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ABIM 005 JV Ano XII - Nº 105 - Jan/19

Os Calendários
e sua utilização
na Maçonaria
Editorial
O termo latino “calendas” origina-se do
romano “calendae” que, no antigo calendário romano,
representava o primeiro dia de cada mês. Na época,
existiam três dias fixos: calendas, nonas e idos.
Calendas, como o primeiro dia do mês, quando ocorria
a Lua Nova; nonas, originalmente, dias em que a lua
estava na metade de sua fase crescente, mais tarde,
passaria a ser considerado o quinto ou sétimo dia do
mês; idos, que, em português, significa “meados”,
como o décimo terceiro ou décimo quinto dia do mês,
conforme o mês. Dos “idos” é que provém a expressão
“nos idos de setembro”, para expressar uma data para Atualmente, o calendário adotado na maioria
a segunda metade do mês. do mundo é o “Gregoriano”, que, aconselhado pelos
astrônomos, foi promulgado pelo Papa Gregório XIII, a
De “calendas” surgiu a expressão latina, fim de compensar, naquela época, a diferença de dias
“calendas gregas”, que indica algo que, jamais, acumulada pelo Calendário Juliano. Ocorreu em uma
ocorrerá, pois, as calendas eram inexistentes no quinta-feira, 04 de outubro de 1582, seguido da sexta-
calendário grego. A expressão “ad kalendas graecas feira, 15 de outubro de 1582, através da bula “Inter
soluturos”, ou seja, “aqueles que pretendem pagar nas gravíssimas”, sendo adotado, imediatamente, pela
calendas gregas” é atribuída pelo escritor historiador Espanha, Itália, Portugal, Polônia e, posteriormente,
romano Caio Suetônio Tranquilo (69 d.C. a 141 por todos os países ocidentais. Portanto, na história,
d. C.), em seu livro “Vida dos Dozes Césares”, ao jamais, existiu o período de 05 a 14 de outubro de
imperador Augusto, que a teria usado, frequentemente, 1582.
para indicar aqueles que não pretendiam pagar
suas dívidas. Esta mesma expressão é, também, Este preâmbulo, a título de curiosidades,
popularmente conhecida por “Dia de São Nunca”. tem como objetivo precípuo despertar o interesse
de nossos leitores, a fim de envereda-los no temário
O termo “calendas”, que até o século XIII, na desta edição – Os Calendários e Sua Utilização na
língua portuguesa, era empregado para denominar o Maçonaria”. As matérias, criteriosamente, selecionadas
primeiro dia do mês, deu origem ao termo “calendário”, não visam esgotar o assunto, mas servir de um
um sistema para contagem e agrupamento de dias, aperitivo, estimulando-os a mergulhar em pesquisas
que visa a atender, principalmente, às necessidades e apresentar em suas Lojas, durante o ¼ de Hora de
civis e religiosas de uma cultura. A palavra deriva Estudos, uma Peça de Arquitetura, a fim de elucidar os
do latim calendarium, significando “livro das contas demais Irmãos sobre o tema.
diárias”, mais tarde, seu significado passou a ser “livro
de registro dos dias do ano”. Matérias como “A História dos Calendários”,
do historiador Rainer Sousa; “O Calendário Maçônico”,
Antes do Imperador Júlio César criar o do Irmão Paulo César Lima Tigre; “Como a Maçonaria
calendário, que ficou conhecido por “Calendário Usou e Usa os Calendários Maçônicos”, do ilustre
Juliano”, o antigo calendário romano era lunar e tinha Hercule Spoladore; “A Expressão ‘Era Vulgar’ e o
início nas “calendas”, primeiro dia do mês, quando Calendário Maçônico”, do meu querido Confrade na
ocorria a Lua Nova. Neste dia um dos pontífices Academia Maçônica de Letras do Mato Grosso do Sul,
convocava o povo no Capitólio, para informar as Antônio Carlos Rios, abrilhantam esta edição e servem
celebrações religiosas daquele mês. O pontífice como luz, a fim de iniciarmos mais um ano em busca
mencionava, um por um, os dias que transcorreriam de nosso aperfeiçoamento.
até as “nonas”, repetindo, em voz alta, a palavra “calo”,
que significa “eu chamo”. Encontrar-nos-emos na próxima edição!

