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ÍNDICE

0 Introdução 2

1 Transformadores 2

1.1 Transformador monofásico 2


1.1.2 Ensaio em curto-circuito 13
1.1.3 Ensaio em vazio 14
1.1.4 Agrupamento de transformadores monofásicos 15
1.1.5 Aspectos de carácter construtivo 17
1.2 Transformador trifásico 18
1.2.1 Disposição dos enrolamentos 21
1.2.2 Componente homopolar 23
1.2.3 Harmónico de 3ª ordem 26
Máquinas Eléctricas II

MÁQUINAS ELÉCTRICAS II

0 INTRODUÇÃO
A ideia da teoria unificada das máquinas eléctricas (Charles Jones, Un. Liverpool) é a seguinte: há dois processos
de abordar a análise duma máquina: a teoria dos circuitos e a teoria dos campos. Nesta estudamos as reacções de
uns elementos sobre os outros, através dos fluxos magnéticos encadeados para chegar a equações onde estes são
substituídos por correntes, f.e.m. e coeficientes de indução. Na primeira ignoram-se esses encadeamentos de
fluxos e procura-se olhar a máquina de fora para dentro i.e. tentar representar os circuitos da máquina e escrever
directamente as equações que traduzem os acidentes deles (R, L, E). A teoria unificada apoia-se neste segundo
método e então há uma afirmação feita que é: é possível conhecer com muita aproximação o comportamento de
qualquer máquina eléctrica unicamente a partir de raciocínios que se façam sobre circuitos determinados
exclusivamente por medidas feitas sobre a máquina com ela parada. O processo de medir e representar o circuito
é o mesmo para todas as máquinas, só o circuito vem diferente conforme o processo de fazer as medidas. Isto
baseia-se no seguinte: todas as máquinas eléctricas que aproveitam os fenómenos electro-magnéticos são
constituídas por órgãos de funções semelhantes. As grandezas postas em presença são sempre as mesmas:
circuitos eléctricos com impedâncias, circuitos magnéticos com relutâncias, saturação e histerése; movimentos
eventualmente, rectilíneos ou de rotação; f.e.m. e tensões, e consequentemente intensidades de corrente; campos
magnéticos e fluxos. As leis que regem estas grandezas são sempre as mesmas: leis de Maxwell, leis de Ohm e
leis de Kirchoff.

Para cada tipo de máquina esses elementos estão arrumados de modos particulares típicos da transformação de
energia que se pretenda realizar.

Há máquinas que, com os mesmos órgãos, são capazes de realizar diferentes transformações de energia, como a
máquina de corrente contínua, motor ou gerador, e a comutatriz, que é semelhante à máquina de corrente
contínua, mas em que o induzido tem um colector de lâminas e um de anéis: 3 anéis ligados a 3 pontos do
induzido. As f.e.m. que captam constituem um sistema trifásico de f.e.m. simétrico. Pode funcionar como motor
de c.c. ou gerador, ou alimentando com c.a. pode funcionar como motor de c.a., ou alimentando com c.a. tirar
c.c. (rectificador).

Então não será possível arranjar uma máquina com um número de órgãos suficientes para ter uma máquina
generalizada? i.e. uma máquina capaz de realizar todas as transformações de energia (máquina integral)? É
possível!

Então estudando a máquina integral, consegue-se estabelecer um raciocínio que conduza às equações gerais das
máquinas eléctricas e depois bastará delas aproveitar a parte correspondente aos orgãos da máquina particular.

1 TRANSFORMADORES

1.1 TRANSFORMADOR MONOFÁSICO


Num transformador existe um núcleo com o aspecto seguinte:

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Máquinas Eléctricas II

que representamos por:

Primário Secundário

φ0
I1 n1 n2 I2

U1
U2

O primeiro esquema diminui as fugas de fluxo entre os dois enrolamentos. Procuremos relações entre as
grandezas. O primário recebe a energia e o secundário fornece a energia.

Vê-se que um transformador monofásico pode ser considerado como um quadripolo, logo hão--de existir
equações que relacionem as tensões e as intensidades. São as equações dos quadripolos. Basta-nos então definir
os parâmetros que hão-de aparecer nelas.

Vamos pela teoria dos fluxos. Suponhamos que o transformador não tem perdas nem fugas — transformador
ideal — , i.e. a resistência dos enrolamentos é nula e no núcleo não há perdas magnéticas, logo o ciclo histerético
não tem área e a resistência do material é infinita. Se além disso o secundário estiver em circuito aberto, no ferro
circula um fluxo φo resultante da passagem da corrente Io no primário, valor particular de I1 quando I2 é nula.
Então

U1 U1
Io = = -j
jX X

O fluxo φo é alternado provocado por Io. Sabe-se da lei de Hopkins que

n1 Io
φo =
R

como n1 e R são constantes, a lei é aplicável a valores simbólicos. Logo

n1 U1
φo = -j
RX

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Máquinas Eléctricas II


O fluxo φo vai atravessar as n1 espiras do primário, desenvolvendo uma f.e.m. dada por - n , ou
dt 1

ωn12
E1 = -j ω φo n1 = - U1
RX

Mas por definição de coeficiente de auto-indução,

n12 X
L= R =R ∴

E1 = -U1

Como o fluxo passa através das n2 espiras do secundário, nele vai-se desenvolver uma f.e.m. dada por:

n1n2
E2 = -j ω φo n2 = - ω U1
RX

n2
E2 = - U
n1 1

Vejamos o diagrama vectorial destas grandezas:

E1 E U1
2

φ0

I 0

E1 -U1 n2 E1
O cociente = = = é real.
E2 n2 n1 E2
- U
n1 1

n2
A = m chama-se razão de transformação do transformador.
n2

Vejamos agora como introduzir a carga no secundário, i.e.

