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Ascensão do Império Otomano: a História do


Estabelecimento do Império Turco através do Oriente
Médio e Leste Europeu 
por Charles River Editora

Imagem da bandeira Turco-Otomana




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Introdução

Gravura do Século XV do cerco otomano a Constantinopla

A Ascenção do Império Otomano


Em termos de geopolítica, talvez o evento mais fatídico da Idade Média tenha
sido o cerco bem-sucedido de Constantinopla pelos Otomanos em 1453. A
cidade havia sido uma capital imperial desde o século IV, quando Constantino o
Grande migrou o centro de poder do Império Romano para ali, efetivamente
estabelecendo duas metades quase igualmente poderosas do maior império da
antiguidade.
Constantinopla continuaria servindo como a capital do Império Bizantino até
mesmo após a metade Ocidental do Império Romano entrar em colapso no fim
do século V. Naturalmente, o Império Otomano também usaria Constantinopla
como a capital de seu império – após sua conquista efetivamente destruir o
Império Bizantino – e graças à sua localização estratégica, foi um centro
comercial por anos, e segue sendo nos dias de hoje sob o nome turco de Istanbul.
O fim do Império Bizantino teve um efeito profundo não somente sobre o
Oriente Médio, mas também a Europa. Constantinopla teve um papel crucial nas
Cruzadas, e a queda dos Bizantinos significava que os Otomanos agora
compartilhavam uma fronteira com a Europa. O império islâmico era visto como
uma ameaça pelo continente predominantemente cristão ao seu Oeste, e pouco
tempo foi necessário para que diferentes nações europeias entrassem em conflito
com os poderosos Turcos. De fato, os Otomanos lutariam contra Russos,
Austríacos, Venezianos, Poloneses, e ainda outros antes de entrar em colapso
como resultado da Primeira Guerra Mundial, quando eles participaram das
Potências Centrais.
A conquista otomana de Constantinopla também teve um papel decisivo no
surgimento do Renascimento na Europa ocidental. A influência do Império
Bizantino garantiu que ele fosse o proprietário de vários textos antigos, em
especial dos antigos gregos, e com a queda de Constantinopla, refugiados
bizantinos fugiram para o oeste buscando abrigo na Europa. Estes refugiados
trouxeram consigo livros que ajudaram na ignição do interesse pela antiguidade
que serviu de combustível para o Renascimento Italiano e essencialmente causou
o fim da Idade Média como um todo.
A Ascensão do Império Otomano: a História do Estabelecimento do Império
Turco através do Oriente Médio e Leste Europeu narra o desenvolvimento de um
dos impérios mais influentes da história. Junto de gravuras de personagens,
lugares, e eventos importantes, você aprenderá sobre a ascensão do Império
Otomano como nunca antes.
A Ascensão do Império Otomano: a História do Estabelecimento do Império
Turco através do Oriente Médio e Leste Europeu 
Sobre a Charles River Editora
Introdução
Anatólia e o Império Bizantino
Os Otomanos
A Ascensão e Reinado de Osman I
Expansionismo
Murad I, o Primeiro Sultão
Bayezid I
O Interregno Otomano
A Queda de Constantinopla
Recursos On-line
Bibliografia
Livros Gratuitos da Charles River Editora
Livros em Oferta da Charles River Editora


Anatólia e o Império Bizantino
Anteriormente à existência do Império Otomano, haviam dois poderes
dominantes na área, ambos os quais os Otomanos precisaram conquistar para
poder se transformar num império.
O Império Bizantino existiu por mais de mil anos com uma história datando
desde a divisão do Império Romano em 395 até a conquista de Constantinopla
em 1453. Se formou do anterior Império Romano Oriental e durante sua longa
existência, os habitantes Bizantinos se orgulhavam bastante de considerar-se
romanos. Entretanto, muitas coisas mudaram durante o longo período de vida do
Império Bizantino, começando com o helenismo no século VI. O uso da língua
latina diminuiu e o grego a substituiu, enquanto que a cultura tipicamente
romana deu lugar a uma mais helenística. O helenismo de Bizâncio foi
prejudicial ao relacionamento com o Sacro Império Romano-Germânico, e o
mundo cristão, daquele ponto em diante, estaria dividido em dois. O
fortalecimento da Igreja Ortodoxa causou o surgimento de muitas guerras civis e
conflitos através dos séculos, que destroçaram e redefiniram o território uma vez
após a outra. Ao final da existência do Império Bizantino, sua velha idade já
havia enfraquecido ambos o Estado e a igreja, fazendo-o um alvo fácil para
forças invasoras.
Um destes grupos invasores foi, dentro outros, os Seljuks falantes de turco,
liderados através de uma série de batalhas por Kutalmishouglu Suleiman que
apoiava diferentes usurpadores contra o imperador Bizantino. A expansão dos
Seljuks foi bem-sucedida e quando Suleiman morreu ele havia colocado toda a
Bithynia sob seu controle, bem como várias cidades portuárias importantes ao
longo das margens do lado asiático do Bósforo. Com essa conquista, ele
conseguiu separar os bizantinos residentes na Anatólia de seu imperador em
Constantinopla. Isso imediatamente enfraqueceu a unidade do Império
Bizantino.
Quando outro exército invasor muçulmano tomou controle do que hoje é a
Síria, Israel, e o Norte da África, o desmembrado Império Bizantino perdeu
porções significativas de terra, mas ao mesmo tempo se transformou numa
unidade menor e mais forte. Foram necessárias várias lutas por poder e batalhas
em várias frontes para que o império recapturasse algumas das terras, apesar de o
controle sobre a Anatólia ser compartilhado com o Sultanado Seljuk de Rum.
Gradualmente, o Império Bizantino perdeu toda influência sobre a Anatólia e ao
fim do século XI, a cultura helênica e a língua grega foram substituídos pelo Islã
e a língua turca.
O Sultanado de Rum foi um estado independente no Império Seljuk e unificou
muitas tribos diferentes sob uma única liderança. Enquanto que o Império Seljuk
tenha sido fortemente influenciado pela cultura e língua Persa, o Sultanado de
Rum manteve suas tradições e raízes turcas e também demorou para adotar a
nova religião que se espalhava pela área, o Islã. Apesar do Império Seljuk não
ter durado por tantos anos quanto o seu vizinho Bizantino, ele foi crucial para a
unificação da área, assim formando o pavimento para a futura expansão dos
Otomanos e fazendo a transição de poder um pouco mais suave.
Ambos os impérios ainda existiam quando a semente otomana foi plantada no
que hoje é a Turquia ocidental. Conforme o Sultanado Seljuk de Rum aumentou
seu poder e absorveu mais e mais dos estados vizinhos, com portos em ambos o
Mar Negro e o Mediterrâneo, o Império Bizantino foi frequentemente invadido
tanto do Norte quanto do Sul. Ao seu auge por volta do fim do século X,
ocupava grandes extensões de terra na região da atual Bulgária, os Balcãs, o Sul
da Itália, partes da Romênia e a maior parte da Turquia. Povos nos estados
subjugados estavam insatisfeitos com a intemperança da Igreja Ortodoxa e a
violência com a qual ela os havia conquistado. O amargor dos Búlgaros e
Armênios fez sua lealdade oscilar, e eles não se opuseram fortemente quando os
Otomanos por fim chegaram.
Os Seljuks controlaram parte do comércio que passava pela estrada que se
estendia desde os portos de Gênova no Sacro Império Romano-Germânico,
através do Mar Mediterrâneo, dentro da Anatólia e adiante pela Estrada da Seda
pela Ásia Central até a China. Não somente mercadorias, mas também ciência,
medicina, filosofia e cultura foram trocados ao longo da rota, fazendo a área
próspera e progressiva. A troca multicultural teve impacto positivo em grupos
minoritários da região. Durante a conquista dos Seljuks e posteriormente do
Império Otomano, cristãos e judeus, na maior parte do tempo, não eram forçados
a se converter à fé islâmica. De fato, uma boa parte da população judaica
europeia fugiu da violenta expansão do cristianismo para territórios muçulmanos
na Anatólia. Era permitido a ambos cristãos e judeus praticarem sua religião
dentro da comunidade muçulmana, ainda que como cidadãos de segunda classe.
Em contraste, o Sacro Império Romano-Germânico combateu
implacavelmente crenças nativas, muçulmanos e judeus. No Leste, o Sultanado
de Rum manteve forte controle sobre a Anatólia e resistiu ao ataque de três
cruzadas enviadas pelo Sacro Império entre 1096 e 1192. Somente com a
chegada dos Mongóis que atingiram o sultanado em Erzurum no ano de 1242
que ele começou a declinar e despedaçar-se. Os turcos tiveram de fazer juras de
lealdade aos Mongóis enquanto o sultão fugiu para os Balcãs bizantinos. Após
sua morte alguns anos depois, o Sultanado de Rum foi dividido entre emirados
menores, chamados de beilhiques, um dos quais foi governado pela família
Otomana.
O confronto entre o Império Bizantino ortodoxo e o Sacro Império Romano
Germânico, de fé católica, persistiu, e ao invés de auxiliar seus irmãos cristãos
na luta contra os invasores belicosos, a Igreja Católica contribuiu para aumentar
as aflições bizantinas. O Papa Urbano II incitou seus devotos a peregrinar para a
Terra Santa de Jerusalém e retomá-la dos muçulmanos infiéis.