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AHistória dos
Calendários
Rainer Sousa

D
esde muito tempo, os homens buscam formas Lua durava, apenas, 28 dias. De tal modo, diversos
para estabelecer a passagem do tempo. Já povos realizavam o acréscimo intencional de alguns
no período Paleolítico, os grupos humanos dias para que as estações estivessem próximas das
realizavam suas medições de tempo olhando medidas de tempo empregadas.
atentamente as variações regulares ocorridas com o
Ao longo da Antiguidade, o interesse em
Sol, a Lua e as estrelas. Em um primeiro momento,
se aprimorar os primeiros calendários teve ligação
o ciclo do Sol – marcado pelas variações entre a
próxima ao desenvolvimento das atividades agrícolas.
claridade e a escuridão – foi empregado na contagem
Afinal de contas, era necessária a constituição de
dos dias e das noites. Tempos depois, as variações
uma medição de tempo precisa e adequada para o
da Lua – com suas respectivas fases – determinaram
planejamento das várias atividades que envolviam
a concepção de períodos maiores.
o plantio, a colheita e o armazenamento dos grãos.
Com a observação dos movimentos Ao mesmo tempo, os calendários eram úteis na
lunares, foi possível estipular a criação dos meses programação da caça, dos ciclos de migração e na
e, com base na variação das estações, tínhamos promoção de festividades religiosas.
a consolidação dos anos. Nesse primeiro tipo de
Os egípcios organizavam seu calendário
calendário, vemos que a contagem do ano se tornava
a partir de um ano dividido em três diferentes
um grande problema, tendo em vista que o ciclo da
estações, que eram formuladas a partir da variação
das águas do Nilo. Eles trabalhavam basicamente
com as estações das inundações, da semeadura
e da colheita. Como eles precisavam antecipar
a ocorrência de cada uma dessas épocas, a
constante observação das estrelas, também, servia
como referencial. Já no século V a.C., os egípcios
adotavam um calendário com 365 dias e subdividido
em 12 meses com 30 dias.

Há mais de 5000 anos, os sumérios


formularam um calendário de 360 dias e 12 meses
inspirado no sistema hexadecimal, que ordenava
seu sistema numérico. Tendo a variação da lua

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como referência, os astrônomos perceberam que o relação ao ano solar, no ano de 1582. Por tal motivo,
seu calendário tinha uma defasagem de 11 dias em o papa Gregório XIII organizou uma comissão de
relação ao ano solar. Com isso, o seu calendário era astrônomos e matemáticos que resolvessem esse
acrescido de um mês com trinta e três dias a cada problema de maneira definitiva. Ainda hoje, esse é
três anos. Dessa forma, as estações alinhavam-se o calendário de proporção mais exata, gerando uma
aos ciclos da Lua. defasagem de um dia a cada 3532 anos.

Na Grécia Antiga, a questão da autonomia Mesmo sendo tão funcional, devemos nos
das cidades-estado acabou gerando uma grande lembrar de que a adoção universal do calendário
confusão entre os calendários utilizados por aquele gregoriano nunca chegou a se concretizar. Países
povo. Cada cidade tinha um critério próprio para de religião ortodoxa, islâmica e oriental, ainda,
adicionar um décimo terceiro mês regulador do ciclo mantém antigos calendários que organizam as suas
anual. Por volta de 500 a.C., foi que os astrônomos manifestações religiosas ao longo do tempo. De fato,
gregos começaram a se reunir com a intenção vemos que os elementos de ordem cultural, ainda,
de utilizarem um mesmo padrão de tempo para a resistem mediante os argumentos econômicos e
adoção do décimo terceiro mês. No século IV, o Ciclo políticos que demandam de calendários precisos e
Calíptico ofereceu um dos paradigmas de tempo mais universais.
precisos daquela época.

Os romanos foram os primeiros a estudarem


medições de tempo que se aplicassem a todo seu
extenso território. No século I a.C., o imperador Júlio
César requisitou os serviços do astrônomo Sosígenes
para que toda a civilização romana utilizasse um
mesmo calendário solar. Para que essa regulação
fosse feita, o ano de 46 a.C., contou com 445 dias e,
por tal motivo, ficou sendo historicamente conhecido
como o “ano da confusão”.

