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Sebastião Roberto Soares é engenheiro sanitarista e ambiental (1985) pela

Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), e mestre (1991) e doutor (1994) pelo
Institut National des Sciences Appliquées de Lyon (INSA DE LYON), na França. Realizou
pós-doutoramento (2004) na École Polytechnique de Montreal, EPM, no Canadá. É
professor adjunto do Departamento de Engenharia Sanitária e Ambiental da UFSC
desde 1998 e um dos membros fundadores da Associação Brasileira de Ciclo de Vida
(ABCV), criada em 2002. Atua nas áreas de Resíduos Sólidos e Gestão Ambiental.

4.
E-mail: soares@ens.ufsc.br

Danielle Maia de Souza é arquiteta e urbanista (2004) pela Universidade Federal de


Minas Gerais (UFMG). É bacharel (2002) e mestre (2005) em Environmental and
Resource Management pela Brandenburgische Technische Universitaet (BTU-Cottbus),
em Cottbus, na Alemanha. É especialista (2006) em Gestão e Manejo Ambiental na
Agroindústria pela Universidade Federal de Lavras (UFLA). Atualmente, é doutoranda do
Programa de Pós-Graduação em Engenharia Ambiental (PPGEA) da Universidade
Federal de Santa Catarina (UFSC), na qual atua como pesquisadora.
E-mail: danimaiasouza@gmx.net

Sibeli Warmling Pereira é engenheira ambiental e sanitarista (2002), e mestre em


engenharia ambiental (2004) pela Universidade Federal de Santa Catarina. Atualmente
96
atua na área de gestão ambiental.
E-mail: sibeli@prosul.com

Coletânea Habitare - vol. 7 - Construção e Meio Ambiente


A avaliação do ciclo de vida
4.
no contexto da construção civil

Sebastião Roberto Soares, Danielle Maia de Souza e Sibeli Warmiling Pereira

1 Introdução

A
Califórnia (EUA), no início dos anos 90, foi escolhida para ser o primei-
ro estado americano a receber veículos elétricos, como forma de com-
bater a poluição causada por motores tradicionais a combustão. Porém,
até que ponto essa iniciativa é ambientalmente favorável? Considerando que, atualmen-
te, a energia elétrica consumida por aquele estado provém essencialmente de combus-
tíveis fósseis, o aumento da demanda de eletricidade poderia tornar o balanço de
poluição negativo, comparado com a situação inicial, ou simplesmente deslocar o foco
do problema. Do mesmo modo, pode-se levantar a seguinte questão: o uso de emba-
lagens descartáveis apresenta conseqüências mais negativas ao meio ambiente do que
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embalagens retornáveis? Na análise desse último sistema é necessário considerar todas
as atividades conexas ao processo, como a coleta, o transporte, a lavagem e a desinfec-
ção, o tratamento dos efluentes gerados, etc. A partir dessa contabilidade ambiental é
que a comparação poderá ser feita com o ciclo de vida de uma embalagem virgem.

A indústria da construção civil exerce impacto significativo sobre a economia


de uma nação e, portanto, pequenas alterações nas diversas fases do processo constru-

A avaliação do ciclo de vida no contexto da construção civil


tivo podem promover, além de mudanças importantes na eficiência ambiental e
redução dos gastos operacionais de uma obra, maior incentivo em investimentos no
setor. Nesse mercado de competitividade crescente e submetido a instrumentos de
comando de controle (legislação e normas) e de melhoria contínua, a escolha de
materiais de construção representa um importante campo da engenharia
ambientalmente responsável. É o caso, por exemplo, de optar entre blocos cerâmicos
ou de concreto para construção de uma parede. Ambos podem ter a mesma fun-
ção, mas ao longo de seu ciclo de vida ter repercussões ambientais diferentes. Ou,
ainda, de definir entre um piso cerâmico produzido pelo processo x ou y, avaliar o
emprego de pisos de granito ou de madeira ou optar por um sistema de aquecimen-
to de água solar ou elétrico. Nessas situações, parte-se do princípio de que os mate-
riais comparados entre si cumpram a mesma função, para, em seguida, avaliá-los
sob a ótica ambiental. O resultado dessa análise, associado aos resultados de avalia-
ção econômica e em sintonia com as preferências dos interessados, permitirá a to-
mada de decisão final sobre o material a utilizar.

Nesse contexto, a Avaliação do Ciclo de Vida1 (ACV) se destaca, atualmente,


como ferramenta de excelência para análise e escolha de alternativas, sob uma pers-
pectiva puramente ambiental. O seu princípio consiste em analisar as repercussões
ambientais de um produto ou atividade, a partir de um inventário de entradas e
saídas (matérias-primas e energia, produto, subprodutos e resíduos) do sistema con-
siderado. As fronteiras de análise devem considerar as etapas de extração de matéri-
as-primas, transporte, fabricação, uso e descarte (o ciclo de vida). Esse procedimen-
to permite uma avaliação científica da situação, além de facilitar a localização de
98 eventuais mudanças associadas às diferentes etapas do ciclo que resultem em melhorias
no seu perfil ambiental.

1
Life Cycle Analysis, Life Cycle Assessment (LCA), Product Line Analysis, Ecological Balance, segundo a terminologia
inglesa.