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I1 φ0
I0 n1 n2 I2

U1 E1 E2 U2 Z

Se fecharmos o secundário sobre uma impedância Z = R + jX aparecerá uma corrente I2 que faz com E2 um
dado ângulo de esfasamento:

φ
I 2
2

U
φ 1
E E 0 φ
1 2 1

I0
I1

n2.I2
Mas I2 cria um fluxo φ2 no núcleo que irá sobrepor-se ao φ0. φ2 estará em fase com I2, visto que φ2 = .
R

O aparecimento de φ2 com φ0 dará lugar a um fluxo resultante que irá dar lugar à alteração das f.e.m. pois estas
são da forma -jωn1 φ (ou n2). Tudo se irá alterar com a variação das f.e.m.. Mas E2 não pode modificar-se, pois
se o primário não tem impedância, E1 tem de ser igual e oposta à tensão aplicada. Isto é: aconteça o que
acontecer, o fluxo resultante tem de ser φ0. Isto quer dizer que, ao aparecimento de φ1, terá de corresponder o de
um fluxo φ1 criado pelo primário que, somado a φ2 dê φ0. Por outras palavras: o aparecimento de I2 obriga ao
aparecimento duma corrente diferente no primário, I1 em vez de I0, capaz de criar φ1.

Diz-se que fechando o secundário cria-se uma corrente secundária que vai desmagnetizar o núcleo, tendo o
primário de reagir por forma a dar de novo ao núcleo a magnetização primitiva. Qualquer potência tirada do
secundário terá de ser fornecida ao primário.

Do diagrama vectorial tira-se que

φ1 + φ2 = φ0.

n1I1
mas como φ1 =
R

n2I2
e φ2 =
R

n1I0
e φ0 =
R

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Máquinas Eléctricas II

vem que

n1 I1 + n2I2 = n1I0

n1 E1
que é uma segunda equação ( a primeira sendo = = m ) que caracteriza o funcionamento do
n2 E2
transformador.

Mas esta pode tomar um aspecto particular quando o transformador funciona a uma fracção elevada de carga:

n1 ( I1 - I0 ) + n2 I2= 0

então, próximo das correntes nominais, verifica-se que I0<<I1 (I0≅0,05.I1); então não se comete erro apreciável
se se escrever

n1 I1 + n2 I2 ≅ 0

Se assim é pode-se escrever que

I1 n2 1
=- =-
I2 n1 m

e nesta altura podemos escrever esta expressão com os módulos ou quaisquer outros valores, eficazes, máximos
etc.

Destas equações pode-se afirmar certas regras de construção do transformador. Se as correntes no primário e no
secundário têm esta relação, devemos dimensionar os dois enrolamentos de modo que as correntes nominais se
atinjam simultaneamente nos dois, donde:

I1 n 1
=
I2n m

Pela mesma razão, as tensões nominais, cuja ordem de grandeza é a das f.e.m. correspondentes, também deverão
estar relacionadas por:

U1n
=m
U2n

então pode-se escrever que

U1n . I1n = U2n . I2n

estes produtos sendo a capacidade da máquina, e então a capacidade quer vista do primário quer do secundário
deve ser a mesma.

Consideraremos agora as perdas que se produzem no transformador.

As perdas são apenas as perdas Joule nos enrolamentos da forma R1I12 e R2I22 , as perdas magnéticas que se
produzem no núcleo, por histerese e correntes de Foucault, que dependem da intensidade máxima do campo.

Ora o fluxo é sempre φ0 e como a secção é determinada, então o campo magnético é constante em valor eficaz,
donde as perdas no ferro serem constantes.

Pf = const.

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R1I12
Pcu  variáveis.
R2I22
Podem existir outras perdas, de ventilação, mas como o transformador é estático, não as podemos juntar às
perdas da máquina. Teremos de ter ventiladores independentes. Consomem potência eléctrica e é tão medível
que não vale a pena entrar com ela. interessam só para estudar o rendimento total.

Além das perdas do transformador real há outro fenómeno, dito de fugas [fugas  perdas!] magnéticas. Quer
dizer que o fluxo produzido pelo enrolamento primário não atravessa todo o secundário, porque o ar não tem
permeabilidade nula e o núcleo não tem permeabilidade infinita. Há parte do fluxo que se fechará através do ar.
É este o fluxo de fugas. Haverá fugas do primário e fugas do secundário. Vamos ver o efeito destes fenómenos
sobre o diagrama.

As resistências e reactâncias criarão a desigualdade entre as f.e.m. e as tensões. As perdas magnéticas provocarão
a destruição da perpendicularidade entre o φ0 e o E1.

A presença do ferro faz com que haja um ligeiro atraso do φ0 com respeito ao E1. As correntes de Foucault têm
comportamento análogo a pequenos secundários do transformador e então dão lugar ao aparecimento de
pequenas correntes em fase com E2, donde haverá logo reacção do lado da corrente primária para manter o fluxo.
É mais um aumento da potência.

Correntes de Foucault

E E
2 1

Tr. ideal
φ
0 c/ histerese

c/ corr Foucault I0 I0

Vamos deixar isto e prosseguir na obtenção do diagrama considerando só as perdas no cobre e as fugas de fluxo,
e depois introduzir estas perdas no ferro.

Então I1 vai provocar dois fluxos que compostos darão o primário, que são o fluxo encadeado com o secundário
e o de fugas. Este último, desde que atravessa o ar, podemos supor que atravessa um circuito caracterizado por
uma dada reactância constante. Então dará lugar ao aparecimento de uma f.e.m. de auto-indução da forma j ω l1
I1 .

O resto do fluxo, que atravessa um circuito de permeabilidade variável, dará lugar ao aparecimento de uma f.e.m.
j ω n1 φ.

Tudo isto é alimentado por U1:

U1 = R1I1 + j ω l1 I1 + j ω n1 φ

chamando f ao fluxo encadeado pelos dois enrolamentos.