Apesar do alcance desse padrão, o calendário


de Júlio César – convencionado como o calendário
Juliano – apresentava uma defasagem de 10 dias em

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O
Calendário
Maçônico
Paulo César Lima Tigre

A
Maçonaria tem por base sua doutrina natural. fases da lua, e os meses regem-se pelo ciclo lunar
Todos os seus símbolos e ações se baseiam (semelhante aos hebreus, com algumas distorções
na natureza, seus ciclos e mistérios, por para poderem ser encaixadas festas e ritos
sabermos que pertencemos a essa mesma natureza, simbólicos).
e que contrariar suas leis seria contrariarmos a nós
Seu início remonta a 4.000 ciclos (anos)
mesmos, nossas próprias leis internas e de vida.
antes de Cristo. Portanto, devemos acrescentar à
Em vista disso, acompanhando os fenômenos Era Vulgar, 4.000 anos. Diversas hipóteses existem
naturais, tanto de nosso planeta como do universo, para explicar esse número: o calendário hebraico
elaborou-se o Ano Maçônico, ou Ano da Verdadeira inicia-se 3.761 anos antes de Cristo, antes da saída
Luz. dos judeus do Egito. Um bispo, certa feita, durante
a Idade Média, tomando por base a cronologia
Devemos nos lembrar, sempre, que nossa
bíblica, definiu o início da Terra em 4.000 anos antes
Ordem iniciou no hemisfério Norte, e que, por isso,
de Cristo. Hoje sabemos que a Terra é muito mais
todos os parâmetros naturais (inclusive a abóbada
antiga. Mas, e a cronologia da Bíblia, por qual acaso
celeste) são os da metade norte de nosso mundo.
inicia 4.000 anos antes de Cristo? Os egípcios, com
A vida se inicia na Primavera, depois de estar sua ciência de Geometria e Arquitetura surgiram
adormecida durante o gélido inverno. Nada mais justo nesse período, mesopotâmicos, com os primeiros
que o ano natural, também, aí comece. Seu primeiro escritos cuneiformes achados, as mais remotas
dia é o 21 de março, Equinócio de Primavera, provas de civilização chinesa, as primeiras (e mais
também chamado Ponto Gama (o equinócio de belas) pirâmides Maias, Stonehenge, na Inglaterra,
outono, em 22 de setembro, chama-se Ponto Libra). com seus enormes menires dispostos em círculo
Este ponto marca exatamente a linha que e uns sobre os outros, foi erigido 4.000 anos antes
forma o Equador Terrestre, dividindo a Terra em dois de Cristo. Parece que toda civilização inicia nesse
hemisférios, o do Norte e o do Sul. A linha e a data período. Interessante, também, evidenciar que toda
marcam o princípio e o fim do ciclo da Terra em torno ela inicia no hemisfério Norte, não há registro de
do Sol, e, também, marca o início e o fim do ano povos organizados (ainda) no Hemisfério Sul, talvez
Maçônico, ou Ano Adonhiramita. por serem pouco estudados.

Logo, os Anos Maçônico e Solar correm As lendas da Mitologia Grega, Romana,


paralelos um ao outro. Suas semanas são as Hindu, Budista, Nórdica, etc. remontam a essa época

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o início (nascimento) de seus Deuses. Segundo Os Ritos Maçônicos (principalmente o
Platão, se Atlântida tivesse existido, teria sido nessa Adonhiramita) adotam o ano da criação do mundo
Era. Seria algo de místico neste período? juntamente com o calendário religioso hebraico,
cujo ano inicia-se a 21 de março pelo calendário
O Calendário Hebreu (que deveria correr
gregoriano. Os meses do Calendário Maçônico
paralelo) é lunar, mas tem 7 meses com 30 dias e 5
assemelham-se muito ao Hebraico, apenas, variando
com 29, num total anual de 355 dias, havendo pois,
na grafia e pronúncia.
uma defasagem em relação ao ano Solar, de 10 dias.
Aí, a cada 19 anos Lua, seu ciclo coincide com o ano O ano civil começa no mês de Teshrit “Rosh
Solar. Durante esses 19 anos, a cada 2 ou 3 anos é Hashaná” – equinócio outonal (23/09), já o ano
acrescentado um novo mês com 30 dias, resultando religioso inicia-se em Nisan, no equinócio de vernal
com esse aumento um longo ano com 385 dias. Num (21/03). Há, ainda, no calendário um mês intercalar,
total de 7 dentro dos 19 anos, os dias passam de 355 entre Adar e Nissan, com a finalidade de compensar
para 385 dias, ficando corrigida a defasagem ocorrida a diferença entre o ano lunar e o solar. O Calendário
do Ano Lunar para o Solar. Esses anos “grandes” são Maçônico segue bem próximo a esse calendário,
chamados intercalares e são, entre os 19, o 3º, o 6º, acrescentando o número 4000 ao ano da Era Cristã,
o 8º, o 11º, o 14º, o 17º e o 19º. ou Era Vulgar, obtendo-se assim o ano da Verdadeira
Luz ou o Ano Lucis.
Os meses do Calendário Hebraico são:
1º - Nissan (30 dias); 2º - Jiar (29); 3º - Sivan (30); A Maçonaria criou novos calendários ou
4º Tamuz (29); 5º - Ab (30); 6º - Ellul (29); 7º - Tisri modificou os já existentes gerando dessa forma
(30); 8º - Chesvan (30); 9º - Kislev (30); 10º - Thebet calendários particulares que podem variar de acordo
(29); 11º - Schevat (30); 12º - Adar (29), e o 13º, com o Rito ou com a Potência. Vejamos alguns
intercalado, o mês de Veadar, com 30 dias. exemplos:

