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quinta-feira, 15 de maio de 2014
RECURSIVIDADE - LINGUISTICA - PIRAHÃ - DAN EVERETT

RECURSIVIDADE - LINGUISTICA - PIRAHÃ - DAN EVERETT


Recursividade é um termo usado de maneira mais geral para descrever o processo de
repetição de um objeto de um jeito similar ao que já fora mostrado. Um bom exemplo
disso são as imagens repetidas que aparecem quando dois espelhos são apontados um
para o outro.

Definição formal
Na matemática e na ciência da computação, a recursão especifica (ou constrói) uma
classe de objetos ou métodos (ou um objeto de uma certa classe) definindo alguns
poucos casos base ou métodos muito simples (freqüentemente apenas um), e então
definindo regras para formular casos complexos em termos de casos mais simples.

Por exemplo, segue uma definição recursiva da ancestralidade de uma pessoa:

Os pais de uma pessoa são seus antepassados (caso base);


Os pais de qualquer antepassado são também antepassados da pessoa em
consideração (passo recursivo).

É conveniente pensar que uma definição recursiva define objetos em termos de objetos
“previamente definidos” dessa mesma classe que está sendo definida.

Definições como esta são frequentemente encontradas na matemática, por exemplo, a


definição formal dos números naturais diz que 0 (zero) é um número natural, e todo
número natural tem um sucessor, que é também um número natural.

Recursão na linguagem
O uso mais antigo de recursão na lingüística, e o uso da recursão em geral, remete ao
lingüista Pāṇini em meados de 500 AC, o qual fez uso da recursão nas regras
gramaticais do Sânscrito (língua clássica da Índia antiga que influenciou praticamente
todos os idiomas ocidentais).

O lingüista Noam Chomsky lançou a teoria de que a extensão ilimitada de uma língua
natural é possível apenas pelo mecanismo recursivo de encaixar frases em frases.
Assim, uma garotinha tagarela pode muito bem dizer, "Dorothy, que encontrou a Bruxa
Má do Oeste na Terra dos Munchkins, onde a bruxa má da sua irmã foi morta, liquidou-
a com um balde de água.” Claramente, duas frases simples — "Dorothy encontrou a
Bruxa Má do Oeste na Terra dos Munchkins" e "Sua irmã foi morta na Terra dos
Munchkins" — podem ser encaixadas em uma terceira frase, "Dorothy liquidou-a com
um balde de água", para obter uma frase exacerbadamente prolixa.
Aqui está uma outra maneira, possivelmente mais simples, de se entender processos
recursivos:

Nós já terminamos? Se sim, retorne os resultados. Sem uma condição de parada como
esta, uma recursão iria se repetir eternamente.
Se não, simplifique o problema, resolva o(s) problema(s) mais simples, e então
encaixe os resultados na solução do problema original. Então retorne a solução.

Aqui vai uma ilustração mais humorística: "Para entender a recursão, a pessoa deve
primeiro entender a recursão." Ou talvez seja mais adequado o exemplo seguinte criado
por Andrew Plotkin: "Se você já sabe o que é a recursão, apenas se lembre da resposta.
Caso contrário, encontre alguém que esteja mais próximo de Douglas Hofstadter do que
você; então pergunte a ele ou a ela o que é a recursão."

Exemplos de objetos matemáticos freqüentemente definidos recursivamente são


funções, conjuntos, e especialmente fractais.

A recursão em português claro


A recursão é o processo pelo qual passa um certo procedimento quando um dos passos
do procedimento em questão envolve a repetição completa deste mesmo procedimento.
Um procedimento que se utiliza da recursão é dito recursivo. Também é dito recursivo
qualquer objeto que seja resultado de um procedimento recursivo.

Para entendermos a recursão, devemos primeiro compreender a diferença entre um


procedimento e a execução de um procedimento. Um procedimento é um conjunto de
passos que devem ser tomados baseados em um conjunto de regras. A execução de um
procedimento envolve seguir de fato as regras e executar os passos. Uma analogia para
isso é que um procedimento é como uma ementa (cardápio) que nos fornece as opções
possíveis, enquanto a execução de um procedimento é escolhermos de fato qual refeição
nos será servida.

Um procedimento é dito recursivo quando um de seus passos consiste na chamada de


uma nova execução do procedimento. Conseqüentemente, uma refeição recursiva com
quatro pratos seria uma refeição em que a entrada, a salada, o prato principal ou a
sobremesa por si próprios já consistissem em refeições. Então uma refeição recursiva
poderia ser feita por purês de batata, salada verde, frango grelhado, e para sobremesa,
uma refeição de quatro pratos com bolinhos de bacalhau, salada de legumes, como prato
principal uma refeição de quatro pratos, e para sobremesa um pedaço de bolo de
chocolate, e assim sucessivamente até que a refeição esteja completa.

Um procedimento recursivo deve completar cada um de seus passos. Mesmo se uma


nova chamada é feita, cada execução deve passar por cada um dos passos restantes. O
que isso quer dizer é que, mesmo a salada sendo ela própria uma refeição inteira de
quatro pratos, você ainda deverá comer o prato principal e a sobremesa.
http://pt.wikipedia.org/wiki/Recursividade

Significado de Recursividade
sf (recursivo+i+dade) Ling Propriedade sintática pela qual um elemento pode aparecer
um número infinito de vezes numa derivação, introduzido sempre pela mesma regra.
Ex: O filho da irmã da mãe de José.

Exemplo com a palavra recursividade


Me refiro à ausência de números, a ausência da contagem e das cores, a ausência de
mitos de criação e a recusa em falar do passado distante ou do futuro distante. Várias
coisas como essa, incluindo a característica especial da recursividade, a possibilidade de
manter um processo em andamento na sintaxe para sempre. Folha de São Paulo,
03/04/2012
http://www.dicio.com.br/recursividade/

Significados de Recursivo :
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se você NÃO CONCORDA com essa definição!
1. Recursivo
Por Dicionário inFormal (SP) em 04-01-2013

A recursão é o processo pelo qual passa um certo procedimento quando um dos passos
do procedimento em questão envolve a repetição completa deste mesmo procedimento.

"Para entender a recursão, a pessoa deve primeiro entender a recursão."


2. Recursivo
Por Dicionário inFormal (SP) em 05-05-2010

Vem do grego rec-ursa, que significa uma pessoa que pegou várias recuperações
repetidamente.

Ele foi um aluno recursivo esse ano.

http://www.dicionarioinformal.com.br/recursivo/

recursividade | s. f.

re·cur·si·vi·da·de
(recursivo + -idade)
substantivo feminino

1. Qualidade do que é recursivo.

2. [Informática] Propriedade de função, programa ou afim que se pode invocar a si


próprio.