Do mesmo modo:

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j ω n2 φ = R2I2 + j ω l2 I2 + U2
= (R2 + R)I2 + j (ω l2 + X) I2

com U2 = (R + jX)I2

Uma terceira equação é:

n1I0 = n1I1 + n2I2

Com estas três equações podemos traçar um diagrama vectorial mais completo.

Tomemos I2 para origem das fases:

E2 = -j ω n2 φ

jω l 2 I 2

φ U2
R2 I 2
n1 I 0 jX I 2

n1 I 1

n2 I 2 R I2

E 1 = -mE 2

R1 I1

j ω l 1I 1

U1

Pode simplificar-se este diagrama se se pegar na metade esquerda e aumentarmos a escala de m vezes. Então E1
= E2. Se depois se rodar de 180°, virá:

—8—
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n2
U1
n1 jω l 1 I 1 n 2 = j ω l 1I 2 ( n 2 )
2

n1 n1

n2
E = E2
n1 1 2
R1 I 1 n2 = R1I 2 ( n 2 )
n1 n 1
jω l 2 I 2

U2
R 2I 2
jX I 2

R I2

n2
desprezando I0 como vimos. Mas como I1 = I2 , vem mais simples:
n1

n2
U1
n1

2
jω [ l 2 +l 1 ( n2 ) I 2 ]
n1

U2
2
[ R2 + R1 (n 2 ) I 2 ]
n 1
jX I 2

R I2

Estamos a fixar uma resistência e uma reactância que se chamam resistência combinada do transformador
referida ao secundário como sendo a soma da resistência do secundário com a do primário referida ao
secundário.

n
 Rc2= R2 + R1(n12)2 = R2 + R1 m-2
 n2
Xc2= X2 + X1( )2 = X2 + X1 m-2
 n1

Poderíamos também referir estas grandezas ao primário. Apareceria então outro diagrama. Viria:

n
 Rc1= R1 + R2(n21)2 = R1 + R2 m2
 n1
Xc1= X1 + X2( )2 = X1 + X2 m2
 n2

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Máquinas Eléctricas II

Se tivessemos o circuito

R c2 X c2

n2
U1 U2
n1

o diagrama vectorial do seu funcionamento seria o seguinte:

n2
U1
n1
C

j X c2 I 2

A B
U2
R c2 I 2
jX I 2

R I2

então este circuito é equivalente ao transformador, nas condições propostas, sob o ponto de vista do diagrama de
funcionamento.

Este diagrama assim simplificado é o diagrama de Kapp. Ao triângulo ABC chama-se triângulo de Kapp.

Tendo este esquema equivalente, temos simplificado o tratamento de problemas relativos ao funcionamento do
transformador. Por exemplo:

Conhecemos a razão do transformador, a resistência combinada referida ao secundário e a reactância Xc2, e


afirmamos que o transformador é alimentado à tensão U1. Admitamos que queríamos saber qual a queda de
tensão produzida quando o transformador alimentasse um conjunto de receptores que absorvessem I2 com
esfasamento φ2.

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n2
U1
n1

j X c2 I 2

φ R c2 I 2
U2
O
δ U2
(Queda de tensão)

Vamos melhorar o rigor dado pelo circuito equivalente. Vamos ver como proceder para introduzir as perdas
constantes, o efeito da corrente de magnetização, portanto.

Essa I0 existe quer o transformador esteja em vazio quer à plena carga. Se estiver à plena carga, a influência da
corrente de magnetização sobre os outros valores é pequena, mas em vazio o esquema equivalente dir-nos-ia que
I0=0 o que não é verdade. O modo usual de introduzir I0 é derivarmos uma admitância com dois ramos em
paralelo, R' é ohmica e X' reactância. Escolhendo R' e X' convenientemente podemos reproduzir o efeito de I0.

2 2
R 1 ( n2 ) X 1 ( n2 ) R2 X2 I2
mI 1 n1 n1

n U2
U1 2 2
n1 R' ( n2 )
2
X' ( n2 ) U'
n 1
n1

Como I0 é uma corrente no primário, vamos considerar R' e X' como grandezas ligadas ao primário. Como o
esquema está referido ao secundário, referimo-las também.

Sabemos que se no primário há E1, o fluxo φ0 não está em quadratura atraso com E1 por causa das perdas
magnéticas e I0 está ainda mais avançado pelas correntes de Foucault.

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2
R' ( n2 ) n2
U1 1
n1 n

ψ
2
X' ( n2 )
n1

n1
I0
n2

Vamos colocar o transformador em vazio, I2 = 0

n2
Podemos supor que U' ≅ U1 por I0 ser muito pequena. Será então:
n1

I oR'
Io

I oR' I oX' ψ

I oX'

Io

n2
U1
n2 n1
R' ( )2 = ∴
n1 n1
I0 cos ψ
n2

U1
R' =
I0 cos ψ

e do mesmo modo

1
X' =
I0 sen ψ

Substituindo encontramos:

n1 n1
I1 = I0 + I2
n2 n2

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ou (I2 - I0) n1 = I2 n2.

Nos cálculos de funcionamento entramos com a admitância derivada se a fracção de carga for pequena, senão
utilizamos apenas o esquema inicial.

Para o traçado do esquema equivalente precisamos de conhecer:

n1
R1 X1 R2 X2 R' X'
n2

As reactâncias são apenas as reactâncias correspondentes ao fluxo de fugas porque a outra parte está associada às
f.e.m., pois diz respeito à transformação de energia.

Como medir estas grandezas? As resistências seriam fáceis de medir mas é preciso não esquecer que, pelo menos
no lado da mais baixa tensão, ela tem um valor muito baixo e daí a dificuldade de uma medida rigorosa. Mas a
resistência do enrolamento depende da temperatura de funcionamento da máquina, É na zona de plena carga que
as resistências vão ter um significado mais importante.

A técnica de medida designa-se por ensaios para obtenção dos valores característicos.

No transformador são dois os ensaios que chegam para todos esses valores: são o ensaio em vazio e o ensaio em
curto-circuito.

