade dele com o meio em que atua. No entanto, esses novos gêneros
não são inovações absolutas, pois alguns deles têm em si certa ligação com outros
gêneros textuais já existentes. Conforme afirma Marcuschi (2002, p. 20):

A intensidade do uso dessas tecnologias e suas interferências nas


atividades comunicativas diárias, bem como os novos suportes tecnológicos
da comunicação é que ajudam a criar esses novos gêneros, não sendo eles
inovações absolutas.

Assim os gêneros emergentes no contexto virtual, por vezes, não são


exatamente novos gêneros, e sim antigos gêneros que ganharam novas formas e
novas adequações diante das novas práticas discursivas ocorridas com os avanços
tecnológicos. Como afirma Araújo (apud CAVALCANTE; BEZERRA 2009, p. 68):

A transmutação do gênero tende a ser um indicativo de que assim como há


atividades que se estabilizam e outras que param de existir, existem
aquelas que são reinterpretadas e outras completamente novas que surgem
em função de novas práticas discursivas.

Ainda para Araújo (apud CAVALCANTE; BEZERRA 2009, p.68): “Esta


transmutação originará muitos gêneros, a fim de organizar as práticas linguajeiras
vividas no novo ambiente”. Desta forma os gêneros digitais apresentam aspectos
comuns com o esquema geral que caracteriza o gênero textual, mas também
apresenta diferenças importantes e únicas. Há elementos específicos que
distinguem as formas impressas das formas digitais, pois os gêneros que emergem
da esfera eletrônica, trazem elucidação a questões concernentes a escrita digital,
com sinais relevantes da mudança na linguagem que se materializa na esfera
eletrônica.
14

Assim a tecnologia possibilita não só o surgimento das inovações


comunicativas, mas também uma versão moderna de velhas formas de
comunicação totalmente diferente das tradicionais, e que certamente tem em nossas
vidas um impacto diferente e, possivelmente, mais forte, pois desafiam o uso da
linguagem e das relações comunicativas e discursivas. Como enfatiza Adamzik
(2009, p.33):

É de esperar que em tempos diferentes, sentidos diferentes sejam


atribuídos a acontecimentos comunicativos individuais e que as
particularidades de certos padrões comunicativos sejam reconstruídas, de
maneira distinta, nos diversos momentos da história inteira da interação.

Desse modo no contexto da comunicação mediada por computador


emergiram e materializaram-se conjuntos específicos de gêneros digitais que se
desenvolveram de acordo com o ponto de vista linguístico e modelo organizacional
da mídia virtual, trazendo novas formas de comunicação, geradas pela criatividade
do internauta.

1.2. A internet e o livro didático como suporte

O suporte tem a tarefa de fixar e comportar os gêneros em si, servindo de


base e apoio ao gênero suportado, tendo um papel fundamental na apresentação
circulação e materialização dos gêneros. Conforme define Marcuschi (apud
CAVALCANTE; BEZERRA, 2009, p. 67) ao dizer que o suporte é um: “lócus físico ou
virtual com formato específico que serve de base ou ambiente de fixação do gênero
materializado em texto”. Bezerra (apud CAVALCANTE; BEZERRA 2009, p. 67)
enfatiza: “O suporte se apresenta como uma coisa, uma superfície ou objeto, físico
ou virtual, que permite a manifestação concreta e visível dos textos”.
Dessa forma a internet é vista como um suporte virtual que abriga a
demanda dos gêneros oriundos da mídia digital. Como ressalta Marcuschi (2008,
p.186): “Trato a internet como um suporte que alberga e conduz gêneros dos mais
diversos formatos. A internet contém todos os gêneros possíveis”.
Ainda na concepção de Marcuschi (2008, p.179): “[...] o livro didático é
nitidamente um suporte textual”, assim o livro didático é um suporte físico e
15

específico que reune e fixa os diversos gêneros discursivos, oriundos das inúmeras
manifestações linguísticas sociais.
Quanto à importância do suporte, ele é imprescídivel para que o gênero
circule na sociedade e deve ter alguma influência na natureza do gênero suportado,
pois os suportes sempre participam da própria constituição dos sentidos do discurso,
interferindo de modo significativo nos gêneros que comporta, influenciando-os.
Como afirma Marcuschi (2008, p.174): “O suporte não é neutro e o gênero não fica
indiferente a ele”.
Desta forma a internet, por ter uma presença marcante nas atividades
comunicativas humanas, ajudou a criar, além de abrigar, novos gêneros bastante
característicos e peculiares do meio eletrônico, e estes gêneros se concretizam
numa relação de fatores combinados com o seu contexto emergente.
Para Almeida (2008, p.27): “A transformação no tipo de leitura e escrita
peculiar da internet muitas vezes apresenta-se mais superficial que a tradicional, que
tem como suporte o livro”. Assim nos livros didáticos encontramos uma escrita
uniforme e padrão facilmente reconhecível pelos usuários da língua, pois em tal
suporte há elementos específicos que o distinguem do suporte virtual e tais
elementos são enfatizados tanto na leitura como na escrita.

1.3 Outras considerações

Os gêneros digitais demonstram uma transformação nas práticas


comunicativas das pessoas, pois carregam em si múltiplas semioses e certo
hibridismo entre a modalidade oral e a escrita, denotando novas estratégias
comunicativas pouco convencionais dotadas de muita interatividade e dinamicidade
que dialogam com outras formas textuais, modificando tanto o estilo como a
estrutura do discurso. Conforme nos remete Marcuschi (2008, p. 200), quando diz
que há quatros fatores relevantes no trato dos gêneros digitais:

 São gêneros em franco desenvolvimento e fase de fixação com uso


cada vez mais generalizado.
 Apresentam peculiaridades formais próprias, não obstante terem
contrapartes em gêneros prévios.
 Oferecem a possibilidade de se rever alguns conceitos tradicionais a
respeito da textualidade.
16

 Mudam sensilvemente nossa relação com a oralidade e a escrita, o


que nos obriga a repensá-la.

