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Mitologia

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Índice
Pág.
Mitologia Universal 01
Mito 01
Mitologia 01
Mitos Teogônicos 02
Mitos Cosmogônicos 03
Mitos Escatoló gicos 04
Mitologia Grega 05
Mitologia Romana 07
Mitologia Egípcia 09
Mitologia Chinesa 16
Mitologia Indiana 23
Mitologias Pré-Colombianas 30
O Segredo dos Astecas 32
Incas – Misticismo e Fé 37
Os Mayas 44
Vocabulário Maya 53
Mitologia Japonesa 54
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1
MITOLOGIA UNIVERSAL
MITO
s.m. (Do gr. mythos, palavra expressa, discurso, fá bula, pelo b. lat. mythus.) 1. Relato
ou
narrativa de origem remota e significação simbó lica, que tem como personagens
deuses,
seres sobrenaturais, fantasmas coletivos, etc. 2. Narrativa de tempos fabulosos ou
heró icos; lenda.
MITOLOGIA
s.f. (Do gr. mythologia.) 1. Estudo sistemá tico dos mitos. 2. Conjunto de mitos de uma
determinada cultura transmitido pela tradição (oral ou escrita).
Presentes em todas as culturas, os Mitos situam-se entre a Razã o e a Fé, mas sã o
considerados
sagrados. Os principais tipos de mito referem-se à origem dos deuses, do mundo e ao fim
das
coisas. Distinguem-se mitos que contam o nascimento dos deuses (Teogonia), mitos que
contam a criaçã o do mundo (Cosmogonia), mitos que explicam o destino do homem após
a
morte (Escatologia) e outros. Segundo alguns especialistas, os mitos encarnam fenô menos
fundamentais da vida: o Amor, a Morte, o Tempo, etc., e certos fenô menos, como as
Florestas, as Tempestades, têm sempre um mesmo valor simbólico, seja qual for a
civilizaçã o
considerada.
Vê nus, Sátiro e Cúpido
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2
MITOS TEOGÔ NICOS
Em muitas mitologias, delineiam-se hierarquias
de deuses, cada uma com um ou mais deuses
supremos. A supremacia pode ser partilhada
pelos membros de um casal, ou ser atribuída
simultaneamente a dois ou trê s deuses distintos.
Pode também variar com o tempo, segundo
circunstâncias históricas, como por exemplo o
domínio de um povo sobre outro ou o
predomínio de determinados interesses e
atividades (de tipo agrícola, guerreiro etc.). Sã o
freqüentes os relatos de deuses supremos, por
vezes identificados como criadores originais do
mundo, que a seguir ficam inativos e deixam o
governo a cargo de outro deus ou deuses. Em tais
casos, a supremacia significa perfeiçã o,
autonomia, onipotê ncia (relativa), mas não
unicidade, como é o caso nas religiões monoteístas. Na Mitologia Grega, segundo a
apresentaçã o de Homero, Zeus é o "pai dos deuses e dos homens". Essa expressã o nã o
significa que ele seja um deus criador, mas sim representante da figura do patriarca
familiar.
Os trê s grandes deuses escandinavos que ocupavam posiçã o superior no grande templo
de
Uppsala eram Odin, Thor e Frey. Segundo o historiador das religiões Georges Dumézil,
eles
representavam as trê s funções da sociedade indo-européia: autoridade, poder e
fecundidade.
Odin era o deus da suprema autoridade cósmica, pai universal, rei dos deuses e senhor do
Valhalla (a morada final dos guerreiros mortos em combate). Thor era o deus guerreiro e do
trovã o, correspondente ao deus védico Indra. É representado como um gigante de barba
ruiva,
e os mitos narram seus festejos pela vitória sobre as forças do caos. Durante o período das
migrações e do florescimento dos viquingues (entre o século IX e XI da era cristã ,
aproximadamente), em que predominava o ideal guerreiro, a primazia sobre os deuses era
atribuída a Thor. Frey era o deus da fecundidade, representado com um falo de proporções
exageradas. Governava a chuva e o brilho do sol e, conseqüentemente, o crescimento das
plantas e as colheitas. No panteã o hinduísta, há uma entidade divina tríplice - a Trimurti -
formada pelos deuses Brahma, Vishnu e Shiva, criador, conservador e destruidor do
universo,
respectivamente. Em certos aspectos, Brahma é um deus personificado; em outros, é um
princípio impessoal e infinito. Vishnu é o deus social por excelê ncia e destruidor daqueles
que
ameaçam a boa ordem, enquanto Shiva representa a selvageria indomada. O interesse pelas
próprias origens motivou a formaçã o de mitos sobre os grandes ancestrais dos povos ou
fundadores da sociedade. Na Mitologia Asteca, Huitzilopochtli conduziu seu povo até o
lago
Texcoco, onde se fundou a Cidade do México. A inimizade entre Tezcatlipoca e
Quetzalcóatl
representa a luta entre o povo asteca e o tolteca, e, quando este foi derrotado, o deus dos
vencidos passou a figurar em lugar preeminente do panteã o asteca. A tendê ncia a
incorporar
os deuses dos povos conquistados é comum entre os povos politeístas.
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MITOS COSMOGÔ NICOS
Dentre as grandes interrogações que o homem permanece incapaz de responder, apesar de
todo o conhecimento experimental e analítico, figura, em todas as mitologias, a da origem
da
humanidade e do mundo que habita. É como resposta a essa interrogaçã o que surgem os
Mitos Cosmogô nicos. As explicações oferecidas por esses mitos podem ser reduzidas a
alguns poucos modelos, elaborados por diferentes povos. É comum encontrar nas várias
mitologias a figura de um criador, um demiurgo que, por ato próprio e autô nomo,
estabeleceu
ou fundou o mundo em sua forma atual. Os mitos desse tipo costumam mencionar uma
matéria preexistente a toda a criaçã o: o oceano, o caos (segundo Hesíodo) ou a terra (nas
Mitologias Africanas). A criaçã o ex Nihilo (a partir do nada, sem matéria preexistente) já
reflete algum tipo de elaboraçã o filosófica ou racional. A cosmogonia chinesa, por
exemplo,
atribui a origem de todas as coisas a Pan Gu, que produziu as duas forças ou princípios
universais do Yin e Yang, cujas combinações formam os quatro emblemas e os oito
trigramas
e, por fim, todos os elementos. No hinduísmo, o Rigveda descreve graficamente o nada
original, no qual respirou o Um, nascido do poder do calor.
A água é o elemento primordial mais freqüente das cosmogonias, sobretudo nas
Mitologias
Asiáticas e da América do Norte. A consolidaçã o da terra se faz pela açã o de um
intermediário (espírito ou animal) que a retira do fundo da água e introduz no mundo um
elemento de desordem ou de mal. A criaçã o a partir do nada, unicamente pela palavra de
Deus, aparece claramente no livro bíblico do Gê nesis (associado, por sua vez, as
Mitologias
Mesopotâmicas) e em cosmogonias polinésias. Outras cosmogonias apresentam a origem
divina do cosmo como emanaçã o: por exemplo, a partir do suor, do sê men ou do sangue
de
um deus. Outro mito cosmogô nico muito difundido (no Pacífico, na Europa e no sul da Á
sia)
é o do ovo primordial. Na tradiçã o hindu, a oraçã o do mundo é simbolizada pela quebra
de
um ovo. Alguns ciclos cosmogô nicos se referem a um par ou casal primevo, geralmente o
céu
e a terra, que tiveram de ser separados violentamente para tornar possível a vida no espaço
intermediário. Essa separaçã o dolorosa se verifica em outros modelos, nos quais se
menciona
um sacrifício inicial ou uma batalha entre seres superiores, de cujos membros esquartejados
brotam o cosmo e a vida terrestre. Na grande lenda babilô nica da criaçã o, o Enuma Elish,
Tiamat, personificaçã o do mar, é morto por Marduk, o deus protetor da Babilô nia, que
entã o
constrói o universo a partir dos despojos daquele e cria os homens com o sangue de Kingu,
outro deus rebelde. O "hino do homem primordial", nos Vedas, fala de Prajapati - o senhor
dos seres, mais tarde identificado com o deus Brahma - como o homem cósmico cujo corpo
é
sacrificado e do qual surge a variedade do mundo das formas. Outros mitos, por fim,
descrevem o surgimento da humanidade a partir das profundezas da terra (mitologia dos
índios Zuni, da América do Norte) ou a partir de uma rocha ou de alguma árvore de
importância cultural.
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MITOS ESCATOLÓ GICOS
Ao lado da preocupaçã o com o enigma da
origem, figura para o homem, como grande
mistério, a morte individual, associada ao temor
da extinçã o de todo o povo e mesmo do
desaparecimento do universo inteiro. Para a
Mitologia, a morte não aparece como fato
natural, mas como elemento estranho à criaçã o
original, algo que necessita de uma justificaçã o,
de uma soluçã o em outro plano de realidade.
Trê s explicações predominam nas diversas
mitologias. Há mitos que falam de um tempo
primordial em que a morte nã o existia e contam
como ela sobreveio por efeito de um erro, de castigo ou para evitar a superpopulaçã o.
Outros
mitos, geralmente presentes em tradições culturais mais elaboradas, fazem referê ncia à
condiçã o original do homem como ser imortal e habitante de um paraíso terreno, e
apresentam
a perda dessa condiçã o e a expulsã o do paraíso como tragédia especificamente humana.
Por
fim, há o modelo mítico que vincula a morte à sexualidade e ao nascimento, analogamente
às
etapas do ciclo de vida vegetal, e que talvez tenha surgido em povos agrícolas.
A idéia do julgamento dos mortos, sua absolviçã o ou condenaçã o predominou no antigo
Egito. Conforme descrito no papiro Ani, o coraçã o do morto era levado à presença de
Osíris
num dos pratos de uma balança, para que fosse pesado em comparaçã o com o que se
considera justo e verdadeiro: uma pena do deus Maat (simbolizado pela figura de um
avestruz) era posta no outro prato da balança. Os Hebreus, ao contrário, nã o tinham, até o
século II a.C., uma idéia clara a respeito de um julgamento último e seu correspondente
castigo ou recompensa: os escritos do Antigo Testamento mencionam apenas uma existê
ncia
ultraterrena num mundo de penumbra (sheol). Similarmente, o pensamento mítico grego,
conforme explicitado por Homero, concebia a morte como uma desintegraçã o, da qual
apenas
uma espécie de fantasma (eidolon) descia ao Hades, onde levava uma existê ncia infeliz e
inconsciente. Já os mistérios de Elê usis, ao contrário, prometiam aos iniciados a
felicidade
supraterrena, enquanto a filosofia platô nica e o orfismo (seguindo, provavelmente, tendê
ncias
orientais) anunciavam a reencarnaçã o. Zoroastro (século VI a.C.) falou de Chinvat, uma
ponte
a ser atravessada após a morte, larga para os justos e estreita para os perversos, que dela
caíam
no inferno. O zoroastrismo posterior elaborou a idéia de prê mio e castigo, de ressurreiçã
o dos
mortos e de purificaçã o final dos pecadores.
Os mitos retratam freqüentemente o fim do mundo como uma grande destruiçã o, de
natureza
bélica ou cósmica. Antes da destruiçã o, surge um messias ("Ungido") ou salvador, que
resgata
os eleitos por Deus. Esse salvador pode ser o próprio ancestral do povo ou fundador da
sociedade, que empreende uma batalha final contra as forças do mal e, após a vitória,
inaugura um novo estágio da criaçã o, um novo céu e uma nova terra. Os mitos da
destruiçã o
escatológica manifestaram-se tardiamente, na literatura apocalíptica judaica, que floresceu
entre os séculos II a.C. e II d.C., e deixou sua marca no livro do Apocalipse, atribuído ao
Apóstolo Joã o. Exemplo típico de mito de destruiçã o (embora nã o no fim dos tempos)
sã o as
narrativas a respeito de grandes inundações. É bastante conhecido o episódio do Antigo
Testamento que descreve um dilúvio e o apresenta como castigo de Deus à humanidade.
Esse
tema tem origens mais remotas e provém de Mitos Mesopotâmicos. Em quase todas as
culturas pré-colombianas encontram-se também mitos a respeito de dilúvios.
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MITOLOGIA GREGA
A Mitologia Helê nica é uma das mais geniais concepções que
a humanidade produziu. Os gregos, com sua fantasia,
povoaram o céu e a terra, os mares e o mundo subterrâneo de
Divindades Principais e Secundárias. Amantes da ordem,
instauraram uma precisa categoria intermediária para os
Semideuses e Heróis. A mitologia grega apresenta-se como
uma transposiçã o da vida em zonas ideais. Superando o
tempo, ela ainda se conserva com toda a sua serenidade,
equilíbrio e alegria. A religiã o grega teve uma influê ncia tã o
duradoura, ampla e incisiva, que vigorou da pré-história ao
século IV e muitos dos seus elementos sobreviveram nos
Cultos Cristã os e nas tradições locais. Complexo de crenças e
práticas que constituíram as relações dos gregos antigos com
seus deuses, a religiã o grega influenciou todo o Mediterrâneo
e áreas adjacentes durante mais de um milê nio. Os gregos
antigos adotavam o Politeísmo Antropomórfico, ou seja,
vários deuses, todos com formas e atributos humanos. Religiã o muito diversificada,
acolhia
entre seus fiéis desde os que alimentavam poucas esperanças em uma vida paradisíaca
além
túmulo, como os heróis de Homero, até os que, como Platã o, acreditavam no julgamento
após
a morte, quando os justos seriam separados dos ímpios. Abarcava assim entre seus fiéis
desde
a ingê nua piedade dos camponeses até as requintadas especulações dos Filósofos, e tanto
comportava os excessos orgiásticos do culto de Dioniso como a rigorosa ascese dos que
buscavam a purificaçã o.
No período compreendido entre as primeiras incursões dos povos helê nicos de origem
Indoeuropéia
na Grécia, no início do segundo milê nio a. C., até o fechamento das escolas pagã s
pelo imperador bizantino Justinianus, no ano 529 da era cristã , transcorreram cerca de 25
séculos de influê ncias e transformações. Os primeiros dados existentes sobre a religiã o
grega
sã o as Lendas Homéricas, do século VIII a. C., mas é possível rastrear a evoluçã o de
crenças
antecedentes. Quando os indo-europeus chegaram à Gré cia, já traziam suas próprias
crenças e
deuses, entre eles Zeus, protetor dos clã s guerreiros e senhor dos estados atmosféricos.
Também assimilaram cultos dos habitantes originais da península, os Pelasgos, como o
oráculo de Dodona, os deuses dos rios e dos ventos e Deméter, a deusa de cabeça de
cavalo
que encarnava o ciclo da vegetaçã o. Depois de se fixarem em Micenas, os gregos
entraram em
contato com a civilizaçã o cretense e com outras civilizações mediterrâneas, das quais
herdaram principalmente as divindades femininas como Hera, que passou a ser a esposa de
Zeus; Atena, sua filha; e Á rtemis, irmã gê mea de Apolo. O início da filosofia grega, no
século VI a.C., trouxe uma reflexã o sobre as crenças e mitos do povo grego. Alguns
pensadores, como Heráclito, os Sofistas e Aristófanes, encontraram na mitologia motivo de
ironia e zombaria. Outros, como Platã o e Aristóteles, prescindiram dos deuses do Olimpo
para
desenvolver uma idéia filosoficamente depurada sobre a divindade. Enquanto isso, o culto
público, a religiã o oficial, alcançava seu momento mais glorioso, em que teve como
símbolo o
Pártenon ateniense, mandado construir por Péricles. A religiosidade popular evidenciava-
se
nos festejos tradicionais, em geral de origem camponesa, ainda que remoçada com novos
nomes. Os camponeses cultuavam Pã , deus dos rebanhos, cuja flauta mágica os pastores
tentavam imitar; as ninfas, que protegiam suas casas; e as nereidas, divindades marinhas.
As
conquistas de Alexandre o Grande facilitaram o intercâmbio entre as respectivas
mitologias,
de vencedores e vencidos, ainda que fossem influê ncias de caráter mais cultural que
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autenticamente religioso. Assim é que foram incorporadas à religiã o helê nica a deusa
frígia
Cibele e os deuses egípcios Ísis e Serápis. Pode-se dizer que o sincretismo, ou fusã o
pacífica
das diversas religiões, foi a característica dominante do período Helenístico.
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7
MITOLOGIA ROMANA
Os romanos ultrapassaram todos os outros povos na
sabedoria singular de compreender que tudo está
subordinado ao governo e direçã o dos deuses. Sua
religiã o, porém, nã o se baseou na graça divina e sim
na confiança mútua entre Deuses e Homens; e seu
objetivo era garantir a cooperaçã o e a benevolê ncia
dos deuses para com os homens e manter a paz entre
eles e a comunidade. Entende-se por religiã o romana
o conjunto de crenças, práticas e instituições
religiosas dos romanos no período situado entre o
século VIII a.C. e o começo do século IV da era
cristã . Caracterizou-se pela estrita observância de ritos
e cultos aos deuses, de cujo favor dependiam a saúde
e a prosperidade, colheitas fartas e sucesso na guerra.
A piedade, portanto, nã o era compreendida em termos
de experiê ncia religiosa individual e sim da fiel
realizaçã o dos deveres rituais aos deuses, concebidos
como poderes abstratos e nã o como Divindades Antropomórficas. Um traço característico
dos
romanos foi seu sentido prático e a falta de preocupações filosóficas acerca da natureza ou
da
divindade. Seus preceitos religiosos nã o incorporaram elementos morais, mas consistiram
apenas de diretrizes para a execuçã o correta dos rituais. Também nã o desenvolveram
uma
mitologia imaginativa própria sobre a origem do universo e dos deuses; seu caráter
legalista e
conservador contentou-se em cumprir com toda exatidã o os ritos tradicionalmente
prescritos,
organizados como atividades sociais e cívicas. O ceticismo religioso chegou a ser uma
atitude
predominante na sociedade romana em face das guerras e calamidades, que os deuses,
apesar
de todas as cerimô nias e oferendas, nã o conseguiam afastar. O historiador Tacitus
comentou
amargamente que a tarefa dos deuses era castigar e nã o salvar o povo romano. A índole
prática dos romanos manifestou-se também na política de conquistas, ao incorporar ao
próprio
panteã o os deuses dos povos vencidos. Sem teologia elaborada, a religiã o romana nã o
entrava
em contradiçã o com essas deidades, nem os romanos tentaram impor aos conquistados
uma
doutrina própria. Durante a república, no entanto, foi proibido o ensino da Filosofia Grega,
porque os filósofos eram considerados inimigos da ordem estabelecida. Os valores
dominantes da cultura romana nã o foram o pensamento ou a religiã o, mas a retórica e o
direito.
Com as crises econô micas e sociais que atingiram o mundo romano, a antiga religiã o nã
o
respondeu mais às inquietações espirituais de muitos e, a partir do século III a.C.,
começaram
a se difundir religiões orientais de rico conteúdo mitológico e forte envolvimento pessoal,
mediante ritos de iniciaçã o, doutrinas secretas e sacrifícios cruentos. Nesse ambiente
verificou-se mais tarde a chegada dos primeiros cristã os, entre eles os apóstolos Pedro e
Paulo, com uma mensagem ética de amor e salvaçã o. O cristianismo conquistou o povo,
mas
seu irrenunciável monoteísmo chocou-se com as cerimô nias religiosas públicas, nas quais
se
baseava a coesã o do estado, e em especial com o culto ao imperador. Depois de sofrer
numerosas perseguições, o cristianismo foi reconhecido pelo imperador Constantinus I no
ano 313 d.C. Sã o escassas as fontes que permitem reconstruir a vida da primitiva Roma,
pequena cidade-estado que se formou por volta do século VIII a.C. A descriçã o mais
antiga é
do historiador romano Marcus Terencius Varrã o, do século I a.C., mas seu testemunho já
mostra a grande influê ncia da Cultura Grega, que motivou a reinterpretaçã o da tradiçã
o
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religiosa. No período de formaçã o original, a religiã o dos romanos já apresentava
características utilitárias, em que as preocupações se centravam na satisfaçã o das
necessidades
materiais, como boas colheitas e a prosperidade da família e do estado em tempo de paz e
de
guerra. Entre os deuses mais importantes dessa época estã o Júpiter, deus do céu, o
maior
deles; Marte, deus da guerra; Quirino, protetor da paz, identificado depois com Romulus; e
Juno, cuja funçã o principal era dirigir a vida das mulheres. Outras deidades menores eram
figuras vagas de funções limitadas e claramente definidas. Como os deuses maiores,
tinham
poderes sobrenaturais e, pelo culto adequado, podiam ser induzidos a empregá-los em
benefício dos adoradores. A curiosidade dos romanos, porém, nã o passava desse ponto: os
deuses nã o tinham mitos, nã o formavam casais e nã o tinham filhos. Os romanos nã o
tinham
também uma casta sacerdotal; seus ritos eram executados com meticulosa exatidã o por
chefes
de família ou magistrados civis. Essas atividades clericais, porém, eram reguladas por
colégios sacerdotais.
