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AS ELEIÇÕES PRESIDENCIAIS E A CONSOLIDAÇÃO

DA DEMOCRACIA NO BRASIL∗

Fábio Wanderley Reis

O tema da consolidação democrática remete naturalmente a certa


literatura que andou há pouco se ocupando dele: a literatura cujo rótulo
genérico mais difundido talvez seja o de “transições” e que Philippe
Schmitter, com ânimo meio galhofeiro, tratou de erigir em disciplina
especial, a “transitologia” (ao lado, aliás, de uma definitivamente abusada
“consolidologia”).1 Provavelmente o que há de mais notável a respeito dessa
literatura é que ela própria se acha em trânsito, permanentemente em
perseguição a um objeto mutável. Pois o rótulo mesmo de “transições” é
algo que só passa a aplicar-se a ela quando os autoritarismos recentes da
periferia meridional do capitalismo mundial, depois de terem sido estudados
em sua implantação e na dinâmica que caracterizou o seu auge, começam a
“abrir-se” e a produzir a onda que viria a resultar na implantação de novas
democracias, emergindo então o problema de como alcançá-las – e por fim o
de como eventualmente consolidá-las.

Infelizmente, o panorama internacional começou a mostrar-se


demasiado movediço, com os eventos surpreendentes e espetaculares do
colapso do socialismo mundial e a intensificação dos processos que se


Palestra proferida na Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da UFMG, Belo
Horizonte, em 1998.
1
Philippe Schmitter, “The Conceptual Travels of Transitologists and Consolidologists: How Far
to the East should they Attempt to Go?”, com a colaboração de Terry Lynn Karl, manuscrito,
Universidade de Stanford, dezembro de 1993.
passaram a designar pela expressão “globalização”. Em sua volubilidade, a
“transitologia” foi capaz de pegar carona no colapso do socialismo, tratando
os países a ele expostos como também submetidos a “transições”
democráticas, assim ampliando seu foco de observação de maneira a incluir
o Leste ao lado do Sul e ganhando sobrevida. Mas que fazer com a
globalização? Virá ela impregnar de vez com sabor de coisa velha os temas
e perspectivas dos “transitólogos” de Schmitter, ou será possível exercitar
também com relação a ela a plasticidade até aqui observada? Afinal, tudo é
transição – e a globalização, a fortiori, pode ser vista como a exacerbação do
traço de mutabilidade e fluidez que a “transitologia” tende a destacar.

Em certo sentido, a questão decisiva é justamente a de como capturar


analiticamente a fluidez inerente aos eventos. O problema com a literatura
sobre “transições” não é o fato em si de atentar para os eventos, mas a
maneira específica em que o faz, despojada de um instrumental analítico que
lhe permita pretender apreender a lógica que preside à mudança e condenada
à perseguição míope em que cada volta ou trambolhão da história se
transforma em objeto de uma fenomenologia ou descrição que se esgota em
si mesma. Tais traços podem ser pedagogicamente contrastados com os que
distinguem a literatura sobre desenvolvimento político que floresceu alguns
decênios atrás. Não obstante as muitas dificuldades com que esta última se
depara, o que lhe é caracterísitico é o empenho de capturar a lógica do
processo de mudança política – e acho grandemente revelador das
deficiências da ciência política contemporânea o fato de que a vasta
literatura sobre “transições”, como “moda” nova que passa a imperar, seja
inteiramente omissa e muda com respeito aos trabalhos sobre
desenvolvimento, tratados apenas como algo anacrônico ou démodé, apesar
da patente afinidade substantiva dos problemas envolvidos nos dois casos.
Pois a indagação crucial da literatura de desenvolvimento político foi, no
fundo, justamente a de como se chega a um estádio final que, tudo somado,
acaba por corresponder ao desiderato da democracia consolidada e estável.
Não tenho dúvida de que muito do instrumental analítico utilizado era
impróprio, tornando insatisfatórias as respostas dadas àquela indagação. Mas
não acredito que tenhamos alternativa real a um esforço da natureza geral da
que distinguiu os “desenvolvimentistas” – até porque me parece que a
motivação prática que orientou esse esforço se acha subjacente ao trabalho
dos teóricos da política como tal.

