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TILLY, Louise A. Gênero, história das mulheres e história social.

Cadernos Pagu, Campinas, SP,


n. 3, p. 28-62, jan. 2007.

- “Isto não é um apelo para integrar a história das mulheres a uma outra história, o que poderia
significar apenas acrescentar materiais sobre mulheres e gênero sem analisar suas implicações,
mas é um apelo para escrever uma história analítica das mulheres e para vincular seus problemas
àqueles das outras histórias.” (p.29) - Ao discutir o caráter interpretativo e descritivo reincidente
nos estudos da História Social das Mulheres, Louise levanta a necessidade de desenvolver
métodos e estudos mais analíticos dessa história a fim de conectá-la à História Geral. Isso é
feito no Plano de Trabalho do presente projeto de pesquisa “Discursos e Práticas Feministas
no século XIX e XX” ao conectar feminismo e abolição.

- “Este ensaio começa por considerar a maneira pela qual a história das mulheres se
desenvolveu, em que medida pode-se dizer que ela "se impôs" e quais foram suas maiores
contribuições. Examina, a seguir, o gênero como um conceito que levou tanto à uma
reorientação da história das mulheres quanto à novas preocupações no seu interior. Avalia
também, para a história, a utilidade das diferentes maneiras pelas quais o gênero foi
conceitualizado. Por fim, demonstra que uma história social voltada para uma análise de
problemas oferece uma possibilidade real de operar uma ligação entre conhecimento de
gênero, experiência das mulheres no passado e história em geral.” (p.29) A relevância de
conceitos como gênero, oferece uma análise mais precisa e completa da História Social das
Mulheres. Da mesma maneira, observou-se no curso da pesquisa “Discursos e Práticas
Feministas no século XIX e XX” a necessidade da conceituação de “onda” no âmbito do
feminismo.

- “Um aspecto da história das mulheres que a distingüe particularmente das outras é o fato de
ter sido uma história a um movimento social: por um longo período, ela foi escrita a partir de
convicções feministas. Certamente toda história é herdeira de um contexto político, mas
relativamente poucas histórias têm uma ligação tão forte com um programa de transformação
e de ação como a história das mulheres. Quer as historiadoras tenham sido ou não membros
de organizações feministas ou de grupos de conscientização, quer elas se definissem ou não
como feministas, seus trabalhos não foram menos marcados pelo movimento feminista de
1970 e 1980.” (p. 31) Nesse sentido, não seria também a luta das mulheres impossível de
ser desvinculada de uma busca por emancipação?
- “No âmbito deste artigo, a exemplo de Ellen Dubois e colegas, considerarei toda história
das mulheres como feminista e vinculada ao movimento feminista, pelo menos quanto às suas
raízes. Com efeito, é difícil estabelecer critérios apropriados e impossível, intelectual e
politicamente, determinar quem é ou não é feminista.” (p. 32) Ou seja, a escritora considera
que a luta das mulheres (por direitos de maneira geral) não só foi escrita a partir de
convicções feministas como também foi, de fato, uma luta feminista.

-“Este processo é cumulativo e interativo: para estudar a vida das mulheres no passado, os(as)
historiadores(as) se apóiam sobre as especialidades mais antigas, tais como a demografia
histórica para estudar os dados do estado civil, as ocupações e as migrações; a história
econômica para as transformações econômicas; a história social para os processos de
transformação estrutural em grande escala, como a profissionalização, a burocratização e a
urbanização; a história das idéias para os métodos de crítica dos textos; e a história política
para os conceitos relativos ao poder.” (p.34) Me serve metodologicamente. O nosso
trabalho, em especial o estudo da história social das mulheres, apoia-se na abolição da
escravidão, componente tradicional da história social ligado também a importantes
transformações político-econômicas.

- “O estudo de Ruth Bordin, Women and Temperance, mostra que as mulheres desprovidas
de direitos políticos formais puderam agir coletivamente no sentido de melhorar sua situação
ou resolver seus próprios problemas; ao mesmo tempo, ela revela as diferenças dos interesses
de classe e dos limites da avaliação dos problemas das mulheres da classe trabalhadora
empreendida pelas mulheres das classes médias.” (p.36) Como as parisienses lavadeiras (Os
Excluídos da História - p.288), as mulheres da classe trabalhadora, demonstram
solidariedade (sororidade) entre si. No entanto, há uma incompreensão, muito devido ao
abismo socioeconômico das mulheres burguesas para com as trabalhadoras. Isso
significaria dizer que as mulheres abolicionistas seriam exceção à falta de empatia com
trabalhadoras (escravas) ou seria uma ação em prol da família ou de sua própria inserção
no mundo político (e masculino)?