3. [Linguística] Possibilidade de aplicar uma regra repetidamente na construção de


enunciados.

"recursividade", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013,


http://www.priberam.pt/dlpo/recursividade [consultado em 15-05-2014].
http://www.priberam.pt/dlpo/recursividade
Recursividade na língua e habilidades cognitivas superiores
Desde o seu surgimento, nos anos 50, a Teoria Gerativa tem enfatizado o caráter
recursivo da sintaxe como uma das características cruciais das línguas humanas. São
freqüentes também na literatura as analogias, baseadas nessa propriedade em particular,
entre o sistema numérico e a língua (cf. Chomsky, 1998;
2007, dentre outros). Entretanto, apesar do seu uso bastante difundido na literatura, o
conceito de recursividade, aplicado tanto ao domínio da língua quanto a outros campos,
não tem recebido uma definição clara e unívoca. Percebe-se que, até pouco tempo atrás,
não havia na literatura uma preocupação manifesta por esclarecer os pontos obscuros
associados à noção. Essa situação tem começado a mudar recentemente com a
publicação de alguns trabalhos que visam a discutir os alcances e
limites do conceito, tanto no seio da Teoria Lingüística quanto no que diz respeito a sua
aplicação nas Ciências Cognitivas de um modo geral (Arsenijevic & Hinzen, 2010;
Lobina & García-Albea, 2009; Tomalin, 2007).
Parker (2006a; 2006b) destaca que as definições apresentadas na Teoria Lingüística são
freqüentemente “opacas”. Esse parece não ser, contudo, um problema exclusivo da
lingüística uma vez que, segundo a autora, na Ciência da Computação, da qual a
lingüística herdou a noção, as definições careceriam de um fio condutor comum.
Também na Matemática, campo no qual o termo foi originalmente cunhado, registra-se
uma situação similar (cf. Soare, 1996).
Pode-se afirmar assim que recursividade é um termo potencialmente problemático
(Parker, 2006a e 2006b; Lobina & García-Albea, 2009; dentre outros).
Nesse sentido, este capítulo tem como objetivos: explorar essa noção – tradicionalmente
considerada como uma propriedade central nas línguas naturais – e discutir, em que
medida e sob quais aspectos, a recursividade poderia desempenhar um papel no modo
como a língua interage com outros domínios cognitivos. Cabe, pois, formular as
seguintes questões: A que se refere exatamente o termo recursividade
no âmbito da lingüística? Em que sentido pode-se falar de recursividade em outros
domínios cognitivos fora da linguagem? Pode-se oferecer uma definição geral de
recursividade, com aplicabilidade inter-domínios?
As seguintes seções visam a iluminar as questões problemáticas acima colocadas. Em
primeiro lugar, são discutidos os alcances e limites do termo recursividade tanto na
Teoria Lingüística quanto em outros campos do conhecimento, quais sejam, a
Matemática e a Ciência da Computação. Essa discussão é conduzida a partir de três
pontos centrais: (a) as interpretações associadas ao termo recursividade na Matemática e
na Ciência da Computação – disciplinas das quais provém o conceito incorporado pela
lingüística; (b) a maneira como a noção de recursividade foi incorporada na Teoria
Lingüística a partir dos anos 50 e (c) o impacto das duas questões anteriores na
interpretação de recursividade no contexto do PM.
Ver: 4 Recursividade na língua e habilidades ... - PUC Rio
www2.dbd.puc-rio.br/pergamum/tesesabertas/0710538_11_cap_04.pdf
limites do conceito, tanto no seio da Teoria Lingüística quanto no que diz respeito a ...
recursividade tanto na Teoria Lingüística quanto em outros campos do ...

Primeiras palavras
Pesquisas lingüísticas recentemente publicadas e realizadas pelo antropólogo Daniel
Everett com a língua Pirahã do Sul do Amazonas parecem ter colocado fim no longo
período de estabilidade do paradigma chomskyano, que prevê a existência de uma
gramática universal comum a todas as línguas da humanidade. Se os argumentos de
Everett, os seus “feitos heróicos” se confirmarem, os postulados de Chomsky estariam
entrando em um período de crise para em seguida sofrerem uma profunda mudança.
Antes de entrarmos na polêmica Everett versus Chomsky, façamos um breve passeio
pela história da lingüística para entendermos um pouco sobre as principais “convulsões
metodológicas” pelas quais essa ciência passou.

A primeira grande convulsão


O principal debate suscitado nessa ciência foi protagonizado pelo lingüista norte-
americano Noam Chomsky nos anos cinqüenta do século passado. Em seu livro,
“Syntactic Structures”, Chomsky, apoiado no racionalismo clássico (cartesianismo) e na
tradição lógica, em seu programa de pesquisa critica veementemente os seguidores de
Leonard Bloomfield por seu modo estruturalista de analisar a linguagem. Para alguns
filósofos da lingüística Chomsky teria promovido com seu programa de pesquisa uma
verdadeira revolução científica, instaurando um novo paradigma científico.

Os estruturalistas, tributários de Ferdinand de Saussure, considerado o pai da lingüística


moderna, mais especificamente, os distribucionalistas norte-americanos, partindo da
psicologia behaviorista, acreditavam que o estudo de uma língua deveria ser feito a
partir da uma reunião de um conjunto, de um corpus tão variado quanto possível de
frases efetivamente produzidas por falantes dessa língua, em determinada época, com o
objetivo de descrever as regularidades existentes nessas falas. Para os estruturalistas as
línguas se organizam em todos os seus aspectos estruturais (fonéticos, morfológicos e
sintáticos) de uma maneira regular e reiterável.

O trabalho do lingüista distribucionalista é descrever o funcionamento dessa


organização. Por exemplo, numa frase do português como “Os meninos são levados”, o
estruturalista começaria analisando essa estrutura decompondo todos os seus
constituintes imediatos, dividindo-os em unidades simples e associando cada uma
dessas unidades, com base em diferentes critérios categoriais, a diferentes classes.
Assim, identificaria o artigo “Os”; o nome “meninos”; o verbo “são” e o adjetivo
“levados”. Depois, verificaria como cada um desses constituintes imediatos se relaciona
com outros formando pequenos segmentos. Desse modo, relacionaria o artigo “Os” com
o nome “meninos” para formar o conjunto “Os meninos” e o verbo “são” com o
adjetivo “levados” para formar “são levados”. Por último, o estruturalista definiria quais
os papéis específicos que cada um desses segmentos desempenha na frase. Dessa
maneira, o conjunto “Os meninos” exerce a função de sujeito e o conjunto “são
levados” de predicado. Todo esse trabalho de decomposição dos segmentos em
constituintes menores a partir de um determinado corpus de língua é fundamental para
se observar, por exemplo, que uma das regularidades lingüísticas estruturais do
português é que o artigo vem sempre anteposto ao substantivo.