Tais aspectos se tornam esperados, pois as novas tecnologias implicam


em inovações discursivas e numa certa reestruturação comunicativa da sociedade,
que por sua vez afeta os modelos discursivos pré-existentes a sua emergência,
modificando também o modo das relações interpessoais. Conforme afirma Violi
(2009, p.49):
Uma mudança na tecnologia da comunicação implica uma diferente
estruturação do sistema de comunicação em si mesmo, que por sua vez,
afeta a estrutura textual e as estratégias de escrita. As transformações
técnicas nunca são apenas técnicas, elas mudam tanto as formas de nossa
escrita como as de nossa interação.

Assim as produções comunicativas oriundas da mídia virtual utilizam-se


de uma escrita informal tida como inadequada, segundo os padrões formais da
linguagem, mas que servem para veicular os sentidos específicos da interação que
pretendem. Conforme ressalta Xavier e Santos (2005, p.34): “Observamos no
gênero digital uma forte tendência à utilização do nível informal de linguagem”.
Bisognin (2009, p.55) enfatiza: “As novas tecnologias digitais produzem formas de
leituras e escrita com características próprias e especifícas”.
Desta forma os gêneros digitais têm como um de seus aspectos
essenciais a escrita, pois a comunicação se dá predominantemente por meio desta,
apesar de serem utilizados outros recursos criativos como o som e a imagem que
nos remetem a uma integração de imagens, voz, música e linguagem escrita. Para
Bisognin (2009, p.125):

Essa criatividade se manifesta na criação de códigos discursivos


complexos, pois usam ao mesmo tempo o alfabeto tradicional, as
caracteretas, os scripts e outros, que marcam a natureza processual e
dinâmico-discursiva.

Deste modo os gêneros digitais produzem um novo uso da língua que


lhes dá um caratér inovador no contexto das relações fala-escrita. Conforme relata
Marcuschi (2004, p.64): “Trata-se de um “novo espaço de escrita”, é mais do que
isso, ou seja, é uma nova relação como os processos de escrita”. E Araújo (2007,
p.21): enfatiza: “Dos gêneros digitais brota uma linguagem sustentada por escolhas
linguísticas que buscam atender a rapidez de sua natureza conversacional”.
17

Ainda para Bisognin (2009, p.13): “A internet é um novo ambiente de


enunciação cultural, com múltiplas linguagens, possibilidade de interações,
velocidade acelerada de informações e estrutura multimidiática”. Então é de se
esperar que em tal ambiente se expresse uma comunicação diferenciada que
denote novos gêneros discursivos permeados por novas variedades de linguagem,
expressas por uma escrita heterogênea diferente das tradicionais.
Desse modo os gêneros digitais são marcados por aspectos discursivos
constantemente adaptados, renovados e reestruturados, transformando assim a
organização do todo verbal em decorrência das associações possíveis entre as
diversas esferas da atividade humana e as condições sociais de inserção da
produção enunciativa.
18

CAPÍTULO II
INSERÇÃO DOS GÊNEROS DIGITAIS NOS LIVROS DIDÁTICOS DE
LÍNGUA PORTUGUESA

A inserção dos gêneros digitais em livros didáticos de língua portuguesa


merece uma atenção especial, pois os gêneros oriundos da mídia virtual diferem
substancialmente daqueles comumente encontrados nesses materiais, seja pela
natureza digital de seu suporte original, dotadas de sons, imagens e interatividade,
seja pelas peculiaridades de sua linguagem, especialmente no que concerne à
escrita. Conforme afirma Marcuschi (2008, p.199):

 Do ponto de vista da linguagem, temos uma ortografia um tanto


bizarra, abundância de abreviaturas nada convencionais, estruturas frasais
pouco ortodoxas e uma escrita semi- alfabética.
 Do ponto de vista da natureza enunciativa dessa linguagem,
integram-se mais semioses do que usualmente, tendo em vista a natureza
do meio.
 Do ponto de vista dos gêneros realizados, a internet transmuta de
maneira bastante radical gêneros existentes e desenvolve alguns realmente
novos.

Crystal (2002, p.63), ao investigar os efeitos da internet na linguagem,


complementa:
Os gêneros do meio digital pertencem essencialmente à modalidade escrita,
e que esta escrita tem características bastante peculiares, como: ortografia
bizarra, pontuação minimalista, abreviaturas nada convencionais,
abundância de siglas, estruturas frasais pouco ortodoxas e escrita semi-
alfabética.

Deste modo os livros didáticos se encontram diante do desafio premente


de como tratar as particularidades estruturais dos gêneros digitais no tocante à
natureza digital do seu suporte, em dar ênfase às peculiaridades linguísticas pouco
convencionais da escrita, bem como relatar os possíveis aspectos composicionais
de tais gêneros, pois estes aspectos são considerados por alguns estudiosos, feito
Bakhtin (2000), como elementos importantes na compreensão de um gênero.
As abordagens dos gêneros digitais nos livros didáticos podem ser
interpretadas como um sinal concreto da preocupação com a inclusão desses novos
gêneros no ensino-aprendizagem da língua materna.
19