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2 Princípios da ACV

A ACV consiste na análise e na comparação dos impactos ambientais causa-


dos por diferentes sistemas que apresentam funções similares. Em outras palavras,
sob a ótica ambiental, ela estabelece inventários tão completos quanto possível do
fluxo de matéria (e energia) para cada sistema e permite a comparação desses balan-
ços entre si, sob a forma de impactos ambientais (Figura 1).

Figura 1 – Representação esquemática da ACV

A ACV é hoje normalizada por um conjunto de normas da série ISO 14000. No


Brasil, a NBR ISO 14040 estabelece os princípios gerais (ABNT, 2001), a NBR ISO
14041 aborda a definição de objetivos e escopo e análise do inventário (ABNT, 2004a),
a NBR ISO 14042 (ABNT, 2004b) aborda a avaliação de impactos ambientais e a NBR
ISO 14043 (ABNT, 2005) é voltada para a interpretação do ciclo de vida. No plano
internacional, às quatro normas citadas, são acrescentadas a ISO/TR 14047 (ISO/TR, 99
2003), que apresenta exemplos de aplicação, a ISO/TS 14048 (ISO/TS, 2002), que con-
sidera o formato de apresentação de dados, e, finalmente, a ISO/TR 14049 (ISO/TR,
2000), que fornece exemplos de aplicação especificamente à definição de objetivos.

Ela passa basicamente pelas etapas a seguir (ver Figura 2).

1) Definição do sistema. Deve-se delimitar com precisão o objetivo do


estudo, as fronteiras do sistema e a base referencial ou unidade funcional.

A avaliação do ciclo de vida no contexto da construção civil


- Objetivo da avaliação: a definição do objetivo de uma ACV deve especi-
ficar por que e como o estudo está sendo realizado e quais serão as aplica-
ções dos resultados obtidos (BAUMANN; TILLMAN, 2004). Quando re-
alizado de forma clara e consistente com a aplicação do estudo, a definição
de objetivos auxilia na especificação de informações necessárias às etapas
posteriores, como na fase de coleta de dados, e na obtenção de resultados
mais confiáveis e precisos. Pode-se comparar produtos com um mesmo
uso, mas constituídos de materiais e processos diferentes, ou comparar pro-
cessos distintos para a obtenção de produtos (ou serviços) com uma mes-
ma função.

- Fronteiras do sistema: especificam sobre quais etapas do ciclo de vida será


realizada a análise; do berço (extração de matérias-primas), até o túmulo
(eliminação do produto), passando pela produção, distribuição, utilização e
reparação eventual, ou seja, a produção, a utilização e a eliminação. O estu-
do pode considerar todas as etapas ou etapas isoladas.

O conhecimento das diversas etapas do ciclo de vida de uma edificação


pode auxiliar na delimitação do sistema. Podem ser citados os processos de trans-
formação de energia e materiais: a produção de matérias-primas – necessárias às
diversas etapas do ciclo de vida de edificações; a fase construtiva propriamente
dita, incluindo desde o transporte de materiais até o acabamento final da estrutura,
sendo delimitada, por exemplo, no caso de um edifício residencial ou comercial,
pelas entradas e saídas de materiais do canteiro de obras; a fase de uso, a partir da
100 qual as fronteiras do sistema passam a delimitar os domínios público e privado; e
as fases de inutilização, renovação ou demolição, decorrentes de inadequações ao
uso, ou de limitações impostas pelo tempo de vida útil da construção (EUROPEAN
COMMISSION, 1997).

No estudo de elementos construtivos, tais como pisos, coberturas e outros


tipos de acabamentos internos, é necessário averiguar as diversas etapas de obten-
ção e transformação de matérias-primas e confecção do produto final.

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- Unidade funcional ou unidade de comparação: ela permite a consideração
simultânea da unidade do produto e de sua função (por exemplo, massa de
material de embalagem para acondicionar x litros de um líquido; combustível
(álcool, gasolina diesel, etc.) necessário para percorrer 100 km, etc.).

No setor da construção civil, a unidade funcional pode ser representada pelo


edifício como um todo ou por apenas um recinto ou área de trabalho, analisado em
determinado período. Nicoletti, Notarnicola e Tassielli (2002), por exemplo, estabe-
lecem um estudo comparativo entre pisos cerâmicos e de mármore, definindo a
unidade funcional como sendo 1 m2 de piso durante um período de 40 anos.

É importante ressaltar que a escolha de uma unidade funcional, fundamentada


no objetivo e escopo do estudo, pode ter um grande impacto nos resultados da ACV
e, portanto, deve ser cuidadosa e claramente estabelecida (CHEHEBE, 1997).

Figura 2 – Procedimento de realização da ACV


101
Para a realização de análises comparativas entre diferentes edificações através
da ACV, é necessário definir e quantificar as características de desempenho e promo-
ver a equivalência entre os sistemas analisados. Tais comparações são estabelecidas
tendo-se como base uma mesma função, relacionada a determinada unidade funci-
onal e exercida durante determinado período. O Quadro 1 apresenta alguns dos
tempos de vida útil para diferentes processos e sistemas estruturais relacionados a
sistemas construtivos.

A avaliação do ciclo de vida no contexto da construção civil


Quadro 1 – Processos de construção civil e respectivos tempos de vida útil
Fonte: European Commission (1997)

2) Inventário ou balanço de massa-energia. Considerando a unidade fun-


cional adotada, o inventário deve ser preliminarmente estabelecido para assegurar
que o fluxo de entrada de matéria encontre uma saída quantificada como unidade
funcional, rejeitos e subprodutos. A descrição desse fluxo permite colocar em evi-
dência certos fatores de alterações ambientais (fatores de impacto) como, por exem-
plo, o consumo de recursos naturais (matérias-primas e energia), os resíduos (sóli-
dos, líquidos e gasosos) e outras emissões. Essa etapa constitui uma ferramenta indis-
pensável para a avaliação quantitativa de impactos ambientais.