Gravura do Papa Urbano II realizando o chamado para uma cruzada
Isso levou à Primeira Cruzada em 1096, que teve um efeito prejudicial ao
Império Bizantino. Um resultado das longas cruzadas foi a fundação de vários
pequenos estados cruzados, povoados por Francos e Romanos dentro do seu
território. Estes estados interferiram sobre e atrapalharam o Império Bizantino,
enquanto utilizando de suas terras. O império teve de aguentar a passagem de
várias cruzadas, e ainda que a motivação dos cruzados fosse a de conquistar
Jerusalém e livrar as terras dos Seljuks, o comportamento desregrado das tropas
meramente levou à irritação e disputas entre os cristãos Ortodoxos e Católicos. A
terceira cruzada foi o ápice dessas disputas e o imperador Bizantino fez uma
aliança secreta com seus antigos inimigos. Os Seljuks, agora liderados pelo
infame Saladin, prometeu ajudá-lo a revidar contra o cruzado Frederick
Barbarossa. Após o Sacro Império Romano-Germânico descobrir essa armação,
a próxima cruzada levou ao Saque de Constantinopla em 1204, transformando a
capital em um estado cruzado sob governança católica. Ainda que
Constantinopla fosse mais adiante devolvida ao Império Bizantino, toda a
comoção criada pelas cruzadas durante esses 200 anos era irreversível. O
império já estava enfraquecido, e durante o século XIV, duas guerras civis fatais
reduziram seu poderio militar e gradualmente o fizeram um alvo fácil para os
inimigos ao redor. O início deste declínio de certa forma coincidiu com a
conquista Mongol dos Seljuks no século XIII, e toda a área tinha sido estilhaçada
e dividida pela metade do século XIV. Já que tanto os Impérios Bizantino como
Seljuk, além do Sultanado de Rum, haviam sucumbido a guerras externas e
internas durante esses séculos tumultuosos, o território estava praticamente
disponível para ser tomado por qualquer um determinado a restaurar a antiga
glória da região e construir uma nova instituição de império.
O momento favoreceu o preenchimento do vácuo de poder dos antigos
impérios pelo Império Otomano.
Os Otomanos
As origens do Império Otomano e da dinastia que o fundou estão cercadas por
lendas e mistérios. A mitologia ao redor de Osman I e seus familiares mais
íntimos criou uma imagem da dinastia, legitimando sua hereditariedade e direito
de reinar. Enquanto que parte seja verdadeira, muito também pode ser completo
exagero. Até mesmo a verdadeira origem da dinastia Otomana é foco de intenso
debate por historiadores modernos. A opinião geral é que os Otomanos
descendiam da tribo Kayi, uma ramificação dos turcos Oghuz. Isso nunca foi
mencionado em nenhum dos registros realmente escritos na época em que
Osman I viveu, apenas 200 anos mais tarde pela primeira vez, o que torna essa
afirmação altamente contestável. Escritores contemporâneos alegariam que
Osman descendia da tribo Kayi para o engrandecer.
A tribo Kayi era poderosa, próspera e desempenhava um papel importante na
região do Cáucaso, tanto na época precedente ao nascimento de Osman quanto
por centenas de anos após. Ligar a dinastia Otomana com tal tribo serviria de
incentivo para manter boas relações com a verdadeira tribo Kayi, e também
inflar a história sobre como a dinastia Otomana descendia de uma tradição
envolvendo poder e influência política. Também apoiaria o direito hereditário da
dinastia Otomana de governar a área. Ainda que isso jamais seja claramente
confirmado dentre historiadores hoje em dia, sabemos de fato que a família de
Osman era uma de muitos povos turcos Orghuz oriundos da atual área do
Cazaquistão ocidental, um pouco ao leste do mar Cáspio.
Dali, a tribo Seljuk dos povos Oghuz mudou-se para sudoeste, entrando na
Pérsia, e fundaram seu império, lentamente expandindo sentido oeste em direção
ao Império Bizantino. Quando o Império Seljuk se desintegrou, vários pequenos
estados foram formados em toda a Anatólia e o pai de Osman, Ertugrul, era o
governante de um deles. A lenda diz que Ertugrul e seu exército de 400
guerreiros montados a cavalo entrou acidentalmente em uma batalha entre dois
exércitos estrangeiros. Heroicamente, ele decidiu intervir e auxiliar o lado que
estava perdendo. Com sua ajuda, eles mudaram o rumo da batalha e venceram.
Ertugrul descobriu que estava lutando do lado do Sultão de Konya, da capital de
Rum, contra as forças invasoras dos exércitos Mongóis.
Como uma recompensa por suas ações, lhe foi presenteado um pedaço de terra
no noroeste da Anatólia, ao redor da vila de Sögut. A autenticidade dessa história
é, novamente, contestável, já que ela só foi escrita muitos anos depois. Não há
nenhuma evidência clara sobre como Ertugrul obteve posse sobre as terras que
governou, ou qual o seu relacionamento com o Sultanado de Rum. Tudo que
podemos dizer com certeza é que esse se tornou o embrião do Império Otomano,
conforme Ertugrul se estabeleceu, casou-se e mais tarde também teve um filho,
Osman. Isso aconteceu em algum momento na metade do século XIII, mas a
data exata do nascimento de Osman nunca foi gravada.
Durante os anos da infância de Osman, seu pai era o chefe de suas terras
presenteadas, mas também era subordinado a o Sultanado de Rum. Quando
Osman fez 23 anos, seu pai morreu e ele herdou o título e poder ganho por
Ertugrul. Chegava então, o fim do século XIII, do Sultanado de Rum, bem como
do Império Seljuk que estava em processo de desintegração. A ascensão e
expansão territorial de Osman ocorreu mais ou menos como uma consequência
natural, substituindo uma forma de poder por outra. Foi um processo gradual que
ocorreu por gerações, e a dinastia Otomana e as conquistas iniciais de Osman
foram apenas uma fração de quão imenso o império se tornaria. A necessidade
de expansão seria justificada nos anos mais tardios como uma forma de difusão
da fé muçulmana. A verdade sobre isso é um tópico contaminado dentre
historiadores modernos e difícil de se verificar. O Islã não é mais considerado
como força motriz nem para Ertugrul nem Osman. Ertugrul não era muçulmano,
mas muitos alegam que o sogro religioso de Osman o fez converter para a fé. A
história sobre como Osman se tornou um muçulmano devoto é de suma
importância para o legado Otomano. Ela inclui uma profecia onde Deus escolhe
Osman e seus descendentes para receberem glória e sucesso. Por séculos depois,
isso foi utilizado para legitimar o reinado contínuo de seus herdeiros. Também é
de Osman que provém o nome do império e da dinastia, viva até hoje. Osman é a
versão árabe do nome turco Uthman, ou Athman, tido por estudiosos como o
nome original de Osman. Seu nome foi modificado sob influência da cultura
islâmica árabe e persa, para indicar sua transformação em um muçulmano. Quer
Osman tenha sido religioso ou não, ele decidiu expandir para o território
bizantino e manter a paz com seus vizinhos turcos. Até a efetiva dissolução do
Império Seljuk, a dinastia Otomana não lutou contra outras tribos turcas.
A Ascensão e Reinado de Osman I
Tentar encontrar as origens e os descendentes da dinastia Otomana e do
próprio Osman nos dias de hoje é praticamente impossível. As fontes são
altamente contaminadas por propaganda, como factoides sobre a personalidade
de Osman, suas ações heroicas e o constante sucesso de suas ambições, escritos
no auge do Império Otomano e muitos anos após o seu reinado. Há
pouquíssimos registros reais de sua infância e sabemos muito pouco sobre seus
primeiros anos de conquista. Provavelmente porque àquela altura, o pai e
familiares de Osman não fossem considerados particularmente poderosos ou
influentes. Assim sendo, a falta de escritos contemporâneos sugere a falsidade
dos registros anacrônicos falando das visões de Osman e também da intervenção
heroica de seu pai contra o exército Mongol. A Anatólia consistia de vários
beilhiques naquela época, bem como de diferentes alianças entre tribos de toda a
Eurásia, Europa Oriental, Oriente Médio e lugares tão longínquos quanto a Ásia
Central. O número de interconexões e movimentações entre as diferentes tribos
são incontáveis, tornando ainda mais difícil apontar de maneira factual as
verdadeiras origens dos ancestrais de Osman. Quem quer que eles fossem
realmente, o que se pode dizer com segurança é que seus descendentes, usando
seu nome, seriam muito bem conhecidos tanto por historiadores quanto civis nos
séculos seguintes.
Como dito acima, Osman era o filho de um dos chefes tribais no noroeste da
Anatólia, na vila de Söguk em algum momento na metade do século XIII. O ano
exato não foi confirmado por nenhuma fonte fidedigna, porém 1258 é
geralmente mencionado como o mais provável. Presume-se que sua mãe tenha
sido Halume Hatun, mas até mesmo isso não foi confirmado com certeza, e
quase nada está escrito sobre quem ela foi. Sabemos com certeza que Osman
cresceu em sua cidade natal com dois irmãos, mas que até seu casamento com
Mal Hatun, não há muita informação sobre os locais por onde passou. Sendo o
primogênito de um chefe tribal local, Osman estava ciente do fato que um dia
herdaria a posição, e diz-se que ele aprendeu a cavalgar e lutar ainda quando
criança. A primeira história a ser registrada por historiadores do século XV do
Império Otomano é uma sobre como Osman tornou-se muçulmano. Foi durante
uma visita à casa de seu bom amigo, Xeque Edebali, um homem muito religioso,
que ele se deparou com o Corão. Osman se interessou e perguntou a seu amigo
de que se tratava o livro. Seu amigo, um homem religioso influente na
comunidade lhe disse que era o livro sagrado do Islã.
Osman permaneceu acordado durante a noite, lendo e lendo até não poder mais
manter seus olhos abertos. Ele adormeceu no momento propício da madrugada e
então sonhou com uma árvore, florescendo dentro de seu umbigo com ramos se
espalhando através do mundo todo. As pessoas em seu sonho estavam felizes e o
cenário era lindo. Quando ele acordou pela manhã, contou a Edebali sobre o
estranho sonho, e ele em troca explicou que como Osman tinha lido o livro de
forma tão intensa e honesta, Deus escolheu a ele e seus descendentes para serem
abençoados com glória e honra por muitas gerações ainda por vir. O Xeque
Edebali então lhe entregou contente a mão de sua filha, Mal Sultana, em
casamento, e em consequência do amor deles, muitos poemas foram escritos. A
união das duas famílias beneficiou grandemente a Osman de acordo com fontes
póstumas, pois o Xeque Edebali associava-se com dervixes muito devotos e
ascetas. Apesar dos dervixes não terem nem riquezas ou poder, o seu
relacionamento com Alá traria benefícios à dinastia Otomana. A história
contando que Osman foi o primeiro da família efetivamente a se tornar um
muçulmano devoto era importante para legitimar a tomada dos resquícios do
Império Seljuk.
O sonho de Osman não foi passado para o registro escrito até 200 anos mais
tarde, uma época na qual tal história seria de suma importância para manter o
Império Otomano unido. A história era valiosa para a unificação de emirados
muçulmanos distintos e dava a Osman o direito de conquistá-los. Outra tradição
que leva o nome de Osman é o cingimento da Espada do Islã, dada a ele por seu
sogro. Todos os sultões do Império Otomano eram cingidos com uma espada
cerimonial dentro de duas semanas de sua ascensão ao trono, ainda que não com
a mesma espada que Osman recebeu de Edebali. Novamente, essa é uma prática
que só foi introduzida quando o Islã já havia emergido como a ideologia
prevalente do Império Otomano, muito tempo após a morte de Osman, e mais
uma vez, a cerimônia era usada principalmente para inflar a importância
religiosa da dinastia.
No ano seguinte ao seu casamento com Mal Sultana, provavelmente por volta
de 1280, o pai de Osman morreu e deixou seu filho de 23 anos encarregado do
beilhique. O momento foi perfeito para Osman se transformar num conquistador
de fama mundial e fundador de um império. Ao seu Oeste, o Império Bizantino
caia aos pedaços e muitas cidades eram alvo fácil para os exércitos de Osman.
Ao Leste, Mongóis causavam destruição, contribuindo para o declínio do
Império Seljuk, e forçando muitos Turcos a fugirem de territórios sob cerco
mongol. Um grande número de guerreiros ghazi e potenciais soldados entrou no
emirado de Osman e estava contente em juntar-se na sua empreitada contra o
Império Bizantino.
A tradição dos guerreiros Ghazi foi comparada com a ideia dos cruzados ou da
jihad. A palavra significa “executar uma expedição ou ataque militar” em árabe,
mas alguns estudiosos também dizem que significava que o guerreiro ghazi
lutava para espalhar o Islã. Esse é outro fato debatido na pesquisa moderna, e
não existem fontes contemporâneas confirmando que Osman lutasse em nome
do Islã ou que fosse de fato um muçulmano devoto. Como mencionado, essas
implicações foram escritas muito tempo depois por historiadores religiosos em
uma época em que desejavam retratar o fundador do império como o homem
escolhido por Deus. O que se sabe sobre os guerreiros ghazi é que muito
provavelmente lutaram como mercenários e, portanto, mudariam de lado para
combater por quem quer que lhes pagasse mais no momento. Quaisquer que
fossem suas motivações, os guerreiros ghazi contribuíram importantemente para
o sucesso de Osman. Ele também adicionou a palavra Ghazi ao seu nome, como
também fizeram oito de seus sucessores. Se todos eles se definiam simplesmente
como conquistadores ou como homens religiosos, é impossível de se dizer. A
adição de Ghazi a seus nomes, de todo modo, indica suas intenções
expansionistas.
Após Osman se casar e seu pai falecer, ele já se tornara um líder absoluto do
beilhique, com um território estrategicamente importante e ligações familiares
prósperas através de seu casamento. O fluxo de guerreiros e refugiados fez de
Osman um governante de maior número de súditos que seu pai, e com mais
pessoas, mais terras eram necessárias. Expandir às custas do Império Bizantino
era uma solução lógica, e estima-se que ele começou sua campanha
expansionista no ano de 1288. Seus primeiros alvos foram duas fortalezas
próximas, Karacahisar e Eskişehir. Uma década mais tarde, em 1299, ele
conquistou as cidades maiores de Yarhisar e Bilecik do fracionado Império
Bizantino. Ele transformou Yarhisar na nova capital do beilhique e declarou
independência do Império Seljuk.
Àquele ponto, o governo central do império estava fraco e o sultão popular
tinha sido forçado a fugir de suas terras algumas décadas antes. Em seu lugar,
houve o caos e enfraquecimento do governo. O estado independente e recém-
criado de Osman estava organizado com um governo central forte nos mesmos
princípios do anterior Sultanado de Rum. Apesar de muitos nas periferias se
oporem ao reinado de Osman, ele rapidamente aliviou a cobrança de impostos
sobre seus novos cidadãos, o que os agradou e mudou sua opinião a respeito
dele. Ele precisava estabelecer confiança e lealdade entre as pessoas localizadas
o mais longe da capital a fim de estabilizar suas fronteiras, e a estratégia de
baixos impostos funcionou bem. Ele também foi o primeiro chefe tribal da área a
cunhar suas próprias moedas, o que aponta para a ambição de Osman de criar
uma entidade política maior e bem organizada.
Após a declaração de independência, Osman continuou a expandir para ambos
Sudoeste e Norte dentro do território bizantino, almejando controlar a área
inteira entre o Mar de Marmara e o Mar Negro. Ele conquistou cidades ao longo
da costa e os exércitos bizantinos desorganizados foram obrigados a recuar em
direção ao Bósforo. Em 1308 ele capturou a última cidade da costa do Mar Egeu,
Éfeso, e assim atingiu sua meta de dominar a região. Suas forças montadas
usaram várias estratégias militares criativas para derrotar os inimigos ao redor do
interior da Bithynia e lutaram em formações sempre surpreendentes. Durante
seus últimos anos de vida, ele também foi bem ajudado por seus filhos, em
especial o mais velho e herdeiro do trono, Orhan. Após uma vida inteira em
campos de batalha com seu pai, Orhan aprendeu e tornou-se mestre nas ideias
que regiam as táticas de Osman.
A última campanha bem-sucedida de Osman foi o cerco de Bursa, apesar de
seu filho estar no comando e Osman não participar pessoalmente. Orhan
demonstrou tenacidade e escolheu cercar a cidade ao invés de atacá-la e
conquistá-la por força. O cerco foi bem-sucedido e a cidade rendeu-se após dois
anos sob ameaça de morrer de fome. Essa foi a última e mais importante vitória
da expansão de Osman I dentro da Anatólia, não finalizada até o mesmo ano em
que Osman morreu, 1326. Após Bursa sucumbir ao reinado Otomano, outras
cidades da vizinhança seguiram o exemplo. Ela se tornou a nova capital sob
Orhan e um importante ponto de lançamento de novas expansões para o Oeste.
É difícil separar lenda de fatos a respeito de Osman, e pouco se sabe sobre suas
primeiras façanhas. Osman adquiriu um certo interesse de escritores
contemporâneos com a captura de Éfeso, e é essa a primeira ocasião em que ele
é mencionado em registros históricos de sua própria época. A partir de 1308 há
fontes confiáveis sobre como e o que ele conseguiu realizar, e a segunda metade
de sua vida é menos misteriosa que a primeira. As conquistas de Osman
tornaram-se importantes porque seu filho e neto deram prosseguimento às suas
ambições expansionistas e ao mesmo tempo incorporaram tolerância religiosa e
estabilidade política aos seus reinados. Ninguém poderia, naquele tempo, prever
o quanto o Império Otomano cresceria, apesar de pessoas já no princípio
refugiarem-se com Osman e preferirem ele a outros governantes. Quando o
Império Seljuk finalmente se desintegrou e entrou em colapso no ano de 1308, as
terras de Osman foram uma escapatória natural e adequada para fugir da
agressão mongol. Após sua morte aos 68 anos, seu filho, Orhan, continuou a
expansão muito além do que seu pai havia sonhado.