Calendario Maçônico
Lojas - Simbólicas Anno Lucis 4000 + Anno Lucis é o “Ano da Luz”. AD é o Anno Domine ou seja o ano calendário
AD vigente no mundo ocidental (ano de Nosso Senhor Jesus Cristo)
Real Arco - Anno Inventionis Anno Inventionis é o “Ano do Descobrimento” ou a construção do 2o. Templo.
Capitular 530 + AD Anno Benefacio é o “Ano da Benção” de Abraão por Melquezedeque.
Anno Benefacio
1913 + AD
Mestres Reais & Anno Depositionis Anno Depositionis é o “Ano do Edificação” ou finalização do Templo de
Secretos - Cripticos 1000 + AD Solomão.

Cavaleiro Anno Ordinis AD - Anno Ordinis é o “Ano da Fundação da Ordem”


Templário - 1118
Cavalheiresco

Rito Escocês Antigo Anno Mundi 3760 Anno Mundi, ou o “Ano Mundial”. É análogo ao calendário Judeu (com um ano
e Aceito + AD extra a ser adicionado após Setembro).

O tempo pode ser cíclico à imagem da em mudança. Mudança nossa da noite para o dia, ao
sucessão do dia pela noite, pode ser linear (Gênesis recebermos a Luz, do início ao fim de nossa senda
– início e Apocalipse – final), pode ser cópia ou maçônica em busca da perfeição, logo, sendo por
imagem mutável e fenomênica da eternidade, qual forma medido (Régua 24 polegadas) ou não,
imutável e simultânea, que acolhe e transcende devemos, sim, aproveitar esse “eterno presente”,
a própria dimensão temporal (Platão); pode ser a como um instante de passagem para um ser, sempre,
medida de movimento conforme o antes e o depois mais evoluído. “Que o GADU nos permita que
(Aristóteles). Mas não importa a forma que se meça cada dia do nosso calendário seja um novo dia, um
o tempo, e sim a forma com que se perceba esse recomeço, iluminando a nós, aos nossos familiaraes
tempo, relativamente, o tempo pode ser resumido e a todos os Irmãos do universo”

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Como a Maçonaria
Brasileira Usou e Usa os
Calendários Maçônicos