1.1.2 Ensaio em curto-circuito

I 1n n1 n2 I 2n
W
U cc A

A tensão Ucc é reduzida (tensão de curto-circuito) para que as correntes não venham de curto-circuito mas sim
as nominais: em geral Ucc = 0,05 Un.

No curto-circuito o diagrama fica reduzido ao triângulo de Kapp:

n2
U cc j X c2 I 2n
n1

R c2 I 2n

de onde se pode escrever:

n2
Ucc = Zc2 . I2n
n1

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n2
em módulos, onde se conhecem Ucc e I2n; . determinando podemos obter Zc2. Se medirmos R1 e R2
n1
tiraremos Rc2. Conhecido Rc2 e Zc2 ficamos com Xc2. Com uma ponte podemos medir R1 e R2 e tirar Rc2 se
não forem muito pequenas. Um processo de medir a resistência consiste em montar um wattímetro do lado do
primário. A potência lida é de perdas pois o transformador não fornece qualquer potência útil.

As perdas medidas são perdas Joule

2 2
R1.I1n + R2.I2n

e as perdas magnéticas, mas se Ucc ≅ 0,05 ou 0,1 Un então Ecc ≅ 0,1 En quando muito.

Então o fluxo φcc ≅ 0,1 φn e também a intensidade do campo, admitindo a proporcionalidade. Como as perdas
magnéticas dependem do quadrado do campo, serão 100 vezes inferiores, logo desprezáveis. Então o wattímetro
mede só as perdas Joule.

2 2 2 n2 2 2
P = R1.I1n + R2.I2n = R1.I2n ( ) + R2.I2n =
n1
n2 2 2 2
= [R1( ) + R2] I2n = Rc2 I2n
n1

2
Rc2 determina-se dividindo a leitura do wattímetro por I2n :

P
Rc2 =
2
I2n

Como, pelo menos de um lado a resistência tem valor apreciável, facilmente se determinam as resistências R1 e
R2 separadamente.

A tensão Ucc não costuma ser indicada em volts mas em percentagem. Então define-se a tensão de curto-circuito
como sendo:

n2
Ucc .
n1
εcc = U2n
. 100 %

Esta tensão permite comparar transformadores de dimensões diferentes, e determinar rapidamente se dois

transformadores podem funcionar bem em paralelo, do ponto de vista da repartição da carga. εcc traduz uma
queda de tensão percentual.

1.1.3 Ensaio em vazio

I 1n n1 n2
A
U 1n V U 2n

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Máquinas Eléctricas II

Este ensaio permite determinar a razão de transformação, pois, aplicando U1n ao primário e tendo o secundário
uma resistência quase infinita, mede-se U2n

U2n
=m
U2n

Os números de espiras dos enrolamentos não são obtidos, apenas a sua razão. O amperímetro permite medir |I0|.
Com um wattímetro no primário medimos praticamente as perdas no ferro. Conhecidas estas, sabemos o
esfasamento de I0 relativamente à tensão U1, o ψ , que dá o valor da admitância derivada que terá de entrar no
esquema equivalente completo do transformador.

Reconsiderando os resultados obtidos com os dois ensaios mais uma medida de resistência, vê-se que se podem
conhecer todos os valores de que necessitamos par ao traçado do esquema equivalente do transformador.

Sobre a tensão de curto-circuito: essa tensão está, quando muito, entre 2 e 10%, e nos casos mais vulgares entre 3
e 6%; 4 a 5% são os casos mais frequentes. Esta tensão de curto-circuito é do maior interesse para o paralelo de
transformadores; mas para isso apenas se sabe que os transformadores que se ligam em paralelo devem ter
tensões de curto-circuito próximas e da mesma ordem de grandeza, altas ou baixas.

Vejamos o significado da tensão de curto-circuito


elevada ou baixa:
Zc In
Uma tensão de curto-circuito baixa significa uma pequena queda de tensão ( . 100% ) e portanto a
Un
unidade transformador não vai acarretar grandes problemas de queda, logo necessidade de regulação de tensão.
Mas em contrapartida mais severos se tornam os problemas das sobre-intensidades. Nessa situação os diferentes
elementos que constituem o circuito vão oferecer uma certa dificuldade à passagem da corrente de curto-circuito
(impedância). Quando um transformador faz parte desses circuitos é a impedância combinada do transformador
que ajuda a limitar essa corrente.

Para atenuar esse problema convém que essa impedância combinada não seja demasiado baixa. São dois
interesses antagónicos. Entre essas duas necessidades antagónicas escolhe-se um compromisso que anda na zona
dos 4 a 6%.

Há uma expressão que pode ter interesse; é a expressão da queda de tensão em percentagem. Do diagrama de
Kapp (ver pág. 11):

ε = Rc I2n . cos φU+2oXc I2n . sen φ . 100%


n2
em que U2o é o módulo da tensão U2 em vazio: U2o = U1
n1

O numerador é praticamente igual às diferenças dos vectores. A aproximação é tanto mais legítima quanto mais a
experiência mostra que numa escala mais realista o zero estaria muito mais longe para baixo.

Fixando o factor de potência podemos logo prever qual a queda de tensão sem traçar o diagrama.

1.1.4 Agrupamento de transformadores monofásicos


Como trabalham em sistemas de tensão constante, destinam-se a ser agrupados em paralelo, i. e.:

— 15 —
Máquinas Eléctricas II

U'1n U"1n

E' E"

U' 2n U"2n
V

Vamos ver as condições necessárias para poder estabelecer o paralelo sem qualquer inconveniente.

É preciso que eles sejam próprios para as mesmas tensões, do lado do primário e do secundário, i. e.

' "
U1n = U1n e
' "
U2n = U2n

Então deverá ser m' = m".