Imagem da tumba de Osman


Expansionismo
À época da morte de Osman e da ascensão ao trono de Orhan, existem fontes
mais confiáveis. É possível recontar algumas datas históricas e acontecimentos
corretamente, mas ainda assim, o reinado de Orhan é de certa forma glorificado
e exagerado pelos historiadores. Orhan provavelmente nasceu no ano de 1281,
sendo o único filho de Osman I e sua primeira esposa, Malhun Hatun. Antes de
Orhan conquistar Bursa em 1326 não se sabe muito a seu respeito. Ele já tinha
mais de 40 anos de idade quando Osman morreu e o deixou no comando de
territórios conquistados por ele, todos os quais foram então, junto com seu irmão
Alaedin, bem gerenciados. Allaedin era o segundo filho de Osman, com sua
segunda esposa, Rabia Bala Hatun, uma mulher de descendência árabe. Ainda
existem algumas opiniões divididas a respeito de qual dos dois irmãos era
realmente o mais velho, mas suas personalidades diferentes geralmente são
consideradas explicações naturais para sua divisão de deveres. Orhan se tornou o
chefe tribal como designado pelo seu pai, e mais tarde ele fez de Alaeddin o seu
vizir. Orhan era um homem militar, passando boa parte de sua vida adulta em
campanha através da Anatólia junto de Osman, enquanto que Alaeddin era
calmo, benevolente, pio e mais passivo, tendo recebido treinamento em
administração e comércio.
A afinidade entre eles é algo ímpar na família Otomana. Conforme o império
cresceu, aumentou também a sede por poder, e os irmãos de gerações sucessivas
brigaram ferozmente pelo trono. Em anos mais tardios, a morte de um sultão era
causa para guerra civil, e para assassinar seu irmão concorrente a sangue frio.
Alaeddin e Orhan, por outro lado, dividiam os deveres e colaboravam para
governar o beilhique apesar de Orhan estar oficialmente ocupando o trono. A
história de como os irmãos decidiram compartilhar o fardo é mais ou menos
fabricada para lhes iluminar de forma gloriosa. O nobre Orhan ofereceu o trono a
seu irmão que, de forma nobre, recusou dizendo que seu pai queria que Orhan
fosse o herdeiro. Orhan pediu a Alaeddin que se tornasse seu vizir, um título
inventado ali e que simplesmente significa “portador de um fardo”. Isso indica
que os irmãos sentiam que haviam herdado um fardo de responsabilidade pelas
conquistas de seu pai. Alaeddin aceitou o título e apenas solicitou uma pequena
extensão de terra próxima a Bursa, enquanto Orhan manteve o resto das terras
sob seu domínio. Registros mostram que Orhan frequentemente buscou o
conselho de Alaeddin para temas administrativos e para gerenciar ambas as
instituições civis e militares do Estado. Juntos eles desenharam um governo
fortemente centralizado que se tornou significativo para o Império Otomano e
modernizou aspectos políticos, econômicos e militares durante sua existência.
Antes da morte de Alaeddin em 1331 ou 1332, ele realizou importantes
contribuições para o governo de Orhan. Em 1329 ele sugeriu padronizar o
sistema monetário através de todo o beilhique, escolher uma vestimenta oficial
para os Otomanos e reorganizar o exército. Moedas com o nome de Orhan foram
cunhadas no mesmo ano, o branco se tornou a cor oficial das roupas modestas
vestidas por oficiais militares e governamentais, e o exército foi dividido em
esquadrões menores. Essa inciativa sugere que, provavelmente, anteriormente,
não houve nenhum modo similar de organizar os soldados, apesar de esse se
tornar o padrão futuro. Com unidades menores, cada uma liderada por um
oficial, era possível aplicar táticas e estratégias mais avançadas em batalhas de
campo. Esse sistema é geralmente creditado a Alaeddin em registros otomanos,
apesar de suas origens ainda serem debatidas. Ele também sugeriu formar um
exército que fosse apenas convocado em tempos de guerra, e, portanto, pudesse
contribuir para a sociedade de outras formas durante tempos de paz. Essa é, em
grande parte, a maneira como exércitos modernos usam seus soldados aos dias
de hoje, mas era uma nova ideia naquela época. O primeiro experimento falhou
sob o comando de Orhan, porque os exércitos não detinham o treinamento
militar quando necessário. Em gerações futuras, esses exércitos foram muito
úteis.
Orhan se casou pela primeira vez em 1299, o que resultou em dois ou três
filhos. Dois deles se tornaram famosos e muitas fontes confirmam suas vidas e
paradeiros. Suleyman Pasha era o mais velho e herdeiro aparente do trono. Ele
ajudou seu pai a expandir o emirado principalmente para o Oeste e Norte,
conquistando grandes pedaços de território bizantino. Após a queda de Bursa sob
domínio otomano, o comandante bizantino escolheu mudar de lados e servir a
Orhan, então suas forças se juntaram. Os exércitos de Orhan continuaram
atacando a costa Norte e Oeste ao redor do Mar de Marmara e o Bósforo. O
imperador bizantino Andronicus III não estava disposto a ceder sem lutar, e
estava determinado a parar o avanço de Orhan e reganhar parte de suas terras
perdidas.
A batalha de Pelekanon em 1329 consistiu na primeira vez em que exércitos
bizantinos confrontaram forças otomanas. O encontro terminou com uma terrível
derrota para os atacantes bizantinos, apesar de seus números e experiência em
batalha serem maiores que os dos otomanos. Fontes contemporâneas explicam a
humilhante derrota citando que o espírito bizantino já estava ruindo por conta de
conflitos civis, enquanto que a confiança dos turcos em ascensão os fez lutar
com maior vigor e convicção.
A batalha de Pelekanon marca um ponto essencial e significativo na história da
região. O Império Bizantino nunca mais tentou recapturar territórios perdidos do
lado asiático do Bósforo e, de certo modo, deixou que Nicéia e Nicomedia
fossem cercadas e eventualmente incorporadas no beilhique de Orhan. Ao ano de
1340, Orhan também tinha anexado o beilhique de Karasi, sendo essa a primeira
vez que ele escolhera marchar contra vizinhos turcos. Ele o fez porque o chefe
tribal havia falecido e seus dois filhos guerreavam um contra o outro pelo título.
Muitos soldados e civis já tinham morrido quando Orhan decidiu intervir com o
fim de trazer a paz. Um dos irmãos foi morto e o outro capturado, Orhan então
governando quatro províncias. A maior parte das cidades dentro do beilhique
eram pacíficas e muitos antigos cristãos rapidamente abraçaram o Islã sem serem
forçados. A região precisava ser estabilizada para que fosse criado um forte
aparato estatal que servisse de fundação para um império. Orhan colocou toda a
Bithynia e o canto Noroeste da Anatólia sob seu controle sem enfrentar muita
resistência da população.
Após a morte de seu irmão no começo da década de 1330, Orhan foi auxiliado
por seus dois filhos mais velhos, Suleyman e Murad, para continuar expandindo
o emirado. Em 1341, o imperador bizantino Andronicus III morreu e deixou um
sucessor de 8 anos de idade no trono. A guerra civil subsequente criou uma
oportunidade de ouro para os Otomanos marcharem mais adentro do império
decadente e causar dano irreparável. A queda do império ainda levaria mais um
século de conflitos políticos, mas já não havia mais nenhuma forma de restaurá-
lo à sua antiga glória. Uma guerra civil durando seis anos começou nos Balcãs, e
já que as terras de Orhan estavam em paz, ele decidiu seguir com investidas ao
Oeste tentando criar uma estrada Otomana para dentro da Europa.
O governador bizantino João VI Cantacuzeno, detendo a custódia do jovem
imperador e agindo como seu regente, reconheceu o potencial de Orhan e
formou uma aliança com o chefe tribal otomano. Ele lhe entregou a mão de sua
filha Theodora em casamento e então usou a ajuda de Orhan para usurpar o trono
e tornar-se Imperador Bizantino em 1347. Em troca, Orhan adquiriu o direito de
saquear a Trácia e ele começou a atacar a área regularmente através da península
de Gallipoli. Seu filho mais velho, Suleyman, assumiu comando dos ataques já
que Orhan estava se tornando velho e mais fraco. Os ataques surtiram efeito e os
otomanos ganharam ambas terras e riquezas, enquanto que o imperador
bizantino os deixou. Isso atraiu milhares de turcos destituídos de terras, que se
dirigiram ao oeste e juntaram-se às expedições de Suleyman. O imperador
bizantino não havia intencionado que os otomanos de fato se apossassem da
Trácia, mas isso foi, naturalmente, inevitável. Após Suleyman transformar
Gallipoli numa base permanente para suas incursões dentro da atual Bulgária,
não levou muito tempo até que João VI fosse mais ou menos forçado a entregar
as terras para a família de Orhan, uma vitória muito prestigiosa. Constantinopla
estava agora cercada por território Otomano, ainda que fosse reinada pelos
Bizantinos.
Ao final da vida de Orhan, seu filho mais velho morreu em um acidente, o que
minou toda a vitalidade de Orhan. Ele se afastou do poder e seus últimos anos
foram vividos tranquilamente em Bursa. Antes de morrer, seu filho mais novo –
que ele tivera com Theodora – Sehzade Halil, foi sequestrado por piratas na
costa do mar Egeu. Não está claro se eles sabiam quem estavam sequestrando,
mas, ao perceber, eles se refugiaram na fortaleza bizantina de Phocaea. Após
descobrir sobre isso, Orhan apelou ao co-imperador Andronikos IV que
resgatasse seu filho e prometeu em troca perdoar dívidas e retirar seu apoio à
família Cantacuzeno. Andronikos concordou e cercou Phocaea, terminando com
Orhan pagando 30,000 ducados pelo resgate de seu filho. Halil foi solto em 1359
e foi decidido que ele se casaria com mais uma princesa bizantina para fortalecer
os elos entre as duas dinastias. A família imperial esperava que Halil fosse o
herdeiro do beilhique já que o irmão mais velho Suleyman estava morto.
Suas expectativas se transformariam brevemente em decepção quando Murad
foi designado como sucessor ao trono e não o adolescente filho de Theodora.
Murad tomou o título e começou a governar o emirado após a morte de Orhan.
Orhan foi o líder com o reinado e a vida mais longos de toda a dinastia Otomana,
e morreu em 1362 à idade de 80 anos. Logo após a morte de Orhan, Murad até
mesmo causou a execução de seu meio-irmão sob acusação de tentar disputar o
trono. O jovem de 16 anos já havia se casado e produzido dois jovens filhos, que
ficaram sem um pai. Talvez esse seja o princípio da característica desconfiança
fraternal entre herdeiros ao trono otomano. Os primeiros sultões negligenciaram
a importância de formular uma ordem de sucessão, e somente mais de cem anos
mais tarde foram constituídas leis para tal efeito. Assim sendo, o trono estava à
mercê de qualquer dos filhos quando o sultão morria, apesar de geralmente
alguma forma de pré-arranjo ter sido feita entre as gerações. Uma vez morto o
pai, os irmãos tinham o hábito de desafiar um ao outro pelo trono. Após Murad
executar seu jovem irmão, muitos outros seguiriam seu exemplo.
Murad I, o Primeiro Sultão
Murad se tornava agora o governante inquestionável do beilhique de Osman, e
a primeira grande conquista atribuída a ele foi a de Adrianópolis, a terceira
cidade mais importante do Império Bizantino. Conforme novas fontes foram
descobertas em anos mais recentes, agora se debate quando foi que a conquista
efetivamente aconteceu, e quem é que de fato conquistou Adrianópolis. O
consenso geral é que Murad cercou a cidade em 1361 ou 1362, mas pesquisas
mais recentes indicam que 1367 ou 1371 são mais prováveis. Há também a
possibilidade que não foram os Turcos Otomanos que conquistaram a cidade,
mas algum outro grupo de guerreiros ghazi atuando na área. Também é discutido
a respeito de quando Murad mudou a sua capital da Bursa para Adrianópolis,
sendo a opinião geral que ele capturou a cidade em 1362, a renomeou de Erdine
e fez a nova capital em 1363. Outras fontes dizem que a cidade ainda pertencia
aos bizantinos em 1366 e foi conquistada na década de 1370 pelo segundo-
tenente de Murad, Lala Sashin Pasa, que também administrou a cidade por
algum tempo após tomá-la. A mesma fonte alega que Murad não entrou
pessoalmente na cidade até 1377, quando o imperador bizantino Andronikus IV
solicitou sua ajuda em uma guerra civil. Erdine era o centro militar dos
otomanos nos Balcãs, mas Bursa era considerada a capital até a conquista de
Constantinopla e a sua reconstrução para acomodar uma nova capital.
Murad I
Murad transformou o beilhique em um sultanado em 1383 e declarou-se
sultão. Sua mão direita, o segundo-tenente Lala Sahin Pasa, tornou-se
governador da província ocidental de Rumélia enquanto que Murad permaneceu
em controle sobre a Anatólia. Nesse ponto, ele também instituiu um exército, os
janízaros, e um sistema de recrutamento chamado Devshirme. Isso se deveu
possivelmente à reorganização militar, uma semente plantada por seu tio
Alaeddin uns 50 anos antes. Os janízaros formavam uma infantaria de elite leal
ao sultão. Sua missão era proteger apenas a ele, e durante batalhas estavam
sempre o mais próximo dele, formando um escudo humano. Originalmente
consistiam de escravos não-muçulmanos, principalmente garotos cristãos de
Bizâncio. Garotos judeus não eram levados como soldados e muçulmanos não
podiam, por lei, ser escravizados. Murad instituiu um imposto de um quinto
sobre todos os escravos ganhos através da guerra, e a ideia de apenas aceitar
garotos adequados para o combate era chamada de Devshirme, ou imposto de
sangue. Os escravos passavam por um treinamento muito rigoroso, primeiro
aprendendo a falar Turco e praticando tradições otomanas ao viver com uma
família escolhida pelo sultão. Os rapazes também eram forçados a converter-se
para o Islã, proibidos de crescer uma barba e viviam sob circunstâncias
monásticas de celibato. Eram supervisionados por eunucos e treinados em
escolas especiais, aprimorando suas habilidades pessoais. A principal diferença
entre esses e outros escravos é que eles eram pagos por seus serviços. Isso servia
como motivação e garantia a lealdade dos soldados.
Primordialmente, os janízaros foram uma instituição detestada pelas minorias
cristãs subjugadas. Os pais preferiam desfigurar seus filhos para que parecessem
fracos e não adequados para o Devshirme, ao invés de vê-los serem levados
embora. Mas o status dos janízaros melhorou. Eles se tornaram homens de
grande conhecimento e natureza asceta, favorecidos pelo sultão. Conforme eles
cresceram em número, também se tornaram muito influentes na capital e suas
habilidades como guerreiros os fizeram temidos muito além das fronteiras do
império. O corpo de janízaros foi o primeiro do seu tipo e de contribuição
fundamental para o sucesso militar otomano. À época do reinado de Murad,
eram bem menos respeitados do que seriam futuramente, apesar de terem
participado significantemente na conquista dos Balcãs.
Não somente a conquista de Erdine, mas muitos outros detalhes históricos da
vida de Murad são amplamente debatidos por historiadores hoje em dia. Apesar
de ser difícil comprovar a ordem consecutiva de certos eventos no sultanado em
rápida expansão, é certo que seu reino foi um período sangrento e de
crescimento, seguido por mais do mesmo com o seu sucessor. Durante a década
de 1370 seu segundo-tenente e fiel amigo Lala Sahin Pasa esmagou os exércitos
sérvios na batalha de Maritsa, apesar de estar em menores números. Usando
estratégias superiores e um ataque surpresa durante a noite, ele chegou perto de
aniquilar os sérvios e matar seu rei durante a campanha. Pouco sobrou do
Império Sérvio e as terras foram facilmente tomadas pelos otomanos. Eles então
voltaram-se para o Norte e começaram a atacar a fronteira Sul da Bulgária. O rei
búlgaro de certo modo cedeu e aceitou um status de vassalagem, algo que os
Sérvios, Macedônios e alguns dos governantes Gregos já haviam feito, apesar
dos Otomanos seguirem desrespeitando suas fronteiras. Após capturar ambas
Sofia e Nish ao ano de 1386, Murad foi forçado a retornar à Anatólia para
resolver crescentes problemas em sua província natal. Por conseguinte, os líderes
balcânicos amargurados formaram uma aliança e declararam guerra contra as
forças otomanas. Dois dos príncipes búlgaros, junto com o príncipe sérvio Lazar
e mais aliados de Kosovo, Macedônia e Bósnia venceram sua primeira batalha
contra os otomanos e retomaram Nish em 1388. Murad rapidamente respondeu
lançando novas campanhas em seus territórios recentemente capturados, o que
resultou na Batalha de Kosovo em 1389.
A Batalha de Kosovo foi o apogeu dos conflitos de Murad nos Balcãs e
transformou-se num banho de sangue com perdas significativas para ambos os
lados. Foi no meio do verão, em junho de 1389, que os dois rivais se
encontraram um pouco ao norte da atual cidade de Pristina nos campos abertos
de Kosovo. Registros da batalha em si são escassos, porém, historiadores
conseguiram reconstruir uma provável sequência de eventos graças a estratégias
registradas, números, e informações de outras batalhas similares.
As fontes sérvias e turcas frequentemente se contradizem, e tudo que é
recontado em livros de história modernos é baseado em suposições gerais do que
mais provavelmente aconteceu. Murad chegou apoiado por um beilhique vizinho
da Anatólia, e juntos eles compunham um exército de quase 40,000 homens. O
Príncipe Lazar da Sérvia tinha, junto com aliados de Kosovo e da Bósnia, um
exército de 30,000 homens. Conforme indicado por algumas fontes, também é
provável que os Cavaleiros Hospitaleiros da Croácia lutaram do lado sérvio, e
registros anacrônicos alegam que o exército sérvio era maior do que o de Murad.
Murad tinha ambos seus filhos junto de si, Bayezid e Yakud, cada um
comandando uma ala.
Inicialmente, parecia que os Sérvios prevaleceriam e que as forças otomanas
sofreram perdas pesadas durante as primeiras horas. Entretanto, em um frenesi
de sangue e vingança, Bayezid liderou sua ala em um contra-ataque dirigido aos
cavaleiros, cuja armadura pesada transformou-se um fardo durante sua retirada.
Bayezid massacrou um grande número de soldados sérvios, e o aliado do
Príncipe Lazar, Vuc Brankovic de Kosovo fugiu do campo tentando resgatar o
maior número possível de homens. Nessa altura, o Príncipe Lazar já havia
provavelmente sido morto ou capturado no calor da batalha. Por fim, não sobrou
muito de nenhum dos exércitos, o Príncipe Lazar da Sérvia morrera, bem como o
Sultão Murad. Há três histórias comuns sobre como ele foi morto – ou por Lazar
durante a batalha, ou por um assassino em sua própria tenda após a batalha ter
sido vencida. Não importando qual versão seja verdadeira, resultou no
estrangulamento de Yakud por seu irmão Bayezid naquele mesmo momento,
para que ele se tornasse o único herdeiro do trono. Assim sendo, ele seguiu as
pegadas de seu pai, que também iniciou o reinado assassinando o próprio irmão.
Após a guerra, os sérvios não tinham mais tropas suficientes para defender seu
território. Bayezid solicitou mais exércitos do Leste e, dentro de um curto
período de tempo, a maior parte dos principados tornaram-se vassalos dos
Otomanos.
Murad I morreu à idade de 62, e seus órgãos foram enterrados no campo de
batalha em Kosovo, enquanto que seu corpo foi transportado e enterrado em
Bursa. Seu legado incluiu muito mais do que novos territórios, e além da
reorganização militar, ele também criou o conselho de ministros chamado de
Divã, sobre o qual presidia o grão-vizir. Este se tornaria a entidade política
principal do sultanado. Ele uniu emirados menores em duas províncias maiores,
Rumélia e Anatólia, cada qual governada por um forte vizir provincial. A corte
militar também foi criação de Murad, e ele introduziu um sistema legislativo. Ao
mesmo tempo, ele expandiu o sultanado na Anatólia, mas, principalmente, para
o Oeste do Bósforo, incluindo a maior parte dos Balcãs e da Bulgária. Quando
ele morreu, deixou o sultanado pronto para o governo de seu filho Bayezid.