Por certo, não vou tentar empreender aqui a discussão teórica que isso
sugere. Creio, porém, que o tema que me foi proposto (as eleições
presidenciais e a consolidação democrática no Brasil) pode enquadrar-se
analiticamente, com proveito, por meio da referência a certa lógica da
articulação entre mudança política e econômica na época moderna à qual os
fenômenos da globalização dos dias que correm não são alheios, e à qual
talvez possam ajustar-se alguns aspectos salientes da própria derrocada do
socialismo e suas sequelas.

II

A perspectiva básica a ser introduzida pode traduzir-se no exame do


significado da implantação e do desenvolvimento do estado na época
moderna, e o ponto crucial é o de sua conexão com o capitalismo moderno.
Vasta literatura, “clássica” de diferentes maneiras, pode ser invocada a
respeito, a começar pelo volume de Barrington Moore sobre As Origens
Sociais da Ditadura e da Democracia.2 Como é sabido, o processo de
modernização política no pós-Renascimento é aí visto como envolvendo
simultaneamente a expansão das relações de mercado e a criação de
governos centrais fortes. As duas dimensões são certamente instrumentais
uma para a outra, apesar das tensões: como nota, entre outros, Charles Tilly,
o fato de que o capitalismo e o estado cresçam juntos e dependam um do
outro não impede que capitalistas e centros de acumulação de poder privado
com frequência se oponham à expansão do estado, e os reclamos do
liberalismo obviamente se inserem nessa linha.3 De toda forma, quanto ao
ponto geral da articulação entre o capitalismo e o estado-moderno, Marx,
Weber, Immanuel Wallerstein e Fernand Braudel são exemplos de autores
que elaboraram extensamente o tema. Valendo-se de tais autores e de rico
material historiográfico, Giovanni Arrighi, em O Longo Século XX,4 deu há
pouco formulação especialmente apta e persuasiva ao tema, apontando a
lógica geral que preside ao desenvolvimento do “capitalismo político”, com
destaque para a expansão gradual da escala dos sucessivos ordenamentos
político-territoriais que servem de suporte aos processos econômicos e à
dinâmica mercantil (ciclos hispânico-genovês, holandês, britânico e norte-
americano), e permitindo ver os processo correntes de “globalização” como
a afirmação exacerbada da mesma lógica básica, com o renovado vigor dos
mecanismos de mercado levando à sua operação em escala virtualmente
planetária e colocando em xeque os próprios estados nacionais como tal.

2
Barrington Moore, Jr., Social Origins of Dictatorship and Democracy, Boston, Beacon Press,
1966.
3
Charles Tilly, Big Structures, Large Processes, Huge Comparisons, Nova York, Russell Sage
Foundation, 1984, p. 140.
4
Giovanni Arrighi, O Longo Século XX, São Paulo, Editora UNESP, 1996; edição inglesa
original, The Long Twentieth Century, Verso Editions, 1994.
Até os nossos dias, porém, o estado nacional foi – e segue sendo –
parte decisiva dos desenvolvimentos que marcam a história moderna, e a
constituição da nação define o âmbito no qual simultaneamente se afirma o
estado e se têm dado predominantemente os processos econômicos do
capitalismo. Para nossos propósitos, é crucial a maneira pela qual o processo
geral se traduz politicamente no plano interno aos estados nacionais. Aqui,
cabe falar de um “problema constitucional” que teriam de enfrentar os países
que sofrem a modernização econômica e política. O aspecto decisivo
consiste nas consequências socialmente democratizantes que decorrem do
desenvolvimento do capitalismo, com a ruptura da correlação tradicional
entre o aspecto social e o aspecto diretamente político da distribuição de
poder, em que a atividade política achava-se reservada àqueles que
desfrutavam de ascendência social. O capitalismo envolve a afirmação e a
expansão das relações de mercado, e a operação do princípio do mercado,
inerentemente igualitário, tem efeito corrosivo sobre as desigualdades
próprias da estratificação estamental que estrutura a sociedade feudal
tradicional. Naturalmente, o capitalismo tem suas próprias formas de
estratificação e desigualdade, consubstanciadas na estrutura de classes. Não
obstante a característica em princípio “aberta” que esta apresenta, justamente
por decorrer da atuação dos mecanismos de mercado, o elemento de rigidez
que nela se dá é que responde pelo caráter contraditório, e ao menos
potencialmente revolucionário, classicamente associado com o capitalismo:
a promessa de igualdade contida na operação do princípio do mercado se
confronta com a frustração e as desigualdades que fatalmente decorrerão da
operação concreta de qualquer mercado.