Na segunda metade do século VI a.C., os Etruscos conquistaram a cidade de Roma e
introduziram nas práticas religiosas o culto às estátuas dos deuses, os templos, a
adivinhaçã o
mediante o escrutínio das entranhas de animais sacrificados e do fogo e maior solenidade
nos
ritos funerários. O primitivo calendário religioso lunar, de dez meses, foi substituído pelo
calendário solar de 12 meses. Nesse período ocorreu a incorporaçã o de deuses que nã o
eram
apenas etruscos. Júpiter ganhou como consortes Juno e Minerva, uma uniã o que resultou
da
influê ncia grega, já que as duas deusas foram identificadas como Hera e Atena, mulher e
filha de Zeus. Vênus e Diana surgiram de fontes italianas. Entre os deuses incorporados
ao
panteã o romano por influê ncia etrusca estã o Vulcano, deus do fogo, e Saturno,
divindade de
funções originais obscuras. O Período Republicano, do século V ao século I a.C.,
caracterizou-se pela ampliaçã o da influê ncia da cultura grega, cujos mitos revitalizaram
os
deuses romanos ou introduziram novas divindades, como Apolo, que nã o tinha um
equivalente romano geralmente reconhecido, e Esculápio. Outro costume importado da
Grécia
foi convidar os deuses para o banquete sagrado, o Lectisternium, no qual eram
representados
por suas estátuas e associados em casais, como Júpiter e Juno, Marte e Vê nus etc. As
figuras
juntas nos banquetes formaram o grupo grego popular e típico de 12 deuses. Foram
introduzidos ainda cultos orgiásticos do Oriente Médio, como o da deusa Cibele, a Grande
Mã e, e o de Dioniso, que em Roma foi identificado como Baco. O imperador Augustus
quis
reavivar os cultos tradicionais - ele mesmo foi divinizado após a morte - e reconstruir os
templos antigos. A crescente demanda por uma religiã o mais pessoal, porém, que nem as
religiões tradicionais gregas nem as romanas eram capazes de satisfazer, foi atendida por
vários cultos do Oriente Médio, que prometiam a seus seguidores o favor pessoal da
divindade e mesmo a imortalidade se certas condições fossem atendidas, entre elas a
iniciaçã o
secreta em ritos misteriosos. O primeiro deles foi o de Ísis que, embora de origem egípcia,
sofreu modificações em sua passagem pela Gré cia. Depois veio o culto de Atis, consorte
da
Grande Mã e, e por último o de Mitra, de origem Persa, que se tornou o predileto dos
soldados
romanos. No último período do Impé rio Romano, desenvolveu-se de forma particular o
culto
ao Sol, e o imperador Aurelianus proclamou como suprema divindade de Roma o Sol
Invicto. Mas essas tentativas de reavivar uma religiã o que sempre servira aos interesses do
estado fracassaram, ante a expansã o do Cristianismo que, em 391, foi declarado religiã o
oficial do estado pelo imperador Theodosius I, que suprimiu o culto tradicional.
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9
MITOLOGIA EGÍPCIA
Como em todas as civilizações antigas, a
Cosmogonia ocupa a primeira parte dos textos
sagrados egípcios, tentando explicar com a fantasia e
o relato milagroso tudo quanto se escapa do reduzido
âmbito do conhecimento humano. Para os egípcios,
como para o resto das grandes religiões, a criaçã o do
Universo faz-se de um único ato da vontade
suprema, a partir do nada, da escuridã o, do caos
original. O seu criador chama-se Nun e era o espírito
primigê nio, o indefinido ser que tinha tomado o
aspecto do barro. Este barro que aparece com tanta
freqüê ncia em todas as mitologias junto dos
parágrafos das criações de deuses e de homens, a
matéria-prima por excelê ncia dos oleiros e (por
assimilaçã o) a matéria lógica para os deuses
criadores, nã o era senã o a terra e a água próximas
dos antigos povoadores do mundo. Por isso o barro
Nun foi o berço espiritual, a primeira força em que ia
tomando forma o novo espírito da luz, Ra, o disco solar, pai de tudo o que habita sob os
seus
raios. Da vontade de Ra vã o nascer os dois primeiros filhos diferenciados da divindade: sã
o
Tefnet e Chu. Ela é a deusa das águas que caem na terra e ele é o deus do ar, e os dois
filhos
estarã o com o grande pai Ra no firmamento, compartilhando a sua glória e o seu poder e
ajudando-o na longa e eterna viagem. Mas também Chu e Tefnet vã o continuar a obra
iniciada
por Ra, criando da sua uniã o outros dois novos filhos, os dois sucessores da última geraçã
o
celestial: o deus da terra Geb, e a sua irmã e esposa, a deusa do céu Nut, para que eles
relevem
à primeira geraçã o e criem a terceira, a que vai estar na terra do Egito.
Os filhos de Geb e Nut, os quatro filhos do Céu e da Terra, dois homens e duas mulheres
(embora haja versões que dã o um quinto filho, chamado Horoeris), formam a primeira
geraçã o de seres que vivem no solo do Egito, os quatro primeiros deuses que se ocupam
dessa
terra escolhida e que velam por ela, ou que entram no mundo egípcio para completar o
binô mio do bem e do mal, da vida e da morte. O primeiro dos homens e o mais velho dos
quatro, Osíris, é o deus da fecundidade, a divindade que representa e sustenta a
continuidade
da natureza; ele é quem faz nascer a semente, quem a amadurece e quem agosta os
campos;
Osíris é o princípio da própria vida. Ísis, a sua irmã e esposa, reina em igualdade sobre o
extenso domínio do Nilo, em perfeita harmonia com o seu irmã o, formando o casal
positivo
do binô mio. Se Osíris se encarrega de proporcionar a vida aos humanos, Ísis está sempre
à
frente, após a invençã o de todas as artes necessárias para desenvolver a vida, desde a
moagem
do grã o até às complexas regras e leis da vida familiar. Neftis, a segunda irmã e a mais
pequena de todos, nã o podia ter a sorte de Ísis, a sorte de ser esposa do bom e belo Osíris;
por
isso Neftis ficou à margem da felicidade; também por isso era a representaçã o do resto
do país
útil, a deusa das terras menos felizes, as terras secas junto dos campos de cultivo; as
parcelas
de sequeiro que nã o tinham a sorte de ser regularmente inundadas pela água e pelo limo
do rio
nas suas cheias anuais. Set, o segundo homem e o terceiro dos filhos, é a criatura que
pressagiou o seu destino ao nascer prematuramente, dado que abriu o ventre da sua mã e
Nut,
fazendo-a sofrer cruelmente; Set é o deus da maldade, o espírito negativo e o representante
do
deserto sem vida, a personificaçã o da morte.
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10
Naturalmente, Set odeia desde a infância o primogê nito Osíris; esta é a fábula constante
do
bom irmã o diante do mau; é a lenda exemplificadora do mau assassinando o bom,
tentando
evitar a sua clara superioridade, tentando apagar com a morte a distância entre ambos. Mas
continuemos com a história dos quatro filhos de Geb e Nut, e digamos que Set casou com a
sua irmã Neftis, mantendo a tradiçã o iniciada pelos seus antecessores divinos. Mas Neftis
foi
esposa do malvado Set também mau grado seu, porque ela amava Osíris, e deste casamento
nã o surgiu nenhum filho, porque Set tinha que ser forçosamente estéril pela sua maldade.
Mas
nã o sucedeu a mesma coisa com Neftis, dado que ela sim, conseguiu ter um filho e,
precisamente um filho de Osíris. Para conseguí-lo, embebedou o seu irmã o e deitou-se
com
ele. Esse filho nasceria mais tarde e seria conhecido com o nome de Anúbis. Neftis amava
tanto Osíris e tanto desprezava o seu marido que, quando se produziu o seu assassínio, a
boa e
infeliz Neftis fugiu do seu perverso marido, para poder estar ao lado do amado, junto da sua
irmã Ísis, ajudando-a no embalsamamento. Após aquele momento, Ísis e Neftis
permaneceriam sempre unidas à morte, acompanhando o piedoso defunto na sua sepultura,
para proporcionar-lhe a ajuda que necessitasse no outro lado da morte. Ao assassinar Osíris,
Set só conseguiu divinizar ainda mais o seu odiado irmã o, porque o Osíris triunfante
sobre a
morte ia estabelecer-se como a personificaçã o divina do ciclo, e voltaria a nascer e morrer
eternamente, reinando na vida eterna do céu e deitando sobre o seu traidor irmã o na terra,
ao
ficar com as suas posses e ser a figura amada pelas duas irmã s Ísis e Neftis, a figura
adorada e
homenageada por todos os egípcios, a divindade bondosa que governava as estações e o
benéfico Nilo em proveito dos homens.
Nã o foi demasiado difícil a Set terminar com a vida do seu bom irmã o, o grande rei
Osiris,
apesar da constante vigilância que Ísis mantinha sobre as suas idas e vindas, dado que ela
sim
conhecia bem o seu malvado irmã o e nã o confiava de maneira nenhuma nas suas artes.
Depois de tentar uma e outra vez assassiná-lo sem ê xito, finalmente Set tramou um plano
que
lhe permitia iludir Ísis e assim mandou construir uma caixa muito rica e bela, com o
tamanho
exato do seu irmã o. Com a caixa em seu poder, Set organizou uma grande festa, à qual
convidou Ísis e Osíris, junto com outras setenta e duas personagens, que nã o eram outras
que
os seus aliados no sinistro plano. Terminada a festa, Set comentou que tinha idealizado um
jogo, que consistia em ver quem de todos os presentes cabia melhor naquela magnífica
arca, e
para o feliz tinha reservado um grandioso prê mio. Os convidados provaram sorte, mas
nenhum dava o tamanho adequado, de maneira que chegou a vez de Osíris e ele sim, enchia
completamente o buraco da caixa. Mas nã o havia tal prê mio; os presentes lançaram-se
em
tropel e encerraram o rei dentro dela; depois lançaram-na ao Nilo e o rio arrastou a caixa e
a
sua carga para o mar. Ísis saiu em perseguiçã o do baú e Neftis uniu-se ela rapidamente na
procura, enquanto Set e as suas seis dúzias de cúmplices celebravam precipitadamente a
suposta vitória do usurpador. As duas irmã s entretanto, encontraram a caixa onde Osíris
tinha
sido encerrado e comprovavam que já era simplesmente um cadáver. Com os seus tristes
lamentos e prantos, as irmã s comoveram os deuses e estes decidiram trazer de novo à vida
ao
infeliz Osíris, mandando-as que amortalhassem o seu corpo embalsamado em ligaduras,
dando assim a pauta para o posterior rito funerário, ou que reunissem os seus restos para
poder insuflar de novo a vida no seu destroçado corpo, segundo a versã o correspondente.
Também se conta, em outros relatos sagrados, que a arca tinha saído para o mar quando Ísis
chegou à foz do Nilo, e só terminou a sua viagem na muito longínqua costa da Fenícia,
indo
de encontro a um tronco que crescia à beira do Mediterrâneo, muito próximo da cidade de
Biblos. a árvore, milagrosamente, cresceu num instante, englobando o féretro flutuante no
seu
tronco para dar-lhe o último abrigo. Movido pelo destino, o rei de Biblos viu aquela
gigantesca árvore e mandou cortar o seu tronco e com ele ordenou construir uma coluna
para
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o seu palácio. Mas Ísis soube também do portentoso fato e empreendeu a viagem até
chegar à
cidade de Biblos, onde pediu ser recebida pelo rei, para fazer-lhe saber a razã o da sua
penosa
expediçã o. O rei ouviu o relato da rainha e ordenou imediatamente que lhe fosse
devolvido o
caixã o onde repousavam as restos mortais do bom Osíris. Concedido o seu desejo e com o
caixã o em seu poder, regressou sigilosamente para o Egito, nã o sem antes tentar ocultar o
cadáver do infeliz esposo da maldade de Set. Mas Set, senhor da noite e das trevas, deu
com
ele e voltou a tentar terminar com a ameaça que Osíris representava, fazendo com que os
seus
restos fossem dispersos por todo o imenso e intransitável delta do grande rio. De novo Ísis
empreendeu a procura dos restos de Osíris nos pântanos do Nilo e, um a um, reuniu outra
vez
o cadáver. Quando os conseguiu, tomou a forma de uma grande ave de presa e pousou-se
sobre os despojos, batendo as suas asas até que com o seu ar benfeitor insuflou uma vida
renovada em Osíris. O esposo ressuscitado tomou-a e a boa Ísis ficou grávida de Hórus, o
filho que teria de vingar o pai assassinado e restauraria a ordem divina no Egito. Mas,
enquanto chegava o momento do nascimento de Hórus, Ísis ocultou-se de Set nos
pantanosos
terrenos do delta do Nilo.
Osíris retornou ao reino dos mortos, mas já tinha deixado a sua semente em Ísis e dela
nasceu
felizmente Hórus em Jenis. Com a presença devota da sua mã e foi educado no maior dos
segredos, preparando-se com esmero e paciê ncia o sucessor do rei assassinado no seu
esconderijo do Delta, enquanto a mágica Ísis o cobria com a impenetrável couraça dos
seus
conjuros, esperando até que chegasse a hora da vingança definitiva. E esta hora chegou,
mas a
luta entre Set e Hórus seria longa e angustiosa; uma briga que aparecia nã o ter fim, na
qual
um e outro infringiam tanto mal como o que recebiam do seu adversário. Tã o penoso era
o
combate que Tot, o deus da Lua e a divindade da ordem e a inteligê ncia, se apiedou dos
combatentes e interveio para mediar na disputa, levando a ambos perante o tribunal dos
deuses e fazendo comparecer também Osíris, para que todos pudessem ouvir as razões de
um
e dos outros. O tribunal sentencia que, na causa entre Set e Osíris, seja Osíris quem
recupere o
reino que teve em vida, e acrescenta à sua coroa a parte do país que originalmente
correspondeu ao seu irmã o e assassino. Na longa e controversa vista da briga entre Set e
Hórus, que durou nada menos que oitenta anos, os juízes celestiais terminaram por
sentenciar
o pleito sobre os direitos sucessórios a favor de Hórus. O filho póstumo de Osíris
recuperava
o que correspondia pela sua linhagem: a sucessã o no trono de Egito. Assim, o filho era
reconhecido pela divindade como soberano indiscutível, dentro da tradiçã o clássica que
adjudicava aos reis e aos reinos um sentido de vontade divina. Por estas duas sentenças Set
perde o seu poder, conquistado com enganos, mas nã o é castigado senã o afastado do
mundo;
Set passa a ser também uma divindade necessária ao ser acolhido por Ra, divindade solar,
para que se ocupe nos céus de alternar a noite com o dia e deixe que sejam os reis os que
governem sobre a terra. Hórus, por sua vez, engendra quatro filhos: Amsiti, Hapi, Tuemeft
e
Kevsnef; embora nã o se especifique com exatidã o quem pode ser a mã e, se é que existe
tal
(há quem dizem que sã o filhos de Hórus e da sua mã e Ísis). Estes filhos, que
acompanharã o
Osiris nos julgamentos aos mortos, também cuidam dos quatro pontos cardeais e se
ocupam
de velar pelas necessidades e pela saúde das entranhas de Osíris.
Como costuma contar-se em todos os mitos, uma vez passada a primeira época de
harmonia,
as criaturas terrestres, os seres privilegiados criados pela simples vontade de Ra, deus
supremo, levantaram-se contra o seu senhor. Eram as sucessivas lutas à morte entre os
inimigos da terra e as comitivas celestiais, lutas tã o ferozes que foram desgastando as
energias
de Ra, até o fazer perder a sua força e babar. Com essa baba caída da sua boca, Ísis formou
um barro e com ele construiu o áspide que -colocado no caminho do deus- envenenou Ra.
Feito isto, Ísis apresentou-se diante do ferido, prometendo o antídoto em troca de que a
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divindade revelasse o seu nome secreto. Ra resiste enquanto pode agüentar a dor terrível, e
trata em vã o de esquivar a resposta, pois sabe que o nome da coisa e o poder sobre ela sã
o
uma única coisa. Mas afinal, vencido pela crescente dor, Ra tem que aceitar e dizer ao
ouvido
de Ísis esse nome que agora também ela vai conhecer, comunicando-lhe com esse ato a sua
força total. Uma vez vencido por Ísis, o enfraquecido Ra vai ser também o alvo de outros
ataques dos seres humanos, e a sua vingança, através da deusa Sekhmet, a mulher-leoa que
encarnava a guerra, é tã o terrível que quase termina com a humanidade, embora seja
maior o
amor que sente pela sua obra criadora, apiedando-se dos açoitados humanos justamente a
tempo, ao enviar uma chuva de cerveja vermelha que cobre toda a superfície do planeta,
confundindo Sekhmet, que a toma por sangue e trata de saciar a sua sede de morte com ela,
embriagando-se com o vermelho líquido de tal maneira que deixa de executar a sentença de
morte que Ra tinha decretado para os humanos. Depois deste ato de compaixã o para com
os
seus desagradecidos filhos da Terra, Ra retira-se para sempre de todo o relacionado com os
assuntos de governo, cedendo ao filho do seu filho Chu, o bom Geb, representante divino
do
planeta, o poder sobre o globo terrestre e quem sobre ele habita, pessoas, animais ou
vegetais,
mas sem o abandonar à sua sorte, dado que Ra se compromete a ajudá-lo com os seus
conselhos e perpétua vigilância.
Já conhecemos Tot quando interveio nos pleitos divinos entre Osíris, Hórus e Set, levando
a
sua arbitragem ao tribunal dos deuses, mas fica por definir a sua origem, o seu poder, dado
que ele era o ser que reinava sobre todo o Universo com a sua sabedoria e punha nele a
ordem. O grande Tot é identificado com a posse de todos os conhecimentos mágicos e
considerado inventor da palavra, criador da escritura, o ser superior que manejava os
conceitos e possuía, pois, o poder sobre os seres e as coisas inanimadas. Por essa ordem, era
o
deus natural dos muito importantes e onipresentes escribas de Egito, o grupo dos mais
significados funcionários de todo o reino, dos homens que contavam e relacionavam todos
os
atos, os que catalogavam as posses de reis e senhores, e os que narravam as crô nicas de
cada
época. Tot, por sua parte, estava encarregado, como escriba, em fazer a relaçã o dos reis
presentes, passados e futuros. Ele conhecia o destino dos rebentos reais e apontava qual
deles
reinaria pela vontade dos deuses sobre todo o império do Nilo e quanto duraria o seu feliz
reinado. Tot determinava assim tudo o que estava escrito (pela sua própria mã o) que devia
suceder, ele era a personificaçã o do destino omnisciente. Desposado com Maat, deusa da
justiça e filha de Ra, formava um casal que compreendia todo o âmbito da justiça, pois ele
exercia-a sobre os deuses e os seres vivos, e Maat presidia o julgamento dos mortos, junto
com Osíris. Também se apresenta Tot casado com outras duas esposas de ascendê ncia
divina,
Seshet e com Nahmauit, e era considerado o pai de outros dois deuses menores, Hornub,
filho
havido com a primeira, e NeferHor, na sua uniã o com a segunda, e gozava de um mê s
com o
seu nome, consagrado a ele, situado no princípio de cada ano.
Se importante era a alma universal de Tot, Amon converteu-se no rei dos deuses a partir da
capitalidade de Tebas, no poder divino aos faraós e no deus único e oficial do Egito,
substituindo-se a partir do trono o culto ao cansado e enfraquecido Ra no transporte do
disco
solar ao longo do arco celestial. Amon, com um critério coerente com a importância do
astro
solar, passou a ser o deus da vida, da criaçã o, da fertilidade. Quando desaparecia no céu
visível, Amon passava a iluminar a noite dos mortos, o outro lado da vida. Depois, com o
reinado de Amenofis (auto-batizado Akhaenaton), Amon foi substituído por Aton, um
derivado do deus criador, Atum, que doador da vida original foi converter-se na
representaçã o
do sol de Poente e de lá, por vontade do faraó, no deus único. Mas ainda mudando de
nome
continuava a ser o mesmo deus solar, e pouco custou -após a morte do herege rei
Akhaenaton-
devolver-lhe o velho nome e as antigas atribuições, para recuperar a sua identidade inicial
de
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Amon e ultrapassar os limites do império egípcio, sendo adotado como deus supremo nos
povos vizinhos da Líbia, Núbia e Etiópia, convertendo-se em deus oracular no seu grande
templo situado no meio das arenas desérticas da Líbia. O grande Amon, casado com a
deusa
Mut, teve um filho, Jons, que passou de ser uma divindade lunar secundária para converter-
se
em permanente acompanhante do seu pai nas diárias travessias a bordo da barca solar. Com
Mut e Jons, completa-se o panteã o tebano e fecha-se completamente a sagrada trindade
dos
deuses de Tebas, à semelhança do trio formado por Osíris, Ísis e Hórus.
Se grande era o poder dos deuses e quase tanto o dos seus designados, os faraós, o mundo
da
morte era, em definitiva, o que governava a vida dos humanos, dado que toda a vida se
orientava a cumprir com o custoso rito do enterramento, da preservaçã o do corpo do
defunto e
do reuniã o dos muitos bens que deviam acompanhá-lo na sua marcha para a vida eterna.
Além
de todo este cortejo de móveis, barcas rituais, imagens do morto, efígies dos deuses
menores e
maiores, alimentos, livros de orações e conselhos, devia permanecer o corpo, tã o intacto
como
se soubesse fazer, porque ainda nã o se tinha chegado a abstrair a idéia da "alma", e só se
identificava a possibilidade da vida após a morte com a conservaçã o do aspecto humano.
Por
isso, nos enterros mais privilegiados conservavam-se embalsamadas por separado, junto da
múmia igualmente embalsamada, as vísceras do defunto, dado que nã o resultava possível,
pela sua rápida deterioraçã o, mantê -las dentro do cadáver. Aqui desempenhavam um
papel
decisivo os quatro filhos de Hórus, dado que -como faziam com as entranhas de Osíris -
eles
cuidavam do bom estado das vísceras humanas e as protegiam de qualquer perigo que
pudesse
ameaçá-las. As quatro repartiam as suas funções da seguinte maneira: Amsiti estava ao
cuidado da vasilha que continha o fígado; Hapi velava pela urna onde se encontrava o
pulmã o; Tuemeft vigiava o estô mago do defunto; e, finalmente, Kebsnef cuidava do vaso
no
qual se conservavam os intestinos. Mas os quatro filhos de Hórus nã o estavam sozinhos
nestas transcendentais tarefas de ultra-tumba, dado que Ísis acompanhava Amsiti; Neftis
estava com Hapi; Tuemeft cumpria a sua missã o junto de Neith, a deusa das águas do
Nilo; e
Selket, divindade do Delta e que tinha criado o grande Ra, estava com Kebsnef.