- “Clinton, Lebsock e Smith consideram atentamente as vidas das mulheres estudadas,


examinando até que ponto elas aceitaram as limitações sociais e políticas, como construíram
esferas de autonomia e de influência, e em que diferiram dos homens nas suas atitudes e no
seu comportamento. Nesses trabalhos, o princípio regulador essencial da história das
mulheres é a ideologia das esferas, com a esfera pública aberta somente aos homens e a
esfera privada enquanto espaço das mulheres.” (p.37) A sociedade abolicionista de mulheres
Ave Libertas é um exemplo de esfera de autonomia e influência das mulheres no Recife do
fim do século XIX, é uma maneira de quebrar a barreira social que limita mulheres da
esfera política. A ideia de esfera pública ser dominada pelos homens, e a privada pelas
mulheres, também é citada por Michelle Perrot (Os Excluídos da História, p. 167).

- “Estudando as mulheres celibatárias das classes médias e superiores da Inglaterra, Martha


Vicinus aceita a predominância desta ideologia, mas mostra como, instaurando instituições não-
mistas (escolas, "lares sociais", comunidades religiosas), algumas mulheres "organizavam seu
espaço e seu tempo quando tinham a oportunidade de fazê-lo. Um espaço controlado pelas
mulheres torna-se uma primeira experiência daquilo que se chamaria hoje de uma cultura
feminina."” (p.37) A religião e o engajamento em atividades filantrópicas em igrejas
contribuíram para a emancipação das mulheres, já que lhes proporcionava um ambiente que
ela poderia atuar mais livremente e tomar decisões. A própria Leonor Porto aparece como
membro chave de atividades do tipo (link ata de eleição igreja Diário de Pernambuco).

- “Em sua obra Ladies Elect: Women in English Local Goovernment, 1865-1914, com uma
abordagem um pouco diferente da separação das esferas, Patricia Hollis descreve as três mil
mulheres que solicitaram e obtiveram um mandado local na Inglaterra, antes da instauração do
sufrágio universal para as eleições nacionais. Ela escreve que "numa sociedade na qual poucas
mulheres das classes médias tinham um trabalho assalariado e poucos homens públicos tinham a
experiência da ação social ou da educação das crianças, as mulheres se sabiam depositárias de
competências e habilidades diferentes daquelas dos homens [...]. A separação das esferas, a idéia
de que somente as mulheres podiam atuar pelas mulheres, era uma linguagem utilizada pelas
mulheres que trabalhavam para as autoridades locais e estavam convencidas da sua igualdade
com os homens. Elas falavam assim da sua experiência prática e concreta, não da mística da sua
natureza profunda [...] elas afirmavam que as necessidades das mulheres tinham tanta importância
quanto as dos homens. A linguagem da separação das esferas lhes dava acesso ao espaço público,
que lhes permitia dizer isto."” (p.37-38) - A exemplo do que fizeram as mulheres que
compunham a Sociedade de Mulheres Abolicionistas Ave Libertas, as mulheres utilizavam o
fato de participarem de esferas sociais diferentes para reafirmar a sua importância na esfera
pública, já que podiam defender causas com um olhar diferenciado, tido à época como não
natural à figura masculina. No trecho, pode-se notar claramente a utilização de um discurso
conservador em prol de sua liberdade e emancipação: já se sabe por pesquisas prévias
(coletânea Nova História das Mulheres) que o acesso à educação das mulheres no mundo
afora começa sob a justificativa destas serem mães e esposas melhores. O mesmo parece
acontecer com a política. Isso também implica o questionamento: estariam essas mulheres
usando de discursos conservadores apenas para convencer os homens? Ou seriam elas mesmas
vítimas do seu tempo?

- “Ademais, o interesse de classe das mulheres das classes médias freqüentemente impedia que
elas compreendessem totalmente ou cooperarassem com as mulheres das outras classes ou raças.
Na sua própria obra, Women's Activism and social Change, Hewitt identifica, só na classe
média de Rochester, antes da guerra da Secessão, três grupos fundamentalmente diferentes de
mulheres ativistas. Seu ativismo político estava condicionado por sua pertinência de classe,
suas relações de gênero e pelos interesses que daí decorriam.” (p.38-39) A partir desse
trecho, podemos afirmar, a exemplo da própria Nancy Hewitt, que não existiria uma
“cultura feminina” já que também se observa no Brasil do fim do século XIX os interesses
de gênero subordinados a interesses de classe: a luta das mulheres burguesas não
contemplaria a luta das trabalhadoras, escravas e ex-escravas. Isso serve como argumento
para a restrição do feminismo das abolicionistas pernambucana (alcance limitado da
sororidade).