O programa de pesquisa de Noam Chomsky, no entanto, rebaterá duramente a postura


analítica dos estruturalistas. O lingüista norte-americano afirma que o homem já nasce
com a linguagem. Ela faz parte da natureza humana. Desse modo, para ele uma língua
não se restringe a um corpus, pois enquanto este se constitui num conjunto finito de
frases a língua torna possível um conjunto infinito: a uma frase pode juntar-se outra,
outra ainda e assim sucessivamente. Ademais, segundo Chomsky uma língua não se
restringe a um conjunto de frases, mas se constitui num saber a propósito dessas frases.
Ou seja, os falantes possuem um saber inato sobre sua própria língua que os habilita a
distinguir uma frase gramatical de uma frase agramatical. Por exemplo, um falante do
português é capaz de reconhecer a frase “Os meninos são levados” como gramatical e
“Levados os são meninos” como agramatical.

Chomsky argumenta que a gramática de uma língua se constitui num conjunto de


regras, de instruções, cuja aplicação mecânica produz frases admissíveis dessa língua.
Surge a Gramática Gerativa, gerativa porque possibilita, a partir de um conjunto
limitado de regras, gerar um número infinito de frases. A língua no entendimento de
Noam Chomsky não se define somente pelas frases existentes, mas também por aquelas
possíveis de ser criadas a partir das regras. Essas regras são interiorizadas pelos falantes
que os torna aptos a produzir frases mesmo sem que estes tenham sequer ouvido essas
frases. Chomsky define como recursividade essa capacidade a partir da qual somos
capazes de produzir uma variedade ilimitada de sentenças de comprimento
indeterminado apenas combinando as poucas regras da língua.

Como o que está em causa para Chomsky é um falante ideal e não um falante real, sua
teoria conduz à existência de uma gramática universal em que alguns traços são comuns
a todas as línguas da humanidade. Por exemplo, toda língua possui recursividade; toda
língua distingue nomes e verbos; toda língua distingue três pessoas do discurso; toda
língua tem pelo menos três vogais. O que implica dizer que para Chomsky a linguagem
independe do meio cultural em que os falantes vivem.
A segunda grande convulsão

Foi necessário esperar quase cinqüenta anos para que tivéssemos mais uma grande
polêmica na lingüística. Desta vez é o próprio programa de pesquisa de Noam Chomsky
que é posto à prova. O antropólogo Daniel Everett após estudar por cerca de 30 anos os
Pirahãs, grupo indígena, localizado no Sul do Amazonas, constituído por cerca de 350
indivíduos questionou a afirmação chomskyana de uma gramática universal dizendo que
os índios Pirahãs têm o seu pensamento determinado pela cultura e não por aspectos
cognitivos com afirma Chomsky com a gramática universal.

O estudo de Everett foi publicado em 2005 no periódico “Current Anthropology”. Nesse


estudo, o lingüista norte-americano afirma que os Pirahãs usam apenas oito consoantes
e três vogais, não têm tempos verbais, contam até três, não têm palavras para cores e
não possuem mitos para a sua criação. Everett afirma ainda em seu estudo que a língua
dos Pirahãs não possui recursividade, ou seja, a capacidade de formar sentenças
encaixando uma frase em outra. Por exemplo, para dizer que “O arco é do irmão de
Pedro” um Pirahã diria: “O arco de Pedro”; “O irmão de Pedro”. A inexistência da
recursividade na língua Pirahã se constitui num forte argumento contrário à tese
chomskyana da gramática universal.

Torçamos para que mais “abalos sísmicos” ocorram não só na lingüística, mas nas
ciências da linguagem de uma maneira geral. Somente assim elas terão a sua maturidade
científica garantida. Até o próximo encontro.

Produção: Roberto Leiser Baronas - Doutor em Lingüística e Língua Portuguesa,


Professor Adjunto do Departamento de Letras - DL e do Programa de Pós-Graduação
em Lingüística da UFSCar - PPGL, Pesquisador do LABOR- Laboratório de Estudos
do Discurso Político e do Grupo de Estudos de Análise do Discurso de Araraquara –
GEADA.
http://www.clickciencia.ufscar.br/framed_text.php?id=337

Recursividade em Pirahã

Os Pirahã (família Mura) vivem hoje ao longo do rio Maci, entre os municípios de
Humaitá e Manicoré no estado do Amazonas. Esse era um povo basicamente
desconhecido até 2005, quando o pesquisador americano Daniel Everett publicou um
artigo na revista Current Anthropology (University of Chicago Press) defendendo a
existência das seguintes lacunas na língua e cultura Pirahã:

(1) Lacunas sintáticas e lexicais

a. Ausência de encaixamentos sintáticos (recursividade);

b. Ausência de termos para números e de conceito de numerosidade;

c. Ausência de quantificadores;

d. Ausência de tempo relativo;

e. Ausência de termos para cores;

f. Sistema pronominal extremamente simplificado.

(2) Lacunas culturais

a. Ausência de mitos de criação e ficção;

b. Ausência de memória individual ou coletiva sobre eventos que aconteceram

no passado;

c. Incapacidade de adquirir uma segunda língua;

d. Ausência de arte;

e. Sistema de parentesco extremamente simplificado;

f. Material cultural quase inexistente.

Everett argumenta que essas lacunas estão correlacionadas, sendo todas consequências
do principio da experiência imediata:

(3) Principio da experiência imediata

A comunicação é restrita à experiência imediata dos interlocutores.


Esta publicação provocou forte reação de linguistas teóricos do mundo inteiro, os quais
argumentaram que o princípio em (3) não explica: (a) as lacunas de linguagem em (1);
(b) como essas lacunas se correlacionam às lacunas culturais em (2). Em 2009, os
pesquisadores Andrew Nevins, David Pesetsky e Cilene Rodrigues publicaram na
revista Language uma resposta ao artigo de Everett, colocando em dúvida a existências
das lacunas em (1) e (2). Este trabalho foi realizado tomando como fonte de dados os
trabalhos anteriores de Everett sobre a língua Pirahã e o trabalho do antropólogo Marco
Antonio Gonçalves sobre a cosmologia Pirahã. Aqueles autores concluíram que as
lacunas em (1) e (2) não são reais, mas resultado de falhas na interpretação dos dados.
Observaram ainda que a língua Pirahã compartilha propriedades com várias outras
línguas do mundo como, por exemplo, o Alemão. Assim como em Pirahã, o Alemão,
em construções envolvendo caso genitivo, não aceita múltiplos encaixamentos de
sintagmas nominais possessivos. Everett (2009) contra-argumenta, desqualificando as
fontes de informação usadas por Nevins, Pesetsky & Rodrigues. Segundo Everett, seus
escritos anteriores à publicação de (2005) contêm dados incorretos, não podendo,
portanto, servir como fonte de dados sobre a língua Pirahã.