Bayezid I
Bayezid I
Parece que boa parte do trabalho pesado já estava feito pelo ponto em que
Bayezid subiu ao poder no Sultanado Otomano. O difícil primeiro século de
expansão e estabilização do novo estado já havia passado, e muitas das
instituições fundamentais foram formadas por Murad e Orhan. A força militar e
o governo foram eficientemente organizados e agora Bayezid precisava emular
seus predecessores. Após a batalha de Kosovo e a perda de milhares de soldados,
bem como seu pai, Bayezid seguiu atacando os Balcãs. Ele manteve as fronteiras
ao sul e forçou os príncipes da Albânia, Macedônia e Sérvia a se tornarem
vassalos. Ao casar com a filha do falecido Príncipe Lazar, ele estabeleceu um
novo elo com o irmão dela, o futuro déspota Stefan Lazarevic. Após apoiar a
Stefan, ele o deixou encarregado dos territórios balcânicos e voltou para
Anatólia a fim de resolver a inquietude em sua terra natal.
Em 1390 ele conseguiu conquistar seis beilhiques diferentes ao Norte e Leste
de seu território antes da chegada do inverno, marcando a primeira vez que um
governante Otomano decidiu anexar terras turcas. Em parte, por conta de suas
habilidades como guerreiro, e em parte por seu temperamento quente, que lhe
conferiram o apelido de Yildirim, relâmpago.
A anexação de terras na Anatólia não ocorreu sem consequências. Ambos
turcos leais à dinastia otomana e fora de seus territórios expressaram
insatisfação, e Bayezid buscou paz com o maior dos emirados – Karaman – em
1391. Ele estava utilizando fatwas, declaradas por eruditos islâmicos, para
justificar a expansão em territórios muçulmanos, mas já havia chegado ao ponto
máximo de seu avanço na Anatólia.
Após a negociação de paz, ele voltou-se para o Norte com algum sucesso, mas
ao final, foi forçado a retornar ao Oeste onde rumores de uma rebelião estavam
circulando. Foi o Rei da Hungria, Sigismund, que convenceu Ivan Shishman da
Bulgária, rei de um dos estados vassalos, e o governante da Wallachia, Mircea O
Velho, a entrar numa coalisão contra os Otomanos. Notícias da aliança chegaram
a Bayezid que, fazendo jus ao seu apelido, agiu de forma rápida e impiedosa. O
vassalo búlgaro levou a maior pancada de Bayezid, que recapturou as terras e
decapitou Shishman enquanto deixando o distante rei húngaro e a Wallachia para
serem tratados mais tarde. Bayezid teve de correr para o Sul a fim de resolver
disputas e uma rixa entre os senhores gregos sob seu domínio.
Após uma reunião bem-sucedida em Serre, no ano de 1394, ele reinstaurou seu
poder sobre os estados vassalos, e através de uma série de eventos também
conseguiu incorporar a cidade de Atenas a seus domínios. Nesse mesmo ano ele
cercou a capital bizantina de Constantinopla, que solicitou ajuda ao Reino
Húngaro. O cerco durou oito anos, e durante a maior parte dele, Bayezid teve de
continuar guerreando em outras fronteiras de seu sultanado.
Uma das últimas grandes Cruzadas foi lançada em 1396 pelo Papa Bonifácio
IX. O momento era perfeito para que os reinos europeus se unissem e formassem
uma ameaça forte aos turcos. A Guerra dos Cem Anos entre a França e Inglaterra
se encontrava em estado de trégua, e o Rei Ricardo II acabara de se casar com a
Princesa Isabella da França. Ambos os britânicos e os francos enviaram forças
para juntar-se às cruzadas, bem como a Hungria, Bulgária, Veneza, Gênova,
Croácia, Wallachia, o Sacro Império Romano-Germânico e os Cavaleiros
Hospitaleiros. Estima-se que ambas as forças dos cruzados e dos exércitos
otomanos consistiam em algo entre 15,000 e 20,000 homens cada, mas cada
fonte conta uma história diferente. Algumas contam de exércitos numerados nas
centenas de milhares, e outras dizem que a força inimiga tinha no mínimo duas
vezes o tamanho do seu exército. Os detalhes da batalha são questionáveis, já
que historiadores em ambos os lados escreveram para agradar e engrandecer
seus próprios líderes. De fato, a real participação de soldados ingleses não foi
comprovada, e registros de que um exército foi de fato enviado ao estrangeiro
nesse período não existem. Gênova e Veneza, provavelmente, também estavam
mais engajados em outras áreas sob seu domínio, apesar de certamente terem
enviado um comboio menor para ajudar os cruzados. Do lado otomano, os
números variaram na mesma ordem, mas a coalizão de sérvios e turcos
provavelmente somava menos de 20,000.
Ao chegar em Nicopolis, no rio Danúbio, os cruzados iniciaram o cerco à
cidade controlada pelos otomanos. O seu primeiro erro foi que não trouxeram
nenhum armamento de cerco, tornando fútil qualquer tentativa de conquistar a
cidade através da força. Os generais cruzados mudaram de táticas e decidiram
bloquear as saídas e o porto da cidade com a intenção de matar os cidadãos de
fome, e de tal formar forçá-los a se render. Assim sendo, durante o cerco, não
havia muito para os soldados fazerem além de jogar, beber vinho e esperar pela
rendição de Nicopolis. Quando rumores da aproximação dos exércitos otomanos
chegaram ao marechal francês, Boucicaut ameaçou cortar as orelhas de qualquer
um falando a respeito dos turcos. Ele pensou que os rumores de soldados se
aproximando seriam prejudiciais para a moral das suas tropas. Assim sendo, eles
pouco esperavam que um relâmpago estava rapidamente vindo de
Constantinopla. Quando Bayezid e seu aliado sérvio Lazarevic estavam a seis
horas do seu acampamento, os cruzados estavam no meio de um banquete
regado a álcool. Em pânico, começaram a executar cerca de 1000 prisioneiros
que tomaram na cidade de Rachowa, o que iria acrescer à fúria de Bayezid.
Os líderes franceses, húngaros e da Wallachia fizeram um plano de batalha às
pressas, mas não conseguiram concordar em todos os detalhes. Enviar infantes a
pé primeiro seria um insulto aos grandes cavaleiros franceses, que não estavam
dispostos a seguir atrás da plebe, e, portanto, eles tinham de entrar primeiro na
batalha. Sigismund argumentou que a vanguarda turca não era digna dos
cavaleiros franceses, e que, portanto, a sua infantaria deveria tomar a liderança.
Por fim, os senhores franceses venceram o argumento e duas horas mais tarde, os
cavaleiros franceses cavalgaram para enfrentar as forças turcas. Graças a uma
colina que escondia a completa força do exército otomano, os cavaleiros
novamente subestimaram o seu inimigo e cavalgaram direto para sua
aniquilação.
Após um confronto inicial, o resto das tropas francesas se jogou ao chão,
implorando por suas vidas. Bayezid sabia o valor da nobreza francesa, e então
ele coletou reféns e mais tarde os libertou mediante o pagamento de grandes
resgates. O Rei Sigismund e o Mestre dos Hospitaleiros foram os únicos líderes
que conseguiram fugir, e mais tarde, Sigismund acusou os franceses de
arrogância e por colocar seu orgulho à frente das táticas. O resto da nobreza foi
aprisionada e muitos dos soldados que sobreviveram foram executados em
retribuição aos 1,000 civis de Rachowa que foram assassinados. Após a
carnificina, os reféns foram marchados em correntes até Gallipoli, onde foram
mantidos na prisão por dois meses enquanto aguardavam as notícias da batalha
chegarem na Europa Central. Sigismund, em fuga, não tinha negociado o resgate
de seus aliados já que Bayezid sabia que os Húngaros não tinham mais recursos.
Mais de um ano e meio passou antes que os generais e nobres retornassem a seus
lares, e muitos deles morreram de ferimentos sofridos na batalha ou condições
inapropriadas durante seu aprisionamento.
Enquanto tudo isso acontecia, Bayezid continuou com seu cerco de
Constantinopla sem muito afinco, e acabou por chegar a um acordo com o
Imperador Manuel II. Foi decidido que Bayezid teria um poder de veto na
seleção e confirmação de todos os imperadores bizantinos futuros. Bayezid
partiu de Constantinopla, para nunca mais voltar ao lado Oeste do Bósforo.
Havia rebelião nos territórios anexados da Anatólia onde o recém-chegado
conquistador da Ásia Central, Timur, estava no processo de estabelecer um novo
Império Mongol. Com Bayezid ocupado nos Balcãs, Timur conseguiu formar
uma coalizão com os estados vassalos otomanos contra seu sultão. Bayezid
correu para confrontá-lo junto de um exército de 85,000 homens consistindo de
turcos, sérvios, albaneses, tártaros, ghazis, janízaros e até mesmo cristãos.
Entretanto, a cavalaria turco-mongol de 140,000 tropas acompanhada por 32
elefantes de guerra deve ter instigado um certo medo na aliança defensiva
otomana.
Com a grande deficiência numérica e cansados da longa marcha, a batalha não
poderia ter começado em piores condições para os exércitos de Bayezid. Duas de
suas forças aliadas trocaram de lado durante a batalha, e quando a derrota
parecia inevitável, as tropas sérvias fugiram com o Tesouro Otomano e um dos
filhos de Bayezid. Stefan Lazarevic implorou a Bayezid para que fugisse, mas
Bayezid manteve sua posição e seguiu lutando. Após a perda da batalha, Bayezid
foi capturado pelos Timuridas e morreu aprisionado alguns meses mais tarde.
Alguns historiadores alegam que ele estava sendo abusado enquanto mantido
refém, o que o levou ao suicídio, enquanto outros alegam o oposto. Um de seus
filhos, Mustafa Celebi, também foi capturado junto dele, mas foi mantido em
Samarkand até a morte de Timur, em 1405.
A morte de Bayezid teve consequências devastadoras para o Sultanado
Otomano. Exceto por Mustafa, que estava preso, Bayezid teve quatro outros
filhos, todos ansiosos por governar o sultanado. O mais novo, Mehmed Celebi,
foi confirmado como sultão por Timur, mas seus irmãos recusaram-se a aceitar
sua autoridade. O resultado foi uma guerra civil conhecida como o Interregno
Otomano, que durou por mais de uma década. Durante anos de lutas, Mustafa
manteve-se escondido de seus irmãos, calculando uma jogada para quando seus
irmãos tivessem derrotado uns aos outros.
O Interregno Otomano
Timur não intencionava conquistar ou governar sobre a Anatólia, e após vencer
a batalha de Ankara ele retirou-se do território, satisfeito em deixar os beilhiques
divididos. A família Otomana manteve suas terras ao redor de Bursa, e ninguém
reivindicou suas terras adquiridas nos Balcãs. A comoção deu uma nova janela
de oportunidade para que Thessaloniki, Kosovo e Macedônia se libertassem da
vassalagem, mas outros estados permaneceram sob domínio otomano,
aguardando o próximo sultão. As únicas perdas significativas para a dinastia