Nas condições que assim se estabelecem, a conjugação da construção


de aparatos estatais efetivos com a penetração das relações de mercado
resulta em permitir que a atuação e a participação políticas surjam, para as
massas populares deslocadas e transformadas em força de trabalho “livre”,
como instrumento a ser acionado em favor de objetivos nos quais o princípio
igualitário do mercado se afirma e expande, e a potencialidade
revolucionária do capitalismo toma o rumo da gradual incorporação política
das populações, ainda que marcadas por vaivéns mais ou menos dramáticos.
A dramaticiadade desses vaivéns levou mesmo muitos autores a apontar uma
tensão fundamental entre o capitalismo como tal, de um lado, e, de outro, a
democracia em que a participação política alcançaria formas mais plenas: na
vigência do sufrágio universal e crescentemente igualitário, a tendência
seria, como acreditaram tanto Marx quanto pensadores liberais do século
XIX, quer a revolução socialista, em que os capitalistas seriam expropriados
e o próprio capitalismo seria suprimido, quer a restauração conservadora, em
que, ao contrário, a democracia desapareceria. A aposta na
incompatibilidade radical entre capitalismo e democracia se revelou sem
dúvida equivocada, como veremos em seguida. De todo modo, importa
ressaltar aqui que a tensão efetivamente existente entre os dois tem um
substrato que é inequivocamente social, dando-se certa fusão entre o aspecto
social e o político – e o “problema constitucional” que procuro caracterizar
se revela como a expressão política da tensão social, na qual categorias
coletivas deslocadas e mobilizadas pelo processo de transformação
capitalista são levadas a confrontar-se no plano político, isto é, no esforço de
controlar ou influenciar as decisões do aparelho do estado.

O erro envolvido na suposição de incompatibilidade radical entre


capitalismo e democracia surge com clareza quando nos damos conta de que
a forma por excelência de solução do problema constitucional
historicamente se deu justamente na alternativa de meio termo
correspondente à social-democracia. Essa alternativa envolve, na expressão
utilizada por vários autores (Claus Offe e Adam Przeworski, entre outros),
um “compromisso democrático” no qual, se por um lado se garante o
capitalismo, eliminando-se a ameaça revolucionária, por outro se mitigam as
desigualdades sociais com o desenvolvimento do welfare state, a
administração econômica keynesiana orientada pela demanda e a
implantação de estruturas neocorporativas em que o estado patrocina as
deliberações conjuntas de capitalistas e trabalhadores sobre questões de
política econômica e social, criando-se crucial arena de decisões que
contorna e complementa a arena eleitoral-parlamentar convencional. Poder-
se-ia talvez pretender ver tal evolução como expressando o fato de que o
amadurecimento do capitalismo acabaria por ensejar a solução do problema
constitucional que o próprio capitalismo deflagra em sua afirmação inicial.
Seja como for, ela certamente significa algo que se pode descrever, nos
termos clássicos de T. H. Marshall, como a expansão e o enriquecimento da
própria idéia de cidadania, que passa a incluir, além da idéia dos direitos
civis fundamentais e dos direitos políticos, também a dos direitos sociais,
ligados ao acesso generalizado a bens de educação e seguridade social
(previdência, saúde, assistência).