A controvérsia entre Daniel Everett e linguistas teóricos sobre a língua amazônica


Pirahã ganhou ainda mais fôlego com a publicação em (2008) do livro Don’t sleep,
there are snakes: life and language in the Amazonian Jungle, de autoria de Daniel
Everett, e com o lançamento do filme The grammar of happiness, ganhador de prêmio
da FIPA em 2012 na França. Isso incendiou a mídia e o povo Pirahã virou assunto em
várias páginas da Internet e em jornais importantes do mundo, como New York Times e
Folha de São Paulo. Apesar de tanta atenção, no entanto, a questão acadêmica e
científica sobre a língua e cultura dos Pirahã ainda é obscura.

Recentemente (Julho/2012), Cilene Rodrigues & Filomena Sandalo realizaram pesquisa


de campo com dois membros da comunidade Pirahã (Augusto Diarroi e Iapohen Pirahã)
com ênfase na questão da recursividade em sintagmas preposicionais, sintagmas
nominais e sentenças. O trabalho a ser apresentado é o resultado desta experiência.

tardesdelinguistica@gmail.com
https://groups.google.com/group/tardesdelinguistica?hl=pt

Tribo do AM causa guerra na lingüística

Americano diz que a língua dos pirahãs, que só contam até três, desafia a teoria mais
aceita sobre a linguagem humana

Segundo Daniel Everett, idioma é exceção à chamada Gramática Universal; trio que
analisou trabalho, no entanto, critica a hipótese.

O lingüista Dan Everett, que viveu sete anos com os pirahãs

CLAUDIO ANGELO
EDITOR DE CIÊNCIA

Uma tribo de caçadores-coletores do sul do Amazonas está colocando lingüistas e


antropólogos em pé de guerra. Segundo um pesquisador, a língua dos pirahãs, um grupo
de 350 pessoas que habitam o rio Maici, perto da divisa com Rondônia, é tão
excepcional que põe em xeque a principal teoria vigente sobre a linguagem humana. A
tese, no entanto, é contestada por outros lingüistas.
Os pirahãs ficaram famosos entre os acadêmicos devido ao trabalho do americano
Daniel Everett, 55, um ex-missionário cristão que hoje é professor da Universidade
Estadual de Illinois. Ele começou a estudar a língua da tribo nos anos 1970, com o
objetivo (que nunca foi cumprido) de catequizá-los.
Enquanto aprendia a língua, vivendo numa aldeia pirahã com a mulher e os filhos,
Everett descobriu uma série de peculiaridades no idioma. Os pirahãs não têm palavras
para cores. Usam apenas oito consoantes e três vogais. Não possuem mitos de criação,
não têm tempos verbais, não fazem arte só sabem contar até três.
Em 2005, Everett publicou no periódico "Current Anthropology" um artigo no qual
afirmava também que a língua pirahã não tem recursividade, ou seja, a capacidade de
formar sentenças encaixando uma frase na outra. Assim, um pirahã seria capaz de dizer
"a canoa de João", "o irmão de João", mas nunca "a canoa do irmão de João". Como
vivem numa sociedade extremamente simples, onde o que conta é a experiência
imediata (o aqui e agora), os pirahãs, argumenta Everett, têm sua língua (e, portanto, seu
pensamento) limitados pela cultura -um caso único.
O trabalho caiu como uma bomba no meio lingüístico. Se Everett estivesse certo, o
idioma pirahã seria um sério desafio à teoria da Gramática Universal. Desenvolvida
pelo influente lingüista americano Noam Chomsky, a teoria afirma que todos os seres
humanos possuem uma faculdade inata da linguagem, uma espécie de "órgão da
linguagem" no cérebro. Essa capacidade independeria do meio cultural, tendo sido
impressa nos circuitos cerebrais do Homo sapiens pela evolução. E a principal marca
dessa faculdade é justamente a recursividade.
Uma exceção a essa regra significaria ou que os pirahãs não são humanos ou que o
arcabouço intelectual chomskiano -sob o qual se formaram gerações de lingüistas- está
falido. Everett, é claro, aposta na segunda hipótese.

Bombando
A tese de Everett sobre como a chamada "experiência imediata" limita a competência
lingüística dos pirahãs saiu do domínio da academia na semana passada e se espalhou
como rastilho de pólvora na imprensa popular. Uma reportagem de 20 páginas intitulada
"O Intérprete - Será que uma tribo remota da Amazônia virou do avesso nossa
compreensão da linguagem?" foi publicada na prestigiosa revista americana "The New
Yorker" e citada por jornais on-line, revistas e blogs nos EUA e no Brasil.
No entanto, no final do mês passado, antes de a "New Yorker" ir para a banca, um trio
de lingüistas dos EUA e do Brasil postou no site especializado Lingbuzz um artigo
contestando ponto a ponto o trabalho de Everett. Andrew Nevins, da Universidade
Harvard, David Pesetsky, colega de Chomsky no Instituto de Tecnologia de
Massachusetts, e Cilene Rodrigues, da Unicamp, afirmam -com base em trabalhos
anteriores do próprio Everett- que o pirahã não apresenta desafio à Gramática Universal.

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ciencia/fe1604200701.htm

JC e-mail 3244, de 16 de abril de 2007

22. Tribo do Amazônia causa guerra na lingüística


Americano diz que a língua dos pirahãs, que só contam até três, desafia a teoria mais
aceita sobre a linguagem humana. Segundo Daniel Everett, idioma é exceção à chamada
Gramática Universal; trio que analisou trabalho, no entanto, critica a hipótese

Claudio Ângelo, editor de Ciência, escreve para a “Folha de SP”:

Uma tribo de caçadores-coletores do sul do Amazonas está colocando lingüistas e


antropólogos em pé de guerra.

Segundo um pesquisador, a língua dos pirahãs, um grupo de 350


pessoas que habitam o rio Maici, perto da divisa com Rondônia, é tão
excepcional que põe em xeque a principal teoria vigente sobre a
linguagem humana.
A tese, no entanto, é contestada por outros lingüistas.

Os pirahãs ficaram famosos entre os acadêmicos devido ao trabalho do americano


Daniel Everett, 55, um ex-missionário cristão que hoje é professor da Universidade
Estadual de Illinois.

Ele começou a estudar a língua da tribo nos anos 1970, com o objetivo (que nunca foi
cumprido) de catequizá-los.

Enquanto aprendia a língua, vivendo numa aldeia pirahã com a mulher e os filhos,
Everett descobriu uma série de peculiaridades no idioma.

Os pirahãs não têm palavras para cores. Usam apenas oito consoantes e três vogais. Não
possuem mitos de criação, não têm tempos verbais, não fazem arte só sabem contar até
três.