após a guerra foram o seu orgulho e a confiança de vizinhos muçulmanos que
foram anexados e subjugados.
Se Bayezid não tivesse morrido enquanto preso, o dano feito a seu sultanado
por Timur teria sido fácil de reparar. Entretanto, Bayezid teve muitos filhos, e
não havia uma clara ordem de sucessão dentro da dinastia. O filho mais velho
morrera antes da Batalha de Ankara, e o próximo maior de idade, Mustafa, era
prisioneiro em Samarkand. Quatro mais filhos, portanto, tinham potenciais
reivindicações ao trono, apesar do mais novo, Mehmed, ter sido reconhecido por
Timur como o novo sultão antes de ele partir. Naturalmente, os outros três
irmãos se opuseram a essa nomeação de seu irmão mais novo, e não demorou
muito antes da guerra começar entre os quatro. A consequente guerra civil durou
por 11 violentos anos.
As fontes descrevendo os antecedentes que causaram o Interregno revelam
muitas histórias diferentes sobre Bayezid e todos seus filhos. Enquanto que se
diz que ele foi torturado e forçado a cometer suicídio sob cativeiro de Timur,
uma de suas esposas também foi abusada. Diz-se que Mustafa não foi capturado,
mas misteriosamente desapareceu durante a batalha e também se diz que Isa e
Musa escaparam por conta própria, e que os aliados de Bayezid cuidaram de
Suleyman e Mehmed. Outras fontes contam como ambos Musa e Mustafa foram
capturados, com Musa sendo libertado após as negociações de Mehmed com
Timur e Mustafa sendo solto quando Timur morreu. A ordem das idades dos
irmãos não é totalmente clara, nem a forma como eles se aliaram durante o
Interregno. A avaliação geral é que cada um dos três irmãos ocupava territórios
diferentes do antigo Sultanado Otomano unificado. O mais velho, Suleyman,
mudou-se para os Balcãs e estabeleceu sua capital em Erdine. Constantinopla
ainda era a capital do Império Bizantino, mas as terras ao seu redor eram
ocupadas por Isa, um dos irmãos. O mais novo, Mehmed, se apossou das partes
orientais e tentou fazer um acordo de divisão dos territórios da Anatólia com Isa,
que prontamente recusou a oferta e, ao invés, tentou fazer um acordo de amizade
com o imperador bizantino. O quarto irmão, Musa, estava provavelmente em
cativeiro por um ano até que Mehmed negociou sua libertação. Musa então
focou em Bursa, com a ajuda de Mehmed, e assim disputou os territórios já
governados por Isa. Não foi difícil para Isa derrotar Musa em uma das primeiras
batalhas da guerra civil, e Musa fugiu para Germiyanid, no reino de Mehmed.
O próximo na linha de desafiadores era Mehmed, com um grande exército
vindo da Anatólia oriental. Mehmed e Isa se encontraram na Batalha de Ulubad
em 1403. A batalha acabou com uma vitória de Mehmed, que se proclamou Rei
da Anatólia e novamente uniu a província sob um único governo. Isa fugiu para
seus aliados em Constantinopla e, mais tarde, foi ainda mais para o oeste a fim
de formar uma coalisão com seu irmão Suleyman. Suleyman aceitou a
oportunidade de apoiar Isa, e o mandou de volta à Anatólia com um grande
exército. Com efeito, Mehmed venceu novamente, e o subsequente destino de
Isa ainda é debatido. Alguns dizem que ele permaneceu às escondidas, outros
que ele foi avistado em uma sauna turca e assassinado por agentes de Mehmed
em 1406. Geralmente, esse é tido como o ano de sua morte.
O estado de beligerância entre os irmãos foi explorado por entidades ao redor.
Outros emires, os ghazis nômades, o Império Bizantino e cidades-estado
Italianas, além da influente alta classe de Bursa, todos tinham interesse em fazer
o conflito perdurar e enfraquecer a estabilidade política, econômica e geográfica
nos territórios. Mehmed ganhou um certo apoio porque era o mais novo e,
portanto, considerado menos perigoso que seus irmãos.
Suleyman, que sentava confortavelmente no seu trono em Erdine, junto com
seu grão-vizir Candali Ali Pashar e o suporte do governante bizantino, João VII
Palaiologos, começou a se preocupar com as façanhas de seu irmão na Anatólia
e decidiu agir. Ele marchou contra Bursa e Ankara e conseguiu conquistar
ambas. Enquanto Suleyman repousava e reagrupava seu exército em Bursa,
Mehmed e Musa formaram uma aliança. Ao enviar Musa através da Wallachia
até as fronteiras ocidentais de Suleyman, o irmão mais velho de repente tinha
uma guerra em dois frontes. Pressionado, ele decidiu recuar para lutar por seus
territórios na Rumélia. Com o suporte de ambos Bizâncio e o sérvio Stefan
Lazarevic, ele defendeu a Rumélia e seguiu reinando sobre sua província a partir
de Erdine sem mais se envolver na Anatólia.
Suleyman não era um rei hábil, contudo, e não se interessava muito por
questões de estado. Após a morte de seu grão-vizir, a Rumélia passou a ser
negligenciada e o estilo de vida extravagante de Suleyman o fez perder apoio de
seus aliados e subordinados. Quando o belicoso Musa veio atrás de Erdine,
sobravam poucos de seus partidários e a capital foi facilmente conquistada pelo
irmão mais novo. Tentando escapar terras bizantinas, Suleyan foi morto em
1411.
Nesse ponto, Musa e Mehmed eram co-governantes das províncias otomanas
divididas entre eles, como tinha sido feito durante o reino de Murad I. Ainda
assim, os irmãos não tinham uma afinidade natural um pelo outro. Musa se
considerava o sultão da Rumélia, enquanto que Mehmed o considerava seu
vassalo. Inevitavelmente, isso causou complicações e a paz não perdurou. Musa
cercou Constantinopla como retribuição ao apoio bizantino a Suleyman, e com o
conflito florescendo entre os dois irmãos, o Imperador recorreu a Mehmed
pedindo ajuda. Mehmed traiu seu irmão e forjou uma aliança com o Imperador
Manuel II Palaiologos.
Enquanto isso, Musa tinha apoio de muitos de seus estados vassalos, junto de
Stefan Lazarevic, e as batalhas iniciais se concluíram a favor de Musa. Somente
quando Lazarevic mudou de lado e Mehmed obteve suporte de um maior
número de emires turcos que Musa finalmente pôde ser derrotado e morto na
Batalha de Camurlu em 1413. Isso deixou Mehmed como o único sobrevivente
da luta entre irmãos, e ele pôde se coroar como Sultão Mehmed I governando
ambas Anatólia e Rumélia. Isso pôs um fim ao Interregno Otomano.
Mehmed I
Após o fim do conflito, Mustafa, o irmão que estava escondido, decidiu
ressurgir e desempenhar sua parte na história otomana. Apoiado pelo imperador
bizantino, cujas simpatias em constante mudança agora se voltavam contra o
Sultão Mehmed, junto com o antigo vassalo de Wallachia, Mircea, exigiu que
Mehmed cedesse metade do sultanado a ele. Mehmed negou o pedido e derrotou
Mustafa em batalha com facilidade. Mustafa refugiou-se em Thessaloniki e o
imperador bizantino o exilou a pedido de Mehmed.
Todavia, o destino reservava problemas para Mehmed mesmo após a morte e
exílio de todos seus irmãos. O imperador Manuel II Palaiologos, sempre
conspirando, convenceu o sobrinho de Mehmed a trair seu tio, mas a trama foi
descoberta e o sobrinho foi cegado por conta de sua deslealdade.
Após algumas outras rebeliões e o constante e duro trabalho de manter todos
seus subordinados em união pacífica, Mehmed morreu em 1421, após oito anos
como sultão. A essa altura, era evidente que o império havia se tornado grande
demais para ser governado por um único líder, e que ameaças surgindo em
ambas as fronteiras continuariam a desestabilizar o sultanado inteiro. O império
precisaria de mais uma reorganização para continuar crescendo, mas o próximo
sultão, Murad, filho de Mehmed, também estava completamente ocupado com
batalhas durante a maior parte de seu reino. Já que Murad tinha apenas 16 anos
quando subiu ao trono, seu tio pensou que ele seria fácil de desafiar. O
imperador bizantino libertou Mustafa de seu exílio sob a pretensa que ele era o
herdeiro legítimo ao trono. Com auxílio do imperador, Mustafa também
conseguiu conquistar a Rumélia e tornar-se sultão da província, ainda que apenas
por dois anos.
Apesar de Murad ser jovem, ele era um soldado e general bem capacitado, com
a confiança de suas tropas e seus aliados. Após ser derrotado em batalha,
Mustafa fugiu e se refugiou em Gallipoli, com Murad em seu encalço. O sultão
cercou a cidade, capturou Mustafa e o enforcou, uma forma indigna de ser
executado na tradição otomana, mas justificável tendo em vista a deslealdade de
Mustafa. O enforcamento foi um ato excepcional durante o reinado de Murad II,
já que ele tinha grande orgulho dos antepassados cavalheirescos de sua dinastia.
Ele estudou contos épicos de nobres califas e guerreiros, que sempre agiam com
modéstia e piedade, munidos de um forte senso de justiça. Murad traçou sua
linhagem de volta aos reis ghazi e modelou sua própria imagem neles. Isso foi
feito a fim de conseguir apoio para o restabelecimento de um império forte e
unido, com metas de se expandir em nome do Islã.
Murad II
Murad II passou a ser conhecido como o Sultão Ghazi e era visto não somente
como defensor do Islã contra os cristãos, mas também como defensor de outros
beys muçulmanos menos poderosos. Assim sendo, ele ganhou o suporte de
muçulmanos perto e longe de si. Ele voltou seus exércitos contra Veneza, os
Caramânidas, Sérvia e finalmente contra a Hungria – todos os quais ele derrotou
em guerra. Ele renunciou ao trono em favor de seu filho de 12 anos em 1444,
cansado de uma vida de guerras e satisfeito com suas conquistas.
A renúncia foi, entretanto, vista como uma oportunidade de ouro pelo Império
Húngaro, junto com Veneza e o Sacro Império Romano-Germânico, para
novamente se aventurar dentro de terras otomanas e reconquistar os Balcãs. O
jovem Sultão Mehmet percebeu que sua idade e inexperiência seriam uma
desvantagem, e solicitou que seu pai voltasse a ativa para liderar seus exércitos.
Murad II aceitou contra sua vontade, mais ou menos à força, e combateu na
Batalha de Varna nesse mesmo ano. Ambos os exércitos sofreram grandes
perdas, e devido à carnificina, Murad nem sequer percebeu que havia sido
vitorioso até alguns dias depois da batalha. Ele continuou a reinar por mais sete
anos, dentro dos quais ele venceu a Segunda Batalha de Kosovo, fortaleceu suas
fronteiras balcânicas, combateu e derrotou o filho de Timur, Xá Rokh, e também
conquistou os Caramânidas. Seus últimos esforços como governante
estabilizaram a região e também impediram a vinda de exércitos Cristãos que
poderiam prestar auxílio a Constantinopla quando seu filho implementasse um
dos cercos mais famosos e relevantes da história.