Hercule Spoladore

O
calendário usado pelo Grande Oriente Adonhiramita, através de seu Grão-Mestre José da
Brasiliano era o calendário pseudo-hebraico Silva Paranhos (Visconde do Rio Branco). Em 1876,
ou Adonhiramita. (Não acrescentava à Era o Grão-Mestre, em exercício, Francisco José Cardoso
Vulgar o número 3760 e sim 4000). Entretanto, o Júnior, bem como seu sucessor, Luiz Antônio Vieira
Supremo Conselho do REAA de Montezuma, por da Silva, usaram o Calendário Gregoriano. A partir
muitos anos usou o calendário do Rito Moderno de 1889, o Grão-Mestre, em exercício, por poucos
ou Francês. Este Supremo Conselho, através meses (03 de novembro de 1889 a 24 de fevereiro
do Marquês de Caxias, que era nesta época seu de 1890) o Visconde de Jary, então, Grão-Mestre,
Soberano Grande Comendador, uniu-se ao Grande usou o Calendário do Rito Moderno ou Francês. Seu
Oriente do Brasil, em 1855, e é possível que por sucessor, o Marechal Deodoro da Fonseca, voltou a
influência deste, o Grande Oriente do Brasil, em 1º de usar o Calendário da Era Vulgar.
janeiro de 1856 adotou, como oficial, o calendário do
Somente, a partir de 09 de fevereiro de
Rito Moderno.
1892, quando assumiu, como Grão-Mestre, o irmão
Entretanto, segundo pesquisas do Irmão Joaquim de Macedo Soares, o Grande Oriente
Kurt Prober, analisando documentos da época, o do Brasil voltou, definitivamente, a se utilizar do
Calendário do Rito Francês ou Moderno nem sempre Calendário do Rito Moderno ou Francês. Mais ou
foi devidamente seguido, havendo alternância de uso menos, a partir de 1898, o Supremo Conselho
com outros calendários conforme os Grão-Mestres da passou a usar o verdadeiro Calendário Hebraico,
época. mas, somente, nas patentes dos graus 31°, 32° e
33°, em substituição ao Calendário do Rito Moderno.
O calendário do Rito Moderno foi usado
desde a sua adoção oficial até 1863. Deste ano até Após o Primeiro Grande Cisma, em 1927, o
1870, quando foram Grão-Mestres os Irmãos Bento Supremo Conselho de Montezuma, levado pelo Irmão
da Silva Lisboa (Barão de Cayru) e seu sucessor Mario Behring, passou a usar o Calendário Hebraico
Joaquim Marcelino Brito, usaram, simplesmente, o para todos os Altos Graus. O Supremo Conselho
calendário da Era Vulgar, ou seja, o Gregoriano. Reconstituído, ligado ao Grande Oriente do Brasil,
continuou a usar o Calendário Hebraico, mas, após
No período de 1871 a 1876, o Grande Oriente o chamado “Compromisso de Pacificação”, em 11 de
do Brasil usou o calendário pseudo-hebraico ou novembro de 1952, além de os diplomas dos graus

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31°, 32° e 33°, passou a usar este calendário em Oriente Brasiliano, apreendendo moveis alfaias
todos os diplomas dos Altos Graus. e documentos, não só do Grande Oriente, mas,
também, das lojas que o compunham, ou seja,
A razão de tanta polêmica da Maçonaria
“Comércio e Artes à Idade do Ouro”, “União e
Brasileira a respeito das datas históricas, foi
Tranquilidade” e Esperança de Niterói”.
ocasionada pela má interpretação por parte de alguns
historiadores das atas das primeiras sessões do, A partir da leitura posterior dessas atas é que
então, Grande Oriente Brasiliano. Essas atas são em se iniciou a confusão. Alguns historiadores incautos,
número de dezenove e constituem o chamado Livro ao converterem as datas para a Era Vulgar, o fizeram
de Ouro da Maçonaria do Brasil. As dezenove atas convertendo através do calendário do Rito Moderno
vão desde o dia 17 de junho de 1822 (fundação) até e não do pseudo-hebraico ou Adonhiramita, que foi
o dia 25 de outubro de 1822 (fechamento da Ordem o calendário usado na fundação do Grande Oriente
por D. Pedro I, seu Grão-Mestre, em virtude das Brasiliano. Isto chega a ser um paradoxo, pois
brigas envolvendo Ledo e Bonifácio). se fundaram o Grande Oriente no Rito Moderno,
Graças à atitude do Grande Secretário do deveriam usar o Calendário do Rito Moderno. Mas
Grande Oriente Brasiliano, o Irmão Capitão Manoel como a Loja “Comercio e Artes”, Loja Primaz do
José de Oliveira (Irmão Bolívar), ter escondido as Grande Oriente, fundada, originalmente, em 1815,
atas (Livro de Ouro) quando D.Pedro I mandou que de sua divisão em três Lojas, possibilitou a
fechar o Grande Oriente, entregando-as, depois, na criação da primeira obediência brasileira, pertencera,
reinstalação do Grande Oriente, em 1831, então, anteriormente, ao Rito Adonhiramita, usaram este
com o nome de Grande Oriente do Brasil ao Vale calendário pseudo-hebraico. O que, inclusive,
do Lavradio, hoje, podemos, em detalhes, saber justifica o uso de nomes simbólicos, próprio Rito
de partes importantes da história da Maçonaria Adonhiramita, quando já estava se utilizando do Rito
Brasileira. Moderno.