Sem dúvida, historicamente temos “soluções” alternativas do


problema constitucional a serem consideradas, a saber, as experiências com
o “socialismo real” e com diferentes formas de autoritarismo “de direita”.
Tais experiências lembram os extremos contemplados por Marx como saídas
prováveis para a tensão inerente ao convívio do capitalismo com a
democracia. Mas suscitam a indagação de até que ponto representarão
soluções reais do problema constitucional tal como caracterizado.
Começando pelos autoritarismos, o caráter socialmente excludente ou
restritivo e a correspondente dependência de taxas elevadas de coerção
fazem deles arranjos eminentemente instáveis, que são antes expressão do
problema fundamental do que sua solução. Quanto ao socialismo real, as
coisas são por certo mais complexas. Por um lado, é difícil subscrever sem
mais, com respeito ao colapso recente dos regimes socialistas, a visão da
simples “derrocada” de sinistros aparelhos estatais monolíticos: o ineditismo
da forma surpreendentemente amena em que foi possível realizar neles a
profunda reviravolta institucional e econômica da retomada do capitalismo
(especialmente quando confrontada com a violência em que se abortaram as
tentativas mesmo eleitorais e legais de fazer o movimento inverso e transitar
do capitalismo ao socialismo, como ilustrado pelo golpe que pôs fim ao
governo de Allende no Chile) justifica indagações intrigantes sobre o papel
cumprido pela inspiração doutrinária desses regimes, em última análise
humanista e democrática, e sobre a própria natureza e significado das
instituições que lá se construíram. Por outro lado, resta o fato incontestável
de que tais regimes se revelaram inviáveis, provavelmente pela satanização
do mercado e pelo equívoco envolvido na tentativa de eventualmente fazer
democracia prescindindo por completo do mercado. De qualquer forma, é
provavelmente adequado ver os processos correntes na antiga União
Soviética e na Europa do leste como representando a reabertura ou
recolocação dos termos gerais do problema constitucional básico (com a
ameaça de surtos autoritários do tipo próprio do capitalismo periférico), não
obstante a forma particular por ele assumida diante da peculiar combinação
dos elementos de mercado e estado que a história dos países envolvidos
incorpora e das vicissitudes recentes desta.

Mas outra possibilidade surge, ao lado da solução social-democrática


para o problema constitucional e das falsas soluções correspondentes aos
autoritarismos e ao socialismo real. Trata-se da simples ausência de solução,
isto é, da condição em que se tem a reiteração indefinida do problema
constitucional não resolvido nas idas e vindas daquilo que Samuel
Huntington rotulou de “pretorianismo” e que incluem, precisamente,
ocasional recurso a experimentos autoritários como resposta à intensificação
real ou presumida da ameaça revolucionária. Na carência de instituições
reais e do enquadramento institucional efetivo do jogo político, o pantanal
pretoriano tende a caracterizar-se, assim, pela oscilação entre, de um lado, a
busca dispersa de ganhos privados por diferentes atores e grupos e de
apropriação privada do próprio estado, ou de partes diversas dele (com sua
“balcanização” ou “feudalização” populista e “fisiológica”), e, de outro lado,
a afirmação aberta do autoritarismo militarista em que certo conjunto
particular de interesses vem a controlar de vez a aparelhagem do estado.
Duas observações merecem realce em conexão com este cenário em que o
problema constitucional permanece duradouramente sem solução: em
primeiro lugar, a ameaça revolucionária está sempre presente como possível
rumo a ser assumido pelos desmandos da situação geral de fragilidade
institucional, fornecendo alegadamente o motivo para as ocasionais
irrupções autoritárias por parte de setores ou forças que são presa de uma
espécie de “complexo de sublevação”; em segundo lugar, a estabilidade da
condição pretoriana se associa com o fato de que o conjunto de
circunstâncias que permite a solução real do problema constitucional é antes
excepcional – e a regra somos nós, os países periféricos, com o
pretorianismo em que chapinhamos.

III
Até o colapso do socialismo e a instensificação recente dos processos
ligados à globalização, a cena brasileira se ajustava, sem dúvida, a esse
quadro de instabilidade pretoriana e de carência de solução institucional e
constitucional do convívio sociopolítico cotidiano. Como costuma ocorrer na
condição pretoriana, o caráter “constitucional” dos conflitos (no sentido da
tensa coexistência de projetos alternativos ou antagônicos relativamente à
própria organização da coletividade e à acomodação conseqüente no
convívio dos grupos envolvidos) nem sempre era imediatamente
transparente: eles tendiam antes a tomar a forma do jogo populista e
“fisiológico” de rent-seeking ou busca de ganhos privados por parte da
multiplicidade de agentes que se mobilizam na arena pretoriana marcada por
instituições e regras precárias. Não obstante, é bem clara a
“constitucionalização” gradual do processo político, que se revela sobretudo
na radicalização crescente das disputas político-eleitorais no período que vai
de 1945 a 1964. Especialmente no nível da presidência da República, as
disputas eleitorais e seus desdobramentos aparecem aí cada vez mais como
episódios do enfrentamento internacional entre capitalismo e socialismo.
Quaisquer que tenham sido os erros de avaliação de parte a parte, o processo
culmina, em 1964, na percepção de iminente e séria ameaça revolucionária e
na reação que implantou no país o regime ditatorial destinado a estender-se
por mais de duas décadas.