Osíris, com Hórus, Tot e Maat e os seus quarenta e dois assessores especializados nas
quarenta e duas faltas que deviam ser calibradas, (sete vezes seis, um número duplamente
mágico), presidia as cerimô nias do estrito julgamento dos mortos. Ante ele eram pesadas
as
boas e as más obras do defunto, a alma ou resumo da sua vida, e julgava-se essa relaçã o
de
pecados ou virtudes. Mas nã o terminava o trâmite com a pesagem e defesa do defunto;
após
essa primeira parte, se passava a contrastar se o exposto tinha sido certo e tudo o julgável
tinha sido trazido à luz. A veracidade do julgamento da alma era verificada com a pesagem
minuciosa e precisa do coraçã o, colocado na balança diante de uma leve pena, e bastava
que
esse coraçã o fosse o que inclinasse a balança para o seu lado para que se condenasse o
morto
na verdadeira prova final, sendo condenado a padecer todos os sofrimentos possíveis,
imobilizado na escuridã o da sua tumba ou imediatamente o seu corpo devorado por uma
aterradora divindade, Tueris, uma criatura com cabeça de crocodilo e corpo de hipopótamo
que aguardava pacientemente o mentiroso. Se tudo estava a favor do defunto, Osíris
premiava-o com o renascimento e a passagem para a vida eterna. Mas junto dele estavam
outras duas divindades especializadas no ciclo da morte: Anúbis, filho de Neftis e Osíris,
embora criado e educado por Ísis, e Upuaut, um antigo deus da guerra. Os dois aparecem
sempre com cabeça de chacal, ou de cã o (especialmente Anúbis) acompanhando Osíris no
transe do julgamento como seus primeiros auxiliares. Eram dois seres acostumados a cuidar
dos mortos, um por ter ajudado no seu dia a embalsamar o cadáver de Osíris, e o outro por
ter
tido que fazê -lo em tantas ocasiões, quando guiava as expedições guerreiras e devia
cumprir o
ritual com os seus guerreiros falecidos em combate.
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Embora fundamental para a vida em Egito, o grande rio, o Nilo, nunca chegou a ter uma
divindade que o representasse no panteã o nacional em igualdade de condições com os
outros
deuses, e só contou com o deus Hapi, que nã o era o mesmo que oficiava como filho de
Hórus,
dado que este tinha rasgos híbridos de mulher e de homem e luzia roupas de barqueiro do
rio,
tendo a sua morada numa caverna próxima da primeira catarata, a mais de mil quinhentos
quilô metros da foz. Outras partes do rio tiveram quase mais importância do que Hapi,
como
foi o caso da grande corrente de água que conformava o rio - Satis - representada por uma
mulher tocada com a tiara branca do alto Nilo e o arco e as flechas nas suas mã os, que era
esposa da divindade da primeira catarata - Jnum - um deus com cabeça de carneiro, embora
haja que precisar que foram quatro os diferentes Jnum venerados sobre as águas do Nilo.
Também era esposa do Jnum da primeira catarata a deusa Anukit, a divindade que
representava o estreitamento do rio à sua passagem pelas gargantas rochosas de Filae e
Siena,
ou o deus dos lagos -Hersef- que aparecia aos homens com o corpo de um homem e a
cabeça
de um borrego. Sabek, com cabeça de crocodilo, era a divindade das inundações
benfeitoras,
filho da deusa Neith, protetora das terras fecundas do Delta. Para as terras secas do Egito
existia também uma divindade masculina específica, Minu, relacionada com a proteçã o
dos
viajantes que cruzavam as solitárias e calorosas arenas do deserto, e também encarregado
da
fecundidade dos campos e do gado. Nejbet, como mulher tocada com a tiara branca, ou em
forma de abutre que voava sobre a cabeça dos reis, era a deusa protetora do Alto Egito.
Hathor, além de ser a vaca criadora de tudo o visível e a protetora das mulheres e a
maternidade, também estava situada no limite entre as terras férteis e as secas, oferecendo
das
figueiras a água e o pã o aos mortos que se aproximavam do seu terreno para fazer-lhes
saber
que eram bem-vindos.
Se a alegre e feliz Hathor tinha a forma de uma vaca, o seu animal companheiro devia ser o
muito relevante deus Á pis, o boi divino adorado desde os primeiros tempos da existê ncia
do
Egito, embora nã o chegasse à sua categoria celestial. Nã o é de admirar esta
representaçã o
animal dado que todos os deuses egípcios tinham uma característica animal que geralmente
portavam nas suas figurações em lugar da cabeça humana, quer fosse uma de falcã o,
como no
caso de Hórus; de chacal ou cã o, como a que distinguia Anúbis; de leoa, como a que
personificava a deusa Sekhmet; de vaca, como às vezes levavam Ísis e Neftis; de bode,
como
podiam luzir Ra e Osíris; a cabeça de gato que diferenciava Bast e Mut; a de ganso que era
a
de Amon; o íbis e o macaco que encarnavam o supremo Tot; o escorpiã o que representava
o
espírito da deusa Selket, ou o fê nix triunfal, que era a melhor forma de dar a conhecer a
eternidade da alma dos dois grandes deuses Ra e Osíris. Mas o boi Á pis era um verdadeiro
animal, selecionado entre os seus congê neres de acordo com umas marcas sagradas que
deviam exibir, para servir de centro do seu culto; era cuidado no seu templo de Mê nfis
durante vinte e cinco anos, se chegasse a alcançar tal idade, depois era afogado e
mumificado,
para dar lugar ao seu sucessor. Mas junto da magnificê ncia do boi Á pis, nã o há que
esquecer
o escaravelho sagrado, o Jepri, representaçã o viva e múltipla do deus do sol e venerado
em
todos os cantos do Egito, sendo uma das representações mais freqüentes da divindade
solar,
que faz parte essencial da civilizaçã o egípcia e que está imortalizado entre os signos
escolhidos para a linguagem escrita.
Como pudemos ver, na envolvente da muito importante civilizaçã o egípcia se gera grande
parte dos conhecimentos que vã o fazer parte das culturas mediterrâneas. Como é natural,
também no Egito nascem grande parte dos mitos recolhidos posteriormente pelos povos
próximos, por hebreus e cristã os na Bíblia e pelos muçulmanos no Corã o. Egito é o
berço da
gê nese hebraica, é a primeira cultura que trata de sintetizar a criaçã o do mundo e o seu
barro
original, é aceita para explicar também os diferentes credos que se elaboram a partir do
seu.
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Egito é, sobretudo, o berço indiscutível do monoteísmo, do futuro deus único; do Egito,
esta
proposta sai para o norte com os hebreus que viviam e trabalhavam para os faraós; os
cristã os
retomam-na e os muçulmanos elaboram-na com novos dados, conservando o núcleo dos
relatos bíblicos e acrescentando os elementos cristã os posteriores na sua singular
recopilaçã o
do relato dos livros santos; também lá, com Set e Osíris, está a origem do mito de Caim e
Abel como o vai estar o de Maria, nos primeiros séculos do cristianismo, da diocese de
Alexandria, como mã e do menino Jesus, à qual se passa a denominar Rainha dos Céus,
aproveitando o fervor que esta imagem levanta nos fiéis egípcios, mantendo-a igual a Ísis
quando era adorada com o seu filho-irmã o Osíris nos braços como prova do seu contínuo
renascimento. Ainda mais importante: a vida depois da morte é outra das grandes idéias,
talvez a fundamental, sobre as quais gira o espírito religioso egípcio, e essa promessa de
vida
eterna de uma melhor vida para os justos.
Se se quer encontrar a melhor aportaçã o da mitologia egípcia às religiões posteriores, há
que
procurá-la na grande esperança que implica o seu sistema de julgamento dos seres
humanos.
A recompensa imensa que os sucessivos deuses únicos (Jeová, a Trindade, Alá) vã o
oferecer
aos hebreus, aos cristã os e aos muçulmanos, é a mesma que se descreve no Egito com o
relato
do julgamento de Osíris e a possibilidade da eternidade feliz; ao sair do seu contexto
faraô nico original democratiza-se e torna-se acessível a todos os fiéis por igual, ou mais
concretamente, é oferecida com maior segurança a quem mais sofre, a quem menos possuí
e
desfruta nesta vida terrena, sendo a de Osíris a primeira idéia que o homem forja sobre a
existê ncia de um ser superior que tem que julgar os méritos e deméritos de cada um de
nós.
Com Osíris estã o os seus quarenta e dois assessores, e deles nasce e fortalece-se a idéia do
pecado estabelecido, a regra da religiã o exata e canô nica, que toma corpo nos livros que
no
futuro querem ser norma inapelável. Para os cristã os, as tríades dos deuses egípcios
(Osíris,
Ísis e Hórus, ou Amon, Mut e Jons) consolidam-se e mantêm-se no conceito trinitário do
seu
deus. Egito, inicialmente isolado pelo deserto e pelos terrenos pantanosos do Delta, abre-se
aos gregos e aos romanos e, através de Roma, a sua última dominadora, após a guerra
entre os
dois grandes rivais na luta pelo Império, Julius Caesar e Marcus Antonius, junto de
Cleópatra,
a rainha grega dos últimos dias da sua existê ncia independente e grandiosa, termina por
exportar para o Oriente próximo e para o Ocidente inteiro a base do seu ideário mítico,
quando parece que o seu poder já se extinguiu para sempre.
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MITOLOGIA CHINESA
Quanto à mitologia de todo este vasto território do
continente asiático, pode constatar-se que, realmente,
talvez seja uma cópia da própria organizaçã o
hierarquizada da sociedade chinesa, pois assim como
havia um governante máximo à frente de cada
dinastia, também devia adorar-se um deus único e
supremo, o qual recebia, ao mesmo tempo,
obediê ncia e reverê ncia por parte das outras deidades.
Alguns dos seus chefes religiosos foram
considerados, entre a legendária populaçã o chinesa,
como seres imortais ou encarnações da denominada
"Origem Primeira", deidade que fazia parte de uma
trindade de deuses com poderes para vencer o mal e
os seus representantes. No entanto, o panteã o chinê s
conta com uma grande variedade de deuses. E até os
fundadores de grandes movimentos religiosos
tiveram em conta o ancestral -rico e variado- de todos
os estados feudais assentados em território chinê s,
para confeccionar os seus dogmas e assertos. A povoaçã o agradeceu, na prática, este
detalhe
dos seus iluminados, pois elevou à categoria de mito tanto o autor como a sua obra. Deste
modo, arraigará entre a populaçã o o mítico conceito denominado "tan", cujo simbolismo
é tã o
rico que ultrapassa a sua origem primigénia; "tan" significa "caminho", "via". É um
princípio
guiador de tudo quanto existe e do universo inteiro. Pelo "tan" há verdade, e sabedoria, e
harmonia. Sucede a mesma coisa com a introduçã o da moral como único aspecto
regulador de
qualquer relaçã o social, quer seja pública ou privada, que deveria desembocar, por
obrigaçã o,
numa ética do altruísmo, do desprendimento, da solidariedade, do respeito e da tolerância
entre os humanos.
Tratar-se-ia de erradicar a beligerância, o ódio e as guerras e, ao mesmo tempo, substituí-
los
pelo amor universal e a paz. Há que acrescentar, além do mencionado, outros aspectos que
completarã o este panorama, real e mítico ao mesmo tempo. A populaçã o deste imenso
território chinê s também adorava os fenô menos da natureza, as suas forças desatadas;
comemorava o espírito dos antepassados; acudia a consultar os oráculos e participava de
um
ritualismo rico em sacrifícios e esoterismo mágico. Muito especialmente, se pretendia uma
longevidade perene -o mito da eterna juventude- que, mais tarde, aparecerá em todas as
outras
culturas e civilizações, especialmente na mitologia greco-latina. A verdade é que o povo
chinê s tinha um deus especialmente dedicado a procurar juventude e viçosidade a todos os
que lho rogassem e, por isso, lhe ofereceram contínuos sacrifícios e preces. Esta deidade
chamava-se Cheu-Sing e era a encarregada de guardar a vida dos humanos, pois, entre
outras
coisas, tinha poder para fixar o dia em que tinha de morrer uma determinada pessoa. Mas,
segundo a crença popular, se podia mudar a vontade deste deus oferecendo-lhe sacrifícios e
participando nos diversos rituais na sua honra. Tudo isto indica que era possível estender os
anos de vida, bastava que Cheu-Sing prolongasse a data que tinha marcado de antemã o e,
pelo
mesmo motivo, ampliasse, assim, o tempo de vida daqueles mortais que mais fidelidade lhe
tivessem demonstrado.
No entanto, segundo as narrações mitológicas do povo chinê s, há uma deidade superior,
criadora do mundo e de tudo quanto existe, rei dos mortais e dos outros deuses. Recebe o
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nome genérico de "Venerável Celeste da Origem Primeira" e há já muito tempo -uma
eternidade- que delegou todo o seu poder num dos seus discípulos e, ao mesmo tempo,
segundo dos trê s deuses - denominados os "Trê s Puros"- que compõem a trindade
chinesa. O
nome deste deus, que realiza a pesada tarefa que lhe encomendou o seu mestre, é "Senhor
do
céu". E chegará um dia em que também ele deixará que o seu sucessor leve a cabo o
trabalho
de ordenar e governar o universo inteiro. Mas, por agora, é o último dos "Trê s Puros", e é
um
deus que se evoca pelo nome de "Venerável Celeste da Aurora". Para levar a cabo a ingente
tarefa encomendada pelo primeiro dos deuses, o seu discípulo contava com a ajuda de
outras
deidades afins. Por exemplo, narra o relato mítico que o segundo dos deuses, isto é, o
"Senhor
do céu", delegava determinadas funções no "Segundo Senhor", um deus muito célebre e
popular porque travava, a quem o invocava, os maus espíritos. Enviava contra estes o "Cã
o
Celeste", que os perseguia com raiva e nã o permitia que assustassem os humanos.
Também
havia deusas de segunda ordem que tinham como missã o predizer a possibilidade de
casamentos estáveis. A elas acudiam muitos jovens para consultá-las acerca das qualidades
do
seu futuro marido e também sobre a conveniê ncia ou nã o de casar-se.
O anterior nã o faz senã o avaliar a teoria defendida por quase todos os investigadores da
mitologia. Estes, com respeito às lendas chinesas, afirmam que o imanente e o
transcendente
sã o uma mesma coisa, dado que, realmente, a organizaçã o entre os deuses é similar à
estrutura
da sociedade dos humanos. Aqueles se servem de outros mais inferiores para levar a cabo
as
suas tarefas mais custosas; sucede a mesma coisa entre os mortais, pois os governantes se
servem de subordinados -ministros, funcionários, etc.- para levar a cabo as suas
realizações
em pró do bem geral do seu povo. Tanto os deuses como os governantes devem procurar o
bem material e moral dos humanos, pois, caso contrário, o universo e o mundo albergariam
unicamente ruindade e desgraça. Portanto, segundo explicam as narrações dos mitos
chineses,
a atençã o e a própria existê ncia dos deuses e dos governantes sã o absolutamente
necessárias.
Mas os governantes têm que demonstrar sabedoria em todos os seus atos. E os deuses
devem
cumprir com diligê ncia a missã o que lhes foi encomendada pelos seus mestres ou pelos
deuses superiores. E, assim, existiam deidades que se encarregavam de apontar as boas e
más
ações dos humanos e, ao mesmo tempo, deviam procurar levar ao mundo dos mortais a
maior
felicidade possível. A encomenda de distribuir paz, felicidade e alegria entre os humanos
era
uma tarefa invejável que nenhuma deidade eludia.
Outros muitos deuses menores ajudavam a deidade superior "Deus do céu"; era o seu dever
e
a sua única funçã o. Deste modo, o paralelismo com a estrutura da sociedade humana era
uma
realidade tangível, pois estes deuses inferiores cumpriam os mandatos da deidade que
estava
por cima deles e esta, por sua vez, devia obediê ncia à seguinte de grau superior. Assim
até
chegar ao mais poderoso de todos, por cima do qual ainda existia outro deus que tinha
delegado nele as suas funções -a pesada carga de governar- mas que, nã o obstante,
continuava
sendo o mais poderoso de todos os deuses do panteã o chinê s. O mundo mitológico,
portanto,
tinha sido construído de acordo com os mesmos critérios usados nas próprias sociedades
humanas. Aqui, o soberano -que tinha por cima dele os deuses- organizava o seu território e
publicava as suas leis com a ajuda -com certeza, obrigatória- dos seus súditos, que se
encontravam perfeitamente organizados por categorias e deviam cumprir fielmente os
mandatos dos seus superiores. Portanto, humanos e deuses se organizavam sob uma
estrutura
similar; daqui que, segundo a mitologia chinesa, até as mais fúteis funções se
encontravam
encomendadas a uma deidade. Por exemplo, quando os cidadã os tinham cometido faltas
graves contra os seus congê neres, ou contra os deuses da sua tribo, deviam elevar súplicas
à
deidade que perdoava os pecados e que conferia, de novo, a paz de espírito aos que já
tinham
sido purificados.
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18
A populaçã o da ancestral China chamava Ti-kuan ao deus que perdoava os pecados e,
segundo a crença popular, era o "Agente da Terra" que formava tríade com outros dois
deuses; o "Agente do céu" e o "Agente da água". Todos os desejos, e necessidades, dos
humanos ficavam satisfeitos assim que estes invocavam o deus apropriado. Por tudo isso, o
número de deuses familiares era considerável. Mas nã o só cada casa, mas também os
bairros,
circunscrições, povoações, cidades e territórios contavam com os seus deuses protetores.
As
próprias deidades se ocupavam de que tudo funcionasse perfeitamente; e assim os deuses
do
lugar guardavam a terra, a rua, a casa e todos os seus moradores. Em todos os lares havia
uma
imagem do "Deus do lar" que, geralmente, aparecia sob a figura de um anciã o com barba
branca. No desenho -impreciso e carregado de colorido aberrante- aparecia também uma
mulher, que se venerava como esposa do "Deus do lar", rodeada de animais domésticos,
tais
como porcos, galinhas, cã es, cavalos, etc., que cuidava e dava de comer. Nestes desenhos,
que
os chineses colocavam no interior das suas casas para adorar o verdadeiro espírito das
figuras
que lá apareciam, o artista tinha respeitado também a essê ncia hierárquica da mitologia
destes
povos do longínquo oriente, pois a verdade é que, em qualquer caso, o "Deus do lar"
permanecia sempre sentado e relaxado sobre um colorido trono. Em compensaçã o, a
mulher
estava em pé, preocupando-se dos labores domésticos, neste caso do cuidado dos animais
que
havia em casa. Isto indica que o "Deus do lar" tinha subalternos, por assim dizer, nos quais
delegava a sua própria funçã o de cuidar pessoas e fazendas.
A mitologia chinesa conta com um lugar de perdiçã o, similar ao que entre os greco-latinos
se
denominará Tártaro, Hades ou Inferno. Segundo a tradiçã o popular chinesa, a alma dos
mortais é conduzida a esse lugar de perdiçã o para ser julgada e, como no mito clássico
aparece o feroz cã o Cerbero custodiando as gigantescas portas do Tártaro, também aqui
há um
encarregado de controlar a passagem para o interior de tã o tétrico lugar: o "Deus da
Porta". Se
tudo estivesse em regra, a alma podia passar e toparia imediatamente com o deus de
"Muros e
Fossas", que era o encarregado de submetê -la ao primeiro, e mais benigno, dos
julgamentos.
No entanto, os interrogatórios duravam perto de cinqüenta dias -exatamente quarenta e
nove,
que era um número pleno de conotações simbólicas entre muitos povos do extremo
oriente:
"Este é o prazo de que necessita a alma de um morto para alcançar definitivamente a sua
nova
morada. É a terminaçã o da viagem", durante os quais a alma permanecia retida nos
domínios
do deus de "Muros e Fossas". Este pode condená-la ou deixá-la em mã os do seguinte juiz.
Se
acontece o primeiro, a alma pode ser açoitada ou atada pelas suas extremidades superiores
a
uma tábua que a aprisiona o pescoço.
De qualquer maneira, a alma terá que passar, agora, à presença do "Rei Yama", que se
encarregará de decidir, após um novo interrogatório, se aquela é uma alma justa ou um
alma
pecadora. Se for o primeiro, a alma será enviada para um dos paraísos chineses -o que se
encontra na "Grande montanha" ou o denominado, de maneira pomposa, a "Terra da
Extrema
Felicidade de Ocidente", onde gozará de liberdade e felicidade eterna-, dado que aqui tudo
se
encontra embebido da presença do Buda. Se, pelo contrário, o "Rei Yama" sentenciou que
se
trata de uma alma pecadora entã o esta será arrojada para o abismo dos infernos para que

purgue as suas culpas. Depois de sofrer dores e castigos sem fim, a alma chegará, por fim,
ao
décimo lugar de perdiçã o. Uma vez aqui será obrigada a reencarnar-se e poderá escolher
entre
um animal ou um humano. Se se reencarnar num animal, nem por isso perderá o seu antigo
sentir humano e, pelo mesmo motivo, sofrerá quando a maltratem ou quando a matem. Por
exemplo, pôde escolher renascer como porco e, portanto, nã o durará muito sem ser
sacrificado, em cujo caso a dor do animal é a mesma que sentiria o humano ao qual
pertencia
a alma antes de reencarnar-se. No entanto, ninguém reparará nisso pois o porco nã o
poderá
exprimir a sua dor e o seu sofrimento, de forma humana, dado que a alma reencarnada,
antes
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19
de sair do décimo Inferno e dirigir-se para o lugar onde se encontra a "Roda das
Migrações",
deve beber o "Caldo do Esquecimento" para, assim, guardar segredo obrigatório -pois nada
do
passado poderá já entã o recordar- de tudo quanto lhe aconteceu na sua digressã o
infernal. Esta
beberagem, segundo a lenda dos povos do longínquo oriente, era preparada pela deusa que
habitava na misteriosa casa edificada à saída do Inferno. Todas as almas que abandonassem
aquele lugar de perdiçã o tinham que beber o "Caldo do Esquecimento" pois só entã o
lhes
seria permitido continuar para a frente e chegar à "Roda das Migrações", para assim
consolidar a sua reencarnaçã o.
Algumas versões explicam, nã o obstante, que as almas dos mortos, antes de chegarem à
presença do deus de "Muros e Fossas", recebiam a ajuda de Abida, deidade que tinha
encomendada a tarefa de aliviar a todos os humanos à hora da morte, pois acolhia as almas
puras e purificava as impuras. Também se diz que o Tártaro era um lugar de perdiçã o,
sim,
mas constituído por cidades cheias de funcionários e também de vários edifícios que eram
como sedes dos diferentes tribunais perante os quais tinham que comparecer as almas dos
mortos para serem julgadas. O próprio palácio do Rei Yama encontrava-se numa das
cidades
principais do mundo infernal e, ao lado deste soberbo -e, ao mesmo tempo, tétrico edifício-
se
levantavam as diversas edificações que albergavam no seu interior as terríveis câmaras de
tortura e suplício. Esta mítica cidade chamava-se Fong-tu e tinha uma entrada principal,
denominada "Porta do Mal"; no extremo oposto, ficava protegida e resguardada por um
pustulento rio -posteriormente, também entre os mitos greco-latinos aparecerá o rio
Aqueronte, cujas turvas, lodosas e fedorentas águas, rodearã o o lugar de perdiçã o
chamado
Tártaro, que contava com trê s pontes, as quais constituíam outros tantos acessos a Fong-
tu,
embora pelo lado contrário desse para a zona principal. A primeira ponte estava construída
em
ouro maciço e só os deuses podiam atravessá-la. A segunda ponte era de prata e estava
reservado às almas que tinham sido justas.