Em 2005, Everett publicou no periódico "Current Anthropology" um artigo no qual


afirmava também que a língua pirahã não tem recursividade, ou seja, a capacidade de
formar sentenças encaixando uma frase na outra.

Assim, um pirahã seria capaz de dizer "a canoa de João", "o irmão de João", mas nunca
"a canoa do irmão de João".

Como vivem numa sociedade extremamente simples, onde o que conta é a experiência
imediata (o aqui e agora), os pirahãs, argumenta Everett, têm sua língua (e, portanto, seu
pensamento) limitados pela cultura -um caso único.

O trabalho caiu como uma bomba no meio lingüístico. Se Everett estivesse certo, o
idioma pirahã seria um sério desafio à teoria da Gramática Universal.

Desenvolvida pelo influente lingüista americano Noam Chomsky, a teoria afirma que
todos os seres humanos possuem uma faculdade inata da linguagem, uma espécie de
"órgão da linguagem" no cérebro.
Essa capacidade independeria do meio cultural, tendo sido impressa nos circuitos
cerebrais do Homo sapiens pela evolução. E a principal marca dessa faculdade é
justamente a recursividade.

Uma exceção a essa regra significaria ou que os pirahãs não são humanos ou que o
arcabouço intelectual chomskiano – sob o qual se formaram gerações de lingüistas –
está falido. Everett, é claro, aposta na segunda hipótese.

Bombando
A tese de Everett sobre como a chamada "experiência imediata" limita a competência
lingüística dos pirahãs saiu do domínio da academia na semana passada e se espalhou
como rastilho de pólvora na imprensa popular.

Uma reportagem de 20 páginas intitulada "O Intérprete - Será que uma tribo remota da
Amazônia virou do avesso nossa compreensão da linguagem?" foi publicada na
prestigiosa revista americana "The New Yorker" e citada por jornais on-line, revistas e
blogs nos EUA e no Brasil.

No entanto, no final do mês passado, antes de a "The New Yorker" ir para a banca, um
trio de lingüistas dos EUA e do Brasil postou no site especializado Lingbuzz um artigo
contestando ponto a ponto o trabalho de Everett.

Andrew Nevins, da Universidade Harvard, David Pesetsky, colega de Chomsky no


Instituto de Tecnologia de Massachusetts, e Cilene Rodrigues, da Unicamp, afirmam –
com base em trabalhos anteriores do próprio Everett – que o pirahã não apresenta
desafio à Gramática Universal.

Longe de ser "único", pirahã tem traços comuns com o alemão, dizem críticos

No trabalho "A Excepcionalidade do Pirahã: uma reavaliação", os lingüistas


compararam o pirahã com várias línguas e descobriram que o idioma, longe de ser um
"caso excepcional", tem semelhanças com o alemão, o bengali e o chinês.

A suposta matemática única dos pirahãs, afirmam, é compartilhada por outras tribos da
Amazônia, como os xetás (até mesmo o tupi tinha um sistema de contagem limitado),
que só contam até três.

E há, sim, evidências de recursividade.

Além disso, Everett tem despertado a fúria de antropólogos e lingüistas brasileiros, que
o acusam veladamente de "monopolizar" os pirahãs, restringindo o acesso de outros às
aldeias, e de pesquisar sem autorização da Funai (Fundação Nacional do Índio) – o que
a sede da Funai confirma.

"No cerne disso tudo há uma confusão sobre o que é a Gramática Universal", disse
David Pesetsky à “Folha de SP”.
“Acho que Everett confundiu a teoria de Chomsky, Hauser e Fitch", afirmou, referindo-
se à sua reformulação, que Chomsky publicou em 2003 junto com Marc Hauser, de
Harvard, e Tecumseh Fitch, da Universidade St. Andrews (Escócia).

"O fato de não se poder dizer em pirahã "A canoa do irmão de João", por exemplo,
existe em alemão. Everett diz que esse fato em pirahã se deve à cultura extremamente
limitada, mas os alemães não têm essa limitação cultural. Eles navegam na Internet.
Então, o fato em alemão não se deve à cultura."

Sem elaboração
Rodrigues afirma que Everett "não tem uma teoria e sim uma hipótese", que padece de
uma "falta de elaboração teórica".

"A experiência imediata, para nós, é uma forma que ele encontrou de colocar todas as
observações que ele acha interessantes no mesmo saco. Isso é cientificamente frágil",
disparou.

"E, se fosse assim, por que a limitação cultural só influencia a linguagem e não outras
partes do sistema cognitivo, como a visão?", questiona.

Everett publicou no mesmo Lingbuzz uma resposta a Rodrigues e


colegas, a quem chama de "lingüistas de gabinete".
Também os acusa de ter usado seus escritos de 20 anos atrás para refutar sua tese.

"Não há evidência em pirahã de recursividade", disse Everett à Folha,


por e-mail, num português perfeito.
"Além do mais, o Chomsky nem define bem o que ele quer dizer com isso - muito
menos o Fitch, que foi comigo para a aldeia.

Everett, que tem visto de residente permanente no Brasil, diz que sempre pesquisa com
autorização "do delegado da Funai de Porto Velho" e que sempre estimula, não impede,
que outros visitem a área.

"No entanto, os pirahãs quase não falam português e eu sou o único pesquisador secular
que já aprendeu a língua deles."

Tecumseh Fitch diz que a questão ainda está aberta. "[Mas] é um truísmo que a cultura
molda a linguagem. É por isso que o brasileiro tem a palavra "samba" e escocês tem a
palavra "haggis".

E daí? As implicações disso para a Gramática Universal são nulas."

Ele continua: "Everett, como muitos críticos de Chomsky, tem uma concepção própria
da Gramática Universal, contra a qual ele se bate".
Mas seus dados "são tão convincentes quanto a falta de evidência pode ser –ou seja, não
muito". (CA)

Leia os artigos de Nevins e colegas e a resposta de Everett (em inglês) no site:


ling.auf.net/lingbuzz/@FMOHZRLOElguQmMB/VKSrtjhf?230
(Folha de SP, 16/4)
http://www.jornaldaciencia.org.br/Detalhe.php?id=46149

A expressão da Recursividade em Pirahã: documentação, descrição e análise (Mura)


Beneficiário:
Glauber Romling da Silva
Instituição: Instituto de Estudos da Linguagem (IEL). Universidade Estadual de
Campinas (UNICAMP). Campinas, SP, Brasil
Pesquisador responsável:
Maria Filomena Spatti Sandalo
Área do conhecimento: Linguística, Letras e Artes - Linguística - Teoria e Análise
Lingüística
Linha de fomento: Bolsas no Brasil - Pós-Doutorado
Processo: 13/11693-7
Vigência: 01 de setembro de 2013 - 31 de agosto de 2015
Vinculado ao auxílio: 12/17869-7 - Fronteiras e assimetrias em fonologia e morfologia,
AP.TEM
Assunto(s): Línguas indígenas