Esse cenário se vê profundamente alterado como consequência das


mudanças recentes no panorama mundial que a queda do socialismo e a
globalização vieram trazer. A queda mundial do socialismo tem, em
primeiro lugar, o efeito de comprometer a opção socialista como fonte de
inspiração e alternativa talvez viável a ser buscada. Além disso, ela faz
desaparecer a sustentação internacional para eventuais aventuras
socializantes a que se dispusessem as forças que o colapso do socialismo
não tenha conseguido abater em suas convicções. Já as consequências da
globalização e seus processos correlatos talvez sejam ainda mais
devastadoras (até o ponto em que tais processos podem ser vistos como
efetivamente à parte dos próprios processos que levam ao colapso do
socialismo). Pois elas redundam em colocar em xeque até mesmo a
alternativa de meio-termo correspondente à social-democracia: a força da
afirmação transnacional dos mecanismos de mercado resulta em solapar
alguns dos pilares do modelo social-democrático, criando o desemprego e a
precarização do trabalho e assim minando as formas horizontais de
solidariedade trabalhista (em benefício da “japonização” das relações de
trabalho, com a identificação do trabalhador com a empresa), produzindo a
dessindicalização e a fragmentação sindical, desintegrando ou debilitando os
atores coletivos que compõem as estruturas neocorporativas...

No plano ideológico, tais mudanças se traduzem no claro predomínio


de um ethos liberal, de que o governo Fernando Henrique Cardoso é um
bom exemplo, seja como for que pessoalmente o presidente se disponha com
respeito ao rótulo de “neoliberal” que a oposição trata de aplicar-lhe. Esse
ethos se expressa em algo que tenho designado como a “ideologia do
moderno”, envolvendo a propensão a erigir em valores a serem almejados ou
fins a serem buscados aquilo que supostamente corresponde às tendências
objetivas da transformação socioeconômica em curso com a globalização.
Tal ideologia é bem visível, por exemplo, na postura dos dois titulares que o
governo teve até aqui no Ministério do Trabalho, Paulo Paiva e Edward
Amadeo, batendo-se com insistência pela intensificação da competição entre
os sindicatos e pela substituição dos sindicatos organizados com base em
categorias por sindicatos organizados com base em empresas. Além do
autoritarismo contido na pretensão governamental de ditar o grau em que os
sindicatos haverão de competir entre si, a postura envolve o nítido contra-
senso de redundar no convite a que os trabalhadores se desorganizem.
Omite-se nela a ponderação de que, se as novas tendências incluem
incentivos à ação descentralizada (em conexão com o suposto desiderato da
“flexibilidade” dos mercados de trabalho), a existência de organização é
compatível com a eventual decisão de agir descentralizadamente, enquanto a
desorganização não permite agir centralizada ou coesamente – e aceitar o
convite seria em última análise, para os trabalhadores, simplesmente abrir
mão de um recurso. Se tomamos as idéias que o próprio presidente tem
expressado, a ideologia do moderno pode aí ser encontrada, por exemplo, na
importância atribuída à categoria do “atraso” na interpretação da atualidade
política brasileira, cujo caráter ideológico se evidencia na patente falta de
consistência na utilização feita da categoria.5

De qualquer modo, o estreitamento do espaço ideológico se revela


com nitidez na proposta de uma “terceira via” e nas ambiguidades
envolvidas. Até há pouco, como assinalou há algum tempo o primeiro
ministro social-democrata da Suécia, Goran Persson, em comentário a
discurso de Tony Blair, a terceira via era a social-democracia tradicional,
com a primeira e a segunda via correspondendo ao liberalismo econômico,