A terceira ponte era muito mais comprida e estreita do que as anteriores e atravessá-la
resultava perigoso, pois carecia de corrimões para se agarrar. As almas que tinham sido
perversas e viciosas estavam obrigadas a atravessá-la e, se caíssem no fedorento rio, seriam
imediatamente trituradas por monstros que tomavam a aparê ncia de serpentes de bronze e
de
raivosos cã es de ferro. A mitologia dos povos do longínquo oriente contava, também, com
lugares de felicidade e de dita, isto é, com paraísos. Como já se indicou, o da "Grande
Montanha" era um deles. O outro era a "Terra da Extrema Felicidade de Ocidente", e,
geralmente, era o lugar escolhido por "Rei Yama" para enviar aquelas almas dos mortais
que
tinha encontrado inocentes e que, pelo mesmo motivo, considerava justas. O primeiro dos
paraísos estava habitado pela "Dama Rainha" (a quem a tradiçã o mítica fazia esposa do
poderoso "Senhor do céu" que, no cimo da montanha mais alta, tinha construído o seu
grandioso palácio; este era um edifício fabuloso -contava com mais de nove andares-,
rodeado
de jardins com plantas e flores aromáticas e permanentemente verde. Aqui crescia, oculto
num lugar recô ndito, a mítica "Á rvore da Imortalidade"; dos seus frutos se alimentavam
os
bem-aventurados, isto é, aqueles que tinham levado uma vida reta e justa e que, portanto,
nã o
tinham enganado nem maltratado nenhum dos seus semelhantes. Por tudo isso lhes era
permitido conviver com as deidades denominadas "Imortais". Era muito comum, entre as
altas
esferas da sociedade chinesa, tais como os seus monarcas e classes poderosas, dar culto
-nos
inícios da primavera e da estaçã o outonal- ao Céu, à Terra, ao Deus da Guerra e ao
grande
mestre Confúcio. Também as duas luminárias eram objeto de adoraçã o entre a populaçã
o do
ancestral território do extremo oriente.
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Tanto o Sol como a Lua eram astros considerados como personificações de certas deidades.
E
nã o só os imperadores e a classe poderosa mas também o povo apoiava o culto às citadas
luminárias; pelo qual a veneraçã o à Lua e ao Sol ficava convertida, ao mesmo tempo, em
culto oficial e popular. Eram ofereciam sacrifícios aos citados astros coincidindo com ano
par
ou ímpar. Os anos ímpares estavam consagrados ao Sol e os anos pares à Lua. Ambas as
luminárias apareciam também relacionadas com os dois princípios essenciais. O Sol era
princípio ativo e, portanto, era associado com o "Yang"; ao passo que a Lua era princípio
passivo, pelo qual aparecia sempre relacionada com o "Yin". Para a populaçã o chinesa,
estes
dois princípios tinham uma importância capital. Se concebia a eternidade como um círculo
que carecia de um princípio e que nã o tinha fim. O "Yang" e o "Yin" estavam dentro dela,
como duas forças que se necessitam mutuamente e, pelo mesmo motivo, em vez de opor-
se,
se complementam. Na mitologia dos povos do extremo oriente, portanto, tudo se encontra
estruturado com antecedê ncia -nã o há lugar para improvisações e se rejeita qualquer
tipo de
intuiçã o-, e classificado em itens que se sobrepõem, a maneira de arquivo, para dar lugar
a
emoções, paixões, tendê ncias e necessidades.
Outros mitos dos povos orientais -especialmente entre a populaçã o que seguia os ensinos
de
Buda, o "Iluminado"- explicavam que o Tártaro se encontrava num lugar escuro e
subterrâneo
e, segundo a crença popular, tinha umas características bastante contraditórias. Havia oito
infernos de fogo e outros oito de gelo. E ambos produziam nos condenados torturas pelo
calor
ou torturas pelo frio. No entanto, também existiam -distribuídos em cada um dos quatro
pontos correspondentes aos infernos principais, tanto de fogo como de gelo- outros lugares
de
perdiçã o inferiores que, em ocasiões, supriam os dezesseis principais. Contudo, nã o se
sabia
com certeza o sítio exato onde estes lugares de perdiçã o iam surgir. Apareciam tanto -o
que
sempre sucedia de forma repentina- na profundidade de um vasto e verde vale como no
pico
de uma montanha; até uma árvore milenar podia converter-se subitamente em sede de um
destes infernos inferiores. À s vezes surgiam no próprio espaço e o ar abrasava ou gelava
os
condenados. Por outro lado, todas as condutas estavam controladas pelos ajudantes e
funcionários do "Juiz do Averno", que se sentava num trono duro encaixado entre duas
estantes de pedra. Na da sua esquerda encontra-se o "Julgador que vê tudo"; é uma figura
feminina que penetra com a sua vista no mais recô ndito do pensamento daqueles que
comparecem para serem julgados. À direita situa-se o "Julgador que cheira tudo"; trata-se
de
uma figura masculina que tem como funçã o descobrir, com o seu fino olfato, qualquer
açã o
injusta ou imoral que tenha cometido o mortal que comparece para ser julgado. Portanto,
como se pode comprovar, nã o há escapatória possível para os condenados, dado que
todas as
suas ações foram "vistas e cheiradas".
Embora, para reduzir a pena, estivesse permitido que os vivos intercedessem em favor dos
condenados, o que requeria sempre uma atuaçã o inteligente e um mestre budista como
mediador. Toda a natureza, segundo a tradiçã o popular, devia ser cuidada e mimada e
resguardada, e preservada de qualquer mal, dado que através dela se manifestavam as
diferentes deidades. Fenô menos naturais como o raio, o trovã o, a chuva torrencial, o
vento
forte. .., deviam a sua apariçã o a uma deidade menor. E, assim, Yun-t Ong tinha a funçã o
de
reunir as nuvens, depois de tê -las formado, e era invocado com certa freqüê ncia como o
"jovem deus que reúne as nuvens". Também contavam os povos do extremo oriente com a
"Dama do céu Sereno", que tinha a missã o de limpar todo o espaço, uma vez que a chuva
parava. Se dizia que afastava as nuvens com o seu hálito purificador. Outra deidade,
considerada como um agente celeste, era Tien-kuan, que se encarregava de levar ao mundo
dos humanos a maior felicidade possível. Em ocasiões era associada com a "Mã e dos
Relâmpagos" e, entã o, recebia o nome de Tien'mu. A lenda dos povos do extremo oriente
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explica que Tien'mu produzia o raio servindo-se de dois espelhos. Também o ruído
ensurdecedor do trovã o era produzido por uma deidade menor; recebia o nome de "Senhor
do
trovã o" e, por isso, estava considerado como o amo e dono do ruído.
Também se venerava, especialmente entre as classes poderosas, o deus da riqueza. Em
quase
todas as casas dos ricos havia nã o só um desenho com o nome do deus gravado em
caracteres
ideográficos, mas também uma efígie representativa da deidade. Deste modo, sempre o
consideravam próximo deles e podiam dirigir-lhe as suas preces com assiduidade, na
crença
de que, assim, nunca se veriam reduzidas a sua fortuna e o seu patrimô nio. O deus das
riquezas era conhecido pelo nome de T'saichem; o seu poder era superior ao das outras
muitas
deidades similares e até tinha designados numerosos deuses para o servirem e levarem a
cabo
as tarefas que aquele considerasse mais duras e difíceis. Outro aspecto muito importante,
que
também estava regulado e protegido por uma deidade, era o estamento familiar com todas
as
suas implicações. A intimidade da família, e as relações pessoais entre todos os seus
membros, ficavam a salvo de críticas adversas, proferidas por pessoas nã o integrantes do
grupo familiar. De tudo isto se encarregava o deus T'sao-Wang e, em troca, recebia todos os
dias o reconhecimento dos seus protegidos. Era freqüente, entre as famílias da populaçã o
do
extremo oriente, honrar o deus que se erigia em seu protetor, por meio de um ritual que
consistia em queimar varetas de incenso, ao mesmo tempo que se invocava o nome do deus
T'sao-Wang, duas vezes; uma quando começava o dia e outra ao anoitecer.
Cada profissã o, ofício e trabalho, tinham a sua deidade protetora. Entre todos estes deuses,
a
tradiçã o popular destacava o deus das letras e da literatura, ao qual se atribuía uma obra
de
conteúdo simbólico e emblemático. Era conhecido pelo nome de Wen-t'chang e, segundo a
lenda, antes de chegar a obter a distinçã o de protetor das letras e da literatura já tinha
passado
por dezessete existê ncias; o dezessete estava concebido, entre os orientais, como um
número
repleto de significaçã o mágica e esotérica. O livro que tinha escrito o próprio deus era,
por
assim dizer, uma espécie de biografia e nele se indicava o dado das dezessete
reencarnações,
ou novos nascimentos. Também se davam pautas a seguir para agir com moralidade e
retidã o
e, geralmente, se louvava o saber e a inteligê ncia sobre quaisquer outros aspectos.
Segundo a
mitologia dos povos do extremo Oriente, a interpretaçã o dos caracteres ideográficos do
livro
escrito pelo deus Wen't-chang leva a considerar à sabedoria por cima de quaisquer outros
aspectos. Mediante o saber e a inteligê ncia se pode superar qualquer obstáculo e, ao
mesmo
tempo, equilibrar qualquer sofrimento. A sabedoria, segundo explica na sua obra o deus das
letras e da literatura, é como uma espécie de "Candeeiro da câmara escura", o que
significa
que até nos momentos mais difíceis da vida, quando vemos tudo negro, quando nos
achamos
encerrados na "Câmara escura" deste mundo dos mortais, sempre existirá a luz do
"Candeeiro" que proporciona o saber e a inteligê ncia para, assim, tornar possível uma
nova
procura, uma soluçã o inédita. Outro dos deuses principais que a populaçã o oriental
venerava
recebia o nome de Fo.
Este era um deus superior aos anteriores, pois ocupava o primeiro lugar entre as outras
deidades que compunham a tríade da Felicidade. A sua importância, dentro da mitologia
chinesa, era acrescentada porque representava, ao mesmo tempo, a Hierarquia, a Fortuna e
a
Honra. A ele acudia quem sentia o peso de um destino e um azar adversos; também os
governantes solicitavam de Fo que os guiasse no momento de legislar, para que nenhuma
norma injusta saísse da sua cabeça nem fosse permitida no seu reino. Era solicitado, além
disso, por todos aqueles que tinham sido objeto de escárnio e desonra, mediante engano.
Ao
parecer -e segundo a crença popular-, Fo devolvia-lhes a sua honra perdida, pois por algo
era
um deus principal. O mito relativo a este deus poderoso nos fala do seu nascimento
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portentoso, da forma em que surgiu da costela direita da sua mã e que, segundo conta a
lenda,
tinha sonhado antes que um belo elefante branco a possuía.
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23
MITOLOGIA INDIANA
Nos assentamentos urbanos do vale do Indo, entre os restos
da civilizaçã o precursora de Harappa, nas ruínas das
altamente evoluídas cidades de Harappa e Mohenjo-Daro,
encontraram-se as imagens em terracota e em selos de
cerâmica de diversas divindades que bem podem
considerar-se como precursoras das posteriores
representações bramânicas. Esta cultura, que já se
comunicava regularmente com a mesopotâmica no século
XXIV aC, tinha o touro como animal emblemático
principal, dada a abundância das suas representações,
certamente como garante da fecundidade e como símbolo
da vida após a morte; o touro ou boi sagrado compartilhava
a sua popularidade, a julgar pelo número de achados, com
uma deusa-mã e que também estaria a cargo da proteçã o da
fecundidade, de um modo similar ao que o faria séculos
mais tarde a deusa Devi, esposa de Siva, uma figura da
qual esta deusa inominada do vale do Indo pôde ser
antecessora. O ubíquo e predominante touro sagrado
aparece também em outras representações de perfil perante uma pira ritual, como o fará
depois uma das advocacias de Siva, Nandi; assim como outra representaçã o do touro
sagrado,
em lugar preeminente junto de outros animais, pode ser, por sua parte, assimilada à
posterior
advocacia de Siva como protetor dos animais, o deus Pashupanti. Outros animais
emblemáticos terrestres e aéreos também aparecem profusamente na cerâmica de
Harappa, e
sã o, naturalmente, os mesmos elefantes, tigres, serpentes, búfalos, águias, macacos, etc.,
que
continuarã o sendo parte importante das personificações zoomórficas dos deuses do
panteã o
indiano.
Mas a primeira apariçã o histórica é a que nos vem colhida pelos Vedas, as obras escritas
em
sânscrito do ritual religioso elaboradas pelos arianos, um povo chegado à Índia vindo do
noroeste entre os séculos XVI e XIII (aC). No grupo dos "arya", dos nobres, estavam as trê
s
castas dos bramanes ou homens da religiã o, os ksatriya ou guerreiros, e a última casta dos
vaisya ou povo; com eles, mas a uma grande distância social, estavam os sudra ou vassalos,
os que nã o eram "arya", mas iam junto dos nobres. Esta obra do Veda, do conhecimento,
que
começa com o livro do Rig Veda, livro que se devia ter escrito para o século XX (aC), se
continua com o Yajur Veda, contendo o primeiro ritual, o Sama Veda, no qual figuram os
cantos religiosos, e o Atarva Veda, o tratado da religiã o íntima para uso privado dos fiéis.
O
Rig Veda, com mais de 1.000 hinos e 10.000 estrofes, nos fala de um Universo composto
por
duas partes: Sat e Asat. Sat é o mundo existente, a parte destinada às divindades e à
humanidade; Asat, o mundo nã o existente, é o território do demô nio. Em Sat está a luz,
o
calor e a água; em Asat só há escuridã o, porque os demô nios vivem nela, na noite. O
Sat, o
mundo visível e existente, está composto por trê s esferas: a superior do firmamento, o ar
que
está sobre as nossas cabeças e o solo do planeta onde vivemos. Mas a criaçã o deste
Universo
nã o foi só um ato gratuito, um ato de vontade divina; pelo contrário, a construçã o do
mundo
que agora habitamos necessitou de uma luta heróica e decidida entre as forças do ar e as
forças da matéria, porque o Universo é um lugar belo que só se pô de conseguir com o
esforço
que representa o combate entre as forças do bem e as forças do mal.
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24
Entre os assura, os seres espirituais, havia uma grande rivalidade que se manifestava na
briga
entre os deuses aditya e os demô nios raksa. Esta briga desembocou, finalmente, numa luta
que
resolverá o domínio do mundo dos assura, através do confronto direto entre os campeões
dos
dois bandos, entre o deva Indra, um filho do Céu e da Terra, que morava no ar, e Vritra, o
dono dos materiais necessários para construir o Universo. O deva, o deus Indra, era um
aditya
escolhido pelos seus companheiros para representá-los no combate no qual devia vencer o
seu
campeã o de uma vez por todas. O seu oponente, Vritra, era um danava ou raksa; o seu
antagonismo vinha de longe, até tal ponto que se tornou necessário chegar a iniciar o
combate
definitivo, aquele do qual sairá o chefe indiscutível. O deva Indra, após beber a bebida
sagrada, o soma, cresceu tanto que os seus pais, Céu e Terra, tiveram que afastar-se para
lhe
deixar espaço; por isso ele habitava no ar da atmosfera que ficou aberta com a sua
separaçã o.
Indra foi armado com o raio (vayra) por Tvastri, o ferreiro dos deuses, e fortaleceu-se ainda
mais tomando outros trê s grandes jarros de soma, mas a luta foi longa e difícil, porque
Vritra,
onde andava o filho de Danu, era nada menos que uma gigantesca serpente que vivia nas
montanhas, dado que é sabido que as forças do mal gostam de tomar o aspecto da serpente.
Indra, com ou sem a ajuda de Rudra e dos maruts, divindades do vento, que nisso há
versões
diferentes, combateu Vritra até conseguir destroçar-lhe o lombo com o vayra; e nã o se
deu por
satisfeito, pois Indra também acabou com a mã e Danu, que caiu ao morrer sobre o
cadáver do
representante do mal. Mas do mal nasceru o bem e, assim, do seu ventre nasceram as águas
da
terra, até encherem os oceanos, de cujo calor saiu o Sol; e com o Sol, o ar, a terra firme e
os
oceanos, já foi possível construir o Universo, pois se possuíam todos os materiais
requeridos,
e se deu forma definitiva ao Sat dos deuses e das suas criaturas, enquanto o Asat invisível
ficava para sempre afastado e relegado à sua nã o-existê ncia.
Os trê s deuses encarregados de velar pelo Sat desde o momento da sua criaçã o sã o
Dyaus,
Indra e Varuma. Dyaus está a cargo da primeira esfera cósmica, a concavidade do
firmamento; Indra da segunda, do ar da atmosfera e dos elementos e meteoros que nela
acontecem; Varuma encarrega-se da terceira esfera, da qual a ordem cósmica estabelecida
rege na terra. Indra, o aditya Vritahan, o campeã o aditya que matou Vritra, já o
conhecemos
pela sua façanha de libertar as águas e construir o mundo. Dyaus Pitr, o Céu Pai, é o
esposo
do fecundador de Prtivi Matr, a Terra Mã e; Dyaus o Grande é o espírito benfeitor
supremo do
dia e da luz. Varuma, o deus que está em todos os lados, é também o chefe dos adityas, os
filhos de Aditi, a deusa virgem do ar; Varuma cuida do rito da verdade divina, e fá-lo
zelosamente da Terra e da Lua, isto é, mantém-se vigilante no dia e na noite, ajudado na
sua
constante missã o protetora pelas estrelas como zelador que é da ordem sagrada no
Universo
visível, do Sat, embora o deus solar Mitra siga substituindo-o nas tarefas diurnas, de um
modo
auxiliar, pelo menos na Índia, dado que o Mitra transferido para o Ocidente, primeiro
através
da Babilô nia e mais tarde da Pérsia, converte-se num deus principal. Varuma é o deus
sábio
que conhece tudo o que já aconteceu e tudo o que tem de suceder. Da sua garganta brotam
as
águas das sete fontes do céu, de onde vê m à terra para formar os grandes rios do planeta.
Dyaus Pitr, donde talvez sairá o Zeus grego, é o deus supremo do Céu. Varuma também
velava pelos mortos, paraíso no qual reina junto com o primeiro humano nascido e falecido,
o
bom Yama, e com a sentinela dos dois cã es protetores das almas, Syama e Sabala. O deva
Indra, desposado com a deusa Indrani, era uma divindade caprichosa, embora fosse o deus
principal dos humanos, e os seus caprichos manifestavam-se com mulheres, homens ou
animais, tanto que a divindade Gautama teve que enfurecer-se com a sua atitude e chegou a
desmembrá-lo, embora mais tarde os seus divinos companheiros se ocupassem de
recompor o
seu corpo desfeito.
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25
Entre os aditya estavam também Mitra, do qual já se falou, Baga, Amsa, Daksa e
Aryaman,
junto de Indra e Varuma, formando o septeto básico; também se costumava pô r um oitavo
aditya, o errante Martanda, que, com o seu contínuo andar pelo céu, era simplesmente uma
divindade astral, o Sol, Surya, desposado com a deusa da Aurora, Uchas, uma deusa
bondosa
e benfeitora. A serviço dos adityas estavam os cavaleiros ou Asvins, divindades menores
que
tinham os seus domínios na escuridã o de cada noite, dispensadores do orvalho no seu
correr
celestial e outorgadores de muitos mais bens espirituais e corporais. Os centauros
Gandharva
vigiavam o sumo sagrado do Soma, que era, além disso, outro deus de importância nas
cerimô nias sagradas. Estes centauros Gandhava eram do mesmo modo umas divindades
tutelares das almas emigrantes na metempsicose. Os Gandharva estavam unidos às mais
belas
divindades, as perturbadoras Apsara, ninfas da água e concubinas dos deuses maiores.
Precisamente um Gandharva, Visvavat, foi o pai do primeiro mortal. Visvavat estava casado
com Saranya, a filha do ferreiro dos deuses, Tvachtar, o mesmo que proporcionou o raio a
Indra para lutar com Vritra. Deste casamento nasceram Yama e a sua irmã gê mea, e
esposa,
Yami. Os Gandharva também se ocupavam da escolta do deva Kama, deus do amor e
esposo
de Rati, deusa da paixã o amorosa. Na mitologia bramânica, Kama, foi morto por Siva,
dado
que tinha tentado distraí-lo nas suas meditações, seguindo as maliciosas instruções da
mutante
deusa Parvati, esposa de Siva; mas foi devolvido à vida pelo mesmo Siva, ao ouvir a pena
que
invadia a apaixonada viúva Rati. Depois da sua misericordiosa ressurreiçã o, Kama passou
a
tomar a nova denominaçã o de Ananga.