- “Outros trabalhos contestaram toda ampliação simplista da noção de cultura das mulheres para
além das fronteiras de classe ou de raça: [...] o estudo das mulheres escravas de Debora Gray
White, Aren't I a Woman? [...]. Estes estudos acentuam as diferenças e as variações entre as
mulheres; sua abordagem é, por isto, mais analítica. Ademais, eles sublinham as interações
existentes entre estes fatores e as transformações mais globais das estruturas políticas e
econômicas, mantendo sempre os atores sociais no centro do estudo. [...] White expõe o
desenvolvimento conjunto das solidariedades de raça e de sexo como recurso das mulheres
submetidas à "instituição muito especial." (p. 39) A leitura de White talvez contribua para a
análise das relações entre as mulheres abolicionistas e as criadas e escravas. O caráter
analítico da pesquisa em vigência (“Discursos e Práticas Feministas em Pernambuco no
século XIX e XX”) é reafirmado nesse trecho, dado ao seu caráter comparativo e inserido no
contexto da abolição.

-“Por exemplo: em que condições as mulheres construíram e modelaram os movimentos


sociais; em que medida tal ou tal grupo de mulheres lutou pelos seus direitos; quais mulheres
gozaram de estatutos sociais mais elevados (como definí-los?) e quais eram os fatores que
contribuíram para esta situação; de que atividades as mulheres eram excluídas, e em que
circunstâncias pode-se observar uma maior ou menor exclusão? A resposta se encontra na
utilização do gênero enquanto categoria de análise histórica.” (p.42) Nosso estudo é
analítico, serve-me metodologicamente.

- “A socióloga Ann Oakley evidenciou com muita clareza, em 1972, a diferença entre sexo e
gênero. Ela escreve: "'Sexo' é uma palavra que faz referência às diferenças biológicas entre
machos e fêmeas [...]. 'Gênero', pelo contrário, é um termo que remete à cultura: ele diz
respeito à classificação social em 'masculino' e 'feminino' [...]. Deve-se admitir a invariância
do sexo tanto quanto deve-se admitir a variabilidade do gênero."” (p.42) Conceito e
diferenciação de gênero, levado em consideração nos estudos atuais da História Social da
Mulher. Fins metodológicos.

- “[...] Natalie Z. Davis apontou uma nova fase da história das mulheres, que teria por
objetivo "compreender a significação dos sexos, dos grupos de gênero no passado histórico."
Joan Kelly propôs uma periodização em termos de relação, que estudaria os efeitos das
transformações tanto sobre os homens quanto sobre as mulheres. Ela afirmou, em seguida,
que as mulheres formam efetivamente um "grupo social distinto", socialmente construído e
não "natural". E acrescentou, por fim, que toda teoria da transformação social deve levar em
conta as relações entre classe e sexo. A recomendação de Davis era a de dar mais atenção aos
novos aspectos da história das mulheres, fazendo descrições mais complexas e mais refinadas.
Kelly, por sua vez, estava mais preocupada com as transformações que a história das
mulheres poderia engendrar na história em geral.” (p.43)

- “Estes(as) historiadores(as) afirmam que as distinções dicotômicas exageram as diferenças,


minimizam as características comuns, definem e estabelecem hierarquias. Utilizando o gênero
como categoria conceitual, elas exprimem um engajamento político no sentido de promover a
igualdade dos gêneros e o acesso das mulheres tanto à autonomia individual quanto ao poder
político e econômico. Como os sociólogos, elas comparam homens e mulheres e suas
relações no decorrer do tempo; elas sublinham mais as variações do que as oposições; elas
estudam os processos de transformação mais do que o estado das coisas; e, pela sua utilização
do gênero e não do sexo como variável fundamental, elas rejeitam as análises causais
reducionistas.” (p.43-44) Utilizando o conceito de Oakley, ou seja, considerando a
variabilidade do gênero e a invariabilidade do sexo, a abordagem sócio-histórica do gênero
proporciona um olhar mais completo (enxergando o feminino e o masculino) sob as
transformações sociais. O olhar dicotômico (os sexos), por sua vez, tende a desconsiderar a
prática das mulheres ao longo da história.