Segundo Frankl e Rubik (2000), tais inventários possibilitam a identificação de


limitações ou relevam a necessidade de mais informações para a avaliação do pro-
102 cesso de construção, podendo gerar mudanças nos procedimentos de coleta de
dados, revisão dos objetivos ou escopo do estudo que está sendo realizado.

Ressalta-se a importância da consistência dos dados na fase de inventário para


a obtenção de resultados mais precisos, que expressem a realidade de forma confiável.

3) Avaliação de impactos ambientais. Esse procedimento visa agregar os


fatores de impacto em categorias de impacto (ou critérios de avaliação), através de um
modelo apropriado, de modo a permitir um estudo comparativo das diferentes

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opções. Normalmente, essas categorias estão associadas a impactos locais (toxicidade
e ecotoxicidade, etc.), regionais (chuvas ácidas, desertificação, etc.) e globais (efeito
estufa, redução da camada de ozônio, etc.).

Atualmente, três grandes tendências apareceram relativamente à avaliação de


impactos. A linha européia é a mais avançada, em que existem várias proposições de
modelos de avaliação, considerando as especificidades geográficas. CML (Centrum
voor Milieukunde, Center for Environmental Science) (DREYER et al., 2003), EDIP
(Environmental Design of Industrial Products) (HAUSCHILD; WENZEL; ALTIN,
1998), EPS (Environmental Priority Strategies) (STEEN, 1999), Eco-Indicator 99
(GOEDKOOP et al., 2000) e o recente método Impact 2002+ (JOLLIET et al.,
2003) estão entre os métodos mais citados. A linha americana é a coordenada pela
Agência de Proteção Ambiental (EPA) americana e de seu método TRACI (Tool for
the Reduction and Assessment of Chemical and other Environmental Impacts) (BARE
et al., 2003), que propõe um modelo por categorias de impacto (midpoints). E, final-
mente, a proposta japonesa se concentra sobre um método baseado em conseqüên-
cias ambientais (endpoints), chamado LIME (Life-cycle Impact assessment Method
based on Endpoint modeling) (ITSUBO; INABA, 2003).

O impacto ambiental da construção civil, e de seus respectivos processos


construtivos, pode ser inicialmente avaliado com base em análise de inventários.
Esses apresentam uma visão detalhada dos fluxos de entrada e saída de materiais,
energia e outras substâncias geradas ou utilizadas durante os processos (sempre que
possível) de concepção, utilização e demolição da obra. As informações contidas no
inventário são associadas a diferentes categorias de impacto, buscando-se o entendi- 103

mento das conseqüências ambientais e econômicas envolvidas no processo.

Ao se desenvolver um estudo de ACV para edificações, indicadores devem ser


utilizados para a obtenção de um cenário contendo diversos aspectos ambientais. Se-
gundo Citherlet e Hand (2002), a Análise de Impactos do Ciclo de Vida de uma edificação
resulta de uma gama de indicadores ambientais, através dos quais é possível obter um
perfil ambiental para a compreensão do ciclo de vida do edifício e seus impactos.

A avaliação do ciclo de vida no contexto da construção civil


Através da ACV de pisos cerâmicos e de mármore, por exemplo, Nicoletti,
Notarnicola e Tassielli (2002) obtiveram resultados relevantes com relação à compa-
ração da performance ambiental das diversas fases do ciclo de vida dos produtos
analisados e à inter-relação entre as fases dos dois sistemas. Algumas das categorias
de impactos utilizadas no estudo, tais como aquecimento global, acidificação e
toxicidade humana, permitiram a compreensão de problemas ambientais decorren-
tes de fases específicas dos processos de produção analisados e o estabelecimento
de medidas a serem tomadas para a melhoria ambiental dos processos.

4) Definição de uma base de comparação. Essa base será constituída pelos


critérios citados anteriormente, um procedimento que permita ponderá-los e um mo-
delo para agregá-los convenientemente. Para tanto, é indispensável recorrer a métodos
de avaliação, entre os quais a Análise Multicritério. Nessa etapa, os pesos exprimem a
importância relativa de cada critério e o método de agregação permite a transforma-
ção das avaliações associadas às categorias de impacto em um indicador de ACV.

5) Estudos de sensibilidade e de incerteza de dados. A confiabilidade do


resultado depende, sobretudo, da confiabilidade dos valores atribuídos aos
parâmetros. Os dados que são utilizados em ACV podem ser valores médios, esti-
mados ou ainda dados provenientes de um sistema semelhante àquele em estudo.
Isso tem por conseqüência a introdução de numerosas incertezas sobre o valor dos
impactos estudados. A análise de sensibilidade, por sua vez, estuda a influência das
variações dos dados de entrada. O método será considerado sensível se a variação
dos valores iniciais promoverem modificações no resultado.
104

3 A construção civil e a ACV

A aplicação da Avaliação do Ciclo de Vida, freqüentemente integrada aos


processos de tomada de decisões nos setores empresarial e industrial, é reconhecida-
mente de grande valia para o setor da construção civil. Tal situação decorre dos
expressivos impactos ambientais produzidos nas diversas fases do processo cons-

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trutivo – desde a fase de extração e fabricação de matérias-primas até a renovação
ou demolição da estrutura –, avaliados por meio das repercussões de emissões at-
mosféricas, consumo de recursos naturais, demandas energéticas e geração de resí-
duos sólidos e líquidos.