Sabe-se que, em 25 de outubro de 1822,


*Compilação de trecho do trabalho com o mesmo título, do ilustre
D. Pedro mandou realizar uma devassa no Grande irmão Hercule Spoladore.

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A Expressão “Era Vulgar”
e o Calendário Maçônico

Antônio Carlos Rios

D
esde os idos mais antigos a humanidade utiliza- iniciaram seus cálculos a partir do período que o país ficou
se de certos referenciais para delimitar um sob o domínio de Augusto. Outros dizem derivar da palavra
determinado espaço de tempo. Os astrônomos latina “aes”, ou “aeris” (bronze), porque das medalhas e
servem-se de acontecimentos naturais ou fenômenos a moedas desse metal se deduzia a data do acontecimento
que se referem os seus cálculos, como as revoluções da notável, que serviu de começo a uma serie de anos. As
Lua, os equinócios e solstícios, os eclipses e a passagem palavras “era” e “época” tem certa relação entre si, mas,
dos cometas. contudo, são bem distintas: Era é o número de anos
decorridos desde certo acontecimento notável; época é
Os cronologistas e historiadores, servem-se,
o momento desse acontecimento. De todos os marcos
também, de certos acontecimentos que tiveram influência
de início que se poderiam escolher, nenhum seria mais
sobre o gênero humano. Designam-se as épocas
apropriado e natural do que o próprio começo do tempo,
enunciando os fatos notáveis a que se referem: criação do
isto é: o instante do ponto de partida da primeira volta
mundo, fundação de Roma e o nascimento de Cristo, entre
da Terra em torno do Sol, no princípio do mundo. Todos
outros.
os povos tomariam este instante se tivesse sido possível
Primitivamente, os tempos eram calculados em determiná-lo. Não o sendo cada povo adotou, como já
gerações: a Bíblia, por exemplo, conta dez gerações antes dissemos, uma Era: A dos Judeus funda-se na criação do
do Dilúvio e outras dez depois do Dilúvio. Já segundo mundo, segundo o Gênesis; a dos Antigos Romanos, na
Heródoto (grego, considerado o Pai da História) e a maior fundação da sua capital; a dos Gregos, no estabelecimento
parte dos autores da época, três gerações correspondiam dos jogos olímpicos; a dos Egípcios, na ascensão de
a cem anos. Posteriormente, possivelmente no século VIII, Nabonassar, primeiro rei da Babilônia, ao trono daquele
introduziu-se o uso das Eras, que consistiam no número Império; a dos Cristãos no nascimento de Jesus, o Cristo.
de anos civis de um povo que decorriam desde uma época
Já a expressão “Vulgar” tem origem no latim
notável, tomada como ponto de referência, e que dava o
“Vulgaris” ou “Vulgus” e, primitivamente, significava
nome à era adotada.
“pessoas comuns” ou seja, aqueles que não são da
Quanto à etimologia da palavra “Era”, é um tanto realeza. Isto, pelo menos, até meados do século XVI
controversa. Alguns indícios apontam que teve sua origem quando a palavra “Vulgar” passou a ter o significado de
na Espanha e, acredita-se ser a contração das iniciais algo “grosseiramente indecente”. Foram os judeus, no
A.E.R.A. encontradas nos monumentos antigos e que entanto, que substituíram o antes de Cristo e o depois
significam “Annus Erat Regni Augusti” (o ano do reinado de Cristo por antes e depois da Era Vulgar. Como a
de Augusto) ou “Ab Exordio Regni Augusti”, que significa Era Cristã, sob a denominação de Era Vulgar, é a mais
“Do começo do reinado de Augusto”, pois os Espanhóis empregada, serve de termo médio e de comparação