Mas os gêneros digitais, por trazerem mudanças significativas na


configuração das práticas de leitura e escrita, por vezes, são desvalorizados nos
contextos educacionais, pois muitos docentes ainda se sentem desafiados em
utilizar os gêneros digitais como ferramenta pedagógica. Conforme adverte Araújo
(2007, p.16): “Tais desafios de fato existem e estão inquietando os professores,
especialmente os que trabalham com o ensino de línguas. Essa inquietação pode
ser constatada pelo emprego de algumas expressões criativas”.
Estas expressões criativas para Violi (2009) são caracterizadas por um
certo “desleixo” quanto à ortografia com um grau de tolerância muito alto para a
grafia. Na concepção de Caiado (2007) tais expressões denotam a criatividade, a
necessidade de interação e a subversão à norma.
Desse modo os docentes, por vezes, desconhecem as particularidades e
peculiaridades linguísticas dos gêneros digitais e assim, se opõem a usá-los nas
suas atividades diárias. Conforme nos afirma Xavier (2005, p.37): “Muitos
professores por desconhecerem ou desconfiarem do funcionamento e das
vantagens das novas tecnologias de comunicação, têm se recusado a usá-las em
suas atividades cotidianas”. Araújo complementa (2007, p.58): ”Cabe ao professor
de língua materna o papel de explorar as possibilidades pedagógicas da Internet e
não simplesmente opor-se a esta sem realizar uma reflexão pertinente”.
Diante da inserção dos gêneros digitais nos livros didáticos os docentes
precisam saber dominar as particularidades e peculiaridades dos gêneros digitais,
pois se estes já se encontram inseridos nos livros didáticos, e porque se pretende
que eles sejam abordados na sala de aula e para que estes sejam devidamente
explorados é necessário que sejam perfeitamente dominados, conforme nos remete
Bakhtin (apud BHATIA 2009, p.191): “Os gêneros devem ser perfeitamente
dominados, para serem usados criativamente”.
Quanto aos livros didáticos estes devem acompanhar assiduamente as
evoluções tecnológicas relacionadas à educação e à comunicação. Especificamente,
aquelas direcionadas às novas formas de ensinar e de se comunicar, pois muitos
professores adotam os livros didáticos que costumam ser, quase que
exclusivamente, a principal fonte de material didático utilizados nas escolas da rede
oficial de ensino.
Desta forma os livros didáticos e os docentes se encontram perante uma
necessidade premente de se adaptar as novas práticas de ensino- aprendizagem, a
20

fim de atender essas novas tendências de gêneros que emergem do mundo virtual,
utilizando-os como uma ferramenta didática, pois as nossas práticas pedagógicas
não podem passar despercebidos das práticas discursivas que se atualizam na
sociedade, ignorando os propósitos comunicativos que as movem e os efeitos
pretendidos em cada situação particular de interação e se o professor continuar
alheio às transformações sociais e tecnológicas poderá este ficar à margem da
sociedade informatizada.

2.1. Da internet para o livro didático

Na transposição dos gêneros digitais para os livros didáticos há uma


diferença significativa entre transpor para o livro didático um conto ou uma história
em quadrinhos e transpor para esses materiais gêneros como o chat ou o blog,
principalmente se levarmos em conta as especificidades do seu suporte original, que
abrange todos os formatos de comunicação com variadas e surpreendentes ações
discursivas.
Desta forma a incorporação dos gêneros textuais pelo livro didático não
modifica esses gêneros em suas identidades, conforme nos ressalta Marcuschi,
(2003, p.24): “uma carta, um poema, uma história em quadrinhos, uma receita
culinária e um conto continuam sendo isso que representam originalmente e não
mudam pelo fato de migrarem para o interior de um livro didático”, mas os gêneros
digitais quando transpostos para esse novo suporte, naturalmente perdem algumas
peculiaridades próprias diante da forma impressa.
Assim na internet encontramos vários gêneros pertencentes a um
determinado domínio discursivo, que nos remetem a práticas linguísticas que lhe são
próprias ou específicas e que denotam novas alternativas de leitura e escrita
propiciando o surgimento de discursos bastante específicos. Como enfatiza Bakhtin
(2000) quando diz que cada esfera da atividade humana produz textos com algumas
características comuns e, por isso, pertencem a um determinado domínio discursivo
isto é, o lugar onde os textos ocorrem, circulam (são produzidos e consumidos).
Marcuschi (2008, p.193) confirma dizendo que os textos situam-se em domínios
discursivos que produzem contextos e situações para as práticas sociodiscursivas
características.
21

Para Marcuschi (2008, p.201): “O discurso eletrônico ainda se acha em


estado meio selvagem e indomado sob o ponto de vista linguístico e organizacional”.
Dessa forma em tal contexto encontramos uma escrita diferenciada, composta por
um desmoronamento da pontuação e da acentuação, com um uso irrestrito de
caracteres, emoticons e abreviações.
Assim não há como ignorar o fato de que os gêneros digitais, em maior ou
menor grau, caracterizam-se por elementos que não podem ser transpostos para o
livro didático, e tais elementos na concepção de Araújo e Biasi (2005, p.13) se
caracterizam como práticas discursivas que se destaca pela multimodalidade de
recursos semióticos e pela dinamicidade interativa. Portanto em folha de papel, tais
peculiaridades não podem ser transcritas sem que haja um prejuízo significativo de
sua constituição original, em especial no que diz respeito à riqueza semiótica sons,
imagens, movimento e escrita, deste modo na abordagem de tais gêneros em livros
didáticos só são enfatizados aspectos dos quais o livro possa dar conta.
Mas é necessário que o livro didático apresente propostas de atividades
que proporcionem ao discente o conhecimento das particularidades desses novos
fenômenos, seja no tocante à linguagem, seja com relação aos seus usos, e em tais
propostas devem ser feitas diferentes perspectivas de observação, considerando
aspectos funcionais e os contextos de circulação e a observação das marcas que
deixam nos discursos, pois os gêneros precisam entrar na escola da mesma forma
como ocorrem nas práticas sociais de linguagem. O aluno deve, pois, dominar o
gênero exatamente como este funciona em seus usos autênticos.