5
Veja-se o volume organizado por Roberto Pompeu de Toledo com base em entrevistas com o
presidente Fernando Henrique Cardoso e publicado sob o título O Presidente segundo o
Sociólogo, São Paulo, Companhia das Letras, 1998. O “atraso” é aí assimilado (página 37, por
exemplo) a “conservadorismo”, mas em termos que não se superpõem à distinção entre esquerda
e direita (“perpassa todos”) e que parece desqualificar tal distinção, propondo implicitamente a
modernidade como valor comum. Mas adiante (já na página 41, por exemplo) deparamos certa
visão idealizada (e reiterada) dos partidos, percebidos como devendo agregar “valores” ou
“conceitos”, em contraste com os meros interesses – e o fato de os valores serem eventualmente
“os mesmos para todos” surge como resultando na situação claramente negativa em que os
partidos se “dissolvem”, a direita não se assume como tal e a esquerda se perde na oposição
pessoal ao presidente...
de um lado, e ao socialismo propriamente dito, de outro. Mas a proposta de
Blair supõe um espaço bem mais restrito, em que a terceira via vem
espremer-se entre o liberalismo econômico e a própria social-democracia.
Assim, se representava anteriormente não apenas uma opção legítima, mas o
meritório ponto de equilíbrio entre tendências extremadas e como tal
problemáticas, a social-democracia surge agora como problemática e
ilegítima ela própria. E, diante da força com que o ethos liberal se tem
difundido (não obstante as revisões que o quadro de recorrentes crises
financeiras já impõe), a apertada busca de uma terceira via ao estilo de Blair
já seria em si mesma o resultado de um esforço de flexibilidade, e assim
tende a ser apresentada e apreciada.

IV

As consequências de tudo isso para a cena política brasileira se


mostram de maneira talvez especialmente dramática nos dilemas e
embaraços com que se tem defrontado o PT. Assim, a criação do partido,
favorecida ironicamente por transformações econômicas e na estrutura
ocupacional aceleradas pelo regime autoritário, com a emergência
conseqüente de lideranças trabalhistas novas e autênticas, pode ser vista
como a tradução institucional, na esfera partidária, do caráter crescentemente
“constitucional” que os confrontos políticos adquirem. A cena política
brasileira ganha, com ele, um partido de raízes mais genuinamente populares
e proposta socialista, que surge como eleitoralmente viável e vem
rapidamente a disputar a presidência com chances reais. Mas, atropelado por
fatores circunstanciais em 1989 e 1994 (o “fenômeno Collor” e a
popularidade de Fernando Henrique Cardoso propulsionada pelo Plano
Real), a emergência do PT se revela agora, de certo modo, tardia.
Diante do estreitamento do espaço ideológico que ocorre
simultaneamente com o nascimento e a afirmação do partido, pode-se
observar, por exemplo, o que há de peculiar na trajetória cumprida pela
candidatura Lula nas disputas presidenciais que vão da eleição de 1989 à
atual. Em 1989, num mundo em que o socialismo ainda existia e a
globalização não era a realidade corriqueira de agora, a eventual vitória de
Lula sem dúvida representava em maior medida, aos olhos do establishment
do sistema sociopolítico brasileiro, o risco de uma tentativa de efetiva
implantação do socialismo (lembremos Mário Amato e os 800 mil
empresários que deixariam o país); em contrapartida, certamente se abria
como opção respeitável para um presidente Lula (não obstante os prováveis
problemas com sua retaguarda partidária mais radical) a de fazer social-
democracia, talvez reformulando a estrutura corporativa herdada de Getúlio
Vargas de maneira a ajustá-la ao modelo do neocorporativismo social-
democrata dos países da Europa ocidental – modelo que, afinal, acabara de
inspirar o próprio nome ao recém-fundado PSDB de Fernando Henrique
Cardoso. Agora, em contraste, provavelmente ninguém acredita que haja
razões para temer iniciativas efetivamente socialistas de um eventual
governo de Lula; mas a mera possibilidade de políticas de teor social-
democrata, contando com a presença importante do estado e com o
deslocamento de recursos para o plano social, passa a ser suficiente para
justificar as denúncias de “caos”... O resultado é um partido cercado de
perplexidades e de aceno eleitoral desgastado.

O problema que resta é o de como as mudanças ocorridas no contexto


internacional da política brasileira interferem com a idéia de um problema
constitucional não resolvido. Dado que a hipótese revolucionária está
eliminada, teremos como que a solução “espontânea” daquele problema e
perspectivas seguras de estabilidade político-institucional?