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que parece ser um pequeno arredondamento de quatro
anos entre os cálculos de Usher e o que foi adotado nas
Constituições de Anderson. O Ano Maçônico tem o mesmo
comprimento do Ano Gregoriano, no entanto, começa
em 1º de março – assim como o Ano Juliano que, ainda,
estava em vigor quando da redação das Constituições
de Anderson. No calendário Maçônico os meses são
designados pelo seu número ordinal. Assim, o dia 1º de
março de 2019 da E.´. V.´. seria o dia 1º, do mês 01, do
ano de 6019 da V.´.L.´., segundo Anderson.
Se por um lado existem claras referências nas
Constituições de Anderson a eventos calculados, segundo
a regra que citamos, por outro tal prática parece não
ter sido adotada como regra geral. Os antigos maçons
dos Ritos de York e Francês adicionavam 4000 anos
à Era Vulgar, conforme as Constituições de Anderson.
No entanto, Maçons do Rito Escocês Antigo e Aceito
utilizavam o Calendário Judaico, adicionando 3760 anos
à Era Vulgar. Já os Maçons do Arco Real utilizavam-se
da data de construção do segundo Templo, ou 530 anos
antes da Era de Cristo. Qualquer que seja o motivo que
tenha levado a tantas variações nos diferentes Ritos, um
com as outras, as quais podem se classificar em Eras
calendário maçônico é baseado na data de um evento
Antigas, as anteriores à Era Vulgar, e Eras Modernas, às
ou um começo, e estas referências eram usadas em
posteriores. A Era Vulgar, portanto, designa o Calendário
documentos oficiais das Lojas.
Gregoriano mundialmente adotado. Para entender como
a expressão “Era Vulgar” passou a ser empregada na As datas históricas são símbolos de novos
Maçonaria, é preciso lançar mão do Calendário Maçônico. começos, e não devem ser interpretadas como se já
O primeiro ano do Calendário Maçônico é o Ano da houvesse uma loja maçônica no Jardim do Éden. A ideia
Verdadeira Luz, Anno Lucis, em latim, ou, simplesmente, só foi concebida para se transmitir que os princípios da
V.´.L.´. ou A.´.L.´., como empregado na datação de antigos Maçonaria (e não a Maçonaria em si) são tão antigos
documentos maçônicos do século XVIII, e interpretado quanto à existência do mundo. Vejo que qualquer outro
como “Latomorum Anno” ou, como no texto original em significado maçônico para essas datas, não passam de
inglês, que serviu de base para esta pesquisa, “Age of um desejo dos primeiros maçons escritores de criar uma
Stonecutters” – que significa “Idade dos Cortadores de linhagem antiga para a Maçonaria, nos moldes de suas
Pedra”. imaginações.

A determinação do Ano da Verdadeira Luz teria No Brasil, há registros de que o GOB utilizava,
sido com base nos cálculos de James Usher, um bispo nos primórdios da Maçonaria Nacional, um calendário
anglicano, nascido no ano de 1581, em Dublim. Usher equinocial muito próximo do calendário hebraico, situando
havia desenvolvido um cronograma que começava com o início do ano maçônico, não em 1º de março, como
a criação do mundo, segundo o Livro de Gênesis, que sugere Anderson, mas no dia 21 de março (equinócio de
precisou ter ocorrido às 09 horas da manhã do dia 23 de outono, no hemisfério Sul) e acrescentando 4000 aos anos
outubro de 4004 a.C., com base no texto Massotérico da Era Vulgar, datando seus documentos com o ano da
(texto, em hebraico, que deu origem a vários capítulos da V.´.L.´.(A.´.L.´.). Desta maneira, o 6° mês maçônico tinha
Bíblia), ao invés do Septuaginta (antiga tradução grega do início em 21 de agosto (primeiro dia do sexto mês) e o 20°
Velho Testamento). dia era, portanto, 09 de setembro da E.´.V.´., como situa
um Boletim do GOB de 1874, isto segundo o Irm∴ José
Neste contexto, James Anderson fez constar
Castellani, em sua obra “Do Pó dos Arquivos”. O fato é que
em sua Constituição de 1723 a adoção de uma
datar pranchas e documentos maçônicos com o ano da
cronologia independente da religião, pelo menos, no
V.´.L.´. caiu em desuso, talvez porque hoje saibamos que
contexto britânico da época, com o objetivo de afirmar,
nosso sistema solar existe há mais de 4,5 bilhões de anos.
simbolicamente, a Universalidade da Maçonaria. Foi
Utilizar o Calendário Gregoriano e referir-se a ele como
aceito, portanto, que o início da Era Maçônica deu-se
E.´.V.´., é a pratica mais comum nos dias atuais.
4000 anos antes da Era Comum ou Vulgar. Nota-se o

Revista Arte Real nº 105 - Jan/19 - Pg 10

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