Resumo
Este projeto tem dois objetivos interconectados: (i) documentar e descrever os
principais aspectos da fonologia e da morfossintaxe da língua Pirahã (Mura) e (ii)
investigar teoricamente a expressão da recursividade nessa língua. Recentemente, o
Pirahã suscitou acirrado debate internacional sobre os limites, ou mesmo a existência,
da recursividade (Everett, 2005; Nevins et alii 2009a, 2009b; Everett, 2009), como
"pedra angular" da capacidade humana de linguagem (Hauser, Chomsky & Fitch, 2002).
Descobertas recentes mostram que a presença/ausência de estruturas recursivas é uma
evidência fundamental para a parametrização durante o período de aquisição (Snyder,
2005; Roeper & Snyder, 2005, (a aparecer)). O Pirahã oferece evidências para uma
recursividade sintática limitada (Nevins et alii (2009a, 2009b), Rodrigues & Sandalo,
(2013)), pois seleciona um subconjunto das possibilidades gramaticais providas pela
UG (universal grammar). Nesse contexto, buscaremos (i) mapear quais são as categorias
lexicais e funcionais que são recursivas em Pirahã; (ii) que tipo de recursividade
expressam; (iii) em que nível a expressam; (iv) em que grau de restrição operam; e,
sobretudo, (v) que restrições locais operam. Paralelamente a esses objetivos mais
teóricos, construiremos acervo digital contendo sessões de áudio e vídeo resultantes da
gravação de eventos verbais anotadas (transcrição, tradução, glosagem e notas) e
acompanhadas de metadata. Para isso utilizaremos o programas de gestão de base de
dados FLEx (sil.org), o criador de metadata Arbil (Withers (2009)), o anotador ELAN
(Slotjes & Wittenburg (2008)) e o formatador de dicionários (sil.org). Os
desdobramentos esperados são uma gramática descritiva e um léxico em formato de
dicionário. Parte deste acervo será incorporada ao Corpus Tycho Brahe (Galves & Faria,
2011) (doravante, CTB) e, como modelo de arquitetura de acervo, isso poderá servir
como catalisador para a agregação e adaptação de outros materiais sobre línguas
indígenas e/ou pouco documentadas. A vantagem dessa incorporação é que o CTB
provê anotação sintática e é capaz de gerar hipóteses sobre seus padrões. Dessa forma,
aliamos o poder de uma ferramenta computacional de documentação à investigação
teórica de uma língua natural humana. (AU)
http://www.bv.fapesp.br/pt/bolsas/145341/a-expressao-da-recursividade-em-piraha-
documentacao-descricao-e-analise-mura/

Variabilidade das línguas e invariância: escolhas efetuadas pelas


teorias
1 José Borges Neto
UFPR/CNPq
1. Introdução.
A história dos estudos linguísticos mostra um panorama de alterações polares
entre perspectivas focadas na variabilidade das línguas e perspectivas focadas na busca
da invariância, com nítida preferência pelas perspectivas universalistas.
As teorias que buscam a invariância nas línguas, de certa forma, ignoram
metodologicamente as evidências de variabilidade, enquanto as teorias que adotam a
perspectiva, digamos, variacionista, ao contrário, dirigem seu olhar para as evidências
de variação e ignoram eventuais achados de invariância.
Embora o foco selecionado dirija o olhar do cientista para um dos polos – e o faça
desprezar evidências relativas ao outro polo – podemos dizer, sem medo de errar, que
nenhum linguista assume essa “escolha de lado” de forma tão radical que o leve a dizer
que só existe variação (sem qualquer invariância) ou que nada varia. A questão, no
fundo se restringe a escolhas relacionadas ao grau ou à centralidade explicativa da
variabilidade/invariabilidade.
Os debates sobre a variabilidade ou invariabilidade das coisas podem ser rastreados até
pelo menos a filosofia grega do séc. V a.C., nos bem conhecidos debates entre o mundo
dinâmico de Heráclito e o mundo eterno, único e imutável de Parmênides. As imagens
da chama e do cristal têm sido usadas desde então como representação da controvérsia:
para Heráclito o mundo é chama e para Parmênides, cristal.
Parmênides, no entanto, não negava a variação, negava apenas que ela constituísse uma
força explicativa, já que o mundo aparentemente variável era apenas uma ilusão, fruto
das sensações e das aparências. Heráclito, por sua vez, não ignorava a unidade do
mundo, apenas a considerava resultante da luta dos contrários. Ou seja, para ambos
havia variação e invariância, mas para Parmênides a variação era ilusória e o mundo
devia ser abordado a partir da perspectiva da invariância e, para Heráclito, a invariância
era uma espécie de momento de equilíbrio da variação.
Dessa forma, podemos dizer que a questão não é empírica. Os dados brutos não nos
dizem como estudá-
los e, portanto, as razões para a escolha de uma ou de outra perspectiva devem ser
procuradas em outro lugar que não nos fenômenos.
No século XX, o estruturalismo assumiu claramente a perspectiva da variabilidade das
línguas. A metodologia estruturalista – tanto no estruturalismo europeu quanto no
estruturalismo americano – assumia como posição básica que cada língua a ser
analisada devia ser considerada como uma estrutura sui generis e que a tentativa de
aplicar a uma língua recém - descoberta as categorias aplicadas às línguas já conhecidas
devia ser evitada.
Com o surgimento da gramática gerativa, nos anos 50, a perspectiva “universalista”
volta ao centro da cena: a busca da invariância passa a ser a tarefa central dos estudos
linguísticos.
1 Texto de conferência proferida durante o IV Seminário de Estudos Linguísticos da
UNESP, promovido
pelos Programas de Pós - Graduação em Estudos Linguísticos (IBILCE – São José do
Rio Preto) e Linguística e Língua Portuguesa (FCL – Araraquara), Araraquara,
03/09/2012.
Variabilidade das línguas e invariância: escolhas ... - people
people.ufpr.br/~borges/publicacoes/.../variabilidade_e_invariancia.pdf
de JB Neto - Artigos relacionados
A história dos estudos linguísticos mostra um panorama de alterações .... Se a criança
consegue, a ausência de recursividade na língua pirahã não teria.

Livro e filme sobre língua indígena rara desperta controvérsias


Linguistas criticam obra de Dan Everett sobre a tribo piraha, isolados caçadores da
Amazônia que visitou

The New York Times | 25/03/2012

Em seu livro de memórias de 2008, "Don’t Sleep, There Are Snakes" (Não Durma, Pois
Há Cobras, em tradução livre), o linguista Dan Everett se lembrou da noite em que os
membros da tribo piraha - os isolados caçadores da Amazônia que visitou pela primeira
vez como missionário cristão na década de 1970 - tentaram matá-lo .