Mehmed II
A Queda de Constantinopla
Do momento em que Mehmed finalmente ascendeu ao trono otomano de vez
em 1451, ele não se deixou ser vulnerável por nenhum instante. Por exemplo,
quando a viúva de Murad chegou para parabenizá-lo por sua sucessão, Mehmed
a recebeu calorosamente, mas ao retornar a seu harém, descobriu que seu filho,
ainda uma criança, tinha sido afogado na banheira.
No mesmo ano, Mehmed partiu para reforçar suas fronteiras. Ele renovou seu
acordo com Brankovic, líder da Sérvia, e criou um tratado de três anos com
Hnyadi, regente da Hungria. Ele também confirmou um tratado com Veneza que
seu pai havia feito em 1446. Tudo isso o ajudaria em seus planos contra
Constantinopla, que os otomanos, com razão, cobiçavam. Controlar o Bósforo
seria extremamente vantajoso, e controle sobre o território bizantino traria
grandes benefícios financeiros na forma de impostos para os otomanos. Os
otomanos até mesmo descreviam a cidade como sua “maçã vermelha”, uma
expressão que se referia à sua maior aspiração.
O ataque de Mehmed seria a 13ª tentativa de conquista contra Constantinopla,
e ele pretendia fazê-lo de forma correta. Em 1451 ele começou a construir uma
fortaleza no Bósforo, no local onde o canal era mais estreito, oposto ao castelo
Anadolu Hisar do Sultão Bayezid. Entre os dois castelos, os Otomanos agora
detinham completo controle do Bósforo, que os fornecia uma base ideal de onde
lançar um ataque sobre Constantinopla desde o Nordeste. O Imperador
Constantino enviou embaixadores para conversar com os otomanos, e esses
foram prontamente executados. Cada navio que passava era inspecionado, e
quando uma nave veneziana desobedeceu, todos os tripulantes foram mortos.
Em 1453, Mehmed disse a seus conselheiros que o império não estaria seguro
enquanto Constantinopla continuasse sob mãos cristãs. Ele começou a criar um
exército na Trácia, e todos os regimentos otomanos, junto de hordas de
mercenários, foram recrutados; em todo, haviam 80,000 tropas regulares e
20,000 bashi-bazouks (“outros”), apesar de alguns historiadores estimarem
160,000 tropas. Ademais, no ano anterior, um engenheiro alemão chamado
Urban ofereceu construir um canhão para os Otomanos que pudesse explodir
qualquer parede, de modo que eles pagaram e receberam a arma três meses mais
tarde. Eles então solicitaram outro duas vezes maior, e o receberam em janeiro
de 1453. Ele media 27 pés de comprimento e 8 polegadas de largura, com um
cano medindo 2.5 pés de espessura, fazendo-o capaz de atirar bolas de canhão
pesando 1,300 libras a uma distância maior que uma milha. 200 homens
ajudaram a carregar o canhão em sua jornada para o Sul, fora das paredes de
Constantinopla, e seu trabalho incluía também nivelar estradas e reforçar pontes.