Os Marut, os deuses dos ventos, filhos do deus Rudra e da deusa Prasni, tinham grande
poder,
tanto como o dos temporais devastadores que vinham das montanhas, ou o dos ventos
carregados de água benéfica que apareciam estacionalmente na época das chuvas, que era
simplesmente o urinar dos cavalos de Rodasi, a outra esposa do seu pai Rudra, ou o da sua
mã e, a vaca Prasni. Mas os Marut nã o estavam sozinhos no reino dos ares, pois o deus
Savitar
era quem fazia com que se levantasse o vento, se pusessem em movimento os raios do sol e
fluíssem as águas dos rios, porque ele próprio era o movimento e até o próprio Sol,
embora
entã o tomasse o nome de Surya. O deva Puchan, armado com uma lança de ouro,
encarregava-se de unir o destino dos seres vivos e de cuidar deles em todo o necessário
para o
seu sustento, assim como de guiá-los nas suas viagens pelo bom caminho. Mas o culto
mais
popular, o que atraía os mais abundantes sacrifícios dos fiéis, os crauta do ritual, dirigiam-
se
preferentemente a Agni ou Anhi, o deus vermelho do fogo, o dos sete braços e trê s pernas,
o
que estava em todos os lugares onde se fizesse fogo. Anhi era filho da uniã o entre o Céu e
a
Terra e, posteriormente, foi adscrito à uniã o entre o Céu e Brama. Anhi estava casado
com
Svaha, que o fez pai de trê s filhos: Pavaka, Pavamana e Suc. Ao redor deste deus formou-
se
uma muito especializada e importante casta sacerdotal, pois só ela se considerava capaz de
dirigir-se a ele com rezos e cânticos específicos, uma ordem sacerdotal que daria mais
tarde
nascimento à casta superior dos bramanes, precisamente os responsáveis de que a religiã o
popular que se colhia nos livros do Veda fosse deslocada em favor do mais completo e
complexo corpus do culto bramânico, uma mistura de religiã o e metafísica que se
converterá
também no regulamento quotidiano para os crentes, fazendo dele uma forma de vida
totalizadora do religioso e o doméstico.
Da uniã o dos Veda e do ritual sagrado elaborado de cima pela classe sacerdotal, nasceu a
nova doutrina bramânica, na qual revelaçã o e costume se sintetizavam para formarem um
único corpo de regras que preside toda a vida dos fiéis, que vai desde os livros revelados,
os
quatro Veda, os livros ascéticos do Aranyaka, os religiosos Bramanes e os litúrgicos
Upanisads, aos livros escritos pelo homem para compendiar o conhecimento humano, os
que
tratavam da astronomia, da arte e da linguagem, os Vedangas, as leis reunidas nos Dharma e
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os Sutras, os livros de relatos legendários Puranas, e as epopéias do Ramayana e o
Mahabharata, onde se encontra o texto védico do Bhagavad Gita, que nos ensina as trê s
vias
sagradas de acesso ao conhecimento pela contemplaçã o, as obras e a devoçã o religiosa.
O
bramanismo contempla na sua base o mistério da Trimurti, a trindade do absoluto, do Eu
ou
atman, como criador de toda a existê ncia e possuidor de todas as ideias. O Eu existe nas
suas
trê s pessoas complementares: Brama, o criador, Visnú, o conservador e Siva, o destrutor.
Mas
também o Eu, o Único, coexiste ao mesmo tempo nas duas naturezas unidas, na mortal e na
imortal, porque as duas naturezas sã o simplesmente uma única essê ncia, o último
princípio, o
atman. Por isso o deus que conhece tudo e que tudo experimenta é, antes de mais, a ubíqua
presença universal, quer seja em criatura viva ou em coisa inanimada. E os humanos nã o
somos senã o reflexo dessa dupla natureza mortal e imortal a um tempo, todos os humanos
somos um eu pessoal, mais a parte proporcional do Eu total, a esse eu ao qual devemos
tentar
unir-nos, para alcançar a paz eterna, a harmonia com o último princípio, para poder aspirar
a
ser felizes nesta vida contingente e eternos na vida transcendente.
Enquanto Brama ficava estabelecido num plano metafísico, as outras duas personificações
do
Trimurti, Siva e Visnú, convertiam-se em figuras queridas e temidas, nos santos visíveis
aos
qual havia que recorrer num caso concreto, nas pessoas divinas mas humanizadas das quais
se
podiam contar lendas e acreditar em prodígios, porque os deuses que se assemelham aos
homens nos seus defeitos e nas suas virtudes sempre estã o mais perto deles. Visnú, por
exemplo, foi o herói amado, o ser celestial que descia continuamente ao mundo ao qual
tinha
dado vida com o seu hálito divino, para livrá-lo do mal, que também tentava perpetuar-se
sobre a sua superfície, aproveitando cada uma das novas recreações. As suas façanhas
aparecem relatadas nos circunstâncias e esses textos penetram profundamente no fervor
popular, porque nã o há coisa melhor do que poder contar as muitas histórias do deus
valente e
bondoso. Siva, por ser o deus destrutor da trindade bramânica, viu-se impelido a adotar
papéis
cada vez mais terríveis e assim, transformado radicalmente desde o seu primitivo caráter de
deva benfeitor, chegou a representar o deus implacável a quem se encomendava a ingrata
tarefa da destruiçã o, mas nem por isso deixava de dar o melhor de si em benefício das
grandes
causas, embora tivesse que repetir uma e mil vezes o sacrifício. Também se fez em breve
assumir ao terrível Siva a tutela da fecundidade, e os signos fálicos elevaram-se por todo o
território da Índia em sua honra, num patrocínio lógico de compreender, porque ao ser um
deus tã o poderoso e valente, nã o podia deixar de ser o homem desejável ao qual dirigir-
se
com devoçã o, para rogar-lhe que comunicasse a graça da sua força e vigor aos filhos
esperados.
Há muitos milê nios o deus Visnú começou a sua carreira mitológica como mais uma
divindade da natureza, talvez como um deus solar, mas foi galgando postos constantemente,
passando para um lugar de máxima importância na trindade trimurtiana, para o segundo
lugar,
atrás do grande Brama. Agora Visnú está à espera da última encarnaçã o do seu ciclo,
depois
de ter tido nove das dez previstas pelo plano bramânico, tendo já passado pelas do peixe
que
salvou Manú do dilúvio, a tartaruga que obteve a bebida sagrada do amrita, o javali que
voltou a salvar a terra do novo dilúvio, o leã o que castigou o blasfemo demô nio Hiranya,
Trivikrama, o Brâmane anã o dos trê s passos, o Parasurama que venceu os chatrias, o
Rama
exemplar que se narra no Ramayana, Rama Chandra, o príncipe negro Krisna, Buda. A
décima será o acontecer do gigante com cabeça de cavalo branco, de Visnú como Kalki,
vindo
à Terra para a batalha definitiva contra o mal, quando se acabe o mundo e Siva apareça
também sobre as ruínas do dia do fim do mundo. Nas populares e muito belas epopéias
sacropoéticas
do Ramayana e do Mahabharata, Visnú já se converte no verdadeiro protagonista da
lenda, relegando Brama, o que fora poder eterno, para um segundo plano, enquanto ele se
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aproxima mais e mais do fervor popular e habita nas moradas paradisíacas rodeado pelo
amor
eterno de um milhar de incondicionais pastoras celestiais, as Gopis, e na companhia de
Laksmi, divindade do amor, da ciê ncia e da sorte, segundo nos contam os textos do
Ramayana. Quando Visnú desce à terra para acompanhar os humanos, fá-lo geralmente
incorporando-se em um deus de quatro braços, braços que portam o disco, o maço, a
concha
ou a trompeta, e a espada ou o lotus, emblemas que sã o representações das suas
faculdades e
virtudes, como sã o os símbolos do Sol, da força, do combate contra o mal e o seu justo
castigo, respectivamente.
Siva é a terceira pessoa do Trimurti, embora para os seus fiéis ele seja a primeira e
incontestável divindade trinitária. Casado com a também impressionante deusa Parvati, a
montanha, que conhece muitas advocacias, desde a de Sati, ou esposa, e Ambiká, ou mã e,
até
à de Kali, a negra, a deusa da morte. Com a sua esposa Siva habita nas regiões que formam
o
teto do mundo, no Himalaia, no cima do monte Kailas. Naturalmente, um amor como o da
deusa Parvati e o deus Siva nã o podia deixar de ser grandioso e conta-se que, quando por
fim
Siva e Parvati se uniram pela primeira vez, todo o planeta estremeceu num gigantesco
terremoto. O deus Siva apresenta-se às vezes perante os homens nu e coberto com a cinza
da
ascese, com toda a pureza do seu ser, adornado com o sinal inconfundível de um terceiro
olho
vertical no meio da fronte, com o qual vê tudo, símbolo da sua onisciê ncia, e com o
cabelo
preso num grande carrapicho, o mesmo que parou a queda da deusa Ganga, a deusa das
águas
sagradas do rio Ganges, na Terra, absorvendo com a sua estóica dor essa imensa quantidade
de água, que era tã o necessária para a vida do povo indiano. Outras vezes aparece
completamente coberto de serpentes, para apontar inequivocamente a sua imortalidade, e
armado com o arco Ayakana e o Jinjira, mais o raio e um machado, porque entã o é a
personificaçã o do tempo, o deus destrutor. Quando aparece como deus da justiça, fá-lo
montado num touro branco e o seu corpo está coroado por cinco cabeças e um número par
de
braços, entre dois e dez, empunhando numa das suas mã os um tridente no qual estã o
enfiadas
duas cabeças. Na fronte destaca-se a marca de uma lua em quarto crescente, o seu cabelo
vermelho eleva-se como uma tiara e a sua garganta é azul, para recordar que é o
Nilakantha, o
herói que salvou o mundo de todo o veneno vomitado por Vasuri, o rei das serpentes, e o
apanhou na sua mã o para bebê -lo depois, queimando a sua garganta divina com a
peçonha,
antes que deixar que os homens morressem pelo seu efeito.
O príncipe Siddharta Gautama, conhecido pela posteridade como Buda (Iluminado), viveu
entre os anos 550 e 471 (aC). Nasceu ao norte de Benarés, em Kapilavastu, com o anúncio
feito a Maia, sua mã e, segundo nos conta a sua lenda, de que a sua vida seria a de um rei
de
corpos, um Kakravartin, ou a de um pastor de almas, um Buddah. Nasceu o prodigioso
menino através do costado de Maia, auxiliado por Indra e acompanhado de duas serpentes
das
águas, duas Nasa, que criam vastas fontes de água quente (Nanda) e fria (Upananda) para
lavar a criatura prodigiosa, que perderá uma semana depois a sua mã e. O seu pai, o viúvo
rei
Suddhodana, decidiu rodeá-lo de tudo o mais belo que estava ao seu alcance, para evitar
que
fosse o homem espiritual que se tinha profetizado, apartando-o daquilo que lhe pudesse
fazer
pensar nas misérias humanas e pondo-o nas mã os da sua cunhada e nova esposa
Mahaprajapati. Mas Siddharta, no seu retiro perfeito, chegou a ver e a reconhecer o
sofrimento alheio, soube da doença e da morte e, sobretudo, viu num asceta a perfeiçã o
que o
pai queria proporcionar-lhe com presentes e prazeres. Foram os seus quatro encontros: com
a
velhice, com a doença, com a morte e com a serenidade. Entã o, e após vencer qualquer
classe
de tentações postas pelo seu pai, o príncipe Gautama, que tinha casado com a mais bela das
donzelas, com Gopa, e já tinha um filho, decidiu seguir o exemplo do asceta, abandonando
o
mundo de esplendor do seu pai. Segundo se conta, Siddharta tinha vinte e nove anos
quando
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decidiu abandonar tudo para procurar a verdade, e ainda passou outros seis anos
percorrendo a
Índia na companhia do seu fiel Chandaka, procurando essa serenidade admirável no anô
nimo
frade, mas o seu esforço nã o se via recompensado pelo ê xito; nã o tinha encontrado o
mestre
procurado nem alcançado o estado desejado. Por fim, na solidã o de uma noite de Bodh-
Gaya,
quando se encontrava praticamente à beira da desesperança, sob os ramos da árvore Bo,
Gautama foi iluminado e, com a força da verdade, o Buddha começou o seu caminho de
pregaçã o à boa gente que encontrava no seu caminho. A sua verdade era simples, nada há
de
permanente num Universo mutante, num Universo no qual os nossos atos, e nã o os
deuses,
nos premiam ou castigam com um novo nascimento em que o nosso ser, emigrado,
alcançará
um estado mais perfeito ou mais imperfeito, segundo os méritos da nossa própria vida,
segundo tenha sido de triunfal a sua luta contra os anseios e as paixões.
A doutrina de Buda desenvolveu-se com força na Índia e fora dela, mas, pouco a pouco, a
sua
implantaçã o no território onde nasceu foi perdendo força, mudando-se com mais vigor
para o
outro lado dos confins do norte, no reduto inacessível do Tibete, e atravessando mais tarde
para o este, chegando à península da Indochina, à China, Mongólia, Coréia e Japã o, para
ficar
definitivamente assentada no Extremo Oriente. Também com o decurso do tempo, a
doutrina
simples e quase ateia de Buda se foi enriquecendo com elementos alheios, dando ao asceta
Buda uma dimensã o divina da qual ele teria fugido envergonhado e confuso, e pondo
junto
dele toda uma corte de deuses tradicionais, até fazer crescer da mera idéia filosófica da
renúncia todo um bosque de personagens mitológicos, onde permaneciam parte do Brama
original e, sobretudo, do Indra do culto védico, agora reduzidos a pessoas santas do
budismo e
transformados até no seu aspecto, com Indra batizado Sacra, à frente de uma ordem
celestial
de trinta e trê s deuses, à espera de receber a ordem de Buda para ir em sua ajuda com o
vayra
sagrado, para lutar a seu lado contra Mara, o novo demô nio da tentaçã o, o rei dos
prazeres.
Este Mara, que reina na Terra, no Inferno e nos seis andares inferiores do Céu, tem sob as
suas ordens um exército de demô nios e serve-se das suas trê s filhas, Sede, Desejo e
Prazer,
como avançadas do seu mundo de pecado. O príncipe iluminado, vencido pela necessidade
de
uma religiã o que se adaptasse à tradiçã o indiana, transformou-se num deus múltiplo no
tempo,
no protótipo da transmigraçã o incessante, numa pessoa divina que tinha vivido em muitas
ocasiões, como se o personagem sagrado se tivesse encharcado também da essê ncia de
Visnú
e das suas circunstâncias, num deus que operava milagrosamente e que se multiplicava na
Terra em outros seres humanos, dado que, mediante o exato cumprimento da sua doutrina,
ia
dando lugar ao nascimento de inumeráveis Bodhisattvas, daqueles humanos santificados
que
iriam progredindo no caminho da transmigraçã o, até chegarem a ser também outro novo
Buda
numa futura reencarnaçã o, quando os seus méritos acumulados assim os recompensassem
com a divindade.
Também se viram desde os Veda os antigos Gandharva, mas agora a cargo da música do
Céu,
e fizeram-no como auxiliares de um dos quatro Lokapalas, os soberanos dos quatro rumos.
Estes Lokapalas estã o a cargo dos pontos cardeais: no Norte está Kubera, com os também
tradicionais Yaksas, os antigos auxiliares de Siva; no Este Dhritarastra, governando sobre
os
Gandharva; no Sul está Virudhaka, senhor dos pequenos gê nios anões; no Oeste o senhor
é
Virupksa, com as suas serpentes aquáticas Nasa, donas da chuva. Junto dos demô nios de
Mara e das suas filhas, que conhecem as trinta e duas magias das mulheres e as sessenta e
quatro dos desejos, há outras criaturas infernais, desde os desgraçados espíritos emigrantes
Pretas, míseras almas penadas, ao legendário Davadatta, o primo de Buda e traidor,
passando
por Hariti, a deusa da doença negra, da varíola, mã e de quinhentos demô nios, que foi
transformada numa mulher bondosa por Buda, ao ver o amor que sentia pelos seus filhos.
Com estes e muitos mais deuses, o asséptico corpo primigê nio do ascetismo budista foi-se
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enchendo de personagens locais, cobertos de atributos e também de ornamentos e, ainda
mais,
se foi tornando mais e mais barroco à medida em que, nos diferentes lugares da Á sia, se ia
apropriando de divindades locais para o seu novo panteã o, como é o caso dos mais
representativos Bodhisattvas, Mitreya, Manjusri e Tara (que tinha sido deusa da energia na
Índia e passa a ser encarnaçã o de Buda) no Tibete, ou a multidã o de divindades
existentes
associadas a Buda ou aos Bodhisattvas na China e Japã o. Buda, o asceta histórico
original,
esvai-se perante a série de Buddahs que já alcançaram o Nirvana, o repouso eterno, e ele
só é
o Gautama ou o Sakiamuni, e nã o haverá mais até chegar o Mitreya do último tempo,
enquanto uma nova família de Buddahs celestes reina num também novo e heterodoxo
Paraíso encravado no mais elevado. Finalmente, o budismo doutrinal evoluiu,
transformando
a sua essê ncia tanto como o seu aspecto formal, e do metta da serenidade chegou-se ao
bhakti
da sensibilidade e do amor, para que no karma também se inscrevam a renúncia e os
sacrifícios, abrindo-se o ser humano, da individualidade primigénia do budismo até chegar
à
doutrina da necessidade de transferir a graça alcançada por um mesmo para os outros, para
o
próximo.
Quase mil anos depois de Buddah, na mesma época em que nasce o hinduísmo, Nataputta
ou
Vardhamana, alcunhado Mahavira (o Grande) e Jina (Vencedor), funda o Janismo. Em
efeito,
era filho de uma personalidade, mas aos trinta anos morreram os seus pais e esse
acontecimento levou-o a repartir as suas riquezas e sair à procura da verdade numa longa
peregrinaçã o que desembocou numa rebeliã o religiosa contra o bramanismo. O Janismo
é
uma religiã o sem deuses e que procura alcançar na transmigraçã o a paz do espírito, nas
suas
duas vertentes; digambara e svetambara, a nudez total ou hábito branco. O janista leva vida
eremita, com a esmola como simples forma de supervivê ncia e o respeito extremo a
qualquer
ser vivo, com um especial ê nfase na proteçã o dos animais, para alcançar a liberdade pelo
triratna: conhecimento, fé e virtude. A fé alcança-se com a leitura dos Agamas do
Mahavira; a
virtude exige nã o matar, nã o roubar, nã o mentir, a castidade e a renúncia total. Para o
janismo,
o Universo divide-se em duas partes: uma material, sem vida (adjiva) e outra viva (atman),
que se liberta da matéria pelo dharma das suas obras e fica apanhada no karma das suas
faltas,
no seu caminho para a perfeiçã o do siddha, o nirvana janista.
O sincretismo sij foi fundado pelo guru Nanak nos finais do século XV, procurando a uniã
o
de hinduísmo e Islã . O guru Arjam escreveu em gurmuji, em pujabi, o que seria depois o
texto
sagrado do Adigrant, recompilando os ensinos de Nanak sobre um único deus e um mundo
sem castas, no qual as almas conhecem a reencarnaçã o em virtude da perfeiçã o e da
pureza
que tenham sabido conseguir na sua vida anterior. E assim se reencarna o guru Nanak nos
sucessivos gurus que governam o culto sij. A obra de Arjam foi escrita, precisamente, numa
época de perseguiçã o muçulmana, o que levou este grupo religioso punjabi a transformar-
se
em temíveis guerreiros. À parte da humildade e da sinceridade, a alimentaçã o omnívora
(perante o vegetarianismo hindu e os alimentos proibidos dos muçulmanos) e rejeitar a
divisã o em castas, os sijs distinguem-se pelos seus turbantes e pela obrigaçã o de
conservar
sempre o seu cabelo.
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MITOLOGIAS PRÉ -COLOMBIANAS

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IJKLMNOPQ
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As religiões da América pré-colombiana, à época do descobrimento, variavam desde
formas
animistas primitivas, com cultos estreitamente ligados à natureza, até sofisticados
panteões
mitológicos que, nos casos mais avançados -- impérios asteca e inca --encontravam-se
provavelmente próximos do monoteísmo. A evoluçã o maior ocorreu fundamentalmente
em
duas grandes regiões culturais -- América Central, o México inclusive, e regiões andinas
--,
cujas sucessivas civilizações tenderam a integrar de maneira sincrética, em novos
sistemas, os
deuses e concepções religiosas preexistentes. Cabe notar, no entanto, que povos da
América
do Norte e outras regiões sul-americanas criaram mitologias próprias originais.
No que se refere ao México e à América Central, as manifestações religiosas arcaicas
adquiriram firmeza nos panteões das grandes culturas teocráticas -- dirigidas por
sacerdotes
que controlavam os calendários e os ritos -- do horizonte clássico e especialmente no
centro
sagrado de Teotihuacan, que, entre os séculos I e VI d.C., difundiu por toda a regiã o o
culto
ao deus civilizador Quetzalcóatl, criador do homem. No século VII, a chegada dos toltecas
--
povo guerreiro cujo sanguinário deus Tezcatlipoca, o Sol noturno, expulsou Quetzalcóatl,
segundo conta a lenda -- provocou a destruiçã o de Teotihuacan.
Sua cultura, no entanto, perdurou em grande parte na civilizaçã o maia do Yucatán, que
sofreu também o influxo de grupos toltecas fiéis a Quetzalcóatl, conhecido pelos maias
com o
nome de Kuculkán. Outras importantes divindades maias eram Itzamná, senhor dos deuses
e
filho do primeiro criador Hunab-Ku; e Chac, deus da chuva equivalente ao Tlátoc asteca. O
texto sagrado em língua quiche Popol-Vuh constitui uma fonte de inapreciável valor sobre
a
mitologia maia, cuja variedade se ampliava ainda mais ao se desdobrar cada divindade em
quatro figuras relacionadas aos pontos cardeais.
A integraçã o das culturas anteriores conferiu extraordinária riqueza à mitologia asteca,
correspondente a um regime teocrático dominado pela figura do rei em que as concepções
guerreiras, políticas e religiosas formavam um todo unitário. A cosmogonia asteca, de
caráter
fatalista, considerava que o mundo se achava em seu quinto estado, após a destruiçã o dos
quatro anteriores, crença que fundamentava, a prática de sacrifícios humanos, cujo
propósito
era proporcionar sangue ao Sol para que sua luz nã o se apagasse. Veneravam-se
popularmente
inúmeros deuses menores, com o objetivo de alcançar sua proteçã o frente aos desastres
naturais. As trê s divindades principais do panteã o eram Quetzalcóatl, Tezcatlipoca,
protetor
dos jovens guerreiros e feiticeiros, e Huitzilipochtli, o Sol diurno, deus supremo das antigas
tribos astecas, senhor da guerra e adorado também pelos camponeses como protetor das
colheitas. Além deles, existiam divindades próprias das diversas classes sociais e
profissões, e
outras que encarnavam forças cosmogô nicas, embora se tenha observado que durante o
século
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XV começaram a se desenvolver algumas tendê ncias dualistas e, em menor medida,
monoteístas.