Everett sobreviveu e sua vida entre os pirahas, grupo de centenas de pessoas que
habitam o noroeste do Brasil, se tornou pacífica e ele se estabeleceu como uma das
maiores autoridades acadêmicas sobre o grupo e uma das poucas pessoas de fora da
tribo a dominar sua difícil língua.

Equador: Projeto tenta preservar língua ancestral dos índios


Sua vida entre os seus colegas linguistas, no entanto, tem sido bem menos idílica, e um
debate sobre sua credibilidade acadêmica está prestes a ser retomado graças a seu novo
e ambicioso livro “Language: The Cultural Tool" (Idioma: A Ferramenta cultural, em
tradução livre), e um documentário para televisão que apresenta um de seus admiráveis
pontos de vista a respeito de sua pesquisa entre os piraha juntamente com o ponto de
vista mais sombrio de alguns de seus críticos.

Dan Everett na região da Amazônia onde vivem os piraha, em 1981


Em 2005, Everett ganhou reconhecimento internacional quando publicou um relatório
dizendo que havia identificado algumas características peculiares da língua piraha que
desafiavam a influente teoria de Noam Chomsky, proposta na década de 50, de que a
linguagem humana é regida pela "gramática universal", uma capacidade geneticamente
determinada que impõe o mesmo formato fundamental em todas as línguas do mundo.

O estudo, publicado na revista Current Anthropology, transformou-o em uma espécie de


herói popular e ao mesmo tempo criou uma certa controvérsia em sua carreira, com ele
sendo retratado pela imprensa como o estudioso que derrubou o poderoso Chomsky e
denunciado por alguns colegas linguistas como uma fraude, que busca apenas atenção,
ou pior, alguém que procura promover ideias dúbias sobre um grupo indígena ingênuo
enquanto se recusa a liberar seus dados para análise.
Em uma entrevista por telefone Everett, 60 anos, que é o decano do departamento de
artes e ciências da Universidade de Bentley em Waltham, Massachusetts, insistiu que
não está tentando comprar uma nova briga e muito menos apresentar-se como um rival
para o homem que chama de "a pessoa mais inteligente que eu já conheci. "

"Sou peixe pequeno", disse ele, acrescentando: "Em nenhum momento eu me coloquei
no mesmo patamar que Chomsky."

Trabalho
Em um muito citado trabalho escrito por Chomsky em 2002, professor emérito de
linguística no MIT, com o auxílio de Marc D. Hauser e W. Tecumseh Fitch, declarou
que a recursividade (propriedade de linguagem que permite aos falantes para incorporar
frases dentro de frase) era o elemento crucial da gramática universal e a única coisa que
separa a linguagem humana de seus precursores evolutivos.

Mas Everett, que havia publicado diversos trabalhos sobre os piraha durante duas
décadas, anunciou em seu artigo de 2005 que a língua deles carecia de recursividade,
juntamente com os termos para descrever cores, números e outras propriedades comuns
da nossa linguagem. Os piraha, Everett escreveu, demonstram essas lacunas linguísticas
não porque têm um pensamento menos evoluído, mas porque a sua cultura - que
enfatiza questões concretas do presente, não possui mitos que falem da criação e não
compartilham de tradições de criar arte - não as exigem.

Integrantes da tribo piraha, donos de uma língua rara, na Amazônia


Em 2009, os linguistas Andrew Nevins, Cilene Rodrigues e David Pesetsky, três dos
mais ferozes críticos do primeiro artigo de Everett, fizeram sua própria publicação no
jornal Language, contestando as pretensões linguísticas de Everett e expressando um
certo "desconforto" com seu relato sobre a suposta cultura simples da tribo piraha. Sua
principal fonte foi o material escrito pelo próprio Everett, cuja tese de doutorado de
1982, eles argumentaram, mostrou evidências claras de recursão por parte dos piraha.

"Ele estava certo da primeira vez", disse Pesetsky, um professor do MIT. "A primeira
vez que fez sua pesquisa ele tinha motivos. A segunda vez ele já não tinha nenhum
motivo por trás de suas pesquisas".

A análise deles, apresentada na reunião anual da Sociedade Linguística dos Estados


Unidos em janeiro, não encontrou cláusulas embutidas, mas chegou a descobrir
"evidências sugestivas" de recursividade. É um resultado pouco satisfatório para
Everett, que o questiona constantemente. Mas seus críticos, estranhamente, também não
parecem satisfeitos.

EUA: Para evitar impostos, índios fabricam seus próprios cigarros


Pesetsky rejeitou todo o esforço como sendo tendencioso desde o início por sua
dependência em classificações gramaticais feitas por Everett e suas suposições básicas.
"Eles superestimaram a correção da hipótese que eles mesmos estavam tentando
refutar", disse.
Os críticos de Everett o culpam por ele não querer liberar seus dados de sua pesquisa de
campo, mesmo sete anos após o surgimento da polêmica. Ele respondeu que está
atualmente trabalhando para traduzir todo seu material e espera poder publicar algumas
de suas transcrições na internet "ao longo dos próximos meses."

Sua maior indignação, ele disse, é o fato de como alguns outros estudiosos o acusaram
de ter feito uma “pesquisa racista" e de interferirem com seu acesso a tribo dos Piraha.

Independentemente das razões pelas quais ele teve o seu acesso negado, ele está
contando com a ajuda dos próprio piraha, que são mostrados ao final do documentário
“The Grammar of Happiness” (A Gramática da Felicidade, em tradução literal), no qual
gravaram um apelo emocional para o governo brasileiro.

"Nós amamos Dan", um homem diz para a câmera. "Dan fala a nossa
língua."
*Por Jennifer Schuessler
http://ultimosegundo.ig.com.br/mundo/nyt/livro-e-filme-sobre-lingua-indigena-rara-
desperta-controversias/n1597706205761.html

104. Amazonas: túmulo do Gerativismo


Publicado em Segunda-feira, 30-Abr-2007

Recentemente, veio à luz na imprensa a existência de uma língua que quebra com um
dos preceitos fundamentais da teoria lingüística do Gerativismo. Transcrevo o artigo de
Claudio Angelo, publicado na Folha de São Paulo. A minha única dúvida e se,
confirmada a inexistência de recursividade no pirahã, acabará a ditadura gerativista do
Departamento de Lingüística da Universidade de São Paulo.