2.2. O livro didático na perspectiva dos gêneros digitais e dos PCN

O livro didático tem uma presença marcante na sala de aula e na maioria


das vezes ele constitui o próprio programa de ensino, servindo por vezes, como
única fonte de referência do trabalho em sala de aula, pois os roteiros
preestabelecidos com respostas prontas representam economia de tempo e de
reflexão na preparação das aulas, por isso muitos professores os utilizam como
principal instrumento que orienta o conteúdo a ser administrado.
Tais materiais devem abordar uma proposta de ensino e aprendizagem
sob a ótica da teoria dos gêneros textuais incorporada pelos PCN de Língua
22

Portuguesa que sugerem um ensino de língua materna voltado ao estudo dos


variados gêneros, com o intuito de denotar os recursos expressivos da linguagem,
tanto oral quanto escrita, a fim de desenvolver o conhecimento necessário para que
os participantes envolvidos nos processos de ensino e aprendizagem saibam
adaptar suas atividades linguísticas aos eventos sociais comunicativos de que já
participam e participar de novos.
Assim o ensino de língua portuguesa deve objetivar a expansão das
várias possibilidades do uso da linguagem, em qualquer forma de realização através
dos gêneros textuais.
Tal concepção de que o ensino de uma língua deve ser voltado aos
gêneros textuais também é explicitamente defendida por Bakhtin como se pode
constatar na afirmação seguinte:

Um método eficaz e correto de ensino prático exige que a forma seja


assimilada não no sistema abstrato da língua, isto é, como uma forma
sempre idêntica a si mesma, mas na estrutura concreta do enunciado, como
um símbolo flexível e variável (BAKHTIN,1987, p.95).

Desta forma os livros didáticos têm que demonstrar aos discentes um


conhecimento relativo às manifestações reais da linguagem nas nossas relações
sociais, pois os PCN (1998) ressaltam que entre os objetivos do ensino é levar os
alunos a “posicionar-se de maneira crítica, responsável e construtiva nas diferentes
situações sociais”, então cabe aos livros didáticos enfatizar concretamente nas suas
abordagens o conhecimento das novas formas comunicativas com outros tipos de
gêneros, como é o caso dos gêneros emergentes na mídia virtual.
Assim os livros didáticos na escolha dos gêneros trabalhados devem
denotar todas as variações de gêneros existentes na sociedade, sem dar preferência
somente aos impressos, mais enfatizar assiduamente também os digitais, pois tais
materiais devem estar atentos aos Parâmetros Curriculares Nacionais, que
defendem a ideia de que o ensino de uma língua materna deve visar levar o aluno a
ver-se e constituir-se como sujeito a partir do contato da diversidade, tarefa esta que
pode ser bastante favorecida pela comunicação por meio dos gêneros digitais, uma
vez que estes permitem aos usuários da língua dominar as formas do dizer que
circulam socialmente, pois a internet é uma grande produtora desses textos
heterogêneos com grande carga sociocultural.
O desenvolvimento de habilidades e competências dos alunos se dá por
23

meio da exploração da diversidade dos gêneros ocorridos na sociedade, a fim de se


alcançar um aluno leitor ideal que entre em consonância “com as espécies de textos
que uma pessoa num determinado papel na sociedade tende a produzir”
(MARCUSCHI, 2004, p.15), pois os PCN reiteram a função da escola de promover
condições para que os alunos reflitam sobre os conhecimentos construídos ao longo
de seu processo de socialização e possam agir sobre e com eles, transformando-os,
continuamente, nas suas ações, conforme as demandas trazidas pelos espaços
sociais em que atuam.
Desta forma os livros didáticos devem abordar assiduamente os gêneros
digitais para garantir ainda mais a inserção dos discentes nas diversas
manifestações discursivas contemporâneas, pois cabe aos nossos suportes
pedagógicos a função de lidar como os mais diversos gêneros a fim de tornar os
discentes aptos a agirem-nos mais diferentes contextos da interação verbal, com
competência diante das novas formas discursivas denotadas pela linguagem verbal
e não-verbal.
E os gêneros digitais tem muito a acrescentar ao ensino de nossa língua,
pois proporcionam uma leitura atual dos inovações discursivas ocasionadas com o
uso constante das novas tecnologias.
24

CAPÍTULO III

ANÁLISE DOS GÊNEROS DIGITAIS NOS LIVROS DIDÁTICOS DE


LÍNGUA PORTUGUESA

Os gêneros digitais denotam uma interatividade verbal que nos remetem


a novos códigos comunicativos, construídos mediante as necessidades linguístico-
discursiva dos usuários da língua que se tornam responsáveis por uma nova forma
de leitura e escrita, construída sem fronteiras nítidas, misturando formas, processos
e funções discursivas.
Diante de tais peculiaridades, a análise dos gêneros digitais nos livros
didáticos será feita mediante ao modo como tais gêneros estão sendo abordados
nos livros didáticos, verificando-se como as abordagens enfatizam os aspectos
estruturais e exemplificam as peculiaridades composicionais, funcionais e
linguísticas dos gêneros digitais em suas propostas didáticas, bem como as
pertinências de tais propostas e se as sequências didáticas procuram levar o aluno a
se comunicar por meio do gênero estudado e se retratam fielmente a forma como
esses gêneros ocorrem no meio digital, pois Schneuwly e Dolz (2004) acreditam ser
fundamental que as propostas didáticas envolvendo os gêneros digitais busquem
conduzir o aluno a uma comunicação autêntica ou a uma situação comunicativa
próxima aos usos reais desses gêneros e tal comunicação autêntica é também uma
exigência, fundamentada nas principais orientações curriculares vigentes na
atualidade pelos PCNs.
Desta forma os livros didáticos precisam demonstrar em suas abordagens
as reais práticas comunicativas ocorridas na esfera digital e como estes constituem
um documento oficial de ensino, se espera que saibam trabalhar a diversidade dos
gêneros digitais em seus diferentes graus de complexidade.