Se as tensões nominais são iguais em módulo, as tensões aplicadas são as mesmas; então as tensões do
secundário são iguais. O problema que se põe é se

' "
U2n = ± U2n

i. e. se aparecem em fase ou em oposição de fase. Depende da ordem por que se tomam os dois terminais. A
maneira de resolver o problema é: liga-se um dos condutores e no segundo, com ele aberto, instala-se um
voltímetro para ler a tensão. Se for nula está certa a ligação; se der o dobro, estão trocadas as ligações.

Não há problemas de estabilidade de funcionamento pois a f.e.m. está garantida pela tensão primária.

Podemos traçar a característica externa do transformador, como numa máquina de corrente contínua.

U2

'
φ2
U cc
φ2

I 2n I2

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Máquinas Eléctricas II

São sempre características do tipo descendente que darão lugar a uma queda de tensão entre o funcionamento em
vazio e à plena carga, que nos está dada pela tensão de curto-circuito.

No segundo transformador, se tiver a mesma Ucc, será a curva a traço interrompido. Isto corresponde à exigência
dos geradores terem iguais quedas de tensão para a repartição das cargas ser automática. O problema no
transformador é mais importante porque aqui não temos o recurso de mexer em nenhum equivalente para a
excitação. Ou a repartição se faz certa ou não há nada a fazer.

1.1.5 Aspectos de carácter construtivo


Há em geral a preocupação de montar um enrolamento sobre o outro para diminuir fugas.

Com respeito aos núcleos há duas disposições mais vulgares:

Há o transformador de núcleos com o circuito magnético do tipo seguinte:

Travessas Enrolamentos

n2 n1 n1 n2
2 2 2 2

Colunas do núcleo

Em cada área tracejada está metade de cada enrolamento primário e secundário.

A maneira de montagem é que difere um pouco. Designam-se por bobinas separadas, bobinas concentricas e
bobinas alternadas. Estas últimas são as que dão lugar a fugas menores.

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n1
2

Bobinas separadas

n2
2

Bobinas coaxiais
concentricas

n1 n2
2 2

Bobinas alternadas

A utilização de uma ou de outra depende da do transformador. Em pequenos transformadores podemos usar a


primeira que é a mais simples. A segunda é a vulgar nos transformadores de potência, onde os problemas de
isolamento são diferentes; põe-se junto ao núcleo o enrolamento de isolamento menos importante, logo a baixa
tensão. A última é a que se usará para muito baixas impedâncias combinadas.

Um outro tipo de circuito magnético para transformador monofásico é o seguinte:

Este tipo é chamado núcleo couraçado ou tipo shell. Os enrolamentos aqui podem ser arrumados por qualquer
daqueles processos.

Para a mesma potência, o núcleo do tipo rectangular precisa de menos ferro e gasta mais cobre, e o couraçado
exige mais ferro e menos cobre.

Para tensões elevadas e potências pequenas precisamos de dimensionar mais generosamente o ferro e vamos para
o primeiro sistema. Para potências muito elevadas, como há correntes elevadas e temos de ter mais cobre, vamos
para o segundo tipo. Em cada caso é necessário fazer o estudo económico do problema.

1.2 TRANSFORMADOR TRIFÁSICO


Tendo um sistema trifásico de tensões, se o quisermos transformar noutro sistemas de tensões diferentes,
poderíamos usar três transformadores, como se indica:

— 18 —
Máquinas Eléctricas II

1
2
3
n

1
2
3
n

Estes três transformadores monofásicos assim ligados constituem um banco de transformadores. Os 3


enrolamentos primários estão ligados em estrela, assim como os secundários. Não é obrigatória esta ligação;
pode-se ligar em triângulo-estrela ou vice-versa.

Os três núcleos magnéticos podem ser ligados uns aos outros, como é evidente:

φ 1o φ 2o φ3o

Cada um dos pares de enrolamentos funciona como um transformador monofásico. O núcleo deverá ser
atravessado pelo fluxo de magnetização correspondente φo. Tomando os sentidos positivos para cima, os fluxos
hão-de somar-se dando lugar a um fluxo φt:

φ 1o + φ o2 + φ 3o = φt

que se poderá fechar pelas colunas laterais. Se não houver saturação em nenhum ponto, estes fluxos não
interferem uns sobre os outros visto que cada um é livre de se fechar pelas colunas laterais. Estamos na presença
de uma unidade trifásica de fluxos livres. No entanto, se o sistema for trifásico simétrico, os três diagramas dos
três transformadores monofásicos são exactamente iguais, apenas rodados de 120° uns em relação aos outros. Se
1 2 3
assim for, estes três fluxos de magnetização φo , φo e φo são vectorialmente representados por três vectores

iguais esfasados de 120°. Então o fluxo total resulta constantemente nulo, φt =0. Então o fluxo que se fecha pelas
colunas laterais é nulo e estas não são precisas. Fica então, para o transformador de núcleos):

— 19 —
Máquinas Eléctricas II

É a constituição mais frequente do transformador trifásico. Este transformador é trifásico mas de fluxos ligados,
porque φt deixa de poder ser qualquer. Mesmo que a simetria seja destruída, agora eles têm de estar ligados pela
relação

1 2 3
φo + φo + φo = 0.

Evidentemente que esta obrigatoriedade cede um pouco pela possibilidade do fluxo se fechar fora do núcleo,
como fluxo de fugas.

Quando temos o transformador de fluxos livres é costume não usar a disposição dada mas outra ligeiramente
diferente (para o transformador tipo shell (couraçado)):

Neste transformador de núcleos é introduzida uma pequena assimetria. Os enrolamentos da coluna central têm
um circuito magnético com duas colunas em paralelo, ao passo que para os enrolamentos das colunas laterais a
relutância é maior. A fase da coluna do meio tem uma relutância ligeiramente inferior à das outras, o que influi
ligeiramente na reactância dos enrolamentos respectivos.

Houve construtores que fizeram o núcleo arrumado de modo diferente: núcleos simétricos:

Como vantagem vinha ainda a cuba cilíndrica. Foi posto de parte.