Entretanto, é necessário ressaltar que o desenvolvimento de estudos de ACV


em edificações requer algumas alterações devido, entre outros aspectos, às diferenças
apresentadas com relação ao ciclo de vida de produtos industriais que envolvem, nor-
malmente, um curto espaço de tempo. Obras de engenharia, ao contrário de produtos
com vida útil de semanas ou meses, são, em geral, caracterizadas por uma vida útil que
se estende por alguns anos, décadas ou mesmo séculos. Segundo relatório do Diretório
Geral para Ciência, Pesquisa e Desenvolvimento da Comissão Européia (1997), a
complexidade da análise de edificações consiste não somente na adaptação da análise
para esse novo contexto temporal e estrutural, mas também na estruturação das infor-
mações coletadas em partes, de forma que possam ser utilizadas para várias ou so-
mente uma única fase do ciclo de vida da edificação em questão.

O princípio utilizado na escolha de um material, em um conjunto de opções


que cumprem uma mesma função, pode ser utilizado na concepção de uma edificação
composta de vários materiais. Assim, é possível vislumbrar a idéia de que todas as
etapas construtivas e gerenciais de uma obra passariam por um processo de ACV, de
modo a que se considere a menor repercussão ambiental, associada ao seu ciclo de
vida: construção, uso e demolição.

Do ponto de vista prático, o inventário de diferentes fluxos elementares2 de


105
materiais utilizados em construção civil estaria disponibilizado em um banco de
dados contendo, por exemplo, cimento, pisos, azulejos, pintura, etc. Na seqüência,
na elaboração de um serviço, como uma parede, poder-se-ia fazer a simulação a

2
Fluxo elementar: material ou energia que entra (ou deixa) o sistema sob estudo, que foi retirado (ou descartado) no
meio ambiente, sem transformação humana prévia (ou subseqüente) (ABNT, 2001).

A avaliação do ciclo de vida no contexto da construção civil


partir de diferentes cenários que atendam a uma mesma função. Para uma parede
pode-se comparar a sua realização com blocos cerâmicos ou de concreto, com
revestimentos de massa corrida ou cal fina, com pintura do tipo 1 ou do tipo 2, etc.

Algumas ferramentas informatizadas disponíveis no mercado, como, por exem-


plo, Sima-pro (http://www.simapro.com), Gabi IV (http://www.pe-europe.com),
Team (www.ecobalance.com/uk_team.php) e Umberto (http://www.umberto.de/
en/), podem facilitar a operação. Elas normalmente contêm bancos de dados tão
atualizados quanto possível de fluxos elementares de produtos (Ecoinvent (http://
www.ecoinvent.ch/), Buwal (http://www.umwelt-schweiz.ch/buwal/eng/
index.html), Franklin (http://www.fal.com/), etc.) e gerenciam modelos de avalia-
ção de impacto. Todos os sistemas citados permitem a incorporação e/ou a atuali-
zação de dados. Ou seja, pode-se realizar uma ACV a partir de dados estocados nos
bancos preexistentes ou então executá-la a partir de dados de campo, específicos a
uma situação de interesse.

Estudos realizados em diferentes setores da indústria da construção civil indi-


cam a grande variedade de campos de aplicação da Avaliação do Ciclo de Vida em
edificações e sistemas e elementos construtivos. Entre eles, pode ser citado o estudo
comparativo entre pisos cerâmicos, esmaltados e queimados, e ladrilhos de mármore,
realizado por Nicoletti, Notarnicola e Tassieli (2002). De forma similar, a ACV tam-
bém foi aplicada a outros elementos construtivos, tais como janelas, emolduradas em
PVC ou outros materiais, tais como alumínio (EUROPEAN COMMISSION, 2004),
e em diferentes sistemas estruturais, de madeira, aço ou concreto (BUCHANAN;
106 HONEY, 1994 apud GLOVER, 2001), para os quais o consumo energético e de
matéria-prima é analisado juntamente com os impactos ambientais resultantes dos
processos de produção desses elementos, componentes ou sistemas.

Peuportier (2001) estabeleceu uma análise comparativa entre três tipos dife-
rentes de residências: casas de referência, construídas em concreto (consideradas
padrão na França); casas estruturadas em madeira e pedras, com sistema integrado
de aquecimento solar (Observ’ER); e casas de madeira (CNDB).

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Objetivando identificar e avaliar os parâmetros de projeto que exercem influ-
ência no desempenho ambiental de um edifício, Scheuer et al. (2003) desenvolveram
um estudo aplicando a ACV a um dos edifícios pertencentes ao complexo da Uni-
versidade de Michigan (EUA). A avaliação do ciclo de vida do edifício da Universi-
dade de Michigan possibilitou uma melhor visualização dos possíveis impactos
ambientais resultantes de cada uma das fases do ciclo de vida da edificação e o
traçado de possíveis estratégias de melhoria na performance do edifício.