As civilizações andinas também desenvolveram complexos sistemas religiosos, embora
seus panteões mitológicos nã o tenham alcançado a multiformidade dos da América
Central.
As manifestações artísticas de culturas que floresceram durante o primeiro milê nio antes
da
era cristã , entre elas a de Chavín, com suas representações de animais totê micos e
grotescas
figuras antropomórficas, mostravam já acentuados traços de elementos religiosos e
simbólicos
associados a cultos da natureza que seriam depurados por civilizações posteriores, como as
de
Huari e Tiahuanaco, esta última centro de um importante movimento religioso.
A religiã o inca, estatal e teocrática, divinizava o imperador como "filho do Sol". Soube,
no entanto, assimilar as divindades e crenças dos povos conquistados para assegurar a
unidade
política do império, o que explica a convivê ncia de ritos populares junto da religiã o
oficial
encarnada pelo panteã o inca.

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32
O SEGREDO DOS ASTECAS
Pedra do Sol: o monólito mais célebre da civilização
Assim como os seus antecessores incas, os astecas fascinam a arqueologia e despertam
suposições em torno do seu desaparecimento. Comunidade marcada pelo trabalho e pelas
crenças religiosas, os astecas habitavam a regiã o de Astlán, a noroeste do México.
Sucessores
diretos da linhagem dos toltecas, os astecas inicialmente formavam uma pequena tribo de
caçadores e coletores que, em 1325, se deslocou em direçã o à zona central mexicana e
desenvolveu uma agricultura moderna e de subsistê ncia. Entre as invenções dos astecas,
constam a irrigaçã o da terra e a construçã o dos "jardins flutuantes" - cultivo de vegetais
em
terrenos retirados do fundo dos lagos. A construçã o das chinampas (nome dado a esses
jardins) era feita nos lugares mais rasos dos lagos. Os astecas demarcavam o local das
futuras
chinampas com estacas e juncos, enchiam-nos com lodo extraído do fundo do lago e
misturavam com um tipo de vegetaçã o aquática que flutuava no lago. Esta vegetaçã o
formava
uma massa espessa sobre a qual se podia caminhar. Estas tecnologias foram essenciais para
a
fundaçã o e sobrevivê ncia de Tenochtitlán.
Tenochtitlán, capital do império asteca, era bela e bem maior que qualquer cidade da
Europa
na época. Esta metrópole teve seu apogeu de 400-700 d.C. Com suas enormes pirâmides
do
Sol e da Lua (63 e 43m de altura, respectivamente), sua Avenida dos Mortos (1.700m de
comprimento, seus templos de deuses agrários e da Serpente Plumada, suas máscaras de
pedra
dura, sua magnífica cerâmica, ela parece ter sido uma metrópole teocrática e pacífica, cuja
influê ncia se irradiou até a Guatemala.
Sua aristocracia sacerdotal era sem dúvida originária da zona dos Olmecas e de El Tajín,
enquanto a populaçã o camponesa devia ser composta por indígenas Otomis e outras tribos
rústicas. A religiã o compreendia o culto do deus da água e da chuva (Tlaloc), da serpente
plumada (Quetzalcoatl) símbolo da fecundidade agrária e da deusa da água
(Chalchiuhtlicue).
Acreditavam na vida após a morte, em um paraíso onde os bem-aventurados cantariam sua
felicidade resguadardos por Tlaloc.
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Ascensão e derrocada
O império inca foi construído em apenas um século (XIV). A derrocada veio tã o
rapidamente
quanto a sua ascensã o. Em nome da Igreja Católica e da Monarquia do Velho Mundo, os
conquistadores espanhóis Hernández de Córdoba, Grijalva e Hernán Cortés, chegaram em
1517 no México, conquistaram e destruíram a civilizaçã o Asteca, erguendo sobre as
ruínas do
templo de seu deus mais importante, uma catedral cristã . A prisã o do Príncipe
Montezuma e
sua submissã o direta a Hernán Cortés e Fernán Pizarro. Humilhado e submetido aos
favores
dos espanhóis, Montezuma foi decepado.
Por incrível que possa parecer, a civilizaçã o asteca simplesmente desapareceu. Várias sã
o as
hipóteses para sua "fuga". Uma delas alega que o massacre dos astecas teria impelido os
membros da civilizaçã o a debandarem para a Floresta da América Central. Outra
hipótese,
coadunada por ufólogos e fanáticos em discos voadores, afirma que os astecas eram seres
extraterrestres ou produtos híbridos, que teriam retornado aos seus planetas de origem,
assim
que a missã o tivesse sido concretizada. Poucos indícios revelam o paradeiro desse povo
misterioso. Entretanto, por volta de 1988 uma equipe de reportagem de uma TV de El
Salvador encontrou um achado um tanto desconcertante. Incrustadas na parede de um
templo
estavam escritas, em náuatle (língua tradiocional dos astecas), as palavras: "Nós
voltaremos
no dia 24 de dezembro de 2.010".
A Arte Asteca
As ruínas astecas indicam muito mais grandeza do que qualidade. Sua arquitetura era
menos
refinada que a dos maias. Milhares de artesã os trabalhavam continuamente para construir
e
manter os templos e palácios. Pequenos templos se elevavam no topo de altas pirâmides de
terra e pedra, com escadaria levando aos seus portais. Imagens de pedra dos deuses, em
geral
de forma monstruosa, e relevos com desenhos simbólicos, eram colocados nos templos e
nas
praças.
A mais famosa escultura asteca é a Pedra do Sol, erradamente conhecida como Calendário
de
Pedra Asteca. Está no Museu Nacional de Antropologia da Cidade do México. Com 3,7 m
de
diâmetro, a pedra tem no centro a imagem do deus sol, mostrando os dias da semana asteca
e
versões astecas da história mundial, além de mitos e profecias.
Os astecas eram artesã os hábeis. Tingiam algodã o, faziam cerâmica e ornamentos de
ouro e
prata e esculpiam muitas jóias finas em jade.
Cultura e Religião de um povo místico
Dezoito deuses. O politeísmo dos astecas estava configurado na crença em divindades
representativas para cada uma das funções. Acreditavam em um deus que monitorava o
vento,
outro que monitorava o sol, outro que cuidava das plantações e assim por diante. A religiã
oe
o Estado estavam tã o unidos na sociedade asteca que as leis civis tinham por trás de si a
força
da crença religiosa. Quando entravam em guerra, os astecas lutavam nã o só por vantagens
políticas e econô micas, como também pela captura de prisioneiros. Estes eram
sacrificados
aos muitos deuses. A mais importante forma de sacrifício consistia em arrancar o coraçã o
da
vítima com uma faca feita de obsidiana, ou vidro vulcânico. À s vezes, os sacerdotes e
guerreiros comiam a carne da vítima.
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Huitzilopochtli, a divindade asteca favorita, era o deus da
guerra e do sol. Exigia o sacrifício de sangue e de corações
humanos para que o sol nascesse a cada manhã . Outros
deuses importantes eram Tlatoc, da chuva; Tezcatlipoca, "o
espelho fumegante", do vento; e Quetzalcoatl, "a serpente de
plumas", deus do conhecimento e do sacerdócio. Segundo as
lendas astecas, Quetzalcoatl havia atravessado o mar
velejando, mas um dia voltaria. Os deuses exigiam
cerimô nias especiais, orações e sacrifícios a intervalos
determinados ao longo do ano e em ocasiões especiais.
Após as guerras, o mais bravo dos prisioneiros era
sacrificado. Para isso, caminhava até o altar do templo
tocando uma flauta e acompanhado de belas mulheres.
NOME DO DEUS REPRESENTAÇ ÃO COMENTÁ RIOS
CENTEOTL Deus com chifre
COATLICUE "Mulher-serpente"
EHECATL Deus do vento
HUEHUETEOTL Deus do fogo Considerado o deus mais
antigo da Mesoamérica
HUITZILOPOCHTLI Deus da guerra/Sol Principal guardiã o da metrópole
asteca de Tenochtitlan
MICTLANTECUHTLE Deus da morte
OMETECUHLTI Criador da vida na Terra Sua esposa era OMECIHUATL
QUETZALCOATL "Serpente-Plumada" - deus da
civilizaç ã o e aprendizado
Um dos mais significativos
deuses astecas. Representa
a forç a da natureza.
TEZCATLIPOCA
Deus da noite e da magia Deus supremo. Associado
também com o destino dos
homens e com a realeza.
TLALOC Deus da chuva e da tempestade Outro dos deuses mais
cultuados no Antigo México
TONATIUH Sol Considerado como primeira
fonte de vida
TONANTZIN A Terra, a "honorável avó"
XILONEN "Jovem espiga-de-milho" Associado com o governo
CHICOMECOATL "Sete serpentes" Associado com o governo
XIPE TOTEC Deus da primavera e do replantio
XIUHTECUHTLE Deus do fogo
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35
Histó ria e cultura do povo do Sol
O Homem de Jade, uma das misteriosas relíquias dos astecas
Os astecas, de acordo com sua própria história lendária, surgiram de sete cavernas a
noroeste
da Cidade do México. Na verdade, esta lenda diz respeito apenas aos tenochca, um dos
grupos
astecas. Esta tribo dominou o Vale do México e fundou Tenoochtitlán, que se tornaria a
capital do império asteca, por volta do ano 1325 d.C. Conta a lenda que o deus
Huitzilopochtli
conduziu o povo a uma ilha no Lago Texcoco. Ali viram uma águia, empoleirada num
cacto,
comendo uma serpente. Segundo uma profeciam, este seria o sinal divino para o local da
construçã o de sua cidade.
Os tenochca começaram com um pequeno templo e logo tornaram-se os líderes da grande
naçã o asteca. A primeira parte da história asteca é lendária. Mas o resultado das
escavações
arqueológicas e os livros astecas servem de base para um relato histórico verídico. A
história
possui um registro bastante autê ntico da linhagem dos reis astecas, desde Acamapichtli,
em
1375, a Montezuma II, que era o imperador quando Hernán Cortés entrou na capital asteca
em
1519.
Montezuma de início acolheu os espanhóis, mas depois conspirou contra eles. Cortés entã
o
aprisionou o imperador. Os astecas rebelaram-se contra os invasores e Montezuma foi
morto
no levante. Cortés, com quase mil soldados espanhóis e a ajuda de milhares de aliados
indígenas (tribos inimigas dos astecas), finalmente conquistou os astecas em 1521. Sua
vitória
foi fácil. Enqüanto os espanhóis possuíam armas de fogo, cavalos e armas de ferro, os
astecas
praticamente lutavam com as mã os. Outro fator que propiciou o domínio por parte dos
espanhóis foi crença, evidentemente equivocada, de que os espanhóis seriam na verdade o
deus Quetzalcoatl e seus seguidores, regressando, como rezava a lenda.
O império asteca caiu imediatamente após a conquista. As doenças européias terminaram
por
assolar a populaçã o e dizimar milhares de pessoas. Os espanhóis arrasaram
completamente o
centro cerimonial de Tenochtitlán e usaram a área para seus prédios públicos. Derrubaram
templos astecas e erigiram igrejas católicas.
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Cotidiano
A maioria dos astecas vivia como os índios de hoje, nas mais remotas aldeias do México. A
família morava numa casa simples, feita de adobe ou pau-a-pique e coberta de sapê . O pai
trabalhava nos campos com os filhos mais velhos. A mã e cuidava da casa e treinava as
filhas
nos afazeres domésticos. As mulheres passavam a maior parte do tempo moendo milho
numa
pedra chata, a metate, e fazendo bolos sem fermento, as tortillas. Também fiavam e teciam.
Os alimentos preferidos eram a pimenta, o milho e o feijã o - que produziam em larga
escala
para consumo. As roupas eram feitas de algodã o ou de fibras das folhas de sisal. Os
homens
usavam tanga, capa e sandálias. As mulheres trajavam saias e blusas sem mangas.
Desenhos
coloridos nas roupas revelavam a posiçã o social de cada asteca. Os chefes de aldeia
usavam
uma manta branca e os embaixadores carregavam um leque. Em geral, os sacerdotes se
vestiam de negro.
Educação
Os sacerdotes tinham controle total sobre a educaçã o. O império asteca era provido de
escolas
especiais, as calmecas, que treinavam os meninos e meninas para as tarefas religiosas
oficiais.
As escolas para as crianças menos disciplinadas eram chamadas de telpuchcalli, ou "casas
da
juventude", onde elas aprendiam história, tradições astecas, artesanatos e normas
religiosas.
Os astecas registravam os acontecimentos mais importantes em livros feitos de papel
preparados com folhas de sisal. Estes livros eram enrolados como pergaminhos ou
dobrados
como mapas. Os astecas nã o possuíam um alfabeto. Criaram uma espécie de escrita em
logogrifo, usando imagens e caracteres simbólicos.
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INCAS - Misticismo e fé
Rodrigo Craveiro
Conta a história que os primeiros incas surgiram em forma de duas lendas bem conhecidas.
A
primeira dizia que Tayta Inti ou o Pai Sol, observando o caos e a perdiçã o que
prevaleciam na
Terra, decidiu enviar ao planeta duas crianças, com o objetivo de estabelecer a ordem. Elas
surgiram as águas do Titicaca, o lago mais alto do mundo, e carregavam uma espécie de
estátua dourada, presente de seus pais. O nome do primeiro inca era Manko Qhapaq; sua
irmã
era Mama Oqllo.
De acordo com a tradiçã o, a estátua foi enterrada na montanha Wanakauri, a sudeste de
Cuzco. A interpretaçã o desta lenda tem um suporte favorável, já que sugere que Manko
Qhapaq representa uma naçã o inteira do povo Tiawanako. Eles viveram na regiã o de
Titicaca
e eram conhecidos por suas terras férteis. Ainda assim, os Tiawanako foram surpreendidos
pela superpopulaçã o e pela escassez de alimentos, o que os obrigou a bater em retirada
rumo a
uma terra mais promissora. Sabe-se também que a possível capital do Estado de Tiawanako
era Taypiqala, que teria sido destruída pelos guerreiros Aymara, vindos do sul do Peru. As
invasões obrigaram o povo Tiawanako a fugir em direçã o ao vale de Cuzco. Já foi
provado
que os Tiawanako tiveram uma participaçã o decisiva na formaçã o de Tawantinsuyo, o
Estado
que abriga Cuzco.
A segunda lenda é conhecida como "Irmã os Ayar" e indica que, de trê s janelas da
montanha
Tamput'oqo (a 25 kms de Cuzco) teriam saído quatro irmã os. Eram eles: Ayar Manko
(Manko
Qhapaq), Ayar-Kachi, Ayar-Auka e Ayar-Uchu. Cada um deles trouxe sua esposa. Eles
caminharam até Cuzco, onde apenas as mulheres e Manko Qhapaq fundaram a cidade, em
nome de Teqsi Wiraqocha e do Sol.
Organização Política
É incontestável que o estado inca teve uma organizaçã o social e política peculiar. Seu
chefe
de Estado era o Inka ou Sapan Inka, também conhecido como Sapan Intiq Churin ("O
Único
Filho do Sol"), que tinha uma esposa com o nome de Qoya. De um modo mais
compreensível,
pode-se dizer que o nome "Inka" equivale a "Rei"; e "Qoya" significa "Rainha". De acordo
com a tradiçã o andina, tanto Inka quanto Qoya eram descendentes diretos do Deus Sol.
Para
perpetuar sua linhagem divina, o Inka era obrigado a casar com sua irmã . O "Sapan Inka"
também tinha um número limitado de concubinas e filhos. A tradiçã o conta que Wayna
Qhapaq tinha mais de 400 crianças. Este privilégio era dado somente para o Inka.
O Inka era o chefe religioso e político de todo o Tawantinsuyo. Ele praticava a soberania
suprema. Pesava o fato de que o Inka era venerado como um deus vivo, pois era
considerado
o Filho do Sol. Seus súditos seguiam suas ordens com total submissã o. Aqueles que
conviviam com ele se humilhavam em sua presença, em ato de extrema reverê ncia.
Apenas o
mais nobre homem da linhagem Inka podia dirigir a palavra ao Inka e repassar as
informações
aos outros súditos. Algumas das mulheres do Império Inca coletavam cabelo e saliva do
Rei,
como forma de se protegerem de maldições. Ele era carregado em uma maca dourada e
suas
roupas eram feitas de pele de vicunha da mais alta qualidade. Somente ele usava o
simbólico
Maskaypacha ou uma insígnia real, espécie de cordã o multicolorido. Grandes adornos
dourados pendiam de suas orelhas, o que acabava por deformá-las. O imperador inca usava
ainda uma túnica que ia até os joelhos, um manto banhado a esmeralda e turquesa,
braceletes
e joelheiras douradas e uma medalha peitoral que trazia impresso o símbolo do Império
Inca.
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Os historiadores ainda nã o chegaram a um consenso sobre o número exato de incas que
governaram Tawantinsuyo desde sua fundaçã o. Alguns cronistas sugerem que eles fossem
14
ao todo, outros apostam no quantitativo de número 13. A tradiçã o reconhece os primeiros
oito
reis, de Manko Qhapaq até Wiraqocha, como os Inka místicos. Até a chegada dos
conquistadores espanhóis, cinco reis governaram um dos impérios mais misteriosos e
fascinantes de toda a história.
Pachakuteq governou de 1438 a 1471 e foi sucedido por Tupaq Inka Yupanqui, que ficou no
poder de 1471 a 1493. Depois, seguiram no reinado Wayna Qhapaq (1493-1527), Waskar
(1525-1532) e finalmente Atawallpa (1527-1533). A dinastia inca nã o acabou com a
chegada
dos espanhóis invasores, mas abriu caminho para o surgimento da naçã o Quéchua.
Movido
por interesses diplomáticos, Pizarro nominou Toparpa ou Tupaq Wallpa como o novo Inka,
envenenado quando viajava até Cuzco. Mais tarde, o direito ao trono foi oferecido a
Manko
Inka ou Manko II,outro filho de Wayna Qhapaq que, em 1536, começou uma longa guerra
para retomar o comando de Tawantinsuyo. Ele acabou sendo assassinado por dois
seguidores
do conquistador espanhol Almagro e foi substituído pelo filho, Sayri Tupaq, que morrem
em
Yucay, após traiçã o dos conquistadores. Titu Kusi Yupanqui, irmã o de Sayri Tupaq, foi
denominado novo Inka. Sua primeira açã o no poder foi se dirigir até Vilcabamba, com o
objetivo de continuar a guerra. Vitimado por uma doença, Titu Kusi morreu e foi sucedido
pelo irmã o Tupaq Amaru. Mas Amaru foi seqüestrado pelo capitã o espanhol Martin
Garcia
Oñas, que acabou se casando com a sobrinha de Amaru. Tupaq Amaru foi levado até
Cuzco e
executado em praça pública. Era o ano de 24 de setembro de 1572 e o conquistador
Viceroy
Francisco de Toledo se regozijava diante da execuçã o sumária. Após 36 anos de guerra,
os
conquistadores do Velho Mundo adquiriam todos os direitos sobre a terra sagrada dos incas.
Os Deuses dos Incas
VIRACOCHA: (Ilha Viracocha Pachayachachi), (Esplendor originário, Senhor, mestre do
mundo), foi a primeira divindade dos antigos Tiahuanacos, proveniente do Lago Titicaca.
Como o seu homô nimo Quetzalcoatl, surgiu da água, criou o céu e a Terra e a primeira
geraçã o de gigantes que viviam na obscuridade. O culto do Deus criador supunha um
conceito
intelectual e abstrato, que estava limitado à nobreza. Semelhante ao Deus Nórdico Odín,
Viracocha foi um deus nô made, e como aquele, tinha um companheiro alado, o condor
Inti,
grande profeta.
INTI: (o Sol), chamado "Servo de Viracocha", exercia a soberania no plano superior ou
divino, do mesmo modo que um intermediário, o Imperador, chamado "Filho de Inti",
reinava
sobre os homens. Inti era a divinidade popular mais importante: era adorado em muitos
santuários pelo povo inca, que lhe rendiam oferendas de ouro, prata e as chamadas virgens
do
Sol.
MAMA QUILLA: (Mã e Lua), Esposa do Sol e mã e do firmamento, dela se tinha uma
estátua
no templo do Sol. Essa imagem era adorada por uma ordem de sacerdotisas, que se
espalhava
por toda a costa peruana.
PACHA MAMA: "A Mã e Terra", tinha um culto muito idolatrado por todo o império,
pois
era a encarregada de propiciar a fertilidade nos campos.
MAMA SARA: (Mã e do Milho).
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MAMA COCHA: (Mã e do Mar)
As lendas incas
A Primeira Criaç ão: "Caminhava pelas imensas e desertas pampas da planície,
Viracocha
Pachayachachi, 'o criador das cosas', depois de haver criado o mundo em um primeiro
ensaio
(sem luz, sem sol e sem estrelas). Mas quando viu que os gigantes eram muito maiores que
ele, disse: - Nã o é conveniente criar seres de tais dimensões; parece-me melhor que
tenham
minha própria estatura! Assim Viracocha criou os homens, seguindo suas próprias
medidas,
tal como sã o hoje em dia, mas aqueles viviam na obscuridade".
A Maldiç ão: Viracocha ordenou aos hombres que vivessem em paz, ordem e respeito.
Entretanto, os homens se rendeream à vida ruim, aos excessos, e foi assim que Deus
criador
os maldisse. E Viracocha os transformou em pedras ou animais, alguns caíram enterrados
na
Terra, outros foram absorvidos pelas águas. Finalmente, despejou sobre os homens um
dilúvio, no qual todos pereceram.
A Segunda Criaç ão: Somente trê s homens restaram com vida, e com o objetivo de
ajudar
Viracocha em sua nova criaçã o. Assim que o dilúvio passara, "o mestre do mundo"
decidiu
dotar a Terra com luz e foi assim que ordenou que o sol e a lua brilhassem. A lua e as
estrelas
ocuparam seu ligar no vasto firmamento.
Religião
Como muitos outros elementos da cultura andina, a religiã o dos incas é um produto da
convivê ncia milenar do homem com a natureza. Em síntese, é uma religiã o que o
homem nã o
pode explicar, demonstrar ou dominar, pois trabalha como fenô menos ou poderes
superiores
incontroláveis. Dessa forma, uma serpente que com uma picada conseguisse causar
convulsões e morte em um homem era considerada sagrada. Um puma, o mais poderoso
animal da fauna andina, era considerado como deus pelos incas.