Razões que podem levar a preferir o banco ou o transformador trifásico:

— 20 —
Máquinas Eléctricas II

Do ponto e vista do diagrama, é análogo. São as razões de natureza económica e de transporte. Os bancos só se
usam nas muito grandes unidades, como à saída das grandes centrais. Para estas potências elevadas as dimensões
são muito grandes e o preço é muito elevado. Como os locais das centrais hidroeléctricas estão em terrenos
acidentados, uma unidade trifásica pode exigir um sistema de transporte difícil para as vias disponíveis.
Passando a três unidades monofásicas reduz-se ao problema do transporte. Os seus pesos somados são
superiores, mas cada uma delas é mais pequena.

Razão económica: qualquer máquina é sujeita a avaria. Não podemos deixar uma central fora de serviço porque
um transformador teve uma avaria. Deverá pois haver uma unidade de reserva. Num transformador trifásico é
outro (100%) enquanto que para um banco de transformadores monofásicos será só outro monofásico (33,3%).

1.2.1 Disposição dos enrolamentos


Representamos já a ligação em estrela:

3 1

A representação da ligação em triângulo será:

3 1

Daqui se tira que o mesmo enrolamento não pode ser ligado das duas maneiras. Deve estar dimensionado ou para
suportar a tensão simples ou para a tensão composta. As ligações possíveis são:

— 21 —
Máquinas Eléctricas II

ou YY em escrita corrente

ou YD em escrita corrente

ou DY em escrita corrente

ou D D em escrita corrente

Surgiu a ideia de ligar os enrolamentos do transformador de modo diferente, em zig-zag ou Z. Representando


apenas um dos enrolamentos, será:

1 2 3

ou Z em escrita corrente

Há então outras combinações possíveis:

Só têm aplicação prática três delas. A prática mostra que de todas as ligações a mais barata é em estrela, pois
temos a tensão mais baixa (simples) e cada enrolamento é atravessado pela corrente em linha. No enrolamento

em triângulo correspondente tem uma tensão 3 vezes superior, e uma corrente 3 inferior. A economia que
resulta da diminuição da secção pela corrente ser menor está provado que não compensa o aumento do número

de espiras necessário para uma tensão superior (comprimento do condutor 3 vezes superior) e o isolamento
tem de ser previsto para uma tensão mais elevada. O enrolamento em estrela é portanto mais barato que o
enrolamento em triângulo correspondente. Em relação ao zig-zag, nas três colunas vão aparecer 3 fluxos em
sistema simétrico que provocam o aparecimento de f.e.m. nos outros meios enrolamentos. A soma total das
f.e.m. induzidas nos dois meios enrolamentos de cada fase será inferior à soma dos módulos, ou seja à f.e.m. que
seria induzida no enrolamento se estivesse todo na mesma coluna.

— 22 —
Máquinas Eléctricas II

φ 20

φ 10

φ 30
Soma das f.e.m. de uma fase

É evidente que para a mesma tensão, o enrolamento em zig-zag resulta mais caro que o enrolamento em estrela
correspondente. Logo parece que seria evidente que o único tipo de ligação usado fosse o estrela-estrela. Na
verdade este é o mais barato e que se procura usar sempre que é possível, o que não sucede na maior parte dos
casos.

Há dois problemas que nos obrigam à escolha de outros tipos de ligações: o das assimetrias das cargas e o do 3º
harmónico.

O primeiro motivo era a questão do preço. As razões que levam usar pelo menos de um dos lados outro tipo de
ligação são os dois papéis complementares que o transformador é chamado a desempenhar. O transformador
deve contribuir para o equilíbrio das cargas e para a filtragem dos harmónicos de 3ª ordem e de ordens múltiplas
de 3.

1.2.2 Componente homopolar


O papel do transformador como equilibrador de cargas limita-se à sua possibilidade de eliminar a componente
homopolar de um sistema desequilibrado de cargas.

Imaginemos que o lado secundário está ligado em estrela e tem neutro. Se o sistema a que se encontra ligado
absorver um sistema desequilibrado de correntes, se for

I1 = I1

I2 = I3 = 0

será o caso extremo de sistema desequilibrado. Então só a coluna 1 irá ser desmagnetizada pela passagem da
corrente I1. Para se garantir a igualdade dos fluxos, é evidente que naquele enrolamento que está na mesma
coluna deverá passar uma corrente primária para tornar a magnetizar essa parte do circuito magnético de modo
que o fluxo seja o fluxo magnetizante. Em contrapartida nas outras não deverá passar corrente nenhuma.

Imaginemos vários casos:

1) Supomos que o primário também está em estrela e tem neutro. Então irá aparecer uma corrente primária I'1
que se fechará pelo neutro (I'n). Então o transformador transmite integralmente para montante o desequilíbrio de
cargas i.e., não opõe qualquer obstáculo a esse desequilíbrio.

— 23 —
Máquinas Eléctricas II

Se as cargas desequilibradas chegam até à máquina geradora acontece que a capacidade da mesma não é
convenientemente aproveitada porque apenas uma das fases será carregada. É por isso que se pretende sempre
que possível repartir a carga igualmente pelas três fases. Então existe sempre a preocupação de derivar
receptores em igualdade de potência entre as fases e o neutro de modo que as cargas venham tanto quanto
possível equilibradas.

Mas nos transformadores dos postos de transformação, por grande que seja essa intenção, pode sempre acontecer
que uma das fases esteja mais carregada que as outras. O sistema de correntes é então assimétrico, podendo ser
substituído por três sistemas, directo, inverso e homopolar. O transformador que aí possa estar metido não tem
possibilidade de atenuar a componente inversa mas pode atenuar a homopolar dando uma contribuição
apreciável no sentido do equilíbrio das cargas o que tem de ser aproveitado. Vejamos como:

2) Imaginemos que o enrolamento primário é ligado em triângulo.