Pintura de Fausto Zorano, Mehmet II conquistando Constantinopla


A Páscoa ortodoxa de 1453 caía no dia 1º de abril, e no dia 5 de abril, Mehmed
armou uma tenda e enviou uma mensagem a Constantino – como previsto na lei
islâmica – oferecendo poupar todos os súditos bizantinos em troca de rendição
imediata. Ele não recebeu nenhuma resposta, e, portanto, o canhão abriu fogo no
dia seguinte. As pessoas em Constantinopla não foram surpreendidas, pois
tinham trabalhado nas defesas da cidade durante os meses anteriores, mas eram
aflitos por uma desesperadora falta de recursos. À sua disposição, tinham apenas
oito naves venezianas, cinco genovesas, uma nave cada de Ancona, Catalunha e
Provença. Da própria marinha bizantina haviam apenas 10 naves, o que
significava que eles só tinham 26 navios no total. Em termos de soldados,
haviam apenas 4,983 gregos capazes de serviço e 2,000 estrangeiros, não o
suficiente para manter guarda ao longo das 14 milhas de muralhas, muito menos
para encarar um exército otomano de 100,000 homens.
As linhas de cerco, com os Otomanos representados em verde e Bizantinos
em vermelho.
Não obstante, todos os defensores estavam em seus postos quando os disparos
começaram. O imperador e Giovanni Giustiniani, o capitão genovês, estavam em
comando da seção mais vulnerável, a área da parede que atravessa o vale do
pequeno rio Lycus cerca de uma milha distante do limite Norte. As muralhas
marítimas tinham menos soldados em guarda do que as terrestres, mas a
guarnição também servia de sentinela, reportando os movimentos dos navios
turcos.
A despeito dessas defesas, o Sultão colocava as paredes terrestres sob um
bombardeio sem precedentes na história de táticas de cerco. Ao fim da tarde
desse primeiro dia, Mehmed II e suas tropas otomanas tinham pulverizado uma
seção próxima do Portão Charísio, porém quando seus soldados tentaram
invadir, as defesas os contiveram. Eles voltaram ao acampamento com o
anoitecer, e os bizantinos reconstruíram durante a noite.
Mehmed decidiu cessar fogo até que pudesse trazer reforços, e o bombardeio
reiniciou no dia 11 de abril, continuando por mais 48 dias sem interrupções. O
canhão maior apenas disparava uma vez a cada duas ou três horas, mas o dano
causado era imenso, e dentro de uma semana, a parede externa ao redor do Lycus
havia desmoronado em vários pontos. Os bizantinos trabalhavam
incessantemente para repará-la, mas o dano continuava.
No dia 20 de abril, navios vindos de Gênova chegaram ao Helesponto. Como o
Sultão Mehmed estava determinado a juntar a maior força naval possível fora de
Constantinopla, ele havia deixado esses estreitos expostos, portanto os navios
que chegavam puderam entrar no Mar de Marmara sem resistência. Quando
chegaram, o Sultão cavalgou até o delta do Chifre de Ouro para dar
pessoalmente a ordem a seu almirante, Süleyman Baltoglu, que não deixasse de
maneira alguma que os navios alcançassem a cidade. Baltoglu preparou-se para
atacar, mas não havia nada além de uma brisa sentido sul, e seus navios não
podiam navegar contra o vento. Seus capitães eram virtualmente indefesos
contra o dilúvio de flechas e lanças que os atingiram ao se aproximar, e então
eles foram forçados a manter sua posição enquanto os navios inimigos
navegavam tranquilamente rumo ao Chifre de Ouro. Quando o vento diminuiu,
Baltoglu comandou que seus navios se chocassem contra os genoveses e os
invadissem, mas os navios turcos eram baixos e mesmo quando atingiam um
veículo inimigo, não era possível invadi-lo. Os marinheiros genoveses também
estavam equipados com grandes machados, usados para decepar as mãos e
cabeças de qualquer um que tentasse embarcar. Finalmente, os capitães
genoveses amarraram seus navios uns aos outros e conseguiram se mover em
direção ao Chifre como uma fortaleza flutuante gigantesca; algumas horas mais
tarde, no meio da noite, entraram na cidade.
O Sultão Mehmed II observou cada momento da batalha da terra firme, e
estava tão furioso com o seu desenrolar que ordenou a execução de Baltoglul. O
almirante escapou da morte depois que seus subordinados prestaram testemunho
da sua coragem, mas ele ainda assim foi demitido. Depois, o Sultão colocou seus
olhos sobre o Chifre de Ouro. Ele já havia solicitado a seus engenheiros que
construíssem uma estrada passando por trás de Gálata, desde a margem do mar
de Marmara, sobre a colina perto de onde fica atualmente a Praça Taksim,
chegando até o próprio rio. Os engenheiros e operários tinham rodas de ferro
fundido e trilhos de metal, e os carpinteiros trabalhavam duro construindo berços
de madeira capazes de suportar as quilhas de navios de tamanho médio. Era uma
empreitada notável, e no Domingo, dia 22 de abril, a colônia genovesa de Gálata
observou em choque quando 70 navios turcos foram puxados por grupos de boi
por cima da colina de 70 metros e descidos até o Chifre de Ouro.

