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ANTROPOLOGIA SOCIAL

ACTIVIDADE 1
A ANTROPOLOGIA NO QUADRO DAS CIÊNCIAS

IPL – INSTITUTO TÉCNICO DE LEIRIA


CURSO DE RELAÇÕES HUMANAS E COMUNICAÇÃO ORGANIZACIONAL

MARIANA CAMPOS
1181051

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ANTROPOLOGIA SOCIAL
ATIVIDADE 1. A ANTROPOLOGIA NO QUADRO DAS CIÊNCIAS

“A Antropologia tem poucas respostas finais, mas projeta a


luz do facto e da razão em muitas questões prementes”
E. Hoebel e Everett Frost.

Os textos sobre os quais vamos refletir, nomeadamente, Relativizando: Uma introdução à


Antropologia Social, da autoria de Roberto DaMatta (MATTA, Roberto da (1981).
Relativizando: uma introdução à Antropologia Social, Petrópolis: Vozes.), e Antropologia Social
e Cultural de E. Adamson Hoebel e Everett L Frost HOEBEL, (E. Adamson e FROST, Everett
(1976). Antropologia Cultural e Social, São Paulo: Cultrix.), falam ambos sobre a Antropologia no
quadro das ciências.
A capacidade evolutiva do homem face aos seus pares, ditos animais sociais, permitiu-lhe uma
evolução na cadeia animal que o distinguiu e distanciou dos demais, quer a nível físico, através
do bipedismo, e todas as alterações físicas que daí advieram, quer a nível psicológico, com o
desenvolvimento da linguagem e a capacidade de raciocínio, de pensar à priori, e deste modo,
evoluir para a criação de cultura, fazem como diriam Adamson Hoebel e Everett Frost (1976),
“todo o comportamento humano simultaneamente biológico e cultural”, e como diria
Dobzhansky, “a evolução humana só pode ser entendida como produto da interação destes dois
desenvolvimentos”.
Assim, e neste contexto, ambas as obras referenciam e se debruçam sobre os dois tipos de
ciências do estudo do Homem: As ciências ditas naturais ou “ciências da natureza”, e as ciências
sociais, ou “ciências humanas”.
Em relação a obra de Roberto DaMatta (1981), iremos debruçarmo-nos sobre a primeira parte
da mesma, intitulada A Antropologia no Quadro das ciências. O autor, Graduado e
licenciado em História pela Universidade Federal Fluminense (1959 e 1962), possuidor
de um curso de especialização em antropologia social do Museu Nacional da
Universidade Federal do Rio de Janeiro (1960) bem como mestrado (Master in Arts) e
doutorado em 1969 e 1971 respetivamente pela Universidade Harvard, dedica esta
parte da sua obra ao estudo das diferenças existentes entre as ciências naturais e as
ciências sociais, e num último ponto, ao estudo do social e do cultual à luz da
Antropologia enquanto ciência. R. DaMatta demorasse assim na dicotomia entre as ciências
naturais versus as ciências sociais, suas caraterísticas e métodos de estudo, daí partindo para a
Antropologia como ciência social nas suas vertentes biológica e cultural. E. Hoebel e Everett
Frost, o primeiro formado em Sociologia e Antropologia com o doutoramento nesta última
ciência, em 1934, na Universidade de Columbia (Nova Iorque), intitulam por seu turno esta parte
da sua obra como: Antropologia: O estudo da Humanidade, e focam-se mais no estudo da
Antropologia como ciência cultural, suas subdivisões e caraterísticas e toda a relação do Homem
com a vertente cultural da Antropologia, enquanto criatura social que é.
Robert DaMatta começa por considerar que, embora todas as ciências, tanto as naturais como
as sociais, se debrucem sobre objetos e apliquem determinados métodos de estudo para