Pode mostrar-se que um sistema de correntes que tenha componente homopolar no secundário é substituda no
primário por um sistema que não tem componente homopolar. A demonstração faz-se na cadeira de Aplicações
I.

Se existe ainda só I1, então o enrolamento montado na mesma coluna há-de ser percorrido por uma corrente que
se vai fechar pelo circuito indicado a traço misto. Portanto, pelo menos noutra fase passa agora corrente.

É este o motivo pelo qual se diz que um enrolamento em triângulo contribui para o equilíbrio das cargas. Não as
torna equilibradas, porque se mantêm as componentes inversas.

O mesmo efeito pode ser obtido se do lado de jusante estiver um enrolamento em zig-zag.

Poder-se-ia objectar agora o seguinte: aparentemente temos um modo de resolver a questão:

— 24 —
Máquinas Eléctricas II

A componente homopolar é:

3 Io = I1 + I2 + I3 = In

logo existe se houver corrente no neutro e não existe se não houver corrente no neutro. Se se tirasse o neutro
eliminava-se essa corrente mas para isso vai-se provocar uma situação que não convém de todo: se só passar I1
vai aparecer uma corrente que se vai distribuir pelos outros dois enrolamentos do primário e então os outros dois
núcleos vão ser magnetizados acima da magnetização dada por φo . Tendo esta magnetização suplementar as
f.e.m. nestas fases vão subir em relação àquilo que deveria ser. Por outro lado a magnetização da primeira coluna
vai ser baixada porque a reactância dos três circuitos não vai permitir que passe no primário uma corrente que
compense exactamente os efeitos magnéticos desta, onde a f.e.m. baixa portanto.

Resultado: o potencial do neutro do lado do secundário é alterado; vamos ter três f.e.m. assimétricas,

E2

E3 E1

e os receptores alimentados na fase 1 ficam com tensão mais baixa e os outros com tensão mais alta.

Esta situação pode tomar dois aspectos, dependendo dos fluxos serem do tipo livre ou ligado o grau das
consequências.

Se forem do tipo livre esta magnetizações e desmagnetizações nas três fases são relativamente independentes e
este fenómeno manifesta-se permanentemente. Se o transformador for de fluxos ligados o fenómeno é um pouco
menos sensível mas o fluxo tem de poder produzir-se de qualquer forma e vai fechar-se exteriormente pelo ferro
da máquina.

Tudo isto conduz à conclusão de que os transformadores que se podem usar se resumem a três:

YY que será usado sempre que haja a garantia de que as cargas são bastante equilibradas,
particularmente nas unidades de muito alta tensão.

YnYn (1) se há a eventualidade das cargas serem desequilibradas põe-se neutro nos dois lados e desiste-se de por
o transformador a desempenhar o papel de equilibrador de cargas

DYn elimina a componente homopolar do lado do primário.

YZn também elimina a componente homopolar do lado do primário. Este transformador é ligeiramente mais
caro que o anterior em igualdade de capacidade e tensões, mas tem a vantagem de s e poder ter neutro
no lado do primário, e a vantagem de eliminar o harmónico de 3ª ordem do fluxo do ferro do próprio
transformador. Por vezes há interesse em ir para este.

A grande maioria são DY.

Os YY aparecem à saída das grandes centrais.

(1) "n" indica a presença de neutro acessível

— 25 —
Máquinas Eléctricas II

1.2.3 Harmónico de 3ª ordem


Nos sistemas trifásicos os harmónicos de 3ª ordem gozam da propriedade de estarem em fase nas três fases, e em
todos os sistemas de potência que envolvem máquinas eléctricas o harmónico de 3ª ordem é o mais de temer,
visto que pode nascer do fenómeno da magnetização dos materiais ferro-magnéticos ao atingir a saturação (ver
Electrotecnia Teórica).

Os harmónicos aparecem só na corrente, logo do ponto de vista da potência transformada, o harmónico não tem
qualquer contribuição útil, pelo contrário, vai agravar as perdas Joule em todos os circuitos. Se a um sistema de
uma dada potência sobrepusermos um harmónico de 3ª ordem, agravamos as perdas sem tirar benefício.

O harmónico de 3ª ordem é tanto mais chato quanto maiores forem as intensidades. Se deixarmos o harmónico ir
até aos alternadores estamos a provocar um aquecimento exagerado destes, baixando o rendimento e a
capacidade. Há todo o empenho em não o deixar ir até lá. Do mesmo modo para as linhas.

Os harmónicos podem vir dos consumidores e podem produzir-se no próprio transformador se funcionar com
fluxo de magnetização demasiado elevado.

Vamos ver como se comporta um transformador perante os harmónicos de 3ª ordem que possam vir de jusante.

Dado um sistema de correntes

 i1 = 2I1 cos ωt + 2I3 cos 3ωt

 i2 =
2π 3.2π
2I1 cos (ωt- )+ 2 I3 cos (3ωt- )
3 3

i3 = 2 I1 cos (ωt-



3
)+ 2 I3 cos (3ωt-
3.4π
3
)

 i1 = 2I1 cos ωt + 2I3 cos 3ωt


 i2 = 2I1 cos (ωt- 3 ) + 2 I3 cos 3ωt

i3 = 2 I1 cos (ωt-4π3 ) + 2 I3 cos 3ωt


Estando em fase ao chegarem ao transformador vão criar uma situação especial.

Vejamos:
Em primeiro lugar, se não houver neutro no secundário não podia circular o 3º harmónico porque o circuito teria
impedância infinita para esse harmónico, o que é absurdo por hipótese.

Se existir neutro no secundário, [Y ou Z], seja em estrela:

— 26 —
Máquinas Eléctricas II

I’3 I’3 I’3 3 I’3

I3 I3 I3 3I3

Aparecerão então as correntes I'3. Se existir neutro, este 3º harmónico transmite-se integralmente a montante do
transformador. Como não o queremos, temos de alterar as ligações. Eliminando o neutro do lado do primário
conseguimos que as correntes não circulem, mas o fluxo φo vai ser alterado pelo aparecimento dos fluxos criados
pelas correntes I3 e as f.e.m. em ambos os lados vão aparecer com uma variação de frequência tripla.