- “Blewett demonstra que não há somente diferenças entre homens e mulheres quando são
confrontados com a industrialização, mas também entre as mulheres vinculadas à uma
economia familiar (neste caso, seu potencial de resistência é diminuído) e as mulheres
economicamente autônomas e, às vezes, empregadoras. ” (p.44) Quais eram as práticas
femininas das mulheres autônomas, a exemplo de Leonor Porto, que já sabemos ser
modista e frequentemente aparecer em jornais ofertando empregos na sua confecção? Que
impacto essas práticas tinham na emancipação delas?

- “Ela opõe a cultura masculina do trabalho, que "insistia na autonomia, na identidade


coletiva, na solidariedade, numa independência obstinada, no orgulho, no amor-próprio, no
controle do trabalho, no respeito à virilidade [...] e na lealdade mútua", e a cultura feminina,
na qual "as mulheres permaneciam mais isoladas umas das outras, carregando o fardo da sua
segunda jornada de trabalho em casa." [...] Todavia, quando a indústria tornou a empregá-las
na fábrica, mudando com isto suas condições de trabalho, as tabaqueiras desenvolveram uma
consciência própria dos seus interesses comuns e uma solidariedade, que formaram a base da
ação coletiva e de resistência.” (p.45) Patricia Cooper sobre tabaqueiros e tabaqueiras do
século XIX. Como percebido no trecho, a solidariedade (sororidade) advinda da
convivência comum é frequentemente observada entre as mulheres; nos lavadouros de
Paris, que concentravam diversas mulheres juntas, o poder de sua união chega a assustar
até o governo, que tenta sem sucesso compartimentar esses locais. (Os Excluídos da
História, p.226)

- “Numerosas são as historiadoras das mulheres que, tendo adotado os métodos da história social,
levaram seriamente em conta o problema do ator, que Abrams descreve como sendo "o
problema de encontrar uma maneira de dar conta da experiência humana, reconhecendo tanto
que a história e a sociedade são o produto das ações individuais, constantes e mais ou menos
intencionais, quanto que a ação individual, mesmo intencional, é modelada pela história e
pela sociedade." [...] De fato, a história descritiva das mulheres, mesmo quando utiliza a
abordagem da história social ou econômica, contribuiu amplamente para a revisão dessas
abordagens ao utilizar fontes, tais como documentos pessoais ou arquivos públicos, que
revelam tanto as existências individuais quanto as coletivas (voltarei mais adiante a este
ponto).” (p.47-48)

- “Joan Scott propõe uma outra abordagem do gênero, mais literária e filosófica. Ela o considera
como um potente instrumento metodológico e teórico, e, em particular, politicamente útil às
feministas no sentido de ultrapassar a simples descrição. Sua recomendação provém da
insatisfação que provocam tanto uma "herstory" compensatória quanto a história social. Esta
última, diz ela, "reduziu as ações humanas a uma simples função das forças econômicas e faz do
gênero um dos seus numerosos subprodutos. [...] A história social pressupõe que seu próprio
quadro de explicação (econômico) permite explicar a diferença entre os gêneros; o gênero não é
um objeto que se deva estudar por si."” (p.47)

- “A história feminista, continua Scott, deve contestar "a pertinência das oposições binárias
entre homens e mulheres, no passado e no presente, e mostrar a real natureza política de uma
história escrita nestes termos [...]; [ela] não é mais, assim, a narrativa das proezas realizadas
pelas mulheres, mas a exposição do freqüentemente silencioso e oculto funcionamento de
gênero, constituinte, apesar disso, das forças que estão presentes na maior parte das
sociedades e que contribuem para definir sua organização."Para Scott, gênero, enquanto
categoria de análise, está centrado na significação, no poder e no ator: "gênero é tanto um
elemento constitutivo das relações sociais, fundado sobre as diferenças percebidas entre os
sexos, quanto uma maneira primária de significar relações de poder."” (p.48)

“Ela recomenda a desconstrução como método para contestar os paradigmas da história:


"uma historicização e uma desconstrução autênticas dos termos da diferença sexual, [...]
analisando no seu contexto a maneira pela qual opera toda oposição binária, revertendo e
deslocando sua construção hierárquica, ao invés de aceitá-la como real, como dado ou como
estando na natureza das coisas."Scott lançou um apelo audacioso para uma nova história
crítica e intelectual. Este apelo é importante para as feministas por chamar a atenção
diretamente para as relações de poder inscritas na linguagem, no comportamento e nos
dispositivos institucionais.” (p.49)