3.1 Análises dos livros didáticos de Língua Portuguesa

Devido às poucas abordagens dadas ainda aos gêneros digitais nos livros
25

didáticos, não foi possível delimitar o estudo apenas a uma série, pois tais gêneros
não são trabalhados especificamente em um segmento ou contemplados em todas
as séries do Ensino Fundamental. Seu estudo ainda é limitado, aparecendo com
pouca frequência nos LDs.
Foram avaliadas 05 (cinco) coleções de livros didáticos do 6º ao 9º ano do
Ensino Fundamental II: a) Linguagem Criação e Interação; b) Para Viver Juntos; c)
Viva Português; d) Português: projeto radix; e e) Tudo é linguagem

a) Coleção Linguagem Criação e Interação

Na coleção Linguagem Criação e Interação, os gêneros digitais são


abordados apenas no 7º ano. Em toda a coleção há apenas três páginas destinadas
aos gêneros digitais.
Na sessão “Momento do texto” (p.20), é apresentado ao aluno um e-mail.
A proposta solicita que se leia o texto e que se confira como é possível entrar em
contato com as pessoas que estão distante de nós.
A abordagem enfatiza o conteúdo da mensagem e permite que o aluno à
medida que for lendo descubra a função sociocomunicativa do e-mail. A proposta
não denomina inicialmente o gênero, o aluno irá perceber que se trata de um e-mail
devido aos aspectos visuais que são demonstrados.
O e-mail na atividade é demonstrado como se estivesse no seu suporte
original, com os seus aspectos composicionais mantidos, pois se pode observar o
endereço do remetente, a data e a hora, o endereço do receptor, bem como o corpo
da mensagem e os ícones próprios e estruturais do seu suporte. Os aspectos
linguísticos são mantidos devido à informalidade na escrita, as carinhas e
abreviações.
26

Figura 1- Exemplo de uma proposta de atividade com o e-mail do livro Linguagem criação e
interação, p. 20

Encontramos na página seguinte a continuidade dessa proposta. A sua


continuação se dá na sessão “Painel do texto” (p.21). Nesta sessão o e-mail, a
internet e alguns dos seus aspectos composicionais como a homepage e o emoticon
são conceituados.
Nesta continuação é explicado também como enviar mensagem, há a
demonstração dos endereços eletrônicos e alguns caracteres.
27

Figura 2- Cont. da proposta de atividade com o e-mail, do livro Linguagem Criação e


Interação, p.21

Logo após estas propostas é feita na próxima página, um exercício


didático a cerca dessas abordagens, onde o aluno deverá interpretar as
características linguísticas e composicionais dos gêneros digitais demonstrados,
para responder as seguintes questões:
28

1) O texto da página 20 é uma mensagem eletrônica, mais conhecida como


e-mail. Nele, aparecem algumas palavras abreviadas. Observe-as: Blz, vc,
msg, tb,abs.
a) Escreva por extenso o que significa cada uma delas.
b) Em sua opinião porque elas foram escritas dessa forma?
2) A linguagem empregada no texto é formal ou informal? Dê exemplos que
confirmem sua resposta e explique por que foi empregado esse tipo de
linguagem.
3) Por que a palavra looooooonnnnnge foi escrita dessa forma? Como
essa palavra é escrita no dicionário.
4) Em alguns momentos de seu texto, Carol utilizou emoticons ( sequências
de caracteres simulando carinhas) para dar maior expressividade a seu e-
mail. Localize os emoticons e diga o que eles significam.
5) De acordo com o e-mail, faça um esquema em seu caderno, indicando: o
endereço eletrônico do remetente, o endereço eletrônico do destinatário, a
data do envio da mensagem, o cumprimento, o nome do assunto do e-mail
e a despedida e a assinatura.
6) Como você observou, Carol escolheu a palavra saudades para identificar
o assunto de seu e-mail. Que outra palavra ou expressão poderia designar
o assunto desse e-mail? Justifique sua resposta.

Após esse exercício, na próxima sessão “Produção escrita”, o aluno


deverá criar o seu e-mail, conforme relata a questão:

1) Agora, chegou o momento de você produzir um texto que será enviado a


alguém que esteja distante. O destinatário desse texto será alguém de sua
faixa etária, cuja identidade você ainda não conhece. Já imaginou como
será a reação de uma pessoa desconhecida ao receber um texto seu? Você
poderá viver essa experiência por meio desta atividade. Para isso, há duas
opções:
1º opção – O professor vai averiguar que alunos de outras turmas ou de
outras escolas querem participar desta atividade e possuem endereços
eletrônicos para distribuí-los entre colegas de sua sala que também usam
internet.
2º opção – Se não tiver acesso à internet, você pode imaginar que está
escrevendo um e-mail pelo computador.