A resposta é certamente negativa. Pois as novas condições que se


instalam em escala mundial mostram-se claramente perversas no plano
social onde se encontra, como vimos, o substrato decisivo da eficaz
acomodação constitucional do convívio político. O desemprego, a
precarização do trabalho e a criação de estruturas sociais duais em que se
confrontam os incluídos e os excluídos nos países da Europa ocidental; a
desigualdade crescente mesmo nos Estados Unidos, onde um mercado de
trabalho mais flexível permite baixas taxas de desemprego; a “nova
pobreza” e a violência urbana que se intensifica por toda parte – eis traços
que, mesmo se prescindimos da grande crise catastrófica que a
“financeirização” do capitalismo mundial prenuncia e que alguns afirmam
ser inevitável, deixam patentes os efeitos socialmente negativos da
reafirmação recente dos mecanismos de mercado no nível transnacional e do
solapamento conseqüente da capacidade de ação econômica e social dos
estados nacionais. Se até o presente tivemos a junção de capitalismo e estado
de maneira a permitir “exportar” a anarquia para o terreno baldio do plano
internacional, a afirmação adicional da mesma dinâmica nos dias que correm
faz a anarquia internacional refluir com força sobre o plano doméstico dos
estados nacionais. E se é bem claro que a nova dinâmica altera as condições
que levavam à definição “marxista” do problema constitucional, atenta para
a mobilização política e o risco de enfrentamento aberto de agentes coletivos
e organizados, o que passamos a ter é algo que se ajusta a uma redefinição
mais primitiva e hobbesiana do mesmo problema, que remete à deterioração
do tecido social e à insegurança difusa, com grande potencial de
instabilidade no longo prazo.
Naturalmente, se assim são as coisas mesmo no caso dos países
economicamente mais maduros, não há razões de otimismo com respeito ao
Brasil. Alguns analistas têm sintetizado os processos negativos correntes nos
países desenvolvidos do Ocidente em termos de uma “brasilianização do
capitalismo avançado”.6 Ora, se o capitalismo avançado se “brasilianiza”,
que será de nós, que já somos o Brasil? A presunção razoável, a menos que
tenhamos a fortuna de presenciar processos extraordinariamente propícios
em nosso caso, é a de que, na medida em que se dê a inserção mais intensa
do país na nova dinâmica do capitalismo mundial, venhamos a constituir
uma espécie de melancólico “Brasil ao quadrado”, cumulando os fatores
tradicionais de desigualdade de nossa sociedade escravista e dual com as
perversidades próprias da nova força global dos mecanismos de mercado.

Se nos voltamos agora propriamente para as próximas eleições


presidenciais, um primeiro aspecto a assinalar é a clara atenuação, nas novas
condições mundiais, do “complexo de sublevação” e da ameaça presumida
de subversão radical do sistema que marcou os enfrentamentos político-
eleitorais no país durante algum tempo. Não obstante, o estreitamento do
espaço ideológico apontado acima continua a lançar pesada suspeição sobre
a candidatura Lula, que se expressa com força na retórica do “caos” ou da
“bomba de hidrogênio” adotada por figuras como Antônio Carlos Magalhães
e Antônio Ermírio de Moraes para indicar os prováveis efeitos de uma
eventual vitória petista. Por outro lado, o conjunto de fatores internacionais
6
Veja-se Goran Terborn, “The Two-Thirds, One-Third Society”, em Stuart Hall e Martin Jacques
(eds.), New Times: The Changing Face of Politics in the 1990s, Londres, Lawrence & Wishart,
1989.
que compõem a nova situação favorece por si mesmo a candidatura de
Fernando Henrique Cardoso, além do efeito do fator interno correspondente
ao êxito do plano de estabilização econômica, que lhe tem assegurado
duradouro apoio popular e clara vantagem nas intenções de voto reveladas
pelas pesquisas.

Numa visão de médio e longo prazo atenta para a questão da


consolidação democrática, as perspectivas que se abrem comportam
importantes ambiguidades.

(a) Uma primeira alternativa é a da provável vitória de Fernando


Henrique. Ela teria certamente o efeito de suprimir os riscos de instabilidade
político-institucional que a vitória de Lula ainda tende a acarretar, com o
adiamento de um confronto “constitucionalmente” mais incerto.

Esta alternativa comporta uma hipótese relativamente otimista. Se se


imagina que as coisas marchem bem e que não haja a catastrófica
deterioração hobbesiana das condições gerais com que as crises financeiras
correntes nos ameaçam, o adiamento poderia redundar em que a retomada
do confronto de opções político-econômicas mais acentuadamente
divergentes ou antagônicas venha a ocorrer num momento em que a
memória negativa do enfrentamento constitucional em sua forma “clássica”
já seja remota e talvez os próprios eventos já tenham permitido o
aprendizado da esquerda sobre como lidar com os problemas da
globalização de maneira a um tempo eficaz e diferente das posições do
liberalismo hegemônico - com a contrapartida do aprendizado da direita, tal
como se deu na social-democracia, quanto às dificuldades da postura
intransigentemente liberal e à possibilidade de conviver com uma esquerda
realista e moderada.