Itoh e Kitagawa (2003) analisaram diferentes técnicas construtivas de pontes


no Japão, de forma a promover a redução de problemas resultantes de deficiências
no projeto funcional das pontes e de danos decorrentes da vida útil limitada das
estruturas. Uma análise de impactos ambientais e de custos mais detalhada, dividida
em duas etapas, pôde ser obtida através da ACV. Em uma análise posterior, sistemas
estruturais de pontes convencionais foram comparados a uma nova proposta estru-
tural, a qual utiliza menor número de vigas.

Outro exemplo a ser citado com relação à aplicação da ACV em obras de


engenharia de grande porte é o da construção de estradas rodoviárias. Na Finlândia,
estudos de ACV, baseados, principalmente, na comparação entre o ciclo de vida de
superfícies de concreto e asfalto em rodovias, foram desenvolvidos com dados
coletados pelas indústrias de cimento e betume (MROVEH et al., 2001). A avaliação
de impactos relacionados ao consumo energético e de materiais e às emissões de
poluentes auxiliam em avaliações de custos de soluções estruturais, permitindo a
escolha de ações mais adequadas, que promovam a melhoria do ciclo de vida de tais
construções (MROVEH et al., 1999). 107

4 Aplicação da ACV em pisos e tijolos cerâmicos

Entre os estudos ambientais relacionados a materiais de construção é impor-


tante ressaltar a pesquisa aplicada a processos produtivos de pisos e tijolos cerâmicos
(SOARES; PEREIRA, 2004), fomentada pela Finep dentro do programa Habitare,

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no período de 2001 a 2003. Esse estudo considerou empresas representativas
(tecnologia/produto) da produção de pisos e de tijolos no estado de Santa Catarina.

Os aspectos considerados no estudo enfatizam, essencialmente, a qualidade


ambiental (externalidades), não levando em conta a saúde e a segurança ocupacional,
nem aspectos de qualidade de produto. A estrutura básica estudada foi o processo
produtivo (a fábrica) de pisos e tijolos. A extração da argila, principal matéria-prima
dos elementos construtivos citados, foi considerada parte integrante do sistema “pro-
dução”, tendo em vista a contribuição desse material com mais de 90% (massa) da
composição dos produtos e de sua localização, na maior parte dos casos, junto à
unidade fabril.

4.1 Definição dos objetivos e escopo


Os limites dos sistemas, definidos neste estudo de ACV, iniciam-se na extra-
ção da argila, passando por todas as etapas de produção, até a embalagem e o
carregamento das peças para saída da fábrica. No caso da produção de pisos, não
foram inventariados os subsistemas de produção dos demais componentes utiliza-
dos, como esmaltes e tintas (Figuras 3 e 4).

A unidade de funcional considerada foi 1 m2 de produto pronto para uso, da


etapa da fabricação até a embalagem para expedição. Não houve necessidade de
considerar a alocação de funções secundárias, devido à inexistência de produção
simultânea ao produto de referência (no mesmo setor de análise). Para a produção
de pisos cerâmicos, a unidade funcional considerada foi 1 m2 de piso, sem rejunte.
108 Por sua vez, para o caso dos tijolos cerâmicos, a unidade funcional considerada foi 1
m2 de parede de tijolos, com 1,5 cm de rejunte.

O inventário do processo foi realizado ao longo de um ciclo completo de


produção. Ele foi repetido duas vezes para as empresas de tijolos e duas vezes no
tocante às emissões sólidas e líquidas para as empresas de pisos.

As empresas selecionadas produzem peças de padrão comercial, de mesma


categoria, com as seguintes características:

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a) a empresa A produz piso de monoqueima polido, com dimensões 43,7 cm
x 43,7 cm, e utiliza gás natural como combustível para secadores e fornos;

b) a empresa B fabrica um produto de dimensões 44,5 cm x 44,5 cm, também


por monoqueima, sem polimento, e tem o gás natural como combustível;

c) a unidade funcional (1 m2) para a empresa A é composta de 5,23 peças e


para a empresa B, 5,10 peças;

d) a empresa C é produtora de tijolos de 6 furos, com dimensões 19,5 cm x


17,0 cm x 12,0 cm, utiliza forno convencional, do tipo garrafão, para queima
das peças, e serragem de madeira como combustível;

e) a empresa D produz tijolos de 6 furos com dimensões 23,0 cm x 17,0 cm


x 11,8 cm, queimados em forno contínuo do tipo túnel, também abastecido
com serragem de madeira; e

f) a unidade funcional (1 m2 de parede, com tijolos “deitados”) das empresas


C e D é composta, respectivamente, de 35,76 e 32,18 tijolos.

Os fluxogramas do processo produtivo das empresas de tijolos e pisos


cerâmicos selecionadas são representados respectivamente pelas Figuras 3 e 4 (a
linha tracejada delimita a área de avaliação do inventário).

109

Figura 3 – Fluxograma-tipo da produção de tijolos


Fonte: Soares e Pereira (2004)

A avaliação do ciclo de vida no contexto da construção civil


Extração e transporte de argila – Pisos e tijolos (consumo de óleo diesel e
geração de resíduos)

Para extração de argila, normalmente, utiliza-se escavadeira hidráulica. O tempo


necessário para extração da argila e carregamento do caminhão, o consumo de com-
bustível da máquina por intervalo de tempo e a capacidade de carga do caminhão
foram os fatores considerados para a estimativa do consumo de óleo durante a extra-
ção. Para o transporte, foram levantados os consumos médios dos principais cami-
nhões transportadores utilizados e as distâncias médias de cada jazida até a fábrica.