Os trovões e raios que causavam fogo e destruiçã o também eram venerados. Dúzias de
outros
elementos andinos tinham características de divindades.
A religiã o é definida como a uniã o dos valores e crenças morais, que seguem uma
conduta
social individual. De qualquer modo, a prática de rituais coloca o homem em contato com
o
divino. Segundo informações baseadas em arqueologia e fatos históricos, os altos
sacerdotes
incas reuniam-se anualmente em um templo de Huayna Picchu. Ali, eles ofereciam a
ayahuasca - uma bebida feita da decocçã o de duas plantas amazô nicas - a uma jovem
virgem.
Tomavam da poçã o mágica e evocavam os espíritos da natureza. A virgem era sacrificada
e
seu sangue derramado no altar, uma forma de devoçã o ao Deus Sol. As próprias virgens
se
sentiam honradas em serem escolhidas para o ritual.
Como conseqüê ncia de sua divisã o social, havia na sociedade inca uma cosmovisã o
privada
para a nobreza e outra para o povo plebeu. Os templos incas sempre permaneciam
protegidos
e trancados. Em termos gerais, considerava-se que todos estavam subordinados a uma
entidade invisível, eterna e onipotente, que recebera o nome de Wiraqocha. Alguns
historiadores afirmam que o nome real desse deus era Apu Kon Titi Wiraqocha ou talvez
Illa
Teqsi Wiraqocha. Alguns estudantes peruanos acreditam na probabilidade de que este
mesmo
deus era identificado pelos nomes de Pachakamaq e Tonapa.
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Visão cosmopolita do Universo
O deus Wiraqocha estava acima dos trê s mundos da cosmovisã o peruana. Os incas
acreditavam na existê ncia do Hanan Pacha, um mundo no espaço sideral e chamavam de
Kay
Pacha a superfície da Terra. Eles afirmavam ainda que o Ukhu Pacha era um mundo situado
abaixo do solo, uma espécie de inferno. O Inka era considerado como o Sapan Intiq Churin
ou
o "Único Filho do Sol". Esta era a principal razã o para que cada cidade ou vilarejo inca
tivesse templos dedicados ao seu culto. O mais importante templo - todo banhado a ouro -
era
o Qorikancha. Na religiã o quéchua, considerava-se que a Lua era uma deidade feminina,
identificada com a prata e esposa do Deus Sol. O mais importante sacerdote na sociedade
inca
era o Willaq Uma. Em condições normais, o cargo de Willaq Uma era ocupado pelo irmã o
ou
o tio do Rei.
Um estudo de Luis E. Valcarcel indca que todos os deuses, menos Wiraqocha, surgiram do
Hanan Pacha. Ali também estariam os espíritos de incas nobres também. Daquele mundo,
teriam vindo os incas, como crianças do Sol. Dois seres mitológicos estabeleceram uma
comunicaçã o regular entre os diferentes mundos; do Ukhu Pacha saiu todo o mundo
terrestre -
ou Kay Pacha - e eram projetados através do Hanan Pacha. Daí se vê um pouco da relaçã
o
com o catolicismo. Os católicos acreditam que após a morte, o espírito vá para o céu.
Esses
seres mitológicos ou espirituais eram representados na forma de duas serpentes: Yakumama
(mã e d'água), que ao chegar à Terra fora transformada em um grande rio e teria voltado
ao
mundo sob a forma de um raio. A outra cobra era Sach'amama (Mã e Á rvore), que tinha
duas
cabeças e caminhava verticalmente, com a aparê ncia de uma "velha árvore". Ao chegar ao
mundo celestial, Sach'amama foi transformada em um K'uychi (arco-íris), que era
relacionado
com a fertilidade.
A Terra ou a Mã e Terra, conhecida como Pachamama, ainda é objeto de cultuaçã o em
todas
as montanhas andinas. As estrelas também ocuparam um lugar preponderante na religiã o
préhispânica.
Muitas estrelas e constelações, tais como a estrela Ch'aska ou Vê nus, ou a
constelaçã o Pleíades tinham características divinas. Atualmente, alguns seguidores da
religiã o
inca ainda usam algumas constelações para a previsã o do futuro: de acordo com o brilho
das
estrelas, é possível saber se o próximo ano será repleto de chuvas, prosperidade, alegria
ou
desastres.
Muitos historiadores indicam que Waka ou Guaca era um santuário usado para a veneraçã
o de
deuses regionais ou locais. Considerava-se que a vida de uma pessoa ou uma dinastia
pudesse
emergir de um rio, uma montanha, um pássaro ou um puma. Quem nascia dos rios era
denominado de Crags; quem provinha das montanhas, era chamado de Orkjo. A arte de
embalsamamento teve grande desenvolvimento no Peru pré-hispânico. Toda a pessoas que
morria era mumificada, nã o importasse a qual classe social pertencia. A única diferença
era
que as múmias das pessoas comuns eram depositadas nos cemitérios; enqüanto que as
múmias dos nobres eram reservadas em Wakas (templos). As Mallki (múmias) eram
objetos
de adoraçã o e serviam comunidades inteiras como se estivessem vivas. Outro elemento
importante na religiã o inca eram os Wayke, ídolos ou representações de pessoas nobres,
esculpidos em metais e geralmente em tamanho natural. Restos de intestinos dos falecidos
parentes eram colocados em uma caixa e depositados no peito da estátua. Os metais nã o
tinham qualquer valor econô mico na sociedade inca; apenas valores cerimoniais.
Há referê ncias de que a sociedade inca praticava orações, abstinê ncia sexual e
festividades, e
entendia o conceito de pecado. As casas de família tinham amuletos que buscavam trazer
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prosperidade e boa sorte. Chamados de Wasiqamayoq ou Ulti, eram esculpidos em pedra e
tinham diferentes formas e cores. Normalmente tinham formas de concha, onde as pessoas
colocavam vinho ou ayahuasca durante as cerimô nias chamadas de "haywarisqa" (cerimô
nia
de oferendas).
Oferendas e sacrifícios
As oferendas consistiam em diferentes elementos, como comida, ayahuasca, Aqha (bebida
alcoólica fermentada a partir do milho), lhamas e porcos. As oferendas líquidas eram
colocadas em fontes chamadas de Phaqcha, e a ayahuasca e o sangue de animais eram
irrigados no templo, como sacrifício. Os animais eram sacrificados para que se buscasse
prever o futuro pelo estudo de suas vísceras, coraçã o, pulmões e outros órgã os. Alguns
historiadores espanhóis - normalmente padres católicos - escreveram que em
circunstâncias
especiais sacrifícios de crianças eram praticados (estudiosos peruanos alegam que essa
posiçã o da Igreja Católica visava atenuar as atrocidades cometidas pelos conquistadores
espanhóis, em nome do Cristianismo). O padre Vasco de Contreras y Valverde, usando de
diversos documentos em 1649, assegurou que quando o Wayna Qhapaq morreu "seu corpo
foi
trazido para a cidade, onde em seu funeral quatro mil pessoas foram assassinadas...".
Garcilaso Inca de la Vega escreveu: "Eles nã o tinham sacrifícios relacionados à carne ou
sangue humano, mas abominavam isso e abominavam o canibalismo. Os historiadores que
disserem o contrário estarã o incorrendo em erro grave".
Atualmente, já se sabe que algumas províncias Quéchua praticavam sacrifícios humanos;
Huaman Poma, entre 1567 e 1615, escreveu que Capacocha era o nome de uma criança
sacrificada com uma ano de idade, enquanto que Cieza de Leon acredita que esse seja o
nome
dado a todos os presentes e oferendas de seus ídolos; Pedro Sarmiento de Gamboa escreveu
que "Capaccocha era a imolaçã o de duas ou mais crianças do sexo masculino ou
feminino".
Supõe-se que os sacrifícios humanos tenham ocorrido nos templos incas mais importantes.
Em 1992, Johann Reinhard informou a respeito de restos de um corpo humano encontrados
em altas montanhas andinas. O padre Cobo escreveu em 1639 que quando os garotos eram
sacrificados, "eles eram estrangulados com uma corda, ou por socos initerruptos e eles eram
queimados; algumas vezes, os incas tornavam-no bê bados, antes de matá-los". Quando os
espanhóis chegaram ao Peru, a reduçã o sistemática dos indígenas e de suas idolatrias
estava
evidente.
Uma das metas principais dos espanhóis era tentar extirpar totalmente os "bruxos" da
religiã o
de Tawantinsuyo. Quando as "Reduções de índios" foram estabelecidas em 1572 por
Viceroy
Toledo, (para alguns peruanos, foi um grande organizador; mas tirano e perverso para
muitos
outros). Os espanhóis se concentraram em quatro esforços quando da conquista das tribos
quéchua: estabelecer o controle ou escravizar os índios, fazer com que os incas pagassem
pesados tributos à Coroa Espanhola, estabelecer o controle moral e alterar a religiã o dos
incas.
A religiã o dos incas, que se caracterizava por animista, começava a ganhar traços
católicos.
Os mais importantes templos incas foram queimados e demolidos. Uma Inquisiçã o foi
instaurada e os sacerdores "Willaq Uma" e "Tarpuntays" foram considerados como
feiticeiros
e, por isso, submetidos à dura lei da Igreja Católica.
Todo o seguidor de seitas ou religiões diferentes do catolicismo era reprimido ou mesmo
assassinado. Entre os colonizadores, haviam pensamentos diferentes sobre os homens
andinos
e sua religiã o. A mais famosa disputa em torno de dados religiosos foi travada entre o
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missionário espanhol e historiador Bartolome de las Casas (1474-1568) e o também
escritor
espanhol Juan Gines de Sepulveda (1490-1573). De las Casas sugeriu a necessidade
imperativa de evangelizar o povo do Novo Mundo, em concordância com os preceitos
cristã os.
Gines de Sepulveda admitiu que o indígena andino teria de ser evangelizado, mas antes
teria
de ser humanizado. Sepulveda queria dizer que o componente de uma das civilizações mais
ricas do mundo devia ser tratada como animal e passar por um processo de humanizaçã o.
Tradicionalmente e oficialmente considera-se a religiã o oficial peruana como sendo a
católica. Como Carmen Bernard diz, "os incas nã o sã o povos fossilizados. Sua imagem é
ainda vívida nas mentes que eram excluídas de todo o poder político. Essa imagem dos
incas é
real para a história ou serve como uma proposta alegórica? Nã o importa. Ela vive nos
corações daqueles a quem o mundo moderno parece ter sido esquecido ou rejeitado..."
Macchu Picchu – A cidadela dos Andes
Durante o início da primeira década do século XX, vários exploradores da América do Sul
procuravam por ouro e outros tesouros da extinta civilizaçã o inca. Hiram Dingham
acabou
descobrindo quase que por acaso, em 1911, uma pequena cidade, no topo dos Andes. Ali,
conta a lenda vivia somente uma família. Era Macchu Picchu, a cidadela perdida dos incas.
Ninguém sabe como e porque Macchu Picchu foi construída. Fincada em um local de
dificílimo acesso, a cidade mais conhecida dos incas desenvolvia papel fundamental no
império Inca. Pensava-se que a construçã o da cidade tivesse sido ordenada pelo Pachacuti
Inca, como uma oferenda real ou divina, pelo ano de 1460. Sua existê ncia era sempre
mantida
em segredo. Após a morte de Pachacuti, o poder foi legado aos seus familiares e a cidade
passou a ser visitada por sacerdotes incas até a invasã o da Espanha. Com a exceçã o
daqueles
que viviam na cidade, poucas pessoas tinham permissã o oficial para transpor os limites e
entrar em Macchu Picchu.
Carcomidos pelas doenças (trazidas pelos europeus), pela guerra civil e outras atrocidades,
os
incas começaram a abandonar a cidade, que ficou esquecida nos últimos dias do Império
Inca.
Alguns historiadores relatam o encontro de Digham com uma única família - mã e e filha
pequena. "A criança tinha rosto tã o lindo, como jamais eu vira", teria dito Digham.
Quando
Manco Tupac começou a guerra contra espanhóis em 1536, poucos incas pensavam que a
cidade poderia ser usada como forte. Tupac e seu exército operaram de muitas montanhas
ao
redor da cidade. Mas a despeito da astúcia de Tupac, os espanhóis tinham pesadas armas.
Manco Tupac e seu exército se debandaram em direçã o à Floresta Amazô nica, onde se
instalaram em Vilcabamba. Este foi o último forte inca. Em pouco tempo, toda a populaçã
o
do Império foi dizimada. Como contam algumas lendas, Capac e Atahualpa levaram o
conhecimento da produçã o de ayahuasca - aya=alma; huasca=vinho (o vinho das almas)
aos
povos indígenas. Atualmente, pelo menos 79 tribos amazô nicas fazem uso da bebida
sagrada
e algumas religiões também a utilizam como instrumento de desenvolvimento espiritual,
como a UDV (Uniã o do Vegetal), Barquinha e o Santo Daime.
Desde a queda de Vilcabamba, a antiga cidade de Macchu Picchu foi deixada abandonada e
esquecida. A própria floresta tomou o cuidado de abraçar as ruínas da cidade e escondê -la
para os próximos séculos. As construções de pedra de Macchu Picchu eram muito bem
feitas -
indicando que a cidade provavelmente tinha importância religiosa. Muitos túmulos
também
foram encontrados próximo ao monte, na floresta. A estrutura da cidade inclui residê ncias,
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templos, jardins, um palácio real e locais para banhos cerimoniais. Cerca de duas mil
pessoas
viviam ali.
Há indícios da existê ncia de uma outra cidade, chamada de Maranpampa pelos
arqueólogos.
Os cientistas trabalham com a hipótese de que Maranpampa esteja oculta em algum local
próximo a Macchu Picchu. Possíveis ruínas dessa cidade teriam sido descobertas em 1986.
A
cidade de Paikhikhin também foi descoberta em 1997 e se localizava na Amazô nia
Brasileira.
Teriam os incas se refugiado em território brasileiro?
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44

Os Mayas
É importante salientarmos que os historiadores não conheceram a Autêntica
Civilização dos Mayas, refiro-me a Civilização Serpentina, ou aos que
viveram em Mayab. Conheceram apenas uma civilização em declínio, já
exposta
e entregue aos Dzules do seu tempo, portanto as informações históricas
precisam ser compreendidas como apenas a visão que os historiadores
tiveram, o que é diferente da realidade.
Os maias nã o chegaram a formar um império unificado. Existiram em diversos centros
praticamente independentes (com alguns costumes em comum), cada um dos quais tendo o
seu crescimento, apogeu e decadê ncia. Isoladas e distantes da influê ncia européia, as
cidades
maias cresceram e sua cultura teve um grande desenvolvimento. A decadê ncia dos maias
aconteceu por volta do século XIII, bem antes da invasã o espanhola, que ocorreu no final
do
século XV. Dentre as culturas pré-colombianas, a dos maias foi a que mais se desenvolveu
em
vários campos: arte, educação, comércio, arquitetura, matemática e astronomia. Como
curiosidades, confira o esporte nacional.
Nestas peças da cultura maya, vemos aspectos interessantes. Homenagens aos Deuses
Mayas
da chuva e um exemplo de suas oferendas.
A sociedade
Tendo em vista a natureza dos documentos analisados pelos arqueólogos nã o é fácil
recompor
em detalhe a organizaçã o da sociedade maia. De qualquer forma, sabe-se que apresentava
grupos sociais com características bem definidas indicando estratificaçã o social.
Os maias dividiam-se em províncias autô nomas que eram verdadeiras cidades-Estado
(como
nos informa Alberto R. Lhuillier). Nelas a maior autoridade era o halach uinic. Ele
desenvolvia funções religiosas e políticas sendo o seu cargo de natureza hereditária.
Os sacerdotes eram responsáveis pelos sacrifícios, faziam oferendas, estudavam
astronomia,
faziam calendários e liam escritos, em suma, concentravam uma grande parcela do poder.
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Eram muito temidos sendo responsáveis pela imposiçã o dos prê mios e castigos e,
principalmente, pela transmissã o das tradições.
Uma espécie de nobreza desfrutava de privilégios, atuava na administraçã o da cidade.
Possuíam terras e supõe-se que nã o pagavam tributos.
Muito abaixo dos sacerdotes estã o os guerreiros, e artesã os que se dedicam à confecçã o
de
uma série de objetos muitos deles de uso ritual. Os comerciantes, se é que existiam como
grupo social, nã o tinham expressã o.
Os camponeses dedicam-se a tarefas mais rudes, ou seja, eram responsáveis pela
agricultura e
pelas construções.
As propriedades comunais, forneciam alimentos para a família dos camponeses e também
para os sacerdotes e nobres. A eles cabia também trabalhar nas construções dos centros
cerimoniais, transportando pedras com as quais erguiam pirâmides, faziam terraços,
campos
de pelota e templos.
Muitos desenhos representam nativos sem que se possa saber com segurança se seriam
sacrificados ou escravizados. "Os cronistas da época da conquista deixaram algumas
informações em seus escritos. Eles informam que a condiçã o de escravo podia ser
resultado
de uma pena (adultério ou homicídio), por nascimento (pais escravos), prisioneiro de
guerra,
órfã o destinado ao sacrifício pelo seu tutor ou ter sido comprado por um comerciante."
A civilizaçã o maia passou por tantos períodos, por tantas transformações; sofreu
inúmeras
interferê ncias de outras tradições indígenas, que fica difícil pensar nã o ter sofrido a
sociedade
maia grandes alterações na sua forma de organizaçã o social. Acredita-se, por exemplo,
que
num primeiro momento da vida em Tikal, as tarefas eram distribuídas de maneira pouco
rígida permitindo mobilidade entre os afazeres necessários à vida do grupo.
Provavelmente em Chichén Itzá na sua fase marcada pela presença tolteca a situaçã o
tenha
sido diferente, a sociedade bem mais estratificada e, provavelmente, com menor
mobilidade.
A Pirâmide de Chiché n Itzá :
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Essa Pirâmide possui uma grande simbologia Esotérica, com seus nove degraus principais
e
sua escadaria lateral que funcionava também como calendário.
Costumes e vestuá rio
A roupa dos sacerdotes era rica. Usavam peles de jaguar, mantos vermelhos, plumas e
adornos incrustados com jade.
O uso do ornamento era tã o freqüente, que entre a nobreza era costume o uso de pedras
semipreciososas
nos dentes.
As Cidades
Os maias habitaram uma área que compreende hoje parte do México (os estados de
Yucatán,
Campeche, Tabasco e Chiapas), a Guatemala e Honduras. Calcula-se que 15 milhões de
habitantes viviam em uma área de aproximadamente 325 000 quilô metros quadrados
tendo
como eixo a península de Yucatán.
A regiã o é comumente dividida em: Terras Altas (Guatemala e faixa úmida do Pacífico
até El
Salvador) e Terras Baixas que se dividem em Terras Baixas do Sul (Tabasco no golfo do
México, Honduras no litoral do Caribe), tendo como expoente em Petén, onde se
concentraram o mundo Maya e as Terras Baixas do Norte que correspondem à península
do
Yucatán.
As primeiras aldeias em território maia datam de de 1500 a.C. Nas regiões de Chiapas e
Guatemala encontramos uma cerâmica rica em ornamentaçã o. Mas é por volta de 800
a.C.
que vemos um povoamento mais intenso nas Terras Baixas.
A cerâmica em Petén data de 800-600 a.C indicando que o homem dominara uma natureza
adversa e criara condições para se estabelecer nesta regiã o. No ano 600 a.C., pelo que
indicam
as escavações, Tikal é povoado. Ali, em 200 a.C. desenvolver-se-á a construçã o de um
grande
centro cerimonial. Ele sofrerá alterações durante 10 ou 12 séculos até transformar-se na
maior
cidade da área maia.
A importância de Tikal é grande em funçã o das modificações que ocorreram. Elas
indicam o
surgimento de um estilo regional, qualificado como maia, e que influirá nas Terras Baixas.
Tikal é uma cidade totalmente envolvida pela floresta tropical, exemplo de cidade maia.
Teve
grande florescimento entre 435 e 830. A área central da cidade possuía por volta de 3000
construções. Templos, palácios, campos para jogos de bola e banhos a vapor foram
algumas
das funções reconhecidas pelos arqueólogos para as construções escavadas. Encontraram-
se
também centenas de túmulos contendo oferendas, cisternas e lugares para guardar víveres.
Dentre os objetos achados, vale a pena destacar a obsidiana esverdeada, típico artigo de
exportaçã o de Teotihuacan, que nã o existia na área maia.
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Para termos uma idéia do porte de algumas construções, vale a pena citar como exemplo o
templo IV construído por volta de 741 com 72 metros de altura. Quanto às construções
civis,
a disposiçã o era diferente: trê s ou quatro quartos seguidos e a luz só entrava pela porta.
A
cozinha ficava fora, em uma espécie de alpendre e pelo desconforto dessas peças muito
escuras imagina-se que grande parte das atividades eram realizadas externamente.
Em Tikal notam-se bem confluê ncias culturais. Um dos seus soberanos "Céu tormentoso"
(426-456), soube expressar muito bem a aproximaçã o cultural fazendo-se desenhar (na
estela
31 de Tikal) com dois guerreiros mexicanos em cujos escudos podia-se ver Tláloc (deus
mexicano), ao mesmo tempo em que ele usava roupas tipicamente maias.
A estrutura urbana da cidade de Tikal é importante de ser compreendida na medida em que
estará presente em outras cidades. Como nos lembra um importante estudioso das cidades
indígenas, Jorge Hardoy, "seu aspecto nã o é ordenado como de Teotihuacán, mas seus
construtores criaram efeitos atraentes edificando "largos calçadões que desembocavam
quase
que invariavelmente em uma praça que garantia uma perspectiva majestosa".
Quando Tikal entra em declínio florescerã o outras cidades como Palenque, Copán,
Piedras
Negras, Uxmal, Chichén Itzá, etc., cada qual apresentando sua marca específica.
Nas Terras Baixas, Piedras Negras é um espaço onde podemos contemplar em detalhe a
arte
maia. Sã o 7 200 monumentos produzidos ao logo de 200 anos (608-810), onde uma série
de
relevos nos permite conhecer um pouco mais dessas culturas.
Uma das cenas representadas nesses relevos, por exemplo, é uma reuniã o do conselho.