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atingirem os seus objetivos, ambas seguem caminhos diferentes nesse processo, pois se por um
lado “as ciências sociais estudam factos simples” já que “a matéria-prima da ciência natural é
todo o conjunto de factos que se repetem e têm uma constância verdadeiramente sistémica, já
que podem ser vistos, isolados, e assim reproduzidos(...) num laboratório”, por outro lado “a
matéria-prima das ciências sociais, são eventos com determinações complicadas e que podem
ocorrer em ambientes diferenciados, tendo por causa disso a possibilidade de mudar seu
significado de acordo com o autor, as relações existentes num dado momento e, ainda, com a
sua posição numa cadeia de eventos anteriores e posteriores.”
DaMatta enfatiza bem a simplicidade versus a complexidade que distinguem o estudo das
ciências naturais comparativamente às sociais, pois segundo o próprio, “entre umas e outras
temos uma relação invertida: se nas ciências naturais os fenómenos podem ser percebidos,
divididos, classificados e explicados dentro de condições de relativo controle e em condições de
laboratório”, no caso das ciências sociais “as condições de perceção, classificação e
interpretação são complexos(…) e irreproduzíveis em condições controladas.(…) são eventos a
rigor histórico, e apresentados de modo descritivo e narrativo, nunca na forma de uma
experiência.”
Entra aqui a “crucial diferença” que posiciona a Antropologia como uma ciência social. Nas
ciências ditas naturais, não existe uma interação completa entre o objeto de estudo e o
investigador, regra geral porque se tratam de criaturas de espécies diferentes, estudadas
experimental e cientificamente em laboratório, mas nas ciências sociais, como na Antropologia,
existe “uma interação completa entre o investigador e o elemento investigado” pois estão
“ambos situados numa mesma escala”. É esta atitude que tem, segundo DaMatta “servido para
situar a Antropologia social no centro epistemológico de todo o movimento relativizador
fundamental.” (método comparativo)
Assim sendo, podemos desde já afirmar que, à luz das palavras do autor, a Antropologia, que
epistemologicamente deriva do grego anthropos (homem/pessoa) e (logos (razão/pensamento)
é uma ciência social, que tem como objeto de estudo o homem e a humanidade de uma forma
global, e pode, numa primeira análise, ser dividida entre Antropologia biológica, já que um dos
seus ramos estuda a origem evolutiva, a estrutura física e os processos fisiológicos da
humanidade, e Antropologia cultural, porque também, e muito principalmente, estuda o ser
humano como animal que produz cultura.
E. Hoebel e Everett L Frost, reconhecendo-lhe o ramo natural que designam por Antropologia
física, debruçam-se principalmente sobre o ramo cultural, afirmado que a Antropologia como
ciência nasceu e se fundamentou na busca geral de um conhecimento mais profundo da
natureza humana e do seu comportamento e rotulando, neste contexto, a Antropologia como
uma “ciência superior social e comportamental” por ser “a ciência da Humanidade e da cultura”.
Sobre isto, DaMatta acrescenta ainda, e numa dicotomia entre o biológico e o social, “onde o
biológico tem seu lugar em transformações internas de estrutura orgânica, sofrendo por causa
de isso mesmo uma lenta transformação, em escalas de tempo verdadeiramente cósmicas” que
o Homem, que vê essa natureza como “a realidade externa, objetiva, independente de um
sujeito que sobre ela se debruça e a questiona”, é um elemento ativo e reativo na natureza. Esta
é uma forma de comprovar que o natural se encontra sempre em oposição ao social ou cultural,
e como “na nossa ideologia e sistemas de valores o Homem está em oposição a natureza numa
atitude que não é nada contemplativa, mas ativa”.
Robert DaMatta estabelece então três esferas de interesse no estudo da Antropologia, que são,
a saber, o estudo do Homem enquanto ser biológico, o estudo do Homem no tempo, e o estudo