O levantamento das emissões de poluentes, devido à queima de diesel, foi


realizado com base no consumo total estimado (em litros) e nos dados (valores
tabelados) de emissão de poluentes, por litro de combustível queimado.

Preparação da massa e moagem – Pisos e tijolos (consumo de argila, água e


defloculante). A preparação da massa e sua moagem foram monitoradas a fim de se
conhecerem as proporções de água, argila e defloculantes (no caso dos pisos) utilizadas.
Para tal, foram tomados os dados de massa dos componentes nas cargas do moinho.

Atomização – Pisos (consumo de carvão, emissões gasosas, geração de cin-


zas e perdas). A capacidade do atomizador em ton/h, os teores de umidade da
massa de entrada e do pó de saída, a quantidade de pó retida no filtro, o consumo
de carvão para alimentação das fornalhas e a quantidade de cinza de carvão gerada
foram os elementos sólidos e líquidos utilizados no inventário do processo de
atomização. Essas avaliações dependeram de pesagens e análises granulométricas
110 (no caso do material retido no filtro – material particulado).

Os óxidos de enxofre (SOx) e de nitrogênio (NOx), o monóxido de carbono


(CO) e o dióxido de carbono (CO2), presentes no efluente gasoso da chaminé, são
provenientes exclusivamente do combustível (carvão mineral) e das condições de
operação da fornalha.

Prensagem e secagem – Pisos e tijolos (perdas de massa). Por meio de pesa-


gens antes e depois da prensa e do secador, foi determinado o percentual de perdas

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nas etapas de prensagem e secagem das peças. As perdas foram levantadas a partir do
acompanhamento da produção de determinado lote de peças, contabilizando-se aquelas
que apresentavam defeitos e calculando sua proporção com relação ao total produzido.

111

Figura 4 – Fluxograma-tipo da produção de pisos cerâmicos


Fonte: Soares e Pereira (2004)

A avaliação do ciclo de vida no contexto da construção civil


Preparação do esmalte e esmaltação – Pisos (consumo de materiais, per-
das e resíduos). As etapas de preparação de esmaltes (corantes, tintas e engobe) e
esmaltação (aplicação nas peças) envolveram medições de massa de componentes
utilizados, quantidade de água adicionada e perdas (quebra) nos processos.

Queima – Pisos e tijolos (consumo de gás natural, serragem, emissões gaso-


sas e perdas). Durante o processo de queima foram medidas as quantidades de gás
natural consumidas por lotes de peças queimadas, no caso de pisos, e de serragem,
no caso dos tijolos, bem como medições das emissões atmosféricas. Foram consi-
derados, para a produção de pisos, os mesmos parâmetros da atomização, além de
cloretos e fluoretos, provenientes da massa de argila, que em temperaturas acima de
1.000 °C tendem a ser desprendidas.

No caso dos tijolos, os parâmetros considerados nas medições foram CO,


CO2, H2O, C (fuligem/cinzas) e NOx.

A madeira e, conseqüentemente, as serragens apresentam em sua composição


elementar uma pequena quantidade de enxofre (S). Porém, vistas as afirmações feitas
por Jenkins (1990) e Vlássov (1998), foram desconsideradas na pesquisa as emissões
de SOx durante a queima da serragem.

Retífica e polimento – Piso (consumo de água e de pedras abrasivas). Esse


processo consiste no reparo de irregularidades nas extremidades das peças (empresa
A), por meio de polimento com pedras abrasivas que desgastam as superfícies não
conformes com o padrão. O acompanhamento dessa etapa permitiu levantar as
112 quantidades de água (medição da vazão dos bicos dispersores) e de pedras abrasivas
utilizadas para o polimento de cada lote de peças, bem como as perdas resultantes.

Embalagem – Pisos (consumo de embalagens e cola). A embalagem utiliza-


da (caixa de papelão) foi pesada antes e depois de passar pela máquina seladeira,
podendo-se, dessa forma, avaliar a quantidade de cola utilizada para o fechamento
de cada caixa. No caso dos tijolos, em que não há a utilização de embalagem, as
peças são carregadas para o caminhão e dispostas em forma de pilhas.

Coletânea Habitare - vol. 7 - Construção e Meio Ambiente


Transporte interno/empilhamento e carregamento de caixas – Pisos e
tijolos (consumo de gás e energia elétrica). O consumo de gás liquefeito de petróleo
(GLP) pelas máquinas empilhadeiras (no caso da produção dos pisos) foi calculado
com base no consumo mensal desse combustível, tendo-se informações a respeito
da produção total no mesmo mês. Da mesma forma, a energia elétrica utilizada em
todos os processos foi dividida (total do consumo mensal) pela produção referente
ao período, tanto para a produção de pisos quanto de tijolos.

Lavagem de equipamentos e piso – Pisos (consumo de água e geração de


efluentes líquidos). Os seguintes setores participaram no levantamento da água utili-
zada para lavagem e geração de efluentes líquidos:

a) setor de preparação de massa – moagem e atomização, efluente da lava-


gem do piso e dos moinhos;

b) setor de prensagem – não gera efluente líquido, uma vez que o piso é
somente varrido, e o pó, oriundo do atrito das peças com os roletes, é cole-
tado e volta para os moinhos;

c) setor de preparação de esmaltes – tem como efluente líquido as águas de


lavagem dos moinhos e demais equipamentos, bem como do piso;

d) setor de esmaltação – da mesma forma que o de preparação de esmaltes,


tem as águas de lavagem como efluentes;

e) setor de queima – não utiliza água, nem para limpeza, portanto não gera
efluente líquido; e 113

f) setor de polimento e retífica – utiliza, além da água para polimento, a água


para lavagem do piso.