Tais propostas de atividades se mostraram totalmente satisfatórias quanto


ao estudo do gênero digital, pois inicialmente solicita que o aluno leia o conteúdo do
e-mail e este à medida que for lendo descubra a sua função sócio-comunicativa. O
e-mail também foi exemplificado no seu suporte original, denotando ao aluno o seu
uso autêntico. Posteriormente os aspectos composicionais e linguísticos do e-mail
são explicados e conceituados e logo após estudados nas questões do exercício e o
aluno ainda aprende a se comunicar por meio do gênero estudado.
Em outra página da coleção, na mesma sessão “Momento do texto”
(p.120), o blog é conceituado e apenas usado como o assunto de uma reportagem.
29

Figura 3- Reportagem sobre o blog , no livro Linguagem Criação e Interação, p.120

Depois do texto é apresentado um exercício didático, onde o aluno deverá


interpretar o assunto da reportagem, os aspectos linguísticos próprios da
informática, a pontuação do texto, as características do blog em relação ao diário
pessoal, por meio das seguintes questões:

1)O texto que você leu é uma reportagem que fala sobre Weblog ou
simplesmente blog, uma versão eletrônica do diário pessoal produzido no
papel. Você já conhecia algo a respeito disso?
2) O que o título “Meu querido blog” sugere?
3) A quem você acha que esse texto pode interessar ? Justifique a sua
resposta.
4) Na reportagem, há várias palavras e expressões próprias da área de
informática.Anote no caderno todos os exemplos que encontrar.
30

5) Na reportagem há vários trechos entre aspas. O que essa pontuação


indica?
6) Qual é o fator que distingue completamente um blog de um antigo diário
pessoal desconsiderando o fato de ser eletrônico? Para responder a esta
questão, releia o primeiro parágrafo do texto.
7) ) A que se deve o sucesso dos blogs segundo a reportagem?

A reportagem e o exercício didático não se mostraram totalmente


satisfatórias quanto ao estudo do gênero, o blog é usado como pretexto para a
interpretação de texto e os seus aspectos lingüísticos e composicionais são
vagamentes mencionados na reportagem e no exercício didático, tais aspectos não
são estudados. Não é demonstrado um modelo autêntico do gênero no seu suporte,
com todas as suas características originais.
Um ponto positivo na reportagem é que o aluno entende a função própria
e a função social do gênero e aprende a se comunicar por meio do gênero
relatado,fazendo o seu próprio blog.

b) Coleção Para Viver Juntos

Na coleção Para viver juntos os gêneros digitais são abordados no 6º, 8º


e 9º ano. No entanto, em toda a coleção foram destinadas apenas três páginas aos
gêneros digitais.
Na sessão “Oralidade” (p.186) do 6º ano, o gênero digital demonstrado
não é nem real, e um e-mail fictício, retirado de uma obra literária. A proposta
enfatiza a análise linguística, nas questões, através de um falso e-mail, não há nem
a preocupação de demonstrar e estudar o gênero digital real. Assim nas questões,
pergunta-se a respeito da linguagem empregada, compara-se o e-mail às cartas e
aos bilhetes pelo fato de ele começar com uma saudação que é reconhecida como
uma interjeição que denota oralidade, pergunta-se quais as marcas de oralidade
encontradas no gênero, fala-se nas gírias que denotam a linguagem informal.
31

Figura 4- Proposta de atividade com o e-mail, do livro Para viver juntos, p. 186

A proposta não se mostra totalmente satisfatória quanto ao estudo do


gênero, pois além de demonstrar um falso gênero digital, esta só promove uma
reflexão acerca da linguagem oral e escrita, não há referência quanto aos aspectos
composicionais do gênero, nem tão pouco o seu estudo. O e-mail não foi
demonstrado no seu suporte original. Desta forma não foi denotado ao aluno o seu
uso autêntico. A proposta também não orienta o aluno a comunicar-se por meio do
gênero
O ponto positivo é que a proposta mostra a função social do e-mail.
Na mesma coleção na sessão “Reflexão Linguística” (p.92) do 8º ano, o
blog é denominado inicialmente como diário virtual. Antes de chegar no gênero em
si, é apresentado um texto introdutório, relatando de que se trata o diário virtual, e a
partir daí é enfatizado apenas o blog em suas diversas classificações. Logo após
são feitos alguns questionamentos: se o aluno lê o blog, se conhece alguém que lê,
32

se prefere os blogs pessoais, jornalísticos ou de prestações de serviços.


Após o texto inicial o blog é apresentado com as peculiaridades do seu
suporte original, bem como com algumas características composicionais como os
links, a foto do autor do blog, o conteúdo da mensagem.

Figura 5- Proposta de atividade com o blog, do livro Para viver juntos, p.92

No exercício didático o aluno deverá interpretar as peculiaridades


linguísticas e composicionais do gênero abordado e em outra questão o aluno
deverá produzir um diário como se esse fosse ser publicado num blog, observe:

1) Observe a linguagem empregada pelo tenista.


33

a)Ela é formal ou informal? Essa linguagem é adequada aos diários virtuais


? Por quê?
b) Essa linguagem é empregada aos blogs? Por quê?
2) Volte ao texto e observe a organização do blog.
a)Os tópicos “Quem é” e “Histórico” são links para outros textos. Que tipo de
informação o leitor espera encontrar ao clicar neles?
b)Leia a relação de sites recomendados. Eles são recomendados por quem
e para quem?
3) Você vai planejar e produzir a página de um diário como se fosse ser
publicados em um blog. Nela você vai registrar um breve texto contando aos
leitores seu último fim de semana.

As propostas se mostraram satisfatórias quanto ao estudo do gênero na


questão de mostrar e estudar os aspectos linguísticos e composicionais do gênero,
nas questões. O blog é demonstrado no seu suporte original, denotando ao aluno o
seu uso autêntico. Outro ponto positivo é que no conceito do e-mail é apresentado
claramente a função própria e social do gênero.
No entanto, o aluno é orientado a fingir que produz o gênero digital, pois
na questão do exercício ele deve produzir um diário como se fosse publicá-lo em
um blog, o aluno não é orientado a se comunicar especificamente no gênero
estudado.
Na mesma coleção na sessão “Atividades Globais” (p.74) do 9º ano, é
apresentado um texto falando da internet, da sua expansão, que posteriormente deu
origem ao blog, relata-se o problema do blog que é o volume de informações que
cresce muito rápido.
34

Figura 6- Proposta de atividade com o blog, do livro Para viver juntos, 74.