Pintura de Fausto Zorano’s, Mehmed II no cerco de Constantinopla. Esse


Quadro mostra tropas otomanas transportando a frota sobre a terra até o
Chifre de Ouro.
Os bizantinos não podiam acreditar no que acontecia, e eles não tinham mais
um porto seguro, significando também que agora precisavam defender mais três
milhas e meia de paredes marítimas, incluindo a seção que tinha sido penetrada
pelos cruzados em 1204. Tentativas bizantinas de atacar a marinha otomana
falharam, enquanto que ataques frontais iniciais dos otomanos também falharam.
Ao fim de abril, os defensores decapitaram centenas de otomanos em cima das
muralhas como uma mensagem para os invasores, mas eles não iriam se deter
por isso. Um veneziano em Constantinopla na época escreveu em seu diário,
“Eles viram os turcos vindo direto para as muralhas querendo guerrear,
particularmente os janízaros... e quando um ou dois eram mortos, imediatamente
mais turcos vinham e levavam embora os mortos... sem se importar com quão
perto chegavam das muralhas da cidade. Nossos homens atiravam neles com
armas e bestas, mirando no turco que carregava seu compatriota morto, e ambos
caíam mortos ao chão, e aí vinham mais turcos e os levavam embora, nenhum
temendo a morte, mas dispostos a deixar dez deles morrerem ao invés de sofrer a
vergonha de deixar um único cadáver turco perto das muralhas”.
Ilustrações medievais do cerco.
Ao início de maio, Constantino sabia que eles não conseguiriam suportar
muito mais tempo; alimentos estavam acabando, e suas tropas passavam mais e
mais tempo longe das muralhas buscando comida para alimentar suas famílias.
Sua última vã esperança foi uma missão de auxílio prometida pelos venezianos,
mas ele não sabia se essa estava de fato a caminho, o que traria ou quão grande
era. Ele também não sabia quando chegaria ou como atravessaria o Chifre de
Ouro, agora que ele estava sob controle otomano. Ele sentia que seu destino
dependia das respostas a essas perguntas, e, portanto, antes da meia noite no dia
3 de maio, um navio veneziano com bandeiras turcas e carregando uma
tripulação de 12 homens vestindo disfarces turcos conseguiu passar
desapercebido.
Enquanto isso, os Otomanos desistiram de ataques frontais e estavam tentando
táticas de cerco mais tradicionais, incluindo cavar túneis por baixo das muralhas
onde colocariam minas, além do constante bombardeio. Os bizantinos cavaram
seus próprios túneis para encontrar e parar os túneis turcos, e forem bem-
sucedidos em destruir várias tentativas subterrâneas de acesso. Tornando-se
impaciente, Mehmed enviou uma carta a Constantino no dia 21 de maio
oferecendo deixar as pessoas dentro da cidade sobreviver caso se rendessem, e
também deixando Constantino fugir para o Peloponeso, que seria na prática a
última posse restante dos bizantinos. Constantino estava disposto a aceitar a
oferta, mas não a custo de Constantinopla, respondendo, “Entregar a cidade para
você não depende nem de mim nem de nenhum outro de seus habitantes; já que
todos nós decidimos morrer por nossa livre e espontânea vontade e não vamos
considerar nossas vidas”.
Todavia, dois dias depois, quando o navio secreto bizantino retornou ao 23 de
maio, seu capitão reportou que investigaram o mar Egeu por semanas e não
encontraram nenhum rastro da expedição de socorro veneziana. O historiador
John Julius Norwich descreve a cena: “e assim eles voltaram, sabendo muito
bem que provavelmente não deixariam a cidade vivos. Constantino agradeceu a
cada um pessoalmente, sua voz afogada em lágrimas”.
Houveram também augúrios, ou pelo menos eventos assim interpretados pelos
bizantinos. No dia 22 de maio houve um eclipse lunar, e alguns dias depois, o
mais sagrado ícone da Virgem era carregado pelas ruas da cidade apelando para
que intercedesse, quando ele escorregou de sua plataforma. Na manhã seguinte,
a cidade estava coberta por neblina, algo que nunca aconteceu nessa época do
mês de maio, e na mesma noite a cúpula da igreja de Santa Sofia reluzia com um
brilho vermelho desde sua base até o topo, algo que era perturbador até mesmo
para Mehmed. Seus astrólogos o asseguraram que era um sinal que o edifício
seria em breve iluminado pela Verdadeira Fé, e os bizantinos interpretaram como
um sinal de que deus havia abandonado a sua cidade. Os ministros de
Constantino o imploraram para que fugisse da capital enquanto ainda havia
tempo e liderasse o império desde Morea até que pudesse retomar a cidade. Ele
desmaiou só de eles proferirem essa sugestão; e ao recuperar-se, estava mais
determinado que nunca a não abandonar seu povo.
Enquanto isso, o Sultão convocou um conselho de guerra no dia 26 de maio,
onde ele declarou que o cerco já durava muito tempo e que chegara a hora de um
ataque final. Ele anunciou que o dia seguinte seria cheio de preparativos, e o dia
depois seria cheio de descanso e orações, mas que começariam o ataque na
manhã do dia 29 de maio, e eles não fizeram nenhum esforço para ocultar seus
planos dos bizantinos. Eles prepararam pelas próximas 36 horas
ininterruptamente, até mesmo acendendo enormes fogueiras à noite para ajudar
os soldados com suas tarefas. Aí, ao nascer do sol do dia 28, eles pararam.
Mehmed saiu em uma turnê durando um dia inteiro para inspecionar
preparativos, terminando ao fim da tarde exausto.
Dentro da cidade, o reparo das muralhas continuava, mas as pessoas também
se reuniram para um último apelo coletivo a Deus. Sinos tocaram, e os ícones
mais sagrados e relíquias mais preciosas foram carregados em uma longa
procissão espontânea passando pelas ruas e por toda a extensão das muralhas.
Eles pausaram para orações especiais onde esperavam que a artilharia otomana
iria se concentrar com maior intensidade. Com o fim da procissão, o imperador
convocou seus comandantes e disse a seus súditos gregos que haviam quatro
causas pelas quais valia a pena sacrificar a vida: a fé, o país, a família e o
soberano. O imperador lhes disse que deviam estar prontos para entregar suas
vidas pelas quatro causas amanhã, e que ele estava pronto para sacrificar sua
própria vida. Em seguida, ele voltou-se para os italianos e os agradeceu por seus
serviços. Ele lhes disse que eles e os gregos e italianos eram agora um só povo, e
que com a ajuda de Deus, seriam vitoriosos.
No crepúsculo do dia 28, pessoas de toda a cidade dirigiram-se à Igreja da
Santa Sabedoria – Santa Sofia, o centro espiritual de Bizâncio – para a última
missa celebrada dentro dela. Praticamente todo homem, mulher e criança que
não estivesse em serviço militar naquela noite se reuniu na Hagia Sophia para
tomar sua eucaristia e rezar por salvação. O imperador chegou e clamou pelo
perdão de seus pecados a todos os bispos presentes, tanto Católicos quanto
Ortodoxos, e então fez sua comunhão. Mais tarde, após todas as velas serem
apagadas e a igreja estar completamente escura, ele passou tempo rezando antes
de retornar ao seu lar para um último adeus. Por volta da meia noite, ele
cavalgou a extensão das muralhas pare certificar-se que tudo estava pronto.
Foto da Hagia Sophia tirada por Arild Vågen
Mehmed deu seu sinal à 1:30 da manhã do dia 29, e repentinamente, o silêncio
foi quebrado. Os turcos anunciaram seu avanço soando trombetas, rufando
tambores, e com terríveis gritos de guerra. Os sinos das igrejas bizantinas
badalaram em resposta. A batalha final começara.
Mehmed sabia que para vencer, não podia dar nenhum descanso aos
bizantinos. Primeiramente ele enviou seus soldados mercenários, os bashi-
bazouks, que não tinham nem armamento nem treinamento adequado, mas
atuaram como uma força inicial assustadora. Eles se atiraram contra as muralhas
por duas horas. Depois, pouco antes do amanhecer, Mehmed ordenou a segunda
ordem do ataque, constituída de vários regimentos de turcos da Anatólia que
eram significantemente melhor treinados e disciplinados. Eles quase forçaram
uma entrada, mas os defensores – liderados pelo Imperador em pessoa – os
cercaram, mataram muitos e os forçaram a retirar-se.
Mehmed determinou que a vitória seria ganha não pelos Anatólios, mas por
seu próprio regimento de elite dos janízaros. Ele os mandou à batalha em
seguida, não dando nenhuma oportunidade de descanso aos bizantinos. As tropas
otomanas avançaram rapidamente pela planície, atirando-se contra a fortificação
e retalhando sua base. Eles também colocaram escadas para escalar as muralhas.
Ao invés de tentar usá-las eles mesmo, os janízaros tiveram a oportunidade de
alternar com uma quarta leva de tropas, descansando enquanto aguardavam seu
próximo turno. Os defensores, em menor número e exaustos, não tiveram mais
oportunidades. Não podiam durar muito mais tempo, mas ainda assim as
muralhas não haviam cedido.
Como se os defensores já não tivessem problemas suficientes, eles sofreram
um golpe fumegante – literalmente – quando, logo após o alvorecer, Giovanni
Giustiniani, o general genovês que guardava o ponto mais fraco da muralha
junto ao imperador, foi atingido por um raio. Em dor excruciante, ele foi levado
a um barco genovês no porto, mas antes de o portão ser trancado, Mehmed viu a
sua abertura e enviou uma nova leva de janízaros. Eles forçaram os gregos a
recuar para a muralha interior, e uma vez encurralados entre as duas muralhas,
estavam altamente vulneráveis. Muitos foram mortos ali mesmo.
A uma curta distância ao Norte, ambos os lados podiam agora ver uma
bandeira turca voando sobre uma torre. Uma hora antes do massacre entre as
fortificações, um grupo de mercenários turcos encontrou uma pequena porta,
meio escondida ao pé de uma torre, que tinha sido deixada aberta. Era uma porta
de escape através da qual os genoveses haviam executado várias incursões
efetivas contra o acampamento turco, mas agora os mercenários bashi-bazouks
conseguiram abri-la e atingir o topo da torre. Eles hastearam sua bandeira,
deixaram a porta aberta para que outros os seguissem, e regimentos turcos
fluíram por todas as brechas entreabertas. O Imperador Constantino se atirou
direto na batalha e nunca mais foi visto.
Ilustração de Theophilos Hatzimihail mostrando a luta dentro de
Constantinopla. Constantino é mostrado no cavalo branco.
Ao começo da manhã, já não havia quase nenhum defensor vivo. Todos os
gregos sobreviventes tinham corrido para suas casas tentando proteger suas
famílias dos estupros e pilhagem otomana, os venezianos corriam para o porto, e
os genoveses confiavam na relativa segurança de Gálata. Os genoveses
encontraram o Chifre de Ouro tranquilo, enquanto que os venezianos não
enfrentaram nenhuma dificuldade ao sair do porto, navegar para dentro do mar
de Marmara e seguir a mar aberto.
Como era o costume durante a idade média, os otomanos foram impiedosos em
seus saques. Ao meio dia, o sangue corria pelas ruas, mulheres e crianças eram
estupradas ou assassinadas, e igrejas, ícones e livros eram destruídos. O ícone
mais sagrado do império, a virgem Hodegetria, foi esquartejada em quatro
pedaços e destruída. Um escritor disse que o sangue jorrava pela cidade “como
chuva na sarjeta depois de uma tempestade repentina”, e que os corpos de ambos
turcos e bizantinos flutuavam no mar “como melões em um canal”.
O pior massacre ocorreu na Hagia Sophia, onde a missa era celebrada quando
os turcos começaram a tentar destruir a igreja. Os cristãos fecharam as
gigantescas portas de bronze, mas os turcos as esmagaram e entraram. A
congregação inteira foi ou massacrada ali mesmo, ou enviada para um campo de
prisioneiros turco. Os padres tentaram dar seguimento à missa até que fossem
mortos no altar. Certos cristãos acreditam que alguns deles conseguiram agarrar
as vasilhas e cálices e desaparecer através da parede Sul do santuário, para
aguardar até que a cidade se tornasse uma cidade cristã novamente, quando
então eles prosseguiriam com sua missa do mesmo ponto em que pararam.
O Sultão Mehmed havia prometido a seus soldados os tradicionais três dias de
pilhagem, mas ao fim da tarde, já não restava mais nada, e ele ordenou o fim
sem que muitos protestassem.
O historiador e administrador Tursun Bey oferece a única narrativa
contemporânea detalhada do cerco no idioma turco:
“Assim que a fumaça do fogo grego e a alma do Príncipe adorador
do Fogo descendeu sobre o castelo ‘como se fosse uma sombra’, o
resultado era manifesto: o devoto Sultão de boa fortuna tinha, como
ocorreu, ‘suspendido a montanha’ sobre seu povo do politeísmo e
destruição como se fosse o Senhor Deus em pessoa. Assim, ambos
de dentro, de fora, [o disparo de] canhões e mosquetes e falconettes
e pequenas flechas e flechas e setas vomitaram e atiraram-se de uma
profusão de gotas de transpiração faraônica como nas chuvas de
abril – como um mensageiro das orações dos justos – e uma
verdadeira precipitação e aguaceiro de calamidades dos céus como
decretado por Deus. E, desde os alcances mais profundos até as
partes mais altas, e das alturas mais em cima até o nível do chão,
combate mão-a-mão e ataques se juntavam com o choque e
mergulho de armas e piques e alabardas nas brechas dentre a ruína
causada pelo canhão.
Do lado de fora os Campeões do Islã e de dentro os infiéis,
pique a pique em verdadeiro combate, mão-a-mão;
Hora avançando e hora simulando, armas [disparando] e armas
carregadas,
Incontáveis cabeças decepadas de seus troncos;
Expelindo a fumaça do fogo grego, uma verdadeira nuvem
de faíscas choveu em cima dos Campeões do Islã pelos infiéis;
Chocando-se contra as paredes do castelo, as trincheiras dessa
maneira,
Eles acenderam o fogo grego, os inimigos;
[Por sua vez] eles apresentaram ao bastião seus piques,
Armados, eles levavam ao chão guerreiros engajados,
Como se atingidos no mais profundo alicerce por um túnel cavado
Parecia que em partes o castelo tinha sido perfurado por debaixo
Já no início da manhã, o frenesi de tumulto incendiário e a poeira
do conflito já tinha se acalmado.”
Pintura de Fausto Zorano’s, Mehmed II, Entrando em Constantinopla
George Sphrantzes, que estava em Constantinopla durante sua queda, escreveu
sobre as suas consequências: “No terceiro dia após a queda de nossa cidade, o
Sultão celebrou sua vitória com um grande e alegre triunfo. Ele emitiu uma
proclamação: os cidadãos de todas as cidades que conseguiram escapar detecção
deveriam deixar seus esconderijos por toda a cidade e sair às ruas, já que iriam
continuar livres e não seriam questionados. Ele ainda declarou a restauração de
casas e propriedades àqueles que abandonaram a cidade antes do cerco, e se
retornassem a seus lares, eles seriam tratados de acordo com sua classe e
religião, como se nada tivesse mudado”.
Talvez de forma mais notável, após o fim do cerco, Mehmed, Tursun Bey, os
principais ministros do império, imans, e os janízaros, cavalgaram até a Hagia
Sophia. Mehmed pegou um punhado de terra e a espalhou sobre seu turbante
enquanto entrava em um gesto de humildade, e ao aproximar-se do altar, ele
parou um dos soldados que viu depredando o mármore do edifício e o informou
que os saques não se aplicavam a prédios públicos. Ele então ordenou que o
iman superior subisse ao altar e proclamasse o nome de Alá. Com nada mais do
que a remoção da parafernália cristã e a sua substituição por púlpitos e minaretes
muçulmanos, a legendária Hagia Sophia tornou-se uma mesquita. A
simplicidade da transformação foi ao mesmo tempo delicada e brutal, como
demonstrada pela maneira qual é referenciada no mundo ocidental e pelos
turcos. No mundo cristão, os eventos são conhecidos como “A Queda”, mas para
os Otomanos da história e os turcos nos dias de hoje, ainda é conhecida como “A
Conquista”.
Para o Império Bizantino, a perda de sua amada capital foi o último prego do
caixão, e não demorou muito até que o último refúgio, Morea no Peloponeso,
fosse anexado e incorporado por Mehmed. O império conseguira sobreviver por
mais de mil anos, mas após a ascensão belicosa do Império Otomano, o século
anterior tinha destituído seus líderes. Conflitos internos e externos deixaram o
império de joelhos, e a forte unificação das tribos turcas consistiu num substituto
válido para o império. Após a morte do último imperador sem deixar nenhum
herdeiro, todos os seus sobrinhos foram levados ao palácio para servir na corte
de Mehmed. Como as duas famílias já tinham vários casamentos e alianças ao
decorrer dos anos, os garotos rapidamente se adaptaram à vida sob regras
otomanas, converteram-se ao Islã, e subiram na escala social do sultanado. O
sobrinho mais novo se tornaria mais tarde o grão-vizir do filho e herdeiro de
Mehmed, Bayezid II.
A ascensão do Império Otomano foi possível graças ao estado enfraquecido de
seu antigo rival, o Império Bizantino, mas também graças ao vácuo de poder
deixado pelo Império Seljuk. O império tinha uma localização perfeita, mais ou
menos com acesso direto a ambas Europa e Ásia, mas ainda assim, afastado da
destruição causada pelos Mongóis. As condições criaram um caminho pelo qual
líderes determinados como Osman e seu filho Orhan uniram e estabilizaram a
área, simultaneamente expandindo suas fronteiras. Quer Osman tenha sido ou
não um muçulmano, seus sucessores o foram, dando-lhes um incentivo para
combater e conquistar os Balcãs cristãos, bem como anexar outros emirados
muçulmanos. O sonho de Osman tornou-se uma imagem importante através dos
séculos. Como os ramos da árvore no sonho, se espalhando por cima do mundo,
também se difundiria o Islã através do reinado otomano.
Aprendendo dos erros feitos anteriormente por impérios derrotados, os
Otomanos criaram um estado forte, centralizado, com governança eficiente,
grandes exércitos e cidades prósperas. Durante a ascensão do império, eles
tomaram cuidado para não reinar através do terror, usando por sua vez
pragmatismo e razão. Eles foram sábios o bastante para deixar a ciência e a
religião crescer lado a lado, bem como riquezas terrenas e celestiais. Isso
acresceu o interesse de muçulmanos e judeus vivendo em condições pobres
dentro de outros reinos, atraiu estudiosos, teólogos, artistas e cientistas,
contribuindo para o florescimento cultural da Anatólia.
Quando Constantinopla foi conquistada e o Império Bizantino finalmente
sucumbiu, a Era de Ouro do Império Otomano iniciou. Mehmed II começou por
reconstruir e repovoar Constantinopla, enquanto também incentivava os Gregos
e Genoveses que fugiram da cidade a voltar para seus bairros mercantis, tão
vitais para a cidade. Ele garantia segurança a qualquer um disposto a retornar e
solicitava que uma mistura de cristãos, judeus e muçulmanos povoassem a
cidade. Ele restaurou o patriarcado ortodoxo, instituiu um grã-rabinado judeu, e
certificou-se que, dentro de 50 anos, Constantinopla fosse novamente a cidade
mais bem-sucedida da região, apenas então como a capital do Império Otomano.
Apesar de ter passado tanto tempo em campos de batalha, o legado de
Mehmed II inclui grandes melhorias no aparato de estado, a reconstrução de
Constantinopla, e a renascença intelectual da Anatólia. Após a conquista de sua
futura capital, as sobras de Bizâncio precisavam ser recolhidas por um
governante adequado. Entre suas transformações culturais e sociais do império,
ele também teve tempo para conquistar mais terras do que qualquer de seus
antecessores. Na Europa, passou a ser conhecido como um sanguinário,
enquanto que em suas terras, era tido como um herói. Para o Império Otomano, a
Idade de Ouro apenas começava.
Recursos On-line
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Bibliografia
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Publishers, 2009.
Villads Jensen, Kurt, Korståg: européer i heligt krig under 500 år, Dialogos,
2017.
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