A quantidade de água utilizada para lavagem em cada setor da produção foi


levantada pela medição da vazão das mangueiras usadas e do tempo médio gasto
para o trabalho. No caso do polimento, foi medida a vazão de água que sai das
cabeças polidoras.

A avaliação do ciclo de vida no contexto da construção civil


Nas empresas produtoras de tijolos, normalmente, o piso das fábricas é de
terra compactada. Portanto, não há lavagem de pisos ou de equipamentos que pro-
cessam o material.

Geração de resíduos sólidos – Pisos. As duas empresas (A e B) possuem


sistemas de tratamento para efluentes líquidos (lavagem de equipamentos e pisos, e
polimento e retífica – no caso da empresa A), e o lodo resultante do tratamento
constitui um resíduo sólido. A quantidade de lodo produzida por unidade funcional
foi levantada por meio do acompanhamento do sistema de tratamento, referente à
produção de determinado lote. O resultado foi extrapolado para a unidade funcional.

As cinzas do carvão queimado nas fornalhas do atomizador (40% do total de


carvão, em massa) são descartadas como resíduos sólidos. Esse dado foi obtido
com base nos dados de consumo de carvão e descartes de cinza.

No caso da empresa A, que realiza polimento das peças, as pedras abrasivas


utilizadas são descartadas depois de um tempo relativamente curto, o que gera gran-
de quantidade de resíduos.

Para as empresas produtoras de tijolos, como não há utilização de aditivos na


massa, lavagem de equipamento, nem utilização de embalagem, a geração de resídu-
os provenientes do processo produtivo é bastante reduzida. Normalmente, as cin-
zas de serragem, retiradas durante a limpeza dos fornos, o pó de varrição e os cacos
de peças quebradas ou moídas (chamote) são utilizados como aterro.

4.2 Resultados do inventário


114
Os resultados de todas as medições realizadas, depois de extrapolados para a
unidade funcional definida (1 m2 de piso ou 1 m2 de parede de tijolo), foram agru-
pados, para cada uma das empresas, conforme apresentado nas Tabelas 1, 2, 3 e 4 e
Figuras 6 e 7 (pisos cerâmicos). A Figura 5, por sua vez, exemplifica a quantificação
das perdas, para cada etapa do processo produtivo de pisos, de uma das empresas.
O mesmo procedimento foi realizado para todas as empresas. Pereira (2004) faz
considerações e discussões complementares a esses dados.

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Figura 5 – Avaliação de perdas para a empresa B

115

Os efluentes líquidos em ambas as empresas retornam, para serem utilizados


na lavagem de pisos ou no processamento da argila, após tratamento. Dessa forma,
foram consideradas as fontes de água, para cada etapa do processo, tendo sido
contabilizado separadamente o consumo de água limpa (proveniente de fonte natu-
ral) e de água de recirculação. Os dados de entrada apresentados no inventário refe-
rem-se, portanto, ao consumo de “água complementar” limpa.

A avaliação do ciclo de vida no contexto da construção civil


Tabela 1 – Empresa A: produção de 1 m2 de piso cerâmico
116 Fonte: Soares e Pereira (2004)

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Tabela 2 – Empresa B: produção de 1 m2 de piso cerâmico
Fonte: Soares e Pereira (2004)

117

A avaliação do ciclo de vida no contexto da construção civil


Tabela 3 – Empresa C: produção de 1 m² de parede de tijolo (35,76 tijolos)
Fonte: Soares e Pereira (2004)

118

Tabela 4 – Empresa D: produção de 1 m² de parede de tijolo (32,18 tijolos)


Fonte: Soares e Pereira (2004)

Coletânea Habitare - vol. 7 - Construção e Meio Ambiente


Observa-se que a diferença existente no balanço de entradas e saídas pode ser
atribuída ao oxigênio do ar. Entretanto, essa quantificação não é apresentada no
inventário de entrada devido à dificuldade operacional de medição (tomadas para-
sitas de ar).

119

Figura 6 – Inventário da produção de 1 m2 de piso cerâmico (empresa A)


Fonte: Soares e Pereira (2004)

A avaliação do ciclo de vida no contexto da construção civil


Figura 7 – Inventário da produção de 1 m2 de piso cerâmico (empresa B)
120 Fonte: Soares e Pereira (2004)

4.3 Avaliação de impactos


Os resultados obtidos devem ser considerados em relação à unidade funcio-
nal, permitindo-se ressaltar o desempenho ambiental dos produtos. Assim, no caso
dos pisos, além de desempenharem uma mesma função, os produtos analisados são
enquadrados na mesma classe comercial (A). Nesses termos, destaca-se o grande

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consumo de água da empresa A, nas etapas de polimento das peças, embora a água
consumida nessa etapa integre um sistema de reaproveitamento, lavagem dos moi-
nhos e preparação da massa.