Logo após o texto pergunta-se quanto ao problema do volume de


informações do blog. Pede-se que se identifique a oração subordinada substantiva
no último parágrafo do texto, bem como a classificação das orações encontradas.
Em outra questão pede-se que se analise a estrutura sintática encontrada nos
períodos do texto.
A proposta não se mostra satisfatória quanto ao estudo do gênero, pois
não promove uma reflexão acerca da linguagem do blog, nem trata dos aspectos
composicionais desse gênero, nem os estuda e nem direciona o aluno à
comunicação por meio dele e nem tão pouco demonstra o gênero no seu suporte
35

original. O foco da proposta é o aspecto gramatical, onde a internet e o blog são


apenas o assunto do texto que é usado como pretexto para a abordagem gramatical.

c) Coleção Viva português

Na coleção Viva Português, os gêneros digitais são abordados apenas no


9º ano. Em toda a coleção há apenas duas páginas destinadas aos gêneros digitais.
Na sessão “E por falar em situações especiais” (p.74, 75), o fotolog é logo
conceituado e apresentado no seu suporte original, com os seus aspectos
estruturais mantidos.
A proposta não se mostra satisfatória quanto ao estudo dos gêneros
digitais, pois os aspectos linguísticos e composicionais do gênero digitais são
apenas demonstrados e não são estudados e o aluno ainda é orientado a produzir
um fotolog não eletrônico, dessa forma foi demonstrada pouca importância as
peculiaridades próprias do gênero digital e o aluno não aprende a se comunicar
especificamente por meio do gênero estudado, mas sim por meio do gênero
impresso.
O ponto positivo é que a abordagem apresenta a função própria e social
do gênero, que é o de escrever os momentos diários, considerados importantes com
o uso de fotografias. E por mostrar o gênero no seu suporte original o aluno
reconhece o uso autêntico do gênero.

Figura 7- Proposta de atividade com o fotolog, do livro Viva português, p. 74


36

Figura 8- Continuação da proposta de atividade com o fotolog, do livro Viva português, p. 75

d) Coleção Português: projeto radix

Na coleção Português: projeto radix (p.14), os gêneros digitais são


abordados apenas no 8º ano. Em toda a coleção há apenas uma página destinada
aos gêneros digitais.
Na sessão “Expressão Oral”, o blog é enfatizado apenas como o assunto
de um debate onde se discute se é positiva ou não a exibição pública de assuntos
particulares. Mais abaixo na sessão “Algo a mais” há um simples comentário acerca
do gênero.
A proposta não enfatiza a questão do gênero em si, pois não apresenta
as características típicas do blog, em seus aspectos composicionais e linguísticos e
nem os estuda, e não direciona o aluno a um uso autêntico do gênero, pois o gênero
não é demonstrado em seu suporte original e ainda não o orienta a se comunicar por
meio do gênero.
A proposta mostra apenas a sua função social, pois o seu foco é o ensino
da linguagem oral, através de um debate sobre alguns aspectos da função própria
37

do blog.
No blog os adolescentes e adultos registram seus relatos, sua
experiências e suas vivências. Desse modo tal gênero torna-se propício para o
ensino da linguagem oral, pois os alunos saberão argumentar bem as suas opiniões
acerca de um gênero que eles utilizam para assuntos tão especiais.

Figura 9- Proposta de atividade com o blog, do livro Português: projeto radix, p.14

d) Coleção Tudo é linguagem

Na coleção “Tudo é Linguagem” (p.195), os gêneros digitais são


abordados apenas no 7º ano. Em toda a coleção há apenas uma página destinada
38

aos gêneros digitais.


Na sessão “Construção e Linguagem”, o jornal eletrônico é abordado
apenas como um exemplo do gênero notícia na internet.
Dessa forma a proposta não se mostra satisfatória quanto ao estudo do
gênero em si, pois não orienta o aluno a se comunicar por meio do gênero e os seus
aspectos funcionais, linguísticos e composicionais não são estudados, estes são
apenas demonstrados, para servir como exemplo de como se dá uma notícia no
meio virtual.

Figurara 10- Proposta de atividade com o jornal eletrônico, do Livro Tudo é linguagem, p.195
39

3.2 Conclusão da análise dos livros didáticos de língua portuguesa sobre o estudo
dos gêneros digitais

Coleções Séries em que constam Números de gêneros


Resultado da análise
analisadas os gêneros digitais digitais encontrados
Satisfatória em uma
abordagem, na outra
Linguagem Criação deixa algumas lacunas
7º ano do E.F II 02 (duas)
e Interação nos aspectos
composicionais e
linguísticos.
Insatisfatória no ensino
dos gêneros e ainda
Para Viver Juntos os utiliza como
6º 8º e 9º ano do E.F II 03 (três)
assunto do texto que é
usado para o ensino
de gramática
Insatisfatória, pois não
Viva Português estuda os aspectos
9º ano do E.F II 01(uma)
composicionais e
linguísticos.
Insatisfatória o gênero
Português: projeto é usado apenas para o
8º ano do E.F II 01(uma)
radix ensino da linguagem
oral.
Insatisfatória, o gênero
é abordado apenas
Tudo é Linguagem 7º ano do E.F II 01(uma) para servir como
exemplo do gênero
notícia na internet.
Tabela 1 – Conclusão da análise dos livros didáticos de Língua Portuguesa.