E’2
E’’1

E’1

φo

E’3

Estamos a introduzir um harmónico de tripla frequência nas f.e.m. logo nas tensões. Transferimos o problema
das intensidades para as tensões.

Temos de escolher outro tipo de ligação. Ligando em triângulo-estrela, as correntes fecham-se na malha e
nenhuma influência iria para montante.

J1 = I'3 - I'3 = 0

para estarem em fase.

Vamos examinar um caso em que o harmónico de 3ª ordem não passa para montante, que é o caso do
enrolamento em zig-zag. Aqui o harmónico de 3ª ordem nem chega a afectar o fluxo no ferro do transformador.

inserir figura

São duas magnetizações em oposição em cada núcleo porque as três tensões estão em fase. Logo nem sequer
agrava as perdas magnéticas.

Assim, desde que o secundário seja em zig-zag, já o primário pode ser em qualquer tipo, sem que daí passe o
harmónico 3 para montante.

Resumindo:

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Máquinas Eléctricas II

a) Pode eliminar-se o 3º harmónico antes dele percorrer os enrolamentos do secundário se não se lhe fornecer
neutro.

b) Se tivermos neutro do lado do secundário podemos eliminar o harmónico de 3ª ordem antes dele afectar o
fluxo desde que o secundário seja em zig-zag.

c) Pode eliminar-se o harmónico de 3ª ordem no enrolamento primário se este for em triângulo.

Como o próprio transformador tem um circuito magnético em ferro, se ele trabalhar com uma certa saturação, o
harmónico de 3ª ordem pode desenvolver-se no próprio transformador. Se queremos evitar que ele se transmita
para montante temos de empregar um enrolamento em triângulo no primário.

Mas se no primário precisamos de neutro, ainda temos um último recurso que é a utilização de um terciário,
ligado em triângulo. Para eliminarmos o efeito do harmónico para montante, não precisa de ser o próprio
enrolamento. Basta um enrolamento em triângulo capaz de se deixar atravessar por uma corrente de circulação
capaz de compensar os efeitos, e as correntes estão em fase entre si – sistema sinfásico de tensões e correntes - .
Temos então só de estudar o funcionamento dos transformadores em regime simétrico e perante um regime
homopolar.

Regime simétrico

Num transformador, a ordem de sucessão das fases é indiferente, porque não tem peças em movimento. Vamos
ver como se põe o funcionamento em regime simétrico directo.

No caso de um transformador YY o resultado é imediato e evidente:

I1 I2
1 1

U1 n1 n2 U2

0 0

3 3

2 2

Podemos estudar apenas o que se passa para uma fase porque nas outras é igual, a menos de um esfasamento de
2π .
3

É pois como estudar um transformador monofásico. O esquema equivalente de um transformador trifásico será
então

— 28 —
Máquinas Eléctricas II

R 1 ( n2 ) X 1 ( n2 )
2 2
R2 X2 I2
mI 1 n1 n1

n U2
U1 2
R' ( n2 )
n1 2
X' ( n2 )
2
n1 n1

2
e mais dois esquemas idênticos a este, com todas as grandezas multiplicadas por α eα .

O que se altera é que a potência transformada no transformador monofásico será U1 I1 cosφ, e aqui temos de as
multiplicar por 3.

Se o transformador tiver alguns enrolamentos com outro tipo de ligação ( D ou Z ) o circuito equivalente
correspondente não pode ser assim derivado do monofásico. Mas se formos à teoria dos circuitos e seus
teoremas, podemos facilmente admitir a existência de enrolamentos equivalentes. Se tivermos um enrolamento
em triângulo caracterizado pelas impedâncias Z1, Z2 e Z3 , há um teorema de Kenely-Rose que permite substituir
por uma estrela de impedâncias que dão lugar à absorção das mesmas correntes., etc. Para o zig-zag é possível
deduzir a estrela equivalente. Então, feita a substituição, caímos naquela situação e passamos para o circuito
equivalente.

Ao fazer estas substituições, sacrificamos o mesmo em rigor de tratamento, no enrolamento em Y que no

monofásico. Se não for em Y, sacrificamos a razão de transformação que deixa de ser


n1 e será preciso ter o
n2
cuidado de não confundir a razão de transformação num caso desses.

No caso DY:

1 n2 E2 U2
U1
0 E1 0
2 n1
α U1
3 3
αU1
2 2


Temos que n1 dt dará uma f.e.m. que se oponha à tensão composta.

Uc1 ≈ E1

Us2 ≈ E2

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Máquinas Eléctricas II

E1 = n1 U c1 = E1 = n1 ; n1 = 3 Us1 Us1 = n1 = m
mas donde como é
E2 n 2 Us 2 E 2 n 2 n2 Us 2 Us 2 3 n2

Outro sacrifício que temos que fazer ao utilizar o esquema equivalente quando um dos enrolamentos não é em
estrela é o da noção do esfasamento entre as grandezas primárias e secundárias.

Vimos que as f.e.m. estavam em fase, e no transformador monofásico sabíamos que U1 e U2 eram dois vectores
em oposição, que se poderiam supor em fase se se considerasse a ordem dos terminais trocados.

U1

U2

U2

O mesmo se passa no transformador trifásico com dois enrolamentos em estrela:

αU1

α2U2

U1
U2

αU2
2
α U1

Num transformador DY o que está em fase é E2 e E1 (ver figura da pág. anterior), e as tensões simples não estão
em oposição de fase com as da estrela porque a tensão do lado do primário, α2U1 – U1 é que há-de estar em
oposição de fase com Us2, se montarmos assim os enrolamentos. Então:

— 30 —