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do Homem enquanto produtor e transformador da natureza e a sua visão enquanto membro de
uma sociedade e de um dado sistema de valores, ou seja, enquanto entidade cultural.
Qualquer uma destas esferas estuda o comportamento humano em diferentes perspetivas, e
porque se trata de processos de natureza complexa, com vista a atingir esse objetivo, numa
reciprocidade clara de interação, por um lado oferece os seus métodos e conceitos às demais
ciências sociais auxiliando o estudo das ciências políticas, da medicina, da psicologia e da
sociologia, por exemplo, e por outro vai beber da fonte do conhecimento dessas mesmas
ciências para fundamentar o seu próprio estudo.
A antropologia, tal como refere Hoebel, tem por finalidade “explorar a natureza do homem,
como criatura que está em evolução, criatura presa a uma cultura vivendo em sociedades
organizadas – cada individuo diferente do outro, mas semelhante sobre muitos aspetos”. Tendo
em conta que para atingir esse objetivo “se ocupa tanto do homem fóssil como das pessoas
vivas”, busca o seu estudo e realiza o seu trabalho de campo tanto nas origens do objeto
estudado, no seu passado, como na sua vivencia quotidiana, no presente. Neste sentido, o seu
objeto de estudo pode encontrar-se tanto numa tribo na Amazónia ou na Antártida, como num
cemitério, numas escavações arqueológicas, na contemporaneidade de uma cidade europeia ou
africana, ou na sala de aulas de uma escola americana ou asiática.
Seja qual for o método de estudo, ou o estudo de campo efetuado, o objetivo é sempre o de
“fornecer factos que expliquem o comportamento social humano que se tornou o principal
interesse da Antropologia nos dias de hoje.”
Podemos então dizer que a Antropologia serve para ensinar que toda a cultura tem a sua logica
própria não pode ser julgada a partir da lógica de outra, ou seja, não há hierarquias entre as
diferentes culturas nem melhores ou piores, há apenas culturas diferentes.
Mas o que é cultura? Segundo Hoebel e Frost, cultura é “um sistema integrado de padrões de
comportamento aprendidos que são caraterísticas dos membros de uma sociedade que não são
o resultado de herança biológica”. Deste conceito “se excluem os reflexos inatos e quaisquer
outras formas de comportamento biologicamente predeterminadas”. A cultura será, portanto,
um comportamento adquirido.
A ideia de que um grupo de crianças que fosse privado de todo o contato com adultos seria
incapaz de qualquer tipo de cultura, nomeadamente da linguagem, da criação de utensílios, de
artes de religião e de todas as caraterísticas da vida que distinguem a humanidade dos outros
animais, e que desenvolveria poucos traços que caraterizamos como humanos, vem enfatizar
que a cultura é fruto de um comportamento adquirido e não de um comportamento instintivo.
Assim sendo só o homem tem capacidade de gerar cultura, pela sua capacidade de
comportamento aprendido, em dicotomia com os restantes animais, que mesmo vivendo em
grupos ou sociedades mais ou menos organizadas, se regem por comportamentos meramente
instintivos. Há que salientar uma exceção para os primatas e os macacos, que conseguem uma
cultura incipiente, “mas que carecem da capacidade de expressar essa experiencia
simbolicamente”.
Sobre isto DaMatta refere: “entre as formigas (e outros animais sociais) existe sociedade, mas
não existe cultura. Ou seja, existe uma totalidade ordenada de indivíduos que atuam como
coletividade (…) mas não existe cultura porque não há uma tradição viva, conscientemente
elaborada que passe de geração em geração.” E “sem uma tradição uma coletividade pode viver
ordenadamente, mas não tem consciência do seu estilo de vida. E ter consciência é poder ser
socializado”.

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Há que realçar aqui o papel da linguagem nesta dinâmica, que sendo um método exclusivamente
humano de comunicar ideias e emoções, é um produto essencial para o fomento da cultura.
A cultura é assim um elemento da nossa vivência em sociedade regendo atitudes e
comportamentos de uma forma mais ou menos consciente, e que de certa forma demarca os
nossos limites comportamentais na mesma. No entanto, cada cultura representa uma seleção
limitada de padrões e de comportamentos do total das potencialidades humanas e coletivas.
Distribuindo todos os comportamentos num arco, como nos referem os autores, torna-se
notório que o mesmo seria demasiado grande e com demasiadas contradições para que
qualquer cultura se utilize pelo menos de considerável parte deles.
DaMatta fala de tradição. E diz que “ter tradição significa mais do que viver ordenadamente
certas regras plenamente estabelecidas. Significa, isso sim, vivenciar as regras de modo
consciente (e responsável)”
Teremos então que selecionar, e nesse sentido travamos conhecimento com os chamados
postulados culturais, que, segundo os autores, “são pontos de referência que matizam a visão
que aquele povo tem das coisas, dando-lhes orientação a respeito do mundo e das relações.”
Neste sentido, as sociedades regem-se por dois tipos de postulados; os postulados essenciais,
que selecionam os costumes que vão constituir a cultura propriamente dita, e os postulados
normativos (ou valores) que nos dão referencias sobre o certo e o errado, a bondade e a
maldade das coisas e dos atos.

Esta ideia abre-nos as portas a dois novos conceitos: O conceito de configuração da cultura,
que é, segundo Hoebel, “a forma distinta e caraterística de uma cultura, a qual deriva do
relacionamento especial de duas partes uma com a outra”, ou como diria DaMatta, a capacidade
de “depois de uma diferenciação ao nível universal(e portanto da espécie) o Homem realizar as
suas variadas diferenciações internas, inventando formas sociais diferentes”, e o conceito de
relatividade cultural, que “ afirma que os padrões do certo e do errado (valores) e dos usos e
atividades (costumes) são relativos à cultura da qual fazem parte.”