«Uma tribo de caçadores-coletores do sul do Amazonas está colocando lingüistas e


antropólogos em pé de guerra. Segundo um pesquisador, a língua dos pirahãs, um grupo
de 350 pessoas que habitam o rio Maici, perto da divisa com Rondônia, é tão
excepcional que põe em xeque a principal teoria vigente sobre a linguagem humana. A
tese, no entanto, é contestada por outros lingüistas.
Os pirahãs ficaram famosos entre os acadêmicos devido ao trabalho do americano
Daniel Everett, 55, um ex-missionário cristão que hoje é professor da Universidade
Estadual de Illinois. Ele começou a estudar a língua da tribo nos anos 1970, com o
objetivo (que nunca foi cumprido) de catequizá-los.
Enquanto aprendia a língua, vivendo numa aldeia pirahã com a mulher e os filhos,
Everett descobriu uma série de peculiaridades no idioma. Os pirahãs não têm palavras
para cores. Usam apenas oito consoantes e três vogais. Não possuem mitos de criação,
não têm tempos verbais, não fazem arte e só sabem contar até três.
Em 2005, Everett publicou no periódico Current Anthropology um artigo no qual
afirmava também que a língua pirahã não tem recursividade, ou seja, a capacidade de
formar sentenças encaixando uma frase na outra. Assim, um pirahã seria capaz de dizer
«a canoa de João», «o irmão de João», mas nunca «a canoa do irmão de João». Como
vivem numa sociedade extremamente simples, onde o que conta é a experiência
imediata (o aqui e agora), os pirahãs, argumenta Everett, têm sua língua (e, portanto, seu
pensamento) limitados pela cultura – um caso único.
O trabalho caiu como uma bomba no meio lingüístico. Se Everett estivesse certo, o
idioma pirahã seria um sério desafio à teoria da Gramática Universal. Desenvolvida
pelo influente lingüista americano Noam Chomsky, a teoria afirma que todos os seres
humanos possuem uma faculdade inata da linguagem, uma espécie de órgão da
linguagem no cérebro. Essa capacidade independeria do meio cultural, tendo sido
impressa nos circuitos cerebrais do Homo sapiens pela evolução. E a principal marca
dessa faculdade é justamente a recursividade.
Uma exceção a essa regra significaria ou que os pirahãs não são humanos ou que o
arcabouço intelectual chomskiano – sob o qual se formaram gerações de lingüistas –
está falido. Everett, é claro, aposta na segunda hipótese.

Bombando
A tese de Everett sobre como a chamada experiência imediata limita a competência
lingüística dos pirahãs saiu do domínio da academia na semana passada e se espalhou
como rastilho de pólvora na imprensa popular. Uma reportagem de 20 páginas intitulada
«O Intérprete – Será que uma tribo remota da Amazônia virou do avesso nossa
compreensão da linguagem?» foi publicada na prestigiosa revista americana The New
Yorker e citada por jornais on-line, revistas e blogs nos EUA e no Brasil.
No entanto, no final do mês passado, antes de a New Yorker ir para a banca, um trio de
lingüistas dos EUA e do Brasil postou no site especializado LingBuzz um artigo
contestando ponto a ponto o trabalho de Everett. Andrew Nevins, da Universidade
Harvard, David Pesetsky, colega de Chomsky no Instituto de Tecnologia de
Massachusetts, e Cilene Rodrigues, da Unicamp, afirmam – com base em trabalhos
anteriores do próprio Everett – que o pirahã não apresenta desafio à Gramática
Universal.»

N. B.: 1) quanto à catequização dos índios, fico feliz que não tenha sido levada a cabo;
cada povo tem sua crença e acredito reprovável que instituições tanto católicas quanto
protestantes venham interferir na vida dos índios (que têm sua forma de vida, cultura e
língua protegidas pela Constituição brasileira); certamente o «pesquisador» era
vinculado ao SIL (Summer Institute of Linguistics), que ainda reflete uma faceta
ocidental de «levar a Civilização onde ela não está», quase da mesma maneira que
pensavam as potências que retalharam a África no último quartel do século XIX, a velha
prepotência de querer levar algo que, não se sabe exatamente se faz falta ou não, ou
esses povos não têm sua religião ou crenças, e por que elas não seriam válidas ou tão
críveis quanto o Cristianismo? Tão tacanho e cansativo quanto as Testemunhas de Jeová
que vêm à nossa porta na manhã dos domingos;

2) quanto à Lingüística, fico alegre que algo venha a quebrar a catequese e a


doutrinação feita em algumas instituições de ensino como na Faculdade de Filosofia,
Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, onde não se admite mais
nada que não seja gerativista, o que é fato engraçado numa instituição que se quer
pluralista. Certamente dirão que o pirahã nem mesmo língua é. Vejamos o suceder dos
fatos.

http://granadadebolso.wordpress.com/2007/04/30/104-amazonas-tumulo-do-
gerativismo/
domingo, março 04, 2012

Daniel Everett na Veja


Recomendo a entrevista nas páginas amarelas da VEJA com Daniel Everett, "A
Linguagem nos Faz Humanos". Ele afirma que Noam Chomsky tem tanto poder por
causa de seu proselitismo político (é comuna antiamericano até à alma), e não por sua
teoria sobre a linguagem (de que esta seria uma ferramenta inata).

Para Everett, a linguagem é uma ferramenta criada pelos homens, com diferenças
culturais importantes. É ela que nos faz humanos, por nos dar o poder da comunicação
e, acima de tudo, uma história de identidade. Sabemos quem é nosso avô, ao contrário
dos cachorros.

Seguem alguns trechos:


"Acredito que Chomsky só tenha conseguido esse poder que tem hoje de falar o que
quiser, mesmo mentiras, por sua atuação política, criticando os Estados Unidos. Graças
a esse proselitismo, ganhou uma leva de seguidores, e ergueu-se um muro de defesa em
torno dele. Recebo cartas desaforadas e emails violentos por discordar dele. Mas não
posso deixar de defender o que acho correto".

"Eu disse a ela que, para mim, Jesus, se existiu mesmo, foi apenas uma
pessoa boa, mas não o filho de Deus. Eu me senti livre, dono daquela
liberdade de alguém que consegue superar suas crenças e se sente,
então, honesto consigo mesmo".
http://rodrigoconstantino.blogspot.com.br/2012/03/daniel-everett-na-veja.html

E, por abordar o tema, vejamos a seguir:


Há alguns anos universitários publicaram este texto na internet e para entender, o por
quê, basta ler:

“De arocdo com uma pseuqsia de uma uinrvesriddae ignlsea, não


ipomtra em qaul odrem as lrteas de uma plravaa etãso, a úncia csioa
iprotmatne é que a piremria e útmlia lrteas etejasm no lgaur crteo. O
rseto pdoe ser uma ttaol bçguana que vcoê anida ler sem pobrlmea.
Itso é poqrue nós não lmeos cdaa lrtea isladoa, mas a plravaa cmoo um
tdoo. Vdaerde!”
Entenderam?