-“Para mim, como especialista em história social, a desconstrução é um método que abre
novas perspectivas para a nossa compreensão da produção cultural do passado, mas minimiza
ou rejeita os métodos e as questões decisivas que transformaram profundamente a prática
histórica e a história. A ênfase colocada no método e no texto (seja de um enunciado formal,
de uma "linguagem" ou de oposições binárias utilizadas pela língua corrente) me parece
subestimar a ação humana e fazer pender a balança na direção de uma super-estimação da
coerção social. Segundo Scott, isto seria um defeito da história social, o que a leva a procurar
alhures outros métodos e conceitos. Entretanto, por sua vez, ela não se arrisca a negligenciar
o ator quando recomenda um método que efetivamente o ignora? Scott preconiza um método
que coloca radicalmente em questão não somente as relações de poder, mas também a
existência de um mundo real e a possibilidade de descrevê-lo e explicá-lo.” (p.50)

-“Penso que para alcançar seus objetivos tanto no domínio do conhecimento quanto no do
político, a história das mulheres tem a necessidade de empregar os métodos de análise da
história social, além de usar a descrição e o conceito de gênero.” (p.51)

- “Ela escreve: "uma cidade bem escolhida é como um dos indivíduos históricos universais de
Hegel: ela pode estar na origem da transformação histórica ou representá-la [...]. Através de
Oneida County, numerosas transformações no seio da família e da sociedade poderiam ser
integrados ao contexto mais amplo da história americana."” (p.52) Mary Ryan no livro Cradle of
the Middle Class: The Family in Oneida County, New York, 1790-1865. Isso pode dar a
entender que as transformações na vida das mulheres e na sociedade, também no Brasil, parta
dos grandes centros e influencie o restante (onda?). Tal fato foi observado em alguns trechos
do livro Nova História das Mulheres, que mostra a vida rural mais atrasada do que a urbana.

- “A obra de Dolores Janiewski, Sisterhood Denied, oferece um discurso indireto da formação


mal sucedida de um classe trabalhadora que esbarra nas diferenças de raça e de gênero (e numa
poderosa oposição do capital e do poder local). "[...] Poucos indivíduos se julgam vinculados por
uma noção de classe tão nova quanto abstrata [...]. [...] Os homens que outrora tinham dominado
uma economia patriarcal de camponeses independentes, ou que não tinham jamais conseguido
estabelecer sua autoridade sobre os membros da sua família, insistiam em manter as mulheres
num estado subalterno. [...]” (p.53) Medo da inclusão das novas classes trabalhadoras (ex-
escravos e mulheres) leva o homem branco a colocar essas classes num lugar subalterno, no
caso da mulher, ainda que antes não o fizesse. Sentem-se ameaçados.

- “Acima de tudo, elas observam o mundo dos negócios através de uma objetiva sensível às
diferenças de gênero e "mostram como os homens da classe média, que procuravam ser alguém,
contar enquanto indivíduos por causa da sua riqueza, sua capacidade de comando ou sua
capacidade de influenciar os outros, eram, na realidade, dependentes do sustentáculo das redes
femininas e familiares que apoiavam sua ascensão social."” (p.54) Ideia recorrente (também
podemos ver em Os Excluídos da História, p.168) da mulher que influencia as decisões
políticas de seus maridos, que trabalha nos bastidores.

- “Tal como Ryan, essas autoras mostram como as mulheres foram projetadas na esfera pública
por causa da sua atividade no movimento de reforma evangélica, ainda que fossem oprimidas
tanto pelas estruturas quanto pelos hábitos que legitimavam a ideologia familiar formulada pelos
pregadores evangélicos.” (p.54) A igreja aparece como um primeiro passo rumo à cena pública.
Em Pernambuco, as mulheres abolicionistas aparecem como devotas e engajadas em
atividades paroquiais, por exemplo.

- “Tendo as mulheres desempenhado um papel importante em todo este processo de mobilidade,


elas demonstram que examinar somente o trabalho e/ou a educação dos pais e dos filhos é
insuficiente para determinar a direção e o ritmo da mobilidade social.” (p.54-55) Demonstra
a importância do olhar sobre as relações de gênero para a História Social.

- “A formação das classes é um problema ao qual a história analítica das mulheres trouxe
recentemente uma grande contribuição. Três outros problemas familiares à maior parte dos
historiadores foram tratados de maneira analítica pela história das mulheres. São estes o
nascimento e o declínio da protoindústria, as condições de variação da divisão sexual do trabalho
e seu contexto mutante, a forma e os objetos das políticas sociais.” (p.56) Me serve
metodologicamente.