"Diante de jovens nobres e de membros das famílias reinantes, um grupo de dignitários
está
sentado no solo, enquanto, do alto de um trono ricamente ornamentado, em cujo rebordo
apóia sua mã o, o príncipe se inclina em direçã o aos mais idosos de seus conselheiros".
Palenque é uma cidade localizada na serra de Chiapas. Sua arquitetura e escultura sã o
surpreendentes. Por exemplo: a água que chega até a cidade foi canalizada em alguns
lugares
através de aquedutos subterrâneos. Embora algumas soluções possam surpreender, nã o
devemos olhar isoladamente cada um dos elementos arquitetô nicos desta cidade.
A renovaçã o está presente no aspecto geral da cidade no que se refere à em leveza e
harmonia
de proporções.
Como conseguiram leveza arquitetô nica nas construções? Aumentar os espaços interiores,
e
criando aberturas em forma de "T", que permitiram a entrada de luz. Entre as construções
importantes vale a pena mencionar o chamado "palácio" com sua torre de observaçã o, o
templo das Inscrições e o mais fantástico túmulo real conhecido no mundo maia.
Copán ao lado de Tikal e Palenque compõem os maiores expoentes da civilizaçã o maia,
reunindo os elementos culturais que sã o o seu cerne: arquitetura e escultura. Do ponto de
vista
científico, coube a Copán o mais perfeito domínio da astronomia.
O calendário maia elaborado em Copán pelos seus astrô nomos é de uma precisã o
admirável,
superando os calendários europeus produzidos na mesma época. Em Copán realizavam-se
reuniões de astrô nomos vindos de regiæes distantes. Este é o ponto alto da cultura maia.
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Em torno da precisã o do calendário maia poderemos fazer inúmeras perguntas. Por
exemplo:
como elaboraram cálculos tã o gigantescos e complexos? Como desenvolveram em tã o
alto
nível o conhecimento matemático necessário à astronomia? Poderemos saber o grau de
precisã o dos maias ao construir o calendário, mas nã o podemos demonstrar os caminhos
seguidos para chegar até ele.
Em suma, cidades como Tikal, Cópan, Quiriguá, Pedras Negras, Uaxactum, Palenque,
Yaxchilan, situadas no sul do México, Guatemala e Honduras, caracterizam a regiã o maia
marcada pela presença de grandes centros urbanos.
Feitas estas observações de caráter mais geral podemos penetrar no universo maia
analisando
suas formas de organizaçã o social, política e religiosa.
O declínio da cultura maia (Já degenerada)
Por volta de 800 d.C., por motivos ignorados as civilizações das planícies do sul irã o
desaparecer. Só sobreviverã o os maias do norte do Yucatán. Provavelmente catástrofes
como
secas ou inundações, terremotos ou epidemias tenham alterado o tê nue equilíbrio
responsável
pela produçã o de alimentos necessários ao abastecimento da regiã o.
As guerras entre grupos ou mesmo migrações também podem ter desorganizado o
equilíbrio
das populações estabelecidas nas Terras Baixas. Mas, entre as hipóteses, a mais
extravagante
(mas possível) de todas diz respeito à auto-destruiçã o. Os sacerdotes prisioneiros de uma
visã o fatalista do mundo, construíram a partir dos astros o fim da própria cultura. Ou seja,
prevendo o fracasso, conduziram a história de suas cidades para essa direçã o.
Chichén Itza, Uxmal e Mayapán haviam formado uma aliança para manter o domínio da
península. Mas, no início do século XIII com a queda de Chichén Itzá, termina o ciclo da
cultura maia.
Da cultura maia restará apenas o cálculo curto e parte da tradiçã o mantida através da
repetiçã o
oral. Os livros de Chilam Balam recolherã o algumas profecias embora muito da cultura
maia,
embora suas formas diferenciadas de expressã o, tenha se perdido no seu declínio.
Alguns pequenos grupos dos descendentes índios, que formavam esses Estados decadentes,
sobreviverã o embora mantendo-se isolados. Mas, o que de fato ocorreu com relaçã o a
essa
área foi um processo de mexicanizaçã o, onde as marcas culturais passaram a ser impostas
pelos astecas e chichimecas.
A conquista espanhola
Os maias viviam um período de franco declínio quando os espanhóis chegaram à
América.
Por volta de 7 séculos antes da chegada dos conquistadores das cidades maias foram
abandonadas e invadidas pela floresta grande parte tropical fenecendo parcela significativa
da
cultura de que os maias eram depositários.
Na península do Yucatán e Guatemala os espanhóis entraram em contato com alguns
sobreviventes de uma cultura em decadê ncia. Aliás, como nos lembra o grande
antropólogo
Miguel Léon Portilla, em 1511, ou seja, 11 anos antes de Cortés iniciar sua expediçã o
para
conquistar a cidade do México (Tenochititlan) uma caravela encalhou e seus dois
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sobreviventes chegaram às costas do Yucatán. Um deles de nome Gonzalo Guerrero casou
com uma índia optando por viver entre os maias e o outro Jerô nimo de Aguilar
vinculando-se
mais tarde à expediçã o de Cortés servirá como interprete entre Cortés e sua "amante"
índia
Malinche.
A conquista do Yucatán, de fato, só terá início em 1527 sendo concluída em 1546. Foi
feita
por 300 homens acompanhados dos tlaxcaltecas. Durante esses anos, foram submetidas as
populações de cakchiqueles, quichés, tzutujiles, entre outros. Vale a pena notar que os
quichés
tentaram se opor ao domínio espanhol, mas foram derrotados e massacrados.
Assim como os astecas referem-se a presságios funestos os maias também possuem textos
proféticos. Os textos maias sobre a conquista referem-se às profecias, especialmente os
livros
de Chilam Balam de Chumayel , de Tizimín e de Maní.
Os testemunhos indígenas sobre as conquistas do Yucatán estã o em grande parte incluídos
nos livros de Chilam Balam.
A memó ria da conquista
Sã o poucos os documentos indígenas que sobreviveram à conquista. A cristianizaçã o da
América fez-se acompanhar de um grande esforço para eliminar todo material que pudesse
favorecer manifestações idolátricas.
Restaram apenas trê s livros produzidos pelos indígenas antes da conquista. Os outros
livros
que se referem à cultura maia e, entre eles, os chamados livros de Chilam Balam, sã o
adaptações que os padres fizeram à língua maia do Yucatán, descrevendo antigos
costumes
indígenas e a confluê ncia entre a cultura indígena e a cultura espanhola.
Os temas tratados nos livros sã o de diversas naturezas: 1. textos de caráter religioso 2.
textos
de caráter histórico, tendo em vista as cronologias maias 3. textos astrológicos 4. Rituais 5.
medicinais e, também, 6. novelas espanholas escritas em língua indígena.
Devo confessar, leitor, que enquanto escrevia sobre o passado pré-colombiano uma
profecia
de Chilam Balam voltava sempre à minha mente. Parecia a voz da consciê ncia exigindo
que
uma última mensagem fosse escrita.
Obedeci à ordem deixando para vocês desvendarem este último mistério:
" No hay verdad en las palavras de los extranjeros"
(Profecia de Chilam Balam, que era cantor na antiga Maní)
A língua maia
Sã o inúmeros os dialetos falados na área correspondente ao Yucatán, Guatemala, El
Salvador
e Belize. De qualquer forma, os lingüistas dividem-nos em dois grandes ramos: o huasteca
eo
maia. Este segundo ramo se subdividiu em outras línguas (como o Chol, Chintal, Mopan,
etc).
A língua maia, falada no Yucatán, sofreu inúmeras transformações com as invasões
toltecas e
também devido às influê ncia da língua nahuatl falada pelos astecas.
Em seus monumentos deixaram uma série de inscrições que até hoje nã o foram
decifradas.
Infelizmente muitos documentos maias foram destruídos chegando até nós apenas trê s
livros.
Sã o eles o Códice de Dresde, o Códice de Madri e o Códice de Paris.
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Os livros maias eram confeccionados em uma única folha que era dobrada como uma
sanfona.
O papel era feito com uma fibra vegetal coberta por uma fina camada de cal. O conteúdo
desses livros sã o de natureza calendárica e ritual, servindo para adivinhações.
Um dos cronista que viveu na época da conquista, o Bispo Diego de Landa, refere-se aos
livros que os maias utilizavam permitindo-lhes saber o que havia sucedido há muitos anos.
Portanto, a escrita representava um elemento importante na preservaçã o de suas tradições
culturais. Mas, infelizmente grande parte deles foram destruídos como se pode constatar na
afirmaçã o do próprio bispo:
"...Encontramos um grande número de livros escritos nesses caracteres, e
como nada tivesse a não ser flagrantes superstições e mentiras do
demônio,
nós os queimamos a todos".
Atividades agrícolas e comerciais
Os Maias cultivavam o milho (trê s espécies), algodã o, tomate, cacau, batata e frutas.
Domesticaram o peru e a abelha que serviam para enriquecer sua dieta, à qual somavam
também a caça e a pesca.
É importante observar que por serem os recursos naturais escassos nã o lhes garantindo o
excedente que necessitavam a tendê ncia foi desenvolverem técnicas agrícolas, como
terraços,
por exemplo, para vencer a erosã o. Os pântanos foram drenados para se obter condições
adequadas ao plantio.
Ao lado desses progressos técnicos, observamos que o cultivo de milho se prendia ao uso
das
queimadas. Durante os meses da seca, limpavam o terreno, deixando apenas as árvores
mais
frondosas. Em seguida, ateavam fogo para limpá-lo deixando o campo em condições de
ser
semeado. Com um bastã o faziam buracos onde se colocavam as sementes.
Dada a forma com que era realizado o cultivo a produçã o se mantinha por apenas dois ou
trê s
anos consecutivos.
Com o desgaste certo do solo, o agricultor era obrigado a procurar novas terras. Ainda hoje
a
técnica da queimada, apesar de prejudicar o solo, é utilizada em diversas regiões do
continente americano.
As Terras Baixas concentraram uma populaçã o densa em áreas pouco férteis. Com
produçã o
pequena para as necessidades da populaçã o, foi necessário nã o apenas inovar em termos
de
técnicas agrícolas, como também importar de outras regiões produtos como o milho, por
exemplo.
O comércio era dinamizado com produtos como o jade, plumas, tecidos, cerâmicas, mel,
cacau e escravos, através das estradas ou de canoas.
A arquitetura e o urbanismo
As pirâmides em geral estavam cobertas de vegetaçã o sendo necessário que os
arqueólogos
abrissem clareiras para restaurá-las. Ao estudá-las descobriram que as primeiras pirâmides
recobriam outras pirâmides. Esse costume de recobrir uma construçã o com outra corria
também com relaçã o aos pisos.
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As casas construídas em grupo eram cobertas de sapé e sempre estavam próximas de
plantações de milho.
Inúmeros caminhos faziam a ligaçã o entre as casas e um templo que poderia ser de
pequenas
dimensões. Em dias determinados, a populaçã o daquela regiã o se encontrava para trocar
produtos, fazer oferendas, e participar de cerimô nias religiosas.
Os caminhos eram movimentados por homens que carregavam milho e outros produtos que
poderiam ser trocados nas cidades. Mas o tráfico mais complicado era o de pedras
necessárias
as construções.
Nos inúmeros templos os sacerdotes realizavam cultos ligados à fertilidade do solo. Os
centros rituais de maior importância eram muito freqüentados tanto por jovens que iriam
ser
sacerdotes, como por artífices que construíam monumentos, produziam cerâmica e teciam.
A vida dos maias era ritualizada e, neste sentido, é difícil separar o político e o econô mico
do
religioso. Os rituais eram organizadores do cotidiano, da guerra e dos sacrifícios. Os maias
sempre estavam preocupados com a presença dos seus deuses.
Você pode perguntar, leitor, como sabemos da importância dos rituais. Em primeiro lugar,
a
presença marcante de inúmeros centros cerimoniais é um forte indício. Ou seja, a freqüê
ncia,
as dimensões e a localizaçã o desses centros sã o bastante significativas da importância
que
possuíam na vida daquela populaçã o. E, em segundo lugar, as pinturas murais, esculturas
e
decorações de vasos elucidam muitas questões sobre a vida dos antigos maias.
O calendá rio
A precisã o do calendário maia é muito grande, e que nos conduz a uma reflexã o sobre
conhecimento científico propriamente dito.
O ponto de partida, sem dúvida alguma, sã o as estações do ano responsáveis pelo ciclo
da
vida. E, como tais alterações estã o vinculadas a fenô menos celestes, os astrô nomos
maias
passaram a especular o cosmo. Através de investigações puderam conhecer o movimento
dos
astros montando dois calendários: um de significado ritual de 260 dias dividido em 13
grupos
de 20 dias e um calendário solar de 365 dias com 18 grupos de 20 dias mais cinco dias.
Os dois calendários acabavam por se encontrar a cada 52 anos quando começava um outro
ciclo. A estes dados acrescentaram outros referentes a Vê nus, as fases lunares e eclipses
conseguindo com todo esse esforço, cálculos bastante precisos.
Para construir todo este quadro de reflexã o eram indispensáveis os cálculos. E, para
realizálos,
produziram um sistema numérico. Assim, os maias conceberam um sistema que tinha
como base 20. Os símbolos utilizados eram uma barra para indicar 5, um ponto para indicar
a
unidade e uma espécie de concha alongada para indicar o zero.
As inscrições glíficas que dizem respeito a números foram interpretadas faltando ser
decifrado
o "glifo-emblema". Provavelmente caracteres gravados referem-se a certas festas e
profecias
relacionadas com as datas, as quais se constituem em presença constante nos monumentos.
Todo esse universo lógico marcado pelos cálculos se fazia acompanhar por uma leitura do
"horóscopo". De acordo com a data do nascimento, era previsto o "destino" do recém-
nascido.
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Se o dia nã o era de bom agouro, cabia ao sacerdote encontrar maneiras de ultrapassar
aquela
dificuldade. Neste sentido, o sacerdote possuía a chave do tempo com a qual construiu uma
filosofia fatalista. O mundo podia ser destruído porque seria recomposto mantendo-se assim
uma perspectiva cíclica que marcava o ritmo da história.
Cronologia
O interesse em confeccionar um calendário vinculava-se também a uma necessidade de
definir datas.
Todos os acontecimentos que lhes pareciam importantes tinham suas datas fixadas em
relevo
numa pedra. Apesar desta preocupaçã o constante com a cronologia predominava entre os
maias a busca infindável de suas origens míticas que se sobrepunha à realidade.
Evidentemente, os arqueólogos, preocupados em datar objetos e culturas, tentaram
estabelecer
uma relaçã o entre a cronologia maia e a cronologia cristã . As conclusões sã o
discutíveis.
Neste sentido, para nã o nos confundirmos, é melhor tomar a data de 2 500 a.C. como uma
data inicial a partir da qual se iniciaria a longa trajetória dos maias. Esse pressuposto é
apenas
uma hipótese didática e nã o possui comprovaçã o prática.
Esporte Nacional
O jogo de pelota (pok ta pok), praticado por todas as
civilizações pré-colombianas, era o esporte nacional
maia, como provam as quadras construídas para esse fim.
Para esse povo, o jogo tinha caráter sagrado e cósmico,
simbolizando a luta da luz contra as sombras, através de
seus deuses, e o movimento dos astros no firmamento.
Em um campo retangular de 70m de largura por 168m de
comprimento, catorze jogadores arremessavam uma
pesada bola de borracha através de anéis de pedra,
fixados nos dois lados do campo. A bola só podia ser
movimentada com a cabeça, braços e pernas, sendo
proibido o toque de mã os.
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53

Vocabulá rio
Das palavras Mayas empregadas nos livros segundo e terceiro (“O Vôo da Serpente
Emplumada”).
AHAU - Deus, homem divino, rei, “Deus-Rei”, “Grande Senhor”.
BALCHE - Bebida que se extrai de uma arvore em Yucatán e que se fermenta. Também
significa árvore escondida.
CENOTE - Poço de água subterrânea. O Cenote Sagrado existiu em Chichen Itzá e era
lugar
de cerimô nias místicas.
COZUMIL - Pequena ilha de frente a Península de Yucatán que significa “Terra das
Andorinhas”. Atualmente se chama Cozumil. Esta ilha foi indubitavelmente a sede de um
seminário ou escola esotérica da cultura Maya.
DZULES - Senhores; este nome se deu aos espanhóis nos primeiros tempos da conquista.
KATUN - Época ou período da cronologia Maya. Pequeno século Maya, de 20 anos de
360
dias.
KUKULCAN - Grande instrutor divino, ‘Serpente com Plumas’ equivalente ao
Quetzalcoatl
Nahoa.
MANI - “Tudo passou”. Também é o nome de uma famosa cidade Maya que nos tempos
da
conquista foi sede dos Reis Xiu e o último refúgio da civilizaçã o Maya e de sua cultura
religiosa.
PAUAH - “Os que distribuem ou dispersam o jorro da vida”. Quatro espíritos celestiais.
TZICBENTHAN - “Palavra que há de obedecer”.
SAC-NICTÉ - Branca Flor.
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MITOLOGIA JAPONESA
Criação da terra. O mito de Izanagui e Izanami
A mitologia japonesa relata que a apariçã o do gê nero humano na terra se deu sob forma
divina. No princípio tudo nã o passava de uma massa viscosa e indistinta no oceano. Deste
mar surgiu algo semelhante a um broto de junco e desabrochou. Deste surgiu uma
divindade.
Simultaneamente, duas outras criaturas divinas, masculina e feminina, emergiram. Pouco se
comenta sobre o trio original, mas gerou deuses e deusas na terra celestial. Após um
período
incontável de tempo, surgiu o par de energia divina Izanagui e Izanami.
Certa ocasiã o, os deuses deram a Izanagui uma lança enfeitada e confiaram-lhe a tarefa de
criar o Japã o. O casal desceu de Takama no Hara (Planície Celeste) por "uma Ponte
Lançada
do Céu" (Ama no Hashi Date) – geralmente associada ao arco-íris. Pararam no meio dela
para
observar a terra viscosa lá embaixo. Do alto da ponte, o jovem Izanagui mergulhou sua
arma
divina dentro da viscosidade flutuante, "agitando em forma de círculo, e ao retirar, deixou
respingar da ponta gotas salgadas que caíram da lança e, sobrepondo-se, se cristalizaram
formando ilhas. Vendo as ilhas que acabaram de criar, Izanagui e Izanami atravessaram o
Ama no Hashi Date (Ponte Lançada do Céu), e desceram para lá, onde fizeram um acordo
entre si, eregindo o "Augusto Pilar Celeste" na ilha de Ono Koro, para criar mais ilhas e
assim, deram origem ao arquipélago japonê s. O capítulo 6 do Kojiki descreve várias
ilhas:
"Assim a terra de Iyo foi denominada Ehime". A primeira ilha que o casal divino deu à luz
foi
awaji, e, em seguida, a ilha de Shikoku.
Izanagui e Izanami casaram-se e aprenderam a arte de fazer amor olhando um par de garças
(tsuru) em acasalamento. Estas aves brancas sã o ainda relacionadas à uniã o e mesmo o
deus
Espantalho nã o pode assustá-las, já que foram abençoadas na criaçã o.
Entre a descendê ncia de Izanagi e Izanami estã o marcos geográficos, como deus das
Cachoeiras, deus das Montanhas (Ôyama Tsukimi no Kami), deus do Fogo (Watatsumi no
Kami) Espírito das Á rvores, deus das Ervas, deus dos Ventos, além dos espíritos de todas
as
ilhas japonesas (Dai Yashimagumi). O deus dos Ventos foi responsável pela criaçã o de
muitas
ilhas, pois era ele que dissipava névoa densa e revelava regiões desconhecidas.
O primeiro filho do casal foi abortado, supostamente por causa de uma ofensa da parte de
Izanami à cerimô nia de casamento e a criatura semelhante a um peixe-geléia foi colocado
no
mar. Todos os outros filhos sobreviveram.
ORIGEM DA VIDA E MORTE NA TERRA – O último filho do casal a nascer, após uma
sucessã o de ilhas terem sido formadas e povoadas, provocou a morte da mã e. Era o deus
do
Fogo (Watatsumi no Kami). Izanami adoeceu com febre ardente e acabou morrendo. Para
apaziguar seu espírito, os homens construíram um altar e ofereceram flores (conforme os
adeptos do shintô estaria aí a origem do ikebana).
Izanami morre e parte para Yomi, o mundo dos mortos. O deus Izanagui, cheio de desgosto,
vai visitá-la. A deusa falecida nã o quer que ninguém veja como perdeu a beleza, dando
mostras de vaidade feminina. Mas, apesar de suas súplicas, Izanagui acende uma tocha,
olha
para ela, fica assustado com o estado de decomposiçã o de seu corpo e foge. Ofendida com
a
reaçã o de seu esposo, Izanami e outras criaturas da terra dos mortos perseguem Izanagui,
mas
ele consegue escapar, atirando para trás trê s objetos, que se transformam em outras coisas.
Ele
entã o coloca uma grande pedra bloqueando a passagem da caverna no local denominado
Yomotsu Hirasaka.
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Do lado de dentro, Izanami lançou aos gritos uma maldiçã o: –"Oh! Meu adorado esposo,
se
você age assim, eu a cada dia estrangularei mil habitantes de seu país". Izanagui entã o
respondeu que faria nascer 1.500 pessoas diariamente.
Izanagui manteve sua palavra e depois submeteu-se a um ritual de purificaçã o (Mizogui)
para
se livrar dos efeitos de sua descida ao Mundo dos Mortos (Anoyomi). Enquanto purificava
se
lavando, gerou várias divindades. As mais importantes delas sã o: Amaterassu Omikami, a
Augusta Deusa Sol, que nasceu enquanto ele lavava o olho esquerdo; Tsukiyomi no
Mikoto, o
deus Lua, na lavagem do olho direito; e Takehaya Suzano-o no Mikoto, o deus Tempestade,
enquanto ele lavava o nariz. Estas divindades sã o as chamadas "filhos nobres", a quem ele
escolheu para reinar, respectivamente: a Amaterassu coube Takama no Hara (Alta Planície
Celeste), a Tsukiyomi foi dado governar Yoru no Ossukuni (País do Reinado da Noite) e
para
Suzano-o, Una Hara (Planície Marinha).
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