Ora sendo a sociedade e uma cultura algo dinâmico, o conceito de funcionalismo da cultura,
indo para além da discrição dos seus hábitos e costumes, realça essa mesma dinâmica. Tendo
em conta, como vimos anteriormente, que um individuo não pode adquirir ou manifestar
pessoalmente todos os elementos da sua cultura e da sua sociedade, irá apoiar-se, consciente
ou inconscientemente, em partes, elementos da mesma. Assim, numa cultura, encontramos os
elementos universais, que são os elementos comuns, e que qualquer sociedade partilha, que
unem e integram a cultura e a sociedade em que estão inseridos, e as especialidades dos
diferentes grupos e das classes socioeconómicas, que são elementos internos de diferenciação,
que tomados em conjunto, são chamados de subculturas.
Há que falar ainda da relação da sociedade e da raça com a cultura.
Por um lado, Hoebel e Frost sintetizam os conceitos de sociedade e de cultura, definindo a
primeira como sendo constituída por pessoas e a segunda pelo comportamento das mesmas.
Designando sociedade como “uma população ou um grupo de indivíduos unidos por algum
princípio comum, ou princípios”, e cultura “como um conjunto de meios de satisfazer as
necessidades de sobrevivência dos indivíduos.”
Podemos voltar a centrar-nos no exemplo das formigas, dado anteriormente por DaMatta para
tentar explicar melhor: O Historiador refere que, embora a ação das formigas modifique o
ambiente, elas o fazem sempre da mesma forma, e o ambiente é modificado sempre do mesmo
modo, o que nos remete à realidade de que entre as formigas, e outros animais sociais, existe

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sociedade, mas não existe cultura. Ou seja, existe divisão de trabalho, de sexos e idades, existe
ordem coletiva, mas não existe o que DaMatta chama de “tradição viva, conscientemente
elaborada, que passe de geração em geração que permita individualizar ou tornar singular e
única uma dada comunidade relativamente as outras. (constituídas de pessoas da mesma
espécie)”.
Assim, podemos concluir que ter tradição, ou cultura, significa mais do que viver
ordenadamente em sociedade, sob certas regras previamente estabelecidas. Há que vivenciar
essas mesmas regras de modo consciente e responsável, devendo existir uma interação
complexa e reciproca entre regras e o grupo que as realiza na sua prática social. Só existem
sociedades sem cultura no caso dos animais sociais, poi em relação aos homens, a cada
sociedade corresponde uma tradição cultural que se assenta no tempo e se projeta no espaço.
Daí o postulado, segundo DaMatta:” dado o facto de a cultura poder ser retificada no tempo e
no espaço (através de uma projeção e materialização em objetos), ela pode sobreviver a
sociedade que a atualiza num conjunto de práticas concretas e visíveis. Assim, pode haver
cultura sem sociedade, embora não possa haver uma sociedade sem cultura.”
No que diz respeito à relação da raça com a cultura, podemos seguramente concluir, e à luz dos
textos, que não existe relação direta da cultura com a raça, e jamais poderemos falar de raças
mais ou menos capacitadas culturalmente. Segundo E Hoebel e Frost, o que existem são
ambientes e sociedades diferentes para as raças que se refletem em diferentes
comportamentos.
Tal como referem os autores, “sendo a cultura um comportamento aprendido, não instintivo,
determinado não geneticamente, e embora se saiba que os agrupamentos de pessoas
fisicamente semelhantes podem compartilhar padrões semelhantes de comportamento, pode
afirmar-se que esta participação de cultura, em virtude da aprendizagem da cultura comum, da
adaptação comum a ambientes semelhantes e da intercomunicação, não é devida a uma base
genética comum”.

Tendo por base os textos sobre os quais acabamos de refletir, e à luz da temática da
Antropologia no quadro das ciências, podemos concluir que, sendo a Antropologia uma
ciência social, é dotada de toda a complexidade inerente às mesmas, não tendo, nesse
sentido uma definição direta e linear.
Compreendemos, no entanto, após a leitura das mesmas, que a Antropologia não pode
ser estudada somente à luz de um dos seus ramos, e que nem o natural nem o social,
nem biologia nem a cultura, por si só, poderão dar da mesma um retrato fidedigno. Do
mesmo modo não pode existir isoladamente, necessitando da interação das restantes
ciências sociais para se fundamentar e apoiar.
Na complexidade da teia das relações Antropológicas, todas as partes são uma peça do
puzzle, um tijolo na obra de dissecar o Homem e o seu comportamento enquanto ser
social, tanto na sua vertente física como na sua vertente cultural, hoje, embora com
diferentes vertentes e dinâmicas, como há cerca de cinco milhões da anos atrás, quando
o homem deu o primeiro passo para descer das árvores.

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BIBLIOGRAFIA

• HOEBEL, E. Adamson e FROST, Everett (1976). Antropologia Cultural e Social, São


Paulo: Cultrix.

• MATTA, Roberto da (1981). Relativizando: uma introdução à Antropologia Social,


Petrópolis: Vozes.

• https://pt.wikipedia.org/wiki/Roberto_DaMatta

• https://www.infopedia.pt/$e.-adamson-hoebel