Durante a análise, podemos observar que além das poucas abordagens


acerca dos gêneros digitais os autores dos livros didáticos lançam mão de trabalhar
o gênero digital em sua totalidade, pois há apenas uma proposta que se mostrou
satisfatória quanto à abordagem e estudos dos gêneros digitais. Pois as demais
abordam os aspectos composicionais e linguísticos, mas não os estudam e algumas
nem sequer os enfatiza e nem todas demonstram ao aluno como se comunicar por
meio do gênero. Algumas não exemplificam o gênero digital no seu suporte original
e dessa forma não denotam ao aluno o seu uso autêntico do gênero. Há ainda a
abordagem de falso gênero, não existindo nem a preocupação de denotar o gênero
digital como ele realmente é. Outras enfatizam o gênero digital, mas pede que o
aluno aprenda a se comunicar utilizando o impresso e alguns gêneros digitais são
40

usados apenas como exemplo do impresso na internet, outros são usados para
promover o ensino da linguagem oral e outros são usados apenas como o assunto
do texto. O ponto positivo na análise é que boa parte das abordagens e propostas
didáticas mostram a função própria e social do gênero estudado.
41

CONCLUSÃO

Por meio do estudo realizado, pode-se afirmar que os gêneros digitais


nos remetem a transformações significativas nas nossas práticas de leitura e escrita,
pois tais gêneros denotam inovações linguístico-discursivas dotadas de muita
interatividade e dinamicidade que integram ao mesmo tempo uma linguagem escrita
peculiar, tida como informal a imagens, sons, voz e música, modificando tanto o
estilo como a estrutura do discurso.
Percebeu-se por meio do estudo, que nos gêneros digitais há elementos
que não podem ser transpostos para os livros didáticos como os elementos
semióticos e a dinamicidade interativa, que se funde em sons, imagens, movimento
e escrita.
Quanto aos elementos que podem ser transpostos para o livro didático,
constatou-se que estes materiais ainda se encontram desafiados em abordar e
estudar as particularidades estruturais dos gêneros digitais, seja no tocante à
natureza digital do seu suporte, como em saber dar ênfase às peculiaridades
linguísticas pouco convencionais da escrita, em tratar dos aspectos funcionais, bem
como em estudar os possíveis aspectos composicionais de tais gêneros.
Assim constatou-se por meio da análise que além do déficit de gêneros
digitais encontrados nos livros didáticos, apenas uma proposta se mostrou
totalmente satisfatória quanto à abordagem e estudo dos gêneros digitais. Pois as
demais abordam os aspectos composicionais e linguísticos, mas não os estudam e
algumas nem sequer os enfatizam. Com isso não foram demonstradas e estudadas
concretamente as suas peculiaridades essenciais. Nem todas demonstram ao aluno
como se comunicar por meio do gênero, com isso o aluno não aprende
concretamente a se comunicar através dos gêneros dos quais fazemos uso em
nosso dia-a-dia. Algumas propostas não exemplificam o gênero digital no seu
suporte original e dessa forma não denotam ao aluno o uso autêntico do gênero. Há
ainda a abordagem de falsos gêneros, não existindo nem a preocupação de denotar
um gênero digital real. Outras ensinam o gênero digital, mas pedem que o aluno
aprenda a se comunicar utilizando o impresso, desvalorizando assim o gênero digital
42

estudado. Há também propostas nas quais os gêneros digitais são apenas pretextos
para a abordagem de questões alheias à sua natureza e seus efetivos usos, sendo
estes usados apenas como exemplo do impresso na internet ou usados apenas
como o assunto do texto. O ponto positivo na análise é que boa parte das
abordagens e propostas didáticas mostram a função própria e social do gênero
estudado.
Diante de tais resultados percebe-se o quanto os gêneros digitais são
desvalorizados nos livros didáticos, pois estes não apresentam uma proposta eficaz
com esses gêneros, pois não são enxergados em sua dimensão linguística nem
composicional, não há uma compreensão do seu todo significativo, nem das suas
múltiplas possibilidades pedagógicas.
Tais observações são preocupantes, pois as novas concepções de ensino
de Língua Portuguesa favorecem uma postura mais reflexiva em relação às
múltiplas linguagens oriundas da sociedade e os PCNs ressaltam que um dos
objetivos do ensino é levar os alunos a posicionar-se de maneira crítica, responsável
e construtiva nas diferentes situações sociais. Então caberia aos livros didáticos
enfatizar assiduamente e concretamente nas suas abordagens o conhecimento das
novas formas comunicativas com esses novos tipos de gêneros.
Sem contar que os gêneros digitais são novos gêneros dignos de uma
análise criteriosa e não deveriam ser estudados pela vaga interpretação das
abordagens originadas pelos livros didáticos, mas a partir de uma explanação social
e funcional, com uma análise ampla das suas peculiaridades e possibilidades
pedagógicas, pois segundo os PCN (1998) é necessário que se possa dispor tanto
de uma descrição dos elementos regulares e constitutivos do gênero, quanto das
suas particularidades.
Diante de tais resultados percebe-se também que o livro didático nem
sempre está em consonância com as propostas metodológicas atuais que visam
efetivamente à prática social da linguagem. Isto é preocupante, pois tal material é
um importante recurso didático para o trabalho com a língua, uma vez que ele pode
se constituir ou como um material de apoio, ou como material explicitamente
adotado, tornando-se uma referência principal.
Desta forma cabe então aos professores procurar dominar as
particularidades e peculiaridades dos gêneros digitais, para não ficar à margem da
sociedade informatizada, e ao mesmo tempo suprir as deficiências do livro didático
43

promovendo atividades didáticas que de fato proporcionem um maior conhecimento


da natureza dos gêneros digitais, pois tal profissional não pode desconhecer os
gêneros digitais, mas enxergá-lo amplamente nos seus múltiplos aspectos
estruturais, com seus propósitos, funções, composição e peculiaridades linguísticas.
44

REFERÊNCIAS

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