Pereira (2004) faz considerações complementares sobre as repercussões


ambientais dos dados relativos à indústria de pisos cerâmicos. As categorias de im-
pacto selecionadas seguem a proposição do modelo TRACI (Tool for the Reduction
and Assessment of Chemical and Other Environmental Impacts): consumo de ma-
téria-prima (argila); uso de água; esgotamento das reservas de combustíveis fósseis
(óleo diesel, gás natural e carvão mineral); degradação de áreas pela disposição de
resíduos; aquecimento global (CO e CO2); e acidificação e prejuízo à saúde humana
(NO2 e SO2). Os resultados estão resumidos na Figura 8. A avaliação prosseguiu
ainda com as etapas de ponderação das categorias de impacto e de agregação delas
(método TOPSIS ou Technique for Order Preference by Similarity to Ideal Solution),
sob a forma de um indicador único. Essas últimas fases envolvem julgamento de
valores, sendo os resultados associados a tais preferências. Assim, com base nas
condições estabelecidas na formulação do problema (etapa do ciclo de vida), nas
empresas consideradas, na família de critérios, nos pesos atribuídos e no modelo de
agregação, pode-se sugerir que a unidade funcional oriunda da empresa B apresenta
melhor desempenho ambiental.

No tocante à produção de tijolos, a empresa D (Tabela 4) utiliza, em média,


menor quantidade de insumos, apresentando, no entanto, um consumo de energia
elétrica bem superior ao da empresa C, devido, principalmente, à sua melhor condição
tecnológica (utilização de processos automatizados). O procedimento de avaliação de 121

impactos pode seguir a mesma seqüência apresentada para o caso dos pisos cerâmicos.

De um modo geral, a diferença entre inventários pode ser atribuída ao pa-


drão tecnológico, à estrutura gerencial e ao fluxo de produção. Com relação a esse
último, deve-se ressaltar que em um processo produtivo existem consumos (e mes-
mo resíduos) fixos, independentemente da quantidade produzida. Nesses casos, gran-
des produções podem “reduzir” os valores específicos à unidade funcional.

A avaliação do ciclo de vida no contexto da construção civil


122

Figura 8 – Categorias de impacto ambiental para avaliação da produção de pisos cerâmicos


Fonte: Pereira (2004)

Coletânea Habitare - vol. 7 - Construção e Meio Ambiente


A avaliação para cada um dos grupos de produtos, nesse caso, é facilitada,
visto se tratar de empresas que recorrem, basicamente, às mesmas matérias-primas e
aos mesmos princípios produtivos na confecção de materiais similares. Ou seja, do
ponto de vista ambiental, os tipos de impactos ambientais serão os mesmos, diferin-
do apenas em sua magnitude. Por outro lado, a análise ambiental será mais delicada
quando se tratar de materiais diferentes que realizam a mesma função. Dois exem-
plos a serem citados são a comparação de blocos de concreto/argamassa com
blocos cerâmicos e a comparação de pisos cerâmicos com pisos de madeira. Nesses
casos, os inventários estarão associados a diferentes tipos de impactos e amplitudes.

5 Considerações finais

A Avaliação do Ciclo de Vida está sendo cada vez mais integrada aos processos
de tomadas de decisões em empresas. Ela tem revelado sua importância na quantificação
de impactos ambientais e na avaliação das melhorias do ciclo de vida de processos,
produtos e atividades. Utilizada na avaliação de impactos potenciais e de aspectos
ambientais associados a um produto ou serviço, constitui um instrumento de grande
proveito nas decisões internas, seleção de indicadores ambientais e planejamento estra-
tégico para obtenção de maiores retornos econômicos e ambientais (CHEHEBE, 1997).

Entretanto, a aplicação da ACV para a avaliação de impactos ambientais asso-


ciados à construção civil apresenta algumas limitações, especialmente quando com-
parada à sua utilização no meio industrial. Primeiramente, é importante ressaltar a
123
dificuldade em obtenção de informações e bases de dados confiáveis e completos
para os materiais utilizados no setor da construção civil. Scheuer et al. (2003) citam a
dificuldade em se obter informações quantitativas a respeito de impactos ambientais
gerados, por exemplo, durante as fases de construção e demolição. Tais barreiras
existem, principalmente, devido à grande variedade e composição química de mate-
riais utilizados na indústria da construção civil e na própria dinâmica de alteração e
renovação, à qual estão sujeitos os espaços arquitetônicos e o meio ambiente urbano.

A avaliação do ciclo de vida no contexto da construção civil


O uso da ACV para a análise de ambientes internos visando melhorias na
saúde e conforto ocupacional é ainda mais reduzido devido à falta de conhecimento
com relação à sua aplicação nesses ambientes e à falta de correlação entre os avanços
tecnológicos e estratégicos na análise de áreas externas e internas. Comparações entre
a ACV e métodos tais como a Avaliação de Emissão de Materiais e a Avaliação de
Ambientes Internos foram realizadas de forma a considerar a viabilidade de aplica-
ção da primeira ferramenta no enfoque de aspectos ambientais ocupacionais
(JÖNSSON, 2000). Os resultados apontaram algumas limitações no uso da ACV,
tais como a dificuldade de alocação de diferentes efeitos às suas respectivas fontes –
com relação a emissões de poluentes – e a impossibilidade de inclusão de dados que
não sejam representativos ou que não possam ser previstos e quantificados.

Apesar das limitações averiguadas, sua aplicação na avaliação ambiental de


sistemas e elementos construtivos possibilita uma análise mais detalhada e crítica da
etapa de especificação de materiais e a promoção de melhorias ambientais, e muitas
vezes econômicas, nas diversas etapas do ciclo de vida do sistema considerado.

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