(b) A segunda alternativa corresponde ao risco de que, justamente, as


coisas não corram bem e a grande crise nos engolfe, quer já num segundo
governo de Fernando Henrique ou num futuro algo mais distante. Em
qualquer caso, estaríamos aqui provavelmente diante de aguda forma
hobbesiana do problema constitucional, com consequências político-
institucionais certamente negativas e dramáticas, embora difíceis de
vislumbrar com clareza desde agora.

(c) Resta, finalmente, a hipótese heróica, à luz dos que as pesquisas


eleitorais indicam, da vitória de Lula (abrindo mão de hipóteses ainda mais
heróicas quanto a outros candidatos). Teríamos, neste caso, uma espécie de
prova de fogo para a democracia brasileira e um experimento institucional
que poderia resultar muito positivo do ponto de vista da consolidação
democrática no país - na suposição de que o presidente eleito pudesse
exercer o mandato (ou os mandatos) sem maiores turbulências e, ao cabo,
transferir normalmente a faixa ao sucessor. Ocorre, porém, a ironia de que as
mesmas razões que justificam ver um governo petista que se desenrole
normalmente como um experimento de grande significação institucional
tornam tal desenlace tranquilo altamente improvável. E a aposta que parece
justificar-se quanto à eventual vitória de Lula é a de consequências negativas
para as perspectivas de estabilização institucional da democracia brasileira.

VI
Em apreciação geral, os temas das transições à democracia e da
consolidação democrática se vêem atropelados por eventos que colocam os
problemas num quadro radicalmente alterado e tornam ultrapassada a forma
usual de discuti-los, cumprindo-se mais uma vez a sina da “transitologia”.
Dois aspectos, em particular, merecem destaque em conexão com as
perplexidades produzidas pelas novas condições mundiais. O primeiro é que
se confunde a questão dos fundamentos sociais do compromisso
democrático: com as novas condições que se criam, onde estará assentada a
democracia? O segundo é o fato de que se torna inequivocamente possível
falar da emergência de um “problema constitucional” no próprio plano
internacional: a escala transnacional (e virtualmente planetária) em que
passam a operar os mecanismos de mercado e a falta de correspondência
dessa escala com aquela em que atuam os estados nacionais deixa
crescentemente clara a necessidade de construção institucional no plano
internacional. E não apenas no interesse da coordenação econômica e do
objetivo de atenuar as consequências deletérias para todos do jogo
econômico-financeiro sem fronteiras: a própria preservação da democracia
internamente aos países se vê comprometida com a ruptura do pacto social
estimulada ou produzida pelo caráter hobbesiano do jogo transnacional de
mercado. No caso brasileiro, as perplexidades não são senão agravadas
quando nos damos conta de que o cenário em que passa a dar-se a afirmação
do valor da competitividade – e portanto o acirramento da competição em
que uns ganham e outros estão fadados a perder – é o nosso velho e triste
fosso social. Como esperar superar esse fosso no futuro visível, seja quem
for que vença as próximas eleições?

Nos termos da distinção de Marshall antes evocada entre as


dimensões da cidadania correspondentes aos direitos civis, políticos e
sociais, a consolidação da democracia ocorreu historicamente quando se deu
a implantação da dimensão social da cidadania. Nessa perspectiva, o erro de
Marx em sua avaliação da democracia liberal pode ser apontado na
disposição de enxergá-la meramente como parte do problema geral com que
lidava, quando na verdade caberia ver a lógica em operação na articulação
do capitalismo com a democracia, que a leva a amadurecer ou consolidar-se
sobre a base de um compromisso social, como a solução para as
contradições do capitalismo e a instabilidade decorrente, por meio da
institucionalização das próprias contradições. Mas o problema atual consiste
em que a continuidade da dinâmica capitalista em sua fase globalizada
redunda em corroer o compromisso e pôr em xeque a própria democracia.
Assim, estaríamos diante da possibilidade de que os processos que se
desenrolam acabem por dar razão a Marx, com a dinâmica espontânea do
capitalismo terminando por comprometer a estabilidade do sistema geral e
sua expressão político-institucional.